UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA - UDESC CENTRO DE CIÊNCIAS DA ADMINISTRAÇÃO – ESAG CURSO DE MESTRADO EM ADMINISTRAÇÃO ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: GESTÃO ESTRATÉGICA DAS ORGANIZAÇÕES

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ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: GESTÃO ESTRATÉGICA DAS ORGANIZAÇÕES

O PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO DE UMA INDÚSTRIA DE FUNDIÇÃO: O CASO DA TUPY S.A.

JULIANO MANOEL ROSA

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O PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO DE UMA INDÚSTRIA DE FUNDIÇÃO: O CASO DA TUPY S.A.

Dissertação apresentada ao curso de Mestrado em Administração como requisito para obtenção do Grau de Mestre do Centro de Ciências da Administração, da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC, Área de Concentração: Gestão Estratégica das Organizações.

Orientador: Prof. Rubens Araújo de Oliveira, Dr.

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O PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO DE UMA INDÚSTRIA DE FUNDIÇÃO: O CASO DA TUPY S.A.

Esta dissertação foi julgada adequada para a obtenção do Título de Mestre em Administração (Área de Concentração: Gestão Estratégica das Organizações) e aprovada em sua forma final pelo Curso de Mestrado em Administração do Centro de Ciências da Administração, da Universidade do Estado de Santa Catarina.

_______________________________________ Prof. Mário César Barreto Moraes, Dr.

Coordenador do Mestrado

APRESENTADO À BANCA EXAMINADORA, INTEGRADA PELOS PROFESSORES:

_______________________________________ Prof. Rubens Araújo de Oliveira, Dr.

Orientador

_______________________________________ Prof. Arnaldo José de Lima, Dr.

Membro

_______________________________________ Prof. Hélio Roberto Hékis, Dr.

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Quero manifestar meus agradecimentos a todos aqueles que de alguma forma deram a sua colaboração para que o êxito deste trabalho fosse alcançado.

Em especial,

Ao meu orientador, Prof. Dr. Rubens Araújo de Oliveira, e ao professor Marco Antônio Seifriz, que mesmo com todas as suas atividades e responsabilidades, se esforçaram para me ajudar a tornar possível este estudo, compartilhando comigo suas experiências, apoiando e sempre transmitindo entusiasmo e confiança, tanto pontuando criticamente os conteúdos, quanto instigando ao desafio quando preciso no decorrer dessa trajetória.

Aos membros da banca examinadora.

Ao coordenador do mestrado, Profº. Dr. Mário César Barreto Moraes e aos demais professores e colaboradores da ESAG.

Aos meus ex-colegas de trabalho e outros colaboradores da Tupy que, com sua disposição, incentivaram e contribuíram para o sucesso deste trabalho.

Aos professores que conheci na minha vida acadêmica e que de alguma forma me incentivaram tanto a permanecer nela quanto a respeitá-la profundamente.

E as pessoas que sempre acreditaram em mim, me acolheram com seu amor e carinho e que, com a graça de Deus, tenho o privilégio de acompanhar ao longo da vida:

Aos meus maiores ídolos, meus amados pais João e Marli, pelo belo exemplo de vida, nobres valores e por tudo que sempre me dedicaram, as minhas conquistas são suas também.

Aos meus avós, em especial a meu avô Wiegand, por seu modelo de caráter, que com sua simples presença tanto ensinou e contribuiu para a minha formação e para o que sou hoje.

Ao meu irmão Aubano, minha tia Márcia e a minha família que, muitas vezes, estando distantes, sempre se fizeram presentes através do amor que tem demonstrado por mim, e a quem declaro também amar.

A Josiane Peixer, não apenas por amá-la e por ela ser amado, como também pelo carinho, companheirismo e compreensão dedicados.

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As transformações que estão ocorrendo na economia mundial estão conduzindo à integração dos mercados de bens, serviços e capitais. A globalização é entendida como um grupo de mudanças na esfera do capitalismo internacional, que traz incertezas e turbulências para o ambiente. Este novo cenário compele e força as empresas para a internacionalização de suas atividades. A internacionalização é definida como um crescente e contínuo processo de envolvimento de uma companhia em operações com outros países fora de seu local de origem. Com a ampliação dos mercados globalizados, as principais oportunidade de crescimento para as organizações estão baseadas no comércio internacional. Visando a aproveitar melhor estes novos e promissores mercados, muitas empresas tiveram de buscar o aumento de sua capacidade competitiva pela melhoria dos processos produtivos, construindo uma imagem associada à exportação e investindo diretamente no exterior. Este posicionamento requer um processo de reflexão estratégica. A principal motivação para a realização desta dissertação foi de proporcionar uma contribuição científica para a área de negócios internacionais, no sentido de promover a realização de uma pesquisa sobre internacionalização de empresas. A presente dissertação objetivou analisar o processo de internacionalização do setor de fundição no Brasil e mais atenciosamente uma destas empresas. A Tupy S.A. foi a escolhida para o estudo de caso. Para entender os estágios e transformações que ocorreram na Tupy S.A., do seu nascimento à sua consolidação como uma empresa global, foi utilizado um modelo de internacionalização de empresas mas também análises estatísticas. Foram verificados ainda os fatores contextuais que motivaram as mudanças de fase, tanto no contexto interno quanto no externo, e as dificuldades enfrentadas pela firma em cada uma destas etapas e a dimensão deste movimento estratégico.

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Transformation taking place in world economies have led to the integration of the market of goods, services and capitals. Globalization is understood as the group of changes in the sphere of international capitalism that are bringing uncertainties and environmental turbulences. This new scenario compels and forces companies towards the internationalization of its activities. Internationalization is defined as a growing and continuing process of a company’s involvement in operations with other countries outside its base of origin. With a sharp increase in markets globalization, the main growth opportunity for organizations is based upon international business. In order to take more advantage of these new and promising markets, many companies had to enhance their competitive capacity by improving production processes, building brands associated with export markets and investing directly in the foreign. This positioning demands a strategic thinking process. The main motivation to accomplish this thesis was the idea of proffering a scientific contribution to the international business management area, in order to promote the construction of a research about the internationalization of enterprises. The present thesis aimed to analyze the internationalization process of the casting sector in Brazil, more accurately one of this companies. Tupy S.A. was chosen as object of this study case. To understand the stages and transformations that took place within the Tupy S.A., from the genesis to the consolidation as a global enterprise, a model of internacionalization of enterprises was used but also statistical analysis. Further was verified the contextual factors which motivated this stage switch, not only the internal, but also the external context, and yet the difficulties faced by the company in each one of the steps and the dimension of this strategical movement.

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GRÁFICO 01 Evolução do comércio exterior brasileiro entre 1995 e 2005... 43

GRÁFICO 02 Evolução da produção brasileira de fundidos... 51

GRÁFICO 03 Evolução da mão-de-obra empregada no setor de fundição... 52

GRÁFICO 04 Distribuição setorial das vendas... 54

GRÁFICO 05 Evolução das exportações de fundidos brasileiros... 54

GRÁFICO 06 Evolução da produção x capacidade instalada de fundidos (em mil toneladas)... 67

GRÁFICO 07 Participação de cada um dos acionistas da Tupy em 2005... 109

GRÁFICO 08 Evolução da produtividade (homens hora/tonelada) da Tupy entre 1990 e 2007... 111

GRÁFICO 09 Capacidade de produção em 2005 (1000 toneladas/ano)... 113

GRÁFICO 10 Capacidade de produção em 2005 (1000 toneladas/ano) das principais fundições brasileiras... 115

GRÁFICO 11 Distribuição do mercado global da Tupy em 2005 – Total das vendas físicas... 116

GRÁFICO 12 Distribuição do mercado global da Tupy em 2005 – Total das vendas físicas... 117

GRÁFICO 13 Evolução entre 1990 e 2005 das exportações da Tupy S.A... 129

GRÁFICO 14 Evolução, entre 2002 e 2005, da participação do volume de exportações sobre o total do volume produzido pela Tupy S.A... 130

GRÁFICO 15 Evolução, entre 1990 e 2005, da participação do volume de exportações sobre o total do volume produzido pela Tupy S.A... 131

GRÁFICO 16 Correlação entre as exportações da Tupy S.A. e as do setor de fundição brasileiro... 133

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QUADRO 01 Conclusões do estudo de Markwald e Ribeiro sobre as exportações

brasileiras... 46

QUADRO 02 Os 3 Ps que medem a competitividade de Buckley, Pass e Prescott... 60

QUADRO 03 As estratégias que as empresas utilizam para competir no mercado global... 74

QUADRO 04 Vantagens e desvantagens das etapas de internacionalização... 77

QUADRO 05 Evolução das empresas brasileiras no mercado internacional... 85

QUADRO 06 Fatores determinantes para a expansão internacional e obstáculos... 88

QUADRO 07 Revisão dos modelos de internacionalização... 95

LISTA DE TABELAS TABELA 01 Os 20 maiores produtores de fundidos em 2004... 50

TABELA 02 Série histórica de dados do setor de fundição no Brasil e da Tupy S.A., entre 1990 e 2005... 132

LISTA DE FIGURAS FIGURA 01 Modelo de Internacionalização de Empresas Produtoras Brasileiras... 96

FIGURA 02 Visão do processo de mudança Tupy... 108

FIGURA 03 Organograma da Tupy S.A... 112

FIGURA 04 Resumo do Histórico da Tupy S.A... 114

FIGURA 05 Presença global da Tupy S.A. – cobertura de mercado... 118

FIGURA 06 Alguns dos países atendidos pela Tupy S.A... 119

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ABIFA Associação Brasileira de Fundição ALCA Área de Livre Comércio das Américas APEX Agência de Promoção de Exportações BID Banco do Desenvolvimento Interamericano

BIRD Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento BNDE Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico

BNDES Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social CAMEX Câmara de Comércio Exterior

CGI Compacted Graphite Iron

CIFA Companhia Industrial de Fios Amparo

CKD Completely Knocked Down

CPqD Centro de Pesquisas Tecnológicas

DFOI Dispersão Física das Operações Internacionais EIAG Experiência Internacional da Alta Gerência ESAG Centro de Ciências da Administração ETT Escola Técnica Tupy

FAO Food and Agriculture Organization FGV Fundação Getúlio Vargas

FIESP Federação das Indústrias do Estado de São Paulo FMI Fundo Monetário Internacional

GATT Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (General Agreement on Tariffs and Trade)

IDE Investimento Direto Estrangeiro

IEDI Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial IPT Instituto de Pesquisa Tecnológica

MDIC Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior MERCOSUL Mercado Comum do Sul

MIT Massachusetts Institute of Technology

NAFTA North American Free Trade Agreement

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ONU Organização das Nações Unidas PEE Programa Especial de Exportações PIB Produto Interno Bruto

PROEX Programa de Financiamento às Exportações PSDB Partido da Social Democracia Brasileira PT Partido Trabalhista

PTF Produtividade Total Dos Fatores PUC Pontifícia Universidade Católica

RETR Recursos no Exterior sobre o Total de Recursos SC&I Scientific Computing & Instrumentation's

SEBRAE Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas SETS Subsidiárias no Exterior do Total das Subsidiárias

SMC Sistema Multilateral de Comércio

SOCIESC Sociedade Educacional de Santa Catarina TAFCO Tupy American Foundry Corporation

UDESC Universidade do Estado de Santa Catarina USP Universidade de São Paulo

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1 INTRODUÇÃO... 13

1.1 CONTEXTUALIZAÇÃO DO TEMA E PROBLEMA DE PESQUISA... 17

1.2 OBJETIVOS... 20

1.2.1 Objetivo Geral... 20

1.2.2 Objetivos Específicos... 20

1.3 JUSTIFICATIVA DO ESTUDO... 20

1.4 DEFINIÇÃO DE TERMOS E VARIÁVEIS... 22

1.5 ORGANIZAÇÃO DO ESTUDO... 23

2 REVISÃO DA LITERATURA... 25

2.1 COMÉRCIO INTERNACIONAL... 25

2.1.1 Abertura Comercial... 27

2.1.1.1 Histórico do Processo de Abertura Comercial no Brasil e no Mundo... 31

2.1.2 O Panorama Atual do Comércio Exterior Brasileiro... 40

2.1.3 Setor de Fundição no Brasil... 49

2.1.3.1 As Exportações do Setor de Fundição... 53

2.2 COMPETITIVIDADE E MERCADO GLOBAL... 56

2.2.1 A Competitividade no Brasil... 61

2.2.2 A Competitividade do Setor de Fundição no Brasil... 66

2.3 INTERNACIONALIZAÇÃO DE EMPRESAS... 69

2.3.1 A Internacionalização das Empresas Brasileiras... 80

2.3.2 Modelos de Internacionalização de Empresas... 91

2.3.2.1 O Modelo de Internacionalização de Empresas de Kraus... 95

2.3.2.1.1 A Etapa de Pré-Envolvimento... 97

2.3.2.1.2 A Etapa de Envolvimento Passivo... 97

2.3.2.1.3 A Etapa de Envolvimento Ativo... 98

2.3.2.1.4 A Etapa de Envolvimento Comprometido... 98

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS... 100

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3.4 LIMITAÇÕES DO ESTUDO... 103

4 DESCRIÇÃO, ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS COLETADOS... 105

4.1 HISTÓRICO DA ORGANIZAÇÃO... 105

4.2 O MERCADO INTERNO... 114

4.3 O PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO... 116

4.3.1 A Empresa Não-Exportadora... 120

4.3.2 A Empresa Pré-Exportadora... 121

4.3.3 A Empresa Exportadora Irregular... 122

4.3.4 A Empresa Exportadora Pré-Ativa... 123

4.3.5 A Empresa Exportadora Ativa... 124

4.3.6 A Empresa Exportadora Comprometida... 125

4.4 ANÁLISE ESTATÍSTICA DOS DADOS... 128

5 CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES... 135

5.1 CONCLUSÕES... 135

5.2 RECOMENDAÇÕES... 140

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Nesta parte do trabalho, são apresentadas, inicialmente, reflexões sobre o panorama histórico do comércio internacional brasileiro e mundial, buscando-se posicionar as empresas brasileiras frente a este contexto, evidenciando alguns aspectos do seu processo de internacionalização. Na seqüência, apresenta-se a contextualização do tema e do problema, os objetivos geral e específicos, a definição de termos e variáveis, a justificativa do estudo e sua organização.

A internacionalização de empresas está intimamente associada ao fenômeno da globalização, que provocou profundas transformações na economia mundial, desde o final da Segunda Grande Guerra e, principalmente, a partir dos anos 80, trazendo consigo, como conseqüência, a maior integração dos mercados de bens, serviços e de capital. Este novo cenário, caracterizado por rápidas e significativas alterações nas estruturas de poder político, expansão das fronteiras econômicas, crescente interdependência e abertura da economia e do comércio, formação de blocos econômicos e mudanças nos padrões tecnológicos e empresariais, vem gerando incertezas e turbulências, que constituem constantes desafios a serem enfrentados pelo mundo dos negócios.

Neste processo de globalização, o predomínio das relações multilaterais entre as nações tem promovido uma nova ordem mundial, com a consolidação de tendências como a desregulamentação e o forte incremento do comércio internacional que, se por um lado criou inúmeras oportunidades às firmas que ultrapassaram os domínios do mercado doméstico, ampliando seu volume de produção de forma a adequar-se às demandas externas, também vitimou outras, assim como limitou o poder de ação dos países. Os governos encontram dificuldades em atingir suas metas macroeconômicas básicas, de pleno emprego com estabilidade de preços e equilíbrio no balanço de pagamentos, e as disputas comerciais internacionais, que não respeitam fronteiras, credos ou valores, com freqüência acarretam o fechamento de empresas em algumas regiões do planeta.

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a Organização Mundial do comércio (OMC) tornaram-se instituições multilareais fundamentais de gestão diplomática no plano econômico comercial, que permitiram uma razoável estabilidade política entre seus membros ao longo das últimas décadas e um expressivo crescimento nas trocas internacionais.

Diante deste novo ambiente globalizado, as empresas procuram acelerar seu movimento rumo à internacionalização de suas atividades, e as exportações, quando planejadas de maneira consciente, tornam-se condição básica, tanto para elas quanto para os países onde se localizam, encontrarem o equilíbrio competitivo com os mercados. Indiscutivelmente, o Brasil é hoje um país em que ambos, governo e organizações, demonstram evidente preocupação com a expansão da presença de produtos nacionais no mercado externo, no entanto, os movimentos de estímulo ao comércio exterior tem apresentado altos e baixos, ora prejudicados por algumas ações deletérias do governo, ora limitados pela instabilidade no ambiente externo.

Nas décadas de 50 e 60 criaram-se as bases do moderno capitalismo brasileiro, com a construção de um respeitável parque industrial, o maior da América Latina, que veio a mudar não somente a estrutura econômica e produtiva do país, como igualmente trouxe grandes transformações sociais, derivadas da mudança de uma grande massa de pessoas do campo para as cidades. Nesta época teve início um período de substituição das importações que, basicamente, consistia em produzir internamente para o consumo da nação e para exportação o que antes se importava, justificando-se o lema “exportar é o que importa”.

A partir dos anos 60 e mais acentuadamente na década de 70, o Brasil assistiu ao chamado “milagre econômico”, em que a economia cresceu significativamente por vários anos seguidos e o governo desenvolveu órgãos de apoio aos exportadores, instituiu novos mecanismos de incentivo e intensificou a conscientização do empresariado para a importância do mercado internacional. Lamentavelmente, em 1973 e 1979, estouraram as duas crises do petróleo e toda conjuntura internacional favorável teve fim, afetando negativamente este empenho exportador incipiente.

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São desta fase iniciativas governamentais importantes para dinamizar o comércio exterior brasileiro, como o Programa Especial de Exportações (PEE), instrumento de articulação e coordenação das ações voltadas ao incremento da atividade exportadora, a criação da Agência de Promoção de Exportações (APEX) e da Câmara de Comércio Exterior (CAMEX), entre outras.

Ao mesmo tempo, como o câmbio permaneceu sobrevalorizado por um longo tempo e a abertura comercial estimulou as importações, o empresariado nacional se viu não somente com poucas perspectivas para exportar como acossado internamente pela alta competitividade dos produtos estrangeiros. Assim, os déficits comerciais foram se acumulando, até que, em 1999, o governo finalmente flexibilizou o câmbio.

Tanto o governo de Fernando Henrique Cardoso quanto o de Luis Inácio “Lula” da Silva esforçaram-se para elevar o crescimento econômico do país, ainda baixo quando comparado a de outras nações em desenvolvimento. Somada esta limitação aos problemas recalcitrantes, como o baixo volume de crédito, precária infra-estrutura logística, alta tributação, custos trabalhistas elevados, falta de garantia nos contratos, diplomacia comercial pouco pragmática, entre outros, as firmas brasileiras, efetivamente, encontram inúmeros obstáculos ao tentarem internacionalizar-se.

Nos anos recentes houve um verdadeiro salto nas exportações, mas, infelizmente, ele adveio, na sua maior parte, da venda de produtos com pouco valor agregado, que tiveram um grande aumento na demanda internacional. As poucas indústrias nacionais que conseguiram se destacar externamente, o fizeram apesar de todo histórico econômico conturbado e tremendamente desfavorável, como se viu anteriormente, através de constantes ganhos de produtividade, elevação no nível de qualidade, criatividade e ousadia, gerando empregos e contribuindo para o desenvolvimento do país.

A globalização e a abertura comercial trouxeram a ameaça de que, continuamente, as economias nacionais se vejam expostas à competição internacional, com as corporações transnacionais se destacando enormemente no processo. Os governos, por sua vez, estão com crescentes dificuldades para justificar a proteção de determinados setores, até porque já vai longe o período de substituição de importações e a Rodada Doha de negociação, iniciada em 2001, se por um lado trouxe um grupo de países produtores agrícolas lutando pela diminuição de subsídios e tarifas, também mostrou as nações ricas querendo, em troca, uma maior abertura para seus bens industriais e serviços.

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apenas em momentos de recessão dentro do país ou para desafogar um excedente de produção, ou seja, de forma muito mais reativa do que estratégica. Demoraram a perceber que o imediatismo do mercado interno não se aplica ao mercado externo, de maneira que esta acomodação obviamente acabou custando caro, tanto que muitas grandes companhias brasileiras acabaram falindo, sendo vendidas para grupos internacionais ou perdendo participação de mercado.

Tardiamente percebeu-se a importância da internacionalização, seja através das exportações ou da produção em outros países, e das vantagens obtidas, como ter um produto reconhecido mundialmente por sua qualidade (a marca agrega valor), acesso a novas tecnologias e modelos de gestão, ampliando e diversificando mercados (ficar na dependência do mercado interno provou-se um mau negócio), prolongando o ciclo de vida dos produtos, além da queda dos custos de produção resultantes do ganho de escala. O fato de, até recentemente, a economia brasileira se constituir numa das mais fechadas do planeta, resultou que, enquanto China, Índia e Coréia do Sul, nações que a poucas décadas tinham menos participação no comércio internacional do que o país, deram um salto e hoje exportam em grande quantidade com cada vez maior valor agregado, o Brasil contribui com irrisório 1% das exportações mundiais.

A internacionalização de uma organização pode ser entendida como um processo crescente e continuado de atuação desta em outros países que não o de sua origem, de forma que parte do seu faturamento seja proveniente do exterior, configurando-se como algo essencial para o seu sucesso e, conseqüentemente, para o do país. Ao contrário de um passado relativamente recente, quando o processo encontrava-se restrito às empresas de grande porte, multinacionais na sua maioria, atualmente, com cada vez mais freqüência, pequenas e médias empresas também vêm se inserindo internacionalmente, beneficiadas pelas tecnologias que facilitam as comunicações e o fluxo de capitais, que favorecem a coordenação entre unidades dispersas de uma mesma organização.

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1.1 CONTEXTUALIZAÇÃO DO TEMA E PROBLEMA DE PESQUISA

Conforme visto anteriormente, o processo de internacionalização das companhias brasileiras, em relação às suas concorrentes do mercado internacional, deu-se de forma tardia, o que trouxe, como herança, uma indústria defasada e pouco competitiva, em função exatamente de sua baixa exposição externa e à dificuldade de se atualizar tecnologicamente. Lamentavelmente, demorou para o país perceber que o seu desenvolvimento econômico sustentável esta intimamente ligado ao desempenho do seu setor produtivo, em particular no que se refere às exportações e a própria presença de suas empresas em outros mercados, não simplesmente limitadas à venda de seus produtos, como presentes fisicamente, por meio de subsidiárias, comerciais e/ou de produção.

A partir de 1990, observou-se uma profunda transformação no ambiente empresarial brasileiro pós-liberalização comercial, fenômeno este ainda não compreendido na sua totalidade, pairando dúvidas quanto a sua intensidade e conseqüências sobre o atual processo de desenvolvimento da indústria nacional e do próprio país. O pleno entendimento é indissociável do estudo de fatores críticos de sucesso para a inserção competitiva de uma empresa no comércio internacional, como a estratégia escolhida para estabelecer-se em novos mercados, sua disponibilidade de recursos, grau de comprometimento com o mercado externo, a atratividade do mercado interno, existência de cultura exportadora e a infra-estrutura do país em questão.

As transformações advindas deste novo contexto foram inúmeras, como o fato do mercado internacional ter se tornado ferramenta de incremento das exportações e de aumento da agregação de valor a segmentos e produtos, assim como a adoção de estratégias coerentes para o setor produtivo brasileiro e sua inserção internacional passou a ser discutida com mais ênfase, tanto no âmbito acadêmico como no governamental e empresarial. As entidades institucionais e o governo começaram a focar oportunidades para a indústria brasileira junto aos diversos mercados e adotaram medidas pertinentes em conjunto com nações parceiras e outros blocos econômicos, e as organizações, por sua vez, deixaram uma postura passiva para uma ativa, ao buscar identificar, selecionar e consolidar mercados.

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das políticas públicas. Desta forma, é absolutamente normal que a grande maioria dos governos vem procurando incentivar este setor para que seja competitivo internacionalmente, através de programas de estímulo a atividade exportadora e, no que diz respeito às empresas, elas têm se preocupado com a melhoria da qualidade e da produtividade, além de buscar a especialização dentro de seus nichos de mercado.

No Brasil, a indústria de fundição viveu um grande crescimento durante o período de formação do parque industrial nacional, nos anos 50, e no decurso do chamado “milagre brasileiro”, nas décadas de 60 e 70, mas também passou por momentos críticos quando a economia esteve em recessão, nos anos 80 e também no começo da década de 90, em virtude das conseqüências da abertura do mercado e da concorrência advinda desta ação, recuperando-se após o Plano Real e depois da desvalorização cambial, ocorrida em 1999.

As indústrias de fundição brasileiras encontram dificuldades para se modernizar, ganhar eficiência e competir internacionalmente, como o alto custo do capital de giro, e almejam melhores preços de venda, menores taxas de juros e impostos, além de melhoria na produtividade, apoio para exportação, financiamentos acessíveis e maior acesso à tecnologia/qualidade. Por outro lado, a demanda externa crescente e as vantagens estruturais do país devem transformá-lo em um grande fornecedor mundial de fundidos, desde que suas empresas estejam em condições de conquistar este espaço e preparadas para enfrentar as vicissitudes do comércio internacional.

Do ponto de vista dos fundamentos macroeconômicos houve, reconhecidamente, grandes avanços nos governos dos dois últimos presidentes, que procuraram não ser tão intervencionistas, já que a ação abusiva do Estado é sempre um elemento de instabilidade. Assim, voltou-se a dar maior importância a possibilidade de pensar horizontes de tempo mais longos para o país, permitindo uma menor variância de estimativas e, conseqüentemente, maior segurança. Dentro disso e apesar das vicissitudes, se provou insigne a ampliação da participação das empresas brasileiras no exterior, acelerando seu processo de internacionalização.

Para Coutinho, Hiratuka e Laplane (2003), o Brasil tem no desenvolvimento industrial um componente essencial. Por ser um dos poucos países em desenvolvimento a contar com uma base industrial diversificada e possuir fragilidades no seu balanço de pagamentos, não pode prescindir de possuir uma indústria competitiva capaz de gerar robusto superávit comercial e crescer sustentadamente.

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exportam ou possuem filiais no exterior, e menor ainda a quantidade de multinacionais genuinamente tupiniquins. Apesar do esforço recente do governo federal em estimular a quebra de recordes de vendas ao exterior, estudos indicam que é mínima a penetração brasileira nos mercados internacionais e muito baixa a diversificação da pauta de exportações do país.

Em meio a isso, algumas organizações brasileiras surpreendentemente conseguiram se destacar, não somente mantendo por décadas uma forte presença no mercado internacional, como avançando com vigor ano a ano, competindo em pés de igualdade com gigantes dos países ricos, que contam, na maioria dos casos, com mais estímulos e menos obstáculos que suas similares aqui no Brasil. Dentre esse pequeno universo, este trabalho escolheu, para fins de um estudo mais aprofundado, a empresa joinvilense de grande porte Tupy S.A., do ramo metal-mecânico.

Frente ao desafio de se estudar o processo de internacionalização das organizações brasileiras, partiu-se para uma análise mais apurada do histórico e da realidade desta empresa, de como e em que momento ela foi preparada para atingir melhores níveis de produtividade, atingindo escalas mais compatíveis às de seus concorrentes, ou até mesmo superiores, como e em que intensidade se deu o avanço no seu processo de internacionalização, quais as dificuldades enfrentadas, o que se pode aprender com seu exemplo e, finalmente, quais os reflexos disso sobre o seu futuro.

Também pareceu relevante traçar um paralelo entre o desempenho da companhia e o da economia brasileira num determinado período de tempo, procurando verificar os efeitos e conseqüências das políticas comerciais adotadas pelo Brasil sobre sua atuação. Como as exportações da empresa terão reagido as valorizações e desvalorizações cambiais por quais passou o país? Em que medida tais acontecimentos, juntamente com a abertura e exposição a competição, ampliaram ou diminuíram o número de mercados para que vende?

Assim, este trabalho propõe-se a buscar na literatura especializada as razões concretas para se ter presença no mercado externo, descrevendo as formas e etapas de internacionalização, a importância dos modelos de internacionalização e as implicações do fenômeno para a Tupy, o empresariado local e para o desenvolvimento do país.

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1.2 OBJETIVOS

Os objetivos deste estudo foram estabelecidos a partir da combinação entre a revisão da literatura pertinente e a experiência profissional do pesquisador como ex-colaborador da Tupy S.A.

1.2.1 Objetivo Geral

Este estudo tem por objetivo geral verificar como ocorreu o processo de internacionalização da Tupy S.A. no período compreendido entre a sua fundação até o ano de 2005.

1.2.2 Objetivos Específicos

- Levantar na literatura de negócios internacionais a descrição das formas e etapas de internacionalização das empresas;

- Enquadrar a empresa Tupy S.A. em um modelo para analisar e compreender o seu processo de internacionalização;

- Verificar, a partir dos dados coletados, a correlação ou não entre o desempenho comercial do setor de fundição do país e da empresa no período entre 1990 e 2005;

- Verificar os fatores que condicionaram o avanço e/ou retrocesso da Tupy S.A. no incremento de seu processo de internacionalização.

1.3 JUSTIFICATIVA DO ESTUDO

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fenômeno, para que se conheçam os fatores que condicionam o avanço ou retrocesso das indústrias neste processo, segundo as condições conjunturais e estruturais da economia do país e os novos determinantes de competitividade da economia mundial.

As empresas brasileiras, que em muitos setores atingiram altos níveis de excelência, lamentavelmente não contribuem com todo seu potencial, pois ainda se deparam com problemas que elevam seus custos, advindos da grande necessidade de arrecadação do governo que, em conseqüência, impõe à sociedade uma carga tributária elevadíssima, investe parcela ínfima do orçamento em infra-estrutura, oferece poucas linhas de financiamento e que hesitou em assumir as exportações como prioridade. A alternativa encontrada pelo empresariado nacional, para sobreviver diante deste contexto, foi vencer as limitações internas, investindo no aumento da produtividade, da eficiência e na profissionalização de seus funcionários, assegurando estratégias eficientes de exportação, expandindo suas vendas além da fronteira nacional, movimento este que se tornou um fator assaz poderoso na alavancagem de sua competitividade.

Apesar de tudo, o esforço exportador por parte das indústrias prossegue e toda a complexidade que envolve a temática de internacionalização das firmas brasileiras vem ganhando cada vez mais atenção e relevância. Atualmente, começa a ser objeto de estudos e desperta crescente interesse, tanto no meio acadêmico quanto no próprio governo que, através do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, inegavelmente, tem procurado aumentar a base exportadora por meio da maior participação de manufaturados.

Fica evidente, portanto, o mérito dos estudos que abordem este tema, sugerindo soluções, unindo o poder público e a iniciativa privada na busca de alternativas, valorizando os casos de sucesso e disseminando o histórico e as particularidades de suas práticas, pois disto depende o posicionamento e a relevância que a economia do país terá perante o mundo no futuro, se protagonista de destaque ou mero figurante do acirrado mercado global. Também é importante destacar a sua relevância frente a relativa escassez de trabalhos sobre a internacionalização de companhias no Brasil, especificamente de uma grande empresa 100% capital nacional, do ramo de fundição e com um passado tão singular e fascinante, que iniciou fundindo rudimentares ferros de engomar e hoje fornece alta tecnologia na forma de blocos de motor e auto-peças para os mais modernos automóveis das maiores montadoras do mundo.

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oscilações a cada choque, a cada período de valorização ou desvalorização cambial e identificando os fatores condicionantes de seu avanço ou retrocesso.

A importância teórica e prática dos resultados esperados da pesquisa também trará um vasto leque de contribuições ao aprofundamento do assunto abordado, por tratar de algo que provoca e continuará a despertar muito interesse por parte das empresas, do governo e do meio acadêmico. A contribuição a quem puder apreciar essa pesquisa foi importante na escolha do tema, porém, a afinidade com o assunto e a curiosidade foram fatores preponderantes na escolha desse complexo assunto a ser estudado.

Finalizando, é válido destacar a contribuição do presente trabalho para os futuros estudos na área de internacionalização de empresas, para a empresa Tupy S.A., para o curso de Mestrado em Administração do Centro de Ciências da Administração (ESAG) da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) e para a sua parceira em Joinville, a Sociedade Educacional de Santa Catarina (SOCIESC), que nasceu do sonho do saudoso e visionário Hans Dieter Schmidt.

1.4 DEFINIÇÃO DE TERMOS E VARIÁVEIS

A seguir as definições dos principais termos utilizados no decorrer deste trabalho:

a) Agente internacional: profissional que atua com comércio exterior e representa empresas em mercados internacionais com a venda de seus produtos, mediante pagamento de comissão sobre o valor da operação, podendo chegar a executar ainda outras atividades, como procedimentos aduaneiros, inspeção de embarque e desembarque, etc. (SEIFRIZ, 2002).

b) Escritório de vendas: é a implantação, no mesmo país ou no exterior, de um local que pode, de forma isolada ou em parceria com empresas brasileiras ou estrangeiras, comercializar os produtos da empresa produtora/exportadora (KRAUS, 2000).

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d) Estratégias de internacionalização: são as formas de como a internacionalização se dará, a partir do momento em que uma empresa decidiu-se a lançar-se ao mercado exterior, definindo as alternativas desse processo, que obrigatoriamente passam pela determinação da relação risco-investimento a ser assumida (CASSAR, 2004).

e) Internacionalização: a internacionalização será entendida, neste estudo, como um processo gradativo, no qual uma empresa produtora exportadora se organiza internamente ou com outras empresas e, ao longo do tempo, amplia seu envolvimento e comprometimento com o mercado externo, com seu grau de comprometimento podendo variar de reduzido a elevado (KRAUS, 2000).

f) Modelo: basicamente consiste na especificação de um conjunto de relações e inter-relações de um sistema em termos verbais, matemáticos ou físicos, de forma suficientemente clara e explicita que possibilite o estudo de seu comportamento sobre uma variedade de circunstancias (TEIXEIRA apud KRAUS, 2000).

g) Organização: segundo Sandroni (1994), é o conjunto de relações de ordem estrutural (direção, planejamento, operação e controle) que mantém uma companhia em funcionamento, consistindo num sistema por meio do qual os desempenhos pessoais são operacionalizados e coordenados.

1.5 ORGANIZAÇÃO DO ESTUDO

O trabalho está estruturado em seis capítulos.

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A revisão da literatura será vista no segundo capítulo, onde após uma apreciação geral da teoria, serão destacados o comércio e a competitividade internacional, assim como o processo de internacionalização de empresas, com realce para o contexto do ambiente externo brasileiro e para o setor de fundição do país.

No terceiro capítulo, serão apresentados os procedimentos metodológicos utilizados para as atividades de pesquisa.

Em seguida, no quarto capítulo, serão apresentados a empresa, seu processo de internacionalização e seus aspectos econômicos e financeiros, assim como a análise dos dados obtidos a partir do estudo de caso, que atenderão aos critérios de análise e interpretação previamente definidos, de forma a procurar contribuir para a melhor compreensão do problema de pesquisa.

O quinto capítulo apresentará as conclusões deste estudo, além de enfrentar o desafio de propor recomendações para futuros trabalhos neste campo de conhecimento.

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Neste capítulo apresenta-se a revisão da literatura referente ao tema em estudo, onde se procurará descrever o passado recente e a atualidade dos ambientes de comércio e de competitividade internacional, com destaque para o posicionamento do Brasil e do setor de fundição frente a eles. Não menos importante, também, é compreender-se o processo de internacionalização das empresas e os fatores que condicionam o seu grau de comprometimento com o mercado externo.

2.1 COMÉRCIO INTERNACIONAL

O comércio entre países já existe há milhares de anos, muito antes de Cristo, sendo que a primeira civilização que se tem notícia, a Suméria, situada ao sul da Mesopotâmia, atual Iraque, por volta de 4.000 a.C., possuía uma ampla rede de contatos externos, tendo desenvolvido, inclusive, uma espécie de comércio inter-regional. Outra grande civilização, a Romana, por exemplo, ao mesmo tempo em que se expandia, conquistando novos territórios, construía estradas ligando suas cidades, procurando não apenas tornar o acesso entre elas mais rápido e confortável, como também intensificar as trocas de mercadorias.

Durante as Cruzadas, a partir do século XI, na tentativa de reconquistar para os cristãos as terras sagradas em posse dos muçulmanos, os europeus perseguiam tanto objetivos militares e religiosos como comerciais, pois encontraram no Oriente artigos e especiarias muito apreciados em seus países de origem, o que levou o comércio do velho continente no Mediterrâneo a renascer. Com o passar dos séculos, surgiram novas rotas interligando as principais cidades da Europa e os ganhos advindos das trocas mercantis fortaleceram vigorosamente o Estado e a burguesia.

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mercantilismo, caracterizada por Estados extremamente protecionistas e intervencionistas, que entendiam a centralização como a única alternativa para conquistar mais mercados e proteger os seus interesses comerciais.

De acordo com Dias (2004), o período entre aproximadamente 1.500 e 1.750, ficou conhecido como o da “Revolução Comercial”, sendo fundamental para o estabelecimento de uma economia mundial e para a consolidação desta nova forma de organização política. Do ponto de vista do comércio internacional, foi nesta época que se estabeleceram as bases conceituais de todas as futuras teorias de comércio exterior estudadas e colocadas em prática até os dias atuais, as quais ajudaram o Estado Nacional a se organizar e a se tornar o principal agente econômico no plano global.

Para se contrapor ao mercantilismo, que foi a primeira teoria de comércio exterior elaborado pelo homem, surgiram no século XVIII alguns pensadores que pregavam a diminuição da intervenção estatal e mais liberdade para os comerciantes e suas empresas estimularem o desenvolvimento econômico dos países. Esta nova doutrina, chamada de liberalismo, tinha como base a livre iniciativa individual e a concorrência, sendo também conhecida como laissez-faire (deixar-fazer).

No liberalismo, o Estado deveria se ater apenas as questões que lhe são afins, referentes a defesa da soberania da nação, de interesse coletivo da sociedade e onde a iniciativa privada, por não antever lucro, não desejasse atuar. O principal autor do liberalismo foi o escocês Adam Smith, considerado o fundador da economia clássica. Smith foi o pai da teoria da vantagem absoluta, cujo princípio determinava que os países deveriam se especializar em produzir somente as mercadorias nas quais fossem mais competitivos e produtivos, importando o que não apresentasse esta vantagem.

Na defesa extremada da liberdade de iniciativa, Smith (2002), chegava a ponto de afirmar, isto há três séculos atrás, que um mercador não é necessariamente cidadão de qualquer país, sendo indiferente para ele o local em que exerce o comércio, podendo, a qualquer momento, remover seu capital e com ele toda indústria que suporta, de um país para outro. O economista escocês também analisou os efeitos da divisão do trabalho sobre a produtividade, assim como descreveu que os interesses individuais seriam harmonizados por uma “mão invisível”.

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teoria das vantagens comparativas, conceito que buscava o equilíbrio nas relações de trocas entre as nações, de maneira a que todas pudessem se beneficiar do comércio exterior.

Nos tempos atuais, um fervoroso defensor do livre comércio é o americano Paul Krugman, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), renomada instituição de

ensino norte-americana, ao destacar como vantagens do comércio exterior para os países os ganhos adicionais de economia de escala e as oportunidades de aprendizagem e inovação para as empresas. Conforme Krugman e Obstfeld (1999), o protecionismo, manifestado por meio de tarifas, distorce os incentivos econômicos, tanto dos produtores quanto dos consumidores, enquanto o livre comércio não somente elimina essas distorções como também aumenta o bem-estar nacional.

O comércio internacional foi enormemente impulsionado com o advento da globalização, que provocou significativas mudanças estruturais ao redor do mundo, tornando as nações cada vez mais interdependentes e praticamente eliminando fronteiras. O interesse crescente pelo mercado mundial pode ser visto, claramente, pelo volume de comércio, que ano a ano quebra recordes, trazendo divisas para os países e enriquecendo as suas empresas.

2.1.1 Abertura Comercial

Apesar dos inúmeros benefícios apontados, na teoria, pelos autores citados anteriormente e tantos outros, o livre comércio, na prática, é algo raro nas relações entre os países, independente deles serem ricos ou pobres. A tendência majoritária entre as nações é proteger determinados setores locais, sejam eles estratégicos ou pertencentes a grupos influentes e poderosos, freqüentemente em detrimento de regras equânimes junto a outros países ou mesmo de possíveis vantagens para as suas populações.

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O período compreendido entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial foi marcado por forte protecionismo, com elevações de tarifas aduaneiras por parte dos países e conseqüentes retaliações, com destaque para as desvalorizações cambiais. Esse quadro começou a mudar após o fim da Segunda Grande Guerra.

De acordo com Carvalho e Silva (2004), Estados Unidos e Inglaterra, nações vencedoras no conflito, ainda durante os combates, traçaram planos que trouxessem a prosperidade e o desenvolvimento e evitassem novos desentendimentos. Assim, em 1944, a conferência de Bretton Woods deveria originar três organizações internacionais, o Fundo Monetário Internacional (FMI), O Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird) e a Organização Internacional do Comércio (OIC).

Por resistência do congresso norte-americano, que não a aprovou, somente as duas primeiras, efetivamente, foram criadas. Entretanto, em 1947, foi firmado por 23 países um acordo provisório, com as suas negociações acontecendo em Genebra, chamado de Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (Gatt - General Agreement on Tariffs and Trade) que, embora

não tivesse status de organização, trataria de tarifas tributárias e regras de comércio internacional. Este tratado continuaria a, essencialmente, procurar liberalizar o comércio internacional, através de rodadas de negociação, que aconteceriam com determinado espaçamento de tempo, adicionando novos acordos aos já existentes.

Foi através do esforço do Gatt em aproximar interesses divergentes rumo ao entendimento, nas suas sete rodadas, entre 1947 e 1993, que foram estabelecidas regras básicas para o comércio mundial. O seu princípio básico, em favor do multilateralismo, era a cláusula da Nação Mais Favorecida (NMF), que obrigava os países que faziam parte do acordo a, na eventualidade de fazer alguma concessão a algum outro membro, estender este benefício automaticamente a todos os demais.

O Gatt, no entanto, por ser um tratado provisório, não possuía poder suficiente para estabelecer sanções aos países que desrespeitassem suas determinações. Para solucionar este problema, em 1995, foi criada a Organização Mundial do Comércio (OMC). A OMC, nas palavras de Krugman e Obstfeld (1999), ao contrário do Gatt, que não tinha meios para fazer cumprir suas decisões, permitia aos países aplicar retaliações às nações que ferissem os princípios da organização, por meio da “solução de entendimento nas disputas”, em julgamentos realizados em muito menos tempo.

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confiabilidade. Suas normas são fruto de exaustivas negociações e sempre instituídas através do consenso entre os Estados, que evidenciam a necessidade da existência de um mecanismo regulador global.

Nesse momento é importante ressaltar como medir a abertura comercial de um país. Segundo Carvalho e Silva (2004), o grau de abertura comercial serve para fazer comparações internacionais, ao se verificar que, quanto maior é o valor deste indicador para uma nação, mais ela faz transações com o exterior e, conseqüentemente, maior é a proporção de mercadorias importadas e exportadas em relação ao seu Produto Interno Bruto (PIB).

Segue a fórmula de cálculo:

{[(X + M)/2]/PIB} * 100, onde: X = exportação M = importação

PIB = Produto Interno Bruto

Fonte: Banco Mundial e FAO (apud CARVALHO; SILVA, 2004, p. 106)

Este grau de abertura varia de país para país, de acordo com uma série de fatores, como a sua cultura de comércio exterior, ideologia política dos governantes, fragilidade ou força de setores de sua economia, poder de influência de determinados grupos locais, etc. O fato evidente é que, no processo de abertura comercial, os Estados perdem autonomia para definir suas políticas internas perante outros mercados, porque se submetem a mecanismos multilaterais, contudo, devido a interdependência entre os países, hoje bem maior, a cooperação internacional e a abertura comercial ainda parecem ser os melhores caminhos para a prosperidade.

A moderna teoria econômica defende que os ganhos da abertura e do livre comércio suplantam significativamente os riscos envolvidos, como, por exemplo, o da competição externa ameaçar a sobrevivência de determinados setores nacionais e forçar outros a uma especialização onde o progresso técnico é mais lento e o valor agregado é menor.

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Além desses argumentos, existem muitos outros favoráveis a abertura, como o aumento da diversidade de mercadorias, já que nenhum país consegue produzir tudo o que consome, e os ganhos tecnológicos, que atualmente se constituem no principal motor do crescimento, ao estimular as empresas a buscarem incrementar a sua produtividade. Mais do que fazer uso eficiente dos fatores de produção e desenvolver capacidade de inovação tecnológica, a abertura ainda propicia o contato das empresas, em virtude da maior interação e integração internacional, com outro grande diferencial competitivo do mundo moderno, as melhores práticas de gestão.

De acordo com Caves, Frankel e Jones (2001), são as comparações de custos que determinam se um país irá produzir e exportar produtos de maior valor agregado ou agrícolas e minerais, pois as nações diferem entre si em suas tecnologias, clima e níveis de capacidade técnica, assim como em seus suprimentos relativos de fatores primários, como, por exemplo, mão-de-obra. Algumas atividades produtivas necessitam de grande escala de produção para reduzir custos, ocorrendo, portanto, em países de grande extensão territorial. Os autores concluem afirmando que foi a experiência histórica que condicionou as forças de trabalho das nações a adquirirem diferentes habilidades, conferindo-lhes vantagem na produção de determinadas mercadorias em detrimento de outras.

A respeito dos benefícios, alguns já mencionados, criados pela abertura dos mercados, vale assinalar que eles encontram clima mais propício para serem aproveitados na sua plenitude quando o Estado ampara o seu setor produtivo, oferecendo um ambiente macroeconômico equilibrado, regras de investimento claras, estáveis e harmônicas, crédito abundante e barato, infra-estrutura eficiente, legislação trabalhista moderna e tributação sem exageros.

Perante este cenário, o estímulo advindo da competição internacional permite as empresas nacionais se adaptarem às novas condições para enfrentar rivais estrangeiros mais competitivos. Na eventualidade de falhas na sua gestão ou dificuldades para se adaptar a este novo ambiente, a firma que fecha libera mão-de-obra para setores onde o país possui maiores vantagens diante da concorrência.

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Corroborando isso, conforme Fiorati (apud Ramos, 2004, p.162), os países são

insuficientes economicamente por si mesmos, o que justifica, na atualidade, a inserção de suas economias no comércio internacional, que é uma das formas mais rápidas de se gerar crescimento econômico e riqueza. O comércio exterior incrementa a produção, o emprego e a renda, com reflexos principalmente no nível educacional e, automaticamente, na melhoria da qualidade de vida da população.

O livre comércio, defendido ferrenhamente pelas nações ricas, muitas vezes de forma agressiva e sem oferecer muito em troca, expõe os países em desenvolvimento a flutuações econômicas, transmitindo instabilidades. Mesmo assim, é consenso hoje de que ele tem fortes efeitos distributivos, beneficiando a alguns e prejudicando a outros atores econômicos, havendo, no final, um ganho agregado para economia como um todo.

A abertura comercial, apesar de todas as incertezas e desconfianças, provou ainda se constituir na melhor forma de um país crescer e se desenvolver, ao se envolver no comércio com outros países, por mais que a história tenha provado que, na prática, este consenso transpareça bem menos.

2.1.1.1 Histórico do Processo de Abertura Comercial no Brasil e no Mundo

Para melhor entender o complexo processo de abertura comercial por qual passou o mundo nas últimas décadas, resolveu-se traçar a sua evolução em paralelo com a abertura promovida no Brasil, sempre contextualizando o ambiente econômico em que tais movimentos ocorreram e levaram a economia mundial e a do Brasil a esta nova realidade. Definiu-se, então, que o período de tempo a ser abordado mais detalhadamente iniciaria na década de 50 do século XX, por entender-se que possibilitaria a compreensão das transformações mais relevantes por quais passou o mercado global.

Os anos 50 são lembrados internacionalmente por negociações no âmbito do Gatt (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio) que não apresentaram avanços significativos quanto a liberalização comercial dos mercados e, na esfera nacional, a marca mais importante foi o forte planejamento estatal do Plano de Metas, do governo Juscelino Kubitschek, que originou amplos projetos estatais de infra-estrutura. De acordo com Bocchi et al. (2005), o Estado

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com participação hegemônica do capital internacional na produção manufatureira, reflexo da estratégia de movimentação das grandes corporações estrangeiras rumo a transnacionalização.

A década de 60 lançou as bases do chamado “milagre brasileiro”, após o golpe que levou ao poder os militares, que assumiram depois de um período altamente instável politicamente e de recessão econômica, adotando um modelo de desenvolvimento dependente e associado ao capital estrangeiro. O país e sua produção industrial cresceram intensamente a partir de 1967, beneficiados pela significativa ampliação do comércio mundial e dos fluxos financeiros internacionais, e o Brasil aproveitou este cenário para aumentar sua abertura comercial e financeira em relação ao exterior, ao mesmo tempo em que os empréstimos engordavam o seu endividamento externo.

Recém saídos de uma década sem muitos resultados expressivos nas negociações comerciais, fora o aumento do número de signatários do Gatt e sua preocupação com o desenvolvimento econômico, os anos 70 começam marcados, principalmente, por eloqüentes mudanças na economia do planeta, como uma série de ataques especulativos e a conseqüente modificação do padrão monetário mundial, esta última derivada do colapso do Sistema de

Bretton Woods. O mundo também assistiu atônito a duas crises do petróleo, o endividamento

crescente por parte dos então chamados países do “3º Mundo” para sustentar seus déficits em conta corrente e seus questionáveis modelos de desenvolvimento, mas também presenciou o relativo sucesso da Rodada Tóquio de liberalização comercial, que apresentou relevantes progressos na redução de tarifas.

Para Baumann et al. (1998) a Rodada Tóquio foi um marco, porque após ela o

comércio de produtos manufaturados, especialmente o intra-industrial, cresceu aceleradamente, superando um período de desaquecimento, em razão da estratégia global das corporações transnacionais e da recuperação das economias dos países industrializados. No contexto nacional, nesta década, apesar de alguns anos de recordes de crescimento do PIB, o país foi duramente engolfado pela amplitude que atingiram as crises mundiais e as suas repercussões internas provocaram grandes desequilíbrios, como déficits nas transações correntes, agravados pela escolha feita pelos governantes da época, de transformar a estrutura industrial via financiamento internacional, mesmo que ao custo de déficits comerciais e aumento da dívida externa.

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flutuantes. Os anos 80, assim, iniciaram com a diminuição generalizada do ritmo do crescimento mundial.

Necessitando de divisas para honrar seus compromissos, os países em desenvolvimento se depararam, nesse momento, com o pior dos cenários, ao passarem a exportar menos devido à expressiva redução do crescimento das nações industrializadas, além de que a diminuição da demanda mundial provocou a queda dos preços dos seus principais produtos, basicamente commodities. Outro fator negativo foi o fato de que as economias mais

ricas intensificaram ações protecionistas.

Nesse ponto é importante notar o quanto os desajustes financeiros prejudicaram o livre comércio mundial, com efeitos mais perniciosos para as nações emergentes. De acordo com Krugman e Obstfeld (1999), comentando sobre esse instante histórico, como os países menos desenvolvidos dependem da exportação de produtos agrícolas ou matérias-primas, com preços sensíveis à demanda dos mercados internacionais, as ações protecionistas que os países ricos tomaram, não somente fizeram o preço de suas mercadorias baixarem como tornaram mais difícil vender nos mercados dos países industrializados.

Em 1982, o México anunciou sua moratória da dívida externa, pela absoluta falta de reservas em seu Banco Central. O país era o segundo maior devedor dentre os países em desenvolvimento, atrás apenas do Brasil, que para também não ser tragado para o abismo, pediu socorro ao FMI. Estava começando, desta forma, então, o que os economistas brasileiros vieram a chamar de “Década Perdida”, marcada pela estagflação, ou seja, estagnação econômica com inflação (no caso brasileiro, hiperinflação).

As raízes do enorme endividamento brasileiro não foram decorrentes apenas dos empréstimos tomados para financiar seus déficits em conta corrente durante a crise do petróleo, mas também por decisões equivocadas dos governos da época, que mantiveram sua política de substituição de importações em paralelo com obras faraônicas, a custo de endividamento externo e do aumento da vulnerabilidade do país.

Ainda nos anos 80, como lembra Cardoso (1995), o comércio mundial, após um início de década conturbado, esboçou uma reação, que pode ser atribuída a recuperação econômica dos países industrializados. A autora destaca que o bom desempenho da balança comercial brasileira, em 1984, acabou sendo resultado do sucesso da política de promoção das exportações e da maturação de projetos de substituição de importações, que tiveram início na década anterior.

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impuseram ajustes às combalidas economias dos devedores. O Brasil, particularmente, reduziu os subsídios às exportações, impôs limites às importações, adotou restritivas políticas monetárias e fiscais, assim como fez uso do câmbio para tentar conter a inflação. Lamentavelmente, no entanto, o país não conseguiu cumprir a maioria dos compromissos assinados e ainda assistiu a sua inflação fugir do controle.

Em 1986, no balneário uruguaio de Punta del Este, teve início a mais longa rodada de negociações da história do Gatt, a Rodada Uruguai, que estendeu-se até 1994. Segundo Maia (2003), além de sua duração, esta rodada também se destacou pelo número recorde de participantes (116) e por ter seu foco de negociações ampliado, não se limitando tão somente a mercadorias, e apresentou, como seus maiores entraves, a comercialização de produtos agrícolas e serviços.

No curto espaço de tempo entre 1987 e 1988, já no governo Sarney, o Brasil solicitou dois pedidos de moratória. Frustrando as expectativas dos credores, as nações devedoras se mostraram incapazes de pagar suas dívidas, fazendo com que, em 1989, os Estados Unidos promovessem o Plano Brady. Ele permitiu aos países devedores obterem perdão de parte de seus compromissos que, de qualquer forma, ainda se constituíam num pesado ônus para o pleno desenvolvimento destas nações. Somente em 1994 o Brasil, através deste plano, trocou a sua dívida antiga por novos papéis, com deságio e alongamento dos prazos de vencimento.

Em paralelo a esses acontecimentos, os brasileiros também acompanharam, aflitos, diversas tentativas heterodoxas para se domar a inflação e estabilizar a economia, como a adoção de novas moedas, políticas salariais, controle de preços através de congelamento e a sucessão de diversos ministros da economia, provavelmente um dos cargos públicos mais rotativos naqueles tempos. Por outro lado, o Brasil iniciou, em 1988, um novo processo de liberalização comercial, visando, acima de tudo, aumentar a competitividade da indústria nacional.

Este estímulo à abertura, para Baumann et al. (1998), inaugurou-se com a chamada

Nova Política Industrial, que objetivava a modernização e o aumento da competitividade do parque industrial brasileiro, propondo benefícios fiscais como a isenção dos impostos de importação e facilidades na compra de bens de capital de origem interna ou externa, assim como medidas para a desburocratização dos trâmites de exportação.

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econômico, muitas delas tremendamente impopulares, como o confisco dos depósitos à vista e aplicações financeiras, que pretendiam enfraquecer a demanda e controlar a inflação.

Uma medida em especial, promovida pelo presidente que viria a sofrer impeachment

em 1992, mexeu com os alicerces da competitividade da economia brasileira, a aceleração da abertura já em curso. Através de uma brusca redução das tarifas de importação, necessária naquele momento, mas de intensidade talvez inconseqüente, instalou-se uma profunda reestruturação produtiva no Brasil, pondo fim, desta maneira, a uma política nacionalista de desenvolvimento, baseada na proteção do mercado interno.

Dentre algumas das audaciosas e, porventura, imponderadas novidades que faziam parte de política comercial do novo governo, Cardoso (1995) salienta a introdução de uma taxa de câmbio flutuante, a eliminação de restrições quantitativas ao comércio externo e a redução significativa das tarifas alfandegárias.

No plano internacional, iniciou a ganhar força, no começo da década de 90, a integração comercial e econômica dos países. Criaram-se blocos como o NAFTA e o MERCOSUL, inspirados no bem sucedido modelo da União Européia. As principais vantagens ambicionadas com estas iniciativas eram incrementar o comércio entre os países membros, por meio de facilidades para intercâmbio de mercadorias, capitais e serviços que, em alguns casos, poderiam evoluir para a livre circulação de mão-de-obra, integração macroeconômica e moeda comum, e sendo administrados, em última instância, por autoridades supranacionais.

Maia (2003) observa que, basicamente, a finalidade dos blocos econômicos é desenvolver o comércio de determinada região, eliminando barreiras alfandegárias e promovendo o bem-estar de seus povos. Particularmente para o Brasil, o MERCOSUL, apesar dos argumentos pessimistas reproduzidos, permitiu que as exportações do país crescessem expressivamente para as outras nações do bloco.

Também neste momento se consagraram os mandamentos do “Consenso de Waschington”, destinado aos países em desenvolvimento e que era, basicamente, um receituário de reformas econômicas que objetivavam diminuir o tamanho do Estado, com medidas como privatizações, liberalização dos mercados de bens e capitais e sua desregulamentação. Amplamente incentivados pelas nações ricas e pelo FMI, esses pressupostos neoliberais procuravam trazer um pouco de racionalidade na gestão das economias endividadas.

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economistas liberais ligados, na sua maioria, à Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio e ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), seguiu, em grande parte, a cartilha do Consenso. Na busca pelo estabelecimento do equilíbrio de suas contas, o governo abriu a economia, privatizou, liberou mais rapidamente as tarifas comerciais, aumentou os juros e valorizou o câmbio.

Teve seu desenlace final, no ano de 1993, a Rodada Uruguai que, sugere Nasser (2003), marcou o início de uma nova fase do Sistema Multilateral de Comércio (SMC), tendo se tornado, seguramente, a rodada de negociações que trouxe alterações mais importantes, de diversas naturezas. Dentre estas alterações, o autor destaca três: reforço da estrutura institucional do SMC, ampliação do âmbito material de suas normas e aumento do controle multilateral sobre as políticas comerciais nacionais.

No decorrer das negociações para liberalização comercial, segundo Caves, Frankel e Jones (2001), concomitantemente ao sucesso da redução multilateral das tarifas, ocorreu a substituição destas por outras formas de restrições comerciais. A Rodada Uruguai registrou um sério esforço internacional para interromper este processo, não obstante o sucesso ainda não estar garantido.

No final de 1994 eclodiu a primeira grave crise da década de 90, novamente no México, com o mundo todo sendo tragado pelo “Efeito Tequila”. Apresentando seguidos déficits em transações correntes cobertos por hot money e sobrevalorização do peso, este país

levou os investidores estrangeiros a temer seu calote, sentimento que só aumentou com a fuga de capitais em direção aos títulos americanos, que ofereciam mais segurança e remuneração crescente. O governo mexicano, então, desvalorizou sua moeda e recebeu uma ajuda de emergência de US$ 50 bilhões, organizada pelo governo dos Estados Unidos e pelo FMI.

Esta crise teve repercussões mais graves nos países em desenvolvimento que, com variações de intensidade, eram vistos como economias com vulnerabilidades similares à mexicana. No Brasil, por exemplo, as conseqüências foram queda acentuada das ações e elevação dos juros, mas a crise não teve maiores conseqüências, porque o país detinha um bom volume de reservas e suas exportações eram mais diversificadas.

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também com serviços e direitos de propriedade intelectual, com poder para supervisionar as políticas comerciais nacionais.

Para Nasser (2003), todavia, se um balanço geral aponta uma maior submissão das relações comerciais internacionais ao primado do direito e para um avanço da liberalização, os benefícios decorrentes disso ainda não são eqüitativamente distribuídos entre os participantes da OMC. Em especial, se questiona até que ponto os interesses dos países em desenvolvimento têm sido atendidos por meio deste novo regime jurídico aplicado às trocas internacionais.

No mesmo ano de 1995, assumiu no Brasil o presidente Fernando Henrique Cardoso, ex-ministro da Fazenda de Itamar, que deu prosseguimento ao esforço de recuperação da credibilidade do país. O aumento da confiança internacional, advinda desse movimento, fez com que o governo acelerasse o programa de privatizações, incentivasse fusões e aquisições de empresas, tendo como resultado um crescimento extremamente significativo dos investimentos diretos estrangeiros. As altas taxas de juros também trouxeram muito capital especulativo, o já mencionado hot money.

Neste exato ano, depois de um longo período, o Brasil voltou a ter déficit em sua balança comercial. Ao mesmo tempo em que os investidores estrangeiros injetavam capital produtivo e especulativo no país, os juros permaneciam estratosféricos e o câmbio sobrevalorizado. Frente a um cenário extremamente desfavorável, em termos de conjuntura macroeconômica, as empresas brasileiras se viram obrigadas a se modernizar, cortar custos e se tornar mais competitivas. Houve uma verdadeira revolução no meio empresarial, que se viu com dificuldades para exportar e ameaçado pelo aumento das importações e pela entrada de novos concorrentes.

Sobre este processo de abertura, Baumann et al. (1998), chamam a atenção para o

fato de que o Brasil reduziu a proteção a sua indústria num momento em que o país, ao contrário de seus vizinhos, já havia atingido um grau de maturidade industrial compatível à sobrevivência de parte expressiva de sua indústria. Ressalva, porém, que a ocasião não era a mais adequada, visto a delicada situação macroeconômica, que combinava fatores nefastos, como valorização da moeda e altas taxas de juros, sem contar a nem sempre eficiente diplomacia econômica.

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