A IMUTABILIDADE DA CAUSA DE PEDIR E O FATO SUPERVENIENTE NO PROCESSO CIVIL BRASILEIRO

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1. GENERALIDADES

1.1 A individuação da demanda: .1 Teoria

1.1 A individuação da demanda

  da identidade da relação jurídica; 1.1.2 Teoria da tríplice identidade – 1.2 A causade pedir como um dos elementos individualizadores da demanda – 1.3 Oconteúdo da causa de pedir: 1.3.1 Teoria daindividualização; 1.3.2 Teoria da substanciação; 1.3.3 O ponto deafastamento entre ambas as teorias A individuação da rés in iudicium deducta sempre foi um dos temas centrais da ciência processual. Embora os primeiros estudos a esse respeitoestivessem voltados para o problema da coisa julgada – a exceptio rei iudicate – a identificação da ação se mostra importante também para a verificação daocorrência da litispendência e da conexão de ações.

1.1.1 Teoria da identidade da relação jurídica

  Savigny, o grande expoente da Escola Histórica, defendia a renovação da ciência do direito mediante o aproveitamento da experiência jurídicados romanos, com a devida adaptação à realidade do momento histórico por ele vivido. Pelo primeiro, se duas ações referem-se a questões jurídicas diferentes, a exceção decoisa julgada não seria oponível, mesmo que ocorresse a aparente identidade(partes, pedido e causa de pedir).

1.1.2 Teoria da tríplice identidade

  Apesar do esforço de Savigny no sentido de superar a construção clássica da tríplice identidade, a teoria da relação jurídica restou praticamentecircunscrita à Alemanha. Todavia, como se verá mais adiante, muito embora a teoria da tríplice identidade seja comumente aceita para resolver a maior parte dosproblemas relativos à identificação das ações, há determinados casos nos quais ela se mostra insuficiente, levando a doutrina a buscar soluções na teoria darelação jurídica.

1.2 A causa de pedir como um dos elementos individualizadores da demanda

  Ainda quanto à aptidão da causa de pedir, no sentido de individuar o pedido, Nelson Nery Júnior lembra que, para que se possa analisar a presença dacondição da ação fundada na possibilidade jurídica do pedido, o termo “pedido” deve ser tomado não em seu sentido estrito, mas conjugado com a causa depedir. Especialmente quando empregada para aferir a presença da possibilidade jurídica do pedido, fica evidente que a causa petendi é, dentre oselementos da ação, o que constitui o ponto de contato mais direto entre o processo e o direito material.

1.3 O conteúdo da causa de pedir

  A polêmicaentre ambas as teorias teve origem no direito alemão, dados os problemas que decorreram da extrema rigidez com que se aplicou a regra da Eventualmaxime,segundo a qual as partes eram obrigadas a formular, desde o início do processo, todas as alegações que pudessem interessar ao deslinde da causa, sob pena denão mais poder fazê-lo em momento posterior. Como resultado dessa exigência, o processo ficava abarrotado de uma infinidade de provas e questões que aspartes aduziam simultaneamente, visando a evitar o risco da preclusão de suas proposições.

1.3.1 Teoria da individualização

  Cândido Rangel Dinamarco observa que “oposto ao da substanciação (vigente no Brasil) é o Para os seguidores da teoria da individualização, é necessário distinguir as ações fundadas em direitos absolutos das demais ações fundadasem direito obrigacional. Nesse contexto, Chiovenda entende que, nas hipóteses envolvendo os assim chamados direitos absolutos, a causa de pedir deve conter,antes de mais nada, a “afirmação da relação jurídica de que deriva o direito afirmado pelo autor em confronto com o réu”.

9 Em outras palavras, para Chiovenda, nas ações de natureza real

  360.10 A esse respeito, Chiovenda apresenta a seguinte conclusão: “Por conseguinte, a causa na reivindicação não é um ou outro modo de aquisição, mas o fato atual da propriedade; aquestão jurídica versa sempre sobre a existência do direito de propriedade, ainda quando a questão lógica se restrinja ao ponto, por exemplo, de se houve ou não compra e venda. Explica o renomado professor de Milão que apropriedade de um bem, por exemplo, é sempre o mesmo direito, tenha ela sido adquirida por herança, compra e venda ou usucapião e, por isso, não há alteraçãoda causa de pedir pelo simples fato de haver referência a esse ou aquele modo 13 de aquisição.

1.3.2 Teoria da substanciação

  No entanto, não se nega, mesmo para os adeptos da teoria da individualização, que se está diante de modificação dademanda, uma vez que se altera o fato (causa petendi), já que o pedido, agora, passa a estar fundado no segundo contrato de depósito. do título aquisitivo de um direito real enseja modificação da causa de pedir e conseqüentemente da ação, de modo que a compra e venda, a doação, ousucapião, seriam todas causas de pedir diversas, recaindo os efeitos da coisa 24 julgada somente sobre a causa específica identificada na ação.

1.3.3 O ponto de afastamento entre ambas as teorias

  Isso porque, mesmoquando se adota a teoria da individualização, admite-se a necessidade de especificar os fatos que se tornam imutáveis, quando se trata de direitos relativos,o que abrange a maior parte das demandas. Observa contudo, que a questão não é pacífica, assinalando que no verbete “direito absoluto”, escrito pela Comissão de Redação da Enciclopédia Saraiva deDireito (São Paulo: Saraiva, 1977, v.25, p. 121), o direito de família puro é classificado como28 direito relativo, por tratar-se de obrigação extrapatrimonial (idem, nota 23).

2.1 A estabilização da demanda

2.1.1 Alguns aspectos conceituais

É comum o uso da expressão estabilização da demanda para designar tanto as vedações impostas ao autor, no sentido de impedir que sealterem os elementos da ação, quanto as que se aplicam ao réu, no sentido de evitar a dedução de novos argumentos de defesa após a contestação. 30

30 Júnior Alexandre Moreira Pinto, por exemplo, estende o conceito para abranger tanto as

  A expressão demanda é muito próxima da noção de pedido, posto que demandar é pedir judicialmente. 31 Assim, aproxima-se da idéia de ação, tanto que é comum o uso de ambas as expressões indistintamente, como sinônimas.

32 Quando se fala em estabilização da demanda, a rigor, está-se

  Muito embora seja intenso o debate consistente em saber se a contestação integra ou não o objeto do processo, 33 não é essa a questão posta nesse momento, pois, independentemente da corrente que se adote, é inequívocoque a defesa não interfere nos elementos identificadores da demanda. No mesmo sentido, muito Se a finalidade fosse abranger em um mesmo conceito tanto a imutabilidade do libelo, quanto a proibição de deduzir novos argumentos dedefesa após a contestação, seria então o caso de falar-se em estabilização do processo.

35 Ademais, até por razões teóricas que serão mais bem

  A vedação imposta ao réu, no sentido de impedir a introdução de novos argumentos de defesa, decorre do princípio da eventualidade, que nãose confunde nem com a imutabilidade do pedido e tampouco com a estabilização da demanda. 47, nota 41).36 Anote-se que, para parte da doutrina, tanto a imutabilidade do libelo, quanto a proibição da Não se trata, como se procurará demonstrar, de mero formalismo, mas de distinção que permite melhor compreender as diferenças detratamento dispensado ao fato superveniente, conforme se trate de alegação que beneficie o autor, ou o réu.

2.1.2 Fundamentos da estabilização de demanda

  Adotando-se a teoria da tríplice identidade, segundo a qual a ação é identificada pelo pedido, partes e causa de pedir, é certo que o princípioda inalterabilidade do libelo pretende fazer com que, em determinado momento do processo, esses elementos tornem-se imutáveis, evitando assim o risco deocorrerem modificações que importariam em ferimento à segurança jurídica. Como explicaVicente Grecco Filho, a existência, no processo penal, de mecanismos de adequação do objeto do processo ao fato justifica-se porque lá a atividadejurisdicional se esgota sobre todo o fato da natureza e não somente sobre o que 39 constou do pedido inicial.

37 Sistemas rígidos e flexíveis: estabilização da demanda, in Causa de pedir e pedido no processo

  “O fundamento da estabilização do processo quanto ao pedido, causa de pedir, partes e ao próprio juízo assim que completa a relação processual pela citação é o interesse público da boaadministração da justiça, que deve responder de maneira certa e definida à provocação consistente no pedido do autor. Um sistema legislativo que permitisse livremente a alteração doselementos da ação geraria instabilidade na prestação jurisdicional e, conseqüentemente, nas relações jurídicas em geral.

2.2 Sistemas rígidos e flexíveis

  41 É possível concluir, ainda, que a teoria da individuação induz à adoção de um sistema flexível, uma vez que os fatos constitutivos, na medida emque não integram causa de pedir, a qualquer momento podem ser alterados. 42 Por outro lado, a teoria da substanciação pressupõe a adoção de um procedimento rígido, pois não faria qualquer sentido exigir-se que o autor 4041 Instituições de direito processual civil, v.

43 Júnior Alexandre Moreira Pinto exalta as virtudes do modelo

44 Aduz-se que a possibilidade de as partes modificarem a demanda a qualquer momento teria a desvantagem de trazer maior demora ao processo

  Todavia, Júnior Alexandre Moreira Pinto sustenta que se trata de uma meia verdade, isto porque, se por um lado “é claro que um feito que possa ser mudadodurante o seu curso tende a consumir mais tempo”, por outro, “esta sentença estaria solucionando situações que dependeriam de outro processo, que, em seaceitando uma certa elasticidade, já teriam sido decididas no mesmo processo”. São Paulo: RT, 2002, p.64).44 Segundo o referido autor, “a partir do momento em que a solução da demanda não está adstritaaos limites impostos pela petição inicial e pela contestação, pode o juiz, quando da prolação da sentença, utilizar, como pacificação da situação litigiosa, fatos, argumentos e circunstânciassurgidos no decorrer da demanda.

2.3 A imutabilidade da ação e o fato superveniente

  Como a causa de pedir identifica a ação, a alegação de fatos novos implica em mudança da ação, o que é vedado nos sistemas processuais rígidos. Todavia, após o momento fixado para a estabilização da demanda podem ocorrer fatos que, embora não tenham sido deduzidos pelo autor nomomento apropriado, interfiram diretamente na relação jurídica posta em juízo, o que recomenda sejam considerados na definição do resultado da demanda.

3. CAUSA DE PEDIR Ố EVOLUđấO HISTốRICA

3.1 Direito romano – 3.2 Direito romano visigótico – 3.3 Idade média e direitocomum – 3.4 Difusão do pensamento jurídico romano-canônico nos EstadosMonárquicos da Península Ibérica – Espanha e Portugal.

3.1 Direito romano

  José Rogério Cruz e Tucci adverte para o sério risco de transplantar-se precipitadamente para o direito atual a concepção romana de causa petendi, uma vez que os romanos não conheciam a distinção entre o direito substancial e a actio, distinção essa detectada somente pela dogmática 51 moderna. Como bem observa José Rogério Cruz e Tucci, nesse período, o autor poderia limitar a ocorrência da preclusão decorrente da sentença, especificando nafórmula, de modo preciso, a causa petendi, o que lhe possibilitava agir 58 posteriormente com base em causa de pedir diversa.

59 Ocidente. Nessa fase, o processo tornou-se totalmente público, desaparecendo

  o procedimento bipartido típico dos períodos anteriores, de modo que, a partir57 daquele momento, o procedimento desenvolve-se diante de uma única autoridade José Rogério Cruz e Tucci e Luiz Carlos de Azevedo. José Rogério Cruz e Tucci observa que não houve uma ruptura abrupta com a sistemática anterior, sendo provável que a cognitio extraordinária tenha surgido nas províncias imperiais,nas quais os delegados do príncipe passaram a julgar em nome do imperador, e não mais do cidadão romano, de modo que o processo formular e a cognitio extraordinária foram aplicadossimultaneamente durante certo período.

3.2 Direito romano visigótico

  É de salientar-se a carência de fontes autorizadas acerca do período marcado pela confluência entre o direito romano e o direito dos povos bárbaros,com relação ao objeto do presente estudo. Embora tais ordenamentos tenham-se mantido por um longo tempo, houve gradual assimilação das normas do direito romano, que continuaram a reger os negócios e os litígios entre as populaçõesdominadas, sobretudo porque se tratava de um sistema muito mais aperfeiçoado que o dos invasores bárbaros.

3.3 Idade Média e o direito comum

  Enquanto o ius canonicum voltava-se para o estudo dostextos romanos, buscando uma elaboração formal em torno de uma tradição já sedimentada, o ius civile era marcado pela atividade dos legistas laicos, queempreendiam a exegese do Corpus Júris Civile em forma de glosa, orientados para a busca de soluções para os conflitos de interesses que emergiam da vidaem sociedade. Contudo, foi no processo canônico que os clérigos insurgiram-se contra a exigência do nomem iuris da ação, apontando a irrelevância deste e66 defendendo que o juiz deveria valorar o fato deduzido e não a denominação67 Pugliesi, Giudicato civile, p.

3.4 Difusão do pensamento jurídico romano-canônico nos Estados monárquicos da Península Ibérica – Espanha e Portugal

  José Rogério Cruz e Tucci observa que a difusão do direito romano- canônico na Península Ibérica pode ser explicada pelas características dessesistema jurídico, na medida em que os seus princípios e fundamentos contribuíam para alargar o poder dos monarcas, o que atendia aos interesses hegemônicos do 73 reino de Castela. Em Portugal, no ano de 1290, foi criada a Universidade de Lisboa, cujos estudos foram aos poucos abandonando as compilações castelhanas paradebruçarem-se diretamente sobre os textos do Corpus Iuris Civilis, da glosa deAcúrsio, dos Comentários de Bartolo, do Decreto e das Decretais, tornando-se 75 preponderante a influência dos juristas bolonheses.

78 Juiz. As Ordenações Filipinas de 1603 em nada alteraram o mencionado

  79 preceito, salvo quanto à previsão expressa de que eventuais despesas 80 decorrentes seriam impostas ao demandante. 7677 Ordenações Afonsinas 3.20.1 e 2.78 Ordenações Afonsinas 3.20.12.79 Ordenações Manoelinas, 3.15.6 e 7.

4.1 Nos países socialistas

  Conforme observa Júnior Alexandre Moreira Pinto, nos países que adotaram durante longo período o regime socialista, não há, em geral, rigidez noprocedimento, o que se expressa por meio do enorme poder do juiz de cambiar a 81 demanda. Segundo Ferri, nesse Sistemas rígidos e flexíveis: estabilização da demanda, in Causa de pedir e pedido no processo 82 alegadas pelas partes e relevantes à decisão de mérito.

4.2 Direito inglês

  Sistemas rígidos e flexíveis: estabilização da demanda, in Causa de pedir e pedido no Conforme observa Júnior Alexandre Moreira Pinto, o ordenamento inglês costuma permitir maior debate entre as partes no curso do processo,ressaltando, contudo, que, ao contrário dos sistemas de origem socialista, a 85 introdução de novos temas será sempre efetivada pelas partes e não pelo juiz. Entende-se que, além de evitar o julgamento precoce do processo, o sistema flexível inglês aumenta as possibilidades de conciliação entre as partes.

4.3 Direito alemão

  O processo civil germânico, em sua origem, foi marcado pela aplicação rígida do princípio da Eventualmaxime, o que desde logo expôs oinconveniente de estimular as partes a abarrotar o processo de alegações em 85 Sistemas rígidos e flexíveis: estabilização da demanda, in Causa de pedir e pedido noprocesso civil (questões polêmicas). O ZPO não adota o princípio da eventualidade, de modo que até o término da última audiência oral é possívelapresentar novas alegações, tanto de ataque quanto de defesa.

88 Guilherme Freire de Barros Teixeira ressalta que, “embora o princípio da eventualidade seja

  Basta, para tanto, advertir o demandante e o demandado de que não haverá uma segunda audiência, para indicar que aomissão acerca de algum fato pode ser decisiva, uma vez que não terão nova 94 oportunidade de alegá-lo. Nicoló Trocker, Processo civile e constituzione - problemi di diritto tedesco e italiano, Milano, Como conclui José Rogério Cruz e Tucci, no processo alemão contemporâneo a causa petendi, na prática, deve ser tida como elementoindividuador da demanda e, em decorrência da maior rigidez do sistema, a denominada teoria da substanciação encontra-se mais próxima e harmônica com 95 o direito positivo alemão.

4.4 Direito italiano

  Procurou valorizar o procedimento de primeiro grau de jurisdição,por intermédio da introdução de fases preclusivas bem nítidas, da proibição de deduzir novos pedidos ou causas de pedir em graus de apelação, e a execução 99 provisória da sentença definitiva. Segundo José Rogério Cruz e Tucci, a doutrina italiana moderna tende a superar o cerne da discussão, para adotar umavia intermediária, reconhecendo que ambas as teorias não representariam mais do que faces da mesma moeda, porquanto terminam, de uma forma ou de outra, 104 aludindo ao direito substancial.

4.5 Direito espanhol

  Como vimos, o texto anterior, de 1881, mesmo após as modificações introduzidas com a Lei n.º 34 de 6/8/1984, continuava notadamenteinfluenciado pelo processo comum medieval, adotando assim um procedimento bastante rígido, por intermédio da instituição de fases preclusivas bem marcadas,exigindo a apresentação de todos os meios de ataque e defesa na fase postulatória. Guilherme Freire de Barros Teixeira exalta as virtudes da nova LEC, concluindo que esta deve servir de parâmetro para as reformas que estão sendoimplementadas no direito brasileiro, pois, embora não tenha rompido com o princípio da eventualidade, atenuou significativamente a rigidez da regra da 112 inalterabilidade dos elementos objetivos da demanda.

4.6 Direito português

  Não obstante se reconheça o declarado objetivo de evitar a alteração da demanda, convém observar que a lei portuguesa prevê apossibilidade de complementar a causa de pedir e do pedido no decorrer do procedimento, mesmo após a citação em algumas situações específicas. Por exemplo: numa acção de divórcio instaurada comfundamento na violação culposa do dever conjugal de fidelidade, o autor tem de invocar o adultério que imputa ao outro cônjuge e as condições em que talocorreu, mas não tem de temer que a omissão não negligente de qualquer pormenor, conhecido ou imaginado, implique a impossibilidade da sua alegação 117 posterior”.

5.1 Evolução legislativa

5.1.1 Ordenações Filipinas

  Quando o Brasil tornou-se independente de Portugal, em 1822, nada existia em nosso território com relação a normas jurídicas próprias. 121 Como já se examinou anteriormente, quanto à causa de pedir, as Ordenações Filipinas de 1603 mantiveram a sistemática adotada nas Ordenações Afonsinas e Manoelinas, que previam um procedimento flexível no qual se admitiam sucessivas alterações quanto aos elementos objetivos da demanda.

5.1.2 Regulamento 737

  O Regulamento 737 de 1850 foi o primeiro código processual elaborado no Brasil e passou a reger os processos de natureza cível após aedição do Decreto n.º 763, de 1890. Guilherme Freire de Barros Teixeira observa que, no procedimento previsto no Regulamento 737, “oferecida a contestação, o autortinha dez dias para manifestação por meio da réplica, na qual podiam ser deduzidas novas razões em apoio ao libelo.

5.1.3 Os Códigos de Processo Civil estaduais

  A Constituição Federal de 1891, promulgada após a proclamação da República, permitiu aos Estados-membros legislar sobre direitoprocessual, o que levou à edição de vários Códigos de Processo Civil estaduais, caracterizando assim o chamado período da dualidade processual. No mesmo sentido, o Código de Processo Civil e Commercial para o Districto Federal (Decreto n.º 16.762/24) dispunha em seu artigo 113 que:“O autor, depois de proposta a acção, não poderá variar, ou alterar a substância do pedido, sendo-lhe, todavia, permitido fazer addições, ou emendas antes dacontestação”.

5.1.4 O Código de Processo Civil de 1939

  O Código de Processo Civil de 1939 também adotou o procedimento rígido. Enfatizando ainda mais a rigidez, o CPC de 1939 vedava em caráter absoluto o aditamento da inicial, que não era admitido nem mesmo antesda citação do demandado e ainda que com a concordância do réu.

5.1.5 O Código de Processo Civil de 1973

  O Código de Processo Civil de 1973 não adota procedimento tão rígido quanto o de 1939, na medida em que admite a alteração do pedidoantes de citado o réu (art. 264, caput) e após a citação, mediante o consentimento deste (art. Mesmo assim, o Código de Processo Civil de 1973 está longe de assumir um caráter flexível.

5.2 Substanciação e individualização – posicionamento da doutrina brasileira quanto ao conteúdo da causa de pedir

5.2.1 A doutrina majoritária – adoção da teoria da substanciaçâo

  282, III, exigindo como requisito da inicial a indicação dos fatos e fundamentos jurídicos do pedido, põe onosso sistema entre os que reclamam a substanciação da causa de pedir, aliás 127 como já o fazia o Código de 1939, dispondo em igual sentido o seu art. No mesmo sentido, Arruda Alvim observa que a Lei processual atual manteve a regra do artigo 158 do Código de Processo Civil de 126 1939, adotando assim a teoria da substanciação, ao exigir que a parte exponha 128 com clareza e precisão os fatos e fundamentos do pedido.

5.2.2 A posição de José Ignácio Botelho de Mesquita

  José Inácio Botelho de Mesquita, escrevendo ainda sob aégide do Código de Processo Civil de 1939, divergia da corrente dominante, ao defender o seguinte: “A nossa lei processual exige que conste da petição inicial aindicação dos fatos constitutivos, mas isto, a meu ver, não leva à conclusão de que tenhamos aderido àquela corrente doutrinária. Já osdireitos heterodeterminados podem existir simultaneamente mais de uma vez entre as mesmas partes e com o mesmo conteúdo, necessitando, para sua individualização, dereferência ao fato gerador, como é o caso de crédito a uma prestação genérica, especialmente os créditos pecuniários, e nos direitos reais de garantia (La domanda giudiziale, p. 177-178).

5.3 O artigo 264 do Código de Processo Civil e a imutabilidade da causa de pedir

  264 e 294 do Código de Processo Civil, parcialmentesobrepostos, são portadores de regra segundo a qual, angularizada a relação processual pela citação – e portanto integrado a ela o demandado – a demanda permanecerá imutável e asentença a ser afinal proferida não poderá pronunciar-se fora dos limites que ela estabelece (arts. 128 e 460). Resolvidas as questões incidentes, fixados os pontos fáticosdependentes de prova e deferidos os meios probatórios a produzir (isso é sanear: art. 331, § 2º), o procedimento já terá chegado a um ponto tal, que retroceder seria tumultuar: como o 152 Moacyr Amaral Santos afirma ainda que “é de mudança do libelo, isto é, de sua modificação, que fala o art.

6.2 Fundamentos para a consideração dos fatos supervenientes na sentença

  264 do CPC e seu parágrafo único, estipulando que “feita a citação, é defeso ao autor modificar o pedido ou a causa de pedir, sem o consentimento do réu, mantendo-seas mesmas partes, salvo as substituições permitidas por lei”, e que “a alteração do pedido ou da causa de pedir em nenhuma hipótese será permitida após o saneamento doprocesso”; (b) o art. Com efeito, esclarece que “o que se pretende firmar, através da regra anteriormente enunciada, é que, pelo sistema do Código deProcesso Civil (em face do art. 462), os parâmetros (legais e fáticos), para a decisão, devem ser aqueles existentes no momento da sentença, o que valecomo regra geral, se, entre o momento da postulação e o instante da sentença, 159 houver alteração de um e outro”.

6.3 Fato superveniente e direito superveniente

  Ainda segundo o mesmo autor, uma vez que a sentença deve refletir o estado de fato no momento em que for proferida, tanto os fatos quanto asalterações legislativas posteriores ao ajuizamento da ação, que tenham repercussão sobre a relação jurídica discutida nos autos, não podem ser 162160 ignorados pelo juiz.161 Objeto litigioso e direito superveniente no processo civil, p.106. Entretanto, se o processo estava em curso quando da edição da Lei Quanto à incidência do direito superveniente, José Rogério Cruz eTucci faz importante ressalva no sentido de que a aplicação das novas regras legais ao caso concreto não pode prejudicar o ato jurídico perfeito ou o direitoadquirido, ponderando, contudo, que essa seria uma “outra questão, que refoge 163 ao âmbito do direito processual”.

7. HARMONIZAđấO DOS ARTIGOS 264 E 462 DO CốDIGO DE

PROCESSO CIVIL

7.1 Colocação do problema – 7.2 Verdade real e verdade formal – 7.3 A naturezainstrumental do processo e a tensão entre os princípios dispositivo, da estabilizaçãoda demanda e da economia processual

7.1 Colocação do problema

  Isso porque, se por um lado é vedado ao autor,após o saneamento do processo, alterar a causa de pedir, o que abrange os fatos constitutivos do direito alegado (causa de pedir remota), por outro, o juiz, nomomento de proferir a sentença, deve considerar certos fatos eventualmente ocorridos após o saneamento. O que se pretende ao longo deste trabalho, como já sedisse, é possibilitar uma visão sistemática dessas normas, em conjunto com outras que se entrelaçam no que diz respeito à temática da estabilização dademanda e do fato superveniente, para encontrar soluções que tornem tais normas operáveis e eficazes.

7.2 Verdade real e verdade formal

  Argumenta-se que tal diferença é devida ao fato de, no ProcessoPenal, prestigiar-se a verdade real, ao passo que no Processo Civil, em razão do princípio dispositivo e do rígido sistema de preclusões, predominaria a busca daverdade formal. Conforme observa Guilherme Freire de Barros Teixeira, “não se pode aceitar a afirmação de que a verdade material é típica do processo penal,restando ao processo civil, especialmente nos casos envolvendo direitos disponíveis, a apuração da verdade formal”.

7.3 A natureza instrumental do processo e a tensão entre os princípios dispositivo, da estabilização da demanda e da economia processual

  Realmente, se o processo penal lida coma liberdade do indivíduo, não se pode esquecer que o processo civil labora também com interesses fundamentais da pessoa humana – como a família e a própria capacidade jurídicado indivíduo e os direitos metaindividuais – pelo que totalmente despropositada a distinção da cognição entre as áreas” (Comentários ao Código de Processo Civil, v. Neste trabalho, adotamos a premissa de que o confronto entre osartigos 264 e 462 do Código de Processo Civil não levam a uma colisão de princípios propriamente, mas que se trata, na realidade, de uma aparente contradição, passível de sersuperada por meio da hermenêutica.

8. ALTERAđấO DO FUNDAMENTO JURễDICO DA DEMANDA

8.1 Causa de pedir próxima e causa de pedir remota – 8.2 Definição de fundamentojurídico do pedido – 8.3 O fundamento legal da demanda – 8.4 A mutabilidade dofundamento jurídico da demanda – iuranovit curia e naha mihi factum dabo tibi ius

8.1 Causa de pedir próxima e causa de pedir remota

  Em sentido divergente, Nelson Nery Júnior inverte a classificação, entendendo que a causa depedir remota seria o fundamento jurídico, ao passo que a causa de pedir próxima seria o fundamento de fato (Código de Processo Civil e legislação processual civil extravagante, notas1, 3 e r no art. 183 Alexandre Alves Lazzarini, ao estudar a causa petendi nas ações de separação judicial, adota uma interessante classificação da causa de pedir,indicando qual seria, nessas ações, a causa de pedir próxima e subdividindo a causa de pedir remota, quando se trata de conceito vago, o que é comum emdireito de família.

8.2 Definição de fundamento jurídico do pedido

  E melhor opção o legislador com certeza não teria, que não fosse a fixação da causa legal de forma indeterminada, pendente de sua limitação pela causa jurídica, tendo emvista que, diante da velocidade com que os costumes e valores estão se alterando, uma conduta que se qualificaria como desonrosa do cônjuge no futuro, poderá não sê-lo mais. Arruda Alvim ensina que o fundamento jurídico consiste na demonstração de que os fatos jurídicos “levam necessariamente à conclusão ouconclusões pedidas, isto é, à relação de causa e efeito (no plano lógico e volitivo 190 do autor) entre os fatos e o pedido”.

8.3 O fundamento legal da demanda

  No mesmo sentido é a lição de Arruda Alvim, ao observar que “a fundamentação legal, isto é, a indicação do artigo de lei aplicável – segundoentendimento do autor – à hipótese fático-jurídica deduzida é extrínseca à identificação de ações. E, a partir de tal raciocínio,conclui que “há liberdade para o autor, sem alterar a estrutura da demanda, de mudar a fundamentação legal (artigo de lei), a qual, rigorosamente, nem sequerprecisaria constar do petitório inicial; pela mesma razão, o juiz pode acolher a 192 193 demanda, fundando-se em lei diversa”.

8.4 A mutabilidade do fundamento jurídico da demanda – iura novit

  É interessante mencionar, inclusive, que o Tribunal de Justiça doEstado de São Paulo, nesse mesma linha, considera possível a alteração da qualificação jurídica dada pela parte a determinado documento constante dos 204 autos, sem que isso implique em alteração da causa de pedir.causa de pedir e os exija a lei como requisito da petição inicial (art. Se o autor narra determinados fatos na petição inicial e com fundamento neles pede a anulação do contrato por erro, nada o impede – e nada impede o juiz também – de alteraressa capitulação e considerar que os fatos narrados integram a figura da coação e não do erro.

8.5 A máxima iura novit cúria e o princípio do contraditório

  José Rogério Cruz e Tucci observa que “é portanto forçoso reconhecer que toda essaconcepção sintetizada pelo velho aforismo da mihi factum dabo tibi ius, está a revelar que, no drama do processo, a delimitação do factum e a individualização do ius correspondem, emprincípio, a atividades subordinadas à iniciativa de diferentes protagonistas” (A causa petendi no processo civil, p. 162). 485, e, o réu, exerce ocontraditório afastando a tese do autor, e, na hora de proferir a sentença, o magistrado acolhe o pedido com base em fundamento diverso, que não foi objetode discussão no processo, apenas porque identificou na demanda que o fato 209 narrado e discutido referia-se a outro dispositivo do mesmo artigo.

8.6 A apreciação de fundamento jurídico novo e o princípio da demanda

  Contudo, embora o juiz não esteja vinculado aos fundamentos jurídicos apresentados pelas partes, também haverá violação ao princípio dademanda se o juiz, ainda que considerando os mesmos fatos, desprezar as normas jurídicas invocadas pelos litigantes e levar em consideração outrasnormas que produzam conseqüências diferentes das que decorreriam das normas originariamente alegadas. Nesse sentido, Milton Paulo de Carvalho chama a atenção para o problema que denomina de “autonomização do objeto litigioso em relação aodireito material”, advertindo para o risco de que, “sob o pretexto de que o tribunal conhece o direito, pode chegar-se a invadir os limites do objeto litigioso fixados 215 soberanamente pelas partes a partir do pedido do autor”.

9.1 Distinção entre fatos principais e fatos secundários

  José Rogério Cruz e Tucci, por seu turno, observa que os fatos essenciais para configurar o objeto do processo são exclusivamente aqueles que têm o condão de delimitar a pretensão eque, além de constituir o objeto da prova, são pressuposto inafastável da existência do direito submetido à apreciação judicial (A causa petendi no processo civil, p. 153). a circunstância de o réu estar ausente do país no dia da ocorrência do dano que lhe imputa o autor, ou a incapacidade física do autor para gerar o filho de suamulher, na época em que ele foi concebido (CC, art. 1.599)” (Instituições de direito processual 227 simples (ou secundários).

9.2 Os fatos principais e a imutabilidade da causa petendi

  Segundo tal concepção, a causa de pedir é delimitada pelos elementos de fato e de direito da fattispecie Por outro lado, se o autor narra outro fato principal, diverso do afirmado na petição inicial, haverá alteração da causa de pedir, incidindo asregras proibitivas referentes à estabilização da demanda. 232 Nesse sentido, Vicente Grecco Filho observa que não são consideradas como modificações de causa de pedir, nem ensejam demandadiferente, as circunstâncias de fato que, perante o direito material, não sejam suficientes ou adequadas a justificar o pedido.

9.3 Os fatos secundários e o problema do conteúdo da causa de pedir

  A afirmação de que os fatos simples não integram a causa de pedir refere-se ao problema da identificação da ação, o que não significa que as partespossam alegar tais fatos livremente, ou seja, a qualquer momento, sem qualquer 234 limitação.235 O princípio da eventualidade no processo civil, p. O Superior Tribunal de Justiça, por sua vez, já decidiu que os fatos simples podem ser alterados no curso do processo, embora tenha empregado a expressão “circunstânciasacidentais”, conforme se verifica na seguinte ementa: “Causa de pedir – Narrativa feita após a contestação para esclarecimento da petição inicial – Não configuração de alteração da causade pedir.

9.4 Os fatos secundários e poderes instrutórios do juiz

  131, que dá direito ao juiz de apreciar livremente a prova, impondo-lhe o direito-dever de atender ‘aos fatos e circunstâncias constantes dos autos, ainda que não alegados pelas partes’, só tem o sentido de que os fatos (leia-se, no art. 131, fatos simples)hajam de ser considerados na linha do fato jurídico. Contudo, a exata definição de fatosuperveniente e a delimitação do que pode e do que não pode ser considerado pelo juiz no momento de proferir a sentença, e que não tenha sido alegado napetição inicial, não é tarefa simples.

10.1 Distinção entre fato novo e fato superveniente

  No mesmo sentido, observa José Rogério Cruz e Tucci que “a causa superveniens apenas será considerada na hipótese de guardar íntima relaçãocom o fato inicialmente apontado como representativo do fundamento jurídico do pedido que é a causa de pedir, seja constituindo-a, seja modificando-a, sejaextinguindo-a. Portanto, para que se caracterize o fato superveniente em sentido técnico, não basta que ele tenha ocorrido posteriormente ao ajuizamento da açãoou à estabilização da demanda, mas é necessário que, além disso, tenha ele o condão de constituir, modificar ou extinguir a relação jurídica originalmentedescrita na petição inicial.

10.2 O fato superveniente e o problema da identificação da ação

  Dizendo ele que na sentença o juiz levará em conta fatos constitutivos, modificativos ou extintivos do direito do autor, existe forte corrente jurisprudencial no sentidode que estariam incluídos nessa autorização os fatos supervenientes que alterem a causa de pedir – sem embargo da regra de estabilização da demanda e da necessária correspondênciaentre a sentença e os elementos desta (art. 128). Também nesse sentido, e com grande acuidade, José IgnácioBotelho de Mesquita ressalta que “uma coisa é o direito verdadeiro e próprio, atualmente existente, e outra coisa é o direito afirmado pelo autor na petiçãoinicial, que entra no processo apenas como razão da ação e que a sentença dirá se existe ou não”.

10.3 A relação jurídica como parâmetro para delimitar a

  Com relação a tal problemática, José Rogério Cruz e Tucci observa que “perante várias situações concretas, a teoria da tríplice identidade delineia-seinsuficiente para desempenhar o papel que lhe é reservado no confronto de duas ou mais ações. Ao que parece, tal situação pode ser mais bem explicada se dermos razão à parte da doutrina que sustenta que no Brasil não se adotou a teoria dasubstanciação em caráter absoluto, mas que, na verdade, o legislador preconizou 264 um meio termo entre a substanciação e a individualização.

10.4 Classificação dos fatos supervenientes e considerações acerca de cada modalidade

  Dessa circunstância,Cândido Rangel Dinamarco entende ser possível auferir que somente se tomam por fatos supervenientes aqueles ocorridos após o oferecimento da inicial ou dacontestação, uma vez que o fato impeditivo é, por definição, sempre anterior ou 265 concomitante ao fato constitutivo original. Érespeitável indício dessa intenção a circunstância de ali não estar incluída a possibilidade de serem levados em conta os fatos impeditivos do direito do autor, porque esses ou sãosimultâneos aos constitutivos (incapacidade do contratante, vício de consentimento, etc...) ou lhes precedem no tempo (moléstia preexistente ao contrato de seguro).

10.4.1 O fato superveniente constitutivo

  267 De fato, em homenagem ao princípio do contraditório, não se poderia admitir o conhecimento de fato constitutivo de direito novo, que não foraalegado na propositura da demanda, o que significaria a alteração da causa de pedir, vedada pelo artigo 264 do Código de Processo Civil. Correto o entendimento firmado no acórdão a quo, de não constituir obstáculo à conversão da separação em divórcio, a existência de parcelas vencidas relativas à pensão de filho hojemaior de idade e, portanto, único titular e gestor da verba alimentar.

II. Recurso especial não conhecido.” (REsp. 278906/SP, Superior Tribunal de Justiça, 4ª Turma, rel. Min. Aldir Passarinho Júnior, j

  Outro exemplo de fato superveniente constitutivo que aparece em diversos julgados é a posterior apresentação de certificado de conclusão decurso de segundo grau, em sede de mandado de segurança no qual foi concedida liminar para garantir a matrícula em curso superior, na pendência de certificação 270269 da conclusão de ensino médio. A esse respeito, Arakén de Assis observa que se admite o conhecimento do fato superveniente constitutivo como causa concorrente quandoa conduta da parte se acomoda à causa de pedir originária ou a confirma, o que ocorre por exemplo quando “o ulterior concubinato de Maria com João robora o 277 pretérito adultério”.

10.4.2 O fato superveniente modificativo

  Note-se que quando se consideram os fatos modificativos, não se trata de substituir uma causa de pedir por outra, mas, ao contrário, cuida-se de modificação ocorrida no mundo dos fatos, que altera a realidade descrita na própria causa de pedir originária. Portanto, quando o juiz considera o fato superveniente que tenha o condão de modificar o fundamento jurídico do pedido, não estaráconhecendo de causa de pedir diferente, mas da mesma causa de pedir original, alterada em sua essência pelo fato superveniente.

10.4.3 O fato superveniente extintivo

  Os fatos supervenientes extintivos não alteram a causa petendi e, quanto a isso, concordam inclusive os autores que vislumbram que a alteração ocorre nas hipóteses de fatos constitutivos ou modificativos do direito do autor. Realmente, não há alteração da causa de pedir, uma vez que não há modificação dos fatos alegados na petição inicial, mas sim a apreciação 279 de fato superveniente que leva à extinção do processo.

10.5 O conhecimento do fato superveniente de ofício

  462 do Código de Processo Civil é claro ao estabelecer que o fato superveniente pode ser conhecido de ofício ou a requerimento da parte. Contudo, a possibilidade de conhecimento do fato superveniente de ofício leva a indagações acerca dos reflexos no tocante ao princípio daimparcialidade do juiz e aos limites impostos pelo princípio do contraditório, o que se pretende analisar neste tópico.

10.5.1 Conhecimento do fato superveniente de ofício e o princípio da imparcialidade

  Guilherme Freire de Barros Teixeira sustenta que, em decorrência do princípio da lealdade processual, as partes deveriam comunicar aojuiz a ocorrência de fatos supervenientes capazes de influenciar no julgamento da demanda, sob pena de violar os incisos I e II do art. Todavia, conforme dispõe o artigo 462 do Código deProcesso Civil, o fato superveniente pode ser conhecido de ofício, o que significa que, embora as partes não informem a ocorrência de fato superveniente, o juiz Diante de tal regra, questiona-se se não haveria violação ao princípio da imparcialidade.

10.5.2 Conhecimento do fato superveniente de ofício e o princípio do contraditório

  283 De todo modo, cumpre ressaltar que se o juiz tomar em consideração a ocorrência de fato superveniente, deve, antes de decidir,possibilitar a manifestação das partes, inclusive com a produção de provas, se for o caso. No mesmosentido é o entendimento de José Rogério Cruz e Tucci, que defende a necessidade de participação conjunta e recíproca de todos os protagonistas do processo, com vistas a evitarque as partes sejam surpreendidas por uma decisão baseada em fundamento não debatido (Lineamentos da nova reforma do CPC, p.101-102).

11. SITUAđỏES PECULIARES Ố CAUSA DE PEDIR NAS AđỏES POSSESSÓRIAS E NA TUTELA ESPECÍFICA DAS OBRIGAđỏES DE DAR, FAZER E NấO FAZER

11.1 A fungibilidade das ações possessórias e a alteração dos elementosobjetivos da demanda – 11.2 Alteração da causa de pedir na tutela específica das obrigações de dar, fazer e não fazer

11.1 A fungibilidade das ações possessórias e a alteração dos elementos objetivos da demanda

  Em determinados casos, a lei admite que o juiz, até mesmo de ofício, conceda tutela diversa daquela originalmente pleiteada pelo autor. É o que ocorre nas ações possessórias, em relação às quais vigora o princípio dafungibilidade, consagrado no artigo 920 do Código de Processo Civil.

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