A IMPORTÂNCIA DA ÁREA DE RELEVANTE INTERESSE ECOLÓGICO FLORESTA DA CICUTA (RJ) NA CONSERVAÇÃO DO BUGIO-RUIVO (Alouatta guariba clamitans Cabrera, 1940)

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A IMPORTÂNCIA DA ÁREA DE RELEVANTE INTERESSE

ECOLốGICO FLORESTA DA CICUTA (RJ) NA CONSERVAđấO DO

BUGIO-RUIVO (Alouatta guariba clamitans Cabrera, 1940)

1 SANDRO LEONARDO ALVES 2 ANDRÉ SCARAMBONE ZAÚ

  

Laboratório de Ecologia Florestal, Departamento de Ciências Ambientais, Instituto de Florestas, Universidade Federal Rural

do Rio de Janeiro, BR 465, Km 07, Seropédica / RJ, CEP: 23890-000.

  

RESUMO: ALVES, S. L.; ZAÚ, A. S. A importância da Área de Relevante Interesse Ecológico

Floresta da Cicuta (RJ) na conservação do bugio-ruivo (Alouatta guariba clamitans Cabrera,

1940). Revista Universidade Rural: Série Ciências da Vida, Seropédica, RJ: EDUR, v. 25, n.1, p. 41-

48, jan-jun, 2005. Este trabalho apresenta informações sobre a população de bugios, Alouatta guariba

clamitans, na ARIE Floresta da Cicuta. Avalia-se a importância desta unidade de conservação, para a

preservação deste primata na região. Foram registrados o comportamento alimentar de quatro grupos da

espécie e a densidade populacional. As observações ocorreram de abril a dezembro/2002 e de junho a

novembro/2003. Estima-se a presença de 26 grupos (cerca de 150 indivíduos). Os resultados atestam a

importância desta unidade de conservação para a manutenção daquela que pode ser umas das últimas

populações de A. g. clamitans na região do Vale do Paraíba.

  Palavras-chave: Alouatta fusca, unidade de conservação, ARIE, fragmentação, Floresta Atlântica.

ABSTRACT: ALVES, S. L.; ZAÚ, A. S. The importance of “Floresta da Cicuta” area of relevant

ecological interest for the conservation of the brown howler monkey ( Alouatta guariba

clamitans CABRERA, 1940). Revista Universidade Rural: Série Ciências da Vida, Seropédica,

RJ: EDUR, v. 25, n.1, p. 41-48, jan-jun, 2005. This work present brown howler monkeys population data,

Alouatta guariba clamitans, at the Relevant Ecological Interest Area Floresta da Cicuta. It was evaluated the

importance of this protected area in the preservation of this primate on the region. Feeding behavior, density

and other ecological aspects of four groups were registered (april to december/2002 and june to november/

2003). It was estimated the presence of 26 groups (about 150 individuals). Results certify the importance of

protected areas for the conservation of A. g. clamitans populations in the Vale do Paraíba region.

  Key Words: Alouatta fusca, protected area, AREI, forest fragmentation, Atlantic Forest.

  nas unidades de conservação (UCs). A

  INTRODUđấO

  interação animal-planta no bioma Floresta Atlântica é extremamente importante, pois

  Após cinco séculos de intensa para muitos animais, os frutos e sementes exploração, a Floresta Atlântica do Estado são essenciais como recurso alimentar e do Rio de Janeiro v em sendo para as plantas essa relação funciona continuamente reduzida. Dados do ano de como eficiente processo de fluxo gênico 2001 demonstram que 84% da cobertura entre populações (PEREIRA et al., 1995). vegetal original do Estado anteriormente

  Excelentes indicadores do equilíbrio existente foi removida no século XX ecológico, algumas espécies de primatas

  (ROCHA et al., 2003). Neste Estado, os começam a declinar logo nos primeiros remanescentes florestais constituem eventos de alteração antrópica a que são porção estratégica ao longo da zona de submetidos seus habitats. Outros tendem ocorrência da Floresta Atlântica, pois a se ajustar e se adaptar às mudanças até concentram elevada riqueza de espécies, determinados níveis (TERBORGH, 1986). apresentando várias áreas reconhecidas

  Entre os primatas da região Neotropical, o como de “Extrema Importância Biológica” gênero Alouatta Lacépède, 1799, família

  (ROCHA et al., 2003). Segundo MENDES Atelidae, se destaca por ser o de maior

  et al. (2003), a principal alternativa para a

  distribuição geográfica, habitando desde conservação desses remanescentes está o Estado de Vera Cruz, no México, até os Estados de Rio Grande do Sul, no Brasil e Corrientes, na Argentina (NEVILLE et al., 1988). Os membros deste gênero são conhecidos por bugios, guaribas, barbados ou roncadores. Alouatta guariba (=A. fusca) apresenta duas subespécies: A. g. guariba (=A. fusca fusca) Humboldt, 1812 e A. g.

  clamitans (=A. fusca clamitans) Cabrera,

  1940. A segunda ocorre na região Sudeste/ Sul de Minas Gerais e Estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (COIMBRA-FILHO, 1990). Alouatta guariba

  clamitans encontra-se enquadrada como

  “quase ameaçada” na revisão da Lista Oficial de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção (Rylands & Chiarello, 2003), como “vulnerável” na 2002

  IUCN Red List of Threatened Species

  (Hilton-Taylor & Rylands, 2002) e “possivelmente ameaçada” na Lista da Fauna Ameaçada de Extinção do Estado do Rio de Janeiro (Bergallo et al., 2000).

  Considerando a restrição de estudos sobre

  A. g. clamitans no Estado do Rio de

  Janeiro, a ausência de informações sobre aspectos básicos da ecologia desta espécie na ARIE Floresta da Cicuta e a necessidade de compreensão da importância das UCs na preservação da espécie e das conseqüências do processo de fragmentação sobre suas populações, este trabalho apresenta como objetivos: 1. Estimar a densidade da população de bugios nesta UC; 2. Caracterizar o comportamento alimentar através da determinação dos itens alimentares consumidos; 3. Avaliar o papel desta UC na conservação da espécie.

  MATERIAL E MÉTODOS

  Situada entre as Serras do Mar e da Mantiqueira, abrangendo parte dos municípios de Barra Mansa e Volta Redonda, na região do Médio Vale do Paraíba do Sul, Rio de Janeiro, a Floresta da Cicuta encontra-se atualmente protegida pelo Decreto nº. 90.792 de 9 de janeiro de 1985, estando enquadrada na categoria de Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE). Esta UC localiza-se entre as coordenadas de 22º 24’ e 22º 38’ Sul e 44º 09’ e 44º 20’ Oeste, compreendendo 131 ha. As altitudes variam entre 300 a 500 m (MONSORES et al., 1982). Na classificação de Köppen, o clima local é mesotérmico (Cwa), com inverno seco e verão quente e chuvoso, com elev ados índices de umidade. As temperaturas médias anuais variam entre 17º (julho) e 24ºC (fev ereiro) e as precipitações entre 1.000 a 1.600 mm/ano (MONSORES et al., 1982). As normais climatológicas da região indicam uma estação seca e uma estação chuvosa. A estação seca compreende os meses de maio a setembro, período de baixas precipitações e temperaturas. A estação chuvosa compreende os meses de outubro a abril, com elevadas temperaturas e concentração das precipitações. A vegetação é caracterizada como Floresta Estacional Semidecidual Submontana (IBGE, 1992). As áreas circunvizinhas são compostas de matas em estágio inicial/ médio de sucessão, antigos plantios de

  Eucalyptus spp. e pastagens. A coleta de

  dados para realização deste trabalho ocorreu em uma área de 20 ha, denominada sítio de estudo, localizado na parte nordeste da UC. A localização dos grupos de bugios ocorreu através de sinais auditivos (vocalizações e/ou movimentos de ramos), sinais visuais (avistamentos) e sinais olfativos (cheiro de fezes e urina recente). O tempo de permanência em campo durante o período de estudo foi de aproximadamente 11 horas/dia (das 07:00 às 18:00 horas). Entre abril e dezembro de 2002, o sítio de estudo foi percorrido em sua totalidade, com o objetivo de efetuar o levantamento de todos os grupos de A. g.

  clamitans existentes. A densidade

  (indivíduos/ha) foi estimada dividindo-se o total de indivíduos encontrados no sítio de estudo pelo seu tamanho (20 ha), a área máxima média de cada grupo dividindo-se o sítio de estudo (20 ha) pelo número de grupos encontrados, o número total de grupos dividindo-se a área total (131 ha) pela área máxima média de cada grupo e a população multiplicando-se a densidade pela área total (131 ha). Após nenhum outro grupo ainda não identificado ter sido encontrado, o trabalho de censo foi concluído. O estudo do comportamento alimentar foi realizado entre os meses de junho a novembro de 2003 (exceto o mês de agosto). Os grupos de A. g. clamitans do sítio de estudo foram acompanhados durante três dias por mês, totalizando 15 dias completos de observações. Os grupos foram acompanhados em seus percursos diários pela floresta. Quando um indivíduo ou um grupo era observ ado em alimentação, esta atividade foi considerada como um “registro de alimentação” (feeding

  bout). Ocorrendo deslocamento do grupo

  ou do indivíduo para um item alimentar diferente ou para outra árvore onde permanecessem se alimentando, um novo

  feeding bout era considerado (ALTMANN,

  1974; GALETTI et al., 1994). Nas observações, o item alimentar consumido era anotado seguindo a classificação: 1. folha madura (de árvore, de trepadeira ou indeterminada); 2. folha nova (de árvore, de trepadeira ou indeterminada); 3. folha em estágio de maturação indeterminado (de árvore, de trepadeira ou indeterminada); 4. flor; 5. fruto; 6. broto. Para a correta determinação do estágio de maturação das folhas, eram comparados tamanho, consistência, coloração e posição nos ramos (MENDES, 1989).

  RESULTADOS E DISCUSSÃO

  Foram encontrados quatro grupos e um indivíduo solitário de A. g. clamitans no sítio de estudo (20 ha), totalizando 24 animais. O tamanho dos grupos variou de 3 a 8 indivíduos, com média de 5,75 indivíduos por grupo. Foi possível estimar uma densidade populacional de 1,15 indivíduos por hectare. A área máxima média de cada grupo, não considerando as sobreposições entre as áreas de grupos vizinhos, foi de 5 ha por grupo. Assumindo que a densidade da população seja homogênea em toda a ARIE Floresta da Cicuta (131 ha), estima- se a presença de 26 grupos, totalizando 150 indivíduos de A. g. clamitans. É importante ressaltar que os v alores encontrados para o número total de grupos e indivíduos na área de estudo estão baseados na densidade crua, referindo-se simplesmente ao número de indivíduos ou grupos existentes numa determinada área, e não na densidade ecológica que leva em consideração a heterogeneidade da vegetação. Por este motivo, esses dados devem ser adotados com prudência, pois pode haver preferência e uso diferenciado de determinadas locais por parte dos bugios, apesar de não ter sido observado evidências a grandes variações deste tipo. O indivíduo solitário encontrado durante o lev antamento dos grupos não foi computado para análise da densidade. A densidade populacional do gênero Alouatta é variada em diversos locais e diferentes ambientes (MENDES, 1989). A. g.

  clamitans na ARIE Floresta da Cicuta

  apresentou densidade superior à maioria das densidades apresentadas em estudos sobre a mesma espécie realizados em outras UCs (Tabela 1). Apenas densidades estimadas no Parque Estadual da Cantareira (SILVA, 1981), na Reserva de Santa Genebra (CHIARELLO, 1994) e na Estação Ecológica de Caratinga (MENDES, 1989; HIRSCH, 1995) são próximas à densidade encontrada neste estudo (Tabela 1). Essas variações da densidade constatadas em diferentes localidades podem ser influenciadas por diversos fatores, entre eles: diferenças na abundância do alimento (MENDES, 1989), métodos utilizados, período de estudo (STEINMETZ, 2001) e, principalmente, tamanho e conservação da área (fragmento Um total de 60 feeding bouts foram registrados ao longo do período de estudo. Folhas foi o item alimentar mais consumido, compreendendo 81% da dieta; brotos, frutos e flores representaram 10%, 7% e 2% respectivamente. Os bugios apresentaram maior consumo de folhas maduras (51%), enquanto folhas novas foram responsáveis por 43% da dieta. Do total de folhas consumidas, 64% foram provenientes de árv ores e 26% de trepadeiras. As trepadeiras são abundantes na ARIE Floresta da Cicuta, principalmente no sítio de estudo, por se tratar de uma região exposta às mudanças

  7

  1 6,79 1,17 Estação Biológica de Caratinga, MG

  6 5,75 1,15(±0,53) ARIE Floresta da Cicuta, RJ

  5 5,83 0,18-0,22 Parque Estadual Intervales, SP

  4 5-7 0,64 Floresta Nacional de Três Barras, SC

  4 2,8 0,02-0,49 Parque Estadual do Rio Doce, MG

  3 5,7 0,92-1,49 Estação Biológica de Caratinga, MG

  2 4,9 1,19-1,77 Reserva de Santa Genebra, SP

   5,76 0,81(±0,32) Parque Estadual da Cantareira, SP

  ou floresta contínua). A Tabela. 1 demonstra que A. g. clamitans apresenta tendência em formar grupos pequenos em baixas ou altas densidades. Os tamanhos de grupos encontrados no Parque Estadual da Cantareira (SILVA, 1981), Estação Biológica de Caratinga (HIRSCH, 1995), Floresta Nacional de Três Barras (PEREZ, 1997) e Parque Estadual Intervales (STEINMETZ, 2001) são próximos ao encontrado na ARIE Floresta da Cicuta (Tabela 1).

  T AMANHO DO G RUPO D ENSIDADE (ind./ha) Á REA DE E STUDO A UTOR

  O gênero Alouatta apresenta preferências por folhas novas, pois apresentam melhor qualidade nutricional, contêm mais proteínas e carboidratos, maior digestibilidade e menos fibras em relação às folhas maduras (MILTON, 1979; NEVILLE et al., 1988; CHIARELLO, 1994). Na ARIE Floresta da Cicuta o consumo maior de folhas maduras ocorreu devido à escassez de folhas novas durante o período de estudo que correspondeu,

  metodologias e apresentarem variações nos períodos de estudo, a maioria das pesquisas realizadas sobre com portamento alimentar têm demonstrado que o consumo de folhas ocupa mais de 50% da dieta desta espécie (MENDES, 1989; CHIARELLO, 1994; GALETTI et al., 1994; LIMEIRA, 1996, entre outros). Os resultados encontrados neste trabalho indicam que A. g. clamitans apresentou uma dieta principalmente folívora, com consumo de folhas constante ao longo de todos os meses observados (Figura 1). Frutos apresentaram considerável importância na composição da dieta. Através do consumo de frutos e dispersão de suas sementes, os bugios colaboram para a manutenção e sustentabilidade em longo prazo do ecossistema florestal (CHAPMAN & ONDERDONK, 1998). GALETTI et al. (1994) observaram que 18 das 20 espécies consumidas por A. g. clamitans na Reserva de Santa Genebra, apresentaram suas sementes dispersas.

  clamitans adotarem diferentes

  abióticas e bióticas (borda da floresta). As variações temporais no consumo de itens alimentares encontradas na ARIE Floresta da Cicuta são apresentadas na Figura 1. No primeiro mês (junho), observou-se uma dieta 100% folívora. Em setembro ocorreram os primeiros registros do consumo de brotos, sendo, este item, consumido em altas proporções no mês de novembro devido à estação chuvosa que propiciou o brotamento de diversas espécies na floresta. Apesar de pesquisas sobre A. g.

  Tabela 1. Tamanho do grupo e densidade estimada em diferentes estudos sobre Alouatta guariba clamitans.

  • Autor: 1. Silva, 1981; 2. Mendes, 1989; 3. Chiarello, 1994; 4. Hirsch, 1995; 5. Perez, 1997; 6. Steinmetz, 2001; 7. Este estudo, 2004.
principalmente, aos meses da estação seca (junho-julho-setembro). CHIARELLO (1994) encontrou correlação entre a disponibilidade de folhas novas e o seu consumo por A. g. clamitans, sugerindo que a espécie consome esse item de acordo com sua oferta na floresta. O gráfico das variações temporais no consumo de folhas por A. g. clamitans na ARIE Floresta da Cicuta demonstra que, a partir de setembro, mês de transição para a estação chuvosa, o consumo de folhas novas aumentou consideravelmente, atingindo o máximo em novembro (Figura 2).

  

Figura 1. Variações temporais no consumo de itens alimentares por Alouatta guariba clamitans. ARIE

Floresta da Cicuta, 2003.

  J u n h o J u lh o S et e m b ro O ut u b ro

  N o v e m b ro

  0% 10% 20% 30% 40% 50%

  60% 70% 80% 90%

  100% % F e e d in g B o u ts

  

Folhas Brotos Frutos Flores

Figura 2. Variações temporais no consumo de folhas novas e maduras por Alouatta guariba clamitans. ARIE

Floresta da Cicuta, 2003.

  J u n h o J u lh o S e te m b ro O u tu b ro

  N o v e m b ro

  0% 10% 20% 30 %

  40 % 50% 60% 70%

  8 0% 9 0% 100 %

  % F e e d in g B o u ts

Nova Madura Indeterm inada Folhas de trepadeiras foram consumidas por A. g. clamitans na maioria dos meses de estudo deste trabalho. A espécie apresentou apenas no mês de julho uma dieta em que 100% das folhas consumidas foram provenientes de árvores

  (Figura 3). Essa observação coincide com o registrado para a mesma espécie na Reserva de Santa Genebra, onde o maior percentual de utilização de folhas de árvores para o consumo ocorreu no período julho-agosto (CHIARELLO, 1994).

  

Figura 3. Variações temporais no consumo de folhas provenientes de árvores e trepadeiras por Alouatta

guariba clamitans. ARIE Floresta da Cicuta, 2003.

  J u n h o J u lh o S e te m b ro O u tu b ro

  N o v e m b ro

  0% 10% 20% 30 % 40 % 50%

  60% 70% 80% 90%

  100% % F e e d in g B o u ts

  Árvore Trepadeira Indeterm inada

  Bicca-Marques (2003), em recente publicação sobre ecologia e conservação de primatas em fragmentos, relata estudos que demonstram a capacidade de sobrevivência dos bugios em habitats perturbados de variados tamanhos. Porém, o isolamento geográfico, em decorrência da fragmentação, constitui a principal ameaça a esses primatas (CHIARELLO e GALETTI, 1994). Segundo Fernandez (2004), a simples presença de uma população em um fragmento não garante sua persistência a longo prazo. A elevada densidade de A. g. clamitans estimada na ARIE Floresta da Cicuta pode acarretar em perdas na variabilidade genética ao favorecer o acasalamento entre indivíduos aparentados, levando a uma diminuição da fecundidade e da sobrevivência (Pires, 2000). Apesar da paisagem local ser composta por alguns fragmentos de menor tamanho ao redor desta UC, não se observa nenhum tipo de conectividade, o que pode reduzir ou eliminar o fluxo gênico e a possibilidade de colonização de novas áreas. Por apresentar territorialidade e hábitos arborícolas, a dispersão dos bugios fica comprometida pela capacidade de deslocamento em áreas abertas e a grandes distâncias (PIRES, 2000). Limeira (1996) alerta para as conseqüências na alimentação, pois além da fragmentação causar a perda de espécies preferidas por

  A. g. clamitans, sua dieta pode se tornar

  mais fibrosa e/ou tóxica, com altas concentrações de compostos secundários. Devido ao processo de colonização ocorrido no Vale do Paraíba, os principais remanescentes de Floresta Atlântica se encontram em propriedades particulares, sujeitos à devastação. Com o acelerado processo de fragmentação nesta região, ações planejadas para a preservação de

  A. g. clamitans devem ser realizadas,

  Conservation biology: the science of scarcity and diversity. Sunderland: Sinauer

  brasileira. Departamento de Recursos

  IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Manual técnico da vegetação

  Revista Brasileira de Biologia, v. 50, n. 4, p. 1063-1079, 1990.

  COIMBRA-FILHO, A. F. Sistemática, distribuição geográfica e situação atual dos símios brasileiros (Platyrrhini-Primates).

  Revista Nordestina de Biologia, v. 6, n. 2, p. 71-104, 1989.

  MENDES, S. L. Estudo ecológico de Alouatta fusca (Primates : Cebidae) na Estação Biológica de Caratinga, MG.

  primates – vol. 2. Contagem: Littera Maciel, 1988. p. 349-453.

  (eds.). Ecology and behavior of neotropical

  Associates, 1986, p. 330-344. NEVILLE, M. K.; GLANDER, K. E.; BRAZA, F.; RYLANDS, A. B. The howling monkeys, Genus Alouatta. In: MITTERMEIER, R. A.; RYLANDS, A. B.; COIMBRA-FILHO, A.; FONSECA, G. A. B.

  Relatório técnico, 1982, 17 p. TERBORGH, J. Keystone plant resources in the tropical forest. In: Soulé, M. E. (ed.).

  evitando que as últimas populações atinjam o limite de irreversibilidade. Áreas como a ARIE Floresta da Cicuta dev em ser mantidas e preservadas, se possível convertendo-as em UCs particulares (RPPNs).

  Relato da situação ambiental com vistas à preservação da área da Floresta da Cicuta.

  MONSORES, D. W.; BUSTAMANTE, J. G. G.; FEDULLO, L. P. L.; GOUVEIA, M. T. J.

  Revista Brasileira de Biologia, v. 41, p. 897- 909, 1981.

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  ALTMANN, J. Observational study of behavior: sampling methods. Behaviour, v. 49, p. 227-267, 1974.

  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  são necessárias para responder questões sobre a capacidade de suporte desse pequeno fragmento, estado genético da população e ocorrência de colonização de novas áreas.

  clamitans. Por outro lado, novas pesquisas

  A população de A. g. clamitans na ARIE Floresta da Cicuta apresentou alta densidade (1,15 ind./ha), sendo o valor estimado superior à maioria dos encontrados para a mesma espécie em outras UCs e próximo apenas aos encontrados no Parque Estadual da Cantareira e Reserva de Santa Genebra, em São Paulo, e Estação Biológica de Caratinga, em Minas Gerais. A dieta foi composta principalmente por folhas maduras provenientes de árvores, porém brotos, frutos, flores e folhas jovens foram consumidos quando disponíveis na floresta. A ARIE Floresta da Cicuta apresenta extrema importância na manutenção de uma considerável população de A. g.

  CONCLUSÕES

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  PIRES, A. S. Efeitos da fragmentação

  crônicas de Biologia, conservação da natureza e seus heróis. 2. ed. Curitiba:

  FERNANDEZ, F. A. S. O poema imperfeito:

  biodiversidade nos grandes remanescentes florestais do Estado do Rio de Janeiro e nas restingas da Mata Atlântica. São Carlos: RiMA, 2003, 160 p.

  286-287. ROCHA, C. F. D.; BERGALLO, H. G.; ALVES, M. A. S.; SLUYS, M. V. A

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  PEREIRA, M. V. L.; PEIXOTO, A. L.; DI MAIO, F. R. Plantas utilizadas como recurso alimentar pela fauna silvestre na represa de Ribeirão das Lajes, Rio de Janeiro, Brasil. Revista Universidade Rural,

  Dissertação (Mestrado em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre) - Universidade Federal de Minas Gerais.

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  Editora da UFPR, 2004, 258 p.

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3º ENCONTRO DE PESQUISADORES DO PARQUE NACIONAL DA TIJUCA RELATÓRIO TÉCNICO
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