A povoação e o tráfico de escravos

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Formação de uma cidade afro-atlântica: Luanda no século XVII

  A historiografia sobre a África Centro-Ocidental, em geral, e Angola, em particular, cresceu muito nas últimas décadas, mas tem-se centrado essencialmente sobre as questões do tráfico de 2 escravos e das consequências culturais da diáspora e tem privilegiado o século XVIII . A povoação e o tráfico de escravos 4 A povoação que viria a ser a cidade de Luanda foi fundada em 1575 pelo capitão-donatário Paulo Dias de Novais, primeiro governador português de Angola (1575-1589).

5 Angola”

Novais e as centenas de homens de armas e algumas dezenas de oficiais de vários ofícios que o2 acompanhavam começaram por fixar-se na ilha de Luanda, habitada pelos axiluanda (sing. muxiluanda), MILLER, 1988; COUTO, 1972; CURTO e GERVAIS, 2001; PANTOJA, 1994 e 2004; VENÂNCIO, 1984 e 1996; FERREIRA, 2003, 2007 e 2012; CURTO, 2004; ALENCASTRO, 2000; HEYWOOD (ed.)., 2002; THORNTON e

HEYWOOD, 2007; SWEET, 2003

  As razões da escolha parecem óbvias: o monte oferecia boas condições de defesa contra eventuais ataques vindos de terra ou de mar e,sobranceiro à baía, permitia um razoável controlo sobre o porto onde ancorava ainda a maior parte da armada, porto que se pretendia viesse a ser um ativo polo de exportação de mão de obra. Dessa forma, a cidade vai desenvolver-se como base administrativa e militar da penetração para o interior e, sobretudo, como plataforma comercial no negócio de mercadoria humana, ficandoesta a grande distância das madeiras e do marfim, os dois outros “produtos” com saída para o exterior.

9 Na costa ocidental africana, Luanda iria ser, durante mais de dois séculos, um dos mais movimentados

  centros de exportação de escravizados, com destino ao Brasil e à América Espanhola. Primeiramente era só designada São Paulo, depois São Paulo da Assunção do Reino de Angola ou São Paulo de Assunção de Luanda, por fim apenas Luanda, mas todos esses nomes podem coexistir notempo.

10 A Trans-Atlantic Slave Trade Database , que reune um prodigioso volume de informação sobre o

  Podemos, sem grande margem de erro, calcular que, durante a maior parte do século, saiu do porto de Luanda em direção às Américas uma média anual de 10 mil a 15 mil escravizados, havendo,naturalmente oscilações provocadas pelas conjunturas políticas, como a da ocupação holandesa de1641-1648. No último quartel do século, com a concorrência de outros portos, sobretudo de Benguela e do Loango, e o cansaço dos mercados abastecedores, esse quantitativo desceu para os cinco ou seis milescravizados.

c. 1640 15.000 (8)

  É porém evidente que as duas iniciativas se inserem numa estratégia de atração depopulação europeia, de modo a assegurar o regular funcionamento do comércio de escravos (única atividade económica compensadora para a Coroa) e a garantir a solidez da retaguarda e a reservaestratégica indispensável às guerras de conquista que se desenrolavam no “sertão”. É o caso de Francisco da 40 Mata Falcão, que foi capitão da guerra preta e depois capitão-mor e veio a receber também o hábito 41 e o título de cavaleiro da Ordem de Santiago , sendo filho adulterino (o pai era casado) de Antão daMata Falcão e, dizia ele, de uma gentia (maneira de provar que era livre).

42 Domingos Lopes Sequeira e de uma negra livre

  Em 1692, em carta para o governador, a corte de Lisboa considerava “terem muitos vícios” os capelães “pardos e 46 naturais do Reino [de Angola]” , preconceito que levou a que o bispo chegasse a ser proibido de 47 48 ordenar novos sacerdotes mestiços , aparentemente apenas dos que eram filhos ilegítimos , que eram a maioria, o que provocou uma grande diminuição no clero do sertão. 293-294.44 Carta de Baltasar Rebelo de Aragão, 1618 (BRÁSIO,VI, p. 342).45 Carta de Fernão de Sousa a el-rei, 28 de setembro de1624 (BRÁSIO, VII, p.

52 Ambuíla (Mbwila) . E, em 1665, na batalha do mesmo nome, há vários mestiços combatendo no

  Os escravos domésticos tinham uma situação paradoxal: embora pudessem ser os que gozavam de melhores condições de vida e de maiores possibilidades de vir a ser alforriados, eram também osque dispunham de menor autonomia e estavam mais sujeitos às arbitrariedades dos proprietários, que podiam raiar a desumanidade. Por tudo isso, os “escravos casados” que tinham filhas menores viam com desconfiança que os proprietários as quisessem levar para o serviço da casa: “E, assim dos arimos como das senzalas tirammolecas para o serviço de suas casas de portas adentro (...) ainda que para estas ocupações as não 85 tiram os pais com boa vontade de si” .

86 Lombo

  Fazendo-se acompanhar por um corpo de carregadores, 89 transportavam, em arriscadas viagens , as mercadorias que lhes eram confiadas e se alguns não 90 resistiam à tentação de fugir com elas , a maioria cumpria com probidade a missão a que se comprometera, trazendo para Luanda, em longas filas, os escravos que eram a principal fonte de 91 rendimento dos seus proprietários . No que se refere à alimentação, produtos de origem americana, que cedo se tinham “africanizado”, como amandioca e o milho maiz, acabaram por fazer parte da alimentação tanto de africanos como de europeus, o mesmo acontecendo com os milhos locais, a banana e o azeite dendém, apesar daresistência inicial dos recém-chegados à introdução de novidades na sua dieta tradicional.

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