Fernando Souto Dias Neto O DIA 17 DE OUTUBRO DE 1945: UM LUGAR DE MEMÓRIA PERONISTA

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O DIA 17 DE OUTUBRO DE 1945: UM LUGAR DE MEMÓRIA PERONISTA

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2009

Fernando Souto Dias Neto

O DIA 17 DE OUTUBRO DE 1945: UM LUGAR DE MEMÓRIA PERONISTA

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área das Ciências Humanas, do

Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado

em História.

Orientador: Prof. Dr. Carlos Roberto da Rosa Rangel

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2009

Fernando Souto Dias Neto

O DIA 17 DE OUTUBRO DE 1945: UM LUGAR DE MEMÓRIA PERONISTA

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área das Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado em História.

__________________________________________________ Prof. Dr. Carlos Roberto da Rosa Rangel – Orientador (Unifra)

__________________________________________________ Prof. Ms. Alexandre Maccari Ferreira (Unifra)

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Aprovado em …...de...de...

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RESUMO

Desde a década de 1930, a Argentina passou por períodos extremamente conturbados na sua política. À época, a nação passava por um período sem democracia e de poder concentrado nas mãos de uma camada conservadora. Este trabalho tem como foco de interesse o triunfo de uma via popular, alcançada por muitas lutas, resultando na consolidação de um mito político que foi Juan Domingo Perón. O 17 de outubro, marcado como o dia de seu movimento político pelas ruas de Buenos Aires, constitui-se até hoje como data de memória para muitos cidadãos argentinos.

Palavras-chave: História Política argentina. Juan Domingo Perón. Construção do mito.

ABSTRACT

Since the 1930s, Argentina experienced periods extremely troubled in its policy, making the nation's climate became tense. The country was going through a period without democracy and concentration of power in the hands of a conservative layer. This work seeks to highlight the triumph of a popular satellite fair, achieved through many struggles and consolidation of a political myth that it was Juan Domingo Peron, and October 17. This date is marked as the day of his political movement in the streets of Buenos Aires, and even today, is present in the memory of many Argentine citizens.

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO... 6

2 REFERENCIAL TEÓRICO... 7

2.1 OS ANTECEDENTES POLÍTICOS AO PERONISMO... 8

2.2 O AVANÇO MILITAR SOBRE BUENOS AIRES: O SURGIMENTO DE UM LÍDER... 11 2.3 JUAN DOMINGO PERÓN... 15

2.4 O 17 DE OUTUBRO... 21

3 CONCLUSÃO... 28

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1 INTRODUÇÃO

A monografia produzida para a conclusão do curso tem como eixo a história política

argentina entre as décadas de 30 e 40. Percorrendo esse espaço de tempo, pretende-se extrair os

fatos que levaram à construção do mito peronista.

A questão dos radicais e de suas conquistas do aparelho político argentino, como a

incorporação de lei que permite uma maior democratização do país, são abordadas neste trabalho.

Da mesma forma, a volta dos conservadores ao poder, participando ativamente da construção do

cenário político argentino, é tema desta pesquisa.

O cenário econômico da Argentina e as questões de política internacional durante o

período de 30 e 40 também se fazem presentes nesta reflexão. Na polarização da 2ª Grande

Guerra entre nações do eixo e os aliados, exigiu-se do país uma tomada de posição. À época, a

Argentina tinha uma significativa simpatia pelo fascismo e o nazismo não parecia perturbá-la.

Através da análise dos antecedentes ao 17 de outubro, procura-se percorrer o caminho que

levou à consolidação desta data como um marco na história argentina. Para tal, leva-se em conta

os acontecimentos prévios ao fato, um grande número de simpatizantes ao peronismo e um

partido político que perdura até os dias atuais.

A pesquisa fundamentou seus dados na reunião de fontes bibliográficas. As referências

teóricas trazem tanto autores argentinos, que em profundidade abordam a história de seu país,

como adaptações brasileiras e estudos utilizando a análise dos movimentos políticos e agentes

externos a estes. Outros conceitos também deram suporte à pesquisa, como a questão do

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2 REFERENCIAL TEÓRICO

A historiografia argentina é densa e detalhista quando a questão é tratar de assuntos

políticos. Este trabalho procurou aproveitar ao máximo as fontes bibliográficas selecionadas, a

fim de que se pudesse extrair o melhor sobre a trajetória factual que este estudo percorre.

Félix Luna (1974), considerado um perito no tema em questão, auxilia-nos na construção

do eixo que situa os fatos e a cronologia dos acontecimentos, desde os confrontos políticos até o

surgimento do peronismo na Argentina.

Luís Alberto Romero (2007), em sua abordagem da história contemporânea argentina de

1916 a 1999, torna-se autor-chave para compreender as questões políticas envolvendo radicais e

conservadores. Através da análise dos acirramentos ideológicos principalmente a partir da década

de 30, Romero desvenda os fatores responsáveis pelas deturpações a que o sistema político

argentino era submetido.

A biografia oficial de Perón foi escrita por Joseph Page (1984), cuja produção textual e

método de pesquisa também inspiram o presente trabalho. Entre Page (1984) e Luna (1974) há

uma divergência nas datas do aniversário de Perón, diferenciando-se em um dia. A questão, que

pode parecer banal, torna-se importante pela sucessão dos fatos, como o dia do discurso para os

trabalhadores e o dia da demissão de seus cargos. Em minha abordagem, opto por aderir à idéia

de Page, pois se trata da biografia oficial de Perón e por ser uma obra mais atualizada, de

posicionamento mais preciso.

Alejandro Tarruela (2007) é utilizado através de fragmentos mais particulares que ajudam

na compreensão dos processos que levaram o peronismo a tomar as dimensões que tem até hoje.

Para muitos estudiosos, é muito difícil desvincular o nome de Juan Domingo Perón da política

argentina. Reforçando a figura de Perón, temos o estudo de Maria Helena Capelato (2008), que

nos mostra, através dos lugares-símbolos, como uma série de acontecimentos contribuiu para a

consolidação do personagem como principal candidato à presidência de seu país, depois de ter

conseguido uma reconhecida ascensão política, utilizando-se de inúmeras estratégias de

propaganda.

A respeito de imaginário político, utilizamos a obra de Philippe Malrieu (1995) para

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17 de Outubro, lembrado até os dias atuais na Argentina e incorporado como feriado no

calendário daquela nação.

2.1 OS ANTECEDENTES POLÍTICOS AO PERONISMO

Para podermos falar da história política argentina quanto à construção da ideologia

peronista, teremos que começar contextualizando a situação em que se encontravam as relações

de poder na Argentina.

No dia 4 de junho de 1943, através de um levante militar, tem-se a derrubada de Castillo,

que até então ocupava a presidência. De 1905 até meados da década de 40, não havia ocorrido no

país um golpe militar, o que iria mudar em 30 com a derrubada de Yrigoyen, “tirando do poder o

radicalismo para devolvê-los, depois, às forças conservadoras” (LUNA, 1974). Como é

demonstrado pelo autor nesse trecho, o radicalismo é retirado da situação e o conservadorismo é

instaurado no poder, encaminhando assim a política para um período em que vai predominar a

corrupção, com eleições fraudulentas, e uma administração de caráter progressista visando o

desenvolvimentismo e o avanço da economia nacional, inspirado nos grandes modelos

capitalistas.

Todas essas medidas irão fazer o país passar pela chamada “década infame” (período que

iria durar de 1930 até 1943). Não seria exagero nenhum dizer que a situação em que se

encontrava a nação era de miséria, desemprego, dependência econômica e alienação da cultura, o

que fazia o povo argentino criar um sentimento de descrença na democracia. Logo se negavam os

tradicionais mecanismos republicanos e toda conjuntura política em que o país se encontrava. Isto

fez com que difundisse a idéia de que o aparelho político argentino fosse encarado como uma

farsa. Com o descrédito em que se vivia, o clima deste período se camuflava em frases, gestos e

personagens, enquanto a economia nacional era controlada por agentes no exterior que

manipulavam a grande massa. Félix Luna (1974, p.8) analisa os momentos e os contrastes que a

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O pior era que a Argentina vivera épocas muito diferentes. Em 1916, o radicalismo, um partido de classe média sem ideologia definida, mas nutrido por uma obscura consciência nacional, chegara ao poder em virtude da aprovação de uma lei eleitoral honesta. Até 1930 governaram os radicais num processo às vezes caótico mas que significava, sem dúvida, uma experiência fecunda.

O ano de 1916 seria o ano de uma grande inovação na política e responsável por uma

virada do radicalismo sobre o conservadorismo. Através de uma lei eleitoral aprovada,

estimulava-se a agregação e participação popular. Isso promovia o caráter democrático, que até

então estava fora da realidade argentina, dando voz e representatividade para as demais camadas

sociais.

Logo os radicais iriam padecer no governo de 30, num período democrático de

experiência fecunda que retomava o esquema de participação. Yrigoyen era retratado como um

caudilho, devido ao seu perfil e personalidade de político excepcional, mesmo não possuindo

caráter de orador e de parlamentar, tampouco o caráter de escritor e de chefe de governo, isto

durante o período que o caracterizava como oposicionista. Perdura sua condição majoritária por

um longo tempo, até que em 1930 será derrubado, devido ao grande peso e influência que o

radicalismo argentino adquire, que levará toda a oposição a adotar o sistema de eleições

fraudulentas, além do uso da violência que se havia conquistado o direito do voto pacificamente.

Yrigoyen cria uma imagem de representação extremamente contraditória, chegando a

confundir o olhar externo. Isto ocorreu durante todo o seu governo, a ponto de seu poder

estender-se de 1916 até 1922, sendo depois sucedido por Alvear e retornando em 28 para ser

deposto no dia 6 de setembro de 1930 por um grupo organizado por José Félix Uriburu. Sobre a

imagem de Yrigoyen, Luis Alberto Romero (2007, p.37) coloca:

La de Yrigoyen fue contradictoria desde el principio: para unos era quien – toda probidad y rectitud – vénia a develar el ignominioso régimen y a iniciar la regeneración; hubo incluso quienes lo viero como uma suerte de santón laico. Para otros era el caudillo ignorante y demagogo, expresión de los peores vicios de la democracia. Alvear en cambio fue identificado, para bien o para o mal, con los grandes presidentes del viejo régimen, y su política se asimiló com los vicios o virtudes de alquél.

Neste período do contexto mundial temos as tensões oscilantes dos regimes autoritários

europeus. Os fascismos estão ascendendo politicamente e aparecem como solução para sistemas

políticos com pouca força de poder. No final do século XIX, tem-se a fundação do Partido

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mas conquistou a simpatia dos intelectuais, o que faz manter a neutralidade entre argentinos e

soviéticos. Quanto aos fascistas e nazistas, as relações eram diplomaticamente estáveis, devido à

afinidade para com esses modelos de sociedade e Estado, porém com interesses puramente

econômicos, de tal modo que a Argentina portou-se de maneira a deixar de lado relações mais

explícitas com os países do eixo.

Com esses fatos acontecendo e transcorrendo pela nação argentina, nascia um forte

movimento de massas populares, composto principalmente por trabalhadores. O país foi criado e

sustentado através da idéia de uma grande fazenda, baseado numa economia de caráter rural,

sendo conduzido politicamente por um grupo fechado que aos poucos começou a se

industrializar. Isso fez com que as demais classes começassem a pensar no futuro do país, até

então conservador e que se inclinava em direção ao radicalismo.

De 1931 até 1943, os governos tiveram grande trabalho para lidar com a situação caótica

em que se encontrava o país, devido às conseqüências deixadas pela crise no período de

1929-1933. Conseguem, porém, progressos do ponto de vista econômico, devido aos esforços feitos

através de uma política progressista e desenvolvimentista sólida. Tal política foi também

responsável pela criação de um grande vinculo de dependência com a Grã-Bretanha, o que

marcou para os nacionalistas a década de 30 como “a década infame”.

“Durante a Primeira Guerra Mundial, a Argentina fora neutra graças à teimosia de

Yrigoyen, que conseguiu, apesar de múltiplas pressões, manter o país afastado de uma contenda e

que lhe era alheia” (LUNA, 1974, p.10). Neste período, percebe-se a necessidade da neutralidade

argentina buscada por seus governantes, pois seus interesses estavam atrelados a ambos os lados

da disputa entre as nações envolvidas no conflito.

Durante a Segunda Guerra Mundial, não seria diferente, pois a Argentina pôde manter a

neutralidade durante um bom tempo, até mesmo quando Hitler firmou o pacto com Stalin. Isso

fez com que os Estados Unidos exigissem uma tomada de posição por parte dos argentinos. Luis

Alberto Romero (2007, p.90) escreve a respeito da posição argentina no seguinte fragmento:

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Guiñazu, que habia reemplazado a Roca. Para Estados Unidos estaban em juego intereses específicos, perosobre todo uma cuestión de prestigio, y respondió com fuertes represálias: la Argentina fue excluida del programa de rearme de sus aliados en la guerra – mientras Brasil era particularmente beneficiado – y los grupos democráticos, opositores al gobierno, empezaron a recibir fuerte apoyo de la embajada.

Durante a Segunda Guerra, em meados da década de 40, quando a Argentina estava sob o

governo de Castillo, começava-se a sentir os reflexos da neutralidade. Os argentinos passam, com

isso, a sofrer forte exclusão e rejeição pelos demais países sul-americanos.

A Grã-Bretanha mantinha um forte sistema imperialista na Argentina, fazendo com que a

economia do país viesse a favorecer os grandes estancieiros. Os britânicos, porém, restringiram o

mercado inglês, o que acarretou uma redução de importação de carne. Isso viria a ruir a economia

do país no quadro de uma crise mundial como a que ocorria na década de 1940.

Apenas em 1942, Washington lançou uma proposta a fim de firmar um acordo militar

com a Argentina, mas esta tinha planos de compra de armamentos dos alemães, planos estes que

não obtiveram êxito, tal como Joseph Page (1984, p.59) explica:

“La Argentina pidió ayuda a Berlín, y si bien las vicisitudes de la guerra impidieron que los alemanes proveyeran armamentos al ejército argentino, el mero requerimiento hizo que el gobierno de Estados Unidos contemplara a la administración de Castillo con repugnancia”

A situação em que a Argentina se encontrava era esta: de um lado a crise econômica, do

outro a questão diplomática, o que fazia com que o país se mantivesse neutro. Somente mais

tarde, com os ataques a Pearl Harbor pelos kamikazes, a nação tomou uma posição definida

perante o conflito, a favor dos aliados.

2.2 O AVANÇO MILITAR SOBRE BUENOS AIRES: O SURGIMENTO DE UM LÍDER

Diante da crescente disputa ideológica entre os fascistas, comunistas e liberais, os

conservadores argentinos, que até então permaneciam no controle do governo, optaram por

apoiar a centralização política e administrativa de inspiração fascista. Caso optassem pela

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cívicos radicais, os liberais do partido da União Democrática, enfim, todos aqueles que estavam

em oposição à centralização do poder nas mãos dos militares.

Essa situação conduziu os militares para a manobra golpista, como descreve Félix Luna

(1974. P. 10):

Em 4 de junho de 1943 o povo argentino acordou com a notícia do avanço militar sobre Buenos Aires, mas ninguém chorou o regime que caía. Parecia que somente o designo militar, com sua pureza, sua sobriedade, sua isenção de todo contato político, poderia restabelecer tantos valores subvertidos.

A partir dessa afirmação, pode-se ter uma idéia da descrença pela qual passava o aparelho

político argentino, que já não parecia ser a solução para os problemas sociais e econômicos nos

quais se encontrava a população. Neste momento, nem um possível levante militar parecia que

iria abalar o povo argentino. Apesar disso, começava a se evidenciar no cenário político e social a

idéia de que os militares apareceriam como solução para a crise na qual se encontrava o país.

A partir de então, surgia uma figura carismática, de origem pouco conhecida, que se

encontrava nos bastidores dos eventos e que mais tarde exerceria sua hegemonia sobre as grandes

massas argentinas. Seu nome era Juan Domingo Perón.

O contexto econômico em que se encontrava o país era o da economia agroexportadora,

dando suporte à Grã-Bretanha, que era sua principal consumidora de grãos e carne. Como Félix

Luna (1974, p.12) destaca:

A Argentina fora moldada como uma imensa granja a serviço de suas exportações. Seu progresso era o de Buenos Aires e do pampa úmido circundante, com exceção das zonas marginais, que não entravam nesse esquema. Por isso, seu sistema ferroviário fora concebido como um funil em direção ao porto.

Com a Segunda Guerra Mundial e o advento da substituição das importações, associado à

leva crescente de imigrantes europeus especializados nos trabalhos mais técnicos, a Argentina

passa por uma leve fase de industrialização, que logo mais tarde iria prosperar sob o governo

peronista. Sobre a questão da industrialização e o contexto da transição entre um sistema de

agroexportação para um modelo industrial auto-sustentável, Luna (1974, p.12) escreve:

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Argentina ubérrima, inesgotável, a que se habituara o homem comum, mas a de uma feitoria assediada por imprevisíveis perigos ao falhar sua engrenagem com a metrópole. Os jovens nacionalistas, que gritavam Pátria sim, colônia não! As vésperas da revolução de 1943, não se enganavam muito: a Argentina da década de 30 acentuara sua condição colonial dentro de uma prosperidade aparente, relativa, setorial, regional.

Estes momentos de ruptura entre uma prosperidade anterior e a carestia da Guerra davam

mais força aos que defendiam o discurso nacionalista e violento. Para estes, somente através de

um movimento realizado pelos militares, que até então não tinham expressado uma posição muito

clara, poderia se encontrar a saída, entregando a nação ao controle das forças armadas.

O movimento militar conseguiu derrubar o governo de Castillo, tendo a sua frente uma

série de militares considerados até então anônimos e com uma ideologia não muito definida, o

que levava a população a uma aceitação moderada. Romero (2007, p.97) destaca a insegurança

do povo argentino sobre o cenário político do país.

La revolución del 4 de junio fue inicialmente encabezada por el general Rawson, quien renunció antes de prestar juramento, y fue reemplazado por el general Pedro Pablo Ramírez, ministro del último gobierno constitucional. El episodio es expresivo de la pluralidad de tendendias existentes em el grupo revolucionário y de su indefinición acerca del rumbo a seguir, más allá de coincidir en la proclamada candidatura de Patrón Costas no llenaria el vacío de poder existente. El nuevo gobierno suscitó variadas expectativas fuera de las Fuerzas Armadas, pues muchos concordaban com el diagnóstico, y además esperaban algo del golpe, incluso los radicales; sin embargo, se constituyó casi exclusivamente con militares, y el centro de lãs discusiones y las decisiones estuvo en el Ministerio de Guerra, controlado por un grupo de oficiales organizado en una logia, el Grupo de Oficiales Unidos (GOU), en torno del ministro de Guerra Farrell.

Assim surgiu o GOU (Grupo de Oficiais Unidos), que seria responsável pelo levante de

junho, cuja faceta trazia um nacionalismo radical. O Grupo despertava simpatia popular, afirmava

querer manter a democracia, mas flertava com o Eixo, pois acreditava que, com a vitória deste,

acabaria a exploração sobre a Argentina por parte dos países aliados.

Era justamente esta indefinição ideológica, que não deixava clara a intenção do GOU para

a nação argentina, o que fazia com que eles ganhassem a confiança das massas. Mais importante

do que estaria por vir, estava a busca de um aparelho político mais nacionalista, justo e mais

democrático, o que até não se via, desde os radicais até Castillo.

Com a queda do conservadorismo e em meio àquele vazio em que pairava o governo,

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Os radicais, que receberam com regodijo a queda dos conservadores e esperavam logicamente beneficiar-se dela, logo se desenganaram: não foram chamados. Os novos acessores eram oficiais do Exército e da Marinha, da ativa ou da reserva, ou nacionalistas. Ninguém faz revoluções para outro, e os homens do 4 de junho não tinham a menor intenção de entregar o poder, mesmo que parcialmente, a partido político algum. Detestavam a política e os políticos, sentimento que os militares argentinos professam freqüentemente, sem que isso impeça de que, no fim de seus processos revolucionários, tenham de entregar o poder a esses desprezados espécimes... Mas essa hostilidade tinha lógica. A última década assistira a um espetáculo tão deplorável que o Exército parecia ser a única isntituição não atingida.

Como se percebe por meio das palavras de Luna, os radicais acreditavam que com a

derrubada do conservadorismo iriam voltar ao poder, beneficiando-se com o evento que havia

realizado o Grupo Militar. Estes militares já não acreditavam nos políticos e nem ao menos nos

partidos que haviam colocado o país em meio ao caos. Desta maneira, pode-se dizer que sua

ideologia indefinida, ainda que apresentasse uma simpatia pelo Eixo, forte nacionalismo e uma

descrença na democracia que se tinha colocado em prática até aquele momento, não favorecia

uma clara opção pelo fascismo ou nazismo, pois como Luiz Alberto Romero (2007, p.98)

descreve:

Sin embargo, en el gobierno había, junto con algunos que simpatizaban con Alemania, otros pro aliados y muchos partidarios de mantener la neutralidad que había practicado el gobierno de Castillo, benevolente con Gran Bretaña. Por otra parte, en 1943 la guerra estaba evolucionando de un modo tal que un aliñamiento con el Eje, y además sospechoso de apañar a los nazis.

Diante da constante ameaça de golpes por que os militares passavam, Perón, mesmo com

sua posição triunfante que lhe foi dada no interior do movimento revolucionário, se considerava

apenas um executor de ordens de Farrel. Certamente Perón compreendia que havia uma forte

oposição tanto interna quanto externa ao movimento militar do Grupo de Oficiais Unidos, da

mesma forma que sabia da intenção dos partidos políticos que estavam no cenário querendo o seu

lugar e de seus companheiros militares.

Dentro do Grupo de Oficiais havia os Pró-Aliados e os Pró-Eixo, sendo que os primeiros

nunca conseguiram impor sua maneira de executar e tomar decisões, ou até mesmo assumir uma

posição que lhe desse tal influência a este nível. Sobre a imagem de Perón, Page (1984, p.94)

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El gusto amargo que Perón despertaba en los funcionarios de la embajada [norteamericana] era consecuencia de una combinación de causas. Su formación, sumada a sus pronunciamientos en público, provocaba sospechas de que tenía tendencias fascistas o, por lo menos, autoritarias. Perón se cuidaba bien de mantenerse a cierta distancia de la embajada, evitando ser rozado por la influencia norteamericana pero estimulando, al mismo tiempo, que la influencia norteamericana pero estimulando, al mismo tiempo, que la frustración de los funcionarios se convirtiera en rechazo. El sentimiento antiperonista de la embajada se entretejía simbióticamente con la actividad del Departamento de Estado hacia la Argentina.

Mesmo não tendo se alinhado ao Eixo, a Argentina teve contato tanto com a Alemanha,

quanto com o Japão, estreitando laços diplomáticos com o país. Isso colocava a nação em posição

única e desfavorável no hemisfério, despertando desconfiança nos Estados Unidos.

Em 1944, a Argentina, através do General Ramírez, decidiu romper com o Eixo. A

decisão provocou resistências por parte dos anti-norte-americanos e levou a um enfraquecimento

do Grupo de Oficiais Unidos. Nesse impasse, Perón encontrou o espaço necessário para se

projetar nacionalmente, trazendo consigo inúmeras transformações na cúpula militar, que se

mantinha no poder da Argentina até aquele momento.

2.3 JUAN DOMINGO PERÓN

Perón era um dos membros mais importantes do GOU, e logo mais tarde chegou à

vice-presidência. Sobre Perón, Luis Alberto Romero (2007, p.99) cita:

Perón sobresalía de entre sus colegas por su capacidad professional y por la amplitud de sus miras políticias. Una estadía en Europa en los años anteriores a la guerra lê había hecho admirar los logros del regímen facista italiano, así como comprobar los terribles resultados de la Guerra Civil em Espana. Clarividência y preocupación lo llevaron a ocuparse de un actor social poco tenido em cuenta hasta entonces: el movimiento obrero. A cargo de la Dirección Nacional Del Trabajo – que poco después convirtió en secretaría-, se dedicó a cepción de los dirigentes comunistas que, luego de un frustrado acercamiento inicial, resultaron sistematicamente perseguidos y erradicados de sus posiciones.

A partir de então, Perón entrou para a vida política da Argentina e dela não mais

conseguiria se separar ou desvincular sua imagem, não apenas como simples agente social, mas

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Juan Perón fue indudablemente um fenômeno argentino solo complensible en el contexto del cual surgió. La mayor parte de los errores de interpretación respecto a su vida provienen de cierta inespitud para aprehender esta verad. Es más, la relación entre el hombre y su país fue habitualmente simbiótica. No seria una exageración sugerir que Perón fue la Argentina y la Argentina fue Perón.

A história de vida de Perón começa com a vivência em uma estância no meio rural. Aos

15 anos, ele entra para a escola militar, cumprindo todas as tarefas de maneira exemplar. Viaja

para a Itália e estuda Economia na década de 1930, quando se torna espectador do fascismo de

Mussolini. Félix Luna levanta com imprecisão que seria provável que Perón, mesmo não sendo

um dos fundadores da GOU, tivesse redigido o manifesto da Revolução de 1943, enquanto servia

em uma unidade militar nos Andes.

Inicialmente, quando os militares derrubaram o conservadorismo, Perón não apareceu

como um agente decisivo, ocupando um cargo secundário no Ministério da Guerra. Somente mais

tarde, em 27 de outubro de 1943, ocupou a função de secretário do Trabalho e da Previdência,

posição proeminente que daria início a sua carreira política. Sobre o começo da trajetória política

de Perón, Félix Luna (1974, p.17) descreve:

Quando Ramirez foi substituído por Ferrel, este designou seu amigo Perón para a vice-presidência da República e Ministro da Guerra. Unidos os cargos ao que ocupava no Trabalho e na Previdência, a tríplice função revelava a importância que tinha no governo, embora alguns militares revolucionários não deixassem de desconfiar daquele camarada que falava aos operários numa linguagem direta e descontraída, até mesmo grossa, e cuja ligação com uma atriz – Eva Duarte – era motivo de mexericos nos quartéis.

Com seu modo e estilo próprio de governar, astuto e às vezes agressivo, Perón vai

trazendo muitos adeptos para seu lado e aliados políticos para trabalharem em sua gestão. Sua

política social é dada como espetacular, fato que o ligava e o aproximava cada vez mais dos

amplos setores trabalhadores da Argentina, muitas vezes não qualificados e não sindicalizados até

então.

No dia 15 de Janeiro de 1944, a localidade de San Juan é atingida por um terremoto. Esse

evento foi decisivo para que Perón fizesse uso da sua imagem e a usasse para reforçar seu

carisma e consolidar sua relevância como figura influente na Argentina. Tal ato transformou o

abalo sísmico de San Juan em marco da passagem de Perón como uma personalidade pública.

Como atitude tomada em respeito do terremoto, Tarruella (2007, p.37) coloca: “El coronel

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cinematógrafo y a personajes públicos a sumarse a un gran acto en el Luna Park el 22 de enero de

ese año”.

No dia 22 de Janeiro, além do espetáculo promovido, outro grande fato ocorreu, o que iria

marcar profundamente a vida de Perón: nesta data ele teve seu primeiro contato com a atriz Eva

Duarte. A partir deste encontro, a vida de ambos jamais seria a mesma.

Ese año fue decisivo en la gestión de Perón en la Secretaría de Trabajo y Previsión. En 1944 se firmaron en el país 127 convenios con intervención de las asociaciones patronales y 421 con intervención de los sindicatos obreros. De esa forma se satisfacían algunas aspiraciones de la clase trabajadora largamente anheladas: aumentos de salarios por convenios colectivos, vacaciones pagas y estabilidad en el empleo. En diez meses (...) la Secretaria de Trabajo y Previsión incorporo mediante decretos a dos millones de personas a los beneficios del régimen jubilatorio y creó desde los Tribunales del Trabajo hasta el Estatuto del Peón de Campo. El joven militar avanzaba con paso firme en la comunicación directa, con gestos contundentes hacia los sectores sociales que reunía su proyecto (PICHEL apud TARRUELLA. 2007, p.37).

Naquele contexto, praticamente se obrigava os sindicatos a favorecerem os trabalhadores,

ditando-se os estatutos dos sindicatos a favor dos operários. Perón foi responsável pela unificação

da CGT (Confederação Geral do Trabalho), muito freqüentemente utilizando a sua força. Com

esses fatores, ele angariou grande simpatia e uma grande força de adesão popular, responsáveis

por mudanças profundas na vida dos argentinos. Luis Alberto Romero (2006, p.100) ressalta:

La tendencia original sindicalista, sin embargo, no había desaparecido: em 1942 la CGT se didió entre un sector más fín a los partidos opositores, encabezado por los comunistas y muchos de los dirigentes socialistas, y otro más identificado con la vieja línea sindicalista, donde se alieneaban los gremios ferroviarios. La propuesta de Perón agudizó una discusión ya existente entre los dirigentes sindicales: el Frente Popular perdía atractivo, pero a la vez la polarización de la guerra lo revizada; las mejoras ofrecidas eran demasiado importantes como para rechazarlas o enfrentar al gobierno, sob pena de perder el apoyo de los trabajadores.

Neste período, além da forte consolidação da CGT, tem-se um grande êxodo rural na

Argentina e a população urbana da cidade de Buenos Aires aumenta significativamente. O

principal fator responsável por isso é o grande número de migrantes que vinham do campo em

busca de trabalho nas indústrias, as quais haviam-se instalado no país durante o período da

Segunda Guerra. Sobre a industrialização, Luna (1974, p.18) coloca que:

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mulheres que só tinham conhecido a dura vida do campo e agora, envolvidos nas grandes cidades, encontravam altos salários, pleno emprego, melhores condições de vida, e uma organização sindical para defendê-los: uma fórmula de bem-estar inédito que se traduzia automaticamente em apoio a Perón, aparente fornecedor de tais benesses.

Com esta movimentação toda no cenário social argentino, vai se criando uma forte

oposição a Perón de praticamente todos os partidos existentes na vida política argentina. Isso fez

com que passassem a defender o antigo regime que precedia o golpe realizado pelo Grupo dos

Oficias Unidos. Até mesmo os radicais, que no início combatiam o autoritarismo do General

Castillo, opunham-se à maneira com que Perón se portava diante das massas. Para os radicais,

Perón era um competidor na conquista das massas; para os socialistas, Perón não era

suficientemente laicista e não agradava o clericalismo do governo militar e a isso se somava o

descontentamento com a conquista do aparelho sindical que era o terreno de onde o socialismo

emergira; o que mexeu com os comunistas foi o pró-nazismo do grupo militar que se encontrava

concentrado no poder.

Mesmo contando com esses fatores desfavoráveis, não houve por parte dos adversários de

Perón ações com grande impacto e organização. Até 1944, como descreve Félix Luna, a luta

contra o regime era surda. Só apenas em 1945 irá ocorrer uma “explosão” na cena política

argentina e haverá uma definição clara dos blocos políticos que irão lutar por um espaço na

oposição antiperonista.

Dentro das universidades, depois de sofrerem desastrosas intervenções e serem

normatizadas, o pró-nazismo e o autoritarismo pregado pelo regime militar representavam um

ataque à liberdade individual e de imprensa. Conforme os militares foram realizando suas

intervenções nas instituições de ensino, nascia um sentimento de revolta nos estudantes, quase

como instintivo como se sua liberdade havia sido deturpada, pois desaprovavam aquele tipo de

regime, o que criou uma grande movimentação. Como Joseph Page (1984, p.114) coloca em sua

obra: “Sus protestas llegaron al extremo de reflejar sus prejuicios de clase. Libros, si! Alpargatas,

no! era su grito de guerra ante los trabajadores que apoyaban a Perón. Los obreros les respondían

invirtiendo la fórmula”.

A situação dentro das universidades fazia com que os militares mantivessem o controle

sobre o quadro, expurgando aqueles elementos que consideravam uma afronta ao seu modelo

tradicional e conservador de conduzir as instituições educacionais. Somente em 1945 a situação

(20)

quando os professores puderam retornar ao seu ofício, cultuando seus ideais livremente. Joseph

Page (1984, p.114) afirma:

Hacia los comienzos de 1945 el gobierno empezó a tratar de normalizar la situación. Los profesores declarados cesantes recuperaron sus cátedras y la autonomía universitaria fue restaurada. Tales medidas, sin embargo, lo único que lograron fue proporcionar un mayor acicate a la oposición estudiantil hacia el régimen.

A oposição estava desfavorecida contra Perón. Nada parecia detê-lo naquele momento, até

que no dia 9 de abril de 1945, quando os Estados Unidos retomaram relações diplomáticas com a

Argentina, surgiu a figura de Spruille Braden, como enviado norte-americano à América Latina.

A partir de então, os partidos de oposição se organizaram em torno do novo embaixador, que

começou uma violenta campanha contra Perón. Segundo Page (1984, p.130):

La Idea de formar una coalición de partidos no era nueva, ni tampoco fue original del embajador Braden. Los comunistas, ya a fines de la década del 30, habían propiciado un Frente Popular. Los socialistas habían promovido una coalición en los meses previos a la Revolución de 1943. Los radicales, aunque aún estaban muy entusiastas por tradición respecto a pactos electorales, ahora se manifestaban más dóciles y capaces de aceptar un esfuerzo multipartidario. Para dar contenido a tal concepto, en el mes de Julio, se había constituido una Junta de Coordinación Democrática.

No dia 19 de setembro, realizou-se na Argentina uma sólida demonstração de repúdio a

Farrel e a Perón, que contou com diversos setores sociais abrangendo civis, estudantes e até

mesmo militares conspiradores. O evento reclamava pela liberdade e pelo respeito à Constituição.

Esses meses entre julho e dezembro de 1945 foram tão intensos que Felix Luna o coloca como

“huracán de la historia”.

Perón praticamente permitiu que este setor oposicionista se manifestasse,

estrategicamente para que evitasse algo pior, como uma manifestação violenta ou possíveis

acusações de violação da liberdade dos sujeitos. A resposta de Perón, para que não perdesse sua

influência e não prejudicasse sua popularidade, materializou-se no slogan “de casa al trabajo, del

trabajo a casa”. O bordão, que tinha um conteúdo intimidador, destinava-se a controlar as

camadas trabalhadoras contra uma possível influência dos revoltosos.

Enfim, o discurso dos peronistas procurou a estigmatização da oposição, procurando

(21)

reacionária, sem futuro, fazendo alusão a uma época de fraqueza vivida pela Argentina e que

poderia voltar a qualquer momento.

As dimensões que a Marcha da Constituição e da Liberdade atingiu foram expressivas,

apesar de todo esforço de Farrel e Perón. “La policía subestimo la magnitud de la muchedumbre

(su cifra fue de 65.000) mientras que los organizadores, casi con certeza, la exageraron

estimándola en 500.000” (PAGE, 1984, p.132).

É preciso recordar a ajuda norte-americana a esse esforço oposicionista, a qual visava uma

ruptura entre as diplomacias de ambos os países, resultando num auxílio às forças

revolucionárias. Isso daria uma maior autonomia para que os argentinos tivessem êxito na luta

contra os militares.

Neste momento, Eva Duarte começa a ter uma grande influência na parte publicitária da

trajetória de Perón, aparecendo como sua companheira diante dos eventos públicos. Eva

despertava o repúdio da classe alta argentina, uma repugnância pela sua origem e maneira de ser,

sendo acusada de só ter relevo social porque se havia projetado ao lado de Perón.

Um momento culminante da ascendência de Eva sobre a política interna da Argentina foi

a nomeação de Oscar Nicolini, a seu próprio pedido, como diretor dos Correos y Telégrafos,

devido à grande relação que esse político tinha com a família Duarte (irmão e mãe de Eva).

Essa nomeação gerou revolta nos oficiais militares, colaborando para o descrédito no

governo. Nicolini tinha a péssima reputação de político corrupto. O General Eduardo Avalos, que

tinha sido até então um aliado de Perón, utilizando-se do descontentamento dos oficiais para com

Eva, converteu-se em seu competidor. “A pesar de sus sugerencias a Perón de que entrara en

política, los manejos políticos del coronel [Perón] realmente lo disgustaban y la liaison con Evita

lo incomodaba profundamente” (PAGE, 1984, p.137).

O desequilíbrio interno do grupo de militares aumentou o descontentamento de alguns

membros do setor. A maneira como Nicolini fora nomeado era o que não podia acontecer naquele

momento. Isso acabou colocando a família Duarte em uma situação de dívida com este individuo,

contrariando os militares. Eva se fez presente nas conversas entre Avalos e Perón, a única

presente vale mencionar, e também interrompendo drasticamente os diálogos, quando as palavras

a Perón dirigiam-se rispidamente.

Os militares mais jovens eram os mais inquietos sobre a questão de Perón, tanto que

(22)

sobre Farrel, o que acarretou num fortalecimento do cerco sobre as universidades, sendo menos

eficaz do que nos períodos anteriores, já que a democracia estava num período avançado.

Avalos pretendia a retirada de Perón, radicalmente e de imediato, porém acreditava-se que

isso resultaria em um efeito negativo sobre as massas. Como forma de saída, foi dada a opção de

renúncia voluntária. Perón pediu para que pudesse usar o rádio publicamente para se despedir dos

trabalhadores, o que mais uma vez daria um ar de benevolência e força para o líder. No discurso,

disse frases como “no se preocupen. Las cosas saldrán como yo quiero”, mostrando a postura de

auto-confiança e segurança que sempre passou à população.

O setor trabalhador criou um forte sentimento de ira sobre a figura de Avalos, remetendo

à questão da saída de Perón do cargo, fazendo menção que as conquistas de Perón através da

CGT pudessem ser retiradas.

2.4 O 17 DE OUTUBRO

No segundo semestre de 1945, Perón tinha vários fatores a seu favor: a CGT estava

unificada e o seu carisma estava consolidado como secretário do trabalho e previdência, através

das conquistas previdenciárias e trabalhistas. Perón ocupava a situação, dentro do cenário político

como membro da GOU, sendo mais capaz de ocupar o cargo de presidente da nação argentina

(que não ia contra a sua vontade), pois o país teria que enfrentar agora o período de eleições, por

uma via democrática justa.

A oposição contra Perón era considerada antiquada, ou retardatária como descreve Luna,

sendo eles os defensores do antigo regime, neste caso o período em que se viveu a década

infame.

Sobre a oposição, Félix Luna (1974, p18) escreve:

(23)

No mês de outubro de 1945 a pressão oposicionista cresceu, especialmente entre os jovens

estudantes. Potencializando o conflito entre as forças políticas, Farrel anunciou a eleição

presidencial para o final de 1945 chamando para o governo elementos peronistas. Ao mesmo

tempo, decretou estado de sítio para silenciar a oposição.

A oposição tentava mostrar ao exército como Perón era repudiado pela maioria,

procurando conquistar aliados que apoiassem um golpe de estado. Esses argumentos da oposição

eram confirmados por meio da intensa censura à imprensa, no aperto do cerco às universidades e

na maneira como Perón manobrava os sindicatos contra a classe patronal, fazendo crer que a

Argentina rumava para o colapso social e político.

A pressão sobre Farrel foi imensa, sobretudo da parte dos militares associados à Avalos,

fazendo com que a permanência de Perón nos cargos públicos que ocupava fosse insustentável.

Em 08 de outubro de 1945, dia do aniversário de Perón, segundo Page (1984, p.138), ocorreu sua

demissão, o que causou grande comoção popular pela possibilidade de suspensão das leis

previdenciárias e trabalhistas inauguradas por Perón. Félix Luna coloca que a demissão dos

cargos que Perón desempenhava ocorreu no dia 9 de outubro (LUNA, 1974, p.22), ou seja, um

dia de imprecisão entre as obras de Luna e Page. A oposição chegou a suspeitar que a escolha do

dia para a saída de Perón do governo de Farrel era uma manobra promocional e que se tratava de

um ensaio para o retorno do secretário na condição de candidato à Presidência da República

(LUNA, 1974, p.22).

A preocupação de Perón era de que seu discurso diante dos trabalhadores provocasse uma

reação extrema nos seus inimigos, levando-o até mesmo a correr risco de morte. Havia rumores

de que atentados contra ele estariam sendo planejados, o que o levou a pedir um afastamento das

atividades militares.

A classe social que abarcava as pessoas mais ricas da Argentina imaginava os militares

como incapazes de conduzir o governo e, em 12 de outubro de 1945, promoveram manifestações

na Praça San Martín, em frente ao palácio do Círculo Militar. Nessa manifestação, ocorreu um

confronto com a força policial e um tiroteio que resultou em uma vítima fatal.

Ainda sob o impacto do confronto entre manifestantes e a força policial, a população de

Buenos Aires foi surpreendida pela notícia da prisão de Perón. Ele foi preso em sua casa, na Rua

(24)

Page (1984, p.149) destaca que reforçou a liderança de Perón, que passou a ter a imagem de

mártir da classe trabalhadora, imagem ainda potencializada porque nesta mesma ilha, 15 anos

antes, estivera preso o grande líder dos radicais, Hipólito Yrigoyen.

Esse quadro assustador para os trabalhadores argentinos agrava-se ainda mais na medida

em que, depois de o líder ter sido preso, iniciou-se um processo de desmanche da estrutura

política que Perón havia montado para construir e manter as prerrogativas trabalhistas e

previdenciárias da sua gestão. A CGT foi o principal alvo dos revanchistas, com a

desestruturação da sua liderança e de seu aparato mobilizador.

Na medida em que se avizinhava o dia 17 de outubro, aumentava a comoção popular e

Perón não perdia oportunidades de fazer com que a população de Buenos Aires tivesse notícias

suas desde a prisão. Perón escreveu duas cartas, uma remetida por correio simples e que, segundo

Page (1984, p.150), nunca foi publicada. Uma segunda carta fora entregue às mãos da própria

Eva, e nela Perón declarava todo seu amor àquela que seria sua futura esposa. Palavras como “Mi

tesoro adorado”, era como se referia a amada, “Solo cuando nos alejamos de las personas

queridas podemos medir el cariño. Desde el dia que te dejé allí com el dolor más grande que

puedas imaginar no he podido tranqüilizar mi triste corazón. Hoy sé cuánto te quiero y no puedo

vivir sin vos.”, trechos como este marcavam a carta, “Viejita de mi alma, ... tené calma y aprendé

a esperar. Esto terminará y la vida será nuestra.”, neste último fragmento deixando claro que iria

sair logo do cárcere e projetando toda uma vida cheia de prosperidade que estaria para chegar na

sua vida e na de muitos outros.

Com a saída de Perón do governo de Farrel, instalaram-se na cúpula do executivo

praticamente todos os grupos antagônicos ao que havia assumido em 1943. A rapidez com que

essas mudanças ocorriam sem o necessário cuidado com a opinião pública, com o acréscimo da

repercussão negativa da prisão do líder dos trabalhadores, fez com que surgisse o discurso de que

as idéias classificadas como retrógradas guiariam novamente o governo argentino, fazendo o país

retornar à década infame.

Em 16 de outubro de 1945, ocorreu uma reunião da CGT para decidir o que iriam fazer a

respeito do afastamento de Perón. Nessa reunião deliberou-se a grande marcha da população

exigindo a libertação de Perón.

Joseph Page (1984, p.154), na biografia oficial de Perón, descreve as inúmeras vertentes

(25)

Los acontecimentos del 17 de octubre han sido convertidos respectivamente, por los peronistas y por quienes veían em Perón un desastre nacional, en mito y en infundio. Una de las falsedades que se ha adentrado en el folklore peronista la pone a Evita como el personaje fundamental en el rescate de Perón. La version aceptada por los verdaderos creyentes dice que ella se desplazó por las fábricas y talleres de Buenos Aires y los subúrbios, instalando a los trabajadores a congregarse detrás de la bandera de Perón. Extrañamente, esta version también tiene cierta popularidad entre los antiperonistas quienes quieren pintar a Perón como un llorón cobarde, rescatado de la ignominiosa derrota por uma mujer. Esta descripción de la actuación de Evita es falsa. Muchos antiperonistas, por el contrario, consideram lo sucedido el 17 de octubre como la obra, por um lado, de unos pocos líderes sindicales quienes forzaron a sus recalcitrantes seguidores a marchar hacia Buenos Aires y, por outra, la obra de policías que se habrían encargo de transportar a los trabajadores hasta la Plaza de Mayo.

A classe trabalhadora argentina estava preocupada com a segurança de Perón, gerando

forte instabilidade no comportamento da massa que compunha este setor. Isso estimulou os

primeiros preparativos para uma mobilização pró-Perón.

Luna (1974, p.24) descreve o acontecimento como “caótico” e “espontâneo”. “... a CGT,

após uma difícil discussão decretada greve geral para o dia 18: mas isto ocorreu um dia antes e

não teve nada a ver com os abstrusos slogans lançados pela central operária”.

As dimensões atingidas por este momento, não poderiam ser justificadas por um único

grupo como operários, ou por maior que fosse a manifestação dos partidários de Perón. “Pois o

que ocorreu em 17 de outubro deixou todo mundo estupefato...” (LUNA, 1974, p.24).

A composição dessa massa começou a ganhar dimensões com o deslocamento da

população da periferia da grande Buenos Aires, dos subúrbios, até o entroncamento no urbano

com a polícia. No início tentou-se detê-los, porém o “contágio” e o chamamento pelo nome de

Perón iam disseminando aquela ação de libertação, fazendo com que mais pessoas aderissem ao

movimento.

Luna coloca que, como o chefe da polícia argentina era simpático a Perón, evitou o

confronto com a massa. Porém Page (1984, p.155) coloca as estratégias utilizadas pelos militares

de impedir o avanço:

(26)

Logo a teoria de conspiração da polícia a favor de Perón se confirmava, fato

extremamente importante, levando a massa a se deslocar à Praça (figura 1 e 2), o que iria

consolidar o terreno do fato histórico, como local do grande acontecimento.

Figura 1 – Deslocamento da população de Buenos Aires no 17 de Outubro

(27)

Figura 2 – 17 de Outubro: o dia do Peronismo

Fonte: Os Grandes Líderes: Perón

Nem o povo nem Perón sabiam das dimensões que o 17 de outubro de 1945 iria atingir,

até poucos instantes antes do próprio processo ocorrer. Depois de toda a reviravolta política por

que a nação havia passado, a única coisa que estava definida naquele momento para o povo

argentino era o desejo de um novo estilo de governo e, para Perón, a busca da ascensão política.

Sobre o 17 de outubro, Maria Helena Capelato coloca:

O primeiro elemento que explica a importância do “acontecimento-mito” é a mobilização, em grande parte espontânea, das massas populares; o segundo é a convergência das multidões para a Praça de Maio, sede do Executivo. A partir de 1946, o 17 de outubro foi decretado feriado nacional e comemorado como festa cívica da maior importância. A Praça de Maio converteu-se em centro simbólico do movimento peronista abarcando uma pluralidade de significados, o mais importante deles relacionado à continuidade estabelecida entre a vitória peronista e a independência da nação (CAPELATO, 1998, p.59).

Nota-se que o próprio local onde se encontraram as massas teve grande importância, pois

sedimentou a idéia de um grande movimento popular, sem destacar que se tratava, de fato, da

(28)

converteu-se em elemento concreto do imaginário peronista, o qual, mais tarde, serviu para

mobilizações sociais de grande repercussão histórica como a das “mães da Praça de Maio”.

Sobre o imaginário, Philippe Malrieu escreve: trata-se, no entanto, de uma simbolização

ora completamente involuntária, como no sonho, ora organizada e integrada num sistema de

crenças coletivas e no mito (MALRIEU, 1900, p.105). A criação do imaginário sobre o 17 de

outubro atendeu a essas duas dimensões, pois foi representado como um movimento concreto,

espontâneo e voluntarista dos trabalhadores argentinos em favor de Perón, ao mesmo tempo em

que se tornou algo simbólico e mítico, como um momento inaugural de uma relação superior

entre o líder e seus liderados.

Mas quando um fenômeno político passa do imaginário para uma representação mítica,

pronta para entrar para a história de uma nação? O referencial utilizado parte do sonho, como cita

Philippe Malrieu, como uma manifestação do imaginário na sua autenticidade mais absoluta.

Então, através deste imaginário até então irreal, seguiu-se a criação de personagens, eventos

inéditos, locais cerimoniosos cheios de sentido e localizados historicamente. O que até então era

um pensamento irreal se tornou real e perceptível ao olho do espectador e do agente que assistia

os eventos que ali, no momento de inauguração do mito do peronismo, tornou-se evento do

cotidiano. Conforme esclarece Malrieu (1900, P. 15) o sonho, em qualquer forma de imaginário,

remete dos domínios internos para domínios externos ao seu próprio conteúdo, devido a sua

(29)

3 CONCLUSÃO

Com o estudo tendo reunido fontes de autores variados, porém com propósitos muito

próximos, mesmo divergindo algumas vezes em determinados pontos, nos deparamos com um

mundo que é reconstruído ano após ano, um lugar que serve de cenário para uma manifestação, e

através deste momento reflete conotações de inquietação e até mesmo fazendo alusões a busca de

uma nação por uma justiça social.

Para utilizar-se de exemplos práticos para tal explicação, remetemos à Praça de Maio, que

serviu de palco para o conglomerado de peronistas, pró-peronistas, simpatizantes ou

simplesmente aqueles que viam em Perón uma solução para um modo de vida mais justo, aquele

que era o responsável pela justiça social na Argentina neste caso, até momentos atuais de crise

que o país sofre o povo argentino recorre aos panelaços neste mesmo local. Evidentemente, não

se pode deixar de mencionar as Mães da Praça de Maio, que marcharam e marcham até hoje atrás

de seus filhos desaparecidos durante os governos militares nas décadas de 60 e 70.

Então, através das fontes, percebe-se a consolidação deste local como lugar de expressão

de aglomeração, para as reivindicações do povo. Outro fator que tornou-se o objeto de estudo

deste trabalho foi a data, o 17 de outubro de 1945, o chamado dia do peronismo, que é

comemorado por alguns como feriado no calendário argentino.

A memória que foi construída através do imaginário, jamais será tirada da história

argentina, sendo que é marcada com o elemento mais propício a assumir o governo da Argentina,

o mais bem preparado com um elenco político todo a seu favor, e é claro as massas que

estrategicamente, que foram deslocadas ao mesmo local com um único objetivo, serem agentes

sociais fundamentais para a construção da figura e do fortalecimento da imagem de Juan

Domingo Perón como candidato nato ao governo argentino e o mais capaz.

O momento marcava o triunfo de uma nova fase que pairava sobre a Argentina, sobre o

antigo modelo tradicional em que se encontrava antes a nação, deixando para atrás os modelos

não democráticos e acabando com todos os vestígios de um período que sofria as conseqüências

socioeconômicas da década infame, a que se tinha presenciado naquele país. Como afirmam os

autores, o povo deu um cheque em branco à Perón, depositando todas suas fichas neste líder e

(30)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAPELATO, Maria Helena Rolim. Multidões em Cena.São Paulo: Editora UNESP, 2008. LUNA, Félix. Argentina: de Perón a Lanusse (1943-1973). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.

MALRIEU, Philippe. A Construção do Imaginário. Lisboa: Teoria das Artes e da Literatura, 1995.

PAGE, Joseph. Perón. Buenos Aires: La Prensa Médica Argentina, 1984.

ROMERO, Luis Alberto. Breve historia contemporánea de la Argentina 1916/1999. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2007.

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