AS MULHERES NAS REDES DO TRÁFICO DE DROGAS EM ALAGOAS

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AGRADECIMENTOS

  Obrigada por cada conversa de incentivo, pelo amparo que me deram nas horas de aflição, pelos momentos de alegria e, sobretudo, pelo respeito e pela compreensão, principalmente nosmeses que antecederam a conclusão desta dissertação. Agradeço às mulheres presas por tráfico de drogas que colaboraram com este estudo, por terem aceitado meu convite e dividido comigo as suas histórias de vida, mesmo quando os Combater o mal do tráfico de drogas não pode ser reduzido a trancafiar as suas maismodestas engrenagens.

Alba Zaluar

RESUMO

  O estudo demonstra que a política antidrogas brasileira favorece o aprisionamento de traficantes pobres, em detrimento dos traficantes de maior podereconômico e político, colocando em prática a seletividade punitiva, a seletividade de gênero e a sujeição criminal, processos que permitem aos policiais escolher quem será atingido pelaJustiça Penal. A pesquisa discute ainda as condições socioeconômicas das mulheres traficantes de Alagoas, a dominação masculina a que estão submetidas nas redes criminosaslocais e o protagonismo feminino no exercício das funções no tráfico de drogas.

ABSTRACT

  O tráfico de drogas, outra vez, aparecia nasexplicações, no entanto de maneira difusa, sem aprofundamento, sempre na perspectiva de eleger uma causa para os crimes e justificar a sua consequência. Estabelece-se o Interessada em saber mais, em compreender a geopolítica das drogas, em descobrir como atuam os cartéis na América Latina, como se estabeleceram as relações do Brasil com otráfico internacional, em desvendar a lógica da repressão nas grandes cidades do país, entender os interesses que existem por trás do discurso político: tudo passou a despertarminha curiosidade.

Denis Russo Burgierman (2011) e Orlando Zaccone (2007), as quais me deram ainda mais vontade de “mergulhar” no assunto. As pesquisas de ambos compõem parte do referencial

  Aquele meninozinho que ia para a escola e a professora dizia: ó, estuda aí, se não vai ser zero, cala a boca senão eu coloco para fora de classe; ele passou a ir para aescola sem vontade porque na comunidade, ele com 15 anos tinha arma de fogo, com 15 anos ele decidia a menina que ele queria ficar, com 15 anos ele tinha odireito de deixar uma pessoa viver ou morrer, com 15 anos! O bom jogador de futebol, o bom sambista, o bom pai de família, o trabalhador habilidoso e o malandro esperto que dividia com todos essespersonagens o poder no bairro estão deixando de ser referências para o adolescente pobre que se torna um “revoltado”, aquele que não ouve ninguém, que não obedecenenhuma regra socialmente aceita.

A baixa capacidade de investigação da polícia judiciária de Alagoas pode ser verificada no seu desempenho para o alcance da chamada “Meta 2”, estabelecida por uma

  Segundo ele, não se trata apenas de não contar com determinadas habilidades ou de ser incapaz de encontrar emprego, é preciso considerar, entre outros, determinantes comodependência química, o estigma de ex-presidiário, o analfabetismo, a ilegalidade ou até a falta de dinheiro para as despesas básicas do dia a dia, desencadeadores de uma série de eventosque empurram as pessoas para a margem da sociedade. (...) eu tinha medo, o maior era o medo.[Medo de que?] por que assim, ele: não, eu gosto muito de você, mas a partir do momento que você me deixar vou fazer isso, vou fazer aquilo, aí eu tinha medo, eutemia, e o medo maior, assim, era tanto de mim e tanto das minhas filhas, de ele mexer com algo que é tudo pra mim que é as minhas filhas, entendeu?

A entrevis tada fazia parte de uma rede de traficantes, na condição de “avião”, cujo

  Neste sentido, a entrevistada que relatou a decisão pela morte da usuária que atrapalhava as vendas compara as formas de cobrança no tráfico de drogas e no mercadoformal, fazendo ver que tanto em um como em outro, o dinheiro é mais importante do que as relações sociais que o circundam. 3.3.5 Recompensa Mesmo na ponta do negócio bilionário da economia global do crime que alimenta o tráfico de drogas em todo o mundo, as mulheres entrevistadas para a presente pesquisaafirmam que o que ganharam elevou a qualidade de vida delas, uma vez que as deu condições de consumir o que nunca haviam tido chance.

Coibir o tráfico de drogas é quase sempre atuar na periferia. Pressionada a mostrar resultados na “guerra” contra o “inimigo”, a polícia vai às ruas, diariamente, à caça de

  Na análise dos dados, iremos utilizar o conceito de seletividade punitiva, que se traduz nas possibilidades legais oferecidas pela Justiça, através das leis e das normas, para que osagentes encarregados de coibir a prática criminosa elejam os sujeitos que irão ingressar no sistema penal. Através das falas dos agentes e das mulheresentrevistadas, o conceito de sujeição criminal desenvolvido por Misse (2010) nos ajudará a perceber a lógica que subsidia a perseguição que sofre determinadas pessoas, cuja trajetória sediferencia de outras por ser entendida como criminável.

Ao analisar a história das mulheres, veremos ainda como a reincidência no crime e o estereótipo de “mulher de traficante” as tornam permanentemente vulneráveis à repressão

  Para somar com o pensamento de Zaluar (2004) e Feffermann (2006), vale reproduzir a consideração de Thompson trazida por Zaccone (2007), uma vez que a maneira de atuar dapolícia, muitas vezes, interfere no grau de incriminação dos traficantes de drogas, conforme a presente pesquisa também conseguiu observar, através dos relatos das mulheres presas. (...) [O que você disse ao escrivão?] Eu contei, assim, sabe, eu estava tão nervosa pra passar o que eu passei dentro da minha casa para ele chegar naCentral falando ainda coisa comigo (...) Só que a pessoa conta, mas é que nem eu digo, a palavra da gente não vale.

Com isso, a seletividade punitiva executada pelos policiais nas ruas também define quem irá receber o “selo” de traficante ou usuário. Dependente de crack, a mulher que narra a

  Esposa de usuário de crack e mãe de um adolescente que passou a ser perseguido e agredido por policiais que o acusavam do assassinato de um colega de farda, a mulher quenarra sua história abaixo foi presa por tráfico de drogas na periferia sem nunca ter traficado, conforme explicou. Selecionadas e assujeitadas devido às representações sociais de tipos crimináveis que as engloba, e ao poder de acusação que foi delegado às instâncias policiais com o passar dasdécadas, conforme vimos até agora, durante a repressão ao tráfico de drogas, as mulheres são submetidas a agressões físicas e psicológicas que incluem a tortura.

Ao mesmo tempo, o autor alerta para a necessidade de resignificar a “repressão”, com objetivo de livrá-la do aspecto negativo já que, segundo o autor, não é possível democracia

  (...) Se eu fosse uma pessoa viciada emdrogas, que vendesse drogas, que eu vivesse no mundo das drogas, eu não taria triste não de tá aqui, porque eu sabia que eu tava pagando pelo meu erro, o que memata de eu tá aqui dentro é eu ser uma mãe de família, deixar a minha casa, meus filho abandonado por causa de um simples favor que eu fiz a uma pessoa da minhainfância. Deveríamos então supor que a prisão e de uma maneira geral, sem dúvida, os castigos, não se destinam a suprimir as infrações; mas antes a distingui-las, adistribuí-las, a utilizá-las; que visam, não tanto tornar dóceis os que estão prontos a transgredir as leis, mas que tendem a organizar a transgressão das leis numa táticageral das sujeições.

As mulheres na mira são mais uma prova de que “a guerra contra as drogas” pune os traficantes mais vulneráveis. Encurraladas entre os limites impostos por sua condição de

  Uma das consequências do crescente encarceramento é que novos atores iniciam carreira no tráfico de drogas, a exemplo de adolescentes e de mulheres cada vez mais jovens,boa parte delas para assumir papeis subalternos que exigem contato direto com as drogas nas O ingresso dessas mulheres no tráfico tem motivação variada. Tal fato gera uma série de denúncias sobre a adulteração de quantidades de drogas pelos agentes da repressão, com objetivo de prender traficantes, quasesempre na periferia, e, portanto, cumprir com a nobre tarefa de combater o tráfico.

REFERÊNCIAS

  Dispõe sobre a concessão de verba de caráter indenizatório aos policiais militares e civis que apreenderem armas de fogo e drogasilegais. Conglomerados de Homicídios e o Tráfico de Drogas em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, de 1995 a 1999.

Segurança Pública. Meta 2: A Impunidade Como Alvo: Diagnósticos da Investigação Sobre Homicídios no Brasil. Relatório Nacional da Execução da Meta 2. Brasília, 2012

  Sobre Mulheres e Prisões: Seletividade de Gênero e Universidade Federal do Rio de Janeiro, Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas, Faculdade de Direito. A Constituição e Reprodução das Redes do Mercado Informal Ilegal de Drogas a Varejo no Rio de Janeiro e Seus Efeitos de Violência.

Estudos Feministas, v. 1, n. 1, p. 135-142. 1993. Disponível em:

  Integração Perversa: Pobreza e Tráfico de Drogas. Rio de Janeiro, RJ: FGV Editora, 2004.

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