LEGISLATIVO SANTA-MARIENSE DURANTE A IMPLEMENTAÇÃO DO AI5

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ÁREA DAS HUMANAS CURSO DE HISTÓRIA

JOÃO RICARDO MEDEIROS LONDERO

LEGISLATIVO SANTA-MARIENSE DURANTE A IMPLEMENTAÇÃO DO AI5

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ÁREA DAS CIÊNCIAS HUMANAS CURSO DE HISTÓRIA

LEGISLATIVO SANTA-MARIENSE DURANTE A IMPLEMENTAÇÃO DO AI5

Elaborado por

João Ricardo Medeiros Londero

Como requisito parcial para obtenção do grau de

Licenciado em História

COMISSÃO EXAMINADORA:

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Leonardo Guedes Henn (Presidente/Orientador)

_________________________

Carlos Roberto da Rosa Rangel, Dr. (UNIFRA)

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Genivaldo Gonçalves Pinto, Me. (UNIFRA)

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JOÃO RICARDO MEDEIROS LONDERO

LEGISLATIVO SANTA-MARIENSE DURANTE A IMPLEMENTAÇÃO DO AI5

Trabalho Final de Graduação, no curso de licenciatura em História do Centro Universitário Franciscano – UNIFRA.

Orientador: Leonardo Guedes Henn

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AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a Deus pela força e pela determinação que me concedeste e também a todas as pessoas que estiveram sempre do meu lado, tanto nas horas fáceis como também nas difíceis e que não foram poucas essas horas.

Agradeço a minha família pelo apoio e pela contribuição que me deste, principalmente minha querida mãe. Agradeço ao meu orientador Leonardo Guedes Henn e a “galera do sindicato”, Matheus Pinto (Butiá), Guilherme Calovi (calóvis), Thiago Aguiar (Batata), Alessander Bastos (Chico), Victoria Borges (Vicky), que me deram total apoio, pois quando precisava dos amigos estavam sempre a disposição para ajudar no que fosse possível.

Quero dar um grande destaque ao meu grande amigo de fé meu irmão camarada, Butiá que sempre esteve auxiliando no que fosse preciso, tanto com suas idas ao jornal A Razão, como nas correções e ideias referentes ao trabalho, pois devido à distância da família foi um irmão quando precisei.

Também agradeço a uma pessoa muito importante e especial em minha vida Fabiane Chiapinoto, pois esteve sempre ao meu lado, fazendo o impossível para dar sua parcela de contribuição, quando o cerco apertava, o desânimo batia e a “cobra fumava” estava pronta para ajudar, é uma companheira, uma amiga e uma excelente pessoa e merece total agradecimento nesse trabalho.

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Resumo

O trabalho procura abordar assuntos referentes ao poder legislativo de Santa Maria perante o ato institucional número 5, entendendo como os vereadores de Santa Maria reagiram perante esse ato, que marcou o fim da primeira fase de institucionalização do estado de segurança nacional, na qual os partidos políticos foram seriamente enfraquecidos por sucessivos expurgos. Relatar o contexto político da cidade e os conflitos existentes entre os vereadores conforme suas posições políticas diante do governo civil-militar, bem como analisar como se deu o desenvolvimento dos debates parlamentares na câmara de vereadores de Santa Maria na época do AI-5. Para embasar a pesquisa foram analisadas as Atas da Câmara Municipal de Vereadores e reportagens do Jornal As Razões referentes ao período estudado, pois só assim entenderemos o cenário que vivia a sociedade santa-mariense, diante de Atos institucionais que legitimaram o poder para cumprir as metas propostas do modelo político que havia se instalado no Brasil.

Palavras-chave: Santa Maria. Ato Institucional. Vereadores. político.

Abstract

The work seeks to address issues related to the legislature of Santa Maria before the Institutional Act No. 5, understanding how the councilors of Santa Maria reacted against this act, which marked the end of the first phase of institutionalization of the national security state, in which the parties politicians were seriously weakened by successive purges. Report the political context of the city and the conflicts between councilors as their political positions before the civilian government and military, as well as analyzing how was the development of parliamentary debates in the city council of Santa Maria at the time of AI-5. To support the research analyzed the Proceedings of the Town Hall and council reports the Journal Reason for the period studied, because only then we will understand the scenario that society lived Santa-mariense, before Acts that legitimized institutional power to accomplish the goals proposed model politician who had settled in Brazil.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ...7

1. A DITADURA CIVIL MILITAR (1964-1985) ... Erro! Indicador não definido.1

2. O ANO DE 1968 NO MUNDO... Erro! Indicador não definido.7

3. O ANO DE 1968 NO BRASIL/AI-5 ... 20

4. O LEGISLATIVO E A IMPRENSA SANTA-MARIENSE DIANTE DO AI-5 . 23

4.1. A Câmara de Vereadores de Santa Maria ... 25 4.2. Debates Políticos na Câmara de Vereadores e na Imprensa de Santa Maria na Época do AI-5 ... Erro! Indicador não definido.7

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 36

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INTRODUÇÃO

Os anos 70 ficaram marcados pelo desencadeamento de inúmeros golpes de Estado e pela predominância da presença militar no cenário político de diversos países da América Latina, entre eles o Brasil. No caso brasileiro, especificamente, muito embora alguns queiram delimitar a entrada dos militares no processo político apenas a partir de 1964, o tempo tem demonstrado que em todos os momentos da história do Brasil, as forças armadas apresentaram-se como atores políticos atuantes.

O primeiro Presidente neste formato de governo foi o General Castelo Branco, que dentre suas principais medidas, buscou atenuar a crise financeira que o país estava sofrendo. A inflação afligia todos os setores da sociedade tupiniquim. Todavia, como no desenvolver dos domínios militares, suas medidas de controle não continuaram surtindo efeito e, consequentemente, as formas de repressão se tornaram mais ríspidas.

A situação política nacional demonstrava sinais de fraqueza. Para não correr riscos, foram elaborados os conhecidos Atos Institucionais, também chamados de AI. Abriram-se discussões para escolher o sucessor do presidente. Com o apoio dos militares “linha-dura”, Costa e Silva tomou posse como presidente, prometendo um governo de conciliação, mas essa intenção não resistiu por muito tempo. As ações repressivas dos governos militares proporcionaram a união de vários setores em greve, protestos e manifestações.

Como se sabe, a ditadura civil-militar foi instaurada pelo golpe de estado de 31 de março de 1964. Estendeu-se até o final do processo de abertura política, em 1985 e foi marcada pelo autoritarismo, suspensão dos direitos constitucionais, perseguição policial e militar, prisão e tortura de opositores.

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a colaboração dos Estados Unidos para garantir que a reação ao golpe não tivesse êxito.

Varias situações de risco ocorreram: o enfrentamento militar dos movimentos de guerrilha contrários ao regime militar, assim como o uso de métodos violentos, inclusive tortura, contra as pessoas opositoras ao regime e o “Milagre Econômico”, período de forte crescimento econômico entre os anos de 1969 a 1973, com altos investimentos em infraestrutura, mas também com o aumento da dívida externa.

A expectativa geral era de que a intervenção militar na política fosse breve e que, em pouco tempo, o estado democrático de direito fosse restabelecido. Mas isso não ocorreu. Os militares se sucederam no governo e consolidaram sua posição no poder através de atos institucionais, que foram leis arbitrárias anunciadas para sustentar todas as mudanças e medidas políticas colocadas em prática durante o período ditatorial.

Assim como outras ditaduras militares que se estabeleceram em toda a América Latina, nas décadas de 1960 e 1970, a ditadura militar brasileira procurou legitimar-se politicamente por meio de atitudes disfarçadas. O fato de o Congresso Nacional manter-se aberto e em funcionamento fez parte da estratégia dos militares de permanecerem no poder e mascarar a feição autoritária do regime.

O contexto político de Santa Maria, naturalmente, refletia a situação nacional, especialmente os debates do legislativo municipal e os conflitos existentes entre seus vereadores, suscitados por suas posições políticas diante do governo civil-militar.

Com estas questões tão importantes destacadas sobre a ditadura civil-militar, esse trabalho irá apresentar e tentar compreender como se deu o processo de debates políticos no parlamento santa-mariense, por parte de seus vereadores e as ideias de seus respectivos partidos políticos, tratando justamente o período referente ao ano de 1968, o da implementação do AI-5.

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Segundo Alves (1984), o Ato Institucional № 5 marcou o fim da primeira fase de institucionalização do estado de segurança nacional, do estágio de lançamento de suas bases. É importante lembrar que em 1967, iniciou-se uma débil tentativa dos estudantes, em manifestações, de chamar a atenção para seus problemas específicos. Em 1968, esse movimento já tinha adesão de muita gente de diferentes classes e correntes ideológicas. A crise entre o Executivo e o Legislativo, que terminou com o fechamento do congresso nacional por período indeterminado, mais uma vez lançou luz sobre a contradição entre o uso da linguagem da democracia e a prática da repressão, por parte do estado.

O estado é uma sociedade política e a ditadura consiste em um modelo político que visa à conformidade das massas populares e se utiliza de mecanismos para controlar a mesma - mídia, políticas públicas, polícia, igreja, sindicatos, escolas. Tudo isto está relacionado a um tipo de produção econômica, que orienta a sociedade civil e aumenta os abismos entre as classes sociais e o controle social.

Este trabalho foi desenvolvido com a ajuda do orientador, pois conseguimos sentar e delimitar a pesquisa em questão, já que não foi fácil iniciá-lo, devido às dificuldades de fontes existentes. Os problemas foram aumentando cada vez mais, mas com ajuda de colegas e amigos, o quebra cabeça foi sendo montado aos poucos.

A escolha do tema decorreu do gosto pela política, então ficou mais fácil se pensar no assunto e, através de leituras que foram sendo feitas, foi-se abrindo o leque. O pesquisador busca tanto as respostas para o seu tema, quanto para as dúvidas que vão surgindo. Todos esses levantamentos foram realizados através das análises do jornal A Razão e das atas da Câmara Municipal de Vereadores de Santa Maria.

Optou-se por compreender o governo civil-militar através dos atos institucionais, que legitimaram o poder, para cumprir as metas propostas do novo modelo político que se instaurou no Brasil, demonstrando a construção e a consolidação desse novo modelo político.

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Buscou-se relacionar o contexto político de Santa Maria ao nacional e ao mundial, principalmente às revoltas da juventude na Europa e nos EUA, entendendo quais foram às reações dos políticos e da imprensa santa-mariense.

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1. A DITADURA CIVIL MILITAR (1964-1985)

No dia primeiro de abril de 1964, teve início a ditadura civil-militar no Brasil. Perseguições políticas, torturas, mortes e grandes agitações culturais e sociais são os aspectos mais lembrados pelos brasileiros quando se fala no período ditatorial, apesar de muita gente acreditar que as gerações mais novas não dão a devida importância ao regime no Brasil.

A instituição de um regime autoritário no Brasil em 1964 foi decorrente de fatores conjunturais, como a crise econômica financeira, a ampla mobilização política das massas populares, o fortalecimento dos movimentos operário e camponês, a crise do sistema partidário e da luta de classes em razão de projetos divergentes para o Brasil.

O regime militar instalado em 1964, promoveu uma modernização conservadora e excluiu da cena política as classes trabalhadoras ao pôr fim a uma experiência de democracia populista que se tornara intolerável para as classes dominantes (TOLEDO, 1997, p.44).

Na verdade, o estigma autoritário que marcou a tradição histórica brasileira se fez presente naquele ano e nos que o sucederam. O novo regime começou a mudar as instituições do país através dos chamados Atos Institucionais (AI), justificados como decorrência “do exercício do poder constituinte, inerente a todas as revoluções”. (FAUSTO,2002).

O AI-1 foi baixado, a nove de abril de 1964, pelos comandantes do exército (Lyra Tavares), da marinha (Augusto Rademaker) e da Aeronáutica (Márcio de Souza e Mello). Várias das medidas do AI-1 tinham como objetivo reforçar o Poder Executivo e reduzir o campo de ação do congresso. O presidente da república ficava autorizado a enviar ao congresso projetos de lei que deveriam ser apreciados no prazo de trinta dias na câmara e em igual prazo no senado, caso contrário, seriam considerados aprovados.

O Ato também criou as bases para instalação dos Inquéritos Policial-militares (IPMs), a que ficaram sujeitos os responsáveis “pela prática de crime contra o Estado ou seu patrimônio, contra a ordem política e social, ou por atos de guerra revolucionária”. (FAUSTO, 2002).

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os sindicatos mais expressivos, abrangendo 70% das organizações, que tinham mais de cinco mil membros.

Em junho de 1964, o regime militar deu um passo importante no controle dos cidadãos com a criação do (SNI). Seu principal idealizador e primeiro chefe foi o General Golbery do Couto e Silva. O SNI tinha como principal objetivo expresso “coletar e analisar informações pertinentes à Segurança Nacional, à contrainformação e à informação sobre questões de subversão interna”. (BANDEIRA, 1974). Na prática, transformou-se em um centro de poder quase tão importante quanto o executivo, agindo por contra própria na “luta contra o inimigo interno”. O General Golbery chegou mesmo a tentar justificar-se, anos mais tarde, dizendo que sem querer tinha criado um monstro. (FAUSTO, 2002).

O AI-1 estabeleceu a eleição de um novo presidente da república, por votação indireta do Congresso Nacional. A 15 de abril de 1964, o General Humberto de Alencar Castelo Branco foi eleito presidente, com mandato até 31 de janeiro de 1966.

Com relação ao campo, a política repressiva do governo de Castelo Branco contra os chamados agitadores veio acompanhada de medidas que procuravam encaminhar soluções para o problema da terra. O congresso aprovou o Estatuto da terra para os fins de execução da reforma agrária e da promoção de uma política agrícola.

No plano internacional, o governo Castelo Branco alinhou-se claramente com a política americana. Um exemplo desse alinhamento se deu durante a guerra civil que explodiu na República Dominicana nos primeiros meses de 1965. Os Estados Unidos interviram no conflito, enviando à ilha 42 mil marines. Ao lado de Honduras e do Paraguai, o Brasil aceitou enviar tropas sob a cobertura da chamada Inter-American Peace Force.

Em outubro de 1965, realizaram-se eleições diretas em onze estados. A essa altura, grande parte do entusiasmo pela “revolução” tinha declinado. Era difícil iludir-se com a propaganda sobre o fim da corrupção.

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Sob a pressão desses setores, Castelo Branco baixou o AI-2 em outubro de 1965, apenas 24 dias após as eleições estaduais. O AI-2 estabeleceu, em definitivo, que a eleição para presidente e vice-presidente da república seria realizada pela maioria absoluta do Congresso Nacional, sem sessão pública e votação nominal. Outra medida importante foi à extinção dos partidos políticos. Os militares consideravam que o sistema multipartidário era um dos fatores responsáveis pelas crises políticas. Desse modo, deixaram de existir os partidos criados no fim do Estado Novo que, bem ou mal, exprimiam diferentes correntes da opinião pública.

A legislação partidária forçou, na prática, a organização de apenas dois partidos: a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), agrupando os partidários do governo; e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), reunindo a oposição. A maior parte dos políticos que se filiaram à ARENA tinha pertencido à UDN e em número quase igual ao PSD. O MDB foi formado por figuras do PTB, vindo a seguir o PSD.

O grupo “castelista” não conseguiu eleger o sucessor de Castelo. Foram eleitos para presidente o General Arthur da Costa e Silva e, para vice-presidente um civil, Pedro Aleixo, que tomaram posse em março de 1967.

Desde 1966, passado o primeiro impacto da repressão, a oposição vinha se rearticulando. Muitos membros da hierarquia da Igreja se defrontaram com o governo, destacando-se no Nordeste a atuação do Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara. Os estudantes começaram também a se mobilizar em torno da UNE( união nacional dos estudantes).

Em 1968 as mobilizações ganharam ímpeto no contexto daquele ano regado de significação em todo o mundo. O catalisador das manifestações de rua foi à morte de um estudante (Edson Luís, 18 anos), morto pela Polícia Militar durante um pequeno protesto realizado no Rio de Janeiro, no mês de março daquele ano.

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Os grupos de luta armada agiram. Começaram suas primeiras ações em 1968. Uma bomba foi colocada no consulado americano em São Paulo, surgiram também assaltos para reunir fundos.

Em 1968, os grupos de luta armada começaram a agir. Uma bomba foi colocada no consulado americano de São Paulo e assaltos começaram a ocorrer, com o propósito de reunir fundos. O aparelho repressivo resolveu atuar e utilizou como pretexto para pôr fim à liberalização restrita um fato aparentemente sem expressão: um discurso proferido no Congresso pelo Deputado Márcio Moreira Alves, considerado ofensivo às Forças Armadas. O texto do discurso, ignorado pelo grande público foi distribuído nas unidades das Forças Armadas. Criado o clima de indignação, os ministros militares requereram ao STF que fosse aberto um processo criminal contra o Deputado Márcio. Em uma decisão inesperada, este se negou a suspender as imunidades parlamentares do deputado. Menos de 24 horas depois, a 13 de dezembro de 1968, Costa e Silva baixou o AI-5, fechando o Congresso.

O AI-5 foi o instrumento de uma revolução dentro da revolução, ou de uma contra revolução. Ao contrário dos atos anteriores, não tinha prazo de vigência. O presidente da República voltou a ter poderes para fechar provisoriamente o Congresso, o que a Constituição de 1967, não autorizava. Restabeleciam-se os poderes presidenciais para cassar mandatos e suspender direitos políticos, assim como para demitir ou aposentar servidores públicos. (FAUSTO, 2002).

A partir do AI-5, o núcleo militar do poder concentrou-se na chamada comunidade de informações, isto é, naquelas figuras que estavam no comando dos órgãos de vigilância e repressão. Abriu-se um novo ciclo de cassação de mandatos, perda de direitos políticos e de expurgos no funcionalismo, abrangendo muitos professores universitários. Estabeleceu-se, na prática, a censura aos meios de comunicação e a tortura passou a fazer parte integrante dos métodos do governo.

Um dos muitos aspectos trágicos do AI-5 consistiu-se no fato de que ele reforçou a tese dos grupos de luta armada, cujas ações se multiplicaram a partir de 1969. O regime parecia incapaz de ceder a pressões sociais e de reformar, seguindo cada vez mais o curso de uma ditadura brutal.

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Garrastazu Médici e para vice-presidente o ministro da Marinha, Augusto Rademaker.

Para o grande público, Médici era um nome desconhecido. Além disso, não tinha gosto para o exercício do poder, tendo delegado a seus ministros o exercício do governo. Daí resultou o paradoxo de um comando presidencial dividido em um dos períodos mais repressivos, se não o mais repressivo, da história brasileira.

O governo de Médici não se limitou à repressão. Distinguiu claramente entre um setor significativo, mas minoritário da sociedade, adversário do regime, e a massa da população que vivia um dia-a-dia aceitável nesses anos de prosperidade econômica. A repressão se dirigiu ao primeiro grupo, enquanto a propaganda se destinou a, ao menos, neutralizar o segundo.

Tal como acontecera com Castelo Branco, Médici não conseguiu eleger seu sucessor. O nome escolhido pelas Forças Armadas para lhe suceder, em meados de 1973, foi o do General Ernesto Geisel.

O governo de Geisel se associa ao início da abertura política, que o general-presidente definiu como lenta, gradual e segura. Na prática, a liberalização do regime, chamada a princípio de distensão, seguiu um caminho difícil, cheio de pequenos avanços e recuos. O governo começou a travar, nos bastidores, uma luta contra a linha dura. Ao mesmo tempo, permitiu que as eleições legislativas de novembro de 1974, se realizassem em um clima de relativa liberdade, com acesso dos partidos ao rádio e a televisão. Esperava-se um triunfo fácil da ARENA, mas os resultados surpreenderam o governo ao assinalarem um avanço do MDB.

Em 1978, o governo iniciou encontros com líderes da oposição e da Igreja, para encaminhar a restauração das liberdades públicas. A partir de 1979, o AI-5 deixou de existir, restaurando-se assim os direitos individuais e a independência do congresso. Nesse período muitos planos deram errado, tanto na parte econômica quanto administrativa. A reatualização anual dos salários, isto é, a sua correção apenas de ano em ano, contribuía para agravar o descontentamento dos assalariados.

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O General Geisel conseguiu eleger seu sucessor: o general João Batista Figueiredo, que derrotou o candidato do MDB na reunião do colégio eleitoral em 1978. O General Figueiredo fora chefe do gabinete militar de Médici e era chefe do SNI no governo de Geisel. Seu período combinou dois traços que muitos consideraram de convivência impossível: a ampliação da abertura política e o aprofundamento da crise econômica.

A sonhada experiência de crescimento com controle da inflação durou pouco. A recessão de 1981-1983 teve pesadas consequências. A inflação não baixou, e em troca de uma modesta ajuda financeira e da tentativa de restaurar sua credibilidade internacional, o país aderiu à receita do FMI que consistia em melhorar as contas externas mantendo-se o serviço da dívida. Além disso, houve uma redução da importação do petróleo e outros produtos, graças aos investimentos realizados a partir do II PND (Plano Nacional de Desenvolvimento). Mas a inflação continuava subindo.

No inicio de 1985, quando Figueiredo deixou o governo, a situação financeira era de temporário alívio e o país voltara a crescer. O processo de abertura continuou a ser perturbado pela ação da linha dura. Antes disso, uma série de atos criminosos culminou com a tentativa de explodir bombas em centros de convenções, como a do Rio de Janeiro em 1981.

Para tentar quebrar a força da oposição, o governo obteve do congresso, em dezembro de 1979, a aprovação de uma nova lei de organização partidária que extinguiu o MDB e a ARENA. A ARENA transformou-se no Partido Democrático Social (PDS). Os dirigentes do MDB acrescentaram apenas a palavra “partido”, convertendo-se no Partido Democrático do Movimento Brasileiro (PMDB). À medida que o regime autoritário foi se abrindo, as diferenças ideológicas e pessoais começaram a emergir. A partir do sindicalismo urbano e rural, de setores da Igreja e da classe média profissional, surgiu o Partido dos Trabalhadores (PT).

O final do governo civil-militar de 1964 culminou com a hiperinflação e grande parte das obras paralisadas pelos sertões do Brasil. Devido ao sistema de medição e pagamento estatal, as empreiteiras abandonaram as construções, máquinas, equipamentos e edificações.

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 Por 458 votos na câmara e 62 no senado foi aprovada a eleição direta

para presidente (mas em dois turnos);

 Com apenas 32 votos contra na câmara e 2 no senado, foi aprovado o

direito ao voto para os analfabetos;

 Os partidos comunistas deixaram de ser proibidos;

 Os prefeitos de capitais, estâncias hidrominerais e municípios

considerados de segurança nacional voltariam a ser eleitos diretamente;

 O Distrito Federal passou a ser representado no Congresso Nacional

por três senadores e oito deputados federais.

 Acabou com a fidelidade partidária;

Eleita em 15 de novembro de 1986 e empossada em 1º de fevereiro de 1987, a Constituinte funcionou até 5 de outubro de 1988 quando foi promulgada a Constituição.

A ditadura civil-militar teve enormes consequências referentes aos atos repressivos decorrentes das diversas formas de torturas ocorridas na época, mas a sociedade deu passos significativos, não só incentivando a tomada de consciência dos problemas, como encontrando formas organizatórias para enfrentá-los, ainda que com resultados desiguais.

O povo tratou de abrir espaços para a participação democrática em diferentes níveis de atividade, que foram desde o enfrentamento dos problemas, a atitudes que reduziram o individualismo egoísta em favor de esforços comuns. De promover a tolerância, que passa pelo respeito das diferenças e das diversas opiniões.

2. O ANO DE 1968 NO MUNDO

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as estruturas sociais, as lealdades ideológicas e legados culturais. Estava nascendo um novo mundo em que os jovens queriam participar, além de presenciar o fato.

No continente europeu, a França era o ponto alto dos protestos. O mês de maio francês foi o mês em que os jovens tomaram as ruas para lutar pela liberdade de viver. Eles imaginaram e desenvolveram uma cultura diferente, sua música, a moda e a linguagem eram diferentes de tudo que o mundo já tinha visto. O novo chegava para combater o velho e engessado, em outras palavras, o moderno era a pedra da vez. Dentre os pontos mais modificados, podemos destacar a revolução sexual, a qual vinha para quebrar com dogmas e tradições segregadoras.

O ano de 1968, não foi caracterizado apenas por revoltas estudantis que balançaram os EUA, Alemanha, França, Itália e outros países. Ele foi o prenúncio da maior ofensiva da classe trabalhadora internacional desde o fim da Segunda Guerra. Esta incrível luta durou muitos anos, assumindo em diversas ocasiões formas revolucionárias, forçando a renúncia de governos em várias partes do mundo e abalando o sistema de dominação burguesa em suas bases.

Esta questão foi mais visível na França, onde, em maio de 1968, dez milhões de trabalhadores tomaram parte em uma greve geral. Ocuparam muitos lugares como fábricas e levaram o governo do General Charles de Gaulle a ficar arrasado. Já em 1969, as chamadas greves de setembro aconteceram na Alemanha, e a Itália também sofreu confrontos industriais. Os EUA presenciaram imensas passeatas do movimento estudantil contra a guerra e rebeliões em guetos urbanos.

O pano de fundo destes eventos que aconteceram durante o ano de 1968 foi uma das primeiras crises que abalaram profundamente a economia capitalista desde a Segunda Guerra Mundial. A onda de protestos, greves e revoltas internacionais deixou sua marca em uma série de países. As condições de trabalho mudaram, os salários melhoraram, muitas vezes, em níveis muito consideráveis.

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O ano de 1968 foi o ponto de partida para uma série de transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais, que afetaram as sociedades da época de uma maneira irreversível. Seriam o marco para os movimentos ecologistas, feministas, das organizações não governamentais, dos defensores das minorias e dos direitos humanos. A contracultura foi uma delas, que nos anos 60 formou o movimento hippie e acarretou em inúmeras revoltas estudantis na França em 1968. A contestação do modo de vida ocidental, dos valores burgueses, levaram muitos a se rebelar com as percepções e modelos de levar a vida. Alguns usavam cabelos grandes, roupas espalhafatosas ou drogas para alargar os níveis de percepção da mente.

A contracultura não foi um partido político, nem desejava disputar as eleições. Este movimento queria mesmo impressionar pelo comportamento, alterar radicalmente os costumes dos que os cercavam para mudar seu aspecto, suas maneiras de viver, sua mentalidade. O apogeu do movimento da contracultura ocorreu mesmo no festival de Woodstock, nas proximidades de Nova Iorque, em agosto de 1969, quando de 300 a 500 mil jovens se reuniram em um encontro de massas para celebrar o rock e manifestar-se pela paz e lutar pelas suas ideias.

A inspiração de 1968, representada mais brilhantemente pela geração de jovens militantes, impulsionando uma contracultura radical da juventude, um combativo movimento operário de base e o movimento militante negro, mais conhecido como Black Power. As tensões que estouraram nos EUA em 1968 foram, na realidade, o resultado de um amplo embate entre as forças sociais antagônicas iniciadas, nos anos 50, que se estenderia até meados da década de 70.

Como podemos ver, o ano de 1968 foi marcado por diversos movimentos. Como menciona Ventura (2008) como persistência rara, o ano de 1968 ainda povoa o imaginário coletivo. É uma vaga lembrança que se apresenta, ora como totem, ora como tabu: ou é uma mitológica viagem de uma geração de heróis, ou de proezas irresponsáveis de um bando de “porralocas”, como se dizia então.

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3. O ANO DE 1968 NO BRASIL /AI-5

Enquanto nos EUA e Europa, em 1968, a juventude encontrava-se em plena efervescência, lutando contra o conservadorismo, no Brasil, os estudantes protestavam contra o quarto ano de vigência do governo militar. Um dos momentos mais marcantes da história de 68 foi o assassinato do estudante Edson Luís pela polícia, quando participava de um protesto no Rio de Janeiro, no restaurante Calabouço. No dia seguinte, seu enterro foi acompanhado por mais de 50 mil pessoas, transformando-se na maior manifestação contra a ditadura civil-militar.

A partir de maio, os estudantes realizaram a ocupação de universidades. A Faculdade de Medicina em Belo Horizonte, a Reitoria da USP, o prédio da PUC-SP e a UNB (colocar as siglas) foram tomadas por universitários, ao mesmo tempo em que a reação do governo se dava pelo recrudescimento da repressão. As passeatas se multiplicavam pelo país, sempre seguidas da força militar.

No dia 2 de setembro o deputado federal Márcio Moreira Alves, do MDB do RJ, discursou na Câmara dos Deputados contra a invasão policial da Universidade de Brasília e propôs que o povo boicotasse a comemoração do dia 7 de setembro, pedindo ainda para as moças não dançarem com cadetes, nem os namorarem. A reação dos generais foi de irritação e eles pressionaram a Câmara pela cassação do deputado. No dia 12 de dezembro a Câmara dos Deputados negou a licença para o governo processar o deputado e no dia seguinte o General Costa e Silva, presidente do Brasil, mandou fechar o Congresso Nacional e decretou o AI-5.

O Ato Institucional nº 5 (AI-5) acentuou o caráter ditatorial do governo. O Congresso Nacional e as Assembleias Legislativas estaduais foram colocados em recesso, e o presidente, o General Costa e Silva, passou a ter plenos poderes para cassar mandatos eletivos, suspender direitos políticos, demitir ou aposentar juízes e outros funcionários públicos, suspender o habeas corpus em crimes contra a segurança nacional, legislar por decreto, julgar crimes políticos em tribunais militares, dentre outras medidas autoritárias. Paralelamente, nos porões do regime, generalizava-se o uso da tortura, do assassinato e de outros desmandos. Tudo em nome da "segurança nacional".

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ano anterior. Em 1965, a TV Excelsior tentou capitalizar parte do interesse renovado por música brasileira e organizou um festival pioneiro. Já em 1966, a cidade do Rio de Janeiro tentava se reciclar para retomar o título de capital da música popular, patrocinando o festival internacional da canção.

A música de 68 também foi simbólica. Ano do lançamento do movimento do Tropicalismo, uma nova vertente musical que não estava engajada politicamente, mas representava uma crítica ao conservadorismo e a situações impostas. Outro grande destaque na música foi o festival da TV Globo, quando a música “Pra não dizer que não falei das flores” (Caminhando) de Geraldo Vandré, apesar da segunda colocação, tornou-se o símbolo da resistência e hino dos estudantes que lutavam contra a ditadura militar.

Para Poerner (1979), o AI-5 representou um enorme retrocesso político na história do Brasil, um duro golpe para um pouco de liberdade que ainda restava e um sensível endurecimento do regime militar. Todo movimento intelectual e cultural foi grandemente afetado pela medida. Escritores não dispuseram mais, nem mesmo, das precárias condições de que antes gozavam para escrever, da mesma forma que os editores não se animavam a investir em obras que eventualmente pudessem ser apreendidas ou confiscadas, apenas por desagradarem, ainda que levemente, aos detentores do poder.

Nilson Borges (1992), afirma que os anos 1970 ficaram marcados pelo desencadeamento dos golpes de estado e pela entrada de militares no cenário político de diversos países da América latina, inclusive o Brasil.

Com o fim do mandato do presidente Castelo Branco, abriram-se discussões para escolher o seu sucessor. Surgiu o apoio dos militares à candidatura de Costa e Silva. Ao tomar posse, o presidente Silva prometeu um governo de conciliação, mas essa intenção não resistiu por muito tempo. As ações repressivas dos governos militares proporcionaram a união de vários setores em greve, protestos e manifestações.

Os parlamentares do MDB passavam a apoiar os crescentes movimentos de protesto, assumindo o papel de denúncia dos atos repressivos do governo. Dockhorn (2002) postula que o discurso do deputado Márcio Moreira Alves, na câmara dos deputados, foi à razão para a efetivação do ato institucional AI-5.

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liberdades no Brasil, através de um instrumento que deu ao sistema vigente poderes absolutos e teve como grande evento o fechamento do congresso nacional.

Segundo Denise Rollemberg (2003), as ações armadas iniciadas em 1967 intensificam-se depois do AI-5, quando muitos jovens do movimento estudantil, acuados já no inicio do segundo semestre de 1968, migraram para as organizações da vanguarda. Além de reivindicações específicas, os movimentos lutavam por liberdades democráticas e pelo fim da ditadura. Por outro lado, começaram a se tornar visíveis as ações armadas, praticadas por organizações políticas que defendiam propostas de derrubada violenta da ditadura e a instauração de governos revolucionários, nacionalistas e socialistas.

A partir do AI-5, o núcleo militar do poder concentrou-se na chamada comunidade de informações, isto é, naquelas figuras que estavam no comando dos órgãos de vigilância e repressão. Abriu-se um novo ciclo de cassação de mandatos, perda de direitos políticos e de expurgos no funcionalismo, abrangendo muitos professores universitários. Estabeleceu-se na prática a censura aos meios de comunicação. A tortura passou a fazer parte integrante dos métodos de governo.

Segundo Fausto (1930),

Um dos muitos aspectos trágicos do AI-5 consistiu no fato de que ele reforçou a tese dos grupos de luta armada, cujas ações se multiplicaram a partir de 1969. O regime parecia incapaz de ceder a pressões sociais e de se reformar, seguindo cada vez mais o curso de uma ditadura brutal (p.265).

O ano de 1968 terminou apenas no calendário, porém ele estará sempre vivo, hoje e sempre, pois lembra a todos a força que o povo unido tem contra governos autoritários. O ano de 1968, nunca sairá da memória daqueles que lutaram pela liberdade, e de todos aqueles que acreditam na liberdade de expressão.

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4. O LEGISLATIVO E A IMPRENSA SANTAMARIENSE DIANTE DO AI-5

Os acontecimentos políticos/militares que eclodiram no pós-64, época em que foi implantada a ditadura no Brasil, repercutiram em Santa Maria, importante centro militar, o que colocou em prontidão as guarnições militares federais e estaduais com sede na cidade. Vale ressaltar que a eclosão do golpe militar causou grandes consequências, particularmente no que se refere às cassações de direitos políticos, às prisões de cidadãos suspeitos de pertencerem a grupos subversivos, à intervenção de diversos órgãos estadual e federal com sede na cidade e a cassação dos mandatos do prefeito Paulo Lauda e de seu vice Adelmo Simas Genro, decorrentes do AI-2, entre outras medidas tomadas pelo governo federal no intuito de silenciar os opositores do novo regime implantado.

A intensa utilização dos meios de comunicação de Santa Maria, principalmente do jornal A Razão, foram à base para a divulgação das noticias referentes ao novo governo instaurado, conjuntamente com os pedidos de apoio da sociedade santa-mariense ao novo governo. Nesse sentido, o comando das forças armadas com sede em Santa Maria mandava publicar no jornal, quase que diariamente, notas oficiais tentando acalmar os cidadãos em relação aos acontecimentos decorrentes da revolução.

Percebe-se nos comunicados dos militares e nos pedidos de auxílio para a sociedade, no sentido de adesão frente aos acontecimentos políticos/militares, uma intensa campanha de defesa e exaltação da atuação das forças armadas frente à atuação vivida no país antes do golpe.

Os atos autoritários dos governos militares estiveram presentes pela atuação rigorosa da DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), no município de Santa Maria contra as atividades que o governo considerava de caráter subversivo e enquadrado nas leis que definiam os crimes militares e os crimes contra a ordem política e social. Exemplo disso são o afastamento e suspensão dos direitos políticos do Prefeito e vice Prefeito de Santa Maria, Paulo Lauda e Adelmo Genro.

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prefeito e ao que constou seria de forma indireta, isto é, pelo legislativo santa-mariense. A notícia recebida às primeiras horas daquela noite, através do programa de rádio A Voz do Brasil, e confirmada pelas agências telegráficas teve larga repercussão. (A Razão, 1964).

Nos comunicados e reportagens publicadas no jornal a Razão, pode-se notar uma intensa campanha de defesa e exaltação da atuação das forças armadas frente à situação vivida no Brasil no pós-64. Nessas campanhas, buscava-se o apoio da sociedade para as reformas políticas, sociais e econômicas necessárias, assegurando-lhes a permanência da democracia e dos direitos políticos de cada cidadão, conforme a constituição brasileira. Estes “discursos democráticos”, no entanto, não corresponderam à realidade da atuação das forças armadas no decorrer da sua permanência na administração política do país. (MARIATO, p.230).

Nesse sentido, verifica-se a preocupação dos legisladores santa-marienses com os acontecimentos políticos nacionais. Sabe-se que em 1968, através dos documentos consultados, principalmente a decretação do Ato Institucional № 5, a atuação do governo civil- militar começou a restringir duramente a ação dos parlamentares em Santa Maria, levando-os à perda das garantias políticas. Assim, os políticos, no parlamento santa-mariense, passaram a diminuir a abordagem a assuntos referentes ao panorama político nacional e local.

Centralizando e concentrando poderes, calando e reprimindo as oposições ativas e potenciais, o ato funcionou para dar cobertura às políticas de modernização conservadoras que seriam empreendidas pela ditadura ao longo dos anos 1970 e à tortura como política de estado, que desempenhou importante papel no desfecho das organizações que propunham a luta armada para derrubar a ditadura.

Com todos os estudos elaborados através das Atas da Câmara Municipal de vereadores de Santa Maria e reportagens do Jornal A Razão não existe nas atas quase nada em relação aos atos repressivos que existia na cidade, pois tamanha era a força militar que os vereadores nada abordavam em relação ao assunto. Sabe-se que existiram repressões, torturas e outras formas repressivas, mas no ano de 1968 não existem muitos relatos sobre o tema abordado.

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Com base nessas fontes conseguimos entender como andava o contexto político, social e econômico da cidade, mesmo que com poucas notícias, observamos que a população estava preocupada com os atos militares e que de uma maneira ou de outra tentariam mudar aquele cenário de caos e pressões que a cidade vivia.

4.1 A Câmara de Vereadores de Santa Maria

A história do poder legislativo Santa-Mariense teve início no longínquo dia 16 de dezembro de 1857, quando Santa Maria da Boca do Monte foi elevada à vila, pela Lei Provincial nº 400, desmembrando-se assim, do município de Cachoeira do Sul. Em 15 de abril de 1858, ocorreu a eleição dos sete vereadores que compuseram a primeira Câmara Municipal.

Os vereadores eleitos assumiram em 17 de maio de 1858 (livro de atas), sendo eles o ten.cel. José Alvares Valença, João Pedro Niederauer, João Verissimo Oliveira, Maximiano José Appel, João Thomas da Silva Brasil, Joaquim Moreira Lopes e Francisco Pereira de Miranda. O vereador José Alves Valença, mais votado, assumiu o cargo de Presidente da Câmara Municipal da Vila.

A primeira Câmara do Paço Municipal funcionou no período monárquico entre 1858 e 1860. A Câmara seguinte teve seu exercício no quadriênio 1861/1864. Até o final do período houve nove legislaturas, com continuidade do processo de eleições parlamentares até 1889. Em 07 de setembro de 1985 foi inaugurado o prédio da intendência, hoje sede da Câmara Municipal de Vereadores de Santa Maria. A responsabilidade da obra coube ao italiano Cesare Da Corso, imigrante italiano radicado em Santa Maria. O prédio sofreu influência dos projetos europeus construídos na época (movimento celetista).

O Estado Novo cortou a tradição mantida há mais de quatro décadas de eleições do governo municipal. Porém, o fez por pouco tempo. Dez anos depois os prefeitos e vereadores novamente eram eleitos pelo povo, o que ocorreu em 1947.

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da Câmara Municipal de Vereadores de Santa Maria dispõem de uma listagem dos vereadores do período pesquisado.

Vereadores 1964/1968 Partidos (Pós-65)

Abílio Dalla Corte PDC/ARENA

Alexandre da Cruz PTB/MDB

Antônio Marques Pfeifer UPS/ARENA

Carlos Renan Kurtz PTB/MDB

Dari Almícar Mortari PDC/ARENA

Dario Leal da Cunha PTB/MDB

Eduardo Rolim PTB/MDB

Francisco Lemes PTB/MDB

Homero Behr Braga PTB/MDB

Luis Carlos Xavier PSD/ARENA

Manoel Malmann Filho PTB/MDB

Paulo Santos UPS/ARENA

Pedro Fernandes da Silveira UPS/ARENA

Raphael Teodorico da Silva PSD/ARENA

Waldir Aita Mozzaquatro PTB/MDB

Disponível em: <www.camara-sm.rs.gov.br>. Acesso em: 16 fev. 2012.

Vereadores 1969/1971 Partidos

Alexandre da Cruz MDB

Américo Batistela MDB

Dario Leal da Cunha MDB

Erony Paniz ARENA

Euclides Gonçalves (cassado em

julho/69) MDB

Francisco Paulo dos Santos Lemes MDB

Ivory Gomes Mello ARENA

José Haidar Farret ARENA

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Octavio Thomazzi Filho (cassado

em julho/69) MDB

Orcy de Oliveira MDB

Pedro Fernandes da Silveira ARENA

Raphael Teodorico da Silva ARENA

Tarso Ferando Genro (renunciou ao

mandato em julho/69) MDB

Waldemar Kümmel ARENA

Disponível em: <www.camara-sm.rs.gov.br>. Acesso em: 16 fev. 2012.

4.2 Debates Políticos na Câmara de Vereadores e na Imprensa de Santa Maria na época do AI-5

Para abordar os referentes assuntos foram feitas uma a análise do jornal A Razão e das Atas da Câmara de Vereadores de Santa Maria. O AI-5 fechou o Congresso Nacional, restringindo os direitos à liberdade de expressão, de pensamento e de imprensa e censores eram instalados dentro dos jornais. Foi no seu governo de Costa e Silva que a Lei de Imprensa foi criada, em nove de fevereiro de 1967, o que deixava claras as normas de atuar nos meios de comunicação.

Art. 1º É livre a manifestação do pensamento e a procura, o recebimento e a difusão de informações ou ideias, por qualquer meio, e sem dependência de censura, respondendo cada um, nos termos da lei, pelos abusos que cometer. § 1º Não será tolerada a propaganda de guerra, de processos de subversão da ordem política e social ou de preconceitos de raça ou classe. (LEI DE IMPRENSA, 1967, on-line 1).

Mas o receio de ter noticiado nos jornais as atividades do governo fez com o que na mesma lei, no artigo 7, ficasse claro que, qualquer manifestação nos jornais, periódicos, rádio ou televisão, precisaria ser assinado pelo autor, para que, se houvesse qualquer pena, que essa fosse aplicada ao verdadeiro culpado. Foi nesse ano que muitos jornais foram fechados.

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conceitos e de princípios protagonizou no período ditatorial, como o surgimento de movimentos sociais. (MARTINS, 2000).

Tudo parece indicar que estávamos entrando numa fase da história social e política do país marcada por algumas inversões na relação entre a sociedade civil e o Estado. A história do Brasil independente tem sido uma história de tutela do Estado sobre a sociedade. Sociedade cujos marcos históricos resultam de processos que fluem lentamente e cujas mudanças apenas lentamente chegam à consciência da maioria de seus membros, mesmo daqueles que na militância política transformadora podem estar mais perto da sua compreensão. Circunstâncias próprias do período ditatorial recente despertaram as possibilidades criativas da sociedade em face do Estado (MARTINS, 2000).

Algumas das forças que lutavam contra a ditadura, líderes políticos e empresários, eram levadas a crer que, o sucesso de suas lutas os levaria para a glória da democracia e ao fim das torturas. Eram grupos esquerdistas e estudantis que se organizavam com greves e movimentos populares.

A União Nacional de Estudantes (UNE) tinha posições idealistas e intelectualizadas e lutavam junto às escolas, teatros e também com o Centro Popular de Cultura (CPC), onde se abrigavam os mais conhecidos artistas jovens. Entre eles estavam Oduvaldo Viana Filho, Gianfrancesco Guarnieri, Cacá Diegues, Leon Hirszman, Vera Gertel, cantores e compositores, como Edu Lobo, Carlos Lyra e Sérgio Ricardo. Era na mídia que a sociedade tentava se apoiar, mesmo que a censura ainda vigorasse.

Fazendo uma análise das atas, notam-se alguns assuntos interessantes que ocorreram em sessões realizadas pelos mesmos, que vão ser comentados no decorrer do trabalho. Em 12 de fevereiro de 1968, o vereador José Adão Mello (Arena), referindo-se a situação que atravessava na época o país, declara que há necessidade do desarmamento de espíritos, da harmonia do país, de justiça para a felicidade do povo e o progresso necessários da pátria (Ata 471/68). Na situação em que vivia o país, o vereador Mello quase que suplicava para que os atos repressivos parassem, pois acreditava ser a hora de cessar aquelas ações que só causavam horror a população.

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a crise econômico-financeira que o país enfrentava terminaria até o fim do ano. Na oportunidade, o ministro fez um amplo relato das atividades do governo, dizendo que este tinha a obrigação de manter a esperança do povo, e que confiava em dias melhores.

O Ministério do Planejamento informou que estava sendo alvo de estudos a preservação do salário médio real dos trabalhadores. Por sua vez, o setor de salários daquela pasta informou que o governo estava empenhado em manter a participação dos assalariados no Produto Interno Bruto. (Jornal A Razão, 16 de fevereiro de 1968).

Em 19 de fevereiro de 1968, o Vereador Octavio Tomasi Filho (MDB) declarou que, em consequência da atual política econômica e financeira do governo federal, as indústrias passavam sérias dificuldades e a situação do assalariado foi cada vez mais agravada, afirmando ainda se orgulhar de pertencer ao MDB. O vereador Tomasi mostrava-se confiante em relação à situação que o país enfrentava na época, notando-se em sua fala um sentido exaltação de pertencer ao MDB.

O Vereador Abílio Dalla Corte, voltava a defender a administração do governo federal do marechal Costa e Silva, afirmando que o país gozava de verdadeira democracia e rugiam os atos do governo, revestidos de justiça e que o poder judiciário arbitrava livremente, nada mais havendo para ser tratado, foi encerrada a presente sessão sendo convocada outra para a próxima.

Nota-se na fala do vereador Abílio uma exaltação em relação ao governo atual, pois afirmava que o país atravessava uma situação muito boa, de democracia e de justiça perante o povo, pois tudo que estava sendo feito seria para o bem da nação.

O vereador Abílio Dalla Corte, líder da bancada da ARENA, foi o primeiro vereador a apresentar projeto de lei este ano, tratando de uma matéria que considerava de utilidade pública, o centro cultural Brasil/Estados Unidos, projeto que havia sido rejeitado naquele ano e que depois retornaria a pauta, para nova decisão. (Jornal A Razão, 30 de fevereiro de 1968).

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Ao que informava, o assunto predominante seria relativo à futura convenção municipal da ARENA, quando seriam escolhidos os nomes que iriam compor a sublegenda e a nominata de vereadores para o pleito de novembro. Os membros do diretório poderiam se inscrever para aquela reunião que seria precedida em um jantar.

Informou-se que dois nomes estariam sendo cogitados para compor as sublegendas da ARENA, como candidatos a vice-prefeitos. São eles os Drs. Pedro Anselmo Santini e Waldomiro Aita. Tudo indicava que naquela reunião seria encontrado um denominador comum para a solução dos problemas. (Jornal A Razão, 5 de março de 1968).

O vereador Waldemar Kümmel (ARENA) informava à reportagem que, tendo em vista o grande número de solicitações por parte de elementos do diretório municipal da ARENA e amigos do Deputado Nelson Marchezan, o mesmo deveria estar em Santa Maria.

Finalizando suas declarações, afirmava o vereador Kümmel, que o mesmo via a candidatura de Marchezan como a única que reunia condições de vencer o pleito em Santa Maria, por ser um candidato jovem, idealista e com grande bagagem de trabalho em prol do município, (mais tarde o deputado Marchezan desistiu da candidatura). (A Razão, 10 de março de 1968)

O Vereador Kümmel também alertava o prefeito, secundando as palavras de seu colega de bancada, o Vereador Alexandre da Cruz, onde o alertava sobre os maus assessores de sua administração, os quais já foram acusados anteriormente de atos desonestos (referia-se aqui aos senhores Derli Marafiga e Crispim Pereira), e ao que estava sendo acusado, bem como pediu à casa que assumisse posição para averiguar as graves denuncias contra o Sr. Metelino Bueno, considerando, sobretudo, a importância do cargo que este exerce junto à administração municipal. (Jornal a razão, 12 de março de 1968).

O que será abordado daqui em diante serão as atas da câmara de vereadores e reportagens do jornal A Razão a partir dos meses de novembro de1968 a março de 1969, findando uma abordagem dos meses de abril a outubro onde não foram encontradas notícias referentes ao trabalho pesquisado e sim a respeito do desenvolvimento da cidade.

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convenção partidária conseguiu, com o seu trabalho, se reeleger e se propôs a continuar lutando dentro das linhas mestres da cristã democracia para o progresso do município.

O Vereador Waldemar lembra que a luta realizada não fora em vão e que o povo de Santa Maria poderia ficar tranquilo que sua força e sua garra iam ser de grande valor para a cidade. Apesar de ter sido reeleito pelo partido ARENA, nos últimos lugares agradeceu ao povo e disse que não decepcionaria seus eleitores e continuaria brigando pelos direitos da população. (7 de novembro de 1968 Ata 574/68).

O vereador Albino Abílio Dalla Corte comunicava a vitória da ARENA nas últimas eleições em todos os estados da federação, exceto no Rio Grande do Sul. O vereador Teodorico da Silva dizia ter sofrido pressões de autoridades militares, bem como o presidente da casa sofreu, para que fosse aprovado o projeto que denomina a praça (general Osório), que estava sendo colocada em questão. (11 de dezembro de 1968 ata 584/68).

Nota-se, através das referências, dos debates citados que havia um forte ato de repressão, pois devido ao fato de estar vivendo um período ditatorial, a força militar foi imposta para que, de qualquer forma, fosse aprovado o nome da praça que estava sendo colocada em pauta, acreditando que desta forma nada mudaria em relação à população.

Logo após o problema da praça ser resolvido, o jornal tratava do cenário nacional, pois o cardeal-arcebispo Dom Jaime Barros, foi recebido em audiência especial pelo presidente Costa e Silva, oportunidade em que fez somente apelo ao chefe da nação, no sentido de que o governo tome severas providências contra os atos de terrorismo que se espalhavam pelo país, pois, devido os atos repressivos que estavam acontecendo, coube ao arcebispo tentar amenizar a situação. Os atos eram tantos e em tantos os lugares do país que muitas pessoas não estavam conseguindo sair de casa tranquilos. (Jornal A Razão do dia 12 de dezembro de 1968).

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Existiam na época outras formas de pressões que estavam sendo impostas, pois seriam maneiras de demonstrar suas forças perante a sociedade e de dizer que o único jeito e mais correto de pedir algo seria sob o ato da repressão.

No dia 16 de dezembro de 1968, foram muitos os atos repressivos, por isso, foi aprovada a seguinte emenda do vereador Raphael Teodorico da Silva, onde consta “pressão” leia-se sugestão de autoridades militares sobre a denominação da praça General Osório. Devido as fortes pressões que estavam acontecendo, os atos foram se tornando intensos e fazendo com que alguns vereadores tomassem atitudes para amenizar as situações desagradáveis, pois colocaram a seguinte emenda, onde estava escrito pressão era para ser lida a palavra sugestão, talvez essa forma fosse a mais correta na hora, já que o momento não era dos mais agradáveis. (Ata 585/68).

O Jornal A Razão de 20 de dezembro de 1968, dizia que o presidente da República recebeu do ministro Hélio Beltrão, do planejamento, para sanção presidencial de diversos decretos-leis fundamentados no ato institucional n° 5 e com vigência a partir de 1° de Janeiro de 1969. Os decretos buscavam reduzir substancialmente os gastos, estabelecer mais austeridade no serviço público, federal, estadual e municipal, bem como exercer severas fiscalizações nas empresas privadas. Por sua vez, o ministro da fazenda disse que, com as medidas que serão tomadas a partir do dia 1° de janeiro, dariam mais um passo definitivo para o saneamento total no setor econômico-financeiro, dando fim assim a inflação.

No dia 1° de janeiro de 1969, na sessão solene de instalação da 6ª legislatura. Os vereadores apresentaram-se para agradecer ao povo, como também para demonstrar suas vontades em relação ao bem estar da cidade de Santa Maria. Como podemos analisar em atas, o mês de janeiro foi mais para apresentações dos novos vereadores eleitos para o mandato a ser iniciado no dia 31 do mesmo mês. A Câmara estava composta pelos seguintes: Pela bancada da Arena, Erony Paniz, Pedro Fernandes da Silveira, Raphael Teodorico da Silva, Luiz Menna, Ivory Gomes, José Haidar Farret e Waldemar Kümmel. Já pela bancada do MDB, Francisco Lemes, Dario Leal, Octavio Tomasi Filho, Alexandre da Cruz, Tarso Fernando Genro, Euclides Gonçalves e Américo Batistela. Como prefeito Luís Alves Rolim Sobrinho e vice Guilherme Groismann (MDB).

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alcançariam mais de cem pessoas. Os processos que estavam em andamento atingiriam pessoas nos setores federal, estadual e municipal. Apenas um por cento deles dizia respeito a funcionários públicos. Todo o material relativo à formalização dos processos foi encaminhado ao Serviço Nacional de Informações que realizou uma triagem para separar os casos de natureza política, a serem remetidos ao ministério da justiça.

Como já havia sido comentado anteriormente, o caso da denominação da praça General Ozório foi posta em questão, onde foi realizada uma sessão extraordinária na Câmara de Vereadores de Santa Maria, e foi denominado de General Ozório a praça localizada em frente do Regimento Mallet, depois de muitas pressões e embates existentes entre vereadores o governo estadual nomeou e foi aprovada.

No dia 1º de fevereiro de 1969 o jornal A Razão traz a seguinte reportagem, o Dr. Alves Rolim Sobrinho assume a prefeitura de Santa Maria perante a câmara de vereadores que estava constituída apenas da bancada do MDB, com todos os vereadores da ARENA ausentes. Mesmo assim, teve brilhantismo a solenidade simples que contou com grande número de espectadores. Na mesma ocasião prestou compromisso o Vice-Prefeito, Dr. Guilherme Groisman. Ambos discursaram tendo o Prefeito Rolim Sobrinho proferido a mais curta alocução até aquele momento feita por um prefeito na solenidade de compromisso frente ao legislativo municipal.

Em outro relato o jornal comentou que a ARENA entrou em juízo contra o MDB. Naturalmente procurou ouvir a palavra do líder da bancada da ARENA na Câmara de Vereadores, a respeito dos fatos. Aconteceu que naquele momento a bancada não se reuniu para escolher um líder. Em consequência tomou-se como declaração a manifestação unânime da bancada arenista que declarou o seguinte:

A ausência à sessão na qual foi empossado o novo Prefeito e o novo vice-prefeito de Santa Maria não significou nem de leve um agravo à pessoa ou a autoridade do Dr. Luiz Alves Rolim Sobrinho ou do Dr. Guilherme Groisman cuja investidura à bancada da ARENA reconhece como absolutamente legítima.

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eleitos no pleito de 15 de novembro. Isso confirmou a tranquilidade existente na área de jurisdição da 3ª DI que estava sob o eficiente e esclarecido comando do general Edson de Figueiredo, que tem sido o fator de paz e tranquilidade para a família santa-mariense.

Momentos antes do juramento do novo Prefeito da câmara de vereadores, o Dr. Francisco Alvares Pereira (Prefeito que deixou o cargo), mantinha agradável palestra com o Dr. Luiz Alves Rolim Sobrinho que, poucos minutos antes assumiu a Prefeitura de Santa Maria.

Segundo palavras textuais do Ex-Prefeito Francisco Alvares Pereira, o mesmo deixou em caixa, ao novo Prefeito, a soma de cinquenta milhões de cruzeiros velhos para o pagamento do funcionalismo, e quarenta milhões de cruzeiros velhos, para investimentos. Como se vê, o DR. Luiz Alves Rolim Sobrinho, recebeu bem recheados “os cofres” da Prefeitura Municipal.

Percebe-se que o bipartidarismo, nesse momento, estava plenamente estruturado, embora estivessem limitadas as discussões político-administrativas, o governo procurava passar a ideia de legitimação através da realização de eleições.

Nota-se que o ano de 1968 mostrava-se bastante agitado politicamente, que apesar da repressão haviam crescido as manifestações populares, ou seja, Santa Maria estava inserida no contexto nacional de luta por mudanças e percebe-se no resultado das eleições municipais uma nova postura do eleitorado Santa-mariense, visto que elegeu o candidato da oposição para Prefeito e Vice-Prefeito.

Devido à repressão amparada no AI-5, nota-se o enfraquecimento das discussões políticas na câmara de vereadores, sendo que a maioria das manifestações, mesmo dos Edis do MDB, são relacionados a questões locais, devido ao temor às retaliações representadas por cassações, prisões e exilio proporcionada pelo AI-5, devidamente aplicada pelo aparato repressivo governamental a qualquer cidadão que ousasse contrapor-se ao regime autoritário brasileiro. (Cortes, 2009).

Seguindo adiante, a ata do dia 3 de fevereiro de 1969, onde vereadores de ambos os partidos agradeceram pela oportunidade e prometiam lutar pelos direitos do povo e fazer o máximo para alcançar seus objetivos.

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vivendo um período ditatorial, os atos de repressão não constam em atas, e sim apenas assuntos referentes ao desenvolvimento da cidade de Santa Maria.

Segundo as análises das atas da Câmara de Vereadores, notava-se que não foram abordados muitos assuntos referentes às pressões existentes aos vereadores, pois se acreditava que devido as fortes pressões que sofriam, reduziam assuntos referentes a esse tipo de questões.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como se sabe, a ditadura civil-militar foi instaurada pelo golpe de estado de 31 de março de 1964. Estendeu-se até o final do processo de abertura política, em 1985 e foi marcada por autoritarismo, suspensão dos direitos constitucionais, perseguição policial e militar, prisão e torturas.

Os movimentos sociais e qualquer manifestação de oposição eram passíveis de severa repressão. Havia uma rígida censura aos meios de comunicação, que não podiam citar nada sobre o assunto.

Um dos atos institucionais, o AI-5, em 1968, implantou o bipartidarismo, através do qual somente dois partidos – ARENA (governo) e MDB (oposição controlada) passando a ser permitidos. Além disso, o governo contou com a colaboração dos Estados Unidos para garantir que a reação ao golpe não tivesse êxito.

A partir do AI-5, os militares que estavam no poder concentraram-se na chamada comunidade de informações, isto é, naquelas figuras, que estavam no comando dos órgãos de vigilância e repressão. Abriu-se um novo ciclo de cassação de mandatos, perda de direitos políticos e de expurgos no funcionalismo, abrangendo muitos professores universitários. Estabeleceu-se na prática a censura aos meios de comunicação, a tortura passou a fazer parte integrante dos métodos do governo.

O ano de 1968 foi marcado por protestos, utopias e jovens lutando por um mundo melhor, buscando novas realidades, novas maneiras de viver a vida. Este ano é visto como o ano zero, onde tudo começou, e em que as esperanças deixaram o imaginário e foram parar nas ruas.

Este foi o ponto de partida para uma série de transformações que aconteceram tanto políticas, éticas, sexuais e comportamentais, que afetaram as sociedades da época de uma maneira geral. Seriam o marco para os movimentos ecologistas, feministas, das organizações não governamentais, dos defensores das minorias e dos direitos humanos.

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geração de heróis, ou de proezas irresponsáveis de um “bando de porralocas”, como se dizia então.

O contexto político de Santa Maria, naturalmente refletia a situação nacional, especialmente os debates do legislativo municipal e os conflitos existentes entre seus vereadores, suscitados por suas posições políticas diante do governo civil-militar.

Os atos autoritários dos governos militares estiveram presentes pela atuação rigorosa da DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), no município de Santa Maria contra as atividades que o governo considerava de caráter subversivo e enquadrado nas leis que definiam os crimes militares e os crimes contra a ordem política e social. Exemplo disso são o afastamento e suspensão dos direitos políticos do prefeito e vice de Santa Maria, Paulo Lauda e Adelmo Genro.

Sabe-se que em 1968, através dos documentos consultados, principalmente a decretação do ato institucional № 5, a atuação do governo civil- militar, começou a restringir duramente a ação dos parlamentares em Santa Maria, levando à perda das garantias políticas. Assim, os políticos, no parlamento santa-mariense, passaram a diminuir a abordagem a assuntos referentes ao panorama político nacional e local e passaram a abordar assuntos referentes ao desenvolvimento do município.

Percebe-se que o bipartidarismo, nesse momento, estava plenamente estruturado. Embora estivessem limitadas as discussões político-administrativas, o governo procurava passar a ideia de legitimação através da realização de eleições.

Nota-se que o ano de 1968 mostrava-se bastante agitado politicamente, que apesar da repressão haviam crescido as manifestações populares, ou seja, Santa Maria estava inserida no contexto nacional de luta por mudanças e percebe-se no resultado das eleições municipais uma nova postura do eleitorado Santa-mariense, visto que elegeu o candidato da oposição para Prefeito e Vice-Prefeito.

Devido à repressão amparada no AI-5, notava-se o enfraquecimento das discussões políticas na câmara de vereadores, sendo que as maiorias das manifestações estavam relacionadas a questões locais, devido ao temor às retaliações representadas por cassações, prisões e exilio proporcionada pelo AI-5, devidamente aplicada pelo aparato repressivo governamental a qualquer cidadão que ousasse contrapor-se ao regime autoritário brasileiro.

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mas a sociedade deu passos significativos, não só incentivando a tomada de consciência dos problemas como encontrando formas organizatórias para enfrentá-los, ainda que se tratasse de um confronto entre forças desiguais.

Portanto, nesse período de autoritarismo do governo civil-militar, houve alternância nas relações de poder, tanto no executivo, como no legislativo municipal. Embora ocorresse uma censura às discussões e informações políticas, houve coragem por parte do eleitorado santa-mariense, colocando no poder de Santa Maria candidatos opositores ao governo. Isso prova que de certa forma a cidade Santa Maria não se omitiu e lutou pelos seus objetivos e sua liberdade de expressão.

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