Daiane Silveira Rossi UMA PROFILAXIA URBANA: O PROJETO DE SANEAMENTO DE SANTA MARIARS NO INÍCIO DO SÉCULO XX

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Full text

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Daiane Silveira Rossi

UMA PROFILAXIA URBANA: O PROJETO DE SANEAMENTO

DE SANTA MARIA/RS NO INÍCIO DO SÉCULO XX

Santa Maria, RS

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Daiane Silveira Rossi

UMA PROFILAXIA URBANA: O PROJETO DE SANEAMENTO

SANTA MARIA/RS NO INÍCIO DO SÉCULO XX

Trabalho Final de Graduação apresentado ao

Curso de História – Área de Ciência Humanas,

Centro Universitário Franciscano – como

requisito parcial para a obtenção do título de licenciada em História.

Orientadora: Nikelen Acosta Witter

Santa Maria, RS

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Daiane Silveira Rossi

UMA PROFILAXIA URBANA: O PROJETO DE SANEAMENTO DE SANTA MARIA/RS NO INÍCIO DO SÉCULO XX

Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciência Humanas,

Centro Universitário Franciscano – como requisito parcial para a obtenção do título de

licenciada em História.

___________________________________________________

Profª. Drª. PhD. Beatriz Teixeira Weber (UFSM)

___________________________________________________

Profª. Drª. Nikelen Acosta Witter – Orientadora (UNIFRA)

___________________________________________________

Profª. Ms. Paula Simone Bolzan Jardim (UNIFRA)

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RESUMO:

Investigando o projeto de saneamento de Santa Maria do início do século XX, notou-se as modificações no cenário urbano que ele implicou. Revisando a bibliografia a respeito da História da Higiene e suas alusões na urbanidade local, percebeu-se a incipiência de trabalhos relacionados ao tema. Dessa forma, procurou-se estabelecer relações entre sanitarismo, urbanismo e política nesse contexto, a fim de compreender os motivos que influenciaram um município do interior do Rio Grande do Sul na formulação de um projeto sanitário anterior à campanha nacional pró-saneamento. Como metodologia, utilizou-se o cruzamento da historiografia que aborda temas relacionados à higiene e urbanização, com as correspondências trocadas entre o Intendente Municipal Dr. Astrogildo César de Azevedo, o engenheiro Francisco Saturnino de Brito e o Presidente do Estado Antônio Augusto Borges de Medeiros, além de relatórios da intendência e relatos de viagem. Vários fatores desencadearam nesse processo, dentre eles destaca-se a instalação da ferrovia na cidade, o crescimento populacional e os interesses dos políticos e médicos da região em tratar da saúde da população como forma de atuação governamental e controle social.

Palavras chave: Santa Maria; Saneamento; Urbanização; Política.

ABSTRACT:

Investigating the sanitation project of the Santa Maria city, on early twentieth century, were noticed changes in the urban landscape implicated by the project. Reviewing the literature about the history of Hygiene and allusions in their urbanity place, realized the paucity of works related to the theme. Thus, we sought to establish relationships between sanitarism, urbanism and political context in order to understand the factors influencing a city in the interior of Rio Grande do Sul, the formulation of a project prior to the sanitary pro-national sanitation campaign. The methodology we used is the intersection of historiography that addresses issues related to hygiene and urbanization, with the correspondence exchanged between the Municipal Mayor Dr. Astrogildo César de Azevedo and engineer Francis Saturnino de Brito and the President of the State Antônio Augusto Borges , and stewardship reports and travel accounts. Several factors have triggered this process, among which stands out the installation of the railway in the town, population growth and the interests of politicians and doctors in the region in dealing with the health of the population as a form of government action and social control.

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AGRADECIMENTOS:

Quem escolheu a História aos 10 anos de idade tem muito que agradecer pelo incentivo em ir atrás deste objetivo traçado tão cedo.

Mãe, professora Marfisa, exemplo de profissional e de mulher, a ti devo toda a minha formação. Teu estímulo à leitura dos clássicos, que com 09 anos não fizeram muito sentido, hoje digo que certamente foi graças a eles que me tornei uma apaixonada por leitura. Não posso deixar de destacar tua compreensão com minhas ausências, intensificadas neste último ano, e por sempre dar um jeitinho em convencer o pai de que isto era necessário. Pai, que fez de suas “vaquinhas” o investimento para me manter na cidade e numa faculdade particular, te agradeço imensamente. Sem vocês dois não seria possível a conclusão deste curso e é a vocês que dedico esses quatro anos de empenho exclusivo aos estudos. Certamente ainda retribuirei a todo esse esforço.

A minha vó “do XIX”, Geni, por, mesmo sem entender “porquê essa guria tem que estudar tanto”, sempre estar esperando com sua “gemada” e seu “arroz doce” para me agradar. Vó, escrever sobre o final do século XIX e início do XX, foi a melhor maneira que encontrei para estar “perto de ti” diariamente.

A Bisa “Tica”, no auge dos seus 97 anos de muita lucidez, agradeço pelas explicações

práticas do que era o contexto sanitário da cidade quando “o tal Dr. Astrogildo mandava por

aqui”.

Aos meus irmãos-filhos, Juliano e Jean, agradeço pelas distrações constantes. Juliano, seu palhaço, tua alegria por mais que me irrite, colaboraram muito para me animar em meio aos surtos de final de graduação. Jean, seu nerd, tua seriedade e maturidade são para mim um orgulho e nossas conversas diárias sobre Harry Potter e afins sempre são um ótimo ponto de escape deste louco mundo acadêmico.

A minha amiga-irmã-filha-mãe Tamiris, pelas altas madrugadas de discussões acadêmicas, manhãs de leitura conjunta, sempre com auxílio a cada complexo texto que nos deparávamos. Mas para além da academia, te agradeço pela compreensão das minhas ausências, pelos abraços que sempre me fortalecem, pelos mates, simples conversas e boas rizadas que me mantiveram em sã consciência nos últimos dois anos, obrigada por fazer parte da minha vida!

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mas, sobretudo, por terem disponibilizado seus arquivos para que eu pudesse desenvolver essa pesquisa.

Sou grata a todos os professores do Curso de História da UNIFRA. A professora Janaína por ler meus primeiros artigos, sempre fazendo apontamentos que me fizeram crescer academicamente, também não posso deixar de agradecer inúmeras caronas e as conversas motivadoras de sempre “tu tem que sair, guria, aproveita”; ao professor Rangel pelas discussões sobre História Urbana e nossos incansáveis debates sobre Halbawachs; as aulas de Pré-História do professor Farinatti, sempre acompanhadas de uma ou outra discussão futebolística ao som da bela Yamarra que nos acompanhava toda terça-feira às 22h; ao professor Leonardo e suas infindáveis provocações sobre “essa tal historinha aí que tu escreve”, sempre foram motivadoras para seguir pesquisando; ao professor Maccari, parceiro de amor pelo tricolor, agradeço pelas inúmeras indicações de filmes que, um dia, ainda prometo assistir todos.

Não posso deixar de agradecer a professora Roselâine Casanova Corrêa por ter me proporcionado o início da minha formação como pesquisadora, através da bolsa de PROBEX, a partir da qual foi onde encontrei as fontes deste trabalho. A ti, Rose também agradeço por ter incitado em mim o apreço pela História de Santa Maria, especialmente, a sua urbanização.

As professoras Paula Bolzan e Beatriz Weber agradeço imensamente por aceitarem fazer a leitura desse trabalho, tenho certeza que seus apontamentos serão essenciais para o engrandecimento desta pesquisa. Professora Beatriz, inspiração acadêmica através de seus

textos sobre História da Saúde que me instigaram a compreender melhor essas “artes de

curar” em Santa Maria. Professora Paula, que no último ano se tornou essencial na minha formação, através da orientação do Estágio, só tenho a te agradecer pela motivação que sempre me passou, afim de que um dia me torne uma boa professora. Além de estar sempre disponível para uma boa conversa, através de uma indicação ou outra de Mia Couto ou Galeano, torna-se uma pessoa essencial na vida de teus alunos que acaba conquistando como teus amigos.

A professora Nikelen Witter, primeiramente, agradeço por ter aceitado o desafio de me orientar quando ainda estava nas primeiras leituras das fontes, em 2010; por sempre acreditar no meu potencial e explorar ele de maneira incansável; pelas suas aulas que serão sempre

motivo de inspiração na minha carreira docente. Além disso, agradeço a ‘Sally Owens’ por

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para passar horas discutindo sobre o nosso fantástico mundo nerd e pelas amizades lá construídas. Mesmo a distância, sempre há uma potterhead disponível para um bom bate-papo que me faz perder a noção tempo e me ajuda tanto a desligar desse mundo louco.

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LISTA DE ILUSTRAÇÕES:

Ilustração 01: Mapa da vila de Santa Maria da Boca do Monte em 1849...35

Ilustração 02: Planta da cidade de Santa Maria de 1902...36

Ilustração 03: Mapa da Rede Ferroviária do Rio Grande do Sul em 1910...37

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LISTA DE TABELAS:

Tabela 01: População de Santa Maria 1872 – 1920...37

Tabela 02: Estatística de mortalidade da cidade de Santa Maria – 1º distrito (1899)...41

Tabela 03: Relatório de Doenças 1915...48

Tabela 04: Ruas e número de casas em Santa Maria (1916)...53

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LISTA DE ABREVIATURAS:

AHMSM – Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria AHRS – Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul

CMEC – Casa de Memória Edmundo Cardoso

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO...12

2 A ERA DO SANEAMENTO...18

2.1 Movimento Sanitarista brasileiro e o discurso nacionalista...18

2.2 Quando a saúde se torna pública: é preciso sanear o “imenso hospital”...21

2.3 Higienistas e sanitaristas do início da República no Brasil...26

3 SANTA MARIA/RS NO FINAL DO SÉCULO XIX E INÍCIO DO XX...30

3.1 Ferrovia, imigração e doenças...30

3.2 População e modificações urbanas...33

3.3 Urbanidade e salubridade em Santa Maria...38

4 A INTENDÊNCIA DO DR. ASTROGILDO DE AZEVEDO E O SANEAMENTO DE SANTA MARIA...43

4.1Relações políticas entre Santa Maria e o governo estadual...43

4.2 O contexto sanitário e as doenças em Santa Maria no início do século XX...45

4.3 A intendência do Dr. Astrogildo César de Azevedo e o projeto de saneamento de Santa Maria ...50

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS...57

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1. INTRODUÇÃO:

Numa época em que está em voga o debate sobre problemas ambientais, chama atenção o fato de que uma cidade já massivamente urbana como Santa Maria, situada no interior do Rio Grande do Sul, distante 300 km da capital Porto Alegre, possuir uma realidade na qual, pelo menos, 40% da população ainda enfrenta problemas causados por esgotos à céu aberto. Conforme dados fornecidos pela CORSAN (Companhia Riograndense de Saneamento) para o ano de 2010, menos de 50% das casas em Santa Maria possuem sistema de esgoto coletado e tratado, já no que se refere ao tratamento da água, há uma totalidade de 100%. Dos 42 bairros, Camobi corresponde a 16,84% do território total do município, sendo um dos mais extensos e o com o maiores problemas sanitários, pois não possui um sistema de esgotos. Desde 2010, data limite para a renovação dos contratos da prefeitura com a rede responsável pelo saneamento, uma das principais discussões que se vê na mídia é a respeito de meios para sanar os problemas referentes à falta de higiene pública de vários pontos da cidade. Entre os políticos, no período de eleição, resolver essa dificuldade está entre as principais promessas de campanha.

Esta investigação pretende debater a respeito do primeiro projeto de saneamento de Santa Maria, através de discussões a respeito do início do século XX. Objetiva-se compreender quais os motivos que levaram aos políticos da época em buscar por um projeto sanitário para um município do interior do estado, num período em que apenas as três maiores cidades Porto Alegre, Rio Grande e Pelotas estavam desenvolvendo essa ideia. E, ainda, destaca-se o fato de que este movimento sanitário foi anterior há uma campanha nacional pró-saneamento dos interiores, ou sertões como ficou popularizado, que só ocorreu em 1918.

A presente pesquisa aborda o primeiro projeto sanitário para cidade, quando este ainda era responsabilidade dos municípios com apoio do governo do estado. Na década de 1960, porém, o saneamento básico foi parcialmente privatizado sem que isso resolvesse a maior parte dos problemas que existiam e ainda existem. De fato, os debates sobre a situação dos

saneamentos nas cidades permanecem extremamente atuais. Afinal, ainda hoje, este é um

problema que envolve políticas públicas referentes à salubridade e urbanidade, pois, conforme

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asfaltarmos as ruas, sem antes criarmos o sistema de esgoto” 1. Ou seja, para iniciar este trabalho, parte-se do pressuposto que as políticas sanitárias estão diretamente relacionadas às medidas de intervenção no espaço urbano.

Numa perspectiva de História Social, serão utilizados, nesta análise, conceitos discutidos dentro do campo da História da Saúde Pública, sendo esta entendida como todos os tipos de ações coletivas visando prevenir doenças e interferir nos ambientes (PORTER, 2001). Contudo, o próprio pensamento historiográfico acerca desta questão passou por modificações ao longo do último século, e mesmo hoje, mais de uma teoria atua na explicação dos modelos de saneamento. Reconhece-se, porém, três fases de avaliação macro dos processos sanitários. A primeira é representada pela chamada história heroica; a segunda pela que ficou conhecida como anti-heroica e a terceira pela pluralidade temática que dá margem para a inserção da História do Saneamento como um meio de intervenção e estratégias governamentais para controlar as doenças e pessoas.

Dentre os historiadores da intitulada “medicina heroica”, foi George Rosen um dos

mais significativos. Na década de 1950, através de seu livro Uma História da Saúde Pública,

Rosen inova com sua preocupação em construir uma compreensão da Saúde Pública “contextualizada no tempo (demonstrando as diferenças entre cada época histórica) e no espaço (colocando em perspectiva as alteridades entre os Estados)” (WITTER, 2007, p. 150). Rosen foi o pioneiro a abordar questões de limpeza e higiene dentro da historiografia. Este autor também discutiu a respeito da saúde da população, a qual seria responsabilidade do Estado, pois este teria o dever de propiciar o bem-estar da população. Rosen teria sido um dos

criadores da “tradição heroica”, criticada por Dorothy Porter (1994), pois exalta os agentes

que se preocuparam com a saúde da população, garantindo que foi graças às ações deles, que se atingiram melhores níveis de salubridade.

A partir das décadas de 1960 e 1970, uma nova geração de historiadores passou a

construir outra visão sobre estes “agentes heroicos”. Thomas Mckeown foi um dos primeiros,

através de seu livro The Rise of Modern Population, de 1976. Enquanto Rosen responsabiliza

as políticas de saúde pela redução na mortalidade infantil, Mckeown concordará que através da água limpa, abastecimento e remoção dos esgotos houve uma melhoraria as condições de vida. Porém, discorda do heroísmo dessas ações ao defender a tese de que a queda da

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mortalidade infantil deveu-se, especialmente, ao incremento agrícola ao qual propiciou uma melhoria na dieta da população (PORTER, 1994).

Outro autor a aferir forte crítica à Rosen foi Michel Foucault, se tornando o mais expressivo combatente da Medicina heróica nas décadas de 1970 e 1980. Foucault fez parte de uma geração de historiadores franceses que passou a incorporar, na análise da atuação da medicina, “a compreensão das esferas de poder na sociedade bem como a carga repressiva que impregnava a ação dos médicos” (WITTER, 2007, p. 28). Dessa forma, o autor critica a maneira roseniana de estudar a História da Medicina, que apenas privilegiava a ação dos médicos junto ao Estado. Nesse período, em que a historiografia francesa une a história demográfica à história da medicina e das doenças, o próprio Foucault vai reconstruir o conceito de medicina social, justificando-o através de uma medicina urbana e contrapondo o

que já havia sido elaborado por Rosen em História da Saúde Pública (e depois aprofundado

em seu outro livro Da Polícia Médica à Medicina Social). O historiador norte-americano se

baseou no livro System der Hygieine de Eduard Reich, no qual subdividia os conceitos de

higiene, tratando da higiene social como a primeira forma da medicina social. Enquanto Rosen defendia que:

A higiene social diz respeito ao bem-estar da sociedade. Baseando-se na estatística, ela acompanha os acontecimentos da vida social, vigia a população em seus vários estados [...]. É tarefa da higiene social prevenir as doenças da sociedade e manter a saúde da comunidade civil (ROSEN, 1979, pp.109-110).

Foucault, ao explorar a medicina social, determina três etapas para a sua formação. A primeira corresponde à “Medicina do Estado”, que se desenvolveu na Alemanha, no início do século XVIII, onde haverá o princípio da intervenção estatal na saúde, através do desenvolvimento de uma prática médica centrada na melhoria do nível de saúde da população.

A segunda refere-se à “Medicina Urbana”, desenvolvida na França, no final do século XVIII.

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A historiografia mais recente, de meados da década de 1980 e anos 1990, foi marcada

pela pluralidade temática, onde os historiadores primaram por testarem os grandes “esquemas

explicativos” em pesquisas monográficas e aplicadas à contextos sociais e históricos específicos. Tais esforços originaram “estudos que deram destaque à Saúde Pública e o papel do Estado na sua construção” (WITTER, 2007, p. 152). Nikelen Witter aponta em sua tese dois “balanços críticos”, um em nível internacional e outro nacional, elaborados acerca do tema. No âmbito nacional, destaca o texto de Nísia Trindade e Maria Alice Carvalho, o qual associa a temática da Medicina e das Políticas de Saúde no Brasil como um poder disciplinar sobre a população (CARVALHO; LIMA, 1992). Já em nível internacional, Witter destaca a obra de Dorothy Porter, que avaliou as pesquisas de Foucault e Rosen, comparando-as com novas pesquisas em países europeus (WITTER, 2007).

No tocante à historiadora britânica Dorothy Porter, é possível destacar dois trabalhos

importantes. O primeiro, um livro organizado pela autora, em 1997, intitulado The History of

the Public Health and the Modern State, no qual ela faz uma retrospectiva historiográfica sobre História da Saúde, desde a tradição heroica, passando pela anti-heroica, até a visão que privilegiava as análises específicas dos problemas de Saúde Pública envolvendo o poder de intervenção do Estado. No mesmo texto, a autora, depois de concluir essa parte inicial, fez uma apreciação da Saúde Pública na França, Inglaterra e Alemanha, apontando as

especificidades de cada caso. O segundo texto, denominado Public Health, faz parte de uma

Enciclopédia de História da Medicina, organizada por Roy Porter e W. F. Bynum. Neste, Porter é mais específica, abordando quais as intervenções e medidas tomadas pelo Estado em relação aos problemas com a saúde da população, desde a antiguidade até o século XX.

Dentro de uma abordagem histórica, desde a década de 1930, com a fundação da

revista francesa Annales Economique et Sociale, houve uma maior flexibilidade para o

diálogo entre História e as Ciências Sociais, propiciando uma abordagem sobre temáticas sociais e antropológicas. A partir de então passaram a escrever:

contra uma História “olímpica”, a reflexão sobre antigas inquietações humanas – tais como a família, a alimentação, o amor, a doença, a sexualidade e a morte –, quando qualificada, ainda mais, pela ênfase na ação dos sujeitos e na crítica ao estabelecimento de relações mecânicas entre estas ações e a estrutura econômico-social, parece ser o que melhor corresponde à noção de uma História Social (CARVALHO; LIMA, 1992, p.119).

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Pública no Brasil, os pioneiros a abordar esse assunto, dentro da academia, foram os cientistas sociais, a partir da década de 1980. Um dos primeiros foi o sociólogo Luis Antônio de Castro

Santos, com os artigos Estado e Saúde Pública no Brasil: 1889-1930 (1980) e O pensamento

sanitarista na Primeira República: uma ideologia de construção da nacionalidade (1985),

ambos publicados pela Revista de Ciências Sociais – Dados. Nestes, o autor analisa as

questões de Saúde Pública na Primeira República, considerando o movimento sanitarista do período como o mais importante projeto de construção da nacionalidade brasileira. O mesmo

autor, no livro A Reforma Sanitária no Brasil: ecos da Primeira República (2003), abordou

mais profundamente essas questões.

Outro sociólogo a abordar o tema foi Gilberto Hochman (1993; 1998). Seguindo na linha de Castro Santos (1985), Hochman fez uma análise das relações entre saúde pública e

construção do estado no Brasil da Primeira República. No seu livro, A Era do saneamento: as

bases da política de Saúde pública no Brasil, o autor faz um estudo sobre a história da Saúde Pública no Brasil, enfocando as décadas de 1910 e 1920, e abordando, especialmente, as primeiras iniciativas higienistas de regulação do estado brasileiro. Hochman justifica o título de sua obra, destacando o que significou, literalmente, a “Era do Saneamento”. Ele explica que:

Foi um período de crescimento de uma consciência entre as elites em relação aos graves problemas sanitários do país e de um sentimento geral de que o Estado nacional deveria assumir mais a responsabilidade pela saúde da população e salubridade do território (HOCHMAN, 1998, p. 40).

Embora, a partir da terceira geração dos Annales, em 1970, a diversidade temática

tenha se expandido no campo da historiografia, os historiadores só passaram a explorar a história do saneamento e da higiene, a partir década de 1990 e nos anos 2000. É possível

afirmar que um marco na historiografia brasileira sobre o tema foi o artigo O argumento

histórico nas análises de Saúde Coletiva, de Maria Alice de Carvalho e Nísia Verônica Lima,

o qual faz parte do livro Saúde: Coletiva? Questionando a onipotência do social, organizado

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Neste trabalho, pretende-se discutir a hipótese da elaboração de um projeto de saneamento para a cidade de Santa Maria, como uma profilaxia urbana de controle do Estado sobre o espaço e a sociedade. Para tanto, utilizou-se como metodologia o cruzamento da historiografia que aborda temas relacionados à higiene e urbanização, com as correspondências trocadas entre o Intendente Municipal Dr. Astrogildo César de Azevedo e o engenheiro Francisco Saturnino de Brito e com o Presidente do Estado Antônio Augusto

Borges de Medeiros, além de relatórios da intendência e relatos de viagem2.

Sendo assim, dividiu-se em três partes. A primeira: A Era do Saneamento tem por

objetivo situar o leitor no contexto das reformas sanitárias e urbanas do final do século XIX e início do XX, destacando o papel dos higienistas para a elevação da saúde como

responsabilidade do Estado. Na sequência, em Santa Maria/RS no final do século XIX e início

do XX pretende-se contextualizar o objeto de estudo dentro dos processos que ocorreram na cidade no período, apontando para as motivações que levaram as autoridades locais a

desenvolver um projeto de saneamento. Por fim, A intendência do Dr. Astrogildo de Azevedo

e o saneamento de Santa Maria aborda o quanto as relações entre a política local e a estadual influenciaram na tomada de decisões referentes à saúde no local. Além disso, neste capítulo explora-se o projeto sanitário e suas implicações.

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2. A ERA DO SANEAMENTO

2.1. Movimento sanitarista brasileiro e o discurso nacionalista

Para compreender o que significou o movimento sanitarista brasileiro é preciso retornar à influência higienista de finais do século XIX, a qual foi fundamental para sua construção. Durante os oitocentos, pesquisas a respeito das condições de saúde das coletividades permearam os estudos de higiene. Estes pautavam suas análises a partir do advento da industrialização e urbanização, e refletiam numa intensa publicação de relatórios médicos sobre propostas de reformas sanitárias e urbanas (LIMA, 2002). Era comum a associação entre cidades massivas e as patologias, ao mesmo tempo em que se sentia a necessidade de soluções através de políticas públicas, mesmo que isto ainda não significasse reformas. Neste contexto, entendia-se por higiene o estudo do homem e dos animais em sua

relação com o meio, visando ao aperfeiçoamento do indivíduo e da espécie (LATOUR apud

LIMA, 2002). A tentativa de normatizar a vida social a partir da higiene foi tão significativa,

que levou alguns teóricos a denominá-la de “Estado higienista”.

As bases para esta concepção de higiene encontram-se no chamado neo-hipocratismo,

“uma concepção ambientalista da medicina baseada na hipótese da relação intrínseca entre

doença, natureza e sociedade” (FERREIRA, 1996, p. 57). Isto deu origem à duas posições sobre as causas e formas de transmissão das doenças: a contagionista e a anticontagionista. Os contagionistas afirmavam que a doença se propagava individualmente de um para o outro e estimularam práticas de controle e cerceamento, como o isolamento de doentes, desinfecção de objetos e a instituição da quarentena. Já os anticontagionistas relacionavam as doenças à constituição atmosférica, enfatizando práticas de controle ambiental (CZERESNIA, 2000). Estes últimos acreditavam que o ar e a água fossem elementos perigosos, sendo que o contágio e a infecção se davam através deles. Dessa forma, desempenharam um papel decisivo na “intervenção sobre ambientes insalubres - águas estagnadas, habitações populares, concentração de lixo e esgotos - e nas propostas de reforma urbana e sanitária, nas cidades

europeias e norte-americanas, durante o século XIX” (LIMA, 2002, p. 31).

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importantes elementos na configuração dos Estados modernos. No caso das Américas e, especialmente, do Brasil, a febre amarela, do final do século XIX e início do XX, foi considerada o grande desafio das políticas sanitárias. Considera-se como um marco na estruturação de políticas públicas no Brasil.

Às epidemias é atribuído um importante papel na História Social das diferentes populações humanas. Através das visitações ocasionais e inesperadas a peste, a varíola, a febre amarela, a cólera, a tuberculose e, mais recentemente, a AIDS, vêm afligindo às sociedades e chamando atenção dos estudiosos, pois em época de visitação, apesar da consternação geral, a sociedade é obrigada a se renovar (BELTRÃO apud WITTER, 2007, p. 25).

A sociedade brasileira viu-se obrigada a renovar-se e, por isto, fez dos higienistas seu

braço direito. Sob a ótica de que “a saúde torna-se cada vez mais necessária ao bom

funcionamento das sociedades em via de industrialização” (ADAM; HERZLICH, 2001, p.43), era preciso equilibrar a noção de meio externo e interno, ou seja, sanear os ambientes (externo) para obter uma melhor saúde do corpo (interno). Esta era uma necessidade, pois as condições de vida e de trabalho nas cidades haviam se transformado em direção ao acúmulo de pessoas e ao aumento dos contatos, o que fez com que aumentassem o número de epidemias.

Este foi o caso da febre amarela no Rio de Janeiro, a qual os médicos relacionaram à chegada de um navio negreiro vindo de New Orleans (EUA), em 1849, que teve seus tripulantes dispersados. Isto teria disseminado a doença pela cidade, atingindo mais de 90.000 habitantes, dos 266 mil. Dessa forma, essa doença tornou-se a grande questão sanitária nacional (CHALHOUB, 1999; BENCHIMOL, 2011). É nesse meio que o movimento de higiene pública expande as normativas da saúde em relação à esfera pública. Os higienistas relacionavam as doenças com o ambiente e com as relações sociais que produziam a fome, a miséria, a exploração e a opressão. Uma intervenção sanitária neste contexto, por conseguinte, foi identificada como revolucionária. Foi o período em que a medicina fundiu-se à política e se expandiu em direção ao espaço social (CZERESNIA, 2000).

Ainda sobre o caso brasileiro, foi a partir da epidemia supracitada que o Império

viu-se obrigado a reorganizar suas ações nas questões de saúde. O que viu-se desdobrou “na criação

da Junta Central de Higiene, em 1850-51, e relacionadas a esta, em cada província, as

Comissões de Higiene Pública” (WITTER, 2007, p. 59). Essa questão envolvendo doenças foi

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demonstra claramente o papel que a epidemia de febre amarela teve como ativador das preocupações governamentais com a saúde da população (WITTER, 2007).

O primeiro historiador a elaborar um estudo sobre a Saúde Pública foi o norte-americano George Rosen, na década de 1950, através de seu livro “Uma História da Saúde Pública”, que se tornou fundamental para os estudos sobre esse tema. Nessa obra, o autor rompe com a história escrita somente por médicos. Rosen destaca que, ao longo do século XIX, houve diferentes esforços no sentido de centralizar as administrações para a saúde pública. Especialmente a partir da segunda metade do século XIX, se notaram mudanças mais efetivas no que diz respeito à administração da saúde e saneamento. Estas ações ocorreram via processo de higienização, centrando-se, primordialmente, no espaço urbano. Essa foi a perspectiva que norteou a organização de políticas governamentais, dadas suas devidas proporções, em diversos locais, como França, Inglaterra, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto

Alegre.Tais ideias, a respeito das ações sanitárias, tiveram forte influência no Brasil entre os

higienistas ou sanitaristas, como eram chamados aqueles engajados no movimento sanitarista da República Velha (1889-1930).

Sobre o pensamento sanitarista da Primeira República, o pioneiro a abordar esse tema, no Brasil, foi o sociólogo Luiz Antônio de Castro Santos, na década de 1980. Castro Santos destaca que foi uma ideologia de construção da nacionalidade brasileira. O autor aponta para duas fases das ações sanitaristas: a primeira combate às epidemias urbanas e às preocupações com a saúde dos imigrantes desempenharam papel central; na segunda, voltada ao saneamento rural, se fez sentir a força das ideias nacionalistas então em debate (CASTRO SANTOS, 1985). Ocorreram nesse período publicações de intelectuais que se direcionavam a uma corrente nacionalista, e que detinha suas esperanças de salvação da nação através da construção de uma identidade nacional. Dentro desta perspectiva, haviam duas correntes de pensadores: uma que sonhava com a civilização e o progresso do país através da modernização das cidades; e outra que preocupava-se em buscar no interior do Brasil as raízes da nacionalidade, visando integrar o sertanejo ao projeto de construção nacional.

Ao primeiro grupo pertencia o bacteriologista Oswaldo Cruz (1872 – 1917) que foi

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(1902-1906), que pautou sua administração em melhorias nos portos, na reforma e no embelezamento da cidade do Rio de Janeiro, através do saneamento urbano e no combate às epidemias de febre amarela, peste bubônica e varíola (CASTRO SANTOS, 1985; HOCHMAN, 1998). Segundo Castro Santos, o fator determinante para políticas de saúde nesse período (1903-1909) seria a necessidade de livrar o país dos prejuízos causados pelo comércio exterior e pelas péssimas condições sanitárias da capital federal. Já a segunda

corrente de pensamento, conhecida também como a segunda fase do movimento sanitarista –

durante as décadas de 1910 e 1920 – percebia que sanear o interior era a grande questão. Sua

principal característica era a ênfase no saneamento rural e, em especial, no combate a três endemias rurais (ancilostomíase, malária e a doença de Chagas). Percebiam a necessidade de tratar dos sertanejos, que estavam abandonados e doentes, com o objetivo de curá-los e de

integrá-los à comunidade nacional. A publicação de “Os sertões”, de Euclides da Cunha,

chocou muitos intelectuais, pois as descrições dos ambientes e suas condições fugiam às perspectivas sobre a origem da nacionalidade brasileira. A partir desta obra, os sertões se tornaram sinônimos de abandono e doença, sendo assim, após o diagnóstico de um povo doente, tornava-se premente curá-lo, através de ações de higiene e saneamento, unindo o poder público à medicina. “Era urgente transformar estes estranhos habitantes do Brasil em brasileiros” (HOCHMAN, 1998, p. 69). A ciência médica tornou-se uma solução para um país que, até então, não enxergava alternativas para sua situação sanitária.

2.2.Quando a saúde se torna pública: é preciso sanear o “imenso hospital”

Aprofundando as considerações sobre a segunda corrente do pensamento higienista do início da República no Brasil, adentra-se pelas décadas de 1910 e 1920, nas quais sanear o interior do país foi a grande questão. Isto equivaleu ao período denominado por Gilberto Hochman de “Era do saneamento”, pois foi quando a saúde pública foi alçada ao topo da agenda política nacional. Ou seja, as elites atentaram para os graves problemas sanitários e

floresceu um sentimento de que era necessário “o Estado assumir a responsabilidade pela

saúde da população e salubridade do território” (HOCHMAN, 1998, p. 40).

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quanto entre políticos, emergiram noções de inferioridade racial e isto foi atribuído à proliferação das doenças infectocontagiosas do país (FARIA, 2007). A miscigenação, por exemplo, era um fator de atraso e subdesenvolvimento, assim como o mestiço era visto como um elemento nocivo à sociedade (CASTRO SANTOS, 1985).

Além disso, a partir das teorias bacteriológicas do final do século XIX, e depois com as teses de Louis Pasteur sobre a microbiologia, as doenças também passaram a ser vistas como um atraso para o progresso e a modernização da sociedade. Na bacteriologia da época, acreditava-se que as origens biológicas das doenças eram provenientes da qualidade do ar, das emanações miasmáticas ou dos cheiros fétidos, criando, desta forma, um estado atmosférico propício ao contágio. Sendo assim, as cidades e suas precárias condições eram um grande problema a ser solucionado, pois pela higiene do período entendia-se a ausência de cheiros fortes e a não aparência de sujeira à visão. Entretanto, a profilaxia se resumia ao saneamento ambiental, que era, basicamente, a quarentena e a exclusão dos doentes (BOARINI, 2003). Nas últimas décadas do século XIX, o advento da microbiologia possibilitou uma nova compreensão dos males. Visto que, com a descoberta da existência de micróbios transmissores de infecções, decaí a ideia que as doenças eram transmitidas pelos miasmas, entendidos, nessa época, como ares corrompidos. Este fato que não desqualificou a necessidade de higienizar os ambientes, pelo contrário, aperfeiçoou os estudos sobre as causas

e tratamentos dos principais males que atacavam a população, pois “a insalubridade dos

ambientes, da moradia, dos alimentos e o esgotamento físico estavam entre os principais vilões da saúde” (BOARINI, 2003, p. 35). Deste pensamento, nasceu o mito que a pobreza e a falta de higiene, assim como os membros destes grupos mais pobres, são as causas das proliferações das doenças infectocontagiosas.

Ainda sobre as condições higiênicas, cabe ressaltar a dicotomia cidade/doença e as relações com a medicina na tentativa de controlar o espaço urbano. Ainda no século XIX, os movimentos pela saúde pública na Europa tenderam a se voltar às cidades, acreditando que a higiene era a melhor solução para intervir positivamente no seu espaço insalubre, como uma forma de solucionar um “mal público”.

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em que também é resultado de motivações e ações de indivíduos e grupos. Para De Swaan, o aparecimento de políticas sociais fez parte do processo histórico de generalização da interdependência humana, resultante da formação dos estados centralizados e da coletivização

do bem-estar. Esse mesmo autor propõe uma teoria “sobre decisões individuais em sociedade

que procura identificar e analisar as razões e condições para a intervenção e a regulação estatal em situações de interação e interdependência” (apud HOCHMAN, 1998, p.25). Sendo assim, seriam os elos de interdependência que estabeleceriam a necessidade da coletivização do cuidado com quaisquer indivíduos que sofram adversidades temporárias ou permanentes. Dessa forma, a formulação de políticas públicas de saúde faria parte da construção desse Estado de bem-estar.

Ainda sobre o processo de coletivização e estatização, De Swaan apresenta três características: a escala do processo, seu caráter coletivo e seu caráter estatal. Esta última teria por consequência o aumento da coercitividade e da burocratização, impulsionando a estatização, pois se não isto ocorresse, implicaria em um grande número de adversidades (apud HOCHMAN, 1998, p.27). Em relação à saúde pública, aumento da densidade urbana, a industrialização e a urbanização criaram adversidades que atingiram a todos os segmentos da população. Estabeleceram-se infortúnios entre ricos e pobres, doentes e saudáveis, a ponto de não ser mais possível apenas o isolamento das ameaças ou a segregação de serviços como a coleta de lixo e o abastecimento de água. A partir dessas questões, Hochman conclui que a saúde ou a doença “é um dos melhores exemplos dos problemas de interdependência humana

e de suas possíveis soluções” (1998, p.28). Dessa forma, as epidemias são consideradas

paradigmas da interdependência, sendo um exemplo de efeito externo das adversidades individuais, pois atinge toda a sociedade. Por isto, o autor sugere que doenças ou epidemias sejam tratadas como “mal público”, pois “se ninguém pode ser impedido de consumir um bem coletivo, se assim o quiser; [...] ninguém poderá abster-se de consumir um mal coletivo, mesmo contra a sua vontade” (SANTOS apud HOCHMAN, 1998, p.28).

Na presença de tantas externalidades e adversidades, o Estado teria como dever sua regulação e resolução, através da coletivização dos cuidados com a saúde, a educação e a manutenção da renda. Sendo assim, “a constituição de um sistema sanitário e de uma política de cuidados com a saúde, primeiro em base privada e voluntária, depois, compulsória e

pública, representaria um capítulo especial da formação do Estado de Bem-Estar” (DE

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como perspectivas reformistas, até radicais, era a medicina se fundindo à política e o Estado em direção ao espaço social.

É inevitável referir-se às epidemias dos oitocentos, especialmente o cólera, quando está se estudando as primeiras intervenções do Estado em saúde. A experiência dessa doença nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil foi determinante para a percepção das elites políticas “sobre os problemas sanitários, favorecendo ações políticas, criação de organizações e intervenção dos Estados nacionais na resolução dos problemas de saúde e nas reformas

urbanas” (BRIGGS apud LIMA, 2002, p. 36). Além de ser o pontapé inicial para a

compreensão da saúde como um problema de natureza coletiva, também a transformou em um tema de debate internacional. Sendo assim, essa doença e suas implicações criaram elos de interdependência social, conforme discutido por Hochman (1998), que suscitaram numa reforma urbano-sanitária como solução para o combate às epidemias.

Ao observar estudos específicos sobre o cólera no sul do Brasil, não se pode deixar de

citar a tese de Nikelen Witter, intitulada Males e Epidemias: sofredores, governantes e

curadores no sul do Brasil (Rio Grande do Sul, século XIX), defendida em 2007. Neste trabalho, a autora aborda a epidemia do cólera de 1855 - que assolou a capital da Província do Rio Grande do Sul, Porto Alegre - para compreender o papel dos sofredores, curadores e governantes no que se refere às concepções de saúde, doença e cura; bem como suas implicações para a institucionalização da Saúde Pública. Sendo assim, a década de 1850 foi significativa no que se refere ao surgimento da Saúde Pública no Brasil, através do início dos

“debates acerca de qual papel seria representado pelo governo da nação junto ao processo de

melhoramento sanitário das cidades e do país” (WITTER, 2007, p. 22). No entanto, não se

pode ficar restrito a destacar somente o cólera, pois antes, mas ainda no início dessa década de 1850, a epidemia de febre amarela no Rio de Janeiro já havia apontado os primeiros destaques

à atuação do Estado para “amenizar as possíveis invasões das doenças” (PIMENTA,2011,

p.22). Tem-se como exemplo, a já citada, criação de uma Junta Central de Higiene na capital e, junto a esta, Comissões de Higiene Pública em cada Província, que tinham o objetivo de reestruturar a atenção sanitária oferecida à população.

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responsável pela Província ressalta não haver epidemias, preocupa-se com as precárias condições de higiene das cidades, situação que poderia ser propícia há uma instalação de doenças. No ano seguinte, outro Presidente dessa mesma Comissão, Dr. Manoel Pereira da

Silva Ubatuba, envia um relatório apontando para “a enorme mortalidade provocada por

moléstias do tubo digestivo” (p.61), além de sua notável preocupação sobre a falta de água

potável. Ubatuba assinala os lugares e algumas ações que o governo e a Comissão deveriam atuar para afastar “os males que dizimavam a população” (p.62). Mesmo com o envio de relatórios anuais para a Junta Central, esta pouca importância conferia, foi apenas com a epidemia do cólera de 1855 que foram dadas maiores atenções às reivindicações da Comissão de Higiene da Província.

Durante a epidemia, a Comissão foi a responsável por apontar algumas medidas de contenção e propagação da doença, como, por exemplo, a proibição de aglomerados em locais públicos, isolamento de doentes, suspenção da venda de alimentos considerados indigestos, etc. Também foram elaborados levantamentos sobre a mortalidade na capital Porto Alegre, com a finalidade de traçar um mapa que “orientaria possíveis atuações em prol da salubridade da cidade” (WITTER, 2007, p.83).

Nesse sentido, pode-se perceber o princípio da atuação de órgãos do governo, preocupados com a saúde da população e com melhorias urbanas a fim de evitar mais mortes ou possíveis novas doenças. Entretanto, algumas ações institucionalizadas, como a legislação

sobre obras públicas, “muitas vezes confundiam o conforto de determinadas áreas da cidade

com as preocupações gerais com a saúde da população” (WITTER, 2007, p. 173). As funções

da Comissão foram ampliadas lentamente, e é inegável afirmar que, com a epidemia de 1855, suas atuações se tornaram mais efetivas.

“Em 1886, a Junta Central de Higiene Pública transformou-se em Inspetoria Geral de

Higiene, dela se separando a Inspetoria Geral dos Portos” (BENCHIMOL, 2011, p.238).

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sertão. Este documento obteve uma grande repercussão no meio intelectual e político no início da República, foi a partir dele que o Presidente de Academia Nacional de Medicina, Miguel Pereira, proferiu um discurso a respeito da situação sanitária brasileira, no qual afirmou que o país era um “imenso hospital” (HOCHMAN, 1998). Dessa forma, seriam necessárias medidas para sanear este problema, que a partir de então não ficava restrito apenas aos grandes centros, pelo contrário, era solucionando os males do interior do país que se chegaria a medidas para resolver um problema nacional. Sendo assim, emergia, portanto, a segunda fase do movimento sanitarista, marcada pelo início das discussões pelo saneamento dos sertões e as primeiras efetivações de políticas públicas de saúde.

Esse pensamento, baseado em encontrar no interior do país as soluções para os problemas nacionais, era fruto do discurso nacionalista que emergiu especialmente no pós-Primeira Guerra Mundial. Sentia-se a necessidade de se pensar o Brasil em seus próprios termos. Sendo assim, esse período ficou caracterizado por um “nacionalismo nativo”, pois o modelo europeu de sociedade não servia mais como referência para a construção de uma

moderna nação tropical. Dessa forma, era preciso “sustentar-se nessa ‘força nativa’ para

reconfigurar a consciência nacional como meio de ‘redescobrir’ as especificidades que

formavam a nação brasileira” (SOUZA, 2009, p. 255). Alguns cientistas, como o Artur Neiva,

acreditavam que a reforma nacional dar-se-ia por meio da imprensa, “considerando o fato de

os brasileiros lerem quatro jornais por mês e nenhum livro, a ela caberia o papel decisivo em

orientar a marcha nacional” (NEIVA apud SOUZA, 2009, p. 255). Em correspondência

pessoal, Neiva apontou que para a nação desenvolver-se era preciso que este meio de comunicação em massa transmitisse informações que instruísse, orientasse e despertasse a consciência nacional. Ainda destacava que um grande jornal era capaz de incentivar várias campanhas “desde a questão do saneamento até a da redução dos impostos” (NEIVA apud SOUZA, 2009, p. 256).

2.3.Higienistas e sanitaristas do início da República no Brasil

Os higienistas foram os primeiros a formular um discurso sobre as condições de vida

no Rio de Janeiro, bem como a propor meios para solucionar os problemas do “organismo”

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responsabilizando as doenças às predisposições dos indivíduos, mas, sobretudo, as condições do meio ambiente (CHALHOUB, 1996). Isto porque tinham como referência de seus estudos o pensamento hipocrático, ou seja, baseavam-se em intervenções que se limitavam na urbe,

através de ações preventivas. Visavam uma melhor circulação dos ares, o aterramento de

locais insalubres (lugares) e uma melhor conservação das águas (ÁVILA, 2010).

Além de “condenarem lugares como os morros, pois impediam a circulação dos ventos capazes de dissipar os males pelos ares; entre os fatores morbígenos, sobressaíam as habitações, especialmente as “coletivas” onde se aglomeravam os pobres” (BENCHIMOL, 2011, p. 240). Os médicos desaprovavam estes locais nos quais havia pouca luz e rara circulação do ar, pois eram propícios a liberar nuvens de miasmas. Igualmente, também combatiam outros hábitos da vida urbana, como por exemplo: animais mortos pelas ruas, amontoados de lixos e valas a céu aberto, hospitais fora das regras higiênicas, ruas estreitas e tortuosas que prejudicavam a circulação dos ares, pouca arborização nas praças, etc. Atrás de todos esses diagnósticos, os higienistas contribuíram para que fossem estabelecidas as primeiras leis que regulassem a higiene das cidades e o crescimento urbano, cujo objetivo era

transformar a capital do Império num local mais salubre e moderno – considerando que todos

os estudos eram voltados ao Rio de Janeiro.

Por exemplo, um projeto de lei elaborado pela Câmara em setembro de 1853,

denominado Regulamento dos Estalajadeiros, dizia o seguinte:

“Quanto às condições de higiene, os estalajadeiros eram obrigados a conservar suas casas no melhor asseio possível, conduzindo o lixo, as águas sujas, e outras matérias imundas para os locais onde era permitido o despejo. Ficava proibido o depósito de lixo e matérias fecais em covas feitas no quintal, ou em qualquer outra parte da casa. Os fiscais das freguesias deviam zelar pela obediência ao regulamento”

(CHALHOUB, 1996, p. 30).

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e o início da República, a capital brasileira atraiu novos habitantes, dobrando sua população que já ultrapassara os 500 mil habitantes. Paralelo a estes dados estavam às epidemias, que já superavam o número de mortes das anteriores. A febre amarela, a varíola, a malária e a tuberculose, juntas, causaram mais de 15 mil óbitos entre 1890 e 1891 (BENCHIMOL, 2011). Sendo assim, os médicos higienistas perceberam que seus métodos profiláticos não estavam sendo eficazes, eram necessárias medidas mais eficazes no controle e tratamento destas doenças. Por isto, no programa de governo de Francisco de Paula Rodrigues Alves de 1901, para o cargo de Presidente da República, o saneamento do Rio de Janeiro era prioridade.

No plano de governo de Rodrigues Alves o saneamento era sinônimo de modernização urbana, para tanto se precisava acabar com as ruas estreitas, com locais de grandes aglomerações. Era necessário abrir as janelas da cidade para que os miasmas fossem embora, para tanto foram executadas algumas medidas radicais, como a destruição de cortiços, por exemplo. Sidney Chalhoub relata a demolição do Cabeça de Porco, em 1893, que ficou marcada como o início do “processo de erradicação dos cortiços cariocas” (CHALHOUB, 1999, p.17). Destruir locais como estes, para as autoridades da época, era prestar grandes

serviços a sociedade, visto que não estavam apenas limpando as sujeiras, mas “purificando a

cidade, livrando-a definitivamente daquele ‘mundo de imundície’”, segundo o que foi

anunciado por um jornal da época sobre o fato (apud CHALHOUB, 1999, p. 19).

(30)

A viagem de Artur Neiva e Belisário Pena foi financiada pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC) e requerida pela Inspetoria de Obras contra as Secas, órgão do Ministério dos Negócios da Indústria, Viação e Obras Públicas. Entre as várias viagens financiadas pelo IOC, esta foi a de maior repercussão, visto que se apontou para uma realidade até então desconhecida, que caracterizava a população do interior do Brasil como doente, pobre, analfabeta, isolada

geográfica e culturalmente, além de com vocação para regredir (NEIVA, PENNA apud SÁ,

2009). O debate que girou em torno do relatório dessa viagem influenciou anos a fio em uma reestruturação de políticas de saúde no Brasil. A criação de uma Liga Pró-Saneamento, em 1918, por exemplo, foi reflexo disto. Além de um movimento pelo saneamento dos sertões, da defesa da criação de postos de profilaxia rural e de educação sanitária, e, sobretudo, a campanha pela federalização dos serviços de saúde pública no Brasil, cuja maior expressão foi à criação do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP) em dezembro de 1919 (CASTRO SANTOS, 1985; HOCHMAN, 1998). Sendo assim, inaugurou-se no cenário nacional um movimento sanitarista que refletiu num discurso político idealizador. Período caracterizado pelo fortalecimento da união entre Estado e medicina, no sentido de intervir na

sociedade e formular, definitivamente, políticas públicas de saúde. Os “sanitaristas e os

políticos adquiriram o direito de intervir na vida das populações, no sentido de higienizá-las,

discipliná-las e organizá-las de acordo com a lógica das novas relações sociais” (MELLO;

BELTRAME; 2010, p. 93).

Entre os literatos citados que faziam parte deste contexto do movimento sanitarista, destaca-se a figura de Monteiro Lobato. Em um primeiro momento, Lobato estava impregnado do pensamento dos políticos nacionalistas da época, que acreditavam que o atraso do Brasil era responsabilidade do povo, especialmente os sertanejos. Quando criou o personagem Jeca Tatu, estava representando esse caboclo do interior, considerado um “piolho da terra, uma praga da terra” (LOBATO, 1912, apud CAMPOS, 1986, p. 15). Caracterizava o caipira como passivo, preguiçoso, ignorante e supersticioso. Entretanto, quando Lobato adere

aos ideais do movimento pró-saneamento, concluí que “o Jeca não é assim, está assim” (apud

HOCHMAN, 1998, p. 68). Dessa forma, acredita que a melhor forma de “ressuscitar o Jeca”

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3. SANTA MARIA/RS NO FINAL DO SÉCULO XIX E INÍCIO DO XX

3.1Ferrovia, imigração e doenças

A partir da segunda metade do século XIX, o país passou por um intenso processo de transformações econômicas, sociais e culturais. Buscava-se o progresso e a modernização, para isto foram necessárias várias medidas de controle social, sendo que as políticas higienistas se inseriam nesse propósito. Nas palavras da historiadora Margarida de Souza

Neves, a virada do século XIX para o XX foi definida por “vertigem e aceleração do tempo”,

referindo-se a capital da República, Rio de Janeiro (2011, p.15).

Ainda que de forma menos contundente, o mesmo sentimento estaria presente nas principais cidades brasileiras, que, tal como a cidade-capital, cresciam como nunca, tornavam complexas suas funções e recebiam levas de imigrantes europeus (...). Tudo parecia mudar em ritmo alucinante. A política e a vida cotidiana; as ideias e as práticas sociais; a vida dentro das casas e o que se via nas ruas (NEVES, 2011, p. 15).

Estas complexas modificações a que se refere à historiadora, tanto em aspectos urbanos, como políticos e sociais, podem ser aplicadas ao contexto do Rio Grande do Sul, nesse mesmo período, e também à Santa Maria. Alguns autores apontam para o final do

século XIX e as primeiras décadas do XX, como o maior boom econômico da cidade. Isto se

deve a implantação da rede ferroviária, a partir de 1885, que ligou o interior à capital e a capital à fronteira oeste.

Antes da ferrovia, entre as décadas 1860 e 1880, de acordo com os Relatórios dos Presidentes da Província, pouco se falava em Santa Maria, o que indica, conforme a historiadora Daniela Vallandro de Carvalho (2005), que era uma cidade de pouca importância, sobretudo econômica. As práticas comerciais giravam em torno de alguns lavradores e carreteiros que abasteciam a cidade e também propiciavam uma maior circulação de pessoas e formavam novos locais de sociabilidade aos arredores de suas rotas, ou seja, eram eles o fio condutor entre o meio rural e o urbano (CARVALHO, 2005; FARINATTI, 1999). Mas, ainda assim, a pequena esfera comercial era dominada por alguns imigrantes alemães, instalados na região desde as décadas de 1830 e 1840, que possuíam casas de comércio, enquanto os lavradores “tomavam conta de pequenos e médios lotes de terras nos quais produziam gêneros alimentícios de subsistência” (CARVALHO, 2005, p. 42).

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propiciando-lhes certa prosperidade na região. Entretanto, embora houvesse essa ligação com o meio rural, suas atividades consistiam-se essencialmente urbanas, eram oleiros, marceneiros, alfaiates, ourives, pedreiros, sapateiros, etc. Segundo o Relatório do Presidente

da Província, Joaquim Antão Fernandes Leão, em 1859 havia na Vila “14 curtumes, 37

atafonas, 14 olarias, 10 marcenarias, 8 ferrarias, 6 ourives, 18 alfaiatarias, 10 sapatarias, 8

lombilharias, 4 carpintarias, 10 pedreiros, 14 curtidores, 2 pedreiras, 40 casas de negócio”

(apud CARVALHO, 2005, p. 45). Considerando que grande parte destas casas comerciais era de imigrantes alemães, se pode inferir que nada tinham de pobres infelizes, como, na maioria das vezes, destaca a historiografia tradicional. O viajante Robert Avé-Lallemant, quando

esteve em Santa Maria, fora hospedado por um jovem ourives alemão, de 18 anos e já

independente da família, ou seja, pode-se perceber a prosperidade de alguns imigrantes na região. Assim sendo, esses imigrantes ocuparam alguns cargos importantes na cidade, além de possuírem um papel fundamental no cenário comercial da região até, pelo menos, a década de 1880.

Além das condições econômicas, alguns relatos apontam para as condições dos espaços da cidade que atentam para um cenário essencialmente ruralizado, com um ambiente urbano muito precário até as últimas décadas do século XIX. Elementos comprovados através

da análise do relato do Presidente da Província Joaquim Leão, no qual descreve que havia “4

estradas gerais, em mau estado, 2 pontes, em estado de ruína, ruas e praças também em

ruínas” (apud CARVALHO, 2005, p. 51).

Há também outros dois elementos importantes para destacar do final do século XIX na região central do Estado. O primeiro foi o fato de as primeiras levas de imigrantes italianos terem se instalado no Núcleo Colonial de Silveira Martins, nos anos de 1877 e 1878. E o segundo foi à instalação da rede ferroviária em Santa Maria entre 1880 e 1885.

A imigração italiana nessa região, segundo Maria Catarina Zanini, tratava-se de uma

migração familiar. Eram parentes, vizinhos, amigos, “uma série de relações que foram muito

importantes também na continuidade de atração de novos imigrantes, fato que foi se

efetuando até as primeiras décadas do século XX, sempre em menor escala” (ZANINI, 2008,

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através da compra de alguns lotes, o que comprova que alguns migraram com capital suficiente para tal. Maíra Ines Vendrame aponta que a escolha destes lotes não foi aleatória,

As relações de amizade entre algumas famílias era um aspecto que contribuía para que procurassem se estabelecer próximas umas das outras. [...] Uma rede de reciprocidade entre elas que permitia a elaboração de estratégias conjuntas de ocupação e organização de um determinado espaço. [...] As afinidades entre os grupos familiares foi um recurso que possibilitou que houvesse uma coesão nos núcleos colônias da região central do Rio Grande do Sul (VENDRAME, 2012, pp. 144-145).

Além de se estabelecerem próximos, alguns imigrantes adotaram a compra coletiva de lotes, dividindo uma grande extensão de terra em pequenas propriedades. De acordo com as cartas analisadas por Vendrame, possuíam cavalos, galinhas, porcos e também plantavam batatas, mandioca, alguns grãos e outros vegetais (2012). Considerando que os italianos eram pequenos produtores, vários também se tornaram carreteiros para transportar seus produtos, e de seus vizinhos, até a Estação. Pode-se encontrar, portanto, um elo entre a ferrovia e a imigração italiana, elementos que constituíram o cenário do progresso econômico, do final do século XIX e início do XX, na região.

Ainda sobre a ferrovia, destaca-se que a grande movimentação que ocorreu em Santa Maria na virada dos séculos decorreu do agito causado pelo trem, através de suas mercadorias e passageiros, elementos que não influenciaram apenas a economia local, mas uma nova rede de sociabilidade. Através do aumento progressivo da população, o comércio e a indústria foram fomentados, sua posição estratégia na região central, que antes havia atraído os

militares no início de sua formação, favoreceu seu cosmopolitismo. Afinal, “como ponto de

interseção de linhas que a ligavam a vários outros municípios, os contatos humanos, culturais e econômicos foram sempre crescentes” (FLÔRES, 2007, p. 41). Santa Maria que era marcada por ser um local de “passagem” desde os tempos de sua formação enquanto acampamento militar, no século XVIII, a partir da instalação da ferrovia começa a modificar esse quadro. Embora muitos ainda só passassem pela Estação, alguns estabeleciam residência, especialmente ferroviários, caixeiros-viajantes e vários grupos de imigrantes, pois acreditavam no potencial das oportunidades de empregos e negócios que começara a progredir.

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porto da Argentina (MORALES apud PRESTES, 2010, p. 20). Além disso, dentre os problemas urbanos, estavam a falta de uma melhor estrutura viária, abastecimento de água, iluminação pública, fornecimento de energia e ruas sem calçamento, fatores que faziam de Santa Maria um local com sérios problemas sanitários. O engenheiro civil com experiência em sanitarismo Francisco Saturnino de Brito, quando esteve em Santa Maria, em 1918, para elaborar o projeto de saneamento para a cidade, descreveu seu cenário:

A posição geográfica desta cidade, centro do Estado do Rio Grande do Sul, e o fato de daí partirem as linhas férreas para São Paulo, para Porto Alegre, para o porto de Rio Grande e para a fronteira do Brasil dão-lhe uma tríplice importância: política, comercial e sanitária. Assim como os benefícios de qualquer ordem, na economia social, daqui podem irradiar com destinos vários, assim também os malefícios aqui gerados podem espalhar-se, e os que por aqui passarem, vindos de localidades insalubres, se poderão fixar-se na cidade se não se preparar convenientemente a sua defesa pelo estabelecimento de boas condições de salubridade. O coração do estado precisa se preparar para o duplo trabalho, eferente e aferente, proveniente da circulação que se estabeleceu e aumenta cada vez mais (Revista CCA, Santa Maria, 31 de maio de 1931).

De acordo com a visão cientificista de Saturnino de Brito, na qual faz relações entre o biológico e o social, através da comparação com um coração devido à posição geográfica da cidade, a ferrovia poderia ser um grande foco de propagação de enfermidades, tendo em vista que percorria as mais variadas cidades do Estado e da região sudeste do Brasil. Além disso, havia uma discussão nesse período referente à higiene pública, através da qual a noção de contágio estava vinculada ao indivíduo como agente causador da disseminação de doenças. Se a ferrovia estava proporcionando uma maior circulação de pessoas na cidade, então era

necessário saneá-la, pois “as ações sanitárias visavam a livrar os indivíduos saudáveis do

contato com os doentes e livrar os doentes dos agentes causadores” (WEBER, 1999, p. 51). Dessa forma, uma Santa Maria pouco saudável poderia significar a propagação de insalubridade e epidemias pelo país.

3.2. População e modificações urbanas

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grandes distâncias dificultavam o escoamento da produção local (FARINATTI, 1999; WITTER, 2001).

O acesso à cidade também era bastante limitado, numa descrição de 1860, o viajante italiano Henrique Ambauer, comenta sobre as condições da cidade.

Um terreno quase plano, pontilhado por sangas barrentas e lagoas pouco profundas, algumas das quais podiam tornar-se atoleiro que infernizavam a vida dos passantes (...) existiam somente duas ruas notáveis, de resto, eram casas que se espalhavam pelas coxilhas circundantes sem que se formassem ruas bem definidas (apud WITTER, 2001, p. 26).

No mesmo período, da década de 1860, a família Daudt fez uma viagem até São

Leopoldo e também descreveram precárias condições. “Até Rio Pardo fizemos a viagem em

15 dias, numa carretilha puxada por 3 juntas de bois. A estrada era péssima, que só mesmo

com a força de meia dúzia de bois possantes poderia safar-se o veículo das ‘sangas’ e dos

atoladores” (DAUDT FILHO, 2003, p. 33). Através desse relato, nota-se uma pouquíssima urbanização, sobre um contexto maior ainda fortemente ruralizado. Por outro lado, fora da Vila, ficam aparentes as difíceis condições de locomoção que as estradas que a ligavam a outras regiões da Província forneciam. Com base em Daudt, pode-se localizar quais os tipos de tráfego do período, caracterizado ou pelas carretas ou pelos cavalos. Sabe-se que esta era uma realidade não apenas de Santa Maria, mas da maioria das cidades do Brasil. Entretanto, esse contexto se estende até a instalação da ferrovia, no que tange ao núcleo do povoado, e adentra o século XX para alguns distritos mais afastados, como a região que fazia limites com o município de São Sepé.

Os viajantes Catão Vicente Coelho e Cândido Brinckmann, em um relato publicado em um Almanaque da cidade para 1899, descrevem exatamente as condições desses locais que não abrangiam a ferrovia.

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Percebe-se, portanto, que embora a ferrovia tenha trazido alguns progressos, as intervenções, que levaram às modificações da paisagem urbana, ainda estavam muito restritas ao centro, que era compreendido como o entorno das ruas do Acampamento, Rua do Comércio, Praça Saldanha Marinho, Venâncio Aires, Silva Jardim, Avenida Rio Branco e o Largo da Estação Férrea. Nas ilustrações 01 e 02, destaca-se que o entroncamento das áreas centrais ficava localizado aos arredores da principal Praça da cidade, atual Saldanha Marinho, desde o princípio de sua ocupação, no final do século XVIII. No mapa de 1849, onde está a cruz de malta é a localização da Praça principal; a primeira rua a sua esquerda seria a mais extensa da Vila, a atual Venâncio Aires; a segunda, também à esquerda é a atual Dr. Bozano e a que segue ao sul da cruz é a atual Rua do Acampamento. A Avenida Rio Branco, antes

conhecida como Avenida Progresso – ao norte da sinalização do mapa – apresenta apenas seu

traçado inicial, não contendo traços urbanos significativos. O que demonstra se compararmos com o segundo mapa, com data posterior a ferrovia, as modificações urbanísticas que aquela localidade sofreu a partir da instalação da rede férrea. Embora as áreas que aparecem na primeira ilustração também tenham se expandido - e pode-se apontar como principal motivo disto a ampliação das casas comerciais localizadas ao longo das ruas Dr. Bozano (antiga Rua do Comércio) e Venâncio Aires (Rua da Matriz) -, são muito expressivas as mudanças para o lado norte, nos arredores da ferrovia. Cruzando essas informações, conclui-se o fato que as mudanças urbanas se dão entre a área comercial e ferroviária, constituindo as principais fontes de renda da cidade até meados do século XX.

Ilustração 01 – Mapa da vila de Santa Maria da Boca do Monte em 1849

Disponível em: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d7/Freguesia_de_Santa_Maria_em_1849.jpg acesso em 14 de outubro de 2012

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Ilustração 02

Planta da cidade de Santa Maria de 1902

Fonte: MARCHIORI; NOAL 1997.

Ainda assim, não se pode excluir deste contexto a intensa movimentação material e humana que a linha férrea proporcionou. Os fatores iniciais dessas modificações que se projetavam estavam nos aspectos geográficos que circundavam Santa Maria. O viajante alemão, Wilhelm Lacmann, quando lá esteve em 1903, descreveu a respeito disto.

A cidade tem um importante comércio de produtos coloniais devido a sua posição privilegiada de entroncamento ferroviário. Essa posição vai assegurar a Santa Maria um brilhante desenvolvimento nos próximos anos, se a linha eventualmente se tornar parte de uma grande rede sul-americana (apud MARCHIORI; NOAL, 1997, p. 90).

Todas as rotas que ligariam a capital à fronteira oeste do Estado passavam pelo local, favorecendo um ponto estratégico de instalação de casas de comércio e, por conseguinte, oportunidades de empregos, fatores que atraíam a instalação de muitos que por ali só estavam de passagem.

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Tabela 01 - População de Santa Maria 1872 - 1920

A partir deste gráfico podemos perceber um crescimento de 57,99%, entre um período que não havia ferrovia (1872) para o ano da sua instalação (1885), isto significava quase 5.000 habitantes a mais num período de 13 anos. Cinco anos após a efetivação da linha férrea, temos um acréscimo de 93,9%, ou seja, a população quase duplicara em 1890. Já nos anos da consolidação da linha férrea, com a expansão de algumas linhas, como a construção

da Estrada de Ferro Porto Alegre – Uruguaiana e com a efetivação do traçado que ligava o

Rio Grande do Sul a São Paulo, o aumento é de 132,19% num intervalo de 15 anos entre 1885 e 1900.

Ilustração 03

Mapa da Rede Ferroviária do Rio Grande do Sul em 1910

Fonte: CARDOSO; ZAMIN apud ZANATTA, 2011, p. 42

1872 1885 1890 1900 1907 1910 1920

8.228

13.000

25.207

30.185

36.000

50.000 52.960

H

a

b

ita

n

te

s

Anos

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