Sabrina Padilha de Menezes TRABALHISMO REFORMISTA E O LEGISLATIVO SANTA-MARIENSE (1960-1964)

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Sabrina Padilha de Menezes

TRABALHISMO REFORMISTA E O LEGISLATIVO SANTA-MARIENSE

(1960-1964)

  Santa Maria 2009

  Sabrina Padilha de Menezes TRABALHISMO REFORMISTA E O LEGISLATIVO SANTA-MARIENSE

(1960-1964)

  Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História, Área das Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano – Unifra, como requisito parcial para a aprovação do grau de Licenciado em História.

  Orientadora: Lenir Cassel Agostini Santa Maria

  2009

  Sabrina Padilha de Menezes TRABALHISMO REFORMISTA E O LEGISLATIVO SANTA-MARIENSE

(1960-1964)

  Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História, Área das Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano – Unifra, como requisito parcial para a aprovação do grau de Licenciado em História.

  ___________________________________________ MS. Lenir Cassel Agostini – Orientadora (Unifra)

  ___________________________________________ MS. Elisabeth Weber Medeiros (Unifra)

  ___________________________________________ Dr. Carlos Rangel (Unifra) Aprovado em ........., de ...................................... de ..........

  

DEDICATÓRIA

“Dedico este trabalho aos meus filhos Julie e Pedro Maximiliano e aos meus pais, Sr. Jesus e

Sra. Maria, que são os meus eternos amores, minhas fontes inspiradoras e as bases vitais da

minha vida. A pertencente família: Angélica, James, Anne Lara, Bibiana, Lis, Cristiano, Davi,

Jéssica e Maria Cecília, que me auxiliaram e participaram desta minha almejada e

significativa vitória. Igualmente, ao meu namorado Renato Willemberg Junior, por ter

aparecido e estado presente, como fonte de felicidade, aconchego e apoio. Também, dedico a

  

Deus e aos meus anjos da guarda, que sempre estiveram comigo em todos os momentos e

jamais me abandonaram quando solicitei a sua ajuda”.

  

AGRADECIMENTOS

  Agradeço este trabalho a todos os homens de boa índole, que influenciaram a construção da minha história de vida. Em relação aos princípios de paz, amizade, coletivismo, respeito, responsabilidade e compromisso, como partes essenciais de um todo social. Nesse sentido, como forma dos meus agradecimentos, menciono trechos da Obra Social &Política de Alberto

  Pasqualini (1994), para serem apensados pelo leitor:

  

“Creio que aqueles mesmos que, bafejados pela sorte, conseguiriam acumular riquezas

possam julgar-se felizes e tranquilos tendo diante dos olhos o espetáculo cotidiano da miséria

e da necessidade. Talvez se sentissem mais em paz com a própria consciência se, possuindo

menos, pudessem enxergar um pouco mais de afeto e um pouco menos de rancor nos rostos de

  ” (Alberto Pasqualini, 1994).

  seus irmãos, abatidos pelo trabalho e torturados pelo sofrimento

“Que eu possa pôr sob vossos olhos toda a miséria do pobre, a fim de que sintais de que

  (São Basílio, p.19.apud. Pasqualini, 1994).

  lágrimas vós formais o vosso tesouro.”

“A paz, a nossa paz objetiva, paz orgânica- inspiração do equilíbrio, da honestidade, da

justiça que devem existir nas ações individuais, nas atividades econômicas, nas disputas

políticas administrativas, no exercício do poder, nas relações, enfim entre governantes e

  (Pasqualini, 1994, p. 109).

  governados”

  RESUMO

  O presente trabalho é uma investigação acerca da história política de Santa Maria, dos anos de 1960 à 1964. A partir do enfoque da proposta política do Trabalhismo Reformista, ao qual estava em evidência no período, procurou-se identificar a inter-relação da política Nacional com a política do Legislativo Santa-mariense. Neste sentido, buscou-se pesquisar nas Atas da Câmara Municipal as práticas-políticas dos vereadores, para averiguar a presença do Trabalhismo Reformista no Parlamento de Santa Maria, bem como, coligar a prática política dos vereadores com a dos líderes reformistas nacional, identificando sua uniformidade. Os resultados encontrados apontam à compreensão de que petebistas estavam politicamente atuantes no Legislativo Santa-mariense, ou seja, a bancada do Partido Trabalhista Brasileiro apresentou-se como maioria, nas eleições de 1960 e 1964. Por intermédio das inúmeras preleções das legislaturas, observou-se que os petebistas, assim como vereadores de outras agremiações, demonstraram simpatias aos líderes reformistas. Entretanto, identificou-se que as preleções de alguns edis apresentaram propostas que foram defendidas tanto pelos Pragmáticos, quanto pelos Doutrinários, bem como pelos Reformistas. Nessa perspectiva, entende-se que a atuação do Reformismo, no Legislativo Municipal da década de 60, foi expressiva no apoio e simpatia às lideranças reformistas. Quanto à presença das propostas reformistas, percebeu-se que, a prática política da maioria dos petebistas de Santa Maria se conduziu em torno da simetria trabalhista, pragmática e doutrinária, que os Pragmáticos Reformistas constituíram em seu exercício político.

  Palavras-chave: Trabalhismo, Reformismo, Legislativo, Santa Maria.

  ABSTRACT

  The present work is an investigation about the political history in Santa Maria, from the years 1960 to 1964. From the approach of the political proposal of Reformist Labor, which was in evidence at that time, it was intended to identify the inter-relation between the national politics with the Santa Maria Legislative politics. In this way, the councilors´ political practices in the Municipal Chamber minutes were researched in order to check the presence of Reformist Labor at the Parliament of Santa Maria, as well as to bring together the councilors´ political practices with the national reformist leaders, by identifying its uniformity. The results point to the comprehension that members of the PTB party were politically engaged in the Legislative of Santa Maria, that is, the Brazilian Labor Party members were majority in the 1960 and in the 1964 elections. Through the numerous lectures legislatures, it was noticed that PTB members, as well as councilors of other parties, had sympathy to the reformist leaders. However, it was observed that the lectures of some councilors presented proposals that were advocated by both Pragmatics and Doctrinal leaders, as well as Reformist leaders. In this perspective, it is understood that the reformist actuation in the Municipal Legislature in the decade of 60 was significant in the support and liking to the reformist leaders. Concerning to the presence of reformist proposals, it was noticed that the Santa Maria PTB members´ political practices were conducted through the doctrinal, pragmatic and labor symmetry that the Pragmatic Reformists constituted in their political exercise.

  Key-Words: Labor, Reformism, Legislative, Santa Maria.

  

SUMÁRIO

  INTRODUđấO.......................................................................................................................7

  1 REFERENCIAL TEÓRICO....................................................................................................9

  2 METODOLOGIA..................................................................................................................14

  3 RESULTADOS E DISCUSSÕES ........................................................................................15

  3.1 A formação do Trabalhismo e do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB)........................................................................................................................................15

  3.2 As correntes trabalhistas e a constituição do Trabalhismo Pragmático Reformista............................................................................................ ...................................23

  3.3 A percepção do Trabalhismo Pragmático Reformista no Legislativo de Santa Maria.........................................................................................................................................30 CONSIDERAđỏES FINAIS....................................................................................................45 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS......................................................................................48 REFERÊNCIAS DOCUMENTAIS..........................................................................................49

  INTRODUđấO

  Esta temática está inserida na história regional, a partir do antagonismo político que se vivia na esfera nacional daquele período. Nesse sentido, buscou-se estudar a história política de Santa Maria no período de 1960 a 1964, bem como a inter-relação da política Nacional com o Legislativo Santa-mariense.

  Iniciou-se a pesquisa pelo estudo da política Nacional a partir de 1930, ou seja, os primeiros anos de formação do trabalhismo varguista, para se compreender as condições socioeconômicas e políticas que constituíram as bases do Trabalhismo Pragmático Reformista nas décadas de 50 e 60. A temática deste trabalho se limita em pesquisar a atuação do Reformismo no cenário político do Legislativo Santa-mariense entre 1960 e 1964, bem como as transformações e/ ou contribuições que o Trabalhismo Reformista legou para o desenvolvimento do município.

  Compreende-se que durante a década de 60, a proposta reformista estava em evidência no cenário Nacional que, por intermédio da presidência de João Goulart, irradiava sua influência para as diversas regiões do país. Nesse sentido, buscou-se detectar a influência do Trabalhismo Reformista no Legislativo Municipal por intermédio das manifestações na tribuna e de documentos. A questão fundamental a ser esclarecida é determinar se havia ou não a influência do Trabalhismo Reformista no cenário político partidário de Santa Maria, entre 1960 e 1964, e em que medida isso se traduziu em ações práticas que atestem esta influência. Também se pretende examinar os aspectos positivos desta corrente, se algum houve, para o desenvolvimento da região.

  Seguindo nesta direção, a pesquisa objetivou identificar indícios que atestem de forma inequívoca a exata medida da influência trabalhista no cenário local e compreender como era esta ligação do Nacional reformista com o Municipal petebista; assim como estabelecer os traços mais evidentes que tornem clara esta relação.

  Pode-se afirmar que a importância deste trabalho centra-se em resgatar aspectos históricos importantes do nosso passado recente, a partir da conjuntura política Nacional da época, do PTB e do Trabalhismo Pragmático Reformista que exerceu forte influência em inúmeros políticos de expressão Nacional.

  O resgate da reminiscência histórica de Santa Maria, por intermédio da percepção do Trabalhismo Reformista, vem contribuir para reflexão da auto-imagem e “identidade coletiva” Santa-mariense. Abrangendo o desenvolvimento da região no período de 1960 a 1964 não só nas Instituições e Estado, mas também nas múltiplas relações sociais. Assim, um estudo mais aprofundado sobre essa temática permitirá ao leitor uma melhor compreensão da história política de Santa Maria.

  A presente pesquisa foi organizada em três capítulos. No primeiro, fez-se um estudo bibliográfico para se conhecer e entender as origens da temática. A partir da formação do trabalhismo Brasileiro durante o governo de Vargas na década de 30, procuraram-se as raízes da criação do Partido Trabalhista Brasileiro e todo o aparato que favoreceu seu crescimento político, analisando sua postura frente à democratização e atuação dos seus representantes no seio social. As diversidades que envolviam o partido e suas contradições também são objeto de estudo.

  No segundo momento, buscou-se a influência do Trabalhismo Reformista no contexto Nacional. Este capítulo procurou destacar como ocorreu a constituição do Trabalhismo Pragmático Reformista, quais foram as suas origens, suas lideranças, sua atuação na política Nacional e aceitação popular. Compreende-se que os Reformistas defenderam o trabalhismo enquanto doutrina pragmática, a partir da prática de Vargas e das ideologias de Alberto Pasqualini. Como no primeiro capítulo, a história de Vargas se insere por intermédio da história de formação do trabalhismo e do PTB, este capítulo centra-se em compreender as bases teóricas do Trabalhismo Pragmático Reformista, as quais se embasaram nas ideologias de Alberto Pasqualini.

  No terceiro e último capítulo ,aborda-se o Trabalhismo Reformista no Legislativo de Santa Maria. Com base nos estudos bibliográficos, pesquisou-se nas Atas da Câmara Municipal, as preleções dos vereadores que compunham as legislaturas daquele período.

  Neste capítulo, utilizou-se a pesquisa documental para fundamentar as formulações teóricas, buscando a compreensão do cenário político Municipal de 1960 a 1964. E, finalmente, identificar a presença do Trabalhismo Pragmático Reformista na atuação dos nossos parlamentares municipais de então.

1 REFERENCIAL TEÓRICO

  Para melhor clareza e cientificidade do estudo político regional, é pertinente compreender os significados da história regional. Em que teve maior crescimento à medida que cresceram as exigências com relação ao conhecimento das fontes primárias, para a produção histórica regional (PESAVENTO, 1990).

  Coube ao materialismo histórico a tarefa de “resgatar” o conceito de região utilizado até então. Hoje, este conceito ultrapassa a noção singular de “espaço” e expressa uma abordagem, ao mesmo tempo econômico-social e político-ideológico. A autora define a região como o espaço onde os homens exercem poder, constroem a auto-imagem e a identidade de um grupo. Sendo assim, escreve que a história regional seria uma espécie de recorte de um espaço, considerando um dado período.

  Sob antigos e retrógrados pontos de vista, afere-se que a história regional tem a tendência de “homogeneizar” uma dada situação do fato, em detrimento que todos os gaúchos são iguais, a fim de que os subalternos aceitem sem revoltas a ideologia da classe dominante (PESAVENTO, 1990). Isso traduz a necessidade de um estudo comprometido em auferir à história política de Santa Maria uma visão crítica da sociedade, desfigurando-se, dessa forma, da definição reprodutiva da história regional.

  Nessa perspectiva, como solução para criticidade da história regional, Pesavento (1990) sugere uma compreensão mais científica, de forma a transformar a realidade, como um real sentido de ação e não apenas ver o passado num tom saudosista. Assim, é pertinente que a construção do contexto regional esteja inserida em um conhecimento crítico e fundamentado.

  Buscou-se em Silva (1990) a leitura da região que destaca os elementos essenciais desses confins, a saber, um território delimitado, sujeito a subdivisão e um conjunto de valores e interesses capazes de criarem identidade e conscientização coletiva. A história regional confirma a autora, é o melhor elemento capaz de “testar” o âmbito das teorias da História. Isto é, por intermédio de exemplos e evidências que permitem detectar, numa mesma região, os diferentes passos no sentido de mudanças, tanto em economia quanto sociedade. Também destaca a importância do regionalismo como método de estudo aos processos econômicos, sociais e políticos que ocorrem em determinados locais. Porém, a autora alerta para o problema que o regionalismo pode causar ao historiador, em sentido de “delimitação de fronteiras” dos referidos locais, afinal, as fronteiras nem sempre correspondem ao espaço econômico social nas quais atuam.

  Sendo assim, a política regional pode englobar um relacionamento entre o todo e as partes. Daí, aufere-se que o regionalismo, como método, é objeto da história regional e representa elementos que podem explicar certos contextos e conjunturas sem, com isso, pretender que a história nacional seja um somatório de muitas histórias regionais.

  Paralelamente, buscou-se compreender as entrelinhas da história política, por meio da fundamentação teórica em Rémond (1996), no qual reflete sobre o político e destaca a complexidade desse assunto, uma vez que, “a história política exige ser inserida numa perspectiva global em que o político é um ponto de condensação” (p. 445), e não pode ser entendida como um domínio isolado. Compreende-se que a política é o fator que conduz, em determinadas situações, as relações sociais, a “maneira de conceber, de praticar, de viver a política” (p. 449). Assim, as atividades político-ideológicas são os fatores que conduzem a formação da “identidade coletiva”.

  Nesse contexto, é essencial entender os conceitos políticos que trabalharemos, para o qual utilizou-se, como referencial teórico, Bonavides (1994), em que descreve as estruturas políticas e os modelos governamentais existente na civilização ocidental, ou seja, a democracia, o socialismo, a ditadura, o presidencialismo, entre outros. Nas palavras de Bonavides (1994), o presidencialismo é um “Sistema político em que há um Presidente, ao mesmo tempo, um chefe do governo e chefe do Estado” (p.344). Dessa forma, as relações de poder são esclarecidas após a leitura de Bonavides (1994), bem como, a obra de Chacon (1978), a qual, direciona-se à ciência política a partir do enfoque da história dos partidos políticos no Brasil, suas ideologias, implementações, contraponto existentes nas diversas agremiações. Conclui-se que, ambas as obras de cunho político são essenciais para o acadêmico de história política.

  Igualmente, utilizou-se o dicionário político de Bobbio (1998), no qual, explica sobre conceitos políticos, tais como: Trabalhismo, Reformismo, política partidária, esquerdas, entre inúmeros outros. Segundo Bobbio (1998), o trabalhismo tem origens britânicas e envolveu grande parte da população européia, organizou muitas manifestações e revoltas operárias, empregou nas lutas sociais o meio de defender seus interesses, nos quais, estavam pautados na política da social-democracia, por intermédio da “defesa de uma transformação pragmática e gradual da sociedade” (p.1230). Nota-se que o Trabalhismo Brasileiro inspirou-se no trabalhismo britânico, porém assumiu características peculiares e, com o tempo, novas formas de se estabelecer enquanto doutrina ou enquanto reforma doutrinária pragmática.

  Para a fundamentação teórica dessa temática e compreensão da história do trabalhismo, buscou-se a leitura de Gomes (1989) que escreve sobre a política de Getulio Vargas, bem como sua proposta trabalhista e a formação do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), frente ao aparato político Nacional dos anos de 30 aos 60.

  Nessa perspectiva, a proposta trabalhista iníciou-se com Vargas durante governo constitucional (1934-1937), ao qual durante esse período governou sob o apoio dos militares e da classe alta. Após, Vargas decretou o Estado Novo (1937-1945) e o projeto trabalhista se massificou popularmente, adquirindo o simbolismo da “figura carismática de Vargas.” Também, durante o Estado Novo, firmou “uma sólida aliança de Vargas com a corporação militar e estabelecido o compromisso por parte do governo de promover o desenvolvimento econômico do país” (GOMES, 1989, p.7).

  Entretanto em meados da década de 40 o país rumou para a democratização do país. Entende-se que Vargas era contrário à organização partidária, porém, frente a ameaça da ascendência de um regime comunista e as pressões dos grupos anti-fascistas, o Estado Novo foi compelido a decretar as eleições partidárias. Assim, em 31 de dezembro de 1944, Vargas anunciou que executaria a Reforma Constitucional e nomeou Agamenon Magalhães para estabelecer a Nova Constituição. Compreende-se que Agamenon era um político com evidente conhecimento, bem aceito tanto pelos civis quanto pelos militares. Nesse sentido, afirma Delgado (1989):

  Agamenon, por sua vez, propunha que o processo tivesse início com a convocação de uma Constituinte que, estabelecendo um regime constitucional, possibilitasse a convocação de eleições. O esquema sugerido era semelhante ao de 1934, não prevendo qualquer procedimento que consagrasse a inelegibilidade de Vargas (p. 12).

  Dessa forma, alerta a autora que no período de 1945 a 1964 houve a introdução do sistema partidário e ascensão de três grandes partidos: União Democrática Nacional (UDN), Partido Social Democrático (PSD) e Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Estes duelaram forças na arena política Nacional, a qual traziam o ponto dos debates no Getulismo. Assim afirma Delgado (1989)

  UDN representaria a oposição mais cabal à corrente que trazia em si o vício de origem do ditatorialismo – a negação de uma ordem democrática, liberal e pluralista. O PSD e o PTB se caracterizariam como agremiações de cunho getulista. Seus adeptos viam Vargas como uma dupla ótica. Quer como um grande estadista e moderno administrador, que soube apreender as reais necessidades do país, quer como o “pai dos pobres” e criador da legislação social (p.8).

  Nesse contexto, o PTB adquiriu prestígio nas eleições de 1945 e 1946, em especial o sucesso nas urnas foi em 1947. Inevitavelmente, essa aceitação popular se caracterizou frente ao simbolismo, que o partido auferia a Vargas e ao trabalhismo. “Entretanto, o PTB não vivia apenas da exploração eleitoral e ideológica desses dois fatores. Havia outro elemento da maior importância para sua performance política: suas bases sindicais” (DELGADO, 1989, p. 35). Esse fator não tardou para adquirir contrariedades por seus militantes, de cunho intelectual, aos quais negaram a personificação da figura de Vargas tanto ao PTB quanto ao trabalhismo, e criaram o grupo dos Doutrinários Reformista.

  Nesse sentido, para a compreensão dessa corrente trabalhista, utilizou-se a obra de Pasqualini (1994), ao qual é o ideólogo dessa corrente doutrinaria. Entendeu-se que Pasqualini organizou o trabalhismo enquanto doutrina social, em defesa do desenvolvimento do país e da implementação de um sistema capitalista mais igualitário. Por intermédio do pensamento humanista, defendia os ideais socializantes, cooperativistas, distributivistas e desenvolvimentistas, primando à transformação da consciência cidadã. Pois “o capitalismo, quando na sua forma individualista e egoísta, é a origem e a causa de todos os males que atormentam o mundo” (PASQUALINI, 1994, p.325).

  Paralelamente, Pasqualini desenhara, em sua proposta política, a concepção que o poder político partidário deveria voltar-se deliberadamente para a construção e desenvolvimento da nação, enquanto bem comum. Dessa forma o Partido Trabalhista Brasileiro deveria se constituir como um partido dos trabalhadores, perdendo o caráter paternalista de Vargas. Na assertiva de Pasqualini (1994), o poder democrático e partidário institui-se que:

  O poder é apenas um sistema de meios políticos e jurídicos para a realização de um programa que presumi exprimir o bem comum. Desde o instante em que o povo opte por outras diretrizes, o partido que está no poder deve entregá-lo ao que venceu e se impôs na simpatia e na confiança popular. (p.346)

  Para a maior compreensão das diversidades trabalhistas, fundamentou-se na obra de Neves (2001), a qual explica as propostas políticas das diferentes correntes trabalhistas do Partido Trabalhista Brasileiro, ou seja, comenta sobre os Pragmáticos, aos quais eram os defensores de Vargas; os Doutrinários que foram os intelectuais orgânicos, defensores de uma aproximação com social-democracia e despersonificação de Vargas ao PTB e ao trabalhismo; dentre eles, destacaram-se Fernando Ferrari, Sergio Magalhães e Alberto Pasqualini. E os Pragmáticos Reformistas que conduzindo o trabalhismo enquanto doutrina pragmática, seus líderes de maior evidência foram João Goulart e Leonel Brizola.

  Entende-se que frente ao suicídio de Vargas, em meados do dos anos 50, o partido idealizou uma prática que primasse pela prática, definitiva, de um amplo programa de reformas sociais e econômicas. Nesse contexto, formaram-se os Pragmáticos Reformistas, aos quais manifestaram certo “casamento entre as proposições discursivas do Trabalhismo Doutrinário e uma prática política que mesclava traços herdados do Getulismo e do trabalhismo dos primeiros tempos” (NEVES, 2001, p. 194).

  Nessa perspectiva, afirma Neves (2001) que a história do trabalhismo foi marcada por ambiguidades e contraposições, delimitado pelo dirigismo, paternalismo e potencial de autonomia. Igualmente, caracterizou-se pelo personalismo de seus líderes, entretanto rumou ao cooperativismo e coletivismo, em busca do desenvolvimento capitalista humanitário com certa aproximação do socialismo reformista. A última corrente trabalhista, os Pragmáticos Reformistas, o foco deste trabalho, foram contrários às revoltas sociais armadas, porém incentivaram movimentos populares com significativo teor conflituoso.

2 METODOLOGIA:

  O presente Trabalho Final de Graduação -TFG- tem como metodologia o estudo da história política e suas relações de poder. A partir do pressuposto bibliográfico, utilizaram-se como referenciais, obras de cunho político para atribuir uma compreensão mais científica à pesquisa, como Rémond (1996) e Bobbio (1998). No estudo sobre Trabalhismo Reformista, buscou-se fundamentação nas obras de Neves (2001), Ferreira (2005), Gomes (1989), Bodea (1992) e Grijó (2007). Paralelamente, a leitura de Pasqualini (1994), aufere entendimento em relação às bases ideológicas da proposta reformista. Para identificar a política Nacional reformista com a regional, utilizaram-se as Atas da Câmara Municipal de Santa Maria, de 1960 a 1964, que demonstram o cenário político do Legislativo Santa-mariense.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES

3.1 A formação do Trabalhismo e do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB)

  Getúlio Vargas chegando à Presidência da República Brasileira, pelo movimento de 1930, desenvolveu um projeto político que estava pautado em proposições programáticas que estimulavam a prática ao Nacionalismo e à industrialização. Paralelamente, desenhara em sua política o projeto trabalhista, a partir de protótipos britânicos existentes na Europa da década de 20, mas que fora apresentado, no Brasil, no final dos anos 30 e início dos anos 40 (FERREIRA, 2005).

  Nessa perspectiva, entende-se que o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) assumiu um caráter varguista, pois estava constituído em torno da figura de Getúlio, uma vez que Vargas identificou-se como o fundador do trabalhismo.

  Nessa conjuntura do Brasil, dos anos 30 e 40, assumiram-se novas relações de trabalho, voltadas para a industrialização. Pautadas na ideologia Iluminista de que o homem é responsável pelo seu próprio destino, ressaltando que as ações humanas deveriam se voltar para a transformação de seu contexto (FERREIRA, 2005). Compreende-se que os operários que cresciam significativamente no âmbito urbano não podendo mais ser ignorados. E apoiados por políticos e militantes de pensamento liberal, delinearam grandes transformações em prol da industrialização e de todo o contexto que integra esse aparato industrial.

  Neste cenário, surgiram às ligas e sindicatos em defesa de melhores condições de trabalho. Ambos atuaram de forma progressiva em reivindicações que eclodiam em vários lugares do país, em especial no Rio de Janeiro e São Paulo (FERREIRA, 2005). Nota-se que em meio a esta conjuntura, o projeto trabalhista foi, intencionalmente ou não, uma significativa estratégia política de conseguir o apoio da massa dos trabalhadores e conter as agitações sindicais.

  Por intermédio da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), os sindicatos passaram a ser influenciados pela mística getulista, que apresentava amparo aos direitos sociais dos trabalhadores. Percebe-se que Vargas utilizou como meio de propagação da proposta

  1

  2

  trabalhista o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP ) e a Hora do Brasil (GOMES, 1989).

1 Criado por decreto no primeiro governo em dezembro de 1939. Mas sua genealogia provém do Departamento

  Compreende-se que essa estratégia política delineou o trabalhismo como meio essencial para garantir os direitos sociais objetivados pelos trabalhadores, e, assim, o trabalhismo se constitui politicamente como “um projeto de Vargas para os trabalhadores” (FERREIRA, 2005, p.175).

  Observa-se que o projeto trabalhista voltou-se para atender as necessidades básicas da grande parte da sociedade Brasileira, a massa trabalhadora. As leis Trabalhistas postas em prática pelo Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio proporcionaram aos trabalhadores melhores condições de vida e asseguraram os direitos trabalhistas como: “salário mínimo, auxílio gestante, férias, redução da jornada de trabalho, demissão por justa causa” (FERREIRA, 2005, p.177).

  O trabalhismo varguista também agradou parte da elite industrial, em detrimento do controle sobre os operários com a criação da carteira de trabalho, diminuição das revoltas sociais e demissão por justa causa. Os estímulos governamentais, por intermédio da industrialização, beneficiam essa elite. Por intermédio dos maquinários, produziram mais em menor tempo e diminuíram o número de trabalhadores. Dessa forma, os industriais cresceram sua produção e atenuaram os gastos com os funcionários (FERREIRA, 2005). Percebe-se que da política de industrialização de Getúlio derivou o crescimento econômico de grande parte dos empresários e assim adquiriu o apoio dos mesmos.

  Igualmente, os primeiros governos (1930-1945), contou com o apoio da classe militar

  3 Brasileira, por intermédio da Doutrina de Segurança Nacional e do Tribunal de Segurança

4 Nacional , que proporcionou aos militares amparos sociais. Percebe-se que a política de

  

Cultural (DPDC). E ainda, no início de 1938, o DPDC transformou-se no Departamento Nacional de Propaganda

(DNP), que, finalmente, deu lugar ao DIP. Esse propagou-se por intermédio da radiodifusão, teatro, cinema,

turismo e imprensa. Cabia-lhe coordenar, orientar e centralizar a propaganda interna e externa, fazer censura ao

teatro, cinema e funções esportivas e recreativas, organizar manifestações cívicas, festas patrióticas, exposições,

concertos, conferências, e dirigir o programa de radiodifusão oficial do governo. O DIP existiu em diversas

regiões do Brasil, os chamados "Deips". Essa estratégia política permitiu de controlar da informação e difundir a

2 ideologia varguista (FROTA, 2000).

  

Programa de rádio em que anunciava a política do governo e divulgava sambas para enaltecer o presidente.

Usava a Hora do Brasil para falar diretamente ao povo como um pai. Hoje em dia, este programa ainda existe,

porém, mudou sua nomenclatura, sendo agora chamado de Voz do Brasil (FROTA, 2000).

  3 Política que serviu como forma de combater as opressões definindo-as como crimes contra a segurança

nacional, a ordem política e social, estabelece seu processo e julgamento e dá outras providências (FROTA,

2000).

  4 A Segurança não foi uma inovação do Estado Novo, uma vez que tinha sido organizado em um contexto de

maquinações comunistas, como um Tribunal Militar em 1936 por um estatuto regular do Parlamento para lidar

com crimes contra a segurança externa do Estado, especialmente se cometidos com apoio ou orientação

  Segurança Nacional, ao mesmo tempo em que representava para o governo uma forma de

  5

  segurança contra os subversivos , também concebia para os militares, que formavam a Guarda

  6

  de Segurança Nacional , status social, atuação na política governamental e crescimento econômico (FROTA, 2000).

  Desse modo, compreende-se que Vargas, a princípio, conseguiu agradar ambas as classes sociais, a partir da constituição do trabalhismo, nacionalismo e industrialização do Brasil. Visto que a política varguista tinha como pressuposto conquistar o apoio popular por meio das leis trabalhistas, e, ao mesmo tempo, combater as revoltas sociais por intermédio da Doutrina de Segurança Nacional. Nesse sentido, Ferreira (2005) afirma:

  A política trabalhista concentra-se basicamente em dois pontos: em procurar convencer a classe operária de que as leis sociais seriam presentes do ditador, e em controlar policialmente as atividades dos sindicatos (p. 84).

  Verifica-se nessa afirmativa que Vargas planejou uma política ampla, em que envolvia a classe alta e ao mesmo tempo direcionava certa atenção a massa dos trabalhadores. Aos quais, até então, se encontravam desamparados e desprovidos de uma política social.

  A assertiva de Ferreira (2005) também pode ser associada ao pensamento de Gomes (1989) em que profere a prática política de Getúlio como uma forma de assegurar e respaldar a participação dos trabalhadores por meio dos direitos e deveres trabalhistas, entretanto, com uma participação doutrinariamente pacífica. Pois, ao mesmo tempo em que o trabalhismo representava a atenção do Presidente com os direitos dos trabalhadores, a Segurança Nacional garantia a ordem e controle dos movimentos sociais, por intermédio dos deveres que os trabalhadores deveriam exercer como aceitação e pacificação ao Estado. Nesse sentido, Getúlio procurou tornar os sindicatos órgãos defensores de sua política governamental, e o trabalhismo auxiliou a justificar ao controle do Estado sobre os sindicatos, enfatizando a necessidade de "proteção" ao trabalhador.

  Entende-se que a política, de cunho paternalista, desenvolvida no governo de Getúlio descreveu “A Era Vargas ou Getulismo” na história do Brasil. A partir do simbolismo que a população desenvolveu em torno da figura do Presidente com a política Nacional. Nesse

  

contra as instituições militares, e, em geral, qualquer tentativa dirigida com intenções subversivas contra as

instituições políticas e sociais do país (LOWENSTEIN, 1942, p.297).

5 Termo usado nos discursos políticos da época para caracterizar todo o cidadão que não seguisse as ordens da

  6 política Nacional (FROTA, 2000).

  

Exército militar que se instaurou como uma política de defesa Nacional, tendo como objetivo manter a ordem sentido, “O Getulismo esteve por muito tempo associado à defesa da legislação social produzida durante o governo de Vargas e a sua política econômica nacionalista” (GOMES, 1989, p.75).

  Verifica-se, que o Getulismo foi a ênfase do longo governo Vargas, sustentado pelo forte apoio popular, em que envolveu o significativo apoio dos trabalhadores, mas também, os interesses das classes dominantes com a política varguista, a fim de preservar os direitos trabalhistas, desenvolvimento industrial e nacionalismo.

  Confere-se que a política Varguista foi, por muito tempo, o alvo de ideologias e propostas de diferentes partidos e organizações políticas, tanto no sentido de descendência e apoio quanto nas rupturas e negações. Entretanto, o Getúlio auferiu denominações peculiares e novas tendências políticas, as quais passaram a abranger em diversos setores e agremiações. Instituindo em torno do trabalhismo um administrador das políticas vigentes, ou seja, o trabalhismo foi, por longo tempo, o vetor das propostas políticas regionais e nacionais que conduziam os discursos partidários em geral.

  Compreende-se que o trabalhismo se constitui durante o Estado Novo, porém

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  conseguiu atingir sua plenitude frente ao processo de democratização de 1945 . Nessa perspectiva, os trabalhadores delinearam certa atuação política, ou seja, reivindicaram por seus direitos sociais por intermédio da CLT, direcionaram seus votos aos políticos que melhor lhes convinham e cobravam dos mesmos as promessas feitas em época de campanha eleitoral. Muitos trabalhadores se inseriram na política partidária ao se filiar e representar as agremiações, sendo que a mais aceita foi a do Partido Trabalhista Brasileiro. No entanto, a contraposição das classes dominantes à política trabalhista se estabeleceu firmemente, nesse cenário de crise política (DELGADO, 1989).

  O pensamento de Delgado (1989) pode apensar com a assertiva de Bodea (1992):

  As pressões sobre o governo são tais que, já no 22 de fevereiro de 1945, ele proclama a sua intenção de convocar eleições gerais ainda naquele ano. No dia 28 de janeiro é decretado o Ato Adicional nº 9 que estabelece eleições diretas para a presidência da República e proporcionais para o Parlamento Nacional. No dia 18 de abril, o governo decreta anistia geral a seus adversários políticos, beneficiando desde liberais até comunistas. Finalmente, a 28 de maio de 1945 é decretada a chamada Lei Agamenon (nome do ministro da justiça na época), que marca as eleições para o 7 dia 2 de dezembro e regulamenta o novo código eleitoral e os requisitos para a

O fim do Estado Novo é assinalado por esta data, embora a partir de 1943 uma série de transformações

estivessem surgindo timidamente no universo político brasileiro. O esgotamento do modelo autoritário era

percebido pelos próprios mentores estado-novista, que se dedicaram ao estudo de uma forma de transição que

pudesse ser conduzida pelo alto, controlando a mobilização popular e a insatisfação militar. A entrada do Brasil

na guerra , compondo os Aliados, ajudou sem duvidar a forjar uma situação que impelia o país a definir-se em formação de partidos políticos. A grande vantagem dessa lei é que ela tornava obrigatória, pela primeira vez na história Brasileira, a formação de partidos de caráter nacional. Esse dispositivo visava não apenas evitar uma excessiva fragmentação partidária, mas também impedir o ressurgimento dos partidos políticos oligárquicos que tinham bases essencialmente estaduais e defendiam um programa federalista e outros princípios derivados do liberalismo clássico (p. 14).

  Compreende-se que a instauração do sistema parlamentarista de Agamenon, de certa forma, estabeleceu na política Nacional a liberdade de diversas e distintas ideologias partidárias. Entretanto, garantiu as conveniências e acréscimos à política varguista, constituídos durante o Estado Novo. Assim, organizou-se a estrutura do sistema democrático Nacional que se estenderá até 1964. Paralelamente, incluiu-se o trabalhador ao seio político, tornando-o vetor dos interesses partidários, tanto em prol quanto em inverso do trabalhismo.Nessa arena política, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) saiu da clandestinidade e legalmente legitimou-se como agremiação partidária. Em 1945, foi criada a União Democrática Nacional (UDN) como força de oposição civil e militar, composta por representantes de setores oligárquicos, da burguesia liberal urbana e políticos esquerdistas não comunistas, aos quais ficaram conhecidos como Esquerda Democrática. Um ano após, essa Esquerda Democrática rompe com a UDN e forma o Partido Socialista Brasileiro (PSB), juntamente com outros grupos políticos socialistas independentes. Em contrapartida, surge o Partido Social-Democrático (PSD), a partir de forças interventoras estaduais de cunho rural (governadores nomeados por Getúlio) na “tentativa de centralizar as forças oligárquicas locais fieis a numa estrutura política que tivesse algumas tinturas reformistas e fosse fiel a um programa nacionalista” (BODEA, 1992, p. 15). No sentido de ligação do PSD ao âmbito urbano, Getúlio, juntamente com o Ministério do Trabalho e Sindicalistas, criou o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), ao qual se auferiu como partido formado para o trabalhador. A disputa eleitoral concentrou-se praticamente entre esses partidos: UDN, PCB, PSD e PTB (FROTA, 2000).

  Nessa conjuntura, percebe-se que a conduta do PTB estava voltada para mobilizar em seu favor os trabalhadores. E ao restante dos partidos, a ação de oposição ao caráter getulista e sucessivamente ao trabalhismo em que envolvia o Partido Trabalhista Brasileiro.

  Compreende-se que a princípio, o PTB não se apresentou como uma forte ameaça para seus opositores os quais, em meio à crise política que do o Brasil no final do Estado Novo, consideraram que o PTB não se enquadrava como a solução dos problemas. Desse modo, o PCB pregava o socialismo como o melhor sistema político governamental, a UDN considerava como solução a instituição de um governo civil-militar. Entretanto, o PTB, que se constituiu por intermédio do Trabalhismo e Getulismo, mostrou sua força política e social contando com

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  o apoio dos Queremistas na massificação de uma agremiação forte e de preferência popular (DELGADO, 1989).

  Percebe-se que nos confins da democratização, quando a censura perdeu a força e os opositores a Vargas, em especial os udenistas, passaram a massificar suas campanhas contra a política trabalhista, surgiu o Queremismo, um expressivo movimento social em defesa da continuação de Getúlio no governo e ao projeto trabalhista.

  Compreende-se que os trabalhadores acreditavam que ao “aceitar os insultos públicos a Vargas seria não reconhecer devidamente os seus benefícios” (FERREIRA, 2005, p.61). Assim, a grande parte da população, revoltosa com as agressões a Getúlio, contaram com o apoio do Ministério do Trabalho e formaram um notável e significativo movimento popular de âmbito Nacional, em defesa do trabalhismo varguista (FERREIRA, 2005).

  Nesse sentido, o duelo entre UDN e PTB estava formado, compondo na arena política Nacional dois blocos antagônicos. Paralelamente, o Queremismo ganhou tal significância na trajetória política do país, em especial para o PTB, que o partido tornou-se por longo tempo, até, aproximadamente 1964, uma das preferências tanto nacionais quanto regionais. Pois a maioria dos militantes queremistas acabaram integrando ou apoiando a agremiação petebista.

  No entanto, o movimento Queremista não está intrinsecamente ligado ao PTB, mas ao trabalhismo, o qual foi um dos “objetivos que inspiraram A formação do PTB e uma das fontes inspiradoras do movimento queremista” (DELGADO, 1989, p.47), ou seja, o Queremismo e o PTB foram produtos da mesma ideologia que assegurava Vargas como o defensor do trabalhismo. Entretanto, possuíam características peculiares, uma vez que o Queremismo surgiu como certa defesa popular, para manter o governo Nacional sob a liderança de Vargas. Já o PTB teve a intuito de manter a política Nacional sob seu controle e utilizar a figura de Vargas como meio de apoio e aceitação popular (DELGADO, 1989).

  Percebe-se que “o Queremismo não foi mais que um movimento conjuntural, uma mobilização político social, que coincidiu em seus objetivos com uma das propostas iniciais do PTB: a preservação da mística de Getúlio e de sua obra social e trabalhista” (DELGADO, 1989, p.47). Nessa configuração, entende-se que os queremistas fizeram uma simetria entre Vargas e o trabalhismo. Assim uniram-se ao PTB por apresentar em sua proposta política o 8 trabalhismo e a figura de Vargas como o chefe do partido. Nesse sentido, o Queremismo não

  

Expressão usada para identificar as manifestações populares que defendiam em fins de 1945 a continuação de

Vargas no poder, por intermédio do slogan “Queremos Getúlio”. Esta campanha foi em grande parte apoiada e surgiu com a intenção partidária, ou seja, não se apresentou, em primeira instância, com a intenção de formar um partido político ou massificar o PTB.

  Compreende-se que a maioria de seus militantes acabou se filiando ao partido para garantir e defender os direitos sociais firmados com Getúlio. Visto que a democracia era inevitável e os estímulos à escolha dos partidos eram fortes. Percebe-se que “Diariamente, um tema de interesse dos trabalhadores era explorado, com gravuras e textos, ressaltando a necessidade dos trabalhadores em ter um partido próprio” (FERREIRA, 2005, p.79). Percebe- se essa assertiva nas palavras de Delgado (1989):

  Os trabalhistas receberam de imediato, a orientação para transformar os comitês queremistas, que se multiplicava em grandes números de cidades, em diretório do PTB. E em comitês eleitorais para apoio dos candidatos petebistas nas eleições que ocorriam no final de 1945 (p. 79).

  Identifica-se que o Partido Trabalhista Brasileiro foi fundado em 15 de maio de 1945, antes do Queremismo, com o intuito de ser "a mão esquerda" (DELGADO, 1989) de Getúlio e articular à sua volta o apoio político da massa de trabalhadores. Um dos seus principais objetivos consistia, em impelir as manifestações e revoltas dos comunistas e dos udenistas (DELGADO, 1989).

  Nessa conjuntura, percebe-se que o PTB teve suas origens com o trabalhismo e o Getulismo, delineando em torno de ambos suas propostas políticas. Assim, apresentou-se como o partido criado para os trabalhadores. Entretanto, por intermédio do Queremismo o PTB adquiriu maior relevância política frente à sociedade Brasileira.

  Compreende-se que a importância do trabalhismo e do Queremismo foram inegáveis na trajetória do partido, frente o simbolismo da figura de Vargas. Esses delinearam as bases do PTB, uma vez que “o Getulismo, Trabalhismo e Nacionalismo eram pontos fundamentais de uma política que visava corrigir as injustiças sociais e superar o atraso econômico” (DELGADO, 1989, p.146).

  Todavia, nem todos os petebistas possuíam as mesmas ideologias, até mesmo dentre os trabalhistas do PTB havia divergências, que não tardaram a se destacar e se dividir em Trabalhismo Pragmático, Trabalhismo Doutrinário e Trabalhismo Pragmático Reformista. As duas primeiras divergências, ou diferentes correntes de pensamento político, dos Pragmáticos e Doutrinários, estiveram presentes no partido desde o início de sua formação. Assim, delinearam uma conduta instável ao PTB, que ora se conduzia sob a tendência pragmática de cunho conservador, outra apresentava o caráter socializante dos Doutrinários, frente às mudanças sociais. Entretanto a última corrente do trabalhismo, os Pragmáticos Reformistas, surgiu nas décadas de 50 e 60, aos quais “se mobilizavam em torno de bandeiras como as reformas, combate ao capital estrangeiro e a defesa das instituições democráticas” (DELGADO, 1989, p. 80).

  Compreende-se que os Pragmáticos Reformistas foram vistos como os mais radicais do PTB, ao defenderem propostas de cunho revolucionárias embasadas por reformas e mudanças sociais. E em fins da década de 50, essa tendência de cunho esquerdista adquiriu relevância frente a um cenário populacional mais crítico e perceptível. Quando diversas mobilizações sociais e políticas, comícios, greves e manifestações de trabalhadores, que delinearam uma sociedade agitada e insatisfeita com as políticas vigentes.

  Nesta conjuntura, os políticos petebistas de cunho mais radical, uniram-se aos sindicatos para defender a conquista de uma sociedade com maior autonomia e participação política. A ligação PTB - sindicalismo passou a adquirir um caráter de “esquerda” (DELGADO, 1989, p.81) e aos poucos se desligaram do “aparato de aparelho do Estado” (DELGADO, 1989, p.80). Esse “grupo de esquerda”, denominado por Delgado (1989), também formou aliança política com PCB. Juntos, além das manifestações políticas e sociais, definiram novas propostas ao trabalhismo de Vargas. A partir do pensamento de Alberto Pasqualini, os Reformistas formaram a base ideológica para sua pratica política (DELGADO, 1989).

  O conceito de esquerda que Delgado (1989) aufere-se aos Reformistas do PTB pode ser fundamentado pela assertiva de Bobbio (1994), ao qual afirma que as esquerdas seriam as forças e as lideranças políticas animadas e inspiradas pela perspectiva da igualdade. Nessa definição, compreende-se que esse novo modelo trabalhista reformista, relaciona-se a política de caráter esquerdista. Uma vez que as esquerdas são definidas pela perspectiva de mudança, reformista ou revolucionária, no sentido da igualdade.

4.2 As correntes trabalhistas e a constituição do Trabalhismo Pragmático Reformista

  Percebe-se que o PTB apresentou ao longo de sua formação três principais tendências: a primeira chamada de Getulistas Pragmáticos, formada por trabalhistas conservadores e vinculados a Getúlio, os quais tiveram a maior relevância no partido até o suicídio do Presidente. A segunda tendência foram os Doutrinários trabalhistas, formados em maior parte por intelectuais orgânicos do partido, esses defendiam propostas políticas de cunho socializantes, bem como a desvinculação do partido em relação ao Estado. A terceira tendência surge com força no partido a partir da segunda metade dos anos de 1950, foram chamados de Pragmáticos Reformistas, que procuraram delinear em sua prática político- partidária características tanto dos Getulistas Pragmáticos quanto dos Doutrinários reformistas (NEVES, 2001).

  Identifica-se que desde o início, o PTB apresentou diversidades político ideológicas, entre Pragmáticos e Doutrinários, que delinearam atritos na agremiação, em relação à conceituação do trabalhismo e do partido. Ambas as correntes trabalhistas, além de disputar a diligência da política governamental, também duelavam forças pela liderança da prática política partidária do PTB.

  Nesse sentido, a orientação petebista passou a ser direcionada conforme a tendência trabalhista que estivesse sob a direção do partido, conduzindo-o a umA pratica política instável, em que variava entre doutrinária ou pragmática, assim, “O PTB apresentava opiniões diversas, decorrentes de uma complexidade de posições e propostas além de embates regionais” (DELGADO, 1989, p. 70). Uma vez que, durante a sua formação, o PTB apresentou-se como o partido dos trabalhadores e defensor do trabalhismo. Assim a agremiação petebista acolheu diversos setores da sociedade, desde os trabalhadores até os intelectuais liberais (DELGADO, 1989).

  Nessa perspectiva, o intelectual gaúcho Alberto Pasqualini filiou-se à agremiação. Entretanto, não aceitava o personalismo de Vargas ao PTB e ao trabalhismo, também rejeitava o pragmatismo que o trabalhismo dos primeiros anos proporcionava. Desse modo, uniu-se a outros militantes petebistas e formaram a corrente doutrinária trabalhista, a qual tornou-se o ideólogo. Suas propostas conquistaram maior expressão no partido a partir da segunda metade da década de 50 ao começo dos anos 60, com a constituição dos Pragmáticos Reformistas. Embora fizessem à simbiose do trabalhismo Pragmático com os Doutrinários, sua maior orientação política centrou-se no pensamento de Pasqualini, ou seja, nas propostas dos Doutrinários Trabalhistas (GRIJÓ, 2007).

  Identifica-se que o surgimento dos Pragmáticos Reformistas ocorreu em um contexto assinalado por expressivos pensamentos e discursos socializantes, que propunham alcançar o progresso e a modernidade, por meio de uma prática política governamental que desenvolvesse a industrialização no sentido de oportunizar a igualdade social.

  Nesse contexto, os Reformistas apoiaram seu modelo governamental de Estado na ideologia de Pasqualini, em defesa da implementação de um sistema capitalista mais justo e igualitário (NEVES, 2001). Esta seria a melhor forma de equilíbrio e desenvolvimento social, em relação ao comunismo e ao capitalismo individualista.

  Compreende-se que Pasqualini procurou criar um novo modelo de prática política governamental, já que considerava os existentes, no período, como ineficientes. Nesse sentido em relação ao comunismo, Pasqualini asseverou que, neste Estado socialista existiam somente duas classes: a burguesia, a qual detinha o poder político do Estado, e o proletariado, que não tinha possibilidades de defesa e organização social. Igualmente, no governo comunista havia uma socialização comum dos meios de produção, bem como uma significativa exploração da sociedade por parte do Estado. No caso do capitalismo desumano, o qual crescia aceleradamente em grande parte do ocidente, Pasqualini delineou que os elementos prejudiciais desse sistema eram os pensamentos e as ações humanas, relacionadas ao egoísmo e ao individualismo na conquista dos bens. Nesse sentido, a prática do pensamento individualista, caracterizado pelo ganho sem limites, conduzem o capitalismo à criação dos monopólios, da hegemonia econômica imperialista e da exploração do homem pelo homem, ou seja, ao capitalismo selvagem e desumano (GRIJÓ, 2007).

  Percebe-se que Pasqualini defendia a criação de um novo modelo governamental, ao qual deveria se abduzir tanto do comunismo, que dissimulava a dominação do Estado sobre a população em seu discurso de igualdade social, quanto do capitalismo selvagem, que demonstrava claramente a exploração de um indivíduo pelo outro tanto em bens materiais quanto simbólicos. Desse modo, o melhor sistema político seria a capitalismo humanista baseado em princípios de cooperação e solidariedade social.

  Nas palavras de Pasqualini (1994):

  Preconiza esse sistema que as relações entre o capital e o trabalho sejam reguladas por uma legislação justa que tenha na devida conta o esforço e a cooperação do trabalhador na produção dos bens que forma a riqueza nacional. Considera o organismo social como um todo solidário que só se poderá manter em posição estável com o aplainamento das desigualdades sociais, não devendo, por isso, a riqueza acumular-se apenas nalguns pontos para não comprometer o equilíbrio de todo o sistema (PASQUALINI, apud GRIJÓ, 2007, p. 43). Nesse sentido, percebe-se que o trabalhismo de Pasqualini se aproximou da social

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  democracia pela defesa do desenvolvimento da solidariedade social e participação de todos nos benefícios do país, em prol de um capitalismo mais igualitário. Paralelamente, defendeu o capitalismo no sentido de estimular o progresso econômico, por intermédio do desenvolvimento industrial.

  Compreende-se que o trabalhismo de Pasqualini, por intermédio de sua “herança cultural ítalo-católica”, esteve caracterizado pelo “comunitarismo orgânico”, uma das bases da doutrina social da Igreja Católica, promulgada em 1931 pelo Papa Pio XI na carta encíclica “Quadragesimo anno”. Nesse documento, o Papa defendeu uma “justa distribuição da riqueza” frente ao “bem comum”, ou seja, aos recursos naturais e organizacionais de uma determinada nação; bem como solicitou a ação de “justiça social”, por intermédio da “harmonia das classes sociais” (GRIJÓ, 2007, p. 94).

  Igualmente, identifica-se que o pensamento de Pasqualini foi influenciado por alguns parâmetros positivistas, em defesa de constituir um Estado forte e interventor, por meio dos poderes públicos. Entretanto, a intervenção dos poderes públicos deveria voltar-se para o equilíbrio social, a fim de amparar os menos favorecidos (BODEA, 1992). Esses princípios foram embasados pelas ideologias socializantes do trabalhismo britânico da social democracia que, ao contrario do tradicional positivismo, defendia a evolução democrática, a partir da transformação do sistema capitalista, a fim de torná-lo mais igualitário.

  Compreende-se que Pasqualini defendeu a implementação de um Estado interventor, porém sem autoritarismo, que proporcionasse oportunidades de evolução social, econômica e política, por intermédio de um sistema capitalista baseado em princípios humanistas.

  Paralelamente, nota-se que os Pragmáticos e Doutrinários se confrontaram quanto à forma de desenvolver o trabalhismo e o PTB. Entretanto, ambos simpatizaram com o trabalhismo britânico na defesa de certo ajuste organizacional, onde o Estado interviesse no sistema social. Embora, para Pasqualini, o Estado era o agente das transformações e equilíbrio sociais, não podendo conter o personalismo varguista.

  Nesse sentido, compreende-se que no final década de 40 e início de 50, no momento que Vargas rompeu com o PSD e direcionou sua postura política para a democracia de cunho 9 social, Pasqualini, igualmente, passou a defender a importância de Getúlio com o trabalhismo

  

Social democracia é a forma ideológica correspondente ao estágio de desenvolvimento predominantemente

intensivo. Sua base material é o nível de reprodução da força de trabalho consideravelmente mais elevado que no

estágio extensivo, necessário ao estágio de desenvolvimento intensivo e assegurado pelo Estado de bem-estar Brasileiro. E assim, estabeleceu-se certa aproximação de Getúlio com Pasqualini, findando o conflito entre ambos. Nas palavras de Pasqualini, por intermédio da leitura de Bodea (1992):

  Creio que, assim, poderemos perceber melhor o que o Getúlio representa para a massa trabalhadora. O povo não poderia compreender o trabalhismo nos seu delineamento teórico, na sua concepção abstrata, nos seus princípios científicos. Sabe, porém compreendê-lo por intermédio da ação política e administrativa de um homem que o tem realizado. Essa pessoa representa para o povo uma diretriz, uma tendência que sabe corresponder às suas necessidades, aos seus anseios, às suas aspirações. Não segue o povo uma orientação por causa da pessoa, mas segue a pessoa por causa de sua orientação. A idéia é mais assimilável por intermédio de sua personificação, que se não deve confundir com personalismo (CORREIO DO POVO 30/11/1946, apud, BODEA).

  Nessa assertiva, compreende-se que em meio dos anos 40 aos 50, as rivalidades entre Doutrinários e Pragmáticos começaram a amenizar-se, e o personalismo de Vargas passou a ser visto como meio para desenvolver a política trabalhista na sociedade.

  Entende-se que neste período, o PTB passou a defender, com maior proeminência, a implementação de um capitalismo mais justo, mais humanizado, em que não houvesse os confrontos sociais e, sim, a solidariedade social. Defendendo que trabalho deveria ser a principal contribuição de cada um frente ao todo, não se voltando exclusivamente ao usufruto pessoal, mas para o bem-estar coletivo, com a contribuição de todos, por intermédio do trabalho e cooperação (BODEA, 1992).

  Percebe-se que no ano de 1955 Pasqualini sofreu um acidente vascular e deixou a atuação política, paralelamente, havia o recente suicídio de Getúlio. Nessa conjuntura, surgiu uma nova corrente no PTB, denominados Pragmáticos Reformistas, aos quais asseguraram o desenvolvimento dessa simbiose entre Doutrinários e Pragmáticos. Nesse sentido, nos anos 50 aos 60, o partido foi conduzido por essa nova geração de petebistas, os Reformistas Pragmáticos em que apresentaram como maior expressão os líderes políticos João Goulart e Leonel Brizola (GRIJÓ, 2007).

  Desse modo, identifica-se que nos confins da década de 50 aos anos 60, frente a crise política partidária, decorrentes do afastamento de Pasqualini e inexistência de Vargas, houve uma simetria das ideologias do Trabalhismo Doutrinário com o pragmatismo carismático de Getúlio. Assim, apresentou-se uma alternativa ampla nas práticas políticas dos Pragmáticos Reformistas.

  Nessa perspectiva, as reivindicações sociais ganhavam maior significância no cenário político. João Goulart defendeu firmemente as reformas de base e organizações sindicais, enquanto ministro do Ministério do Trabalho e Presidente da República; Leonel Brizola direcionou notável atenção para o desenvolvimento urbano e educacional da sociedade (GRIJÓ, 2007).

  Nessa conjuntura, o PTB junto ao Trabalhismo Reformista, assumiu a proeminência na defesa das reformas de base mediante a presidência de João Goulart (1961-1964). Igualmente as propostas do PTB reformista acautelavam que a prática política governamental, reformista, só ocorreria à medida que a sociedade caminhasse no mesmo compasso (FERREIRA, 2005).

  Nesse sentido, percebe-se que o Trabalhismo Reformista, em sua plenitude, visava por reformas políticas que abrangessem um amplo sistema organizacional da sociedade brasileira. Defendia que o Trabalhismo Reformista, enquanto agente reformador das injustiças e desigualdades seria a melhor forma de defender e garantir os direitos sociais trabalhistas conquistados até então. Paralelamente, substanciou a política partidária como vetor das propostas políticas e econômicas, no sentido das transformações sociais.

  Compreende-se que a linha doutrinária deixou uma marca inexorável no PTB, em especial na organização do trabalhismo, não somente como forma partidária e sim como meio de doutrina social. Afirma Pasqualini “Nosso problema é criar uma mentalidade social que facilite o uso dos meios que oferecemos para a realização do programa que defendemos” (PASQUALINI, apud DELGADO, 1989, p.75). Nesse sentido, percebe-se que os Reformistas basearam-se na ideologia de Pasqualini em “busca da paz social, por intermédio de um desenvolvimento mais humano” (NEVES, 2001, p. 199). O qual só atingiria sua plenitude por meio da transformação do pensamento social frente à conscientização política e econômica, e somente após, poder-se-ia desenvolver uma prática comprometida com o bem comum (DELGADO, 1989).

  Nessa perspectiva, sugere-se que o maior obstáculo dos Reformistas se versou em conscientizar os trabalhadores que o trabalhismo só existiu porque houve pessoas para compor o mesmo. Assim, o principal responsável pelo desenvolvimento dessa proposta eram os próprios trabalhadores. Outra questão era persuadir que Vargas foi o mediador desse importante projeto que amparou os trabalhadores, e não o criador e único responsável pelo trabalhismo Brasileiro

  Entende-se que o Trabalhismo Reformista realçou o estímulo ao trabalhador licenciados por escolas técnicas, nas quais, eram responsáveis por desenvolver operários especializados em diversos setores das indústrias, a fim de desenvolver a nacionalização industrial do Brasil. De acordo com política reformista de industrialização os trabalhadores deveriam ser assegurados por questões relacionadas a aposentadoria, seguro desemprego, 13º salário, amparo aos setores sociais associados ao mercado. Sendo tratadas como questões técnicas financeiras e, sobretudo, fundamentais nos assuntos da economia privada, pois perpetraram estímulos as instalações de indústrias nacionais. Essas medidas foram defendidas, a fim de estimular desenvolvimento econômico, pautado na industrialização (SIMÕES, 1993).

  Percebe-se que os Reformistas consideravam a industrialização o ponto gerador do processo de desenvolvimento da economia nacional. Conquanto, as políticas educacionais eram fundamentais para garantir a base e o sucesso dessa conjuntura industrial.

  Igualmente, os Reformistas buscaram modificar as bases das políticas fiscais, eleitorais, educacionais, bancárias e agrárias em concepções que primaram por maior equilíbrio social. Paralelamente, por intermédio do combate aos monopólios estrangeiros e defesa das instituições democráticas e nacionais, desenvolveram a industrialização por intermédio da exploração dos recursos naturais, como usufruto nacional. Estes eram considerados um direito social da Nação e que as instituições nacionais deveriam explorá-los para o crescimento da economia brasileira (DELGADO, 1989).

  Nota-se que os Reformistas apresentaram propostas básicas de equidade social, em defesa do “capitalismo humanista” em que, aceitava a propriedade privada e todo o aparato do sistema industrial nacional. Entretanto, não compartilhava da desigualdade social e da “exploração do homem pelo homem” (DELGADO, 1989, p.72). Essa perspectiva, em relação à prática política reformista, relaciona-se a assertiva de Neves (2001):

  A Preocupação com melhor distribuição de renda, preceito já enfatizado por Pasqualini. Dessa forma, no pronunciamento retrocitado, afirmava ser necessário adotarem-se medidas “tendentes a impedir que uma pequena minoria, nadando em luxo e ostentação, continue afrontando a miséria de milhares de Brasileiros” (GOULART, apud, NEVES, p. 198)

  Nesse contexto, os Reformistas acreditaram que o Estado deveria guiar-se às necessidades da população e identificar seu papel frente ao desenvolvimento do país. Assim apoiaram-se nos ideais de Pasqualini, em favor de um capitalismo mais igualitário, com distribuição de riqueza e equidade social.

  Paralelamente, percebe-se que por intermédio da significativa atuação nos comícios, o Trabalhismo Reformista acabou delineando um perfil sindical, popular e pacífico em sentido de transformação social, com base no pensamento de Pasqualini, que organizou o trabalhismo não somente como forma partidária, mas como doutrina social. A partir da idéia de que a agremiação representara o ponto fundamental para a implementação das reformas sociais, em que, o Estado era visto como pólo refletor do capitalismo e do distributivismo (DELGADO, 1989).

  Nessa conjuntura, as reformas de base eram inevitáveis para a equidade social e desenvolvimento do Brasil. Assim, a reforma agrária era necessária ao desenvolvimento da economia, por intermédio do abastecimento do comércio interno e externo; as reformas na educação eram propostas primordiais para a transformação do pensamento social; as reformas no sistema fiscal e bancário eram fundamentais para administrar e controlar a economia e o sistema eleitoral também era preciso reformular, para garantir ao Brasil uma política justa e comprometida com a sociedade em geral (DELGADO, 1989).

  Compreende-se que durante a década de 60 até meados ao Golpe civil-militar, 1964, o Trabalhismo Reformista adquiriu destaque na política Nacional, abrangendo uma significativa anuência dos trabalhadores, sindicatos e políticos petebistas. Com João Goulart na Presidência da República, a divulgação da proposta reformista, em sentido de reformas de base para o equilíbrio social, foi refletida do Nacional para os regionais e o Reformismo atingiu sua plenitude e aceitação popular (GOMES, 1989).

  Nessa perspectiva, os Reformistas confrontaram a classe alta, por intermédio de seu projeto trabalhista que defendia um “programa que sustentava os direitos trabalhistas, garantia de emprego, política pública e qualitativa, previdência social ampla, reforma agrária, distributiva de riqueza e renda” (NEVES, 2001, p.161). E a oposição iniciou sua ação contra os Reformistas, aos quais foram assimilados como interventores do comunismo. No ano de 1964, findou-se a prática política reformista por meio do Golpe ou Contra-golpe Civil-militar.

  Observa-se que, embora frequentemente derrotados nos campos dos confrontos sociais e políticos, o Trabalhismo Reformista, sua trajetória, pensamento e ação, tiveram impacto decisivamente significativo na história das instituições, da sociedade, da política e das idéias no Brasil; tanto em âmbito nacional quanto regional. Nesse sentido, entende-se a importância de apresentar um estudo fundamentado em fontes documentais sobre a presença dessa vertente trabalhista na região de Santa Maria (1960-1964).

  3. 3 A percepção do trabalhismo reformista no legislativo Santa-mariense (1960-1964).

  A partir de 1945, ano do Queremismo e formação do PTB, o partido se constituiu com boas perspectivas na disputa partidária. Identifica-se que por intermédio do apoio queremista, a agremiação petebista fortificou-se na arena política do país e recebeu a preferência dos eleitores. Paralelamente, introduziu em sua prática partidária e no movimento sindical o trabalhismo (BENEVIDES, 1989).

  Nessa perspectiva, o PTB idealizou-se no movimento Queremista como a constituição de um partido dos trabalhadores nota-se que essa prática que está estreitamente vinculada ao trabalhismo getulista envolveu grande parte do país em suas versões de representação política e de participação popular, fazendo com que o PTB adquirisse gradualmente maior preferência popular e aderência ao sindicalismo.

  Nesse sentido, é nas décadas de 50 e 60 que o PTB atingiu seu ápice de anuência política. Por intermédio dos Reformistas, juntamente com as organizações trabalhistas, o partido delineou uma ativa atuação, em diversas mobilizações políticas e socais. E apresentou o trabalhismo como uma prática política ampla, reformadora e transformadora, no sentido das desigualdades sociais.

  Entende-se que essa conjuntura refletiu no cenário político de Santa Maria, uma vez que os vereadores petebistas da região obtiveram certo destaque partidário nas eleições de 1960, na qual o PTB se constitui como o partido de maior presença no Legislativo Santa- mariense. Demonstra essa assertiva por meio da leitura da composição do Legislativo (1960 - 1963), conforme os quadros abaixo:

  Quadro 1. Mesa Diretora da Câmara de Vereadores de Santa Maria -1960 NOME CARGO PARTIDO

  VOTOS Euclides Gonçalves Presidente PTB

  9 Helena Ferrari Vice-Presidente PTB

  7 Pantaleão Lopes Primeiro-Secretário PTB

  12 Manuel Malmann Filho Segundo-Secretário PSD

  12 Fonte: Arquivo da Câmara de Vereadores de Santa Maria, Ata nº 1/59

  Quadro 2. Comissão Representativa da Câmara de Vereadores de Santa Maria -1960

VEREADOR PARTIDO

  VOTOS Euclides Gonçalves PTB

  12 Pantaleão Lopes PTB

  12 Manual Malmann Filho PSD

  12 Adelmo Genro PTB

  12 Helena Ferrari PTB

  7 Fonte: Arquivo da Câmara de Vereadores de Santa Maria, Ata nº 1/59 Quadro 3. Suplentes da Câmara de Vereadores de Santa Maria -1960

VEREADOR PARTIDO

  VOTOS Adelmo Genro PTB

  11 Soel Maciel de Oliveira PTB

  11 Antônio Abelim PSD

  11 Fonte: Arquivo da Câmara de Vereadores de Santa Maria, Ata nº 1/59 Quadro 4. Comissão de Economia e Finanças da Câmara de Vereadores de Santa Maria -1960

VEREADOR PARTIDO

  

VOTOS

Soel Maciel de Oliveira PTB

  12 Fermino Ventura dos Santos PTB

  12 Eduardo Rolim PTB

  12 Antônio Abelim PSD

  5 Waldomero de Moura Reis PSD

  3 Fonte: Arquivo da Câmara de Vereadores de Santa Maria, Ata nº 1/59 Quadro 5. Comissão de Legislação e Pareceres da Câmara de Vereadores de Santa Maria -1960

VEREADOR PARTIDO

  VOTOS Isidoro Lima Garcia PTB

  11 Helena Ferrari PTB

  11 Sivo Duprat Barreto PL

  11 Fonte: Arquivo da Câmara de Vereadores de Santa Maria, Ata nº 1/59 Quadro 6. Comissão de Obras da Câmara de Vereadores de Santa Maria -1960

VEREADOR PARTIDO

  VOTOS Bismar Borges PTB

  11 Fermino Ventura dos Santos PTB

  11 Waldomero Moura Reis PSD

  11 Fonte: Arquivo da Câmara de Vereadores de Santa Maria, Ata nº 1/59

   Quadro 7. Comissão de Educação e Saúde da Câmara de Vereadores de Santa Maria -1960

VEREADOR PARTIDO

  VOTOS Eduardo Rolim PTB

  11 Hélio Helbert dos Santos PSD

  11 Nelsom Marchezam PDC

  11 Fonte: Arquivo da Câmara de Vereadores de Santa Maria, Ata nº 1/59

  Compreende-se, na leitura desse resultado que a maioria dos vereadores da Câmara Municipal foi composta por representante do PTB, bem como ocuparam cargos de chefia e formaram liderança no Legislativo de Santa Maria.

  Nesse sentido, entende-se que a repercussão do PTB frente à sociedade Santa-mariense foi de significativo apoio na década 60. Esse fato propiciou ao Legislativo de Santa Maria apresentar, em seus discursos da assembléia nacional, uma política voltada para os parâmetros trabalhista de nacionalização, industrialização, educação democratização e controle do capitalismo.

  Entretanto, quando Jânio Quadros assumiu a Presidência da República, em 1960, foi considerado por diversos políticos como autoritário e moralista. Devido ao seu discurso de varrer a imoralidade do país e por desenvolver uma prática política de cunho ditatorial, igualmente não foi apoiado pelos trabalhistas que apontaram sua política como elitista (FROTA, 2000).

  Esse contexto Nacional também ocorreu na arena política de Santa Maria, em que diversos edis defensores do trabalhismo, manifestaram-se contra a política de Jânio Quadros. Desse modo à Câmara Municipal de Santa Maria apresentou resistência em compartilhar dos mesmos ideais da política Nacional. Identifica-se essa perspectiva, na leitura da Ata da Sessão Extraordinária do dia 14 de março de 1961, por meio das palavras do vereador, Fermino Ventura dos Santos, PTB:

  Vereador Fermino Ventura dos Santos, declarando que é demasiado para julgar acertas as atitudes, do atual Presidente da República, quando é de notar o massacre atual dos operários com as demissões apuradas, quando é notar a falta de um estudo apurado antes de ter sido decretado os dois turnos para funcionários federais, quando é de notar o interesse do Governo, colocando militares nos postos chaves, o que pode trazer e trás o temor de que a democracia pode ser arrasada (Ata nº 113/61).

  Observa-se que, no Legislativo Santa-mariense incidiu o descontentamento com a política de Jânio Quadros por não amparar os trabalhadores e privilegiar a elite militar. Fermino Ventura dos Santos, em seu discurso, defendeu a proposta reformista que amparava a “proposição de combinação de uma ordem política democrática com busca de justiça social”

  (NEVES, 2001, p. 198). Esse descontentamento com o governo de Jânio Quadros não abrangeu somente os políticos como também, parte dos sindicatos e organizações trabalhistas. Assim consta nos registros da Câmara Municipal:

  Alexandre Cruz usou a palavra para informar o plenário que foi procurado, juntamente com o vereador Fermino Ventura dos Santos, por colegas ferroviários já estarem desiludidos com o Presidente da República, a quem, nas eleições de três de outubro, depositaram um voto de confiança. Justificou, assim, requerimento que entregou a mesa estranhando e protestando pela elevação aos preços, com vista ao Prefeito Municipal, Presidente da COMAP. Lembrou, ainda, ao chefe do Executivo, ao fato de ter prometido ao professorado, que em janeiro, segundo a declarações feitas à própria Câmara, que pagaria os salários das professoras. Até hoje, abril, tal medida ao foi cumprida (Ata nº 115/60).

  Neste cenário, percebe-se que os ferroviários não foram amparados pela política de Jânio Quadros. Quanto ao Legislativo Santa-mariense, identificou-se, por intermédio da preleção de Alexandre Cruz, a conotação reformista em sentido de preocupar-se “com o bem estar da população e com a defesa dos direitos dos trabalhadores” (NEVES, 2001, p.197 -198).

  Compreende-se que a política de Jânio Quadros, entrou em confronto com os Trabalhistas Reformistas e que se constituíram “tanto no campo da representação social de um tempo peculiar no qual trabalhadores se identificavam como sujeitos da história, como se constituiu em uma prática política, institucionalizada pela atuação do PTB” (NEVES, 2001, p.193). Bem como, promulgavam a defesa concisa de trabalhar em prol da inclusão das massas, por maior igualdade social e pela organização autônoma dos trabalhadores. Essa conjuntura originou certo desacerto entre o Nacional e a política Santa-mariense, no início da década de 60.

  Entretanto, o governo de Jânio Quadros não ultrapassou o ano de 1961, e quem assumiu o cargo de Presidente da República foi João Goulart, líder reformista. Dessa forma, o elo da inter-relação entre o Nacional e regional Santa-mariense passou a se estruturar e se fortificar, em certo compasso político.

  Nota-se que o apoio ao líder do Trabalhismo Reformista, João Goulart, foi enaltecido no Legislativo Santa-mariense. Na leitura da Ata nº 74/60, por intermédio do discurso de Isidoro Lima Garcia, do PTB, identifica-se essa assertiva:

  O vereador Isidoro Lima Garcia dizendo que, apesar de respeitar os ideais de seus adversários, disse que se pode associar a condição de Presidente do PTB ao senhor João Goulart de Vice-Presidente da República, que relevantes serviços tem prestado a comunidade Santa-mariense, merecer portando do título que lhe é oferecido neste momento (Ata nº 74/60). Nesse contexto, o vereador petebista declarou que João Goulart fez um bom trabalho político, e merecia estar tanto na presidência do partido quanto na vice-presidência da República. Também afirmou a ligação de Jango com a região de Santa Maria.

  O notável apoio de Isidoro Lima Garcia com a política reformista de Jango, também foi recíproco por outros petebistas de Santa Maria. Durante a sessão do Legislativo do dia 29 de

  10

  setembro de 1960 , foi exposto o projeto de Lei nº 1.158 sobre a menção de atribuir o título de “cidadão Santa-mariense” a João Goulart. Nas palavras de Soel Maciel de Oliveira, do PTB, em discurso de congratulação “ressaltou a personalidade do sr. João Goulart e sua folha de serviços prestada aos trabalhadores Santa-marienses” (Ata nº 74/60).

  Entende-se que a política reformista, por influência das idéias de Pasqualini, no sentido de transformação do pensamento social, defendeu a “elaboração de um Plano Nacional de Educação, que objetivava ampliar o atendimento educacional da rede pública de ensino” (NEVES, 2001, p.200), sustentando na educação o pensamento socializante, de que o homem é o principal responsável pelo seu destino e transformador de sua realidade. Percebe-se que os Reformistas defenderam essa idéia como forma de ser apensada à cultura Brasileira, para que a sociedade direcionasse suas ações na busca por melhores condições de vida, sem agredir os princípios de convívio social, de cooperação e solidariedade (GRIJÓ, 2007).

  Nesse sentido, esse pensamento reformista pode ser identificado na leitura da Ata nº 71/60. A qual demonstrou congratulações à prática política de um dos líderes reformista, Leonel Brizola:

  Vereador Fermino Ventura dos Santos dando conhecimento do telegrama do deputado Cezar Prieto, dizendo verbas de 2000 mil para a União dos Ferroviários Gaúchos. Manifesta quanto às declarações do vereador Moura Reis e constatação do vereador Vallandro, que Santa Maria, no setor de iluminação nunca recebeu tantos benefícios como agora, no Governo de Leonel Brizola. Igualmente no setor d’agua, bem como no ensino, pois o Governador está construindo escolas, presentemente, na rua Marechal Deodoro, na vila Salgado Filho, na rua vereador Lang, nas proximidades do BCCL, no Vacacaí, em Três Barras e na vila Silveira Martins (Ata nº 71/60).

  Nota-se que a Câmara Municipal de Vereadores acompanhou as repercussões políticas do Nacional, por intermédio da preleção do vereador petebista Fermino Ventura dos Santos,

10 Período em que o Vice-Presidente da República, João Goulart, estava disputando o cargo de Presidente da República, no qual foi renunciado por Jânio Quadros (Coronel Valença, Ata nº74/60).

  que demonstrou simpatia pelo líder reformista Leonel Brizola, ao qual, enquanto governador do Rio Grande do Sul, auferiu desenvolvimento com a região de Santa Maria, que trouxeram significativos benefícios, tanto no âmbito urbano quanto no educacional.

  Percebe-se que essa proposta política de desenvolvimento do ensino, foi uma prática que abrangeu significativamente o município, identifica-se a “informação do Poder Executivo na construção de escolas públicas no Passo do Raimundo e na Vila Rossato” (Vereador Soel Maciel de Oliveira, PTB, Ata nº 39/62). Embora o desenvolvimento das escolas públicas, também fosse uma proposta política dos Pragmáticos Getulistas. Nesta Ata nº 39/62, compreende-se que os investimentos no ensino ocorreram no ano de 1962. Ao qual, em relação a Ata nº 71/60, afirma-se que nos anos 1960 à 1962 o governador Leonel Brizola, líder reformista, direcionou expressivas verbas públicas a educação das massas, nos bairros de periferia, que encontravam-se desprovidos de acesso facilitado ao ensino.

  Nessa perspectiva, durante a sessão do dia 27 de junho de 1960, o vereador Eduardo Rolim, PTB, solicitou que Instituto de Educação Olavo Bilac deveria ampliar sua demanda de estudantes, e pediu verbas para a construção de um anexo. Em resposta, “o senhor prefeito considera justa a solicitação de verbas para a construção de um anexo no Instituto de Educação Olavo Bilac” (Ata nº 89/60). Percebeu-se na leitura dessa Ata, que o pedido do vereador Eduardo Rolim foi atendido pelo governo Municipal, amparando a escola da região central de Santa Maria. No entanto, essa preleção não pôde ser identificada exclusivamente como influência reformista, pois o desenvolvimento educacional também foi definido pelos Pragmáticos, bem como, não se encontrou nenhuma observação que se aproximasse precisamente aos Reformistas.

  Paralelamente, a Vice-Presidente da Câmara Municipal de Santa Maria, Helena Ferrari, PTB, discursa em prol dos trabalhadores da educação:

  A vereadora Helena Ferrari, manifestou-se contra a exoneração, por considerar que o concurso deveria se realizar com as professoras na interinidade dos cargos. Dizendo que o Prefeito Municipal tem compromisso com as normalistas, faltando com a promessa feita de justiça administrativa feitas durante a campanha eleitoral. Que a alegação de falta de verbas é falsa, uma vez que a Prefeitura Municipal acaba de adquirir para seus serviços uma moderna caminhoneta (Ata nº 32/60).

  Percebe-se na leitura dessa Ata, que a vereadora apoiou a classe do professorado, bem como condenou o investimento financeiro, a compra de uma caminhoneta, que a prefeitura de Santa Maria realizou. Esse discurso pode ser apensado ao caráter reformista “tendentes a impedir que uma pequena minoria, nadando no luxo e na ostentação, continue afrontando a miséria de milhares de Brasileiros” (GOULART, apud, NEVES, 2001, p.198). Nesse sentido, a vereadora aponta a atitude do Prefeito Municipal “um ato de desconsideração para com os trabalhadores” (Ata nº 32/60), em não amparar as professoras para investir no acumulo de bens materiais. Esta preleção de Helena Ferrari relaciona-se com os pressupostos da ideológica reformista, embasados no pensamento de Pasqualini (1994) em que profere “não devendo, com isso, a riqueza acumular-se apenas nalguns pontos para não comprometer o equilíbrio de todo o sistema” (p. 43).

  Identifica-se que o Trabalhismo Reformista defendeu a “atuação e intervenção do Estado nas questões sociais” (NEVES, 2001, p. 198). Nesse sentido, percebeu-se nos documentos da Câmara Municipal, o discurso de Euclides Gonçalves do PTB, Presidente da Câmara Municipal de Santa Maria, aufere-se ao desenvolvimento urbano e educacional do município, atribuído pelo Poder Executivo do governo do Rio Grande do Sul de Leonel Brizola, líder reformista:

  Associação dos barbeiros de Santa Maria; Instituto dos Comerciários; da direção da Pontifícia Universidade Católica do RGS; da prefeitura de Arroio do Meio; da Comunicação do Poder Executivo referente a reparos nas ruas e calçamentos da cidade; Comunicação do Governador do Estado referente à criação de Escola Técnica Profissional em nossa cidade. (Ata nº 3/60)

  Nessa perspectiva, percebe-se que o Legislativo de Santa-mariense foi cenário de participação social, no qual, as associações, sindicatos e instituições de ensino compartilharam com política municipal. Igualmente, percebe-se a ligação do Governo do Estado com a cidade de Santa Maria. Segundo Ferreira (2005), o pensamento dos Reformistas defendia que a falta de mão de obra especializada era um dos fatores que impediam o Brasil de desenvolver suas próprias empresas. Nesse sentido, exigiu-se a criação de escolas técnicas, a partir da percepção de fatores econômicos sociais.

  Entende-se que a partir de 1961 quando João Goulart, líder reformista, estava na presidência do Brasil, procurou-se pactuar no Legislativo Nacional um “bloco Nacionalista”, no sentido de comprometer-se com o desenvolvimento do país, por meio do nacionalismo e industrialização. Verifica-se essa assertiva nos registros da Câmara Municipal, por meio das palavras de Isidoro Lima Garcia, do PTB:

  Vereador Isidoro Lima Garcia, saudando, inicialmente, o vereador Armando Vallandro que hoje assume sua cadeira. Encaminha requerimento solicitando inserção nos Anais da Casa da “Declaração de Brasília”, na formação de bloco Nacionalista no Congresso Federal, acompanhando, dessa forma, dos deputados a idéia dominante no Brasil, por intermédio dos postulados nacionalistas, de defesa e

de luta pela emancipação industrial do país (Ata nº 69/61).

  Observa-se, que o vereador Isidoro Lima Garcia, PTB, apresentou ao Legislativo de Santa Maria a proposta de apoiar o nacionalismo frente ao desenvolvimento industrial. Em síntese, percebe-se que todas as correntes trabalhistas, tanto os getulistas quanto os Doutrinários, bem como os Reformistas, defenderam o nacionalismo e a industrialização. Entretanto, sugere-se que a preleção do edil pôde ser apensada a política reformistas, por meio do apoio ao “bloco Nacionalista do congresso Federal” do ano de 1961. Neste ano, João Goulart assumia a presidência do Brasil e pronunciou em sua corrente trabalhista reformista os “principais ingredientes do trabalhismo Brasileiro de então: Reformismo, nacionalismo, estatismo, assistencialismo e distributivismo” (NEVES, 2001, p.196). Bem como, defendeu a fiscalização tributária dos monopólios estrangeiros; proferindo que o lucro deveria ser reinvestido no país (NEVES, 2001). Nesse sentido, a leitura desta Ata apresentou certa ligação do governo Nacional com o Legislativo de Santa Maria,

  Igualmente, a inter-relação do Municipal com o Governo do Estado do Rio Grande do Sul foi identificada no Legislativo de Santa Maria, nos documentos do Legislativo, por intermédio das palavras do vereador Fermino Ventura dos Santos, PTB, percebe-se a defesa pelas diretrizes reformista:

  Vereador Fermino Ventura dos Santos respondendo a manifestação de acusação do vereador Marchezam, disse que o serviço de extensão de rede d’agua para as vilas e bairros da cidade, iniciado no ano 1928, somente durante o governo trabalhista, do Engº Brizola, houve verdadeiro interesse nesta realização, afirmando ainda nunca ter havido tantas realizações para Santa Maria, como no atual governo Estadual. Declara ter de ser considerado ainda, o aumento populacional da cidade, de quase 100%, e o abandono que antes estava relegada. Manifesta-se ainda, em protesto, contra os pretendidos aumentos das passagens de ônibus, declarando ter a Câmara, nesta contingência, o dever de lutar ao lado dos trabalhadores, em defesa de seus direitos (Ata nº112/61 – Sessão Extraordinária).

  Nesse sentido, verificou-se a simpatia do vereador petebista ao Trabalhismo Reformista, declarando que a cidade de Santa Maria foi significativamente desenvolvida, no setor de urbanização, pelo governo reformista de Leonel Brizola. Declarou, ainda, apoio aos trabalhadores e posicionou-se contra o aumento das passagens de ônibus. Desse modo, identifica-se a preleção de Fermino Ventura dos Santos como expressivo caráter reformista, em relação à “busca da justiça social” (NEVES, 2001, p. 198).

  Novamente o apoio as lideranças reformistas, por meio da Ata do Legislativo foi constatado no discurso de posse do novo Presidente da Câmara de Vereadores, do ano de 1962, Bismar Borges, do PTB:

  Assumindo a presidência, o senhor Bismar Borges declarou empossada a Mesa e empossados os membros das Comissões Técnicas. Disse assumir a Presidência em nome de seu partido, o PTB, e de manter uma orientação de solidariedade e prestígio aos governantes, João Goulart e Leonel Brizola (Ata nº 239/62).

  Compreende-se que ao assumir a presidência da Câmara Municipal, Bismar Borges fez um discurso em prol de João Goulart e Leonel Brizola, e pronunciou que manteria relações com a política de ambos os líderes reformistas. Bem como, demonstrou que a presidência do Legislativo de Santa Maria estava representada pelo Partido Trabalhista Brasileiro, ao declarar que assumia “a Presidência em nome de seu partido, o PTB” (Ata nº 239/62). Nesta conjuntura, averiguaram-se estímulos para desenvolver a política Reformista, de João Goulart e Brizola, no Legislativo de Santa Maria.

  Compreende-se que os Reformistas preocuparam-se com o controle das instalações das multinacionais em favor das empresas nacionais. Bem como apresentam a proposta de reforma agrária como meio inevitável para o equilíbrio rural do Brasil (FERREIRA, 2005). Essa assertiva identifica-se com o discurso de Fermino Ventura dos Santos, do PTB:

  A Argentina, de belíssimas atuações anteriores, acaba se tornando em mais uma República títeres dos truques norte-americanos, mas que essa atitude e a malograda Conferência da Organização dos Estados Americanos vêm a significar a quebra dos elos da cadeia capitalista própria de cada Nação, quando as nações subdesenvolvidas buscam a independência política e econômica e a autodeterminação. Diz da atuação Nacionalista e perfeitamente integrada às manifestações populares, agora com uma campanha, dos agricultores sem terras e a mobilidade das forças revolucionárias contra o governo. Diz ser a “carta de Santa Maria” elaborada pela Farsul, um documento eleitoreiro do interesse latifundiário, demonstrando com veemência que o imperialismo e o latifúndio andam de braços dados (Ata n°225/62).

  Entende-se que o Legislativo Santa-mariense posicionou-se contra os monopólios do Imperialismo e os grandes latifundiários, declarando serem estes os responsáveis pela formação de uma “cadeia de exploração”, nos países em desenvolvimento. Segundo os Reformistas a implementação das indústrias estrangeiras no Brasil, “gera trustes e cria privilégios, e, não tendo pátria, não hesita em explorar e tripular sobre a miséria do povo” (NEVES, 2001, p. 197). Paralelamente, o vereador apoiou as manifestações populares dos “agricultores sem terra”. Nesse sentido, sugere-se que Fermino Ventura dos Santos demonstrou simpatia à reforma agrária, a qual, segundo as palavras de João Goulart é:

  Uma idéia força improtelável”, pois “[...] o papa João XXIII nos ensina [...] que a dignidade da pessoa humana exige, como fundamento natural da vida, o direito e o uso dos bens da terra, ao que corresponde a obrigação fundamental de conceder uma propriedade para todos ( Neves, 2001, p. 199).

  Nessa perspectiva, os Reformistas posicionaram-se contra a monopolização das riquezas, tanto no âmbito agrário, constituída pelo domínio dos latifundiários, quanto pela esfera urbana, composta pelo controle e exploração dos grandes industriais estrangeiros e nacionais.

  Desse modo, a contraposição dos Reformistas ao domínio imperialista, por meio da defesa do nacionalismo ao sistema industrial desenvolvimentista, está presente na preleção do vereador Isidoro Lima Garcia, PTB. Por intermédio da leitura dos documentos do Legislativo Santa-mariense:

  Isidoro Lima Garcia, declarando que a remessa lucros para o exterior é causa maior do enfraquecimento da economia Brasileira, e que essa limitação faz parte do plano do governo do Marechal Lott, na retenção de mais de 700 milhões de dólares. Apresenta requerimento de congratulação ao Governo do Estado, pela defesa de que até o fim de seu mandato nenhuma empresa estrangeira estará atuando no estado do RGS (Ata nº71/60).

  Percebe-se que a preleção do edil petebista apresentou congratulações a política reformista. No sentido de apoiar o governador do Estado, o líder reformista Leonel Brizola, contra as instalações das empresas multinacionais. Essa prática política reformista, contra a exploração do imperialismo no território Brasileiro, pôde ser percebida nos documentos da Câmara municipal, por intermédio do discurso do vereador, Eduardo Rolim, PTB:

  O vereador Eduardo Rolim, dando apoio ao Governo Federal, no sentido de controlar e barrar os preços dos remédios, por parte dos laboratórios que operam no território Nacional e apela para que tal medida tenha urgência de transmutação. (Ata nº 241/62).

  Nota-se que o vereador petebista demonstrou defesa ao governo Nacional, de João Goulart líder reformista, apoiando prática política direcionada aos menos favorecidos, bem como pela contraposição a exploração da hegemonia econômica dos laboratórios farmacêuticos. Ao qual sobrepujava o controle da economia do país e explorava a classe trabalhadora com seus preços abusivos.

  Ainda com as palavras de Eduardo Rolim, PTB, identifica-se a relação da política reformista com o Legislativo de Santa Maria, por meio do documento:

  Agradecimentos pela instalação em vários municípios do Estado de escolas técnicas, por parte da Comissão Estadual de Energia Elétrica, solicitando que a casa se interesse para que Santa Maria venha a ser beneficiada. (Ata nº 241/62).

  Compreende-se que o Legislativo Santa-mariense procurou homenagear a empresa

  11

  nacional, Comissão Estadual de Energia Elétrica (CEEE), a qual pactuava seu trabalho com o governo de Leonel Brizola, e demonstrou simpatia à política reformista, a qual, por intermédio da proposta de João Goulart, pronunciava ser “indispensável o fortalecimento dos meios de intervenção do Estado” (GOULART, apud, NEVES, 2001, p.198), como meio de proporcionar melhores condições de vida a população.

  Nessa perspectiva, entende-se que o PTB teve boa repercussão no Legislativo Santa- mariense de 1960 a 1964. Assim como, provavelmente, continuaria sendo referência na próxima legislatura de 1964-1968, uma vez que, nas eleições de 1963, o PTB se conservou como o partido de maior representação no Legislativo de Santa Maria. Conforme o quadro abaixo: Quadro 8. Mesa diretora da Câmara de Vereadores de Santa Maria – Legislatura de 1964-1968.

NOME CARGO PARTIDO

  VOTOS Bismar Borges Presidente PTB

  8 Soel Maciel de Oliveira Vice-Presidente PTB

  8 Fermino Ventura dos Santos Primeiro-Secretário PTB

  7 Waldemar Kümmel Segundo-Secretário PDC

  8 Fonte: Arquivo da Câmara de Vereadores de Santa Maria (Ata nº 342/63).

11 Em 13/09/1961, por intermédio da Lei Estadual nº 4.136, o Governo do Estado do Rio Grande do Sul é

  

autorizado a promover a organização de uma Sociedade por ações, a ser denominada Companhia Estadual de

Energia Elétrica e destinada a projetar, construir e explorar sistemas de produção, transmissão e distribuição de

energia elétrica (GRUPO CEEE, Museu de eletricidade, 2009).

  Quadro 9. Composição da Câmara de Vereadores de Santa Maria – Legislatura de 1964-1968 .

TITULARES PARTIDO

  Fonte: Arquivo da Câmara de Vereadores de Santa Maria (Ata nº 342/63).

  Quadro 10 Composição dos suplentes da Câmara de Vereadores de SM – Legislatura de 1964-1968.

TITULARES PARTIDO

  Fonte: Arquivo da Câmara de Vereadores de Santa Maria (Ata nº 342/63).

  Abelino Albino Dalla Corte PDC Alexandre Cruz PTB Antonio Américo Vadoin PSD Artur Marques Pfeifer UPS Carlos Renan Kurtez PTB Dari Almircar Mortari PDC Dario Leal da Cunha PTB Eduardo Rolim PTB Francisco Lemes PTB Homero Behr Braga PTB Luiz Carlos Xavier PSD Manuel Malmann Filho PTB Paulo Santos PTB Pedro Fernandes da Silveira UPS Raphael Theodorico da Silva PSD Waldir Aita Mozzaquatro MTR

  Dolores Pereira Bernardes PTB Paulo Brilhante PSD Octavio Tomazzi Filho PTB Nilton Monti UPS Moises Velasques PTB Francisco Figueiró PSD Orestes Dalcim PSD José Adão Correia de Mello PTB Joaquim Sangoi PSD Arlethe Corsino dos Santos PSD Raphael Xavier Pillar PDC João Sherer MTR Gaspar Martins Beltrão UPS Orcy de Oliveira MTR Luiz Menna Barreto Pelegrino PSD Adair Mendes Maciel PTB Assis Lopes Sabala PTB Luiz Brondani PTB Clovis Assunção PTB Eroni Paniz PL João Manuel Athayde PL Dalton Rocha Couto PSD Fabrício Azambuja PTB

  Desse modo, a leitura da composição da Câmara Municipal de Vereadores Santa- marienses aponta que nas eleições de 1963 os vereadores petebistas, novamente, demonstraram a preferência do eleitorado. Verifica-se na leitura do quadro que dentre os vereadores eleitos 20 edis eram do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB); em segundo lugar conservou-se o Partido Social Democrata (PSD) com 10 representantes; o terceiro lugar ficou para os partidos União Popular Santa-mariense (UPS) e Partido Democrata Cristão (PDC) ambos com 4 representantes; após veio Movimento Trabalhista Renovador (MTR) com 3 representantes e por fim o Partido Libertador (PL) com 2 representante.

  Nessa perspectiva, dentre os documentos da Câmara Municipal, nesta nova legislatura de 1964 à 1968, encontra-se a preleção do vereador Soel Maciel de Oliveira, PTB, novo Vice- Presidente da Câmara Municipal. Na assembléia do dia 22 de fevereiro de 1963, ao qual foi designado, pela Presidência da Comissão Representativa, para fazer um estudo sobre as teses e os trabalhos desenvolvidos na legislatura passada, e que deveria ser enviado para o IV Congresso Nacional e Municipal:

  A criação do SAMDU Rural em apoio a Jango, no combate à inflação e a atenção destinadas aos trabalhadores contra o alto custo de vida. Dá conhecimento do seu trabalho, na Representatividade, em mais de cinqüenta requerimentos encaminhados: com os seguintes pedidos: vagas para instituições de ensino; consultas as autoridades estaduais, a Secretaria de Agricultura, de vacina para o gado, contra a “raiva”; luz para Boca do Monte, reparos na Vila Rossato; patrolamento na estrada Ibuqui-santo Antão; criação do Samdu-rural (Ata nº 337/63).

  Nota-se que o cenário político regional continuou simpatizando com a política Nacional Reformista de João Goulart, em defesa de um contexto democrático que frise o aplainamento do desequilíbrio social. Segundo os Reformistas, o Estado deveria proporcionar a “organização autônoma dos trabalhadores em torno de um projeto de ampla reforma social” (NEVES, 2001, p.188) essa assertiva relaciona-se com as palavras de Soel Maciel de Oliveira de “atenção destinadas aos trabalhadores” (Ata nº 337/63). Paralelamente, compreende-se que os trabalhos políticos que o petebista desenvolveu, a qual, em diversas preleções, demonstrou apoio à política reformista, foram significativos e relevantes para a sua próspera posição, enquanto Vice-Presidente da nova legislatura de 1964 à 1968 da Câmara Municipal de Santa Maria.

  Igualmente, a simpatia que os vereadores de Santa Maria auferiram à política reformista e suas lideranças, durante a legislação passada de 1960-1964, sugere-se que continuaria em evidência na nova legislatura de 1964-1968. Identifica-se essa suposição, por meio do discurso do petebista Eduardo Rolim, “Aos vereadores que conviveram na última legislatura meus agradecimentos e aos novos meus reconhecimentos e expectativas para que se trabalhem em bem comum, da sociedade como um todo” (Ata nº 4/64). Nesse sentido, percebe-se certo cunho reformista em sentido de “preocupação com o bem-estar social” (NEVES, 2001, 197), ou seja, o “bem comum” dito por Eduardo Rolim.

  Nessa perspectiva, Alexandre Cruz, PTB, apresentou um cunho reformista, frente a “Crítica aos aspectos desumanos e apátridas do capitalismo” (GOULART, apud, NEVES, 2001, 197). Ao acusar o “SAMDU por não ter atendido uma criança que se encontrava doente de pneumonia, só porque o socorro passou de 18 h. Pede para que façam uma vistoria no setor da saúde dos menos favorecidos”. (Ata nº 17/64). Nessa Ata, nota-se que o edil Alexandre Cruz posicionou firmemente contra o descaso do Atendimento Médico de Urgência (SAMDU), com os menos favorecidos, ao negligenciar os seus serviços. Compreende-se que o SAMDU não estava atendendo os direitos sociais e humanitários, defendidos pelos Reformistas.

  Novamente, por meio das preleções de Eduardo Rolim, identifica-se nos documentos do Legislativo de Santa Maria a característica mais expressiva dos Reformistas, as Reformas de Base:

  O vereador Eduardo Rolim, faz manifesto escrito sobre a situação Nacional reafirmando a necessidade de Reformas de Base que deverão ser realizadas pelo novo Governo, esse mesmo governo declara que pela elite nacional se revoltou contra as reformas que vinham sendo feitas (Ata nº 16/64).

  Percebe-se que no contexto Nacional, os Reformistas se construíram a partir da simbiose do Trabalhismo Pragmático com o Doutrinário. Assim, reformularam propostas políticas, já prenunciadas por ambas às correntes, a partir de um caráter mais radical e aproximação com o sindicalismo. Entretanto, suas propostas de maior anuência e caracterização foram as Reformas de Base, a qual ocasionou a contraposição da classe dominante, frente a essa prática política socializante. Nesse sentido, compreende-se que no Legislativo de Santa Maria, havia uma mobilização de cunho reformista em favor das reformas de base.

  Percebe-se que o apoio ao líder reformista, João Goulart, apresentou-se no parlamento de Santa Maria, também por outras agremiações. Identifica-se essa assertiva por meio da Ata da câmara Municipal, a prelação do vereador Nilton Monti (UPS):

  O vereador Nilton Monti encaminhando requerimento a mesa e declarando que a resolução vitoriosa no Brasil, não foi dirigida só aos partidos políticos, mas sim a um estado de coisas, a qual os partidos dêem apoio ao Governo Nacional, no sentido

de minorar o sofrimento dos trabalhadores (Ata nº 22/ 64)

  Observa-se que, embora o vereador Nilton Monti não fosse petebista, desenvolveu um discurso em prol dos trabalhadores e ainda referiu apoio ao governo de Jango, solicitando amparo dos seus colegas, independentes de questões partidárias, mas com ação cooperativa ao Nacional, frente ao cenário de agitação política do ano de 1964.

  Nessa perspectiva, entende-se que a prática política dos Reformistas, em especial a defesa das Reformas de Base, confrontou os interesses da elite civil e militar, as quais, não aceitaram a política de João Goulart e começaram a se mobilizar contra um prenúncio de implementação do governo comunista. Os Reformistas, por sua vez, se agitavam nos comícios, onde propagavam sua política reformista, que conquistava crescentemente um notável apoio popular (FERREIRA, 2005).

  Entende-se que a atuação dos Reformistas nos comícios refletiu no parlamento de Santa Maria. Identifica-se, por intermédio do documento do Legislativo, a prelação de Eduardo Rolim, do PTB:

  Vereador Eduardo Rolim, comunicamos que o PTB estará reunindo sexta-feira próxima para aguardar as manifestações do Presidente da República no grande comício programado para o Estado da Guanabara. Faz um convite a todas as bancadas para que compareçam a essa concentração trabalhista (Ata nº 9/64).

  Nessa conjuntura, percebe-se que o cenário político Nacional de 1964, em que delineou uma significativa crise política, inter-relacionou-se com o Legislativo Santa-mariense. Tanto no sentido de apoio a política reformista de participação nos comício, quanto no sentido das acusações dos opositores civis e militares aos militantes trabalhistas, em especial com os reformistas. Na Ata Municipal, constata-se a preleção de Octaviano Tomazzi Filho, PTB:

  O vereador Octavio Tomazzi Filho agradecendo a atenção de seus pares, em especial, de sua bancada, na oportunidade em que foi atingido por inquéritos polícial-militares. Diz não ter arrependimento do que fez no passado, mas afirma categoricamente que as imputações contra sua pessoa não são verdadeiras, porque

nunca foi comunista nem revoltoso militar (Ata nº 50/64).

  Entende-se que o petebista Octavio Tomazzi Filho foi acusado pelos policiais militares de ser comunista. Nesse sentido, supõe-se que o vereador petebista direcionava sua prática política ao Trabalhismo Reformista, uma vez que essa corrente trabalhista foi apontada pela oposição, de ser interventora do comunismo. Devido a sua política socializante, em prol da igualdade social, cooperativismo, distributivismo, reforma de bases e aproximação aos sindicatos. Nesse sentido, compreende-se que o Trabalhismo Reformista, até o início do governo civil-militar, presenciou suas propostas políticas e culminou suas lideranças reformistas no Legislativo de Santa Maria de 1960 à 1964.

  

CONSIDERAđỏES FINAIS

  Na presente pesquisa sobre o Trabalhismo Reformista e o Legislativo de Santa Maria, de 1960-1964, entendeu-se que o Trabalhismo e Getulismo foram práticas políticas que se constituíram por intermédio do governo paternalista de Getúlio Vargas. Formaram os alicerces de um novo modelo de sociedade brasileira, em que incluiu os trabalhadores ao núcleo social, em torno das leis trabalhistas, e desenvolveu a industrialização e o nacionalismo. Em meados da década de 40, frente à emancipação social da classe média liberal e as exigências da elite brasileira frente à 2º Guerra Mundial, o Getulismo proporcionou em 1945 a democratização no Brasil.

  Nesse cenário, Vargas, juntamente com seus aliados, criaram o PTB e enalteceram o trabalhismo. Ao mesmo tempo, surgiu a participação ativa de militantes intelectuais, conscientes de seu papel social, na política democrática. Entende-se que muitos desses ativistas críticos se filiaram ao PTB como forma de defender o trabalhismo, porém negavam a personificação de Vargas. Nessa perspectiva, formaram a corrente dos Doutrinários Trabalhistas, a qual propiciou ao trabalhismo maior substância humanista, em prol do equilíbrio social.

  No entanto, as propostas dos Doutrinários Trabalhistas atingiriam sua plenitude com a apresentação do Trabalhismo Pragmático Reformista, o qual se constituiu frente à crise política que o Partido Trabalhista Brasileiro e o trabalhismo enfrentaram nas décadas de 50 e 60, devido ao suicídio de Vargas e ao afastamento de Pasqualini.

  Nessa perspectiva, supõe-se que o Reformismo cunhou suas propostas políticas sob a reminiscência da classe média intelectualizada, junto à inserção dos trabalhadores no contexto Brasileiro, das décadas 50 e 60. Esse período apresentou a reestruturação de expressivos paradigmas sociais, em que a classe média, em conformidade com os trabalhadores, confrontaram a ideologia política e os interesses peculiares dos dominantes, latifundiários, grandes industriais e oficiais militares. A partir de uma contra-ideologia que oportunizasse a presença dessa classe média intelectualizada no poder político partidário. Desse modo, compreendeu-se que as relações do poder político ideológico e do social econômicos, influenciam significativamente a conduta da determinada sociedade em que estão inseridos.

  Nesse sentido, a ideologia de Pasqualini foi uma essencial contribuição para repensar a política governamental, no sentido de que o pensamento é o indutor das ações humanas e, a partir desse, deve-se desenvolver a transformação social. Sugere-se que o Reformismo introduziu essa ideologia de Pasqualini e sua prática política, a partir de amplo projeto de ordem democrática que primasse à justiça social, e criasse oportunidades para que os menos favorecidos pudessem modificar sua realidade. Assim, os Reformistas amparam o ensino, a partir do desenvolvimento de escolas técnicas, criação de escolas nas periferias e ampliações de setores nas escolas existentes. Também, aufere-se o desenvolvimento da conscientização social, ao expressivo apoio e participação dos Reformistas nos comícios e manifestações sociais, nos quais eram debatidos assuntos políticos, econômicos e sociais, estimulando o pensamento e conscientização cidadã, embora nos comícios, a conscientização social apresentasse um cunho político ideológico reformista.

  Compreende-se que os Reformistas construíram sua política em torno da simetria dos Pragmáticos com os Doutrinários, em relação ao desenvolvimento da educação pública, nacionalismo e industrialização. Junto à defesa de implementação de um governo capitalista mais igualitário e socializante, em contraposição aos monopólios do Imperialismo, em defesa do desenvolvimento da conscientização social, distributivismo e cooperativismo, participação ativa da população nas questões políticas, econômicas e sociais. Sendo o Estado o agente ativo e interventor dessas propostas políticas em favor do todo social.

  Nessa perspectiva, entende-se que a política dos Reformistas igualmente se apresentou no Legislativo de Santa Maria, pela simetria trabalhista, frente às propostas de desenvolvimento da educação, da urbanização, amparo aos trabalhadores, defesa de um capitalismo mais justo e igualitário, do nacionalismo, contraposição aos monopólios estrangeiros e latifundiários. Proposta políticas identificadas nas preleções dos petebistas municipais de 1960 a 1964.

  Conquanto, a presença essencial do reformismo pôde ser identificada no Legislativo de Santa Maria, por intermédio da exaltação da política do Estado do Rio Grande do Sul, de Leonel Brizola, em desenvolver na região o ensino público, urbanização e intervenção do Estado com a Comissão Estadual de Energia Elétrica (CEEE) para a exploração dos recursos naturais em benefício da população. Assim como, encontrou-se no Legislativo a característica marcante dos reformistas, a defesa das Reformas de Base.

  Bem como, sugere-se que o Legislativo estava em conformidade com o Reformismo por meio do apoio à participação nos comícios, prática política defendida pelos reformistas. Igualmente, encontrou-se a forte conotação dos vereadores em simpatias às lideranças reformistas, de Leonel Brizola e João Goulart, tanto pelos petebistas quanto por vereadores de outros partidos.

  Também, percebeu-se no Parlamento Municipal a existência de petebista acusado de desenvolver uma prática política de cunho comunista. Nesse sentido, entende-se que os Reformistas foram apontados como comunistas, assim supõe-se que esse vereador aproximou-se ou desenvolveu uma prática política de cunho reformista.

  Nesse contexto, percebeu-se que o Legislativo Santa-mariense, de 1960 a 1964, foi cenário de evidência petebista, ao qual o PTB demonstrou conter a preferência da população, formando a maior bancada na Câmara Municipal. Bem como, identificou-se a inter-relação entre o Nacional Reformista e o municipal, proporcionando certa aproximação do Trabalhismo Pragmático Reformista e o Legislativo local, igualmente, a crise política de 1964 refletiu-se no Parlamento. Desse modo, conclui-se que a arena política partidária de Santa Maria estava em consonância com a política Nacional da década de 60. E o Trabalhismo Reformista auferiu ao município desenvolvimento no âmbito educacional e urbano, desempenho do Governo Estadual enquanto interventor de políticas públicas que visaram o desenvolvimento dos setores em carência; defendeu a proposta de um governo capitalista mais justo e igualitário sem a exploração dos monopólios industriais estrangeiro, amparou os trabalhadores, influenciou a prática partidária dos petebistas santa-mariense a atuarem politicamente nos comícios em prol do bem comum e em busca do desenvolvimento social e econômico de Santa Maria.

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OBRAS REFERENCIADAS

  BENEVIDES, Maria Victoria

  O PTB e o Trabalhismo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1989.

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  DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. PTB: Do Getulismo ao Reformismo (1945-1964). São Paulo: Ed. Marco Zero, 1989.

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OBRAS CONSULTADAS

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