HUGO FREITAS DE MELO “O OFÍCIO DE SACERDOTE”: mediação cultural, atuação política e produção intelectual de padres no Maranhão

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  UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS

  PROGRAMA DE PốS-GRADUAđấO EM CIÊNCIAS SOCIAIS MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

  HUGO FREITAS DE MELO “O OFÍCIO DE SACERDOTE”:

  mediação cultural, atuação política e produção intelectual de padres no Maranhão São Luís

  2013

  HUGO FREITAS DE MELO “O OFÍCIO DE SACERDOTE”:

  mediação cultural, atuação política e produção intelectual de padres no Maranhão

  Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão, para obtenção do Título de Mestre em Ciências Sociais.

  Orientadora: Profª. Drª. Eliana Tavares dos Reis

  São Luís 2013 MELO, Hugo Freitas de.

  “O ofício de sacerdote”: mediação cultural, atuação política e produção intelectual de padres no Maranhão / Hugo Freitas de Melo.

  • – 2013. 190 f. Impresso por computador (Fotocópia) Orientadora: Eliana Tavares dos Reis. Dissertação (Mestrado)
  • – Universidade Federal do Maranhão, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, 2013.

1. Sacerdote – Ofício – Aspectos sociais 2. Mediação cultural 3.

HUGO FREITAS DE MELO

  

“O OFÍCIO DE SACERDOTE”:

  mediação cultural, atuação política e produção intelectual de padres no Maranhão

  Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão, para obtenção do Título de Mestre em Ciências Sociais.

  Aprovada em / /

  Banca Examinadora

  

_________________________________________________

Profª.Drª. Eliana Tavares dos Reis (Orientadora)

  Professora e pesquisadora

  • – DESOC e PPGCSO/UFMA

  

_______________________________________________

Prof. Dr. Igor Gastal Grill

  Professor e pesquisador

  • – DESOC e PPGCSO/UFMA

  

______________________________________________

Prof. Dr. Juarez Lopes

  Professor

  • – DESOC/UFMA

  

A Odarci e Hugo Raphaell, as razões de

minha existência.

  

AGRADECIMENTOS

  Ao término de mais uma etapa, olhar retrospectivamente e avaliar a quantidade e o grau de contribuições obtidas ao longo de um percurso marcado por inúmeros percalços não é tarefa fácil de realizar, principalmente no que concerne ao aprendizado do ofício de sociólogo, com seus rigores metodológico e analítico peculiares e sensivelmente distintivos em relação às demais ciências humanas e sociais.

  Por isso, o registro feito nestas maltraçadas linhas em hipótese alguma significa um ato de predileção por um ou outro nome, apenas a manifestação honrosa àqueles que se fizeram presentes de uma forma mais intensa para a conclusão deste trabalho.

  Explicitadas as ressalvas, agradeço primeiramente à minha mãe, Odarci, cujo incentivo foi fundamental para o resgate da motivação em findar mais esta fase da minha vida, diante de tantas dificuldades e contratempos interpostos, e dar continuidade à aprendizagem deste novo mètier.

  Agradeço também a Rafaela, com quem o compartilhamento de momentos felizes e descontraídos serviu como válvula de escape das tensões diárias de leitura e escrita da dissertação. Seu carinho e auxílio foram imprescindíveis para que as atividades do cotidiano não incidissem de forma prejudicial na tessitura do presente trabalho.

  A Hugo Raphaell, o oxigênio diário na busca por dias melhores. Os esforços aqui empreendidos se multiplicavam em força e determinação a cada sorriso seu. A todos os meus familiares, pelo carinho e apoio, meu muito obrigado!

  Quero externar aqui um agradecimento especial à orientadora deste trabalho, a professora doutora Eliana Tavares dos Reis, responsável pela sugestão de reformulação do projeto inicial de investigação ora desdobrado no presente estudo, pelas valiosas referências bibliográficas e pelos encaminhamentos dados que resultaram na formatação final da dissertação. A atenção, o acompanhamento, o incentivo e o apoio dispensados, bem como as proveitosas discussões teórico-metodológicas enredaram uma orientação segura e competente, inesquecível pela forma e qualidade, se constituindo num dos sólidos alicerces para que este momento se tornasse possível.

  Agradeço à Capes pelo fornecimento de bolsa que possibilitou a realização da pesquisa. Agradeço também a todos os professores do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA pela receptividade e acolhimento generosos, em especial aos professores Igor Gastal Grill e Juarez Lopes, pelas valiosas sugestões e observações críticas feitas na Banca de Defesa desta dissertação.

  Registro ainda um agradecimento aos membros do Laboratório de Estudos de Elites Políticas e Culturais (Leepoc), representado nas figuras dos professores Eliana dos Reis e Igor Grill, organizadores do referido grupo, pelas ricas discussões, reflexões e apresentação de trabalhos variados. Essa experiência foi de grande valia para o enriquecimento do conhecimento sociológico e para uma compreensão mais ampla sobre os pressupostos que nortearam este estudo.

  A todos os amigos da turma do Mestrado de Ciências Sociais da UFMA de 2011, meu muito obrigado pelos bons momentos de descontração e compartilhamento de ideias e perspectivas, em especial ao irmão e compadre Romário Barros, cuja amizade, companheirismo e cumplicidade se solidificaram para além dos muros da Universidade.

  Aos funcionários da Cúria Metropolitana da Arquidiocese de São Luís pela atenção e cooperação, meu muito obrigado. À Dona Creuza, guardiã do Memorial do Padre Brandt, em Arari, meus sinceros agradecimentos pelo apoio, informações e disponibilização de livros.

  Fundamental ainda registrar o agradecimento à escritora Arlete Nogueira da Cruz Machado, cujo trabalho sobre a vida e a obra de João Mohana foi de suma importância para a consecução do capítulo dedicado ao mesmo. Material este gentil e generosamente cedido a mim. Agradeço também ao irmão do referido padre, Ibrahim Mohana, pelas conversas e fornecimento de informações sobre a vida de João Mohana.

  Por fim, estendo meus agradecimentos a todos e a todas que ajudaram a tornar mais suaves e prazerosos os passos dados ao longo dessa difícil empreitada, contribuindo, cada um a seu modo, direta e indiretamente, para que as pedras no meio do caminho não se constituíssem em barreiras intransponíveis, mas em obstáculos passíveis de serem ultrapassados, tal como os espinhos que não obnubilam a beleza das rosas.

  A concretização deste momento tornou-se possível graças à resultante do carinho, do auxílio e da amizade de todos os que se fizeram presentes em minha vida durante o transcurso dessa etapa acadêmica, aqui consubstanciados em nomos inesquecíveis.

  

“O ato de ler situa-se estrategicamente no ponto

de aplicação onde o universo do texto encontra-se

com o do leitor, onde a interpretação da obra

termina na interpretação do eu.

   Roger Chartier

  

RESUMO

  Análise dos condicionantes que presidiram a hibridização da atuação de padres no Maranhão

  , tanto na capital quanto no “interior”, particularmente nas esferas da religião, da política e da cultura, exercendo papéis de mediadores culturais e políticos, de intérpretes da história e da sociedade e de porta-vozes de causas coletivas tidas como legítimas. O estudo tem como recorte histórico e espacial as dinâmicas sociopolíticas representadas pelo Maranhão durante as décadas de 1950 e 1980. Para tanto, recorreu-se ao mapeamento e catalogação de dados e informações sobre os casos investigados das mais variadas fontes, destacando-se a consulta a trabalhos acadêmicos, textos e livros produzidos pelos sacerdotes analisados, bibliotecas pertencentes a organizações ligadas à Igreja, bem como a sites e páginas pessoais disponíveis na internet. Fazendo-se uso desse material, intentou-se descortinar os poderes sociais que incidem sobre a diversificação do ofício sacerdotal no Maranhão, tomando-se a escrita como um dos principais instrumentos de luta acionados pelos agentes no espaço de concorrência simbólica.

  

Palavras-chave: Ofício de sacerdote. Mediação cultural. Atuação política. Produção

intelectual.

  

ABSTRACT

  Analyze of the conditions that governed the hybridization of the performance of priests in Maranhão, in the capital and on the “inside”, particularly in the spheres of religion, politics and culture, performing roles of cultural mediators and politicians, interpreters of history and society and spokespersons of collective causes regarded as legitimate. The study is historical overview and spatial dynamics sociopolitical represented by Maranhão during the 1950s and 1980s. Therefore, we resorted to the mapping and cataloging of data and information on the cases investigated in a variety of sources, especially the query to academic papers, books and texts produced by the priests examined, libraries belonging to church-related organizations, as well as the websites and personal blogs. Making use of this material, brought to unveil social powers that focus on the diversification of the priestly office in Maranhão, taking up writing as a major instrument of struggle triggered by agents within symbolic competition.

  Keywords: Craft priest. Cultural measure. Political action. Intellectual production.

  

LISTA DE QUADROS

  Quadro 1: Algumas propriedades dos 14 agentes investigados......................................60 Quadro 2: Dados sobre a atuação profissional e a participação em distintos espaços de socialização e de intervenção dos 14 casos investigados................................................67 Quadro 3: Distribuição de livros por gêneros de escrita referente aos 14 casos investigados.....................................................................................................................78 Quadro 4: Frequência das modalidades de escrita..........................................................79 Quadro 5: Distribuição dos livros por décadas...............................................................81

  

SUMÁRIO

RESUMO ABSTRACT LISTA DE QUADROS

  

INTRODUđấO.............................................................................................................15

  “Intelectuais”, mediação e política: aportes conceituais.................................................24 Obstáculos e procedimentos de pesquisa........................................................................35 Capắtulo 1: A REESTRUTURAđấO DO ESPAđO RELIGIOSO E A

  

DIVERSIFICAđấO DA ATIVIDADE SACERDOTAL: apontamentos sócio-

  históricos.........................................................................................................................45 Capítulo 2: PADRES ESCRITORES EM PERSPECTIVA: propriedades sociais, recursos culturais e múltiplos registros de inscrição.......................................................58

  2.1 Descrição geral dos agentes investigados.................................................................59

  2.2 Gêneros de escrita e recursos culturais.....................................................................77 Capítulo 3: CLODOMIR BRANDT E AS DISPUTAS POLÍTICAS EM PAUTA: a trajetória de um padre político e escritor.........................................................................84

  3.1 Do Mearim a Arari: origens, formação cultural e chegada ao “novo lar”................85

  3.1.1 Perfil social dos pais.........................................................................................86

  3 .1.2 O “tio Cláudio” e a centralização das relações de parentesco..........................88

  3.1.3 Entrando no mundo eclesiástico: formação seminarística e cultural................90

  3.1.4 O vigário de Arari: aspectos sociais, culturais e religiosos da cidade..............93

  3.2 Em nome da Igreja: “projetos” sociais e mediação cultural no interior do

  Maranhão.......................................................................................................................102

  3.2.1 Educação e cultura como base da obra religiosa............................................103

  3.2.2 Comunicação social e projeção político-religiosa..........................................107

  3.3 A escrita como luta política: posições, posicionamentos e embates políticos........109

  3.3.1 Um padre político...........................................................................................111

  3.3.2 A guerra política na imprensa........................................................................119

  3 .4 Da ação política ao reconhecimento “intelectual”..................................................126

  Capắtulo 4: JOấO MOHANA E A AFIRMAđấO INTELECTUAL DO

  

SACERDOTE: os usos sociais da escrita ...................................................................130

  4.1 O nascimento do escritor: origem social e formação escolar..................................133

  4.1.1 Características sociais dos pais.......................................................................137

  4.1.2 A “opção” pela Medicina...............................................................................144

  4.2 Um intelectual a serviço da Igreja...........................................................................148

  4.2.1 A consagração literária de um escritor católico.............................................150

  4.2.2 O ingresso na Academia Maranhense de Letras............................................154

  4.3 D a “batina branca” à “batina preta”: a “vocação” do sacerdócio...........................157

  4.4 O “ministério da palavra escrita” e a dissolução do religioso................................160

  4.4.1 Um padre na disputa pela definição do que é literatura.................................162

  4.4.2 Em nome da “libertação”: a JUAC e o recrutamento das elites.....................165

  

CONSIDERAđỏES FINAIS.....................................................................................171

ANEXOS......................................................................................................................176

REFERÊNCIAS..........................................................................................................179

  INTRODUđấO

  O presente estudo se inscreve na linha investigativa de trabalhos sobre a formação e a afirmação de elites políticas e culturais, particularmente de “elites letradas

  ” na esfera religiosa, e suas múltiplas relações com o espaço de poder mais amplo, propondo-se a analisar os condicionantes e as lógicas sócio-históricas que incidem sobre os investimentos de aquisição de saberes e competências por parte de sacerdotes católicos e sua reconversão voltada para a produção e reprodução de representações sobre o mundo social. Especificamente, ancorando-se na perspectiva

  

relacional e disposicional proposta por Pierre Bourdieu, trata-se de uma dissertação que

  analisa as lógicas de incorporação e de utilização de saberes específicos por agentes da Igreja Católica em diferentes esferas sociais, com foco especial na modalidade de manipulação de bens simbólicos (BOURDIEU, 2004), particularmente de escrita, objetivada na produção intelectual de padres (notadamente de livros), nos gêneros de escrita aos quais se dedicam e nas temáticas que abordam em seus escritos, num contexto representado pelas dinâmicas sociopolíticas e culturais no Maranhão entre as décadas de 1950 e 1980.

  Objetivamente, o estudo focaliza as multidimensionalidades (cultural, social, político, etc.) e multiposicionalidades assumidas por clérigos católicos que transitam nas

  “difusas e móveis fronteiras” do trabalho intelectual, da “política” (GRILL; REIS, 2012)

  , da “cultura” e da religião, através da análise de sua produção escrita em consonância com seus registros biográficos e outras variáveis que permitiram a apreensão de suas características, propriedades e recursos sociais. Dentre estes, o estudo privilegiou a origem familiar, a formação escolar, os postos ocupados na estrutura hierárquica da Igreja Católica no Maranhão, as funções e atividades profissionais seculares exercidas ao longo de seus itinerários, bem como os cargos assumidos na esfera político-burocrática, concepções de política, “projetos” de sociedade, valores e “visões” de mundo, dados estes que, em conjunto, explicitam os perfis sociais dos agentes em foco e animam os encaminhamentos da temática proposta ao longo do trabalho.

  A partir do exame de trajetórias específicas que se diferenciaram dos demais agentes inseridos no espaço religioso “local” precisamente pelo trânsito fluido entre distintos domínios e a aquisição de recursos distintivos, a investigação contempla, de forma sincrônica e diacrônica, a análise das múltiplas experiências clericais dos padres investigados, o cotejamento das disposições adquiridas e a delimitação dos condicionantes que presidiram os investimentos (mais ou menos conscientes) no tocante à dedicação para a produção de trabalhos escritos (poemas, crônicas, memórias, romances, peças de teatro, ensaios, textos jornalísticos, artigos acadêmicos, etc.) publicados em formato de livro, em paralelo às suas atividades sacerdotais cotidianas.

  Além disso, intenta-se relativizar o peso de ta is investimentos “intelectuais” na composição de carreiras eclesiais, delimitando-se o foco espacial do estudo à participação de clérigos na esfera político-partidária, à atuação na esfera cultural e no mercado de bens simbólicos, à inserção em instâncias de representação de frações sociais e em organizações eclesiásticas caritativas e de cunho militante (Comissão Pastoral da Terra, Conselho Indigenista Missionário, Cáritas, sindicatos, associações, etc.), bem como ao pertencimento e ao desempenho de atividades circunscritas ao âmbito das instâncias secularizadas de consagração e reconhecimento

  “intelectual” (academias de letras, faculdades, universidades e institutos de pesquisa).

  Com efeito, o cerne da investigação incide sobre os usos sociais da produção escrita de padres que se arvoram na posse de determinados tipos de saberes, escolar e prático (savoir-faire), para legitimar sua atuação e intervenção nos domínios cultural, político e religioso no Maranhão, dentro do recorte em pauta. Investidos do poder institucional delegado e autorizado pela Igreja, os sacerdotes investigados apresentam ao longo de seus trajetos individuais e coletivos o acúmulo de uma multifacetada cultura escolar e de variadas experiências profissionais de seu ofício religioso, as quais relacionadas em confluência com os prestígios sociais conquistados em distintos e imbricados domínios enredam seus repertórios de mobilização e sinalizam para a diversificação de suas formas de atuação em suas interconexões com as demais esferas sociais.

  Desse modo, evidencia-se a possibilidade de análise dos trânsitos, vínculos, relações de reciprocidade e de interdependência (ELIAS, 2001), amizades instrumentais e interações de parentesco (WOLF, 2003), bem como as disputas, clivagens e bricolagens pela conquista e manutenção dos bens simbólicos e materiais disponíveis e pela ocupação de posições relativamente bem alocadas no espaço considerado, além da relação entre os recursos acumulados e acionados como “trunfos” e a valorização dada pelos agentes a esses “troféus”, que caracterizam a constituição de antagonismos e concorrências, de alianças e associações (mais ou menos duradouras) denegatórias dos posicionamentos assumidos, influenciando assim, significativamente, a opção por determinadas modalidades de intervenção intelectual, particularmente a da escrita, com maior ou menor incidência no espaço em disputa (REIS; GRIL, 2008; REIS, 2010, 2007).

  A escolha pela referida temática processou-se a partir do interesse em ampliar e aprofundar algumas questões tratadas e defendidas na monografia (MELO, 2010), intitulada Entre rosas e armas: atuação política da Igreja Católica e ditadura

  1

  , quando procurou-se analisar a participação de clérigos católicos

  militar no Maranhão

  no trato de questões que envolviam a lide com movimentos sociais, entidades representativas de trabalhadores rurais e operários, associações comunitárias, etc., e nos conflitos advindos dessas relações com os militares das forças de segurança, tomando como foco principal as representações discursivas produzidas por membros eclesiásticos veiculadas pelo periódico oficial da Igreja Católica no estado, denominado

  “JORNAL DO MARANHÃO ” (1968-1971).

  De um modo geral, tratava-se naquela oportunidade de analisar as representações elaboradas por agentes religiosos ao sabor da conjuntura sociopolítica dos eventos conflituosos envolvendo padres e militares no Maranhão, tanto na capital quanto no continente (

  “interior”), observando-se: a) os usos dos textos jornalísticos pelos sacerdotes como trincheira de “luta contra a ditadura” e b) o poder político que o periódico foi adquirindo, como

  “porta-voz oficial” da Igreja, à medida que aumentava a intervenção dos agentes católicos na “política local”, mediante o processo de recrudescimento da repressão e violência do regime militar no estado.

  A partir disso, a proposta inicial de análise, que tomava os textos em si mesmos, deslocou-se para os seus produtores, bem como para os condicionantes que 1 influenciaram e legitimaram a produção escrita desses padres, estendendo-se à presente

  

Fruto da graduação em História pela Universidade Estadual do Maranhão, o trabalho analisa os principais eventos sociopolíticos publicados pelo periódico católico “JORNAL DO MARANHÃO”,

particularmente os fatos conflituosos envolvendo padres e militares, que evidenciaram um

estremecimento nas relações bilaterais entre Igreja e Estado, exigindo da instituição eclesiástica, em

âmbito local, a reformulação de suas estratégias de atuação perante o regime e a adoção de novas práticas pastorais. temática. A atenção a alguns processos e dinâmicas específicas dos investimentos aqui realizados permitiu o tratamento de algumas questões de outrora e o aprofundamento de outras aventadas ao longo da investigação, constituindo-se o presente estudo numa espécie de desdobramento do anterior, reformulado em torno de um instrumental conceitual construído a partir da confluência de contribuições provenientes da História, da Sociologia, da Ciência Política e da Antropologia Política que, somadas, permitiram: 1) a análise dos recursos mobilizados pelos agentes como “trunfos” distintivos de suas atuações em diferentes domínios; 2) a explicitação d os valores, concepções, “causas”, repertórios, lógicas de justificação e modalidades de engajamento dos sacerdotes católicos; 3) a identificação das estratégias, discursos, formulações e reprodução de representações sobre o mundo social; e 4) a análise da relação entre a origem social e o itinerário dos agentes, objetivados nos títulos, premiações, cargos ocupados e funções exercidas.

  A resultante da construção desse ferramental analítico ajudou a entender que os poderes sociais adquiridos por sacerdotes católicos investigados dentro do recorte da pesquisa, para além de suas atividades confessionais, de alguma forma, estão relacionados às transformações no espaço religioso do Maranhão de meados do século passado e ao (re)posicionamento institucional da Igreja Católica no estado, em paralelo com as reformulações propostas pelo Vaticano, especialmente no tocante às questões e problemáticas sociais locais em pauta.

  O que implica pensar que, de certo modo, os multiposicionamentos assumidos pelos clérigos em foco não estão deslocados das dinâmicas exógenas impostas ao universo católico, assim como remetem às próprias especificidades do ambiente local de suas ações originárias, num processo oblíquo e transversal de simultaneidades conjunturais que se combinam e se reprocessam, não necessariamente de modo contínuo, exigindo da Igreja, pois, uma reavaliação de seus

  “projetos”, a reestruturação de seus quadros e postos hierárquicos e a reconfiguração de suas estratégias de mobilização e intervenção frente às convulsivas transformações do mundo moderno.

  Pode-se pensar ainda que essa mescla processual de condicionantes conjunturais incide no estabelecimento e atualização de uma agenda de problemáticas sociais tidas como “legítimas” pelos agentes eclesiásticos e no fornecimento de um aditivo em seus repertórios de mobilização, quer seja através da elaboração e aplicação de novas ações pastorais, que implicam numa forma diferente dos sacerdotes de interpretar e atuar na sociedade, tendo no engajamento militante de padres nessas “lutas sociais” um de seus principais exemplos, quer na confecção de novas rotas e esferas de atuação sacerdotal, onde a escrita se constitui num de seus primazes baluartes.

  Convém ressaltar que o nascimento do presente trabalho assim como a abordagem analítica que o norteia estão calcados na edificação de uma agenda comum de debates, leituras e estudos realizados por pesquisadores que integram o Laboratório de Estudos sobre Elites Políticas e Culturais (Leepoc), vinculado ao Departamento de Sociologia e Antropologia e ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão, sob orientação e coordenação dos professores Eliana Tavares dos Reis e Igor Gastal Grill.

  Parte-se do estabelecimento de uma matriz teórica comum que direciona uma pluralidade de pesquisas sobre seleção, hierarquização e princípios de afirmação e legitimação de

  “elites” e grupos dirigentes em diversificados domínios, cujas investigações focalizam múltiplas dinâmicas sociais em distintas localidades geográficas (nacionais e internacionais) e as injunções daí derivadas e espraiadas para diferentes esferas, seja a religião (MICELI, 1985; SEIDL, 2003, 2007a, 2007b, 2009a, 2009b)

  , a “política”, a “cultura” (CORADINI, 2003; GRILL; REIS, 2012; REIS; GRILL, 2008; REIS, 2010, 2008, 2007, 2007b; SAPIRO, 2012; SIGAL, 2012; SIMIONI, 2008), o sistema escolar, a medicina (CORADINI, 2005; NUNES, 2000), o judiciário (GRILL; REIS, 2010), as forças armadas (SEIDL, 2008).

  Algumas problemáticas impostas pela abordagem proposta nos estudos supracitados suscitam a observação percuciente de sua aplicabilidade em outras realidades distintas da qual foi elaborada. A utilização neste trabalho do arcabouço analítico bourdiano requer a explicitação de que não se trata aqui de uma

  “importação” de uma lógica científica europeizante de uma sociedade central para uma dinâmica periférica, baseada numa relação

  “centro-periferia” (CORADINI, 2003), muito menos de uma postura de “aplicação de conceitos” (SIGAL, 2012) que renegam ou secundarizam aspectos pertinentes às dinâmicas observadas. Mas sim de adaptação e de absorção de uma proposta investigativa que se mescla com os elementos específicos do espaço geográfico analisado e com as dinâmicas sócio-históricas evidenciadas, e que, portanto, “não assume as condições periféricas como mera manifestação de ausências” (SIGAL, 2012, p. 52).

  Diversos estudos já apontaram que a generalização de conceitos para outras realidades distintas dos “centros” ocidentais onde foram concebidos se mostraram intransferíveis (BADIE; HERMET, 1993), uma vez que diferentes regiões geográficas, como a América Latina, o continente africano e países do leste europeu, com suas particularidades e dinâmicas específicas, não puderam simplesmente ser negligenciadas (HERMET, 1973), principalmente em suas formas de organização religiosa, cujas implicações continuaram intervindo nos diferentes domínios sociais, especialmente nas respectivas arenas políticas.

  Com isso, entretanto, não se quer atingir aqui a fundamentação teórica adotada ou seus princípios analíticos, nem redirecionar as abordagens investigativas, mas antes adequar a proposta bourdiana para contextos

  “periféricos” como o Maranhão, reafirmando a sua validade e abrangência enquanto esquema analítico que evidencia a relevância das especificidades estudadas, num processo de ajustamento das ferramentas conceituais para distintas localizações geográficas, conforme apontaram Coradini e Reis (2012). Segundo os autores, a compreensão do que é “política”, por exemplo, deve estar cimentada nas “lógicas autóctones” dos espaços investigados, e não nas definições por analogia importadas dos

  “centros” ocidentais. Ainda que haja um elo consistente de intermediação entre estes centros e os cientistas sociais de diferentes nacionalidades que advogam e se apropriam do esquema analítico bourdiano, operacionalizando-o em seus respectivos países de atuação, faz- se necessário “priorizar o caráter relacional dos mecanismos de estruturação e hierarquização dos domínios sociais nos limites fluidos das fr onteiras nacionais” (CORADINI; REIS, 2012, p. 13).

  Com efeito, a relativização de tais fronteiras nacionais, que exige a observação da configuração específica de cada espaço e localidade pesquisada, acaba também por atualizar a discussão em torno dos limites entre diferentes domínios, colocando em evidência a fluidez dos liames entre cultura, religião e política, a imbricação entre espaço público e esfera privada (BURITY, 2001). Pode-se mesmo dizer que assim como o religioso informa o político e o político estrutura o religioso (COUTROT, 2003, p. 335), dando-se ênfase num menor grau de autonomização (sempre relativa) entre os diferentes

  “campos”, os múltiplos registros de inscrição de agentes católicos em diversificados domínios de atuação, os diferentes postos e posições ocupados ao longo de seus trajetos de vida, bem como a cultura escolar multifacetada que apresentam, para além de sua formação “tradicional”, salientam a hibridização de sua atividade sacerdotal, a reconfiguração do espaço religioso e a redefinição da própria “excelência religiosa” (SEIDL, 2009a) e do que significa “ser católico”.

  De fato, o conjunto de práticas adotadas pela Igreja face às convulsões do mundo moderno (MAINWARING, 2004; SERBIN, 2002) ensejou um processo de recomposição e de reformulação das estratégias de dominação do poder religioso, produzindo como principal efeito a legitimação da atuação de seus sacerdotes em distintas esferas, fomentando ainda a participação de membros da Igreja em assuntos e debates não necessariamente de cunho espiritual e ampliando a diversificação de suas modalidades de intervenção no mundo social, inclusive no âmbito da produção e escrita de livros, constituindo-se tal atividade como um plus na luta pela imposição de sentidos e representações no espaço de manipulação simbólica.

  Nessa perspectiva, a disposição de sacerdotes para a produção de bens simbólicos, especialmente de bens culturais (artísticos, literários, filosóficos, científicos), evidencia o poder da escrita nas sociedades de “letrados” (CORADINI, 2003, 2010; GRILL; REIS, 2012; REIS; GRILL, 2008; REIS, 2010, 2007), particularmente entre as “elites eclesiásticas” (MICELI, 1988; SEIDL, 2007b, 2003), que ao se revestirem desse tipo de reconhecimento

  “intelectual” traduzem o valor social desse trunfo para o interior do espaço religioso, acionando-o enquanto instrumento de luta na disputa pela ocupação de posições relativamente privilegiadas e de papéis estratégicos no espaço de concorrência. Como bem frisou Pierre Bourdieu (2004, p. 121-122), agentes dedicados à atividade da escrita, portanto inseridos num campo de concorrência de manipulação simbólica, por vezes,

  são pessoas que se esforçam para manipular as visões de mundo (e, desse modo, para transformar as práticas) manipulando a estrutura da percepção do mundo (natural e social), manipulando as palavras, e, através delas, os princípios de construção da realidade social.

  De fato, o uso da escrita por agentes (ou conjunto de agentes) inscritos no espaço de manipulação simbólica e, por conseguinte, de dominação cultural

  • – onde o acesso à cultura escolar é amplamente controlado e desigual
  • –, diferentemente de uma percepção
centrada no ego do escritor, cujo reconhecimento “intelectual” pauta-se numa lógica de justificação e de reciprocidade que enaltece certas habilidades técnicas em detrimento das teias sociais às quais o autor está enredado, se constitui num instrumento de luta simbólica, de conquista de posições e de afirmação de posicionamentos no jogo em disputa. Segundo a lógica que perpassa a produção escrita de determinados agentes,

  “em condições de excessiva monopolização da cultura erudita legítima [...], o mero recurso à palavra escrita ou publ icada pode promover reputações e legitimidades” (CORADINI; REIS, 2012, p. 15).

  No tocante à investigação sobre os condicionantes que influem nos investimentos (mais ou menos conscientes) de especialização na produção de bens simbólicos e de reprodução de representações sobre o mundo social por clérigos católicos, ainda há uma escassez de estudos que aprofundem discussões e analisem as especificidades de uma configuração recortada pelo Maranhão de meados do século

  XX, o que dificultou sobremaneira a execução deste trabalho, sobretudo pela ausência de interlocução no âmbito da referida temática.

  No Maranhão, as investigações já realizadas (e outras ainda em curso) que identificam dinâmicas, processos, relações, práticas e discursos de agentes eclesiásticos operadores de um determinado tipo de catolicismo, cujo eixo central é nascituro de uma

  configuração institucional de

  “crise”, de instabilidade política e de conflito social (LAGROYE, 2006; SERBIN, 2008), dedicam-se ao estudo de dimensões analíticas centradas na “politização do engajamento religioso”, na constituição de “causas coletivas” e “problemáticas legítimas”, no ativismo de sacerdotes em associações, sindicatos, movimentos populares e lutas estudantis, além da inserção desses agentes no ambiente acadêmico-universitário e nas instâncias de consagração “intelectual”, que demarcam uma significativa atuação clerical no polo cultural do espaço religioso maranhense (BORGES, 1998; MACHADO, 2012; NERIS, 2011; PEREIRA, 2011, REIS, 2010).

  Dos trabalhos acima arrolados, destaca-se o artigo desenvolvido por Wheriston Neris (2011) no tocante às relações entre catolicismo e instâncias de reconhecimento intelectual no Maranhão, onde o autor, seguindo a perspectiva adotada por Ernesto Seidl (2008), tateia sobre os condicionantes que levaram à formação de mediadores culturais socialmente reconhecidos para legitimar uma interpretação católica sobre a história e a cultura maranhense (NERIS, 2011, p. 11-14). No entanto, no referido trabalho, o pesquisador não aprofunda suas observações analíticas, muito menos toca na questão dos usos sociais da escrita feitos pelos agentes investigados, detendo-se à constituição de uma espécie de agenda de pesquisas sobre as diversas inter-relações tecidas por membros da Igreja em diferentes domínios sociais, privilegiando a dimensão do “militantismo político-religioso”.

  Outro trabalho que também aborda a questão da mediação cultural no Maranhão, porém enfocando agentes da esfera política, é o artigo produzido por Eliana dos Reis (2010), intitulado Em nome da cultura, no qual a autora desenvolve uma análise sobre as práticas e os recursos acionados por porta-vozes que disputam a autoridade legítima para definir o que é a “cultura” no Estado. Realçando as concepções e representações produzidas por estes mediadores, a pesquisadora lança luz sobre as bases de sustentação do prestígio social destes e do papel do mediador na definição de políticas públicas e na construção de identidades regionais por meio da “cultura”. A importância deste estudo para o presente trabalho deve-se, primordialmente, ao seu aspecto metodológico, uma vez que também se faz uso do exame dos “repertórios de mobilização, espaços de inserção e os perfis sociais de agentes” situados em posições estratégicas nos domínios de produção cultural e política no Maranhão (REIS, 2010, p. 499), a fim de se analisar o papel de mediação política e cultural desenvolvido por sacerdotes da Igreja Católica no estado.

  Assim, diante dos escassos estudos sobre a atuação de agentes católicos como mediadores nos domínios da política e da cultura no Maranhão, bem como sobre a relevância ou não de seu trabalho “intelectual” enquanto produtores culturais, autorizados pela instituição eclesiástica e legitimados socialmente, de representações do mundo social sob o olhar da Igreja, e ressalvadas as problemáticas que perpassam a operacionalização de conceitos importados de “centros” ocidentais para regiões “periféricas”, conforme já foi apontado, intentou-se articular no presente trabalho as significativas contribuições das pesquisas já citadas e de outras recentes que sinalizam para a análise do peso relacional da origem social, do capital escolar, da produção escrita e de redes de relações mais ou menos privilegiadas na composição de carreiras de religiosos católicos em diferentes eixos de formação e atuação profissional, transplantando-se as contribuições destacadas para a esfera religiosa local.

  A pluralidade de modalidades de intervenção de sacerdotes católicos inscritos em diferentes domínios ensejou ainda alguns questionamentos subjacentes à investigação em foco: O que leva um padre a se dedicar à atividade da escrita em paralelo ao exercício do sacerdócio? Que tipo de retribuições ele obtém pelo desempenho de tal atividade? O que informa a produção intelectual de padres no Maranhão? Quais as correspondências existentes entre os tipos de escrita e as posições ocupadas pelos clérigos no espaço em disputa? Em nome de que esses agentes legitimam sua inserção em diversificados espaços de atuação? Quais os trunfos mobilizados que permitem esses agentes fazer o que fazem, dizer o que dizem e escrever o que escrevem? Qual o repertório disponibilizado por este tipo de catolicismo que possibilita aos seus agentes assumirem posições e tomar posição em determinadas situações sócio-históricas? Qual a lógica subjacente que define esses papéis e quem está na disputa por tais definições?

  Sem pretender oferecer respostas a todas essas questões, formuladas em conjunto, e tomando-as muito mais como linhas-mestras do itinerário traçado para a edificação do presente estudo, intenta-se o cotejamento das dimensões ensejadas ao longo do trabalho que segue.

  “Intelectuais”, mediação e política: aportes conceituais

  A corrente teórica que se debruça sobre o estudo de “elites” e grupos dirigentes remete a uma cristalizada tradição sociológica com base numa árvore genealógica consagrada em torno de seus “pais fundadores” no campo das Ciências Sociais, evidenciando uma matriz geracional de autores

  • – Gaetano Mosca, Vilfredo Pareto e Robert Michels – amplamente referenciados no processo de constituição deste campo de estudo (CORADINI, 2008; GRYNSZPAN, 1996, 1999; GRILL, 2008). O foco inicial desses pesquisadore s aportara sobre o “caráter inexorável” de toda e qualquer organização política, strictu sensu, o de “governo de uma minoria exercido sobre uma maioria” (GRILL, 2008, p. 13). O escopo de definição do termo “elites” assentava-se sobre as noções de grupos minoritários e socialmente

  “superiores”, possuidores de atributos valorizados no mundo social , que se impunham perante a “maioria”, cujas disputas pela manutenção do poder se davam entre as velhas e novas forças emergentes, especialmente concentradas na análise sobre os burocratas de Estado (esfera político- administrativa), donos de empresas, bancos, etc. (esfera econômica), oficiais de alta patente das forças armadas, etc. (GRYNSPAN, 1996, 1999; GRILL, 2008).

  A partir do fim da Segunda Guerra Mundial, a composição de uma “teoria das elites” moldada nos termos propostos por Mosca, Pareto e Michels recebeu uma série de críticas de outras correntes teóricas que irrompiam no cenário acadêmico mundial, principalmente através das abordagens metodológicas oriundas dos Estados Unidos,

  

2

  propostas por Wright Mills e Robert Dahl . Contudo, com o advento da sociologia política francesa, ancorada nos trabalhos desenvolvidos por Pierre Bourdieu e pesquisadores inseridos em seus grupos de estudos, a partir do final da década de 1960, processou- se uma renovação no campo de investigações sobre as “elites”. Deslocando- se o foco das análises determinísticas sobre “quem governa”, que concebia as “elites” como objeto objetivado em si, os estudos de Pierre Bourdieu privilegiaram os princípios de estruturação, legitimação e hierarquização das práticas e das relações sociais, explicitando os processos e condicionantes que caracterizam os modos de dominação e as estruturas responsáveis por garantir a sua manutenção e reprodução (BOURDIEU, 2002, p. 1-2). Não se trata mais de pesquisar os grupos nem os indivíduos, tomados em si, mas os recursos e princípios estruturantes que legitimam práticas e estabelecem relações de poder no espaço social (CORADINI, 2008).

  O que passa a pesar e a definir, portanto, os tipos de relações objetivas e práticas sociais entre agentes situados em posições de dominantes e dominados são a distribuição e o volume de capital acumulado no

  “campo de poder”, concebido como o espaço das relações de força entre agentes ou instituições detentores de poderes (ou de espécies de capital) necessários para a ocupação de posições dominantes (BOURDIEU, 2010, p. 244)

  . No tocante ao “campo religioso”, uma espécie de sub-campo dentro do campo de poder mais amplo, Bourdieu (2004, p. 120) assevera que se trata de um “espaço”, no qual os agentes “lutam pela imposição da definição legítima não só do religioso, mas também das diferentes maneiras de desempenha r o papel religioso”, 2 lutando inclusive pela imposição dos princípios de dominação religiosa.

  

Sobre as contribuições dessa sociologia norte-americana para a atualização das significações do conceito

de “elites” e sua proposta teórica, ver: GRILL, Igor Gastal. Elites, profissionais e lideranças na política:

esboço de uma agenda de pesquisas. In: Ciências Humanas em Revista, v. 4, n. 2, 2008.

  Vários estudos desenvolvidos por Pierre Bourdieu (2002a, 2002b, 2008, 2010,

  3

  2011) e por pesquisadores que circulam nos seus grupos ressaltam essa perspectiva de luta entre dominantes e dominados no campo de poder e de conquista e manutenção dos meios que garantam tal relação de dominação, da qual o presente trabalho está embebido, com especial destaque para As regras da arte (2010), onde o sociólogo analisa os princípios que regem escritores e instituições literárias na elaboração e manipulação de bens simbólicos. Neste trabalho, Bourdieu retira toda a áurea singular que recobre os escritores como “geniais”, reconstituindo-lhes os vetores e os condicionantes que perpassam suas produções, além de analisá-los relacionalmente em seus espaços de concorrência com outros agentes, explicitando as regras que permitem o surgimento de “produtores culturais” em diferentes e múltiplos domínios de manipulação simbólica, não se restringindo apenas aos

  “literatos”, mas estendendo-se também à produção de artistas, filósofos, cientistas, políticos, religiosos.

  Nessa perspectiva, a abordagem aqui adotada direciona-se para as condições de emergência d a figura do “produtor cultural” enquanto formulador de formas identitárias

  (DUBAR, 1998) que conferem organicidade a um conjunto de indivíduos. Concebe-se esse “produtor cultural” como mediador que define o nomos da “política” e do “político” e, por conseguinte, da “religião”, do “religioso” e da “cultura”, desenvolvendo um trabalho intelectual que inventa e reafirma papéis, posições, epítetos, “missões” e “causas legítimas” em contextos periféricos (CORADINI, 2003; REIS, 2010; SEIDL, 2007b; SIMIONI, 2008). A explicitação desses condicionantes possibilita o entendimento do próprio ato de “mediar” ou de “representar” dos agentes, que se legitimam e se posicionam como porta-vozes de determinadas pessoas ou grupo de pessoas, conferindo existência e legitimidade a si e aos próprios representados (BOURDIEU, 2004, p. 189).

  Outros estudos de Bourdieu (1998) evidenciam as dimensões das relações de reciprocidade como elementos não negligenciáveis no estudo sobre a afirmação de elites em posições de dominação no espaço de poder mais amplo. A operacionalização de tal perspectiva é feita através do conceito de capital social

  , definido como “o conjunto de 3 recursos atuais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações

  

Duas coletâneas organizadas por Odaci Luiz Coradini (2008) e outra contando com a colaboração de

Eliana Tavares dos Reis (2012) identificam os pesquisadores que circulam nos grupos de estudos bourdianos. mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento e de inter-reconhecimento ”

  (BOURDIEU, 1998, p. 67). Em sociedades periféricas, como no caso do Brasil, onde não houve um relativo processo de autonomização dos diferentes “campos”

  (CORADINI, 2003, p. 126), a lógica das redes de relações pessoalizadas irrompe como uma louvável dimensão de análise dos condicionantes que hierarquizam as relações entre estruturas de capital, posições, disposições e tomadas de posição dos agentes.

  Por esse intermédio, compreende-se a importância das contribuições fornecidas pelos trabalhos de pesquisadores como Carl Landé (1977) e Eric Wolf (2003), cujas formulações teóricas salientam as “relações diádicas”, as “alianças como addenda”, a influência do “parentesco”, da “amizade”, do “clientelismo” na sedimentação de lógicas que estruturam as práticas sociais. Segundo Landé (1997, p. 1-4), uma relação diádica envolve alguma forma de interação entre dois indivíduos, que “visam à troca e à ajuda mútua quando necessário

  ”. Contudo, ressalta o autor, uma relação diádica não se sustenta de modo suficiente precisamente por sua intermitência e voluntariedade, necessitando, portanto, de uma

  “estrutura de relações institucionalizadas”, que são contínuas e inclu sivas, “pois determinam formas de interação substancial e processualmente padronizadas

  ”. Nesta relação de interdependência, tanto as alianças diádicas quanto as relações institucionalizadas, conforme o peso e a estrutura de cada uma no espaço considerado, podem ser estabelecidas como um addendum, isto é, como um aditivo no conjunto das relações observadas, modificando assim sua configuração e suscitando a formação de novas alianças.

  Por sua vez, as noções elaboradas por Eric Wolf (2003) referentes às relações de “parentesco”, de “amizade” e de “patrono-cliente” fundamentam as possibilidades de análise das teias sociais gestadas a partir da “interação dialética entre estruturas formais e os diferentes tipos de associações informais”. Segundo o autor, muitas vezes, “as relações sociais informais são responsáveis pelos processos metabólicos necessários para que se mantenha a instituição formal em operação

  ” (WOLF, 2003, p. 94). Nesse sentido, ponderar o peso das funções desempenhadas pela família e pelos parentes, pelas relações de amizade e sua variante

  “instrumental” e pelas relações “patrono-cliente” é fundamental para se analisar o grau de importância de laços de “lealdade”, ajuda mútua, redes de reciprocidade e de auto-consagração entre pares para o direcionamento de carreiras eclesiais, sedimentação de posições estratégicas no espaço religioso e para a afirmação política e intelectual de sacerdotes no Maranhão. As formulações teóricas estabelecidas por Landé (1977) e Wolf (2003), enquanto conjunto de estruturas existentes em sociedades complexas, funcionam ainda como elementos norteadores da abordagem adotada neste estudo no tocante à apreensão das relações interpessoais, dos trânsitos e vínculos tecidos pelos agentes eclesiásticos em suas interconexões com outras esferas sociais, conferindo-se assim uma maior dimensão de análise sobre os recursos acumulados por cada sacerdote e o peso desse tipo de capital na constituição de suas carreiras e trajetos pessoais.

  Com efeito, as perspectivas apresentadas até aqui evidenciam, em seu conjunto, a importância do trabalho “intelectual” realizado pelos mediadores, particularmente na definição de papéis políticos, culturais e religiosos, observando-se, assim, a existência de uma espécie de complexificação da função de mediação, exigindo-se dessa atividade de “invenção das posições” e papéis sociais cada vez mais um elevado grau de relativa especialização dos agentes responsáveis pela manipulação de bens simbólicos, de onde s urge o poder dos “intelectuais”, os fundamentos de sua legitimidade e o estabelecimento de suas problemáticas como “legítimas”, que se inscrevem em níveis menos abrangentes e englobam instituições específicas, como a igreja, as forças armadas, o sistema escolar, dentre outras (CORADINI, 2003, p. 126).

  Constituídos como agentes intermediários culturalmente favorecidos e estabelecidos entre os grupos dirigentes e o “povo”, exercendo a função de “porta- vozes”, os “intelectuais” se diferenciam dos demais agentes no espaço de manipulação simbólica pelo desempenho de papéis que exprimem sua

  “capacidade de definir o social e de explicar as condições de sua organização” (PECAULT, 1990, p. 33). Nos primeiros decênios do século XX, estudos apontavam a relevância do trabalho desenvolvido pelos “intelectuais” no tocante à elaboração e organização das formas de pensar, observar e compreender os fenômenos sociopolíticos e culturais

  . Esse trabalho “intelectual” ficou ainda mais evidenciado na questão da formulação das bases teóricas do “Estado

  Nacional”, de onde se pôde depreender que os “intelectuais”, por sua capacidade social e culturalmente favorecida, possuíam uma “vocação” para elite dirigente, detentores de saberes e habilidades que os legitimavam para a “organização do político” (ibid.,1990, p. 39).

  A partir de novos estudos, evidenciou-se que o trabalho de definição e de nomeação das coisas do mundo social não se sustentava apenas pelo acúmulo de habilidades individuais e pela “intelectualidade” dos mediadores, mas primordialmente pela posição ocupada no espaço de poder mais amplo. Como bem apontou Pierre Bourdieu (2008), em seu trabalho sobre A economia das trocas linguísticas, no qual produz sua crítica ao estruturalismo e aos seus renomados advogados, dentre eles Saussure e Michel Foucault, o poder dos “intelectuais” que exercem a função de “porta- voz” depende de sua posição social no espaço de concorrência e não meramente do teor de seus escritos

  . Para o sociólogo, “o poder das palavras é apenas o poder delegado do porta-voz ”, que enseja a observação de outras dimensões, como o reconhecimento e o

  

desconhecimento , fatores estruturantes da delegação da autoridade da fala (e da escrita)

  e, por conseguinte, da produção e reprodução do discurso autorizado do porta-voz (BOURDIEU, 2008, p. 87-91).

  Constituídos desses poderes sociais que sedimentam a autoridade delegada do “porta-voz” que, no estudo em questão, são combinados com o poder institucional eclesiástico que lhes recobre as vestes e os gestos, as práticas e as representações que produzem sobre o mundo social, bem como com as relações sociais (amizade, parentesco,

  “patrono-cliente”, etc.) que perpassam seus trajetos, os sacerdotes católicos instituem seu lugares de fala legitimada e autorizada por um tipo de reconhecimento (social, intelectual, político) advindo dos domínios exógenos à esfera religiosa, relativos às múltiplas inscrições e associações (mais ou menos estáveis) tecidas e mantidas a partir do fluxo estabelecido com outras esferas sociais.

  Daí pode-se entender que a atividade da escrita (consubstanciada na publicação de livros) exercida por esses agentes configura-se como fator de distinção, como atributo de “notoriedade” em relação aos demais agentes, como um tipo de capital amplamente valorizado no espaço em disputa à medida que o exercício de escrever é concebido como um dos principais atributos passíveis de reconhecimento

  “intelectual” (GRILL; REIS, 2012), ao mesmo tempo em que se constitui e é reivindicado como recurso legítimo para a ocupação de determinadas posições e tomadas de posição no espaço de concorrência simbólica.

  No que se r efere à “formação da cultura” e da “organização do político” (PECAULT, 1990), a observação das posições ocupadas pelos mediadores no momento de suas produções culturais, principalmente de escrita, é de fundamental importância para se compreender que seu poder de nomeação e de definição reside na combinação de seu trabalho intelectual com o reconhecimento social que lhe é conferido, isto é, na delegação da autoridade de onde provém seu discurso autorizado.

  Essa imbricação entre cultura e política, efetuada pelo trabalho de mediação dos “intelectuais”, obteve como resultado por parte destes um estado de saída da teoria ao engajamento. Diversos estudos já enfatizaram que a passagem desses agentes do campo teórico para a práxis social se processou por meio da constituição e diferenciação de “modelos de intervenção”, espraiados para diferentes domínios e espaços sociais (REIS, 2010; SAPIRO, 2012; SEIDL, 2007b; SIGAL, 2012). Gisèle Sapiro (2012) identifica

  4

  algumas modalidades de intervenção dos intelectuais na política a partir do exame do caso francês, levando em conta o capital simbólico, a autonomia em relação às demandas externas e o grau de especialização dos agentes.

  Para a autora, “os intelectuais ocupam uma posição dominada no seio das classes dominantes como detentores de um capital cultural que se diferenciou do capital econômico com a institucionalização do sistema escolar” (SAPIRO, 2012, p. 22), tal como ponderou Coradini (2003) em estudo anterior.

  A partir desse entendimento, levando-se em consideração que a emergência e afirmação da figura do “intelectual” perpassam pelo processo de expansão do sistema escolar e pela institucionalização do ensino universitário no Brasil, o que propiciou o surgimento de um mercado editorial interno e, simultaneamente, consumidor de bens simbólicos (SORÁ, 2010), os “intelectuais” são concebidos como “produtores e agentes de circulação de noções comuns, concernentes à ordem social” (SIGAL, 2012, p. 56).

  Fundamentando sua análise no contexto representado pela Argentina, Sigal assevera que os “intelectuais” são detentores de um saber que autoriza os investimentos no sentido de intervenção no mundo social, de onde parte para analisar

  “o lugar dos intelectuais na política e o lugar do político para os intelectuais ”.

  Convém observar, no entanto, que analisar os “intelectuais” enquanto “produtores de noções” numa dinâmica periférica como a do Maranhão de meados do 4 século XX implica ponderar o peso das peculiaridades existentes e contrastantes entre

  

Analisados numa perspectiva sócio-histórica e construídos de modo ideal-típico, Sapiro identifica e

esmiúça oito tipos de intervenção política dos intelectuais: o intelectual crítico universalista; o guardião da ordem moralizador; o grupo intelectual contestador ou a “vanguarda”; o intelectual de instituição ou de organização política; o especialista consultado pelos dirigentes ou o “expert”; o intelectual crítico

especializado ou o “intelectual específico”; e o grupo contestador especializado ou o “intelectual distintas regiões geográficas. Isso acaba por revelar que, a nível local, no que tange à definição de “intelectual”, com sua ramificação católica, não há como se precisar uma conceituação nestes termos, principalmente levando-se em consideração o fato de muitos “intelectuais católicos” do Maranhão serem assim identificados através de um processo de consagração baseado no

  “auto-reconhecimento” e em relações de reciprocidade, nascido e fomentado entre seus próprios pares e nos círculos sociais aos quais pertencem.

  Além disso, as especificidades da atuação de sacerdotes no Maranhão, que apresentam uma gama de elementos e condicionantes exógenos ao universo religioso incidindo sobre sua intervenção intelectual no mundo social, apontam para a própria disputa pela definição do que é “intelectual” ou “ser intelectual”. Tais observações ajudam a pensar que a participação de padres em espaços de socialização de

  “letrados” e “literatos” se dá por conta das retribuições simbólicas advindas desses espaços, como a conquista do reconhecimento de

  “intelectual”, justificando assim, em linhas gerais, a inserção de sacerdotes católicos nas academias de letras, universidades, institutos de pesquisa, jornais, bem como nos círculos de jornalistas, poetas, romancistas, historiadores e escritores maranhenses já estabelecidos.

  Em verdade, não há como negligenciar duas dimensões analíticas fundamentais que evidenciam um menor grau de institucionalização do espaço religioso maranhense e, por isso mesmo, uma maior heteronomia da produção intelectual de padres dedicados à atividade da escrita e à publicação de livros: a primeira diz respeito a uma maior valorização e importância das instâncias e dos critérios externos de consagração; e a outra, de um elevado grau de dependência à esfera política (CORADINI, 2003, p. 126), particularmente pelo desapossamento dos bens materiais que se constituem como impeditivos de primeira ordem à produção e veiculação de trabalhos escritos (contatos com editoras e editores) e suscitam a recorrência às redes de relações pessoalizadas de

  5 cada agente (busca por apoios, patrocínios, financiadores e apadrinhamentos políticos).

  Em outras palavras, o “campo de produção cultural” analisado apresenta-se duplamente 5 dominado pelo poder político e pelo poder econômico (posse dos bens materiais de

  

Sobre a formação do mercado editorial brasileiro e as redes de relações pessoais que definem a

possibilidade de publicação e de pertencimento ao panteão dos literatos no país, obliterando assim a

“genialidade” dos escritores, ver Sorá (2010). Tal perspectiva pode ser apreciada ainda no âmbito das

artes plásticas, através da construção de “epítetos” que glorificam artistas “ilustres” e silenciam produção), mediado por redes de relações sociais que acabam condicionando os assuntos abordados e limitando a inventividade dos escritores.

  Nesse sentido, cabe realçar aqui a importância de dois estudos centrais para a elaboração da presente pesquisa. O primeiro deles foi desenvolvido em conjunto por Eliana dos Reis e Igor Grill (2012), intitulado O que escrever quer dizer na política?

  

Carreiras políticas e gêneros de produção escrita, onde são analisados os

  significados e o peso que a atividade da escrita pode adquirir, mediante o reconhecimento “intelectual”, na carreira de agentes dedicados profissionalmente ao trabalho político, apreendendo-se especificamente “as relações entre a diversidade de gêneros de escrita e as modalidades de atuação privilegiadas por profissionais da política” (GRILL; REIS, 2012, p. 102).

  Os autores partem de um trabalho anterior mais específico (REIS; GRILL, 2008), no qual tecem um quadro comparativo entre duas distintas localidades geográficas, Maranhão e Rio Grande do Sul, para analisar as vinculações entre saber intelectual e potencial de elegibilidade, contemplando diferentes momentos históricos e dinâmicas específicas de concorrência. Na pesquisa que se toma como referência para esta dissertação, cuja tessitura investigativa ampliou-se em termos geográficos e restringiu-se à produção de livros escritos por políticos que alcançaram o ápice da hierarquia de postos eletivos (Deputado Federal e Senador), os pesquisadores evidenciam a importância da intervenção de produtores culturais sobre o mundo da política, na contramão de inúmeros estudos que evocam apenas a influência da “política” no mundo da “cultura”, salientando a imbricação entre reconhecimento “intelectual” e “comprometimento político”, particularmente na realização do “trabalho social de invenção das posições e dos papéis políticos”, empenhando-se na definição do que é ou deveria ser a “política”, o “político”, a “sociedade”, em determinadas condições histórico-sociais (ibid., 2012, p. 103).

  No tocante ao presente estudo, a perspectiva adotada pelos autores supracitados foi retraduzida para a esfera religiosa maranhense, com foco especial nas suas dinâmicas internas e nas múltiplas interações estabelecidas por agentes católicos em distintos espaços de inscrição, quer seja no polo cultural do catolicismo local, quer na vida política das regiões onde se concentraram suas experiências clericais, permitindo assim o desvelamento das lógicas que influem na produção escrita de agentes eclesiásticos e nas modalidades de escrita às quais se dedicam, relacionando-as aos postos assumidos e às temáticas abordadas ao longo de seus itinerários.

  Além disso, foca-se na mensuração do peso relativo que o exercício de escrever adquire no desenvolvimento de carreiras de religiosos, na conquista de posições relativamente bem situadas e na demarcação de posicionamentos no interior do espaço em disputa, dimensões de análise que, de algum modo, dialogam com a lógica de reestruturação do poder religioso do catolicismo mundial, evidenciando a interferência de condicionantes exógenos na estrutura interna da Igreja e os elementos teológicos intervindo no mundo social.

  Tal abordagem não seria aqui possível, contudo, sem a incorporação das contribuições presentes em diversos estudos desenvolvidos por Ernesto Seidl (2003, 2007a, 2007b, 2009a, 2009b), especialmente no tocante à constituição de intérpretes da

  

história e da cultura , onde o autor articula as homologias entre carreiras religiosas e

  mediação cultural no Rio Grande do Sul, outra importante dimensão analítica contemplada na composição desta dissertação. Na citada pesquisa, o cientista social desenvolve uma linha investigativa que analisa a constituição de agentes sociais, vinculados à Igreja Católica, investidos do papel de “especialistas” ou “intérpretes” da cultura e da história do Rio Grande do Sul, provenientes dos processos de imigração alemã e italiana ocorrido na metade do século XX naquela região do país. O pesquisador destaca ainda que a formação e a afirmação de mediadores culturais oriundos da Igreja se operam pela “combinação de recursos acumulados simultaneamente através de carreiras religiosas e acadêmico-intelectu ais” (SEIDL, 2007b, p. 79), evidenciando assim o acúmulo de capital necessário para que os agentes imponham seus princípios de hierarquização e de definição das posições e dos papéis no espaço religioso em disputa.

  Cabe ressaltar que, no Maranhão do período em foco, houve um significativo processo de envolvimento de religiosos católicos (particularmente de padres e bispos) em distintos domínios de atuação, quer na produção de bens simbólicos, nas “lutas populares”, ou no enfrentamento contra a “ditadura militar”, tanto no aspecto militante quanto no de formação educacional, cultural e política de diferentes segmentos sociais (camponeses, trabalhadores rurais, operários urbanos, representantes de entidades estudantis e sindicais, movimentos quilombolas e sem-terra, além de comunidades indígenas), quer no âmbito universitário e nas instâncias de consagração intelectual laicizadas pela separação entre Estado e Igreja no alvorecer da República (BORGES, 1998; MACHADO, 2012; MELO, 2010; NERIS, 2011; PEREIRA, 2011).

  Aliás, não são raros os casos de agentes eclesiásticos que acionam dispositivos de reconhecimento social exógenos à esfera religiosa para legitimarem sua atuação evangelizadora e ocupar posições relativamente bem alocadas na estrutura interna da Igreja. Da mesma forma, mas no sentido inverso, não é desconhecido o fato de muitos padres usufruírem da autoridade delegada pela instituição eclesiástica para intervir no mundo social. Inúmeros são os sacerdotes atuantes no Maranhão que possuem formação de nível superior além das tradicionalmente estabelecidas (teologia e filosofia), destacando-se padres que se formaram e atuaram como médicos, advogados, jornalistas, psicólogos, historiadores, sociólogos, professores universitários, e que também atuaram como “intérpretes da história e da cultura” maranhenses, respaldados pelo poder simbólico da Igreja Católica no estado, ao produzirem obras calcadas nos princípios científicos do mundo universitário ou nas regras artísticas que entremeiam as produções literárias, bem como ao se inscreverem em diversos debates públicos locais, ao ocuparem cargos públicos e exercerem funções administrativas em governos municipais e estaduais, e ao participarem ativamente nas lutas político-partidárias regionais e na organização de movimentos sociais e culturais.

  O somatório de tais fatores e condicionantes evidencia, pois, aquilo o que Bourdieu (2004) chamou de a

  “dissolução do religioso”, de onde provém a diversificação de ofertas de bens de salvação e a ampliação da produção de sentidos sobre o mundo social por clérigos católicos que, ancorados em elementos externos ao âmbito religioso, engendram uma “redefinição dos limites” da esfera religiosa (BOURDIEU, 2004, p. 122), bem como uma ressignificação da própria atividade religiosa (SEIDL, 2009a), ressaltando-se o intercruzamento entre as lógicas distintas de funcionamento nas esferas da política, da religião, da cultura e do social (BURITY, 2001; SEIDL, 2007a, 2009b).

  Desse modo, a intervenção de clérigos católicos nos espaços secularizados da “política” e da “cultura”, proveniente de uma tentativa de dominação ou de imposição dos princípios e regras religiosos sobre o mundo social

  , evidencia as “intersecções da esfera religiosa com o espaço universitário e intelectual e as formas de acúmulo da autoridade necessária ao exercício legítimo do papel de mediador socialmente reconhecido” (SEIDL, 2007b, p. 80). Através do exame dos condicionantes que permitiram a afirmação desses papéis por agentes católicos, o presente enfoque incide sobre a dimensão das condições sociais de pertencimento institucional desses “intelectuais católicos” e as articulações por eles tecidas com outros “produtores culturais” e instâncias exógenas ao mundo religioso, para fins de identificação e análise dos recursos acumulados e refratados para a esfera religiosa, possibilitando a constituição de “intérpretes culturais” (ibid, 2007b, p. 81).

  A análise pretendida neste estudo, no entanto, se distingue das acima mencionadas por investigar um grupo de agentes católicos que não figuram nas posições mais altas da hierarquia eclesiástica. Com efeito, o enfoque proposto incide sobre uma espécie de

  “agentes intermediários” que não se constituem efetivamente num grupo uno e coeso, mas que estão mais ou menos bem situados em posições dominadas no espaço dominante de produção cultural. Na maioria dos casos analisados, como se verá mais à frente, os sacerdotes que se dedicam à atividade da escrita ocupam cargos e funções que passam longe dos altos postos hierárquicos da Igreja Católica no Maranhão, bem como das posições dominantes no mercado editorial local, sendo, portanto, duplamente dominados, tanto na esfera eclesiástica quanto no espaço mais amplo de concorrência de produção e de manipulação simbólicas, o que não significa uma diminuição de sua influência nestes espaços, mas sim a possibilidade de uma análise simbiótica dos usos sociais que fazem da escrita e do peso relacional que esta adquire no desenvolvimento de suas carreiras religiosas.

  Obstáculos e procedimentos de pesquisa

  Pontua-se neste trabalho que o processo de construção do universo de agentes investigados teceu-se no decurso da própria pesquisa, o que implicou num movimento contínuo de reflexão e controle sobre as escolhas realizadas. Inicialmente, o trabalho englobava uma população de dez padres identificados em recente pesquisa com um tipo de perfil social característico: o de engajamento militante, cujas “missões” pastorais eram desenvolvidas baseadas em estratégias de afirmação “em nome do povo”, privilegiando a dimensão da “politização do engajamento religioso” (MACHADO, 2012, p. 112). A tentativa original era de analisar a produção intelectual desses agentes, a fim de perceber as temáticas que abordavam, os gêneros de escrita a que mais se dedicavam, além de observar o modo como construíam suas representações sobre o mundo social, suas concepções de sociedade, da religião e da política.

  Contudo, à medida que as primeiras pesquisas foram realizadas, percebeu-se uma escassez de escritos publicados por esse perfil de padres. A se levar em consideração uma esparsa quantidade de textos produzidos por agentes da Igreja e veiculados em jornais de razoável circulação na capital e no interior do Maranhão

  • – e, por isso mesmo, difícil de mobilizar em um curto espaço de tempo
  • – uma reduzida produção livresca de autoria de sacerdotes

  “militantes” não passava de um ou outro ensaio ou artigo que se tornou capítulo de livro.

  Diante desse quadro inexpressivo de publicações que permitisse uma maior consistência da análise então proposta, procedeu-se ao alargamento do universo de agentes pesquisados, porém mantendo-se o mesmo recorte operado. Passou-se a considerar os casos de padres que tiveram significativa e volumosa produção escrita, particularmente de livros, reveladora dos recursos acumulados, das competências e saberes adquiridos, das redes de sociabilidades construídas e dos reconhecimentos sociais obtidos por estes, e não apenas aqueles com perfil militante. Dessa forma, chegou-se a catorze casos elencados como característicos de padres que apresentam em seus itinerários registros de produção escrita em consonância com o exercício de seu ofício de sacerdote.

  Dos catorze agentes selecionados, procedeu-se à escolha de dois casos específicos para a operacionalização de uma análise ancorada na composição de suas carreiras religiosas socialmente reconhecidas, de par com sua participação em diferentes domínios e sua destacada produção intelectual. Padres como João Mohana, com mais de 40 publicações e com relevante intervenção no polo cultural da Igreja em São Luís, e Clodomir Brandt, que registra um total de 26 livros escritos, além de ser uma das referências religiosas mais ricas em particularidades e fatos marcantes na vida política e cultural da cidade de Arari-MA, foram elencados como representativos e distintivos em relação aos demais agentes inseridos no mundo social recortado pela pesquisa, não só pela quantidade de textos publicados, o que evidencia o grau de associações e relações sociais estabelecidas com os detentores dos bens de produção simbólica (donos de editoras, parques gráficos, jornais, etc.), possibilitando-lhes gozar de certo prestígio social e intelectual (SORÁ, 2010), mas principalmente pela heteronomia e alcance de suas atividades clericais, cuja pluralidade de participação em diferentes domínios sociais revela a hibridização do ofício de sacerdote no Maranhão.

  Através de suas carreiras religiosas plurais e distintivas, privilegiando-se o estudo dos condicionantes que presidiram suas reconhecidas atuações nos domínios sociais em que estavam inseridos, tornou-se possível estabelecer uma análise comparativa entre o modus operandi de sacerdotes na capital e no

  “interior” (continente) do Maranhão, de onde se pôde observar o acionamento das relações parentais e de amizade, a tessitura dos trânsitos e dos vínculos sociais, o estabelecimento de conexões e de redes de interdependência entre as difusas e móveis fronteiras das diversificadas esferas sociais (GRILL; REIS, 2012), os tipos de recursos disponíveis em disputa e o peso relacional de investimentos

  “intelectuais” dentro da esfera religiosa.

  Além disso, através da composição dos trajetos dos padres Brandt e Mohana, é possível conhecer e analisar os condicionantes históricos e sociais que incidem na reprodução da “vocação” religiosa e na formação de padres no Maranhão, as distintas motivações que direcionam agentes para a ordenação sacerdotal, bem como as disposições de clérigos para a produção de interpretações sobre o mundo social, além de similitudes e discrepâncias, aproximações e distanciamentos entre os feitos de cada um.

  Padre Brandt é oriundo de um berço familiar, com raízes alemãs, que encontrou na Igreja a oportunidade de dar continuidade aos estudos e de seguir uma carreira religiosa, em detrimento das escassas alternativas que se apresentavam-lhe. Já o sacerdote Mohana provém de uma família libanesa de forte tradição católica, mas que só se torna padre depois de já ter obtido uma formação superior e de atuar profissionalmente como médico, e de ter se consagrado literariamente através de premiações recebidas por seus escritos. Os dois personagens, além dos troféus sociais conquistados, ocuparam posições e assumiram posicionamentos que evidenciam também a diversificação das modalidades de intervenção de “intelectuais católicos” nos domínios da política e da cultura no Maranhão (não somente militantes de “causas socia is”), para além das atividades confessionais cotidianas.

  Contudo a pesquisa, em diversos momentos de levantamento dos dados sociográficos referentes aos catorze casos investigados, deparou-se com uma série de obstáculos e dificuldades. Isto devido à constatação de que não há no Maranhão nenhum tipo de catalogação sistemática dos registros sociais de padres e clérigos católicos que apresentam em seus itinerários publicação de escritos, muito menos de tal produção intelectual. A priori, partiu-se da ideia de que os dados sociográficos que ajudariam a compor um perfil mais geral sobre sacerdotes que se dedicaram à atividade da escrita e que possuem livros ou textos (artigos, crônicas, poemas, ensaios, etc.) publicados em formato de livros estariam contidos em acervos guardados e preservados nas mais diversas instâncias e instituições vinculadas à Igreja Católica no Maranhão, dentre outras a Arquidiocese de São Luís, o Seminário de Santo Antônio, Iesma, CPT, CIMI.

  Na contramão dessa linha investigativa, após a visita a tais lugares, observou-se uma precariedade muito significativa da Igreja no tocante à preservação da memória histórica de suas organizações e de seus agentes. Em termos práticos, não foi localizado nenhum tipo de documentação ou de acervo que contivesse registros mais gerais sobre os dados biográficos dos sacerdotes pesquisados, nem uma sistematização de informações referentes às suas obras, como se pensou inicialmente no que diz respeito aos anuários publicados pela Igreja Católica no Maranhão.

  Originalmente, pensava-se que estes anuários contivessem um significativo volume de informações sobre sacerdotes destacados por sua atividade religiosa. Assim, procedeu-se à pesquisa em busca de dados referentes aos catorze padres elencados e à sua produção livresca, no tocante aos locais geográficos de concentração desses escritos, os gêneros de escrita produzidos e os investimentos feitos pelos agentes nessa modalidade de atuação, intentando-se encontrar ainda nestes anuários informações sobre a existência de possíveis fichários ou espécies de currículos dos sacerdotes, ou ainda a catalogação de dados mais específicos, como funções e cargos ocupados pelos agentes dentro e fora do âmbito da Igreja.

  No entanto, para a surpresa do pesquisador, tais dados não foram catalogados nos citados anuários. Os poucos encontrados no acervo da biblioteca do Instituto de Ensino Superior do Maranhão (Iesma) continham apenas informações de ordem mais técnica sobre as dioceses espalhadas pelo território estadual (ano de fundação, localização geográfica, densidade populacional, etc.) e os bispos que as comandavam (nome completo, ano de chegada e período de permanência).

  Ao contrário do que se poderia supor, as constatações obtidas in loco, isto é, no desenvolvimento da pesquisa de campo, apontaram para um processo de privatização das fontes e das obras dos padres destacados. Muitos dos textos publicados não estão disponíveis em locais públicos de preservação histórica, nem nas bibliotecas das instituições da própria Igreja, mas sim pertencentes a acervos particulares, em sua maioria de propriedade dos próprios padres ou de seus familiares, cujo acesso é bastante restrito.

  Alguns destes escritos ainda figuram em páginas especializadas na venda de livros antigos na internet, porém sem apresentar dados introdutórios sobre as obras, detendo-se somente no detalhamento de suas condições físicas (presença ou não de rabiscos, rasgos, carimbos, dentre outros elementos). Diante da inviabilidade de aquisição de todos esses livros, o mapeamento então efetuado na pesquisa contemplou somente as obras que continham algum tipo de descrição sobre seus conteúdos e seus autores, o que implicou na exclusão de muitas outras publicações e de outros escritores, a exemplo do bispo D. Felipe Condurú Pacheco, que dentre outras obras escreveu a

  

História Eclesiástica do Maranhão, uma das principais referências consultadas por

  pesquisadores sobre o estudo da Igreja Católica no Maranhão, cuja publicação se deu no ano de 1969 e sobre o qual não foi possível reunir um conjunto de dados suficientes para o presente trabalho. Certamente, o estudo de sua trajetória e de sua produção intelectual ajudaria a compreender um pouco mais sobre a atuação híbrida de clérigos católicos no Estado, bem como a autoridade e o reconhecimento conferidos a agentes da Igreja para legitimarem representações católicas sobre a história e a cultura maranhenses.

  Em verdade, no Maranhão, raros são os acervos de propriedade privada que disponibilizam seus conteúdos a um público maior. No caso do presente estudo, as informações disponíveis sobre as duas trajetórias específicas analisadas, além das demais fontes consultadas, foram obtidas jun to aos organizadores das próprias “casas de memória” dos referidos padres, por meio das figuras de Dona Creuzinha, organizadora do

  “Memorial do Padre Clodomir Brandt e Silva”, situado na cidade de Arari-MA, aberto à visitação pública, e de Ibrahim Mohana, um dos responsáveis pela “Casa João Mohana ”, localizada no centro histórico de São Luís, cujo acesso só foi possível mediante a satisfação de exigências prévias dos familiares do padre, como a não concessão de entrevistas e o envio, por escrito, do roteiro de pesquisa para o levantamento dos dados biográficos.

  Cabe ressaltar ainda que, sobre a guarda da memória destes dois padres específicos, enquanto no Memorial do Padre Brandt todos os livros de sua autoria estão disponíveis para a venda, salvo raras exceções por esgotamento editorial, na Casa Mohana não foi permitido o acesso à sua produção livresca, sob o argumento de que esta está disponível no mercado para a venda, o que implica asseverar que a referida casa de guarda da memória do padre Mohana não possui acervo disponível para a comercialização ou mesmo para a consulta local do público interessado. Daí o porquê da importância da escritora Arlete Nogueira da Cruz Machado para este trabalho, que gentilmente forneceu ao pesquisador um rico material jornalístico contendo muitas fotos, dados e informações sobre a vida e a produção intelectual do padre João Mohana.

  Dentro desse contexto de poucos avanços e frequentes recuos, foram frustradas as inúmeras tentativas de levantamento do maior número possível de dados biográficos pela via das fontes “oficiais” produzidas pela Igreja Católica no Maranhão referente aos catorze padres investigados. O fato de nem mesmo as bibliotecas de algumas das mencionadas instituições possuírem acervos contendo tais registros sociais ou de suas obras suscita pontuar-se duas observações: primeiro, tornam-se evidentes a precarização desses exíguos espaços de guarda da memória e a negligência de setores da hierarquia eclesiástica no estado em catalogar e preservar, de forma sistemática, se não os dados sociográficos de seus sacerdotes, minimamente sua produção escrita. Segundo, aponta para um certo tipo de controle da Igreja sobre a vida de seus membros, uma vez que o acesso aos dados sociais de padres implica uma inserção maior do pesquisador tanto na esfera administrativa eclesiástica quanto nos círculos de socialização onde se inseriam.

  De um modo geral, as informações biográficas e os dados relativos aos livros publicados, contidos nos quadros apresentados neste estudo, foram coletados de diferentes e variadas fontes. As obras que foram possíveis serem mapeadas figuram em citações presentes em produções acadêmicas (monografias, dissertações, teses, artigos e relatórios de pesquisa), em sites da internet com conteúdo religioso, em suplementos literários e culturais de jornais e em livros adquiridos junto a amigos e a padres consultados. Contou-se ainda com o apoio dos administradores das bibliotecas frequentadas, que contribuíram com sugestões e informações sobre escritos e escritores católicos.

  Além do mapeamento dessa esparsa produção intelectual, procedeu-se a uma leitura preliminar sobre os seus conteúdos, a fim de se compreender as lógicas de construção de representações e de sentidos sobre o mundo social pelos membros da Igreja, seus posicionamentos perante assuntos exógenos à esfera religiosa, bem como seu olhar sobre o papel desempenhado por agentes católicos nos diferentes domínios sociais, na tentativa de se perceber o processo de construção de si mesmos enquanto produtores de interpretações

  “legítimas” da vida social. De posse desses dados, ainda que escassos, tornou-se possível a composição de um mosaico sobre o perfil de padres que não se restringiram apenas à esfera de atuação confessional, nem tampouco se dedicaram exclusivamente ao engajamento militante na defesa de “causas sociais”. Com efeito, os agentes investigados apresentam diversos registros de inscrição em outras esferas e ramos de atividade, quer seja no âmbito da política, da literatura, da imprensa, da acadêmico/científica, da “cultura” e da educação, atuando como

  “políticos”, médicos, advogados, romancistas, teatrólogos, poetas, jornalistas, historiadores, sociólogos, além de professores e pesquisadores em instituições de ensino superior, conferindo-lhes certo prestígio e reconhecimento “intelectual” e social que os legitima e os autoriza a ocuparem determinadas posições e a intervirem nestes mesmos espaços.

  A inscrição de religiosos católicos (particularmente de padres e bispos) em domínios sociais tão variados e distintos de sua esfera cotidiana de atuação confessional suscitou, por fim, o cotejamento dos condicionantes que ensejaram o processo de inculcação de propriedades sociais responsáveis pela definição dos limites de atuação dos casos investigados, bem como pelo delineamento dos perfis sociais de sacerdotes que, em algum momento de seus itinerários religiosos, buscaram na atividade da escrita a “fuga da rotina” do cotidiano, a materialização de suas concepções de mundo e de “projetos” de sociedade (GRILL; REIS, 2012, p. 3-4), a externalização de suas ideologias sobre a religião, a cultura e a política, além de demarcarem sua posição distintiva em relação aos demais agentes no espaço em disputa.

  Com isso, considera-se que as orientações teórico-metodológicas que norteiam o presente estudo, conforme exposto anteriormente, possibilitam a análise sobre a distribuição das posições e dos papéis definidores que estruturam a ação católica de determinados agentes e/ou grupos sociais, ao mesmo tempo em que se a operacionaliza como instrumento revelador das estratégias de dominação adotadas pela hierarquia eclesiástica e das lógicas que engendram a produção intelectual desses agentes, dos quais são exigidas certas habilidades e competências técnicas, além de conhecimentos específicos e saberes práticos que, somados aos títulos escolares e às redes de relações sociais, definem o tipo, o volume e o peso do capital que os autorizam e os legitimam a ocupar determinadas posições e a assumirem posicionamentos no espaço de poder mais amplo.

  Assim, diante do somatório dos dados e registros levantados, aliados ao exame dos perfis sociais dos sacerdotes pesquisados, seus recursos, concepções, práticas e representações, além de seus repertórios variados de mobilização e de intervenção no mundo social, têm-se a noção do peso relacional da atividade da escrita no tocante ao desenvolvimento de carreiras religiosas no Maranhão e na constituição, definição, legitimação e hierarquização de papéis sociais protagonizados por membros da Igreja nos domínios da cultura e da política maranhenses.

  • Considerando as observações e ponderações supracitadas, tem-se a presente dissertação arquitetada e enredada em quatro capítulos. No Capítulo 1, apontam-se os principais aspectos históricos, sociais, políticos e culturais que presidiram a híbrida atuação de sacerdotes católicos no Maranhão, no período de 1950 a 1980. Além disso, busca-se situar historicamente os condicionantes que possibilitaram a emergência da f igura do “intelectual católico”, tomando como exemplo o caso francês, e apresentar analiticamente as contribuições teóricas que norteiam o presente trabalho, explicitando e ponderando conceitos fundamentais e ajustando-os às dinâmicas periféricas investigadas.
No Capítulo 2, analisam-se as características sociais dos 14 sacerdotes pesquisados, na tentativa de compor um mosaico geral sobre o perfil social de padres que se dedicam à atividade da escrita no Maranhão em paralelo com as suas atividades eclesiásticas cotidianas. Para isso, foram mobilizadas algumas variáveis que permitiram uma análise mais frutífera sobre os casos elencados, como a nacionalidade, formação escolar, ano de nascimento, idade de ordenação, atuação profissional e pertencimento a outros espaços de socialização, como academias de letras, universidades, institutos de pesquisa, cargos ocupados em órgãos públicos e entidades ligadas à Igreja Católica no Maranhão (CPT, CIMI, Cáritas, etc.). Os dados, registros e informações coletados para a composição deste capítulo foram obtidos em diversas e distintas fontes, entre consultas a jornais e livros pertencentes às bibliotecas das entidades visitadas, em trabalhos acadêmicos (artigos, monografias, dissertações e teses) e em alguns escritos produzidos pelos próprios sacerdotes analisados.

  No Capítulo 3, parte-se para o estudo da trajetória do padre Clodomir Brandt e Silva, que teve uma significativa e diversificada atuação no “interior” do Maranhão, mais precisamente na cidade de Arari, localidade onde desenvolveu suas funções eclesiais de modo expressivo e distintivo em relação aos demais agentes católicos, cujas práticas e discursos reverberaram na história cultural e política da cidade. Para a confecção deste capítulo, lançou-se mão de obras produzidas por aqueles que viveram no município e conviveram com o sacerdote, muitas vezes combatendo-o nas trincheiras da luta política e midiática. Além disso, os livros escritos pelo próprio padre Brandt serviram como indispensável plataforma para a composição de seu itinerário, salientando-se criticamente, contudo, o aspecto autobiográfico e a tendência de “glorificação” de suas ações presentes em seus textos.

  Por fim, no Capítulo 4, analisam-se as dinâmicas e os condicionantes que presidiram a trajetória de João Mohana, sacerdote de destacada atuação no cenário sociocultural de São Luís. Parte-se do rico trabalho desenvolvido pela escritora Arlete Nogueira da Cruz Machado que catalogou registros, informações, dados e fotos em comemoração ao aniversário de 70 anos do padre Mohana para um suplemento cultural do jornal

  “O IMPARCIAL”, publicado em junho de 1995. Além disso, utilizam-se os dados fornecidos em entrevista por um dos irmãos do sacerdote, o também escritor Ibrahim Mohana, cujas informações foram obtidas por escrito através de um questionário previamente elaborado que privilegiou questões concernentes à origem familiar do padre Mohana (escolaridade e profissão dos pais e avós), recursos ac umulados antes da “entrada oficial” na Igreja, como a formação e o exercício da

  Medicina no Maranhão, e a inserção nos círculos “intelectuais” da capital.

  Com a espinha dorsal da dissertação assim delineada, intenta-se compreender e analisar as lógicas e os condicionantes que incidem sobre a atuação híbrida de sacerdotes católicos no Maranhão. Os 14 casos investigados foram elencados tomando- se em apreço as características e os vetores que lhes permitiram falar, escrever e agir de modo distintivo, particularmente nas esferas da política e da cultura, em relação aos demais padres que atuaram no Estado entre as décadas de 1950 e 1980.

  O exame das trajetórias dos dois padres investigados nos capítulos 3 e 4, respectivamente Clodomir Brandt e João Mohana, exemplificam a hibridização que perpassa a atuação de sacerdotes no Maranhão que, para além de suas atividades eclesiais cotidianas, investiram (de modo mais ou menos consciente) no acúmulo de saberes e no estabelecimento de relações sociais que os possibilitaram ocupar determinadas posições e intervir significativamente nas difusas e fluidas

  “fronteiras” entre os domínios religioso, cultural e político, fazendo da escrita um de seus principais trunfos na conquista e manutenção destas posições e na demarcação de seus posicionamentos.

  

CAPÍTULO 1:

A REESTRUTURAđấO DO ESPAđO RELIGIOSO E A DIVERSIFICAđấO

DA ATIVIDADE SACERDOTAL: apontamentos sócio-históricos

  O recorte temporal escolhido neste estudo justifica-se pelas múltiplas dinâmicas em curso que remetem às transformações políticas e culturais ocorridas dentro e fora da esfera religiosa e à diversificação dos espaços de atuação eclesiástica experimentadas pela Igreja Católica a nível nacional e internacional, particularmente num estado periférico como o Maranhão que, em meados do século XX, apresentava uma significativa singularidade em relação a outros contextos, seja pelo afastamento do eixo central dos estados federativos, seja pelos exemplos sintomáticos de crescente desfiliação religiosa e dos baixos índices de renovação de seus quadros clericais (MELO, 2010; SEIDL, 2003).

  Dentro do mercado de interpretações disponíveis sobre as transformações historicamente processadas nas relações entre Igreja e Estado no Brasil, têm-se diversos estudos que apontam para um estado de “crise” da instituição eclesiástica, mediante o reordenamento de suas dinâmicas internas específicas e o aumento das pressões exógenas de condicionantes sócio-históricos em voga (ALVES, 1979; BRUNEAU, 1974; DELLA CAVA, 1975; MAINWARING, 2004).

  Tais estudos apontam as estratégias que a Igreja utilizou para o enfrentamento das turbulências que ameaçavam desmoronar os alicerces de sustentação do seu prestígio e poder no seio da sociedade brasileira, principalmente com a Proclamação da República (1889) e a promulgação da Constituição de 1891, quando se estabelece a separação entre Estado e Igreja e a laicização dos diversos setores estruturantes da sociedade, cujos valores católicos entram em concorrência com o advento de novas formas de pensamento, de organização política e de religiosidade, principalmente o

  6

  protestantismo . A partir daí, houve uma limitação dos espaços de atuação católica que, 6 entre outras coisas, significou a perda de influência e de poder da Igreja no Brasil,

  

No Maranhão, a presença de grupos religiosos protestantes, tais como Anglicanos, Presbiterianos,

Batistas, Pentecostais, dentre outros, data das primeiras décadas do século XIX, com forte incidência já no início do século XX. Sobre este assunto, ver Santos (2004). exigindo da instituição eclesiástica a recomposição de suas estratégias e a diversificação dos espaços de sua atuação.

  No final do século XIX e início do século XX, a Igreja passava por um processo 7 interno denominado de romanização e o Estado brasileiro reorganizava-se sob os auspícios da República. Dessas transformações políticas e religiosas, que se espraiaram também para os domínios do “social” e da “cultura”, gestou-se o fim do regime do Padroado, em cujo bojo estabeleceu-se a separação, em termos político-administrativos, entre as esferas política e religiosa e a laicização da sociedade brasileira.

  Com o divórcio republicano entre Estado e Igreja e a promulgação da Constituição de 1891, o catolicismo sofreu uma espécie de “abalo” em seu poderio material e simbólico no país, especialmente pela “abertura” propiciada por tal rompimento para a emergência e afirmação de novos credos no cenário religioso e para o advento de correntes filosóficas e políticas concorrentes, que não tinham na instituição eclesiástica suas referências estruturantes. Além disso, a Igreja experimentou a perda de certas funções que antes eram de sua exclusiva competência e responsabilidade, e que a partir de então foram chanceladas ao domínio do Estado. Segundo Hermann (2007, p. 123),

  o projeto da nova Constituição (...) apresentava propostas evidentes de limitação da esfera de ação da Igreja e de religiosos: reconhecimento e obrigatoriedade do casamento civil, laicização do ensino público, secularização dos cemitérios, proibições de subvenções oficiais a qualquer culto religioso, impedimento para abertura de novas comunidades religiosas, especialmente da Companhia de Jesus, inelegibilidade para o Congresso de clérigos e religiosos de qualquer confissão.

  Como se observa, diante das dinâmicas sociais e dos processos políticos em curso, a Igreja perdeu espaço e poder no Brasil do alvorecer do século passado. Funções e atividades de grande abrangência na sociedade, até então desenvolvidos e pertencentes exclusivamente ao domínio católico, como o ensino público, o casamento e os sepultamentos, passaram a ser administrados pelo estado laico brasileiro.

7 Conforme aponta Rodrigues

  (2003, p. 11), entre 1889 e 1922, “a Santa Igreja Católica Apostólica

Romana passava por um processo de centralização do poder em torno da autoridade papal, conhecido por

romanização”, uma espécie de ajustamento das diretrizes doutrinárias produzidas pelo Vaticano, em Roma. Mas, se por um lado, a ruptura dos laços institucionais com o Estado significou uma redução de poderes e benefícios, por outro a Igreja pôde gozar de um relativo aumento de sua autonomia, sobretudo no que concerne à ampliação e estruturação de seus postos (paróquias e dioceses, a priori), aos princípios de recrutamento e seleção de seu corpo de agentes e à reformulação e redefinição de sua competência religiosa (MICELI, 1988; SEIDL, 2003).

  É nesse período que ganha força no país, principalmente nas esferas da cultura e da política, a figura do “intelectual católico” e a valorização da atividade da escrita como trunfo distintivo da atuação de sacerdotes. A sociogênese desse tipo de agente, que representa um reordenamento da Igreja perante o mundo social, remete, contudo, ao início do século XIX, mais precisamente ao ano de 1802, quando é publicado Génie du

  

christianisme , de François-René de Chateaubriad, autor que propõe uma nova

  legitimidade ao catolicismo no campo da literatura . Em contraposição aos “filósofos das

  Luzes” e aos princípios da Revolução Francesa de 1789, que colocaram o homem no centro do universo e desapossaram as obras literárias francesas da metafísica religiosa, Chateaubriand reaproxima literatura e religião (católica), selando uma aliança entre ambas e, ao mesmo tempo, se interpondo contra a ascensão do poder científico (SERRY, 2004, p. 131-132).

  No decurso do século XIX, o abade Felicité de Lamennais propõe, no entanto, a necessidade de uma linha de pensamento católico precisamente em comunhão com o avanço das descobertas científicas de então, numa tentativa de “superação das filosofias individualistas em favor da tradição cristã”, reafirmando a autoridade da Igreja perante o mundo social. Em seu

  Essai sur l’indifférence em matiére de religion (1820),

  Lamennais busca orientar a “formação de uma elite clerical capaz de enfrentar os desafios intelectuais do tempo”, reconciliando fé e ciência e reafirmando a necessidade da presença de intelectuais católicos nos debates científicos (ibid, 2004, p. 133-134).

  Já no final do século XIX, assiste- se a uma “crise” entre clero e laicato que, dentre outros subprodutos daí provenientes, acaba por criar as condições de valorização e reconhecimento dos

  “intelectuais católicos”, não necessariamente “ungidos” pela ordenação sacerdotal. A partir da atuação de Louis Veuillot, jornalista a serviço de Roma, se estabelece as “modalidades de um engajamento intelectual leigo em nome do

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  . Veuillot, que não se ordenou padre, alcança prestígio e poder junto ao catolicismo” papado de Pio IX, tornando- se “porta-voz” de Roma e estimulando a produção intelectual de escritores leigos sobre o catolicismo, orientando a opinião do clero, intervindo nos debates internos da Igreja e servindo de ponte entre a hierarquia eclesiástica e a “opinião pública” francesa, que adquire nova importância com o desenvolvimento da imprensa (SERRY, 2004, p. 138).

  A partir desse esforço de restauração do poder do catolicismo no domínio intelectual, a Igreja francesa começa a reunir em torno de si pensadores e escritores (entre clérigos e leigos) bem situados socialmente para sistematizar o pensamento católico sobre os campos da literatura, das artes e das ciências, legitimando e promovendo a intervenção desses agentes no campo de produção cultural. A Igreja parece pôr em prática, nesse momento de início do século XX, uma espécie de projeto político-cultural que visa contrabalançar as críticas advindas do positivismo e do modernismo, que atacavam os alicerces de sustentação da autoridade eclesiástica e do monopólio do discurso sobre o religioso.

  Com a “crise modernista” e o alvorecer da República, em 1905, houve uma maior valorização e afirmação do laicato frente aos sacerdotes católicos. Estes foram obrigados, a partir da publicação da encíclica Rerum Novarum (1891), do papa Leão

  XIII, a se retirarem dos debates intelectuais e científicos e a direcionarem suas forças para o terreno social, dando início à ch amada “era militante” na Igreja, e assim, abriu-se espaço para a valorização da figura do escritor leigo (não filiado ao catolicismo).

  Conforme observou Hervé Serry (2004, p. 142) , “ao obrigar seus clérigos envolvidos no trabalho intelectual a se retirar dos debates científicos com os não-católicos, a alta hierarquia católica abre aos escritores possibilidades de se colocarem a seu serviço”.

  A partir desse processo de retirada dos clérigos dos debates intelectuais, houve um aumento no espaço de atuação e de autonomia para os leigos, especialmente para os escritores, que não mais se encontravam num estado de submissão e obediência estrita ao clero. Contudo, sua valorização e reconhecimento no campo de produção cultural 8 tornaram-se possível justamente pelo fato de atuarem e escreverem em defesa da Igreja,

  

Para saber mais sobre as relações entre literatura e religião e a gênese social dos intelectuais católicos,

consultar Literatura e Catolicismo na França (1880-1914): contribuição a uma sociohistória da

crença, de Hervé Serry (2004), que esmiúça as especificidades de cada um desses momentos históricos e as motivações que levaram à edificação teórica dessas linhas de pensam ento católico sobre o “campo contra o avanço das ciências e dos fenômenos políticos e sociais que questionavam os fundamentos de sua autoridade religiosa.

  Com efeito, o advento da República, que estabeleceu a laicização entre Estado e Igreja, tanto na França quanto no Brasil, forneceu os condicionantes que ajudaram a recompor e a diversificar os espaços de atuação religiosa, uma vez que a intervenção de agentes católicos não se restringiu única e exclusivamente no domínio confessional e nos assuntos internos da Igreja, se irradiando fortemente para as esferas da cultura e da política.

  Em consonância com os novos ditames doutrinários emanados de Roma, a Igreja Católica no Brasil alinha-se aos postulados do processo em voga de romanização mundial do catolicismo. Em retribuição, obtém do Vaticano o subsidiamento da ampliação de sua estrutura de postos e carreiras. Paralelamente a isso, as elites hierárquicas da Igreja no Brasil buscam uma reaproximação com os centros nacionais de poder e com os grupos dirigentes regiona is da chamada “República Velha”, como forma de reinserir-se estrategicamente nos espaços de decisão política do país, dos quais havia sido obliterada (DELLA CAVA, 1975; MICELI, 1988).

  De acordo com Bruneau (1974, p.

  28), “até 1930 a Igreja se utilizou de várias táticas para ser readmitida no que ela considerava ser a posição política que lhe competia por direito”. Acreditando assim na necessidade de ancorar-se no Estado como forma de reaver seus privilégios outrora perdidos, a alta hierarquia eclesiástica buscou aproximar-se dos novos agentes políticos que comandavam a máquina administrativa brasileira de então, quer pelo estabelecimento de relações de reciprocidade e de manifestações públicas de apoio mútuo, realização de atividades religiosas e cerimoniais cívicos em conjunto, ou pela participação de membros da Igreja no exercício de funções e cargos de competência política e burocrática (BRUNEAU, 1974; DELLA CAVA, 1975, AZZI, 2008, MICELI, 1988, SEIDL, 2003). Assim, desfrutando de certa autonomia e estreitando cada vez mais os laços com as elites dirigentes do país, a Igreja adentra a Era Vargas (1930-1945) gozando do relativo sucesso propiciado pelo

  9 advento (BEOZZO, 1986). 9 da “Neocristandade” Conforme define José Oscar Beozzo (1986 , p. 322), a Neocristandade era “uma ordem econômica, social e política sob a direção dos princípios cristã os definidos pela Igreja”, que visava “reconduzir a

sociedade brasileira aos valores morais e culturais do cristianismo católico”. Em outras palavras, tratava-

se da (re)adoção e (re)incorporação de princípios e valores católicos na definição de programas e projetos

  É no seio do período Vargas que a Igreja responde às novas situações impostas pelas transformações políticas, sociais e institucionais em curso, através da criação de movimentos como a Ação Católica (AC), em 1932, que em seu conjunto visava cimentar a ampliação dos quadros clericais, formar leigos para auxiliarem bispos e sacerdotes no trabalho de ensino dos cristãos e dar um novo ânimo às práticas evangelizadoras através de um conjunto de ações de cunho caritativo e humanitário (DELGADO e PASSOS, 2003; RIDENTI, 2002). Aliás, o estudo sobre a importância, a influência e a autonomia do laicato no auxílio do exercício das funções eclesiais e no desenvolvimento das atividades evangelizadoras, que ajudaram a recompor e a reoxigenar o poder do catolicismo e, por conseguinte, da própria Igreja, sem a intervenção direta da hierarquia eclesiástica, se constitui num campo de investigação ainda pouco explorado.

  É no transcurso da década de 1930 que tem início uma disputa pelo controle do sistema educacional e pela produção cultural no país, onde a Igreja articula e desenvolve estratégias com vistas a um processo de ideologização do ensino primário e secundário, assim como o âmbito universitário, o qual Sérgio Miceli (1979, p. 51) chamou de “enquadramento institucional dos intelectuais”. Em 1935, são criadas a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Ação Universitária Católica como uma tentativa de circunscrever dentro da esfera de influência religiosa da Igreja as novas lideranças “intelectuais” do país provenientes das universidades (MAINWARING, 2004; MICELI, 1979).

  No Maranhão, a principal responsável pelo fomento e organização de novas práticas evangelizadoras, e também pela obtenção de maior prestígio e reconhecimento da Igreja junto à sociedade, às elites dirigentes e aos grupos de “intelectuais”, foi a Ação Católica, criada em 1936 pelo padre Sebastião Fernandes que, juntamente com a Liga

10 Eleitoral Católica (LEC) , fundada em 1932, promoveu uma difusão maior dos

  princípios sociais católicos junto à população, dentre os quais destacam-se a assistência religiosa às Forças Armadas, o fortalecimento dos laços matrimoniais, a liberdade de

  

políticos para o país, propiciada pelo estreitamento dos laços entre membros da hierarquia eclesiástica e

10 elites dirigentes, durante o período governamental de Getúlio Vargas.

  

A LEC tinha como função congregar o eleitorado católico e selecionar candidatos que se

comprometessem com os princípios sociais da Igreja. O trabalho da Liga consistia no alistamento de

eleitores, na apresentação de propostas aos candidatos e na divulgação via imprensa dos nomes

consignados com tais propostas (NERIS, 2012, p. 43). A título de exemplo de seu relativo sucesso, muitos projetos elaborados pela LEC foram contemplados na Constituição de 1934 (PACHECO, 1969). associação sindical, a defesa irrestrita da vida e da propriedade privada e o ensino religioso obrigatório nas séries de formação fundamental e secundária (PACHECO, 1969, p. 588).

  No tocante ao ensino universitário, a criação da JUC no Maranhão exemplifica bem as tentativas da Igreja Católica em manter e expandir seu domínio nas esferas cultural e educacional, como forma de recrutar os futuros “intelectuais” e lideranças religiosas junto às elites locais para compor os novos quadros da instituição eclesiástica no Estado.

  Inicialmente, a JUC tinha apenas esse caráter conservador, clerical, voltado para a “cristianização das futuras elites”. Contudo, após a reorganização da Ação Católica no Brasil, entre 1946 e 1950, o movimento leigo adquire maior autonomia em relação à hierarquia eclesiástica passando a ter maior envolvimento nas questões sociais específicas do mundo dos universitários e se aproximando da chamada “esquerda” brasileira, chegando a uma “rápida radicalização que a levou a um contundente conflito com a hierarquia”, assumindo assim uma “responsabilidade explícita pela ação política como parte de seu compromisso evangélico” (MAINWARING, 2004, p. 84).

  Como fruto direto dessa “radicalização” religiosa e de aproximação dos membros da JUC com a ideologia de “esquerda”, pautada nos pressupostos teóricos do marxismo e suas diversas ramificações, tem-se o surgimento da Ação Popular (AP), influenciada por

  “conjunturas de fechamento e repressão política, por manifestações de diferentes porta-vozes do catolicismo e pelo impacto da revolução cubana e da revolução cultural chinesa

  ”, ao mesmo tempo em que sofreu interferências tanto dos “empreendimentos de teólogos e intelectuais brasileiros como de agentes de outras nacionalidades e com posicionamentos ideológicos diferenciados, que vinham disseminar novas interpretações sobre o papel da Igreja e dos seus “seguidores” nesse contexto

  ” (REIS, 2007, p. 164-165). Convém ressaltar ainda que a criação da AP foi precursora das bases teóricas da Teologia da Libertação e de importantes movimentos do catolicismo que surgiriam posteriormente, como as comunidades eclesiais de base (RIDENTI, 2002, p. 214; SALEM, 1981).

  Não obstante, como veremos no exame da trajetória do padre Mohana, esse “conflito com a hierarquia” clerical não se processou de forma unânime e global. Pelo contrário, os enlaces sociais envolvendo o referido padre e membros do alto clero maranhense semearam um terreno de atuação evangelizadora bastante fértil, de cumplicidade e de ajuda mútua entre o laicato e a hierarquia eclesiástica.

  O processo de estruturação e de controle do ensino universitário pela Igreja no Maranhão alcança seu fulgor no início da década de 1960, com a fundação da Universidade

  “Católica” do Maranhão que, posteriormente, se transformou na

  11 Universidade Federal do Maranhão (UFMA) , em 1966, tendo em seu comando inicial,

  como reitor por dois mandatos consecutivos, o cônego Ribamar Carvalho (1963-1967 e 1968-1972)

  , um dos destacados “intelectuais” eclesiásticos maranhenses. Conforme assinala Regina Faria (2005, p. 18),

  a Universidade do Maranhão, instituição criada pela Arquidiocese de São Luís em 1961, mais conhecida como Universidade Católica, congregava a Escola de Enfermagem São Francisco de Assis, a Faculdade de Serviço Social do Maranhão, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e a Faculdade de Ciências Médicas, todas diretamente ligadas à Igreja Católica.

  Com a expansão do ensino universitário, houve também o processo de institucionalização das ciências humanas e sociais que, em condições periféricas, serviu como base teórica para a atuação de sacerdotes como mediadores políticos e culturais, tanto no engajamento militante em defesa de causas coletivas quanto na inserção em espaços de produção acadêmico/científica

  , onde estas ciências “são postas a serviço da “empresa de salvação” e de seus novos princípios de legitimação e práticas religiosas” (CORADINI, 2012, p. 69).

  Desse modo, evidencia-se o surgimento de “novas condições de oposição nas relações centro/periferia e, mais especificamente, dos confrontos associados às novas heterodoxias

  ”, como a própria teologia da libertação, que se apropria destas ciências para “incluir novas problemáticas legítimas” e, assim, legitimar a intervenção de sacerdotes em outros domínios sociais, reafirmando sua capacidade de mediação (ibid., 2012, p. 73-80).

  Nesse rol de estratégias e ações da Igreja articuladas junto aos setores influentes da sociedade, particularmente no domínio “intelectual”, destacando-se as relações institucionais estabelecidas com a imprensa, cabe elencar a instituição do “Dia da Boa 11 Imprensa”, a fundação da “Associação de Jornalistas Católicos” (1937) e até a Sobre este assunto, consultar Faria; Montenegro (2005), Neris (2011).

  realização da “Páscoa dos Intelectuais” (NERIS, 2012, p. 45). Merece destaque também

  12

  , o veículo de comunicação a fundação do periódico “JORNAL DO MARANHÃO” oficial da Igreja Católica no estado

  , que congregava diversos “intelectuais” (católicos e não-católicos) na confecção das interpretações da instituição eclesiástica sobre o que ocorria em âmbito local, nacional e internacional.

  Mesmo diante de tantas estratégias e iniciativas por parte da Igreja de melhor realocar-se no espaço de poder e, assim, tentar restabelecer seu poderio e influência perante a população, já no início da década de 1950 os clérigos católicos enfrentavam uma forte concorrência religiosa

  • – principalmente das seitas protestantes e das religiões de origem africana e suas múltiplas manifestações culturais
  • –, relativa diminuição do número de ordenações sacerdotais e uma crise financeira advinda da escassez de recursos mediante a queda de fiéis nas celebrações eucarísticas. Disputavam ainda o filão desse mercado salvacionista em estado de “crise” as organizações ateístas e os movimentos políticos que tinham como base um marxismo ortodoxo que considerava a religião como “o ópio do povo” (ALVES, 1979; BRUNEAU, 1974; MAINWARING, 2004).

  Essa tendência de forte concorrência à hegemonia do catolicismo no Brasil mantém-se também durante o limiar da década de 1960, forjando na Igreja a adoção de novas práticas que irão abalar ainda mais seus alicerces de sustentação ideológica e desembocar numa maior interferência de seus agentes nos assuntos relativos à esfera política, com a diferença de que agora os vínculos não seriam costurados junto aos “poderosos”, mas sim através da aproximação perante o “povo oprimido”. Para muitos estudiosos, essa mudança de postura da Igreja reflete a crise que a instituição enfrentava por ter se mantido, historicamente, ao lado das elites e dos grupos dirigentes do país. Segundo Bruneau (1979

  , p. 159), “na origem da crise da qual surge uma reorientação da Igreja Católica no Brasil, encontramos uma tomada de consciência de sua perda de influência entre a população mais pobre”.

12 O periódico chamava-

  se inicialmente de “CORRESPONDENTE”; depois foi batizado de “O

MARANHÃO”, até receber o nome definitivo de “JORNAL DO MARANHÃO”. Fundado em 1930 pela

Arquidiocese de São Luís, o jornal tornou-se o canal oficial de publicação da visão da Igreja sobre os

acontecimentos no Maranhão, no Brasil e no mundo. Teve suas atividades suspensas no auge da repressão

da “ditadura militar”, em meados da década de 1960, voltando a circular somente em 2009. Para saber mais sobre esse assunto, ver Melo (2010). Diversos relatórios encomendados pelos bispos quanto à expansão das religiões concorrentes ao catolicismo e ao advento de novas organizações políticas que não tinham na Igreja suas referências, durante as décadas de 50 e 60 do século XX, evidenciavam certo declínio de seu

  “monopólio religioso”, que propiciou aos membros da hierarquia eclesiástica maior consciência da necessidade de reformular as práticas pastorais em voga e de “tratar com circunspecção os problemas sociais” (MAINWARING, 2004, p. 53-54).

  Tal concepção, contudo, não envolvia a Igreja como uma unidade compósita. Pelo contrário, havia disputas internas entre correntes teológicas que divergiam quanto à aproximação e/ou distanciamento da “doutrina social” preconizada pelo Vaticano.

  Ainda segundo Mainwaring (2004, p. 55), enquanto alguns segmentos do clero (os ditos “tradicionalistas”) reprovavam a aproximação com os movimentos populares por acreditarem constituírem-se numa

  “ameaça”, à medida que adquiriam um enfoque “anti- cató lico” e questionador da “hierarquia social”, para os “moderados” e “progressistas” tal aproximação ajudou a fomentar uma nova consciência dos problemas fundamentais da sociedade brasileira, modificando assim a forma com que muitos líderes eclesiásticos percebiam a sociedade.

  Ao mesmo tempo em que sofria mutações em sua visão sobre os problemas do mundo, a própria Igreja estava inserida num contexto também de profundas transformações. Vivia-se o tempo da Guerra Fria, o bipolarismo mundial entre comunistas soviéticos e capitalistas ocidentais, exemplificado principalmente na Revolução Cubana (1959), na Guerra do Vietnã (1959-1975) e no Muro de Berlim (1961-1989). Cabe destacar ainda nesse contexto convulsivo a deposição de governos democráticos, o advento de regimes militares em quase toda a América Latina e no continente asiático e a explosão de movimentos sociais na Europa, particularmente na França. No Brasil, o surgimento de sindicatos, associações comunitárias, organização do movimento estudantil e do campesinato, além da mobilização de grupos armados de resistência ao regime militar, constituíam o pano de fundo que circunscrevia as mudanças em curso no seio da Igreja (SERBIN, 2002, p. 9-10).

  13 A realização do Concílio Vaticano II (1962-1965) acabou sendo uma espécie

  de “resposta” da instituição eclesiástica para o mundo em ebuliente mutação e serviu de mote para a própria reestruturação de suas bases doutrinárias. Foi a partir do Concílio que a Igreja oficializou certas práticas e medidas já em vigência por parte da Ação Católica, como a adoção do método do “ver, julgar e agir”, criado pelo belga monsenhor Cardjin no interior da Juventude Operária Católica (JOC), que aproximava os instruídos sacerdotes da realidade vivida pelos “pobres e oprimidos” (SALEM, 1981, p. 22-23), em sua ampla maioria despossuídos de uma formação educacional básica.

  Observa-se, assim, que as mudanças preconizadas neste Concílio não partiram de uma tomada de posição exclusivamente da hierarquia eclesiástica, de cima para baixo, mas sim de uma imbricação com a vanguarda leiga católica atuante em alguns países, principalmente no Brasil, cujas práticas inovadoras de aproximação junto à realidade dos fiéis suscitavam um remodelamento das antigas. Em outras palavras, a observação das transformações à luz da realidade histórica que se apresentava refletia-se nas ações empreendidas pelos grupos católicos de vanguarda, ora influenciando as decisões da Igreja, ora sendo influenciada por ela. Tal perspectiva se alinha ao pensamento de Michel Lowy (2000, p. 241)

  , para quem “a combinação ou convergência de mudanças internas e externas à igreja (...) se desenvolveu da periferia em direção ao centro”. Na tentativa de acompanhar e de responder às transformações do mundo moderno, o autor afirma que a Igreja Católica sofreu influências e refletiu as convulsões sociais em desenvolvimento.

  Se antes do Golpe de 1964, a Igreja no Brasil marchava ao lado da classe média urbana, dos políticos e das elites empresariais a favor da destituição de um presidente eleito pelas vias legais vigentes e em defesa da tomada do poder pelos militares, realçando assim as engrenagens do regime liberal nos países capitalistas (CODATO e OLIVEIRA, 2004, p. 273), a partir do Concílio II e, mais à frente, com a realização da Conferência de Medellín (1968), o pensamento social da Igreja e do laicato modifica-se irremediavelmente, passando à defesa dos direitos humanos, reivindicação das 13 liberdades democráticas, luta pelos direitos dos trabalhadores rurais e citadinos,

  O Concílio Vaticano II (1962- 1965) “representou para a Igreja do Brasil a oportunidade de reafirmar e

renovar a sua presença na sociedade, empreendendo um percurso de aggiornamento em diversos planos,

na teologia, nas estruturas eclesiais e nas práticas pastorais, para responder e se posicionar diante os desafios da modernidade ” (BONATO, 2009, p. 15). A palavra italiana aggiornamento pode ser traduzida, enfrentamento contra a repressão do regime militar, além da dedicação à formação cultural e política dos militantes engajados nas “causas sociais” defendidas pela instituição eclesiástica. Segundo alguns estudiosos, tal formação tinha que proporcionar uma visão crítica aos agentes das pastorais e às classes populares, cujo aprendizado implicasse numa atuação cristã na sociedade e numa tomada de posição na esfera política, contemplando reflexão, orientação, adaptação e ação (DELGADO e PASSOS, 2007, p. 109).

  No plano das ideias, as encíclicas Mater et Magistra, de 1961 e Pacen in Terris, de 1963, publicadas durante o papado de João XXIII (1958-1963), exerceram enorme influência sobre a população católica brasileira, a partir das quais um grupo de bispos

  14

  organizados em torno da CNBB se manifestaria para tratar de temas de caráter social e de promoção dos direitos humanos, principalmente nas áreas rurais do país, suscitando a

  15

  criação de movimentos como o MEB - Movimento de Educação de Base , que teve atuações marcantes por todo o país, especialmente no Nordeste.

  16 A II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano - CELAM, realizada

  entre 26 de agosto e 06 de setembro de 1968, e a Conferência de Puebla (1979) marcaram também uma nova etapa do catolicismo na América Latina, uma vez que as doutrinas emanadas pelos

  “eventos político-religiosos” (BEOZZO, 2005, p. 147-156) serviam como contraponto aos inúmeros acontecimentos que colocavam em xeque a influência da Igreja na região, onde se registra com maior intensidade o avanço sistemático de novas crenças e um exponencial crescimento de desfiliação religiosa (MELO, 2010).

  No plano teológico, a emergência da Teologia da Libertação sistematizou, em termos teórico-doutrinários, as propostas oriundas no Vaticano II, em Medellín e em 14 Puebla, tendo nas figuras de Leonardo Boff e Roberto Gutierrez os principais

  

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil foi fundada em 1952 pelo, então, monsenhor Hélder

Câmara, com a aprovação da Secretaria de Estado do Vaticano. O objetivo era instituir uma coordenação

nacional para as dioceses que estavam em plena expansão (GONÇALVES, 2004, p. 50). 15 O Movimento de Educação de Base foi criado pela Igreja Católica em 1961, a partir de encontros de

bispos nordestinos. Utilizando-se do método de alfabetização do pedagogo de orientação marxista, Paulo

Freire, sua proposta estava fincada nas b ases de “educar para transformar”, isto é, politizar, conscientizar 16 e mobilizar socialmente as comunidades alcançadas (ibid).

  

A primeira reunião do episcopado no continente ocorreu em 1959, na cidade do Rio de Janeiro. Na

ocasião, a prioridade dos debates residia nas questões internas da Igreja. Já nesta segunda conferência,

realizada em Medellín, na Colômbia, as discussões giraram em torno dos problemas enfrentados especificamente pelos povos da América Latina (DELGADO e PASSOS, 2007, p. 113). defensores d e uma teologia que prega a “libertação política e religiosa” dos cristãos. Segundo Boff (2012, p. 34-35), o suje ito histórico dessa libertação deve ser o “povo oprimido”, a partir da tomada de consciência deste de sua “condição de oprimido”, consequência direta do “tipo de organização elitista, de acumulação privada, enfim, da própria estrutura econômico-social do s istema capitalista”.

  Leonardo Boff (ibidem) elabora algo que poderia se chamar aqui de a construção religiosa da dimensão do político, vez que o teólogo estabelece que a fé cristã deva ser a responsável pelo “despertar” da consciência do povo oprimido que, ao se dar conta das injustiças, “passa para a compreensão das estruturas reais que produzem as injustiças”. Concluindo assim que, a partir de tal compreensão, faz- se necessário “mudá-las [as estruturas] para que não produzam mais o pecado social”.

  No entanto, os esforços intelectuais dos “teólogos da libertação” não foram suficientes para que a Igreja colocasse em prática os compromissos assumidos. As dificuldades financeiras e materiais, as disputas teológicas internas, a falta de organicidade e unidade da hierarquia eclesiástica em diversos países católicos, bem como as ingerências dos contextos histórico-sociais marcados por situações de crise que enredaram os eventos religiosos do Concílio e das Conferências e suas reverberações, especialmente no Brasil, obstacularizaram a operacionalização das prerrogativas pós- conciliar e acabaram por perder ares de “prioridade” com o processo de reabertura política e a emergência de novas

  “pautas” religiosas e sociais. Diante desse cenário de crescente mobilização de sacerdotes e leigos em torno dos novos preceitos católicos e de um certo “esvaziamento prático” dos mesmos diante das dificuldades supracitadas, observa-se que a confluência de fatores de “crise” condicionou uma atuação militante bastante híbrida dos agentes eclesiásticos, ao mesmo tempo que possibilitou a diversificação das modalidades de intervenção dos “intelectuais católicos”, destacando-se o campo de produção escrita como espaço de luta simbólica pela imposição de representações sobre o mundo social, cuja reverberação pôde ser identificada em diferentes domínios, particularmente nas esferas da política e da cultura, complexificando ainda mais as relações entre Estado e Igreja no Brasil.

  

CAPÍTULO 2:

PADRES ESCRITORES EM PERSPECTIVA: propriedades sociais, recursos

  culturais e múltiplos registros de inscrição O objetivo deste capítulo é analisar o perfil social dos catorze casos elencados através do maior número possível das variáveis disponíveis sobre os agentes católicos que atuam como mediadores culturais, investindo na produção de bens simbólicos, e que acionam tais recursos em diferentes momentos de suas trajetórias, a fim de apreender seus trânsitos, vínculos, relações de reciprocidade, o peso de investimentos mais ou menos conscientes e os tipos de capital de que dispõem (social, cultural, político, etc.), enfim, suas amálgamas e distintas interações sociais, cujos registros de inscrição os colocam numa posição de poder relacionalmente privilegiada no espaço social mais amplo.

  Analisa-se ainda as lógicas que engendram a produção intelectual desses agentes, que se utilizam da ação de escrever como instrumento de entrada e de luta nos diferentes domínios em disputa. Com isso, busca-se pontuar os gêneros de escrita aos quais se dedicam e as temáticas que dão a tônica de seus textos, bem como investiga-se a correlação desta produção com a composição sócio-histórica de suas carreiras religiosas.

  A operacionalização da análise se corporifica através da descrição dos perfis sociais de sacerdotes que se dedicam à atividade da escrita em paralelo com suas atividades eclesiais cotidianas. Com isso, passa-se à explicitação de variáveis como origem familiar, nacionalidade, formação escolar, cargos e postos ocupados dentro e fora da Igreja, exercício de profissões não clericais e pertencimento a instâncias de consagração “intelectual” e a espaços de socialização relativamente privilegiados.

  Em suma, o presente capítulo trata de analisar os usos da produção escrita no que tange às posições, às disposições e às tomadas de posição que esses sacerdotes assumem em suas interconexões com outras esferas sociais, dentro de uma lógica que, de alguma forma, dialoga com o processo de reestruturação dos espaços de atuação católica e de redefinição da “excelência religiosa” (SEIDL, 2009a).

1.1 Descrição geral dos agentes investigados

  A composição dos quadros a seguir mostra algumas das variáveis tomadas como ponto de análise e de composição do perfil social de catorze agentes católicos que apresentam registros de atividade de escrita em suas carreiras religiosas no período recortado (1950-1980), consubstanciados na publicação de textos em formato de livros. Parte-se da análise da formação escolar, dos títulos, da atuação profissional, dos trânsitos e reconhecimentos adquiridos em espaços sociais mais heterônomos, como esferas de atuação de “letrados” (faculdades, universidades, academias de letras, jornais, institutos de pesquisa), de participação política e de ação militante, além de dados gerais sobre as obras (ano de publicação, gêneros de escrita, temáticas, etc.) para se estabelecer as relações sincrônica e diacrônica entre formação escolar e modalidades de escrita e entre posição social e produção intelectual no tocante às trajetórias dos padres investigados, percebendo as representações que elaboram sobre o mundo social, sobre si mesmos e sobre as “questões” que se dispõem a abordar em seus escritos.

  A escolha dos catorze casos elencados justifica-se pela sua significativa e reconhecida atuação como mediadores culturais em distintas esferas e pela consistência das propriedades sociais levantadas sobre os sacerdotes que, em determinados momentos de suas carreiras, se dedicaram à escrita como marco distintivo em relação aos demais agentes, como forma de luta política dentro dos espaços onde estavam inseridos, como “fuga da rotina” de suas atividades confessionais cotidianas (GRILL; REIS, 2012), além da demarcação e manutenção de suas posições no espaço de poder mais amplo. Desta forma, os casos arrolados na pesquisa são representativos das principais características que ajudam na elaboração analítica sobre as regularidades e as discrepâncias, aproximações e distanciamentos, que se formulam na apreensão das propriedades e dos recursos sociais de cada agente em questão.

  Pontua-se ainda que não foi possível, durante a pesquisa dos dados biográficos, o levantamento de variáveis como escolaridade e profissão dos pais de todos os agentes, por dois motivos principais: a) o primeiro pela escassez de dados referentes aos agentes investigados, cuja apreensão se deu, de forma limitada, pelas informações contidas em alguns de seus escritos (as raras vezes que os textos tratam da origem social do escritor referem- se a um aspecto geral de “origem humilde”, porém, não em todos os casos), em produções acadêmicas já publicadas ou ainda em curso, e em páginas na internet (blogues pessoais e sites que contém informações esparsas sobre os casos pesquisados);

  b) e o segundo pela difícil localização dos familiares dos padres (muitos destes já falecidos), impossibilitando assim uma análise comparativa satisfatória sobre a sua origem social. Desta forma, procedeu-se à análise desses condicionantes apenas nas trajetórias dos casos específicos, uma vez que a precariedade de informações sobre os catorze casos se tornou um impeditivo de uma análise mais geral dos dados sobre a família, parentes, amigos próximos de cada agente.

  Em contrapartida, compreende-se que as demais variáveis levantadas (idade de ordenação, nacionalidade, escolaridade, atividade profissional e instâncias de inserção) atendem perfeitamente à proposta de se analisar a delimitação dos tipos de engajamento incorporados pelos agentes, o seu âmbito de atuação, os tipos de investimentos feitos, os reconhecimentos obtidos e as posições ocupadas ao longo de seus trajetos, como forma de se explicitar os condicionantes que presidiram escolhas e caminhos trilhados e a relevância da atividade da escrita no desenvolvimento de suas carreiras religiosas.

  Quadro 1 Algumas propriedades sociais dos 14 agentes investigados Ano de Idade/Ano de Padre Nacionalidade/Origem Formação superior Nascimento Ordenação Eider 1916

  33 Brasileiro/Viana-MA Teologia, Filosofia Furtado (1949) Clodomir

  Teologia, Filosofia, Brandt e 1917

  26 Brasileiro/Colinas-MA Humanidades Silva (1943) Cônego

  Ribamar 1923

  21 Brasileiro/Codó-MA Teologia, Filosofia Carvalho (1944) João

  Medicina, Teologia, 1925

  35 Brasileiro/Bacabal-MA Mohana Filosofia (1960)

  Alípio de

  24 Teologia, Filosofia, 1929 Português Freitas (1953) História Hélio Maranhão 1930

  26 (1956) Brasileiro/Barra do Corda- MA

  Italiano Teologia, Filosofia, Antropologia Jean Marie-

  Italiano Teologia, Filosofia, História, Sociologia Fonte: Dados coletados de fontes diversas.

  Zannoni 1953 26 (1979)

  26 (1979) Brasileiro/Marabá-PA Teologia, Filosofia Cláudio

  Religiosas Josimo Tavares 1953

  Especialização em Educação de Jovens e Adultos, Mestrado em Ciências Éticas e

  28 (1975) Belga Teologia, Filosofia,

  Van Damme 1947

  Ubbiali 1939 25 (1964)

  Teologia, Filosofia Vito Milesi 1931 24 (1955)

  Filosofia, Sociologia, Direito, Mestrado em Teologia Carlo

  26 (1964) Canadense Letras, Teologia,

  Italiano Teologia, Filosofia Victor Asselin 1938

  Bergamashi 1937 29 (1966)

  Francês Teologia, Filosofia, Direito Cláudio

  Gilles 1935 27 (1962)

  Italiano Teologia, Filosofia, Sociologia Xavier

  Com foco nos dados expostos no quadro acima, cujos agentes estão ordenados conforme o ano de nascimento, de modo crescente, tem-se a exposição das principais características dos perfis sociais que ajudam a construir, comparativamente, um perfil mais geral de padres que escrevem. Através de tais dados, intenta-se estabelecer uma correlação entre o volume de recursos acumulados e a lógica operada na definição objetiva dos múltiplos registros de inscrição e dos tipos de modalidades de intervenção no mundo social.

  O primeiro aspecto a ser salientado trata da idade e do ano de ordenação sacerdotal dos agentes. São jovens que iniciaram sua vida clerical com idade variando de 21 a 35 anos. Quanto a essa característica, 12/14 dos casos pesquisados foram ordenados padres com menos de 30 anos, com média de idade de 25 anos. O mais jovem desses casos, com idade de entrada na esfera eclesiástica com apenas 21 anos, diz respeito ao cônego Ribamar Carvalho, cuja atuação se concentrou em atividades tidas como de “intelectuais”, principalmente as de escritor e professor universitário. Já o mais velho dos sacerdotes ordenados foi João Mohana, que se tornou padre aos 35 anos.

  É interessante observar que a “entrada oficial” de Mohana no mundo da Igreja de modo “tardio” em relação aos demais agentes investigados suscita o acúmulo de outras experiências vividas por ele, inclusive de formação profissional e de pertencimento a círculos sociais fora do âmbito religioso, como foi o seu caso, que se formou e atuou como médico e foi premiado a nível nacional por sua produção literária antes de se tornar padre, cujos conhecimentos e reconhecimentos foram acionados no transcorrer de sua carreira religiosa, levando-o à ocupação de posições relativamente bem alocadas no espaço religioso maranhense dentro de um campo de poder mais amplo, o que justifica um exame específico e detalhado de sua trajetória, como veremos mais adiante, no terceiro capítulo.

  Em relação ao ano de ordenação dos 14 casos analisados, tem-se variação entre as décadas de 1940 a 1970, com concentração nos anos de 1960 (5/14). Vivia-se neste período as ingerências do regime militar brasileiro e os auspícios das prerrogativas emanadas do Concílio Vaticano II (SERBIN, 2002), condicionantes que, dentre outras coisas, influíram sobremaneira no engajamento militante de padres num contexto periférico como o Maranhão (MELO, 2010; NERIS, 2011; PEREIRA, 2011), uma vez que os padres recém-saídos dos seminários formavam uma espécie de plantel eclesiástico à disposição dos líderes da Igreja Católica, que os direcionavam para os locais onde a “necessidade” por sacerdotes era mais acentuada (MELO, 2010, p. 54).

  Além disso, registra-se uma constante proporcional na ordenação de padres nas décadas de 1940, 1950 e 1970 (3 em cada período apontado). Destes, dois casos são sintomáticos: os padres ordenados com mais de 30 anos, Eider Furtado e João Mohana, com 33 e 35 anos, respectivamente, apresentam uma bipolarização em seus trajetos no que concerne à atividade militante do sacerdote engajado e à publicação de escritos.

  Padre Eider registra forte atuação militante na CEB de Viana, em meados da década de 60, através de “lutas” pela conquista de direitos e “justiça social”, exemplos do variado repertório ofertado pelo catolicismo vigente (MAINWARING, 2004;

  BEOZZO, 2005). No entanto, sua produção intelectual restringiu-se muito mais à escrita de artigos em jornais, registros estes não contemplados neste trabalho pelas dificuldades de localização e de acesso aos mesmos. Ainda assim, foi possível a catalogação de um de seus muitos textos, publicado como capítulo em um livro escrito conjuntamente com outros padres, no qual padre Eider elabora uma análise sobre O Evangelho segundo Viana.

  Já o sacerdote João Mohana, que apresenta intensa atividade no polo intelectual do catolicismo maranhense, exemplificada em sua vasta publicação de livros (mais de quarenta obras escritas), não possui o mesmo vigor in loco na luta pelas “causas sociais”. Apesar de ter presidido a Ação Católica no Maranhão, principal movimento de

  

aggiornamento da instituição eclesiástica em âmbito local, Mohana dedica grande parte

  de sua força vital ao trabalho de formação de líderes e à escrita de livros dos mais variados gêneros, sempre “em nome da Igreja”, atuando muito mais como um tipo de

  “intelectual católico” que idealiza e formata ações pastorais e produz representações sobre a importância da religião na vida dos fiéis.

  No que concerne à nacionalidade dos agentes, tem-se 6/14 nascidos no Brasil e 8/14 com nascimento em território estrangeiro. Dos brasileiros, contam-se 5 maranhenses e 1 paraense. A concentração dos nascidos no Maranhão dá-se caracteristicamente no interior do estado (Bacabal, Colinas, Barra do Corda, Viana e Codó). Quanto aos estrangeiros, contam-se 4/8 italianos e 4/8 de distintas nacionalidades (1 canadense, 1 francês, 1 português, 1 belga).

  A presença e atuação de padres estrangeiros no Maranhão no período estudado, tanto no engajamento militante e m “causas sociais” quanto na dedicação à produção de representações católicas sobre o mundo social, sinaliza para um processo mais amplo de importação de sacerdotes sob a regência do Vaticano para países periféricos, onde a escassez de padres é mais sintomática. Números divulgados em pesquisa realizada anteriormente, assim foram apresentados aos católicos maranhenses no final da década de 1960:

  dados sociológicos de 1955 revelam que a Igreja do Maranhão dispunha de 130 sacerdotes de ambos os cleros [regular e secular]: 67 eram brasileiros e 63 estrangeiros. Hoje, em 1968, há no Maranhão 212 sacerdotes seculares e religiosos, sendo 58 brasileiros e 154 estrangeiros (

  “JORNAL DO MARANHÃO”, apud MELO, 2010, p. 44).

  Os dados acima evidenciam que a participação de padres estrangeiros na vida cultural do estado, particularmente na produção de livros, não está dissociada de um movimento macro de imigração de sacerdotes de diversas nacionalidades para o Maranhão, o que lhes confere outro aspecto distintivo em relação aos demais padres de origem

  “local”. O fato de dos 14 casos investigados, 8 ocuparem posições de destaque no cenário de produção escrita no estado revela, entre outros fatores, o peso relativo que as relações “centro/periferia” conferem aos agentes “vindos de fora”.

  Há que se levar em consideração também o fato de muitos destes agentes pertencerem a círculos sociais relativamente privilegiados e terem estabelecido relações de poder (mais ou menos estáveis) que lhes permitiram a produção e a publicação de livros em âmbito regional, constituindo- se assim em “intérpretes” da história, da

  “cultura”, da “política” (SEIDL, 2007) e da “sociedade” maranhense. Certamente, um estudo mais aprofundado sobre a presença e atuação de padres estrangeiros no Maranhão se constitui num frutífero campo para pesquisas futuras.

  Em relação ao caso do padre nascido no Pará, trata-se de Josimo Moraes Tavares, um dos principais nomes na esfera de atuação militante da Igreja Católica no estado, coordenador da Comissão Pastoral da Terra e presença marcante em questões de conflitos de terras no interior do Maranhão, particularmente na cidade de Imperatriz, cuja intervenção nas esferas social e política estava indissociável de seu ofício de sacerdote, suscitand o um “engajamento total” (MATONTI; POUPEAU, 2006). Por conta de sua expressiva atividade de luta em defesa dos direitos dos trabalhadores rurais, foi morto por pistoleiros da região e transformado pela Igreja em símbolo de “resistência” contra os latifundiários e exemplo de “sacrifício pessoal” em nome dos trabalhadores do campo, cuja imagem está estampada na sala de visitas da sede da CPT em São Luís. Pouco tempo antes de sua morte, sob o calor das ameaças sofridas em detrimento de suas ações, redigiu seu “testamento espiritual”, onde assevera suas convicções política e religiosa:

  Tenho que assumir. Agora estou empenhado na luta pela causa dos pobres lavradores indefesos, povo oprimido nas garras dos latifúndios. Se eu me calar, quem os defenderá? Quem lutará a seu favor? [...] Eu pelo menos nada tenho a perder. Não tenho mulher, filhos e nem riqueza sequer... Só tenho pena de uma coisa: de minha mãe, que só tem a mim, e não mais ninguém por ela. Pobre. Viúva. Mas vocês ficam aí e cuidarão dela. Nem o medo me detém. É hora de assumir. Morro por uma justa causa. Agora quero que vocês entendam o seguinte: tudo isto que está acontecendo é uma consequência lógica resultante do meu trabalho, na luta e defesa dos pobres, em prol do Evangelho que me levou a assumir até as últimas consequências. A minha vida nada vale em vista da morte de tantos pais lavradores assassinados, violentados, despejados de suas terras. Deixando mulheres e filhos abandonados, sem carinho, sem pão e sem lar. (TAVARES, apud COMISSÃO PASTORAL DA TERRA, 1986, p. 17-18. Grifo nosso).

  O “testamento espiritual” de padre Josimo Tavares é um importante registro sobre o grau de “sacrifício” a que determinados padres da Igreja Católica no Maranhão se submetiam “em prol de um Evangelho” que os conduziram “a assumir até as últimas consequência s”, chegando ao ponto de não se temer as frequentes ameaças de morte feitas por latifundiários e grileiros de terras em função de uma “justa causa”. Observa-se que a lógica que perpassa toda a construção do discurso “heroico” e “glorificador” de padre Josimo está assentada no seu “trabalho” enquanto evangelizador, qual seja a “luta e defesa dos pobres”. O martírio de Josimo, pois, é a constatação nítida de que a incorporação dos pressupostos conciliares do Vaticano II despertaram nele e em outros agentes da Igreja, como o caso dos padres Xavier Gilles e Antonio Monteiro (MELO, 2010, p. 76), uma espécie de conscientização sobre uma inequívoca indistinção entre a ação de evangelizar e o de colocar o evangelho em ação.

  Retomando a descrição dos casos destacados, no que se refere ao nível de instrução superior, além dos estudos obrigatórios para o exercício do ofício de sacerdote (Filosofia e Teologia), 9/14 apresentam formação escolar diversificada. Deste montante, a predominância é do bacharelado em Sociologia (3), seguido pelos cursos de História (2) e Direito (2), além de Medicina (1), Letras (1), Antropologia (1) e “Humanidades” (1), curso assim mencionado nas fontes consultadas sobre a formação do padre Clodomir Brandt. Dos 9 casos de escolarização híbrida, 2 registram acúmulo de formação em Sociologia e Direito concomitantemente, o que explica a correspondência numérica entre a quantidade de agentes com múltipla formação superior (9) e o quantitativo de cursos preponderantes (5). Nos testes realizados para se verificar se havia ou não correspondência entre as variáveis apresentadas, é possível observar algumas regularidades entre nacionalidade e diversificação da instrução superior. Dos 9 casos que apresentam formação além de Teologia e Filosofia, 2 são brasileiros e 7 estrangeiros. Mais uma vez, os padres estrangeiros apresentam atributos que lhes conferem maiores distinções em relação aos sacerdotes de origem local o que, de certa forma, sinaliza para o entendimento das posições ocupadas e das tomadas de posição assumidas por estes agentes ao longo de seus trajetos específicos, conforme já dito anteriormente.

  Os padres de nacionalidade brasileira são os maranhenses João Mohana (bacharel em Medicina) e Clodomir Brandt (licenciado em

  “Humanidades”, curso apresentado pelas fontes consultadas como uma interdisciplinaridade entre História, Geografia e Letras). Tal distinção em relação aos demais brasileiros, que não apresentam uma formação superior além da tradicional, vem reforçar a especificidade dessas duas trajetórias como representativas do universo pesquisado, haja vista que a heterogeneidade de uma instrução superior habilita e legitima os agentes a uma diversificação das atividades exercidas, para além de seu ofício de sacerdote e, muitas vezes, exógenas ao próprio âmbito religioso.

  Isso não justifica, contudo, a ausência de algum estrangeiro na escolha dos casos específicos. Nesse aspecto, a inclusão de padres de diferentes nacionalidades implicaria a observação de outras dimensões de análise, por ora não contempladas no presente estudo, principalmente no que se refere à importação de “ideias vindas de fora” e à circulação internacional dos agentes, como no trabalho desenvolvido por Seidl (2007b).

  Ainda assim, no caso dos padres estrangeiros (7) que se encaixam nesta formação escolar híbrida, 3 são italianos, 1 canadense, 1 francês, 1 português e 1 belga. Deste montante, predomina a formação em Sociologia (3), seguida pelo Direito (2), História (2) e Letras (1). A predominância de tais cursos é reveladora das definições do processo de aquisição de disposições em torno das modalidades de engajamento dos padres estrangeiros com formação multifacetada. Não por acaso, os agentes que apresentam em seus registros biográficos participação em espaços de atuação mais próximos de um perfil militante, como veremos mais adiante, possuem predominância de formação na área das ciências sociais e do Direito. Pode-se depreender disso a tessitura de uma configuração na qual não é rara a utilização de determinados saberes por parte dos agentes, adquiridos de um modo geral em espaços de formação superior, na formulação de estratégias, práticas e intervenções sobre as dinâmicas do mundo social, sendo possível correlacionar o uso desses conhecimentos com o acionamento de certas modalidades de engajamento (REIS, 2008; SAPIRO, 2012), que em seu conjunto condicionam as ações dos sacerdotes nas diferentes esferas das quais participam e que são, também por isso, valorizadas como pré-requisitos para a definição e ocupação de posições relativamente bem alocadas no espaço de poder mais amplo.

  Nesse sentido, os dados sobre a formação escolar dos casos elencados oferecem pistas significativas sobre o tipo de perfil de agentes que se dedicam em algum momento à atividade de escrita, indissociavelmente conectados às posições que ocupam e às causas que defendem. São estes casos que, mais à frente, participam da organização de atividades concernentes ao âmbito de ação de instituições vinculadas à Igreja, onde a defesa de “causas sociais” se constitui em pauta legítima de reivindicação no repertório de mobilização tanto dos sacerdotes e leigos quanto da própria Igreja.

  Quadro 2 Dados sobre a atuação profissional e a participação em distintos espaços de

socialização e de intervenção dos 14 casos investigados

  Atuação profissional, funções Pertencimento a instâncias de Participação em outros e atividades consagração intelectual espaços de socialização Fundador e presidente da

Médico, poeta, teatrólogo, Juventude Universitária

  

Membro da AML (1970),

romancista, ensaísta, professor, Autêntica Cristã (JUAC);

Cadeira Nº 03

pesquisador

  Presidente Arquidiocesano da Ação Católica no Maranhão Candidato à prefeitura de Arari

Educador, teatrólogo, (1959); vereador por três

  

Editor dos jornais “Notícias” e

romancista, ensaísta, mandatos (PSD); fundador de

“A Cruzada Maranhense”

pesquisador, jornalista, político escolas, teatros, jornais, postos

de saúde Professor do Seminário de Santo Fundador e organizador da CEB

  Professor, poeta, ensaísta Antônio; Sócio-titular da de Tutoia (1965); fundador de

  Academia Barracordense de escolas, organizações sociais, Letras (1997); Membro da AML, movimentos rurais e entidades Cadeira Nº 21 (1998); Presidente religiosas; Assistente eclesial da da Academia de Ciências, Artes Juventude Universitária Católica e Letras de Tutoia (2002), (JUC); primeiro Presidente do Cadeira Nº 01 Instituto de Colonização e Terras do Maranhão

  • – Iterma (1982); Capitão da Capelania Militar do Maranhão desde 1993 Professor de Filosofia e Sociologia nos cursos de Direito, Pedagogia e Ciências Contábeis

  Professor, romancista da UFMA (1983-1994); __________ fundador e Presidente da Academia Imperatrizense de Letras (1991-1999)

  Coordenador Estadual das CEBs no Maranhão (1973-1975); Fundador da CPT Nacional (1975); fundador e primeiro

  Presidente da CPT-MA (1976- 1980); Diretor da Cáritas-MA (1980); Chefe de Gabinete na Professor no Seminário de Santo

  

Professor, advogado Prefeitura de Balsas (1995-

Antônio 2000); consultor da Secretaria de Segurança do Governo Jackson

  Lago (2006-2009); formação de lideranças da Juventude Operária Católica (JOC); advogado nas esferas do Direito Agrário e do

  Direito Penal Assistente eclesial da JOC; Reitor do Seminário de Santo Coordenador Estadual da CPT e Militar, professor, advogado Antônio (1989-1994), além de das CEBs do Maranhão (1980- professor da mesma instituição 1982); advogado na esfera do Direito do Trabalho

  Professor da Faculdade de Escreveu para “Jornal do Povo” Filosofia do Maranhão; e “Jornal do Maranhão”, além de Professor, jornalista

  Professor de História e Filosofia ter sido editor do jornal das da Universidade do Maranhão Ligas Camponesas, “A Liga”;

  (hoje UFMA) militante da Ação Operária Católica e da JOC; Membro do Secretariado Nacional das Ligas Camponesas

  Educador popular

Membro da Academia Vianense

de Letras, Cadeira Nº 02

Organizador e militante da CEB de Viana __________ __________

  Coordenador Estadual da CPT- MA (1982) Professor, pesquisador

Fundador da Escola de

  

Antropologia Aplicada à

distância em São Luís-MA

Fundador da CPT-MA (1976); Fundador e primeiro

  Coordenador do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) do Maranhão; Vice-Presidente Nacional do CIMI

  Professor, pesquisador, educador popular

Professor de Filosofia, História e

Sociologia do Seminário de

  

Santo Antônio

Assessor teológico e educacional da CPT-MA; organizador da CEB do bairro do

  Anjo da Guarda, em São Luís (1975); Educador popular da Associação da Saúde da Periferia (ASP); Membro do Conselho de

  Assistência Social do Maranhão Professor, pesquisador

Professor do Departamento de

História da UFMA

  Coordenador Regional do CIMI- MA (1985-1993) Professor, jornalista, poeta, romancista

  

Diretor da Faculdade de

Filosofia do Maranhão (1957);

Membro da AML (1959),

Cadeira Nº 19; Vice-Reitor

  

(1962-1966) e Reitor da

Universidade do Maranhão

(1963-1967 e 1968-1972)

Secretário de Educação do

  Governo Newton Bello; Assistente eclesial da JIC, JOC e JUC __________ __________

  Coordenador da CPT-GO (1979); militante nas questões de conflitos de terras no Maranhão Fonte: Dados coletados de fontes diversas.

  Sobre os registros profissionais desempenhados pelos agentes ao longo de seus itinerários, pontua-se uma profusão de profissões, funções e atividades que mantêm estreita relação com o universo de sua instrução superior, assim como a participação em outros espaços de socialização e de intervenção. Dessa forma, observa-se uma miscelânea de atividades exercidas por clérigos católicos que extrapolam o ambiente confessional, concernentes ao âmbito de atuação de médicos, advogados, jornalistas, professores, pesquisadores e “literatos”.

  Dos 14 casos investigados, 12 registram atuação como professores e/ou educadores de escolas, seminários, institutos de pesquisa, faculdades e universidades. Desta soma específica, 3/12 apresentam registros como educadores, sendo dois atuantes nas Comunidades Eclesiais de Base de suas respectivas regiões, identificados como “educadores populares”, e um com participação marcante em escolas das séries iniciais do ensino fundamental no interior do estado. O caso em questão trata-se da cidade de Arari, onde se registra a significativa atuação do padre Clodomir Brandt como fundador de escolas e de entidades religiosas, a exemplo da Escola Arariense e do Instituto Nossa Senhora das Graças, instituições estas que contribuíram para a formação escolar de muitas gerações de ararienses.

  Do montante dos casos que atuaram como professores de formação superior (9/12), observa-se uma certa equivalência entre os que lecionaram no âmbito de formação seminarística e os que atuaram em faculdades e na universidade. 4/9 se

  17

  dedicaram ao magistério no Seminário de Santo Antônio , principal local de formação de padres do Maranhão, com sede na capital São Luís, enquanto que 5/9 exerceram a função de professores universitários e/ou de institutos de pesquisa. Nota-se que a incidência de agentes que transitam no espaço de ensino superior é bastante significativa, o que oferece pistas sobre os tipos de produção escrita aos quais se dedicaram, tais como artigos (de cunho religioso ou não) e pesquisas científicas publicadas em livros, o que se observará mais adiante.

  Dos que atuaram nessa esfera de produção de conhecimento, 3 alcançaram o ápice da hierarquia administrativa das instituições de ensino superior onde lecionaram, sendo um fundador da Escola de Antropologia Aplicada à Distância em São Luís, um reitor do Seminário de Santo Antônio, entre os anos de 1989 e 1994, e um diretor da 17 Faculdade de Filosofia do Maranhão, em 1957. Caso do cônego Ribamar Carvalho, o

  

O Seminário diocesano de Santo Antônio foi fundado em 1838, durante o bispado de D. Marcos

Antonio de Sousa (1827-1842). O Seminário tinha por função iniciar os futuros padres recrutados junto às

elites maranhenses nos estudos da fé e da doutrina cristã, ofertando-lhes uma formação educacional

religiosa, moral e literária (SILVA, 2012, p. 155). Com o tempo, tornou-se o único Seminário no Maranhão dedicado exclusivamente à formação do sacerdócio (PACHECO, 1969). mesmo que, alguns anos depois, assumiria a reitoria da Universidade Federal do Maranhão por dois mandatos consecutivos (1963-1967 e 1968-1972).

  O comando de instituições de ensino superior no Maranhão sob a batuta de agentes católicos evidencia a tentativa da Igreja de controlar e manter sua influência sobre a produção cultural e a formação educacional no país como um todo. Isso se coaduna com o predomínio exercido historicamente pela instituição eclesiástica no Brasil, particularmente nestas duas esferas, cultura e educação, quando os estudos iniciais e secundários eram promovidos e geridos pela Igreja e as interpretações sobre a história do país eram produzidas por padres (MICELI, 1979; PACHECO, 1969).

  No Maranhão, isso não foi diferente. Mesmo após a laicização promovida pelo advento da República, a Igreja continuou disputando o controle ideológico do ensino junto ao Estado. A partir da década de 1930, as disputas se arrefecem quando são criadas, em âmbito local, a Juventude Universitária Católica e a Ação Universitária Católica, que a nível nacional estavam direcionadas para o recrutamento das futuras elites representadas pelos universitários (RIDENTI, 2002). A nível regional, este processo acabou desembocando na fundação da Universidade Federal do Maranhão, onde se registrou a participação efetiva de membros da hierarquia eclesiástica que comandavam a Arquidiocese de

  São Luís e dos “literatos” que integravam a Academia Maranhense de Letras (FARIA; MONTENEGRO, 2005, p. 18-19).

  Concomitante a isso, a expansão da influência da Igreja sobre o ensino universitário se corporifica na inserção de sacerdotes nas demais instituições de “letrados” no Maranhão, ao passo que sinaliza para o desenvolvimento de um corpo de “intelectuais e lideranças católicos” constituídos para pautar e animar os debates em defesa dos pressupostos do catolicismo na esfera pública brasileira (MAINWARING, 2004; DELGADO; PASSOS, 2003). Tais ações evocam um esforço da Igreja em ocupar posições estratégicas em áreas tidas como fundamentais para a manutenção de seu poder simbólico junto à sociedade, como a produção cultural e o sistema de ensino (primário, secundário e superior), num processo chamado por Sérgio Miceli (1979, p. 51) de “enquadramento institucional dos intelectuais”.

  Outra atividade desempenhada pelos agentes em foco é a de “pesquisador”, função descrita pelas fontes consultadas, onde a maioria dos casos era dedicada ao

  âmbito de produção de conhecimento científico/acadêmico, sob o custeio financeiro das próprias instituições às quais pertenciam. 5/14 casos investigados desenvolveram, em algum momento de seus itinerários, o trabalho de “pesquisador” como segundo ofício.

  Depois da função de professor, na maior parte dos casos correlata à de produtor de conhecimento, esta é a atividade mais recorrente entre os clérigos analisados.

  Destaca-se ainda a atuação de poetas (3), ensaístas (3), romancistas (3) e teatrólogos (2), o que implica numa observação de forte atuação de padres no cenário cultural do estado, como produtores e/ou “intérpretes” da história e da cultura (SEIDL, 2007b). Pertencer às instâncias de reconhecimento acadêmico era uma forma de dar legitimidade e musculatura social às representações produzidas pelos agentes da Igreja sobre a política, a cultura, a história e a sociedade maranhense.

  Cabe destacar ainda que outras profissões que apresentam alguma recorrência entre os casos arrolados são a de jornalista (3/14) e a de advogado (2/14). Há uma ampla gama de textos produzidos por aqueles que atuam no âmbito do jornalismo maranhense, publicados em diversos jornais de significativa circulação no estado, aspecto não contemplado no presente estudo devido às dificuldades de sua localização, porém passível de ser salientado para a mobilização de investimentos em pesquisas futuras. Já no caso dos dois padres advogados, suas atuações profissionais estão diretamente ligadas às instâncias onde registram presença frequente, particularmente na Comissão Pastoral da Terra, entidade vinculada à Igreja Católica no Maranhão, atuando no âmbito do Direito do Trabalho, do Direito Agrário e do Direito Penal.

  Pontualmente, aparecem registros de padres que atuaram como médico (1), militar (1), militante de CEBs e causas sociais (2) e, eventualmente, participando da esfera político-partidária, o que evidencia a hibridização de suas atividades sacerdotais, imiscuídas com funções e formações “mundanas” que compõem a heterogeneidade de seu ofício religioso.

  No caso do ofício de médico, este foi exercido anteriormente ao ingresso no sacerdócio por João Mohana, que clinicou e participou de diversos movimentos e campanhas de saúde em São Luís. O caso do registro de militar trata-se de Xavier Gilles, que combateu pelo exército francês na Guerra de Independência da Argélia (1956). A atuação de “padre político” fora identificada no itinerário de Clodomir Brandt e Silva, que liderou um grupo de oposição aos defensores de Vitorino Freire no município de Arari. Chegou a apoiar uma candidatura que venceu as eleições na cidade e a se candidatar, por duas vezes, para a disputa pelo cargo de Prefeito de Arari, tendo sido derrotado em ambas.

  No tocante aos clérigos que tiveram suas funções identificadas apenas no âmbito confessional, destaca-se o registro de sua participação como “militantes” em associações de moradores e comunidades eclesiais de base, e que fizeram de seu ofício sacerdotal o sentido maior de suas vidas. Sua experiência profissional, no entanto, é registrada apenas no âmbito das instituições engajadas da Igreja, com destaque para a

18 CPT . Os dois casos foram coordenadores da instituição em Goiás (1979) e no

  Maranhão (1982). São eles, respectivamente, os padres Josimo Tavares e Cláudio Bergamashi. Observa-se ainda que nenhum dos dois possui registro de inscrição em instâncias de consagração intelectual, nem universitária e nem de “letrados”, o que não impede que sejam percebidos e se percebam como tal.

  De um modo geral, tais registros indicam que a propensão dos agentes em se dedicar ao exercício de escrever está indissociavelmente ligada às atividades que exerceram ao longo de suas carreiras, haja vista que todas elas engendram a escrita como ferramenta indispensável e presente em suas rotinas de trabalho. Em outras palavras, o fato de padres escreverem livros provém da aquisição dessa competência legatária de suas experiências cotidianas com a escrita.

  Outra característica interessante a ser ressaltada é a de pertencimento ou de inscrição dos agentes investigados em outras instâncias de consagração intelectual, além do âmbito universitário, especialmente como integrantes da Academia Maranhense de Letras (AML). Dos casos analisados, 5/14 se enquadram nesse tipo de reconhecimento intelectual, constando como membros efetivos e/ou “pais fundadores” de academias de letras espalhadas pelo Maranhão. Destes 5 casos, 3 são membros da AML, com sede em São Luís, e os outros 2, pertencentes a instâncias de letrados no interior do estado, sendo 1 da Academia Vianense, onde ocupa a Cadeira Nº 02, e 1 da Academia Imperatrizense, onde consta como fundador e primeiro presidente.

18 A Comissão Pastoral da Terra (CPT) foi institu

  ída no Maranhão em 1975 como parte de “um intenso

programa de ação social junto às populações rurais”, iniciado por D. José de Medeiros Delgado, então

Arcebispo de São Luís. Dentre os principais objetivos da CPT no Maranhão, destaca-se a tentativa da

Igreja de fazer frente ao crescimento dos conflitos no campo, promovendo assim a organização dos

trabalhadores rurais na condução de suas lutas pela conquista de direitos sociais (ALMEIDA, 1981; COSTA, 1994). Observa-se ainda um caso específico de um sacerdote que acumula esse tipo de reconhecimento em duas instâncias de consagração. É o caso do padre Hélio Maranhão, membro da AML, onde ocupa a Cadeira Nº 21, e também membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Tutóia, tendo sido seu primeiro presidente e ocupante da Cadeira Nº 01. Hélio Maranhão é autor de 15 livros, dos quais obteve diversos prêmios. Foi perseguido, preso e interrogado inúmeras vezes durante o período do regime militar no estado. Atualmente, exerce a função honorífica de Capitão da Capitania Militar do Maranhão, honraria concedida em 1993, durante o Governo de Edison Lobão.

  Até aqui, verificou-se a existência de uma grande pluralidade de profissões, funções e atividades desempenhadas por padres que vão além da mera celebração eucarística e da realização de confissões. Tais esforços se concentram basicamente nas esferas da política e da cultura, com forte incidência nas áreas da educação e das “lutas populares”, com abertura para atuações na esfera burocrático-administrativa de órgãos públicos e de instituições privadas, de perfil caritativo, assistencialista ou mesmo de difusor e promotor de direitos humanos e de justiça social.

  Contudo, cabe ainda pontuar os trânsitos realizados pelos agentes em outros espaços de socialização, cujas relações propiciaram a aquisição de disposições e de saberes práticos reconvertidos para uma esfera de atuação militante e de disputas políticas pela conquista e/ou manutenção de posições dentro de um espaço de poder mais amplo. Alguns desses espaços são marcados pela presença de organizações e instituições vinculadas à Igreja, como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), a regional da Cáritas no Maranhão, a Associação de Saúde da Periferia (ASP), dentre outros, além dos movimentos promovidos, gestados e geridos por membros da hierarquia eclesiástica, como a Ação Católica no estado, e os movimentos da juventude, com suas ramificações em diversos domínios, especialmente no mundo agrário (JAC), no âmbito do operariado (JOC) e na esfera universitária

  19 (JUC) .

19 O surgimento da JAC, JEC, JIC, JOC e JUC é um esforço da Ação Católica Brasileira em promover a

  

renovação das práticas pastorais na Igreja, com foco especial nos movimentos de juventude, numa

tentativa de cooptar futuros quadros e líderes católicos junto a setores específicos da sociedade. Conforme

assina la Salem (1981, p. 22), “o primeiro grupo ‘especializado’ que se constitui é a Juventude Operária

Católica (JOC). Em 1950, funda-se a JAC (Juventude Agrária), a JEC (Juventude Estudantil, composta

por estudantes secundaristas), JUC (Juventude Universitária) e JIC (Juventude Independente), agrupando

  Sobre esse aspecto, observa-se a presença de padres (6/14) atuando como assessores e formadores de lideranças da juventude católica em suas distintas ramificações, particularmente na JIC (1), na JOC (3) e na JUC (3), sendo um deles com acúmulo de experiências nas três esferas, o cônego Ribamar Carvalho. No que se refere especificamente ao âmbito de atuação da JUC, os 3 casos identificados exercem funções de assistentes e de formadores de lideranças. São eles Hélio Maranhão, João Mohana e Ribamar Carvalho. Estes 3 casos são representativos do tipo de intervenção política realizada pelos

  “intelectuais católicos” no Maranhão, muito mais próximos do centro de poder e da alta hierarquia da Igreja.

  Como é sabido, os membros da JUC estavam diretamente ligados a inúmeras ações políticas no estado no período abordado, principalmente no que tange ao engajamento político em sindicatos e associações, à organização de movimentos, passeatas, protestos, apoio a greves, reivindicação por políticas públicas, dentre outros, tais como o Movimento Contra a Carestia, que nasceu na seara das atividades desenvolvidas pelas CEBs (BORGES, 1998, p. 80-81). O perfil dos 3 agentes que trabalhavam com formação de líderes católicos no âmbito da juventude universitária corresponde aos tipos de investimentos (mais ou menos conscientes) realizados em sua formação escolar e ao prestígio social obtido por seu reconhecimento “intelectual”. Ao estabelecerem-se como mediadores das relações políticas entre o público acadêmico e os órgãos de Estado acabam por garantir a manutenção de suas posições de poder perante seus representados.

  Tal perspectiva apresenta-se como passível de ser direcionada também para o âmbito da juventude operária. 4/14 dos casos atuaram como assistentes e formadores de lideranças na JOC. Além do maranhense Ribamar Carvalho, compõem o quarteto o canadense Victor Asselin, o francês Xavier Gilles e o português Alípio de Freitas. Os dois primeiros tiveram atuação mais incisiva no aspecto pedagógico e educacional dos membros da JOC, enquanto os demais apresentam registros de funções desempenhadas como assistentes, caracterizando suas posições num plano mais periférico em relação à estrutura hierárquica da Igreja. Destes dois últimos, Alípio de Freitas chegou ainda a ser integrante do Secretariado Nacional das Ligas Camponesas, órgão de atuação eclesiástica tido como pertencente ao polo mais “radical” da Igreja brasileira durante o regime militar. Além destes casos específicos, 5/14 apresentam registros de atuação na organização e execução das atividades das CEBs, tanto na capital (03) quanto no interior (02), ocupando posições de “lideranças” e de “porta-vozes” no seio das comunidades onde atuam. No que se refere ao trânsito em instituições de perfil engajado

  

(ver coluna 3 do quadro 2), observa-se o registro de 7/14 dos casos investigados que

  atuaram como fundadores e/ou coordenadores estaduais da CPT (06) e do CIMI (01) no estado, exercendo ainda outras funções no interior das mesmas instâncias como advogados, jornalistas, assessores teológicos e educacionais. Pontua-se ainda a passagem de sacerdotes pelo âmbito administrativo de outras instituições correlatas qua nto ao perfil de “porta-vozes de causas legítimas”, como diretor da Cáritas (01), assistente da Associação da Saúde da Periferia

  • – ASP (01) e presidente do Instituto de Colonização de Terras no Maranhão – Iterma (01).

  No tocante à participação na esfera das instituições políticas e de postos administrativos de governo, 5/14 registram ocupação de cargos e funções em órgãos distintos, sendo 1 Secretário de Governo de Newton Bello, 1 Chefe de Gabinete na Prefeitura de Balsas-MA (1995-2000) e também consultor da Secretaria de Segurança do Governo Jackson Lago (2007-2009), 1 presidente do Iterma (1982), e 1 membro do Conselho de Assistência Social do Maranhão e assistente da ASP. Tais registros evidenciam a tendência da heteronomia da carreira de religiosos católicos no estado, o que aponta também para a fluidez, cada vez maior, das invisíveis fronteiras e da forte imbricação entre os distintos domínios da religião, da cultura e da política.

  Convém ressaltar que as relações de sociabilidade tecidas nestes espaços ofertaram as condições propícias para a produção e publicação de livros por sacerdotes, uma vez que, como veremos mais à frente, o teor dos escritos produzidos por estes agentes correspondem, em certa medida, ao acúmulo das experiências vividas e das posições exercidas ao longo de seus itinerários, com poucas brechas para a inventividade do escritor.

1.2. Gêneros de escrita e recursos culturais

  Não se pode negar que o ato de escrever implica numa distinção do autor em relação aos demais indivíduos, pois ainda ocupa uma “posição de excelência” dentro das sociedades de letrados. Seja como for, quem escreve não apenas registra seu nome e suas ações na história, mas também demarca sua posição de poder perante os demais agentes. De um modo geral, aqueles que atuam como mediadores culturais consubstanciam suas posições, disposições e posicionamentos na publicação de textos, especialmente de livros, legitimando assim a manutenção do próprio papel social que assumem em diferentes momentos e domínios.

  Com foco nesta perspectiva, passa-se à identificação dos gêneros de escrita aos quais os agentes dedicaram-se com maior incidência, numa tentativa de correlacioná-los às posições que ocuparam ao longo de seus trajetos de vida. O objetivo é demonstrar que o grau de concentração dos escritos e das temáticas abordadas está irremediavelmente conectado aos recursos acumulados (saberes, habilidades, conhecimento) e às experiências vividas (cargos, atividades, funções, profissões).

  Concatenada com o perfil social dos agentes, com a formação adquirida e as posições assumidas, a atividade da escrita enseja a aquisição de certas competências e habilidades que se expressam variavelmente conforme os gêneros se apresentam com maior incidência. Nesse sentido, dos dados levantados sobre a produção intelectual dos 14 casos investigados, verificaram-se algumas frequências de determinadas temáticas e tipos de escrita, tais como trabalhos de ordem técnica, que ensejam saberes específicos, particularmente na esfera acadêmico/científica; de cunho religioso, voltado para a doutrina e a disseminação do evangelho; escritos de militância, destinados à mobilização social e intervenção nos diferentes domínios; textos ideológicos, de caráter mais contemplativo e filosófico

  , que expressam “projetos” de sociedade, visões de mundo, concepções, noções e ideologias; produções literárias (romances, peças de teatro, contos, crônicas e poesias); memórias e autobiografias; e até mesmo textos manualísticos, de caráter psicológico, com vistas à orientação da sexualidade e do comportamento de jovens e adultos. Em face a tais descrições, talhadas com fulcro numa primeira leitura sobre os dados e registros das publicações mapeadas, procedeu-se à confecção do Quadro 3 baseado nos tipos de escritos que aparecem com maior recorrência, agrupados e classificados da seguinte forma: religiosidade (textos teológicos e doutrinários, que versem sobre orações, salmos, exaltação à fé cristã, espiritualidade); generalista (artigos jornalísticos, escritos de militância,

  “visões” de mundos obre a história, a cultura, a política, a sociedade, comportamento, família, casamento, sexualidade, etc.); literários (romances, peças de teatro, contos, crônicas e poesias); além dos textos memorialísticos, incluindo-se as autobiografias. Os demais livros não inclusos nesta taxonomia, devido às poucas recorrências evidenciadas, foram listados como “não-classificados”.

  2

  7 7 - 3 - -

  4

  1 - 3 - -

  7 -

1 - - -

  3

  1

  1 - 3 -

  1 -

1 - - -

  1 - - 1 - -

  1 -

1 - - -

  1 - - - 1 -

  1 1 - - - -

  9 -

1 - - -

  1

  2

  

Quadro 3

Distribuição de livros por gêneros de escrita referente aos 14 casos investigados

Religiosidade Generalista Literatura Memórias Não- classificado TOTAL

  8

5 -

  13

  14

  8

  1

  1

  37 -

  13

  3

  26

  6

  3

  5 1 -

  15

  1

  10 Fonte: Dados coletados de fontes diversas. Depreende-se do Quadro 3, organizado na ordem dos padres apresentados no

  

Quadro 1 e de acordo com a quantidade de textos publicados em livros, uma tendência

  maior dos padres a escreverem dentro do gênero “generalista”, o que implica inferir que tais publicações estão muito mais vinculadas às experiências sociais, à formação escolar e cultural e às

  “visões” de mundo adquiridas por cada agente, relativas aos seus respectivos itinerários, que lhes conferiu a aquisição de competências e habilidades específicas reconvertidas para esse tipo de publicação que, em suma, reflete a modalidade de escrita com que mais se identificam e para a qual possuem maior disposição propiciada pelos condicionantes que a presidem, haja vista que outros gêneros como a literatura, por exemplo, suscitam um conhecimento e domínio de regras mais complexas, muitas vezes dissonantes de suas atividades cotidianas.

  Contudo, é curioso observar que escritos inseridos no gênero “religiosidade” não figuram na primeira colocação, o que significa uma dedicação maior à confecção de publicações que alcancem uma clientela mais abrangente e diversificada

  • – como o são os textos generalistas, de ordem mais panorâmica sobre o mundo social
  • –, e não apenas os próprios fiéis religiosos, demonstrando assim uma forte tendência de escritos que abordem assuntos para além do âmbito confessional católico.

  Para se precisar melhor a frequência de tais dados, pode-se mesclar os vários gêneros de escrita que apresentaram alguma regularidade. Tem-se, assim, um quarto quadro oriundo do quadro acima:

  

Quadro 4

Frequência das modalidades de escrita

Gêneros Quantidade %

  Religiosidade 28 23,7 Generalista 38 32,2 Literatura 24 20,3 Memórias 6 5,08 Não-classificados 22 18,6

  Total 118 100% Fonte: Dados coletados de fontes diversas.

  A ordenação por gêneros das obras catalogadas revela uma variedade de usos da escrita em seus diferentes formatos e as estratégias ativadas através dos recursos disponíveis de cada agente para legitimação de seus textos. Observa-se, assim, que dos 14 casos investigados há uma incidência de 38 títulos (32,2%) publicados dentro da classificação de textos generalistas, isto é, textos escritos sobre diversas áreas e assuntos. A categoria de publicações religiosas registra frequência de 28 casos (23,7%). 24 registros (20,3%) são de textos literários e apenas 6 casos (5,08%) tratam-se de memórias e autobiografias. Dos livros não inseridos em nenhuma dessas classificações, constam 22 títulos (18,6%).

  As frequências apresentadas fornecem alguns indicadores sobre a tendência de consolidação do gênero generalista, que não necessariamente enseja a ativação de saberes e conhecimentos técnicos especializados, mas antes a explicitação de habilidades de escrita, maior nível de leitura de um modo geral e de um certo grau de “politização” perante os assuntos temporais, o que implica uma tomada de conscientização e de posicionamento sobre questões de cunho histórico, filosófico, político, cultural, psicológico, comportamental, ideológico, etc.

  Por outro lado, percebe-se que mesmo diante da prevalência de escritos mais gerais, assuntos da esfera religiosa ocupam o segundo lugar com uma diferença não tão ampla assim (apenas 8,5%). Ocorre ainda que o gênero religiosidade também ocupa uma posição de proximidade com o gênero literário, havendo assim um certo paralelismo entre investimentos feitos pelos agentes clericais em escritos de vertente mais religiosa e literária, ambos correspondendo a 23,7% e 20,3%, respectivamente. Dos casos analisados, pontua-se ainda uma tendência na redução de textos memorialísticos, que registraram o percentual de 5,08%.

  Levando-se em consideração essa classificação por gêneros, procedeu-se à ordenação dos escritos conforme as décadas em que foram publicados. Contudo, dos 14 casos elencados, não foi possível a identificação precisa do ano de publicação de todos os seus textos. Por conta disso, no quadro a seguir, tem-se uma amostra de 50 dos 124 livros catalogados que puderam ser mapeados conforme o período em que foram publicados, evidenciando assim as décadas em que os agentes tiveram maior atuação.

  

Quadro 5

Distribuição dos livros por décadas

Décadas Quantidade

  1950

  1 1960

  6 1970

  9 1980

  15 1990

  13 2000

  6 Fonte: Dados coletados de fontes diversas.

  Conforme se pode observar, há uma maior concentração de textos publicados entre as décadas de 1980 e 1990, com 15 e 13 títulos escritos, respectivamente. Na década de 1960, os dados apontam para 6 livros publicados. Já na década seguinte, aparecem 9 títulos. Registra-se ainda que na primeira década dos anos 2000, aparecem 6 escritos publicados.

  Dos números expostos, depreende-se que houve um aumento significativo na publicação de livros entre as décadas de 1960 e 1980 e uma redução nas décadas seguintes. Isto ocorre justamente durante o período histórico de maior atuação e intervenção de padres da Igreja Católica na vida política, cultural e social do país, particularmente circunscritos pelas transformações estruturais em curso na esfera eclesiástica mundial, exemplificadas pelo Concílio Vaticano II (1962-1965) e pelas conferências de Medellín (1968) e Puebla (1979), eventos católicos que ocorreram no calor de um contexto convulsivo marcado por ebulientes dinâmicas culturais e sociopolíticas, que evidenciaram a intensificação das atividades de sacerdotes e leigos na defesa de valores e direitos concebidos como lutas populares legítimas.

  O ápice dos escritos aparece na década de 1980, com 15 títulos registrados, sinal de que o processo de reabertura política entra em cena, promovendo a ampliação do acesso a editoras e a novas publicações. Um dado curioso, contudo, e por isso mesmo, é que quando se poderia supor um acréscimo na quantidade de livros publicados entre as décadas de 1990 e 2000, precisamente por conta da abertura e do acesso a espaços de publicação, registra-se 13 publicações no último decênio do século XX e apenas 6 títulos na primeira década do século XXI.

  A explicação para a redução de tais registros em formato de livro repousa na constatação de óbito d e uma “geração” de padres que tiveram maior atuação entre as décadas de 60 e 80, cuja produção escrita aparece não apenas como registro de suas atividades, mas como trincheira de lutas políticas travadas com a exposição de posicionamentos e de representações sobre o mundo social à luz do repertório disponibilizado pelo tipo de catolicismo vigente à época. Além disso, pode-se inferir que a própria conjuntura política e cultural do período em foco suscitou a necessidade de fabricações de escritos que explicitassem o posicionamento da Igreja sobre os assuntos em voga, particularmente aqueles que atingiam suas bases de sustentação ideológica e de poderio simbólico (manifestações culturais de afrodescendentes, formas de pensamento desvinculado da religião, etc.).

  Compreende-se, portanto, que o perfil geral dos padres que se dedicam à atividade da escrita no Maranhão é bastante heterogêneo e multifacetado, correspondendo assim à própria hibridização de sua atividade sacerdotal cotidiana. Em geral, são padres que se diferenciaram dos demais agentes no espaço de concorrência pelo acúmulo de títulos escolares raros (principalmente de formação superior em outras áreas distintas das tradicionais

  • – teologia e filosofia), cujos saberes foram acionados em momentos oportunos na demarcação de posições estratégicas e na confecção de posicionamentos sobre o mundo social, evidenciado na publicação de seus escritos em livros.

  A conquista de títulos superiores valorizados no espaço em disputa também abriu portas para a tessitura de relações sociais privilegiadas que, ao serem mobilizadas, alçaram os padres a postos relativamente bem alocados, especialmente nas áreas do ensino superior e de produção de pesquisas acadêmico/científicas, além da inserção em outras instâncias de reconhecimento intelectual, como academias de letras e espaços em jornais.

  Portanto, sacerdotes que escrevem e que tiveram acesso a canais de divulgação de seus escritos estão enredados por teias sociais que remetem desde a círculos familiares ao pertencimento a novos espaços de socialização d e “letrados”, onde a habilidade da escrita é um trunfo bastante valorizado.

  Em suma, a resultante dos títulos escolares com o pertencimento a círculos sociais relativamente privilegiados confere ao perfil geral dos casos investigados o reconhecimento de “intelectuais católicos”. Valor social este que se consubstancia na produção de escritos, notadamente de livros, cujas temáticas abordadas estão indissociavelmente conectadas às experiências vividas, às formações adquiridas e aos postos, cargos e posições ocupados ao longo de seus itinerários, com escassas aberturas para a criatividade dos escritores.

  Conforme se verá nos casos específicos dos padres Clodomir Brandt e João Mohana, nos capítulos seguintes, os usos sociais da escrita por sacerdotes maranhenses são exemplos distintivos dos poderes simbólicos que incidem sobre a produção de livros de “intelectuais católicos”, acionada como trunfo não apenas para demarcar posições e adotar posicionamentos, mas efetivamente como trincheira de luta pela imposição de representações “legítimas” sobre o mundo social. Tanto Brandt quanto Mohana, cada um a seu modo e com as especificidades das dinâmicas de concorrência às quais estavam enredados, quer seja na capital ou no interior do Maranhão, representam a importância creditada ao papel de mediadores católicos nas esferas da cultura e da política, cujas atuações revelam as fluidas fronteiras entre esses diferentes domínios e as bases de legitimação de

  “intérpretes” e “porta-vozes” dos problemas sociais, sob a chancela da Igreja.

  

CAPÍTULO 3:

CLODOMIR BRANDT E AS DISPUTAS POLÍTICAS EM PAUTA: a trajetória de

  um padre político e escritor

  20 Neste terceiro capítulo, abordar-se-á a trajetória (BOURDIEU, 2010) política

  e cultural do padre Clodomir Brandt e Silva, um dos mais destacados sacerdotes da Igreja Católica no Maranhão, que se notabilizou por sua reconhecida e prestigiada atuação no município de Arari.

  "Padre Brandt”, como era celebremente conhecido (e até hoje o é, mesmo depois de sua morte, em 23 de abril de 1998, aos 81 anos), atuou e interviu de forma marcante em vários segmentos da vida social arariense. Foi fundador de escolas, teatro, cinema, jornais, editora, biblioteca, associações religiosas, além de ter sido um significativo personagem na história política da cidade, liderando grupos políticos, exercendo mandatos de parlamentar municipal e chegando mesmo a candidatar-se a prefeito.

  Além disso, registra em seu trajeto a autoria de vinte e seis livros, a maioria publicada de forma independente por sua própria editora (Editora Notícias de Arari), sendo um dos mais produtivos clérigos da Igreja no tocante à produção “intelectual”. Seus escritos, além de refletirem a síntese de seus pensamentos e concepções sobre o mundo social, externalizam seus ideais, “projetos” de sociedade, visão política, habilidades literárias, enfim, uma gama de competências e saberes que remetem a uma forte hibridização de sua atuação, para além do âmbito confessional, e apontam para o grau de heteronomização entre os diferentes domínios sociais, particularmente entre as esferas política, cultural e religiosa.

  Dentre as fontes utilizadas para a confecção deste capítulo, estão alguns livros escritos pelo próprio padre Brant, que fornecem inúmeros dados e informações sobre sua origem familiar e o percurso que trilhou até chegar ao exercício do sacerdócio e aos fatos daí decorrentes, principalmente no livro A família Brandt, onde produz uma narrativa memorialística 20 de “glorificação” de sua própria história e a de seus familiares.

  Segundo definição apresentada por Bourdieu (2004, p. 81), a noção de trajetória é cunhada como “uma

série de posições sucessivamente ocupadas por um mesmo agente (ou um mesmo grupo), em um espaço

ele próprio em devir e submetido a transformações incessantes. Tal noção é construída criticamente em

relação à ideia de “narrativa histórica”, que produz uma “ilusão biográfica” do agente pesquisado ao

abordá-lo como um ponto fixo e imutável que tem sua história de vida contada com início, meio e fim,

cuja única constância é a nominação, isto é, o nome que identifica a pessoa no decurso do tempo.

  Nesse sentido, problematiza-se aqui tais escritos à medida que a narrativa histórica e a reflexão sociológica vão avançando pari passu com ou tras “obras” escritas por pesquisadores que, de alguma forma, estiveram inseridos nas dinâmicas de concorrência que englobam nosso personagem, quer seja no campo da disputa político- partidária, na luta pelo controle de canais de comunicação em Arari, ou nas batalhas ideológicas entre protestantes e católicos. Os trabalhos utilizados como fontes são, particularmente, livros escritos por membros das famílias que disputavam a hegemonia sociopolítica no município e que, posteriormente, conquistaram posições em espaços de divulgação literária no Maranhão, conforme expressam as obras Um passeio pela

  

história de Arari, de João Francisco Batalha, e O universo do padre Brandt, uma

  biografia escrita por José Fernandes , ambas patrocinadas por instituições de “letrados” no estado, como a Academia Maranhense de Letras e o Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão.

  Portanto, diante desses dados descritivos apresentados de modo sucinto, cuja análise está calcada nas informações fornecidas e nas formulações elaboradas pelos “intérpretes” da vida do sacerdote, incluindo-se as próprias interpretações feitas por padre Brandt em relação à sua atuação político-religiosa-cultural em Arari, acredita-se que o estudo de seu itinerário ajuda a entender de que forma os diferentes condicionantes históricos, sociais, políticos, culturais, incidiram sobre seu ofício sacerdotal e transformaram, significativamente, as práticas e os discursos produzidos por este personagem, que passou a registrar, no recorte em questão, uma constante atuação na esfera pública e a intervir incisivamente nos rumos que os grupos e as elites dominantes definiam para a cidade, acionando o recurso da escrita como principal instrumento de luta simbólica pela imposição de concepções e interpretações sobre a política e a cultura no espaço em disputa.

  Como se verá nas páginas seguintes, o grau de envolvimento na vida política de Arari rendeu ao padre Brandt muitos admiradores de seus feitos, como também muitos inimigos poderosos dispostos a não perderem tal poderio, simbólico e material, seja no âmbito político-partidário ou na própria esfera de dominação religiosa, onde as estratégias da Igreja para manter a hegemonia do catolicismo na região, particularmente em face à crescente concorrência do protestantismo, surtiram efeitos mais sintomáticos e plurais.

2.1 Do Mearim a Arari: origens, formação cultural e chegada ao “novo lar”

  Clodomir Brandt e Silva nasceu em 22 de novembro de 1917, num pequeno povoado chamado Pucumã, pertencente ao então município de Conceição dos Picos, atual cidade de Colinas, situada na microrregião do Alto Itapecuru, a 385 quilômetros da capital São Luís. Filho de Sebastião Gonçalves Silva e Carolina Brandt, era o quinto de uma prole de nove irmãos (sete homens e duas mulheres).

  O sobrenome “Brandt” é de origem alemã, herdado do patriarca da família no Brasil, Fritz Brandt, seu avô. Fritz nasceu em Blankenese, próximo à cidade de Hamburgo, na Alemanha, em 1861. Após a conclusão de seus estudos superiores em Farmácia, recebeu um prêmio: uma viagem para estudar a fauna e a flora brasileiras. Foi assim que desembarcou no país, em busca das florestas amazônicas, aportando primeiramente em Recife e atravessando os estados de Pernambuco, Ceará e Piauí, até chegar ao Maranhão pelo povoado conhecido hoje como cidade de Nova Iorque.

  Já em solo maranhense, Fritz Brandt, de religião protestante (ele era luterano), residiu por algum tempo no vilarejo, onde prestou serviços de farmacêutico e de enfermeiro por não haver ali atendimento público dessa natureza nem gente instruída que realizasse tais atividades. Tentando dar cabo dos objetivos iniciais de sua viagem, os estudos sobre a Amazônia, deslocou-se para o povoado de Canto das Pedras, próximo ao município de Mirador, atual Presidente Dutra, cidade onde conheceu e se casou com Andreina de Almeida e Silva, filha de lavrador e de costureira. Dessa união, nasceram-lhe os cinco filhos (quatro mulheres e um homem): Carozina, a mais velha; Cláudio; Carolina; Claudine e Diana, a caçula da família; todos registrados apenas com o primeiro nome e o sobrenome germânico

  “famoso”. Dessa primeira geração “brandtiana” no Brasil, mais precisamente no Maranhão, cabe destacar duas pessoas: Carolina e Cláudio Brandt, mãe e tio, respectivamente, de

  Clodomir, nosso personagem. Sobre a mãe, Clodomir registra em seu livro, que remonta a árvore genealógica da Família Brandt, apenas algumas informações sobre nascimento, casamento e a morte, aos 94 anos. Pouco, se comparado às mais de quarenta páginas dedicadas à memória de seu tio, cuja espessura textual sinaliza, simbólica e materialmente, para a importância devotada por Clodomir aos feitos, realizações, cargos, funções, relações e prestígios conquistados por Cláudio Brandt. Com efeito, o tio de Clodomir Brandt foi o membro da família que mais influenciou sua vida e a de seus irmãos. Porém, antes de explicitarmos o trajeto do bem-sucedido tio, passemos ao delineamento do perfil social de seus pais.

2.1.1 Perfil social dos pais

  A mãe de Clodomir Brandt e Silva, Carolina Brandt, nasceu no dia 26 de junho de 1892, na cidade de Mirador. O pai, Sebastião Gonçalves Silva, nasceu no dia 21 de dezembro de 1887, na cidade de Pastos Bons. Porém, sua união com Carolina se deu na cidade de Picos, atual município de Colinas, onde se casaram e tiveram nove filhos.

  Carolina era de religião católica e exercia a atividade de costureira. Quando de seu casamento, ainda não havia completado 18 anos; Sebastião, seu marido, tinha 23 anos de idade completos. Homem humilde, negro e de poucas posses, filho de lavradores, Sebastião exercia a profissão de alfaiate, mas teve de enfrentar os preconceitos da época, tanto o social quanto o racial, por sua cor de pele e pela pobreza material, em decorrência de sua união com Carolina, mulher branca e “de família”. Segundo relato do próprio padre Brandt, o casamento desagradou os familiares de Carolina, especialmente seus irmãos, porque “consideravam o rapaz muito preto e pobre , um simples alfaiate” (SILVA, 1993, p. 57).

  Apesar dos relatos de extrema pobreza, a profissão de alfaiate chegou a render a Sebastião “uma vasta freguesia, dando-lhe possibilidade de manter um salão [ou oficina] onde vários profissionais da tesoura trabalhavam sob sua direção”. Somente a partir da doença (ostiomielite aguda), que o acometeu durante vinte longos anos e que o levou a óbito, é que seu estado de pobreza foi se instalando e se agravando, fazendo com q ue se “esgotasse todos os recursos até à extrema penúria” (ibid., 1993, p. 59).

  Com a perda da oficina e, consequentemente, da freguesia, Sebastião ainda juntou forças para se dedicar à atividade da agricultura e do roçado, de onde retirou precariamente seu sustento e de sua família a partir de então. Nessa empreitada, ele contou com a ajuda da esposa, que lucrava com o trabalho de costureira, e com o envio de dinheiro de seu cunhado, o próspero comerciante Cláudio Brandt, que residia em Caxias. A ajuda financeira de Cláudio aos seus irmãos e sobrinhos foi apenas uma das formas de intervenção e influência na vida de seus entes familiares.

  Ao todo, foram nove os filhos do casal Sebastião e Carolina: Adiles, Frederico, Oscar, Judite, Clodomir, José, Antonio, Maria de Lourdes e Cláudio Sobrinho. Sebastião Gonçalves Silva morreu no dia 5 de março de 1943, aos 55 anos, na Santa Casa de Misericórdia, em São Luís, obtendo o regozijo de ter visto o filho Clodomir ordenado padre dois meses antes do apagar das luzes de seus olhos. Sua esposa, Carolina Brandt, vivendo anos de viuvez em Arari e, posteriormente, na capital maranhense, faleceu no dia 2 de junho de 1987, no Conjunto Residencial Cohab Anil, próximo de completar 95 anos.

  Observa-se neste mosaico social dos genitores de Clodomir Brandt que a escassez de recursos levou-os a uma vida simples, com muitas dificuldades. Não bastasse isso, a falta de apoio de seus respectivos familiares contribuiu para que as opções a serem apresentadas aos filhos fossem as mais próximas de sua realidade humilde, onde as alternativas de sucesso eram bastante escassas, porém existentes e de difícil acesso. Neste ponto, entra em cena a figura do tio de Clodomir, Cláudio Brandt, de significativa ascensão social devido à bem sucedida atividade de comerciante, através da qual pôde exercer o papel principal de

  “chefe da família”, no tocante à ajuda material que devotava aos parentes e na mediação que permitia seus entes familiares transitarem entre diversas cidades, à procura de melhores oportunidades de trabalho e estudo.

  Com efeito, a escolha de Clodomir Brandt pela vida sacerdotal parece ter sido motivada e condicionada pelas precárias condições de existência de seus pais, constituindo-se para ele uma das escassas oportunidades de vencer as dificuldades materiais de sua família e adquirir uma formação e seguir a carreira religiosa, que ainda gozava de algum prestígio social, para a qual a influência e o apoio de seu tio Cláudio foram decisivos em sua formatação e concretização.

2.1.2 O “tio Cláudio” e a centralização das relações de parentesco

  Cláudio Brandt nasceu em 15 de julho de 1890, na cidade de Mirador. Era o segundo dos cinco filhos do casal Fritz Brandt e Andreina de Almeida e Silva, sendo apenas ele do sexo masculino. Aos 10 anos de idade, com a morte do pai, teve de assumir a responsabilidade pela família, por ser o único

  “homem da casa” onde morava com a mãe e as quatro irmãs.

  Aos 16 anos, empregou-se numa pequena casa de comércio na cidade de Colinas (antiga Picos). À época, chamavam- se as casas de comércio de “quitandas”. Não obtendo um ordenado considerado satisfatório junto ao seu empregador, decidiu sair do serviço e montar seu próprio negócio. O relativo sucesso e prosperidade alcançados como comerciante fizeram com que Cláudio expandisse suas relações sociais e políticas e ficasse

  “conhecido” na cidade, a tal ponto de ter sido eleito vereador de Colinas para o biênio 1922-1924, tendo obtido 440 votos (SILVA, 1993, p. 15-16). Antes disso, em outubro de 1917, já havia sido nomeado pelo Governador do Estado para o cargo de 1º Suplente de Delegado de Polícia do Município.

  Dispondo desse capital político e do sucesso obtido no desenvolvimento de sua atividade de comerciante, Cláudio mudou-se para a cidade de Caxias, onde potencializou ainda mais a crescente prosperidade econômica da qual usufruía. Tal enriquecimento material andava de par com sua atuação e participação na esfera política caxiense, o que lhe conferia maior penetração nos principais círculos sociais da cidade, especialmente entre as elites políticas e econômicas. Em Caxias, Cláudio foi um dos

  21

  líderes da Revolução de 1930 , além de ter chefiado um movimento para a manutenção do padre Astolfo Serra como Interventor Federal no Maranhão, exemplos de atuação que consubstanciam o protagonismo que vinha adquirindo no município, inclusive junto aos membros da Igreja Católica.

  Após algumas oscilações no comércio caxiense, Cláudio Brandt decide fixar-se 21 em São Luís, onde se torna proprietário de dois prédios, localizados na Rua Grande e na

  Consagrado na historiografia como o evento que marca o fim do período conhecido como “República

Velha” (1889-1930), a Revolução de 1930 significou, em termos gerais, a ascensão da classe industrial ao

poder político no país através do movimento tenentista. No entanto, tal definição é bastante criticada pelos novos estudos e abordagens sobre o tema. Para saber mais, ver Fausto (1997). Rua da Horta, no Centro, que passaram a ser sua principal fonte de renda. Em junho de 1939, foi nomeado conselheiro e vice-presidente do Departamento Administrativo do Estado pelo Interventor Federal Paulo Martins de Sousa Ramos, com quem manteve estreitas relações de amizade e de colaboração durante todo seu governo intervencionista. Em março de 1941, decide pedir exoneração do cargo para assumir o posto de Diretor-Presidente do Banco do Estado do Maranhão (antigo BEM, já extinto), onde permaneceu por 10 anos.

  Sua destacada atuação no BEM despertou ainda mais os olhos da Igreja para si. A convite de D. José de Medeiros Delgado, Arcebispo Metropolitano de São Luís, de quem era amigo e colaborador, após sua renúncia ao cargo bancário em decorrência do pedido de demissão de Paulo Ramos ao presidente Getúlio Vargas, em março de 1951, Cláudio Brandt aceitou ocupar a função de diretor da recém-criada Cooperativa Banco Rural do Maranhão, uma instituição financeira de crédito popular administrada pela Igreja Católica. Depois disso, assumiu a função de Tesoureiro da Santa Casa de Misericórdia de São Luís e de Delegado Regional do Instituto de Aposentadoria e Pensões da Estiva Transportes e Cargas (IAPETC). Cláudio foi ainda um dos responsáveis pela organização e fundação do Partido Trabalhista Brasileiro no Maranhão (PTB/MA), onde atuou em parceria com seu estimado amigo, o interventor Paulo Ramos. Cláudio Brandt faleceu no Rio de Janeiro, no dia 19 de junho de 1968, aos 78 anos de idade, vítima de um edema pulmonar.

  Gozando de enorme prestígio e sendo o membro da família que mais prosperou em termos econômicos, políticos e sociais, Cláudio materializou em torno de si as chances de ascensão social para quase todos os seus sobrinhos, dentre eles o padre Brandt. A importância de “tio Cláudio” para a família de origem alemã é relatada pelo próprio sacerdote quando aborda alguns feitos e movimentos de seus irmãos que tiveram decisiva participação de Cláudio, principalmente no que diz respeito ao trânsito

  22

  entre Colinas, Caxias e São Luís , à oferta de emprego e hospedagem e à influência no direcionamento das carreiras profissionais dos familiares.

  Foi Cláudio Brandt o responsável por encaminhar e prover seu sobrinho 22 Clodomir para a vida clerical. Segundo o pesquisador José Fernandes (2012), tio

  

Sobre este assunto, ver SILVA, Clodomir Brand e. A Família Brandt. Arari: Editora Notícias de Arari, 1993, p. 61-73. Cláudio, católico fervoroso, havia tomado para si a incumbência de prover a educação de Clodomir. Sendo para este como um pai, “dotando-o das provisões necessárias, tratou de encaminhá-lo para o enfrentamento da longa caminhada em busca da ordenação sacerdotal ” (FERNANDES, 2012, p. 31).

  Como se pode observar, o trajeto de Cláudio Brandt propiciou a ele, em termos materiais e simbólicos, a condição real de “chefe de família”, que começou na tenra idade e se estendeu ao longo de sua vida, através de auxílio financeiro e da oferta de moradia temporária aos demais parentes que desejassem consolidar os estudos iniciais e adquirir os primeiros ordenados. Cláudio corporifica aquilo o que Eric Wolf (2003, p.

  98 ) chamou de “regiões de parentesco”, agrupamentos que tendem a se formar em torno de círculos parentais [ou de um membro da família], onde os laços familiares constituem um conjunto de recursos para um indivíduo ou para toda a família.

  Além do mais, pesa sobre o papel assumido por Cláudio Brandt, adquirido pela prosperidade econômica, pelos destacados cargos políticos e funções administrativas que desempenhou e pelas redes de relações que teceu e expandiu, a tendência de manutenção de uma pretensa

  “reputação” familiar (WOLF, 2003, p. 100). Tal perspectiva está identificada nos juízos de valores e nas ações da família sobre o “destino” de alguns entes, seja no “desgosto” dos parentes pelo casamento da irmã Carolina com um homem “muito preto e pobre”, na “desordem emocional e psíquica” de um dos irmãos de Clodomir, o único que viveu uma

  “vida desajustada” e cheia de problemas, segundo relato do próprio padre Brandt (SILVA, 1993, p. 64-67) ou na tentativa de Cláudio de oferecer melhores condições de educação e de emprego para todos os seus sobrinhos, os futuros responsáveis pela perpetuação do nome da

  “família Brandt ” na história da cidade de Arari.

2.1.3 Entrando no mundo eclesiástico: formação seminarística e cultural

  Os estudos primários de Clodomir Brandt e Silva foram iniciados ainda em sua cidade-natal, Picos, hoje Colinas, vindo a serem concluídos em Caxias, sob a tutela de tio Cláudio, no Instituto Municipal Gonçalves Dias. Foi nesse colégio, um dos mais referenciados pelas elites locais, onde estudavam os filhos de comerciantes e dos proprietários de terras na cidade, que ele desenvolveu o hábito da leitura e a dedicação à escrita, cujos vértices começaram a adquirir contornos mais nítidos em suas ações e atividades, resultando na elaboração de um pequeno texto literário que, posteriormente, viria a ser publicado num folhetim fundado por ele mesmo, de nominado de “A TERRA”, dedicado aos assuntos escolares de então.

  O fato da criação de um pequeno jornal dentro de um ambiente escolar de ensino fundamental reflete a dinâmica e os estímulos à vida cultural no Instituto Gonçalves Dias

  , de onde provém o “gosto” pela leitura e pela escrita de nosso personagem. Além disso, o contato na escola com os filhos das classes mais abastadas da região, de onde sairia uma leva de alunos que enveredariam pelas profissões de padres, médicos e bacharéis em Direito legou a Clodomir um aspecto de distinção e um acúmulo de capital social (BOURDIEU, 1998) que seria acionado em diferentes momentos no transcurso de seu itinerário.

  Concluído o curso primário e influenciado pelas professoras de escola e do catecismo, ainda em Caxias, o jovem Clodomir manifestou ao tio Cláudio o desejo de se tornar padre, que logo tratou de atendê-lo, conforme dito anteriormente. Assim, contando com o apoio material do bem-sucedido tio, Clodomir Brandt entra para o Seminário de Santo Antônio, em São Luís, em fevereiro de 1932, aos 15 anos de idade, onde permaneceria por onze anos. Sobre sua estadia no Seminário, assim descreve o pesquisador José Fernandes (2012, p. 33):

  Aquele centro de ensino religioso imprimiu, com certeza, uma marca de acentuado dinamismo naqueles jovens reclusos, notadamente em Clodomir, sagaz e especulativo,

  • – adquirente de uma sólida base intelectual, destacando-se em várias matérias português, francês, retórica e redação (exercitada esta última ao fundar e redigir o jornal de uso interno “A CRUZADA”), sem se descurar dos livros pertinentes à cultura geral.

  De fato, o Seminário de Santo Antônio era o principal centro formador de padres no Maranhão, onde se instruía os alunos sobre os ensinamentos da doutrina e da moral religiosa, mas também sobre cultura geral, artes, ciências e literatura (PACHECO, 1969). Tal educação seminarística estava ancorada ainda nos valores tridentinos (SILVA, 2012, p. 154), cujas diretrizes foram estabelecidas em meados do século XIX, ressoando durante o bispado de D. Marcos de Sousa, no Maranhão, período em que foi instituído o Seminário de Santo Antônio, sob a justificativa do referido bispo de que os ensinamentos ali prestados auxiliariam os sacerdotes em sua vocação e disciplina, assim como seriam versados também nas artes e nas ciências

  que aperfeiçoã a razão humana, e regulã os sentimentos do coraçã, o que muito concorre para haverem ministros illustrados, dignos das sublimes funcçoens do Santuario, e cidadaons habilitados para administrar os negocios publicos (SILVA, 1922, p. 211-212. Apud SILVA, 2012, p. 155. Grifo nosso).

  Com efeito, a vida no seminário tinha por função não apenas garantir a ordenação sacerdotal e a reprodução dos quadros clericais da Igreja, mas também contribuir para a formação cultural daqueles que deveriam ser

  , além de “ministros ilustrados”, “cidadãos habilitados para administrar os negócios públicos”. Pode-se observar que esta tendência de intervenção sacerdotal na esfera pública, cunhada legal e institucionalmente ainda no século XIX, reverbera no século seguinte e torna-se mais evidente no caso em questão, quando, já com nove anos de seminário, Clodomir Brandt assim se manifesta sobre uma campanha de arrecadação de fundos, que ele mesmo dirigia, para a manutenção do estabelecimento vocacional situado em São Luís:

  Se não houver recursos para sustentar o Seminário, não haverá um clero atuante, sadio e santo para estender sua ação evangelizadora cada vez mais longe, indo às fábricas levar o conforto religioso ao tugúrio do pobre para consolá-lo e santificar-lhe a humildade, indo ao palácio do rico cheio de luzes e sons, indo em busca das crianças e dos jovens, e pelo sertão longínquo buscar almas e trazê-las para a redenção (FERNANDES, 2012, p. 33. Grifo nosso).

  A questão de “estender a ação evangelizadora cada vez mais longe”, de ir às fábricas e de levar consolo à vida do “pobre”, assim como ao “palácio do rico” e pelo “sertão longínquo”, ainda que esculpida pelo viés religioso, começa a aparecer como uma problemática constante na vida de Clodomir. A passagem pelo seminário confere ao nosso personagem, além de uma elevada cultura geral, uma espécie de capital 23

  

militante (MATONTI; POUPEAU, 2006), cujo engajamento nascituro do

  envolvimento nas questões que vão além do ambiente confessional parece se solidificar à medida 23 que a hierarquia eclesiástica toma ciência da “crise” que assola suas bases de

  

Conforme o define Matonti e Poupeau (2006, p. 130), trata-se de um tipo de capital incorporado sob a

forma de técnicas e de disposições a agir e a intervir, abrangendo um conjunto de saberes (teóricos e

práticos) “mobilizáveis no momento das ações coletivas, das lutas inter ou intrapartidárias, mas também

exportáveis, passíveis de conversão para outros universos, e, assim, suscetíveis de facilitar certas sustentação ideológica e de falência de seus serviços de produção e reprodução da “vocação” religiosa (AZZI, 2008; MAINWARING, 2004).

  Outro aspecto importante a ser destacado é a utilização da escrita pelo jovem Clodomir Brandt como instrumento de manipulação simbólica (BOURDIEU, 2008) e de distinção nos espaços que ocupa em relação aos demais agentes. Ainda nos estudos primários, funda um pequeno folhetim para veicular seus escritos literários, referente à própria vida escolar. Já no seminário, funda novamente um canal informativo para divulgar, ainda que para um público reduzido e restrito ao âmbito seminarístico, suas ideias e concepções sobre a ação evangelizadora do catolicismo vigente à época e suas representações sobre o mundo social, quer se trate do “pobre” ou do “rico”, das “fábricas” ou do “sertão”.

  Percebe-se neste aspecto a formatação institucional embrionária da hibridização do ofício sacerdotal (SEIDL, 2003; 2007b), legatária desde o final do século XIX, quando a Igreja formula através de seus destacados agentes (bispos com forte atuação política no Maranhão, caso de D. Marcos de Sousa) as bases legais que legitimam a intervenção de seus sacerdotes em diferentes domínios, onde a atividade da escrita se constitui como uma das principais modalidades de atuação intelectual dos clérigos católicos, além de se constituir num fator distintivo e de demarcar a posição e os posicionamentos do agente em foco. Tais observações evidenciam uma tentativa da instituição eclesiástica em abranger e influenciar as discussões públicas, as questões sociais, a atividade cultural, e a autorizar, ampliar e pautar a publicação de escritos diversos através da criação e manutenção de novos canais midiáticos no Maranhão.

2.1.4 O vigário de Arari: aspectos sociais, culturais e religiosos da cidade

  Em 1º de janeiro de 1943, Clodomir Brandt e Silva é ordenado sacerdote pelo arcebispo metropolitano de São Luís, D. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota. A partir de então, padre Brandt dá início oficialmente à sua missão evangelizadora no Maranhão. Permanecendo por algum tempo em São Luís, onde atuou em algumas paróquias situadas nos bairros da capital, Brandt percorre alguns municípios maranhenses como Caxias, Buriti Bravo, Passagem Franca e Colinas, onde celebrou a primeira missa cantada do Maranhão, denominada de “Missa Nova” (FERNANDES, 2012, p. 45).

  Dando cumprimento à sua função religiosa, foi assistente diocesano de bispos em visita a Coroatá e Anajatuba, antes de ser nomeado vigário de Cururupu, destinação que não chegou a assumir. Todo esse percurso por algumas cidades maranhenses fez com que padre Brandt se tornasse ainda mais

  “sensível à realidade das populações” mais afastadas dos centros urbanos, desprovidas de educação básica e tratamento de saúde (ibidem). Observa-se como a descrição das atividades religiosas de Brandt é talhada pelas “fontes” buscando-se sempre a justificação para sua intervenção no mundo social. Isso evidencia, ainda que mais ou menos conscientemente, o aspecto “consagrador” dos escritos que servem de base para a discussão proposta.

  Exatamente um ano após ter percorrido essas plagas “interioranas”, quando completou seu primeiro aniversário de ordenação sacerdotal, em 1º de janeiro de 1944, padre Brandt foi nomeado vigário de Arari, assumindo seu posto no dia 9 do mesmo mês, aí residindo de forma fixa. As circunstâncias em que ocorreu tal nomeação são, no mínimo, curiosas, e foram descritas pelo próprio sacerdote, no sexto volume dos seus

  

Escritos sem ordem, - coletânea de textos publicada em 1996 que versam sobre

  diversos assuntos abordados pelo sacerdote, tanto históricos quanto contemporâneos, mas todos sob a ótica do catolicismo que defendia, - onde em visita ao arcebispo do Maranhão, D. Carlos Mota, teceu com ele o seguinte diálogo:

  • Foi bom você ter vindo hoje aqui. Precisava mesmo falar com você, para lhe comunicar que não vais mais para Cururupu. Deixei de novo lá o padre Papp. Dom Luiz pediu-me para ceder-lhe novamente. Caso queira, está dada a permissão. Ele alega que você é filho de Colinas...
  • Dom Carlos, não quero mais ir para Caxias. Gostaria de ir trabalhar numa paróquia do interior.
  • Está certo. Eu só lhe ofereci essa oportunidade de ir trabalhar com Dom Luiz porque pensei que isso era de seu agrado. Mas a sua diocese é aqui. O chefe da Igreja maranhense entrou no seu gabinete e trouxe um papel na mão, retomando a conversa com o padre.
  • Aqui está a relação das paróquias vagas da Arquidiocese. Escolha entre essas paróquias uma para nela ir trabalhar.
  • Mas, senhor arcebispo, vossa Excelência é quem deve fazer a indicação da paróquia e eu aceitarei. Ordenei-me para padre para obedecer.
  • É, mas eu não costumo fazer assim com meus padres. No entanto, como você alegou a obediência, eu ordeno que escolha. O padre não teve mais argumento, nem alternativa. Começou a ler o listão de paróquias vagas, algumas localizadas em cidades que estavam em pleno desenvolvimento. E logo, sem muito pensar: - Senhor arcebispo, escolho Arari.
  • - Arari, não! Escolha outra. Há várias paróquias boas vagas. Arari, não!

    - Então, agora, vossa Excelência indica. Já obedeci escolhendo Arari.

  • Mas Arari não serve para você. No entanto, vamos fazer uma coisa: você tem três dias para pensar. Vá e volte daqui a três dias. Há uma pessoa que pode ajudar-lhe. É o padre Pedro Verneullen, a quem você conhece. Fale com ele. É experiente e já passou dias em Arari (SILVA, 1996, p. 26-28).

  A conversa com o referido padre holandês, pertencente à Congregação dos Padres Lazaristas, missão fundada por São Vicente de Paulo, serviu para estimular ainda mais o desejo de padre Brandt em prestar seus serviços religiosos à cidade de Arari.

  Afinal, padre Pedro Vern eullen era um “entusiasta” do município, onde já havia estado por duas vezes como missionário visitante, nos anos de 1942 e 1943, a ponto de fazer inúmeras amizades e conquistar a

  “admiração de quase toda a população”. Foi sob sua influência que a paróquia de Arari veio a ser ocupada definitivamente pelo padre Clodomir Brandt (FERNANDES, 2012, p. 57).

  Convém, contudo, explicitarmos como estava delineada geográfica e socialmente a cidade de Arari antes da chegada do padre Brandt, a fim de que se possa entender o porquê da tentativa de dissuasão, a priori, do arcebispo D. Carlos Mota em relação à escolha da cidade pelo nosso personagem, assim como lançar luz sobre os condicionantes históricos, sociais, culturais e religiosos que realçaram e distinguiram a atuação de Clodomir no município.

  A vila de Arari emancipou-se administrativamente em 19 de abril de 1833. Tratava-se, de fato, do segundo distrito da vila de Nossa Senhora de Nazaré do Mearim, denominada de “Arari” devido à abundância de inúmeras “araris”, certa espécie de sardinha que predominava nas águas do rio Mearim. Contudo, tal versão é bastante

  24

  discutida entre os historiadores . O próprio padre Brandt admite uma outra versão para

  25 24 a origem do nome do município .

  

Existem quatro hipóteses que sustentam a origem do nome da cidade de Arari. A primeira se trata de

uma suposta predominância na região do Médio Mearim de um tip o raro de “araris”, araras vermelhas

com tons amarelados. A segunda hipótese gira também em torno da designação de uma espécie de arara,

porém relativa à sua baixa estatura, onde “arari” significaria “pequena arara”. A terceira versão trata da

denominação dada a certo tipo de árvore de terra firme e à tinta vermelha extraída de sua casca. Já a

quarta hipótese refere-se ao tipo de sardinha de bastante abundância nas barrancas do rio Mearim, versão

mais aceita entre os historiadores precisamente pelo fato da cidade ter nascido às margens do famoso rio e

ter na pesca uma das suas principais atividades econômicas (BATALHA, 2011, p. 51-52). É interessante

observar, no entanto, que as diversas versões sobre a origem de Arari refletem, em última instância, o

grau d a disputa travada em torno dos princípios de legitimação e de imposição de uma “versão oficial” 25 sobre a história e a memória da cidade.

  

Para o sacerdote, a designação “Arari” teria sido originada de um diálogo entre um marinheiro e um

dono de embarcação, que teria de ancorá-

  Por certo, diante da falta de consenso entre os historiadores que se propuseram a investigar a orige m do nome “Arari”, não sem algum grau de relativo interesse na disputa pela memória e pela história da cidade, o que se tem de concreto é que a vila foi elevada à condição de município em 27 de junho de 1864 (BATALHA, 2011, p. 42). Em 1938, o Decreto-Lei nº 45, de 29 de março, tirou Arari da condição de menor município do Maranhão, estendendo seu território por toda a margem direita do rio Mearim, compreendendo a trizidela do Ubatuba, Macaquiçá e a trizidela de Vitória do Mearim, o que gerou inúmeras divergências entre as elites políticas e rurais das regiões

  26

  incorporadas . Tais disputas só aumentaram com o Decreto-Lei estadual nº 159, de 6 de dezembro de 1938, assinado pelo interventor federal no Maranhão, Paulo Martins de Sousa Ramos, que concedeu ao município de Arari a maior extensão territorial de sua história, indo

  “desde as margens do rio Mearim, passando pela foz do Grajaú, atingindo as bordas do rio Pindaré, seguindo pelo divisor das águas Mearim-Itapecuru, até alcançar a linha geodésica, que parte da foz do rio Peritoró (ibid., 2011, p. 43-44).

  As primeiras levas de povoadores a se instalarem na cidade datam do período colonial. No decorrer dos séculos XVIII e XIX, Arari sofre novo processo de correntes migratórias, particularmente de franceses, holandeses e portugueses. Já no início do século XX, a cidade recebe imigrantes de origem sírio-libanesa, que tem significativa atuação no desenvolvimento do comércio local, na navegação fluvial e na conjuntura política do município. Todo esse movimento migratório de povos vindos do continente europeu e da região do Oriente Médio mesclando-se com as etnias indígenas e afrodescendentes que lá já estavam situadas desde a Colônia, confere a Arari um aspecto social de bastante miscigenação e de sincretismo religioso.

  Em relato do padre Pedro Verneullen, que estivera na cidade dois anos antes da chegada do padre Brandt, em 1944, tendo sido o maior influenciador sobre a decisão de nosso personagem em fixar-se na região

  • – o qual não deixou nada escrito que contivesse maiores detalhes sobre sua chegada ao local
  • –, é possível observar alguns aspectos específicos sobre a vida social, cultural e religiosa de Arari, além de colhermos as

  

Nas palavras do padre Brandt , “de arariba para Arari, a transformação não foi difícil. A lei do menor

esforço, que é uma economia fisiológica na pronúncia das palavras, iria produzir a transformação

26 metaplástica do vocabulário, pela perda da sílaba ‘ba’” (SILVA, 1985, p. 19).

  

Sobre as disputas territoriais entre as elites políticas e rurais em virtude da redefinição dos limites municipais decretados pelo interventor Paulo Ramos, ver Batalha (2011, p. 40-46). primeiras impressões de um sacerdote da Igreja Católica que chega a um município do interior do Maranhão ainda sem padre residente e em visita missionária:

  Viajando através dos campos enxutos, sob o sol causticante de meio-dia, cheguei ao Arari pela Trizidela. À primeira vista, julguei que fosse um desses pequenos povoados que já vira à beira do Itapecuru e do Pindaré. Só a largura do rio me impressionou. No porto, não havia, naquela hora, nem lancha nem batelão. Na rua também não havia ninguém. “Será – pensava comigo mesmo – que o padre Eliud me mandou enterrar algum defunto morto?” Boa parte dessa primeira impressão foi devido ao meu estado físico naquela hora: cheguei estropiado pela viagem, encandeado pelo sol do campo, com a cabeça em fogo, vermelha que parecia lavada em sangue. No dia seguinte (...), pude corrigir essas impressões. Logo vi uma igreja nova em construção! Havia, portanto, vida nova nesse lugar: é um povo que quer ressurgir. Fui chamado logo no dia seguinte para fazer uma confissão em Perimirim. Fui a pé. Vi ruas e mais ruas, cortadas por travessas em direção ao campo. Para mim, era uma revelação. Para o povo parece que também foi uma novidade, a julgar pelo furioso latido dos cães e pelo choro espantado das crianças. Certamente, nunca tinham visto um padre de perto, atravessando as ruas (FERNANDES, 2012, p. 57-58. Grifo nosso).

  Percebe-se no relato do padre Verneullen o estranhamento que teve diante da cidade e do povo em relação à sua pessoa, como se nunca tivessem “visto um padre de perto

  ”. De início, o padre de origem holandesa “sofreu” com o forte calor da região, chegando a Arari “com a cabeça em fogo, vermelha que parecia lavada em sangue”, o que só contribuiu para a formulação em seu pensamento de que estava num “deserto”, no qual iria “enterrar defunto morto”, mediante a ausência de pessoas no porto para recepcioná-lo e nas ruas da cidade, após seu desembarque. Seu sofrimento parece ter sido amenizado somente ao avistar uma

  “Igreja nova em construção”, sinal de que o povo arar iense queria “ressurgir”.

  O que não fica claro na descrição do padre europeu é quem era o responsável pela construção da igreja e de onde o povo iria “ressurgir”, uma vez que a constatação de uma nova edificação eclesiástica implica, minimamente, um certo grau de organização religiosa presente no seio da população de Arari antes mesmo da chegada do missionário holandês e, posteriormente, do padre Brandt.

  Segundo o pesquisador João Batalha (2011, p. 124), a edificação à qual se refere padre Verneullen é a Igreja-matriz de Arari, cujas obras de construção tiveram início em 28 de agosto de 1932, em substituição ao velho santuário do local, o qual datava sua inauguração de agosto de 1811. A iniciativa de construção da nova igreja, que é creditada ao padre Manuel Nunes Arouche, vigário de Viana e colaborador da vizinha paróquia de Vitória do Mearim, dá-se justamente no ano em que o protestantismo chega

  à cidade por meio da realização dos cultos da Assembleia de Deus. Nesse ano, já existem em Arari dez templos religiosos, de maioria católica (ibid., 2011, p. 129).

  Continuando a análise do relato de padre Verneullen, dividida aqui arbitrariamente por questão de organização textual e com fins didáticos, atendendo aos propósitos deste trabalho, o vigário holandês fala sobre a organização social, as condições de moradia e as principais atividades econômicas da população de Arari.

  (...) Fazia cada dia um passeio de manhã e à tarde; queria ouvir e ver. Passando pelas ruas, notava a ausência de homens: explicaram-me que a maior parte da população masculina ia campear ou era de embarcadiços. (...) Apesar das ausências prolongadas dos pais, as famílias são numerosas e muito unidas. Cada chegada de lancha é uma alegria para as famílias e para as casas de negócio, porque as provisões de boca para as tripulações e os passageiros são renovadas em Arari, sobretudo o pão e a carne. (...) A demora das lanchas torna possível o intercâmbio de outros produtos: chapéus de palha, redes de dormir, artefatos de couro, todos de indústria caseira. A população de Arari é muito laboriosa. As casas, em geral, trepadas em estacas (por causa das inundações periódicas), são amplas e bem arejadas. (...) Ninguém fica ocioso. Os homens estão ocupados no conserto de arreios para os cavalos, ou na confecção de tarrafas para as próximas pescarias. As moças fazem chapéus, costuram ou fazem redes; algumas mais adiantadas ensinam as primeiras letras a uma dúzia de crianças. (...) Graças a tal operosidade, não há pobres miseráveis no lugar. Os que precisam de assistência recebem-na de boa vontade na casa das famílias vizinhas. Infelizmente, não há médico. (...) Os marítimos em geral mandam os seus doentes em casos mais graves para a cidade de São Luís, porque há sempre transporte nas lanchas (FERNANDES, 2012, p. 59-60).

  Conforme as observações do sacerdote, percebe-se que a vida em Arari tomava ares de comunidade, onde todos podiam buscar ajuda mútua e contar com a “boa vontade na casa das famílias vizinhas”, razão pela qual não havia “pobres miseráveis” no lugar. Ainda assim, no que concerne às condições de moradia da população, as casas “trepadas em estacas” dão uma dimensão da precária infraestrutura da cidade, onde o problema das constantes inundações é solucionado pelos próprios moradores, que, mesmo com tais adversidades

  , não descuidam de morar em habitações “amplas e bem arejadas”. Infere-se, assim, que o relato de padre Verneullen sobre Arari se constitui, em suma, numa espécie de

  “apresentação de impressões” da cidade ao seu futuro vigário, padre Brandt, preparando-lhe o espírito sobre o que viria encontrar na cidade.

  Seguindo o relato do padre europeu, observa-se que em meados da década de 1940 as principais atividades que movimentavam a economia do município eram a pesca, a produção manufatureira e o comércio, ambas impulsionadas pelo transporte fluvial que estimulava as trocas comerciais com as cidades vizinhas. O conjunto dessas

  atividades restringia as ofertas de trabalho às funções de comerciante, vaqueiro, costureira ou dona de casa. Sobre este aspecto socioeconômico, em outra passagem de seu longo relato, padre Verneullen assevera que

  (...) os meninos aprendiam as primeiras letras e as primeiras operações porque isso é necessário para o comércio. Mas ninguém (ou quase), por falta de ideal mais elevado, se preocupava em dar educação superior. Os rapazes e as moças não tinham nenhum pendor para uma vocação que fosse além de comerciante, vaqueiro, costureira e dona de casa. E quando se ouviam apreciações sobre os médicos, bacharéis e padres, eram analisados apenas pelo dinheiro que supunham ser ganho em tais profissões (FERNANDES, 2012, p. 64).

  Contudo, convém salientar que havia outras profissões e atividades em jogo. De um modo geral, circunscritas ao ensino, aos cargos administrativos, às forças de segurança e ao setor de serviços. Segundo levantamento datado de 1924, na vila de Arari já existiam

  2 escolas, 2 igrejas católicas, 2 padarias, 6 oficinas de sapateiro, 3 alfaiates, 4 carpinteiros, 2 calafates, 2 ferreiros, 1 caldeiro, 2 olarias, 1 serraria, 2 ourives, 1 farmácia, 55 casas de comércio, 3 açougues, alguns vendedores de leite, 1 carcereiro, 2 oficiais de justiça, 2 tabeliães, 2 escrivães, um destacamento com dez praças, comandados por um sargento (BATALHA, 2011, p. 116).

  Por volta de 1937, já estavam registradas na cidade de Arari algumas firmas importadoras de produtos industrializados, que levavam o nome das prósperas famílias ararienses ou de seus ilustres filhos: Santos & Silva, Abraão Salomão, Jorge Salomão, Cipriano Santos, Teodoro Antônio Batalha, Pedro Abas, Leão Santos, Venceslau Ericeira, Leopoldo Melo e Inácio Batalha. Existiam ainda duas firmas exportadoras: a Santos & Silva, empresa local; e a francesa Cotonnière Brésil Ltda., instalada em 1936, que comercializava a produção de algodão do Mearim, prensava em Arari e exportava para a Europa. Os serviços de transporte fluvial eram prestados pelas firmas Leandro Nunes, Salomão, Raimundo Guimarães e Mearim S.A. E ainda havia uma desenvolvida indústria açucareira local, contando-se 14 engenhos de açúcar em Arari, todos de propriedade das abastadas famílias do município (BATALHA, 2011, 128).

  Conforme se pode perceber, as atividades econômicas se aglutinavam em torno do domínio econômico exercido pelos princip ais “grupos familiares” de Arari, sendo estes proprietários de firmas, estabelecimentos comerciais e até engenhos de açúcar. A ascensão social e a afirmação “intelectual” de membros dessas famílias são denegatórias basicamente da prosperidade econômica que alcançaram, não só no “interior” como também na capital do Estado, onde o trânsito e o pertencimento a instâncias de socialização e de consagração “intelectual” e de produção de conhecimento acadêmico/científico forneceram as bases de legitimação para que se constituíssem enquanto

  “intérpretes” da sociedade arariense. Os trabalhos acadêmicos utilizados como fontes neste capítulo, destacando-se

  Batalha (2011), Sousa (2003) , integrante da família “Ericeira”, e Fernandes (2012), todos descendentes de grupos familiares estabelecidos em Arari, sugerem a dimensão do poder simbólico e material conquistado por esses mesmos grupos familiares, da ascensão social obtida e dos investimentos “intelectuais” que fizeram para intervir (mais ou menos conscientemente) na disputa pela

  “história” e pela “memória” da cidade. Outro ponto a ser observado ainda no relato do padre Verneullen é a divisão do trabalho familiar e a distribuição dos papéis sociais entre homens e mulheres em Arari.

  Aos homens cabiam as tarefas do campo, provavelmente pequenos roçados, e o manejo das embarcações, efetuando o transporte fluvial, além da manutenção dos arreios dos cavalos e das redes de pescaria. Já as mulheres dedicavam-se aos trabalhos domésticos, à produção artesanal de tecidos e chapéus e ao ensino das primeiras letras aos filhos.

  Esse foi o mosaico socioeconômico descrito pelo sacerdote holandês às vésperas da chegada de padre Brandt à Arari, onde as mulheres possuíam papel de destaque na divisão social do trabalho familiar, seja pela educação dos filhos ou pelo incremento na renda da família através de sua produção artesanal, feito pelas trocas comerciais de produtos manufatureiros de corte e costura.

  No último trecho da descrição do padre Verneullen, observa-se as principais manifestações culturais, o trato caseiro com as questões de saúde, alguns aspectos políticos provocados pelas disputas religiosas e as impressões do sacerdote em relação às crenças disseminadas entre a população arariense, que a seus olhos se constituíam em verdadeiros

  “perigos” que deveriam ser combatidos pela Igreja.

  Os lavradores (...) recorrem com facilidade aos remédios caseiros e indicações de macumbeiros. A macumba no Arari era uma verdadeira instituição; duas ou três vezes na semana ouviam-se os tambores e os gritos estridentes dos feiticeiros em transe, ditando suas imposições aos pobres que recorriam a eles nas doenças, nos amores infelizes, nas dúvidas sobre objetos perdidos ou roubados. (...) Entre o povo, mesmo entre os que não os consultavam, existia um terror supersticioso diante das ameaças. O mais atrevido dos feiticeiros, o Pio Fernandes, entrava até nas casas de famílias. (...)

  Outros feiticeiros e curandeiros continuam explorando a boa fé e a bolsa dos pobres. (...) Os feiticeiros têm todo interesse em afastar os sacerdotes, porque eles não hesitam em denunciar a superstição e as práticas indecorosas que ocorrem nas sessões do baixo espiritismo. (...) Havia, porém, outro fruto de importação que causava grande estrago: era o protestantismo, que em toda parte gosta de implantar-se, aproveitando a ausência dos padres. Não fosse a devoção do povo a Bom Jesus e a Nossa Senhora da Graça (rejeitada e ridicularizada pelos “crentes”), todo o povo teria virado protestante. Esse perigo tornou-se mais sério quando alguns deles alcançaram certa projeção política e puderam aliciar adeptos mediante promessas e favores. Teve o seu ponto culminante quando, na inauguração do templo protestante, boa parte das autoridades civis aceitou o convite de assistir a solenidade, por política! (...) Sobretudo, está lá o seu grande crime: tiraram a santidade do matrimônio cristão, substituindo-o pelo concubinato civil. Quando cheguei no Arari, em torno de mil famílias, não havia trezentas com casamento religioso. O povo aceitava tal situação como se fosse coisa normal. (...) Vim munido de todas as faculdades necessárias, mas relativamente poucos aproveitaram. Diziam abertamente: “o padre pede muito dinheiro”. E quando eu perguntava: “Quanto dinheiro pede o vigário”, nada respondiam, porque nunca se deram ao trabalho de saber por si mesmos. Repetiam o que se dizia entre o povo. Feiticeiros, protestantes e maçonizantes alimentavam todas essas asneiras (FERNANDES, 2012, p. 62-63. Grifo nosso).

  A questão do conflito religioso aparece neste trecho do relato de padre Verneullen com maior acidez, demonstrando o quanto causava incômodo para a Igreja a concorrência dos serviços salvíficos oferecidos por outras crenças, seja a das religiões afro-brasileiras, das agremiações maçônicas ou do protestantismo. Todo esse olhar direcionado pelo padre holandês aos aspectos culturais, socioeconômicos e religiosos da cidade acabou influindo na atuação do vigário Clodomir Brandt, que para Arari se deslocou sabendo, sob a ótica de um sacerdote da Igreja, dos problemas e das dificuldades que iria enfrentar e das possibilidades de sua ação religiosa germinar e colher frutos.

  Assim, às oito horas da manhã do dia 8 de janeiro de 1944 desembarcou no porto principal de Arari o padre Clodomir Brandt e Silva, que chegou para ser o vigário- residente do município, função há muito reclamada por moradores do local e líderes da Igreja no Maranhão. Padre Brandt tinha 26 anos de idade quando aportou na cidade, sendo recebido pelo prefeito Antônio Anísio Garcia, autoridades, estudantes e pelas principais famílias católicas, que trataram de sua acomodação e da realização de um cerimonial de boas-vindas, com música, foguetes e cortejo de condução do pároco até a Igreja (FERNANDES, 2012, p. 75), bem diferente do acolhimento dado ao seu antecessor missionário no município, que não gozou de nenhum tipo de recepção “calorosa” quando de sua chegada a Arari, salvo a do calor do sol, imaginando tratar-se, à primeira vista, de uma “cidade desértica”.

  No entanto, as “comemorações” por conta da chegada de padre Brandt a Arari logo contrastariam com as efervescentes disputas travadas em torno da hegemonia político-religiosa engendrada pelos demais agentes do espaço social em disputa, em decorrência de sua significativa atuação e intervenção em diferentes esferas, deixando marcas indeléveis na sua história de vida, na Igreja e na própria cidade.

  

2.2 Em nome da Igreja: “projetos” sociais e mediação cultural no interior do

Maranhão

  A atuação do padre Brand t em Arari vai além de sua “missão” evangelizadora. É no município que ele cria e organiza diversas instituições culturais, educacionais, midiáticas e religiosas, além de atuar de forma incisiva e decisiva no cenário político- partidário da cidade e de se dedicar à atividade literária a ponto de ser reconhecido como um “intelectual católico”, realçando assim o processo de hibridização que caracteriza seu ofício sacerdotal e, num nível macro, a necessidade da Igreja de intervir e influir em outros domínios sociais como estratégia de recomposição de seu poder simbólico e de reestruturação do espaço religioso local, visando à hegemonia do catolicismo.

  A abordagem neste tópico consiste no exame das principais ações de padre Brandt e nos recursos acionados por ele para legitimar sua intervenção enquanto mediador cultural na cidade de Arari, na tentativa de descortinar o caráter consagrador de seu itinerário, muitas vezes apresentado por aqueles que constroem a

  “história” com elementos de “empreendedorismo”, “pioneirismo” e até certo “heroísmo” social (SEIDL, 2007, p. 81).

  Além disso, analisa-se a interpenetração das esferas cultural e religiosa e as injunções daí derivadas e refletidas na esfera política de Arari, o que provocou o acirramento das disputas em torno da imposição de regras, limites e definições do âmbito de atuação dos agentes envolvidos no espaço de poder mais amplo.

2.2.1 Educação e cultura como base da obra religiosa

  No dia 15 de fevereiro de 1944, pouco mais de um mês após sua chegada ao município de Arari, padre Clodomir Brandt funda o Instituto Nossa Senhora da Graça, a primeira escola sob sua administração, tendo como sede inicial a casa em que residia. Posteriormente, com o aumento da quantidade de alunos, alugou uma construção maior e próxima à Igreja, onde morava com a mãe e um irmão e ensinava os alunos da cidade e outros vindos de municípios vizinhos, todos do sexo masculino.

  Já em junho de 1945, o vigário de Arari funda, em parceria com colaboradores de sua confiança, aquilo o que viria a ser a pedra angular de sua ação missionária, a Associação da Doutrina Cristã (ADC). Os principais objetivos dessa instituição de cunho caritativo era debater, fomentar e organizar ações que visassem levar educação, cultura, ensino religioso e assistência social para a população (BATALHA, 2011; FERNANDES, 2012).

  Para alcançar tal intento, a ADC dividia-se em quatro secretarias que tratavam especificamente dos temas arrolados: secretarias de educação, de catequese, de cultura e de assistência, tendo como diretor-geral o padre Brandt. Sob os cuidados da Secretaria de Educação, ficaram o Instituto Nossa Senhora das Graças e a Fornecedora Educacional, depois transformada em livraria; a Secretaria de Cultura destinava-se à realização de encontros, palestras, conferências, encenação de peças teatrais, desenvolvimento de um coral religioso e fundação de um

  “Boletim Paroquial”, que só viria a circular na cidade em 1946, produzido e impresso primeiramente em São Luís e, a partir de 1953, em Arari; a Secretaria de Catequese cuidava dos centros de catecismo, mantinha os catequistas e vendia livros religiosos a domicílio; e a Secretaria de Assistência dedicava-se a ações caritativas, especialmente na Páscoa e no Natal, além de cuidar da educação de

  “crianças carentes”. Anos mais tarde, em meados da década de 1960, assim se expressava padre Brandt sobre a instituição filantrópica de orientação católica:

  “A ADC, na verdade, quer atingir todas as manifestações da vida humana e para isso foi organizada com estatuto de caráter polivalente” (FERNANDES, 2012, p. 84). Com efeito, a organização institucional e estrutural dos serviços realizados pela Associação da Doutrina Cristã, cujo estatuto possuía um “caráter polivalente”, se constituiu num exemplo irrefutável da hibridização das ações da Igreja Católica no Maranhão. Contudo, se por um lado a entidade filantrópica visava justamente a intervenção em diferentes domínios sociais como forma de garantir o poder de influência da Igreja perante os setores estruturantes da sociedade arariense, por outro a ADC servia como um instrumento de captação, seleção e reprodução de mentes voltadas para a execução dos serviços eclesiais. Segundo Fernandes (2012, p. 108),

  uma das metas da ADC foi a de financiar os estudos de jovens inteligentes cujas famílias não pudessem mantê-los estudando até o curso superior. Objetivava o propósito de formar um médico, um advogado e uma assistente social mediante o compromisso destes, depois de graduados, trabalharem para a comunidade arariense, em parceria com a ADC. Pretendia, ainda, por meio de ajuda financeira, facilitar o acesso a alguns vocacionados para o mister sacerdotal (Grifo nosso).

  As dificuldades encontradas na concretização de tais objetivos foram muitas, particularmente impostas pela própria ADC que, mesmo tendo encaminhado alguns jovens para o Seminário de Santo Antônio, em São Luís, nenhum deles chegou a se ordenar

  , deixando o recinto vocacional após a conclusão do denominado “seminário menor”. As exigências impostas pela Associação aos estudantes por ela financiados consistiam na realização de serviços prestados à Igreja como forma de “retribuição”, exercendo atividades de professor, locutor do serviço de som “Voz de Arari”, operador do cinema da cidade, instrutor de internato e outra tarefas determinadas pela entidade com prazos previamente estabelecidos (ibid., 2012, p. 109).

  Ainda assim, e talvez por isso mesmo, ou seja, pelas dificuldades em se garantir a reprodução de uma classe de agentes voltados para o trabalho da ADC e da Igreja, padre Brandt deu continuidade ao seu “projeto desenvolvimentista” da cidade. Em 15 de março de 1947, com recursos oriundos das ações da entidade caritativa, é inaugurado o Instituto Bom Jesus dos Aflitos, destinado exclusivamente para estudantes do sexo feminino, a fim de se contrabalançar o peso educacional do Instituto Nossa Senhora das Graças, escola destinada apenas para o público masculino.

  Em julho do mesmo ano, o sacerdote inaugura a biblioteca da ADC, posteriormente denominada de Biblioteca Justina Fernandes, em homenagem à prefeita eleita sob a influência do vigário e que muito havia colaborado, durante sua gestão municipal, com a ADC e os trabalhos de construção da igreja matriz. Inicialmente, o espaço de leitura contava com um pequeno número de livros escolares, religiosos e de formação infanto-juvenil, doados pela comunidade. Depois, o acervo fora acrescido com recursos da ADC, que adquiriu obras científicas e literárias de conhecimento universal, não demorando muito a colecionar mais de seis mil títulos, tornando-se assim um dos principais centros de conhecimento para a população escolarizada da cidade. Contudo, a referida biblioteca não era a única de Arari. Em novembro de 1940, o prefeito Anísio Garcia já havia fundado a Biblioteca Pública Municipal, a primeira da cidade (BATALHA, 2011, p. 130).

  Em 1948, padre Brandt inaugura o serviço de alto-falante “Voz de Arari”, primeiro veículo de comunicação social da cidade; no ano seguinte, funda o

  “Cine Paroquial de Arari

  ”, o primeiro cinema a ser instalado em todo o território do Estado do Maranhão; já em 1951, ele funda a Escola de Música Carlos Gomes, referência na região, que funcionou até o ano de 1958; em 1953, inaugura a Escola de Artes Gráficas Belarmino de Ma tos, mesmo ano de fundação do jornal “NOTÍCIAS”; já depois da metade dos anos 1950, inaugura o Teatro Experimental de Arari, onde atua como professor de oratória; e, pela mesma época, organiza o Coral Santa Cecília, composto por homens e mulheres da comunidade.

  Após um período sem inaugurações, padre Brandt funda, em 1964, o “Ginásio

  Arariense ”, escola de curso secundário através da qual oferecia à população a oportunidade de continuar os estudos na própria cidade. Já em 1968, com a necessidade de dar formação de nível especializado aos alunos, o pároco funda a

  “Escola Normal”, na qual se formam dezenas de professores. No ano seguinte, ainda inaugura o “Jardim de Infância Menino Jesus

  ”, sempre com recursos oriundos da ADC. No ano de 1984, as escolas Instituto Nossa Senhora das Graças, Instituto Bom Jesus dos Aflitos, Ginásio Arariense e Escola Normal foram unificadas e transformadas no

  “Colégio Arariense”, que ainda funciona nos dias atuais.

  As intervenções e interpenetrações entre cultura e religião são tão indistinguíveis nas ações de Clodomir Brandt que ele, no calor do ano de 1963, a convite da União Arariense dos Estudantes, participa da Semana da Cultura de Arari, para a qual elaborou uma conferência denominada “Os cristãos e a arte”, onde são abordadas as possibilidades de uma crítica literária produzida por um viés religioso, reivindicada pelo

  sacerdote como legítima, e criticada a separação entre a escrita literária profana e a produção “intelectual” de padres católicos, considerada pelo senso comum e entre os “letrados” de nível “menor”.

  Logo no prólogo de sua conferência, padre Brandt expõe, com nítida firmeza de posicionamento, que discutir arte e catolicismo e a legitimidade de uma crítica literária de cunho religioso é de “sumo interesse para os intelectuais católicos” e “nenhum deles pode fugir ao problema”.

  (...) Como sacerdote e representante da Igreja, Mãe de todas as culturas, não me ficava bem ausentar-me de movimento tão belo, símbolo e prenúncio de uma nova era que se inicia para esta terra a que já estamos vinculados por fortes e indestrutíveis laços de amizade. (...) Aqui, pois, estou para convosco compartilhar desses momentos de fino e deleitoso discretear sobre arte e sobre cultura.

  Propus-me, então, com certa ousadia, fazer um trabalho sobre a crítica literária e os católicos, ou melhor, examinar se há alguma divergência ou incompatibilidade entre o espirito católico, com seus dogmas e sua intransigência, e a legítima e boa crítica literária.

  O problema é de indiscutível complexidade e requer, de quem o enfrenta, qualidades superiores de inteligência e de cultura que me são escassas. Nem por isso, porém, julguei-me com direito a omitir-me em assunto de tanta relevância e tão indispensável nos tempos de hoje (...). Cremos que há somente um norte a seguir, na bússola do mundo, e é a reorganização de tudo em bases filosóficas, mas filosóficas no legítimo sentido, isto é, no sentido cristão (...). Não é a primeira vez que se equaciona o problema que motiva nossa palestra, nem tão pouco sou o primeiro ou o último a procurar sua solução. Outros de mais cultura, e, portanto, de mais equilíbrio em seus conhecimentos, já o estudaram e deram suas respostas, que vão desde o afirmar a impossibilidade de uma crítica verdadeira feita por católicos, até ao extremo oposto, de dizer-se ser a única a realmente poder considerar-se como legítima e também a única em condições de aferir o valor das obras de arte. Muitos também virão depois, e cada um irá colocando suas vigorosas inteligências a serviço da causa que não deixa de ser de sumo interesse para os intelectuais católicos.

  O assunto tem sido na realidade uma preocupação dos escritores católicos e nenhum deles pode fugir ao problema.

  (...) Os inimigos do pensamento católico fazem questão de frisar que nós, os que cremos, os que temos dogmas e que somos intransigentes em matéria de Fé e de Moral, jamais teremos serenidade bastante para manter imparcialidade perante uma obra, mesmo de arte pura, mas que não se regule pelo estalão de nossa doutrina e de nossos princípios (SILVA, 1983, p. 11-12. Grifo nosso).

  Padre Brandt constrói um discurso justificando a necessidade da interferência dos “intelectuais católicos” no mundo profano das artes e das letras em bases filosóficas de orientação cristã, uma vez que “a Igreja é a Mãe de todas as culturas”. O sacerdote esforça- se na tentativa de “examinar se há alguma divergência ou incompatibilidade entre o espirito católico, com seus dogmas e sua intransigência, e a legítima e boa crítica literária

  ”, colocando o “problema” como de interesse de todos os escritores católicos e,

  assim, legitimando a discussão proposta e direcionando seus argumentos para a validação de uma crítica literária calcada em termos doutrinários da religião católica.

  Na sequência de sua referida conferência, Clodomir Brandt expõe seu pensamento sobre o que é crítica literária, sua importância e suas “qualidades”, chegando ao ponto onde aborda a participação dos católicos e sua possibilidade de intervenção crítica no campo da literatura.

  Agora perguntamos: E os católicos, possuidores de dogmas e intransigentes na sua doutrina, teriam, porventura, essa imparcialidade, tão necessária e mesmo indispensável ao crítico literário? Para termos a resposta a esta pergunta, comecemos por dizer em que consiste o belo artístico que é o objeto das pesquisas do crítico. De passagem digamos que no Catolicismo está concentrada toda a Beleza, toda a Verdade e ela só existe e só pode existir onde há o belo e o verdadeiro. Fora da Beleza e da Verdade não se pode encontrar o que possui a perfeição da Ordem que é o Catolicismo. (...) E quando, além de tudo, o juiz é católico, e, logo, tem uma consciência, informada e formada por princípios que nascem do Evangelho, é de exigir-se dele com maior razão, critério e honestidade no ato de julgar as coisas. Assim também o crítico literário católico, por sua própria qualidade de católico, deve ter um julgamento muito mais sereno, imparcial e equilibrado, que os agnósticos ou heterodoxos.

  Não há, portanto, uma incompatibilidade entre o ser católico e o ser crítico literário, mas, sim um aperfeiçoamento do crítico que também é católico. Isto se ele for verdadeiro católico e verdadeiro crítico, pois de um e de outro há muitas vezes berrantes falsificações que constituem legítima negação do que dizem ser (SILVA, 1983, p. 13-

14. Grifo nosso).

  Segundo padre Brandt, a condição ou “qualidade de católico” deve conduzir o crítico literário a “um julgamento muito mais sereno, imparcial e equilibrado, que os agnósticos ou heterodoxos”, haja vista que é “no catolicismo onde está concentrada toda a Verdade”. Para o sacerdote, a intervenção de agentes católicos na literatura não é uma incompatibilidade, mas sim “um aperfeiçoamento do crítico que também é católico”. O discurso de Brandt legitima e estimula a participação e intervenção de escritores religiosos no campo

  “profano” da literatura, por assim dizer, constituindo-se, pois, numa das estratégias da Igreja em recuperar seu prestígio e influência num domínio social, qual seja a escrita literária, como contraponto ao amplo domínio exercido por “intelectuais” que não comungavam dos preceitos do catolicismo, classificados pela instituição eclesiástica de “agnósticos” ou “heterodoxos”.

  O sacerdote finaliza su a conferência “Os cristãos e a arte”, resumindo seu discurso numa espécie de apontamentos gerais e tecendo sua visão sobre “o afastamento da Fé dos homens de letra”:

  

O verdadeiro católico, por ter uma consciência cristã, é o melhor juiz.

Logo, não há incompatibilidade entre o católico e o crítico, desde que haja nele o verdadeiro espírito crítico. Aliás, os católicos não devem jamais tomar uma postura de indiferença ou hostilidade ante o fato literário. A sua omissão provocou o afastamento da Fé dos homens de letras e trancou a própria produção literária católica em um verdadeiro círculo de ferro, que muito tem prejudicado e até arruinado (SILVA, 1983, p. 15. Grifo nosso).

  Desta forma, é possível perceber as disputas ideológicas pelo poder simbólico de imposição dos pressupostos da definição legítima do que é “cultura”, do que é “arte” ou do que é

  “religião”, sem descurar dos condicionantes sócio-históricos que incidem sobre tais definições, haja vista que padre Brandt escreve no ano de 1963 enredado pelas novas determinações doutrinárias emanadas de Roma por meio do Concílio Vaticano II (1962-1965), que legitimaram a participação de católicos nos debates públicos. O sacerdote constrói, assim, uma lógica de justificação na qual baseia suas ações e cimenta o terreno para a operacionalização de estratégias de ocupação de posições de poder por parte de agentes da Igreja.

2.2.2 Comunicação social e projeção político-religiosa do padre Brandt

  A partir de fevereiro de 1946, começa a circular em Arari o primeiro número do “BOLETIM PAROQUIAL”, cujo objetivo era divulgar os assuntos da igreja local e do mundo católico. Contudo, com o tempo, a linha editorial do periódico, impresso na capital, foi se

  “ajustando aos interesses do padre Brandt”, que era o responsável por sua distribuição na cidade (FERNANDES, 2012, p. 87). Após um certo período sem circular, o jornal retomou suas atividades em 1953 rebatizado de “NOTÍCIAS”, já produzido, editado e impresso em Arari pelos alunos da

  “Escola de Artes Gráficas Belarmino de Matos ”, sob a direção de padre Brandt. Segundo José Fernandes (2012, p. 88),

  o semanário desempenhou o seu papel de órgão esclarecedor das questões sociais, políticas e religiosas do seu tempo, desencaminhando-se, aos poucos, para a defesa desmesurada das ideias de seu dirigente e redator, por vezes estrambótica, sem se preocupar com a autenticidade dos fatos. Observa-se nessa descrição que o padre Brandt visualizou no jornal paroquial a possibilidade de influenciar o debate político, cultural e religioso na cidade, sob a ótica do catolicismo, abrangendo um público que não se restringia apenas ao âmbito eclesiástico. Além disso, os usos sociais que faz desse jornal interferem decisivamente nos rumos da vida política do município de Arari, onde a escrita acaba se constituindo em sua principal arma na disputa simbólica (e que também descambou para agressões físicas, quase trágicas) pela prevalência dos interesses de cada agente ou grupo em jogo.

  O jornal “NOTÍCIAS”, contudo, não foi o único veículo midiático fundado por padre Brandt para atingir seus propósitos. Dirigindo e redigindo praticamente sozinho as mais de quinhentas edições do referido periódico impresso, ele ainda teve fôlego para fundar e escrever no informativo “RELÂMPAGO”, “uma publicação esporádica, que circulava quase sempre em tempos de campanha eleitoral de seu interesse

  ” (ibid., 2012, p. 173). Infelizmente, no transcurso da pesquisa, não foi possível o acesso a tais fontes por falta de informações que levassem ao local exato onde estão guardadas.

  Além disso, o vigário juntou forças para, no dia 11 de julho de 1948, inaugurar a “Voz de Arari”, um serviço de alto-falantes que se constituiu no primeiro veículo de comunicação social de alcance mais abrangente na cidade. O serviço contava com uma amplificadora que possuía três potentes saídas de som instaladas na torre da igreja matriz.

  Assim, a “Voz de Arari” era

  ouvida por quase toda a população, transmitia variada programação

  • – músicas clássicas e populares, convites, avisos, programas de calouros, mensagens de congratulações aos aniversariantes, principalmente quando o aniversariante era o próprio vigário, que cedo se tornara um ídolo venerado pelos seus seguidores (FERNANDES, 2012, p. 107).

  Como exemplo sintomático dos usos diversos que fazia de seu sistema de comunicação falada, em dezembro de 1953 padre Brandt organizou um grande comício político na Praça da Matriz e uma posterior passeata pelas principais ruas da cidade, em

  27

  apoio ao candidato Henrique de La Rocque Almeida que pleiteava uma cadeira no 27 Advogado e jornalista, Henrique de La Rocque se tornou uma das mais expressivas figuras políticas do

  

Maranhão. Natural de São Luís, nasceu em 8 de agosto de 1912, cursou o ginásio na Bahia e ingressou na

Faculdade de Direito da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro (atual UFRJ). No início dos anos 1950,

consegue ocupar vários cargos na esfera burocrático-administrativa, através dos quais estabelece

determinadas relações sociais que acabam influenciando-o a atuar no domínio da política, vindo

candidatar-se ao Senado, em 1953, com o apoio de Getúlio Vargas, tendo sido derrotado pelo candidato

apoiado por Vitorino Freire. Contudo, seu poder político se consolida e se traduz nos cinco mandatos

consecutivos que exerceu como deputado federal pelo Maranhão: 1954-1958 (PTB), 1958-1962 e 1962-

1966 (PSP), 1966-1970 e 1970-1974 (Arena). Em 1974, conseguiu costurar alianças com diversas forças

  Senado da República. Tanto o comício quanto a passeata foram transmitidos em tempo integral pela “Voz de Arari”, causando grande repercussão política na cidade, tendo, contudo, ao fim, La Rocque perdido a vaga para o candidato apoiado por Vitorino Freire

  (personagem que será abordado mais adiante).

  Tais acontecimentos evidenciam os usos políticos que o sacerdote fazia de seus veículos de comunicação, não só de língua escrita, como também da verbalização por meio da língua falada, ao passo que revelam o grau de alianças e redes de relações que estabeleceu com as elites políticas maranhenses, tanto locais quanto regionais.

  Outro exemplo significativo da utilização dos canais de comunicação em detrimento dos interesses do vigário de Arari se deu durante a realização da 1ª Semana Rural do Maranhão, ocorrida no município entre os dias 22 e 25 de agosto de 1953. O evento, que contou com o apoio de organizações da Igreja Católica e foi patrocinado pela Arquidiocese do Maranhão, pelos ministérios da Agricultura e da Educação, pelo Governo do Maranhão e pela Prefeitura de Arari na gestão de Bembém Fernandes, teve como principal coordenador logístico e operacional o padre Brandt. Foi ele quem conseguiu trazer para Arari, com a ajuda do tio Cláudio (presidente do Banco Rural do Estado, à época), membros da alta hierarquia eclesiástica, inclusive o arcebispo do Maranhão e o representante do papa, vindo direto do Vaticano. Além disso, o evento contou com a presença ilustre de ministros, bacharéis, médicos como o renomado João Mohana (que ainda viria a ser padre, personagem do próximo capítulo da dissertação), engenheiros agrônomos, zootecnistas, assistentes sociais, educadores e jornalistas de várias regiões do país, estes últimos com a missão de difundir a realização do evento a nível nacional e de exaltar a imagem do vigário de Arari, tornando-o ainda mais popular na cidade e, consequentemente, em todo o Estado.

  Assim, dispondo de reconhecido prestígio social e de um volumoso capital simbólico, adquirido principalmente pela posse dos meios de dominação simbólica (os canais midiáticos), padre Brandt começa a esboçar os primeiros contornos de sua inserção na vida política do município, intervindo não mais apenas nas esferas cultural e

  

políticas maranhenses para lançar-se novamente ao Senado, conquistando e exercendo o mandato de 1974

a 1980, ano em que foi indicado para assumir o cargo vitalício de ministro do Tribunal de Contas da

União, vindo a falecer dois anos depois, em 1982. O prestígio conquistado junto às elites políticas do

Maranhão se reflete, como exemplo, na escolha de seu nome para batizar o palácio do Governo do

Estado, durante o governo de Edison Lobão (1991-1994), passando a chamar-se até os dias atuais de

Palácio Henrique de La Rocque. As informações sobre a carreira política deste personagem estão disponibilizadas no site do Senado Federal, cujo endereço é www.senado.gov.br. religiosa, com vistas a alavancar o poderio simbólico da Igreja na localidade e, ao mesmo tempo, projetar-se em posições relativamente bem alocadas no jogo em disputa, especialmente na definição dos rumos que as elites políticas e rurais da cidade iriam decidir a partir de então.

  A realização da Semana Rural, tão reverberada nos veículos locais e nacionais, conforme se pode constatar em artigo publicado no “JORNAL DO MARANHÃO” pelo arcebispo D. José Medeiros Delgado (FERNANDES, 2012, p. 125), se constituiu num trampolim para a inserção definitiva e decisiva do pároco no cenário político de Arari, onde a escrita (particularmente a veiculada nos canais de comunicação de sua propriedade) será o seu principal instrumento de luta na conquista de posições e na demarcação de posicionamentos no jogo em disputa.

2.3 A escrita como luta política: posições, posicionamentos e embates políticos

  Clodomir Brandt e Silva entra na vida política de Arari pouco tempo depois de assumir o posto de vigário-residente da cidade. Seu engajamento nas questões políticas municipais está irremediavelmente associado à sua ação missionária católica, ao status social adquirido perante a comunidade arariense e ao somatório de inúmeros processos e condicionantes históricos, políticos, culturais e religiosos que, de certo modo, foram corporificados em suas práticas e representações, nas modalidades de expressão verbal falada e escrita.

  Para se entender bem as nuances de sua atuação na esfera política de Arari, faz- se necessário observar que as transformações macro e microssociais processadas historicamente foram conferindo ao padre Brandt um repertório variável de mobilização e de engajamento, desde sua entrada numa escola de ensino fundamental de grande dinamismo cultural ao seu ingresso no Seminário de Santo Antônio (sob o financiamento direto de seu abastado tio Cláudio), onde os estudos de conhecimento geral e seu relativo “sucesso” como estudante, aliado às redes de contatos e alianças que estabeleceu durante sua vida seminarística explicam, em parte, o seu envolvimento em questões não necessariamente inscritas no domínio da espiritualidade e da atividade sacerdotal.

  À custa de investimentos (mais ou menos conscientes) que ensejaram as possibilidades de aquisição e irrupção das disposições à vida pública, padre Brandt consegue posicionar-se como um mediador cultural necessário no processo de inculcação dos valores morais e religiosos entre a população arariense, além de ser um efusivo fomentador das práticas culturais na cidade, ainda que pelo olhar

  “vigilante” da Igreja Católica, seja na programação exibida em forma de teatro, pelo sistema de alto- falante, no cinema, nos jornais impressos, nas escolas, enfim, em todas as esferas onde atuou e interviu de forma decisiva e irrevogável.

  Não se pode negligenciar, contudo, o fato de que os usos sociais da palavra escrita e falada se constituíram para nosso personagem as principais ferramentas com as quais ele lutou contra aqueles que ameaçavam seu poder e sua autoridade, delegados pela Igreja e reconhecidos socialmente pela população. O acionamento de tais recursos foi decisivo na edificação de práticas e representações que visavam à reformulação da percepção dos demais agentes sobre o mundo social, suscitando nestes, assim, novas práticas e representações, agora esculpidas sob a insigne da moral e dos valores católicos.

  Desta forma, só se pode compreender a atuação político-partidária de padre Brandt na cidade de Arari se levarmos em consideração a resultante de todos esses fatores que, em seu conjunto, resultaram num processo de disputas, concorrências, clivagens e bricolagens que, em última instância, ultrapassaram as barreiras do discurso ideológico e chegaram à consumação de práticas mais atinentes a um estado de violência física, ensejando assim o grau de ativismo e de envolvimento a que chegaram os agentes em foco, particularmente o sacerdote Clodomir Brandt.

2.3.1 Um padre político

  Aqueles que se debruçaram sobre a história de vida de padre Brandt, cujas pesquisas serviram de argamassa para a tessitura deste trabalho (BATALHA, 2011; FERNANDES, 2012; SOUSA, 2003), sustentam que a entrada do sacerdote na vida política de Arari se deu por conta da constatação de perda da influência da Igreja Católica perante a sociedade arariense, em decorrência das quase oito décadas de ausência de um sacerdote fixo naquelas plagas interioranas. O próprio padre Brandt assevera uma outra condição para sua entrada na esfera político-partidária da cidade: a de que o protestantismo estava imbricado na vida pública do local, haja vista que grande parte das autoridades, quando de sua chegada, eram protestantes (SILVA, 1990, p. 42).

  Seja lá como for, é importante observarmos que seu envolvimento direto nos assuntos políticos de Arari provém de uma noção formulada e adquirida por um tipo de catolicismo que deveria intervir nas diversas instâncias da sociedade para retomar o poder da Igreja no local e garantir a realização da obra missionária católica, conforme demonstrado na institucionalização e no desenvolvimento das ações empreendidas pela Associação da Doutrina Cristã, a ADC, principal plataforma de sustentação das ações de Brandt. Aliás, à medida que avançam as obras patrocinadas com recursos provenientes da ADC, os conflitos político-religiosos vão se intensificando, principalmente nos jornais de propriedade do padre, tendo em sua figura o principal redator e combatente.

  Os adversários que vão se constituindo ao longo das ações implementadas por Clodomir Brandt passam a ser cunhados pelos próprios adeptos à figura de nosso personagem de “barriguistas”, em alusão ao principal líder da oposição aos feitos do sacerdote católico, Antônio Anísio Garcia, que ostentava em sua região abdominal protuberantes saliências.

  Antônio Garcia chega ao cargo de prefeito de Arari em 1921, ao vencer a disputa eleitoral contra o seu cunhado João da Mata Fernandes, com uma diferença de apenas dezenove votos. Apesar das acusações que apontavam fraude em sua eleição, Garcia consolida-se no poder como a principal liderança política da cidade (BATALHA, 2011, p. 116), posição que ocupa por mais de trinta anos, até a chegada de padre Brandt ao município.

  Apesar disso, uma nova configuração política se estabelece no seio de sua gestão municipal com a ascensão ao poder, no plano nacional, de Getúlio Vargas. A partir da gestão varguista, especialmente com o advento do Estado Novo, em 1937, Arari passa a ser administrada por interventores nomeados. Nesse mesmo ano, Paulo Martins de Sousa Ramos é nomeado Interventor Federal no Maranhão, cuja administração segue até o ano de 1945. Através de laços de amizade estabelecidos com o novo interventor, Antônio Garcia volta a ocupar a cadeira na Prefeitura de Arari, agora não mais como prefeito, e sim como interventor municipal (SOUSA, 2003, p. 21). Porém, sua posição no posto sofreria inúmeras injunções e interferências por parte do novo sistema político vigente no país, fazendo com que se instalasse um estado de intermitência política em Arari, ora com a presença de Garcia no comando da Prefeitura da cidade, ora com o

  28 advento de outros personagens políticos ocupando o referido cargo .

  Com o desembarque de Clodomir Brandt na cidade, o tabuleiro político vigente se altera e passa a contar com um novo personagem em cena, cuja intervenção nos assuntos e debates públicos irá projetar sua figura como elemento não negligenciável no jogo em disputa. É nesse contexto que a oposição ao já denominado “barriguismo” ganha o apoio de peso do padre Brandt, tendo seu envolvimento na política arariense em favor do s opositores aos “barriguistas”, os chamados “padristas”.

  Tais denominações jocosas, esculpidas em consonância à lógica vigente de definição e identificação dos grupos de agentes pelo nome de um dos líderes ou pela característica fenotípica que apresentavam com maior clarividência, remetem às disputas entre os grupos que lhes antecederam, de quem são considerados herdeiros

  29 políticos: os .

  “lucilinistas” e os “marcelinistas”

  30

  começa a se A partir de então, essa disputa entre “padristas” e “barriguistas” instituir como a principal clivagem política local, não se definindo apenas em torno da conquista e manutenção da Prefeitura da cidade, mas também pela disputa da hegemonia partidária local.

  Em consonância com essas pelejas políticas, e de modo indistinguível, se processaram também as lutas pelo monopólio religioso no município, tendo na polarização conflituosa entre católicos e protestantes seu exemplo mais nítido e sintomático, uma vez que Antônio Garcia havia sido convertido ao protestantismo e reunido em torno de si as principais lideranças políticas de orientação religiosa 28 protestante, em concorrência direta aos seguidores católicos de padre Brandt.

  Sobre ess e “vai-e-vem” de Garcia no poder político-administrativo de Arari, consultar Batalha (2011, p. 29 130-136).

  

Os “padristas” sucederam os “lucilinistas”, e os “barriguistas”, os “marcelinistas” (BATALHA, 2011,

p. 148) . Os “marcelinistas” foram assim chamados por conta de seu líder, Marcelino Eduardo Chaves. Já

os “lucilinistas” eram liderados por Lucílio Quintino Fernandes. Os dois grupos foram os protagonistas

das disputas pelo controle do poder político local nas eleições de 1912 para a Intendência Municipal.

Ambos os lados, contudo, eram pertencentes às famílias “tradicionais” de Arari, e ainda estavam ligados

30 por laços de parentescos entre si (SOUSA, 2003, p. 17-19).

  

Sobre a origem e os detalhes dos conflitos entre os seguidores de Antônio Garcia e de padre Brandt,

  Dessa forma, política e religião se tornaram praticamente domínios indissociáveis no exame dos embates políticos e dos conflitos religiosos no interior do Maranhão, ora as lutas partidárias interferindo nas ações evangelizadoras, ora as doutrinas religiosas intervindo na elaboração e implantação de “projetos” políticos, evidenciando, por fim, a precária demarcação de fronteiras entre essas duas esferas.

  As disputas político-partidárias em Arari concentraram-se em torno de apenas dois partidos: PSP e PSD. Clodomir Brandt filiou-se ao Partido Social Progressista (PSP) por volta do ano de 1946, logo assumindo a função de dirigente da sigla, que fazia oposição ao Partido Social Democrático (PSD), legenda

  “situacionista” comandada por Antônio Anísio Garcia. Este ainda exercia forte influência sobre os demais partidos locais, congregando em suas fileiras especialmente dirigentes do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e do Partido Social Trabalhista (PST), entre vereadores, autoridades policiais, magistrados e funcionários da esfera burocrático- administrativa (SOUSA, 2003, p. 22). No entanto, as facções partidárias do PSP e do PSD conseguiram aglutinar em sua circunscrição de influência as principais forças políticas em jogo na época, particularmente representantes (filhos, tios, netos, sobrinhos, etc.) das famílias ararienses mais abastadas que disputavam entre si o poder político municipal.

  Em fins da década de 1940, o partido situacionista (PSD) era composto por três distintos representantes: Antônio Garcia, ex-prefeito e ex-interventor municipal, um dos líderes políticos mais antigos e atuantes da cidade; Teodoro Antônio Batalha, que já havia sido presidente da Câmara Municipal e suplente de deputado estadual; e Cipriano Ribeiro dos Santos, rico fazendeiro, ex-prefeito e ex-delegado de polícia (BATALHA, 2011, p. 152-153). Foi contra estes agentes que o vigário de Arari travou seus maiores combates políticos, utilizando-se para tanto de todos os meios de que dispunha, principalmente os seus veículos de comunicação.

  Dessa forma, visando recompor o poder simbólico da Igreja Católica na cidade, que enfrentava uma forte concorrência religiosa promovida por outras crenças, em especial o protestantismo, e lutar pela conquista política da Prefeitura, a fim de sustentar de forma mais efetiva o conjunto das obras iniciadas e patrocinadas com o limitado capital financeiro da ADC, além de já dispor de certo prestígio e reconhecimento conquistados pelas ações e projetos socioculturais postos em prática, padre Brandt estreia na esfera político-partidária de Arari nas eleições municipais de 1947

  • – já findo o Estado Novo varguista e restituído o sistema democrático eleitoral
  • –, ao lançar, sem êxito, a candidatura de José Soares para prefeito, tendo como concorrente o candidato José Aureliano do Vale, nome indicado por Antônio Garcia que, ao fim do pleito, saiu- se vitorioso.

  Essa primeira experiência político-partidária, ainda que tenha resultado numa derrota eleitoral, rendeu frutos e novos aprendizados a padre Brandt, pois na eleição seguinte, em 1950, sob sua influência, é eleita a prefeita Justina Fernandes Rodrigues (também conhecida como Dona Bembém ou Bembém Fernandes), sobrinha de Antônio Garcia, seu adversário, que havia lançado como candidato o coronel Cipriano Ribeiro dos Santos. Com a vitória eleitoral de Dona Bembém, pela primeira vez na história política de Arari, levando- se em consideração o interregno da “Era Vargas” (1930- 1945), Garcia deixa de ter alguém de sua zona de influência no comando político- administrativo da cidade, o que contribuiu, por outro lado, para a ascensão irrefreável de Clodomir Brandt.

  A administração da prefeita Justina Fernandes, dentre outras realizações, “colaborou financeiramente para a conclusão das obras da igreja matriz e com os empreendimentos da Associação da

  Doutrina Cristã” (FERNANDES, 2012, p. 135), fortalecendo ainda mais o nome de padre Brandt no cenário político arariense. Contudo, é interessante destacar as observações formuladas por Sousa (2003, p. 24), ao afirmar que

  em nenhum momento, a tomada da prefeitura pode ser vista como uma ruptura com as práticas políticas do passado, nem muito menos com o poder econômico dominante. A própria prefeita Justina Fernandes pertencia a uma família de grandes proprietários rurais, que disputa o poder desde o início do século XX. Os embates permanentes entre padristas e barriguistas mostraram a dimensão do interesse pelo poder e o nível de envolvimento desses grupos com os mais altos escalões da política do Estado para se sustentar ou readquirir o espaço perdido.

  Tal perspectiva coaduna-se com a percepção de que, a partir da eleição de Justina Fernandes, padre Brandt angaria uma série de sucessos eleitorais e vitórias em disputas político-partidárias, ainda que sob fortes e casuísticas acusações de fraude, sempre atuando como indicador dos nomes que iriam concorrer aos pleitos pelo lado dos “padristas”, conforme ilustra a seguinte descrição no tocante às eleições de 1954:

  Nessas eleições, ocorreu um fato inédito na política arariense: alegando que o juiz da comarca, Dr. Nodson Jansen Penna de Melo, estava protegendo o Pe. Brandt, e seus partidários, com uma incontestável fraude eleitoral, os políticos do PSD se recusaram a votar e recomendaram aos seus partidários que não comparecessem às urnas, pois o pleito seria nulo, pelo fato de o juiz ter entregue todo o material das eleições ao Pe. Brandt e seus fiscais, e impedido os políticos do PSD de fiscalizarem a votação. Mesmo assim, houve a eleição, denunciada e tida como fraudulenta, mas validada pelo juiz eleitoral da comarca. Com essa decisão, o Pe. Brandt elegeu todos os nove vereadores que compunham a Câmara Municipal (BATALHA, 2011, p. 142).

  Observa-se no relato acima que o sacerdote Brandt mantinha estreitas relações também com as elites político-burocráticas da cidade. Tais redes de contatos transpassaram praticamente todas as obras públicas que fundou na cidade, pois sempre contava com a presença de figuras ilustres dos altos escalões da hierarquia social e política quando de suas inaugurações, não só municipais, mas também estaduais e nacionais. Isso se deve, principalmente, ao fato de que sua inserção no cenário político local o colocou em contato direto com os grupos dominantes de Arari e com as forças que dirigiam o Governo Estadual, quer fossem as elites rurais, políticas, econômicas ou administrativas.

  Não se pode desconsiderar também o apoio decisivo de seu tio Cláudio, à época presidente do Banco Rural do Maranhão, um dos maiores financiadores dos projetos desenvolvidos por padre Brandt e mantidos através da ADC, que com seu prestígio junto ao interventor Paulo Ramos facilitou os contatos do sacerdote com membros dirigentes de diferentes segmentos e esferas sociais, regionais e nacionais (BATALHA, 2011; FERNANDES, 2012).

  Dispondo desse capital social e de certo capital político acumulado por suas experiências eleitorais, padre Brandt lança-se candidato à Prefeitura de Arari, em 1959, disputando a preferência do eleitorado com o seu ex-aliado Benedito de Jesus Abas (conhecido também como Biné Abas). Foi a primeira e única vez que os padristas se dividiram. Aproveitando-se do afrouxamento dos laços entre os representantes do PSP, os partidários do PSD decidiram apoiar Biné Abas, que venceu aquele pleito com pequena margem de diferença de votos.

  Padre Brandt ainda teria fôlego para disputar as eleições municipais de 1962, onde foi eleito vereador de Arari com 320 votos. Este foi o primeiro mandato eletivo conquistado pelo sacerdote. Com o advento do Golpe de 1964 e, em seu bojo, a implantação do bipartidarismo no país e o sistema de eleições indiretas, padre Brandt e seus seguidores, assim como seus outrora opositores barriguistas, cerram fileiras na situacionista Arena, o partido do governo militar, sigla pela qual conquista seu segundo mandato de vereador, no pleito de 1966, e o terceiro, já em 1970.

  Observa-se que a movimentação política de Clodomir Brandt visa tão somente a manutenção de seu poder e de sua influência no jogo político local, o que justifica integrar um partido que apoia o recém instaurado regime militar (Arena)

  • – que suprimiu o pluralismo partidário e estabeleceu o bipartidarismo, concentrando as atividades político-partidárias em torno da Arena e do MDB

  , partido de “oposição consentida” pelo governo dos militares

  • – e é composto pelos seus principais opositores de outrora. Além disso, a conquista de dois novos mandatos de vereador por um sacerdote que já exercia certo domínio político em Arari, numa conjuntura de “crise” política e de

  “conflitos sociais”, sugere que as transformações históricas em curso no país não incidiram de modo decisivo na ruptura de laços políticos estabelecidos nas regiões periféricas entre as elites locais e os novos agentes políticos do governo federal. Pelo contrário, pode-se mesmo inferir que houve um fortalecimento desses laços à custa de rearranjos políticos que, em vez de apontar para um estado de reificações de cizânias intra-faccionais, significou um realinhamento dos interesses das classes dominantes em jogo, sob a chancela do regime de exceção.

  Assim, no ano de 1972, padre Brandt disputa pela última vez um cargo eletivo e, novamente, o de prefeito de Arari, contra o mesmo candidato que já o havia derrotado em 1959, Biné Abas. Também nessa ocasião a disputa eleitoral pelo comando do Poder Executivo municipal lhe imputou nova derrota, devido à desistência das candidaturas do MDB, que decidiram em conjunto apoiar Biné. A partir dessa última desventura eleitoral, o vigário de Arari decide não mais concorrer a nenhum cargo político e passa a se dedicar de forma mais incisiva à literatura, mas seu protagonismo e influência na vida política da cidade permaneceriam até o fim de seus dias (BATALHA, 2011, p. 175-178).

  Apesar de ter dado continuidade à sua carreira política até o ano de 1972, consta na edição de 6 de maio de 1965 do jornal “NOTÍCIAS” uma declaração do pároco sobre o encerramento de sua interferência, a partir daquela data, no processo político de Arari, a qual vale a pena reproduzir aqui:

  O povo de Arari já se considera bastante amadurecido e já pode dispensar, na solução dos seus problemas políticos internos, a minha orientação. Por isso, é chegada a hora de afastar-me das coordenações de caráter eleitoral para dedicar-me exclusivamente às obras de apostolado no sentido estrito.

  Aliás, quero frisar: o que fiz, no plano político, sempre o fiz com a intenção de servir a esse povo, sem nenhum interesse de caráter pessoal. Nossa gente precisava ser politizada e meu esforço foi para conseguir tal efeito. Hoje, com a consciência tranquila de quem cumpriu o dever, recolho-me ao silêncio. Se, mais tarde, o interesse da comunidade o exigir, estarei pronto para colaborar para o bem coletivo (FERNANDES, 2012, p. 195. Grifo nosso).

  Com efeito, pode-se analisar a lógica do “interesse no desinteresse”

  (BOURDIEU, 2010) manifesta na fala do sacerdote, que afirma ter intervido no plano político de Arari “com a intenção de servir a esse povo, sem nenhum interesse de caráter pessoal”. Tal perspectiva coaduna-se ainda com o fato de que ele acreditava ser necessária sua intervenção na esfera político-partidária local para garantir

  “a politização que sua gente precisava”, uma vez que ele julgava estar “apto” ou ser o único capaz de reunir as condições mínimas para solucionar os problemas sociais que considerava legítimos.

  Em última análise, o texto do padre Brandt acaba reunindo em si uma ambiguidade particular, pois ao mesmo tempo em que declara ter “cumprido o seu dever” de politizar a população arariense, coloca-se uma vez mais à disposição “para colaborar para o bem coletivo”, evidenciando assim certa “mágoa” com o povo que dispensou sua “orientação” e não o elegeu prefeito quando de sua primeira candidatura ao cargo municipal, porém deixando brechas para uma nova oportunidade, como de fato ocorreu sete anos mais tarde, tendo sido derrotado novamente nas eleições para o comando da Prefeitura da cidade.

  Cabe destacar, no entanto, que embora no auge das obras de desenvolvimento educacional e cultural promovidas em Arari, colocadas em prática pela ADC e sob a supervisão imediata de padre Brandt, que contava então com os significativos recursos oriundos de sua parceria com a Prefeitura, ainda na gestão de Bembém Fernandes, o que rendeu ao município alguns anos de dinamismo econômico e social, a situação política da cidade não se estabilizou em nenhum momento.

  Pelo contrário, foi a partir da primeira vitória eleitoral do grupo liderado pelo Pe. Brandt, no ano de 1955, que as disputas pelo controle hegemônico do poder político municipal entraram numa fase de recrudescimento das hostilidades entre “padristas” e

  “barriguistas”, inclusive em atos de violência armada, que tiveram nas forças de

  31

  segurança do Estado seus locupletados protagonistas . Vivia-se o tempo de ascensão e consolidação política da figura do senador Vitorino Freire, que emergiu no cenário político nacional com o fim da “Era Vargas” e, consequentemente, com a saída de cena, no âmbito regional, do interventor Paulo Ramos, amigo estreito de Cláudio Brandt, tio do nosso personagem. As disputas políticas de então exigiriam de padre Brandt muito mais disposição e tomadas de posição, seja nas lides diárias, dentro do partido ao qual era filiado (PSP), ou nas batalhas simbólicas travadas em seus veículos de comunicação.

2.3.2 A guerra política na imprensa

  As constantes vitórias políticas alcançadas por padre Brandt renderam-lhe a elevação de seu prestígio junto aos seus seguidores, ao passo que resultaram no acirramento dos ânimos por parte dos seus opositores. A euforia de um lado contrastava com os ressentimentos do outro. E isso passou também a se refletir nos veículos midiáticos existentes tanto no município quanto na capital, fazendo com que as disputas e os conflitos entre padristas e barriguistas ficassem conhecidos praticamente em todo o Estado do Maranhão. Segundo o historiador João Batalha (2011, p. 152), o Boletim Paroquial, semanário composto e impresso em Arari e dirigido pelo Pe.

  Brandt, era impiedoso com os adversários, que, no entanto, tinham no Diário Popular, de São Luís, espaço para responder às investidas do Pe. Brandt, com a mesma linguagem e no mesmo nível.

  A guerra política travada na imprensa toma contornos mais nítidos quando se observa o seguinte relato de padre Brandt sobre a “invasão” da Polícia Militar do 31 Maranhão em Arari, a respeito do conflito já mencionado, cujo título e subtítulo são:

  

O conflito armado que resultou na invasão da sede da ADC e no fuzilamento da Casa Paroquial, onde

estava a mãe de Clodomir, pelas forças policiais vindas da capital São Luís, foi motivado pela luta

corporal entre um policial e um vendedor do jornal “BOLETIM PAROQUIAL”, de propriedade do padre

Brandt, em meio ao clima de guerra política existente no município entre partidários do barriguismo e do

padrismo. Com a intervenção do sacerdote no caso, que contou ainda com o apoio da população, o

delegado local não conseguiu efetuar a prisão do jornaleiro, com o agravante de ter suas armas e as de

seus comandados tomadas pelos populares, que as entregaram à prefeita Justina Fernandes. Diante da

recusa desta em devolvê-las à autoridade policial local, foi designado um destacamento da capital para

Arari com a missão de reaver as armas. Mesmo com a devolução das mesmas, as forças policiais

promoveram atos de vandalismo e terrorismo na cidade. Para saber mais sobre este assunto, ver Sousa

(2003, p. 39-48) e Batalha (2011, p. 151-160).

  “Um atentado inolvidável e covarde paralisou a vida de Arari por dois meses. Fechadas todas as instituições paroquiais

  • – Comércio reduzido – Um povo sob terror”.

  No dia 24 de outubro [de 1955], a cidade de Arari foi inopinadamente invadida por soldados da Polícia Militar do Estado, vindos em uma caminhonete do senhor José Frias pela estrada que liga Arari a Miranda. Viajaram no mesmo transporte Otaviano Araújo, vulgo Dedé, Coletor Estadual, e Hoendel Hayden Silva, Tabelião. Estes dois senhores, segundo informações seguras, serviram de orientadores dos soldados na empreitada infame que vinham realizar.

  Hoje já não resta mais dúvida alguma sobre a finalidade do atentado. Era a morte do pároco de Arari, Cônego Brandt e Silva, e a pilhagem dos bens da Paróquia.

  Foram organizadores, em São Luís, o delegado de polícia Leovegildo Pinto e Theodoro Antônio Batalha, que convenceram o coronel Amorim, chefe de Polícia, de que o Cônego Brandt e a prefeita Justina Fernandes Rodrigues estavam com duzentos homens armados para enfrentar a força pública.

  O desejo do delegado Léo Pinto era chegar a Arari à meia noite de 23 para 24 quando encontraria o Cônego Brandt dormindo em sua residência (...). Se tal houvera acontecido, o Cônego Brandt teria sido morto, assim como sua veneranda mãe Carolina Brandt e mais umas duas dezenas de crianças. Isto porque os soldados vinham armados de fuzis e metralhadoras de mão e tinham ingerido muito álcool (FERNANDES, 2012, p. 181-182. Grifo nosso).

  Observa-se no relato sobre o violento episódio ocorrido em Arari que padre Brandt acusa publicamente seu adversário político Theodoro Batalha de ter sido ele, junto com o delegado e ex-vereador barriguista Léo Pinto, rico proprietário de terras e dono de engenhos de açúcar (SOUSA, 2003, p. 31), os “organizadores” da invasão ao município e de seu posterior atentado. Ao construir discursivamente o fato, o pároco coloca- se na posição de “vítima” e seus adversários de “agressores”, aumentando assim a dicotomia política reinante entre padristas e barriguistas e, consequentemente, projetando positivamente sua imagem na cena política estadual.

  Em outro texto de sua autoria, veiculado no seu “A Voz de Arari”, por volta de dezembro de 1953, quando da organização de um comício em apoio à candidatura de Henrique de La Roque para o Senado Federal, em concorrência ao candidato apoiado por Vitorino Freire

  32

  , Clodomir Brandt não poupou palavras para expressar suas críticas a este último:

32 Vitorino de Brito Freire foi o principal líder político combatido pelas forças políticas que se opunham

  

ao seu “mandonismo” na esfera política do Maranhão. Apesar de não ser maranhense (nasceu na cidade

de Pedra Buíque, em Pernambuco, em 28 de novembro de 1908), Vitorino foi eleito deputado federal pelo

Maranhão em 1946, abdicando do mandato para disputar uma vaga ao Senado Federal, tendo sido senador

por três mandatos consecutivos: 1947-1955, 1956-1963 e 1964-1971, todos pelo PSD, cargo a partir do

qual exerceu grande influência sobre a política e os políticos maranhenses até o ano de sua morte, em

1977. Dentre eles José Sarney, que foi “apadrinhado político” de Vitorino quando de sua entrada no

âmbito do Legislativo, tendo assumido um mandato de deputado federal em 1956, aos 26 anos, na

condição de terceiro suplente, adquirida dois anos antes quando disputou sua primeira eleição, sob as

  O senhor Carvalho Guimarães possuía predicados que pudessem merecer os sufrágios dos seus conterrâneos, mas vinha sua candidatura encapada por uma política rebarbativa, tendo por chefe um indivíduo que além de não ser maranhense, ainda pretendia infelicitar o Maranhão que o acolheu, corrompendo as nossas reservas de dignidade, inteligência e civismo; pois de todos os meios se serve tal chefe para se alçar ao poder, pelo suborno, pela fraude, pela violência e insultos soesses, enfim, por costumes usados por elementos de uma civilização decadente e corrupta (SOUSA, 2003, p. 29. Grifo nosso).

  Convém salientar, contudo, que a reverberação, a nível estadual, dos conflitos ocorridos em Arari foi disseminada pelos principais veículos de comunicação que tinham interesses na contenda municipal, alinhados que estavam a algum dos lados na disputa política arariense. O jornal “DIÁRIO POPULAR”, por exemplo, em meados da década de 1950, era o órgão de comunicação de Vitorino Freire a serviço dos barriguistas, enquanto que o “JORNAL DO POVO”, seu contemporâneo na capital,

  33

  , estava a serviço dos padristas (ibid., veículo impresso das “Oposições Coligadas” 2003, p. 25).

  Isso demonstra, em um nível macropolítico, que as disputas travadas em Arari representavam também os interesses dos grupos que se digladiavam pelo controle do poder político a nível estadual, evidenciando assim que as relações tecidas pelos agentes em conflito não se restringiam apenas ao âmbito da municipalidade. Como exemplo disso, destaca-se a amizade tecida, no calor das pelejas, entre padre Brandt e o jornalista

34 Neiva Moreira , figura prestigiada na imprensa e na política maranhenses e um dos principais líderes oposicionistas à política praticada por Vitorino Freire no Estado.

  Mesmo após o rompimento dos laços políticos entre eles, no início da década de 1960, quando o jornalista adere ao Partido Democrático Trabalhista (PDT) e o sacerdote une-

  

bênçãos do que os adversários chamaram de “vitorinismo”. Sarney foi o grande aliado e, posteriormente,

33 o principal adversário de Vitorino no jogo político maranhense. Sobre este assunto, ver Buzzar (1998).

  

Sobre as “Oposições Coligadas”, consórcio de figuras políticas de diferentes facções alinhados para

34 fazer frente ao poder político do senador Vitorino Freire no Maranhão, ver Buzzar (1998).

  

Nascido em Nova Iorque do Maranhão, a 10 de outubro de 1917, José Guimarães Neiva Moreira era

jornalista e foi presidente nacional do PDT, tendo sido um dos fundadores da legenda no Maranhão.

Ingressou na vida política no início dos anos de 1950, tendo conquistado os mandatos de deputado

estadual (1951-1955) e de deputado federal por duas legislaturas consecutivas (1955-1959 e 1960-1964),

todos pelo PSP. Pelo PDT maranhense, Neiva Moreira foi novamente deputado federal, de 1993 a 1994,

de 1997 a 2000 e de 2001 a 2004. Ao liderar a Frente Parlamentar Nacionalista na Câmara dos

Deputados, em 1961, se aproximou de Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, de cuja

relação e atuação política nasceu o Partido Democrático Trabalhista (PDT). No plano nacional, foi um

dos principais opositores políticos do regime militar, tendo sido opositor, a nível regional, à candidatura

de José Sarney nas eleições de 1965, que era apoiado pelo presidente general Castelo Branco, o que lhe

rendeu a prisão e o envio para o exílio na Bolívia, retornando ao Brasil somente com a decretação da Lei

n. 6.683, de 28 de agosto de 1979, a chamada “Lei da Anistia”, que concedeu o “perdão” a todos os que

cometeram “crimes políticos” no período compreendido entre 2 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979. Neiva Moreira faleceu em 10 de maio de 2012, vítima de infecção respiratória pulmonar. se ao novo partido “conversador”, a Arena, ambos mantiveram laços de amizade e respeito recíproco, conforme se pode observar no seguinte trecho de artigo escrito por

  Neiva Moreira:

  Convivemos um longo período de nossas vidas e jamais encontrei nele, nem nas confidências fraternas, no convívio social ou no tumulto e nos encontros das grandes lutas, um momento de desânimo, de renúncia, mesquinhez e ódio racional. No meu exílio de 15 anos, o perfil de sua atuação evangélica esteve sempre presente e quando retornei ao Maranhão, logo nos reunimos para um balanço, sem a marca dos rancores, daqueles anos de chumbo, que não demoliram as nossas convicções nem nos afastaram da linha, em nossas vidas (FERNANDES, 2012, p. 151).

  Outro episódio que explicita a guerra travada na imprensa pelos partidários de padre Brandt e seus opositores barriguistas/vitorinistas refere-se à questão dos cercamentos realizados ainda durante a gestão municipal da prefeita Justina Fernandes, que teria ordenado fechar com arame farpado as terras griladas do ex-vereador e delegado de política Leovegildo Pinto, o mesmo acusado de ter sido um dos mandantes do suposto atentado contra a vida de padre Brandt. Sobre este assunto, assim se expressou o sacerdote em seu jornal

  “NOTÍCIAS”:

  Consumado o seu ato de depredação, deixando centenas de famílias abatidas pelo desgosto de ver os filhos chorando a falta do necessário que obtinham pelo labor agrícola dos seus pais, o senhor Leovegildo Pinto, responsável por esse ato desumano, ficou à espreita de nova tentativa dos trabalhadores como um tigre saciado espreguiçando-se, alapardado de sobreaviso sobre o resto de sua presa (SOUSA, 2003, p. 32).

  Como exemplo de uma resposta dada à altura da linguagem utilizada por padre Brandt em seus ferozes relatos, o jornal “DIÁRIO POPULAR” publicou um texto criticando a gestão da prefeita Justina Fernandes. Tais críticas estão circunscritas no contexto de sucessivas vitórias e aumento de prestígio do vigário de Arari em detrimento da perda de espaço e de poder político de seus opositores:

  O que se tem visto em Arari causa nojo e revolta. Instalou-se naquele infeliz município uma comandita ao serviço do mal, capitaneada precisamente por quem deveria antes, pelos seus misteres profissionais, espalhar o bem e difundir a verdadeira doutrina da fraternidade cristã. Arvorado de chefe político, Clodomir Brandt despiu-se das vestes que lhe impunham a dignidade do sacerdócio cristão, trocando-a pela de lobo faminto e voraz para atacar traiçoeiramente os que não lhe ouvem os uivos aterrorizantes (ibid., 2003, p. 35. Grifo nosso)

  Já no decorrer da década de 1960, padre Brandt viria a travar uma nova querela política na imprensa, desta vez com os membros que integravam o “Grêmio Arariense dos Estudantes ” (GAE), fundado em junho de 1963 e, posteriormente, transformado na

  Fundação Cultural de Arari. O grupo era composto por estudantes secundaristas e universitários, todos filhos e filhas das famílias abastadas ararienses (proprietários de terras, donos de engenhos de açúcar, comerciantes, etc.). Conforme descreve um dos seus “pais-fundadores”, o historiador João Francisco Batalha (2011, 163), uma das fontes utilizadas neste trabalho sobre a história de Arari,

  inspirado por movimentos de esquerda que dominavam a juventude brasileira à época, o GAE era uma instituição sem fins lucrativos, com o objetivo de pugnar pela evolução econômica, política e social de Arari, provendo a preparação do jovem arariense para o desempenho do seu papel na vida social e envidando esforços pela solução dos problemas do estudante e da comunidade arariense (ibidem).

  Assim constituídos, o GAE adquiriu no final de 1964 um serviço de alto-falante chamado de “Voz Arariense dos Estudantes”, e em São Luís, um programa radiofônico, batizado de “Panorama Estudantil”, transmitido pela Rádio Educadora do Maranhão. Não obstante, foi fundado ainda um periódico impresso intitulado “VANGUARDA”, principal canal de comunicação e de divulgação das ações dos jovens ararienses. Foi através desses instrumentos que os estudantes começaram a rivalizar com os adeptos do “padrismo” e a liderança política exercida por Pe. Brandt. Vale destacar que a soma destes esforços na obtenção de tais canais midiáticos e na conquista de espaços comunicacionais na capital do Estado é reveladora do capital político, social e financeiro de que dispunham os integrantes do GAE, tecendo e mantendo laços de amizade e de reciprocidade junto às elites políticas de nível estadual.

  A título de exemplificação dessa nova disputa política travada por Brandt e os estudantes ara rienses, logo no editorial de estreia do “VANGUARDA”, em outubro de

  1964, o periódico responde aos insultos do pároco que os havia chamado de “subversivos” e “inimigos de Arari” por conta da exigência da gratuidade no uso do ginásio fundado por Brandt: “lamenta o pensar de quem, querendo manter ali apenas o seu ginásio pago, classifica os gremistas de inimigos de Arari, em virtude da entidade pleitear um ginásio gratuito para a cidade” (FERNANDES, 2012, p. 158).

  Em outro artigo, datado de julho de 1965, os articulistas do “VANGUARDA” assim se expressam sobre padre Brandt e suas ações em Arari:

  A par do seu acerto até certo tempo, de suas obras e realizações consideráveis e do valor que representou para a sua época, responde hoje por uma soma infindável de pecados, desde a educação autocrata, geradora de revolta e recalques até os modelos de corrupção administrativa, observando-se uma descida vertiginosa e incontrolável em direção ao nada (ibid., 2012, p. 159).

  Não obstante, convém salientar ainda um trecho de um dos textos de maior repercussão no município de Arari, também veiculado no jornal “VANGUARDA”, do GAE, intitulado “A indústria da ignorância”, datado de agosto de 1965:

  A politização do povo, que julgávamos vir sendo feita em Arari por quem à educação dizia dedicar-se, chega a manifestar-se um mito. 20 anos vem sendo transmitida uma instrução que longe está de educação e conscientização, chegando mesmo a haver um interesse na manutenção da ignorância, pois à sua sombra suas ambições se articulam melhor e repousam certas conveniências. (...) Fazer a indústria da ignorância é convencer os seus adeptos que seus excessos são virtudes mesmo quando enxovalham, com agressividade, a vida pública e particular de qualquer adversário, não conseguindo esconder a sua vocação caudilha; é valer-se da discriminação, colaborando para que o ódio e o fanatismo da gente arariense ande à flor da pele, abrindo fronteiras e distâncias; é afastar da igreja os seus adversários políticos, sob a pecha de “inimigos da religião”, após haver criado com a sua interferência política o problema que os separou, gerando-lhes frustração espiritual e conflitos; fazer a indústria da ignorância é confundir, deliberadamente, política e religião, misturando os dois planos, permitindo o trucidamento dos valores maiores; é pregar entre os seus que os católicos que se afastaram são homens e mulheres sem consciência, sem fé, sem religião e sem moral, como se fora ele a medida da consciência, da fé, da religião e da moral; (...) é ousar enfrentar em guerra os avanços, reformulações de conceitos e novas conquistas da atualidade que venham de encontro aos seus interesses, pregando a discriminação religiosa para salvaguardar a sua política (ibid., 2012, p. 161-162. Grifo nosso).

  É nítido que as discrepâncias ideológicas e de visões de mundo sobressaem dos textos do jornal do GAE com certa fluidez e acidez, uma vez que, de certo modo, boa parte dos jovens secundaristas e universitários integrantes do Grêmio Arariense foram alunos do padre Brandt ou tiveram contato com sua vasta produção cultural e educacional na cidade. Curioso, no entanto, observarmos que à medida que o tempo avança em seu curso, os novos agentes que vão se estabelecendo na vida política de Arari ingressem nas fileiras daqueles que se posicionam contra a política desenvolvida pelo pároco, seja pela sua postura “autocrata”, de viés “conservador”, ou pela sua entrada no partido dos militares golpistas, a Arena, tendo nos jovens ararienses do GAE membros e futuros membros integrantes do MDB, o outro partido permitido por lei durante o regime militar, que fazia oposição ao partido situacionista.

  Cabe mencionar ainda que os ataques e as defesas verbais do pároco em relação às ações e aos posicionamentos de seus adversários políticos dimensionam o grau de envolvimento do religioso na esfera político-partidária de Arari, onde “religião e

  “modalidades de intervenção” (SAPIRO, 2012) de que lançava mão naquele momento, a língua escrita, revelando assim práticas e representações, discursos e ações que remetem a um destemperamento não muito usual para um sacerdote da Igreja Católica, que “pregava a discriminação religiosa para salvaguardar a sua política”.

  O desapossamento de tais características passa a ser utilizado pelos adversários do padre como o principal discurso de “deslegitimação” de sua intervenção na esfera política da cidade, julgada incompatível com a figura imaginada de um sacerdote que deveria disseminar “o bem”, mas que acaba afastando os adversários políticos da Igreja, sob a pecha de “inimigos da religião”, misturando deliberadamente os dois planos.

  O exame da imbricação entre essas duas esferas através da atuação do vigário de Arari revela que a hibridização do ofício sacerdotal não se estabelece sem antes a edificação de uma lógica de justificação que confira legitimidade a tais ações e intervenções exógenas ao âmbito confessional. O que explica, em parte, o ardor das palavras e a dedicação à escrita como instrumento de legitimação das ações híbridas do pároco político e educador, escritor e militante partidário, cujos recursos acumulados fornecem as disposições basilares de sua intervenção frente aos problemas oriundos da política e do mundo social (SEIDL, 2009b).

  Talvez, o texto que melhor expresse essa lógica de justificação elaborada e difundida pelo nosso personagem através de seus escritos seja o descrito abaixo, retirado do quarto volume de seus Escritos sem ordem e redigido no ano de 1967:

  Sou político. Qual o homem normal, na época atual, e no mundo de hoje, e em regiões como a nossa, que não o é? (...) Seria duro demais, e muito desumano, não participar do processo que tem por finalidade a melhoria de vida do povo. Não só do espiritual, mas também do material, que é igualmente sagrado. Não me conformo em ser só sacerdote da alma. Penso também no que é do corpo. (...) Não sou de ferro ou de cimento armado para não reagir diante da injustiça. Como poderia ver o meu vizinho lutando e sofrendo, e ficar indiferente? (...) Estamos em guerra, numa guerra terrível onde o sangue foi substituído pela fome que se alastra, pela falta de oportunidade, pela falta de higiene e de saúde, pela falta, enfim, de tudo aquilo que dá ao homem um sentido humano. E cruzar os braços, nesta hora e neste lugar, seria uma traição ao povo e a si mesmo, como é uma traição o homem válido fugir ao dever de empunhar a arma quando a Pátria está ameaçada. Estou certo? Estou errado? Não quero saber. Tomei a atitude que me ditava a consciência, e aqui estou! (SILVA, 1992, p. 4-5. Grifo nosso).

  Através destes escritos, padre Brandt tenta estabelecer uma correlação entre a atividade sacerdotal e o “ser político”. Para o sacerdote, não é possível “não reagir diante da injustiça”, pois “seria duro demais, e muito desumano, não participar do processo que tem por finalidade a melhoria de vida do povo”. Assim, ao não se conformar em ser apenas “sacerdote da alma”, Brandt cria, através dos usos sociais que faz das heterodoxias que influenciam a atuação de padres no Maranhão de meados do século passado, as bases de legitimação de sua intervenção religiosa na esfera política.

  Observa-se nestas linhas traçadas pelo padre Brandt a influência dos condicionantes teológicos em pleno processo de difusão, dentro e fora da Igreja, sustentados pela “Teologia da Libertação” que, em 1967, pautava as discussões religiosas pós-Concílio e animava os debates que antecederam a Conferência de Medellín, realizada no ano seguinte (MAINWARING, 2004, p. 105).

  Ainda que os princípios emanados por essa teologia não tenham sido suficientes para impor uma espécie de “filiação” ao sacerdote escritor e que suas ações no campo da “cultura” e da “política” possam ser interpretadas como “progressistas”, minimamente forneceu-lhe subsídios ideológicos para legitimar sua intervenção e compor suas interpretações sobre o mundo social num contexto em que estas discussões teológicas e ideológicas estavam presentes, demonstrando, em última análise, o grau de penetração do discurso da “libertação” entre os clérigos maranhenses, presente no repertório de atuação de um sacerdote vinculado às elites locais e participante ativo das disputas políticas entre os grupos dominantes ararienses.

2.4 Da ação política ao reconhecimento “intelectual”

  Pe. Clodomir Brandt passou a ser reconhecido como “intelectual consagrado” somente após anos a fio dedicados à vida pública, à política e ao desenvolvimento de projetos sociais, educacionais, culturais e econômicos que julgava fundamentais para sua ação missionária evangelizadora no município de Arari. Após a segunda derrota eleitoral, no ano de 1972, quando disputava o comando da Prefeitura da cidade, o pároco passou a se dedicar mais à atividade literária.

  Todos os livros de sua autoria que vieram a ser publicados, computando um total de vinte e seis títulos (ver lista completa no anexo I), a maioria sendo lançados por sua própria editora “Notícias de Arari”, homônima do jornal com o qual ele havia travado inúmeros combates políticos-midiáticos

  • – ambos (jornal e editora) frutos do parque gráfico que ele adquiriu através da ADC e a partir do qual ele fundou a Escola de Artes Gráficas da cidade
  • – foram escritos a partir da década de 1980. Seu primeiro livro, um romance intitulado Folha miúda: minha dor, data do ano de 1983, quando o sacerdote já computava 66 anos de idade.

  A partir daí as honrarias recebidas, algumas póstumas e outras ainda em plena existência, acabaram por consagrar a vida e a obra do sacerdote Clodomir Brandt e Silva, reconhecido tanto por sua destacada atuação evangelizadora quanto por sua marcante participação na esfera política da cidade, consubstanciada nas centenas de textos veiculados em seus canais de comunicação impressa e falada, bem como por sua ampla produção escrita e literária.

  No âmbito eclesiástico, já no final de sua existência, Clodomir Brandt foi condecorado com os títulos honoríficos de “cônego” e, depois, de “monsenhor”, honrarias concedidas pela hierarquia da Igreja a sacerdotes que, de alguma forma, se destacaram em seu ofício religioso. Já na esfera cível, recebeu o título de Cidadão Arariense, aprovado por unanimidade pela Câmara Municipal, e a Medalha do Mérito do Trabalho, no grau de oficial, concedida pelo Tribunal Regional do Trabalho da 16ª Região (TRT-MA).

  No tocante às instâncias de consagração “intelectual”, monsenhor Clodomir foi agraciado, ainda vivo, com o diploma de Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão. Postumamente, foi elevado à condição de patrono da Cadeira nº 09 da Academia Arariense-Vitoriense de Letras. Depois disso, seu nome foi homenageado dando identidade a duas escolas e à biblioteca municipal de Arari, podendo ser visto também numa praça, duas ruas (Rua Padre Clodomir e Rua Escritor Brandt e Silva) e no seu

  “Memorial Padre Clodomir Brandt e Silva”, situado na mesma casa em que o sacerdote residira durante toda sua vida na cidade nascida às margens do rio Mearim.

  Observa-se que no trajeto pessoal de padre Brandt a escrita tornou-se não apenas um trunfo do qual o nosso personagem lançou mão a seu bel prazer, mas efetivamente um dos principais instrumentos de luta simbólica pela produção, reprodução e imposição de representações sobre o mundo social, combinando prestígio social com a autoridade institucional delegada pela Igreja. O que não ocorreu de modo aleatório, e sim através de uma imbricada teia de relações sociais, pelas quais padre Brandt tornou- se conhecido e reconhecido (capital social), acionada pelo agente em foco (de forma mais ou menos consciente), principalmente pelos laços familiares, como no caso do apoio constante e decisivo de seu “tio Cláudio” em relação à ajuda financeira, via instituição bancária, que financiava e mantinha as obras e ações da Associação da Doutrina Cristã (ADC), presidida por padre Brandt em Arari.

  Além do acúmulo de capital social, nutrido pelas redes de relações sociais às quais o sacerdote estava envolvido, Clodomir Brandt diferenciou-se também pela posse dos meios de manipulação simbólica (principalmente canais de comunicação como jornais e sistema de alto-falantes, além do cinema, teatro e escolas de sua propriedade), através dos quais sua atuação religiosa começou a incidir, de forma mais significativa, nas esferas da política e da cultura ararienses.

  O acionamento destes recursos por um agente da Igreja Católica evidencia o grau de heteronomização e de imbricação entre as esferas religiosa, cultural e política no Maranhão, particularmente no interior do estado, onde as especificidades de um município como Arari exemplificam o dinamismo e as estratégias formuladas pela instituição eclesiástica, principalmente para fazer frente às crenças e práticas que rivalizavam com o catolicismo (maçonaria, religiões de matriz africana e protestantismo), e assim garantir a manutenção e promover a expansão de sua influência perante a sociedade local.

  Isso fica ainda mais evidente quando da inserção do padre Brandt na esfera político-partidári a de Arari, cuja “missão” surge inicialmente diante da constatação de que muitos protestantes fazem parte dos grupos políticos da cidade, ocupando cargos públicos e mandatos eletivos. Tais observações teriam sido o combustível que motivou padre Brandt a se candidatar e exercer três mandatos de vereador e perder duas eleições para prefeito de Arari. Somente com o advento de novos condicionantes históricos e sociopolíticos é que o sacerdote tenta fundamentar sua intervenção na esfera política diante da “injustiça” social.

  Desta feita, a lógica da justificação apresentada por padre Brandt para intervir fora do âmbito confessional e mesmo para legitimar e estabelecer a demarcação de novas fronteiras entre religião, cultura e política ancora-se diante d o exame do “avanço” institucional de outras crenças rivais ao catolicismo e da consternação individual frente aos “problemas sociais”.

  Outrossim, cabe ainda destacar que à medida que as ações “inovadoras” de padre Brandt nas esferas da política e da cultura arariense vão se ampliando por toda a cidade, ressoando inclusive na capital do Estado, sendo noticiadas em jornais de grande circulação em São Luís, o nosso personagem conquista tanto admiradores quanto inimigos poderosos, conforme se pôde analisar no protagonismo exercido por Brandt diante do conflito armado na cidade, onde os principais grupos rivais (padristas e barriguistas) chegaram ao ápice da violência e intolerância político-religiosa.

  Por fim, todas as honrarias já citadas foram concedidas ao nosso personagem como ato consagrador da vida que teve e dos serviços prestados à população arariense, obtendo reconhecimento inclusive de seus opositores políticos de outrora. Se por um lado as homenagens serviram como uma espécie de “salvo-conduto” ao padre que, em vida, atraiu seguidores e adversários, por outro revelam que o ato de consagração do sacerdote é a consagração da própria cidade e daqueles que a esculpiram política, social, cultural e economicamente. Haja vista que as singelezas foram concedidas pelos descendentes e remanescentes das mesmas famílias políticas que disputavam o poder local no fulgor dos anos de 1950 até à efervescência dos anos de 1970-1980, representados tanto nos cargos e postos que ocupam atualmente, quanto na pesquisa e disseminação das fontes que contam a própria história da cidade e de seus ilustres filhos, caso das apreciadas no capítulo que ora finda.

  

CAPÍTULO 4:

JOấO MOHANA E A AFIRMAđấO INTELECTUAL DO SACERDOTE: os usos

  sociais da escrita Neste quarto e último capítulo, abordar-se-á as características sociais (origem familiar, perfil social dos pais, formação escolar, redes de relações, instâncias de inserção, condicionantes de “entrada” no mundo sacerdotal), concepções de política, de cultura e de ação evangelizadora, e a intensa produtividade cultural do padre e escritor João Mohana, cujo nome se apresenta como um dos mais atuantes sacerdotes da Igreja Católica no Maranhão, especialmente no domínio “intelectual”, onde se notabilizou nas áreas da literatura, ensaio, teatro, música e pesquisa histórica.

  Além de ter atuado profissionalmente como médico, professor e conferencista sobre temas espirituais, psicológicos e conjugais (como o casamento, a sexualidade, fidelidade, conjunção carnal, etc.), Mohana apresenta em sua trajetória registros de engajamento militante no movimento leigo católico antes mesmo de se tornar padre e, após a ordenação sacerdotal, participação ativa nos movimentos da juventude universitária, colaborando na formação de futuras lideranças eclesiais e intervindo no mundo social através de uma intensa produção de bens simbólicos, especialmente de livros.

  Foi a partir do pertencimento a um círculo privilegiado de amigos escritores, jornalistas e políticos e das relações sociais e econômicas estabelecidas por seus pais, imigrantes de origem libanesa que chegaram ao Maranhão no início do século XX, que João Mohana conquistou seu prestígio e reconhecimento

  “intelectual”, como se verá nas páginas seguintes. Essa afirmação se exemplifica nas fontes disponíveis que retratam a vida e a obra do sacerdote escritor, tal como se observa na constituição da principal fonte primária utilizada para a confecção deste capítulo: um suplemento cultural veiculado pelo jornal

  “O IMPARCIAL”, datado de 15 de junho de 1995, em homenagem ao aniversário de 70 anos do padre, organizado por sua amiga e escritora Arlete Nogueira da Cruz Machado, esposa do também amigo poeta Nauro Machado, que, dentre muitos outros, dedicaram sua tinta elogiosa e entusiasmada ao nosso personagem, compondo assim uma prova material da existência de redes de escritores que nutrem entre si relações de amizade e de reciprocidade. Apesar do grande volume de livros publicados e reeditados periodicamente, com traduções para o alemão, espanhol e italiano, são bastante escassas as fontes onde podem ser encontradas e consultadas informações sobre a vida e os livros de João Mohana, muitas vezes restritas ao trabalho particular de amigos íntimos e próximos da família, admiradores e críticos de sua vasta produção literária. Nem a própria Igreja contém em seus arquivos disponibilizados para consulta pública (especialmente as bibliotecas das organizações a ela vinculadas) registros sobre Mohana e seus escritos, o que se poderia afirmar dadas as relações de amizade que mantinha com o alto clero local.

  A exceção que confirma a regra é a biblioteca da Academia Maranhense de Letras, em cujo acervo existe uma seção dedicada especialmente ao escritor João Mohana, onde estão armazenadas e disponíveis para consulta grande parte de suas obras. Tal espaço de salvaguarda de sua produção intelectual se justifica pelo pertencimento do padre escriba ao rol dos seletos “imortais” da Academia, cuja organização em torno da construção de “epítetos de excepcionalidade” (SIMIONI,

  2008) reflete o grau de imbricação entre o domínio intelectual e as estruturas de poder, bem como as disputas travadas pelas “elites” locais pela definição e legitimidade do “ser intelectual” em seus diferentes matizes (NUNES, 2000).

  João Mohana é, de longe, o sacerdote maranhense que mais livros escreveu, registrando sob sua autoria mais de 40 títulos, dentre romances, peças de teatro, pesquisas históricas e, principalmente, ensaios, gênero de escrita para o qual dedicou a maior parte de seus esforços intelectuais. Através desse formato, Mohana produziu a maior parte de suas reflexões sobre o mundo social, a política, a cultura, a economia, a religião, os problemas espirituais e psicológicos que afetam a vida da população, incluindo-se temáticas relativas ao casamento e à sexualidade.

  Seu espaço de atuação foi ainda tão diversificado quanto sua produção escrita. Trabalhou como médico-pediatra em São Luís durante cinco anos, participou do movimento leigo da Ação Católica no Maranhão (ACM), chegando ao posto de presidente arquidiocesano antes mesmo de se ordenar padre, através do qual pôde elaborar, com o apoio da Igreja, uma série de “projetos” sociais, culturais, educacionais e políticos, com foco na produção cultural e na formação de lideranças católicas, ao mesmo tempo em que escrevia seus premiados romances e aclamados ensaios.

  Após adquirir a ordenação sacerdotal e já gozando do reconhecimento social propiciado por sua atuação como médico e como escritor, que cimentaram sua afirmação “intelectual”, celebrou missas e realizou milhares de conferências e palestras em diversos estados brasileiros e outros países para os quais foi convidado, dedicando- se assim ao que chamou de “ministério da palavra escrita e falada” (Suplemento Cultural de “O IMPARCIAL”, 1995, p. 4).

  Em meados da década de 1970, funda e preside o movimento da Juventude Universitária Autêntica Cristã (JUAC), através da qual se engajou na formação política e cultural de jovens lideranças recrutadas no espaço universitário para compor os futuros quadros da Igreja, ajudando assim a manter e a reproduzir o poder e a influência da instituição eclesiástica no Maranhão, principalmente no domínio intelectual. Muitos dos jovens formados pela JUAC viriam a intervir nos principais acontecimentos políticos da capital, tendo na “Greve da Meia-Passagem” (1979) seu exemplo mais sintomático (BORGES, 1998).

  Dessa forma, sua atuação evangelizadora teve significativa interferência em diferentes esferas, influindo não apenas no âmbito religioso, mas também nas áreas do “social”, da “cultura” e da “política”, constituindo-se num dos mais significativos exemplos de carreira religiosa que apresenta em sua gênese social uma mescla processual de saberes e competências adquiridas fora do âmbito seminarístico e, posteriormente, acionadas enquanto instrumentos legítimos de atuação sacerdotal, internamente à Igreja e no mundo social.

  O saber e a titulação de médico, a atuação como escritor e as relações sociais tecidas a partir do trânsito nesses distintos domínios conferem a João Mohana poder e autoridade suficiente para atuar e intervir em espaços não dominados pela religião católica de uma forma privilegiada, evidenciando assim o grau de hibridização da atuação sacerdotal em terreno maranhense e os usos sociais e religiosos da escrita, principal instrumento de luta simbólica pela imposição de interpretações, sentidos, formas de pensamento e ordenação de práticas no mundo social, cuja tônica e abrangência transcendem os assuntos meramente de ordem confessional e espiritual.

  

4.1 O nascimento do escritor: origem social, formação escolar e características dos

pais

  João Miguel Mohana nasceu em 15 de junho de 1925, na cidade de Bacabal, município maranhense. Filho de pais libaneses, Miguel Abrahão Mohana e Anice Mohana, de forte tradição árabe-cristã, João Mohana era o mais velho de uma prole de sete filhos, quatro homens e três mulheres: Laura, Ibrahim, Julieta, Olga, Kalil e Alberto.

  Nascido em Bacabal, João Mohana residiu também em Coroatá antes de se mudar para o município de Viana, onde passou grande parte de sua infância e adolescência. Foi numa escola vianense que Mohana teve o primeiro contato, durante o curso primário, com intensas atividades literárias e com a participação na montagem de peças de teatro. Segundo relata Pedro da Veiga

  , “vários espetáculos teatrais organizados na cidade tiveram a participação de João Mohana. Durante as férias do colégio, os

  35 .

  estudantes eram convocados a participar de peças teatrais e show de variedades” O jornalista relata ainda que o

  “destaque” de João Mohana na escola primária foi tamanho que ele foi escolhido, dentre todos os alunos, para um ato solene de recepção de uma autoridade da Igreja Católica. “Quando o arcebispo D. Carlos Carmelo realizou

  36 uma visita pastoral a Viana, o jovem João Mohana foi escolhido para saudá- .

  lo” A caracterização do menino Mohana como alguém de “destaque” na escola vianense, reveladora de sua “liderança” e “solidariedade” precoce, indica o grau de proximidade estabelecido entre o expositor dos feitos e o homenageado, onde aquele “glorifica” os atos deste tomando-o como distinto desde a infância por sua própria biografia de relativo “sucesso”.

  Após ter concluído o curso primário no “interior” do estado, Mohana mudou-se com a família para a capital São Luís, onde 35 cursou o primeiro ano do “ginásio” no

  

O relato é do jornalista e escritor Pedro da Veiga, que recepcionou João Mohana quando de sua visita à

cidade paranaense no ano de 1973 para a realização de suas famosas palestras para casais. À época da

visita, Veiga era Diretor Administrativo da Prefeitura de Campo Mourão e havia sido convidado pelo

bispo da arquidiocese da cidade, D. Eliseu Simões Mendes, para recepcionar o padre maranhense. As

informações estão contidas em seu blog pessoal, disponíveis no site www. pedrodaveiga.blogspot.com.

36 Pedro da Veiga faleceu em março deste ano, aos 74 anos de idade.

  Ibid.

  37

  38

  e, depois, ingressou no , para dar “Colégio São Luís” “Colégio Marista Maranhense” continuidade nos estudos.

  Foi no Colégio Marista que João Mohana consolidou a herança cristã católica herdada dos pais. A proposta da escola, inspirada no modelo francês de educação católica, era pautada em cinco pilares pedagógicos: a) da vida em família, visando a construção de um espaço comum de diálogo, de aceitação das diferenças e de espírito fraterno nas relações interpessoais; b) do trabalho e da constância, que valoriza tanto o trabalho manual quanto o intelectual como desenvolvimento da personalidade humana, e a constância como fator de maturidade pessoal; c) da simplicidade, que preza pela humildade nas relações sociais e na forma com que educadores devem tratar seus educandos; d) da presença, centrada na construção de relações que extrapolem o âmbito da sala de aula, sendo vivenciada entre discentes e docentes nos recreios e atividades extra- classe”; e e) pedagogia Marial, tendo em “Maria, Mãe de Deus” o modelo do educador e do educando m arista, “sendo-lhes referência de testemunho e vivência dos valores cristãos” (NUNES, 1996, p. 3).

  Na escola ginasial, de modalidade internato, o jovem João Mohana teve aulas curriculares de Filosofia, Teologia, Retórica e Gramática. Foi incentivado ainda por um dos professores a estudar noções de Psicologia, cujos conhecimentos puderam ser aproveitados mais tarde na confecção de livros voltados para a realização da

  “plenitude humana 37 ”.

  

Apesar da fonte primária utilizada neste trabalho não citar o referido colégio, outras fontes consultadas

no final da pesquisa de campo mencionam o “Colégio São Luís” como uma das instituições de ensino

onde João Mohana cursou o início do “ginasial”, sem oferecer, contudo, maiores detalhes ou informações

sobre a escola.

  Atualmente, o “ginasial” compreende o período escolar que vai do quinto ao nono ano ou 38 “série”.

  Te m sua origem na fundação da “Sociedade de Maria” (1813), do sacerdote francês Marcelino Champagnat, que junto com outros dois padres integrantes da referida sociedade criam o “Instituto Irmãos

Maristas”, voltado para “suprir a carência de escolas e de educação religiosa na zona rural em que viviam

[na França] (NUNES, 1996, p. 2). Após a morte de Champagnat, o Instituto continuou se desenvolvendo

e se expandindo por diversos países através do trabalho dos remanescentes colaboradores do falecido

fundador. Com a Proclamação da República no Brasil (1889) e a laicização entre Estado e Igreja, a

instituição de ensino dos Irmãos Maristas chega ao país em 1897, somando-se aos outros institutos

religiosos europeus aqui presentes (Lazaristas, Barnabistas, Capuchinhos) para “colaborar com a Igreja

local em seu processo de reorganização interna e externa” (ibid., 1996, p. 9). A convite do arcebispo de

São Luís, D. Francisco de Paula, o Superior Provincial dos Irmãos Maristas, irmão Damien, vem para o

Maranhão realizar o projeto pedagógico-religioso francês, fundando no dia 2 de abril de 1908, na capital

mara nhense, situado em frente à Praça Benedito Leite, o “Colégio São Francisco de Paula”, em

homenagem ao santo comemorado no mesmo dia. Em 1920, o Colégio é fechado, após a saída dos irmãos

maristas de São Luís, voltando a ser reaberto somente em 1937, com o retorno dos maristas a convite do

então arcebispo D. Carlos de Carmello Mota, que abriga a instituição de ensino no Palácio do

Arcebispado, passando a chamar- se “Colégio Marista Maranhense” (Suplemento Cultural de “O

  Como atividades extracurriculares, o Colégio Marista oferecia aulas de música, piano e flauta, além de sessões de literatura, teatro e cinema, o que explica em boa parte o “gosto” de Mohana pelas artes, uma vez que a predileção por certas atividades é fruto muito menos de uma escolha subjetiva consciente do que o resultado de um processo socialmente adquirido

  , que inculca nos agentes “gostos de classe” e “estilos de vida” (BORDIEU, 2008, p. 240).

  Há que se levar em conta que, apesar de sua prestigiada educação, o Colégio Marista não pode ser visto meramente como legitimador institucional de disposições anteriores, socialmente constituídas, para não se cair na instrumentalização de suas funções, quais sejam as de certificação, consagração e reprodução de certas habilidades e competências reconhecidas pela trajetória consagrada do padre Mohana.

  Além das atividades artísticas e literárias, os alunos participavam do “Centro do

  Apostolado da Oração ”, espaço destinado especificamente para a doutrinação e reprodução da fé católica. Lá, os educandos maristas eram inseridos nos rituais religiosos de celebração eucarística e valorização da importância dos sacramentos na vida dos cristãos, bem como recebiam os ensinamentos sobre as práticas apostólicas e os significados da simbologia católica (realização de orações, confissões, reza de terços e novenas, sessões de leituras bíblicas e de reflexões sobre o Evangelho etc.).

  Convém ressaltar que o Colégio Marista, até meados do século passado, além da educação religiosa voltada para a formação do “bom cristão e do virtuoso cidadão”,

  39

  também fornecia instrução militar aos seus alunos . No final da década de 1930, a escola era uma das poucas instituições católicas de ensino voltadas especialmente ao público masculino, destinada à educação de crianças (curso primário, antigo

  “primeiro grau ”) e adolescentes (curso secundário, antigo “segundo grau”), onde os maiores de dezesseis anos recebiam treinamento militar e realizavam exercícios de tiro ao alvo

  (NUNES, 1996, p. 5-6).

  Tanto a formação educacional religiosa quanto o fornecimento de instrução militar conferiam à escola dos “irmãos maristas” um aspecto maior de rigidez e de disciplina, prerrogativas básicas de instituições que atuam no modelo de internato. Pelo fato de ser uma instituição de ensino privada e de ter mantido “certo distanciamento de 39 alguns aspectos genuínos da proposta educativa do fundador, como a prioridade ao Para saber mais sobre este assunto, ver Nunes (1996). atendimento às camadas carentes” (ibid., 1996, p. 9), infere-se que os alunos do Colégio Marista eram, em grande parte, pertencentes às elites locais, que matriculavam seus filhos pela “tradição católica” e pelo rigor do ensino, bem como pelas escassas alternativas de educação masculina.

  É interessante pontuar também que ao iniciar suas atividades educativas no Maranhão, entre 1908 e 1920, o então “Colégio São Francisco de Paula” contava com um quadro de professores composto exclusivamente por franceses, registrando o primeiro educador brasileiro somente em 1917, o Irmão Manoel Benigno, vindo de Pernambuco e permanecendo na escola até o seu fechamento, em 1920.

  A partir disso, tem-se a dimensão da presença dos filhos das elites dominantes na instituição de ensino, uma vez que a predominância de franceses entre os educadores sugere o aprendizado ou, minimamente, noções básicas da língua francesa por parte dos alunos, aspecto raro e distintivo num estado eminentemente agrário e de população majoritariamente analfabeta, cujo modelo de economia agroexportadora baseada principalmente na produção de arroz e algodão beneficiou quase que exclusivamente os “senhores de terra”. Assim, os grandes latifundiários maranhenses enriqueceram financeiramente e através desta riqueza conseguiram significativa ascensão social, investindo de tal modo na educação dos filhos a ponto de se constituírem enquanto “elites políticas rurais”, que passaram a dominar o espaço político local e a se afirmar no domínio intelectual, em detrimento da maioria da população desprovida do acesso à educação básica (ALMEIDA, 2008).

  No caso de João Mohana, o aspecto de escola de elite do Colégio Marista se coaduna com o grau de ascensão econômica conquistado por sua família, que procurou na instituição de ensino a oportunidade do filho mais velho do casal Mohana continuar seus estudos com “qualidade”, investindo em sua formação educacional e, consequentemente, direcionando sua “vocação profissional”, reconvertendo poder econômico em capital cultural e abrindo possibilidades para a construção de laços sociais relativamente privilegiados.

  Para maior compreensão sobre esse processo, faz-se necessária a explicitação dos fatores sociais, econômicos e culturais que compõem o perfil social dos genitores da família Mohana em solo maranhense.

4.1.1 Características sociais dos pais

  Os pais de João Mohana, Miguel Abrahão Mohana e Anice Mohana, eram

  40

  cristãos libaneses maronitas que chegaram ao Maranhão no início do século XX, juntamente com outras famílias de descendência sírio-libanesa. Grande parte de

  41

  membros dessas famílias conseguiram se destacar na sociedade local , principalmente através do comércio, atividade econômica que promoveu o seu enriquecimento e lhes possibilitou novas formas de afirmação social, especialmente no espaço político, através da conquista de cargos representativos de frações sociais e da ocupação de postos burocráticos concernentes à estrutura estatal, e na esfera cultural, entrecortada por relações de poder que configuram a inserção, o pertencimento e o domínio desses agentes em instâncias de produção de conhecimento e de c onsagração “intelectual”.

  A historiografia que aborda a imigração libanesa para o Brasil apresenta alguns fatores que explicariam tal processo migratório. O historiador André Gattaz (2005) divide esse processo em quatro momentos, dos quais apenas os dois primeiros

  42

  interessam para o presente estudo por causa do recorte histórico . O primeiro momento ocorre entre os anos de 1880 e 1920, quando há um aumento da insatisfação dos sírio- libaneses com o domínio exercido pelo Império Turco-Otomano. De maioria árabe- muçulmana, os líderes políticos do Império, em pleno processo de desagregação político-territorial, decidem estabelecer a obrigatoriedade do alistamento militar para toda a população, desencadeando forte resistência entre os cristãos, os primeiros a migrarem para o Brasil. O Líbano enquanto país independente ainda não existia, vindo a figurar no mapa geopolítico mundial somente a partir de 1920, com a criação da República do Líbano.

  O segundo momento desse processo migratório se dá entre os anos de 1920 e 40 1940, fase iniciada com a criação do Líbano enquanto estado nacional, que contou com 41 Sobre as diferenças étnico-religiosas entre os descendentes de sírio-libaneses, ver Magalhães (2009).

  

Sobre este assunto, consultar os trabalhos desenvolvidos por Furtado (2008), Magalhães (2009) e Assis

42 (2012).

  

As outras duas fases ou momentos de intensificação desse processo migratório ocorrem entre 1943 e

1975 e de 1975 aos dias atuais. Aquele em decorrência do “Pacto Nacional”, acordo firmado e não

cumprido entre lideranças políticas muçulmanas sunitas de Beirute e cristãs maronitas do Monte Líbano,

num contexto de crescimento do nacionalismo pan-árabe e de declínio do poder político da França, país

que influenciava diretamente os rumos do recém-criado Líbano.

  Já o momento mais atual trata da “Guerra

do Líbano”, travada desde 1975 por motivos étnico-religiosos com os países vizinhos formados a partir da desagregação do Império Turco-Otomano. Entre eles Turquia, Israel, Iraque e Síria (GATTAZ, 2005). a intervenção direta da França e da Inglaterra na sua consecução. Ainda segundo Gattaz (2005), é a partir daí que se intensificam os conflitos étnico-religiosos entre muçulmanos e cristãos, à medida que para compor o novo país foram anexadas áreas da Síria, cuja população era predominantemente muçulmana, em relação às pequenas províncias autônomas de maioria cristã.

  Por conta da intervenção francesa no processo de criação do Líbano, que já atuava na região muito antes do advento da República libanesa, foi estabelecido no país o francês como língua oficial, concomitante ao árabe, e o modelo de educação francesa, o que gerou novas clivagens étnicas e religiosas entre muçulmanos e cristãos, que impulsionaram a migração destes últimos para o Brasil, num momento em que este país vivia um intenso processo de

  “importação de mão-de-obra” de povos oriundos principalmente da Europa, devido ao desenvolvimento relativamente tardio da industrialização brasileira e da formação e expansão de um mercado interno de trabalho (FAUSTO, 1997).

  Não foi possível precisar a chegada dos “Mohana” no Maranhão por falta de fontes e registros, mas compreende-se que deva ter sido logo nas primeiras levas migratórias, entre os anos de 1900 e 1920, levando-se em consideração a cidade e a data de nascimento de João Mohana (Bacabal, 15 de junho de 1925), o primeiro dos sete filhos do casal Miguel e Anice Mohana.

  Além disso, para se ter mais ou menos uma ideia do ano de desembarque do casal Mohana em solo maranhense, pode-se levar em consideração também os laços sociais e de amizade estabelecidos entre os grupos familiares que aqui chegaram em grandes levas, predominantemente ao interior do estado. Conforme afirma Oliveira Lima (apud FURTADO, 2008, p. 30),

  na primeira leva, trazidos por parentes e amigos, [vieram] os Jorges (Codó); Murad e Mettre (S. Luís); Simão (Caxias, Itapecurú-Mirim); Salomão (Santa Inês e Pindaré- Mirim), todos filhos do Líbano, oriundos das cidades de Záklê, de Abláh. Na segunda leva, no início do século XX (1901), vieram os Ázars (Esber e Miguel) e os Chamiés. Estes motivaram a vinda de outros, a última diáspora: Chamés, Aboud, Farah, Damous, Fiquene, Mouchrek, Saback, Facuri, Tajra, Curi, Millet, Sequeff, Safady, Nazar, Maluf (Rosário); Mubarack, Buzar (Itapecurú); Trovão (Coroatá); Abdalla, Tomé (Timbiras); Boêres (Bequimão) e mais Waquim, Nahuz, Dino, Mattar, Fanciss, Boabaid, Chuaty e outros. Alguns grupos familiares libaneses que aportaram no Maranhão, mesmo com a dificuldade de língua e diferença cultural, conseguiram ascender economicamente, principalmente através d a atividade do “mascate”, que dispensava um conhecimento apurado do idioma português, bastando apenas a

  “disposição individual” para as trocas comerciais. Conforme analisa Gattaz (2005, p. 96),

  a mascateação tinha vantagens imediatas de dispensar qualquer habilidade ou soma significativa de recursos, não exigir mais do que o conhecimento rudimentar da língua portuguesa, e possibilitar a acumulação de capital em função exclusiva do esforço individual.

  Sobre o trânsito dos mascates entre as diversas cidades do interior do estado, muitas vezes percorrendo longas distâncias para expandir seus negócios, Magalhães (2009, p. 31) pontua que

  andando com malas cheias de mercadorias, de barco, a pé ou no lombo de animais, batendo de porta em porta [os mascates sírios e libaneses] andavam de cidade em cidade, de fazenda em fazenda, cruzavam divisas municipais e estaduais à procura de compradores para suas mercadorias.

  No entanto, a atividade econômica desenvolvida pelos imigrantes libaneses não se restringia apenas à “mascateação”. Segundo um dos irmãos de nosso personagem, o professor Kalil Mohana (apud FURTADO, 2008, p. 32), algumas famílias libanesas se tornaram proprietárias de

  grandes fazendas de gado ou de plantação; compravam toda a produção agropecuária e exportavam para a capital [São Luís] ou para o [restante do] Brasil: babaçu, arroz, algodão, tucum, depois soja. Quanto ao gado, industrializavam sobretudo o couro, nos curtumes famosos, até exportando para fins industriais ou fabricando aqui bolsas, sapatos e vários objetos úteis à vida pessoal e social.

  O aspecto de “nomadismo” dos mascates explica o intenso trânsito entre as cidades do interior realizado pelas famílias libanesas, que viviam essencialmente do comércio. Com Miguel e Anice Mohana não foi diferente. O estabelecimento residencial em Bacabal, Coroatá e Viana, antes da mudança para a capital São Luís, onde fixaram moradia no mesmo local de seu empreendimento co mercial, a “Casa

  43

  , sugere a dimensão desse nomadismo baseado na compra e venda de Mohana” produtos agrícolas e manufaturados.

  O acúmulo de capital econômico gerado a partir dessas transações comerciais projetou socialmente esses grupos familiares, favorecendo a sua inserção na elite

  44

  45

  maranhense

  e, a partir daí, a sua afirmação na política do Maranhão . Convém observar, contudo, que as atividades comerciais não significaram que todos os descendentes de imigrantes que a ela se dedicaram conseguiram enriquecer. Conforme afirma Gattaz (2005, p. 100),

  o caminho de segura ascensão social não foi porém regra única e invariável para os libaneses. Muitos imigrantes (...) só conseguiram atingir o patamar de pequenos comerciantes, nunca alcançando a ambicionada fase atacadista ou industrial. Outros nem a isso chegaram, permanecendo como funcionários de seus parentes mais bem estabelecidos.

  Na outra ponta da presente argumentação, não se pode cair numa espécie de determinismo econômico analisando-se que apenas a atividade econômica foi suficiente para garantir aos grupos familiares imigrantes a disseminada ascensão social. De acordo com Oswaldo Truzzi (apud ASSIS, 2012, p. 63),

  qualquer balanço da bem-sucedida saga da colônia síria e libanesa em termos de ascensão econômica não pode deixar de destacar os dois elementos básicos que deram sustentação ao processo como um todo. Em primeiro lugar, as relações de complementaridade e de ajuda mútua estabelecidas no interior da colônia (...), desde a acolhida dos recém-chegados pelos já residentes até a ponta das relações (...) entre industriais e grandes comerciantes. (...) O segundo elemento fundamental diz respeito ao contínuo processo de realimentação que representou a importação de parentes e conterrâneos pelos já estabelecidos.

  Esses vínculos sociais tecidos entre os “recém-chegados” e os já “estabelecidos” ajudam a entender que o processo de ascensão social e econômica se deu de forma 43 compartilhada, socialmente ancorada em relações de amizade, de auxílio recíproco e de

  

Rebatizada de “Casa João Mohana”, como forma de consagração e homenagem à memória do filho

44 mais “ilustre” da família Mohana. 45 Ver Furtado (2008).

  Consultar em Assis (2012) o exemplo de duas famílias, “Haickel” e “Duailibe”, que baseadas no

enriquecimento econômico e em estratégias de reprodução de dominação (relações sociais de amizade,

parentesco e alianças matrimoniais) conseguiram se projetar e se afirmar no espaço político local,

ocupando cargos e postos relativos à esfera estatal e garantindo a manutenção da influência sobre os mesmos. complementaridades, além de laços matrimoniais estabelecidos entre os próprios grupos de descendentes que contribuíram para sua afirmação social. Para outro contexto, no qual se privilegia as heranças políticas transmitidas através de “redes de parentesco”, dentre outras estratégias acionadas, ver Grill (2003). Tais aspectos não são observáveis apenas no enriquecimento econômico, mas também na ascensão política de muitos desses descendentes de libaneses e na consagração “intelectual” de tantos outros que também enveredaram pelo campo da escrita literária e das artes como um todo.

  No caso da família Mohana, apenas o pai se dedicou ao comércio, cabendo à

  46

  mãe os cuidados com o lar. Segundo relato de Ibrahim Mohana , irmão do nosso personagem, seu pai “foi sempre ativo comerciante” e sua mãe “dona-de-casa de inteligência brilhante”.

  As figuras do pai (Miguel) comerciante, provedor da família, e da mãe (Anice)

  47

  como dona-de-casa ajudam a compor o perfil social dos de “inteligência brilhante” “Mohana” e a compreender os motivos que levaram a família a residir em Bacabal, a se deslocar para Coroatá, posteriormente para Viana e, após o acúmulo de capital econômico, a investir na educação dos filhos, mudando-se definitivamente para a capital maranhense, a fim de dar continuidade aos seus estudos.

  A preocupação do casal Mohana com a educação dos filhos remete à sua formação escolar e ao seu volume de capital cultural. Tanto Miguel quanto Anice concluíram o curso primário ainda no Líbano. Dominavam o árabe e o francês e mantinham intercâmbio cultural com seus genitores, que lhes enviavam revistas e jornais diretamente de sua terra natal, como se observa no relato abaixo:

  Caso raro; nós não conhecemos os avôs e as avós, pois ficaram no Líbano. Sabíamos apenas serem sábios, sem curso superior, escrevendo lindamente o árabe, e mandando revistas e jornais árabes a todos nós. No Líbano, todos falavam árabe e francês (Ibrahim Mohana. Entrevista concedida, em São Luís, em janeiro de 2013).

  46 47 Depoimento concedido em entrevista, realizada por escrito, em São Luís, em janeiro de 2013.

  

Magalhães (2009) desenvolve um interessante estudo sobre as “representações” tecidas historicamente

entre os descendentes de sírio-libaneses que chegam ao Maranhão e a população local, entrecortadas

pelos conflitos e dificuldades de socialização existentes no início do processo imigratório (1880), visões

que se ressignificam com o passar do tempo (1930), dos imigrantes em relação aos maranhenses e a si

mesmos, passando a negar ou minimizar a existência de conflitos socioculturais e exaltando a imigração

como “bem-sucedida”, com destaque para os aspectos relativos aos feitos das “famílias que deram certo”,

  Conforme se pode analisar, a educação para “os Mohana” possuía uma dupla face: a primeira de ascensão social, através do processo de conversão do poder econômico alcançado em aquisição de capital escolar, aspecto distintivo e valorizado no espaço de poder mais amplo, onde as possibilidades de ocupação de posições sociais relativamente bem alocadas estão irremediavelmente associadas ao capital cultural acumulado pelos agentes em disputa, que ajuda a manter e a reproduzir a própria estrutura de dominação social em regiões

  “periféricas” (BOURDIEU 2002; CORADINI, 2010).

  Outro aspecto a ser salientado é o da educação como fator de agregação cultural. O intercâmbio de “jornais e revistas árabes” vindos diretamente do Líbano, mantido entre o casal Mohana e seus genitores, além de estabelecer os laços da família com seus parentes e seu país de origem, reflete a preocupação de se constituir e manter no lar um “ambiente de letras”, sempre informados dos fatos que aconteciam no Líbano e das correntes de pensamento e manifestações culturais (arte, literatura, ciência, etc.) em voga no país árabe. Isso explica, em parte, o fato da matriarca da família Mohana no Maranhão, a senhora Anice, ser pincelada por um de seus filhos como “dona de casa de inteligên cia brilhante”, mesmo “sem ensino superior”, buscando na caracterização da “excepcionalidade” a afirmação da família como “culta” e “letrada”.

  A socialização desenvolvida num “lar de letras”, de intenso intercâmbio cultural nas línguas árabe e francesa, e a formação escolar obtida, desde o curso primário em

  Viana, onde teve seu primeiro contato com a literatura e o teatro, até o ingresso no Colégio Marista, em São Luís, forneceram ao jovem João Mohana um acúmulo de capital cultural significativo e valorizado entre as elites locais, já que o diploma escolar, num espaço com acesso desigual e controlado à educação, se constitui num fator distintivo para a própria “condição de elite” (CORADINI, 2010).

  Por esse intermédio educacional, o trânsito nas instituições escolares, principalmente na capital maranhense, favoreceu a criação de vínculos e redes de relações entre os filhos das classes dominantes, haja vista que a escola Marista, em fins da década de 1930, além de ser privada, era uma das poucas instituições de ensino que oferecia formação educacional voltada para o público masculino.

  Pode-se inferir, portanto, que nessa escola estudaram muitos daqueles que viriam a tecer com João Mohana relações de reciprocidade, de amizade, alianças e vínculos sociais, e ocupar posições de destaque na sociedade maranhense, principalmente no espaço político, na estrutura de cargos e postos burocrático- governamentais, e na esfera da cultura, cujo somatório de condicionantes contribuiu irrevogavelmente para a sua “consagração literária”. Além disso, a estrita formação religiosa cristã católica obtida nessas instituições de ensino, de alguma forma, favoreceu o despert ar de sua “vocação sacerdotal”, ainda que o direcionamento de sua “escolha profissional” tenha sido muito menos resultado de sua manifestação pessoal do que uma imposição de sua família, particularmente de seu pai, socialmente condicionado pela estrutura de poder e pelas relações sociais que sedimentam os “estilos de vida” das elites dominantes.

  O próprio João Mohana, em entrevista realizada no ano de 1979, ao falar sobre o desejo de seu pai para que se formasse em Medicina em oposição a uma pretensa carreira literária, assim se manifestou:

  “O que ele [o pai] queria era ter um filho médico e achava que eu iria passar fome, escrevendo. Salvo raras exceções, naquele tempo era isso que acontecia ” (Suplemento Cultural de “O IMPARCIAL”, 1995, p. 6).

  Para o pai de João Mohana, ser médico era a garantia de uma profissão que renderia o seu sustento material, ao mesmo tempo que significaria a manutenção de um conquistado através da projeção social e econômica alcançada pela atividade

  status quo

  comercial, rendendo- lhe uma espécie de “crédito social”. Segundo Eric Wolf (2003, p. 101), “a filiação a uma família não define apenas a medida do crédito social de alguém.

  Ela também estrutura a natureza dos recursos sociais sob o comando dessa pessoa em operações envolvendo não- parentes”.

  No caso de João Mohana, decidir-se pela carreira médica não era apenas o atendimento a uma exigência pessoal do pai, mas também a responsabilidade de “carregar” o nome da família, primando pela manutenção do prestígio do mesmo e do “crédito social” conquistado.

  O fato de ser o primogênito dos “Mohana” no Maranhão legou ao nosso personagem um capital social que contribuiu sobremaneira para a estruturação de relações mais ou menos privilegiadas dentro de um espaço não necessariamente dominado por laços de parentesco, mas transpassadas por alianças de amizade e de reciprocidade que foram fundamentais na definição dos rumos que João Mohana viria a seguir.

4.1.2 A “opção” pela Medicina

  Desde o início da vida escolar, João Mohana esteve enlaçado por redes de relações que circundavam a esfera de atuação religiosa da Igreja Católica. Da recepção do arcebispo D. Carmelo em visita pastoral ao município de Viana, ainda no curso primário, à conclusão dos estudos no Colégio Marista Maranhense, de orientação cristã católica, seria “natural” a sua entrada no mundo eclesiástico após o “ginásio”.

  O fato de afirmar e de se r confirmado por seus “comentadores” de que “sempre quis ser padre” exemplifica o grau de influência que a formação educacional religiosa teve sobre sua vida. Contudo, a “opção” pela Medicina não foi, de todo, creditada apenas a essa herança católica, mas também à dimensão da projeção social e econômica da família Mohana adquirida por seu pai por meio de atividades comerciais e pelas relações de amizade, complementaridade e de ajuda mútua estabelecidas desde a chegada ao Maranhão.

  Nessa perspectiva, a educação dos filhos também cumpre o papel de favorecer a manutenção e ampliação do “crédito social” conquistado através da combinação das relações supracitadas, encaminhando os descendentes para a conquista e ocupação de postos políticos e burocráticos e para o exercício de profissões liberais (especialmente medicina e advocacia), funções estas que privilegiavam a titulação escolar como princípio de estruturação do espaço de cargos e atividades profissionais disponíveis. Conforme observa Oliveira Lima (apud FURTADO, 2008, p. 53),

  “logo o sírio-libanês compreendeu que no Maranhão não era o rico, porém o intelectual que atraía respeito. Procurou fazer seus filhos doutores”.

  Dessa forma, a escolha ou o direcionamento dos filhos para uma formação acadêmica em Medicina estava imbricada com as estruturas de poder no Maranhão. Não bastava ser rico, era necessário transformar essa riqueza em conhecimento, em aquisição de saberes acadêmicos consubstanciados na conquista de títulos escolares, ao mesmo tempo em que se buscava o “respeito”, o reconhecimento social, a valorização do nomos familiar que se materializa na ocupação de cargos e postos relativamente bem alocados na estrutura de poder da sociedade maranhense de meados do século passado.

  Apesar de não haver o curso de Medicina no Estado quando da adolescência de

48 João Mohana , a profissão de médico no Maranhão era representada e valorizada

  socialmente por seu caráter enciclopédico, vinculada a um acúmulo de saberes científicos que caracterizariam e legit imariam a definição de “intelectual”. De acordo com Nunes (2000, p. 181-182), que desenvolveu uma análise sociológica sobre a

  Medicina e as estruturas de poder no Maranhão,

  pode-se considerar que a representação de médico coaduna-se à representação de intelectual: o médico é considerado mediante sua erudição, mediante sua cultura. Ou seja, o prestígio social do médico, seu status na sociedade, compreende critérios de intelectualidade. (...) O médico é, pois, considerado e valorizado mediante uma certa modalidade de conhecimento: o conhecimento humanístico, que dá ênfase ao saber enciclopédico.

  Por isso, a figura do médico no Maranhão é representada como a de um ser culto, letrado, erudito, que reúne em torno de si não apenas os conhecimentos atinentes às Ciências Médicas, mas a uma gama de saberes variados que garantem a eficácia simbólica do discurso e da autoridade do médico sobre o mundo social.

  O direcionamento, portanto, do filho mais velho da família Mohana para a formação em Medicina, em atendimento aos desígnios do pai, sugere o grau de afirmação social conquistado pela família e a tentativa de manter e expandir tal inserção no seio das classes dominantes maranhenses.

  Contudo, a escolha pela faculdade de Medicina da Bahia, em Salvador, também não ocorreu por acaso ou de modo aleatório. Antes mesmo de ingressar na referida instituição acadêmica, Ibrahim Mohana revela outro aspecto importante na definição dos rumos da carreira médica do irmão “famoso”: as relações e influências obtidas

48 O primeiro curso de Medicina no Maranhão foi fundado em 1958 e estruturado institucionalmente

  

como Faculdade de Ciências Médicas. Esta foi criada pela Sociedade Maranhense de Cultura Superior

(Somacs), organização vinculada à Arquidiocese Metropolitana de São Luís e que tinha como objetivo

promover o ensino superior no Estado. A organização do curso coube ao então arcebispo D. José de

Medeiros Delgado, que viria a se tornar um dos amigos do nosso personagem. João Mohana tinha 18 anos quando ingressou no curso de Medicina de Salvador, na Bahia, no ano de 1943. durante o curso Secundário, correspondente ao atual ensino médio, também realizado na Bahia.

  A grande influência sobre João Mohana foi do cientista jesuíta francês padre Camille Torrend, um dos homens mais completos do Brasil; sabia tudo das ciências, artes, técnica; sabia tudo (e mais ainda) que o famoso Concílio Vaticano II iria ensinar. João fez o curso “clássico” (três anos que precedem a Universidade) no Pensionato para universitários do padre Torrend. Foi para a Medicina por vontade própria, mas nosso pai 49 e padre Torrend influenciaram. (Ibrahim Mohana)

  O referido “pensionato para universitários” trata-se, na verdade, do “Pensionato Mariano Acadêmico”, fruto da obra educacional dos jesuítas no Brasil, particularmente na Bahia, cujos trabalhos eram organizados pelo padre francês Camille Torrend.

  Segundo informa Couto (2011, p. 2290), “o objetivo [do Pensionato] era receber, na condição de internos, alunos que vinham de diversas cidades do interior da Bahia e também de outros estados para estudar em Salvador”.

  A partir de 1939, quando assume a direção do Pensionato padre Torrend, que também é botânico de formação, estabelece um leque multifacetado de conhecimentos a serem ministrados aos alunos, que estavam em fase de preparação para o ingresso nas escolas de ensino superior, versando sobre diversos assuntos atinentes ao mundo social, não se restringindo, portanto, apenas à formação religiosa. Ainda segundo Couto (ibid),

  os alunos recebiam aulas de preparação para a entrada nas escolas superiores, de educação física, além de palestras sobre diversos temas das áreas da saúde, educação, psicologia, política e religião. Os Exercícios Espirituais também faziam parte das atividades dos pensionistas.

  Isso explica, em parte, a aquisição de uma formação plural, “humanística” e “enciclopédica” por João Mohana, que abordaria em seus escritos, logo após a obtenção do título de médico e antes da ordenação sacerdotal, temas psicológicos, políticos e culturais, além dos que remetem ao saber da área médica e da esfera religiosa, legitimando sua intervenção simbólica nestes distintos domínios.

  Pode-se afirmar que a ida de Mohana para o referido pensionato tenha sido tanto pela formação oferecida quanto pela própria localização geográfica do mesmo. Situado em Salva 49 dor e destinado para “receber alunos vindos de outros Estados”, preparando-os Entrevista concedida em janeiro de 2013, em São Luís. para o ingresso na vida acadêmica, ficaria mais fácil se preparar para entrar numa das mais prestigiadas faculdades de Medicina do país estando já na cidade onde esta se localiza, na capital baiana.

  50 A Faculdade de Medicina da Bahia é a mais antiga do país . Para lá, foram

  enviados muitos dos filhos das elites e dos grupos dirigentes maranhenses de princípios do século XX que, posteriormente, viriam a assumir postos e cargos na esfera política, no sub-campo burocrático da esfera estatal, além de participar da fundação e exercer o domínio sobre agências de produção de conhecimento e de consagração “intelectual” no

  Estado (NUNES, 2000, p. 207-222). De ntre os “ilustres” médicos maranhenses que estudaram na instituição baiana e se destacaram posteriormente nos domínios da política

  51 .

  e da “cultura” no Maranhão, constam Clodomir Milet e Nina Rodrigues Assim, em 1943, após concluir o curso secundário no Pensionato de padre

  Torrend, João Mohana ingressa na faculdade de Medicina da Bahia, concluindo o curso em 1949, aos 24 anos de idade, especializando-se em pediatria e voltando para clinicar em São Luís.

  Na capital maranhense, trabalhou como médico no Departamento Estadual da

  52 Criança junto com o Dr. Odorico Amaral de Matos . Além disso, exerceu o ofício em

  sua clínica particular, situada na “Casa Mohana”, na Rua Afonso Pena, no centro histórico de São Luís, e foi educador sanitário da Campanha Nacional de Educação Rural junto à Missão Intermunicipal Rural Arquidiocesana, participação que lhe possibilitou a visita a diversas cidades do interior do Estado, inclusive à cidade de Arari, onde conheceu as ações desenvolvidas naquela localidade por seu contemporâneo padre Clodomir Brandt, cuja atuação foi amplamente analisada no Capítulo anterior.

50 Seu ano de fundação data do período colonial, em 18 de fevereiro de 1808, quando da assinatura de D.

  

João VI do documento que autorizou a criação da Escola de Cirurgia da Bahia. Abrigada no prédio do

Colégio dos Jesuítas, em Salvador, a Escola se transformou na Academia Médico-Cirúrgica em 1 de abril

de 1813. Somente em 3 de outubro de 1832 ganhou o nome de Faculdade de Medicina da Bahia, que

51 conserva até os dias atuais, vinculada à Universidade Federal da Bahia (UFBA).

  

Dentre outros cargos e postos, Clodomir Milet foi senador pela Arena (1967-1975) e deputado federal

por quatro mandatos consecutivos (1951-1955; 1955-1959; 1959-1963; 1963-1967), além de ter sido

candidato a Governador do Maranhão, em 1960, pelo PSP. Por sua vez, Raimundo Nina Rodrigues

ganhou notoriedade no desenvolvimento de pesquisas científicas nas áreas da Psiquiatria e da

Antropologia, que o legitimaram a ser o patrono da cadeira n. 14 da Academia Maranhense de Letras

52 (AML) e da cadeira n. 28 do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão.

  

Médico e membro da Academia Maranhense de Letras, quarto ocupante da cadeira n. 3, em

substituição à João Mohana.

  Essa participação junto à Missão Rural da Arquidiocese do Maranhão rendeu a João Mohana um bom trânsito entre os membros da hierarquia eclesiástica, se tornando inclusive amigo íntimo do arcebispo D. José de Medeiros Delgado, relação de amizade que catapultou nosso personagem à ocupação de posições relativamente privilegiadas na esfera religiosa local e que, indubitavelmente, viria a influir na sua decisão de ingressar na vida sacerdotal.

4.2 Um intelectual a serviço da Igreja

  As influências obtidas durante a vida escolar, o preparatório no Pensionato de padre Torrend e a própria tradição cristã herdada da família forneceram um repertório de mobilização religiosa que favoreceu a atuação de João Mohana no movimento leigo católico, particularmente na Ação Católica do Maranhão (ACM), destacando-se nas atividades “intelectuais” de organização e confecção de “projetos” religiosos, culturais, políticos e sociais.

  Na ACM, João Mohana chegou ao posto de presidente arquidiocesano, sendo o responsável direto pela organização das atividades do movimento leigo em todo o Estado, no interstício entre a volta para São Luís (1949) e a ida para o seminário em Porto Alegre (1953). Nesse período, construiu relações de amizade e de proximidade com membros do alto clero maranhense, especialmente com o arcebispo D. José de

  53 .

  Medeiros Delgado, de quem se tornou um “grande amigo” O somatório de um capital cultural baseado numa formação educacional cristã e de um capital social enriquecido com relações relativamente privilegiadas no domínio religioso explica, em parte, a posição conquistada e o reconhecimento obtido junto ao laicato e à própria hierarquia eclesiástica local, posição através da qual pôde elaborar e colocar em prática um conjunto de ações evangelizadoras em diversas e distintas esferas sociais.

  Há que se destacar que as ações desenvolvidas sob a orientação de João Mohana 53 durante a sua presidência arquidiocesana à frente da Ação Católica no Maranhão se Ibrahim Mohana, em entrevista realizada em janeiro de 2013, em São Luís. processaram justamente no plano cultural, com ênfase em trabalhos desenvolvidos no campo da educação, literatura, teatro, música e cinema, cujas temáticas englobavam problemas sociais, políticos e religiosos vigentes à época.

  Em entrevista ao “JORNAL DO DIA”, de Porto Alegre, no ano de 1955, ao abordar os motivos que o fizeram deixar a profissão de médico para se dedicar à carreira sacerdotal, João Mohana expôs um breve quadro sobre a situação do movimento da Ação Católica no Maranhão.

  [Deixei o movimento] multiplicando raízes e produzindo frutos. Dom Delgado, Arcebispo do Maranhão, foi quem meteu a broca e começou a quebrar as resistências do laicato. Isso se deu com a reestruturação da A.C. por ele decretada em começo de 1953. Daí em diante, os leigos pegamos a pua (conhecem aqui a expressão?) e travou-se consciente e organizadamente o bom combate. (...) Nossa vigília lá é intensa de atividade, sempre agarrados atentamente ao báculo do Bispo. Assim é que, com a aprovação e bênção dele, os setores realizaram um inquérito global em torno de todas as necessidades humanas dos diversos meios

  • – não só das necessidades religiosas
  • – para podermos diagnosticar os problemas de base e lançar um planejamento que não cortasse o maranhense em pedaços ou só no pedaço religioso. Tem sido um trabalho realista e belo, atendendo aos chamados desejos fundamentais do homem. Daí surgiram os nossos movimentos religiosos, teatrais,

  cinematográficos, musicais, esportivos, recreativos etc. Articulamo-nos com as várias entidades locais e dessa honesta simbiose saem surpresas que fazem bem a todos na comunidade, cristãos e não cristãos (Suplemento Cultural d e “O IMPARCIAL”, 1995, p. 4. Grifo nosso).

  Observa-se que apesar do movimento ser organizado diretamente pelo laicato, tendo à frente um médico e escritor que não possuía ordenação sacerdotal, as ações desenvolvidas pela ACM não desgarravam do “báculo do Bispo”. Para tocar em frente os “projetos” que havia elaborado, João Mohana contava com “a aprovação e bênção dele”, dando uma dimensão de que no Maranhão de princípio da década de 1950 o movimento leigo católico não gozava da mesma independência quando de seu nascimento no limiar do século passado, fruto da autonomia conquistada junto à hierarquia eclesiástica (SERRY, 2004).

  Os anos que estudou no “Pensionato Mariano Acadêmico” do padre jesuíta francês Camille Torrend forneceram a Mohana uma formação “humanística” bastante diversificada, o que veio desaguar na sua escolha pela carreira médica, compondo assim um cabedal cultural significativamente valorizado entre as elites maranhenses, que representavam o médico como homem culto, letrado e portador de um saber enciclopédico, resultado das íntimas imbricações entre a Medicina e as estruturas de poder no Estado.

  Com essa titulação acadêmica de relativo prestígio e distinção e as teias sociais tecidas com os membros do alto clero, “articuladas com as várias entidades locais”, João Mohana conseguiu desenvolver um trabalho realista na ACM que não

  “cortou o maranhense em pedaços”, pelo menos não apenas no “pedaço religioso”, atingindo a “todos na comunidade”, tanto cristãos quanto não cristãos.

  A Ação Católica, fundada em 1935 pelo arcebispo do Rio de Janeiro, D. Sebastião Leme, tinha como objetivo inserir leigos na doutrina e auxiliar bispos e sacerdotes no ensino e na “edificação dos cristãos”. Segundo Pacheco (1969, p. 584), a A.C. destinava- se a todas as classes, “aos estudantes, aos lavradores, aos operários, aos intele ctuais”. No Maranhão, o movimento leigo foi fundado um ano após sua vertente carioca pelo padre Sebastião Fernandes.

  A partir daí, várias ramificações do movimento foram surgindo, cada uma tratando de problemas relativos a frações sociais específicas, especialmente dos movimentos de juventude, como a Juventude Católica Feminina e a Juventude Masculina Católica, baseadas no modelo italiano de estruturação das atividades religiosas. Posteriormente, por volta de 1948, com a adoção do modelo francês, os movimentos foram definidos conforme as classes e categorias sociais, dando origem às juventudes operária, agrária, estudantil e universitária, bem como à Ação Popular (AP), vertente de mobilização católica de viés marxista-leninista (ibid., 1969, p. 585; REIS, 2007, p. 164-181; SALEM, 1981, p. 23).

  Se a estratégia da Igreja era inserir o laicato no auxílio à execução de atividades relativas às funções de bispos e sacerdotes, particularmente na difusão da doutrina através do processo de evangelização, as diversas e distintas ramificações que surgem com o tempo sugerem a dimensão da importância adquirida pelo leigo na própria manutenção do domínio do poder religioso sobre a população local. E, nesse processo de ampliação do laicato, a inserção de figuras “ilustres” como a do médico e escritor João Mohana, já gozando de certo prestígio social, sinaliza para o grau de imbricação entre condicionantes exógenos interferindo na atuação eclesiástica e as disputas religiosas internas intervindo no mundo social, evidenciando, por fim, o grau de heteronomização do movimento leigo no Maranhão e sua importância no direcionamento de fiéis para o preenchimento dos quadros clericais.

4.2.1 A consagração literária de um escritor católico

  Ao passo que se engajava nos movimentos de base da Igreja local, João Mohana começava a manifestar, de forma mais incisiva, aquilo que viria a ser o seu principal trunfo na disputa pela imposição de sentidos sobre o mundo social no espaço de concorrência simbólica: o exercício da escrita. Assim, em 1952, lança o seu primeiro livro, o romance O Outro Caminho, pela editora Agir, o qual recebeu o prêmio Coelho Neto da Academia Brasileira de Letras (ABL) pela melhor obra literária daquele ano.

  No mesmo transcurso anual, escreve o ensaio Sofrer e Amar e seu segundo e último romance, Maria da Tempestade, também premiado pela ABL, ambos publicados pela editora Agir. Tanto no romance de “estreia” no mundo literário quanto nos outros dois livros, João Mohana emprega toda sua carga de aprendizado e conhecimento da doutrina católica para dar vida aos seus personagens e para produzir e reproduzir no espaço de concorrência simbólica reflexões acerca do plano espiritual e da busca pelo “encontro com Deus” (ver lista completa dos livros de João Mohana no anexo II).

  A vertente religiosa é um condicionante presente em praticamente todos os livros escritos por Mohana. No ensaio Sofrer e Amar, o primeiro de uma série de outros que viriam nos anos seguintes, uma vez que o autor abdica do ficcionismo dos romances literários para se dedicar às reflexões proporcionadas por aquela modalidade de escrita, surgem as primeiras elaborações discursivas sobre o mundo social e o plano espiritual dos indivíduos, cujas interpretações são elaboradas com vistas à

  “redenção dos homens”.

  É interessante observar que o reconhecimento “literário” obtido pelo escritor tateia sobre o poder religioso que continua com suas raízes fincadas na estrutura educacional e cultural do Estado. Ao mesmo tempo em que adquire prestígio social por produções intelectuais de cunho social e literário, Mohana parece querer se valer desse trunfo para cimentar e legitimar futuras incursões no plano da escrita religiosa. Tal perspectiva pode ser constatada no seguinte relato do nosso personagem sobre como recebeu o prêmio da ABL por seu primeiro romance: “Eu me entusiasmei com a notícia do prêmio. Com a significação literária e social dele. Escancarou a porteira para meu estradeiro disparar” (Suplemento Cultural de “O IMPARCIAL”, 1995, p. 6).

  Analisando retrospectivamente o “sucesso” alcançado através de seus escritos, em entrevista realizada no ano de 1979, quando já havia lançado vários livros, João Mohana apresenta sua versão sobre o “êxito literário” conquistado:

  (...) Nasci para fazer isso. Seria falso se quisesse destilar charme a esta altura dos meus vinte livros, tão lidos por tantos. Mas só o talento literário não me conduziria até aqui. Sou apologista das núpcias do talento com a autodisciplina. Desse enlace é que surgem o artista e sua obra. Muitos escritores, muitos pintores morreram antes da aurora, por falta de autodisciplina, embora tivessem talento de sobra. É minha convicção que um

escritor se faz com 40% de talento e 60% de autodisciplina (ibidem).

  A lógica da justificação observada na exposição argumentativa de Mohana trata do aspecto da “predestinação”, argumento que engendra o reconhecimento social conquistado no presente ao aspecto de um destino traçado desde o nascimento. Ao afirmar que “nasceu para fazer isso” e que “um escritor se faz com 40% de talento e 60% de autodisciplina

  ”, Mohana privilegia uma reconstrução de si próprio que nega as retribuições simbólicas disponíveis (reconhecimento, prestígio, consagração, afirmação), ao passo que suprime a existência dos processos e dos poderes sociais que incidem sobre a publicação de livros e a consagração intelectual de escritores, tais como redes de relações com proprietários de editoras, de amizade com outros escritores, jornalistas, políticos, bem como teias sociais de parentesco, de ajuda mútua e de complementaridade, além de lógicas de construção de epítetos e de panteões artísticos (SUAUD, 1991; SIMIONI, 2008; SORÁ, 2010).

  Tal perspectiva se evidencia a partir da constatação dos escritores que dedicam suas linhas elogiosas ao trabalho e à vida de João Mohana, constituindo a própria natureza do Suplemento Cultural que dá sustentação à presente análise. Escritores “renomados” como Nauro Machado, Lago Burnett, José Louzeiro, Jomar Moraes, José Chagas, Josué Montello e a própria escritora Arlete Nogueira da Cruz Machado, organizadora do suplemento em homenagem aos 70 anos de nascimento de João Mohana, são todos ami gos e admiradores da obra e da “carreira” do nosso personagem.

  Outro ponto importante que evidencia a perspectiva em comento diz respeito à própria Editora Agir, responsável pela publicação de boa parte dos livros escritos por João Mohana, principalmente as primeiras edições. O escritor José Louzeiro, ao relatar como se processou sua “descoberta” sobre os romances de Mohana, oferece uma singela descrição da referida editora que, examinando-a neste ponto do trabalho, atende aos propósitos de situá-la como meio material de difusão das obras do nosso personagem, dos vínculos sociais propiciados a partir de sua posição (geográfica e estratégica) no espaço de produção cultural no país, além de exemplificar, em linhas textuais, como se dava o processo de “divulgação” de um escritor entre os leitores, em meados do século passado.

  Quando cheguei ao Rio, em 1954, a Livraria Agir, na Rua México, 98, por trás da Biblioteca Nacional, era ponto de encontro de escritores e poetas católicos. O gerente da loja chamava-se Ernst Fromm e cativava a clientela pelo conhecimento dos livros e de seus autores, fossem nacionais ou estrangeiros.

  Foi Fromm quem me falou do padre e grande romancista maranhense João Mohana que, tendo publicado um livro de sucesso anos antes, pela Editora Agir (O Outro Caminho, premiado pela Academia Brasileira de Letras, em 1952), tinha uma segunda obra circulando e fazendo sucesso entre os leitores: Maria da Tempestade.

  Li emocionado esse livro e, na semana seguinte, voltei ao Fromm, a fim de conseguir um exemplar de O Outro Caminho, o que não foi fácil, pois a edição estava esgotada. Lembro que ele arranjou um exemplar, com muito custo, no depósito e, assim mesmo, com defeito na capa. Desde então passei a admirar esse conterrâneo. (...) Ao término da leitura de O Outro Caminho, senti-me orgulhoso do escritor maranhense. Afinal, por orientação do próprio Fromm, semanas antes havia adquirido um exemplar de Os Noivos, obra-prima do italiano Alessandro Manzoni e Mohana não ficava atrás (Suplemento Cultural de “O IMPARCIAL”, 1995, p. 21. Grifo nosso).

  Através desse relato memorialístico de José Louzeiro, pode-se observar como se processava a lógica de “propagandeamento” de um escritor recém-lançado no mercado literário. Parte-se da peculiaridade da Livraria Agir que, em 1954,

  “era ponto de encontro de escritores e poetas católicos”. Essa descrição feita por um escritor maranhense radicado no Rio de Janeiro oferece pistas sobre a existência de possíveis laços sociais entre João Mohana e o dono da livraria/editora, Ernst Fromm, precisamente pelo viés religioso, dada a especialidade da editora em publicar livros de autores católicos. Convém ressaltar que Mohana, quando da publicação de seu primeiro livro (1952), ocupava o posto de presidente arquidiocesano da Ação Católica no Estado, além de amigo próximo do arcebispo de São Luís, D. Delgado.

  Se num primeiro momento as relações entre autor e editor supostamente tenham se estabelecido, a priori, via religião, devido à “natureza católica” da livraria e do teor dos escritos de Mohana, somente este aspecto não garante a entrada do autor no rol dos escritores lançados pela Editora Agir, muito menos “se tornar conhecido” pelo público fiel da empresa.

  O dono da livraria/editora gozava de relativo prestígio conquistado junto ao círculo de escritores e poetas que para lá se deslocavam. E era esse reconhecimento que garantia a eficácia simbólica da “indicação” de um autor para a sua clientela. Portanto, as trocas sociais processadas em círculos de literatos e o pertencimento a essas redes de relações se constituíram num dos principais trunfos de que podia se valer um escritor para pleit ear sua “afirmação intelectual” no espaço de disputas pela demarcação de posições estratégicas referentes à atividade de produção de bens simbólicos, que viabilizavam a publicação de livros.

  54

4.2.2 O ingresso na Academia Maranhense de Letras

  No caso de João Mohana, esses vínculos sociais foram ainda mais sintomáticos na sua entrada para a Academia Maranhense de Letras (AML). O exame dos condicionantes de ingresso do médico e escritor para o seleto grupo de autores da referida agremiação literária requer a apreciação de que tanto o capital cultural quanto o capital social acumulado são amplamente valorizados como recursos distintivos e de legitimação de pertencimento entre os

  “imortais”, onde o jogo da reciprocidade, das amizades instrumentais e da autoconsagração nem sempre estão em consonância com a 54 produção intelectual de seus integrantes.

  

Fundada em 1908, a Academia ocupava uma posição privilegiada no espaço de produção cultural no

Estado, levando-se em consideração que ainda eram escassas as agências de produção de conhecimento

científico que, nos anos seguintes, viriam a rivalizar com a AML até a fundação da Universidade Federal

do Maranhão (UFMA), garantindo àquela agência de iniciativa privada um lugar de mera consagração

“intelectual” entre escritores aliançados por redes de relações de amizade instrumental e de

autoreferenciamento.

  João Mohana, no entanto, foi eleito para a AML no dia 4 de abril de 1970, tomando posse da cadeira n. 3 em agosto do mesmo ano, quando já havia publicado dezenas de livros. Sobre sua entrada no rol dos

  “escritores consagrados” do Maranhão, João Mohana escreveu:

  Você não ignora que hoje a Academia se reimpôs à opinião dos maranhenses. Há dinamismo, intercâmbio entre os acadêmicos, produtividade, estímulo aos valores intelectuais da comunidade. Antigamente tinha-se a impressão de que ao entrar para a Academia deveríamos, de tempo em tempo, sacudir do espírito o mofo intelectual. Hoje não é mais um museu. É uma trincheira da cultura. Candidatei-me agora porque pude fazer isto com sinceridade. E confesso que senti honra e alegria quando os acadêmicos vieram à minha residência (...) comunicar-me que eu era agora um deles (Suplemento Cultural de “O IMPARCIAL”, 1995, p. 5).

  Apesar da Academia consagrar autores que figuram e participam dos círculos de escritores (regionais e nacionais) já estabelecidos, não há critérios específicos para o ingresso dos que pleiteiam uma cadeira em seu rol de “ilustres”. O congraçamento de João Mohana entre os pares escritores, por exemplo, foi feito durante a presidência de José Sarney na Academia, amigo próximo de Mohana e de sua família, quando então desfrutava de seu último ano de mandato como Governador do Maranhão (1966-1970).

  As relações sociais estabelecidas fora do âmbito literário é que conferem maior ou menor grau de consagração intelectual aos escritores, independentemente da quantidade ou da qualidade de seus livros, o que sugere uma menor institucionalização do espaço literário maranhense em relação a outras esferas, duplamente dominado pelo poder político e pelo privatismo das relações pessoalizadas.

  A amizade estabelecida entre João Mohana e o governador Sarney fica evidente em diversas fotos onde os dois escritores se congratulam em variadas situações, quer seja em sessões solenes de lançamentos literários em São Luís, quer em eventos particulares entre as suas respectivas famílias (

  Suplemento Cultural de “O IMPARCIAL”, 1995, p. 26-27).

  O fato que marca o ápice dessa relação, que dá a dimensão das retribuições simbólicas obtidas por João Mohana por meio da atividade da escrita e o grau de relações estabelecidas com membros das elites políticas e culturais do Maranhão, acontece quando da visita do escritor ao então presidente da República José Sarney (1985-1989), em Brasília, para receber uma honraria

  • – a “medalha Rio Branco” -
concedida por suas ações sociais e culturais no Maranhão. Segundo relata Ibrahim Mohana

  , “o presidente Sarney telegrafou pedindo que [João Mohana] fosse a Brasília receber a maior medalha honrosa do Brasil. João telegrafou: Sou pobre, não tenho dinheiro das passagens. Sarney mandou as passagens” (Entrevista realizada em janeiro de 2013, em São Luís).

  As relações de João Mohana e de sua família com as classes dirigentes e as elites culturais do Estado não se circunscreveram apenas ao âmbito da literatura. Em foto datada de 1981, Mohana aparece ao lado do então governador João Castelo (1979-1982) abençoando a sede da Escola de Música do Maranhão, quando de sua inauguração naquele ano. Na ocasião, segundo registro do jornal, o Governo do Estado, através de Castelo, “ofereceu todas as condições à professora Olga Mohana, diretora da Escola, para realizar ali um trabalho de infraestrutura sem precedentes” (Suplemento Cultural de “O IMPARCIAL, 1995, p. 33).

  Conforme se pode observar, tanto João Mohana quanto sua família (exemplificada pela irmã de João, Olga Mohana, que ocupou o posto de diretora da Escola de Música do Maranhão, cargo de livre indicação feita pelo então governador João Castelo) desfrutavam de um bom trânsito entre as elites maranhenses, especialmente nas esferas cultural, política e religiosa, quer seja entre escritores ou artistas em geral, ou entre deputados e governadores, quer entre membros do alto clero local.

  A inserção nestes círculos sociais foi determinante tanto para a afirmação social da família Mohana

  • – avalizada primeiramente em conjunto com a ascensão econômica conquistada pelo pai, oriunda de sua atividade comercial
  • – quanto para a consagração intelectual do escritor João Mohana. Este, por sua vez, associando seu capital cultural às competências adquiridas através do exercício da escrita, soube converter para dentro do campo de atuação sacerdotal todos os condicionantes exógenos que incidiram sobre sua “trajetória”, por assim dizer, da mesma forma que suas ações enquanto padre reverberavam as influências adquiridas fora do âmbito eclesiástico, exemplificadas na multiplicidade de temáticas e de domínios frequentados pelo autor na produção e publicação de seus livros.

  No tocante ao exame dos condicionantes de entrada no mundo sacerdotal, é interessante pontuar o peso, sempre relativo, que esse capital social conquistado pelo trânsito em distintas esferas, interligado ao capital cultural acumulado em diversas instâncias de formação escolar e acadêmica, adquire na tomada de posição e de disposição de João Mohana pela vida eclesiástica, abrindo mão de uma carreira médica amplamente valorizada no jogo social em disputa, conforme já observado, e sedimentando novos espaços de intervenção no mundo social.

4.3 Da “batina branca” à “batina preta”: a “vocação” do sacerdócio

  Em fevereiro de 1954, poucos meses após a morte do pai, um dos principais responsáveis por sua opção pela Medicina como carreira profissional, João Mohana

  55

  decide entrar para o Seminário de Viamão, no Rio Grande do Sul . Estava então com 28 anos de idade, exercendo a profissão de médico e já desfrutando do “sucesso” alcançado com seus três primeiros livros, sendo dois romances premiados pela Academia Brasileira de Letras.

  O ingresso de João Mohana para a vida seminarística é, pois, um dos casos singulares de padres que se ordenam de forma relativamente tardia em relação a outros agentes no espaço de concorrência religiosa, além de ser um exemplo significativo para se analisar os condicionantes exógenos que influem na atuação apostólica de um sacerdote, bem como os aspectos internos da vida eclesiástica interferindo no mundo social, particularmente em domínios onde a Igreja busca recuperar, manter e reproduzir seu poder religioso, como os espaços político e o artístico/intelectual.

  Isso fica bem evidente quando se examina o grau de importância da amizade estabelecida entre João Mohana e o arcebispo D. José Delgado para o ingresso daquele num seminário localizado no sul do país. Em artigo intitulado “A grandeza do 55 Maranhão”, datado de 27 de outubro de 1974, onde avalia a contribuição da pesquisa

  

O Seminário Maior Interdiocesano Nossa Senhora da Conceição, mais conhecido como Seminário de

Viamão, foi inaugurado no dia 14 de março de 1954 na cidade de Porto Alegre (RS). Da leva dos 61

seminaristas que para lá se deslocaram em 28 de fevereiro, antes mesmo da inauguração, João Mohana

estava presente. O Seminário recebia alunos de todas as cidades do Rio Grande do Sul, bem como aqueles

vindos de outros estados. Em Viamão, os seminaristas recebiam ensinamentos de Teologia e Filosofia,

esta ministrada nos mesmos moldes de um curso leigo superior. Segundo informa o site da instituição,

devido à necessidade de que os sacerdotes fossem portadores de títulos e diplomas acadêmicos, o curso

seminarístico de Filosofia foi elevado, em 1956, à categoria de faculdade. As informações podem ser obtidas no endereço www.seminariomaiordeviamao.com.br. desenvolvida por Mohana sobre a descoberta de um acervo musical inédito no Estado, de reconhecido valor cultural nacional e internacional, assim relata o referido arcebispo:

  João Mohana tem uma vocação artística e espiritual que eu já reconhecia quando aprovei sua ida para o Seminário, comprometendo-me, entretanto, de, enquanto fosse eu arcebispo, jamais impedir, com encargos pastorais diferentes, a vocação específica com que nasceu.

  Vejo com edificação que ele, graças também ao apoio que lhe tem dado o atual arcebispo de São Luís, vem cumprindo sua missão. Recordo-me, com alegria, que eu mesmo quase o impeço de trabalhar com toda liberdade, quando o consultei para entrar para o corpo docente da Faculdade de Medicina, por mim organizada a caminho da criação da Universidade do Maranhão.

  Ele se recusou e eu senti que estava sendo fiel à sua vocação artística e espiritual, dados os motivos que alegava com firmeza e confiança (Suplemento Cu ltural de “O IMPARCIAL”, 1995, p. 44. Grifo nosso).

  Mesmo não ocupando mais o posto máximo da hierarquia eclesiástica no Maranhão, D. Delgado manteve laços de amizade e admiração por Mohana dentro e fora da Igreja, a ponto de confessar ter sido ele própri o um dos que “aprovaram” a ida do médico e escritor para o Seminário. Nota-se também a preocupação do arcebispo, enquanto na função eclesiástica, em “jamais impedir” a manifestação da vocação artística e espiritual que ele já reconhecia em João Mohana.

  Nesse relato, fica evidente ainda o grau de relações que Mohana mantinha com a hierarquia eclesiástica local, gozando do “apoio” de outro bispo para o “cumprimento de sua missão” nas áreas da “cultura” e da “espiritualidade”. Consoante a tais relações, D.

  Delgado informa ainda sobre a recusa de Mohana em “não entrar para o corpo docente da Faculdade de Medicina”, em vias de organização rumo à criação da Universidade do Maranhão, com a alegação de dedicar- se “com firmeza e confiança” em sua vocação artística e espiritual.

  Em verdade, seu processo de adaptação ao seminário gaúcho impôs-lhe alguns impedimentos no aspecto de produção intelectual e nas outras atividades que desenvolvia. Primeiramente, por conta do distanciamento geográfico entre o Nordeste e a região Sul do país, que se interpõe como uma barreira espacial na continuidade das atividades da Ação Católica, da qual era presidente arquidiocesano, ou seja, gozava do apoio da hierarquia da Igreja do Maranhão para desenvolver seus projetos.

  Segundo, pela ausência de laços mais consistentes construídos no Seminário gaúcho com os membros do clero de lá que lhe possibilitassem galgar posições mais bem alocadas no espaço institucional da Igreja e, assim, desenvolver ações religiosas no Sul do mesmo porte das desenvolvidas no Nordeste. Perguntado sobre quais atividades deixou no Maranhão para ser padre no Rio Grande do Sul, Mohana informou:

  Atividades médicas: era pediatra do Departamento Estadual da Criança, educador sanitário da Campanha Nacional de Educação Rural junto à Missão Intermunicipal Rural Arquidiocesana e exercia a clínica particular em São Luís. Atividades artísticas: escrevia meus livros. Atividades apostólicas: todo o trabalho de militante da Ação Católica ( Suplemento Cultural de “O IMPARCIAL”, 1995, p. 4)

  Com efeito, não consta nas fontes consultadas que João Mohana tenha publicado algum livro durante os anos que passou no Seminário de Viamão. Por conta de seu modelo de internato, como o é, geralmente, das instituições confessionais que visam, com isso, garantir maior inculcação do ofício de sacerdote, a dedicação de Mohana à obtenção da formação sacerdotal foi integral, paralisando todas as suas atividades “mundanas” e “apostólicas” temporariamente.

  A decisão de Mohana de largar a “batina branca” de médico para vestir a “batina preta” de padre gerou um fato noticioso que “alarmou” seus pares escritores e a comunidade “intelectual” maranhense de um modo geral. Em texto publicado no jornal “O COMBATE”, em 20 de janeiro de 1955, cujo título era “Mohana e O Outro Caminho”, o jornalista e escritor Lago Burnett elaborou uma reflexão sobre a entrada de João no seminário de Viamão:

  O fato literário de maior importância, neste ano maranhense, que ora se inicia, não é propriamente literário, ou melhor: não se circunscreve apenas à estreita esfera literária, porque abrange território mais amplo, porque tem um significado mais vasto, que talvez nós da imprensa, em nosso afã de informar, não tenhamos podido captar em sua unânime plenitude. Refiro-me à decisão do romancista João Mohana que (...) deixou, definitivamente, esta vida exterior em que nos debatemos, para seguir em busca d’ “o outro caminh o”, da estrada do seu encontro consigo próprio, que não podemos chamar de estrada de Damasco, porque Mohana, muito ao contrário de Saulo, parece que já ouvia, dentro de si, desde seus primeiros passos no mundo, a voz de Deus, a adverti-lo de que “grande é a messe e poucos são os operários”. (...) Assim se pode compreender uma legítima vocação para o sacerdócio. É um homem de personalidade firmada, particular e publicamente, vitorioso em sua carreira literária, festejado em sua clínica de médico profissional, acatado e

  querido nos círculos católicos, onde, sobretudo nos últimos tempos, vinha desenvolvendo uma atividade admirável no setor das artes, quem resolve desligar-se do convívio dos seus porque “nenhum profeta é aceito em sua terra”, para postar-se diante do Senhor (ibid., 1995, p. 20. Grifo nosso).

  Nota-se que a decisão de Mohana de ingressar na vida sacerdotal ter se tornado um fato noticioso sugere a dimensão do reconhecimento social e intelectual adquirido perante as classes elitistas maranhenses, particularmente entre seus círculos de amigos escritores. Prestígio esse que aumenta à medida que João obtém a ordenação sacerdotal e passa a se dedicar ao que chamou de “ministério da palavra escrita e falada”, desenvolvendo um trabalho pastoral que se diversifica por meio da realização de palestras e conferências, da publicação de livros e do engajamento militante nos movimentos da juventude universitária, onde atua na formação de novas lideranças católicas junto aos filhos das elites acadêmicas.

  Dessa forma, em 2 de julho de 1960, no auge dos seus 35 anos de idade, ordenou-se sacerdote.

  Desenvolvendo um modelo de ação que se baseia no tripé “falar, escrever e agir”, João Mohana consegue obter em cada um dos planos um reconhecimento social que o impele a intervir nos demais. A hibridização de seu ofício sacerdotal fica ainda mais evidente a partir do uso que faz da consagração intelectual obtida através do alcance de seus livros, do saber científico adquirido com a formação em Medicina e da investidura na carreira de padre, que o condicionam e o legitimam a investir na realização de milhares de palestras e conferências, versando sobre as mais diversas temáticas, com destaque para as questões sociais que enfocam as relações conjugais e a postura do indivíduo diante dos problemas do cotidiano, bem como na produção cada vez mais acelerada de bens simbólicos.

  Os usos sociais e religiosos que faz da escrita, consubstanciada na publicação de dezenas de livros, todos reeditados ininterruptamente e traduzidos para diversas línguas, além do saber médico/científico capitaneado pelo título acadêmico de Medicina, conferem a Mohana poder e autoridade também para atuar na formação de novas lideranças católicas junto às elites universitárias, sempre gozando do apoio da hierarquia clerical e da ocupação de posições relativamente privilegiadas no espaço em disputa.

4.4 O “ministério da palavra escrita” e a dissolução do religioso

  Nos idos de 1963, ao analisar o paralelo existente entre ser médico e ser sacerdote, João Mohana elaborou a seguinte reflexão:

  Costumam dizer que ser médico e padre é ser duas vezes sacerdote. Não penso assim. Porque não considero a medicina um sacerdócio. É uma profissão sublime. Nada mais que isso. Sacerdócio só há um. Esse que se interpõe entre os homens e Deus, entre Deus e os homens. Mas não há dúvida de que a cultura e prática médicas, no coração de um padre, são um incomensurável equipamento para a bondade gratuita (Suplemento Cultural de “O IMPARCIAL”, 1995, p. 4, Grifo nosso).

  Padre Mohana consegue estabelecer uma coexistência difusa entre a medicina e o sacerdócio, na qual a primeira pode contribuir sensivelmente para o desenvolvimento da segunda. Mas não concebe o inverso como uma proposição possível de manifestar- se, vez que considera que

  “sacerdócio só há um, esse que se interpõe entre os homens e Deus”. Na concepção do padre escritor, a medicina é apenas uma “profissão sublime”.

  Tal reflexão revela como um padre concebe seu ofício em comparação com a carreira médica, potencialmente concorrente pelo fato de rivalizar e mesmo contestar o monopólio da Igrej a e do clero sobre o discurso “salvífico” do corpo à luz da fé cristã, com a peculiaridade de que ambos, médico e sacerdote, são revestidos de um poder institucional delegado e autorizado que disputam entre si a legitimidade de suas posições e definição de seus campos de atuação no espaço de concorrência simbólica (NUNES, 2000, p. 249-250).

  Contudo, ao mesmo tempo em que tenta criar, ou melhor, estabelecer, discursivamente, as fronteiras entre o sagrado e o profano, entre a fé e a ciência, entre a religião e a medicina, relegando a cada uma sua tarefa específica de “salvação” (do corpo e da “alma”), João Mohana admite a importância e influência que o saber médico pode exercer sobre a atuação sacerdotal, ressaltando não haver dúvida de que “a cultura e prática médicas, no coração de um padre, são um incomensurável equipamento para a bondade gratuita”.

  Dispondo de um saber médico valorizado socialmente, das técnicas de construção de uma obra artística cimentada por meio da escrita e da formação sacerdotal obtida nos moldes universitários (primazia pelo exercício da reflexão e do pensamento crítico), Mohana se lança à produção de livros cachoeiramente edificados no gênero de escrita do ensaio, modalidade que propicia a sedimentação de diversas publicações voltadas para a doutrinação religiosa do comportamento dos leitores.

  Uma evangelização por meio da arte escrita é o que coloca em prática João Mohana. Para isso, faz uso religioso do conhecimento médico/científico adquirido para conferir ares de cientificida de e de “solução” objetiva para os problemas reais e sociais que analisa em seus livros. Nesse sentido, a luta simbólica travada por Mohana no campo da produção cultural revela as disputas em jogo pela “imposição da definição legítima não só do religioso, mas também das diferentes maneiras de desempenhar o papel religioso” (BOURDIEU, 2004, p. 120).

  É nessa perspectiva que a atuação sacerdotal de João Mohana, privilegiando o exercício de seu ofício religioso no domínio intelectual, evidencia o aspecto multifacetado de seu repertório de ação evangelizadora. Ao recorrer aos saberes da medicina e da literatura para cimentar sua produção livresca voltada para a disseminação da doutrina católica por meio da palavra escrita, Mohana exemplifica o processo de dissolução do religioso, onde as fluidas e distintas fronteiras de atuação se confundem e se entrecruzam, possibilitando a participação dos agentes na luta pela imposição de regras e estratégias que visam estabelecer definições, critérios e competências de legitimação de práticas e discursos.

4.4.1 Um padre na luta pela definição do que é “literatura”

  Sobre a preferência pela modalidade de escrita do ensaio em detrimento da continuidade no gênero literário que o “consagrou”, o romance, o sacerdote Mohana assim refletiu:

  Vivemos num país carente de ideias e empanturrado de emoções. Deixei de vender emoções porque havia um precário mercado de ideias. Não foi, pois, visando o lucro. É que sem ideias corretas um povo não pode ser feliz. Você sabe que não se deve fazer romance para veicular ideias corretas, pois os personagens nem sempre agem correto, nem sempre falam correto, não pensam sempre correto. Ora, abomino a inautenticidade. Inicialmente choquei um certo público, com meus romances, porque não pus neles tipos certinhos. Então concluí que o ensaio era o veículo adequado para eu atirar todo o meu mundo no mundo. Assim deixei o romance. Mas não deixei minha preocupação de escrever bonito. Porque sou um artista e creio que o artista não deve desertar de dentro do pensador. Alguns críticos têm notado este fato: em meus ensaios há páginas literariamente tão válidas quanto em meus romances

(Suplemento Cultural de “O IMPARCIAL”, 195, p. 5. Grifo nosso).

  Há que se observar que sobre o pensamento de Mohana paira uma demasiada preocupação em “escrever bonito” para conferir “valor literário” a seus livros ensaísticos numa modalidade de escrita que privilegia não a forma, mas o conteúdo, não a literariedade das linhas textuais, mas a abrangência e profundidade das questões abordadas através de um gênero de escrita que lhe permite “atirar todo o seu mundo no mundo”.

  Não obstante, há todo um esforço intelectual do padre Mohana em elaborar um enredo discursivo que valide literariamente seus ensaios, buscando assim impor uma nova definição legítima sobre o que é literatura e sobre quais os critérios que devam defini-la enquanto tal. Trata-se de uma tentativa de subversão da lógica vigente de definição de critérios e valores literários conferidos ou não a uma produção escrita.

  Ao mesmo tempo, significa a demarcação de posições e posicionamentos de João Mohana na luta pela conquista de reconhecimento “literário” a uma modalidade de escrita abraçada por ele para sua atuação evangelizadora, mas desprovida do mesmo grau de retribuições simbólicas atribuídas ao romance, por exemplo. Em suma, pode-se afirmar que há uma certa preocupação de Mohana em ser sacerdote da palavra escrita sem descurar de manter o mesmo reconhecimento social conquistado como

  “literato”, exemplo nítido de imbricação e interferência mútua entre os domínios da religião e da “cultura”.

  Essa luta pela imposição sobre o que é e o que define a literatura e o valor literário de um livro, seja ele escrito em qual modalidade for e abordando assuntos quaisquer, fica ainda mais evidente na seguinte avaliação feita por Mohana, em abril de 1970, quando perguntado se considerava obras literárias todos os seus livros até então publicados:

  Sim. Na medida em que me preocupo com a forma de cada um. Uma obra é literatura se oferece o que constitui o mundo literário, que é o modo de dizer, a maneira de escrever, o estilo de comunicar próprio do artista das letras. Ora, neste assunto precisamos superar um velho preconceito que rejeita considerar um livro sobre tema ético como obra literária, mesmo quando o tema é abordado com talento estilístico, realizado com autêntica preocupação de forma. O cinema, por exemplo, superou esse preconceito. Não vejo porque uma obra sobre política, escrita com valor literário, realizada de modo artístico, não possa ser literatura. Não existe aí um preconceito de quem institui tal convenção? Há páginas em meu livro

  “Paz pela oração” que julgo tão literárias quanto as de meu romance “Maria da tempestade”. (...) Por que, então, só considerar literatura a ficção? O ensaio de nível literário merece o mesmo enquadramento, testemunhe ele qualquer setor da vida; qualquer que seja a mensagem nele apresentada. Parece-me errado aceitar como incompatibilidade da literatura o que é alergia de literatos. Não vejo porque ideias em roupagem literária não possam gozar dos mesmos privilégios de estórias ou sentimentos em idêntica vestimenta. Não importa se são ideias cafonas, como não importa se são estórias repugnantes. O conteúdo aqui é secundário. Fundamental é a toalete. Na toalete é que reside o proprium da literatura

  (Suplemento Cultural de “O IMPARCIAL”, 1995, p. 5. Grifo nosso).

  À medida que percebe que a predileção pelo ensaio, gênero de escrita não canonizado pelos “literatos” como digna de valorização literária, não lhe rende o mesmo prestígio conquistado com seus romances entre os “críticos”, Mohana tenta subverter “as regras da arte” literária, lançando mão de sua posição e de seu capital cultural para afirmar, em busca da legitimação literária, de que em seus ensaios há páginas literariamente tão válidas quanto em seus romances.

  A preocupação de Mohana reside em torno da forma e não do conteúdo. Para o sacerdote, o ensaio escrito com esmero pela forma “merece o mesmo enquadramento literário” dado à ficção, “testemunhe ele qualquer setor da vida”. Os esforços para conferir literariedade a um gênero convencionalmente tido como não-literário, sedimenta as críticas feitas por Mohana aos “literatos”, que sustentam “velhos preconceitos” edificados em torno de convenções concebidas pelo sacerdote como ultrapassadas, uma vez que o “conteúdo é secundário” e “fundamental é a toalete”, onde reside “o proprium da literatura”.

  O fato é que, longe de fazer ficção, aspecto valorizado no domínio intelectual como digno de valor literário, a opção pelo ensaio sugere a força com que Mohana encara seu “ministério da palavra escrita”, uma vez que os livros produzidos nesse gênero estão eivados de doutrinação cristã, remetendo-se à análise de temas e assuntos relativos à esfera da realidade social das pessoas, e não no plano das emoções. Sua escrita ensaística é voltada para a conversão religiosa e para a disseminação da doutrina católica. Títulos de obras que abordam a questão do casamento como Ajustamento

  

conjugal, Casar para crescer, Namoro é isto, e outros que versam sobre temáticas

  envolvendo a espiritualidade, tais como Plenitude Humana, Escolhidos de Deus, O cristão desafiado, dentre muitos outros, exemplificam a análise exposta.

  O conteúdo de seus livros chega algumas vezes a tocar em questões delicadas e tratadas com reservas por boa parte da hierarquia eclesiástica. Livros como Os

  

perseguidos, peça de teatro publicada em 1979, e Diga não ao imperialismo cultural,

  lançado em 1985, que abordam os problemas políticos e sociais enfrentados pelo país durante o regime militar (1964-1985) e a influência norte-americana sobre a produção cultural brasileira em face ao processo de reabertura política, dão a dimensão de uma visão católica sobre o mundo social, ao passo que oferecem subsídios para se compreender a posição e os posicionamentos de membros da Igreja frente às questões sociais tidas como mais

  “emergentes”, particularmente daqueles bem relacionados com o alto clero maranhense e com as elites políticas e culturais, como no caso de João Mohana, constrangendo e condicionando projetos e planos de atuação coletiva e individual.

4.4.2 Em nome da “libertação”: a JUAC e o recrutamento das elites

  Tal perspectiva se acentua a partir do ponto em que se observa a atuação do movimento leigo da Juventude Universitária Autêntica Cristã (JUAC), fundado e presidido por João Mohana, em 1975, no Maranhão. A JUAC, fruto das diversas ramificações existentes a partir da Ação Católica Brasileira (MAINWARING, 2004), tinha como principal objetivo recrutar entre as elites universitárias as futuras e novas lideranças católicas para compor os quadros da Igreja no Estado, além de prepará-los para a vida social de acordo com os preceitos doutrinários do Vaticano II e das Conferências de Medellín (1968) e Puebla (19

  79), resumidos na “opção preferencial pelos pobres”, na “luta contra as injustiças sociais” e na “libertação política e religiosa do povo oprimido” (BOFF, 2012, p. 33-37; SALEM, 1981, p. 22-23). Em relação aos outros movimentos de juventude, especialmente às ações da JUC (Juventude Universitária Católica), cujas intervenções no espaço da política local matizaram a participação de sacerdotes em eventos históricos como a

  “Greve da Meia Passagem” (BORGES, 2006) e a construção do Partido dos Trabalhadores no Maranhão (BORGES, 1998), entre outros, acabando por recolocar a questão da “politização do engajament o religioso” em contextos e dinâmicas periféricos (MACHADO, 2012; NERIS, 2012; PEREIRA, 2011), a JUAC privilegiou o trabalho apostólico no domínio intelectual, focando principalmente a formação educacional, cultural, política e social dos “autênticos cristãos”, fazendo uso do mesmo arcabouço ideológico doutrinário de seus congêneres, a teologia da libertação. Esta passou a ser então apropriada enquanto recurso estratégico para a “inclusão de novas problemáticas legítimas”, legitimando “reinterpretações do passado” e balizando produções de sentido sobre o presente, ao mesmo tempo em que a própria capacidade de mediação e de intervenção religiosa no mundo social se reafirma (CORADINI, 2012, p. 73-75).

  Nessa perspectiva, João Mohana se serve dos pressupostos da Teologia da Libertação, enquanto presidente e organizador do movimento leigo no Maranhão, para basilar a formação política e educacional de seus militantes. Um texto de autoria de Marcelo Antunes, ex-militante da JUAC no Estado, datado de fins da década de 1970, apresenta alguns elementos que consubstanciam a análise e caracterizam o aspecto pedagógico da “libertação” e da “transformação” sobre a militância:

  O processo de decadência cultural, política e existencial que se instalou no Brasil, pós- golpe militar, e que estrategicamente se abateu sobre a juventude brasileira, o militarismo no embotamento do seu presente e a redução castradora dos seus sonhos às margens da massificação e do imperialismo cultural, tornam-se cenário onde a graça de Deus reservou à juventude maranhense um encontro, um chamado. Em meio ao caos, o nosso tempo foi presenteado com um movimento que nos permitiu vivenciar a força transhistórica, transformadora e transfiguradora da pessoa e do projeto de Cristo. O poder da mensagem semeada entre nós através de um homem, de um apóstolo, cujos limites e amplitude da linguagem, eu agora posso fazer uso, me conduzem a nomear: João Mohana. Dentre sua vasta atividade junto à cultura maranhense, o Padre Mohana funda em 1975 o movimento JUAC (Juventude Universitária Autêntica Cristã), com vistas a suprir uma lacuna na nossa educação marcada pela selvageria do capitalismo, profundamente egocêntrica e em consequência despersonalizada e castradora. Pudemos

  sentir, a partir de então, em nossas jovens existências, a dinâmica transformadora do Evangelho. A sua pedagogia significou para nós a realista revelação do rio Bacanga, dos nossos limites, dando-nos a ver a amplitude do oceano e desencadeando em nós poderosa transformação rumo à desembocadura, vi a palavras com força de Boqueirão: “tudo que desanima é demoníaco”, “é preciso lutar contra as condições”, “sem ideal e disciplina não se faz nada!”[...] Por uma sorte, da qual não fomos merecedores, a graça da convivência com João Mohana nos fez experimentar a ação confiante da libertação cristã, significação da real possibilidade da mudança, abrindo à juventude do Maranhão o exemplo perene do vislumbramento da “boca do Pindaré, sempre lembrando partida, nunca chegada”, de outros caminhos, sem medo da diferença, da alteridade, de realizar em nós a multiplicação dos talentos, da luta incansável pela modificação do meio e do trabalho infindável, do qual a vida é ensinamento.

  Escrevem-se assim na vida do Maranhão páginas inextinguíveis, das quais somos testemunhas, e uma obra que nos conclama provocativamente para o rompimento dos nossos casulos, frente à realidade da messe faminta de operários e à instalação de um certo Reino...

  (Suplemento Cultural de “O IMPARCIAL”, 1995, p. 20. Grifo nosso).

  A caracterização feita por um ex-militante da JUAC no Maranhão possibilita pensar que, mesmo um movimento leigo com vistas à “cristianização das futuras elites”, o que poderia evidenciar o seu a specto “clerical e conservador” (MAINWARING, 2004, p. 83-84), consegue pautar-se pelos ditames doutrinários de uma teologia que visa “mudar as estruturas” que produzem as “injustiças sociais”, seja a “organização elitista da sociedade, a acumulação privada e a própria estrutura socioeconômica do sistema capitalista ” (BOFF, 2012, p. 35).

  Os pressupostos da Teologia da Libertação aparecem curiosamente em Mohana tanto no seu engajamento militante quanto nas concepções que tece sobre a política, a economia, a sociedade, inclusive até sobre a própria Igreja. O “estranhamento” se justifica pelo fato das relações que Mohana mantém com membros do alto clero maranhense. Enquanto em outros contextos os movimentos da juventude universitária se “radicalizaram contra a hierarquia” (MAINWARING, 2004; REIS, 2007; SERBIN, 2002), no Maranhão os vínculos estabelecidos entre os dirigentes dos movimentos leigos e a hierarquia eclesiástica

  • – como quando Mohana foi presidente arquidiocesano da Ação Católica no Estado antes mesmo de se tornar padre, cuja posição conseguiu
alcançar contando com o grau de amizade que tinha com o arcebispo D. Delgado e o bom trânsito que desfrutava entre o alto clero local

  • – foram fortalecidos por lógicas de ajuda mútua e de reciprocidade, onde o laicato esteve sempre “agarrado atentamente ao báculo do Bispo” e contava com a sua “aprovação e bênção” para desenvolver suas ações (Suplemento Cultural de “O IMPARCIAL”, 1995, p. 4).

  O entranhamento da Teologia da Libertação em João Mohana aparece também em seus escritos. A peça de teatro Os perseguidos, publicada pela Editora Globo de Porto Alegre, em 1979, é um dos sintomáticos exemplos de como Mohana busca evangelizar seu público leitor

  à luz da explicitação da luta entre “dominantes e dominados”, por assim dizer, expondo seu pensamento sobre o mundo social e a situação política do Brasil e do Maranhão daquele período através de seus personagens “subversivos” que se digladiam contra as “autoridades” em busca da “libertação religiosa” e da “transformação política e social” das estruturas que sedimentam as “injustiças sociais” (MOHANA, 1979, p. 35).

  O processo de adesão do autor à referida teologia chegou a provocar certo “espanto” entre os críticos de Mohana. O jornalista Oscar Mendes, em artigo escrito para

  “O ESTADO DE MINAS” e publicado em 23 de maio de 1981, elabora uma crítica literária a quatro peças teatrais das seis escritas por Mohana, assim se referindo ao enredo de Os perseguidos:

  O choque é muito grande para quem leu as três peças acima apreciadas [Abraão e Sara, Inês e Pedro e Casulo de Pedra] e esta última de João Mohana. Temos agora uma amostra do chamado “teatro de agressões”, em que o espectador é agredido pela linguagem, pelo tema, pelo condicionamento psicológico dos personagens. O tema aproveitado é da mais atual cotidianidade: a luta entre subversivos e autoridades, com utilização das palavras de Cristo para justificar certas interpretações, tudo dentro do espírito da mais conhecida “teologia da libertação” (Suplemento Cultural de “O IMPARCIAL”, 1995, p. 40. Grifo nosso).

  O “choque” causado pelo livro de Mohana junto aos críticos literários é sensivelmente compreensível. Afinal, a incorporação de um repertório discursivo fornecido pela teologia da libertação por um médico “literato” que fez da pregação do Evangelho seu ofício “vocacional”, pertencente a uma família que gozava de prestígio e reconhecimen to entre as elites maranhenses, acaba por “agredir” o seu público leitor, que também se “choca” com a “transformação” sofrida pelo padre.

  Ao chegarmos até este ponto do exame da trajetória de João Mohana, é possível observar toda a teia de poderes e de relações sociais que favoreceram e mesmo impulsionaram certas tomadas de posição, a ocupação de determinadas posições e a fabricação social de vocações religiosas no Maranhão. Mais do que isso, o percurso feito por Mohana apresenta elementos que não podem ser negligenciados quando do exame da emergência de figuras “ilustres” no patamar de “excepcionalidade” em diferentes domínios.

  Certamente, o capital cultural produzido, transmitido e adquirido por “herança familiar

  ” em dinâmicas complexas e periféricas (WOLF, 2003; GRILL, 2003), representado na figura do pai, próspero comerciante de origem libanesa em vias de afirmação econômica e social na sociedade maranhense, a formação escolar de orientação cristã católica e os primeiros contatos com as expressões artísticas de um modo geral, obtendo destaque entre os colegas, o trânsito e as relações estabelecidas com membros do alto clero maranhense, exemplificado na recepção de um bispo em Viana, ainda na infância, e, mais tarde, as amizades feitas com leigos e clérigos que o influenciaram na vida acadêmica de estudante de Medicina e na militância do movimento leigo da Ação Católica no Estado, contribuem em sua resultante para a constituição de uma plataforma de ação evangelizadora multifacetada.

  O saber médico adquirido com a formação acadêmica, o prestígio social conquistado pela consagração “intelectual” e a dedicação à “vocação” sacerdotal conferem a Mohana uma gama de conhecimentos e competências que, somados, compõem um leque variado de recursos passíveis de serem acionados em determinadas situações onde são valorizados e exigidos como requisitos para a ocupação de determinadas posições, como o título de médico duplamente valorizado pela legitimidade do exercício da clínica médica e da atuação enquan to “literato/intelectual”, e a formação seminarística para a ordenação e a atividade sacerdotal.

  O volume desse capital institucionalizado somado ao acúmulo de um capital social que se enriquece à medida que novos espaços são conquistados e teias sociais relativamente privilegiadas são erigidas acabam, no entanto, promovendo uma indistinção entre os três ofícios: o de médico, o de escritor e o de sacerdote.

  Afinal, Mohana é um padre que usa seus conhecimentos médico/científicos e as habilidades e técnicas literárias para formular seus livros voltados para a evangelização de seus leitores e para a difusão da fé e dos valores católicos. Ao atribuir para si a “missão” de exercer com “convicção” e “segurança” o “ministério da palavra escrita e falada”, esta manifestada em suas milhares de palestras e conferências realizadas no Brasil e no exterior, o sacerdote se dilui em seu ofício, transplantando para o âmbito clerical os recursos e troféus conquistados fora dele.

  Nesse sentido, diante dos condicionantes e dos constrangimentos impostos pelas dinâmicas sociopolíticas evidenciadas, o exame do itinerário de João Mohana exemplifica o grau de hibridização do ofício sacerdotal no Maranhão, onde o padre reivindica como legítimos saberes e competências que não orbitam hodiernamente no âmbito confessional e no qual a atividade da escrita funciona como principal atributo na disputa por imposições de sentidos e de confecção de interpretações sobre o mundo social, sendo acionada como uma modalidade de atuação evangelizadora, cujas regras válidas para o domínio da literatura são utilizadas em prol da “libertação” e da “transformação” dos cristãos.

  CONSIDERAđỏES FINAIS

  O enfoque dado à análise dos condicionantes que favoreceram e influenciaram o processo de hibridização e diversificação da atividade sacerdotal no Maranhão, tanto na capital quanto no

  “interior” do Estado, observado através do exame de dois itinerários singulares de padres que se diferenciaram dos demais agentes pelo repertório de atuação acionado em distintos domínios e sob variadas formas e modalidades, sugere a observação de alguns pontos importantes.

  Em primeiro lugar, a formulação do objeto em termos de análise sobre as transformações históricas, políticas, sociais e culturais favorece a compreensão dos processos por que passou a Igreja, as mudanças operadas em sua organização institucional, a abertura para o ingresso e a valorização do laicato junto às ações de evangelização e os condicionantes que possibilitaram a emergência da figura dos “intelectuais católicos” e sua importância na elaboração de postulados teórico- doutrinários com vistas ao aumento da clientela religiosa.

  Por isso mesmo, e com base no repertório variado de mobilização e engajamento adquirido pelos agentes e acionado em diferentes domínios, pode-se pensar, em segundo lugar, que as estratégias de atuação dos sacerdotes investigados foram ainda mais diversificadas. Observou-se que a inserção de padres em organizações, movimentos e instituições ligadas ou derivadas de vínculos estabelecidos com a Igreja é marcada tanto por processos de ruptura ou de radicalismos de posições, quanto, no sentido inverso, pelo estreitamento das relações de filiação religiosa com a instituição eclesiástica.

  Se, de um lado, os condicionantes que constrangeram e favoreceram uma multiplicidade de intervenções no mundo social, ampliando e diversificando o leque de atuação de sacerdotes e legitimando processos e ações em espaços não necessariamente de cunho confessional, são entrecortados por transformações históricas e institucionais, nem sempre operadas em conjunto, por outro as formas e modalidades de mediação (cultural, política, social, religiosa) escolhidas pelos agentes, muitas vezes, parecem ter bases motivacionais próximas entre si, apesar de também preservarem suas peculiaridades e pontos dissonantes. Nesse sentido, as especificidades apontadas se tornaram ainda mais observáveis diante de um quadro conjuntural marcado por frequentes avanços e recuos em seus desdobramentos.

  Dessa forma, tanto a composição da trajetória do padre Clodomir Brandt quanto a do padre João Mohana se distanciam em alguns pontos e se aproximam em outros, evidenciando o cruzamento de lógicas (políticas, culturais e religiosas), a imbricação e fluidez de fronteiras entre distintos domínios, os usos sociais que são feitos da escrita por cada um dos agentes, bem como as singularidades de estratégias, recursos e trunfos acionados no espaço em disputa.

  Num primeiro momento, a distinção entre os espaços geográficos de atuação dos dois sacerdotes define contornos mais nítidos de observação das discrepâncias e peculiaridades entre ambos. Enquanto padre Brandt realiza suas ações no “interior” do Maranhão, mais precisamente na cidade de Arari, distante geograficamente do centro de poder da hierarquia eclesiástica, situado na capital, contando assim muito mais com o apoio de familiares (no caso, o próspero “tio Cláudio”) e de uma rede de amizades calcada no valor social conferido aos seus feitos, que está na base das retribuições simbólicas que obtém como sacerdote, padre Mohana goza do privilégio de atuar na capital São Luís, centro catalisador das demandas sociais, culturais, econômicas e religiosas do Estado, o que lhe possibilita um trânsito mais próximo entre os membros do alto clero local, estabelecendo redes de reciprocidade que o ajudam a pôr em prática seu trabalho evangelizador por intermédio de um viés institucional, primeiramente como leigo vinculado à hierarquia clerical e, depois, como integrante do corpo sacerdotal.

  O percurso trilhado pela família Brandt, particularmente pelos pais, que não conseguem garantir uma maior oferta de possibilidades para a continuidade da formação escolar de todos os fi lhos, acaba gerando uma “concentração das redes de relações parentais” em torno de Cláudio Brandt, o primogênito da família que ajuda na formação escolar e no direcionamento das profissões de cada um de seus irmãos. É através do “tio Cláudio” que Clodomir consegue entrar e se manter no Seminário e, assim, seguir a sua “vocação” profissional. É também o tio estabelecido social, econômica e politicamente quem irá ajudar padre Brandt no desenvolvimento de seus “projetos” sociais, educacionais, culturais e políticos em sua ação missionária no interior do Maranhão.

  A recorrência quase que exclusivamente às relações familiares no tocante ao seu trabalho pastoral em Arari sugere as dificuldades enfrentadas por um sacerdote que atua na “periferia da periferia” do âmbito eclesiástico. Não obstante, as dificuldades propiciadas pelo distanciamento geográfico do centro do poder religioso local, a Arquidiocese do Maranhão, situada na capital, não isolou nem restringiu por completo as possibilidades de intercâmbio social entre padre Brandt e as elites religiosas e políticas de São Luís, conforme foi examinado. As visitas a deputados e governadores na capital e o recebimento de figuras políticas destacadas regional e nacionalmente em Arari, dentre outros segmentos sociais que integram as elites locais, são prova cabal da possibilidade de existências de vínculos dessa natureza, particularmente mediados pela estrutura e organização institucional da Igreja, ainda que em espaços não prioritários na agenda eclesiástica, como a esfera político-partidária, sintomaticamente representada pela mediação e “liderança” política exercida por padre Brandt em Arari.

  A destacada atuação do sacerdote de raiz familiar alemã nos domínios da cultura, da política e da imprensa, por assim dizer, e a utilização da escrita como principal arma na disputa pela imposição de interpretações e pela conquista de influência perante a sociedade arariense, produziram um duplo efeito: primeiramente, o prestígio e o reconhecimento social como retribuição simbólica conquistado pelo padre;

  e, em segundo, a formação de uma elite entre os jovens estudantes que rivalizam com o sacerdote pela prevalência de práticas e discursos heterodoxos sobre o ordenamento sociopolítico local.

  A escrita, portanto, é acionada por padre Brandt, detentor dos meios de produção simbólica na cidade, enquanto instrumento de luta, de demarcação de posições e de tomadas de posicionamentos que aglutinam avanços e recuos, conquistas e perdas de espaços no jogo do poder. Sua entrada para a esfera político-partidária consubstancia o grau de envolvimento de um sacerdote na “vida” de uma cidade, onde não apenas o uso da escrita ganha ares de domínio público, como a própria atividade religiosa tenta se legitimar através da atividade da política, num espaço de poder pouco institucionalizado

  e, por isso mesmo, de forte valorização do capital de relações sociais pessoalizadas dos agentes e de predominância das heterodoxias vigentes.

  No caso de João Mohana, o processo de ascensão social e afirmação intelectual do sacerdote como agente legitimamente estabelecido para intervir nos diferentes domínios sociais ocorre através da imbricação entre relações mediadas pela valorização do capital escolar institucionalizado (diplomas dos cursos primário e secundário obtidos em escolas de prestígio social e título acadêmico de Medicina) e do capital social constituído em termos de ajuda mútua, relações de parentesco e de amizade instrumental.

  Observa-se no exame desse itinerário uma complexidade maior de atuação religiosa. Primeiramente, pela entrada relativamente tardia na vida clerical (aos 35 anos) em comparação aos demais agentes, cuja “demora” implica na aquisição de múltiplos recursos exógenos à esfera religiosa e de composição de um vasto repertório erudito que o legitima a intervir no mundo literário, na esfera cultural e nos processos de formação educacional e política das futuras elites clericais junto aos movimentos universitários sendo, inclusive, fundador e presidente da Juventude Universitária Autêntica Cristã (JUAC) no Maranhão.

  A especificidade de Mohana ocorre no tocante ao próprio desenvolvimento de sua ação sacerdotal. É um dos raros casos observáveis em que as relações estabelecidas com membros da hierarquia eclesiástica local o conduziram a assumir posições de liderança junto aos movimentos do laicato maranhense. Enquanto a nível nacional e em outros contextos, os movimentos da juventude universitária se complexificaram ao ponto de se “radicalizarem contra a hierarquia”, João Mohana reúne em torno de si atributos sociais e competências institucionalizadas

  • – diploma de médico, reconhecimento “intelectual” e literário e relações de amizade com o alto clero – que incidem distintivamente nas próprias ações coletivas dos movimentos leigos no Maranhão, quer através do apoio da Igreja nos projetos desenvolvidos pela Ação Católica no Estado, tendo em Mohana seu presidente arquidiocesano, quer pela formulação de uma pedagogia erudita e multifacetada disseminada pela JUAC, através da figura de seu presidente e fundador João Mohana, voltada para a “libertação” e para a “transformação” das estruturas que produzem as “injustiças sociais”.

  Além disso, é perceptível no trajeto de João Mohana os usos sociais e religiosos que ele faz dos saberes médico/científicos adquiridos e das competências de escrita consagradas literariamente para compor sua evangelização por meio da publicação de livros que abordam assuntos psicológicos, conjugais, espirituais, políticos e sociais, e para a realização de palestras e conferências dentro e fora do país, gozando do prestígio de ser médico, escritor “consagrado” e padre militante, dando musculatura ao que chamou de “ministério da palavra escrita e falada”.

  Infere-se que a diversificação das modalidades de atuação sacerdotal que transita por distintos domínios sociais, particularmente nas esferas da política e da cultura, orbitando em torno das elites e dos grupos dirigentes locais, acaba por mesclar também elementos políticos-ideológicos que fornecem um repertório discursivo voltado para a realização de práticas efetivas de evangelização que, em seu conjunto, evidenciam o grau de hibridização do ofício de sacerdote no Maranhão, presente nos dois itinerários investigados, mas manifestado de formas singulares em ambos os casos.

  O estudo, por fim, apontou para as lógicas cruzadas, clivagens, bricolagens, disputas ideológicas e intra-faccionais, bem como os investimentos feitos (mais ou menos conscientes), os recursos disponíveis e acionados como trunfos distintivos de atuação e a análise dos processos de ascensão e afirmação social, “intelectual”, política e religiosa que se operam na periferia e no centro do poder da Igreja Católica no

  Maranhão, com ancoragem em substratos econômicos e relações políticas e sociais relativamente privilegiadas. Ao passo que não se descurou do exame dos condicionantes que constrangem práticas e discursos religiosos, e que também se transformam à medida que se complexificam aspectos conjunturais, contextuais, históricos e institucionais, compondo um mosaico heterônomo de elementos exógenos que interferem na esfera religiosa e de propriedades e recursos provenientes do domínio religioso que são reivindicados como “legítimos” e passíveis de serem acionados nas disputas travadas em torno de definições e critérios de intervenção no mundo social.

  ANEXOS

  

ANEXO I

Livros de autoria do padre Clodomir Brandt

Romance: Folha miúda: minha dor (1983); Os caminhos de Silvânia (1984);

(1988); Luzia dos olhos verdes (1997).

  Arnaldo Teatro: A semente que cresceu entre espinhos.

  Informativo: Assuntos ararienses (vol. I); Assuntos ararienses (vol. II). Ensaio: Escritos sem ordem

  • – 1ª Série (1983); Escritos sem ordem – 2ª Série

  (1988); Escritos sem ordem

  • – 3ª Série (1990); Escritos sem ordem – 4ª Série (1992); Escritos sem ordem – 5ª Série (1994); Escritos sem ordem – 6ª Série (1996).

  

Genealogia: Famílias ararienses: Nicolau Antônio Rodrigues Chaves; Lourenço da

Cruz Bogéa; Os Moraes e Silva; Pedro Leandro Fernandes; João José Fernandes;

José Antônio Fernandes; Pedro Alexandrino Fernandes; Domingos José dos

Santos; Leonardo Pimenta Bastos; Família Pestana; Benedito Raimundo da

Ericeira; Os Pereira; Família Brandt.

  

ANEXO II

Livros de autoria do padre João Mohana

Romance: O outro caminho (1952)

  • – 9ª ed. Agir; Maria da tempestade (1952) – 8ª ed. Agir.

  Teatro: Inês e Pedro (Por causa de Inês)

  • – 2ª ed. Agir; Abraão e Sara – Agir;

  Casulo de pedra

  • – Agir; O marido de Conceição Saldanha – Recado; Os

  perseguidos – Globo; A paixão de Thomas Mores – Loyola.

  Ensaio:

  • - Educação para o casamento: Ajustamento conjugal
    • – 11ª ed. Loyola; A vida

  sexual dos solteiros e casados

  • – 26ª ed. Loyola; A vida afetiva dos que não se casam
  • – Loyola; Prepare seus filhos para o futuro – 11ª ed. Loyola; Não basta amar para

  ser feliz no casamento

  • – 5ª ed. Loyola; Casar para crescer – 3ª ed. Loyola; Namoro

  é isto

  • – 3ª ed. Loyola; Amor e responsabilidade – 8ª ed. Agir; Liberte seu filho da

  insegurança – 2ª ed. Agir.

  • - Espiritualidade: Plenitude humana
    • – 5ª ed. Loyola; Descubra o valor do terço – 13ª ed. Loyola; Pobres e ricos perante Cristo no Brasil – Loyola; Teologia das

  relações humanas – Loyola; O coração do homem e o coração de Cristo – 2ª ed.

  Loyola; O cristão desafiado

  • – Loyola; Espírito Santo de todos – 2ª ed. Loyola;

  Escolhidos de Deus

  • – 3ª ed. Loyola; Diga não ao imperialismo cultural – Loyola;

  Espiritualidade e Teologia da Libertação

  • – Loyola; A Cristo por Paulo – Agir; A

  oração de cada idade – 2ª ed. Agir; Jesus Cristo radiografado: Cristologia I – 2ª ed.

  Agir; O enviado: Cristologia II

  • – Agir; Ore com os grandes orantes – 2ª ed. Agir; O encontro: os mais belos encontros de Cristo – 6ª ed. Agir; O mundo e eu – 9ª ed.

  Agir; Sofrer e amar – 16ª Ed. Agir; Paz pela oração – 8ª ed. Agir.

  Outros: Como ser um bom pregador

  • – 2ª Ed. Agir; Auto-análise para o êxito

  profissional

  • – 4ª Ed. Loyola; Padres e bispos auto-analisados – 2ª Ed. Agir; A

  grande música do Maranhão – Agir.

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