A PRESENÇA FEMININA DE ASCENDÊNCIA PORTUGUESA NA CIDADE DE SÃO PAULO: TRABALHO, SONHOS E ESPERANÇAS (1925-1945)

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TEREZINHA DE JESUS LOPES BARBOSA GEROLOMO A PRESENÇA FEMININA DE ASCENDÊNCIA PORTUGUESA NA CIDADE DE SÃO PAULO: TRABALHO, SONHOS E ESPERANÇAS (1925-1945)

  Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre em História Social, sob a orientação da Prof. Dr. Maria Angélica Victória Miguela Careaga Sóler.

  PUC-SP

  

À memória de Dinorah e Laurinda,

matriarcas, que me deram a possibilidade de

realizar este trabalho.

  “

Defender, acima de tudo, os interesses da

Mulher perante a vida social: para isso

recordar-lhe-á o papel que tem a desempenhar

na Família, na Sociedade, na Política, na

Civilização em geral; evidenciará a sua

poderosíssima influência educativa na alma

das crianças que serão as mulheres e os

homens d’amanhã; examinará tudo quanto

represente um progresso na vida e na acção

sociais da mulher em geral e da portuguesa em

especial.”

  ANA DE CASTRO OSÓRIO

  

AGRADECIMENTOS

  Na minha trajetória, diversas pessoas tornaram a realização dessa pesquisa possível, seja por meio de informações pertinentes ao tema, seja pela amizade e companheirismo. Agradeço a todas e em especial: Aos professores do Programa de Estudos Pós-Graduação em História, pelas contribuições ao trabalho. Aos colegas do Programa de Estudos Pós-Graduados em História, que, com suas pesquisas, me permitiram conhecer tantos aspectos do cotidiano português em nosso país. professora Maria Angélica Victória Miguela Careaga Soler, pela orientação

  À segura, bem-humorada e aberta ao diálogo. O seu encorajamento foi fundamental nas horas difíceis, fazendo desse meu o nosso trabalho. Às professoras Maria Aparecida de Macedo Pascal e Maria Izilda dos Santos Matos, pelas sugestões e críticas por ocasião do exame de qualificação. Às senhoras mães, tias e avós que ajudaram a construir esse trabalho, sempre dispostas a cooperar. Ao meu amigo e companheiro Amilton Carlos, pelo estímulo constante, desde a elaboração do projeto até a conclusão da pesquisa, compreendendo assim a minha falta de atenção. Aos meus pais, Antonio e Clara, pelo exemplo de luta e determinação, fundamentais em minha trajetória. À Wilma, Miriam, Gustavo e Karina, pela revisão do texto e sua forma.

  

RESUMO

  Neste estudo ressalta-se a importância da presença feminina e a sua condição ao longo das gerações, desde as raízes portuguesas até as filhas brasileiras. Busca- se contextualizar econômica, política e socialmente Portugal, a terra natal dos pais e avós, a partir do momento da sua emigração para o Brasil, particularmente para a cidade de São Paulo. Em seguida, percorre-se toda a trajetória vivida nesta cidade. Após a abordagem acerca do nascimento de cinco filhas de famílias distintas, realiza-se uma pesquisa no movimento descrito por elas como a história de suas vidas, desde o seu nascimento até a atualidade. Tais abordagens tornaram-se possíveis por meio de consulta bibliográfica e entrevistas, cujo roteiro incluía tópicos direcionados à procedência dos pais, à moradia, à escola, à religiosidade, às núpcias, ao trabalho extradoméstico, ao lazer, às relações e à mobilidade social. No entanto, observou-se que tais entrevistas foram caracterizadas pela espontaneidade das entrevistadas. Assim, utilizou-se a fonte oral como suporte, do mesmo jeito que a historiografia como pano de fundo. Trabalha-se, então, com a memória e as lembranças dessas senhoras, investigando-se suas trajetórias descritas e buscando-se, por intermédio do diálogo, a substância social da memória tanto individual quanto coletiva. Conclui-se que muitas indagações não foram atendidas, ficando para um próximo trabalho; porém, acredita-se que a presente dissertação contribui para os estudos sobre a imigração portuguesa e as gerações brasileiras, a tradição e a cultura, bem como que as figuras femininas não ficaram silenciadas ou excluídas, já que contaram a história de suas vidas, possibilitando dar significado aos fatos que inicialmente poderiam parecer insignificantes, mas que possuem uma importante significação para o historiador, a quem cabe abstrair sobre eles, revelando um cenário de vida que a historiografia não poderia deixar de registrar.

  

ABSTRACT

  In this study, the importance of the feminine presence is highlighted along with her condition during the generations, from the Portuguese roots to the Brazilian daughters. It is sought to bring Portugal, the homeland of the parents and grandparents, into the context, economically, politically and socially, as of the moment of her emigration to Brazil, and particularly to the city of São Paulo. Next, the whole trajectory lived in this city is traced. After considering the birth of five daughters of different families, a survey is made on the movement described by them as the history of their lives, since their birth up to the present days. Such approach became possible by means of bibliographic survey and interviews, whose routine included topics related to the parents’ antecedence, the housing, the school, the religiosity, the wedding, the extra-home work, the leisure, the relations and the social mobility. However, it was observed that such interviews were characterized by the spontaneity of the interviewed women. Thus, the verbal source was used as support, as well as the historiography as background. It is then worked with the memories and recollections of these ladies, investigating her lines described, and seeking, by means of dialogue, the social substance of memory, both individual and collective. It is concluded that many inquiries were not met, remaining for another work; however, it is believed that this present dissertation contributes to the studies on the Portuguese immigration and the Brazilian generations, the tradition and culture, as well as that the feminine figures did not remain in silence or excluded, since they told the story of their lives, making it possible to bring meaning to facts that initially could seem insignificant, but which have an important meaning to the historian, who is responsible for abstracting from them, revealing a life scenario that historiography could not allow to pass without registration.

  

SUMÁRIO

CONSIDERAđỏES INICIAIS

  ..............................................................................................11

I – LÁ (EM PORTUGAL)......................................................................................................26

  1.1 A FORMAđấO DA FAMễLIA PORTUGUESA..................................................... .... .27

  1.2 CONTEXTO SÓCIO-ECONÔMICO DE PORTUGAL, À ÉPOCA DA EMIGRAđấO PARA O BRASIL.........................................................................34

  1.2.1 Organização política de Portugal ............................................................. .... .......42

  1.2.2 A partida ................................................................................................................45

  1.3 MULHERES EM PORTUGAL.....................................................................................50 ...... ...........56 II – CÁ (BRASIL)..................................................................................................

  ......

  2.1 A CHEGADA DOS ANTECESSORES.............................................................. .....57

  2.2 SÃO PAULO DOS ANTECESSORES........................................................ ..... .............63

  2.3 TRABALHO.............................................................................................. ................. .....68 .........................

  2.4 TRABALHO FEMININO................................................................. ......76

  2.5 PERCURSO DE RESIDÊNCIAS DOS ANTECESSORES.............. ......................... .....79 .......

  2.6 RELIGIOSIDADE E LAZER..................................................................... .............83 .............. ....86 III – DA CASA À ESCOLA.................................................................................

  3.1 DAS CASAS ÀS RUAS................................................................................................87

  

3.2 A IMPORTÂNCIA DOS BAIRROS PARA AS DEPOENTES...................... .......... ...98

  3.3 DEPOIS DO NASCIMENTO E DA INFÂNCIA, INICIA-SE O

PROCESSO DA EDUCAđấO FORMAL Ố A ESCOLA.................... .................... ...107

  3.3.1 O Conhecimento que adquiriram na escola e que recordam, saudosas (A Instrução Formal) ........................................................................112

  IV – DOS PRIMEIROS TRABALHOS EXTRADOMÉSTICOS ÀS TECELAGENS ..................................................................................... ............ ......127 .......................

  

4.1 O PRIMEIRO TRABALHO EXTRADOMICÍLIO.......................... ....128

  

4.2 CRUZANDO OS FIOS – AS TECELÃS......................................................... ...... .....137

  

V Ố O VễNCULO DAS GERAđỏES..................................................................................169

....

  

5.1 O TRAÇO GENUÍNO...................................................................................... .......172

  5.1.1 Ser descendente de português /Ser filha de português .................

  ............

  .......173

  5.2 SISTEMATIZANDO AS RELAđỏES.......................................................................177

  5.2.1 Lazer ....................................................................................................................177

  5.2.2 Religiosidade, Casamento e Celibato ................................................... ........ .....181

  5.2.2.1 Religiosidade............................................................................. ................ ....181 5.2.2.2 Casamento.....................................................................................

  ............

  ....186 5.2.2.3 Celibato..........................................................................................

  ............

  ...199

  5.3 MOBILIDADE SOCIAL ENTRE AS GERAđỏES...................................................201 CONSIDERAđỏES FINAIS

  .................................................................................. ........ .....207 FONTES E BIBLIOGRAFIA

  ..............................................................................................213

  

LISTA DE FIGURAS E TABELAS

FIGURA 1.................................................................................................................................12

FIGURA 2.................................................................................................................................33

FIGURA 3.................................................................................................................................44

FIGURA 4.................................................................................................................................56

FIGURA 5...............................................................................................................................106

FIGURA 6...............................................................................................................................137

FIGURA 7...............................................................................................................................185

TABELA 1................................................................................................................................60

TABELA 2................................................................................................................................61

  CONSIDERAđỏES INICIAIS

  A presença feminina de ascendência portuguesa na cidade de São

Paulo: trabalho, sonhos e esperanças , este título propõe a temática gênero

feminino e imigração portuguesa.

  

FIGURA 1 – A imagem que representa a ascendência portuguesa das entrevistadas é a comemorativa

de cem anos de Portugal e Brasil, na qual duas figuras femininas se beijam, reforçando a união das

duas pátrias. Para este estudo, significa nascer brasileira e ascender portuguesa, com muito trabalho,

sonhos e esperanças. Fonte: ROCHA-TRINDADE, Maria Beatriz; CAEIRO, Domingos. Portugal-

  Este mote me levou a rememorar os meus antepassados portugueses, suas lutas e conquistas, e sua exploração talvez seja movida pelo imaginário que povoa os meus pensamentos e desafios acadêmicos.

  Um tema, para ser minuciosamente analisado, precisa ser de cunho pessoal ou envolver interesses notórios. Como pesquisadora, sinto-me desafiada, em particular, por assuntos que destacam a mulher como objeto principal e que se referem à imigração portuguesa. Passei, então, a me dedicar ao seu estudo. As análises, no entanto, simplesmente conduziram minha reflexão para outro campo, o das peculiaridades das filhas desses imigrantes nascidas no Brasil.

  A realidade encontrada em terras brasileiras pelos seus genitores foi bem diferente da sonhada. Os imigrantes deveriam trabalhar longas horas, ficando à mercê de seus patrícios melhor posicionados social e economicamente.

  Os avós das personagens, que inspiraram o presente estudo, chegaram ao Brasil durante o início da primeira década, enquanto os seus pais vieram no decorrer desta e da segunda década do século XX. A bisavó materna esteve no Brasil por um período breve, em torno de três anos, retornando em seguida para a terra natal, enquanto os bisavós paternos não saíram de Portugal, vindo ao Brasil quando a progenitora de três das entrevistadas não se aclimatou e retornou imediatamente à “terrinha”, na qual vieram a falecer dezoito anos mais tarde.

  Todavia, os avós das outras duas entrevistadas estiveram muitas vezes no Brasil, em visitas, mas também faleceram na terra natal, a qual, segundo as entrevistadas, era motivo de orgulho e felicidade, apesar dos “altos e baixos” financeiros. Ao casarem-se entre si, esses imigrantes geraram figuras femininas, as quais, ocultas até o momento, nesta dissertação serão estudadas.

  Muitas indagações remoem os meus interesses quanto a essas personagens e me fazem buscar uma abordagem inicial sobre os seus ascendentes. Nesse sentido, investigar-se-á: Quais seriam os tipos de atividades que teriam exercido nessa terra de além-mar? Quais os meios que os impulsionaram a aqui chegar? Tiveram de dispor de quantas economias e esforços? E o mito do retorno, sempre se fez presente? Em relação às jovens, pretende-se descobrir: Quais eram os seus sonhos?

  O futuro acenava cheio de esperanças para uma “vida melhor”? Como foram educadas? Quais foram os valores a elas transmitidos? Como eram os locais que habitaram? Quantas alegrias e tristezas tiveram? Casaram-se e tiveram filhos? E a cultura transmitida aos seus filhos foi a mesma que receberam dos pais?

  Em meio a tantos questionamentos, esta temática foi aprofundada a tal ponto que a segunda geração de portugueses no Brasil, representada por suas filhas, revelou um traço genuíno da importância desse audaz emigrante de ontem, de hoje e de amanhã.

  A preferência pelo gênero feminino justifica-se por se tratar de uma análise que busca favorecer a representação desse universo, quer no espaço privado, em domicílio, quer no espaço público, em locais de trabalho ou onde circula a sua presença, como em instituições religiosas, educacionais e em áreas de lazer. Explica-se, ainda, por ser um público que recentemente passou a ser explorado por historiadores, sociólogos e outros pesquisadores.

  1 A respeito dos emigrantes, estes contavam com a lealdade da família ,

  que os auxiliava na viagem, e estavam em busca de ascensão social e conhecimento pessoal. Procuravam, ainda, estabilidade, alimentação, vestuário e moradia, pois estavam fugindo da fome e procurando suprir suas necessidades básicas, uma vez que o país de origem não lhes dava condições para poderem se manter.

  Todavia, para se analisar as razões que envolvem esse drama nacional da emigração portuguesa, presente desde longa data, seria necessária uma discussão muito densa, o que me afastaria da peculiaridade do gênero feminino e da primeira geração nascida em solo brasileiro nesta primeira metade do século

  XX. Assim, estabelece-se como ponto inicial da análise os anos dos nascimentos das luso-brasileiras, que envolve o período de 1925 a 1945, sendo que este se amplia conforme as recordações e histórias de vida comentadas pelas entrevistadas.

  A escolha do período não foi aleatória, mas proposital, pois se percebeu que antes deste recorte temporal muitos emigrantes portugueses vieram para o Brasil já com algum ofício, mas com pouco estudo. Vinham em busca de trabalho, fama e fortuna e sonhavam em retornar para a terra natal bem sucedidos.

  Nos trabalhos acadêmicos, muito se tem abordado a respeito da emigração portuguesa para o Brasil. Entre eles, vale destacar o estudo de Laura

  imaginário de mulheres portuguesas em São Paulo”, que enfoca a pesquisa com mulheres portuguesas que estão vivendo no Brasil há no mínimo quarenta anos. Nesta pesquisa, as imigrantes relataram que se sentem “em casa” vivendo no Brasil, mas que o desejo de retornar ao seu local de origem nunca deixou de existir.

  3 Outra pesquisa de destaque é a de Maria Aparecida Macedo Pascal , intitulada “Trajetórias e memórias de portugueses: gênero, trabalho e cotidiano.

  São Paulo 1890-1930”. Este estudo também retrata o perfil de mulheres imigrantes portuguesas em São Paulo, suas experiências, estratégias de

  3 portuguesas em São Paulo). Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais), PUC-SP, 2000. sobrevivência, novas possibilidades econômicas e mudanças no cotidiano de vida.

  Estes estudos, que muito favoreceram o desenvolvimento da presente pesquisa, não beneficiaram em suas análises a primeira geração de mulheres de ascendência portuguesa nascidas no Brasil. É esta abordagem que se pretende examinar minuciosamente por intermédio dos depoimentos das entrevistadas.

  Acredita-se, portanto, na necessidade de se saber mais acerca das experiências e da vivência numa cidade em expansão que acolheu os predecessores das entrevistadas, São Paulo. Como gostam de recordar os saudosistas, São Paulo da garoa, das novidades, de muito trabalho e alguma diversão. Uma cidade que ainda hoje ostenta ser uma das mais importantes do Brasil, com seu ritmo desenfreado que mistura o trágico e o cômico, deixando devanear os que não a conhecem.

  São Paulo, a cidade das oportunidades, durante as primeiras décadas do século XX, revelava duas faces: uma de desenvolvimento político, econômico e social que favorecia as elites; e outra das camadas populares, compostas principalmente por italianos, portugueses, espanhóis e brasileiros, que, devido ao contínuo aumento do custo de vida e aos salários baixos, dentre outros fatores, foram os geradores das crescentes manifestações operárias, destacando-

  4 se as greves de 1917 e 1920.

  Em conseqüência desse burburinho social, ocorreram revoltas militares, o Movimento Tenentista, os Anarquistas e os Comunistas. Entre tantos fracassos e êxitos, a representatividade do operariado no Brasil foi sendo transformada num sistema burocratizado, em que o sindicato não era mais que um escritório dirigido com o propósito de estabelecer um controle sobre os operários.

  A própria arte, a partir da Primeira Guerra Mundial, promovera uma 4 vigorosa crítica ao impressionismo, resultando numa mudança radical da tendência artística no Brasil. Particularmente, o rompimento com a estética tradicional revelou-se em 1922, com a Semana da Arte Moderna. Então, o movimento modernista correspondeu às profundas transformações pelas quais passava a sociedade brasileira, na qual a tradicional oligarquia agrária era

  5 dominante, apesar do surto industrial e urbano.

  No decorrer de tantas mudanças, entre as quais as ligadas à linguagem, à

  6

  literatura e à arte, demonstram grande importância a memória e os mitos que são transmitidos e difundidos de geração a geração, influenciando movimentos operários e trabalhistas, particularidades familiares, bem como a formação de bairros e associações. Assim, presencia-se o confronto do moderno e, ao mesmo tempo, convive-se com o antigo, com os que resistem à mudança e relutam em aceitá-la.

  A memória é significativa porque reconstrói lembranças de lugares, pessoas e práticas sociais que precisam ser investigadas para revelarem histórias privadas, que irão constituir a história coletiva desse grupo de mulheres que aguardam o momento de serem chamadas a falarem sobre si e externarem suas próprias reflexões.

  O modo como esses sujeitos pesquisados vivem no presente impulsionou a busca de significados das maneiras de viver e trabalhar, bem como das tradições e conflitos que constituíram a essência da vida das filhas de portugueses e definiram o “ser filha de português”. Dessa maneira, procura-se, ao ouvir as depoentes, vestígios da forma feminina ao se relacionar com o fato de serem filhas de imigrantes portugueses. Apropriando-se ou não desse fator, que não pode ser negado, essas personagens marcaram a presença desses imigrantes nas ruas, nas cidades, nas escolas, na economia, na rotina doméstica e 5 nos hábitos familiares e culturais. 6 GOTLIB, Nádia Battella. TARSILA do Amaral. São Paulo: Brasiliense, 1983.

  

Mito como generalidade admitida, seja quanto às atividades especificas seja como uma forma de

  Cabe, então, apresentar as entrevistadas, para que se possa compreender o porquê do trabalho de pesquisa, em um misto de mistério, tradição, cultura, desejos, sonhos e esperanças.

  Clara da Conceição Gonçalves tem cabelos grisalhos, curtos e geralmente presos por uma tiara.

  Apresenta poucas rugas, expressão alegre e olhos em um tom castanho-acinzentado. Aos seus 72 anos, é a mais velha de doze irmãos. Está casada com o senhor que conheceu quando freqüentavam a Igreja de Santa Terezinha. O marido hoje é aposentado, cursou e concluiu o Curso de Direito. O casal tem cinco filhos, todos casados, três homens e duas mulheres, e dez netos, sendo sete rapazes e três moças, com idades que variam entre dez e vinte e cinco anos. Ela nasceu no bairro do Pari, na capital paulista, e ele nasceu no interior na cidade de Avanhandava. Os pais de ambos eram portugueses, oriundos das regiões de Agrella e Conselho de Macedo.

  Helena Lopes Barbosa tem 79 anos, é

  religiosa e possui cabelos alvos encobertos por um véu de pala branca e cinza. Seus olhos são castanho- esverdeados e seu semblante revela severidade, mas também bondade. Pertence à Congregação das Irmãs Passionistas do Sagrado Coração de Jesus. Nasceu no bairro da Saúde e é proveniente de uma família composta de seis filhos, sendo a terceira filha do casal. Ingressou no convento por vocação e chamado, aos vinte e quatro anos. Quando concedeu a entrevista residia em São Roque e atualmente mora em Taboão da Serra, ambos em São Paulo. Quando jovem, freqüentava a mesma igreja que Clara. Seus pais eram portugueses, assim como seus avós, mas estes só estiveram no Brasil em visita. O pai era natural de Vila Nova de Gaia, batizado na paróquia de Lival, e a mãe da cidade do Porto, na paróquia de Garxi. A história do enlace matrimonial deles não foi diferente da maioria de sua época, o noivo foi escolhido pelos pais da jovem. Sua família era composta de quatro irmãs e um irmão, o caçula, orgulho do pai, o “pequeno varão”. Seu pai era um exímio carpinteiro, oficio aprendido em Portugal, e fazedor de vinho na própria casa em que residia, no bairro do Tucuruvi.

  Maria de Fátima Costa

  tem 61 anos. Seus cabelos são grisalhos, de corte moderno, e sua face traz alguns sinais da idade. É muito emotiva e apresenta um sorriso amigável e jovial. Pertence a uma família de quinze filhos, oito já falecidos, o que é por ela lamentado até os dias de hoje. Sua atual profissão é dona-de-casa. Casada, não tem filhos, mas é muito estimada pelos sobrinhos, sendo considerada como tia- avó pelos pequenos, motivo de orgulho e vaidade. Reside em Guarulhos, onde os vizinhos a tratam com muita estima. O marido também é descendente de português e italiano; ela o conheceu durante uma sessão de cinema, assistindo ao filme “As aventuras de Omar Kayan”, estrelado por Cornel O’Nell, seu ator predileto. Os pais de Fátima também são originários de Trás-os-Montes, provenientes de quintas agrícolas e de comércio. Sua bisavó possuía uma espécie de hospedaria, onde acolhia e alimentava os viajantes, que, em seguida, prosseguiam viagem.

  Glória Gonçalves tem 69 anos, é esbelta e

  possui cabelos crespos, curtos e totalmente brancos; seus óculos escondem um par de olhos fundos e negros que transparecem muita tristeza. É a terceira dos irmãos mais velhos de um total de doze. É mãe de duas moças, sendo que uma vive na França e a outra mora na Zona Norte. Rompeu com a família quando passou a viver com um senhor militar quatorze anos mais velho que ela. Seu companheiro era negro, militar e vivia com ela maritalmente, o que era considerado por seu pai e seus irmãos como uma afronta moral e religiosa. Contudo, hoje, depois de três anos da morte do marido, os irmãos a tratam sem desdém. Ela é uma senhora reservada e que demonstra muita emoção quando menciona o sofrimento da mãe no Brasil. Os avós, bem como os pais, são oriundos da região de Trás os Montes. Glorinha, embora tivesse uma profissão, quando se casou deixou de trabalhar fora para ser dona-de-casa e mãe.

  é mais

  Benigna de Lourdes Carminhati

  conhecida como Viga e tem 72 anos; nasceu em Avanhandava e aos quatro meses veio para a capital paulista. É a caçula da família, do total de seis irmãos. Viúva, dona-de-casa, mãe de três filhos, dois senhores e uma senhora, e avó de seis adolescentes do sexo feminino, entre elas uma adotada, e de dois rapazes, cujas idades variam de quatorze a vinte e oito anos. É também bisavó de uma “linda” menina. A sua aparência é de uma senhora robusta; seus olhos são verdes, seus cabelos anelados e tingidos de loiro e seu sorriso é farto e muito amável; fala baixo e ouve com dificuldade. Filha de imigrantes portugueses, provenientes das regiões do Porto e Vila Nova de Gaia, casou-se com Augusto, filho de italianos da região de Milão. Viveram bons anos em São Paulo, Capital, onde tiveram os filhos e os netos. Quando veio a aposentadoria do marido, que era aeroviário, foram viver em Descalvado, no interior. Na juventude, freqüentava a mesma igreja que as demais entrevistadas e trabalhava na mesma tecelagem que elas. As entrevistadas apresentaram transformações quanto ao trabalho doméstico e à educação dos filhos. Tais mudanças foram construídas vagarosamente como representações sociais, que permitiram alterar as práticas domésticas tradicionais, ou seja, os reflexos do status profissional do chefe, do homem da família que a sustenta, sofrendo mudanças devido ao desenrolar das relações sociais, embora não perca de todo o seu caráter significativo para elas. Nessa estrutura familiar, a mulher tem o papel de “dona-de-casa”, subsidiária às atividades do homem, porém busca práticas distintas para representar uma alteração nesse ciclo tradicional.

  Conforme a conjuntura social, a mulher era “chamada” a participar do mercado de trabalho, mas as atividades que exercia fora de casa eram similares

  7

  às que executava em seu interior. Além disso, embora desempenhasse atividades remuneradas, a mulher continuava sendo a responsável pelo desempenho das tarefas domésticas.

  As entrevistadas foram tecelãs e, como tais, passaram pela seguinte trajetória: iniciaram pelo cargo de aprendiz, em seguida passaram a desempenhar tarefas mais complexas e, à medida que adquiriram prática no serviço, foram sendo sucessivamente transferidas, até atingirem tarefas que demarcavam a produtividade, ou seja, o trabalho nos teares propriamente dito.

  Portanto, a vida dessas mulheres foi em parte diferente da trajetória das suas avós e mães, porque vivenciaram atividades remuneradas, em locais próprios, com horários fixos ou acrescidos de horas-extras, ao mesmo tempo em que trabalhavam em casa, exercendo as atividades domésticas e também executando “pequenos” serviços para fora, tais como lavar, engomar, bordar, costurar, engarrafar leite, preparar os cortes de carne de cabrito ou leitão, organizar os feixes de flores ou verduras e cuidar de “rebentos” alheios. Com isso, embora as avós e as mães também tenham exercido atividades remuneradas, as filhas o fizeram em locais próprios, o que estabelece uma distinção entre elas.

  Seus rostos expressam, em cada ruga, não o acúmulo de perdas ou de desejos nunca conquistados, mas, ao contrário, sorrisos e olhares repletos de saudades das ilusões que só quem é jovem sonha conquistar. Em seus cabelos alvos como nuvens brancas em dias de sol se escondem as desilusões e as tristezas, mas também a contínua transformação. Lembram do relógio da fábrica que controlava o tempo do capital, mas nunca o dos sonhos de cada ser humano.

  Percebe-se, portanto, que essas mulheres têm muito a contar. Por isso, torna-se indispensável uma busca detalhada sobre a cultura, as tradições, o cotidiano, a educação, os estudos, as opções de casamento e a vida profissional das personagens envolvidas nesta pesquisa. Para se transitar por esta proposta, é necessário analisar o procedimento que as famílias adotaram quanto à emigração para o Brasil, seja de um membro ou de todos em conjunto.

  O corpus documental será empregado como “pano de fundo” para registrar a história de vida das entrevistadas, bem como todos os acontecimentos que eclodiram durante as suas trajetórias.

  O presente estudo está constituído em vários capítulos. Pretende-se fazer com que cada capítulo complemente-se e articule-se, viabilizando a reconstituição do conjunto de possibilidades, sujeitos e fatores que condicionaram um grupo de mulheres ao acesso a um tipo de trabalho externo, fora do lar.

  Inicialmente, explora-se o sentido do cotidiano português, as condições sócio-econômicas, a família portuguesa, a mulher portuguesa e a trajetória dos seus antecessores até o momento do embarque para o Brasil. Em seguida, permeia-se pelos conceitos de emigração e imigração, fenômenos que, segundo

  8 8 Serrão , atingiram o seu auge para o Brasil nas primeiras décadas do século XX. Depois, procura-se alinhavar a trajetória de vida dos pais das entrevistadas, abordando-se questões como: Por que vieram para o Brasil? Como vieram? Onde se estabeleceram? Consideravam a religião importante? Tinham momentos de lazer?

  Busca-se, ainda, entender os laços familiares, os trabalhos e as relações de gênero que permearam a vida das filhas de imigrantes portugueses. Em continuidade, investiga-se a história de vida das depoentes e as imagens que guardam da casa, da rua, do bairro, da escola, do trabalho, do casamento e de outros aspectos que marcaram sua trajetória, procurando-se explorar as relações sociais e a mobilidade social entre as gerações.

  I – LÁ (EM PORTUGAL)

  1.1 A FORMAđấO DA FAMễLIA PORTUGUESA “ São os vivos e os mortos

  9

  são o presente e o passado.” Ao longo de várias gerações de uma determinada família, os casamentos acontecem e são registradas variações de idade entre os nubentes, sugerindo relações entre propriedade, idade, emigração, celibato feminino e agregados familiares múltiplos.

  Os estudos apontam que o homem português se casa, hoje, com idade mais avançada que a mulher, por volta dos trinta anos. Nas primeiras décadas do século XX, no entanto, ela casava-se mais “madura” que o homem, o que, porém, não era uma norma. O número de casamentos entre mulheres solteiras e homens viúvos também era elevado.

  Ao contrário do que se imagina, não foi somente entre 1700 e 1749 que as mulheres casadas tinham menos de dezenove anos. Nessa época, muitos casais apresentavam diferença de idade de até sete anos, casando-se desde que ocorresse a aprovação dos pais. Este foi o caso dos pais de Viga, fato talvez

  10

  isolado, já que na década de 1960 não ocorria com freqüência. Viga relata: “Os meus pais vieram casados de Portugal, o meu pai era sete anos mais velho que a

  11

  minha mãe [...]. Ele natural de Vila Nova de Gaia e ela do Porto.”

  9 10 António Guedes de Campos, Poeta-engenheiro-português.

  

BRETTELL, Caroline B. Homens que Partem, Mulheres que Esperam. Lisboa: Publicações Dom

  Paulatinamente, foi sendo introduzido o modelo de casamento “ mediterrânico”, caracterizado pelo matrimônio tardio dos homens, conjugado com o casamento precoce das mulheres. Neste caso, a diferença de idades é grande, em geral de dez anos ou mais. Já no modelo ocidental clássico, há, comumente, uma pequena diferença de idades entre os cônjuges, com muitos casamentos em que a esposa é até seis anos mais velha que seu marido.

  As idades elevadas no casamento, em relação tanto aos homens quanto às mulheres, não são exclusividades da sociedade rural do Norte de Portugal, uma vez que fazem parte do “modelo de casamento da Europa ocidental”. Aliás, por vezes, o matrimônio não acontece, elevando os índices de celibato definitivo.

  A prática dos casamentos, arranjados ou não, estava ligada aos interesses das famílias, que procuravam a certeza de que a filha seria cuidada e de que a ela e à sua prole não faltaria sustento. No que se refere ao filho, esperava-se que se tornasse responsável pelos negócios da família, que buscasse fortuna em terras de além mar ou, ao menos, que duplicasse o que possuía.

  O casamento poderia acontecer tardiamente em função do sistema de herança indivisa, segundo o qual apenas um filho era favorecido e herdava o patrimônio da família, enquanto os seus irmãos eram obrigados a emigrar ou a trabalhar como assalariados agrícolas, o que, por conseguinte, os levava a se casarem mais tarde ou a não se casarem, já que suas condições financeiras poderiam impedir o sustento familiar. Em contrapartida, o sistema de herança divisa estabelecia que todos os irmãos deveriam receber uma parte do patrimônio e, assim, ter uma fonte de apoio econômico. Este segundo sistema sugeria casamentos mais cedo e em maior número. Contudo, a questão da herança não interferia quando os pais possuíam pouca ou nenhuma terra, como era o caso dos lavradores-rendeiros, dos caseiros e dos jornaleiros.

  Enquanto o pai estava vivo, o adiamento dos casamentos era motivado trabalho ou o rendimento potencial dos filhos e filhas solteiros(as), já que estes, quando trabalhavam em atividades remuneradas, entregavam grande parte do que ganhavam aos pais, procedimento comum no norte de Portugal. Parte desse dinheiro deveria ser guardada para, no futuro, ser investida num presente de casamento ou no enxoval, prática freqüente mesmo no período posterior à II

  Refletindo-se sobre a questão da herança, os filhos de famílias abastadas ou sem posses significativas que se tornassem padres ou seguissem vida religiosa também eram beneficiados com uma parte do legado dos pais. Portanto, havia famílias com tendências para o celibato feminino ou masculino.

  Este assunto referente à partilha de posses, desde o desdobramento das terras até a divisão de bens de cunho afetivo, foi sempre gerador de tensões familiares, conforme explica Clarinha:

  Quando as terras foram vendidas, a partilha foi feita igualmente entre todos os irmãos e irmãs, somente um tio ficou em Portugal [precisamente na região de Chaves], vivendo em suas terras com os filhos, os demais receberam a sua parte e investiram em seus negócios no Brasil [...], mas ele [o pai] sempre dizia que fora 13 passado para trás e não gostava de falar sobre isto.

  A região do Norte de Portugal caracterizava-se por abrigar famílias extensas, como era o caso das famílias de três das entrevistadas deste estudo. Com muitos agregados, a parentela vivia em função da lavoura, da caça e da pesca nas regiões ribeirinhas. Já no Sul de Portugal prevaleciam as famílias nucleares, que eram predominantes nos setores populares do campo e das cidades, onde as famílias com tendências patriarcais eram mais freqüentes entre os médios e pequenos proprietários e as classes médias urbanas.

  12

  O meu pai tinha muitos irmãos e irmãs, vários sobrinhos, tios e tias, todos ajudavam na lavoura, a tratarem do gado, mas também havia muita necessidade, muito sofrimento lá em Portugal, ele [o pai] não gostava de comentar mais nada de lá... 14 Ficava muito triste.

  Os rapazes mais novos e arrojados, para se casarem, eram freqüentemente obrigados a procurar fontes alternativas de rendimento. Uma vez que na região onde moravam as oportunidades de trabalho não-agrícola bem pago eram limitadas, a emigração constituía a melhor saída para tais jovens.

  Se os homens adiavam os seus casamentos, as mulheres também o faziam. No entanto, muitos jovens partiam de suas aldeias já casados e com filhos pequenos em busca de melhores condições, conforme confirma Clarinha: “

  Os meus avós partiram de Portugal, por volta do mês de outubro, porque aqui chegaram em novembro de 1911, com uma filha recém-nascida, estavam com

  15

  mais ou menos uns vinte e poucos anos.” Os avós de Clarinha poderiam também ter colaborado para elevar o número das migrações sazonais, que ocorriam no final do outono e nos meses de inverno, períodos em que o trabalho agrícola em Portugal era menos intenso. Por conseguinte, os casamentos ocorriam mais freqüentemente durante os meses das colheitas, ou seja, no verão, época em que os trabalhadores portugueses tinham melhores condições financeiras.

  Até as primeiras décadas do século XX, entre as pessoas que se casavam e continuavam a viver com a família dos pais o matrimônio ocorria mais cedo.

  14

  Já entre aquelas que optavam por formar o seu próprio núcleo familiar, o casamento ocorria mais tarde. Com o passar dos anos, a preferência pela família nuclear, embora fosse uma tendência cultural antiga, também sofreu modificações e se adaptou às novas realidades. Os casais, então, passavam a ter como agregados uma irmã solteira, um neto ilegítimo ou um progenitor viúvo.

  Afirma-se que a preferência pela família nuclear tem de ser vista no contexto da “esperança” que culturalmente se definiu de que os filhos cuidassem dos pais idosos e os membros da família cuidassem uns dos outros. Quando isto não acontecia naturalmente, os testamentos apresentavam promessas de

  16 transmissão de bens àqueles que assim agissem.

  A norma contida na família nuclear de zelar uns pelos outros era flexível, permitindo que os indivíduos se adaptassem às oportunidades ou necessidades em vários momentos da vida cotidiana. Contudo, esta norma era um ideal aspirado por muitos casais, mas, para ser alcançada, dependia de cada experiência de vida. Ainda que a nuclearidade fosse conseguida, isto não impedia a total independência social, emocional ou econômica em relação aos outros membros da família.

  A economia rural era caracterizada pelo minifúndio extremo e pela sucessão de tarefas agrícolas ao longo do ano. As famílias nucleares que trocavam serviços mútuos com base nos laços de parentesco ou até de vizinhança eram igualmente eficazes. Até mesmo atualmente, essa forma de troca de serviços é mantida, permitindo fazer uma distinção entre família e agregado.

  Em épocas de crises econômicas, demográficas e políticas, a idade no casamento e o celibato feminino definitivo são fatores que contribuem para elevar os índices de emigração. Na Europa Ocidental, particularmente em Portugal, o controle da natalidade é a resposta mais direta à mudança de condições econômicas nas primeiras fases da transição demográfica. Justificando a existência e a relação entre esses fenômenos, Balbi afirma:

  Os jovens de ambos os sexos, em vez de cederem à tendência natural para se unirem pelos laços sagrados do casamento, entregam-se a uma vida de libertinagem; outros esperam até fazer fortuna para casar; na espera, as raparigas envelhecem e em cada uma que espera até aos trinta e cinco anos para casar o 17 estado perde dois terços da sua fecundidade.

  Porém, não se pode deixar de inferir sobre as condições econômicas e físicas no que se refere à formação de um novo agregado familiar. Talvez essas condições sejam mais determinantes do que a decisão consciente de se limitar o tamanho da família.

  Depois de abordar a movimentação em Portugal sobre o casamento, o celibato, espontâneo ou não, as dificuldades financeiras e as parcas oscilações de ofícios, o presente estudo refletirá acerca da situação política e social de Portugal no período em que os progenitores das mulheres que contribuíram para esta pesquisa com seus depoimentos emigraram de Portugal.

  

FIGURA 2 – Mapa das regiões Norte e Nordeste de Portugal, com destaque às aldeias de Vinhais e

Chaves, ao provável percurso feito pelos avós e pais de algumas das entrevistadas e à noção em

quilômetros percorridos até chegarem aos portos de Leixões ou Porto. Fonte: Guia turístico “Vá

para fora cá dentro”, s/d.

  1.2 CONTEXTO SÓCIO-ECONÔMICO DE PORTUGAL, À ÉPOCA DA EMIGRAđấO PARA O BRASIL

  Neste item, pretende-se caracterizar o contexto português no período em que os avós e os pais das mulheres entrevistadas neste estudo emigraram. Na virada do século XIX para o XX e nas primeiras décadas deste, nas zonas rurais do Noroeste de Portugal, as difíceis condições de vida geraram a proletarização, que não só engrossou as fileiras dos que não possuíam terras, como também promoveu a emigração maciça.

  O meu avô [materno] comentava que veio para o Brasil para melhorar as suas condições de vida, ele era proveniente de 18 Vinhais.

  Sei que comentavam que ela [a sua mãe] veio em definitivo para o Brasil com mais ou menos 13 anos, em companhia da tia, aliás, a irmã do meu avô, a tia Liberata, que era muito querida [...] a sua cidade natal era Macedo de Cavaleiros, lá colhiam 19 muitas frutas, que eram gostosas e bonitas.

  Vinhais é uma freguesia do Conselho de Macedo de Cavaleiros, distrito e diocese de Bragança, província de Trás-os-Montes. A povoação, após o Decreto de 24 de outubro de 1855, passou a Macedo de Cavaleiros, a comarca de Mirandela. Em 1863, a vila de Macedo de Cavaleiros foi elevada à categoria de sede de comarca, pertencente ao Conselho e Comarca de Macedo de Cavaleiros.

  Vinhais foi grande produtora de cereais, castanhas, cortiça, batatas, azeite, vinho, ervas e frutas, mas no início do século XX foi acometida por várias pestes agrícolas, que aniquilaram os vinhedos de quase toda a província.

  18

  Esta freguesia se destacava também pela produção de lã e pela criação de uma variedade de gado: o ovelhum, o muar, o vacum e o suíno. Na região, podia-se observar, ainda, a pesca nos ribeirões e a caça de lebres, coelhos, perdizes, lobos e raposas. Porém, a necessidade de abertura de várias vias de acesso pelos arredores da área, entre outros fatores, levou a caça e a criação de gado à escassez, contribuiu para o aumento do número de assaltos no povoado e limitou o comércio local por falta de comunicação.

  Vinhais contava com magníficos prados e amplos vales, os quais, depois, foram subdivididos pelos moradores. Outrora, o povoado se erguia no cimo dos vales, de onde dominava toda a extensão no horizonte. No entanto, em função da necessidade de sobrevivência e de fuga dos maus tratos e das violências impingidas, muitos decidiram partir para outro país. Aos que ficaram na região restaram poucas ocupações, como a função de jornaleiro, exercida, em geral, pelos antigos pequenos lavradores. Os jornaleiros também haviam adiado o casamento, na esperança de juntarem dinheiro para comprar terras e voltarem a pertencer ao grupo dos detentores de bens.

  A tia-avó de Clarinha, nascida em Vinhais, mudou de aldeia em busca de melhores oportunidades, trabalhou duramente, mas morreu sem retornar à aldeia natal, conforme demonstra seu depoimento: “A minha tia saiu do campo, da aldeia de Vinhais, para vender peixe no Porto, ela era ‘varina’, cantarolava e

  20

  salgava o peixe como ninguém, mas morreu pobre, na miséria mesmo.”

  

13/01/1924, natural de São Paulo. Guilherma Videira, em primeiras núpcias sobrenome Piedade, em

segunda, Gonçalves, atualmente viúva, de um gajo português, que seguiu a carreira militar, mãe de um

único filho, também falecido, seu neto, também já faleceu, vive em companhia dos bisnetos e

tataranetos. Nasceu em São Paulo, em 13/01/1924, e vive atualmente no bairro da Parada Inglesa, na

casa onde outrora fora uma chácara, na mesma casa em que nasceu e viveu sua infância e mocidade.

Para descrevê-la, é preciso ter sensibilidade no olhar: os cabelos são alvos como paina, presos como se

fosse um “rabo de cavalo”, a pele é morena, os olhos são da cor da violeta em flor, é simpática e sorri

  Portanto:

  A migração sazonal não era uma fuga da família de agricultores, mas sim uma condição da sobrevivência da mesma. Os camponeses partiam não para conseguirem uma nova ocupação numa sociedade diferente, mas sim para melhorarem a sua 21 posição na própria sociedade a que pertenciam.

  A emigração, deste modo, caracterizou o cenário no Noroeste de Portugal, reforçando a elevação das idades no casamento, relacionada com a fragmentação da terra e da pequena propriedade, que, por sua vez, estava associada ao cultivo de terras arrendadas.

  Assim, os herdeiros eram levados a emigrar para constituírem agregados independentes, como ocorreu com os familiares de Clarinha, que relata: “As minhas tias comentavam que a região [Trás-os-Montes] foi uma das que, nos últimos anos, foi e talvez continuaria a ser a que mais perdeu a sua população,

  22

  porque todos partiam.” A alteração do modo de vida dos habitantes da região de Trás-os-Montes

  é, em grande parte, responsável pelo fato desta região se apresentar, atualmente,

  23 como uma das áreas com mais baixa densidade populacional.

  A fragmentação das terras e o agravamento geral das condições econômicas foram fatores muitas vezes decisórios para a emigração. Estas correntes migratórias tinham a expectativa de retornarem à terra natal, mas muitos que partiram nunca regressaram, como foi o caso da mãe de Glorinha.

  21 22 HABAKKUK, H. G. Apud BRETTELL, Caroline B. Op. cit., 1991. 23 Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.

  A minha mãe contava que, lá em Portugal, é que se vivia, corria pelas pastagens, ajudava a moer o trigo, para fazer farinha, auxiliava nos afazeres domésticos. Os seus tios já eram adultos e a tratavam como uma verdadeira princesa, a cobriam de mimos e carinhos. É que minha avó possuía uma hospedaria, onde os viajantes paravam para se alimentar, passar a noite e prosseguir o seu caminho. Ela tinha horta, uma pequena criação de cabras, porcos, galinhas e patos, para poder sustentar os viajantes e a se manterem também, pois tudo era produzido ali, o pão, as carnes, a banha, o leite para as crianças, era sempre “fresquinho”, tirado na hora mesmo. 24 Em geral, era quando a mulher se via obrigada a deixar a “terrinha” que

  percebia como era rico aquele Portugal, país onde formara sua identidade e firmara laços afetivos. No entanto, bastava uma carta de chamada dos pais para separá-la da terra natal, do lar que conhecia, daquela paisagem e dos seus afazeres.

  A tradição, a honra e a palavra proferida e cumprida eram códigos de uma identidade que fora gerada nos braços de uma cultura, talvez onde as pessoas não possuíam outros bens senão aqueles mantidos por sua cepa. Nesse sentido, Fátima relata:

  O meu avô trouxe o seguinte aprendizado de Portugal, um homem vale pela sua palavra, porque a dele era mantida e todos o respeitavam por isso. A palavra de um homem tem o mesmo valor que a sua própria família. 25 Já a família de Helena viveu uma experiência diferente. Seu avô era um

  próspero comerciante e negociante com estudos. Seu pai emigrou para o Brasil, engrossando as fileiras dos que buscavam a “árvore das patacas”, o enriquecimento e o retorno glorioso ao lado da jovem mulher. Dessa forma, reforçava o mito do retorno, do enriquecimento rápido. Mas teria tido êxito na sua aventura? Talvez, mais adiante teremos esta resposta. 24

  Os meus pais pouco falavam de Portugal, a minha mãe contava que o pai dela era um próspero comerciante, e fez muitas viagens para o Brasil para visitá-la, ela viveu lá até os dezessete anos. Já o meu pai aprendeu o ofício de carpinteiro e estudou até o primário, sabia fazer vinho, remédios caseiros, era meio inventor, vivia elaborando máquinas, mas nunca deu certo, veio para o Brasil com mais ou menos vinte e poucos anos, eu já não 26 me recordo direito.

  O depoimento de Viga, apresentado a seguir, sugere uma reflexão sobre a influência da imagem dos pais sobre os filhos e a própria família. Além disso, expressa o despertar de sentimentos de admiração e orgulho que as múltiplas formas de trabalho motivam, bem como a necessidade de sobrevivência em um local onde as condições de existência se tornam difíceis, seja pela política empregada, pelos apelos econômicos ou pelas próprias exigências do desenvolvimento e da modernização do país.

  A minha mãe vivia no litoral e vendia peixe, cantava e salgava os peixes para vender no porto. Contava que era um movimento só, havia muitas pessoas e, às vezes, ocorriam algumas brigas. Ela aprendeu a salgar peixe com os pais, que também comercializavam outros produtos. Quanto ao meu pai, só sei que ele sabia fazer muitas coisas que aprendeu em Portugal, como serviços de carpintaria, consertar panelas, colocar alças em latas para usar como medidor, comprar uvas selecionadas para fazer 27

vinho. Papai era muito inteligente.

  A tia de uma das entrevistadas neste estudo também pôde contribuir para esta análise, e relembrou algumas experiências de seus pais e avós:

  Os meus pais são de aldeias em Portugal, Vinhas e Macedo de Cavalheiros, são da região de Trás-os-Montes, quando eles nasceram eu não sei, mas eles vieram para o Brasil mais ou menos com seus vinte anos. A minha avó, mãe do meu pai, era cigana, também era louca por dinheiro. Ela ficou no Brasil, por volta de três anos, veio junto com o meu pai. Ela montou uma hospedaria, uma pensão para rapazes, porque eles pagavam. Ela 26 não queria saber de “calcinhas”, só de “ciroulas”, porque eles pagavam. O local era pelos lados da Frei Caneca, não recordo o nome do bairro, será Luz, Val Paraíso, Consolação ou Liberdade? A minha avó gostava muito de ouro, veio para cá atrás de ouro, mas não encontrou nada, então voltou para lá e não voltou mais aqui. Voltou para Macedo de Cavalheiros, para a aldeia, não para o Porto, porque quem vivia no Porto era quem tinha dinheiro, comércio, ela não, voltou para a aldeia, para o interior mesmo. A irmã dela era “varina”, vendia peixe na rua, dizia que fazia bons negócios. Porém, a mãe da minha mãe nunca veio para cá, só a mãe de meu pai. Ela era mais quieta, sossegada mesmo, cuidava da 28 lavoura, dos filhos, da casa, nunca quis saber de se aventurar.

  Neste depoimento, destacam-se duas idéias: a primeira se refere à valorização dos bens adquiridos ou herdados e à necessidade de mantê-los, mesmo que para isso seja preciso passar por privações, sendo o mais importante manter a terra, este vínculo com os antepassados; e a segunda diz respeito à

  29

  necessidade de se manter o “mito do retorno” , indo-se em busca do enriquecimento rápido no Brasil, visto como terra do ouro, do eldorado, mas

  30 retornando-se à terra natal para gozar das glórias alcançadas. 28 29 Guilherma, 82 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 27/04/2006.

  

A respeito da manutenção do mito do retorno, consultar: ESTEVES, Laura Leitão. Entre duas

pátrias, o mito do retorno (Memórias e Imaginário de Mulheres Portuguesas em São Paulo) .

30 Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais), PUC-SP, 2000.

  

“A denominação de brasileiro adquiriu para nós uma significação singular e desconhecida para o

resto do mundo. Em Portugal, a primeira idéia talvez que suscite este vocábulo é de um indivíduo

cujas características principais e quase exclusivas são viver com maior ou menor largueza, e não ter

nascido no Brasil; ser um homem que partiu de Portugal na puerícia ou na mocidade mais ou menos

pobre e que, anos depois, voltou mais ou menos rico. Escrito por Alexandre Herculano, em carta

dirigida ao conselheiro José Bento da Silva, em 1873. O facto de em Portugal ser apelidado de

‘ Brasileiro’ um emigrante que do Brasil regressa em situação de afluência económica e não uma

categoria genérica de emigrantes retornados do Brasil em situação económica indefinida. Portanto,

‘ Brasileiros’ são os ricos e pode rosos socialmente visíveis, que deixam a sua marca na paisagem social

que os envolve, asejaa nas residências ou nas obras de benemeritas. A tendência para a ostentação

torna-se, deste modo, uma afirmação de poder por parte de quem provavelmente partiu no anonimato

da pobreza e que, pelo fruto do seu trabalho e sacrifício, entendia afirmar então o seu nome e a sua

posição.” TRINDADE, Maria Beatriz Rocha. Portugal-Brasil, Migrações e Migrantes, 1850-1930.

Lisboa, s/d. p.85.

O estatuto econômico dos emigrantes portugueses para o Brasil que, após uma estadia de duração

significativa, regressavam para Portugal, variava num espectro contínuo que se estendia desde a

condição de destituído de quaisquer fundos até, no extremo oposto, ao indivíduo extremamente rico.

  No entanto, nem todos os imigrantes enriqueceram, mas a sua maioria teve que enfrentar as saudades da família e da terra natal. Aqueles que retornaram a Portugal sem as glórias esperadas frustraram-se, mas retomaram sua vida cotidiana. Em pior situação ficaram aqueles que não conseguiram economizar o dinheiro suficiente para a compra da passagem a Portugal. Os que retornaram, mesmo sem dinheiro, levaram consigo, ao menos, a certeza de que poderiam falecer e ser sepultados na terra dos seus antepassados. Nesse sentido, vale destacar uma frase de António Campos: “Todos somos, de algum modo, emigrantes da vida e apelamos dentro do nosso coração, pelo retorno a um

  31

  paraíso (talvez) perdido [...].” As questões que envolvem o retorno, a ausência de recursos para a

  “ viagem de visita” e o não -enriquecimento são abordadas também em outros depoimentos, como se pode verificar nas próximas linhas, nas quais o relato de Clarinha sobre a experiência de seus pais é reproduzido:

  O meu pai nunca teve a oportunidade de retornar à terra natal [...] por um lado porque trabalhava na prefeitura, não recebia muito, por outro porque tinha os filhos para cuidar e educar [...] a minha mãe não queria voltar mais para Portugal porque, perto do casamento dela, veio uma carta avisando que a minha bisavó falecera. Isto a deixou muito amargurada, porque o sonho dela era um dia voltar para Portugal para rever a mãe, porque ela tratava a avó assim. Assim, ela nunca teve a oportunidade de 32 retornar para lá.

  Como se sabe, o salário do funcionário público nunca foi considerado alto, principalmente no que se refere àqueles que ocupavam as funções que exigiam pouco ou nenhum estudo. Além disso, o pai de Clarinha fixou suas raízes no Brasil, onde se casou com uma conterrânea e teve filhos, os quais

  31 deveria educar, alimentar e vestir. Para sua mãe, Portugal era uma vaga lembrança, uma vez que o elo afetivo que a atava à sua “terra natal” já havia falecido, longe dos seus cuidados e carinhos. Tais fatores, então, os impediram de retornar a Portugal.

  Já Fátima comenta:

  Ele [o pai] nunca voltou para Portugal, porque ele tinha medo de não morrer no Brasil, porque era a terra que ele amava mesmo... Ela [a mãe] não mantinha vínculo com a terra natal, nunca voltou para lá e também não queria. Nenhum dos dois queria 33

voltar para lá. Não era o sonho deles.

  Quando rapazote, o pai de Fátima trabalhou intensamente nos vales rochosos de Portugal e presenciou a perda da pequena propriedade paterna, assim como o desgosto dos pais. Então, quando surgiu a oportunidade de emigrar para o Brasil, após juntar algum dinheiro e conseguir a carta de chamada de uma tia, abandonou tudo aquilo que lhe transmitia sofrimento e viajou para o “paraíso”. A mãe de Fátima, após ter sido trazida ao Brasil por um tutor, que a conduziu aos familiares instalados em São Paulo, os quais, de alguma forma, haviam prosperado em seus pequenos negócios, foi se distanciando das lembranças portuguesas e se integrando à comunidade brasileira.

  Helena, por sua vez, diz:

  Ele [o pai] mantinha vínculo com a terra natal, sempre sabia o que estava acontecendo lá, isto via carta e lá sabiam o que acontecia aqui, mas que ele voltou para lá não [...]. Ela [a mãe] mantinha vínculo com a terra natal através dos pais dela, que sempre vinham visitá-la, mas que eu saiba ela nunca voltou à terra natal. Ele [o pai] sempre me dizia que o maior tesouro dele foi ter se casado com a minha mãe, e viver no Brasil, se ele nunca enricou foi porque não era para ser e, portanto, não 34 deveria retornar à Portugal.

  Este depoimento deixa transparecer o mito do “brasileiro”, português que vêm ao Brasil, vence, faz fortuna e retorna à terra natal. Como isto não aconteceu com o pai de Helena, este patrício se consola em dizer que seu maior tesouro foi ter se casado com a mãe desta entrevistada (que, por sinal, era sua conterrânea) e ter decidido viver no Brasil.

  Portugal, em meados de 1890, passava por revoltas que pretendiam desmantelar o sistema monárquico-constitucional, o que ocorreria com a Revolução de 1910, quando uma ação civil e militar forçou o jovem Dom Manoel II a fugir para a Inglaterra, enquanto os revolucionários buscavam restaurar ou recomeçar o liberalismo. O novo regime se comprometia a melhorar as condições das classes populares e da média e pequena burguesia.

  Apesar dos esforços dos novos dirigentes e forças partidárias, das propostas de várias reformas e da criação das Faculdades de Letras e Direito, em 1911 e 1913, em Lisboa e Coimbra, respectivamente, a constante instabilidade

  governamental, o agravamento nos campos econômico e financeiro e os conflitos da sociedade civil com a Igreja Católica acabaram fragilizando a República.

  [...] teria momentos dramáticos em 1912 (declaração do estado de sítio em Lisboa, prisões em massa de sindicalistas, metidos em porões de navios surtos no Tejo, encerramento da União Operária Nacional, deportações de sindicalistas para presídios alentejanos...), 1913 (encerramento da Casa Sindical, repressão violenta contra os “anarquistas”, expulsão de Pinto Quartim para 35 o Brasil), 1917, 1918, etc.

  O próprio exército se afastaria da República, também hostilizando o catolicismo. No intento de expulsar as ordens religiosas e laicizar a vida do país, o Ministro da Justiça, Afonso Costa, em 1911, propôs eliminar o catolicismo em duas gerações.

  As “aparições” de Fátima em 1917, em pleno governo de Afonso Costa, não tinham nada de casuais. Era a manifestação de um país que cultuava o

  36 mariânico e o milagrismo em plena Primeira Guerra Mundial.

  Foi nesse período conturbado de Portugal que os pais de Fátima e Helena emigraram para o Brasil: “Ele [o pai] veio para cá procurando uma vida melhor,

  37

  porque ele dizia que sofria muito lá. Ele deixou Portugal em 1917.” “O meu pai era imigrante, porque ele não era brasileiro, veio de Portugal para cá [...], ele nasceu em 1887 [...], a região do Porto [...] ele tinha uns vinte anos quando veio

  38

  para o Brasil.” O exército tomaria o poder em 1926. Dois anos depois, os militares procurariam estabelecer uma ditadura, e Antônio de Oliveira Salazar seria o 35 novo ditador.

  

MEDINA, João. “A democracia frágil: A primeira república portuguesa (1910-1926).” In:

36 TENGARRINHA, José (Org.). História de Portugal. São Paulo: UNESP, 2001. p.384. 37 Mariânico, indivíduo pertencente a uma congregação religiosa de devotos à Virgem Maria.

  Fátima, 61 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 22/04/2005.

  FIGURA 3 – Refere-se às cidades de Vila Nova de Gaia e Porto, de onde partiram outros pais das entrevistadas. Fonte: Guia turístico “Vá para fora cá dentro”, s/d.

  Houve um intenso movimento imigratório estrangeiro para a cidade de São Paulo, principalmente no período de 1872 a 1940, predominando as

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  correntes de italianos, portugueses, japoneses, espanhóis e alemães. Dentre estes, chegaram os pais das entrevistadas, conforme relata Viga em relação ao seu pai: “Eu tinha uns quinze anos, era mocinha, o meu pai contava que já fazia uns quarenta anos que ele tinha vindo de Portugal, mas o sotaque era bem

  

40

  carregado. Ele nasceu no ano de 1887.” No período de 1911 a 1927, Portugal passou por instabilidade política, perseguições, mortes e deportações. Para fugir dessa situação, vieram para o

  Brasil os avós, os pais e as mães das depoentes que fazem parte desta pesquisa.

  O percurso que fizeram até chegarem aos portos foi bem diferente, variando em grau de dificuldade de acordo com a província de onde partiam. Os que residiam na região de Trás-os-Montes (Vinhais, Chaves) percorreram o caminho para o porto de Leixões, onde embarcaram no navio a vapor “CAP.

  VERDE”, em direção ao Brasil, percorrendo o mesmo caminho que muitas outras pessoas.

  [...] centenas que partiam, desciam dos casais ensombrados e puros das encostas da serrania; vendiam a courela, o moinho junto ao ribeiro onde a água muito límpida espadanava em espuma de neve; abandonavam a aldeia branca como os lírios, e 41 chegavam aos bandos aos cais de Lisboa.

  Já os que procediam das regiões de Vila Nova de Gaia e da cidade do Porto – cidades separadas por uma ponte –, ao se lançarem na aventura de além-

  40 alteridade em São Paulo . São Paulo: EDUC, 2003. mar, contavam com maiores facilidades quanto à distância e ao percurso para o embarque.

  Na cidade do Porto, embora as ruas fossem íngremes, os telhados das casas eram imensos e em cascata. Vistos a partir de Gaia, os vários riachos formavam mananciais de água vindos de Salgueiros, de Paranhos e de Germalde. Podia-se observar um contraste entre vendedeiras, aposentados, burgueses, prostitutas, caixeiras, comerciantes, desempregados e jornaleiros, entre outros. O resultado era um misto entre o feitio da cidade e a feição dos seus habitantes, misturando intransigência e generosidade.

  As dificuldades para se embarcar rumo ao Brasil eram imensas para os provenientes das regiões distantes dos portos (ver figura 2, p.33). Os meios mais eficientes de transporte eram a besta e o carro de tração animal. Muitos, no entanto, seguiam a pé. Partia-se da terra para uma estação de caminho-de-ferro, por meio da qual se atingia, após uma viagem mais ou menos demorada, um dos portos de embarque transatlântico: Leixões, Porto ou Lisboa.

  Leixões era o porto que levaria os avós e os pais de algumas das entrevistadas para a terra dos sonhos e da esperança de uma vida sem tantas necessidades e, ainda, com a possibilidade de enriquecimento rápido e seguro, conforme relata Clarinha: “A mãe foi trazida para o Brasil por um senhor responsável, com uma carta de chamada de meu avô. Ela partiu do porto de Leixões, após ter deixado a aldeia em Trás-os-Montes. Minha bisavó se

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  despediu com muita dor [...].” Fátima, por sua vez, lembra: “O meu avô partiu de Portugal e desembarcou em Santos, porque geralmente eles desembarcavam

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  lá [...].” Ao desembarcarem em Santos, os imigrantes eram encaminhados para as hospedarias e os alojamentos, onde ficavam à espera – por vezes longa – do dia 42 da partida. Em outras situações, o responsável pelo encaminhamento dos imigrantes já os aguardava no porto para recebê-los, como fora o caso do avô de Clarinha. Já a mãe de Fátima, no dia de sua chegada, era aguardada pelos seus familiares e, em especial, pelo seu pai.

  Nessa época, a via utilizada para se percorrer o trajeto entre Portugal e o Brasil era a marítima, entre o porto de embarque português ou espanhol e os seus correspondentes brasileiros: Belém do Pará (com ligação para Manaus), São Luís do Maranhão, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Santos (servindo São

  44 Paulo) e Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. O tempo de viagem era de 16 a 20 dias para os vapores.

  Para os que viajavam pela Companhia Armadora, a diferença entre os passageiros de 3.ª classe e os que viajavam nas categorias mais luxuosas se manifestava pela qualidade da alimentação e do alojamento. Na camarata havia um conjunto de leitos, distribuídos em um só local. Nela viajavam, normalmente, os passageiros de poucas posses, ou de 3.ª classe. Os visitantes, os “ turistas” e os comerciantes viaj avam em camarote coletivo ou em cabine privada, conforme o status do passageiro.

  Os avós das entrevistadas vieram para o Brasil, em sua maioria, de 3.ª classe, conforme registra suas Certidões de Desembarque. Quem viajava nesta categoria era considerado emigrante. A este era exigido passaporte, ao qual deveria estar anexada uma carta de chamada ou um contrato-promessa, como colono ou como trabalhador, por parte do governo local ou de uma entidade empregadora, como, por exemplo, a Fazenda do Coronel José Ferreira de Figueiredo, em Bauru.

  Já os passageiros de 1.ª e 2.ª classes tinham o estatuto de viajantes ou de visitantes, sendo o único pressuposto do seu direito a esta condição a capacidade

  45

  de pagar o título de transporte. Este era o caso dos avós de Helena , que eram 44 comerciantes e constantemente vinham visitar a filha casada, como ela própria explica: “Os meus avós nunca fixaram residência no Brasil, mas sempre vinham visitar a filha, a mamãe.” Chegando ao Brasil, os passageiros estavam sujeitos a procedimentos distintos. Os visitantes seguiam livremente para o seu destino, sem qualquer inconveniente. Em contrapartida, os imigrantes detentores de uma carta de chamada tinham os seus passaportes visados pelas autoridades portuárias e, em seguida, eram “entregues” ao familiar residente responsável pela sua vinda, conforme relata Fátima: “Eu penso que ele [o pai] já tinha conhecidos aqui, vinham todos os parentes para cá, os primos, os tios, porque eles mandavam cartas como responsáveis para Portugal, e ele veio para cá, e a tia Glória já o

  46

  esperava.” Os estrangeiros que chegavam recrutados como imigrantes por entidades brasileiras, após adquirirem o registro de entrada, eram diretamente encaminhados para um certo empregador ou transferidos para hospedarias de imigrantes, especialmente criadas para abrigá-los, onde aguardavam a convocação individual, efetuada por agentes dos empregadores envolvidos no processo. Existiam hospedarias deste tipo em vários pontos da costa brasileira, sendo as mais importantes localizadas no Rio de Janeiro (Ilha das Flores) e em São Paulo (Hospedaria dos Imigrantes).

  Os descendentes de parte das entrevistadas instalaram-se na Hospedaria do Imigrante, onde permaneceram por pouco tempo, já que logo partiram para o seu destino. Na cidade de São Paulo havia uma ligação ferroviária, a São Paulo Railway, que transportava os imigrantes diretamente do porto de Santos para as

  47 fazendas do interior.

  O imigrante português, depois de percorrer muitos quilômetros em sua terra natal e milhas pelo Oceano Atlântico, chegava em busca da sua “Árvore de

  46

  Não havia setores econômicos que não contassem com seus préstimos, mas vale destacar que “o emigrante português é, em geral, aldeão e agricultor, sem a instrução e a hereditariedade artística [...] (principalmente no início do século

  49 XX). O português se adapta ao meio, inteiramente”.

  Diante do exposto, pode-se afirmar que o “esforço físico”, a “vontade de vencer” e o “mito do retorno” caracterizaram os muitos portugueses que chegaram ao Brasil entre o final do século XIX e o início do XX, entre eles os avós, pais e tios das entrevistadas. No entanto, observa-se também que nem sempre os ideais dos emigrados de Portugal foram alcançados.

  48 MATOS, Maria Izilda Santos de. Cotidiano e Cultura: História, cidade e trabalho. Bauru, SP: 49 EDUSC, 2002. p.59-86.

  1.3 MULHERES EM PORTUGAL Quando retornavam ao seu país de origem, os portugueses encontravam poucas mulheres que ainda desejavam se casar ou mesmo constituir família, uma vez que muitas acreditavam ter passado da idade de ser mãe e outras se dedicavam a cuidar dos pais já idosos e dos irmãos mais novos. Por conseguinte, Portugal contava com um alto número de mulheres solteiras. Por outro lado, alguns regressavam com dinheiro suficiente para formar um novo agregado familiar ou comprar terras.

  Os pais desempenharam um papel importante na escolha dos companheiros de suas filhas, exercendo grande influência na constituição de casamentos por interesse. Eram incentivados os matrimônios entre parentes, entre rapazes novos e mulheres mais velhas e entre homens solteiros e viúvas. Os casamentos entre parentes eram estimulados no intuito de se impedir a fragmentação das terras e de se manter os bens dentro da família, especialmente porque as mulheres tinham a mesma probabilidade de herdar os bens que os homens. Mesmo no decorrer do século XX, este fato se repetiu entre os primos de segundo ou terceiro graus, embora em menor número.

  A possibilidade das mulheres serem herdeiras tanto quanto os homens tornava os casamentos entre primos economicamente interessantes. Do mesmo modo, as viúvas e as mulheres mais velhas, em geral, eram bons partidos para os jovens. Vale ressaltar que mesmo para aqueles que escolhiam livremente o seu par as considerações econômicas eram de vital importância e determinavam o momento adequado para o matrimônio.

  No final do século XIX e início do XX, em Portugal, o celibato entre as mulheres era evidente, seja porque as noivas esperavam pelos noivos que nunca regressavam, seja pelo caráter patriarcal e pela dominação masculina da sociedade rural. Estas razões foram tão marcantes que as mulheres casadas não e um anos sem a licença do pai. Quando se obtinha a permissão era para se deslocarem por pouco tempo para um local próximo, onde se dedicariam ao serviço doméstico ou ao trabalho agrícola. As leis de restrição à emigração feminina mantiveram-se em vigor durante várias décadas.

  Em Portugal, as mulheres desempenhavam um importante papel nas tarefas agrícolas, umas porque assumiam o papel do marido emigrado ou falecido, outras porque tinham que auxiliar os pais a administrar os negócios. Nesse sentido, a mulher portuguesa tinha certa liberdade de movimentos fora de casa, sobretudo a mulher solteira com mais de vinte e um anos, a mulher casada com homem emigrado e a viúva, as quais exerciam grande influência dentro da família.

  Lá, em Portugal, ela [a mãe] não vivia em cidades, mas em aldeias e a atividade lá era mexer com a terra, plantar, agricultura... Com a morte de meu bisavô, a bisavó passou a tomar conta da adega, que ficava na beira da estrada, lá ela organizava tudo e não deixava faltar nada. Os irmãos e irmãs lhe deviam obediência, e a minha mãe era tratada com muito carinho por todos, porque só havia adultos na casa, então ela era

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a menina da casa.

  A mulher detentora de poder econômico era prestigiada e respeitada dentro da família. O pai, por sua vez, preferia manter sua filha solteira o maior tempo possível, ou mesmo para sempre, no intuito de reter recursos econômicos. Muitas aguardavam o falecimento do pai para se casarem, sendo que algumas esperavam tanto que a idade passava, até que, quando finalmente poderiam se casar, não eram mais desejadas.

  O casamento seria desejável ou mesmo viável por uma série de fatores sociais e culturais, mas o celibato feminino ou masculino também não era descartado. As mulheres que podiam se sustentar sem a ajuda de um marido, por meio do trabalho agrícola ou da herança de terras ou casas, consideravam o celibato econômica e socialmente viável. O Código Civil concedia um certo grau de autonomia às mulheres solteiras com idade superior a vinte e um anos, colocando as casadas inteiramente sob a autoridade do marido. Nesse sentido, o celibato era interessante do ponto de vista legal.

  Nesse período, julgava-se que as raparigas que deixassem a casa paterna iriam se “perder” e se tornariam “produtos usados e usáveis”, o que inibia os jovens a se casarem com elas. Assim, a moça que pensava em se casar refletia muito antes de decidir emigrar. Por outro lado, o pai que se via obrigado a mandar uma filha para fora do país, para trabalhar, era uma prova de extrema pobreza, fato que a tornava ainda menos desejável como esposa.

  Claro que, ao desencorajar o casamento das filhas, os pais agiam a favor da sua geração, assegurando, assim, a presença de alguém que cuidasse deles na velhice. Esta preocupação era prioritária em seus testamentos, que eram meios de poderem recompensá-las pelos seus serviços, legando-lhes o terço. Deixar o terço a uma filha solteira era uma manobra que fazia com que as terras fossem reunidas, ao invés de redistribuídas. As tias solteiras, por exemplo, favoreceriam um sobrinho ou uma sobrinha, em especial o que vivesse com ela desde criança e a estimasse. No caso da mãe de Clara, a sua bisavó, ao falecer, teria deixado uma parte dos seus bens para ela, que, no entanto, não aceitou a herança, o que gerou controvérsias entre ela e sua mãe (avó de Clara).

  A bisavó, quando faleceu, no testamento, fez questão de deixar uma parte das terras para a minha mãe, mas como ela já havia se casado, ela não aceitou a doação, para o desgosto da minha avó. Depois disso, elas nunca se deram bem, porque a minha mãe não ligava para isso. Ela gostaria de ter voltado para lá e vivido com 51 a bisavó, que ela considerava como mãe.

  A mulher, segundo demonstra a literatura, apesar de exercer grande influência sobre a família, sempre ocupou um papel secundário na sociedade portuguesa. Mesmo as feministas são percebidas como moderadas e pacíficas, não oferecendo “perigo” à primazia masculina. Até mesmo o direito da mulher ao voto só foi possível após uma longa trajetória de lutas, ocorrendo somente na contemporaneidade.

  Os homens que em geral costumam ter opiniões diversas acerca de diversos assuntos e inúmeros argumentos com que gladiam inúmeras pretensões numa só coisa são unânimes e estão de acordo: negar à mulher o direito de voto. Uns compreendem que ela possa exercer todas as profissões liberais e manuais; mas mulher-política... abrenuntio para ser tão execrável. No que respeita ao trabalho, sim senhor, conceda-lhe esse favor: trabalhar no que quiser, mas não se lhe permitam opiniões e, 52

menos ainda, que ela as manifeste.

  As idéias políticas seriam desenvolvidas e articuladas pelos homens a qualquer momento ou tempo. Entretanto, o comportamento participativo da mulher também no que se refere à política seria repelido, assim como qualquer manifestação feminina nesse sentido. Desse modo, sem a possibilidade de expressarem as suas conjeturas, as avós e mães das entrevistadas não gostavam de falar ou de saber de política, conforme relata Glorinha: “A minha mãe não gostava de política, ela fugia disto [...] ela foi ensinada a respeitar, a ajudar e

  53

  obedecer ao marido, cuidando dos afazeres domésticos e dos filhos.” No entanto, isto não significava que na prática não a exercitassem.

  À mãe cabia, como em outras gerações, desempenhar o seu papel doméstico no lar e estar ao lado do seu companheiro. A este papel cabiam muitas críticas, pois se acreditava que a mulher, além de desempenhá-lo, poderia fazer muito mais, como, por exemplo, participar ativamente da política por meio do voto, como foi exposto nesse discurso:

  A mulher perante a vida social: para isso recordar-lhe-á o papel que tem a desempenhar na Família, na Sociedade, na Política, na Civilização em geral; evidenciará a sua poderosíssima influência educativa na alma das crianças que serão os homens e as mulheres d’amanhã; examinará tudo quanto represente um progresso na vida e na ação sociais da mulher em geral e da portuguesa em especial. 54 Todos, homem ou mulher, podem assumir o seu papel responsável diante

  da sociedade, que é a base de todo ser humano para desfrutar do bem comum, conduzindo uma crítica em relação à educação e ao comportamento ensinado e esperado da menina, em particular, porque a ela cabem os “deveres” domésticos, a preparação dos alimentos, enfim, a responsabilidade pelo trato da casa.

  Em Portugal, a minha bisavó tinha uma adega na beira da estrada. Os viajantes paravam para se alimentarem, pousar, para depois seguirem caminho. A minha mãe, bem menina ainda [...] ia no moinho buscar farinha para fazer pão [...]. 55 Relendo este importante depoimento de Clarinha, que comenta sobre as

  atividades de sua mãe ainda pequena, em Portugal, e refletindo sobre os parágrafos anteriores, pode-se entender que a mulher, desde a infância, recebia uma educação distorcida e, quando adulta, compactuava com a inércia intelectual e dependente.

  A ausência da alfabetização estava ou ainda está presente nas camadas inferiores e superiores, isto tanto no aspecto intelectual como no cultural. Este assunto conduziu ao seguinte comentário sobre a questão do analfabetismo em Portugal: Publicou-se há pouco o último censo da população do reino.

  Pelo que respeita à instrução, os números são pavorosos. Deante d’esta cruel evidencia não pode restar-nos a menor ilusão, a 54 OSÓRIO, Ana de Castro. “A propaganda feminista.” In: SILVA, Maria Regina Tavares. Op. cit., menor velleidade. Somos, de direito, o paiz barbaro da Europa 56 [...]. Portugal é um paiz de analphabetos.

  As questões sobre o analfabetismo, o celibato, o casamento arranjado ou não, o feminismo, a educação formal, a religiosidade e a política passavam ao largo das bisavós, avós e mães das mulheres entrevistadas neste estudo, uma vez que viviam em aldeias muito distantes dos tumultos da cidade. Mesmo as que residiam nas proximidades do Porto poderiam não estar envolvidas nestas questões, conforme suas descendentes relatam: “A minha mãe [natural de Conselho de Macedo], ela não gostava de política, era mais romântica e

  57

  familiar.” “Ela [a mãe, natural do Porto] nunca aprendeu nenhum ofício, só aquilo mesmo, tudo aquilo que uma mulher sabe fazer ou suponha-se que saiba,

  58

  como fazer uma comidinha, uma limpeza, costurar e bordar.” Portanto, mesmo sabendo que o trabalho era uma forma de emancipação feminina, apesar de também ser a sua maior opressão, unindo-se à autonomia pessoal, financeira e psicológica, a mulher acabava direcionando a sua vida para o aspecto afetivo, estando condicionada a ver no casamento o seu futuro socialmente aceito e o seu meio de subsistência.

  A mulher, desde a mais tenra idade, recebia uma educação direcionada e, quando adulta, não se permitia ser independente. Porém, ao emigrarem, deixando para trás a família e a terra onde nasceram e cresceram, vivenciavam outras experiências e sentiam-se motivadas a exercitarem suas funções conscientemente, com lógica e justiça, gerando mudanças em seus comportamentos e para as suas proles. Dessa forma, por um lado, preservaram a cultura e as tradições e, por outro, adaptaram-nas de acordo com as mudanças que a nova terra lhes proporcionou.

  56 CAIEL. Comentários à vida. Lisboa: Parceria Antônio Maria Pereira, 1900. p.141. Apud SILVA, 57 Maria Regina Tavares. Op. cit, s/d. p.51.

  CAPÍTULO II - CÁ (BRASIL) FIGURA 4 – Imagens que representam os avós, pais e tios das entrevistadas, reforçando, assim, os seus primeiros anos vividos no Brasil.

  2.1 A CHEGADA DOS ANTECESSORES

  Meu avô, junto com a minha avó, deixou Portugal no início do século [XX]. Eles eram da região de Vinhais, muito jovens ainda, tinham em torno de vinte anos... bem eles contavam que a situação lá não era boa, embora a mãe do meu avô tivesse uma quinta, mas eles queriam prosperar. Então o meu avô aceitou um contrato para trabalhar em uma fazenda de café no Brasil, na região de Bauru. Ah! a minha mãe também veio, mas, como era um bebê e não se aclimatou aqui, retornou à Portugal com a minha avó, onde ela foi criada na região de Macedo de Cavaleiros. 59 Conforme o depoimento de Clarinha, seus avós, ainda jovens, partiram

  de Portugal em busca de prosperidade. Segundo Ribeiro, as causas da emigração estariam

  [...] em uma agricultura pobre e uma indústria reduzida, a população portuguesa vive dentro de horizontes de trabalho muito apertados: em relação aos recursos a pressão demográfica é muito forte e a emigração aparece como o seu inevitável remédio. 60 O sentido de emigração se expressa pelo fenômeno que ocorre quando indivíduos saem do seu país de origem para se estabelecerem em outro.

  61 A

  partir do momento em que desembarcam em solo brasileiro são considerados imigrantes, pertencendo a uma nova sociedade desde o instante em que atravessam a sua fronteira territorial. Ao pisar nesse solo, o imigrante se investe do direito de desconhecer tudo o que antecede à sua chegada, seja qual for a denominação que tenha esse lugar.

  ofertar empregos em alguns setores e para determinados níveis de qualificação 59 Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005. 60 RIBEIRO, Orlando. “Aspectos e Problemas da Expansão Portuguesa.” In: SERRÃO, Joel.

  Emigração Portuguesa: Sondagem Histórica . Lisboa: Livros Horizonte, s/d. p.93. 61 que, muitas vezes, eram superiores à demanda local original. Para preencher essas vagas, promovia-se a convocação de mão-de-obra qualificada de estrangeiros, o que os atraía e alimentava suas expectativas em relação ao futuro.

  Portanto, pode-se afirmar que a expansão capitalista contribuiu para a imigração. No Brasil, enquanto houvesse carência de mão-de-obra imigrante permanente, tudo se faria para que os estrangeiros dividissem a ilusão que se encontra na base da imigração, ou seja, a oferta de prosperidade, fartura e moradia, a satisfação de necessidades básicas e a realização de “sonhos”. Esse contingente era necessário para a economia, para a demografia ocupacional e, até mesmo, para o branqueamento paulista. Assim, a garantia da permanência do

  63 imigrante era partilhada por todos e, principalmente, pelos próprios imigrantes.

  A facilidade de entrada de imigrantes no Brasil, aliada às necessidades de aumento de produção, de operários e de lavradores, assim como às possibilidades de emprego e enriquecimento e às intenções de partida da terra natal constituíram o cenário adequado para a chegada dos progenitores das entrevistadas.

  Ele [o pai] veio para cá, procurando uma vida melhor, Desembarcou em Santos [...] era o sonho de uma terra diferente, melhor, porque ele dizia que sofria muito lá. Ele deixou Portugal 64 em 1914. Eu tinha uns quinze anos, era mocinha, o meu pai contava que já fazia quarenta anos que ele tinha vindo de Portugal, mas o sotaque era bem carregado. Ele dizia que havia chegado aqui,

65

por volta de 1907. O meu pai era imigrante, porque ele não era brasileiro, veio de Portugal para cá [...], ele nasceu em 1887 [...], na região do 66 Porto [...], ele tinha uns vinte anos quando veio para o Brasil.

  63 64 BEIGUELMAN, Paula. A crise do escravismo e a grande imigração. São Paulo: Brasiliense, 1983. 65 Fátima, 61 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 23/12/2005.

  Nessas falas, percebe-se a importância que os emigrantes davam ao Brasil, país que para eles significava esperança de vida melhor e possibilidade de realização de sonhos. Tais expectativas foram responsáveis pelo elevado número de imigrantes aportados no Brasil.

  Em 1883, 221.536 portugueses entraram no País, correspondendo a 41,2% do total. Entre 1884 e 1930, 1.204.354 lusitanos se estabeleceram no Brasil, dados que representam 29% do total da imigração. De 1904 a 1939, o efetivo português chega a se colocar em primeiro lugar, por nacionalidade de imigrantes, exceto em 1905, 1906 e 1907, quando se coloca logo após o espanhol; entre 1932 e 1935, após o japonês e 1948, perdendo a primeira posição para os italianos. 67 Entre 1887 e 1930, ingressaram no Brasil cerca de três milhões e

  oitocentos mil estrangeiros, sendo que o período de 1887 a 1914 foi o de maior emigração, com a cifra aproximada de dois milhões e setecentos e oitenta mil. Essa concentração de demanda se devia, principalmente, à força de trabalho para a lavoura de café. Porém, durante a primeira Guerra Mundial, esse número sofreu uma redução, mas após 1918 e até 1930 novamente a corrente imigratória se elevou.

  encontraram uma cidade com cerca de 18% de população estrangeira, com línguas, costumes, diferentes maneiras de ser e de agir. Nos anos quarenta, a população tinha 11,34% de pessoas oriundas de outras terras, lutando para sobreviver, da mesma maneira que faziam os portugueses. 69

  67 HUGON, Paul. A crise do escravismo e a grande imigração. São Paulo: Brasiliense, 1983. p.59. 68 FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: EDUSP, 1998. 69

  Os dados apresentados a seguir foram coletados na tabela proposta por Fausto que se refere à chegada de imigrantes de nacionalidades variadas no decurso do período de 1906 a 1925. Como se pode observar, em destaque se configura a porcentagem correspondente à imigração portuguesa. 70 TABELA 1 Ố IMIGRAđấO, PORCENTAGEM DE PORTUGUESES

  Chegada de imigrantes de Porcentagem da imigração Período várias nacionalidades portuguesa 391.600 37%

  1906– 1910 611.400 40%

  1911– 1915 186.400 42%

  1916– 1920 386.600 32%

  1921– 1925

  Este quadro indica que os antecessores das entrevistadas somaram-se ao total de imigrantes que chegaram ao Brasil no período de 1911 a 1920, engrossando a porcentagem da imigração portuguesa. Observa-se também que ocorreu, exatamente nesse período, o maior número de chegadas de portugueses no Brasil, destacando-se São Paulo e Rio de Janeiro como os Estados que mais receberam imigrantes desta origem.

  Os portugueses se sobressaíam na lavoura do café, bem como na agricultura em geral, mas suas maiores participações eram no pequeno e no grande comércio e na indústria. Nesta última, os imigrantes se faziam presentes como donos de empresas e como operários, avultando-se neste ramo, novamente, as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.

  A política imigratória brasileira privilegiava a quantidade, ocupando-se do maior número de trabalhadores possível. Não só os jovens, mas também os adultos do sexo masculino e, depois, as famílias recebiam subsídios para

  71 70 emigrarem. 71 FAUSTO, Boris. Op. cit., 1998. p.275. No período de 1889 a 1928, as verbas anuais concedidas pelo Estado para o serviço de imigração totalizaram 1781306:888$000. Foram gastos 8287:014$000 apenas no período de 1888 a 1889. Concomitantemente, o governo federal abria créditos esporádicos para subsidiar a vinda de imigrantes.

  A tabela apresentada a seguir relaciona o número total de imigrantes que chegaram ao Brasil, bem como o número de imigrantes subsidiados (que atendiam os cafeicultores e os grandes agricultores) e espontâneos que se dirigiram particularmente para São Paulo. 72 TABELA 2 – IMIGRANTES ESPONTÂNEOS E SUBSIDIADOS

  Brasil São Paulo Ano Total Ano Espontâneos Subsidiados

1901-1910 631.000 1900-1909 224.324 164.384

1911-1920 707.704 1910-1919 293.847 186.383

1921-1930 840.215 1920-1930 570.348 181.732

  Assim, pode-se ter uma visão geral da imigração no Brasil e, em particular, em São Paulo. Vale destacar, ainda, que os avós de três das entrevistadas chegaram ao Brasil de forma subsidiada, vindo para trabalhar em uma fazenda de café, enquanto os pais das demais depoentes fizeram parte do total de imigrantes que vieram espontaneamente, ou melhor, sem contar com subsídios para a viagem.

  O texto que iniciou este capítulo, o depoimento de Clarinha, motivou a abordagem que se fez até aqui, permitindo uma discussão sobre os motivos da saída de Portugal e sobre a caracterização de emigração e de imigração. Em seguida, o debate foi ampliado, contando com as reflexões de outros autores acerca do grande número de portugueses que chegaram ao Brasil em diferentes

  72 momentos e do tipo de imigração que realizaram, envolvendo, sempre, o mito do retorno e a possibilidade de enriquecimento.

  A partir de agora, pretende-se abordar uma outra vertente deste mesmo tema: a fixação territorial dos antecessores de nossas entrevistadas desde o momento em que estes chegaram ao Brasil. Assim, pretende-se estreitar o caminho proposto neste estudo, refletindo-se sobre o local onde estes sujeitos fixaram residência – São Paulo –, trabalharam, se casaram e tiveram filhos, entre os quais as depoentes que tanto contribuem para esta análise.

  2.2 SÃO PAULO DOS ANTECESSORES Os avós e, em seguida, os pais das entrevistadas emigraram entre as décadas de 1910 e 1930. Nessa ocasião, o Brasil vivia a experiência republicana. São Paulo, particularmente, crescia com base na produção cafeeira e nas políticas de proteção ao café.

  Sabe-se que o início da cultura cafeeira se deu nas regiões montanhosas do Estado do Rio de Janeiro. No entanto, esta área não era apropriada para este tipo de cultivo, que necessitava de clima e solo adequados para o seu desenvolvimento e, por este motivo, não gerou rendimento econômico satisfatório. Paulatinamente, ocorreu o deslocamento do plantio para São Paulo, inicialmente no Vale do Paraíba e posteriormente no oeste paulista. “A produção paulista, que correspondia a 16% do total nacional, por volta de 1870, já em fins

  73

  do século atingirá a cifra de 40%.” A transferência da produção de café para São Paulo motivou o seu crescimento populacional. Desse modo, este Estado se tornou o centro econômico-financeiro dos negócios do café, e a cidade de São Paulo se tornou a sua sede administrativa. Santos, porém, permaneceu como o pólo comercial, já que era dessa cidade que partiam as principais vias de acesso e circulação. Além disso, as cidades presenciaram o advento do transporte ferroviário, que interligava as regiões produtoras ao porto de Santos, onde desembarcavam os imigrantes europeus.

  Os meus avós [maternos] não ficaram em Bauru porque o fazendeiro, que contratou o meu avô, não cumpriu o combinado. Então ele pegou as suas economias, juntou a minha avó e vieram para São Paulo. Ele [o pai] sempre contava que desembarcou em São Salvador, na Bahia, que ele era um português baiano. A primeira aportagem dele foi na Bahia, se eu não me engano, a 73 carteira modelo 19, dele, foi tirada na Bahia. E depois ele pegou o navio para o porto de Santos, onde a tia Glória foi buscá-lo e o trouxe para São Paulo, onde ficou até morrer [...]. A minha mãe veio com quatorze anos para o Brasil porque o meu avô mandou uma carta de chamada. Ela desembarcou em Santos, de onde foi 74 conduzida pelo tutor até o meu avô, em São Paulo.

  As palavras desta depoente reforçam a dinâmica de proteção ao imigrante, bem como os seus problemas referentes ao acolhimento dos trabalhadores. Demonstra, ainda, a prosperidade e o destaque sócio-econômico de São Paulo.

  [...] E aqui São Paulo foi o norte para muitos milhares que jamais o esquecem. Ei-los logo prontos – ao receberem o impacto desta metrópole e deste Estado que atraem como um imã de singular poder aglutinador e realizam o sonho de um país em cada dia – a tornarem-se partícipes entusiastas “do que falta

  75 fazer e jamais terá fim”.

  Chega o emigrante pronto a sujeitar-se a tudo, porque do nada vem. É o integrante anônimo e apagado da imensa legião que em levas sucessivas, a um ritmo cadenciado e permanente por 76 largas décadas, atravessa, decidido, o Atlântico.

  A imigração portuguesa teve como características a concentração nas áreas urbanas e a dedicação a serviços urbanos – como os desenvolvidos por calceteiros, motorneiros, cobradores e fiscais – e a atividades do comércio e da indústria. Em 1920, havia 65 mil portugueses no Estado de São Paulo, número que representava cerca de 11% do total da população. No Rio de Janeiro estavam instalados 172 mil imigrantes também desta nacionalidade, totalizando 15% da população.

  Tenho saudades da São Paulo que encontrei, cidade amiga, tranqüila. Cidade com 579.000 habitantes em 1920; 1.320.000 habitantes em 1940, ainda não mudara a alma a sua maneira de 74 ser, mesmo se o crescimento começara a ser vertiginoso, 75 Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.

  

VIDAL, Frederico Perry. “Biografia de uma Instituição Luso-Brasileira.” In: Câmara Portuguesa de intensamente rápido. Cidade que permanecera acanhada e pobre nos primeiros séculos e que, em fins do século XIX, tornara-se entreposto de café e, mais tarde, centro do comércio, de indústria, sede de bancos. Passara a ter atividade intensa e afã de 77 progresso.

  Diante desses dados, pode-se inferir que o café proporcionou salários aos trabalhadores que se dedicaram ao seu cultivo e à sua distribuição. Este produto atraiu consumidores fora do seu núcleo gerador, extrapolando a zona rural e conquistando a zona urbana. Dessa forma, beneficiou principalmente a capital paulista, que, nesse momento, esboçava o início do processo de industrialização nacional.

  Com a expansão da lavoura cafeeira, que favoreceu os saldos da balança comercial brasileira ao gerar recursos para novos investimentos no setor industrial, esforços foram empreendidos para a expansão dos meios de transporte, interligando as áreas agrícolas aos centros urbanos e instituindo

  78 condições para um maior intercâmbio comercial.

  Depois da Primeira Guerra Mundial (1914/1918), a indústria brasileira passou por dificuldades geradas pela política intervencionista que propunha a elevação da matéria-prima e a diminuição dos manufaturados de produção estrangeira.

  A valorização cambial facilitou os investimentos dos altos lucros obtidos durante o período bélico em equipamentos e maquinária. A valorização embutia uma política de ampliação de créditos que iria produzir um efeito positivo na retomada da 79 expansão industrial.

  77 78 BERRINI, Beatriz; SCARANO, Julita. Op. cit., 1992. p.166.

  

CARONE, Edgard. A República Velha I – Instituições e Classes Sociais. Rio de Janeiro: DIFEL,

78 1978. p.72-95. 79 Ibidem. p.166.

  

MATOS, Maria Izilda Santos de. Trama e Poder. A trajetória e polêmica em torno das indústrias de

  Para a industrialização, era necessário algum tipo de protecionismo, “ identificado como o suporte ao crescimento industrial e ao desenvolvimento da nação [...]. E as tarifas alfandegárias representavam a solução capaz de assegurar

  80 a sobrevivência das indústrias”.

  A partir de 1930, passou-se a considerar a atividade industrial superior a

  81

  da lavoura e a do comércio. No âmbito econômico da década de 1930, o governo pôs em circulação cada vez mais crescente a sua intervenção, com o propósito de acelerar o processo de industrialização; contudo, as alternativas da economia de exportação não haviam se esgotado.

  No decorrer da fase provisória, o governo Vargas acreditava que, de certa forma, os infortúnios gerados nos anos anteriores ao conflito mundial pudessem ser reorganizados. Portanto, as medidas tomadas serviriam para salvar

  82 um sistema já existente, e não para empreender um novo sistema.

  Todavia, como inovação do período se sobressaiu uma espécie de paternalismo de reformismo social, oriundo da melhoria da classe média. Pretendia-se afastar uma crise política, e não ampliar o mercado para os artigos manufaturados, tampouco melhorar a qualidade das contribuições da mão-de- obra.

  A queda do preço do café não fez com que o valor total das exportações diminuísse. Os danos eram compensados pela exportação de outros produtos que haviam melhorado de preço ou que estavam sendo vendidos em maior quantidade. A crise econômica foi evitada não porque o preço do café havia caído, mas porque os importadores brasileiros, sob a influência da provável elevação dos preços do café, haviam investido em estoques de proporções

  83 consideráveis.

  80 81 Ibidem. 82 Ibidem.

  Buscando atender essa demanda em formação – que se encontrava insatisfeita com essa situação, mas, por outro lado, estava estimulada pelo grande número de imigrantes europeus que ampliavam o mercado interno e forneciam mão-de-obra e experiência aos nacionais – foram dados os primeiros passos nesse processo de industrialização, instalando-se algumas unidades fabris, principalmente no setor têxtil.

  Era o momento crucial da mudança de uma cidade grande para uma megalópole intensa que crescia para todos os lados e para o alto. Viam-se belas casas serem derrubadas para dar lugar a apartamentos, sentia-se o pó das demolições e seu barulho: a cidade foi mudando diante dos olhos. A cidade crescia e eles (os portugueses empreendedores ou não) cresciam com ela, acompanhando seu gigantismo. Diversificaram suas atividades, do mesmo modo que se tornaram sempre mais variadas aquelas 84 que foram surgindo na Paulicéia.

  Até mesmo o segundo conflito mundial (1939/1945) impulsionou a indústria paulista, que se caracterizava pela variedade de gêneros produzidos e respondia por cerca de 28% do total da produção brasileira, consolidando a sua liderança no país e na América do Sul. Porém, cabe ressaltar que os industriais se dedicaram mais a proteger os lucros imediatos do que a se aparelharem para o

  85 futuro, já que não tiveram a preocupação de treinar técnicos ou engenheiros.

  Depois do conflito mundial, para não repetir a teoria do comércio liberal, o governo viu-se obrigado a contar com o capital estrangeiro nas condições por ele impostas, concluindo, de certa maneira, que os industriais não apresentavam

  86 ao Brasil outra solução senão a sua própria crise econômica.

  84 85 BERRINI, Beatriz; SCARANO, Julita. Op. cit., 1992 p.166.

  DEAN, Warren. Op. cit., s/d.

  2.3 TRABALHO

  Com o tempo, o meu avô passou a trabalhar na prefeitura, como chefe de pessoal que trabalhava no calçamento. Mas ele não era chamado de chefe, era chamado de feitor do calçamento... mas ainda mantinha a chácara de flores, que ele tinha orgulho, pois com elas ajudava a enfeitar a igreja aos domingos. 87 Embora a cidade de São Paulo estivesse se modernizando rapidamente,

  atividades como o cultivo de flores eram mantidas. Ainda existiam “as chamadas pequenas oficinas caseiras, nas quais muitos portugueses exerciam atividades como carpinteiros, ferreiros, ourives, sapateiros, calígrafos, alfaiates, seleiros, gravateiros”.

  seus serviços

  [...] como empalhadores de móveis, manutenção e consertos de artigos domésticos, capinadores, jardineiros, lavadores em geral, pedreiros, pintores, leiteiros, verdureiros, peixeiros, floreiros, o “ afiador” de objetos lâminados, tintureiro, baleiro, sorveteiro, doceiro ou o cesteiro de vime e os utensílios domésticos. 89 As ruas da cidade favoreciam os trabalhos citados e, ainda, possibilitavam

  outros tipos de empregos, como os de calceteiros, que pavimentavam com paralelepípedos as avenidas e ruas principais, os de limpadores de ruas (atuais garis) e os de coveiros, entre outros. Uma vez que eram trabalhos diretos, estes serviços ficavam a cargo da Prefeitura Municipal.

  Meu pai começou a trabalhar na Prefeitura. Ele contava que abria valas para enterrar as pessoas. Também comentava muito sobre a gripe espanhola, fazia valas porque morriam muitas pessoas e não dava tempo de fazer os caixões, então enterrava nas valas. Ele comentava que com o sereno da noite, não dava 87 Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005. 88 MATOS, Maria Izilda Santos de. Cotidiano e Cultura. História, Cidade e Trabalho. Bauru, SP: EDUSC p.78. 89 tempo de colocar a terra em cima dos corpos e quando de manhã eles chegavam para cobrir os corpos, o morto não estava mais ali, porque com o sereno da noite passava a febre e as pessoas se 90 levantavam e iam embora. Isso ele comentava bastante.

  O pai de Clarinha, conforme a depoente relata, colaborou no sepultamento das vítimas da “gripe espanhola”, episódio que marcou o mês de outubro de 1918. A mortalidade se espalhou devido ao forte surto epidêmico, ceifando praticamente 2% da população urbana, muito mais que os quatro anos da Primeira Guerra Mundial, fato que foi divulgado e comentado em todo território nacional.

  Não houve lar que não fosse atingido. Em alguns deles, seus moradores foram encontrados todos mortos. Famílias inteiras pereceram, nessa triste fase da vida paulistana, embora as autoridades houvessem mobilizado todos os seus recursos e apelado para todas as instituições e entidades. A Liga Nacionalista, o Clero, com D. Duarte Leopoldo à frente, as associações civis e religiosas prestaram inestimáveis serviços à população da cidade que, àquele tempo, contava pouco mais de quinhentas mil almas. Quando o sinistro morbo atingiu o apogeu, matou mais de 8.000 pessoas, em apenas quatro dias. Os cemitérios funcionavam dia e noite. Via-se, pelas ruas, a qualquer hora do dia, lúgubres cortejos de carros funerários em plena atividade. Houve casos, até, de pessoas que foram enterradas vivas, como aconteceu com um pedreiro italiano do Bom Retiro, que o panfletário Baby de Andrade explorou muito 91 bem, documentando-o com fotografias, em “O Parafuso”.

  A gripe espanhola atingiu principalmente os trabalhadores imigrantes. Com o tempo, as epidemias se tornaram mais raras, mas as condições de salubridade e higiene ainda eram desoladoras na capital paulista.

  Nossa cidade (1918) viu-se apanhada de surpresa pela peste, desorganizando-se completamente todos os serviços públicos, inclusive o de bondes, pela completa falta de pessoal, que dia a 90 dia enfermava, determinando a supressão de viagens e 91 Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005. diminuição do tráfego, o que foi autorizado pela Prefeitura. No período de vinte e seis de outubro a dois de dezembro, quarenta e duas mil, cento e oitenta viagens foram canceladas nas 92 diversas linhas.

  Após este episódio, o contrato de trabalho do pai de Clarinha mudou, passando este imigrante, de coveiro, a trabalhar como calceteiro, sob a chefia de seu futuro sogro.

  Assim que acabou aquilo tudo, o meu avô materno, que já era empregado da prefeitura, do Interventor, Governador, eu não sei bem como se chamava naquele tempo. O meu avô que já trabalhava levou ele e o irmão Joaquim, para os dois trabalharem na prefeitura. Ficaram como... aprenderam a colocar pedras nas ruas, e o ofício dele ficou como calceteiro, calçava as 93 ruas com as pedras, né.

  O ofício de calceteiro também está presente nas falas de Glorinha e Fátima: “Ele era calceteiro da prefeitura, trabalhou 31 anos e 08 meses, até se

  94

  aposentar por invalidez devido a problemas de circulação que ele tinha [...].” “

  Ele trabalhou muitos anos na Prefeitura, ele era calceteiro, aqueles homens que colocava as pedras no chão, hoje é asfalto né, mas antes era paralelepípedo, esse

  95

  foi o serviço do meu pai, até aposentar.” Acredita-se que era um trabalho indispensável não apenas para o embelezamento da cidade, como também para a pavimentação das ruas.

  Paralelamente, São Paulo continuou se desenvolvendo industrialmente de maneira intensa até 1919. O pai de Helena, que era carpinteiro e cursou até a quarta série em Portugal, empregou-se em uma fábrica de automóveis recém- instalada em São Paulo.

  92 STIL, Waldemar. História dos Transportes Coletivos em São Paulo. São Paulo: EDUSP/MC 93 GRAW - HILL, 1978. p.178. 94 Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.

  O meu pai, o que a gente sabia é que ele era carpinteiro, que também fazia desenhos no assoalho das casas das pessoas ricas aqui de São Paulo, no centro Saúde, Jardins. Também fazia nos tetos, isto durante muitos anos. O meu pai estudou até a quarta série, sabia ler, escrever, calcular, muito bem. Depois, ele parou de trabalhar como “decorador” e foi trabalhar na Ford, mas o 96 que ele fazia lá, não sei, porque eu era muito pequena.

  Em 1919, a Ford decidiu instalar-se também no Brasil. O escritório e a primeira linha de montagem da empresa no país foram montados na rua Florêncio de Abreu, no centro da cidade de São Paulo. Depois, em 1925, a General Motors instalou a sua fábrica no bairro paulistano do Ipiranga.

  Iniciava-se um período de agitado parque industrial, de produção de alimentos, fiação, tecidos e bebidas, de renovação das ações sindicais e de lutas pelas questões de moradia e higiene. Em meio a todas essas mudanças, até os que tinham um ofício buscavam colocações mais vantajosas financeiramente. O pai de Viga, por exemplo, que era carpinteiro, passou a trabalhar no ônibus, conforme relata a depoente: “A profissão dele era carpinteiro, ele já veio de Portugal como carpinteiro. Ele, no Brasil, até trabalhou naquela empresa de

  97

  ônibus da CMTC.” Os imigrantes, então, passavam a perceber que estavam em uma metrópole da América, onde o progresso se manifestava nas casas de moradia, nos comércios e nas fábricas, que se acotovelavam em habitações e oficinas. Era uma sociedade competitiva, que pedia esforço e trabalho, mas também inteligência e engenho.

  A cidade era uma mistura entre o antigo e o novo, o rural e o urbano. O bonde tinha a sua presença constante; foi o transporte público soberano até meados dos anos 30, sob o monopólio da LIGHT. A partir de 1947, porém, a administração desta empresa passou para a CMTC (Companhia Municipal dos 96 Transportes Coletivos), que procurou efetuar reformas nos veículos e contratar novo pessoal. Tal esforço, no entanto, foi em vão, já que na década de 60 teve início a sistemática extinção das linhas de bondes, que perderam lugar para os

  98 ônibus e trólebus.

  Os paulistas passavam, então, a conviver com os investimentos imobiliários, com o som das buzinas, com o barulho peculiar dos motores, com as epidemias e, em muitos casos, com a falta de habitação. Em 1939, o número de carros de passeio, que em 1920 era de 5.596, multiplicou-se para 43.657. O de caminhões, por sua vez, passou de 222 para 25.858.

  Inicialmente, São Paulo não predominava sobre as demais regiões nacionais, como Amazonas e Goiás. Mas, a partir de 1907, passou a desempenhar um papel vigoroso de concentração industrial, que permanece até a atualidade. Dados estatísticos comprovam esta realidade, pois, se em 1907 São Paulo respondia por 16% do valor da produção industrial, em 1919 esse número

  99 passaria a 32%, continuando a elevar-se até a crise de 1929.

  Os avanços da urbanização geraram novos contornos urbanos e criaram espaços para a promoção social. Durante as duas primeiras décadas do século

  XX, a atividade industrial continuou a crescer, elevando a população operária a a com 17 índices significativos. A indústria têxtil, em 1900, contav estabelecimentos e 4.579 operários; já em 1920 congregava 54 unidades de

  100 produção e 17.823 operários.

  A eletricidade substituía o lampião a gás, chegavam os primeiros carros, cresciam as linhas de bondes elétricos e iniciavam-se grandes construções, como o Viaduto do Chá e a Avenida Paulista. A cidade de São Paulo se transformava e outras cidades, como Santos, Jundiaí, Itu e Campinas, em sua rotina, passavam a 98 conviver com o apito das fábricas.

  

BRITTO, Edsel; ZEBINI, Eduardo G. Bondes Paulistanos - Memória Eletropaulo. São Paulo, n.º13,

99 jan., fev., mar. de 1990. 100 IGLÉSIAS, Francisco. A industrialização brasileira. 2ªed. São Paulo: Brasiliense, 1986.

  Em meio a tantas transformações, foram empregados novos operários e contratados empreiteiros e/ou tarefeiros (trabalhadores contratados temporariamente para a realização de tarefas), que na via férrea atuaram abrindo caminhos e assentando as travessas que firmariam os trilhos nas linhas férreas, isto sob a orientação de hábeis carpinteiros, como o pai de Helena.

  O meu pai trabalhou durante uns tempos em Santos. Ele ficava lá e na sexta-feira voltava e depois voltava para lá, dizia que o trabalho era preciso e a sua habilidade com a madeira era de grande auxílio. Mas muitas vezes nós todos fomos até lá para encontrá-lo. Eu me lembro tão bem do encontro do meu pai com 101 a gente, ele nos esperava em frente do trem.

  Muitos trabalhadores eram engajados nessas frentes de trabalho, deixando para trás mulher e filhos, mas com plena convicção de reencontrá-los. Às vezes, suas famílias iam ao seu encontro, desfrutando da viagem e do passeio de trem.

  As greves e as brigas de rua tornaram-se assuntos cotidianos dos boletins policiais, assim como a precariedade da infra-estrutura urbana. Embora isto fosse uma realidade, os pais das entrevistadas nunca se envolveram nessas confusões. Segundo elas, “eram trabalhadores para o que desse e viesse”.

  A The São Paulo Tramway Light & Power, vulgarmente conhecida como Light, empresa canadense inaugurada em 1900 e responsável pelo fornecimento de energia elétrica, auxiliou significativamente o desenvolvimento industrial paulista entre 1930 e 1940. Outras pequenas hidrelétricas foram construídas, principalmente com capital estrangeiro.

  Entre os anos de 1928-1937, o número de estabelecimentos industriais subiu de seis mil novecentos e vinte e três para nove mil e cinqüenta e um, quase dobrando a quantidade de operários: de cento e quarenta e oito mil, trezentos e setenta seis para 102 101 duzentos e quarenta e cinco mil, setecentos e quinze. Nesse período, embora houvesse uma elite rica e consumidora, os salários dos operários e o custo de vida distanciavam-se de forma crescente. Os baixos níveis salariais dificultavam o consumo e geravam miséria. Portanto, a categoria operária que se constituía era pobre e enfrentava duras condições de existência.

  Durante a Primeira República, a aristocracia cafeeira paulista viveu o seu apogeu. Entretanto, a Revolução de 1930 instalou o Governo Provisório, colaborando para colocar fim na supremacia de São Paulo. A partir de então, outros Estados menores da Federação se sobressaíram, sob a liderança do Rio Grande do Sul, com Getúlio Vargas.

  Nesse período, ocorreu a união de duas famílias de origem portuguesa. Casavam-se a filha de um feitor de calceteiros, nascida em Macedo de Cavaleiros, e um jovem calceteiro, natural de Chaves. Em resposta à carta enviada pelo noivo, que convidava seu irmão para as bodas, a seguinte carta foi escrita:

  Santos, 14 de abril de 1930. Saudações. Meu querido mano, muito estimo que esta mal escrita carta te vá encontrar de perfeita e feliz saúde na companhia de toda a nossa família que a nossa até a data presente é boa graças a Deus para sempre querido mano aqui recebi a tua para nós muito estimada carta, só te peço desculpa em não ter escrito a mais tempo por que eu levei um tombo do bonde em baixo que fiquei bastante machucado dum braço e de uma perna pensei de morrer por minha, por não, uma sorte mas agora já estou passando bem melhor graças a Deus. Querido mano com respeito o que me mandas dizer eu vou fazer um esforço de embarcar daqui no primeiro trem no dia 26 para ir assistir o teu casamento agora com isto não te enfado mais aceita muitas lembranças da Glória deste teu irmão aceita um forte aperto de mão deste Daniel Gonçalves.

  Assim, pode-se perceber que nem sempre os imigrantes tinham a oportunidade de permanecer no mesmo bairro que suas parentelas. Muitos deles, como Daniel, iam para outros locais em busca de meios para manter a família, mas sem se esquecerem daqueles que os acolheram. Daniel, em sua carta, agradece o convite para a cerimônia religiosa do irmão e, ao mesmo tempo, o coloca a par de sua situação, aproveitando a oportunidade para fazer chegar às mãos do outro irmão a mesma carta, só que com palavras dirigidas a este, como consta a seguir:

Peço dares esta carta a ler o Antônio.

  Meu querido mano, Antônio muito estimo que estas duas mal escritas linhas te vão encontrar de perfeita e feliz saúde em companhia de toda a família que a nossa fazer desta e é boa graças deus para sempre querido mano eu peço atenção de aí no casamento do José Luís se tu quiseres a ver alguns dos nossos irmãos não trabalham no Domingo que te ajunte a todos para irem tirar os retratos dos 8 irmãos que tu andavas sempre a falar que gostavas que tirássemos o retrato todos juntos de você quiserem estar na ocasião que eu agora passei uma porção de tempo sem trabalhar e depois não posso andar a tirar licença tão fácil, no domingo com isto nada mais espero te encontrar no dia 26 com os irmãos. 103

  Na seqüência da carta, agora escrita ao outro irmão, Antonio, Daniel, além de citar os festejos do casamento do irmão, relembra ao “mano” o desejo de todos se reunirem e pousarem para um retrato, uma vez que o enlace aconteceria em um Domingo, quando nenhum dos oito irmãos precisaria trabalhar.

  Mas, paralelamente, qual seria a ocupação das mulheres neste momento?

  2.4 TRABALHO FEMININO No decorrer desse fervilhar econômico, político e social, que gerava tantos trabalhos, o que faziam as mulheres desses imigrantes? Clarinha relata que sua avó “[...] só trabalhava em casa, fazia pão, lavava, passava, fazia o

  104

  serviço de casa, cuidava da criação, porque eles viviam na chácara das flores.” Completando a sua fala, a tia-avó de Clarinha diz:

  A minha mãe trabalhava muito, lavava muita roupa para fora, fazia cada trouxa de roupa para entregar... Às vezes, o meu pai a levava até o ponto, às vezes era o próprio motorista que a 105 ajudava a colocar as roupa para dentro do ônibus.

  Além de cuidar da casa, as avós e as mães das entrevistadas neste estudo costuravam, lavavam, engomavam e passavam roupas alheias. Embora essas atividades tenham sido deixadas à margem de todo movimento social, na presente análise, acredita-se ser necessário transformá-las em objeto de reflexão, já que, de certa forma, foram possibilidades, advindas da própria indústria têxtil, dessas mulheres também gerarem renda para a família.

  Nesse sentido, Glorinha comenta: “A minha mãe trabalhava em casa, ela era costureira. Ela ia na oficina, pegava as calças e levava para casa para costurar. Ela era costureira de calça. Mas não deixava de cuidar dos filhos, da

  106

  casa, da comida.” O trabalho de costurar, à primeira vista, talvez possa ser entendido como uma extensão das atividades domésticas. No entanto, a ele também pode ser atribuída maior importância, já que envolvia a questão do tecido produzido na indústria têxtil, do corte, que deveria seguir o padrão da moda, dos acabamentos, 104 que deveriam ser delicados e perfeitos, e, por fim, da venda do produto no 105

Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.

  

Guilherma, 82 anos, filha de imigrante português, tia-avó de Clarinha. Entrevista realizada pela

  comércio em geral. Portanto, esta atividade também era geradora de riqueza, embora dificilmente fizesse enriquecer a confeccionista do produto final.

  [...] sei que ela trabalhava no colégio das freiras, ela trabalhava de ajudante geral, fazia de tudo, limpava, cozinhava, passava roupa, aprendeu a bordar, costurar, a fazer as barras das saias das freiras [...] lá em Portugal, ela mexia com a terra, plantava, era agricultora, né [...] depois de casar, não continuou a trabalhar, porque, com uma “penca” de filhos, não dava, né, se arrebentava de trabalhar em casa, oh! profissãozinha... mas 107 amava o que fazia.

  Quando as meninas, ainda crianças, aprendiam atividades agrícolas, tais como plantar, colher e podar, para vender, trocar ou para o consumo próprio, estavam, ao mesmo tempo, investindo no futuro, conforme diziam os mais velhos. Este aprendizado ficaria na memória da mãe de Fátima, que, chegando ao Brasil, foi conduzida pelos pais para o Colégio Sion, onde as freiras ajudaram em sua educação. No entanto, esta educação era voltada para a camada trabalhadora, valorizando as prendas domésticas, como lavar, passar, costurar, bordar e engomar, entre outras.

  Já Helena, em relação à sua mãe, relata:

  Ela [a mãe] nunca trabalhou fora de casa, sempre foi doméstica [...]. Ela nunca aprendeu nenhum ofício, só aquilo mesmo, tudo aquilo que uma mulher sabe fazer ou suponha-se que saiba 108 como fazer: uma comidinha, uma limpeza, costurar e bordar.

  A mãe de Helena não fugia do padrão da dona-de-casa, mas também colaborava para a economia do lar. Contudo, muitos tentavam ocultar ou subestimar a contribuição de mulheres como ela para o orçamento doméstico. Além disso, era ela que recebia o marido e os filhos após um dia de trabalho fora 107 de casa, que os alimentava, que a eles fornecia roupas limpas e passadas, que

  arrumava as suas camas e as preparava para o descanso no fim do dia, que vigiava o sono daqueles que sentiam alguma dor e que os provia de acalentos e remédios para livrá-los de qualquer mal. Este trabalho doméstico invisível também não deixava de contribuir para a riqueza de qualquer nação.

  Viga, por sua vez, comenta: “A minha mãe era lavadeira, eu e ela pegávamos o trem para entregar as roupas. Mas ela também bordava para fora

  109

  [...].” Assim, subentende-se que a mãe de Viga também teve acesso a uma educação que enfatizava os afazeres domésticos. Seu trabalho extradoméstico era percebido como uma “ajuda” prestada ao marido, pois a este cabia o papel de provedor do lar.

  Nesse período, portanto, não se pensava na importância das atividades femininas, fossem elas internas ou externas ao lar, talvez devido a uma força ideológica que sugeria que a função essencial da mulher prendia-se ao seu domicílio. Muitas vezes, as próprias mulheres, mesmo exercendo uma atividade fora do lar, não valorizavam a sua contribuição para o orçamento doméstico, embora comumente auxiliassem na locação ou aquisição do imóvel residencial.

  109

  2.5 PERCURSO DE RESIDÊNCIAS DOS ANTECESSORES Os avós das entrevistadas, ao desembarcarem no Brasil, conforme já comentado, fixaram residência em São Paulo. Muitos deles foram para a região do Pari, onde já havia se estabelecido um núcleo de imigrantes portugueses. Segundo comentam as depoentes, neste bairro havia poucas moradias e apenas alguns comércios. Seus moradores, quando não eram parentes, eram amigos antigos de além mar. Clarinha relata que “[...] no Pari, todos lá eram parentes,

  110

  tios, avós, primos. Eram parentes ou do meu pai ou da minha mãe.” Assim, pode-se afirmar que o fato de terem podido conviver com parentes e amigos facilitou, de certa forma, a adaptação desses imigrantes no Brasil ou, ao menos, os fez sentir menos distantes de sua terra natal.

  Na ocasião, a Prefeitura Municipal havia concedido “datas de terras” – para o uso e ocupação do espaço áreas não incluídas nas chácaras existentes – urbano. Clarinha comenta que seu avô recebeu o local onde residia como doação do prefeito da época:

  [...] Meus avós tinham uma chácara de flores, uma pequena horta e alguns pés de árvores frutíferas. Eles faziam feixes de flores e vendiam para auxiliar nas despesas. A chácara ficava localizada ali na Barão de Ladário. Foi um presente do Inventor, 111 Governador, eu não sei bem como se chamava naquele tempo.

  Esta doação foi concedida porque o avô materno de Clarinha iniciou suas atividades na Prefeitura do Município de São Paulo, levando consigo vários jovens portugueses para trabalharem sob o seu comando nas tarefas de embelezamento e calçamento da cidade. Vale ressaltar, ainda, que dentre estes jovens estavam os pais de algumas outras entrevistadas.

  110

  A cidade crescia e, por conseguinte, as casas existentes eram adaptadas e novas habitações coletivas eram construídas, isto em decorrência do alargamento das avenidas, da expansão das fábricas ou dos códigos de postura sobre as edificações colocados em prática.

  As novas moradias coletivas eram denominadas de “cortiços”, “vilas” e “ quintalões”, que eram variações do mesmo padrão. Os lotes eram, geralmente, retangulares, apresentando diferentes dimensões: as frentes variavam de 5 a 15 metros e os fundos de 20 a 50 metros. Os lotes com frente menor comportavam cortiços com uma entrada lateral, que perfilavam quartos geminados, perpendicularmente à entrada, com tanques e banheiros comuns. Os lotes com frente maior tinham entrada central e duas filas de cômodos que a ladeavam,

  112 assumindo forma de ferradura ou de U, e alguns eram assobradados.

  Quanto à higienização dessas habitações, os moradores procuravam estabelecer uma organização para as funções de limpeza dos banheiros e dos corredores de circulação comum; era, possivelmente, um embrião do sentido

  113 comunitário.

  Durante muitos anos, até 1930, os bairros operários mantiveram suas características iniciais: ruas inteiras de casas feitas em série (todas iguais), habitações pobres, moradias coletivas, pequenas oficinas, fábricas de pequeno ou grande porte, pequenos comércios e sistema precário de água e esgoto.

  Até 1940, as condições de moradia dos operários industriais e dos urbanos eram semelhantes, já que ambos pagavam aluguel e viviam em vilas, cortiços ou porões de propriedade de indivíduos, companhias construtoras, companhias mutualistas ou cooperativas que investiam no rendoso negócio da 112 habitação popular. De certa forma, os poderes públicos incentivavam as

  

CARLOS, Ana Fani Alessandri; OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino. Geografias de São Paulo: a

metrópole do século XXI 112 . São Paulo: CONTEXTO, 2004.

  

MARTIN, André. O bairro do Brás e a deterioração urbana em São Paulo. Dissertação (Mestrado empresas privadas a construírem moradias populares, sem se importarem com os lucros obtidos ilicitamente em tais empreendimentos.

  Clarinha relata que a chácara de seu avô foi transformada em habitações deste tipo: “A chácara de flores do meu avô foi transformada em várias casinhas, com tijolinhos à vista e um quintal na frente, isso ocorreu ali na Barão de Ladário.”

  114

  Depois desta estadia no bairro do Pari, os antecessores das depoentes aqui estudadas se instalaram no bairro do Tucuruvi, no qual todos, após muitos anos, vieram a falecer. Mas, de certa forma, o núcleo familiar de avós, pais, filhos e netos permaneceram unidos neste bairro, como foi explicado.

  Da chácara de flores o meu avô adquiriu uma outra propriedade no Tucuruvi, onde também tinha uma pequena horta e algumas árvores frutíferas. O terreno da minha mãe cruzava os fundos com esta chácara, a separação era feita com uma cerca de bambus. 115

  Paralelamente a este grupo de portugueses, chegava ao Brasil um outro núcleo de imigrantes constituído de dois irmãos e alguns conhecidos, todos oriundos da cidade do Porto. Vieram com tino comercial e se instalam no bairro da Saúde, como explica Helena sobre os seus pais e o seu tio.

  O meu pai e o irmão dele se estabeleceram no bairro da Saúde, mas o irmão que veio com algumas economias se estabeleceu no ramo de secos e molhados, com um pequeno empório. Depois, foi para o interior para Avanhandava, regressando mais tarde para o bairro do Tucuruvi. O meu pai era carpinteiro, trabalhava na decoração de assoalhos e tetos das casas. Ficamos na Saúde durante muitos anos, fomos para o interior na época da Revolução, para a fazenda do meu tio, mas depois papai voltou para São Paulo, indo se estabelecer no Tucuruvi. Por coincidência, os pais da minha mãe também se estabeleceram na Saúde. Penso que já conheciam a família do meu pai, e o casamento deles foi de bom gosto, isto em 1914. 116 114

Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005. 115 Viga comenta como seus pais se conheceram e se estabeleceram na cidade de São Paulo:

  Eu me lembro assim: os meus pais já se conheciam desde Portugal. Eles vieram para São Paulo, depois foram para o interior onde eu nasci. Eu vim com 4 meses para São Paulo, viemos morar no bairro do Chora Menino. O meu pai construiu uma casa na Rua Mambucá, [...] que depois passou a se chamar rua Ismael Neri, Ah! meu Deus, quantas saudades, mas já era 117

outro bairro, era o bairro do Tucuruvi.

  Por várias razões, em momentos diferentes, as famílias das entrevistadas se estabeleceram no bairro do Tucuruvi, e elas acabaram se encontrando.

  2.6 RELIGIOSIDADE E LAZER Portugal é uma nação extremamente religiosa. Seus imigrantes trouxeram consigo a fé propagada pela igreja católica, e passaram os ensinamentos cristãos aos seus filhos e netos.

  A religiosidade e o lazer acabavam se misturando nas quermesses das igrejas, nos festejos dos santos padroeiros, nas procissões de Nossa Senhora de Fátima ou na fé à Santa Terezinha, conforme Clarinha explica em seu depoimento:

  Meu avô, que era muito religioso, sempre enfeitava a Igreja de Santo Antônio do Pari com as suas flores. Ele tinha mão boa e sempre cuidou para que não faltassem flores tanto na igreja como nas festas. A principal era a de Santo Antônio, era um movimento só, os doces, os bolos, os salgados, tudo era feito pelas senhoras e os enfeites ficavam a cargo dos homens. Eu me lembro, a minha tia cruzava as bandeiras de Portugal e do Brasil 118 na janela do seu sobrado, era uma festa só...

  A devoção a determinados santos pelos portugueses vem da própria cultura lusitana, uma vez que a população de Portugal sempre foi extremamente religiosa. O avô da depoente, ao fixar residência em uma comunidade

  119

  portuguesa que manifestava a sua consagração a Santo Antônio, passou a contribuir na decoração da igreja e nos festejos com sua oferenda mais preciosa, 118 as flores que cultivava, como afirma sua neta: “Ele tinha mão boa e sempre 119

Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.

  

A Igreja de santo Antonio do Pari foi fundada no dia 2 de fevereiro de 1914 por Dom Duarte

Leopoldo e Silva. O seu primeiro pároco foi o Frei José Rolim, que, vindo de Portugal devido à

guerra, aqui chegando, por carência de igreja ou capela apropriada, alugou uma sala num sobrado, que

hoje faz esquina com a rua Miller e a Maria Marcolina. Frei Rolim foi sucedido pelo Frei Felipe

Niggemeier, em 1916. O senhor Arthur Vautir, proprietário de muitos terrenos no bairro, observando o

dinamismo do frade português, fez doação de um terreno para a construção da igreja e, em 22 de

agosto de 1922, o vigário e superior do Pari, o Frei Olivério Kraemer, iniciou a construção da matriz,

sendo entregue ao culto divino em 13 de julho de 1924. Em agosto, o Frei Olivério foi sucedido pelo

Frei Paulo Luig, que se tornou a coluna do Pari, governando a paróquia por quinze anos. Continuou as cuidou para que não faltassem flores tanto na igreja como nas festas. A principal era a de Santo Antônio [...].” Fátima também comenta:

  A minha mãe contava que, uma vez ou outra, fazia-se uma caravana, com os patrícios e todos iam cantarolando até a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, que ficava lá no Sumaré. Depois da missa, era a procissão, muitas crianças eram vestidas de anjinhos e todos seguiam contentes rezando e cantando. O meu avô fez uma muda de oliveira e a doou para a igreja, foi uma forma dele homenagear a Nossa Senhora, ele mesmo plantou no

120

jardim da igreja.

  A crença em Nossa Senhora de Fátima é conhecida desde as suas aparições aos pequenos pastoreadores de Portugal, em 1917. Do relato da depoente pode-se apreender que a fé e a religiosidade são preceitos marcantes para a sua família. Conforme declara, seu avô, como forma de homenagear a Nossa Senhora, “fez uma muda de oliveira e a doou para a igreja [...], ele mesmo a plantou no jardim [...].”

  Viga, por sua vez, afirma:

  Quando morávamos no Tucuruvi, passamos a freqüentar a Igreja do Menino Jesus e a de Santa Terezinha. Havia quermesse todos os anos, muitos fogos e todos os domingos íamos à missa. Era um dever enquanto católicos e também uma forma de lazer porque todos nós nos arrumávamos e íamos caminhando até a igreja e na volta, quando dava, o meu pai comprava sorvete ou

121

quebra-queixo...

  Acredita-se que as paróquias de “Menino Jesus” e de “Santa Terezinha” uniam, intencionalmente, a fé e o lazer. Estas igrejas contavam com a cooperação mútua nos preparativos das festividades e, ao mesmo tempo, 120 garantiam a presença dominical ao culto religioso, segundo Viga confirma:

  “ se todos os anos, muitos fogos e todos os domingos íamos à Havia quermes missa.”

  Helena ressalta que “a religião para minha família e para mim significa tudo, assim como você não vive sem comer, sem respirar, você não vive sem

  122

  Deus”. Compreende-se, assim, que as atividades advindas do pároco local mesclavam religiosidade e diversão, o que poderia ser justificado afirmando-se que tudo é proveniente de “Deus”, a alegria, a dor, a tristeza, a oração, o agradecimento pela própria vida e a aceitação da morte, da qual ninguém se livra.

  Nestes relatos, destacam-se a exaltação da fé, a crença nos santos e a participação nas festas em benefício da própria comunidade, demonstrando uma unidade de interesses. Nota-se, ainda, que as entrevistadas relacionaram o lazer com as festividades religiosas e a participação nas missas aos domingos, não fazendo nenhuma referência a outro tipo de passatempo dos seus avós ou pais.

  No próximo capítulo, esta questão será novamente abordada. Nele, pretende-se tratar das diferentes formas de lazer das filhas e netas dos imigrantes portugueses.

  III – DA CASA À ESCOLA

  3.1 DAS CASAS ÀS RUAS E digo ao vento: Vai! Leva de mim a notícia do que sou. 123 E à memória: Vem! Traz até mim a imagem do que fui.

  Os meus pais se casaram, aqui no Brasil, em 1914. Antes de eu nascer, eu já tinha duas irmãs. Nasci em outubro de 1925. Nasci em um hospital entre a Av. Paulista e a Peixoto Gomide, no centro, onde era o atendimento hospitalar. Eu morava na Saúde. Quando nasci morei lá mais ou menos 04 ou 05 anos, mas eu não me recordo como era a vizinhança. Mas a casa era ampla, 124 com quintal e varanda. Havia flores, tudo era muito bonito.

  Embora as famílias dos pais de Helena tenham se conhecido em Portugal, foi no Brasil que se uniram por meio do casamento dos genitores desta depoente, que aconteceu em 1914. Em seu relato, afirma que nasceu em hospital, o que naquele período ainda não era comum, já que a maioria das gestantes era amparada pelas parteiras. O bairro em que viveu os primeiros anos de sua infância era próspero e contava com acesso fácil ao trem, ao comércio de modo geral e à escola. A depoente lembra também que sua casa era ampla, possuindo quintal, varanda e flores.

  Depois, os meus pais foram morar em Avanhandava, no interior de São Paulo, onde nasceram os meus dois irmãos últimos, um em agosto de 1930 e outro em outubro de 1932. Depois, voltamos para São Paulo, de novo. Eu tenho a impressão de que eles foram para o interior por causa da Revolução, mais ou menos em 1930, porque São Paulo estava muito ruim. Eu tinha um tio, irmão de papai, que tinha uma fazenda em Avanhandava e convidou o meu pai para ir para lá, e ele foi, quero dizer os meus pais foram. Eu tenho a impressão de que o meu tio ajudou 125 e muito em toda a mudança.

  123 124 António de Bacelar Carrelhas.

  No período entre o nascimento de Helena (1925) e o de seu último irmão (1932), São Paulo e todo o Brasil passaram por tensões políticas e econômicas. Com a quebra da bolsa de Nova York, em 1929, muitos investimentos feitos nas safras de café perderam-se. Em 1930, a Revolução empossou Getúlio Vargas na presidência. Dois anos depois aconteceria, ainda, o contramovimento das oligarquias paulistas, a chamada Revolução de 1932.

  Na década de 1930, em outra região, um convite de casamento era enviado pelo noivo aos seus dois irmãos, como se pode observar no seguinte trecho da carta constante também no capítulo II.

  Santos, 14 de abril de 1930. Saudações [...] Querido mano com respeito o que me mandas dizer eu vou fazer um esforço de embarcar daqui no primeiro trem no dia 26 para ir assistir o teu casamento agora com isto não te enfado mais aceita muitas lembranças [...] Antonio [...] no domingo com isto nada mais espero te encontrar no dia 26 com os irmãos.

  Nesse mesmo período ocorria, em São Paulo, um movimento revolucionário que instalaria o governo de Getúlio Vargas, a Revolução de 1930. Mas foi em 1928 que as propostas políticas das diferentes camadas sociais se definiram, tentando expressar uma direção possível a partir da sua realidade

  126 social.

  O governo apresentava o projeto de redefinição da ação do Estado e de reorganização da sociedade. Esta elite propunha a liquidação sistemática de toda a organização do proletariado, incluindo os sindicatos e o seu partido parlamentar, o BOC (Bloco Operário Camponês).

  Ao afirmar que os movimentos dos “revolucionários” tentavam ocultar a

  127

  luta entre o capital e o trabalho, Decca expõe que a força da burguesia, sabendo neutralizar a democracia por meio da industrialização, mostrava também como uma determinada forma de organização do proletariado poderia conduzir ao seu insucesso político. Conforme afirmava Laite, “O Estado não quer, não reconhece a luta de classes. As leis trabalhistas são leis de harmonia

  128

  social.” Sabendo que seriam prejudicadas com o novo Governo, as oligarquias paulistas promoveram um contramovimento, a Revolução Constitucionalista de

  1932. “A classe dominante do Estado mais forte da União não podia aceitar um regime político que punha restrições à sua autonomia, o que redundava em

  129

  empecilhos ao pleno desenvolvimento de suas riquezas e de seu progresso.” Porém, as oligarquias paulistas foram derrotadas. Embora São Paulo tivesse se destacado economicamente, ao reforçar a presença e a participação dos trabalhadores nesse movimento, a elite ameaçada reforçou os seus esquemas de

  130 dominação.

  Clarinha discorre sobre esse período, lembrando-se dos comentários do seu pai acerca da Revolução de 1932: “Quando eu estava para nascer, eles [os pais] estavam escondidos dentro de um porão, por causa das bombas que caíam, uma estourou bem perto assim [...]. Assim, ele comentava [...] por causa da

  131

  guerra de 32.” Portanto, não se pode acreditar que eram poucas as pessoas envolvidas e até ceifadas na revolução.

  Viga, por sua vez, menciona que não nasceu em São Paulo, deixando transparecer que o motivo estava relacionado às sucessivas revoluções ocorridas 127 na cidade. 128 Ibidem. 129 LAITE, Márcia de Paula. O movimento grevista no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.24.

  

CAPELATO, Maria Helena. O movimento de 1932 - a causa paulista. 2ªed. São Paulo: Brasiliense,

130 1981. p.56-57.

  Nasci no mês de outubro de 1932, em Avanhandava eu e o mano nasceu em 1930, eu acho que as coisas aqui não estavam boas, por isto o tio Antonio que possuía uma fazenda lá, levou os meus pais para morarem uns tempos com ele. 132

  Portanto, Viga, assim como as demais depoentes, nasceu no trasncorrer de um período que envolveu revoluções, episódios mundiais e agitações sociais, políticas e econômicas, tanto nacionais como internacionais.

  Ao comentar que um dos seus tios participou do Exército Constitucionalista, Clarinha afirma que a ausência dele e a indefinição quanto ao seu paradeiro afligiram a sua família, mesmo que ele afirmasse, antes do engajamento, ser um dever lutar pela constitucionalização do país, sentindo-se orgulhoso por ser paulista.

  O meu tio Antônio foi para a guerra, e não adiantou os apelos de sua noiva. Ele dizia que tinha um dever a cumprir. A minha avó o abençoou e ele partiu [...]. Depois de muito tempo, ele retornou, pareceu até um milagre, contavam os mais velhos, quando eu era pequena. 133

  Contextualizados estes momentos dos nascimentos das depoentes, que ocorrem nessa fase de agitação paulista, bem como o processo de separação entre mãe e filho que partia em defesa de seus valores, passa-se a descrever, segundo as lembranças evidenciadas pela memória individual, como eram as casas e as ruas em que essas mulheres viveram desde a infância até a idade adulta.

  Clarinha, sobre a sua primeira moradia, comenta:

  A minha casa era simples, modesta mesmo. A porta já dava para a rua, como em todas as casas da rua João Teodoro. Na parte de baixo, havia um porão, onde o meu pai guardava várias ferramentas e outros objetos. Aqui, eu vivi mais ou menos cinco anos. A vizinhança era boa, porque eram todos parentes, tios, 132 avós, primos, parentes dos meus pais. O bairro era simples, muitas casas, antigas vilas de sobrados e vilas de casas, ao redor

da Igreja de Santo Antônio do Pari.

134

  Ao descrever a sua residência, a depoente acaba falando também sobre a situação sócio-econômica de sua família. Conforme relata, sua casa possuía um porão, que serviu de refúgio durante o período da revolução não só para a sua família, como também para outras. Este tipo de moradia está até hoje presente nos bairros Pari e Brás. São residências simples, mas revelam certo grau de proteção contra estranhos, uma vez que da janelinha do porão pode-se observar o movimento dos transeuntes e dos automóveis.

  Depois, mudei para a rua Itaqui. Lá já era diferente, era uma vila, com pequenos cômodos. Na minha casa, tinha um quarto grande, cozinha e uma espécie de sala, mas o banheiro e a lavanderia, como se fala hoje, eram vários tanques e varais onde todas as mulheres se juntavam e cantarolavam, lavando as

roupas, enquanto nós brincávamos.

135

  Na descrição de Clarinha, pode-se perceber que sua segunda moradia se tratava de um cortiço. Provavelmente era um empreendimento especulativo, um negócio, dirigido à população de baixa renda, pertencendo ao tipo de imóveis descrito no segundo capítulo. A depoente comenta também o trabalho das mulheres como lavadeiras e o fato de cantarem ao mesmo tempo em que exerciam esta atividade, enquanto as crianças brincavam.

  As mudanças ocorriam devido ao alto preço dos aluguéis. O meu pai recebia pouco, quanto mais distante o bairro, o aluguel era menor, mas também ficávamos mais distante dos familiares. Depois, mudamos para uma casa grande que a tia Glória comprou para o meu pai, com o dinheiro da herança de Portugal, na rua Isaura, no Tucuruvi. Lá havia vários pés de frutas e um campo com copos de leite. Na casa, tinha uma terraça, onde, 134 muitas vezes, o meu pai se sentava ali e ficava a cantar 136 modinhas alegres. Fiquei nesta casa até me casar.

  Ao falar de sua última moradia, Clarinha transmite alegria e emoção. Seu olhar parece se transportar para aquele tempo em que convivia com os seus pais e irmãos menores. A entrevistada demonstra, ainda, que as relações afetivas fraternas ou de amigos a aconchegavam. Conforme comenta, sempre estava tudo bem, mesmo quando alguma dificuldade ocorria:

  Para mim, como era criança, era uma alegria só, gostoso passar de um lugar para outro. As crianças eram boas, passava a maior parte do tempo na brincadeira. No último bairro, só tínhamos contato com o pai da minha mãe, o meu avô, porque ali era tudo mato e havia poucos vizinhos, mas mesmo assim era divertido, e qualquer problema o meu avô estava perto. Com o tempo, se transformou no bairro que é hoje, este 137 movimento de carros, metrô e centros comerciais.

  O último bairro em que residiu antes de se casar foi Tucuruvi, e a chácara do seu avô localizava-se em uma gleba de terras na região norte da cidade, onde se formou o primeiro núcleo residencial daquele território, por onde passavam os trilhos do “trenzinho” da Cantareira. Outro transporte muito utilizado era a carroça, como afirma a tia-avó de Clarinha, Dona Guilhermina:

  Para irmos à escola, eu e os meus irmãos, havia um senhor, o seu João, que nos levava junto aos galões de leite, acomodados na carroça, até chegarmos bem próximo à escola, onde descíamos e íamos estudar, a carroça passava por pedras e buracos, nós ríamos. As vezes chegávamos empeoeirados para 138 estudar.

  136 137

Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.

138

Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.

  Que outras lembranças Glorinha, Fátima e Viga teriam sobre suas moradias? Logo após a Constituição de 1934 e durante a sua vigência, o novo regime asseguraria tranqüilidade ao operariado e regulamentaria o seu trabalho, porém extinguiria o seu direito de organizar sindicatos "paralelos", ou seja, não oficiais.

  139

  Em 1935, muitos “conceitos morais de nossos avós [...] baseados na ignorância feminina, conservada para evitar esclarecimentos”

  140

  , se erradicariam, promovendo o despertar da mente da mulher. O fato de se viver em cortiços, durante o período de 1920 a 1940, ou mesmo até os dias atuais, foi e é gerado pela má distribuição de renda, pois o operariado, desde aquela época, trabalha durante muitas horas seguidas, cumprindo longas jornadas, e é recompensado com um salário reduzido. Enquanto isso, a especulação imobiliária e os donos dos meios de produção tiram proveito dos menos favorecidos.

  Nasci na rua Itaqui, foi parto normal, com a ajuda da parteira, como era comum naquele tempo. Nasci em casa mesmo, em 1935. Esta rua ficava no Pari. Fui criada nesse bairro, até os meus 06 ou 07 anos [...]. Na rua Itaqui havia um cortiço, tinha uma preta muito boazinha, eu me lembro o nome dela era Conceição e ajudava muito a gente porque a gente era muito pobre e ninguém queria saber da gente. Eu não tenho vergonha de falar, tenho orgulho, eu catei papel na rua para ajudar os meus pais, toda a vida eu trabalhei para ajudá- los, eu me orgulho tanto... O cortiço era assim, vários sobradinhos como a gente fala hoje, mas era uma sala com cozinha e um quarto grande em cima, o banheiro e o tanque eram comunitários, todas as pessoas usavam, mas havia muita

higiene, tudo estava sempre limpinho.

141

  139 DEAN, Warren. A industrialização de São Paulo. Rio de Janeiro: DIFEL, s/d. p.226-227. 140

CARONE, Edgard. Movimento Operário no Brasil (1877-1944). São Paulo: DIFEL, 1984. p.468-

  Glorinha conta que nasceu e morou num cortiço, demonstrando em sua fala a importância das relações sociais, afetivas, de amizade e ajuda mútua presentes nessas moradias, bem como a sua situação econômica desfavorável e o seu orgulho de ter tido essas vivências.

  As dificuldades se repetiam para os casais com muitos filhos e pouco estudo. Estes trabalhavam muito, e as crianças auxiliavam como podiam. Mas um hábito se manteve desde Portugal, o fato dos tios favorecerem os sobrinhos que os estimavam desde a infância, seja porque fossem solteiros ou porque não haviam gerado filhos. Este hábito era muito comum nas famílias da região norte de Portugal, que eram extensas e com muitos agregados.

  Depois, eu fui parar na rua Isaura, no Tucuruvi. A casa ainda existe, era grande com quartos, sala, cozinha, banheiro dentro, lá fora ficava o tanque e o varal, havia muito quintal para eu e os meus irmãos brincarmos. Eu sei da história assim, a minha madrinha, que era muito rica, comprou um terreno para cada sobrinho, e o do meu pai já tinha a casinha, e não saímos mais dela. Então, pode-se dizer que eu fui criada lá, eu e os meus doze irmãos, somos quatro mulheres e oito homens. Eu não sei dizer a diferença de idade entre a gente. Mais tarde o meu companheiro comprou um sobrado pra mim, no Tucuruvi 142 mesmo.

  A descrição da residência revela condições melhores de acomodação para a família extensa. Este depoimento contempla o hábito descrito anteriormente das tias solteiras ou sem filhos auxiliarem os sobrinhos com a herança recebida da terra natal.

  As vilas, presentes ainda nos dias de hoje, já apresentavam casas individuais e alguns sobrados com banheiros internos, perdendo a característica de uso comunitário. Os cortiços e as vilas, portanto, marcaram presença em São Paulo, sendo que os primeiros constituíam solução comum para os trabalhadores pobres, além da moradia alugada.

  Em São Paulo não havia favelas. O que predominou para a moradia de gente pobre foi sempre, em São Paulo, o cortiço. Algum terreno de centro de quarteirão, com pequenas habitações contíguas, com saída para a via pública por um corredor a céu aberto, entre muros. Ou então os porões habitados.

  143

  Em função de suas condições financeiras, os trabalhadores tinham que deixar as moradias, as ruas e os bairros onde haviam sido acolhidos pelos parentes ou amigos. Muitas vezes, as mudanças envolviam profundas rupturas no meio afetivo e familiar, como comenta Clarinha, sugerindo a perda da identidade que se construía: “Ocorriam mudanças, por problemas financeiros, aluguel alto. O meu pai recebia pouco, quanto mais distante o bairro, o aluguel era menor, mas também ficamos mais distantes dos familiares.”

  144

  As mudanças políticas e econômicas que caracterizavam o país, na prática, acabavam contribuindo para o distanciamento dos parentes da comunidade lusitana inicial e facilitando a formação de núcleos familiares. Afastava-os, assim, de seus antigos hábitos e maneiras de falar, agir e cozinhar.

  Fátima, de certa forma, partilha deste mesmo sentimento de perda, como expõe:

  Eu nasci em casa, na rua Isaura, no bairro do Tucuruvi, em 1943. Eu morei nessa casa durante dezessete anos. A casa tinha uma varanda enorme onde ficávamos sentados, conversando. Era simples, tinha quartos, sala, uma cozinha grande e banheiro. A minha vizinhança era ótima, excelente, principalmente por causa dos pés de plantas, das árvores. A minha mãe, quando ia chamar alguém primeiro, ela olhava para as árvores porque sempre estávamos lá em cima nas copas, brincando. Depois, mudamos [...].

  Assim, pode-se afirmar que o sentimento de pertencimento estava presente nos hábitos, nas moradias e nas relações pessoais de cada um dos lusitanos. 143

  [...] mudamos para a rua Marechal Hermes da Fonseca, em Santana. Infelizmente, o meu pai precisou vender a casa onde eu nasci, por questões financeiras. Foi difícil me acostumar, mas só morei lá praticamente dois anos. Dela não saberia falar nada, porque me casei e voltei a morar em Tucuruvi, porque as minhas 145 raízes estavam lá, eu creio.

  As depoentes, em muitas de suas reminiscências, sugerem que as freqüentes mudanças de ruas, bairros e empregos se apresentavam como um fugir constante, na tentativa de escapar da fome, dos aluguéis altos e da miséria. Em contrapartida, para as crianças, essa mudança era apenas mais uma alteração de local e de moradia, o que trazia a oportunidade de fazer novos amigos e de refazer-se nesse novo lugar, enquanto para os jovens tornava-se cada vez mais difícil desapegar-se da casa, da rua e do bairro.

  O tempo da fuga está sempre conectado com a proteção e com o acolhimento dos pais. Então, está tudo resolvido neste amparo afetivo e forte, podendo-se continuar a fugir, já que em casa há alguém para quem voltar,

  146 alguém que está a esperar.

  Quando eu vim de Avanhandava, com mais ou menos quatro meses, nós viemos para o bairro do Chora Menino, depois para o

Tucuruvi, onde vivi até me casar. Do Chora Menino e a da rua Mambucá, não me recordo, talvez porque era criança demais, mais da casa que meu pai construiu eu me lembro, foi na rua Ismael Nei, no Tucuruvi, tinha um quintal amplo onde os meus pais cultivavam morango, hortaliças, árvores frutíferas, principalmente figo, havia muitas flores na parte da frente da casa. A casa possuía dois quartos amplos, sala, cozinha, banheiro, uma varanda que cobria toda a parte lateral da entrada para a sala, em baixo o meu pai havia construído um tonel, onde fabricava o seu próprio vinho, haviam dois quartos embaixo da casa tipo de um porão, onde ele colocava o vinho em barricas para descansar e dar ponto, também no outro ambiente ele guardava todos os seus apetrechos de carpintaria, ele era muito organizado, para se 145 chegar a rua havia uma longa escadaria, porque o terreno era 146 Fátima, 61 anos, filha de imigrante português. Entrevista realiza pela autora em 23/12/2004. caído para dentro, mas o meu pai soube aproveitá-lo muito 147 bem.

  Viga retornou a São Paulo após as Revoluções de 1930 e 1932. Conforme relata, pouco se recorda do primeiro bairro em que residiu, Chora Menino, mas da época em que viveu no Tucuruvi, onde viu e, de certa forma, ajudou seu pai a construir a sua moradia, lembra-se com detalhes, descrevendo as hortaliças, os morangos, as figueiras, o tonel de fazer vinho e a casa em si em seus pormenores.

  Em suas palavras, Viga fornece pistas de que seu pai teria sido ou tentado ser um pequeno empreendedor, mas que não foi bem sucedido nos negócios.

  Deste já citado depoimento, compreende-se que, para as crianças, as mudanças de residenciais representavam a possibilidade de fazerem novas amizades e aprenderem novas brincadeiras, sem, no entanto, desprenderem-se da parentela por completa, como comenta:

  Por outro lado, para mim, como era criança, era alegria, gostoso passar de um lugar para outro. As crianças eram boas, passava a maior parte do tempo na brincadeira [...] Mas no último bairro não, só tinha contato com o pai da minha 148 mãe, meu avô, e os demais familiares. Quanta saudade!

  As mudanças constantes das depoentes e o ajustamento a novas situações são os resquícios do passado que proporcionam reflexões para o presente. A memória incita-as a reviver as representações mais significativas e,

  149 estranhamente, leva-as a esquecer aquilo que não precisam recordar.

  147 148 Viga, 71 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 22/04/2005. 149

Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.

  3.2 A IMPORTÂNCIA DOS BAIRROS PARA AS DEPOENTES A cidade de São Paulo, até 1870, restringia-se a uma área entre os rios

  Tamanduateí e Anhangabaú. A partir do final do século XIX, seu espaço urbano começou a ser ampliado, com os sucessivos loteamentos de inúmeras chácaras que circundavam o núcleo original da cidade. Tais ampliações e loteamentos estavam intimamente ligados à constituição dos futuros bairros.

  Ao lado do centro velho de atividades comerciais, sobretudo varejistas, surgiram os bairros Santa Ifigênia e Campos Elíseos, locais de preferência dos ricos fazendeiros de café. Estes, no entanto, no início do século XX, se transferiram para o bairro Higienópolis.

  O bairro se situa nesse continuum da atividade de seus habitantes como local de dimensões vivenciadas do espaço. As delimitações entre os espaços público e privado se processam pelo fluxo de contatos e trocas das forças psico-

  150

  sociais. Tais trocas são marcantes no depoimento de Clarinha, que revela a importância das relações familiares e religiosas em sua formação. 151

  Morei mais ou menos cinco anos no Pari. Todos lá eram parentes, tios, avós, primos. Eram parentes ou do meu pai ou da minha mãe. Quando tinha a festa, a homenagem a Santo 150 Antônio, a minha tia cruzava na janela de seu sobrado as

  

VERÁS, Maura Pardini Bicudo. O bairro do Brás em São Paulo: Um século de transformações no

espaço urbano ou diferentes versões da segregação social . Tese (Doutorado em Ciências Sociais), 151 PUC-SP, 1991.

  

Hoje, o Bairro do Pari tem 429 anos. Localiza-se praticamente no centro da cidade de São Paulo.

Sempre se ouviu falar no “caminho do Pari”, que eram variantes do caminho do mar ou para a baixada

santista. Este foi o método usado pelos primeiros moradores do bairro para a pesca nas límpidas águas

do Tietê. Em 1900, o Pari, o Brás e a Mooca eram povoados insignificantes, com algumas casas de

sapé erguidas no meio do matagal espesso.

  

O primeiro recenseamento do bairro data de 1763. Nessa época, o Pari tinha onze casas e setenta e

dois habitantes que viviam da pesca. A Igreja estimulou o crescimento do bairro, que foi reorganizado e passou a ostentar grandes e finas mansões de tradicionais famílias paulistas.

A expansão comercial do Pari aconteceu em virtude da expansão do centro, especialmente para as ruas Direita, São Bento, XV de Novembro e Boa Vista.

Em 1964, uma parte do bairro foi desmembrada, sendo dividido em Vila Guilherme e Pari. A

construção da Igreja de Santo Antônio de Pari data de 1914. Possui torres imensas, construídas pelos bandeiras de Portugal e do Brasil. Era uma agitação, uma alegria só [...]. Os patrícios corriam pra cá e pra lá, era um falatório só. O nosso bairro era simples, tinha muitas casas, antigas vilas de sobrados, vilas de casas, ao redor da Igreja de Santo Antônio do 152 Pari.

  Glorinha comenta que também morou no Pari: “A rua Itaqui, localizada no Pari, eu nasci e morei num cortiço ali, fiz amizades, tive amigos de verdade,

  153

  gente que não ligava para as nossas poucas posses.” A demolição de velhos bairros, a reconstrução sobre novos terrenos, a sua valorização ou não, a especulação e os planos de renovação são as causas ou

  154

  os resultados dos interesses econômicos do setor imobiliário. Nigriello afirma que a demolição é uma “perda da memória do espaço construído, cuja importância não se limita ao patrimônio histórico de valor arquitetônico, mas

  155

  abrange todo o tecido urbano, enorme patrimônio da comunidade”. Nesse sentido, pode-se afirmar que a história do bairro está intimamente ligada à história da cidade de São Paulo, à história de vida de cada pessoa, aos relacionamentos sociais e aos vínculos afetivos. Por conseguinte, dificilmente se pode pensar nessas “construções” isoladamente.

  O bairro Pari foi, inicialmente, constituído por portugueses, já que estes foram os primeiros a habitá-lo, seguidos dos italianos. Os lusitanos marcaram

  156 sua presença tanto nas edificações quanto nos pontos comerciais deste distrito.

  Sobre as observações que são feitas a respeito deste bairro no presente estudo, vale lembrar que as entrevistadas, quando a ele se referem, baseiam-se no que a 152 elas foi transmitido pelos seus avós e pais. 153 Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/1/2005. 154

Glorinha 69 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 02/02/2005.

155 VERÁS, Maura Pardini Bicudo. Op. cit., 1991.

  

NIGRIELLO, Adreína. Conservar para desenvolver. Tese (Doutorado em Estruturas Ambientais

156 Urbanas), FAU, USP-SP, 1987.

Para leitura mais detalhada, sugere-se as fontes impressas: O Estado de São Paulo, de 25/03,

29/04/1999 e 09/03/1995; Diário Popular, de 05/03/1985; a Folha de São Paulo, de 17/10/1999; e o

  Entre os anos de 1882 e 1891, os italianos lideravam o ranking dos imigrantes mais numerosos que chegavam a São Paulo, registrando 202.503 entradas. Em seguida vinham os portugueses, que somavam 25.925, e os espanhóis, que representavam 14.954 imigrantes, além das outras diversas procedências, que somavam 19.804 entradas, num total de 263.196 imigrações, segundo a Sociedade Promotora (1892), em Relatório ao Vice-Presidente do Estado de São Paulo. Diante de tais dados, pode-se afirmar que a imigração iria

  157 consolidar e caracterizar vários bairros de São Paulo.

  A urbe se modificou no seu uso e no seu espaço. “A vida urbana invadiu

  158

  o campo” e as chácaras sofreram as conseqüências, cedendo espaço para a formação dos bairros residenciais. As antigas “casas de fins de semana” dos fazendeiros foram transformadas em moradias permanentes, e, assim, áreas foram loteadas e preparadas para as habitações da camada dominante. Os terrenos eram extensos e as chácaras foram transferidas para a cidade,

  159 “ iniciando -se um processo de progressivo retalhamento da área rural”.

  Ao lado dos belos palacetes ainda se podia observar moradias modestas. Em conflito com algumas ruas bem pavimentadas e com os numerosos edifícios, muitas vias, com edificações esparsas, apresentavam-se com formas delineadas, mas cobertas de terra batida, o que as tornava inacessíveis em dias chuvosos.

  Os bairros se formavam distintamente e a aristocracia cafeeira não poupava seu dinheiro, impondo projetos audaciosos de arquitetura baseada nas construções dos castelos europeus, principalmente nos Campos Elíseos. Porém, ao lado dessas construções instalavam-se as camadas médias da população, com moradias operárias que concentravam artesãos e mestres imigrantes – sobretudo portugueses, italianos e espanhóis –, entre outros.

  157 158 VERÁS, Maura Vera Pardini Bicudo. Op. cit., 1991.

  A camada pobre da cidade ocupava os bairros populares, tais como o Brás, o Pari e a Mooca, caracterizando o processo de segregação que se

  160

  intensificaria mais tarde. Villaça enfatiza que a organização territorial de São Paulo era demarcada por faixas divisórias representadas pelo rio Tamanduateí, pelo córrego Anhangabaú e pela estrada de Ferro SPR (Santos a Jundiaí). A leste estavam os bairros populares, com as residências operárias, a indústria e o comércio, destacando-se o Brás como o primeiro deles. A oeste estava o centro da cidade, onde se formavam os bairros da aristocracia rural e da burguesia industrial: Campos Elíseos, Vila Buarque, Higienópolis e Avenida Paulista.

  Os primeiros bairros operários foram constituídos próximos às zonas industriais, acompanhando as vias férreas, em terrenos de várzea de baixo preço. Paulatinamente, foram desenvolvidos os bairros Brás, Belenzinho, Mooca, Luz e Bom Retiro. Mais tarde, surgiram os bairros Liberdade e Vila Mariana, em direção a Santo Amaro; Consolação, em direção a Pinheiros, no sentido de São Roque e Sorocaba; Cambuci e Vila Deodoro, no caminho do Ipiranga, em direção à baixada santista. Estes locais foram se formando como núcleos de povoamento que circundavam os eixos viários, favorecendo o percurso casa- trabalho e vice-versa.

  As vias férreas, com suas passagens de nível, porteiras e estações, promoviam o isolacionismo e, assim, propunham movimentos para a cidade e o seu dinamismo, possibilitando resistências e avanços na formação da consciência de classe do operariado emergente.

  A própria política imigratória de organização dos estrangeiros em unidades familiares favoreceu o lugar de seus alojamentos, fazendo surgir bairros com caráter de parentela coesa e justificando o estreitamento dos vínculos “comunitários” – a conterraneidade, a língua, os hábitos alimentares e a 160 cultura, expressas nas reminiscências das entrevistadas: “Eram todos parentes,

  161

  tios, avós, primos, parentes dos meus pais.” Na fase de depressão da economia cafeeira e do desemprego crônico, estes tipos de bairros ganharam destaque na luta pela sobrevivência.

  A proximidade e os vínculos comunitários faziam com que muitos imigrantes portugueses permanecessem unidos, estabelecendo laços de amizade, religiosos ou matrimoniais, como ocorreu com os pais de Helena. Oriundos da mesma região do Porto, eles se estabeleceram no bairro da Saúde, onde seus avós já tinham alguns conhecidos. 162

  Eu morava na Saúde, quando nasci, morei mais ou menos uns quatro ou cinco anos [...]. Dos avós, não me recordo, mas a minha mãe sempre falou que eu os conheci, eram afáveis e bondosos e, por terem deixado um filho em Portugal, sempre voltavam lá, até que vieram a falecer. Já a avó paterna nunca saiu de Portugal. Sei que os meus pais já se conheciam e coincidentemente se reencontraram no mesmo bairro e se casaram. Eu e as minhas irmãs fomos batizadas na Igreja de Nossa Senhora da Saúde, como era 163 o costume [...] da vizinhança.

  A devoção à Nossa Senhora da Saúde teve início em Portugal, por ocasião de uma “peste” que se manifestou em meados do século XVI, e, portanto, foi trazida ao Brasil pelos portugueses. Mas foram os padres agostinianos que foram encarregados, conforme determinação do arcebispo Dom Duarte, de realizar o trabalho missionário na capela. O primeiro santuário brasileiro dedicado a esta santa foi construído por volta de 1915, mas como o número de devotos aumentou, bem como a população local, em 1928 foi iniciada a construção da nova igreja.

  161 162

Clarinha, 72 anos, filha de imigrantes portugueses. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.

  

Saúde é um bairro com ruas largas e praças envoltas por fileiras de árvores. Os primeiros lotes

2

apresentavam área de 300 m . O bairro possui imobiliárias, supermercados, comércios variados,

escolas públicas e particulares, shopping center, universidade, várias linhas de ônibus, contando com

  Os elos que foram construídos pelos imigrantes portugueses estavam além do espaço físico propriamente dito. Entre eles havia ligações profundas emanadas pela fé, pela amizade, pelos laços afetivos, pelos parentescos e pelo trabalho. Estavam sempre envolvidos por várias maneiras de ser e agir e tinham em mente uma mesma idéia: trabalhar é preciso, não importa no que ou onde. No entanto, conforme Berrini e Scarano afirmam, “[...] eles mudaram, como mudou São Paulo que conheceram: mudou o Largo de São Bento, o Piques, a

  

164

  Avenida Paulista, mudaram as pessoas.” Para amparar sua família, o imigrante português teve que realizar atividades diferentes daquelas que antes executava, como criar pequenos rebanhos de gado – caprino, ovino ou suíno –, negociar flores e chefiar equipes responsáveis pelo calçamento da cidade, função ocupada na Prefeitura

  165

  Municipal de São Paulo. Um recém-chegado imigrante, por exemplo, que antes era carpinteiro, foi responsável pelo conserto de panelas num pequeno comércio de secos e molhados, ambulante, funcionário da Ford e da empresa

  166

  ferroviária e desempenhou, ainda, outras atividades , as quais serão exploradas mais adiante.

  Nos anos de 1923 e 1924, São Paulo sofreu intensamente com a seca, tendo os níveis dos seus rios, nos quais se localizavam as usinas hidrelétricas, diminuídos. Conseqüentemente, a cidade sofreu falta de energia elétrica, o que forçou um racionamento e obrigou a Light a retirar muitos bondes (que dependiam de eletricidade) de circulação. Depois de estabelecida a crise, a prefeitura disponibilizou para o transporte público diversos ônibus, que continuaram a trafegar pela cidade mesmo após a normalização do fornecimento de energia.

  164

BERRINI, Beatriz; SCARANO, Julita. “Imigrante Português / Empresário Paulista.” In: Câmara

165 Portuguesa de Comércio de São Paulo (1912-1992) . São Paulo: Gráfica Brasiliana, 1992. p.169.

  As crises na energia elétrica e no transporte influenciaram não só a grande indústria, como também o cotidiano dos moradores da cidade. Muitos chegaram até a falecer por falta de transporte para chegarem ao hospital ou à Santa Casa de Misericórdia, onde poderiam ser assistidos e medicados. Mais tarde haveria, ainda, outras crises, como o crack da bolsa de New York e a Revolução de 1930.

  A crise na bolsa de Nova York, em 1929, atingiu profundamente a cidade de São Paulo, o Brasil e o mundo, num efeito dominó. Contudo, no final dos anos vinte, a construção do Edifício Martinelli, com seus 26 andares, foi concluída, e a Revolução de 1930 pôs fim aos mais de quarenta anos da

  167 conhecida República Velha.

  Surgiu, nessa ocasião, o “Plano de Avenidas”, elaborado pelos urbanistas Ulhôa Cintra e Prestes Maia, que redesenharam a área central de São Paulo a partir dos anos 30. Este plano viário surgiu para viabilizar o tráfego de automóveis e ônibus, que não deixariam mais de circular pela cidade.

  Neste clima conturbado, as famílias de Helena, Viga, Clarinha e Glorinha decidiram mudar de local as suas residências, as duas primeiras partindo em direção ao interior, mais especificamente para a região centro-oeste do Estado de São Paulo, e as outras se deslocando para a Zona Norte da cidade de São Paulo.

  Os trabalhadores ocuparam zonas distantes do centro da cidade principalmente a partir do final da década de 1930 e início de 1940, mediante a valorização crescente dos bairros mais centrais, já dotados de infra-estrutura urbana. Com a crescente urbanização, o trabalhador foi, portanto, sendo expulso para as áreas cada vez mais afastadas, onde eram insuficientes ou mesmo inexistentes os recursos necessários para uma moradia confortável.

  Os avós e pais das depoentes, no entanto, uma vez que provinham de uma tradição de desbravamento, sentiram-se estimulados a se apropriarem de locais, apesar de distantes, amplos. Nesse sentido, Clarinha descreve o novo local de habitação de sua família: “O meu pai e o vô diziam que o lugar era um campo, um campo imenso, não havia tantas casas e para a minha mãe era um

  168

  vilarejo, com poucas casas, muito descampado.” A depoente assim caracteriza a Zona Norte de São Paulo em 1940, onde, de certa forma, os imigrantes puderam acomodar seus filhos e netos, garantindo-lhes habitação e segurança.

  Nesse período, ainda que algumas das entrevistadas já trabalhassem no ramo da fiação ou estivessem cursando o Grupo Escolar ou o Curso de Corte e Costura, observa-se que sonhavam e se imaginavam heroínas, pois auxiliavam na manutenção do lar e na criação dos irmãos menores. Entretanto, o bem-estar da família sempre esteve acima de qualquer idéia que pensassem em colocar em prática, já que a figura materna, representada pelas amas, as trazia para a realidade, para o cotidiano dos deveres e do trabalho, revelando que seus sentimentos imagéticos estavam distantes da relação cotidiana. As estrofes apresentadas a seguir reproduzem esta subjetividade e, ao mesmo tempo, o despertar para a realidade, que paira em suas memórias.

  Sonho que sou uma amazonas andante. Por desertos, por sóis, por noite escura,

Heroína do amor, busco anelante.

169 O palácio encantado da Ventura!

  Mas a cidade de São Paulo não parava e, neste período, estava sendo reestruturada. As depoentes, como em todo processo de construção, foram compondo as suas identidades nesse cotidiano de desenvolvimento e 168 modernização tecnológica. Elas ainda passariam pelas diversas possibilidades de 169

Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Em entrevista realizada pela autora em 08/01/2005. trabalho, pelos estudos, pelo celibato ou pelo casamento, pelo falecimento de seus antecessores e de seus irmãos e irmãs, mas também pelo nascimento de seus filhos, sobrinhos e netos. Novos amigos e oportunidades surgiriam, sonhos se renovariam, pessoas não seriam esquecidas e lágrimas seriam derramadas, mas elas próprias dizem “tudo foi bom e é bom porque podemos estar lembrando e contando agora”.

  

FIGURA 5 – Reprodução da formatura do 4º ano primário no Grupo Escolar Silva Jardim. Fonte:

Álbum de família da entrevistada.

  3.3 DEPOIS DO NASCIMENTO E DA INFÂNCIA, INICIA-SE O PROCESSO DA EDUCAđấO FORMAL Ố A ESCOLA

  Apesar da importância do ensino formal estatal, não se pode esquecer de apontar a colaboração do serviço prestado à educação pelas escolas paroquianas, muitas formadas antes da proclamação da República e por iniciativa de colonos ou do clero.

  Eu comecei a estudar no “Grupo Escolar Santo Antônio do Pari”. Era uma extensão do salão paroquial. A gente usava saia pregueada azul marinho, sapato preto, meia branca, blusa branca, com uma fita azul no peito e um laço de fita branca na 170 cabeça.

  Conforme Clarinha afirma, o Grupo Escolar Santo Antônio do Pari era uma extensão do salão paroquial da Igreja que o abrigava. Normalmente, o prédio escolar localizava-se ao lado das igrejas e capelas ou mesmo no seu interior.

  Até as primeiras décadas do século XX, o Estado se mostrava ausente ou pouco participativo em relação à escolarização. Nesse período, os colégios paroquianos tiveram um papel importante na alfabetização dos filhos dos camponeses, agricultores, negociantes, funcionários públicos, comerciantes e outros. Porém, com o Estado Novo e a nacionalização autoritária, a rede escolar pública se expandiu e se fortaleceu, inviabilizando o projeto das escolas paroquianas, que, lentamente, desapareceram, dando lugar às escolas privadas de cunho religioso. Contudo, a demanda escolar proveniente da camada popular

  171 acabou sendo absorvida pelos grupos escolares gerenciados pelo Estado.

  170 171 Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevistada pela autora em 08/01/2005.

  

BENCOSTA, Marcus Levy Albino. “Grupos Escolares no Brasil: um novo modelo de escola

  [...] o terceiro ano eu fiz no Grupo Escolar Silva Jardim. A saia era azul marinho, blusa branca, mas não tinha fita no peito, só no cabelo e, sapato, cada um ia como quisesse. No quarto ano, inventaram moda de usar uma saia cinza, mas também ficou pouco, só um ano. A saia era lisa, com uma prega macho na frente e a blusa branca, mas também tinha que usar fita branca

na cabeça, porque dessa não escapava.

172

  Conforme Clarinha demonstra em seu depoimento, a partir do terceiro ano escolar a depoente passou a estudar em escola administrada pelo Estado, em parte porque mudou de bairro, indo morar no Tucuruvi, em parte porque o Estado se responsabilizou pelos grupos escolares.

  As escolas públicas estaduais estabeleceram como regra o uso de uniforme e a mantiveram durante muitas décadas. Outra norma desse tipo de instituição era a divisão de salas de aula de acordo com o sexo do aluno; existiam, portanto, classes femininas e classes masculinas, segundo comenta a entrevistada: “[...] separados cada um na sua classe, as meninas em uma e eles em outra. Só nos encontrávamos no pátio.”

  173

  Na prática, o uso do uniforme era motivo de orgulho para as crianças, assim como os primeiros aprendizados. Clarinha declara: “Eu gostava da escola, eu estava aprendendo a ler, a escrever. Era uma festa. Tinha uniforme, eu me orgulhava do meu uniforme, só o colocava na hora de ir para a escola.”

  174

  O depoimento apresentado a seguir reforça o testemunho de Clarinha a respeito do grupo escolar e da divisão das salas de aula por sexo:

  Entrei com sete anos na escola e saí com onze. No Grupo Escolar Silva Jardim, eram meninas de um lado e meninos de outro, não se misturavam na minha época. Eu estudei lá os quatro anos, até terminar o primário. Eu queria continuar, mas o meu pai não deixou. Eu gostava de estudar. Era uma maravilha. Sempre adorei estudar. Os meus professores um era melhor que o outro... 175 172

Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005. 173

Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005. 174 Muitas vezes, o pai acreditava que saber ler, escrever e fazer contas já era o suficiente. No entanto, percebe-se que os filhos mostram-se ressentidos com relação à decisão tomada pelos seus pais no passado de proibir a continuidade dos estudos, como Glorinha esboçou durante a sua fala: “mas o meu pai não deixou”. Na continuação de seu depoimento, a entrevistada revela que seu pai era analfabeto, embora ninguém o passasse para trás nas contas: “

  [...] o meu pai era analfabeto. Não sabia ler nem escrever. Então, ele falava que nós não teríamos que ser burro como ele. Ele sabia contar o dinheiro porque ele

  176

  o conhecia e ninguém passava o velho para trás.” Ainda que os pais acreditassem que o curso primário fosse suficiente para as filhas, a presença feminina continuava a marcar espaços nas demandas escolares. A instituição pública republicana assegurava o direito das meninas adquirirem conhecimento que as instruísse, inicialmente, em seus níveis mais elementares, em igualdade de condições àquela instrução destinada aos meninos.

  As classes se tornariam mistas em pouco tempo e as mulheres continuariam a ganhar espaços não só no curso ginasial, como também no

  177

  secundário, no magistério e na academia. Nesse momento, como explica Fátima, as meninas estariam compartilhando a mesma sala de aula que os meninos; ambos, portanto, tinham acesso ao mesmo tipo de ensino.

  Entrei na escola com sete anos completos, quando fui para o 1.º ano. A escola era o “Grupo Escolar Silva Jardim”, era uma escola estadual, era mista a partir do 3.º ano primário, mas só foi esse ano, também, porque os meninos faziam muita algazarra com as meninas. Acho que só foi uma experiência. As professoras achavam muito ruim porque os meninos queriam aparecer e as meninas achavam graça. Naquela época, já tinha aviãozinho pela sala, papéis jogados, briguinhas com as meninas.

  176

  Fátima, assim como as demais entrevistadas, gostaria de ter continuado seus estudos, mas seu pai preferiu que ela ingressasse no mercado de trabalho para ajudar nas despesas familiares. Nesse período, passavam por reformas tanto o Ensino Primário, destinado às crianças de 7 a 12 anos, como o Ensino Médio, que foi organizado em dois ciclos, o ginasial, com duração de quatro anos, e o colegial, com duração de três anos.

  178

  Ao terminarem o Grupo Escolar, os alunos, para continuarem os estudos, deveriam realizar o exame de admissão para o Curso Ginasial, conforme Fátima explica em sua exposição:

  Eu só senti não ter continuado a estudar porque o 4.º ano era assim: metade 4.º ano e depois 5.º ano. A gente fazia exame de admissão para entrar na 1.ª série do ginásio [...]. Eu só tenho o primário, embora tivesse passado para a 1.ª série do ginásio... 179

  Os pais que já possuíam algum estudo, como os de Helena – seu pai veio de Portugal com o 4.º ano completo e sua mãe sabia ler, escrever e contar –, procuravam matricular seus filhos em “escolinhas” antes mesmo de iniciarem a 1.ª série, no intuito de aprenderem as primeiras letras, como declara a depoente:

  [...] eu me lembro que freqüentei uma escolinha e comecei a ler e escrever, quando fui matriculada na 1.ª série, eu já sabia ler. A escola, digamos, era pública e se chamava “Buenos Aires”. Hoje, não tem mais escola. Quando eu passo lá está escrito alguma coisa de polícia. Eu não me recordo se era mista ou não. Eu sei que gostava muito da minha escola, mas só fiquei ali um ano ou dois. Depois, passei para uma escola também do governo, também em Santana, que se chama “Frontino Guimarães”, essa existe até hoje. 180

  178

SAVIANI, Demerval. “A política educacional no Brasil.” In: STEPHANOU, M.; BASTOS, M. H.

  C. (orgs). Op. cit., 2005. p.33. 179

  Viga, assim como Glorinha, informa que também estudou no Grupo Escolar Silva Jardim, em Tucuruvi, concluindo lá o primário:

  Eu fiz o primário no Grupo Escolar Silva Jardim, lá no Tucuruvi. Eu me dava bem com todo mundo, só que as meninas estudavam de um lado e os meninos de outro, mas quando tinha 181 o recreio, as meninas e os moleques se encontravam.

  Os avós e os pais das entrevistadas, de certa forma, mesmo tendo parcos recursos, estimularam suas netas e filhas a cursarem o ensino primário no Grupo Escolar, alguns porque já haviam estudado em Portugal, outros por não terem aprendido a decodificar as letras e por saberem as dificuldades que o analfabetismo acarreta no cotidiano. Vale destacar, ainda, que alguns imigrantes aprenderam a ler e a escrever no Brasil, porém não em português, mas em francês, como a mãe de Clarinha, que, ao “trabalhar de ajudante geral no

  182 Colégio do Sion, foi alfabetizada em francês pelas irmãs”.

  Percebe-se, assim, que estes esforços não foram em vão, uma vez que as filhas e netas dos imigrantes portugueses, de certa maneira, retribuíram o incentivo auxiliando-os no pagamento das despesas familiares ou no preenchimento dos boletins de calçamento das vias públicas, tarefa exigida ao funcionário e que estava condicionada ao seu pagamento.

  A pavimentação era medida em quilômetros quadrados, devido ao uso de pedras denominadas paralelepípedos e argamassa, e os nomes das ruas beneficiadas com o calçamento deveriam constar dos boletins para que depois o “feitor do

  183 calçamento” viesse verificar o serviço executado.

  181 182 Viga, 71 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 22/04/2005.

  Portanto, a passagem pelo Grupo Escolar possibilitou às entrevistadas a aquisição de vários conhecimentos, além de trocas de experiências com os colegas e professores.

  

3.3.1 O Conhecimento que adquiriram na escola e que recordam, saudosas

(A Instrução Formal)

  A educação traz consigo a valorização das qualidades e faculdades femininas, ainda que, no aspecto tradicional, tivesse apenas a função de fortalecer a mulher em seus papéis sociais de esposa, mãe, dona-de-casa e filha.

  184

  A instrução formal é um requisito que enriquece e renova todas as potencialidades humanas, intelectuais e afetivas, mas qual teria sido o significado dessa instrução para as depoentes?

  Ao se descrever na infância, Helena se apresenta como uma criança extrovertida, porém atenta, e comenta suas qualidades em responder aos questionamentos da professora prontamente:

  Hoje, eu seria uma criança nota dez. Eu era uma menina rebelde porque eu não tinha parada. Mas se eu estava brincando, a professora falava não sei o que, eu era a primeira a escutar e olhar para ela, porque às vezes a gente estava brincando ou conversando com as meninas, ela parava e perguntava, por exemplo: “Quanto é cinco vezes cinco?” Eu já falava “vinte e cinco”. Eu me lembro tão bem disso, quer dizer, eu estava sempre atenta no que a professora falava, não estava só brincando, mas o meu sentido estava sempre atento na professora e ela falava: “Quem descobriu o Brasil?” E eu já respondia.

  Em sua narrativa, ressalta que o seu comportamento irrequieto não desviava a sua atenção da proposta de ensino-aprendizagem enfatizada pela professora. Comenta, ainda, que sempre gostou de todos os seus professores:

  Eu sempre gostei de todos os professores. Quando fazíamos alguma coisa que o professor desaprovasse, nós ficávamos de castigo. O castigo era: todo mundo ia embora para casa e nós ficávamos lá na escola, na sala de aula. Eu fiquei mais de uma vez. Todos iam para casa e eu ficava lá. Às vezes, a servente ia limpar a classe e perguntava: “O que você está fazendo aí?” E eu respondia: “Estou de castigo!” “Então pode ir embora.” Já em casa, às vezes eu contava, às vezes não contava, porque a diferença era de cinco ou dez minutos. O pai e a mãe nem percebiam se eu demorasse, porque era pertinho, mas às vezes eles perguntavam, às vezes eu falava, às vezes eu esquecia.

  O fato de gostar dos professores, no entanto, não evitava que recebesse castigos, decorrentes de suas próprias atitudes indisciplinadas. Apesar disso, ela afirma que se mantinha aplicada aos estudos.

  [...] me lembro dos debates na sala de aula, da tabuada, porque se perguntar para uma criança da quarta séria se sabe tabuada, sabe nada, me lembro que a minha professora fazia assim: eu estava na segunda série, ela mandava guardar os cadernos, guardar tudo, pôr os braços em cima da carteira e ia perguntando “2 x 2, 2 x 4”, para todo mundo, todos os dias, dez minutos antes de sair. E ela perguntava, vamos supor, “5 x 5” e nan... nan... A resposta não saía. Ela falava: “25.” Como você não iria se lembrar, depois lá vinha ela de novo perguntar e não podia falar 30, tinha que ser 25. E até hoje eu sei, até hoje sei a tabuada, na minha idade. Pergunta, hoje, se sabem, não sabem tabuada. É tudo no computador ou na maquininha de somar, multiplicar elétrica e na cabecinha não fica nada não.

  Hoje, o educador pode até reconhecer a atual insuficiência do ensino nas instituições escolares, mas limita-se a transmitir o conhecimento que opera com

  185

  o trabalho intelectual. Embora se reconheça que para desenvolverem ao máximo as suas potencialidades as crianças necessitem de contatos e estímulos diversificados, tal reconhecimento parece entrar em conflito com os aparatos tecnológicos com os quais elas convivem. Nesse sentido, Helena acredita ter desenvolvido um raciocínio lógico mecânico, o que não acontece com as atuais crianças, de forma que nem a transmissão de outras matérias fez com que ela se desprendesse dessa habilidade.

  Eu tinha aulas de ciências, geografia também. E outra coisa, as capitais do Brasil, eu sei todas. Pergunta, hoje, para a turma se sabem: “Qual a capital da França, da Inglaterra, da Espanha, de Portugal, dos Estados Unidos?” Eu sei tudo e esse pessoal aí... o esquema era o mesmo da tabuada, todos guardavam os cadernos e lá perguntava: “Qual a capital do Brasil? Do Rio de Janeiro? Ou da Espanha?” E assim vai.

  Este método repetitivo exposto por Helena vem reafirmar que ela teve pouco contato com as tecnologias atuais, mesmo agora, depois de adulta. Subentende-se, portanto, que a sua integração a esses meios dispersos na sociedade contemporânea continua deficitária, talvez por ela não aceitar ou mesmo não desfrutar esses procedimentos tecnológicos.

  Havia jogos que hoje não existem mais. Era assim, uma espécie de, não me lembro o nome dele. Era assim, dois grupos, oito meninas de cada lado. Uma hipótese, vamos falar assim é uma bola, uma bola pequena. Era assim, jogar a bola e bater na outra criança ou menina. Se a bola batia nela, ela morria. Este aí jogávamos sempre. E eu jogava bem e todo time me queria porque eu era muito fogueta. 186

  Em relação aos jogos infantis de diversão, Helena descreve aquele que mais gostava com desenvoltura, embora não se lembre do seu nome. O importante é que ela participava intensamente da atividade, por isto o seu entusiasmo ao transmiti-lo.

  Helena atribui a si mesma várias qualidades, descrevendo-se na infância como uma “criança rebelde, sem modos e fogueta”. Mesmo ficando de castigo várias vezes, continuava a manter esse perfil, ao mesmo tempo em que era atenta à prática da chamada oral, que envolvia matérias como matemática e conhecimentos gerais, entre outras.

  Vale observar, ainda, que a depoente sugere críticas aos equipamentos tecnológicos e à falta de habilidade mental dos alunos na atualidade. “Pergunta, hoje, se sabem, não sabem tabuada” ou questões de conhecimentos gerais. “Eu sei tudo e esse pessoal aí...?” “[...] hoje, é tudo no computador ou na maquininha.” Fala saudosamente do jogo que a divertia muito com as amigas e lamenta: “Havia jogos que, hoje, não existem mais.”

  Segundo Helena, “os pais sempre estimulavam os trabalhos escolares. O meu pai sempre perguntava: ‘Sabe ler menina, sabe fazer conta?’” E lamenta:

  Naquele tempo, eu tentei continuar estudando o ginásio, mas morria tudo na quarta série, não tinha como hoje, tem quinta, sexta séries. Sabe, eu tentei fazer o ginásio, mas não deu certo porque os meus pais se mudaram... Eu terminei a quarta série com 12 anos, porque não repeti nenhum ano. Se só dependesse de mim, eu continuaria estudando. É que dependia de tantos fatores, por exemplo, a situação financeira do mundo todo, do Brasil, da minha família. Ela estava crescendo, eu não era a mais velha, era a do meio, eu via as minhas irmãs trabalharem eu também tinha que trabalhar, então eu fui trabalhar, demorei, mas eu fui.

  Sua mãe sugeriu que ela fizesse o curso que toda mulher deveria fazer, como conta:

  Eu fiz o curso que a minha mãe achava que toda moça, menina, tinha que fazer, que era o curso de corte e costura. Porque a vida da mulher era saber costurar, cuidar da sua casa. Então, eu fiz esse curso dos 14 aos 16 anos, mas depois eu fui trabalhar bem longe desse curso. Refletindo-se sobre suas palavras, percebe-se que a continuidade dos seus estudos no curso ginasial era uma necessidade pessoal que, devido a dificuldades econômicas, foi deixada de lado. Helena, como era uma filha que respeitava a decisão dos pais, foi fazer o curso de Corte e Costura, uma vez que “ toda mulher deveria saber o básico para ser uma verdadeira dona -de-casa”. No entanto, pode-se perceber em seu discurso que era contraditório ao seu gosto pessoal, porque ela mesma fala que foi “trabalhar bem longe desse curso”. Todavia, a costura em casa, durante longas décadas, permitiu à mulher ficar disponível para a família e, concomitantemente, ser explorada pelo capital

  187 privado, em troca de auxiliar no orçamento doméstico.

  E Clarinha, como terá sido na escola?

  Comecei a ir para a escola com 8 anos. Os professores eram muitos bons. Eles chamavam a atenção da gente. Se não obedecíamos, chamavam o pai ou a mãe para ir lá para explicar o que estava acontecendo. Não havia punição mais grave.

  A partir da década de 1940, os comportamentos individuais e sociais passaram a se transformar mais intensamente. Muitas tradições e concepções referentes à prática educativa voltaram-se para um sujeito humano novo, e o processo de socialização e articulação voltou-se para uma renovação educativa e

  188

  pedagógica. Talvez esses movimentos distintos tenham influenciado a primogênita da família, contudo sem a conscientização imediata, cabendo-lhe nesse instante ser a primeira a freqüentar e a cursar o Grupo Escolar. A escola se apresentava como a extensão do lar, sem desobediência ao mais velho, o que poderia representar represália aos pais.

  Porém, no segundo ano, isso eu me lembro porque me marcou bastante, uma moça, porque ela já tinha dez anos e eu apenas 187 nove, ela tinha uma madrasta que judiava muito dela. Ela sempre vinha muito machucada para a escola, com vergões e queimaduras.

  Alguns fragmentos do depoimento supracitado são interessantes, como a questão da violência da madrasta contra a enteada, talvez por ciúme ou despeito à criança, o que foi significativo para Clarinha. Casos como este aconteciam habitualmente, sobretudo entre os moradores do subúrbio. Estes, em geral, habitavam casas de aluguel, quartos de cortiços, barracos ou construções clandestinas, e regularmente trocavam de parceiros, constituindo famílias numerosas. Os filhos que cresciam sem a convivência do pai ou da mãe, quando muito, viviam com madrastas ou padrastos.

  O Estado acabou intervindo em favor da integração destes indivíduos na sociedade e da redução de maus tratos com políticas sociais especiais destinadas às crianças e aos jovens oriundos de famílias desestruturadas. O Código Penal brasileiro de 1940, época em que se vivia a ditadura de Vargas, distingue maus- tratos (artigo 136) de lesão corporal (artigo 129) e localiza as autoridades (pais, professores, médicos, policiais, etc) que cometem violências denunciadas e apuradas contra as crianças e jovens. O Código Civil, por sua vez, define as competências dos pais em relação aos filhos menores de idade (artigos 384,385,392 e 395) e estabelece que devem ser punidos o pai e a mãe que castigam o filho imoderadamente, que o abandonam ou que praticam atos

  

189

contrários à moral e aos bons costumes.

  A nossa professora sempre cuidava dela e lhe dava conselhos que também poderiam servir para a gente. Nós tínhamos aulas de religião diariamente, eu gostava muito. Os professores nos aconselhavam a estudar bastante e sermos aplicados, que seria a melhor coisa das nossas vidas.

  189

  Os conselhos dos professores para que estudassem e as aulas diárias de religião sugeriam uma forma de aceitar as condições vividas pelas pessoas e de suportá-las.

  O meu pai era analfabeto. Só sabia escrever o seu nome. Mas a minha mãe ajudava quando ela sabia, mas, às vezes, quando ela não sabia, dizia: “Ai meu Deus, eu não sei nada do que você esta fazendo!”, porque ela tinha o colégio diferente do nosso, porque ela não freqüentou escola. As irmãs [freiras do Colégio do Sion] que vinham e davam aula para ela, como aula particular, isso durante o período em que ela trabalhou lá, mas sabia falar bem o francês.

  Nota-se, assim, a admiração e o orgulho de Clarinha pela sua mãe, que, mesmo apresentando limitações, a ajudava nas lições de casa. Em geral, era a mãe que auxiliava as crianças nos diferentes tipos de atividades, que as observava e acompanhava, que procurava ajudar em suas dificuldades e que criticava os responsáveis por elas. Tais responsabilidades se ampliavam à medida que a jovem elevava-se na escala sócio-cultural.

  190 Quanto aos meus colegas de classe, tinha uma menina com o cabelo vermelho, “de fogo”, como a gente dizia, ela descendia de italianos, mas saberia dizer se ela nasceu na Itália ou em São Paulo. Ela tocava piano e era bem educada. O pai dela vinha buscá-la de carro, todos os dias, ela e o irmão. Sabe, naquele tempo, quem tinha carro era rico, mas os pais a faziam estudar junto com a gente. 191 Para Clarinha e seus colegas, o diferente exaltava aos olhos.

  Acostumados com os cabelos negros, castanhos ou louros, quando viam o vermelho logo vinha a alcunha de “cabelo de fogo”. Com tão tenra idade, podiam conceber perfeitamente a idéia da diferença social, notada na colega de “ cabelos cor de fogo”, uma vez que esta sabia tocar piano, era bem educada e 190 PRADO, Danda. Op. cit., 1995. 191 todos os dias era apanhada na escola de carro pelo pai. Logo, podia-se perceber que não pertencia ao mesmo status social que seus colegas da escola.

  Na escola, havia apenas algumas encrenquinhas. Era uma menina que gostava de um garoto ou falava mais com um, mas não dava nada, apenas um puxão de cabelo, um tapa, mas no outro dia já estava tudo bem entre as meninas.

  Neste outro trecho, Clarinha se refere à indisciplina e à sensualidade como “encrenquinhas” sem grande importância, porque no dia seguinte estaria tudo bem.

  192

  “ Era uma menina que gostava de um garoto ou falava mais com um.” Entende-se por este trecho que era pela sensualidade que as mulheres iriam tomar consistência da sua sexualidade, o que constituiria um objeto digno de problematização. Era na vontade de saber sobre o outro sexo que as meninas desenvolveriam os principais elementos dispositivos da sexualidade no seu corpo, como a precocidade juvenil, o prazer, a regulação dos ciclos menstruais, a

  193 gestação e o parir, o casamento e a depravação.

  Clarinha lamenta-se por não ter tido a oportunidade de prosseguir os estudos depois de ter concluído o curso primário, mas orgulha-se de ter feito o curso de “Corte e Costura”:

  Eu tirei o diploma com treze anos, não continuei estudando porque não tive condições porque a escola era paga e não tinha jeito não, infelizmente. Há se eu tivesse tido oportunidade, estudaria sim. Não fiz nenhum outro curso, depois que terminei o primário. Com o tempo, a minha mãe me colocou no corte e costura, eu gostava muito, me formei, tirei o diploma, me senti 194 tão feliz com isso, tiramos fotografia também.

  192 193

Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.

  

PERROT, Michelle. “Michel Foucault e a história das mulheres.” In: As mulheres ou os silêncios

194 da história. Bauru, SP: EDUSC, 2005.

  Assim, pode-se inferir que, para a população com poucas posses, o certificado de “Corte e Costura” simbolizava o aperfeiçoamento, a especialização de um determinado ofício que poderia ser exercido no lar ou na fábrica.

  Viga foi contemporânea de Clarinha. A sua trajetória na vida escolar teria sido diferente?

  Eu estudei só o primário. Eu tinha oito anos quando uma colega xingou a minha mãe. Até que foi engraçado porque xingou a minha mãe. Eu tinha uma sombrinha e bati com ela na cabeça dessa menina. Então, eu fui parar na Diretoria. Umas meninas foram correndo falar para a minha mãe. E, na escola, a diretora era a D. Durvalina. Ela me perguntou porque eu havia quebrado a sombrinha na cabeça da colega. Aí eu expliquei: “sabe D. Durvalina, a senhora gostaria que alguém chamasse a mãe da senhora de nome feio?” Ela falou que não. Então, eu falei: “Foi por isso que eu bati nela.” A D. Durvalina falou que eu não tinha jeito. Então, falamos de tricô, crochê e ela pediu para uma professora me levar para casa de carro. Chegando lá, vi os colegas falando com a minha mãe. Então, falei que a D. Durvalina tinha compreendido o que aconteceu.

  Pela espontaneidade de Viga, pode-se compreender que era uma criança pronta para defender a mãe em qualquer circunstância, demonstrando o apreço que sentia por ela. Pela sua imprudência, foi parar na diretoria, mas logo voltou para casa, já que sua atitude foi entendida pela Diretora. Esta, neste contexto, estava representando a sua instituição por intermédio de um papel social central e organizado, e, assim, foi capaz de colocar-se em harmonia com uma sociedade

  195 em transformação por meio de práticas reformistas e contínuas.

  Eu queria muito estudar piano, até uma professora se empenhou em me ensinar, mas eu teria que ficar com ela, mas a minha mãe não permitiu porque ela falava que os filhos podiam comer pão com banana, mas de perto dela não saíam, e também, por outro lado, os meus pais não tinham como pagar, mas eu não me importei muito.

  196

  “ As

  O desejo é a vontade de completude, de totalização da criança.” dificuldades financeiras da família a impossibilitou de realizar este projeto e, ao mesmo tempo, foi o que a lançou como um ser humano autônomo.

  Lá na escola, os professores passavam ditado, composição, contas de dividir, somar, multiplicar e subtrair, problemas e desenhos. A D. Durvalina na hora do recreio ensinava quem quisesse a fazer bordado. Então, eu aprendi com ela. Depois que 197 eu terminei o grupo escolar, fui trabalhar, depois eu casei.

  Viga comenta sobre as atividades desenvolvidas na escola pelos professores com um brilho no olhar e demonstra certo brio ao falar que aprendeu a bordar com a Diretora da Escola. Conforme relata, ao terminar o primário começou a trabalhar, casando-se logo depois.

  E as outras duas entrevistadas, o que teriam para contar sobre a instrução formal e a escola?

  198

  A maior preocupação de Glorinha na escola era ser arteira. Dentre suas travessuras, mandava bilhetinhos aos colegas durante a aula, brincadeira que a fazia ser repreendida e castigada pela Diretora da Escola. Depois que todos os alunos e professores deixavam o recinto escolar, ela também se retirava, conforme explica:

  Eu era arteira, costumava mandar bilhetinho para a professora e quando tinha substituta fazia o inferno, tanto que um dia uma delas me pegou pelo braço e me levou para a diretora. Ela, com as mãos na cintura, disse: “Outra vez, Glorinha! Eu vou chamar a sua mãe, senta aí.” Mas ela não chamou, mandou eu esperar sentada, demorou bastante, aí eu falei: “Como é, a senhora não vai chamar a minha mãe?” Coisa de criança levada... “Eu já chamei”, e dava risada me mandando sentar, e eu, com os braços cruzados, com aquela raiva. Então, acabava o horário das crianças, elas iam embora, ela me chamava e falava: “Glorinha, vai embora.” “Ué, e a minha mãe?” “Ah! A sua mãe não pode 196 vir.” Chegando o dia seguinte, ela me chamava e dizia: “Glória, 197 ROCHA, Everardo. O que é mito. São Paulo: Brasiliense, 1996. p.75.

  Glória, olha bem o que eu vou te falar, se você fizer arte, não virá mais aqui, irá direto para casa.” Mas não adiantava. Eu continuava a fazer arte, mas era um tempo gostoso para caramba, eu era danada.

  A partir da segunda metade do século XX, as mulheres passaram a dominar o magistério. Eram elas que lecionavam e ocupavam o cargo de Diretora de Escola, função que outrora era freqüentemente desempenhada por homens. Tal mudança, no entanto, era decorrente da ampliação do número de escolas públicas e, por conseguinte, da diminuição dos salários, o que fez os

  199 homens buscarem profissões mais rendosas.

  Um conjunto de normas e conhecimentos a ensinar propondo condutas pode ser definido como cultura escolar. Porém, supor que essas práticas possam transmitir informações e incorporar comportamentos sem a interferência externa erar a educação familiar e a individualidade de cada à escola seria desconsid

  200

  um. Portanto, Glorinha agia conforme a influência de seu meio, exaltando a sua individualidade e não se deixando induzir pelas normas escolares relativas à disciplina, como comenta: “eu era arteira, costumava mandar bilhetinho [...] quando tinha substituta fazia o inferno”.

  Os professores achavam importante a matemática. Eu era uma burra de marca maior, eu gostava era de pegar um livro, ler uma história e depois fechá-lo, guardá-lo e contar a história para todos na classe. Eu fazia como se fosse um drama, eu era

aplaudida pela classe toda e de pé.

  A depoente não se considerava aplicada e tinha dificuldades de aprender matemática. Contudo, no decorrer dos estudos, seu comportamento a auxiliou a adquirir subsídios suficientes para desenvolver a interpretação e a encenação das

  201 199 histórias apresentadas nos livros. 200 ALMEIDA, J. S. Op. cit., 1998. 201 STEPHANOU, M.; BASTOS, M. H. C. (orgs.). Op. cit., 2005. p.418-419. Depois que as professoras me entenderam, eu nunca mais fui para a diretoria. Entre os alunos, às vezes, havia discussão. Então, eram colocados de castigo, em pé atrás da porta. Além da matemática, ensinavam ciências, geografia, história.

  Os professores, com o passar do tempo, compreenderam que a instrução formal, com seu variado currículo, contribuía para a formação do aluno, desde que se observasse todo o panorama histórico-social de cada sujeito nesse campo, cabendo a alguns o “castigo atrás da porta”.

  A entrevistada não tinha a intenção de parar seus estudos no 4.º ano primário e, com disposição, saiu à procura de outros cursos que fossem gratuítos, conforme explica:

  Arrumei para fazer datilografia e o ginásio de graça, mas o meu pai não deixou. Eu queria ter um diploma, ser alguém na vida, mas ele nunca deixou. Parei de estudar aos onze anos, ficando só

202

com o primário.

  As negativas do pai, portanto, contribuíram para que os sonhos de “ser alguém” fossem esquecidos pela menina de onze anos, porque a memória não tem compromisso com a crítica, como uma operação mental de validar ou não os

  203

  seus movimentos de produção de conhecimentos. Assim como as demais entrevistadas, Glorinha passou a exercer trabalhos extradomésticos para complementar o orçamento familiar.

  Fátima, por sua vez, faz o seguinte relato sobre sua instrução:

  202 203

Glorinha, 69anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 02/02/2005.

  Eu só tenho o primário, embora tenha passado no exame de admissão para a 1.ª série do ginásio, eu precisava trabalhar e ajudar em casa. Os meus pais eram analfabetos, mas eles queriam que a gente tivesse um futuro melhor e sentiam que a gente não podia estudar mais.

  A necessidade de “ajudar em casa” estava sempre ligada à impossibilidade de se continuar os estudos. Nesse sentido, pode-se supor, ainda, que os gastos com a locomoção para se chegar à escola, com o material escolar e com o uniforme contribuíam para a descontinuidade.

  O trabalho feminino era tratado por muitos pais como complementar. Sendo “complementar ou não, as mulheres sempre estavam sujeitas a uma jornada de trabalho freqüentemente maior” e dupla, uma vez que, além das tarefas extradomésticas, eram responsáveis também pelos afazeres

  204 domésticos.

  Eu adorava meus professores. Tinha a D. Maria da Conceição que era uma doce amiga. Primeiro, era a minha mãe, depois ela. Eu tenho muitas saudades daquele tempo.

  Segundo Thomson, “compomos nossas memórias para dar um sentido mais satisfatório à nossa vida, à medida que o tempo passa, e para que exista

  205

  maior consonância entre identidades passadas e presentes”. Nesse sentido, passa-se a elaborar um passado, de forma que se possa conviver com as lembranças e esquecer o que parece insignificante ou de convivência não suportável. São esses processos inconscientes e conscientes que tramam a memória.

  Eu nunca fiz nada para ser chamada a atenção durante as aulas. 204 Os professores falavam que primeiro o respeito e o amor, depois

PENA, Maria Valéria Junho. Mulheres e Trabalhadoras (presença feminina na constituição do a dignidade e o trabalho; respeito ao mais velho sempre, e sempre manter a dignidade.

  Como se pode notar, com o incentivo dos professores, alguns valores eram estimulados, conforme Fátima, no depoimento supracitado, faz questão de ressaltar.

  Na sala de aula, nunca havia debates, só em ciências que instigavam a gente com os experimentos. Eu gostava das aulas de Educação Física. A professora ensinava ginástica, jogávamos bola, era bom.

  Com a implantação do sistema de ensino regulamentado e a distribuição do conhecimento em quatro anos de formação elementar, pressupunha-se a transmissão de matérias como leitura, caligrafia, aritmética, desenho, linguagem, música, geometria, trabalhos manuais, história, ginástica, geografia, cosmografia

  206 e ciências físicas e naturais – higiene, moral e cívica.

  Ao comentar sobre o cotidiano das aulas e as disciplinas que gostava, como Educação Física e Ciências, Fátima salienta que “em ciências instigavam a gente com os experimentos. Eu gostava das aulas de Educação Física. A professora ensinava ginástica, jogávamos bola, era bom [...].” A depoente relata, ainda: “Os meus colegas de classe eram metade filhos de imigrantes portugueses, depois italianos e poucos japoneses.”

  “ A emigração portuguesa foi transatlântica, tendo o Brasil como destino

  207

  principal, quase exclusivo.” Quanto aos italianos, deixaram sua terra porque

  208

  tinha “condições naturais difíceis, com áreas de montanhas e colina [...]”. Nas ruas de São Paulo, houve tempos em que se falava mais o italiano do que o 206 próprio português. Já “os imigrantes japoneses sempre tiveram a sua identidade 207 BENCOSTA, Marcus Levy Albino. Op. cit., 2005.

  

LEITE, Joaquim da Costa. “O Brasil e a Emigração Portuguesa.” In: FAUSTO, Boris. Fazer a

208 América . São Paulo: EDUSP, 2000. p.177.

  209

  marcada por suas diferenças com a sociedade brasileira”. Os filhos de imigrantes de todas essas nacionalidades acabavam se encontrando numa mesma sala de aula.

  Fátima lembra o cotidiano na sala de aula: Na escola não tinha gangues, mas começou a ter aulas à noite.

  Quando chegávamos de manhã, a nossa classe estava uma tristeza, sujeira, eles faziam muita algazarra, chegavam a fazer fezes em cima da escrivaninha da professora, escreviam coisas obscenas nos quadros negros, coisas dantescas, arrebentavam os armários. Depois, tiveram que acabar com as aulas da noite.

  Observa-se, assim, certa semelhança com o cotidiano das atuais escolas estaduais e municipais, as quais apresentam índices alarmantes com relação à violência física aos professores, aos funcionários e entre os próprios alunos, assim como casos de depredação aos prédios públicos. Os meios de comunicação, muitas vezes, promovem debates sobre esta problemática, estimulando, assim, a rememoração de fatos parecidos, mas vivenciados no passado.

  Eu parei de ir para a escola com dez anos e meio, quando eu concluí o primário. Se eu tivesse oportunidade, continuaria sim, sempre aconselho que se deve estudar, sim, porque o saber não ocupa espaço. Depois que eu parei de estudar, nunca mais 210 freqüentei nenhum curso.

  Assim, observa-se que esta depoente, igualmente às outras entrevistadas, apresenta certo ressentimento com relação aos seus pais pelo fato de ter abandonado a escola, ao mesmo tempo em que lamenta a ausência de oportunidades para prosseguir em seus estudos. Além disso, recomenda, a seu 209 modo, a continuidade da escolarização.

  

SAKURAI, Célia. “Imigração Japonesa para o Brasil: um exemplo de imigração tutelada.” In:

  IV – DOS PRIMEIROS TRABALHOS EXTRADOMÉSTICOS ÀS TECELAGENS

  4.1 O PRIMEIRO TRABALHO EXTRADOMICÍLIO As entrevistadas executam trabalhos domésticos desde a infância, e com eles convivem desde o nascimento, já que suas mães, avós, tias ou irmãs sempre se ocupavam dos afazeres do lar. Depois que dominavam a tarefa de arrumar a casa (fazer a cama, lavar a louça, enxugá-la e guardá-la, varrer, encerar ou passar o pano úmido no chão, tirar o pó dos móveis, lavar, estender, recolher, dobrar e passar as roupas), aprendiam também a costurar, a bordar e a tomar conta dos irmãos menores, pois todas essas atividades deveriam fazer parte do aprendizado da mulher. Passavam, em seguida, a sair de casa para trabalhar. E como teria sido esta experiência para elas?

  Clarinha relata: “Eu trabalhava em casa, ajudava a mãe, eu limpava a casa, éramos muitos filhos, eu ajudava nos afazeres da casa.” As atividades exercidas pela figura feminina em domicílio normalmente se configuravam como uma “ajuda nos afazeres da casa”.

  Eu comecei a trabalhar fora de casa com treze anos, porque a minha mãe teve que tirar um documento no Juizado de Menores. Então, logo que eu terminei o primário, saí da escola e já fui trabalhar. Ao completar quatorze anos, tirei a Carteira de Menor. Eu trabalhei uns quatro meses com o documento do Juiz. Este documento era uma autorização do Juiz para trabalhar. O meu primeiro emprego consegui assim: a minha mãe, conversando com uma vizinha sobre as dificuldades financeiras, esta lhe falou que a filha Luzia já trabalhava na cartonagem e que a filha poderia arrumar para eu trabalhar lá. Aí, a minha mãe falou: “Mas ela é menor de idade.” E a vizinha: “Isso não tem importância. Vai no Juiz e tira o documento provisório, e eles darão o lugar para a menina.” 211

  Os portugueses já residentes no Brasil procuravam fazer com que suas filhas fossem empregadas por meio da indicação de um conhecido; essa era uma forma de se certificarem de que seus rebentos estariam seguros em seus empregos. Tal preocupação se manifestava principalmente quando se referia à primeira filha do casal, a primogênita, a qual ajudaria e muito nas despesas da família. Nesse sentido, Clarinha comenta: “O meu primeiro emprego consegui assim: a minha mãe, conversando com uma vizinha sobre as dificuldades financeiras, esta lhe falou que a filha Luzia já trabalhava na cartonagem e que a filha poderia arrumar para eu trabalhar lá.”

  Contudo, para que os menores pudessem trabalhar fora de casa tinham que obter provisoriamente a autorização do Juiz e, em seguida, providenciar a Carteira de Menor – documento que contemplava uma série de exigências legais entre empregador e empregado menor –, que valia até a maioridade civil, quando poderia adquirir a Carteira Profissional.

  Nós fizemos isso, conforme eu já expliquei, e eu comecei a trabalhar na Cartonagem Ipiranga, que ficava localizada próxima à estação Cantareira, ali no Pari mesmo, mas hoje não tem mais nada ali. Na Cartonagem, eu dobrava caixas de papelão de todos os tamanhos pequenas ou grandes. Depois de dobrar, eu as forrava com papel colorido, com a finalidade de presentear, para colocar sapatos, cobertores, colchas, etc. Mas eu aprendi a dobrar as caixas com as mestras. Eram chamadas mestras de mesa porque nos ensinavam a dobrar, a trabalhar com as máquinas para grampear e ficar toda fechada, bem 212 fechadinha.

  De certa forma, estes empregos se apresentavam como a extensão do trabalho doméstico. Em casa, Clarinha dobrava roupas de vários tamanhos; na Cartonagem o movimento era o mesmo, mas dobrando-se papelões. Portanto, este trabalho, aparentemente, não se diferia daquele que a mulher exercia em domicílio. “[...] Na Cartonagem, eu dobrava caixas de papelão de todos os tamanhos pequenas ou grandes. Depois de dobrar, eu as forrava com papel colorido [...].”

  212

  No começo, eu não era registrada, mas depois, em 1946, eu já fui fichada, porque eu já tinha quatorze anos completos e tinha a Carteira de Menor. Nós trabalhávamos oito horas e tínhamos uma hora de almoço. Era o nosso descanso e todos nós levávamos marmita. Depois, esta Cartonagem fechou e eu fui trabalhar em uma outra maior, chamava-se Gráfica Brasileira e ficava na rua Vitor Hugo, no mesmo bairro do Pari. Funcionava como cartonagem e gráfica. Lá eram impressos muitos documentos e todos os tipos de papéis para documentos. Eu recebia por hora, mas era em réis, eu não sei mais como falava.

  A autorização para trabalhar, o registro na Carteira Profissional de Menor e as oito horas trabalhadas com intervalo para almoço foram conquistas de um lento processo jurídico-político que culminaria na Consolidação das Leis

  213

  do Trabalho (1943). Naquele momento, para ocupar a vaga na Cartonagem, a depoente passou por todo o processo empregatício, como expõe nesse trecho de sua entrevista:

  [...] a minha mãe teve que tirar um documento no Juizado de Menores. [...] saí da escola e já fui trabalhar. Ao completar quatorze anos, tirei a Carteira de Menor. No começo, eu não era registrada, mas depois, em 1946, eu já fui fichada [...]. A minha mãe achava que era um bom dinheiro que eu recebia. Ela gostava porque estava ajudando em casa, quando eu recebia o salário, eu entregava direitinho na mão do meu pai. O envelope ainda estava fechado, conforme eu recebia da Gráfica, eu o entregava na mão dele. Então, ele conferia para ver se estava certo, do contrário, ele iria lá reclamar com o dono da 214 firma (risos). O velho era fogo!

  O salário recebido auxiliava no orçamento doméstico, conforme a depoente evidencia: “A minha mãe achava que era um bom dinheiro [...]. Ela gostava porque estava ajudando em casa, quando eu recebia o salário, eu entregava direitinho na mão do meu pai.” Outro trecho da entrevista chama 213 atenção: “[...] O envelope ainda estava fechado, conforme eu recebia da Gráfica,

  

A C.L.T. (Consolidação das Leis de Trabalho) foi promulgada em 1943 e apresentava os direitos

dos trabalhadores, tais como: registro em carteira, férias, indenização e aviso prévio dispensado ou

  eu o entregava na mão dele. Então, ele conferia para ver se estava certo, do contrário, ele iria lá reclamar com o dono da firma [...].” Uma vez que era menor de idade e ainda considerada uma criança, a jovem não teria o domínio do seu ganho. Era, então, instruída a entregar o envelope do pagamento ao pai, porque este, que já trabalhava na Prefeitura Municipal de São Paulo, saberia conferir o ganho e reclamar pelo certo, se houvesse erros. Portanto, o domínio paterno e a obediência da filha se faziam presentes, dando continuidade a uma prática trazida da “terrinha”.

  Por outro lado, como seria o local de trabalho que teria permanecido nas reminiscências dessa entrevistada?

  Que eu me lembre, era tudo limpo, era uma fábrica bem grande, muitas janelas, porque tinha muito pó, produzido por aquelas máquinas e impressoras. As janelas eram bem altas e estavam sempre abertas. As duas cartonagens eram muito boas. Eu estive nesse emprego até 1949, trabalhei na gráfica por dois anos. Na gráfica, não tinha nenhuma chance de promoção, era aquilo mesmo - cola e papelão. Eu deixei esse emprego porque a minha mãe achou que eu não passaria daquilo nunca [...].

  Clarinha comenta que as acomodações dentro da gráfica eram boas, bem como a ventilação vinda das janelas grandes que permaneciam sempre abertas. “

  Era tudo limpo, era uma fábrica bem grande, muitas janelas, porque tinha muito pó, produzido por aquelas máquinas e impressoras. As janelas eram bem altas e estavam sempre abertas”, talvez para que o ar circulasse e não houvesse problemas de intoxicação, já que lá se fazia uso de cola e havia excesso de pó, produzido pelas máquinas impressoras.

  Porém, na Gráfica não havia uma carreira que pudesse ser galgada, e a mãe da depoente, querendo um futuro mais promissor para sua filha, a incentivou a deixar o emprego. Essa mãe veio ao Brasil com a “carta de chamada do pai” e estava pronta a sujeitar-se a tudo, mas não queria para a filha o mesmo futuro que o seu, embora contasse com o seu ganho para auxiliar nas despesas domésticas. “[...] trabalhei na gráfica por dois anos. Na gráfica, não tinha nenhuma chance de promoção, era aquilo mesmo cola e papelão. Eu deixei esse emprego porque a minha mãe achou que eu não passaria daquilo nunca [...].” Portanto, estaria a dobrar e colar papelão até que a gráfica fechasse ou mudasse de dono. Clarinha, a partir de então, passava a aguardar a sua indicação para um novo emprego, como se verá mais adiante.

  215

  Helena , por sua vez, em relação ao seu primeiro emprego, conta o seguinte:

  Eu tinha entre 16 e 18 anos quando comecei a trabalhar. Era uma espécie de doméstica que deveria cuidar do bebê da patroa. A minha mãe lavava a roupa para esta senhora. Ela me deixava na casa na 2ª feira e no sábado eu retornava para casa. A residência se localizava na Rua Sete de Abril. Fiquei lá durante um ano aproximadamente, porque o bebê cresceu e a mãe dispensou o meu serviço.

  Este depoimento permite refletir sobre algumas das atividades femininas no trato junto à família, à casa e às crianças, sempre retornando à extensão dos afazeres internos do domicílio. Como se pôde perceber, Helena emprega o termo “ doméstica”, designativo da mulher empregada em trabalho doméstico, concernente à vida da família ou à casa, e no interior desse lar cuidou do bebê até ser dispensada pela patroa.

  Muitas mães portuguesas admitiam que suas filhas trabalhassem nas casas das pessoas para as quais já prestassem algum serviço, talvez por sentirem segurança em deixar suas filhas neste ambiente, sabendo que as teriam de volta somente no final da semana, como a depoente afirma: “[...] quando comecei a trabalhar, era uma espécie de doméstica que deveria cuidar do bebê da patroa. A minha mãe lavava a roupa para esta senhora, ela me deixava na casa na 2ª feira e no sábado eu retornava para casa [...].”

  Depois, eu fui trabalhar numa Casa de Guarda-Chuva, localizada próximo da Igreja de São Bento, no centro. O meu serviço era pegar a pontinha que o guarda-chuva tem e colocar embaixo da máquina e apertar para depois costurar. Aprendi observando as colegas de trabalho e, como todas as funcionárias, eu recebia por mês. Dado o meu temperamento inquieto, eu era muito esperta. Na fábrica, era assim: uma funcionária passava as varas do guarda-chuva para mim, para eu pressionar na máquina, mas sempre fazia de dez em dez, mas como já expliquei, eu era inquieta e muito rápida. Então, em pouco tempo eu passei a pegar as varetas sozinha, porém o gerente geral achou que eu me levantava para brincar com o pessoal e me interpelou, dizendo: “Hoje você fica até o final do expediente e amanhã não precisa mais voltar, pode ir embora!” Eu só perguntei: “Por que?” E ele respondeu: “Porque você está levantando a toda hora.” Fiquei muito aborrecida e fui falar com o meu chefe e lhe contei tudo. Então, ele falou com o gerente geral: “Ah! essa moça é muito esperta, a outra é que não dá conta do serviço, pois ela termina uma carga e vai buscar mais para prensar, ela não fica parada não!” E o gerente geral 216 retrucou: “Tá bom, então amanhã ela pode vir.”

  O novo emprego de Helena envolvia questões mecânicas e de produção: “ [...] o meu serviço era pegar a pontinha que o guarda -chuva tem e colocar embaixo da máquina e apertar para depois costurar [...].” Os funcionários mais antigos exerciam certo controle sobre os recém-contratados, mas essa regra não se aplicava a Helena, conforme seu comentário:

  [...] uma funcionária passava as varas do guarda-chuva para mim, para eu pressionar na máquina, mas sempre fazia de dez em dez, mas como já expliquei, eu era inquieta e muito rápida. Então, em pouco tempo eu passei a pegar as varetas sozinha.

  Ao quebrar a rotina de produção e o controle sobre os novatos, Helena despertou a atenção do seu gerente geral, que interpretou as suas idas e vindas como brincadeiras: “[...] Porque você está levantando a toda hora.”

  Chegando em casa, contei tudo para o meu pai, e papai, muito sistemático ou muito honesto, me mandou sair da fábrica de guarda-chuvas, dizendo: “Como aquele senhor achou que você estava abusando do serviço, então, não precisa voltar mais lá, não vai mais trabalhar para ele.” Então, eu saí. Isto ocorreu por volta de 1950.

  Pode-se supor que no curso de “Corte e Costura” Helena desenvolveu suas habilidades, de modo que os seus dedos se tornaram mais ágeis, assim como o seu serviço. Todavia, o gerente não compreendeu assim, dispensando-a e, em seguida, após as devidas explicações, reconsiderando a sua decisão.

  Essa ruptura na regra também gerou um conflito emocional para Helena, já que seu pai foi radical ao dizer para ela deixar o emprego: “Como aquele senhor achou que você estava abusando do serviço, então, não precisa voltar mais lá, não vai mais trabalhar para ele.” Helena, então, não voltou mais a trabalhar naquela empresa.

  Do salário, não me recordo o valor, mas quando recebia entregava o envelope todo para o meu pai. Só me recordo que me vestia, comia, não passava nenhuma necessidade não. Depois da fábrica ou oficina de guarda-chuvas, fui trabalhar na tecelagem. 217

  Repete-se neste trecho o mesmo padrão tradicional da família portuguesa: o patriarca recebia os ganhos dos filhos e os redistribuía conforme as necessidades da família.

  Quando eu saí da Escola, eu fui ser babá de um pestinha. Consegui este emprego com uma vizinha da minha mãe, que lavava roupa para a mãe desse pestinha. Ele se chamava Edson.

  Ele deixava a minha canela preta, porque me chutava muito. Depois, fui ser babá de outra criança que era uma gracinha. 218

  Nota-se, assim, que a mulher tinha facilidade de conquistar empregos que se caracterizavam pela continuidade do trabalho doméstico: “[...] eu fui ser 217 babá de um pestinha [...]. Depois, fui ser babá de outra criança que era uma gracinha.”

  Uma outra vizinha da mãe, que já trabalhava nessa confecção, comentou que estavam precisando de ajudante geral menor e ela me levou para trabalhar lá. Durante alguns dias, eu fui acompanhada por esta vizinha para o local do trabalho, mas depois eu aprendi o caminho e ia sozinha. Tinha quatorze anos quando comecei a trabalhar lá, mas não fui registrada. A confecção situava-se na Rua Prates e o dono era o Sr. Benjamim, mas o nome da confecção não consigo me lembrar. Então, lá eu exercia a função de Ajudante Geral. Eu dava o 219 envelope do pagamento em casa, para o meu pai.

  Para as jovens ascendentes de portugueses, alguns padrões se repetiram, como o fato de terem ido trabalhar em locais já conhecidos por vizinhos ou amigos. Aos quatorze anos, Fátima pouco conhecia os trajetos que a levariam ao local do seu trabalho, precisando da ajuda de sua vizinha para chegar à confecção. Observa-se também a exploração sofrida pelo trabalhador menor de idade, que, sem registro em carteira, era privado de seus direitos, como férias, auxílio médico e outros. Fátima relata: “O meu primeiro emprego registrado foi

  220

  em uma confecção, na Thalenberg & Companhia Ltda.” Percebe-se, ainda, que nos centros urbanos a separação dos espaços entre residência e trabalho era cada vez mais estreita e ligada às atividades domésticas de reprodução e cuidados com os membros da família. Eram atividades desempenhadas fora do lar, mas, ao mesmo tempo, que remetiam ao lar, como expõe Fátima: “[...] eu fui ser babá de um pestinha, consegui este emprego com uma vizinha da minha mãe, que lavava roupa para a mãe dele.” Pondera-se também que, novamente, o trabalho externo ao domicílio foi conseguido por intermédio da indicação de um vizinho.

  219

  O trabalho do menor, que, em 1957, achava-se regulamentado pelas leis trabalhistas, não estava sendo respeitado pelo empregador de Fátima, segundo esta depoente relata: “[...] tinha quatorze anos quando comecei a trabalhar lá, mas não fui registrada.” Compreende-se, então, que muitas vezes a lei ficava apenas no papel, não sendo aplicada na prática; nestes casos, unicamente a exploração se fazia presente.

  A indagação levantada em relação à entrega do envelope de pagamento para o pai de Fátima foi respondida no final de sua fala: “[...] eu dava o envelope do pagamento em casa, para o meu pai [...].” Este, como todo patriarca português, o recebia e utilizava para as despesas da casa, buscando suprir todas as necessidades da família.

  Glorinha teve a experiência de coletar papéis e papelões. Embora este trabalho de coleta não fosse regulamentado, propiciou a ela a possibilidade de auxiliar a família financeiramente, conforme comenta em seu depoimento: “[...] eu não tenho vergonha de falar, tenho orgulho, eu catei papel na rua para ajudar os meus pais, toda a vida eu trabalhei para ajudá-los, disso eu me orgulho

  221

  muito.” Neste fragmento, examina-se a clara identidade de propósitos que ela demonstrou, porque, acreditando em si mesma, na força do seu trabalho, na honestidade das suas intenções, pôde desabrochar as suas virtudes pessoais, propiciando o seu desenvolvimento, como ela diz: “[...] eu não tenho vergonha de falar, [...] toda a vida eu trabalhei para ajudá-los [aos pais]. Disso eu me orgulho muito.”

  De todas as entrevistadas, a única que iniciou o trabalho extradomicílio em uma tecelagem foi Viga. Sobre o trabalho das tecelãs tratar-se-á a seguir.

  221

  4.2 CRUZANDO OS FIOS – AS TECELÃS

  

FIGURA 6 – Grupo de tecelãs em frente à tecelagem Mariangela Matarazzo. Glorinha é a primeira, da

esquerda para a direita, abaixada. Fonte: Álbum de família da entrevistada.

  A mulher, ao se dedicar às atividades profissionais, tinha como objetivo contribuir para a renda de sua família. A atividade de tecelã, dentre as formas possíveis de participação operária feminina, assumia grande importância em seu cotidiano profissional.

  Espera-se que, por meio dos relatos sobre as experiências nas tecelagens, as entrevistadas possam deixar transparecer como desempenhavam sua função, quais eram as suas expectativas e atitudes em relação ao chefe e ao ambiente de trabalho e quais eram os elementos determinantes do cotidiano feminino quanto às representações sociais e às decorrências das situações econômicas ou não.

  A partir desse momento, busca-se traçar um diálogo com os vários

  222

  depoimentos, iniciando-se com o de Clarinha :

  Eu saí da gráfica e, em junho de 1948, fui para a tecelagem, por indicação de um vizinho da minha mãe. Entrei para a Mariângela Matarazzo. Ele fez o seguinte comentário, que me lembro até hoje, “na Matarazzo ela aprenderá o ofício de tecelã, que dá mais dinheiro e é melhor que dobrar papel para fazer caixas”.

  Neste fragmento, pode-se identificar algumas necessidades expressas pela depoente, como o apoio da mãe na mudança de emprego, a melhor remuneração e o aprendizado de um ofício, o de tecelã, mesmo que este exigisse o mínimo de especialização técnica.

  “ A Mariângela Matarazzo situava -se ao lado da porteira do Brás, na rua

  Fernandes Silva, perto da rua São Caetano. Ali, era tudo Brás antigamente.” Esta empresa pertencia ao grupo das Indústrias Reunidas Francesco Matarazzo (IRFM) e abrangia a fiação e tecelagem de fios de algodão, lã e seda. Iniciou suas atividades em 1920 e as encerrou na década de 50. Clarinha e outras jovens foram contratadas por esta empresa como aprendizes e, mais tarde, se tornaram tecelãs, auxiliando os seus lares, que dependiam dos salários do complexo

  223 industrial.

  No início, eu era aprendiz de tecelã. A gente ficava perto dos teares. A gente tinha que aprender a colocar a espula na lançadeira, que era como uma barquinha. Depois, tinha que passar o fio, tudo direitinho. Como arrebentavam muitos fios, ensinaram a gente a emendá-los, mas tinha que ter muito cuidado. A lançadeira ultrapassa de um lado para o outro e, na ponta, tinha uma bolinha de ferro, um fio quebrado, e essa ponta poderia passar e machucar a pessoa que estivesse do outro lado, o que aconteceu muitas vezes. Muitas moças se machucaram porque a lançadeira escapava do tear e batia naqueles fios, porque os fios estavam errados, o que fazia levantar um fio antes 222 do outro. Nesse movimento, a lançadeira escapava e batia nos braços, deixava hematomas e a pessoa era encaminhada para o médico que ficava lá o dia inteiro, junto com a enfermeira que o acompanhava. Também havia farmácia na tecelagem.

  Clarinha relata que inicialmente era aprendiz e que o aprendizado se fazia por meio da observação direta ao trabalho das mestras junto ao tear. Estas auxiliavam as novatas e as advertiam quanto aos cuidados que deveriam ter ao movimentar o tear e produzir o tecido.

  Ao explicar como era o funcionamento do tear e a sua função junto a este aparato, a depoente possibilita que se imagine o que acontecia às jovens desatentas durante o trabalho. Contudo, não cogita a hipótese de os acidentes terem ocorrido por falta de manutenção nos equipamentos, conferindo às tecelãs a culpa pelos ferimentos.

  O salário era por hora. Acho que era um real e cinqüenta mil réis, sei lá como se fala hoje! Trabalhava oito horas por dia, com uma hora para o almoço. Eu trabalhava das oito às cinco horas da tarde. Na tecelagem, a gente entrava como aprendiz e ficava lá como tecelã até ser dispensada ou sair. Eu trabalhei sempre no mesmo tear.

  Clarinha informa também a quantidade de horas trabalhadas e o intervalo para o almoço. Acaba tecendo um panorama das melhorias no trabalho em relação à jornada diária, que, inicialmente, na fundação da tecelagem, era de doze a quatorze horas, passando, em 1948, ano em que foram feitas reformas nas leis trabalhistas, a ser de oito horas diárias.

  Observa-se certa decepção da depoente em relação à ausência de promoções na tecelagem, como expõe: “[...] a gente entrava como aprendiz e ficava lá como tecelã até ser dispensada ou sair.” Relata, ainda, que “As condições internas da tecelagem eram boas. Estava sempre limpa, havia exaustores que sugavam a poeira. Era tudo muito claro e aberto para ventilar bem.” Este excerto possibilita conhecer o interior da tecelagem e indica que dispersão das minúsculas partículas dos fios que envolviam o cenário de trabalho e poderiam provocar intoxicações respiratórias, bem como doenças pulmonares

  224 e oculares.

  Lá, eu vi um acidente feio, com os motores das máquinas dos teares. Uma daquelas rodas pegou o cabelo da moça, mas ela foi a culpada, porque ela abaixou a cabeça e esqueceu da volta da correia, e a correia prendeu o cabelo dela. Na verdade, nós usávamos uniforme, que era um avental comprido, bem fechado, que ia quase até os pés e um lenço na cabeça. O avental era branco com uma faixa azul e o lenço da cabeça era azul. Uma funcionária nos ensinava a colocar o lenço para que nenhum fiozinho de cabelo ficasse solto por causa dessa roda, a roda que ficava em volta da máquina. Mas ela não colocou o lenço. Não chegou a arrancar muito cabelo, mas ficou ferida, inchada mesmo. Foi levada para o pronto socorro dentro da própria tecelagem. No final do dia, ela voltou a trabalhar normal. A sua fronte estava vermelha com a marca dos fios de cabelo arrancados.

  Embora a depoente retrate um ambiente de trabalho adequado, nota-se a falta de segurança das máquinas, devido à quantidade de teares, à sua disposição de forma paralela e à proximidade de uma em relação à outra, não havendo espaço para a movimentação das pessoas. Assim, um leve descuido tornaria o acidente inevitável.

  Quando Clarinha, de certa forma, indicava a distração da colega como motivo do acidente, ela acabava por incorporar o discurso do patrão, isto é, trabalhar em silêncio para produzir muito. Mas o acidente foi significativo, o que pode ser percebido por meio do relato dos pormenores recordados com primazia.

  Verifica-se, ainda, a descrição do uniforme de trabalho e a riqueza de detalhes com que foi delineado. Foram lembrados particularmente as suas cores,

  224

MATOS, Maria Izilda Santos de. Trama e Poder: a trajetória e polêmica em torno das indústrias o lenço que deveria prender todo o cabelo da funcionária e o comprimento do avental, que mantinha a roupa da funcionária livre de pó.

  Na seção, nós não podíamos conversar porque não podíamos nos distrair. Havia um encarregado e um ajudante. Se algo acontecesse com o tear, a gente o chamava. Fora eles, havia o senhor Augusto, o chefe que sempre passava entre os teares, verificando se estava tudo bem, tudo bem arrumado.

  Além da tensão do próprio trabalho, havia a inspeção contínua do chefe. Pode-se perceber que às mulheres cabia a execução do trabalho delicado, fácil, que não requeria força física ou capacidade de liderança no seu desempenho. No

  225

  máximo, lhe era exigido paciência e atenção. Nessa divisão de trabalho, o gênero masculino era representado pelo chefe, pelo mestre ou pelo ajudante que detinha o conhecimento especializado e a capacidade de liderança e julgamento.

  Uma vez, o sindicato queria aumento e não saía acordo. Aí os tecelões, porque a metade dos funcionários eram homens e a outra metade eram mulheres. As mulheres teciam os panos mais finos e os homens teciam os mais grossos, como colchas e cobertores. Eu não entendia muito bem o negócio de sindicato porque nunca fiz parte de greve e nem participei de sindicato. Então, os homens cismaram e aderiram à greve por conta do aumento salarial, e a gente [as mulheres] continuava trabalhando. Então, eles faziam umas bolas de algodão e atacavam na gente para pararmos com os teares. Os homens vinham e atacavam mesmo, fazendo todo o mundo parar os teares e eu ficava feito besta sem saber o que fazer... Ao atirarem as bolas nos teares, rompiam-se as linhas e tínhamos que ficar um tempão remendando as linhas, fio por fio.

  A subordinação da representatividade feminina estava inserida de tal forma neste contexto que as mulheres continuavam a trabalhar. Mesmo sendo estimuladas a parar, elas emendavam os fios para que o tear voltasse a tecer. O 225 benefício da política salarial, que, de certa forma, melhoraria os vencimentos de todos, homens ou mulheres, passava ao largo das funcionárias e era tido como algo distante, sem significado para elas. A esse respeito, Clarinha comenta: “[...] o sindicato queria aumento, eu ficava feito besta sem saber o que fazer”, e afirma que “[...] os homens cismaram e aderiram à greve por conta do aumento salarial”, deixando transparecer que a política, o salário e a própria greve eram “ coisas” de homem. Portanto, as mulheres não teriam a necessidade de parar as máquinas, tampouco de apoiar a greve.

  Nessa tecelagem, fiquei até 1951. Eu queria mudar porque trabalhava muito longe. Eu queria ficar mais perto de casa, por causa da condução, porque começou a movimentar os ônibus e o trem passou a vir muito lotado. Se eu viesse de ônibus, tinha que pegar dois, e o bonde encareceu também. E conversando com o meu pai, ele me falou que, ali em Santana tinha uma tecelagem. Nós fomos até lá e eu vim trabalhar em outubro na Irmãos Moussalli [...].

  A mudança proposta por esta depoente veio inserida no próprio processo de transformação dos meios de transportes. Inicialmente, os bondes elétricos trafegavam com os recursos técnicos e o apoio financeiro da Light, mas, em 1947, o monopólio dos transportes coletivos passou para a então criada CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos). As tarifas permaneceram inalteradas por 36 anos, mas os ônibus e os trólebus concorriam privilegiadamente com os bondes. Aqueles, mais rápidos e eficientes, foram lentamente fazendo os bondes se tornarem peças de museu. Em 1960, ocorreria

  226 o fim deste transporte barato e não poluidor.

  226

  Mediante as dificuldades apresentadas quanto à locomoção para chegar ao trabalho e com o apoio do pai – que percebeu que a diferença a ser paga no transporte afetaria os ganhos de sua filha –, Clarinha abandonou seu trabalho. Seu pai, então, lhe indicou uma tecelagem mais próxima, a Irmãos Moussalli, aonde a depoente viria a trabalhar.

  [...] quanto à Mariângela, tirei férias, recebi, não cumpri o aviso prévio porque estavam de mudança no prédio. Estávamos antes no segundo andar e o assoalho balançava muito. Os donos ficaram com receio porque os motores eram muito grandes e os teares ficavam trepidando ali. Então, descemos para o andar de baixo e no andar de cima ficou o almoxarifado. Durante esse movimento, eu conversei com o senhor Augusto, e ele falou: “

  Se a sua vontade é s air, eu aceito.” Por outro lado, também eu não queria trabalhar junto com aquele pessoal que produzia sacos de juta. Juta é aquele saco de pano amarelo, que solta um pó danado. Juntando a distância, o pó, os ônibus, a conversa com o meu pai e agora com a minha mãe, saí da Mariângela e comecei na Irmãos Moussalli.

  Em outro momento de seu depoimento, Clarinha revela que o ambiente, aparentemente seguro, da Tecelagem Mariângela Matarazzo parecia estar ruindo, talvez por falta de manutenção e assistência. Os teares e os motores, então, mudariam de andar, e a fabricação de juta ficaria no mesmo piso que as outras produções, o que certamente traria transtornos para os empregados que não estavam acostumados com a poluição proveniente da trama desse tipo de fio.

  Vale lembrar também que, nesta época, o Império das Indústrias Francesco Matarazzo passava por um processo de declínio financeiro, talvez um indicativo da ausência da conservação do prédio pelos herdeiros. Mas, longe de exigir a paralisação da produção, na época da instalação das indústrias Matarazzo, as fábricas do conde eram “mais seguras, proporcionavam um ambiente menos desagradável de trabalho”.

  227 Na tecelagem Irmãos Moussalli, eu era tecelã, tecia cobertores e colchas, enquanto na Mariângela, eram tecidos finos como o algodãozinho e o zefir, que hoje se chama xadrezinho. O xadrez era de todo o tamanho e cor. Tinha bastante algodão. Nessa outra, especificamente, tinha cobertores e colchas, mas eu trabalhava tecendo cobertores. Os homens trabalhavam em uma seção específica, sem se misturar com as mulheres.

  Esta exposição de dados propõe uma distinção entre a Tecelagem Mariângela e a Irmãos Moussalli. Enquanto na primeira cabia às mulheres a trama dos fios mais finos, produzindo peças de seda, alpaca, rayon, cetim e algodão, na segunda a entrevistada passaria a tramar nos teares os tecidos mais grossos e pesados, sendo a responsável pela produção de cobertores e colchas, trabalho que anteriormente era executado pelo gênero masculino. Talvez o fato de Clarinha ter passado a manusear o tear com fios mais espessos tenha feito com que seus braços se tornassem mais torneados e fortes.

  O ambiente era bom, limpinho, tinha refeitório e exaustor. Eles eram bem responsáveis, tanto que quando chegavam os tubos de lã para a gente trabalhar, soava uma sirene que era o aviso para ninguém sair para fora, porque era perigoso. Se saíssemos, poderíamos nos machucar. Nesse trabalho, só ficavam os homens que trabalhavam com os tubos e com as caldeiras que tingiam o material. E nenhum outro funcionário saía. Somente depois da partida do caminhão é que poderia sair para ir ao banheiro, beber água, etc.

  O fragmento acima demonstra a preocupação dos empregadores com a disseminação de doenças decorrentes de espaços mal ventilados, sujos e propícios a contaminações coletivas. Davam importância, ainda, à manipulação do material por pessoas “especializadas” e, por conseguinte, à questão da segurança. “Nenhum outro funcionário saía” do ambiente em que se encontrava quando os carregamentos chegavam, devido ao perigo dos caminhões e do manuseio dos tubos de lã e das caldeiras de tingir.

  Eu saí da Irmãos Moussalli porque faltava muito material e eu ganhava por produção. Quanto mais cobertores fazia, melhor era o meu salário. Fiquei muito brava, zangada mesmo, com o meu chefe, porque eu precisava trabalhar, ajudar o meu pai e a minha mãe. Como eu ia fazer, assim? Então, depois de alguns dias, conversei com o chefe, e ele brincava comigo, falando: “Tão bonita e tão brava.” Mas isto de nada adiantou.

  Uma vez que recebia o salário de acordo com a sua produção, Clarinha não poderia aceitar a falta da matéria-prima para manter o tear funcionando, pois tinha a necessidade de auxiliar a sua família no pagamento de suas despesas. Assim, a família, de certa forma, acabava produzindo a condição necessária para a integração da mulher no mercado de trabalho e lhe imputando a contribuição financeira. Então, quando ela percebia que não estava correspondendo à expectativa de seus familiares, se sentia frustrada e impelida a buscar um novo local de trabalho, renovando as suas esperanças e as de seus genitores. Nem os gracejos do chefe fizeram-na desistir do seu objetivo.

  Em julho, saí da Irmãos Moussalli e, em agosto de 1952, fui trabalhar na tecelagem Santa Catharina, como tecelã, situada na Avenida Cantareira, bem próximo de casa. Eu ia e voltava a pé da minha casa. Ali, eu produzia tecidos como a seda, tafetá, cetim, tecidos finos e leves e seda pura muito bonita. Só trabalhavam mulheres, senhoras e moças.

  As tarefas das tecelãs eram repetitivas e monótonas, e o aumento da produção decorria da mera prática no desempenho junto ao tear. Clarinha, que agora executava esse ofício na tecelagem Santa Catharina, relata uma vantagem referente ao seu novo local de trabalho: a proximidade deste com relação à sua moradia. A jovem, a partir de então, não precisaria mais usar o transporte coletivo, pois caminharia pelo trajeto casa-trabalho e vice-versa, inclusive em seu horário de almoço.

  Na tecelagem Santa Catharina, Clarinha voltou a tecer fios mais finos, produzindo tecidos leves em companhia de colegas do sexo feminino de diferentes idades.

  Os teares eram todos do mesmo tipo tanto da Mariângela como da Irmãos Moussalli como da Santa Catharina. A única coisa é que a trama na última era a seda, enquanto na Mariângela tinha um varão que trocava os fios para tecer o cobertor e, na Santa Catharina, era uma manivela que era utilizada para tocar os fios da seda. O horário de trabalho era das sete às cinco horas, com uma hora e meia de almoço. Eu vinha até em casa, almoçava e depois voltava. Todas nós éramos registradas. Deveríamos trabalhar e produzir bastante.

  Durante a sua entrevista, Clarinha reflete sobre o tipo de tear em que trabalhou. Deduz, assim, que os teares das tecelagens eram semelhantes, apresentando somente um detalhe que os diferenciava. Na Santa Catharina o tear era movimentado por uma manivela para tecer os fios de seda, enquanto na Mariângela este movimento era produzido por um varão, que era utilizado para trocar o tipo de trama, fina ou mais grossa.

  Reforça também o cumprimento das leis trabalhistas pelos empregadores, relatando sobre o registro em carteira para todas as funcionárias.

  Lá, quem lidava com o sindicato eram: os mestres, os contramestres, isto é, os “chefões”, porque as mulheres não se metiam com isso não. Na tecelagem Santa Catharina, cada tecelã tinha a obrigação de cuidar de seu tear. A gente varria tudo ali. Assim, às 16h45 paravam os teares. Então, a gente limpava todo o tear, em cima em baixo, tirava todo o pó. Havia uns saquinhos em que a gente colocava toda a poeira ali. Pela manhã, passava o coletor e pegava todos eles. A gente passava até pano em volta. Eu saí da tecelagem em 1954, depois das férias, saí porque me casei.

  Neste trecho da entrevista, Clarinha comenta sobre a representatividade masculina nas relações de trabalho: “Lá, quem lidava com o sindicato era só os

  mestres, os contramestres, os ‘chefões’, porque as mulheres não se metiam com isso não.” Ao mesmo tempo, explica as tarefas das tecelãs, justificando e reafirmando o seu papel feminino em casa e no trabalho: “[...] cada tecelã tinha a obrigação de cuidar de seu tear. A gente varria tudo ali [...] limpava todo o tear, em cima em baixo, tirava todo o pó [...], passava até pano em volta.” Em seguida, reforça a ocupação feminina na função de dona-de-casa: “Eu saí da tecelagem em 1954 [...] saí porque me casei.”

  228

  Já Helena , sobre as tarefas que desempenhou profissionalmente, relata: “Depois da oficina de guarda-chuva, eu continuei a trabalhar perto de casa, ali entre a Água Fria e o Tucuruvi, numa tecelagem. A minha atividade era fazer tecidos.” Assim como outras jovens, Helena, com dezoito anos, começou a trabalhar em uma atividade que nada ou pouco tinha a ver com aquela desempenhada pelas tecelãs. Mas, com o passar do tempo, a produção têxtil foi se desenvolvendo em grande escala e muitas tecelagens foram estabelecidas no mercado, favorecendo o emprego da mão-de-obra feminina. Muitas jovens, então, se tornaram tecelãs.

  A seguir, esta depoente descreve o seu então novo campo de atuação:

  Na tecelagem, havia aquelas carretilhas, o tear era como uma máquina elétrica que a gente ligava e ia tecendo. Os tecidos variavam entre a seda, o algodão, tudo o que tivesse para acabar as carretilhas (só que não era bem esse nome, mas eu não me lembro agora).

  Helena busca, em suas reminiscências, detalhes quanto ao modo de operar o tear, destacando o uso de teares elétricos: “[...] o tear era como uma máquina elétrica que a gente ligava e ia tecendo.” Este tipo de aparelho, em sua versão elétrica, provavelmente, acelerava a produção, principalmente dos 228 tecidos leves, tais como a seda e o algodão.

  Tínhamos sempre que trocar após tecer a carretilha tinha que ser substituída. Conforme a cor utilizada, era assim, se a carretilha estivesse com fio branco, só podia tramar com este até acabar. Se fosse azul, o processo era o mesmo. Havia desenhos nos tecidos, mas já estavam programados para serem formados. No tear, havia uns ganchinhos que ele próprio ia modificando e trabalhando na horizontal, sempre nessa posição. Às vezes, trabalhava com duas ou três cores, mas era comum tramar com uma cor só. No colorido, era como as roupas de agora de um lado tem amarelo, vermelho, branco, com motivos e cores paralelas.

  A entrevistada, portanto, lembra de outra inovação. Agora, as tecelãs podiam trabalhar com uma única cor ou com diversas cores, embora ainda fosse mais comum o uso de uma só cor, conforme Helena relata: “No tear, havia uns ganchinhos que ele próprio ia modificando e trabalhando na horizontal, sempre nessa posição. Às vezes, trabalhava com duas ou três cores, mas era comum tramar com

  

uma cor só .” Com as novas máquinas, podia-se, ainda, executar desenhos nos

  tecidos em baixo ou alto relevo: “Havia desenhos nos tecidos, mas já estavam programados para serem formados.”

  Tínhamos horário de entrada e de almoço. O almoço eu levava pronto de casa, marmita, que aquecia lá. Depois, comia, descansava, conversava com os colegas. Depois, ouvíamos o apito e começávamos a trabalhar. Cada um ia para o seu serviço.

  Helena destaca o cumprimento das leis trabalhistas quanto ao horário de trabalho e ao descanso para o almoço, lembrando também do soar do apito, que interrompia o repouso das funcionárias da tecelagem e as alertava para o retorno às suas respectivas atividades.

  Mas havia um senhor muito educado, tipo de um gerente, uma pessoa de cargo superior, que percorria todo o salão para saber

das necessidades de cada máquina. Durante o trabalho, podíamos conversar, um pouco, não assim de atrapalhar o trabalho, só conversar assim: “Ei fulano, como você está? Está gostando do trabalho?” Não podíamos parar ou máquina estava ligada e continuava a trabalhar sem nada. Perdia-se todo o trabalho, e se o gerente visse isto acontecer, agia com severidade, chamava a atenção, mas também era o direito dele.

  Neste trecho do depoimento de Helena, destacam-se a sua disciplina e o tom respeitador com que se refere ao “senhor” que era o seu superior na tecelagem: “Durante o trabalho, podíamos conversar, um pouco, não assim de atrapalhar o trabalho [...] se o gerente visse isto acontecer, agia com severidade, chamava a atenção, mas também era o direito dele.” Pode-se perceber também que o homem no papel de gerente fora orientado para atender às necessidades da produção, verificando o bom funcionamento das máquinas da empresa. Nas entrelinhas, observa-se que as pessoas estavam em segundo plano, como em qualquer linha de produção que visava à venda aos mercados externo e interno: “

  Havia um senhor [...] que percorria todo o salão para saber das necessidades de cada máquina.”

  Não me recordo de usar uniforme ou se havia algum cuidado com os cabelos e com a cabeça. Não me lembro de qualquer detalhe nesse sentido. Não me recordo de tirar férias, mas trabalhei lá em torno de quatro ou cinco anos, não mais que isso. Nem do valor do salário eu recordo. Mas me lembro que tinha que entregá-lo todo em casa, porém nunca me faltou nada porque eu comia, me vestia, o meu pai me levava ao dentista, comprava remédios, o meu pai cuidava e acertava tudo, não tinha nenhum problema.

  Diante das incertezas da entrevistada, pode-se supor que o uso de uniforme, na década de cinqüenta, não era uma questão de obrigatoriedade, mas sim um item de segurança para as funcionárias. No entanto, o fato de Helena não se recordar se as tecelãs trabalhavam uniformizadas ou não talvez indique que ela não o interpretava desse modo.

  Em seu depoimento, aponta, ainda, que, assim como a maioria das filhas de imigrantes portugueses, sempre entregava todo o seu salário nas mãos do pai, que o gerenciava e utilizava, junto com os demais ganhos da família, para suprir as despesas domésticas. Portanto, pode-se sugerir que Helena não se lembra do valor do seu salário porque este não era um fator significativo para ela, já que quem administrava os seus ganhos era o seu pai, conforme afirma: “[...] me lembro que tinha que entregá-lo todo em casa, porém nunca me faltou nada porque eu comia, me vestia, o meu pai me levava ao dentista, comprava remédios, o meu pai cuidava e acertava tudo, não tinha nenhum problema.”

  Nos teares, só trabalhavam mulheres, mas havia um homem que cuidava das coisas mais pesadas, além do gerente. O homem era responsável por pegar as peças prontas que eram pesadas, além de receber o material que chegava e acondicioná-lo no lugar adequado para depois passá-lo para nós. Ele também enrolava as peças prontas. Tinha um carrinho para conduzi-las porque o volume era muito grande.

  Neste fragmento, a entrevistada enfatiza a presença de mulheres no trabalho com os teares. Acreditava-se que a mulher estava mais apta a desempenhar esta atividade devido às próprias características do ofício de tecelã, que requer atenção e habilidade, dispensando a força física, requerida ao homem no desempenho de suas funções, conforme Helena relata: “O homem era responsável por pegar as peças prontas que eram pesadas [...]. Tinha um carrinho para conduzi-las porque o volume era muito grande.”

  Não tínhamos um clube para freqüentar e nem a fábrica promovia excursões. Eu nunca presenciei ou soube de algum acidente lá, bem como nunca soube de alguém se aposentar lá. Nunca conheci os meus patrões e nem os vi por lá.

  Assim, observa-se que não havia interesse por parte da tecelagem em promover o entrosamento entre os funcionários, contratando um público só para produção. Helena relata, ainda, que não ocorriam acidentes na empresa e que afirma também que não conheceu seus patrões: “Nunca conheci os meus patrões e nem os vi por lá.”

  Esse gerente e mais um casal trabalhavam nos fundos, tipo escritório, bem escondido. Sabe, com o nosso barulho nos teares, eles precisavam de sossego para poder trabalhar, porque o barulho dos teares assusta e faz mal para o ouvido, mas eu nunca tive problema de audição, até hoje. Eu e todas as outras colegas não sabíamos quem era o patrão, mas eu acho que tanto o gerente como o patrão eram pessoas conscenciosas, porque não havia desavenças ou maus tratos, nem nada. Nenhuma colega reclamava de nada, pelo menos enquanto eu trabalhei lá. Nunca soube de sindicato algum.

  No decorrer da entrevista, Helena vai se lembrando dos pormenores do trabalho da tecelagem, como a presença de possíveis contadores, ou guarda- livros, que tratavam da admissão e da dispensa de funcionários, do balanço, enfim, da contabilidade da empresa. A entrevistada lembra, ainda, do barulho característico dos teares em funcionamento, da necessidade de um local silencioso para o gerente trabalhar e da ausência de intervenções sindicais ou de queixas por parte das trabalhadoras. Pode-se inferir, assim, que as condições de salubridade na tecelagem em que trabalhava não eram boas – uma vez que o som constante e alto dos teares poderia prejudicar a audição das tecelãs – e que a ausência de queixas se devia, possivelmente, à dificuldade de se conseguir emprego no período pós-guerra.

  Pela tecelagem, não fiz nenhum curso. Eu, no começo, era aprendiz, depois fui ser tecelã. Eu acho que não havia promoção na tecelagem, só podíamos trocar de máquina [tear], mas o serviço era todo igual. Eu acredito que tudo indicava que o interesse dos meus patrões era produzir as peças de tecido em grande quantidade, para depois vendê-las para as lojas. Só poderia ser isso. Eu não procurei outro tipo de ocupação, aquela era boa, era tudo limpo, era perto da minha casa, andava menos que um quilômetro, eu levava o almoço feito em casa, naquelas marmitas de alumínio, era tudo muito bom.

  Portanto, não havia interesse, por parte da tecelagem, em proporcionar ou incentivar a participação de seus funcionários em cursos de especialização. Helena indica, ainda, que a sua função e a de suas companheiras de trabalho era produzir muito, rápido e com qualidade, sem desperdícios. A depoente relata também que a proximidade do seu lar em relação à tecelagem e a higiene mantida em seu ambiente de trabalho fizeram com que ela se acomodasse em relação aos seus objetivos profissionais: “Não havia promoção na tecelagem, só podíamos trocar de máquina [tear], mas o serviço era todo igual. [...] Eu não procurei outro tipo de ocupação, aquela era boa, era tudo limpo, era perto da minha casa [...].”

  Em seguida, Helena afirma: “Eu gostava do meu trabalho. Quando eu saí tinha quase vinte e cinco anos. Eu saí para ir para o convento e ser religiosa.” Diante de tal relato, pode-se perguntar: a escolha pelo celibato, pela vida religiosa, teria sido voluntária, movida pela fé, ou não? Mais adiante, no próximo capítulo, tratar-se-á desse assunto.

  229

  Glorinha , por sua vez, também sobre as tarefas que desempenhou profissionalmente, declara:

  A minha irmã estava trabalhando na tecelagem Mariângela Matarazzo e me levou para trabalhar lá, depois fui para a Irmãos Moussalli e fiquei trabalhando lá até fechar a tecelagem. Primeiro, os irmãos venderam e os compradores fecharam e nem pagaram a indenização dos funcionários. Em seu depoimento, Glorinha reafirma a tendência da indicação para a conquista do primeiro emprego: “A minha irmã estava trabalhando na tecelagem Mariângela Matarazzo e me levou para trabalhar lá.” A indicação era uma prática comum até para os próprios imigrantes portugueses, que, muitas vezes, vinham ocupar funções no Brasil que haviam sido recomendadas por algum parente ou conhecido. Podia-se, assim, possibilitar aos familiares da terra natal certa segurança quanto ao local de trabalho e ao paradeiro do seu descendente em terras de além mar.

  O meu primeiro emprego foi na Mariângela, em 1950. Eu lá era tecelã, eu no tear era “um negócio”, tinha uma cabeça muito boa, foi lá que me ensinaram a tocar o tear, a trocar as linhas, mas depois fui para a tecelagem dos Irmãos Moussalli, que ficava perto de casa. Na Mariângela, eu era aprendiz de tecelã.

  Assim, percebe-se que a mulher seguia os mesmos caminhos do contingente profissional da sua época. Ao se tornar uma tecelã, ela acabava seguindo o papel feminino considerado adequado pela sua família.

  Nesse sentido, Glorinha, influenciada pela irmã e pela sociedade, ingressou no mercado de trabalho em uma tecelagem. Uma vez que sua família não podia contribuir em seus estudos, o que a estimularia a exercer uma outra atividade remunerada, reafirmava como ideal a sua atividade profissional, que não requeria formação, apenas a observação e a produção.

  Eu tinha uma amiga que faleceu há pouco tempo, que era amiga mesmo, aquelas do peito. Tudo que faltava aprender dentro de uma tecelagem, foi ela quem me ensinou. O senhor Pedro, o dono da Irmãos Moussalli, tinha um caso com ela, mas foi recentemente que eu soube, mas vida particular é particular.

  Assim, Glorinha revela a amizade e a gratidão em relação à amiga. Em Moussalli era agradável e afetivo, já que proporcionou a constituição dessa relação de amizade, embora a produção em grande escala estivesse em primeiro plano. Além disso, a entrevistada relata a sensualidade expressa entre patrão e empregada – “o senhor Pedro [...] tinha um caso com ela” –, ao mesmo tempo em que justifica – “mas vida particular é particular”.

  Ele a chamou e falou: “Maria, eu tenho uma menina aqui, que não sei se a ponho no tear ou na engrupina”, que era onde se emendavam os fios no tear. Nós três demos uma volta pela tecelagem, que era enorme, então, ela me perguntou: “Você sabe tocar um tear?” “Eu sei”, disse, e ela: “Então, toca esse tear aqui onde não tinha ninguém.” Eu retruquei: “Mas não tem linha.” “ Como você sabe?” “É porque, com a lançadeira, você faz assim e leva o fio para cá e para lá.” “Nossa, você sabe mesmo!” “É porque eu aprendi, por isso estou falando.” Eu fui para o tear, verifiquei a lançadeira, coloquei a bobina [o rolo de fio] e teci um pedaço grande. “Você, garota, como você é, sabe mesmo

lidar com o tear.” “Eu aprendi, né.”

  A seu modo, a depoente conta que foi colocada à prova. Maria, que se tornaria sua amiga, a testou para saber se a jovem realmente entendia como manejar o tear, colocar a bobina e tecer, dando produção aos fios.

  Ela cochichou com o Senhor Pedro e eu perguntei: “Eu como fico?” Ela respondeu: “Vem comigo”, me levando para outra sala que tinha a engrupina. Lá conheci a Rita, a Dirce e umas outras, que não me lembro agora. Elas me perguntaram o meu nome e eu o delas. A Maria me perguntou: “Você quer trabalhar onde?” Eu falei: “Tanto faz, eu preciso é trabalhar porque tenho muitos irmãos e preciso ajudar em casa.” Ela falou: “Então, eu vou te ensinar tudo direitinho e você vai trabalhar na engrupina.” A engrupina funciona assim, aqui tem o tear e o rolo, a gente punha como uma régua, assim, e prende todos os fios e aí você pega uns quatro fios e vai emendando, formando um ponto diferente. Na minha época, era assim. Depois, você vai na frente e puxa o rolo, depois volta e verifica se quebrou algum fio. Se quebrou, volta e emenda, se não, é só passar o fio na... do tear, esqueci o nome, porque é assim, você tem que deixar em ordem para o tecelão trabalhar. Glorinha conta sobre a engrupina e o seu funcionamento, transmitindo tudo o que conhecia sobre essa peça que facilitava o trabalho da tecelã, produzindo diferentes pontos no tecido. Na produção dos fios a depoente já havia obtido experiência, mas este “novo” equipamento despertou seu interesse e desempenho.

  Eu entrava às sete horas da manhã para trabalhar, saía às 11 horas para almoçar e voltava às 12h30, saindo para casa às 16h30. Eu não me lembro de tirar férias, porque sempre trabalhei direto, recebia, mas continuava trabalhando. Não podia parar, né.

  Assim, pode-se verificar que o horário de trabalho relatado por Glorinha estava em consonância com o determinado pelas leis trabalhistas, ou seja, oito horas diárias de jornada com intervalo para o almoço. Porém, a entrevistada comenta também que não se lembra de ter tirado férias, apenas de ter trabalhado direto, o que permite inferir que algumas operárias recebiam as férias, mas continuavam prestando seus serviços à tecelagem, recebendo, assim, um segundo salário no mês e incrementando os ganhos familiares.

  Quando mudei para Santana, na Rua Alferes Magalhães, próximo do Exército, tinha uma tecelagem grande, mas eu não me lembro do nome, desculpe, e o gerente soube que eu era engrupinadeira. Então, eu chegava em casa às 17h30, tomava água ou café, comia algo, saindo em s eguida para esta tecelagem. Ficava trabalhando até uma ou duas horas da manhã, arrumando e fazendo os rolos para o tecelão trabalhar no dia seguinte.

  Glorinha, então, assumiu mais uma responsabilidade, provando que era capaz de prover seu lar. Contudo, pode-se perceber em suas palavras que seu papel no contexto familiar estava em segundo plano, já que aquele que deveria receber maior importância era o de provedor da família exercido pelo pai, ou seja, pela figura masculina, à qual se devia respeito e obediência.

  Ao receber o salário, entregava-o todo na mão da minha mãe. Eu nunca mexi no meu salário. Do jeito que me entregavam no papel, só conferia se estava certo, e o entregava para a minha mãe. O meu pai, quando eu trabalhava nessa outra tecelagem, ele falava assim para mim: “pouco me incomoda donde ganhas este dinheiro, se ganhas mesmo trabalhando ou se o ganhas ali atrás dos muros, dando o rabo.” Mas o meu dinheiro era honesto, graças a Deus.

  A obediência e a submissão ao mais velho, mais uma vez, são demonstradas em seu depoimento: “Ao receber o salário, entregava-o todo na mão da minha mãe. Eu nunca mexi no meu salário. Do jeito que me entregavam no papel, só conferia se estava certo, e o entregava para a minha mãe.” Verifica- se, ainda, que, embora trabalhasse honestamente, uma jovem, nas décadas de cinqüenta e sessenta, que chegasse tarde no lar paterno era vítima de maledicências. No entanto, isto não afetava Glorinha, que justifica: “mas o meu dinheiro era honesto, graças a Deus.” Percebe-se, assim, que esta depoente, assim como muitas mulheres de sua e de outras gerações, buscava conforto na fé diante das difamações a ela dirigidas.

  Em seguida, a depoente relata: “Deixei de trabalhar para viver junto com o meu companheiro. Vivemos juntos quase quarenta anos felizes.” Portanto, em meados da década de sessenta, Glorinha deixou o lar paterno e a tecelagem para tornar-se dona-de-casa.

  230

  Já Viga , sobre suas experiências como tecelã, comenta:

  Eu comecei a trabalhar na tecelagem das 8 até às 17h30, porque nós tínhamos uma hora e meia de almoço. Lá, eles serviam leite porque a tecelagem fabricava linho e, por causa do pó, às vezes, eles serviam leite com groselha. Eu almoçava em casa, porque era bem perto. Sabe, sempre passava por lá o comando para saber se havia menor trabalhando, porque o menor podia trabalhar até certa hora, porque era assim que estava na lei. Mas quando eu era menor, antes dos quatorze anos, eu trabalhava e, muitas vezes, fiquei escondida no banheiro para o comando não me pegar. Viga, assim como Clarinha, Helena e Glorinha, relata que cumpria a jornada de trabalho de oito horas e tinha intervalo para o almoço. Esta depoente conta, ainda, que a tecelagem recebia, periodicamente, o “comando”, ou um fiscal do trabalho, que verificava se as leis trabalhistas estavam sendo cumpridas. A legislação em vigor na época autorizava o menor a trabalhar só a partir dos quatorze anos, o que não estava sendo levado a efeito pelos patrões de Viga, já que esta, conforme relata, já trabalhava mesmo antes de completar esta idade.

  Na tecelagem, além de fabricar linho, também fabricávamos o tecido xadrez. Eu me lembro muito do contramestre, o Sr. Tomás, porque, quando eu tinha de dezesseis para dezessete anos, eu tive uma dor muito forte do lado da apendicite, sofrendo um desmaio e ele foi de carro buscar a minha mãe e nós fomos para o hospital, onde fiquei internada e depois operada.

  As produções do linho e do algodão xadrez eram importantes porque havia a questão da moda. As camisas brancas de linho eram muito usadas pelos moradores do meio urbano, enquanto as de algodão xadrez eram mais utilizadas pelos habitantes do meio rural.

  A depoente revela também o cuidado dispensado pelo contramestre da tecelagem aos operários, podendo-se refletir que decorria da necessidade de se evitar problemas que gerassem maiores investigações na empresa. Ou seja, se os patrões de Viga a empregaram antes de completar quatorze anos, desrespeitando a legislação trabalhista, poderia haver outras funcionárias nesta mesma situação. Então, se algum operário tivesse problemas graves dentro da tecelagem, despertaria a atenção dos fiscais trabalhistas, que, então, poderiam investigar a empresa mais profundamente e descobrir que esta não cumpria as leis vigentes. Daí a necessidade do pronto socorro, que para ser prestado envolvia, ainda, a presença da mãe da funcionária.

  Havia muitas pessoas que trabalhavam na tecelagem e a iluminação era forte perto dos teares. Até hoje, eu me lembro, no tear, a gente tinha que passar o fio pela pua, depois pela lançadeira e o fio trabalhava para cá e para lá, mas era tudo elétrico.

  Assim, pode-se supor que a tecelagem era considerada, na época, de porte médio, já que, conforme Viga relata, empregava muitas pessoas. Segundo descreve a entrevistada, “a iluminação [era] forte perto dos teares”, o que pode ser entendido como uma preocupação dos donos da tecelagem com a produtividade das operárias. A depoente, em seguida, passa a descrever o trabalho que realizava no tear, ainda que este fosse elétrico: “[...] no tear, a gente tinha que passar o fio pela pua, depois pela lançadeira e o fio trabalhava para cá e para lá, mas era tudo elétrico.”

  No período de 1940 a 1950, o setor têxtil cresceu em torno de 81%, com

  231 cerca de 236 % dos capitais investidos neste setor.

  Não podia conversar durante o trabalho de jeito nenhum, a gente só conversava na hora do café, e com o contramestre a gente conversava quando tinha que pedir para repor alguma lança. Antes de ir embora, tinha que deixar tudo limpinho e as máquinas desligadas, para, no dia seguinte, começar tudo de novo.

  Os investimentos altos provavelmente geravam também lucros compatíveis. Portanto, da operária eram exigidas muita produção, atenção e pouca conversa, sendo permitido apenas chamar o contramestre para manter o tear funcionando. Porém, a mulher operária continuava mantendo o seu papel de dona-de-casa, só que na fábrica, porque “antes de ir embora, tinha que deixar tudo limpinho e as máquinas desligadas, para, no dia seguinte, começar tudo de novo.”

  231

  Sabe, mesmo depois de casada, fui morar na Vila Carrão. Trabalhei em outra tecelagem de linho, em Santana, que era de uns alemães. O meu filho tinha oito meses e eu ainda trabalhava, mas tinha uma senhora que tomava conta dele. Na tecelagem, produzia tecidos coloridos e branquinhos, tecidos para roupa comum e também para colchas. Eu trabalhava das 8h às 17horas, mas aí eu levava marmita. Na hora do almoço, a gente conversava, contava anedota e recitava.

  Das entrevistadas até então analisadas, Viga é a primeira que afirma ter continuado no emprego depois do casamento e do nascimento do filho, uma vez que precisava auxiliar seu marido no pagamento das despesas domésticas. Nesse caso, ocorreu o reconhecimento da necessidade do salário da mulher para compor o orçamento doméstico.

  Viga agora trabalhava em outra tecelagem, localizada no bairro de Santana, mas continuava a trabalhar oito horas diárias, com intervalo para o almoço. Portanto, pode-se afirmar que os empresários respeitavam a lei trabalhista referente à jornada de trabalho. No entanto, a CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) estabelecia que as empresas que empregassem mais de 30 (trinta) mulheres com idade acima de 16 (dezesseis) anos eram obrigadas a manter um local apropriado para a guarda dos seus filhos durante o período de amamentação. Este artigo constava da redação da CLT, porém dificilmente era colocado em prática.

  232 O pessoal lá era muito legal, mas apitava a sirene e lá íamos

todos nós cada um para o seu tear.

Eu sofri um acidente no tear, porque eu virei e não notei que o meu avental ficou preso no tear e foi enrolando. Então, eu fiquei desesperada e fui colocar a mão, aí eu me feri. Tiveram que desligar o tear e me socorreram. No Pronto Socorro, deram pontos e fizeram curativo, mas até hoje eu tenho o sinal. Isto aconteceu na tecelagem de Santana. Dentro da fábrica não tinha nenhum socorro não.

  232

  O ambiente de trabalho da nova tecelagem era agradável e amistoso, mas a disciplina era mantida, utilizando-se o apito da sirene para avisar as funcionárias que deveriam voltar aos teares, fato marcante para Viga, que comenta: “[...] mas apitava a sirene e lá íamos todos nós cada um para o seu tear.” No interior da fábrica, não havia um posto de enfermaria ou um local que prestasse socorro aos funcionários que se ferissem. Então, quando ocorria um acidente o operário era levado ao Pronto Socorro mais próximo.

  Em seguida, Viga relata: “Quando eu era solteira, o meu salário era entregue todinho para a minha mãe, mas depois que eu casei, eu administrava porque tinha que cuidar da casa.”

  Novamente, percebe-se que o fato da filha entregar o seu salário para a mãe ou o pai para que ela/ele o manejasse de acordo com as despesas da família se repetia: “Quando eu era solteira, o meu salário era entregue todinho para a minha mãe.” Quando Viga se casou, porém, chegou a sua vez de administrar o próprio salário de acordo com os gastos e as necessidades da casa, como comenta: “[...] depois que eu casei, eu administrava porque tinha que cuidar da casa.”

  Ainda segundo Viga: “Eu trabalhava por produção, quanto mais produzia, mais recebia, mas, às vezes, o tear quebrava, então, já recebia menos, porque até o contramestre arrumar, às vezes, demorava.” Este trecho do seu depoimento envolve um clima de pesar, uma vez que a depoente comenta que o valor do seu salário variava conforme a sua produção; sendo assim, quando no tear faltava manutenção, ocorria a sua paralisação e, por conseguinte, os ganhos da tecelã eram diminuídos, já que até ocorrer o conserto não havia produtividade.

  Os teares eram muito barulhentos, mas isso não causava problema não, nem no ouvido nem nos olhos. Até hoje, aos setenta e dois anos, eu não uso óculos, faço crochê, costuro. Eu enxergo bem, graças a Deus.

  O meu primeiro patrão foi um turco e depois foram os alemães, mas eram muitos bons.

  Viga se refere aos teares como máquinas barulhentas, mas que não causavam problemas, justificando tal negativa pelo fato de hoje não usar óculos e ainda realizar atividades manuais. No entanto, foi possível notar que sua audição está totalmente prejudicada. Ao ser questionada sobre sua limitação auditiva e sobre a possibilidade de ter sido causada pelo trabalho na tecelagem, ela afirma: “Isto é de família.” De certa forma, defende o patrão e não questiona a respeito da insalubridade no trabalho: “Os teares eram muito barulhentos, mas não causavam problema não, nem no ouvido nem nos olhos.”

  Viga comenta também sobre a nacionalidade dos seus patrões: “O meu primeiro patrão foi um turco e depois foram os alemães.” Assim, a depoente demonstra a importância do papel da imigração e dos investimentos em São Paulo, que contribuíram para o desenvolvimento industrial no Brasil.

  Fátima, por sua vez, declara:

  Depois, fui trabalhar na Thalenberg & Cia Ltda. Quem me levou para lá foi uma vizinha que era portuguesa e comadre da minha mãe. Fui registrada em setembro de 1959. Eu trabalhava na Rua Cônego Martins, 51. Era uma travessa da Rua José Paulino e ficava pertinho da tecelagem. Lá, era do ramo de confecção e eu era costureira. Fazíamos camisolas, anáguas (que usava naquela 233 época), calcinhas e jogos completos só de roupa íntima.

  No início de sua entrevista, Fátima demonstra uma outra compreensão em relação ao trabalho, dizendo: “Depois, fui trabalhar na Thalenberg & Cia. Ltda.” Então, as atividades que desempenhou (como babá ou no auxílio às atividades domésticas de seu lar) antes de se tornar tecelã também foram consideradas por ela como trabalho.

  Fátima lembra com precisão o endereço do seu antigo local de trabalho – “ Eu trabalhava na Rua Cônego Martins, 51. Era uma travessa da Rua José Paulino [...].” – e o ano de seu primeiro registro na Carteira Profissional de Menor – “Fui registrada em setembro de 1959.” –, detalhando, em seguida, a função que desempenhava: “[...] era costureira. Fazíamos camisolas, anáguas (que usava naquela época), calcinhas e jogos completos só de roupa íntima.”

  Trabalhávamos oito horas por dia, com uma hora de almoço, sempre do meio dia à uma hora. Começava às sete e saía às seis horas da tarde. Tínhamos dez minutos de café pela manhã e à tarde, das l6 às 16h10. O meu salário eu não me lembro quanto era, mas dava para viver em casa, porque a gente recebia e entregava tudo em casa. Nunca mexemos em nada, nunca abri um envelope de pagamento, aí era comprado alimento, calçados, roupa, a minha mãe era a cabeça de tudo em casa. Eu nunca tive férias. Eu sempre trabalhei direto, eu era mensalista. Como o patrão era judeu, não trabalhávamos aos sábados e o domingo já era nosso, por lei, mas na nossa carga horária semanal nós já cumpríamos o sábado.

  No final da década de cinqüenta e início dos anos sessenta, os operários cumpriam às oito horas semanais de jornada profissional e, neste caso, repunham o sábado, perfazendo as quarenta e oito horas semanais de trabalho: “

  Trabalhávamos oito horas por dia, com uma hora de almoço [...]. [...] não trabalhávamos aos sábados e o domingo já era nosso, por lei, mas na nossa carga horária semanal nós já cumpríamos o sábado.”

  No depoimento de Fátima destaca-se, ainda, o fato de não ter gozado de férias: “Eu nunca tive férias, eu sempre trabalhei direto. Eu era mensalista.” Mais uma vez, o salário era entregue sem ser mexido: “A gente recebia e entregava tudo em casa, nunca mexemos em nada, nunca abri um envelope de pagamento.” Em seguida, a depoente comenta sobre o que era feito com seu salário e indica quem o controlava: “Eram comprados alimentos, calçados e roupas. A minha mãe era a cabeça de tudo em casa.” Percebe-se, assim, que, em

  Eu me relacionava muito bem. Eram todos maravilhosos. Só era difícil o entendimento com o meu patrão, porque quando ele falava e eu não entendia muito bem, porque ele era estrangeiro, era judeu. O meu patrão me tratava como criança porque no começo eu tinha medo. Ele era baixinho, vermelhão e falava muito alto e eu não gostava, porque eu não gosto que falem alto comigo. Depois, eu compreendi que era o jeito dele conversar com as pessoas. Ele percebeu que eu me assustava e passou a maneirar a voz comigo e falava que eu era muito delicada.

  Fátima aponta a questão da dificuldade de comunicação entre o patrão e ela, talvez porque os seus ouvidos estivessem habituados ao sotaque português dos pais e parentes e à voz “cantada” dos brasileiros. Tal dificuldade, portanto, se justificava pela internacionalidade de seu patrão: “Era difícil o entendimento com o meu patrão, porque quando ele falava e eu não entendia muito bem, porque ele era estrangeiro, era judeu.”

  O patrão de Fátima percebeu que a moça se assustava com o seu jeito de falar, o que poderia prejudicar a qualidade de seu trabalho e, conseqüentemente, a sua produtividade. Diante desse fato, ele modificou sua atitude em relação a ela, conforme a depoente relata: “Depois, eu compreendi que era o jeito dele conversar com as pessoas. Ele percebeu que eu me assustava e passou a maneirar a voz comigo e falava que eu era muito delicada.”

  No horário de trabalho não podia conversar, mas a gente sempre dava um jeito, mas ele sempre estava de olho, porque a gente não podia deixar de prestar atenção, porque poderíamos nos machucar. A máquina era elétrica e não podíamos nos distrair.

  Observa-se, desse modo, que a proibição quanto às conversas entre as tecelãs durante o corte, a costura e o acabamento do tecido era uma constante, assim como o pedido de atenção e agilidade na confecção das peças: “No horário de trabalho não podia conversar [...] porque a gente não podia deixar de prestar atenção, porque poderíamos nos machucar. A máquina era elétrica e não

  No meu trabalho, nunca promoveram nenhum tipo de divertimento para os empregados. Era trabalhar e só. Nunca ocorreu nenhum acidente. Os patrões nunca prestaram auxílio porque, como já disse, nunca houve acidente. Só levamos um susto quando o tear parou de repente. Eu gostava do meu trabalho, embora tivesse muita alergia à poeira. Sempre tinha tersol por causa da poeira do jérsei e do tergal, mas fiquei trabalhando lá mais ou menos três anos. Só havia um senhor que trabalhava com os teares e nós, as mulheres, trabalhávamos na confecção. Eram dois teares que fabricavam o jérsei que depois ia para a tinturaria, vinha para o corte e nós fazíamos os cortes e as peças.

Eu me lembro que o tear era manual.

  Nota-se que este trecho do depoimento de Fátima está repleto de significados. Primeiro, observa-se que não havia qualquer movimento no sentido de se promover uma maior aproximação entre os funcionários: “No meu trabalho, nunca promoveram nenhum tipo de divertimento para os empregados. Era trabalho e só.” Em seguida, percebe-se, mais uma vez, que a questão da insalubridade se fazia presente: “[...] embora tivesse muita alergia à poeira. Sempre tinha tersol por causa da poeira do jérsei e do tergal [...].”

  Além do trabalho de confecção, no interior da Thalenberg havia uma micro-tecelagem, uma caldeira para tingimento, uma seção de corte e outra de costura. Portanto, sua produção era completa. No tear eram confeccionados os tecidos, que, depois, iriam para o tingimento e, em seguida, para o corte, a costura e o acabamento, saindo as peças prontas para serem embaladas e comercializadas. Assim, passava-se por todo o processo, da industrialização até o produto final: “Eram dois teares que fabricavam o jérsei que depois ia para a tinturaria, vinha para o corte e nós fazíamos os cortes e as peças. Eu me lembro que o tear era manual.”

  O judeu vendeu a fábrica dois anos antes, por problemas de saúde. Depois disso, passei a pegar as relações de pedidos, atender as maquinistas, ajudava no atendimento da loja e não fazia mais costuras. Só quando o serviço apertasse muito e ele pedia para eu ajudar, mas tudo na confiança do patrão.

  Este era diferente do judeu. Quando as pessoas se casavam, ele mandava presente, pagava extra. Ele sempre nos recompensava pelo bom comportamento e pelo trabalho bem feito.

  No seu relato sobre a venda da confecção e a mudança de patrões, nota- se que Fátima sentia um apreço maior por aquele que era seu novo chefe, talvez por este ter mudado sua função na empresa: “[...] passei a pegar as relações de pedidos, atender as maquinistas, ajudava no atendimento na loja [...].” A partir de então, Fátima só costuraria quando aumentasse a produção: “Só quando o serviço apertasse muito e ele pedia para eu ajudar [...].”

  Em seguida, a depoente cita algumas qualidades do novo patrão, afirmando que este participava do cotidiano dos empregados e lembrando que pagava horas-extras pelo serviço prestado além das horas previstas em lei: “Este era diferente do judeu. Quando as pessoas se casavam ele mandava presente, pagava extra. Ele sempre nos recompensava pelo bom comportamento e pelo trabalho bem feito.”

  Fiquei trabalhando lá por mais dois anos. Aí, eu me casei e saí, mas depois eu pedi para voltar. Mas depois, o atual patrão vendeu e o que veio exigia muito trabalho, mas não ligava para o ambiente da fábrica, para as pessoas. Por exemplo, quando os rapazes vinham fazer a entrega dos tecidos, eles mexiam com as meninas e ele não se importava. Era judeu também, mas só se preocupava com a sua religião. Era daqueles que colocavam o chapéu para comer. Era bem diferente. Uma vez, a filha dele encostou o “bumbum” na escrivaninha e ele deu uma bronca, porque tinha cadeira e banco para se sentar. Ela pediu-lhe perdão, na frente de todo mundo. Tem coisas que são sagradas para eles, como a educação. Este era bem diferente do anterior porque aquele sempre exigia muito respeito, não admitia brincadeiras fora de hora ou obscenas, não gostava que fizéssemos fofoca, nada disso.

  Pondera-se, portanto, que Fátima, assim como a maioria das depoentes, deixou seu emprego pouco antes de se casar. No entanto, a jovem recém-casada pediu para ser readmitida, voltando, em seguida, a trabalhar.

  Durante este curto período em que Fátima saiu e voltou para a Thalenberg & Cia. Ltda., entretanto, ocorreram mudanças. No princípio da década de 1960, a metade, em média, do capital industrial do setor privado de

  234

  São Paulo achava-se sob o domínio ou sob o controle de estrangeiros. A confecção foi vendida. O novo dono era judeu também, mas com outra visão sobre os empregados e o ambiente de trabalho, importando-se mais com a produção, com o trabalho propriamente dito.

  Fátima elabora um perfil de cada chefe, primeiro se referindo àquele que acabara de chegar: “[...] o que veio exigia muito trabalho, mas não ligava para o ambiente da fábrica, para as pessoas. Por exemplo, quando os rapazes vinham fazer a entrega dos tecidos, eles mexiam com as meninas e ele não se importava.” Depois, a depoente se refere ao seu antigo patrão: “[...] exigia muito respeito, não admitia brincadeiras fora de hora ou obscenas, não gostava que fizéssemos fofoca, nada disso.”

  Nota-se, assim, que, com a venda da empresa, o ambiente fabril pouco se diferenciou quanto à produção em relação ao período em que o antigo dono comandava a firma. Porém, as insinuações desrespeitosas e os gracejos que passaram a ser dirigidos às moças foram marcantes para esta jovem. A depoente ressente-se, assim, com o fato de o novo patrão exigir trabalho e produção, pouco ou nada se importando com o que acontecia com os empregados.

  Eu não pertenci a nenhum sindicato, e nunca soube de nenhuma organização. Na confecção, não havia nenhuma chance de promoção e ele [o patrão] também não incentivava. Bem diferente do anterior que sempre dava uns “trocadinhos” a mais, porque nos esforçávamos muito e era de seu conhecimento que eu entregava o envelope de pagamento fechado em casa. Então, ele sempre dava uma gorjeta por fora, e então, eu comprava um agrado para o namorado. Para a minha mãe, eu comprava maçã que ela adorava e para o meu pai, pêra. Das questões sindicais Fátima estava distante, embora, na década de sessenta, os líderes sindicais ganhassem importantes poderes políticos junto às instituições corporativas oficiais. Estas favoreciam o acesso de tais líderes ao empreguismo estatal e a cargos nos sindicatos, nos quais lideravam grandes greves, cujas implicações políticas e sociais aumentavam o poder de barganha com o presidente e outros políticos.

  Ainda no período de 1960 a 1964, ocorreram muitas greves, tidas como importantes pela imprensa, uma vez que por meio delas foi possível exigir

  235

  concessões junto ao presidente da República. No entanto, Fátima, ao declarar que nunca pertenceu a nenhum sindicato ou soube de alguma organização, demonstra que esta relação operário(a)-sindicato-reivindicações-greve estava distante do cotidiano das trabalhadoras comuns, talvez porque estas não tivessem representantes na confecção ou porque ignorassem esta questão de

  236 política sindical.

  Também com relação ao depoimento de Fátima, pode-se observar que, com a produção em ritmo acelerado, o seu antigo patrão percebia que o fato de conceder “gorjetas” ou “alguns trocadinhos” aos empregados os estimularia a produzir mais. Com este recurso a mais, Fátima adquiria um mimo para os entes queridos, como expõe:

  [...] era de seu conhecimento que eu entregava o envelope de 235 pagamento fechado em casa. Então, ele sempre dava uma

Para mais informações sobre os sindicatos e as greves do período em questão, ver: ERICSON,

Kenneth Paul. Sindicalismo no processo político no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1979. p.138-163.

LEITE, Márcia de Faria. Sindicatos e trabalhadores na crise do populismo. Dissertação (Mestrado em

236 Ciências Sociais), Campinas, UNICAMP, 1983.

  

Em 1960, foi fundada a Liga Feminina do Estado da Guanabara. Neste período, as mulheres

enfrentavam problemas como a carestia, a falta de água e o despejo, e defendiam a infância e a

maternidade. Politicamente, muitas se envolveram na luta pela anistia, pela democracia e contra a

expansão norte-americana. Em 1963, realizou-se o Encontro Nacional da Mulher Trabalhadora, no

qual foi defendido o salário igual para o trabalho igual. Sobre este tema, verificar: TELES, Maria

Amélia de Almeida. Op. cit., 1993. Após 1964, essas associações femininas praticamente silenciaram-

se, porém, desde o fim do séc. XIX e durante o séc. XX, elas estiveram presentes, seja por meio das gorjeta por fora e, então, eu comprava um agrado para o namorado. Para a minha mãe, eu comprava maçã que ela adorava e para o meu pai, pêra.

  Em seguida, Fátima relata:

  Depois que eu me casei, o salário eu não via, porque nós fizemos um empréstimo e, no dia do pagamento, a senhora vinha na minha casa receber. Fizemos o empréstimo porque tinham roubado o caminhão do meu marido e nós tivemos que pagá-lo, assim mesmo. Foi assim que eu pedi demissão e depois voltei, mas quando eu saí para casar, teve até festa de despedida, mas, mediante o ocorrido, voltei e pedi o meu cargo de volta, e ele aceitou, porque o patrão dizia que não queria que eu saísse

mesmo, mas voltei bem “murchinha”.

  Antes de se casar, o salário de Fátima era entregue aos seus pais. Mesmo depois de casada e de voltar a exercer sua antiga função na mesma confecção, a depoente também não administrava o seu salário, que era utilizado para saldar uma dívida. Portanto, Fátima voltou ao trabalho porque precisava terminar uma dívida. Pode-se afirmar, então, que se não fosse por esta razão a jovem não teria retornado ao trabalho extradoméstico. Depois de 1964, ano em que foi dispensada pelo seu patrão, não exerceu nenhuma outra atividade remunerada.

  V Ố O VễNCULO DAS GERAđỏES Nas primeiras décadas do século XX, chegaram ao Brasil os ascendentes portugueses das cinco mulheres que neste estudo são entrevistadas. São Paulo, em particular, foi o norte para estes e outros milhares de imigrantes vindos de Portugal e de diversos países.

  A esperança apresentada pelos portugueses que, ao longo de tanta migração, aqui firmaram vida e família, estabelecendo vínculos de amizade e permanente parceria com os seus naturais, foi a geradora da persistência pelo trabalho honesto e pela procura de novos rumos para o desenvolvimento pessoal e coletivo. Isto, no entanto, não significa que viviam em cordialidade total com os familiares, agregados ou vizinhos. Porém, ao mesmo tempo em que tensões eram estabelecidas – relacionadas, por exemplo, à ausência de trabalho, a questões familiares, de posse ou amorosas –, podia-se constituir redes para o desenvolvimento pessoal ou coletivo. Isso acontecia porque nas famílias das entrevistadas, segundo as suas reminiscências, os sentimentos de unidade, lealdade e companheirismo se sobressaíam a qualquer outro.

  A razão que os fizeram deixar a terra natal, assunto abordado anteriormente, e a decisão de atravessarem o Atlântico permitiram-lhes uma emancipação inimaginável na aldeia em que viviam. Vieram, de certo modo, à deriva, com a benção da Santíssima Nossa Senhora de Fátima ou de Santo Antônio, conforme o lugar de origem.

  Os primeiros imigrantes (os avós das entrevistadas) chegaram com a chamada para o trabalho agrícola. Já os que formaram a segunda corrente imigratória foram chamados principalmente por parentes que haviam emigrado anteriormente e que, de algum modo, estavam alcançando sucesso nestas terras. Procuravam realizar seus sonhos e viajavam iludidos com as promessas refulgentes feitas por um ou outro colega na aldeia.

  Das mães das depoentes, uma emigrou porque o pai, que já havia se estabelecido no Brasil, a mandou buscar por meio da carta de chamada; outra porque, enquanto acompanhava os pais em viagens comerciais, se apaixonou por um gajo cheio de esperanças e sonhos nessas terras.

  Para muitos, o Brasil se configurava como um destino certo, uma solução natural e provável para suas aflições. Acreditavam que aqui deixariam de “estar” português, mas continuariam sendo-o. De fato, provaram que mesmo a milhas de distância da terra natal esta ligação com Portugal se faria presente, até mesmo para as novas gerações, conforme se verá nas próximas páginas.

  5.1 O TRAÇO GENUÍNO Pode-se dizer que o traço português se repete em cada uma das gerações posteriores a dos imigrantes, uma vez que as entrevistadas, mesmo sem conhecerem a terra natal de seus antecessores, comentam detalhes de lugares que nunca viram, mas que estiveram presentes nas falas dos seus pais e avós.

  O meu pai era transmontano. Nas festas usava a boina verde com aquele símbolo. A roupa era branca, vermelha e verde, porque era assim que em sua aldeia se dançava e cantava em homenagem ao padroeiro. Nos campos, junto ao gado, a pradaria se estendia, e as pequenas flores cobriam a imensidão que os olhos alcançavam, as bicas feitas nos morros derramavam água tão límpida que parecia cristais com o brilho do sol. Naqueles vales, correu criança e viveu com os pais, assim ele descrevia o lugar onde nasceu e viveu, e eu fico a 237 sonhar com a beleza do lugar.

  Por que o pai de Clarinha teria deixado as belezas do lugar onde nasceu? Por que no Brasil se fixou e à terra natal nunca retornou? Em seu íntimo, admitia um regresso, mas os filhos e os netos, muito mais que os bens materiais, o fixaram nessas terras definitivamente, embora, em seu âmago português, a saudade o levasse ao lugar onde nasceu, de nome muitas vezes perdido, sem o devido registro nos livros ou Atlas, porém presente em sua Certidão de Batismo. Sua mãe, ao dar a luz, ofereceu a Deus um novo batismo, nascendo mais um cristão e católico português. E nessa comunhão entre português e cristão é que se tem transparente a sabedoria da trajetória desse novo ser, com este sentimento próprio de ser e de se dizer português, sem pudor ou receio de sê-lo. Nesse sentido, Fernando Pessoa escreveu:

  E eu vou...

Cheio de Deus, não temo o que virá,

Pois, venha o que vier, nunca será

238 Maior do que a minha alma.

  O pai de Clarinha representa o português que, depois do batismo, se tornou um cristão e um católico e que não temeu a imensidão do Oceano Atlântico ou das terras brasileiras, acreditando que as dificuldades que viriam nunca seriam maiores que a sua alma portuguesa.

  Partiram da aldeia natal os maridos, os filhos, os sobrinhos e os netos e lá ficaram diversas mulheres, sempre a olharem o horizonte, esperando que um deles aparecesse ou lhes mandasse buscar. Muitas ficaram sós para tocarem a quinta, para defenderem a pequena propriedade ou para tentarem se arranjar da melhor forma. Restou a essas mulheres a responsabilidade de lutarem sozinhas contra os exploradores de qualquer sorte e pelo próprio sustento, imaginando um futuro melhor para os que partiram para o Brasil.

  A minha bisavó e a minha avó nunca saíram de Portugal. A minha mãe contava que elas choravam muito e rezavam para que um dia eles pudessem voltar. Elas sempre estavam de preto e fiavam meias e mais meias. Com o tempo, a saudade foi diminuindo e as preocupações diárias aumentando, mas elas nunca se esqueceram da minha mãe, a avó que fez o que era 239 certo veio com o vô e juntos ficaram até morrer.

  Os seus trajes na terra natal eram negros e incluíam lenço, blusa, saia, meias e tamancas. Estavam sempre a rezar e a rogar para que o destino dos que 238 haviam partido fosse bom.

  

PESSOA, Fernando. “Mensagem.” Apud BERRINI, Beatriz; SCARANO, Julita. “Imigrante

Português/ Empresário Paulista.” In: Boletim da Câmara Portuguesa de Comércio, Indústria e Arte de

  Outras, observando o sofrimento de mulheres que viram seus homens partirem, decidiram se lançar na aventura de encontrar essas terras desconhecidas. Estas, após se aconselharem com as mais velhas, as sábias do vilarejo, e com os padres e autoridades religiosas, partiram junto com os seus maridos e filhos pequenos. Nesse sentido, Clarinha relata: “O meu pai veio tentar a sorte aqui, e nunca mais voltou. Já os meus avós partiram juntos, com a

  240

  filha, um bebê de seis meses, e a bisavó materna.” Pode-se dizer que, de algum modo, a mente aberta, a capacidade de tudo abandonar em favor da aventura e do desconhecido e a disponibilidade para enfrentar novas situações fizeram os portugueses deixarem a sua pátria natal e as atividades a que estavam habituados para criarem no Brasil um novo destino.

  Muitas mães portuguesas acabaram aceitando que seus filhos partissem rumo às terras brasileiras para buscarem um futuro promissor, talvez improvável na própria terra natal naquela ocasião.

  Na consciência do pai de Helena estava a certeza de ter deixado para trás a mãe e o irmão, uma vez que o pai já havia falecido. Contudo, emigrou junto com o irmão um ano mais velho. Quanto mais o navio se afastava, mais distante ficava a sua Vila Nova de Gaia. A saudade apertava o peito e as recordações de rapazote o enchiam de emoção, até que, finalmente, sem nunca ter podido regressar, convenceu-se de que Portugal fazia-se mito.

  Nessa perspectiva, Helena relata:

  Como a gente fala aqui fazenda, lá eles falam quinta. Os pais dele, digo, a mãe, porque o pai já havia falecido, cuidava da quinta e rezava muito pelos filhos. O meu pai veio se aventurar no Brasil e deu certo. Ele só sabia que o Brasil era uma terra 241 muito linda e rica. Eu sei que o irmão também veio com ele.

  240

  Já Fátima, sobre os seus antecessores, comenta: “Os meus avós vieram e se fixaram na região do Brás/Pari. Lá, viviam das hortaliças, remédios caseiros, da roupa com lixívia que a minha avó lavava e engomava, dos bordados, mas era

  242

  difícil.” Muitas mulheres chegaram com seus maridos. As várias decepções que sofreram não foram suficientes para desanimá-las, uma vez que, se na terra natal já estavam acostumadas aos serviços caseiros, à lida na lavoura, aos bordados e às costuras, na nova terra não seria diferente. Perceberam, então, que não poderiam romper com o passado, que, embora estivesse a milhas de distância, estava próximo nas tarefas e atitudes.

  Acredita-se que de tudo fizeram um pouco, cada uma em seu tempo, sem, contudo, deixarem de cuidar dos filhos(as), mandando-os para a escola e ensinando-lhes as primeiras ocupações domésticas. Além disso, completavam o orçamento do lar com suas agulhas e guloseimas portuguesas, doces ou salgadas.

  Glorinha relata: “O meu pai foi trabalhar na PMSP junto com o meu avô, mas, em casa, a minha mãe era a cabeça de tudo. Ela era forte, trabalhadeira,

  243

  companheira, bonita e bondosa.” Quando solteira, a mãe de Glorinha recordava-se da terra natal e sentia-se exilada longe da avó que a criou, embora estivesse perto dos pais e de algumas pessoas que a recebiam calorosamente. Confortava-se ao trabalhar obstinadamente no colégio Sion como ajudante geral. Seu pai, vendo a juventude de sua filha passar, decidiu casá-la brevemente com um conterrâneo que estava sob a sua chefia na prefeitura. Casada, partilhou de cada minuto de sacrifício e perseverança com o companheiro.

  Além de realizar os trabalhos domésticos, a mãe de Glorinha também encontrava tempo para costurar para confecções e alfaiatarias. Essa mulher 242 gerou muitos filhos, educou-os, colocou-os na escola e fez com que todos se

  

244

  tornassem “trabalhadores e esforçados” , mas sempre se manteve na retaguarda e no silêncio. O futuro não lhe reservou fortuna, apenas uma nostalgia em relação à terra natal. Quanto ao marido, foi sua companheira até os seus últimos dias.

  Helena, por sua vez, relata: “Os meus pais sempre nos ensinou a sermos honestos, sinceros, não mexer em nada sem pedir, trabalhar muito, mas eu, mesmo trabalhando, nunca tive vontade de deixá-los, sabe, deixar a nossa

  245

  casa.” A insistência em transmitir determinados valores aos filhos permitiu a continuidade das características portuguesas nessas terras de além-mar. Pode-se supor, ainda, que o fato de a depoente não querer abandonar a casa paterna fosse algo que se trouxe impregnado na estrutura psico-social e que foi sendo elaborado durante vários anos de forma inconsciente.

  Percebe-se, assim, que ser mulher e filha de português envolve tenacidade, responsabilidade e persistência na vida, seja no trabalho, na escola, no casamento, na criação dos filhos ou no celibato.

  244

  5.2 SISTEMATIZANDO AS RELAđỏES

  Quando a gente era jovem, íamos a bailes, na formatura do meu irmão, no Espéria, e em outros clubes, para ajudar. Era uma farra. Em casa, uma boa noitada era ligar a vitrola, colocar alguns discos para dançar, ouvir o meu pai contar as histórias dele e os meus irmãos, assim que chegavam do trabalho, contavam as bagunças que faziam nas ruas. As nossas noitadas eram assim, os vizinhos também vinham. Graças a Deus, eu sempre fiz muitos amigos, tinha alguns patrícios, porque todos nós fomos criados juntos desde pequenos. Era uma festa, a minha casa sempre estava cheia de gente. Quando saía, ia ao cinema, tinha hora para chegar em casa, no 246 máximo às dez horas, mas não podia passar.

  O lazer podia ser explorado tanto no espaço público, em bailes ou sessões de cinema, por exemplo, como em casa, onde se podia ouvir discos na vitrola ou os “causos” dos pais, irmãos, patrícios e amigos.

  Eu me divertia indo ao show da Hebe, no Tucuruvi, tinha um carinho uma amizade por ela que só vendo. Eu a conheci na rádio Tupi, bem no início da sua carreira. Eu era menina ainda, isso já faz uns cinqüenta anos ou mais. Que emoção! Um dia, ela estava fazendo o programa e eu pude ir e consegui falar com ela, eu ainda sou fã da Hebe Camargo, ela é uma velha “ xaxaca”, mas eu gosto dela. Eu tinha amizade com todo mundo, graças a Deus, conversava, eu faço amizade muito fácil com todo mundo. Eu gostava muito de bailes, de dançar, às vezes, ia escondida, mas o meu pai sempre ia me buscar com a bengala. E se arrumasse algum namoradinho, nem pensar, porque o velho

vinha atrás correndo com a bengala.

O nosso horário para chegar em casa era entre 8 e 8h30 da noite, 247

se não, lá vinha ele com a bengala.

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  Uma apresentação artística podia não produzir qualquer sentimento mais profundo, mas não quando envolvia uma artista eleita por uma jovem como o seu refúgio de extroversão. Neste caso, causava admiração e estima: “Que emoção! Um dia, ela estava fazendo o programa e eu pude ir e consegui falar com ela, eu ainda sou fã da Hebe Camargo [...].”

  O nosso divertimento era ir à Avenida Tucuruvi, aos sábados e domingos, passear à noite, mas tínhamos horário para chegar, o mais tardar às 8 horas, por aí. O meu irmão, que era homem, ele já podia chegar uma hora mais tarde, mais do que isso não, porque o meu pai não deixava. Íamos aos bailes de carnaval com o nosso vizinho, mas eu era péssima para dançar. O vizinho era de confiança de papai, lá sempre mexiam comigo, falavam: “Mas você! Que perna dura!” Uma boa noitada era ficar em casa quando a gente não ia passear na avenida. Ficávamos conversando, contando piadas, dessas que ninguém conta agora, era assim: “olha o passarinho! Ah! Não é...” Era assim, essas coisas meio inocentes que não se 248 falam mais.

  Mulheres e homens podiam desfrutar os mesmos divertimentos, tais como: passear por avenidas, ir a bailes, conversar com amigos e parentes e fazer novas amizades. No entanto, quando tais divertimentos ocorriam nos espaços públicos, o pai delimitava o horário de chegada da filha e do filho. Este, porém, podia, em geral, chegar mais tarde em casa, como relata Helena: “O meu irmão, que era homem, ele já podia chegar uma hora mais tarde [...].”

  De vez em quando, podíamos passear na Avenida Tucuruvi, aos domingos. Saíamos com os nossos vestidos mais bonitos e sapatos confortáveis e lá íamos, mas nunca íamos sozinhas, sempre acompanhadas pelas irmãs menores e pelas vizinhas.

  Quando eu fui ser filha de Maria, passeava mais porque tinha quermesse, as barraquinhas, mas o meu pai sempre estava escondido vigiando. Na volta, as colegas me deixavam em casa, porque elas moravam perto de casa, desde pequenas, então 249 fomos criadas todas juntas.

  A oportunidade de sair mais freqüentemente de casa foi proporcionada pelo fato de pertencer ao grupo de jovens denominado “Filhas de Maria”. Todavia, o olhar vigilante do pai se fazia presente, mesmo que a depoente estivesse acompanhada de colegas e vizinhas, como comenta: “Quando eu fui ser Filha de Maria, passeava mais porque tinha quermesse, as barraquinhas, mas o meu pai sempre estava escondido vigiando.”

  Eu sempre me dava bem com todo mundo, sempre estava de bem com a vida. Eu, quando criança, brincava muito de roda e pedia foguinho para uma colega e ela dizia só na casa do vizinho, pegador, barra-manteiga, pular corda de duas, de cirandinha, cantava. A gente saía escondida de casa para passear, mas, às vezes, o meu pai deixava, porque ia com as minhas colegas, a Rosa, Alice, as filhas da D. Maria turca, passear na Avenida Tucuruvi. Às vezes, ia ao cinema, mas sempre às segundas-feiras, porque tinha a série das moças, que a gente pagava menos, eu ia ao Cine Tucuruvi. Ia muito às quermesses de Santo Antônio, que tinha muitos doces, salgados, 250 bailinho.

  Viga saía às escondidas da casa dos pais, o que leva a se pensar que podia fazer algo que seria considerado impróprio pelo seu genitor ou que era uma outra maneira que a jovem encontrava para se divertir um pouco mais.

  De maneira geral, todas as entrevistadas costumavam ir a bailes e quermesses. Assim, pode-se imaginar que estes eram locais onde jovens e pessoas de várias idades se encontravam para se divertir, ouvir música alta, tomar alguma bebida ou comer uma iguaria. Aos bailes e às quermesses podiam 249 ser atribuídas, ainda, várias significações, como, por exemplo, reagrupamento

  251

  das comunidades étnicas, profissionais e de bairro. Pode-se afirmar também que eram, sobretudo, pontos onde pessoas das camadas populares e de sexos opostos se encontravam.

  Já a diversão em casa, conforme relatam as depoentes, era composta de contos, música, dança, anedotas e fatos cotidianos que ganhavam representação simbólica na voz e nas expressões de quem os contava. Nestes momentos formava-se uma rede de sociabilidade, uma vez que envolviam, além dos membros da família, vizinhos, amigos e patrícios.

  As telas de cinema também proporcionavam divertimento às depoentes quando jovens. Hoje, possuindo um ingresso, basta o espectador passar pela catraca, entrar numa das salas de exibição, sentar-se numa poltrona e assistir ao filme escolhido. Nas décadas de 1940, 50 e 60, assistia-se aos filmes nacionais produzidos pela Atlântica e, depois, pela Vera Cruz ou às fitas adquiridas dos Estados Unidos e da Europa.

  Nesse período, mais especificamente no princípio dos anos 50, despontava um outro meio de divertimento, a TV. No entanto, vale ressaltar que, quando as depoentes eram moças, na maioria dos lares o televisor ainda não havia chegado. Portanto, os jovens continuavam a priorizar o cinema pela sua maior acessibilidade e pela linguagem romântica, de aventura, de faroeste ou de chanchada que difundia. Os cinemas representavam também um ponto de encontro, onde as relações sociais se propagavam.

  Já as apresentações de artistas ocorriam em palcos improvisados ou embaixo das lonas de um circo e envolviam um clima caloroso e de entusiasmo da platéia. Glorinha, conforme depoimento descrito anteriormente, tornou-se fã da apresentadora Hebe Camargo em um evento deste tipo, o que a motivou a ir até os estúdios da antiga rádio TUPI para conhecê-la. Este episódio foi 251 carregado de significados para ela, que o relata com a fala abalada: “Que emoção! Um dia ela estava fazendo o programa e eu pude ir e consegui falar

  252

  com ela [...].” As entrevistadas recordam com entusiasmo dos passeios que realizavam nos fins de semana, durante a juventude, pela Avenida Tucuruvi. Deixam transparecer que nestes momentos tinham a expectativa de encontrar um admirador. No entanto, seus pais, atentos a isto, sempre estavam vigilantes, controlando o horário de chegada das moças ou mandando que os filhos acompanhassem as irmãs. Se arrumassem um namoradinho, a “bengala” as estaria aguardando em casa.

  Viga lembra com saudades dos tempos de infância e, cheia de vibração, rememora as brincadeiras com os colegas, explicando uma em particular: “[...] brincava muito de roda e pedia foguinho para uma colega e ela dizia ‘só na casa do vizinho’.” A depoente fez seu relato gargalhando, e vieram lágrimas em seus olhos.

  5.2.2.1 Religiosidade O sentimento religioso, de fé e de crença em santos, anjos e arcanjos, principalmente em Nossa Senhora, acompanhava o português em todas as partes do mundo, e cá no Brasil não seria diferente.

  Eu me lembro, íamos todos os domingos à missa, a minha mãe, as colegas, os meus irmãos, mas o meu pai raramente ia, ficando sempre em casa. [...] A religião para mim e para a minha família significa tudo, como não se vive sem comer, sem respirar, não se vive sem pensar em Deus e na sua existência, porque Jesus te ama, morreu na cruz pelos nossos pecados, antes mesmo de nascermos ou pecarmos, ele morreu pelo nosso amor, então, 253 religião é isto.

  254

  A “memória é o campo de nossa reflexão e diálogo”. Quando Helena afirma que a religião para ela e para a sua família “significa tudo”, ela dialoga, do ponto de vista da sua situação atual como religiosa, com o rigor da sua ordem cristã e com as suas recordações, refletindo sobre a importância do amor a Deus para o ser humano.

  A religião é muito importante porque a minha mãe sempre dizia que quem não amasse a Deus, não amaria ninguém. E tínhamos que amar a Deus sobre todas as coisas. Íamos à missa todos os domingos às sete horas, depois me tornei filha de Maria. Assim, 255 eu era obrigada a ir e não podia perder a missa.

  A história oral “é um campo de exercício do direito de falar, de expressar

  256

  as interpretações e perspectivas de cada um”. Clarinha, ao se expressar, expõe as suas interpretações quanto à religiosidade, que foram influenciadas pelos ensinamentos de sua mãe e suas avós, que, segundo afirma, diziam: “[...] quem não amasse a Deus não amaria ninguém. E tínhamos que amar a Deus sobre todas as coisas.”

  Glorinha, por sua vez, relata: “Nos fins de semana, eu só trocava a roupa para ir à missa, até hoje vou todos os domingos à missa, é um hábito. A

  257

  minha mãe e o meu pai eram muito religiosos.” O hábito, portanto, faz os devotos perpetuarem as tradições inventadas. A ele pode-se atribuir um sentido amplo, pois inclui tradições idealizadas, construídas e formalmente institucionalizadas que se fazem presentes em práticas comuns no cotidiano das 253 pessoas. É um conjunto de práticas normalmente regulado por regras ou pela 254 Helena, 79 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 03/03/2005. 255 FENELON, Déa et. al. Muitas memórias, outras histórias. São Paulo: Olho’Água, 2004. p.6. 256

Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.

  

KHOURY, Yara Aun. “Muitas memórias, outras histórias: cultura e o sujeito na história.” In: aceitabilidade de seus praticantes, podendo ser de natureza ritual ou simbólica. Seus rituais procuram difundir certos valores e normas de comportamento por meio da repetição (ir todos os domingos à missa), o que implica uma

  258 continuidade com relação ao passado.

  Os meus pais sempre falavam que em primeiro lugar vinham as obrigações, depois as brincadeiras, então, aos domingos, a primeira coisa era ir à missa, depois cuidar da casa e à tarde brincar e passear. A minha mãe quase não ia à missa porque tinha que cuidar da casa e da família, já o meu pai, sim, ia todos os domingos. Freqüentávamos a Igreja do Menino Jesus, de Tucuruvi. Nós tínhamos a roupa da missa e a roupa de passear, é lógico, aos domingos precisávamos nos “embonecar”. Nenhum deles ocupava postos na Igreja, mas sempre ajudavam em quermesse ou qualquer outro trabalho.

  Todo o cristão e católico tinha as suas obrigações, os seus deveres e, se possível, algum divertimento: “[...] então, aos domingos, a primeira coisa era ir à missa, depois cuidar da casa e à tarde brincar e passear.” Uma outra tradição inventada e mantida aparece neste depoimento: “Nós tínhamos a roupa da missa e a roupa de passear, é lógico, aos domingos precisávamos nos embonecar.”

  Eu ajudei durante dois anos como catequista, preparando as crianças para a primeira comunhão. Como catequista, aos domingos, depois da missa, levava as crianças para um piquenique, mas junto com os missionários, porque tinham idéias diferentes na orientação das crianças, porque agora está faltando esta orientação para as crianças. Desde pequeninos, crescemos agradecendo ao Pai do Céu por tudo o que ele nos dá. Na minha família, geralmente, rezávamos juntos o Pai Nosso, a Ave Maria, agradecíamos a Deus por estarmos vivos. A religião na minha vida significa cem por cento, porque sem ela não se faz nada porque religião é Deus. Até hoje, sempre aos domingos, junto com o meu marido, freqüento a igreja, próximo de casa, a Igreja de São Judas Tadeu, aqui em Guarulhos. Penso que as pessoas mudaram muito o comportamento nas igrejas, até as noivas estão muito audaciosas, isto me choca, porque os meus pais não iriam aprovar. Por outro lado, a igreja está mais humanitária e está conseguindo resgatar o que ela perdeu, porque ela mesma se afastou um pouco do seu rebanho, eu 259 acredito que ela está se recuperando aos poucos.

  Durante todo o depoimento de Fátima, nota-se múltiplos fragmentos de tradições idealizadas: “Desde pequeninos, crescemos agradecendo ao Pai do Céu [...] rezávamos juntos o Pai Nosso, a Ave Maria, agradecíamos a Deus Por estarmos vivos.” Ao lembrar de lugares, pessoas e práticas sociais, a depoente contribui para constituir a história coletiva do grupo entrevistado: “Eu ajudei durante dois anos como catequista, preparando as crianças para a primeira comunhão.”

  Viga complementa a explicação do ser cristão/católico temente a Deus quando relata: “Todos os domingos íamos à missa, na Igreja de Santa Terezinha, era a nossa obrigação, agradecer a Deus pela semana e pela saúde, íamos sempre

  260

  todos juntos, os meus pais e os meus irmãos.” Afirma-se que a religião representa o passado e a tradição e que é, de certa forma, um conhecimento surgido em meio a uma organização social e política, que permanece entre as pessoas, sendo que para o português essa tradição é mais exaltada. A religião se torna sublime, mesmo frente à ciência, com seus métodos e conclusões, revelando-se detentora da sabedoria de como as

  261 coisas funcionam.

  Estas palavras estão presentes em cada afirmação das entrevistadas e, segundo as suas próprias convicções, representam a tradição e o pertencimento à mesma essência, o ser português. Nesse sentido, foi na esperança de encontrar um lugar melhor para se viver que os patriarcas vieram para o Brasil. Pode-se afirmar, assim, que onde está a esperança está também a religião, e o português, arrojado e esperançoso, não deixa a religiosidade de lado, transmitindo-a 259 propositadamente de geração a geração, como um dever, uma obrigação. 260 Fátima, 61 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 23/12/2005.

  Viga, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 22/04/2005. FIGURA 7 – A reprodução simboliza o tradicional enlace matrimonial entre duas famílias portuguesas, a noiva é Clarinha, em 1954. Fonte: Álbum de família da entrevistada.

  5.2.2.2 Casamento O casamento envolve rompimentos e continuidades de modelos familiares. É sempre assunto para as camadas sociais, não sendo diferente para as depoentes, que relatam como os padrões, as crenças e os rituais da família de origem estão presentes nas famílias que constituíram.

  262

  Fátima, sobre seu casamento, comenta: “Eu me casei com 19 anos. Eu conhecia o meu marido há quatro anos. Nos conhecemos num cinema em Tucuruvi, assistindo ‘As aventuras de Omar Kayan’, onde Cornel O’Neil era o ator predileto.” Assim, percebe-se que há tempos as sessões de cinema, exibindo filmes de aventura, romance ou drama, proporcionam flertes entre seus espectadores, os quais, muitas vezes, culminam em casamentos.

  O meu marido era do Tucuruvi mesmo, a minha sogra era filha de italianos e o sogro filho de portugueses. Ficamos noivos um ano de aliança, nos casamos com a cara e a coragem porque não tive como economizar um tostão, os meus pais não me ajudaram em nada, porque não tinham como. Eles me ajudaram depois de casada no amor, no carinho e na orientação. O meu casamento foi maravilhoso e é até hoje, graças a Deus, ganhei na sorte grande. Viajamos nas núpcias para a praia do Embaré, em Santos,

ganhamos uma semana de presente.

Quando me casei, fui morar com a minha sogra, no Tucuruvi, morei dezessete anos e meio. Em 15 de dezembro, fui para a minha casa, onde estou há vinte e cinco anos. 263

  O marido de Fátima, por coincidência, também tem raízes portuguesas, já que seu pai era filho de portugueses, enquanto sua mãe era filha de italianos. Depois do casamento, o casal foi viver em uma casinha construída nos fundos da casa dos pais do noivo, em Tucuruvi. A família da noiva, com poucos recursos 262 financeiros, não pôde contribuir para que ela adquirisse a sua própria residência,

MUNHOZ, Maria Luíza Puglisi. Casamento (Ruptura ou continuidade dos modelos familiares). mas, conforme a depoente reforça, seus pais puderam auxiliá-la no que acreditava ser o mais importante, “no amor, no carinho e na orientação”.

  Quando nos casamos, o meu marido tinha vinte e dois anos, trabalhava por conta própria, ele tinha um táxi, depois um caminhão, com o qual fazia entregas. Foi por causa dele que eu voltei a trabalhar porque o roubaram e o meu marido teve que “ engolir” o meu retorno ao trabalho, porque precisávamos. Cuidar dele e da nossa casa foi o que os meus pais me transmitiram e assim seria um bom casamento. O sexo é um complemento do casamento, em primeiro lugar é o amor, em segundo o sexo. Infelizmente, eu não tenho filhos, mas adotei 264

todos os meus sobrinhos, de coração.

  Com o advento do casamento, Fátima, que passou por todas as dificuldades rotineiras que caracterizam o início da vida a dois, foi morar com os sogros, mas, com o tempo, pôde adquirir a sua própria casa. Depois que o caminhão de seu marido foi roubado, a jovem recém-casada decidiu retornar ao trabalho, no intuito de saldar a dívida do financiamento do veículo. Em seu depoimento, ela acrescenta que o marido “teve que engolir” o seu retorno ao emprego, podendo-se supor que ele também compartilhava da mentalidade

  265 patriarcal de que a mulher deveria apenas cuidar do lar e da prole.

  A entrevistada ressalta também: “O sexo é um complemento do casamento, em primeiro lugar é o amor, em segundo o sexo.” Milan acredita que tal afirmativa é feita “porque de certa forma ama-se através do outro, porém

  266

  também apesar dele e até a sua revelia”. Nesse sentido, pondera-se que, no casamento, homem e mulher são destinatários do desejo em si e no outro, fundindo-se no amor-paixão-desejo entre os amantes, justificando que o amor 264 sem objeto-desejo é o próprio amante sem amor. 265 Fátima, 61 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 23/12/2005.

  

Patriarcal porque provém do pacto original tanto sexual como social; é social no direito político dos

homens sobre as mulheres e sexual no sentido do acesso sistemático aos seus corpos (no sentido

privado), conforme PATEMAN. In: SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. Gênero, patriarcado,

  Clarinha, por sua vez, sobre seu casamento, declara:

  Eu me casei com 22 anos, há quatro anos, conhecia o meu marido. O conheci quando saía da igreja, como filha de Maria. Havia um palco no teatro da Igreja, onde se encenavam as peças. Nesse tempo, o meu pai me deixou um pouco mais solta, íamos eu, a minha irmã e as colegas, podíamos ficar até nove ou dez horas, mas ele sempre estava na avenida esperando por nós. Então, o meu marido estava ensaiando uma peça chamada “

  Canção para Berna dete”, que contava a história de Santa Bernadete. Ele fazia o papel de padre, ele era o padre Beira Mar. Eu, com as outras meninas, cheguei perto dele e falei: “Ah! Padre Beira Mar, me dá um santinho?” E ele, naquela batina, me deu o santinho, mas eu nem pensava em namorar. Era um domingo, depois da missa, quando voltávamos para casa, os rapazes que eram os Congregados Marianos, um deles chegou para mim e disse: “Tem alguém que te acha muito simpática.” E eu falei: “Que bom né!” E ele: “É verdade sim.” Nisso, calhou do meu marido passar, e ele o chamou, falando: “Toninho, vem aqui a Clarinha e você, você e ela.” Assim, começamos a 267 namorar, depois noivamos durante um ano e casamos.

  A igreja, ao promover os encontros de jovens, denominando as moças de “ s de Maria” e os rapazes de “Congregados Marianos”, os aproximava,

  Filha motivando a formação de laços de amizade e até de relacionamentos mais íntimos, como o namoro, o noivado e o casamento. Tais aproximações se efetivavam durante as dramatizações e os festejos promovidos pela igreja no intuito de elevar o número de famílias que freqüentavam a paroquia.

  Ele morava ali no Tucuruvi, só que ele nasceu no interior de São Paulo. Era de família portuguesa também e as posses eram similares às da minha família, tinham uma casa e todos trabalhavam. Eu não pude economizar nada para o casamento, porque o meu pai ficava com todo o meu pagamento, o Antônio não, ele tinha o dinheiro dele, era mais solto, mais livre podia

contar com o que ganhava, eu já não. Clarinha relata que seu futuro esposo também era de origem portuguesa e observa que os pais dele tinham um número semelhante de “posses” em relação à sua família. Ressalta, ainda, que o seu noivo “tinha o dinheiro dele, era mais solto, mais livre, podia contar com o que ganhava”, ao contrário dela. Por este comentário, pode-se deduzir que a jovem gostaria de também ter podido manipular os seus ganhos, embora se submetesse às ordens do seu pai, uma vez que a ele entregava todo o salário recebido.

  Os meus pais fizeram tudo, a festa, o enxoval, a decoração da igreja, mas como eu era Filha de Maria a gente não pagava a igreja e nem o Congregado Mariâno. Casei-me na Igreja Menino Jesus, de Tucuruvi. Entrei na Igreja às seis horas da tarde. As filhas de Maria me conduziram até Nossa Senhora, porque depois eu passaria a ser Filha de Maria Casada, voltamos para o corredor central da igreja e o padrinho junto com as Filhas de Maria me conduziram até o altar. Depois da cerimônia, fomos para o fotógrafo e para casa, onde ocorreria a festa, e todos os parentes e amigos já estavam lá. Foi uma linda festa, tinha leitão, cabrito assado, doce, bolo, chope, vinho, os meus pais fizeram tudo, antigamente era assim o meu pai entrava com os comes e o do meu marido com a bebida. A nossa lua de mel foi em Santos.

  Neste fragmento de seu depoimento, Clarinha comenta sobre os festejos do seu matrimônio e, por conseguinte, sobre o empenho dos seus pais para que a cerimônia fosse suntuosa. Descreve, em seguida, os pormenores do cerimonial, que contou com a formalidade na igreja para a sua passagem de “Filha de Maria” solteira para “Filha de Maria” casada, com a benção nupcial realizada pelo padre e com a festa, que, por sua vez, incluiu diversos doces, salgados e bebidas. Depois disso, os noivos, enfim, viajaram em lua de mel.

  Depois do casamento, primeiro, fui morar no Alto de Santana, mas no poço deu formigueiro, mudamos para o Tucuruvi, no terreno do meu sogro, onde nasceram os dois mais velhos. Mudamos para Vila Mazzei em frente da Igreja do Menino Jesus. Engravidei da menina, depois fui para o Jardim Peri Peri, onde nasceu a outra menina e ficamos um bom tempo lá, os meninos foram até para a escola. Depois, fomos para o interior, em Tapiraí, onde nasceu o meu caçula. Nessa época, o meu marido estava desempregado, aí, um colega dele de São Paulo arrumou um emprego para ele, voltamos para cá, compramos este terreno, construímos a nossa casa, onde vivemos. O meu marido trabalhou de bancário, vendedor de óleo da Cestol, promotor de vendas de uma Companhia que utilizava avião para ir ao interior fechar os negócios, no departamento pessoal da

União Carbide do Brasil e na Kibon.

  Clarinha, ao descrever as dificuldades que vivenciou, as diversas mudanças de moradia, o desemprego do marido e o nascimento dos filhos, revela a permanência do companheirismo, da lealdade e da esperança em sua relação com o marido, como no ciclo vivenciado pelos avós e pais que vieram para o Brasil.

  Nesse ínterim, voltou a estudar, formou-se advogado, trabalhou como autônomo e se aposentou. Ele sempre achou um absurdo a mulher trabalhar, até hoje ele pensa assim. Os meus pais sempre me transmitiram o seguinte: que deveria respeitar e obedecer ao marido, fazer as coisas como manda a lei. Assim, a lei manda a mulher ficar em casa, trabalhar e cuidar 268 dos filhos, então, eu fiz o que ela mandou.

  O respeito às normas ditadas pelos pais e avós permaneceu, mesmo inconscientemente, impregnado em suas atitudes. Nesse sentido, nota-se que Clarinha auxiliou o seu marido a concluir o curso técnico em Contabilidade e o Ensino Superior em Direito, enquanto ela manteve-se à “sombra”, zelando por ele e pelos filhos, sem projetos próprios, apenas acompanhando o cônjuge.

  Viga também comentou sobre como conheceu seu marido:

  Fui ao cinema com a Guiomar, que era uma velha de vinte e oito anos, porque eu tinha só vinte e dois. Na sala, não havia muitos lugares vazios, então, o lanterninha ajudou a localizar os vagos, mas eu acabei ficando longe da Guiomar, fiquei sentada perto de um moço que não parava de conversar comigo e eu não 269

conseguia prestar atenção no filme.

  Revela-se, assim, que o cinema era um propulsor de relacionamentos amorosos. Para a depoente, aquela sessão em especial representou de imediato certo desconforto, uma vez que ela “não conseguia prestar atenção no filme” porque o moço não parava de conversar.

  Depois, vagou mais lugares e a Guiomar sentou-se na mesma fileira que eu, aí, o moço louro de olhos azuis falou que queria namorar comigo, falei que o meu pai era um português bravo e que não permitia a gente namorar na rua e a Guiomar confirmou tudo, mas ele foi muito insistente e eu o convidei para a festa de Santo Antônio, porque o meu pai era devoto dele, e fazia aquela festança, aí ele chegou com uma camisa azul clarinha, ele tinha um bigodinho que era a coisa mais linda, eu o apresentei como um amigo aos meus pais. Porém, o meu pai falou: “Você está interessado por bem ou por mal?” E ele respondeu: “Por bem, eu quero namorar a sua filha, estou pensando até em casamento.” Depois de um tempo, começamos a namorar e, em um ano, namorei, noivei e casei, porque o meu pai exigia que namorasse em casa. Me casei no dia 23 de julho de 1956, ele era filho de italiano, trabalhava de tintureiro, a nossa lua de mel foi em Poços de Caldas.

  Nem a presença de Guiomar, que, vendo o cinema mais vazio, sentou-se ao lado de Viga, intimidou o rapaz louro. Então, para controlar a situação, a jovem afirmou ao moço que seu “pai era um português bravo” e que não permitia namoros fora de casa. No entanto, diante da insistência do cortejador, Viga o convidou para os festejos em homenagem a Santo Antônio, do qual o pai era devoto.

  No dia marcado, o jovem compareceu ao encontro, o que Viga relata demonstrando o encanto que sentiu naquele momento e elencando os atributos físicos do rapaz. Seu pai, entretanto, fez questão de demonstrar sua autoridade sobre a filha e, de certa forma, tentou atemorizar o rapaz. Por conta da rigidez do pai de Viga, o casal acabou “namorando, noivando e casando em um ano”. Sobre o cerimonial religioso ou civil a depoente não tece comentários, mas expõe que a sua “lua de mel foi em Poços de Caldas”.

  Ele sempre viajou muito, foi para a Europa, sozinho, e uma outra vez levou os meninos, foi para o Amazonas, eu só fui uma vez com ele para o Rio de Janeiro, para o casamento de uma sobrinha. Eu morei um tempo na Vila Carrão, depois morei com o meu pai, depois compramos um ponto de pensionato para rapazes no Aeroporto de Congonhas, logo ele começou a trabalhar como aeroviário na VARIG, e eu passei a administrar a pensão. Depois, ele se aposentou, vendemos o ponto comercial, compramos a nossa casa aqui em Descalvado. Há quatorze anos, fiquei viúva, mas vivo bem em companhia da minha neta que 270 resolveu ficar comigo.

  Viga, nesta parte de seu depoimento, reforça a figura da mulher como esposa, trabalhadeira, astuta nos negócios e zelosa do lar, dos filhos e do companheiro, que se reservava às funções da casa e aos negócios, enquanto que o marido e os filhos realizavam viagens a passeio pela Europa e pelo Amazonas. Depois de ficar viúva, a depoente conta que permaneceu no lar, adquirido pelos esforços dela e do seu esposo, agregando a neta como companheira.

  Nota-se, portanto, que as entrevistadas, em sua maioria, seguiram determinados padrões de comportamento até se casarem. Primeiro namoraram, em seguida noivaram e depois realizaram a cerimônia matrimonial. Dessa forma, seguiram a tradição familiar e a cultura lusitana, valorizando certos princípios de linhagem, como a dependência, o recato, a submissão e o companheirismo. Já ao marido cabia o papel de provedor do lar; mesmo que a esposa exercesse uma atividade rendosa, a figura masculina era ressaltada como a principal.

  Fátima, ao refletir sobre sua vida desde o momento em que conheceu o marido, faz referência às suas origens, reforçando não intencionalmente o traço genuíno do ser português lutador, trabalhador, religioso, persistente e cumpridor de seus deveres. Comenta que seus pais não puderam colaborar financeiramente para a sua cerimônia de casamento, mas relata: “Eles me ajudaram depois de casada no amor, no carinho e na orientação. [...] Cuidar dele e da nossa casa [...] e assim seria um bom casamento. O sexo é um complemento do casamento, em primeiro lugar é o amor, em segundo o sexo.”

  Fátima representa a reclusão feminina, já que se dedicou a cuidar do espaço privado (o lar), buscando ser competente como dona-de-casa e, portanto,

  271

  procurando ser a esposa ideal . Dessa maneira, reafirmou o que lhe foi transmitido pelos pais e a estes pelos seus pais, mas não poderá propagar os seus valores a descendentes, uma vez que, conforme relata, não tem rebentos: “

  Infelizmente, eu não tenho filhos.” Os pais de Clarinha se empenharam na realização do seu matrimônio. No entanto, não ofereceram ajuda financeira ao jovem casal, o que para ela não gerou ressentimentos, já que lembra com felicidade da cerimônia de despedida de Filha de Maria solteira para Filha de Maria casada, do padrinho que a conduziu ao altar, da fotografia tirada, do banquete, dos convidados, do enxoval e da viagem de núpcias. De certa forma, a união das duas famílias de origem portuguesa refletiu a indissolubilidade do matrimônio abençoado pela Igreja. Quanto à festa de casamento, ressalta como era feito o acordo entre as famílias: “ ente era assim, o meu pai entrava com os comes e o do meu marido

  [...] antigam com a bebida.” Clarinha comenta, ainda, toda a trajetória profissional do marido, incluindo a continuidade do estudo, a formação universitária e a aposentadoria. Percebe-se, nisso, um investimento para que as conquistas do casal fossem plenas.

  A esposa, embora estivesse ao seu lado em todas as conquistas e dificuldades, permanecia oculta, o que pode ser compreendido como mais um traço genuíno culturalmente adquirido. A depoente, assim, reforçava a frase: “ -se notadas pelo ‘saber vasto e profundo’, sempre se mantendo à

  Fizeram

  272

  sombra e no silêncio.” A ela cabia gerar e educar os filhos, mantendo-os sempre junto de si e zelando pelo futuro da prole.

  Conforme depoimento descrito anteriormente, Clarinha comenta: “[...] os meus pais sempre me transmitiram o seguinte: que deveria respeitar e obedecer ao marido e fazer as coisas como manda a lei. Assim, a lei manda a mulher ficar em casa, trabalhar e cuidar dos filhos, então, eu fiz o que ela mandou.” Em tal comentário nota-se a permanência da figura paterna em relação à submissão; primeiro ela deveria obedecer ao pai e depois ao marido. No entanto, a depoente, de alguma forma, transmite também um desejo de mudança para os filhos, ao mesmo tempo em que sabe que a mãe contém a filha em si mesma e cada filha contém a mãe.

  Mais adiante se poderá voltar a esta abstração, conforme Clarinha continua o seu depoimento. Nesse momento, encerra-se esta análise com a certeza de que as depoentes podem ser consideradas como aquelas que passavam e ninguém via, mas que, por amor aos pais, ao marido e aos filhos,

  273 mantiveram vivas na lembrança as imagens de suas famílias.

  A espontaneidade que Viga apresentou em sua entrevista sugere que esta filha de imigrante português foi criada em um ambiente sem austeridade paterna. Em suas lembranças, demonstra que seu pai foi tão presente em sua vida que se torna possível elaborar imagens diferenciadas em relação a ele. Contudo, uma se evidencia como severa e determinante quando se lê estes entrechos:

  272

BERRINI, Beatriz; SCARANO, Julita. “Imigrante Português / Empresário Paulista.” In: Câmara

273 Portuguesa de Comércio de São Paulo (1912-1992) . São Paulo: Gráfica Brasiliana, 1992. p.176.

  [...] o moço louro de olhos azuis falou que queria namorar comigo, falei que o meu pai era um português bravo e que não permitia a gente namorar na rua e a Guiomar confirmou tudo, [...] Porém, o meu pai falou: “Você está interessado por bem ou por mal?” [...] Em um ano, namorei, noivei e casei porque o meu

pai exigia que namorasse em casa.

  Embora o pai se mostrasse arrojado ao deixar a família de origem em Portugal, ele próprio, ao constituir a sua família, manteve viva as lembranças de certas normas de conduta referentes ao comportamento de um rapaz para com uma moça, não permitindo que algum aventureiro ficasse de brincadeira com a filha. Pode-se supor que o marido de Viga tinha uma formação menos rígida que a do seu pai, pois descendia de italianos. Assim, possibilitou que a esposa enveredasse para o comércio e, com o seu tino herdado dos avós maternos, conquistasse a sua clientela com habilidade, sendo simpática e gentil, ouvindo pacientemente reclamações de toda ordem e aceitando os gracejos, com trabalho

  274 e poupança.

  Com suas economias, Viga auxiliou as viagens do marido e dos filhos para a Europa e o norte brasileiro e comprou, junto com seu cônjuge, sua casa no interior. Ao ficar viúva, continuou a administrar a pensão do esposo e manteve à sua volta os filhos, depois, o genro, as noras e, finalmente, a neta.

  Já Glorinha, diferentemente de todas as outras entrevistadas ou, ao menos, mais intensamente que elas, demonstra superação de valores tradicionais e aceitação de novas concepções sociais em seu depoimento:

  O Jaime tinha um centro. Eu e a minha mãe o freqüentávamos, eu era médium, mas tinha medo dos meus irmãos porque eles eram terríveis. A minha mãe ia comigo para eu poder trabalhar lá. Ela gostava muito do Jaime, e ele a considerava uma pessoa muito educada. Eu não sei como o Jaime soube que os meus irmãos me 275 274 maltratavam muito.

  

MATOS, Maria Izilda Santos de. “Entre o lar e o balcão.” In: Revista Convergência Lusíada. n.21.

  As pessoas se cruzam e se entreolham nos mais diversos locais, podendo, assim, conhecer pessoas importantes. Nesse sentido, Glorinha conta que foi em um Centro Espírita que freqüentava com o apoio da mãe, já que os irmãos não admitiam a crença em uma congregação que não fosse a católica, que conheceu o homem que dela cuidaria, mas que não a desposaria.

  Numa ocasião, a minha cunhada e amiga me levou para morar com ela, foi aí que o Jaime me falou: “Glória, você está nessa vida, viver com o seu pai você não pode, por causa dos seus irmãos, eu não te prometo nada, não vou te iludir, você quer morar comigo? Apenas te prometo uma coisa, eu vou cuidar de você e não vou te deixar desamparada, só isso eu te prometo.” Eu fiquei meio assim, mas aceitei. Fui com a roupa do corpo. Ele alugou um cômodo, que hoje não existe mais. No lugar, tem um prédio. Comprou cômoda e cama, e me falou: “Bem, você me desculpa?” “Não tem nada. Você já me tirou daquele inferno, você já fez muito.” Deste dia em diante, ele não sabia o que fazer para mim, porque a honestidade acima de tudo, e eu

era honesta com ele, eu gostava dele.

  As atitudes dos irmãos pareciam injustificáveis, a ponto da depoente se sentir acuada e aceitar de imediato o convite para residir fora da casa paterna. Tais atitudes facilitaram a renúncia a preceitos “morais” ditados por normas sociais prenunciadas pelos pais e irmãos. Então, Glorinha aceitou conviver com Jaime sem os ditames convencionais, o que não impediu que sua relação se baseasse no amor, na honestidade e no respeito mútuo.

  Um dia, não sei se já não era tudo combinado. A dona Maria tinha um terreno e mandou construir um sobrado para o filho, mas o filho não quis, então, ela queria vendê-lo. Ele quis comprá-lo para mim, mas eu não queria, mas ela insistiu para eu ver o sobrado, eu o achei muito bonito e ela perguntou: “Você gostou?” Eu respondi que sim. Então, ela me pediu os documentos, para eu ser testemunha dela na venda, já que eu não queria. Eu, sem malícia, emprestei. Depois de uns dois dias, ela veio me devolver e pediu que eu a acompanhasse até a casa. Eu fui. Nesse momento, ela pediu para eu assinar uns documentos, eu fiquei na dúvida e o Jaime falou: “Assina para ela, coitada.” Os dois se entreolharam, nisso, já estávamos no

  “ como?” Então, ele confirmou: “A casa é sua, comprei

  • a para você e que ninguém fique sabendo!” Porque na época, a minha família era terrível. Eu o abracei e chorei tanto, eu falei: “Mas você tem a sua família, eu trabalho e me viro.” E ele: “Você não vai precisar mais trabalhar, eu falei que nunca te iludiria e nem te prometeria nada, mas uma coisa eu garanto, eu vou cuidar de você.”

  Este excerto traz fatos esclarecedores referentes ao relacionamento existente entre Glorinha e Jaime. A depoente afirma: “Mas você tem a sua família, eu trabalho e me viro.” Assim, compreende-se que Glorinha era o segundo compromisso conjugal de Jaime, que, contudo, afirmava que cuidaria dela. Ele, então, comprou um dobrado e a colocou como proprietária. Em seguida, solicitou que não trabalhasse mais, passando a dedicar-se apenas a ele e aos trabalhos domésticos.

  Fizemos uma única viagem até Aparecida do Norte, quando fomos morar juntos. Lá tem um lugar próximo da igreja, onde as pessoas fazem promessas e pedidos. Nesse lugar, fizemos um juramento como se fosse o nosso casamento de ficarmos juntos desse o que desse. Foi lindo! As nossas mãos dadas. Eu vivi com ele 38 anos e sete meses, quase 40 anos. Ele era uns dezoito anos mais velho e tenente-coronel da Polícia Militar. Ele morreu com 83 anos. 276

  Pode-se sugerir, assim, que os ensinamentos religiosos que foram transmitidos a Glorinha a fizeram improvisar uma situação que para ela substituiria o casamento tradicional. Então, ela se seu companheiro trocaram juras de amor, de companheirismo, lealdade e fidelidade no local aonde as pessoas fiéis à religião vão, ou seja, em Aparecida do Norte, cidade onde repousa a imagem de Nossa Senhora Aparecida.

  A união de Glorinha rompe com as características tradicionais do casamento, ao mesmo tempo em que mantém os papéis da mulher e do homem na família, o pai como provedor financeiro e a esposa como dona-de-casa e mãe. Ela, portanto, desvincula o seu casamento das instituições da cultura escrita e do espaço público, onde o ato de casar permanece impelido para esse domínio até os dias atuais. A sua união se efetivou pela intimidade, pela espontaneidade, a partir de um compromisso assumido entre ambos, baseando-se na escolha

  277

  mútua, livre e pessoal, reforçada pelo seguinte fragmento do seu depoimento:

  Apenas te prometo uma coisa, eu vou cuidar de você e não vou te deixar desamparada, só isso eu te prometo [...]. Deste dia em diante, ele não sabia o que fazer para mim, porque a honestidade acima de tudo, e eu era honesta com ele, eu gostava dele [...] fizemos um juramento como se fosse o nosso casamento de

ficarmos juntos desse o que desse.

  Glorinha e Jaime se uniram em meados da década de 1960, após o golpe militar de 1964, talvez durante a passagem do governo de Castelo Branco para Costa e Silva, que continuaria o programa de desenvolvimento econômico e antiinflacionário. Enfatiza-se, portanto, que, ao longo da década de 1960, instaurou-se o combate resoluto contra a ordem estabelecida e os valores da elite, na busca de expressões de liberdade, não somente contra a repressão do regime vigente – que amparava “a impunidade dos militares e policiais executores das ações repressivas e intensivas, com a elaboração de decretos e

  278

  outras iniciativas contra todo e qualquer ideal democrático” –, como também o combate a tudo que significasse repressão social e familiar.

  Pode-se supor que, inconscientemente, com a sua decisão de conviver com Jaime, Glorinha contribuiu para reduzir essa repressão social e familiar existente. Nesse sentido, declara ter convivido “com ele 38 anos e sete meses, quase 40 anos. Ele era uns dezoito anos mais velho e tenente-coronel da Policia 277 Militar”.

  

MUNOZ, Maria Luiza Puglisi. Casamento (Ruptura ou continuidade dos modelos familiares). 2ªed.

278 São Paulo: Expressão e Arte, 2001.

  5.2.2.3 Celibato Helena, em sua narrativa, contempla-nos com outro tipo de celibato, aquele da vida religiosa, configurando-se como uma serva de Deus, por livre vontade, sem obrigação, mas atendendo a um chamado divino.

  Eu optei pela vida religiosa aos dezesseis anos. Depois, relevei e aos vinte e quatro anos me decidi. Eu senti o chamado de Deus para a vida religiosa, mas não compreendi, é o mesmo que uma moça sentir atração por um moço e ele por ela, mas não vão se conhecer para saber se querem namorar ou não. Foi assim, aos dezesseis anos, senti o chamado e não ouvi, só depois eu 279 atendi.

  Ao elaborar uma analogia entre o “chamado divino” e a atração entre uma moça e um rapaz que não chegam a se conhecer, Helena possibilita a compreensão desse chamamento para a vida religiosa, desse sentimento crescente que a fez deixar os pais e a família para compartilhar os caminhos do “ Senhor”.

  A minha mãe já sabia, ela aceitava, mas o meu pai não queria, ele falava: “Se você não quer casar, não casa, fica em casa conosco, em nossa companhia, aqui não está te faltando nada.” Porém, não era isso que eu queria, eu sentia um chamado diferente eu queria me entregar para Deus. Demorou para o meu pai aceitar, depois compreendeu e me deixou entrar para a vida religiosa.

  O pai de Helena resistia em aceitar a opção da filha pela vida religiosa. Se ela resolvesse ficar solteira, para ele estava tudo bem, conforme a depoente relata, reproduzindo a fala de seu pai: “Se você não quer casar, não casa, fica em casa conosco, em nossa companhia, aqui não está te faltando nada.”

  Saber que uma filha jovem decidiu seguir o caminho religioso, preferindo a companhia de pessoas desconhecidas à convivência com familiares, gerou muitos significados para o pai, que a provia de bens materiais e de afeto. Ao relutar em aceitar, pode-se supor que ele também desejava a presença de alguém que dele cuidasse na velhice.

  O nosso objetivo, na vida religiosa, é seguir os passos de Jesus, evitar o máximo possível pecar e chegar um dia aos braços de Deus. Mais cedo ou mais tarde, todos nós chegaremos lá. Quando eu chegar, não quero chegar de mãos vazias. Eu quero lhe oferecer algo, então, lhe entregarei a minha vida. Hoje, é tudo diferente porque cada dia, cada segundo é diferente, até a vida religiosa tem menos repercussão do que no passado. O pessoal não está muito afim de religião. Nós vemos pelas nossas vocações que diminuíram muito. Mas tudo no mundo mudou, é um parâmetro novo no mundo, são as tecnologias, são as 280 experiências. É um tudo que mudou hoje.

  Baseando-se no último relato, pode-se identificar a preparação a que Helena se submeteu para ingressar na vida religiosa. Aprendeu a rezar, a meditar sobre a Bíblia e a estudar os três votos: a pobreza, a obediência e a castidade. A partir de então, o amor fraterno e o relacionamento com Cristo constituiriam o centro de toda a sua vida.

  Após se libertar de todo o mundo material, Helena compreendeu que, no convento, o seu amor pelos pais e pelas pessoas não diminuiria. Seu sentimento

  281 passaria a ser mais generoso e se fundamentaria na fé.

  Depois de se abstrair a religiosidade, o casamento e o celibato, abordar- se-á o progresso social que ocorreu entre as gerações vindas de Portugal e as nascidas em solo brasileiro, realizando-se um percurso geracional dos tataravós portugueses até os tataranetos brasileiros, de acordo com as reminiscências das entrevistadas.

  280

  5.3 MOBILIDADE SOCIAL ENTRE AS GERAđỏES

  Dos meus avós paternos eu não sei, porque nunca vieram para o Brasil, mas dos maternos sim. A minha avó era baixinha e se chamava Etelvina, e o meu avô era bem alto, moreno e se chamava Manuel. Como tinham experiência na agricultura, vieram para cá trabalhar na lavoura de café, mas não deu certo. Meu avô, que era muito trabalhador e com o auxílio da minha avó, dos patrícios e dos parentes já estabelecidos aqui, acabou ganhando do interventor uma chácara no Brás, onde ele fez uma horta e cultivou muitos tipos diferentes de flores. Enquanto isso, a minha avó trabalhava em casa, fazia pão, lavava, passava, fazia o serviço doméstico, cuidava da pequena criação. Com o tempo, uma vez que o meu avô era muito correto, acabaram chamando-o para trabalhar na prefeitura como feitor do 282

calçamento, o que ele fez até falecer.

  Inicialmente, trata-se dos avós da entrevistada Clarinha, que vieram para o Brasil com uma carta de chamada para trabalhar numa lavoura de café. No entanto, como o contrato de trabalho não foi cumprido pelo Coronel José Ferreira de Figueiredo, em Bauru, eles retornaram a São Paulo, mais especificamente para a comunidade que conheciam entre o Pari e o Brás, onde fixaram residência. O avô trabalhou em diversos ramos, principalmente no cultivo de flores, até ser Feitor do Calçamento, atividade pública contratada pela Prefeitura Municipal de São Paulo. A avó, sua esposa, se ocupava das atividades domésticas e executava alguns serviços para fora. Mais tarde, adquiriram, com o auxílio de parte da herança das terras de Portugal, uma chácara no Tucuruvi, aonde vieram a falecer.

  O meu pai veio para cá rapazote, não tinha problemas em trabalhar, era um faz tudo. Trabalhou de coveiro, vendedor de carne de cabrito e porco, pedreiro, porque não queria voltar a passar dificuldades em Portugal. Como já conhecia o meu avô, este o indicou para trabalhar no calçamento, o que ele fez e a sua profissão ficou sendo de calceteiro, parando de trabalhar quando se aposentou pela prefeitura e veio a falecer devido a complicações cardiovasculares. A minha mãe, de ajudante geral no Colégio Sion, depois de casar, passou a ser trabalhadora doméstica, costureira, mãe e educadora.

  O pai da depoente foi um “faz tudo”; trabalhou de pedreiro, coveiro, vendedor ambulante e, por último, calceteiro, função exercida sob a chefia do futuro sogro. A mãe, recém-chegada de Portugal, logo foi encaminhada para trabalhar no Colégio Sion como ajudante geral. Depois, se casou e foi ser trabalhadora doméstica, mãe, educadora e costureira. Ao se casar, primeiro morou no Pari/Brás, indo, depois de alguns anos, para uma chácara, que contava com uma casa grande que dava fundos com a chácara do pai.

  A minha vida pouca mudou. Estudei, fiz o primário completo, fui cartola, tecelã, me casei, fui ser dona-de-casa, enquanto o meu marido estudou, fez o técnico de contabilidade no Colégio Frederico Hozzana, trabalhou em diversas empresas, no departamento pessoal e de contabilidade, mas também foi vendedor e sitiante. Voltou para São Paulo, retomou os estudos, hoje é advogado, mas não exerce a profissão, aposentou-se como contador pelo INSS. Vivemos bem, temos uma casa, um sítio, não temos do que reclamar, a vida até agora foi muito boa para nós.

  A depoente, após elencar todas as atividades que exerceu fora do lar, menciona que contribuiu para que o marido se formasse primeiro em Contabilidade e, mais tarde, em Direito. Relata, ainda, que, com o tempo, adquiriram imóveis e alguns automóveis.

  Os nossos filhos têm cada um sua profissão, dois são professores, um é motorista, outro é vendedor e a outra menina trabalha na saúde, na Unidade Básica de Diadema. Todos têm sua casa, seu carro. Os professores são os únicos que concluíram a faculdade. Os outros começaram, mas nunca terminaram. Os meus netos são dez ao todo. O mais velho já concluiu a faculdade, trabalha em sistemas de computador, tem seu carro, a irmã começou a faculdade de artes, mas quer trabalhar em museu, não sei não, o outro neto não fez faculdade, só cursinhos de aperfeiçoamento, também trabalha com computador, tem seu carro e vive com a mãe. Os outros são todos estudantes ainda. 283

  Ela, cujos pais não são alfabetizados, concluiu o Primário. Já seu marido cursou o Ensino Superior e se diplomou, assim como alguns dos filhos e netos, enquanto outros ainda estão em idade escolar, cursando o Ensino Fundamental ou o Ensino Médio. Quanto aos bens materiais, variam de acordo com as necessidades e os salários de cada um, valendo lembrar que a política econômica atual favorece vários tipos de financiamentos.

  Glorinha, por sua vez, sobre sua família, relata:

  Sou pensionista da Polícia Militar. Depois que me casei, nunca mais trabalhei fora de casa. Tenho duas filhas que fizeram o secundário; uma vive na França, em Angel, a outra tem problemas de saúde. Ambas possuem moradia própria porque o pai fez questão de deixá-las bem, mas não possuem carro. Criei minhas filhas como eu fui educada, respeitar as pessoas, não responder, não xingar ninguém, aquelas coisas que a mãe da gente sempre fala. 284

  Seu companheiro lhe deixou alguns imóveis, que, depois do seu falecimento, foram partilhados entre ela e as filhas. Financeiramente, está amparada com a pensão que o marido deixou. Concluiu o Grupo Escolar, enquanto as suas filhas concluíram o Secundário. Nesse sentido, pode-se dizer que as filhas avançaram na aquisição de conhecimentos escolares. Uma delas, inclusive, vive atualmente em outro país, onde troca experiências e vivências; a outra possui residência própria e é aposentada do INSS.

  Já Fátima comenta:

  No começo de casada, trabalhava na confecção, mas depois de pagar o caminhão, não voltei mais a trabalhar fora, só em casa. O meu marido sempre foi autônomo, temos uma casa, um carro, 283 não temos filhos, mas sempre viajamos conhecendo uma ou outra cidadezinha. 285

  Fátima concluiu o Grupo Escolar, sendo que seus pais não foram alfabetizados. Seu marido sempre trabalhou como autônomo. O casal não tem filhos e adquire novos conhecimentos viajando pelas cidades brasileiras.

  Também sobre os pais, Viga afirma: “O meu pai foi carpinteiro de profissão, aposentando-se pelo INSS, enquanto a minha mãe, além de cuidar da casa, bordava e costurava.”

  286

  Com o ofício de carpinteiro e o quarto ano completo, o pai da depoente adquiriu o seu imóvel com o auxílio da esposa, que possuía conhecimentos sobre as letras, mas também bordava e costurava sob encomenda, ajudando com os ganhos nas despesas domésticas.

  Depois de casada, continuei trabalhando na tecelagem, mas quando estava esperando o meu segundo filho, resolvemos nos mudar para o Aeroporto. O meu marido foi trabalhar no setor de carga e descarga, na alfândega da VARIG, onde ficou até se aposentar como aeroviário, e eu, como a nossa casa que era alugada, era muito grande e havia muito movimento de pessoal tanto para trabalharem no aeroporto como turistas, fiz da casa uma pensão, e alugava os quartos. Esta administração era minha, eu controlava tudo, as roupas de cama, as refeições, a limpeza, o dia de receber de cada hóspede, mas o meu marido cuidava de passar as roupas, porque ele já tinha prática da tinturaria. 287

  A entrevistada concluiu o Primário, não fez menção ao grau de estudos do marido e aprimorou-se em administrar uma pensão (que funcionava numa casa onde havia vários quartos; ela cobrava aluguel pelas camas e outros valores para lavar a roupa e servir refeições aos pensionistas), o que lhe rendeu fundos para adquirir, mais tarde, a casa em Descalvado, onde vive e desfruta da pensão do marido, falecido há dezesseis anos.

  285 Fátima, 61 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 23/12/2005. 286

  Tenho três filhos, os meninos terminaram o colégio, a menina casou cedo nem terminou o ginásio, só trabalha em casa, os dois filhos dela são casados, o menino é taxista e a menina trabalha na prefeitura de Descalvado. Os outros são autônomos, um tem uma oficina de funilaria, a mulher trabalha em casa, as filhas estão terminando o colegial, e a mais velha parou o curso de Educação Física porque vai se casar. O outro filho, o mais velho, trabalha como marceneiro. A mulher dele é contadora na firma do irmão, o meu neto trabalha em banco, fez o colégio e não quis mais estudar, a menina está trabalhando em uma escolinha de educação infantil e está fazendo Pedagogia, diz que vai ser professora. Os meus três filhos têm casa própria e carro, 288 acredito que eles estão bem.

  Ao mesmo tempo em que administrava a pensão, Viga também educava os filhos. A menina não terminou o Curso Ginasial porque se casou; ela e o filho moram em imóveis alugados, enquanto que a filha vive com a avó no interior; todos possuem automóveis. Os outros dois filhos de Viga cursaram e concluíram o Ensino Médio, mas preferiram trabalhar como autônomos; um é mecânico/funileiro e o outro é marceneiro. Os netos estão estudando, trabalhando ou ambos; uns estão cursando o Ensino Superior, o que demonstra que a aquisição do conhecimento formal se ampliou da primeira à atual geração.

  Conforme expliquei, recebi um chamado para ser serva de Deus, então, aos vinte e quatro anos, entrei para o convento onde estou até hoje, os bens que possuo são a minha família e a obediência a Deus, nosso pai todo poderoso. O meu pai se aposentou pelo 289 INSS, como autônomo.

  Uma vez que optou pelo celibato e pela vida religiosa, Helena pouco relatou sobre o conhecimento formal adquirido, demonstrando que sua vida se “ congelou” aos vinte e quatro anos, quando se tornou religiosa, passando a dedicar-se plenamente à sua congregação.

  Lendo e relendo estes depoimentos, percebe-se que em cada família, 288 conforme o que foi deixado pelos antecessores, estão sendo transmitidos de geração em geração bens materiais e valores culturais. Percebe-se, ainda, que a educação recebida atualmente dos pais possibilita que os mais jovens continuem os estudos, aumentando a possibilidade de obterem sucesso profissional. Porém, nem todos alcançam este sucesso, mas valores como religiosidade, fraternidade, companheirismo, lealdade e esforço pessoal são repassados para as novas gerações.

  Acredita-se que a ocupação profissional, ao fazer-se especializada, promova um status social culturalmente mais elevado. Porém, pelo aspecto econômico, não ocorreram mudanças bruscas desde as primeiras décadas do século vinte até os primeiros anos do século vinte e um. A primeira geração possuía um imóvel a custa de muito trabalho e a última também o possui, além de um veículo, pois o próprio mercado financeiro favorece a sua aquisição.

  É provável que tenha ocorrido uma mudança de forma particular em relação ao trabalho. Por volta da década de vinte até a década de setenta, os tipos de trabalho existentes exigiam muito dos trabalhadores, com pouco ou nenhum conforto ao executá-lo. Na contemporaneidade, a especialização favorece a mão- de-obra, modificando os meios de produção. Também foram criados mecanismos favoráveis à sua execução com menor prejuízo tanto físico como mental para o trabalhador, beneficiando a diminuição dos serviços terceirizados na zona urbana.

  CONSIDERAđỏES FINAIS Ao se explorar tão doces memórias que perfazem a vida, percebe-se que se aprende muito mais ao ouvi-las do que se tivessem sido lidas em qualquer manual ou livro, já que, de certa forma, as cinco personagens deixaram de ser anônimas, excluídas ou silenciadas.

  Por meio das suas palavras e expressões, essas mulheres, sem saberem, conduziram a presente dissertação, embora esta tivesse um roteiro a seguir, com uma linha mestra para se saber aonde chegar e o que buscar. No entanto, nesse buscar, me vi aprisionada em suas memórias, que contam, cada uma a seu modo, toda a sua história, que ocorre paralelamente à história da elite e à história dos vencedores, dos soldados, dos políticos, dos golpistas, do militarismo, das diretas já, da luta das feministas, da democracia ampla e irrestrita.

  Tais personagens estavam e estão cuidando dos seus lares, da vida religiosa e da criação dos filhos, netos e bisnetos, cumprindo, assim, segundo o que lhes fora passado da geração anterior, o trabalho doméstico, a educação dos filhos, o ensino dos primeiros ofícios e a educação formal. Elas, ainda, foram ensinadas a serem companheiras, a zelarem pelo bem-estar do marido e da família, a não descuidarem da poupança e, no caso de algumas em particular, a se manterem longe dos negócios.

  Ao expor as memórias das cinco figuras femininas de ascendência portuguesa, este estudo investigou também as gerações anteriores, dos avós e dos pais, por intermédio de questões que favoreceram uma abordagem sobre como seria o seu cotidiano nas aldeias portuguesas, os motivos que os trouxeram para essas terras de além-mar, o retorno de alguns dos familiares ou a permanência de outros mais velhos na “terrinha” onde nasceram, cresceram e se casaram.

  Por intermédio da interpretação dos depoimentos, pôde-se considerar as relevâncias apontadas por, entre outros autores, Esteves, Matos e Pascal, a respeito da Carta de Chamada tanto para o trabalho, como para viverem sob a presente entre os pais das entrevistadas. Contudo, não se concluiu o retorno, porque não se tornaram “brasileiros”, como aqueles que aqui trabalharam duramente, investiram, fizeram fortuna e retornaram à terra natal para lá se destacarem como cidadãos beneméritos, passando a viver de rendas e de outras aplicações financeiras.

  As privações foram tantas que as entrevistadas não hesitaram em dizer: “ aqui era a terra dos seus sonhos, onde os filhos seriam criados e daqui jamais

  290

  sairiam” , ou “quando o meu pai veio, ele só tinha esperanças e nunca quis voltar para Portugal, porque tinha medo de não morrer no Brasil, porque era a

  291

  terra que ele amava mesmo” . As privações podem ser interpretadas como ausências de ganhos monetários no Brasil ou como infortúnios vivenciados durante a infância e juventude em Portugal. Pode corresponder, ainda, à perda de entes queridos, como ocorrera com a mãe de Clarinha, que afirmou: “Logo depois do casamento da minha mãe, chegou uma carta avisando que a minha bisavó faleceu, isto a deixou muito amargurada, porque o sonho dela era um dia voltar para Portugal para rever a ‘mãe’, porque ela tratava a avó assim.” Mas, em algum momento de suas vidas, o mito do retorno esteve presente.

  A fonte oral, articulada às demais fontes utilizadas, demonstra a disposição de valores e traços culturais que apontam as novas identidades constituídas e preservam elementos de um passado significativo, vinculado a uma realidade histórico-social em permanente transformação, mas indicadora de referenciais de pertencimento. Nesse sentido, trabalhando com a memória, este estudo buscou promover um encontro com a história, dialogando com a história

  292 vivida e, portanto, distinta da história aprendida.

  290 291 Helena, 79 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 03/03/2005. 292 Fátima, 61 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 23/12/2005.

  

BERNARDO, Teresinha. Memória em branco e negro; olhares sobre São Paulo. São Paulo: EDUC,

  Por intermédio da memória, foi possível encontrar a história e explicar um passado. Isso, no entanto, só aconteceu graças às entrevistadas e aos seus comentários, que, de imediato, pareciam insignificantes ou corriqueiros, sobre: a casa, a rua, o bairro, a escola, o trabalho, o casamento, o celibato. Ou seja, as próprias entrevistadas interpretaram as suas vidas por meio de suas lembranças

  e, logo, passaram a desvendar uma São Paulo do trabalho, dos sonhos e das esperanças para aquelas que ascendem da estirpe portuguesa.

  Também por meio de suas memórias, percebeu-se que, com o casamento, a vida profissional ou o trabalho extradoméstico deu-se por encerrado pelo menos para três das depoentes. Contudo, uma se manteve no mercado de trabalho, mas para auxiliar o marido em seus parcos rendimentos, e a outra optou pela vida religiosa, prosseguindo no trabalho de servidão a Deus e no auxílio à sociedade.

  As entrevistadas revelaram que conviveram com uma larga parentela de tios, primos, padrinhos, sobrinhos, agregados e avós. Todos rodeavam de tal forma os pais que elas se sentiam envolvidas em um todo maior. Nesta grande família, primos se faziam às vezes de irmãos, e os tios, parentes agregados, as acompanhavam desde o berço até o casamento. Entretanto, hoje, com a redução das famílias, estas mulheres demonstraram que sentem falta do passado e que se enchem de emoção ao relembrar a infância, a juventude e o nascimento dos filhos.

  Pôde-se perceber, ainda, que o lazer estava relacionado às atividades religiosas, salvo os passeios pela avenida Tucuruvi. A Igreja, de certa forma, acabava sendo um núcleo de interação das jovens, Filhas de Maria, com os jovens, Congregados Marianos, confirmando a referência entre lazer e fé.

  No que se refere ao trabalho, todas começaram a exercer atividades remuneradas muito jovens e desempenharam diversas funções. Quase todas as depoentes afirmaram que exerceram a profissão de tecelã, com exceção de própria confecção. Todavia, o salário recebido era entregue nas mãos dos seus pais e transformava-se em alimento, medicamentos, vestimentas ou calçados para toda a família. Portanto, não eram essas trabalhadoras que administravam os valores recebidos, uma vez que estes ficavam, inicialmente, à mercê da autoridade do pai e, posteriormente, do marido. Mas mesmo estando “`a sombra” dos empreendimentos financeiros, essas mulheres foram hábeis companheiras e tenazes poupadoras.

  Ainda quanto às depoentes, as suas identidades foram sendo elaboradas a cada geração pela transmissão e assimilação de traços culturais e manifestações tradicionais que, ao constituí-las, mantiveram símbolos e significados que só representam valor dentro de suas próprias concepções e culturas. Os laços existentes entre as gerações foram trazidos pelos avós e pais das entrevistadas, que, como imigrantes portugueses, auxiliaram na história dessa nação por meio do seu trabalho, dos seus sonhos e das suas esperanças.

  No que diz respeito à cultura de “berço” português, ela se mescla e se intensifica na educação das filhas e dos filhos. No entanto, para os netos e bisnetos tal cultura transformou-se apenas em lembrança. Ocorreu uma separação entre o que deveriam e precisariam ser, possibilitando às novas gerações independências nas escolhas e no modo de viver. Contudo, mesmo havendo um certo distanciamento, também entre esta geração há traços de acolhimento, cooperativismo, fraternidade e cumplicidade, próprios da tradição cultural portuguesa.

  As lembranças das entrevistadas permitiram delinear as relações e a mobilidade social entre as diferentes gerações. Evidenciou-se que a riqueza está não nos bens que conquistaram ou na posição social ocupada, mas na constituição das suas identidades, que possibilitaram a reconstrução e a definição do seu lugar na sociedade e nas suas relações com os demais.

  Este trabalho não tem a pretensão de encerrar-se nessa trajetória, mas pôde-se perceber que não atendeu a todas as expectativas geradas em torno do tema e às outras que fluíram durante a pesquisa. Por isso, temas como a preservação da cultura pelas imigrantes portuguesas, as tradições, a culinária, as danças, os folguedos, as devoções a determinados santos e a música compõem a intenção de um trabalho futuro. Vale esclarecer também que muitas outras questões não foram contempladas, apesar de serem pertinentes, ficando a abordagem destas para um segundo momento.

  As histórias de vida elucidadas por meio das memórias das depoentes contaram faces de um cotidiano feminino que construíram seus modos de vida, embasados em uma formação cultural na qual a mulher estava subordinada à autoridade do pai e depois à do marido. Após enfrentarem essa barreira, herdada de um processo de dominação masculina, essas mulheres passaram a transmitir aos filhos uma independência singular. Ao questionar os significados sociais a partir das memórias, este estudo buscou provocar reflexões relevantes acerca do modo de vida da filha de imigrante português, sem, contudo, ter a pretensão de esgotar a temática, esperando que este trabalho de pesquisa contribua para futuras abordagens.

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