UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS DIOGO GUALHARDO NEVES

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  UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS

  PROGRAMA DE PốS-GRADUAđấO EM CIÊNCIAS SOCIAIS MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

  

DIOGO GUALHARDO NEVES

ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO:

  recrutamento e atuação política da liderança empresarial, 1880/1940 São Luís

  2011

  DIOGO GUALHARDO NEVES ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO:

  recrutamento e atuação política da liderança empresarial, 1880/1940

  Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão para obtenção do Grau de Mestre em Ciências Sociais. Orientador: Profº. Dr. Igor Gastal Grill.

  São Luís 2011

  

DIOGO GUALHARDO NEVES

ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO:

  recrutamento e atuação política da liderança empresarial, 1880/1940

  Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão para obtenção do Grau de Mestre em Ciências Sociais.

  Aprovada em: / / .

  BANCA EXAMINADORA _

  

Profº. Dr. Igor Gastal Grill (Orientador)

  PPGCSO/UFMA _

  

Profº. Dra. Letícia Bicalho Canêdo UNICAMP

  _

  

Profº. Drª. Eliana Tavares dos Reis

  PPGCSO/UFMA

  Como sempre, aos Neves de ontem, hoje, e amanhã. AGRADECIMENTOS Com infinda reverência, agradeço e agradecerei sempre a Deus.

  No entanto, sou ainda grato a todos os integrantes do Programa de Pós- Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão que me auxiliaram durante este curso, em especial aos professores Igor Grill, Eliana Tavares, Marcelo e Paulo Keller, bem como aos colegas de classe, notadamente o caríssimo Jesus Marmanillo. Deferências especiais à professora Letícia Bicalho Canêdo que se dispôs a ler este trabalho e compor a banca de sua avaliação.

  Curvo-me mais ante a gratuidade do incentivo, paciência, otimismo, presteza, competência e disposição das seguintes pessoas, que tem a minha mais elevada estima, e sem as quais o presente trabalho não se concluiria: Arcângela Sampaio, Ellen Bento, Gois Jr., João Dias Resende, Michelle de Paula e Rodolpho.

  Devo bastante a todos estes, e a muitos outros aos quais peço vênia por aqui não citar seus nomes, mas que os sei de cor e da grande importância que também tiveram para esta realização.

  Não me esquecerei jamais dos queridos Pe. Paulo e Tia Chica, ainda dos tempos de monografia. Que o Cristo lhes mostre a Sua face!

  

“Portanto, qualquer que a si mesmo

se exaltar será humilhado, e aquele

que a si mesmo se humilhar será

exaltado

  .”

  (Lc. 14:7-11) RESUMO A atual pesquisa se direcionou à compreensão dos mecanismos e condições sociais que proporcionaram a configuração de uma parte da elite econômica maranhense do final do século dezenove e início do vinte, analisando os processos de recrutamento e seleção de seus membros. Isso se deu a partir da principal instituição de representação dos agentes dedicados ao comércio e indústria do período, a Associação Comercial do Maranhão - ACM. Foram estudadas as características sociais e trajetórias desses agentes, bem como os recursos utilizados para a estruturação de suas carreiras

  “profissionais”. Identificou-se padrões e freqüências próprias para a conformação do grupo dirigente em evidência e, no mesmo sentido, a reprodução de práticas apontadas como inerentes ou pertencentes a outros segmentos da própria elite econômica, inclusive tidos como aparentemente antagonistas, tornando-as corriqueiras e intercambiais. Por conclusão, foi constatado que os vínculos de reciprocidade e parentesco, ou outros a esses equivalentes ou relacionados, são elementos determinantes para se pensar os processos de formação do segmento em pauta e as tomadas de posição apresentadas no jogo de disputa e domínio das posições de poder na arena econômica e política do Maranhão do entresséculos.

  

Palavras-chave: Seleção e recrutamento. Elite econômica. Maranhão. Século

dezenove. Século vinte.

  ABSTRACT This research purposes the comprehension of mechanisms and social conditions that supplied the configuration of economical elite in Maranhão from the end of nineteenth century tell beginning of the twentieth century. It had happened from the principal institution of representation for agents dedicated to trade and industry in that period, the

  “Associação Comercial do Maranhão – ACM”. It were studied social characteristics and trajectory of these agents, as well as the recourses used to structure their

  “professional” carriers. It were identified standards and frequencies proper to conformation of the leading group in evidence and in the same direction, the reproduction of practices considerate as inherent or belonging to other segments of the proper economical elite, inclusively considered as seemingly antagonists, becoming them common and belonging to exchange. In short, it was reported that reciprocity and relationship ties are determining elements to think about formation process of the segment in focus and the taking of stands present in dispute and power positions at economical and political arena in Maranhão during the between centuries.

  

Keywords: Selection and Recruiting. Economical elite. Maranhão. Nineteenth

century. Twentieth century.

  LISTA DE ILUSTRAđỏES Figura 1 Ana Augusta Jansen Pereira, década de 1860. Carte de Visite,

  Fotógrafo: “Phot. Guimarães & Cia”, Rio de Janeiro ........................... 55

  Figura 2 Manuel Jansen Ferreira, década de 1880 .......................................... 55 Figura 3 Eduardo Aboud .................................................................................. 59 Figura 4 Cândido José Ribeiro ..........................................................................62 Figura 5 Formanda em datilografia, Marieta de Oliveira Serrão ....................... 73 Figura 6 José Francisco Jorge ......................................................................... 80

  Figura 7 Francisco Mariano de Viveiros Sobrinho ............................................ 85 Figura 8 João Salles de Oliveira Itapary ........................................................... 91 Figura 9 Manuel Mathias das Neves Filho ....................................................... 92

  Figura 10 Diretores da ACM e o Interventor Federal (sentados, da esquerda para direita: o presidente da ACM em exercício

  • – vice-presidente naquela gestão
  • – Acir Barbosa Marques, ao centro, o interventor Paulo Ramos, e à direita o Secretário Geral do Estado, Albuquerque Alencar) .............................................................................................. 94

  Figura 11 Croqui do “Palácio do Comércio” e “Hotel Central ............................. 94

  Figura 12 Pedro Perdigão Barros e Vasconcelos ............................................. 102 Figura 13 Carlos Soares de Oliveira Neves ..................................................... 109 Figura 14 João Dunshee de Abranches Moura na década de 1910 ................ 113 Figura 15 Fran Paxeco ..................................................................................... 119 Figura 16 Manoel Coelho Pecegueiro Júnior ................................................... 123

  Figura 17 Jerônimo José de Viveiros (Senador do Império, com fardão e comendas, década de 1860) ............................................................ 128 Figura 18 Automóvel inglês modelo

  “Speed Well”, 1905. Ao volante, Joaquim Alves dos Santos nas dependências da Companhia Fabril

  Maranhense ..................................................................................... 136 Figura 19 José João de Sousa ......................................................................... 141 Figura 20 Alexandre Collares Moreira Júnior ................................................... 145 Figura 21 Magalhães de Almeida ..................................................................... 147 Figura 22 José Pires Sexto .............................................................................. 148 Figura 23 Getúlio Dorneles Vargas em Itararé, São Paulo, 1930...................... 153 Figura 24 Interventor Antônio Martins de Almeida ............................................ 154

  PP-PBN no porto de Belém

  Figura 25 Francisco Coelho Aguiar .................................................................. 155 Figura 26 João Pereira Martins ........................................................................ 156 Figura 27 Interventor Paulo Martins de Sousa Ramos ..................................... 158 Figura 28 Hidroavião da Panair do Brasil, modelo Sikorsky S-43, matrícula

  • – Pará, 1941. Mesma aeronave que transportou Osvaldo Aranha ............................................................ 160

  Figura 29 Clodoaldo Cardoso ........................................................................... 161 Figura 30 José Gonçalves Pereira ................................................................... 162 Figura 31 João Protázio Bogéa ........................................................................ 166 Figura 32 Alfredo Benna ................................................................................... 168 Figura 33 Afonso Assis Pereira de Matos ........................................................ 169 Figura 34 Arnaldo de Jesus Ferreira ................................................................ 170

  LISTA DE TABELAS Tabela 1 Origem Geográfica dos Diretores da ACM ......................................... 47 Tabela 2 Cargos de direção da ACM em relação ao número de diretores com e sem formação escolar através de instituição de ensino .................. 71 Tabela 3 Cargos mais elevados ocupados da direção da ACM conforme a titulação acadêmica ......................................................................... 83 Tabela 4 Diretorias de Empreendimentos Econômicos ..................................... 89 Tabela 5 Tempo de Mandato, Cargo e Quantidade de Diretores .................... 131 Tabela 6 Ocupação Geral de Cargos por Diretor (em anos) ........................... 131 Tabela 7 Vinculação com a Administração Pública ......................................... 174

  SUMÁRIO

  1 INTRODUđấO ............................................................................................. 12

  1.1 Por que estudar os “empresários” e quem são eles? ............................. 12

  1.2 Formas de estruturação de um “grupo” e hierarquização dos agentes ........................................................................................................ 26

  

1.3 Operacionalização da pesquisa ................................................................. 41

  2 ORIGENS E COMPOSIđấO SOCIAL DAS DIRETORIAS DA ACM:

  a morfologia de uma representação empresarial .......................................... 46

  2.1 Elementos importantes para a configuração da liderança empresarial .................................................................................................. 46

  

2.2 As origens geográficas .............................................................................. 47

  

2.3 As profissões dos ancestrais .................................................................... 60

  

2.4 Escolarizações e profissões ...................................................................... 68

  

2.5 Outras formas de congregação ............................................................... 104

  3 FALANDO EM NOME E PARA A ACM: os

  “intérpretes” e suas origens sociais ............................................................................................ 112

  

3.1 João Dunshee de Abranches Moura ....................................................... 113

  

3.2 Fran Paxeco (Manuel Francisco Pacheco) ............................................ 119

  

3.3 Jerônimo José de Viveiros ...................................................................... 124

  4 ENGAJAMENTO E ATUAđấO POLễTICA DA LIDERANÇA EMPRESARIAL .......................................................................................... 130

  4.1 Formação do “grupo” e monopolização do trabalho de representação ........................................................................................... 130

  4.2 Os repertórios da mobilização coletiva: petições públicas, artigos

  políticos e pareceres técnicos ..................................................................... 138

  

4.3 Da ACM à política: percursos e conexões ................................................. 171

  

5 CONCLUSÃO ............................................................................................. 184

  REFERÊNCIAS .......................................................................................... 186

  

“empresários” e quem são eles?

  Em 2004, a Associação Comercial do Maranhão, também conhecida simplesmente pelas letras iniciais de cada palavra de seu nome oficial, “ACM”, principiou as festividades de comemoração do seu século e meio de existência.

  Como é possível se constatar em diversos impressos atuais, e mesmo através das informações contidas em seu site na rede mundial de computadore , a referência quanto à sua fundação recai sobre o ano de 1854.

  Em razão disso, ela promoveu um concurso monográfico que premiaria os três trabalhos de melhor avaliação. O primeiro colocado lograria, além de outras benesses, o recebimento de uma placa com seu nome e o título de sua produção escrita, e ainda participaria da sessão solene de aniversário. O tema a ser abordado deveria focar a contribuição histórica da instituição para o desenvolvimento da “economia” e “sociedade” maranhenses.

  Tomamos conhecimento do referido certame através de um folder deixado nas dependências da coordenação dos cursos de História da Universidade Federal do Maranhão, pelo que nos inscrevemos, entregando parte do que seria a nossa própria monografia de graduação a ser defendida no ano seguinte, incluindo- se nela, bem precária e superficialmente, algumas referências sobre essa agremiação de empresários do comércio e indústria.

  Cinquenta anos antes, pelo advento do centenário, em outro concurso mais ou menos semelhante, seria premiado Jerônimo José de Viveiros, professor secundarista e escritor, diretamente vinculado à entidade, com sua

  “História do

  Comércio do Maranhão

  ” (VIVEIROS, 1954, grifo nosso), em dois volumes, e mais um terceiro que não seria concluído pelo autor. A obra, estruturada cronologicamente e publicada pela ACM, encontra seu epílogo por volta da década de 1930, quando mudanças importantes na esfera política nacional teriam interferências diretas no papel de assessoramento exercido por si junto aos poderes públicos locais.

  A “História do Comércio do Maranhão”, autorizada e apropriada pela

  Associação Comercial em 1954, teve sua divulgação acompanhada por uma fase de maior aproximação da instituição com o governo estadual. Contando com dirigentes comuns transitando entre uma e outra instância, a “Campanha da Produção” idealizada e implementada pela primeira naquela década com o fito de modernizar, no que fosse possível, a cadeia produtiva maranhense, contou com franco apoio político e financeiro do segundo.

  Diversos diretores da ACM naqueles idos foram retratados, mesmo literalmente, com fotos oficiais suas publicadas nas páginas da obra de Jerônimo de Viveiros (1954

  • – as páginas com as fotos não estão numeradas –), em elogiosas

  menções às suas “qualidades” pessoais. Essas teriam permitido o acesso às mais elevadas posições de poder no interior da instituição, apoiadas no pertencimento a parentescos

  “tradicionalmente” firmados na esfera de domínio econômico e capacidade de estabelecimento de laços de amizade tanto dentro do círculo de industriais e comerciantes quanto fora dele, em especial a influência frente a autoridades políticas, judiciais e religiosas.

  Contudo, em 2004, não conseguimos vislumbrar com clareza os propósitos mais objetivos da “História do Comércio do Maranhão”, ao que terminamos por reiterar suas linhas mais gerais de congraçamento, seja de seu autor, seja dos dirigentes da ACM.

  Isso de certo também se deu em razão de não bem compreendermos o processo de nossa própria socialização, fortemente subsidiada pelo “legado familiar” de dois antepassados, diretores da Associação Comercial: Manuel Mathias das

  Neves e Manuel Mathias das Neves Filho, vogal e presidente, respectivamente, ambos citados não só nos textos de Viveiros (1954; 1964) como nos de outros autores pertencentes à historiografia maranhense, dentre eles Moura (1907; 1992; 1993) e Paxeco (1916; 1923; 2008).

  Entretanto, já quando se desenvolvia a rápida pesquisa para a elaboração da monografia concorrente, algumas informações contidas na “História do Comércio

  do Maranhão

  ” e nos exemplares da “Revista da Associação Comercial do

  Maranhão

  ”, esta publicada a partir da década de 1920, despertaram o interesse pelo aprofundamento, ainda que para um tempo futuro, dos estudos acerca da instituição e seus dirigentes.

  De início, constatou-se um problema quanto à fundação da ACM, que teria acontecido em 1854. Todavia, até meados dos anos trinta, segundo a revista por ela mesma editada, se apontava para o evento a data de 1879. Efetivamente, entre esse lapso temporal existiu outra instituição, a “Comissão da Praça”, também de comerciantes, mas de fato muito dessemelhante da que a sucedeu, quando observadas, especialmente, as origens sociais de seus líderes, muito menos plurais e complexas.

  Em seguida, o estudo das condições que proporcionaram a coexistência de portadores de títulos de nobreza e seus familiares, negociantes portugueses, sírio-libaneses e brasileiros nas mesas diretoras da Associação Comercial, se apresentou como a possibilidade compreender uma parte importante da elite econômica local, e as formas de sua composição, na passagem do século dezenove ao vinte. Questões como essas, associadas a outras de fundo mais imediato, como o resultado do certame havido em seu

  “sesquicentenário”, tornaram peremptório o interesse pela entidade. Na data aprazada no edital, foi divulgado o nome do único vencedor.

  Era o nosso. Certamente, porém, não pela qualidade daquele esboço de trabalho de conclusão de curso, mas sim pela mais completa ausência de concorrentes, e a fácil constatação de que a entidade em comento e seus diretores, do presente ou do passado, não se encontravam entre as prioridades dos pesquisadores, ao menos dos residentes. Com o desenvolvimento da pesquisa acadêmica, notadamente após o ingresso no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão, foi possível implementar tal projeto de estudos, o qual buscou perceber e avaliar uma série de elementos importantes para a composição dessa organização patronal e seus fins práticos, bem como as origens sociais, recrutamento e trajetórias de seus líderes.

  Alguns desafios se impuseram de plano, como a aplicação de conceituações elaboradas para determinados tipos de referenciais de natureza empírica, diferentes dos aqui abordados, todavia, com o mesmo objetivo de revelar as condicionantes do processo de seleção de elites. No caso, cuidando-se de uma parte da elite econômica local do entresséculos, especificamente a de proprietários de casas comerciais e indústrias, foi necessário um cuidado especial porque a mesma é componente de uma sociedade de flagrante caráter periférico.

  De fato, ela é importadora de modelos produzidos para outras configurações e readaptados a um novo meio, não sem conflitos e com o estabelecimento de valores e códigos próprios, bem diversos daqueles onde esses padrões surgiram, ou trazendo para o centro de decisão recursos que teriam importância secundária em seu ambiente de origem.

  Estatutariamente, segundo o artigo 1º do seu regulamento interno, a Associação Comercial do Maranhão foi

  “[...] instituída em 5 de fevereiro de 1878, em sucessão à antiga „Caza da Praça‟” “[...], nem só para os fins constantes dos art. 32, 33 e 34 (atividades de regulação das empresas) do Código Comercial, como para os que se determinaram nestes estatutos, tendo a sua sede na capital do Estado

  ”. São informados também os tipos de profissionais que constituem a entidade, tendo-se no parágrafo primeiro o modo como eles se auto-identificam:

  Os quadros de sócios [...] serão formados por pessoas de reconhecido crédito, sem distinção de nacionalidade, que tenham a necessária probidade, e pertençam às seguintes classes: comerciantes, industriais, agricultores, capitalistas, proprietários, armadores, corretores, leiloeiros, agentes ou auxiliares do comércio, despachantes gerais e cônsules. (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1931, não paginado).

  O então Código Comercial, em vigor desde o ano de 1850 e durante todo o período em que foi centrada a pesquisa, define o que são os comerciantes e suas empresas comerciais (companhias e sociedades comerciais)

  Art. 4º. Ninguém é reputado comerciante para efeito de gozar da proteção que este Código liberaliza em favor do comércio, sem que se tenha matriculado em algum dos Tribunais do Comércio do Império (extintos e substituídos em 1875 pelas juntas comerciais

  • – intervenção nossa –), e faça da mercancia a atividade habitual. [...] Art. 287. É da essência das companhias e sociedades comerciais que o objeto e fim a que se propõem seja lícito, e que cada um dos sócios contribua para o seu capital com alguma quota, ou esta consista em dinheiro ou em efeitos e qualquer sorte de bens, ou em trabalho ou em indústria (BRASIL, 2001, p. 9 - 44).

  A legislação da época não incluía a categoria de “agricultores” no rol de empresários, contrariamente ao permissivo constante nos estatutos da ACM. A concepção de

  “empresário”, nessa perspectiva, remeteria ao significado jurídico de pessoa física que possui inscrição de empreendimento econômico na Junta Comercial (instituição pública de matrícula de proprietários de casas comerciais ou unidades fabris) da região onde labora. Dessa maneira, cita-se ambas as normas, tanto o regimento interno da Associação Comercial quanto o artigo de lei, como demonstrativos da auto-identificação e construção das identidades dos agentes que compõem os quadros da instituição. Por isso, o “empresário” seria tanto o comerciante, e ou, o industrial que tivesse sua profissão reconhecida enquanto tal. Contudo, pelo menos no Maranhão do século dezenove, inexistiu uma especialização profissional clara entre os componentes das elites econômicas, posto que muitos indivíduos eram ao mesmo tempo proprietários de estabelecimentos comerciais, industriais ou ainda financeiros e agrícolas. Em razão disso, ao se utilizar o termo em questão, considera-se o fato de que não são apenas comerciantes ou industriais, em sentido legal, ou como o próprio nome oficial da instituição pode fazer crer.

  Assim, o empresariado, ao menos enquanto “grupo representado” é “[...] historicamente o produto do trabalho de certos segmentos sociais agindo como produtor de categorias e identidades [...], como legislador produzindo as demandas de representação [...] ou incitante do reagrupamento [...]

  ” (OFFERLÉ, 2009, p. 34, tradução nossa). Conduto, quando se empregou as categorias de “comerciantes”,

  “agricultores” e “industriais” o foi apenas para designar uma ou outra atividade como a principal do indivíduo específico em questão.

  No capítulo IV dos mesmos estatutos, a partir do artigo 14 e seguintes, tem-se a composição das mesas diretoras da instituição. Elas são formadas por um presidente, um vice-presidente, um primeiro secretário, um segundo secretário, um tesoureiro e quatro

  “diretores” (vogais), além de suplentes para todos os cargos. Existiu durante algum tempo uma comissão fiscal, composta por três confrades e igual número de substitutos. O tempo de mandato variou no curso dos anos, podendo ser de doze ou vinte e quatro meses, inexistindo óbices à reeleição. Informa-se, por oportuno, que as fontes pesquisadas não apontam quem seriam os ocupantes da comissão fiscal, bem como deixam de nomear os seus suplentes e os da diretoria. Por essa razão, ficaram excluídos do presente trabalho.

  Ainda no regulamento interno, a Associação Comercial do Maranhão apresenta seu programa de ações. Dentre essas estão o pronto atendimento aos interesses das

  “classes” que a compõem, a representação dos associados e a observação das demandas profissionais apresentadas, além de sua configuração enquanto

  “tribunal de arbitragem”, para a solução de litígios entre seus membros e terceiros, sem a ingerência do Poder Judiciário. Existe também a destinação de auxílio financeiro às famílias dos sócios falecidos e que não legaram meios de sobrevivência, e a manutenção, quando possível, de um serviço de

  “Estatística Comercial, Industrial e Agrícola ”, com a promoção e divulgação dos bens produzidos no Estado.

  A par das diretrizes oficiais da instituição, o que se verifica é que os referenciais primordiais para as estruturas de classificação e hierarquização no interior da ACM, e provavelmente em outras entidades particulares e públicas, estão muito mais fortemente vinculados à capacidade de criação e manutenção de teias de reciprocidade entre seus agentes. Nesse caso, o

  “mérito” do líder institucional não está na construção “profissional” da carreira de empresário, mas sim na competência de firmar laços de amizade e mesmo de parentesco efetivamente lucrativos, conscientemente ou não, dentro do grupo ou fora dele, mas, via de regra, sempre com outros indivíduos inseridos nas esferas equivalentes ou superiores de poder.

  No mesmo sentido, a vinculação a outras instituições de finalidades pretensamente diversas da ACM, porém, de igual forma edificadoras da consagração pública de seus membros, como aquelas de viés

  “cultural”, citando-se a nível local o “Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão” ou a “Academia

  Maranhense de Letra s”, é outro contribuinte importante para o fenômeno de justificação da liderança de alguns de seus quadros.

  Grande parte das instituições ou entidades “classistas”, representantes das elites culturais, econômicas e religiosas, fundadas ou em funcionamento no

  Brasil do século dezenove, durante o curso dessa centúria e de boa parte da seguinte, parecem comungar de determinados princípios fundantes de seus processos de recrutamento e seleção de dirigentes. No caso das eleições para a direção da ACM, não se vislumbram grandes disputas, mesmo entre os diretores pertencentes aos grupos de origens sociais diferentes. A ausência de chapas concorrentes ou mesmo de candidatos, mandatos prorrogados por longos períodos e reeleições seguidas da mesma mesa diretora, às vezes por dez anos ou mais, ilustram bem um tipo de organização baseada nos laços de amizade e apadrinhamento, que vedam, ou pelo menos tentam vedar, a inclusão de indivíduos desligados ou não vinculados à rede estabelecida.

  Isso, no entanto, está relacionado aos processos de base para a seleção desse segmento da elite econômica, onde os indivíduos são incluídos ou rejeitados conforme os recursos que são postos em jogo. O ingresso na instituição representa uma forte atribuição de crédito social ao agente, onde estão presentes valores como a confiabilidade e lealdade, que vão além da própria entidade de representação do empresariado. Perpassam, com efeito, pela participação e freqüência em outras organizações, como clubes sociais, festas religiosas e mesmo atuação e posicionamento político. Nessa perspectiva, Coradini (2005, p. 5), analisando o processo de recrutamento dos membros da então Academia Imperial de Medicina, expõe uma situação cuja similitude com o caso da Associação Comercial do Maranhão, em período histórico mais ou menos equivalente, é, no mínimo, notória:

  A não emergência de um confronto entre ideologias “aristocráticas” e “meritocráticas” (Weisz, 1988a e 1988b; Charle, 1987) pode ser decorrente também dos próprios critérios de recrutamento dessa elite, baseados na cooptação, no capital de relações sociais e na reciprocidade, o que resulta numa espécie de

  “efeito clube” [...]. Nos processos de recrutamento de novos membros há, em geral, candidato único ou então um número mínimo, visto que as chances são conhecidas com antecedência, e um dos efeitos disso é o caráter personificado do processo de construção de imagens, que destaca “qualidades pessoais”.

  Assim, em vista dessas considerações mais amplas, se definem as linhas gerais das funções de recrutamento e seleção de agentes para o ingresso e futura progressão na ACM. Contudo, é muito importante também se compreender quais os condicionantes específicos que proporcionarão a disponibilidade de determinados recursos a serem acionados oportunamente, no bojo das disputas pelo acesso aos cargos de poder e a perpetuação de seu controle. Essa amplificação objetiva da posse e acúmulo de diversos tipos de capital contribuía sobremaneira para o incremento da consagração pública do agente, subsidiando sua participação nos processos de acesso às mais elevadas instâncias de poder, bem como a legitimação da liderança conquistada.

  Conforme consignado no bojo da presente dissertação, a ACM não se configura, apesar de suas orientações oficiais, apenas como um lugar onde se discutirão temas relativos à economia financeira das empresas e do Estado, senão como necessariamente um meio de consagração de seus líderes. Mesmo que sejam apresentadas teses ou convocadas reuniões para apreciação de assuntos afeitos a sua destinação institucional, terminam elas, na verdade, se ajustando às citadas funções de exaltação das lideranças e reafirmação das mesmas em suas posições de poder. Essa

  “dimensão de consagração” já havia sido descrita por Coradini (2005, p. 4, grifo nosso) também para a Academia Nacional de Medicina, entidade que sucedeu a

  “Imperial” durante a república, estando presente de igual maneira em Ademais, se está tratando de uma instituição objetivamente situada em uma sociedade periférica, onde a incipiência de uma estrutura que possa garantir a equivalência dos títulos portados, sejam os relacionados à propriedade econômica ou escolar, conduz os agentes ao estabelecimento de estratégias e relações personificadas, essas sim a constituir a condição fundamental de garantia de todas as outras formas de capital (CORADINI, 1997). Isso faz com que os vínculos de amizade, parentesco e apadrinhamento entre os indivíduos, por exemplo, basilares para o ingresso, progressão e coordenação do segmento em questão, não sejam ocultados, mas ao contrário, acatados institucionalmente e evidenciados em sua importância.

  A partir da implementação de modelos pensados e aplicados a outros contextos sociais, onde os princípios de hierarquização não tem, ao menos abertamente, as redes de reciprocidade como os mais determinantes, ou estes são bem mais atenuados, situa-se, no ambiente onde se dá a importação, um conflito bi- dimensional. De um lado, as propostas institucionais oficiais, no caso específico, aproximadas às do Estado, como a distribuição das posições de comando de acordo com o domínio dos conhecimentos técnicos (política-econômica e financeira, por exemplo) e de outro, os processos que de fato se operam para o controle e exercício do poder, onde se configura a legitimação como decorrente das origens e posições sociais dos agentes.

  Dessa maneira, quando a posse dos capitais escolares e científicos surge como um dos elementos de diferenciação social, especialmente a partir das décadas de 1910 e 1920, é para se transmutar a um uso mais pragmático de auto- consagração de seus portadores, mas sempre de forma subsidiária, nos processos de constituição das hierarquias. Nesse caso, existe a mera apropriação do conhecimento, mas sua utilização passa ao largo das regras onde foi produzido e condicionado, posto que essas, ao contrário, não são incorporadas. Muita similitude existe entre o que encontrou Coradini (1997, p. 428) no caso da elite médica brasileira, ao menos a do século dezenove, em seu estudo sobre a Academia Imperial de Medicina e o que a atual pesquisa constatou para a Associação Comercial do Maranhão e o empresariado local da época:

  [...] verifica-se que este segundo pólo, menos escolar e mais „mundano‟, ou de consagração social, é parte estrutural do conjunto de princípios de legitimação que concorrem para as definições e hierarquização do campo escolar e/ou científico. Em tal cenário, a esfera de poder econômico, apesar de sua reserva de importância, através do acúmulo e do domínio de recursos financeiros, não é, nem poderia ser, a mais determinante para a seleção social que se apresenta. O resultado conflituoso do encontro de modelos e filosofias importadas com as formas de ajuste locais confere a essas instituições, como bem evidencia a ACM, um caráter

  “híbrido”, ainda que isso não importe em uma justaposição que signifique o domínio de um pólo pelo outro. O que se apresenta é uma configuração própria e complexa, cuja “[...] apreensão é sempre parcial” (CORADINI, 1997, p. 429).

  Nessas circunstâncias, tentou-se utilizar o aporte conceitual observando, o mais detidamente possível, os modos como se operara a conformação de uma instituição dessa natureza ante as condicionantes sociais preexistentes, bem como as consequências decorrentes desse entrecruzamento. Outro problema que se apresenta é a ampla escassez de trabalhos dedicados ao empresariado existente no Maranhão do declinar do século dezenove, até meados do que o superou.

  No que toca estritamente ao estudo das elites econômicas maranhenses, para o caso dos titulares nobiliárquicos dos oitocentos, tem-se obras alienígenas ao meio acadêmico, que não se valem de qualquer esquema conceitual de análise, transfigurando-se como grandes catálogos de dados históricos, como

  “Fidalgos e Barões: uma história da nobiliarquia luso-maranhense

  ”, cujo autor é desembargador aposentado do Tribunal de Justiça do Maranhão, Milson de Sousa Coutinho (2005). No mesmo sentido, a já colacionada

  “História do Comércio do Maranhão”, de Jerônimo José de Viveiros (1954). Para além de alguns trabalhos, como os da professora Antônia da Silva 1 Mota (2001 ; 2006), a nível acadêmico, e Milson de Sousa Coutinho (2005), fora dele, na ordem, sobre a formação das grandes fortunas maranhenses no final do século dezoito e início do século dezenove, e sobre a titulação nobiliárquica durante o fim do período colonial e no curso do Império, poucos restam, na mesma envergadura, que se debrucem especificamente sobre a constituição das elites políticas e econômicas, em especial no lapso temporal aqui delineado e segundo os referenciais teóricos ora trazidos, pelo que a proposta de pesquisa em comento encontra fortes alicerces a justificá-la.

  1

  Em vista disso, a pesquisa se deparou com uma dupla e séria problemática com a qual teve obrigatoriamente que dialogar, pois que não seria possível contorná-la de todo: a uma, a ausência de um trabalho precedente que se utilizasse dos mesmos fundamentos de análise e embasamento empírico, e a duas, a indisponibilidade de muitas fontes que poderiam subsidiá-la. Isso é especialmente sentido com a interdição da Biblioteca Benedito Leite e, por decorrência, dos periódicos que lá se encontram. Por esses motivos, as pesquisas que se voltarem aos processos de constituição das elites econômicas do Maranhão, seja no limite temporal definido, seja fora dele, encontrarão, nos dias atuais, um obstáculo grave.

  Tratou-se, também, de condicionantes basilares, os quais nem sempre estão claramente demonstrados, exigentes de cuidada atenção e tempo do pesquisador, como as origens pessoais e familiares dos agentes, os vínculos de identificação e aproximação com outros, as fortunas por eles constituídas ou herdadas, e as estratégias implementadas para a perpetuação do controle das posições de poder. Conquanto se fale em

  “lideranças empresariais” como a uma parte da elite econômica local, é necessário definir-se o seu significado. O termo, para os propósitos desse trabalho, está relacionado a um grupo de indivíduos, numericamente menor que o conjunto da população de uma determinada conformação social, cuja condição de

  “superioridade” não é exclusivamente dependente do controle de capitais financeiros. Antes se vinculam ao domínio de uma série de recursos que lhes asseguram a ocupação das posições de poder e os tornam capazes de estipular normas de conduta e comportamento ao conjunto social no qual se inserem.

  Assim, no processo de hierarquização estão envolvidos, portanto, vários elementos que servem à distinção social para o auto-reconhecimento dos agentes pertencentes, bem como daqueles que lhe são exteriores. Um problema se estabelece quando se fala das

  “fronteiras externas” da organização (no caso, das confederações de entidades patronais), que por sua vez aludem à questão de quem está incluído no grupo de líderes empresariais e quais são os

  “grupos” que podem ser reunidos sob uma espécie de fim comum. Como mencionado, “[...] abrir o grupo não somente aos industriais e aos comerciantes, mas igualmente aos agricultores. É o que foi feito no século XIX ” (OFFERLÉ, 2009, p. 8, tradução nossa).

  Para Offerlé (2009, grifo nosso, tradução nossa), esse tipo de “interprofissionalização”, ou reagrupamento de patrões de setores diversos, pode demonstrar a constituição de relações de sociabilidade fundadas entre subgrupos das elites locais interessados em assumir postos de liderança em outras instâncias de poder que estão relacionadas à atividade empresarial, ou simplesmente à política. Sobre isso, não é menor a importância de recordar que no Maranhão oitocentista a especialização profissional dos empresários é praticamente inexistente, não só pelos múltiplos capitais investidos nas mais diversas áreas da produção material, como também pelas próprias origens sociais e trajetórias dos agentes no campo financeiro. Isso é vislumbrado entre os diretores da ACM.

  Em outra figura, a representação e a representatividade, advindas das posições de poder mais elevadas na instituição, terminam sendo contribuintes basilares da consagração pessoal, tornando-se essa, desde logo, a sua função precípua. No caso maranhense, pouco parece importar para a seleção das lideranças desse tipo de elite, exclusivamente, a natureza das atividades econômicas controladas pelos indivíduos. A uma porque tal não seria possível, considerando as estratégias postas em jogo, inclusive a pluralidade e diversificação de investimentos nesse espaço. A duas, porque a entidade em seus objetivos práticos, como outras de natureza semelhante nas sociedades periféricas, era francamente

  “aberta”, não rejeitando, a priori, qualquer dos candidatos ingressantes, especialmente se os novatos possuíssem vínculos

  • – enfatizando-se os familiares – com o escol interno já estabelecido.

  Devem ser, destarte, ante as origens diversificadas do grupo, compreendidas devidamente as principais estratégias implementadas a garantir a permanência nas instâncias de controle do espaço social. Em decorrência disso, a liderança do segmento da elite econômica em discussão é, em cognição precípua, uma coligação de agentes que controlam posições de poder, especificamente, as mais de maior proeminência na arena de disputa pelo comando da produção de recursos financeiros da ordem privada.

  Por essa razão, ela se firma como a autoridade efetiva sobre outros agentes, a maioria numérica deles, que não tem a capacidade de se engajar nos processos de formação de líderes, ou este é frustrado pelos mecanismos de seleção, o que, enfim, se conclui na colocação dos referidos em escalonamento inferior de força. No concernente a esse segmento reivindicante, Offerlé (2009, p. 6, tradução nossa) alerta para o fato de que é necessário compreender as condições que possibilitam sua constituição e institucionalização, envolvendo uma análise sobre a estabilidade e fronteiras do grupo representado. Nesse sentido, a liderança empresarial se formaria a partir tanto do produto da delimitação e categorização estática, por exemplo, os regulamentos jurídicos, como o estatuto interno ou as leis sobre o comércio, quanto do trabalho de mobilização dos agentes em representação, além da divulgação dos produtos resultantes desse processo através da imprensa

  “especializada”, no caso, a Revista da Associação Comercial do Maranhão, editada pela própria entidade. Com efeito, partindo-se desses fundamentos iniciais e compreendendo-se que a Associação Comercial do Maranhão é a principal entidade de aglutinação de líderes do empresariado da época em comento, definiu-se uma população para análise, consistente no conjunto de todos os diretores da instituição, do ano seguinte

  • – à sua fundação, até o final da década em que se consolida o ingresso de um novo e importante
  • – grupo de líderes em suas mesas administrativas: os agentes de origem sírio-libanesa. Cronologicamente, a criação de associações de comerciantes

  e, como adiante se demonstrará mais detalhadamente, não apenas desses, mas em geral de indivíduos que enriqueciam em atividades que não demandavam diretamente, e em grandes quantidades, o trabalho escravo, representa um fenômeno que, para o Brasil, se inicia com a chegada da família real portuguesa e que se consolida em meados do século dezenove.

  Em um primeiro momento, com a sede do Império Português transferida para o Rio de Janeiro, juntamente com a instalação local de diversas formas de organização institucional já de muito existentes na Europa, em um período marcado pela alta na demanda internacional por produtos tropicais, houve a criação das primeiras associações de comerciantes no então

  “Reino Unido de Portugal, Algarves e Brasil ”, como a Associação Comercial do Rio de Janeiro, de 1809, e a Associação Comercial da Bahia, de 1811.

  Mas é após a Independência, com a expansão das atividades comerciais que acompanha a estabilização política advinda com início do Segundo Reinado, que se impõe a necessidade de que o trato mercantil, com complexidade e dimensões cada vez maiores, fosse definitivamente regulado pela ordem jurídica imperial, o que se deu através da Lei nº 556, de 25 de junho de 1850, que institui o já mencionado

  “Codigo Commercial”, cujo projeto já tramitava há cerca de quinze anos na Assembléia Geral da Corte. Uma das legislações mais avançadas para o período é derrogada apenas quando da entrada em vigor da Lei 10.406 do ano de

  2002, fazendo vigorar o novo Código Civil, que unificou as relações privadas e comerciais em um único comando legal (BRASIL, 2003).

  Eram claros os incentivos do governo imperial para a formação, em cada província, de grupos de comerciantes que, agregados em entidades privadas, fossem ao mesmo tempo receptores e difusores das estratégias centrais de organização e disciplina da atividade. Com a auto-gestão, a partir de diretrizes gerais de postura, a idéia básica era a de se evitar uma intervenção direta através da criação de um órgão de natureza pública para o mesmo fim, o que seria quase que necessariamente acompanhado de desgastes políticos e maiores gastos de um orçamento já comprometido.

  Por outro lado, com as associações privadas do comércio, para a Administração, o resultado seria o mesmo, ou seja, uma vez ajustadas as práticas comerciais, menos difícil seria a imposição de regras tributárias e seu devido cumprimento. No cenário em tela surgem outras, como a

  “Associação Comercial de Pernambuco

  ”, em 1839, a “Comissão da Praça”, do Maranhão, em 1854, a “Praça do Comércio do Pará ”, de 1864 e a “Associação Comercial do Ceará”, de 1866. Assim, a

  “Associação Comercial do Maranhão”, cujo nome ainda exibe atualmente, atribuído em 1879 quando substituiu a organização preexistente, é uma instituição que, sem muitas alterações, mantém seus objetivos e compromissos regimentais praticamente inalterados, e em atividade ininterrupta, há 131 anos. Tratando da representação patronal francesa, Offerlé (2009, tradução nossa) indica que ela não surgiu propriamente para se opor às organizações de empregados e suas exigências, mas principalmente para desenvolver atividades que de outra forma não poderiam ser atribuídas a outrem, como o controle de qualidade dos produtos e, portanto, das fraudes, conciliação de litígios comerciais, certificação de crédito entre seus membros próximos ou remotos, difusão de inovações técnicas, elaboração de estatísticas e fixação de regramentos do exercício profissional, condições de acesso e de

  “uso”. Nesse sentido, o estudo em tela tem como espeque pesquisas sociológicas nacionais já de muito consolidadas, oriundas da vertente identificada como

  “ciência política” ou “sociologia política”, onde autores como Coradini (1997; 1998; 2008), Canêdo (1991) e Grill (2005; 2006; 2008; 2009; 2010) possuem profícua e densa produção. Atualmente, é também notório que são basilares as contribuições de Bourdieu (1998) para trabalhos como o que ora se apresenta. Dessa feita, as obras de outros pesquisadores que atuaram junto a si, como Saint- Martin (1980, tradução nossa), também o valem. Na mesma perspectiva, trabalhos recentemente surgidos trazem contribuições alicerçais para a pesquisa. Assim o é, especialmente, a

  “Sociologie des Organisations Patronales” de Michel Offerlé (2009, grifo nosso, tradução nossa), em que

  [...] apresenta as dimensões mobilizadas para que sejam examinadas as condições/possibilidades de formação dos grupos, as dinâmicas internas próprias ao espaço de representação, os repertórios de ação coletiva e a incidência/lógicas da atuação do

  „patronato‟ na agenda de políticas públicas (GRILL, 2010, p. 125).

  É bem se evidenciar que o uso do termo “patronato” observa a análise morfológica que o autor descreve como

  “[...] o resultado de um trabalho multiforme ao qual tomaram parte certos patrões mesmo, mas também todos os produtores conjuntos de sua identidade (Estado, sindicatos, partidos políticos, imprensa)

  ” (OFFERLÉ, 2009, p. 10, tradução nossa). A partir dos citados, é possível entender a necessidade de apreensão das relações objetivas estabelecidas entre os agentes, assim como os condicionantes que determinam as aproximações e os afastamentos, igualmente, os modos como são impostos os princípios de legitimação do poder.

  Como será dito em momento oportuno, o caso não é propriamente se investigar “elites”, “patronatos” e “grupos dirigentes”, ou qualquer outra nomenclatura semelhante a definir uma configuração onde indivíduos ocupam posições de

  “autoridade”, mas sim as relações de poder e estruturas de capital em disputa. Contribuintes a esse esquema de análise, os trabalhos de Wolf, Feldman-Bianco e Ribeiro (2003), Mills (1968) e Landé (1977), trazem uma luz sobre as relações de reciprocidade, intermediação e dos processos de personificação, fundamentos básicos das trocas realizadas entre os grupos e os agentes participantes.

  Assim, foi possível construir-se um trabalho possuidor de uma estrutura simples, em quatro segmentos básicos interdependentes. Esta introdução, versando sobre as justificativas gerais e propostas básicas da pesquisa, inclusive expondo as diretrizes sobre os estudos de

  “grupos dirigentes”, caracterização da população, as posições em jogo e a natureza das disputas estabelecidas. Primeiro capítulo, em três subitens, que examina a composição social das diretorias da ACM, investigando as origens geográficas e sociais de seus diretores, bem como variáveis importantes e a relação destas com as posições ocupadas dentro da instituição. Segundo capítulo, que se propõe a analisar as origens sociais e os trabalhos dos três principais escritores, mais ou menos contemporâneos ao lapso temporal delimitado, que abordam a atuação da ACM frente ao quadro econômico maranhense do final do século dezenove e primeiras décadas do século vinte, sem, contudo, pertencerem aos quadros da instituição. Por último, o terceiro e último capítulo estuda a formação do grupo, o engajamento e a atuação política das lideranças empresariais.

  Com efeito, a pesquisa buscou especialmente desenvolver a compreensão dos mecanismos e condições sociais que proporcionaram a constituição de um segmento, mais ou menos bem definido, que operou determinados recursos destinados ao recrutamento e seleção de lideranças empresariais. Essas formaram um agrupamento próprio da elite econômica maranhense, nas últimas décadas do século dezenove e primeiras do seguinte. É necessário, portanto, compreender que o empresariado somente pode existir como um produto de diversos processos, onde participam e atuam múltiplos agentes. A partir disso torna-se possível traçar-se um referencial tanto profundo quanto proveitoso sobre a sua ação coletiva, da forma que segue

  Como demonstrou Boltanski, para os cadres [...], o produto do trabalho de delimitação e de categorização estatal (dentro do direito, dentro da estatística), do trabalho de mobilização dos empresários em representação (em torno do núcleo de certos engenheiros), como da atividade de delimitação configurada pelos representantes de outros grupos sociais (empregadores e sindicalistas), ou ainda do trabalho de colocação em cena, produzido pelas representações da imprensa econômica, dos publicitários

ou publicistas (OFERLÉ, 2009, p. 7, grifo do autor).

  Em continuidade, a partir dessas constatações, o autor propõe algumas questões importantes que podem ser respondidas observando esses níveis de análise. Dentre elas, a interrogação sobre a

  “unidade ou divisão” do grupo, bem como a caracterização deste. Tenta discutir também as categorizações sociais disponíveis e autorizadas nas atividades de delimitação, legitimação e de representação.

  Dessa forma, a pesquisa também se focou no estudo das trajetórias e perfis dos dirigentes da principal instituição representativa do empresariado local, a Associação Comercial do Maranhão, a partir de suas propriedades sociais e das tomadas de posição, entre as décadas de 1880 a 1940. Prontamente se mostra a relevância da percepção de que a remontagem, conservação e reprodução de práticas apontadas como inerentes ou pertencentes a outros segmentos da própria elite econômica, inclusive tidos como aparentemente antagonistas do que ora se estuda, são na verdade comuns e intercambiais.

  Assim, a importância dos laços de parentesco e a estruturação de outros vínculos a eles equivalentes ou correlatos, são fundamentais para se pensar o processo de constituição desses

  “líderes” do empresariado. Vinculados que estão ao grande comércio e à indústria, os empresários se aglutinam em torno de seu principal instrumento de representação institucional, a Associação Comercial do Maranhão. A ACM, no período histórico em questão, mantém laços de forte estreitamento com a ordem política, especialmente após o advento do regime republicano, quando se transforma em órgão consultivo do governo do Estado. Analisando uma suposta indisposição prévia dos

  “patrões” (empresários) em promover sua ação coletiva, em oposição aos “assalariados” (empregados), pretensamente tendentes à coordenação comum e compartilhantes de uma visão mais homogênea, oposta ao isolamento dos primeiros, expõe Offerlé (2009, p. 8, tradução nossa) várias razões que conduziriam a isso.

  Três aparentam ser especialmente determinantes: a possível contradição entre os princípios da livre concorrência individual e a organização de grupo, os interesses heterogêneos e divergentes surgidos das diferentes posições ocupadas no mercado econômico, e o credo de que a posse de recursos financeiros e produtivos invariavelmente já influenciaria as decisões oriundas do poder político, tornando-a inútil, em termos práticos. No entanto, chega à conclusão de que as organizações de empresários e detentores de capital econômico não são propriamente um fenômeno recente, no mínimo, para o caso francês e europeu. Afirma ainda que

  [...] Os trabalhos de Pinçon-Charlot e de Pinçon, concernentes ao grupo que eles denominam „burguesia‟ [2007], indicam que, além de um individualismo assumido, os „burgueses‟ empregam um „coletivismo prático‟ na organização de suas vidas e de suas reproduções sociais (experiências escolares, transmissões patrimoniais) (OFFERLÉ, 2009, p. 10, tradução nossa).

  No Brasil e, pontualmente, no Maranhão, esse tipo de associativismo se firma progressivamente entre o início e meados do século dezenove. Há notícia de eventos em que comerciantes do período colonial mais remoto, no século dezessete, por exemplo, tenham se reunido para reivindicar pretendidos 2 “interesses comuns , em São Luís. Isso se dando

  ”, como na intitulada “Revolta de Beckman” sem qualquer institucionalização e durante curto espaço de tempo. No bojo da formação da elite econômica vinculada ao comércio nos oitocentos, são apresentados alguns princípios ao mesmo tempo tidos como necessários e responsáveis pela projeção alcançada por seus componentes para a constituição de sua liderança. Imbuídos de grande especificidade e concentrados em um ou outro indivíduo, terminariam sendo os marcadores de diferenciação entre os líderes e os liderados.

  Isso não significa que o acúmulo financeiro maior ou menor entre os agentes determinasse quem seria ou não identificado como líder. Ao contrário. A capacidade de acionamento e manejo de recursos específicos desvinculados da esfera monetária, como os familiares ou políticos, por exemplo, é que serão tomados como fundamentais para tanto. Ademais, nem todos os empresários de grande destaque econômico se tornaram membros da Associação Comercial do Maranhão ou de qualquer outra entidade correlata. Disso decorre que o domínio, ainda que amplo, de bens patrimoniais materiais não obriga a vinculação à instituição que se pretende representativa do empresariado e, menos ainda, que esse indivíduo seja tomado como líder da

  “classe”. Nesse processo de caracterização das lideranças são evidenciados elementos personalíssimos e pretensamente inatos, como o

  “tino empresarial”, a “inteligência”, a “visão” e a “predisposição ao trabalho”. Conforme analisa Coradini (1998, p. 218), ainda que estudando as elites médicas do Rio Grande do Sul e lideranças da Academia Nacional de Medicina, sua proposta bem se aplica às da Associação Comercial do Maranhão:

  [...] as “qualidades” ou atributos que compõem as imagens sociais, que formam a „grandeza‟ ou o capital social e cultural dos controladores desse tipo de instituição, servem, simultaneamente, como critério de seu recrutamento e hierarquização, e como fundamentos dos esforços para sua consagração e celebração. Como se trata de uma elite “profissional”, composta por “herdeiros” de uma sociedade escravista, numa estrutura social na qual [...] a ideologia meritocrática nunca teve condições de 2 emergência, em detrimento do profissionalismo, numa espécie de

Revolta armada que se iniciou através de protestos contra a administração monopolista dos preços

e produtos comercializados no, e pelo antigo Estado do Maranhão, através da “Companhia do Estanco do Maranhão ”, sediada em Lisboa, e criada durante o reinado de D. Pedro II, de Portugal

  “aristocratismo ilustrado”, as “qualidades” ou os atributos sociais mais predominantemente destacados são, em primeiro lugar, as associadas à “cultura geral”, o “humanismo” etc., na medida em que isso extrapola os “limites da profissão”, em seu sentido “comum” e remete ao “extra- ordinário ”.

  No entanto, não são evidenciados ao menos a priori, mas posteriormente, em situações especiais, certos recursos, apresentados como marcadores imprescindíveis de diferenciação. Estes sim, os condicionantes de grande peso, como o legado familiar, a vinculação por amizade e apadrinhamento, e a capacidade de aproximação e transito com outros segmentos de importância. Os possuidores desses

  “dons inatos”, consagrados na instituição como seus fundadores e também como gestores de sua permanência e coesão, são agentes mobilizadores, exercendo papel importante para o reagrupamento do conjunto de agentes, figurando enquanto

  “empreendedores coletivos” (OFFERLÉ, 2009, grifo nosso, tradução nossa). Como referido, as características personalíssimas apresentadas pelos próprios membros do segmento social específico, com relação aos seus pares ou sobre si mesmos, enfatizam os princípios mais evidentes. Essas peculiaridades individuais, abstratas e auto-explicativas, são divulgadas como sendo os condicionantes justificadores das posições de sua superioridade sobre outros agentes ou segmentos. Esse dado está muito presente nas histórias de empresários nascidos em circunstâncias que seriam em tese absolutamente desfavoráveis, mas que as superariam, partindo para a liderança apenas com o esforço pessoal, bem munidos dessas

  “distinções” hipoteticamente incomuns, como a de se engajarem em empreendimentos econômicos vantajosos, por ninguém antes deles percebidos, ou lucrar onde campeava a crise e falta de oportunidades. Cabe dizer que não é o fim deste trabalho, nem jamais poderia sê-lo, sublimar ou desmistificar

  “heróis”

  Os limites das ciências sociais, como sua condição necessária para sua própria existência enquanto tais se restringem aos esforços de compreensão das condições e processos sociais e culturais em que os heróis são

  „produzidos‟ ou „destruídos‟, ou seja, as condições sociais ou as estruturas de capital, interesses, lógicas e estratégias em pauta, o que já é muito (CORADINI, 1998, p. 209 - 210).

  Deve-se ver, portanto, que há o envolvimento de arranjos muito mais complexos, que abarcam os diversos tipos de estratégias implementadas por cada agente, inclusive para a própria formação do patrimônio de relações pessoais, ao longo do tempo. Como em linhas anteriores descrito, nem sempre são demonstradas claramente as bases de apoio que sustentam uma trajetória de sucesso. Dessa forma, a extraordinariedade atribuída a certos diretores, e a consequente personificação dos recursos sociais em jogo, constituem os seus capitais políticos, pressupostos fundamentais da dominação carismática

  [...] a posse de recursos sociais conversíveis em capital e dominação política pode apresentar-se e ser vista, estatutariamente, como “qualidades superiores

  ” de seu possuidor. Além disso, como a dominação carismática, apesar da existência de categorização e abstração dos produtos políticos através da formação de organizações e programas formais, o portador desses recursos tem condições de ser visto (e mesmo se perceber) como seu criador (CORADINI, 1998, p. 230).

  Para tanto, foi de sumo valor a pesquisa histórica associada a um sistema teórico mais robusto e sistematizado, a fim de perscrutar os elementos mais determinantes para os processos de hierarquização e controle efetivo das posições de poder. É exatamente o caso do presente trabalho. Cabe esclarecer a impossibilidade de que a pesquisa se mantivesse adstrita apenas ao recorte de seis décadas já definido, pois muitas trajetórias individuais o antecedem ou o ultrapassam. Além disso, não raros, obviamente são os casos em que os recursos de ingresso na direção do grupo de empresários são constituídos muito antes, e legados para gerações muito posteriores.

  No mais, mesmo no interior desse grupo de dirigentes da Associação Comercial do Maranhão, há fortes divisores que parecem formar

  “líderes dos líderes ”. Esses, por sua vez, podem ser entendidos como aqueles empresários que se perpetuam no poder, seja por vários mandatos consecutivos, ingressando e ocupando o mesmo cargo superior, com alguma variação, seja por uma escalada, célere ou lenta, de níveis mais baixos aos mais elevados, mas que, igualmente, proporcionam uma permanência de longa duração na liderança.

  Quanto ao período histórico selecionado, verifica-se que este é marcado por significativas transformações em diversas arenas, sejam de natureza política, cultural ou econômica. Isso não apenas nos círculos locais, que na verdade seriam muito mais lentos e menos receptivos às mudanças em curso, mas envolvendo dimensões maiores, sejam a níveis nacionais ou internacionais.

  Para o Brasil, é um percurso traumático de conflitos entre a manutenção e reprodução de diversas instituições e práticas comuns na ordem imperial oitocentista e as tentativas de implementação de outras novas, durante o novel regime político. Em tal contexto, no âmbito da elite econômica local, se apresenta a formação de espaços de luta entre agentes possuidores de origens sociais diferenciadas e que se estabelecem a partir de uma progressiva polarização.

  De um lado, a elite econômica e política estabelecida, de caráter pouco diversificado, e que se afirma nas posições de poder que se constituíram desde o final do século dezoito, até meados do seguinte, componentes de uma ordem dita “tradicional”. Ela seria lastreada na grande propriedade rural escravocrata, uma formação educacional pretensamente culta, além da obtenção e transmissão de títulos nobiliárquicos e honoríficos. Do outro lado, são opostos por grupos que estariam fundamentados no comércio importador e exportador, na indústria têxtil e na defesa de um discurso particular onde, a rigor, os agentes teriam uma suposta origem humilde, cultural e financeira, que se apresentam como dotados de uma inata predisposição ao trabalho, além do domínio de técnicas administrativas empresariais.

  A habilidade no trato do comércio advinha de anos de experimentação nos balcões dos armazéns e casas de importação e exportação do antigo bairro da Praia Grande. Não raras vezes, essa

  “desenvoltura” provinha, também, do aprendizado adquirido nos cursos do Centro Caixeiral, uma espécie de escola profissionalizante e preparatória para as atividades comerciais.

  A partir disso, tocados pela relativamente rápida ascensão patrimonial, começam a pleitear com grande força as posições de controle, representação e legitimação, exatamente no interior das instituições mais importantes do Estado, ou, inaugurando outras, de grande relevância, que manteriam fortes vínculos com as preexistentes. No entanto, essa divisão comporta, profundamente, a reprodução dos mecanismos de obtenção do poder de um e outro segmento, sejam os entrantes, sejam os já estabelecidos. Uma observação extremamente pertinente a essa altura, é a de que jamais se deve compreender as disputas pelo poder como o enfrentamento de práticas de todo polarizadas, absolutamente independentes umas das outras, o que de fato não parece ter mesmo existido, pelo menos não na configuração objeto deste estudo. Na mesma linha, Grill (2008, p. 21) ressalta:

  O tratamento proposto colabora na superação de dualismos que não raro perpassam as análises de „fenômenos‟ desse tipo. Ou seja, pode-se transpor os equívocos das abordagens que pressupõem que a ascensão de novos segmentos e de novas forças políticas garante a supressão definitiva da reprodução das

  „elites tradicionais‟ e de suas práticas [...]. No ponto, a Associação Comercial do Maranhão, fundada em 1879, em substituição a outra organização de comerciantes, a Comissão da Praça, de 1854, se configura como uma das principais instituições de reunião de idéias e práticas desses agentes que se consagraram como porta-vozes do grupo dirigente relacionado inicialmente ao comércio, e posteriormente a esse, à indústria.

  Os estudos sobre “elites”, a partir de uma perspectiva “geracional”, encontram em Gaetano Mosca, Vilfredo Pareto e Robert Michels uma espécie de marco fundador, sucedidos por Charles Mills e Robert Dahl. Os três primeiros são mais ou menos contemporâneos, e seus trabalhos se difundem na passagem do século dezenove ao vinte. Em linhas gerais, sustentam que as organizações políticas, independentemente da existência ou não de

  “princípios democráticos” oficializados ou negados, redundam sempre em governos de minorias. Assim, a partir da organização, da posse e imposição de valores sociais e princípios legitimadores específicos, os

  “dirigentes” se oporiam aos “dirigidos”, que não contavam com esses instrumentos. Daí que, para Mosca, a mudança na composição das classes dirigentes tem sua origem no embate entre as novas e velhas forças. Na vertente de Pareto, a oposição se estabelece principalmente entre os agentes mais ou menos qualificados, de acordo com as atividades a que se dedicam, pelo que as transformações ocorreriam em razão do crescimento numérico de elementos decadentes nos estratos superiores, ao mesmo tempo em que nos inferiores estariam se acumulando elementos de qualidade superior. No mais, segundo Michels, deve haver uma associação entre a organização indispensável a qualquer partido, sindicato ou equivalentes, à fenômenos como a delegação e especialização em habilidades ou competências advindas da complexificação das tarefas. Dessa maneira, se geraria a composição entre a organização e os funcionários, conduzindo à sucessão por seleção e configuração de meios em fins (GRILL, 2006, p. 73).

  As discussões sobre o tema foram retomadas após a segunda guerra mundial, quando surgem as pesquisas de Mills e Dahl. O primeiro tenta analisar os mecanismos de exclusão e inclusão nas principais instituições de domínio e os agentes que ocupam seus principais cargos, para

  [...] comprovar que há uma unidade em termos de estilo de vida, interesses e tomadas de decisões, alicerçada sobre redes de relações, intercâmbios, origem social, autopercepção e formação comuns. Para Dahl, contudo, sua “[...] agenda de pesquisa pressupõe a observação de comportamentos, dos para bloquear os projetos dos adversários, bem como o resultado final objetivado em tomadas de decisões.

  ” Tais abordagens, porém, são marcadas por um caráter substancialista, ao que “[...] Bourdieu (1989a), por sua vez, remete a questão para a necessidade de estudar espaços estruturados por relações objetivas entre indivíduos e propriedades, recursos que se aproximam ou se diferenciam e princípios de legitimação concorrentes

” (GRILL, 2006, p. 74 - 75).

  Não é o caso, portanto, de se tratar os grupos por si mesmos. Existem alertas para que esse tipo de obstáculo possa ser superado

  

O primeiro deles foi o risco de considerar diferentes

„tradições familiares‟ [...] enquanto unidades de análise, em detrimento da variação dos processos de fusão e fissão [...] em pauta, os conflitos pela definição de suas fronteiras, a constituição da própria tradição como enjeu, etc (GRILL, 2008, p. 29, grifo nosso).

  Com efeito, essa instituição é organizada por agentes que tentam construir uma tradição particular do grupo, mesmo que, a fundo, estejam inseridos em origens e relações sociais as mais diversificadas e complexas. Estão, desse modo, tanto bem afastados da tese heróica de prosperidade alcançada unicamente através do esforço pessoal ladeado pelos inatos dons de aptidão ao comércio, quando próximos de práticas como a valorização e reprodução dos laços de parentesco para alcançar o mesmo fim.

  Esses agentes, uma vez investidos nos cargos de direção, passam a manter fortes vínculos com a administração pública estadual. A ACM então se afigura como um ambiente de reunião de agentes predispostos a traçar estratégias de atuação oficial para diversas áreas, com ênfase na economia e na política. Dentro dessa organização, alguns são apresentados como

  “líderes”, portanto, capacitados não só a falar em nome dos vários outros que estão em níveis inferiores de poder, mas que mesmo assim se articulam como membros da instituição, bem como de propor orientações a outros segmentos sociais, como se esses ditames fossem irrecusáveis e de interesse coletivo unânime.

  No curso do processo de aproximação e afastamento entre os empresários e as construções “ideológicas”, representadas pela tradição do próprio grupo e dos que a ele não pertencem, são estabelecidos marcadores de diferenciação, definição de papeis e exposição das possibilidades e limites de ação. Tudo isso irá contribuir para a especialização final do agente dentro daquele círculo, através das experiências por ele adquiridas ao longo da vida, envolvendo condutas e linguagens próprias do

  “métier de empresário”. Em decorrência disso, será transformando em um profissional consagrado, seja entre seus pares

  • – outros especialistas –, seja entre aqueles que dele não fazem parte.

  São demonstradas as práticas iniciais da profissão de comerciante, e as instâncias que devem ser atravessadas, que enfim proporcionam a formação de um “modo de ser empresário”. Portanto, compreender a noção de profissão, nesse contexto, significa alcançar os princípios de legitimação envolvidos, bem como as estruturas de capital que constituem sua base de formação e institucionalização (CORADINI, 2005, p. 7). Daí a necessidade de se investigar as profissões dos ancestrais, e os indicadores de origem e posição social dos diretores da ACM.

  Alocados nas instâncias de máximo poder da Associação Comercial, legitimados em seus postos pelas circunstâncias já descritas, encontram abertas as possibilidades de reconversão para ingresso em outras áreas propícias, como a política. Em seguida, edificam tradições e legados, contando para isso com franco apoio de campanhas eleitorais financiadas pelo empresariado, conforme os arranjos tocados pela própria instituição onde se especializaram anteriormente.

  Tentou-se, portanto, compreender como se constituiu esse universo, ou seja, como se deu a construção social do grupo de empresários, suas lógicas e dinâmicas particulares, tomadas a partir das trajetórias, experiências e recursos utilizados por eles utilizados. No mesmo sentido, os modos como se operou a legitimação das lideranças e as tomadas de posição dos agentes enquanto porta- vozes agregados à Associação Comercial do Maranhão, onde se define o que se tornará legítimo ou não de ser dito, segundo suas especificidades, de acordo com os processos de representação e mediação exercidos nas últimas décadas do século dezenove e primeiras do século vinte.

  Em tal cenário, a cidade de São Luís é o ambiente, por excelência, de convívio da elite econômica voltada à indústria e ao grande comércio maranhenses na passagem desses dois séculos. Ainda que houvesse outros agrupamentos menores e regionalmente localizados, muito mais heterogêneos e fragmentados, em circunscrições geográficas e de influência restritas, os agentes que podem ser identificados como seus componentes efetivos estão circulando em torno das instituições de poder máximo para a conjuntura local. Sem dúvida, essas se localizam principalmente na capital do Estado, com suas fábricas têxteis, casas de exportação e importação, o Tribunal de Justiça, a Assembléia Legislativa, o palácio do governo, a sede eclesiástica, a Academia de Maranhense de Letras, liceu e seminários, os clubes privados, e especialmente a Associação Comercial do Maranhão. Isso não é mera coincidência.

  A cidade, por exemplo, sobretudo a cidade grande, é um dos órgãos mais representativos de nossa sociedade. Em nosso campo social, ela é a matriz que tem, de longe, o efeito mais abrangente. Suas conseqüências e influências não podem ser evitadas nem mesmo pelos habitantes dos campos na periferia, apesar de toda resistência (ELIAS, 2001, p. 62).

  Portanto, através da análise do universo social dos empresários que compuseram as mesas diretoras de sua principal instituição, a Associação Comercial do Maranhão, se poderá demonstrar como são estabelecidas as complexas relações interpessoais que estipularam códigos de conduta, comportamento e formas de leitura de mundo que ao final contribuem para o estabelecimento das fronteiras demarcadoras de uma parte da elite econômica maranhense, suas características e contradições.

  O período histórico abordado na pesquisa é marcado por uma transitoriedade representada em transformações importantes que colocaram em xeque as tradicionais formas de organização e de distribuição do poder constituídas durante o Império, e seu legado conflituoso com as tentativas de consolidação de uma nova ordem política para o país. Entre a década de 1880, que marca o declínio e desaparecimento do trabalho escravo, fundamental para o patriarcalismo rural brasileiro, e o fim do que foi chamado de a

  “República dos Coronéis” no início dos anos de 1930, verifica-se o surgimento de diversas posturas políticas, culturais e institucionais que, mesmo na contemporaneidade, ainda demandam por trabalhos acadêmicos.

  Ademais, o estudo dos grupos dirigentes voltados ao comércio e à indústria, em especial os do Maranhão, tem sido francamente negligenciado, a par de sua flagrante importância e complexidade, sendo pouquíssimas as abordagens a respeito da temática. As elites econômicas maranhenses, quando discutidas, ainda que por via indireta como, por exemplo, em Assunção (2008), cuidando das várias faces do movimento intitulado Balaiada, na primeira metade do século dezenove, e por conseqüência os lavradores proprietários de terra, e Melo (1990), na análise da classe operária fabril em São Luís em meados do século vinte, frente aos seus patrões, donos das companhias têxteis, tem sido reduzidas à categoria francamente marxista de

  “classe dominante”. Isso termina por lançar uma cerrada penumbra sobre os agentes que as compunham, suas trajetórias pessoais, estratégias e lutas que os permitiram se localizar em tais posições, ao passo que os tornam homogêneos e iguais, quando na verdade não os são, e isso tudo para além de um desafio conceitual que desvirtua o próprio sentido de ser do

  “grupo”. Ainda nessa perspectiva de uma postura marxista tradicional, porém agora em um viés de conduta política, o estudo das elites parece não ter tido qualquer importância quando confrontado ao objeto que seria o interesse principal de tal orientação teórica. Esses estariam delimitados às classes operarias e camponesas, onde se tentaria investigar a construção das identidades próprias de grupo, suas formas de convivência e as lutas ocorridas pelo controle dos

  “meios de produção ”.

  Em suma, a atual pesquisa tenta analisar os processos de seleção, lógicas de representação institucional do empresariado, mediação e reconversão dos agentes que atrelados ao comércio e indústria, no bojo da elite econômica maranhense na passagem entre os séculos dezenove e vinte, que se aglutinam em torno de uma instituição que é constituída e defendida como via legítima de produção de práticas e discursos.

  Nesse sentido, será traçada uma análise histórica que antecede mesmo o período cronológico em destaque, percebendo-se como os agentes em questão se apresentam como membros de um grupo social específico, que possui meios de articulação próprios, desde meados do século dezenove. A pesquisa constatou que transformações contínuas se desenrolam no seio das elites econômicas maranhenses, e isso porque tal segmento nunca foi propriamente estável. O sinal é de forte volatilidade, que incluía, expurgava e admitia indivíduos, conforme a capacidade de êxito desenvolvida através das múltiplas estratégias de mobilização dos mais variados recursos e sua possível reconversão, conforme os princípios de legitimação envolvidos.

  Isso é mesmo verificado nos processos de recrutamento e seleção dos líderes da Associação Comercial. Nos universos sociais onde se estabelecem objetivamente as relações de disputa entre os grupos que compõem a elite econômica local, os agentes se localizam como produtores de uma lógica que se pretende tanto mais particular quanto mais homogêneos forem os seus membros, no que toca, por exemplo, às práticas de sociabilidade e leitura de mundo.

  Maneira tal que as disputas que se firmam entre os diversos níveis de poder, em um complexo movimento de unificação e cisão, proporcionam o desenvolvimento e exercício do poder legítimo. Para Mills, diversas variáveis podem ser tomadas para a definição de um projeto para estudos sobre essa temática. Na sua concepção, a

  “elite”, propriamente, seja de que natureza for, é composta por “[...] pessoas que „têm‟ a maior parte de tudo que está disponível de qualquer valor ou conjunto de valores dado

  ” (MILLS, 1968, p. 35 - 36). Em seguida, sugere quatro categorias que seriam:

  [...] gerais o bastante para me dar alguma amplitude na escolha dos indicadores, mas específicas o bastante para incitar a busca por indicadores empíricos. À medida que prossigo, terei de ir e vir entre concepções e indicadores, guiado pelo desejo de não perder significados pretendidos, sendo poderem bastante específico com relação a eles (MILLS, 1968, p. 35 - 36).

  A partir disso, enumera quatro do que seriam as principais variáveis weberianas para tal mister. A “Classe”, nesse sentido, remontaria à análise dos frutos e, ou dos rendimentos e demais acréscimos patrimoniais dos agentes, se configurando a mesma a partir do recebimento de certo nível de receitas por um determinado tempo. Em continuidade, cita o

  “Status”, que está vinculado não a valores simplesmente quantificáveis, mas às relações sociais de reconhecimento e deferência entre os agentes. Uma variável fundamental é o

  “Poder”, que pode ser dividido em duas vertentes, sendo que a primeira estaria relacionada a uma autoridade formalmente constituída através da ocupação de cargos e posições de comando em determinadas instituições oficiais. A outra, para além dessas entidades, é exercida e reconhecida em dimensões desligadas da formalidade verificada na primeira. Por último resta a

  “Ocupação”, que alude às atividades remuneradas, e que, por esse motivo, suas características envolvem parte dos três conceitos anteriores.

  Mesmo assim, uma série de problemas se impõem, que vão desde as discussões a respeito do uso de determinadas terminologias, como “classe dominante

  ”, “elites” e “grupos dirigentes” para melhor designar o objeto de estudo – e mesmo a confusão entre o objeto e o tema empírico

  • – até outras questões, que claramente parecem perder o foco inicial, e se encaminham para uma disputa pelo domínio da legitimidade de discussão sobre o marxismo enquanto teoria política frente ao Estado.
Além disso, a própria definição do termo “elite”, ou de grupo a ela pertencente, com suas origens e recrutamento, encerraria um desafio particular, pois, Scott (apud CORADINI, 2008, p.11)

  “[...] „em si mesmo, designa uma gama de investigação científica que abrange políticos, dirigentes de empresa, legisladores, etc., e não invoca qualquer implicação teórica particula r‟”. A questão, portanto, não é estudar elites ou grupos dirigentes enquanto fenômenos socialmente dados, mas sim analisar as estruturas de poder e dominação (SCOTT apud CORADINI, 2008, p. 13). Pelo que,

  “[...] não se trata de estudar elites ou grupos dirigentes, mas estruturas de capital, de poder e de dominação em diferentes esferas sociais ” (CORADINI, 2008, p. 13 - 14).

  Assim, a pesquisa foi centrada no estudo dos critérios de recrutamento e seleção dos representantes de um segmento da elite econômica, para o exercício dos cargos de diretoria da Associação Comercial do Maranhão, inclusive suas ações de mediação e reconversão para a política, no período cronológico em evidência. O primeiro caso, de cabal importância para o segundo, pode ser definido da seguinte forma, sendo:

  [...] a capacidade que certos indivíduos possuem em estabelecer elos entre

comunidade e nação. Segundo Wolf (1971, p.52):

„Os indivíduos que estão aptos a atuar em termos de expectativas orientadas para a comunidade e para a nação tendem a ser, então, selecionados para a mobilidade ‟. No plano político, as tarefas junto às comunidades ligadas às instituições nacionais e as atribuições externas de agentes da comunidade são vetores de mobilidade (GRILL, 2006, p. 82).

  De igual maneira, as contribuições de Bourdieu (2002) para o debate intelectual a respeito do tema ofereceram uma reformulação profunda e fundamental. A partir dele se impõe um rompimento com um tipo de

  “pensamento substancialista ”, oriundo de teorizações de tradição marxista sobre as “classes dominantes

  ”, ou ainda de estudos que se destinaram a investigar as “elites” apenas para nominar quem de fato governa. Ao contrário, Bourdieu (2002) propõe uma abordagem que trabalha os espaços formados pelas relações objetivas constituídas entre os agentes e suas propriedades sociais, que por sua vez se ajustam ou se afastam, compreendendo ainda os

  “campos de poder”, estruturados a partir das relações de força entre os diferentes tipos de capital, bem onde se estabelecem os confrontos pela imposição dos princípios de legitimação em jogo (CORADINI, 2008, p.12, grifo nosso).

  Com efeito, será necessário investigar as trajetórias sociais,

  Isto é, compreender as posições ocupadas pelos agentes, seus deslocamentos no espaço social, as transformações ocorridas neste último e nos campos específicos nos quais investem os agentes (GRILL, 2006, p. 75).

  Ademais, é necessário se enfatizar que quando se fala em “grupo”, não se está falando de uma população homogênea ou fechada, constituída de indivíduos que compartilham de experiências e opiniões e mesmo origens absolutamente idênticas, muito ao contrário. Contudo, uma série de condições sociais que envolvem mesmo as trajetórias e interesses dos agentes, é que permitem sua agregação:

  Trazendo à luz, oportunamente, um caso concreto, os mecanismos de agregação a um grupo central, em torno do qual se forma uma “jazida de atração

  ”, se esperava também trazer uma contribuição à questão, um pouco abandonada desde Durkheim e os discípulos dele, da formação dos grupos e, sobretudo, de seu modo de coesão, que deveria, portanto, constituir um dos problemas fundamentais da sociologia política. Primeiro, estudando as condições sociais e políticas que tornaram possível a formação do grupo e das lutas políticas que tiveram lugar para arriscar sua definição e delimitação. Mas, sobretudo, se aplicando a mostrar como a constituição do grupo é ela mesma o produto, ao menos parcialmente de um trabalho social de unificação, comparável, com muitas semelhanças, ao trabalho político de mobilização. Pois, verdade trivial, mas que é necessário, apesar de tudo restabelecer, a homogeneidade não é condição necessária e suficiente da coesão. Um grupo que conseguiu assegurar sua coesão, impor a crença em sua existência e objetivar-se nas instituições, parece ter as propriedades de uma

  “coisa”. Mas, o efeito da existência massiva, de coerência, de coesão ou, para falar a linguagem da psicologia da percepção, de „boa forma‟, que as classes cuja organização é completa, que chegam a dar elas mesmas, é o produto reificado de lutas mais freqüentemente esquecidas ou reprimidas para a definição e representação de classe (BOLTANSKI, 1982, p. 53

  • – 54, tradução nossa).

  Nesse sentido, para se perceber como as disputas e interdependências entre os grupos se perpetuam ou se modificam, é necessário compreender que uma série de ações, conscientes ou não, são postas em prática a fim de assegurar a continuidade ou reprodução das posições dos agentes na estrutura social. O aporte da pesquisa histórica poderá proporcionar um conhecimento mais aprofundado das características desse segmento da elite econômica maranhense, inclusive demonstrando como as formas de sua composição poderiam permitir ou vedar a inclusão de agentes e definir os limites de suas ações. Elias (2001, p. 42), em seu trabalho sobre a sociedade de corte francesa, verificou que

  [...] Além disso, com o auxílio de uma investigação detalhada dessa elite, é possível mostrar com bastante segurança de que modo sua estrutura fornecia ou obstruía, para os homens singulares, suas possibilidades de realização. Por outro lado, acredita-se que algumas lógicas apresentadas por Bourdieu (2002, p. 68, grifo nosso), como as contidas nas

  “estratégias de

  investimento econômico

  ”, consideradas como parte de um conjunto maior de estratégias de reprodução, são de extrema importância para a sistematização da abordagem ora em comento:

  [...] Às estratégias de investimento econômico em sentido restrito, é necessário, com efeito, juntar as estratégias de investimento social, orientadas para o estabelecimento ou manutenção de relações sociais diretamente utilizáveis ou mobilizáveis, a curto ou a longo prazo, isto é, para sua transformação em obrigações duráveis, subjetivamente ressentidas (sentimentos de reconhecimento, de respeito, etc.) ou institucionalmente garantidas (direitos), portanto, no capital social e no capital simbólico, que é operado pela alquimia da troca

  • – de dinheiro, de trabalho, de tempo, etc., - e por um todo um trabalho específico de manutenção de relações. As estratégias matrimoniais, caso particular dos precedentes, devem assegurar a reprodução biológica do grupo sem ameaçar sua reprodução social pelos casamentos desiguais e prover, pela aliança com um grupo ao menos equivalente, sob todas as relações socialmente pertinentes, à manutenção do capital social.

  No caso do tema trabalhado, é absolutamente fundamental a compreensão das estratégias matrimoniais implementadas, porque são elas essenciais à não permissão de quebra, no mínimo, da equivalência entre os agentes, legando para a geração seguinte a manutenção dos capitais sociais acumulados. Isso porque não apenas os portugueses e sírio-libaneses, enriquecidos através das atividades comerciais, estabelecem vínculos de parentesco comuns entre si, como também, com certa frequência, conseguiam formar esse tipo de ligamento frente a indivíduos já estabelecidos, residentes e firmados de longo tempo, proprietários de relativa equivalência financeira. Esses últimos seriam os ligados à lavoura escravocrata, e de igual forma exerciam essa prática com o nítido propósito de garantia e perpetuação dos recursos de natureza econômica às gerações subseqüentes. Em tal perspectiva, Bourdieu (2002, p. 70) relata que:

  E se as estratégias matrimoniais ocupam um lugar tão importante no sistema das estratégias de reprodução, é que, sem ser necessariamente codificado de maneira tão perfeitamente rigorosa que o deixam crer certas teorias do parentesco, a ligação matrimonial aparece como um dos instrumentos mais seguros que se acham propostos, na maioria das sociedades (e ainda nas sociedades contemporâneas), para assegurar a reprodução do capital social e do capital simbólico em tudo salvaguardando o capital econômico.

  Dessa maneira, com tais parâmetros, acredita-se que é possível analisar as práticas de seleção, recrutamento, mediação e reconversão dos “líderes” que conduzem a ACM, tida como legítima e apta a falar em nome de um grupo pretensamente coeso de agentes, no caso, comerciantes e industriais ludovicenses do final do século dezenove e início do seguinte.

  A partir desses referenciais, aplicou-se alguns instrumentos metodológicos que tornaram possível a realização da pesquisa. Nesse ponto, a chamada

  “prosopografia” muito contribuiu para isso. Essa técnica tem como princípio fundamental a definição de uma

  [...] população a partir de um ou de vários critérios e estabelecer, a partir dela, um questionário biográfico cujos diferentes critérios e variáveis servirão à descrição de sua dinâmica [...], segundo a população e o questionário em análise (CHARLE, 2006, p. 41).

  Conforme o mesmo autor, a prosopografia tem como objetivo “[...] apreender, através das biografias coletivas, o funcionamento social real das instituições ou dos meios onde agem os indivíduos estudados ” (CHARLE, 2006, p.

  48).

  A principal fonte material a fornecer subsídios para a pesquisa foi a “Revista da Associação Comercial do Maranhão”. Essa publicação mensal, na forma como se encontra na biblioteca da entidade, está reunida por volumes anuais, encadernadas em forma de livro, com doze exemplares cada, sendo alguns ausentes, como os de 1932 e 1939. A Revista da Associação Comercial do Maranhão é um dos mecanismos mais fluentes e diretos no projeto de consagração dos líderes da entidade. Privilegiando a unidade e o consenso de seus membros, não evidencia de forma clara as disputas e conflitos estabelecidos entre os diretores e seus interesses. Assim, diversas informações biográficas sobre esses agentes puderam ser colhidas nas menções laudatórias de aniversários, viagens e falecimentos.

  Difundida entre os associados da capital e interior, além do encaminhamento gratuito para o Palácio dos Leões, sede do governo do Estado, Palácio La Ravardière, da prefeitura de São Luís, Tribunal de Justiça, Assembléia Legislativa, Câmara de Vereadores e órgãos federais com endereço no Maranhão, desde quando começou a circular, em 1925, ela reproduz, com grande peso e eficiência, a imagem que os diretores da entidade desejam apresentar de si mesmos. Isso não só para os afiliados à ACM e elites econômicas, em sentido mais amplo, como também para outros segmentos sociais, investindo na apresentação de códigos, valores e conhecimentos, em troca de sua própria legitimação, através de um meio facilmente palpável, bem ilustrado e de simples compreensão.

  Diversas atas de reunião foram publicadas na Revista. Ainda que em notas taquigráficas, proposital, mas não completamente “estéreis”, onde as falas dos diretores são previamente editadas antes da consignação, é possível se perscrutar detalhes dos processos eleitorais da instituição, os estatutos e suas alterações ao longo do tempo, além de debates e discussões sobre temas como política, impostos e economia. Foram analisados também pareceres enviados ao Governo do Estado

  e, da mesma forma, artigos publicados por seus dirigentes e material congênere, todos com ampla divulgação na impressa local.

  De forma complementar foram analisados alguns trabalhos sobre o comércio e indústria maranhenses do período e, indiretamente, sobre a ACM. Trata- se de textos que se auto-proclamam como de natureza técnica, realizados por agentes que não exercem atividade empresarial ou não figuram como membros da entidade, mas que a ela estão profundamente vinculados, inclusive através do financiamento de suas pesquisas. Com isso, eles contribuem sobremaneira para a consagração das lideranças da Associação, exercendo papel semelhante ao da Revista.

  Assim, dedicou-se um capítulo específico para os escritores Dunshee de Abranches (1888; 1907; 1992; 1993), Fran Paxeco (1916; 1923; 1998) e Jerônimo de Viveiros (1954; 1964; 1999), que são os indivíduos que falam em nome da instituição, portadores de um saber pretensamente

  “especializado” e “desvinculado”, e que prestam uma espécie de “assessoria externa”. Pela função por eles exercida, podem ser caracterizados enquanto

  “intérpretes” (GRILL, 2005; NEIBURG, 1997), no sentido de produzirem e divulgarem imagens sociais elaboradas a partir de ações específicas tanto da entidade quanto de seus diretores e que redundam na consagração de ambos, sempre de acordo com

  “[...] as alianças horizontais e verticais que possibilitam no presente, e às dívidas de reciprocidade e lealdade que estabelecem para o futuro ” (GRILL, 2005, p. 529). Offerlé (2009, p. 78, tradução nossa) já havia identificado que as organizações patronais francesas se valiam de uma pluralidade de recursos para divulgar suas reivindicações e posicionamentos, inclusive do trabalho especializado de profissionais da área econômica, que militavam através de jornais, livros e conferências.

  Contudo, a categoria de “experts”, que é a eles atribuída, comporta uma série de especificidades

  • – construídas a partir das características próprias das relações em jogo na sociedade em que se desenvolveram
  • – que, apesar da relativa similitude de atividade entre os agentes, não permite que seja simplesmente transplantada ao caso maranhense, pelo menos não sem o prejuízo de se omitir e desvirtuar elementos peculiares do objeto empírico em questão.

  No que toca aos membros diretores da Associação Comercial do Maranhão estes são, a rigor, agentes vinculados inicialmente ao grande comércio que se desenvolvera durante a segunda metade dos oitocentos, mas que se mantivera relativamente oculto frente à projeção alcançada pela lavoura e seus proprietários. Em seguida, paralelamente à atividade comercial, investiriam em outras formas de acumulação de capitais econômicos, como as indústrias. São esses agentes que fundam e se articulam em torno da Associação Comercial do Maranhão.

  Para a operacionalização do presente trabalho, como anteriormente já mencionado, montou-se um questionário prosopográfico flexível, que somou ao seu término aproximadamente oitenta quesitos. Foram eles aplicados sobre a população de 149 diretores da ACM, de acordo com as indicações constantes nos documentos analisados, fossem eles obras literárias publicadas e em circulação ou documentos de época, como a

  “Revista da Associação Comercial do Maranhão”. As temáticas do rol de perguntas visaram coletar o máximo de elementos referentes às trajetórias pessoais dos agentes, bem como dos seus antecedentes e descendentes.

  No princípio indagou-se sobre o local de nascimento, escolarização, profissão, casamento com pessoa da própria família ou de família de origem semelhante, e ainda vinculação a entidades e clubes patronais. As fontes eram capazes de fornecer dados sobre as mais diferentes práticas de socialização dos diretores e suas famílias, como o comparecimento a aniversários, bailes de casamento e festas religiosas. Também foi possível classificar-se os diretores segundo a quantidade de tempo de ocupação nos cargos de direção, e a natureza dos mesmos.

  De pronto esse tipo de indicação era adaptada e convertida para o questionário como interrogação aos demais membros da população. Assim, com o avanço dos trabalhos e incremento na quantidade de textos consultados, as poucas questões formuladas no começo da pesquisa evoluíram para um conjunto de informações finais relativamente amplo, ou, ao menos, capaz de viabilizá-la. As três categorias básicas possíveis de resposta para o questionário,

  “sim”, “não” e “sem informaçã o” permitiram, quando do epílogo do prazo estipulado para a coleta de dados, a formulação de

  “freqüências” ou “repetições” de elementos biográficos que, num primeiro nível, conduziram a um conjunto quantitativo que pode ser posto em diálogo com o sistema de análise mais adequado ao tipo de pesquisa que se quis desenvolver.

  No terceiro capítulo, uma perspectiva qualitativa sobre os repertórios de atuação, inclusive o engajamento político da liderança empresarial, envolveu a análise das falas

  “especializadas” sobre o tema econômico-financeiro publicadas na Revista da Associação Comercial, discursando em seu nome, especialmente frente a outras entidades e esferas de governo.

  Com relação à natureza das fontes examinadas, foi necessário não perder de vista que foram confeccionadas de acordo com as circunstâncias e os interesses que envolviam os seus produtores. Ainda que sejam classificadas empiricamente como

  “documentos”, por conterem elementos proveitosos à investigação, originalmente estavam imbuídos da função primária de registrar informações sobre fatos e pessoas específicos

  • – continuamente em prejuízo de outros, não anotados
  • – o que os caracteriza, na verdade, como sendo espécies de “monumentos”, levantados por seus construtores afim de que algo fosse legado para uma época futura e com uma determinada imagem, afeiçoada às próprias razões que justificaram sua elaboração (LE GOFF, 1990, p. 45).

  Assim, a relação conceitual entre documento e monumento deve se direcionar a uma constante crítica do “documento” seja ele de que natureza for sempre enquanto um

  “monumento”. O “documento”, nesse sentido, não é um objeto que retrata ou esclarece o passado. Ao contrário, foi produzido conforme as relações de forças em disputa no período de seu surgimento. Com isso, apenas a percepção do

  “documento” como um “monumento” que atendia ou atende a determinados objetivos de seus produtores e consumidores, atuais ou pretéritos, torna-o compreensível em seus significados mais profundos, e sua utilização racional, possível.

  Ante o exposto, por tudo o que até agora se tem consignado, se ainda muito perto da simplicidade, o presente o trabalho ao menos tentou ser um passo inicial de uma caminhada muito mais longa, porém já iniciada, nas ciências sociais. Com isso acredita-se serem válidos os esforços direcionados para compreender-se os condicionantes reais que proporcionaram a determinados indivíduos constituírem e transformarem suas carreiras

  “profissionais” em liderança de grupo, sempre envoltas por estratégias próprias, princípios de legitimação e consagração específicos, no interior e através da Associação Comercial do Maranhão, de onde inclusive se projetaram para esferas de poder ainda de maior destaque.

  É o que se tenta mostrar a seguir. de uma representação empresarial

  Compreender que a seleção de lideranças de uma parte da elite econômica local envolve a elaboração, transmissão e ostentação de patrimônios sociais decorrentes de legados familiares e das teias de reciprocidade, é também apreender os componentes que proporcionam essa configuração, baseada na cooptação de agentes e valorização de outros, de acordo com a capacidade que cada um deles tem de acionar determinados recursos.

  Nesse sentido, as origens geográficas, as profissões dos ancestrais, a os níveis de escolarização e a frequência a certos ambientes como clubes sociais, igrejas, festas e confrarias, permite que os agentes em recrutamento cumpram ritos de passagem, recebam e transmitam créditos de reconhecimento, envolvendo-se conceitos abstratos como

  “moral”, “ética” e “competência”, apontados como fundamentais para a organização do grupo e delimitação de suas fronteiras Com razão, jovens portugueses pertencentes a ramos familiares já previamente estabelecidos no alto comércio de São Luís, por exemplo, encontram grande facilidade de progressão na atividade, uma vez que são introduzidos ainda durante a infância nas atividades empresariais, pouco depois logrando ingressar em instituições como a Associação Comercial do Maranhão, Rotary Club, e outras correlatas. Na mesma perspectiva, os conhecimentos técnicos, aprendidos no cotidiano do comércio ou através de uma graduação de nível superior, são contribuintes acessórios para a hierarquização dos indivíduos, basicamente fundada na lógica das relações de parentesco.

  Não deixa mesmo de surpreender como a formação da grande maioria das carreiras profissionais dos diretores da ACM decorre fundamentalmente da herança recebida dos ancestrais, e como isso é apresentado de maneira flagrante enquanto marco de diferenciação e certificação do agente como

  “apto” à liderança, quase que de forma exclusiva pelo pertencimento a uma “linhagem” de empresários. Daí ser imperativo analisar-se detalhadamente alguns dos dados mais importantes a respeito dessa temática. O local de nascimento é uma das mais importantes variáveis para a compreensão da constituição social das lideranças empresariais, e mesmo de uma parte da própria elite econômica maranhense. No caso específico, em que se verifica a forte presença de agentes nascidos em outros países, especialmente em Portugal, e que no Maranhão se dedicarão às atividades vinculadas ao comércio e indústria, faz-se necessário um mapeamento de suas origens geográficas, a fim de se analisar o sistema de absorção e engajamento de novos agentes junto àqueles anteriormente já estabelecidos. Nesse sentido, verifica-se que é absolutamente marcante a presença de

  “estrangeiros”, que formam a maioria absoluta dos diretores da Associação Comercial (Tabela 1):

  Tabela 1: Origem Geográfica dos Diretores da ACM Local de Nascimento Número Brasil

  27 Portugal

  27 Outros

  2 Total

  56 Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1925-1940)

  São 56 diretores que possuem informações disponíveis quanto ao local de nascimento. Se for considerado como brasileiro 1 que nasceu no Acre, mesmo enquanto esse território pertencia oficialmente à organização político-administrativa boliviana, o número de diretores da ACM nacionais se iguala aos 27 que são portugueses, como foi consignado na tabela. Como é percebido através dela, porém, o número ainda é menor que o de nascidos para além das fronteiras do país, pois soma-se mais um escocês e um espanhol.

  Além disso, está sendo considerado como dado objetivo de diferenciação de nacionalidade o exato local de nascimento. É notável, contudo, que muitos “brasileiros” que figuram na lista são filhos de casais portugueses emigrados para o Maranhão.

  Em termos estatutários, o local de nascimento não existe enquanto critério oficial de seleção para o ingresso ou ascensão na ACM. No entanto, ele é de extrema importância para se perceber como se operacionaliza o recrutamento prático de seus líderes.

  Para se compreender a elevada presença de lusitanos na condução do alto comércio brasileiro, é necessário se ter de início a percepção de que existe a uma rede internacional de troca estabelecida desde o século dezessete, entre o Brasil e os principais centros econômicos da Europa, cuja principal praça de intercâmbio é Lisboa.

  Vencida pelas potências melhor instrumentadas para o comércio ultramarino, Lisboa perde mercados e territórios, sobretudo no Oriente. Porém, caindo escada acima no sistema colonial europeu, a Coroa portuguesa implanta no Atlântico uma economia de produção mais eficazmente explorada do que a economia de circulação de seu império asiático. Na ausência de um excedente regular incorporável às trocas marítimas, a Coroa

  • – secundada pelo capital nacional e estrangeiro – estimula a produção de mercadorias para a economia-mundo, dando origem a uma forma mais avançada de exploração colonial (ALENCASTRO, 2000, p. 30).

  Essa teia mercantil, sediada na capital portuguesa, mas estendida também a outras urbes importantes, como o Porto, foi imposta de forma compulsória pelo chamado e decantado

  “Exclusivo Comercial”, e não se rompeu drasticamente com as mudanças decorrentes da elevação do Brasil à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarves ou frente à Independência. Ao contrário, foi perdendo lentamente sua força durante todo o curso do século dezenove e início do seguinte, acompanhando a dissolução do antigo império ultramarino lusitano.

  Porém, até a segunda metade dos oitocentos, ela ainda detinha considerável valor, inserindo grande número de jovens candidatos ao ingresso no mundo dos negócios. Notável é ainda a existência, até as décadas de 1940 e 1950, de um

  “[...] sobradinho de esquina, [onde] ficava a „República‟ dos portugueses- caixeiros da Praia Grande ” (LIMA, 2002, p. 09), localizado entre a Rua do Sol e a Travessa da Passagem.

  Na ponta ludovicense da rede estavam as casas comerciais de portugueses nela já engajados e consolidados, a receber uma parte desse contingente populacional. Esses estabelecimentos mantinham fortes vínculos

  • – não só econômicos - com outras casas de negócio em Portugal, ou lá mantinham pequenas representações comerciais, custeando agentes que executavam a função
de intermediários. Um dado sobressalente dessa mútua conexão está no fato de não ser incomum o estabelecimento de laços de parentesco entre famílias proprietárias de empreendimentos “solidários”, localizados no Maranhão e na “pátria de Camões”.

  Por exemplo, Manuel Maia Ramos, pertencente a abastada família de comerciantes do Porto, formado em técnicas têxteis na Alemanha e tendo administrado unidades industriais dessa natureza em Portugal e no Rio de Janeiro, chega ao Maranhão no final da década de 1920 para dirigir a Companhia de Fiação de Tecidos de Cânhamo. Se por um lado Maia Ramos surge como uma espécie de executivo para redefinir a produção da têxtil, não podendo ser identificado como um líder empresarial, e mesmo sequer figurasse entre os diretores da ACM, os proprietários da fábrica tinham franca influência nos mais elevados cargos dessa instituição.

  Manuel Mathias das Neves, acionista majoritário dessa têxtil, havia realizado caminho parecido ao de Maia Ramos, ainda muito jovem, partindo do norte de Portugal para São Luís. Cumpriu o cargo de vogal na Associação Comercial por dois anos, mas Manuel Mathias das Neves Filho, brasileiro, foi eleito seu presidente em 1939.

  Contudo, Manuel Mathias das Neves e Manuel Maia Ramos tinham mais em comum do que o prenome tipicamente lusitano. Ambos casaram-se com maranhenses. O primeiro com Marianna Pinheiro, moça de importante família de comerciantes e lavradores locais. Já o segundo teria como consorte Edith Pinheiro Neves, uma das filhas de Manuel Mathias com Marianna. Com esse último enlace, ambas as famílias aproximaram seus ramos separados pelo Atlântico, e passaram a ser correspondentes ativos, inclusive quanto aos assuntos mercantis transnacionais. Outro exemplo é o de Arnaldo Joaquim Júlio Corrêa, maranhense e que foi Vice- Presidente da ACM. Era filho do português de Matosinhos, Joaquim Júlio Correia, que mais tarde se tornaria o proprietário de uma das maiores casas de exportação de algodão em pluma do Maranhão. Joaquim Júlio Corrêa chegou a ser apontado como decano do comércio maranhense na década de 1920, merecendo inclusive uma nota elogiosa, com fotografia, por ocasião de seu aniversário, na revista da Associação Comercial.

  Ele chegara a São Luís durante o Império, aos dezesseis anos. Aparentemente não veio só, pois dois irmãos seus também foram comerciantes na cidade. Eduardo Júlio Corrêa está sepultado desde 1898 no antigo cemitério da Capela de Bom Jesus dos Navegantes. Florêncio Júlio Corrêa, por seu turno, depois de vários anos na Província, retornou a Matosinhos, onde feneceu. Joaquim Júlio Corrêa conseguiu se estabelecer, e casou-se na Igreja da Sé, no ano de 1887, com Emília Rosa d

  ‟Almeida Morais. A sua esposa era maranhense, mas, como Edith Neves Maia Ramos, filha de destacado comerciante lusitano, no caso, José Antônio d

  ‟Almeida Morais, cuja trajetória em nada diferia à dos demais.

  Assim, a rede de inserção de portugueses no Maranhão mostrava o quanto seria decisiva para a determinação das características referentes à origem social de boa parte dos diretores da ACM. Mas esse sistema de atração de agentes para o comércio, com algumas poucas modificações, servia folgadamente a outras nacionalidades. Desde meados do século dezoito que os grandes veleiros, atravessando sinuosamente a temerária Barra do Maranhão, faziam desembarcar no porto de São Luís homens portando nomes estranhos ao vernáculo: Belfort, Guilhon, Lapemberg, Lamagnère, Jansen Müller de Praet. 3 Esses que de início atuaram no , diferenciam-se dos agentes

  “trato” estudados na presente análise por formarem uma elite econômica específica. Apesar do início comum, converteram-se, ao passar do tempo e através de vínculos de parentesco, com a nobreza administrativa residente, transfigurando-se em grandes proprietários escravocratas, possuidores de imensas lavouras de arroz e algodão, engenhos e fazendas de gado, constituindo numerosas famílias, bem características do patriarcalismo rural brasileiro. Se as trajetórias em algum momento se modificaram, passando a formar grupos dirigentes mais ou menos diferenciados, as condicionantes de origem continuaram basicamente as mesmas.

  No caso de estrangeiros que não compartilhavam das redes de inserção luso-maranhenses, como os de berço anglo-saxão, sejam aqueles de meados do século dezoito ou do século dezenove, e entre esses últimos dois dos mais reconhecidos diretores da ACM, Martinus Hoyer e Henry Airlie, os que conseguiram se firmar no grande comércio e se projetar nessa instituição, engajaram-se ainda bem jovens ao mesmo sistema familiar de apadrinhamento e proteção em linhas anteriores exposto.

  Tomou-se conhecimento, durante a pesquisa, da existência de uma obra genealógica recente 3 – mas provavelmente já esgotada, e por esse motivo não

  O

“trato” é palavra que tem como significado “negócio” ou “comércio”. Muito em uso até meados do

  encontrada

  • –, com os seguintes dados: “Os Hoyer e os Broadbert Hoyer da Casa de Belfort, de Martinus Hoyer Gomes, ed. do Autor, São Vicente (SP),

  2006” (COLÉGIO BRASILEIRO DE GENEALOGIA, 2007, p. 3). Martinus Hoyer, como antes dito, não pertence à população pesquisada, mas foi diretor e presidente da

  “Comissão da Praça

  ”, entidade que imediatamente antecedeu à ACM. Seu caso é exemplar por demonstrar como o pertencimento às redes familiares já estabelecidas economicamente poderiam proporcionar a um jovem estrangeiro, mesmo de origem geográfica não-lusitana, um ingresso exitoso na carreira de empresário. Veio para São Luís a convite de um tio, Martinus Aníbal Boldt, oficial da marinha dinamarquesa lotado no Maranhão e casado com a filha de um desembargador, que ficou responsável pela educação da criança, que mais tarde seria empregado da firma inglesa

  “Moon & Cia”.

  Mas a julgar pelo título da obra (e em boa medida pelo nome do autor), se houver de fato algum tipo de vinculação familiar, ou se esta foi acionada, entre o comerciante oitocentista Martinus Hoyer e o apresador de índios e grande lavrador do Maranhão do século dezoito, o irlandês Lourenço Belfort (Lawrence ou Lancellote, como citam alguns documentos), Martinus, chegado a São Luís ainda bem jovem no ano de 1829, não deve ter tido maiores problemas em acessar as mais importantes instâncias de poder da antiga província.

  Isso porque os descendentes de Lourenço Belfort eram nobres fidalgos portugueses e titulares nobiliárquicos locais, entre eles Sebastião Gomes da Silva Belfort,

  [...] estudante de matemática por Coimbra, acadêmico de direito, sem concluir o curso, vereador à Câmara Municipal de São Luís, membro da junta governativa presidida por d. Joaquim de N. S. de Nazaré. Era fidalgo cavaleiro da Casa Real portuguesa e cavaleiro da Ordem de Cristo. Faleceu no posto de brigadeiro do regimento de milícias do Itapecuru [...

  ]” (COUTINHO, 2005, p. 237).

  Antônio Raimundo Teixeira Vieira Belfort, Barão do Gurupi “[...] bacharel em direito, magistrado, parlamentar [.

  ..]” (COUTINHO, 2005, p. 282), Joaquim Raimundo Nunes Belfort, Barão de Santa Rosa

  [...] lavrador, político, proprietário de engenhos de açúcar [...] varão de muitas letras, mas era político liberal de prestígio e republicano histórico [...] na exposição do açúcar e do algodão ocorrida em 1883, promovida pela Associação Comercial do Maranhão, sob a chancela do presidente da província Ovídio João Paulo de Andrade, entre os que receberam menção honrosa pela qualidade superior de seus produtos, incluía-se o barão de Santa Rosa (COUTINHO, 2005, p. 344 - 345).

  Manoel Gomes da Silva Belfort, Barão de Coroatá, “[...] foi vereador à

  Câmara Municipal de São Luís, deputado provincial em várias legislaturas e, por duas vezes, presidente da Assembléia (COUTINHO, 2005, p. 444).

  Martinus Hoyer é consagrado na ACM como o principal empresário maranhense de meados do século XIX. Isso não só por possuir diversos empreendimentos industriais de grande porte, como também por publicar obras sobre economia e política nacionais. Segundo Holanda (2010, p. 40), ele:

  [...] pertence a uma espécie de estrangeiros intimamente enfronhados nos assuntos da terra adotiva que vicejou em várias partes do Império durante o segundo reinado, como o francês Henrique Augusto Milet em Pernambuco, ou o alemão Karl Von Koseritz no Rio Grande do Sul, ou, em São Paulo, o irlandês Ricardo Gumbleton Daunt [...].

  Apesar de não se incluir na população objeto deste estudo, foi diretor presidente da “Comissão da Praça”, a instituição de empresários que precedeu a

  Associação Comercial do Maranhão. Essa mantém, em seu salão nobre, atrás da tribuna, um óleo sobre tela de grandes proporções, confeccionado na década de 1880, onde Hoyer é a figura principal, ladeada por ícones clássicos do comércio, como porto, caixas e naus mercantes.

  Além dele, outros empresários como Cândido José Ribeiro e Arnaldo de Jesus Ferreira, cada um em sua própria época, são apresentados pelas diretorias da Associação Comercial como espécies de

  “heróis” do empresariado, por terem conseguido realizar não só feitos da ordem privada, como edificar grandes empreendimentos materiais (indústrias, estradas, etc.), mas também

  “projetar” os objetivos e as realizações da instituição à qual pertenciam. Seus nomes eram frequentemente citados em sessões solenes e, no caso de Hoyer, uma celebração especial foi organizada para o descerramento da pintura que até os dias atuais encima o plenário da ACM, contando com a presença de poetas e escritores da terra. Sob esse processo Coradini (1998, p. 212), informa que:

  O que distingue os agentes sociais considerados como heróis dos meramente dominantes é o fato de que essa posição de herói e aquilo que ela representa em termos de valores culturais representados pela „figura‟ ou imagem social são consagrados e passam a fazer parte da ordem do sagrado, em oposição ao profano. Daí, inclusive, o caráter fortemente ritualizado e solene das liturgias de canonização desses processos de heroicização, visto que a história se realiza em seu estado

  „objetivado‟, „incorporado‟, mas também „reificado‟. José da Cunha Santos Júnior, por sua vez, foi um dos reformuladores da Comissão da Praça e fundadores da Associação Comercial do Maranhão em 1878, maranhense educado na Inglaterra, foi por muito tempo diretor da firma

  “Cunha Santos & Filho

  ”, criada por seu pai. Mas José da Cunha Santos, o pai, não era brasileiro, nem português. Havia nascido na Espanha. Como informa Viveiros (1954, p. 426), é ignorado o ano de sua imigração para o Maranhão. Chegara trazido por um capitão de veleiro, ainda menino.

  Em sua juventude, atendia pelo nome de Santo José da Cunha, e vivia das miúdas rendas colhidas de uma franciscana barraca montada à beira do lodaçal do Bacanga, ao lado da Casa das Tulhas, o antigo mercado da Praia Grande. Ali atracavam as canoas e alvarengas que abasteciam os grandes navios fundeados de fronte à cidade.

  Santo José não estava só. Por todo o entorno desse prédio de um único pavimento, dividido em pequenas lojas e tomando toda uma quadra do citado bairro, aglomeravam-se dezenas de outras precárias tendas. Seus donos de tudo alienavam: farinhas, peixes e camarões secos, frutas da terra, galinhas, patos, porcos, peles e animais silvestres. Na disputa pela preferência do comprador miúdo havia também os negros de ganho, oferecendo seus produtos e serviços. Comercializavam-se outros homens cativos, recém chegados da África ou das fazendas interioranas, em leilões promovidos em plena rua. O mercado tinha maior movimento antes das horas mais quentes do dia, ou ainda segundo as marés cheias, quando aos bergantins e 4 podiam fundear próximos ao cais outrora existente naquela localidade.

  clippers

  Nesse ambiente de profusos calor e suor, em meio ao povo que para ali acorria ao som estridente dos gritos dos pregoeiros, dividindo espaço com os muitos urubus que saltavam ao chão à cata das entranhas dos animais abatidos ali mesmo, sobreviviam os pequenos comerciantes da cidade. Por de trás daquelas amontoadas bancas estavam muitos brasileiros e portugueses, mas também pessoas de outras nacionalidades, como Santo José. Ele se ocupava em fornecer água potável para as embarcações chagadas ou de partida, assim como breu e alcatrão, ambos utilizados para reparos e isolamento dos vasos de comércio, em um processo conhecido por 4 “calafetagem”.

  

Embarcações à vela de grande porte, utilizadas como transporte de pessoas e mercadorias durante

  Especificamente a água gozava de demanda considerável, pois as tripulações dos veleiros eram numerosas e os trechos percorridos, longos. Sendo gênero de primeira necessidade e, portanto, imprescindível, a água potável configuraria um produto de garantida aceitação, cujos lucros com a sua comercialização poderiam ser bem compensadores.

  Santo José não descobrira nada de novo. O negócio de venda de água para navios era bem antigo, sendo inclusive explorado por vários fornecedores. Assim, inserido em um ávido meio concorrencial, provavelmente ele seguiria a trajetória comum a diversos outros pequenos comerciantes. Meio ascendente, meio descendente, sua atividade não lhe asseguraria muito mais do que a modéstia.

  Mas a água que Santo José comercializava provinha das fontes de propriedade de Ana Joaquina Jansen Pereira (1787-1869), uma das mais ricas mulheres de seu tempo, proprietária de terras e vasta escravaria, no interior da Província e em São Luís, onde também detinha grande número de imóveis urbanos, dos quais retirava alugueis. Era a principal referência na liderança do Partido Liberal do Maranhão. Segundo informa Moura (1992, p. 56), contava-se na cidade que:

  No seu palacete, dizia o povo, não se fechavam as portas nem se apagavam as luzes ‟. Dia e noite, ferviam ali dentro as tricas políticas e os enredos privados da terra. Nada se fazia sem a palavra de ordem ou aquiescência do sobrado. Chamavam simplesmente assim o famoso imóvel de azulejos da Rua Grande [...].

  Ana Jansen nascera (Figura 1) sem posses, porém. Casou-se inicialmente com Antônio Lobo da Silva Leite. Enviuvando, desposou em seguida um militar, o Coronel de Milícias, e muito rico comerciante português, Isidoro Rodrigues Pereira. Com o falecimento deste em 1825, ela passa a conduzir o vasto patrimônio legado pelo agora desaparecido esposo. Ainda casaria com Antônio Xavier da Silva Leite, com o qual não teve descendentes. No entanto, Ana Augusta Jansen Pereira, filha havida antes do terceiro matrimônio, no dia 15 de janeiro de 1849, teve núpcias com o primo, Manuel Jansen Ferreira (Figura 2), advogado, professor e posteriormente comerciante, um dos mais influentes diretores da Associação Comercial do Maranhão.

  Figura 1: Ana Augusta Jansen Pereira, década de 1860. Carte de Visite, Fotógrafo:

  “Phot. Guimarães & Cia”, Rio de Janeiro Fonte: Acervo pessoal do autor Figura 2: Manuel Jansen Ferreira, década de 1880 Fonte: Viveiros (1954) Mas não era apenas essa a vinculação dos Jansen com a ACM.

  Santo José consegue projetar-se ao conseguir, frente à Ana Joaquina, o privilégio da compra de água de suas fontes. Logo após a segunda viuvez desta, o espanhol é convidado a ser padrinho de um de seus filhos. Com os laços de compadrio firmados entre si, forma-se uma sociedade em que ambos passam também a fornecer água a residências, através de carros pipa de tração animal. Mesmo sem muita higiene, até a fundação da

  “Companhia de Águas do Rio Anil” – da qual esses sócios foram grandes opositores

  • – não havia outra forma de abastecimento hídrico regular em São Luís.

  Já de muito, Santo José da Cunha havia mudado a grafia de seu nome para José da Cunha Santos. Isso ocorrera a 19 de setembro de 1840 (VIVEIROS, 1954, p. 426), e os motivos talvez estivessem relacionados à necessidade de seu “aportuguesamento”, o que sinalizaria como um dos recursos de ingresso para o meio empresarial.

  Porém, é apenas na década de 1880 que a sua casa comercial se torna uma das maiores do comércio maranhense do século dezenove, fornecendo grande sortimento de produtos náuticos e para a construção civil. A esse tempo, estava retornando da Inglaterra, onde se graduara em técnicas comerciais, o seu filho primogênito, José da Cunha Santos Júnior, que assumiria a condução dos negócios do pai e seria um dos fundadores da ACM. Apesar dos portugueses de fato nunca terem desaparecido completamente desse campo, ao menos até o final do século vinte, passam a enfrentar a

  “concorrência” de novos agentes, de maneira mais ou menos próxima ao que eles mesmos haviam feito frente aos grandes lavradores escravocratas.

  O aparecimento de sírio-libaneses no grande comércio e indústria maranhenses em meados das décadas de 1920 e 1930 marca o início de um processo de substituição de elites econômicas no que toca às origens geográficas. Esses agentes, em boa parte já eram médios comerciantes, intermediando a venda dos produtos saídos de São Luís e difundindo-os nas povoações produtoras de algodão, farinha e couros. Diferentemente dos portugueses e seus descendentes, estabelecidos principalmente na capital, os sírio-libaneses em Caxias, Codó, Cururupu, Pinheiro e Viana, além de outros municípios equivalentes, possuíam grande mobilidade, deslocando-se facilmente entre as localidades mais promissoras, fincando nelas entrepostos e nomeando representantes.

  A capitalização alcançada com o comércio do babaçu, principal produto do Estado na época, e os investimentos em seu processamento para a produção de óleo

  • – mesmo sem a necessidade do emprego de tecnologias adiantadas –, contribuiu para que os sírio-libaneses residentes no Maranhão se apresentassem também como portadores de uma

  “[...] invulgar capacidade para o trabalho” (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1936, p. 4, grifo nosso), transfigurando-se em lideranças

  “natas” do empresariado. Isso foi verificado com maior destaque a partir de 1935, quando alguns comerciantes de origem geográfica palestina adquiriram a propriedade de fábricas têxteis de grande porte localizadas em São Luís, como a

  “Companhia Fabril Maranhense” e a “Companhia de Fiação e Tecidos Maranhens e”. Não tardaria, portanto, para que membros das famílias Aboud, Abibe,

  Ayoub, Assad, Assub, Boabaid, Buhaten, Boueres, Braid, Cassas, Duailibe, Elal, Farah, Fecury, Habani, Haikel, Heluy, Maluf, Moucherek, Moubarak, Murad, Mohana, Nagib, Rachid, Salem, Salim, Sekeff, Trabulzi e Zaidan conseguissem se estabelecer entre essa elite econômica, francamente se utilizando de estratégias semelhantes às implementadas pelos portugueses décadas antes, em especial a cooptação, formação de vínculos de reciprocidade e apadrinhamento. Isso os colocarão inclusive em disputa por posições de poder com esses últimos, mesmo no interior das instituições de representação, como a ACM. Nesse caso, são preservadas as estruturas de reprodução, notadamente o capital de relações constituído a partir e de dentro da lógica familiar, de onde eles conseguem se engajar nos processos de recrutamento de líderes empresariais em curso.

  Assim, o primeiro a figurar entre os diretores da ACM, como vogal, é José Salim Duailibe, em 1933. Seus pais são vindos do Oriente Próximo, e se incluem nas ondas imigratórias de muitos povos mediterrâneos para o Brasil, incluindo turcos, gregos, italianos do sul e espanhóis, verificadas em maior número no entresséculos. Chamavam-se Salim Nicolau Duailibe e Linda Saddy Duailibe, ambos comerciantes. Consta que dois dos primeiros membros da família Duailibe a chegar ao Maranhão foram os irmãos Moisés e Abraão Abdalla Duailibe, em 1895. Eram muito jovens, com dezoito e dezesseis anos respectivamente. Haviam sido atraídos por correspondências enviadas por conterrâneos comerciantes já instalados e em plena atividade.

  Contudo, atingindo São Luís, Moisés pouco se demorou, logo seguindo para os sertões do Mato Grosso, indo se fixar em Campo Grande, para trabalhar com parentes que lá se encontravam. Abraão permaneceu na capital, na casa de um patrício chamado Neif Mathyas, no então distrito do Anil, que se expandia rapidamente em razão da têxtil lá edificada e em funcionamento naquele ano.

  Não logrando êxito em seus negócios naquele Estado, Moisés retorna, para se encontrar com vários outros familiares recém chegados do Líbano, entre eles,

  “[...] Salim Nicolau Duailibe, Miguel Nicolau Duailibe, Luis Nicolau Duailibe e Rosa Nicolau Duailibe (então com 15 anos, que seria a sua futura esposa), todos filhos de Nicolau Girius Duailibe ” (CARVALHO, 2009b, p. 1). Uma das filhas de

  Moisés, Hilda Moisés Duailibe, nascida em São Luís, casou-se com o comerciante português localmente estabelecido, Teotônio Carvalho Branco. Dois anos depois de José Salim Duailibe, em 1935, aparece também como

  “diretor” – cargo que substituiu apenas nominalmente o de vogal

  • – da ACM, Eduardo Aboud, que tempos posteriores seria um de seus vice-presidentes.

  Havia ele nascido em 20 de fevereiro de 1908, no Acre. Tem-se que alguns membros dessa família estavam realizando o transporte e comercialização de mantimentos para os seringais do alto Juruá, enquanto este então remoto território era disputado entre a Bolívia e o Brasil. Como declinassem muito rápido os preços internacionais da commodity da borracha, a economia amazônica fundada sobre a exportação in natura do látex desestruturava-se a passos largos, obrigando muitos dos imigrantes que lá se encontravam a se retirarem para outras áreas mais promissoras.

  Sua família então se transfere para o Maranhão, onde a convite de um tio, Wadih Aboud, poderiam trabalhar em sua casa comercial localizada em um baixo de sobrado na Praia Grande. Assim, com apenas nove anos de idade, Eduardo principia a laborar como aprendiz de caixeiro, executando tarefas simples. Depois de algum tempo, acompanha os pais em mudança para a cidade Pinheiro. No ano de 1917 falece seu progenitor, fato que o obriga a se deslocar, ao lado da mãe e dos irmãos, como caixeiro-viajante entre várias outras cidades, inclusive Fortaleza, no Ceará, onde havia uma marcante presença de sírio-libaneses. Estiveram ainda em Buenos Aires, então uma das cidades de maior crescimento nas Américas, mas lá também não logram êxito no comércio.

  Assim, retornam ao Maranhão para aturem na firma de propriedade de seus parentes, a “Chames Aboud & Cia.”, sendo que Eduardo (Figura 3) se torna sócio da referida aos dezenove anos. Seu irmão, César Aboud, constituiria longa carreira política, sendo deputado federal pelo Maranhão e Governador do Estado durante as disputas eleitorais a década de 1950.

  Figura 3: Eduardo Aboud Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1937, p.4) (imagem editada em computador por Rodolpho Oliveira)

  O realmente notável é que, sejam os casos de Manuel Mathias das Neves, Joaquim Júlio Corrêa, Martinus Hoyer, José da Cunha Santos Júnior ou Eduardo Aboud, como na quase totalidade dos diretores da Associação Comercial ou mesmo da Comissão da Praça, fossem os que possuem origem geográfica estrangeira ou ainda os

  “nacionais”, pelo menos para o período estudado, a contribuição das relações de parentesco é absolutamente marcante para o engajamento e ascensão dos membros da família na profissão de empresário.

  Por consequência, o ingresso e a progressão nos quadros da ACM também se tornam menos problemáticos, aumentando grandemente as chances desses agentes figurarem como seus diretores, o que de fato terminou por ocorrer. Nesse sentido, o pertencimento a uma família

  “tradicional” ou “especializada” no alto comércio maranhense não podia deixar de ser um expediente de grande importância para o candidato à categoria de comerciante bem sucedido.

  Assim, o fato do indivíduo ser membro ou se engajar a um grupo familiar com essas características, certamente fará com que ele receba os benefícios dos capitais herdados, produzidos e reunidos pelos demais componentes. Caso ele ocupe um lugar de destaque institucional, como a presidência da Associação Comercial do Maranhão, por exemplo, esses recursos tomam dimensões formidáveis, e personificados em sua própria figura, tornam-se um dos principais, se não o maior, justificador do cargo possuído. Estudando a nobreza francesa, especificamente a família do Duque de Brissac, Saint-Martin (1980, p. 8, tradução nossa), ainda que ambas as categorias, nobreza e família, tomem significados diversos na conjuntura maranhense, chega a uma conclusão que é bem pertinente ao que ora se analisa:

  Se a maioria dos membros da família pertencem às frações mais tradicionais da classe dominante, a diversificação das posições ocupadas tende assim a aumentar com as gerações. E a pertença a esta grande família, assegura a cada um de seus membros lucros simbólicos, especialmente os que correspondem aos patrimônios acumulados de todos os seus membros, e que são, sem dúvida, tanto mais importantes quanto seja mais central a posição ocupada [...].

  Dessa maneira, a origem geográfica dos diretores da ACM está vinculada ao pertencimento a determinado grupo familiar, tradicionalmente estabelecido no exercício de atividades relacionadas ao comércio ou indústria, o que será determinante para o ingresso e progressão do agente na mesma, e imprescindível para a ascensão à liderança de grupo.

  Para além das propaladas características pessoais que resolveriam a inserção e conquista das posições de comando do grupo dirigente, como as de predisposição ao trabalho e visão empresarial, o que se percebe de fato é a formação de linhagens de comerciantes e industriais, com franca prevalência da lógica familiar a conduzir as regras de acesso e continuidade de exercício dos cargos de direção da ACM.

  Por essa mesma razão, os laços de parentesco não são apresentados de forma negativa. Muito ao contrário, são descritos como qualidades respeitáveis do agente, no sentido de que eles provariam a aptidão do referido à profissão de empresário, no caso de vinculação a clãs familiares reconhecidamente como dedicados e competentes na atividade. Em outra face, deixaria à disposição do líder o acionamento, se necessário, de agentes que, compartilhando desses mesmos laços, estivessem engajados na liderança de outras atividades e instituições proeminentes, como as voltadas para a Administração Pública, entre elas os poderes políticos e o Judiciário.

  Assim, verifica-se que, dos diretores da ACM compreendidos entre os anos de 1879 e 1940, com esse tipo de informação disponível, todos possuíam algum membro familiar antecedente

  • – e nesse caso apenas citando-se os por conexão consangüínea – exercendo as mesmas profissões ou outras correlatas.
Com efeito, a “profissão” em questão é a de “empresário”. Objetivamente, ela envolve atividades quase que estritamente mercantis, como o trato direto com a exportação de produtos in natura retirados dos sertões do Estado, ora frutos da grande lavoura escravocrata, quando da permanência do regime de trabalho compulsório oficial, bem como dos pequenos roçados ou da coleta extrativista. Na mesma via, em sentido contrário, importava-se toda a sorte de produtos industrializados, que iam de ferragens a artigos de luxo.

  Mas não só isso. Por exemplo, os que têm referências familiares que os apontam como “industriais” ou “banqueiros”, na verdade, inclusive conforme o conceito moderno para o caso são também empresários, e muitos deles igualmente comerciantes, pois não havia dedicação exclusiva a um ou outro ramo específico. Entretanto, não é apenas o exercício dessas atividades econômicas que definem a profissão de empresário para o período estudado.

  Seu significado passa também por uma relativa institucionalização, que por sua vez pode ser representada, também objetivamente, pelo pertencimento por matrícula a entidades oficiais de regulação e registro, como a Junta Comercial ou mesmo a ACM. Esse processo de nível nacional inclui ainda a criação de cursos profissionalizantes direcionados para o exercício de atividades voltadas diretamente ao comércio e indústria, no mesmo passo em que são editadas leis que reconhecem e disciplinam a profissão e suas associações de caráter privado.

  Ao nível da presente abordagem, para o total da população pesquisada, em vista das restrições já expostas, conseguiu-se informações concretas apenas sobre aproximadamente 30% dela. Ou seja, de um universo de 149 diretores, 45 forneceram dados gerais sobre si, seus ancestrais e descendentes. Para a variável de profissão dos pais e outros tipos de ascendentes, verifica-se que são 29 líderes empresariais com notícia disponível sobre esse quesito. Destes últimos, quase todos possuíam antecedentes exercendo a mesma profissão ou similar.

  Contudo, considerando-se mesmo a função

  • – primordial – de consagração de seus membros pela instituição, a principal série documental analisada, ou seja, a

  “Revista da Associação Comercial do Maranhão”, não traz consigo informações sobre aqueles agentes que não lograram se estabelecer nos cargos de liderança. Os agentes que conseguiram ser identificados como dirigentes efetivos do grupo são os únicos a gozar, ao menos, de pequenas notas biográficas ou menções de elogio às suas pessoas. Tentando um pouco compensar essa ausência, a memória oral através de entrevistas realizadas com descendentes e familiares de diretores da ACM contribuiu para formar o quadro de 29 diretores que fornecem elementos sobre as profissões das gerações que os precederam. Desses, apenas 2 não teriam ancestrais exercendo a mesma atividade que a sua. Com efeito, os diretores da ACM, a priori, possuem três matrizes laborais possíveis, isoladas ou cumulativamente: comerciantes, industriais e banqueiros.

  Um dos que não herdaram a mesma atividade funcional do pai, por exemplo, foi Cândido José Ribeiro (Figura 4). Seu progenitor era lavrador nos sertões da região de Caxias, sendo também pequeno comerciante, mas de qualquer forma não

  “profissionalizado”, ou não “especializado” em qualquer das atividades, sem maior dedicação a uma ou outra tarefa, apenas deveria recolher os pequenos lucros de ambas advindos, para a subsistência familiar. Como se verá em momento posterior, esse que é apontado como um dos diretores de maior prestígio dentro da ACM, terminou notabilizado por seus empreendimentos industriais no interior do Estado, mas especialmente em São Luís, onde fundou o

  “Cotonifício Cândido Ribeiro

  ”, a única empresa do ramo a reunir mais de uma unidade fabril em seu inventário (Figura 4).

  Figura 4: Cândido José Ribeiro Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1925, p. 3)

  Entretanto, o “industrial” Cândido Ribeiro, em determinado momento de sua trajetória, quando ainda sequer figurava nos quadros da Associação Comercial, era identificado como “lavrador”, em especial na época em que se dedicou ao estabelecimento do Engenho Central São Pedro, uma grande unidade agroindustrial de processamento de cana de açúcar, no que hoje é o município de Pindaré, e o fez não como membro da mesa diretora da empresa, mas como cultivador, o primeiro a instalar-se no projeto.

  De fato galgaria a liderança do empreendimento na década seguinte, mas em 16 de Março de 1882 aportava em São Luís vindo de Caxias pelo Itapecuru como um agricultor acompanhado de seus escravos mais fortes e capazes de enfrentar uma empreitada colonizadora. Trazia consigo ferramentas e outros objetos para a construção de uma casa sede, provavelmente pequena e rústica. Estava ele então inscrito na

  “Companhia Progresso Agrícola” como “lavrador”. Partiu da capital no dia 19 em um vapor da Companhia Maranhense de Navegação, rumo ao que era ainda um “[...] esperançoso estabelecimento [...]” (ENGENHO CENTRAL, 1882, p. 2).

  Apesar de aparentemente não ter origem vinculada a uma elite econômica, mesmo regional

  • – a família emigrara do Ceará para se estabelecer na região de Caxias –, atuando frente ao “Engenho Central São Pedro” conseguiu firmar laços de amizade com os influentes comerciantes ingleses de São Luís, o que proporcionou sua ida à Grã-Bretanha, onde se dedicou a cursos voltados à montagem e administração industrial. Retornando ao Maranhão, seria indicado a várias diretorias de empreendimentos fabris de sua época.

  Nessa mesma perspectiva, ainda durante na juventude, não é pouco crível que tenha auxiliado o pai no cultivo da lavoura de propriedade da família. Por essa razão é que se aponta o progenitor do referido como tendo exercido atividade em comum àquela que o filho desempenharia. É, portanto, um caso peculiar, pois também poderia bem figurar como o único conhecido a não ter a correspondência mais ajustada entre as profissões de pai e filho, no caso, o primeiro sendo lavrador, e o segundo comerciante e industrial ou, como ora apresentado, ser uma atividade comum entre ambos, se a classificação fosse a de

  “lavrador”. Os firmes laços de amizade que constituiu entre o empresariado maranhense proporcionavam a aprovação dos mais variados projetos dos quais era posto como líder. Os vastos capitais financeiros entregues à sua administração conduziam ao conseqüente sucesso dos empreendimentos, o que retornava a si como uma delegação cada vez maior de postos de liderança. No início do ano 1892, problemas de saúde o forçaram a afastar-se da direção da “Fabril”, retirando-se, portanto, da condução das obras de edificação da

  “Fábrica Santa Izabel”, que àquela altura já estavam bem adiantadas (FÁBRICA SANTA IZABEL, 1893). Os memoriais sobre sua recuperação e retorno à administração dessa empresa, publicados na imprensa, o apresentam como um cuidadoso líder que está sempre a par de todas as questões, e ininterruptamente disposto a solucioná-las. Como adiante se verá, a aproximação de proprietários de jornais e periódicos com os industriais e comerciantes é clara. Isso demonstra que os processos de congraçamento das lideranças empresariais através de veículos de leitura antecedem em muito a edição da Revista da Associação Comercial do Maranhão, que começaria a circular mais de trinta anos depois de tal evento.

  É notável o desenrolar cronológico de sua consagração como dirigente primordial do estabelecimento, que o teria acompanhado desde o lançamento de sua pedra fundamental, até bem próximo de sua conclusão, quando sofre um acidente na face que o faz perder a visão do olho esquerdo.

  Tendo recobrado a saúde em maio, reassumiu o cargo de diretor-gerente da Companhia. Por esse motivo, organizou-se uma festa de recepção no edifício da fábrica. Naquela manhã, faixas e bandeiras adornavam todo o espaço da têxtil, de longe denunciando o evento que ali se realizava. Ao meio dia, um

  “profuso lunch” foi servido aos presentes, aglomerados nas dependências do escritório. Muitos brindes de champagne foram erguidos em honra do homenageado, e alguns deles mereceram destaque pela imprensa ludovicense, representada na cerimônia pelos redatores da

  “Pacotilha”, “Diário do Maranhão”, “O Paiz”, “Diário de Notícias” e “O Nacional

  ”. São citados o do médico e político Dr. Tarquínio Lopes à diretoria; do historiador Dr. Barbosa de Godóis à imprensa e à diretoria; do engenheiro Hilmman e do Sr. Roberto Martins em nome dos operários ao gerente; do Sr. Arthur Moreira à esposa do mesmo e à colônia portuguesa

  “amante do Brazil”, representada pelos 5 Srs. Carlos Ferreira Coelho, Chrispim e Joaquim Alves dos Santos; do diretor Apolinário Jansen Ferreira ao seu colega Cândido Ribeiro e à imprensa; dos Srs.

  Alexandre Collares Moreira Neto, em nome da comissão fiscal da Companhia, e 5 Carlos Ferreira Coelho, ambos ao diretor-gerente.

  

Indivíduo mais conhecido em São Luís por seu apelido, Nhozinho Santos. O cemitério da Irmandade

de Bom Jesus dos Passos desapareceu, e em seu lugar surgiu o campo de futebol dos empregados

da Santa Isabel, que na atualidade transformado em estádio, ostenta o nome do antigo industrial, que

  É claro que os homenageados retribuíram gentilmente os brindes, em clara mostra de confraternização coletiva. Terminado o banquete, os convidados dirigiram-se às amplas dependências da tecelagem para uma visita explicativa. Elegantemente vestidos, moças e cavalheiros caminhavam entre as fileiras do maquinário inglês que ia sendo instalado, posando para fotografias enquanto observavam curiosos as complexas engrenagens que, segundo as análises da época, lançariam em definitivo o Maranhão na modernidade. A celebração, enfim, parece ter tido o claro e único propósito de consolidar o prestígio de Cândido José Ribeiro como líder empresarial.

  No último dia de julho do ano seguinte, seu nome seria relembrado quando da inauguração da têxtil, também com a precedência de outra festividade, desta vez muito maior, assistida por vários membros das elites econômicas, políticas e religiosas locais. A fábrica era tida como a primeira indústria da

  “Companhia Fabril Maranhense

  ”, e objetivava a produção de tecidos de algodão populares, de baixo custo, conhecidos no mercado pela denominação de "domésticos". A cerimônia foi aberta com um discurso lido pelo diretor Carlos Ferreira Coelho, português e diretor da ACM, seguido por outro de Cândido Ribeiro, que

  “[...] expoz os motivos de jubilo que n'aquele acto sentia a directoria [...] ”(FÁBRICA SANTA IZABEL, 1893, p. 2 - 3). O investidor cedeu gratas homenagens ao Bispo Diocesano por seu comparecimento, não deixando de mencionar a

  “imensa satisfação” de estar ao lado da maior autoridade eclesiástica do Maranhão, que ao mesmo tempo, sendo natural de São Paulo, representava o estado brasileiro mais

  “[...] avançado nas conquistas da indústria [...] ” (FÁBRICA SANTA IZABEL, 1893, p. 2 - 3). Em seguida, chamou os acionistas Antônio Cardoso Pereira e Manoel José Maia, também portugueses e diretores da Associação Comercial, para constituírem a mesa da assembléia geral extraordinária da Companhia, ao que aceitaram prontamente. Deu-se, pois, aos demais convidados a oportunidade de usarem da palavra caso assim desejassem. Uma dilatada platéia, estimada em mais de duas mil pessoas se reunira no entorno do edifício têxtil, que para lá se dirigiram atraídas pela novidade e magnificência do imóvel.

  Em virtude das conveniências, estiveram separadas em espaços diferentes enquanto aguardavam os discursos a serem proferidos. Sua Reverendíssima, antes dos demais, agradeceu o convite à festa, prometendo deitar as mais clementes bênçãos sobre as máquinas e sobre a fábrica, saudando o

  Estado por esta conquista do trabalho e dizendo que sentia-se um maranhense nato, pela “[...] doce convivência, fraterna e amiga [...]” que por aqui levava (FÁBRICA

  SANTA IZABEL, 1893, p. 2 – 3).

  Os aplausos da multidão teriam silenciado o orador. Em seguida, o Sr. Roberto Martins, nascido em terras portuguesas, ainda que não fosse operário, mas sim um dos principais acionistas da têxtil, falou em nome de seus empregados, agradecendo Cândido Ribeiro por sua

  “coragem” e “entusiasmo”, presenteando-o, ao final de sua fala, com uma escrivaninha-tinteiro e uma caneta de bico-de-pena, ambos de ouro. O homenageado então não pode deixar de retribuir as honras recebidas. Publicou-se também a mensagem do súdito britânico John Gromwell, comerciante e redator de jornal, amigo pessoal de Cândido Ribeiro e um dos que patrocinaram sua viagem à Inglaterra.

  Expôs então o editor do “Diário do Maranhão” que as fábricas e manufaturas, assim como todas as festas do trabalho e indústria sempre encontrarão acolhida confortável nas páginas dos jornais ludovicenses. Saudou a diretoria da empresa e principalmente seu empenho em

  “[...] mobilizar o dinheiro [...], subdividi-lo por todas as classes desta sociedade, - sejam nacionais ou estrangeiros

  • revelam amor verdadeiro, sentido amor pela nossa terra [...]

  ” (FÁBRICA SANTA

  IZABEL, 1893, p. 2 - 3) Depois desta fala e algumas outras bem mais breves, Cardoso Pereira deu por encerrada a sessão, conduzindo o Prelado à sala de máquinas para que o referido cumprisse seu ofício religioso. Em seguida a diretoria recolheu-se a um cômodo especialmente preparado para o banquete. O chefe do bispado escusou-se, porém, alegando um precário estado de saúde, proibitivo de tais extravagâncias. Mas os diretores da Companhia não permitiriam a sua saída antes que o mesmo visse estourado o champagne, e assim foi feito, e distribuído em taças de cristal a todos os presentes, quando então, por fim, o representante católico pôde retirar-se.

  A mesa serviu a mais ou menos cem pessoas, que ouviram brindes à família maranhense e à beleza de suas jovens. John Gromwell exaltou a diretoria, relembrando as

  [...] virtudes que, despertando a emulação e o desejo de sobresahir, de individuo para individuo, crea as sociedades anonymas que são o derramamento do capital em emprezas de onde o proletario tira a subsistencia, a independencia, a nobresa e a liberdade (FÁBRICA SANTA

  IZABEL , 1893, p. 2 -3).

  A última homenagem foi para o engenheiro-chefe da Fabril, identificado apenas por seu primeiro nome, “Willian”, que provavelmente fosse também britânico e o responsável pelo assentamento do maquinário e das estruturas metálicas importadas. Nos dias seguintes se veriam as caldeiras trabalhando a máximo vapor e os operários frente aos teares.

  Não resta dúvida, portanto, que as formas de consagração mútua dos agentes que compõe o grupo dirigente em comento se transcorriam mesmo para além do âmbito da ACM. No entanto, o capital simbólico adquirido ao longo do tempo e a construção do

  “métier” de líder empresarial são tributários importantes para a ascensão no interior dessa instituição. O outro caso envolve o

  “empresário” e “jornalista” Temístocles Aranha, que foi editor de vários jornais da cidade, como “O Publicador Maranhense”, “A

  Imprensa ”, e o “Jornal do Commercio”. Realmente, Temístocles Aranha ainda possuía uma firma comercial de porte razoável, mas as menções à mesma são raríssimas.

  Muito mais abundantes são as que narram sua habilidade como periodista. Sob essa ótica, parece certo que um dos principais elementos objetivos a

  • – proporcionar sua inserção no grupo de altos empresários do comércio maranhense sem desconsiderar outros, decorrentes do rico capital de relações que e herdou e que edificou ao longo do tempo através de sua dedicação ao jornalismo, podendo acioná-los, e muito provavelmente o fazendo, para tanto
  • – incluindo seu ingresso na Associação Comercial do Maranhão, foi a edição do “O País”.

  A referida folha, muito circulada por mais de uma década, se propunha a divulgar artigos e notas sobre a economia maranhense, editando matérias sobre temas polêmicos na época, como o trabalho escravo, a modernização da lavoura e a tributação dos produtos locais.

  Além disso, havia o pertencimento a uma “linhagem de escritores” (e mesmo de políticos), ou, ao menos, de homens habilitados no domínio das letras cultas, cujo nome mais famoso seria o de seu filho, José Pereira da Graça Aranha, ou simplesmente Graça Aranha (1868-1931), autor da celebrada obra

  “Canaã” e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em 1897. Mas o estabelecimento dessa

  “estirpe de letrados” não coube a Temístocles. Um ascendente de sua esposa, José Cândido de Morais e Silva, editara um periódico intitulado

  “O Pharol Maranhense” durante o Primeiro Reinado. Graça Aranha, por sua vez, correlaciona sua carreira de escritor à do seu tio-avô. Na obra inacabada “O Meu Próprio Romance”, o criador da cadeira de Tobias Barreto na ABL descreve como se construiu o vínculo entre si e o seu antepassado, de forma explícita, enquanto marco fundante da própria carreira do escritor.

  Se este respeito à memória do Farol Maranhense era de toda a gente, na minha família a simpatia tornou-se culto. Fui criado nesse culto. Imaginava esse tio glorioso como o mais fascinante de todos os jovens. Nada me encantava como ouvir de meu pai as suas proezas, que eu exagerava, engrandecia nos meus sonhos acordados. Era o guia, o modelo de minha infância. Era o herói do meu sangue. Ainda hoje, em qualquer combate de idéias, em toda ação arriscada em que me empenho, sinto vir a mim, de muito longe, a sua imagem, que me fortalece a audácia e a tenacidade (ARANHA, 1996, p. 32).

  Assim, é possível se perceber que a profissão de “empresário” também poderia ser acessada por processos de reconversão a partir de outros segmentos, no entanto, sempre com o acionamento de recursos como os vínculos de reciprocidade e de parentesco.

  Referências das mais significativas sobre a origem social dos diretores da Associação Comercial do Maranhão estão vinculadas às características dos processos de educação aos quais foram sujeitos. Nesse ponto específico, é sobressalente a falta de informações, tanto mais se perquira no tempo, em especial para os períodos anteriores à segunda metade dos oitocentos. Isso se dá por vários motivos.

  Objetivamente, a manutenção em arquivo de registros escolares, no Estado, é de franca escassez ou mesmo inexiste em alguns casos. Mas não é só. Com efeito, a posse e exibição de títulos escolares não era

  • – ou mesmo nunca foi – um requisito protocolar de ingresso na instituição ora abordada.

  Além do mais, em pelo menos um depoimento oral (RESENDE, 2010), a vida de dedicação aos estudos seria quase que incompatível com a carreira de empresário, haja vista a grande demanda de tempo necessária para cada uma dessas atividades:

  “[...] em razão do trabalho, quase nenhum desses comerciantes se interessou por estudar ”. Conscientemente ou não, a busca pela instrução escolar, fosse básica ou empresariado local. Nesse caso, o diploma não se tornaria uma garantia segura de acesso, enquanto uma espécie de direito de entrada, jamais conseguindo, nessas circunstâncias, desempenhar ou ocupar as mesmas funções da família ou dos laços de parentesco (BOURDIEU, 2002).

  Mas é preciso considerar algumas variáveis significativas. Primeiramente, é necessário não esquecer que o domínio de fundamentos da linguagem escrita, e mais ainda, a posse de noções básicas de cálculo e sua consignação em papel (no caso de comerciantes), eram marcadores de diferenciação social importantes tanto em Portugal quanto no Maranhão, essa uma região na qual a quase totalidade de sua população desconhecia completamente tais coisas.

  Saber ler e escrever não obrigava a frequência a aulas em instituições de ensino. Eram relativamente comuns os casos em que parentes próximos que haviam se graduado como bacharéis ou se formado em seminários católicos instruíssem nas primeiras letras os jovens de sua família, ou mesmo vizinhos e até quem pagasse por tal serviço.

  Dessa forma, não se deve crer que os recursos de natureza educacional perpassariam obrigatoriamente pelas entidades oficiais de ensino ou pelo porte de um título por estas emitido. Poder-se-ia falar então da preponderância de um capital cultural

  “incorporado”, mas ainda não “institucionalizado” (BOURDIEU, 1998, p. 74 - 78), ao menos durante boa parte do século dezenove.

  Assim mesmo, verifica-se que um número considerável de diretores, especialmente no século seguinte, possuíam formação acadêmica. Com destaque, aqueles cujos ancestrais imediatos também já haviam concluído cursos superiores.

  É necessário não se perder de vista que durante o período cronológico definido para a presente pesquisa, qual seja a passagem do século dezenove ao vinte, houve de fato algumas transformações relativas às características dos marcadores de distinção social, em diferentes níveis e em diferentes instâncias, com maior ou menor grau de profundidade.

  Diz-se isso porque, no tocante às formas de capital cultural que se convertem em recurso para a configuração da liderança desse segmento da elite econômica, a partir das décadas de 1920 e 1930, com a consolidação e difusão de cursos superiores pelo país, inclusive na capital maranhense, há um gradual e tênue direcionamento de importância para o seu

  “[...] estado institucionalizado” (BOURDIEU, 1998, p. 78, grifo nosso). Por exemplo, João Sales de Oliveira Itapary, diretor da ACM na década de 1940, tinha como progenitor José Joaquim Seguins de Oliveira, o Barão de Itapary, que por sua vez recebera esse título de nobreza no ano de 1886, em razão de ter concedido alforria a toda sua vasta escravaria. Era formado em Direito pela faculdade de Olinda, nascido em 1858 e falecido em 1929

  O BARÃO DE ITAPARY Perdeu, ontem, a sociedade maranhense um dos seus elementos de mais notável destaque, o venerando senhor José Joaquim Seguins de Oliveira, Barão de Itapary. Nasceu ele nesta capital a 17 de junho de 1858, e foram seus pais o coronel José Antônio do Oliveira e D. Maria Isabel Seguins. O saudoso extinto, que militou na política do Estado, filiado ao Partido Conservador, sempre com muita altivez e nobreza de caráter, por ocasião da campanha abolicionista, teve um gesto humanitário e, sobretudo, digno dos mais francos encômios. Dois anos antes do 13 de maio, levado pelos impulsos de seu generoso coração, libertou para mais de 400 escravos que possuía, o que lhe valeu a Princesa Isabel conferir-lhe, por intermédio do Gabinete João Alfredo, o título de barão de Itapary. Era ele o último titular do Maranhão. Tendo contraído matrimônio com a Ex.ma. Sra. Hortência Salles de Oliveira, Baronesa de Itapary, houve desse consórcio os seguintes filhos: – o Sr. Aníbal de Oliveira Itapary, casado com a Ex.ma. Sra. d. Georgina Boabayd Itapary; Dr. João Salles Itapary, casado com a Ex.ma. Sra. d. Maria Martins Itapary; e as senhoritas Maria e Ema Itapary. Deixa ainda os seguintes netos: Apolinário e Aníbal, filhos do Sr. Aníbal Itapary; Hortência e Violeta, filhas do Dr. Joaquim Itapary; e Maria Hortência e Maria Alice, filhas do Dr. João Itapary. De há muito vinha o Barão de Itapary acometido de pertinaz enfermidade. Em busca dos recursos da ciência médica, empreendeu várias viagens ao sul do país, obtendo algumas melhoras. Agravou-se, nestes últimos tempos, o seu estado e, apesar do rigoroso tratamento que lhe foi prescrito, veio, ontem, a falecer às 9 horas. NA CÂMARA ARDENTE. Durante o dia e a noite de ontem, a casa de residência do Barão de Itapary, à Rua Rio Branco n° 2, esteve sempre cheia de pessoas amigas, que foram levar à família enlutada o conforto do seu carinho. Figuras de realce, políticos, magistrados, advogados, médicos, membros do alto comércio, enfim grande número de famílias de nossa sociedade velaram, durante o dia e a noite, o féretro onde repousavam os restos mortais do venerando morto (COUTINHO, 2005, p. 388).

  Não é pouco crível que a maioria deles houvesse de fato passado por algum tipo de processo educativo “institucional”, ainda que fosse apenas para a aprendizagem das primeiras letras e conhecimentos básicos. Verificou-se que, em números absolutos, a quantidade de diretores que frequentaram escolas é maior do que a dos que não o fizeram. Com efeito, são 18 contra 11.

  Para outros 120 não houve informação. Seriam então 62% e 38% respectivamente, considerando-se aqueles com dados disponíveis. Se inexistente a exigência estatutária de formação escolar para o ingresso nos quadros da Associação Comercial do Maranhão, mesmo que para os seus cargos de direção, ainda assim não se pode deixar de considerar que a sua posse detinha uma importância determinante (Tabela 2):

  

Tabela 2: Cargos de direção da ACM em relação ao número de diretores com e sem formação

escolar através de instituição de ensino

Formação/Cargo Com formação Sem formação

  Presidente

  3

  2 Vice-presidente

  6

  1 Primeiro secretário Segundo secretário

  3

  1 Tesoureiro

  1 Vogal

  6

  6 Total

  18

  11 Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1925-1940); Viveiros (1954)

  Na demonstração da Tabela 2, têm-se os cargos mais elevados alcançados pelos diretores da ACM, postos em comparação àqueles que possuem informações quanto à existência ou não de qualquer tipo de instrução escolar para si. Como anteriormente dito, o número absoluto de diretores sem instrução

  “oficial” é flagrantemente menor. Entretanto, a divisão por cargo ocupado proporciona uma análise mais minudenciada a esse respeito.

  Se a quantidade de presidentes é mais ou menos equivalente, e os vogais são em número idêntico, a diferença entre os vice-presidentes é bem definida. Notoriamente, não houve a mesma progressão de cargo entre os vogais sem instrução, se comparados aos com esse recurso. Os vice-presidentes executavam as tarefas diretamente vinculadas à gestão da entidade, e mesmo promoviam ativamente a intermediação com outras, posto que o cargo de presidente possuía um caráter de cunho honorífico, voltado à representação oficial, relativamente desligado desse tipo de atividade. No caso do cargo de vogal, verifica-se que este é, sem dúvida, o mais baixo na escala de poder no corpo administrativo da instituição. Por exemplo, os agentes nele investidos não podem representá-la frente a outras organizações, cabendo tão somente votar as resoluções propostas, ainda que pudessem se manifestar nas reuniões, com consignação resumida em ata de suas falas.

  Como indicado pela Tabela 2, e muito provavelmente o era concretamente, os agentes sem instrução escolar através de instituições de ensino ou cursos regulares a ocupar os cargos de vogal sofriam maiores bloqueios de ascensão dentro da ACM do que o contrário, o que bem demonstra seu peso valorativo. Assim, o avanço do cargo de vogal para os superiores era muito mais problemático para aqueles que se encontravam sob essa circunstância. Dessa forma, os agentes que possuem formação escolar

  “tradicional” não passaram, necessariamente, pela progressão de cargo, logrando de pronto o ingresso em posições de superioridade, notadamente a vice-presidência, ante-sala do cargo institucional mais elevado.

  Como anteriormente dito, a falta de um sistema escolar oficial para as primeiras letras, ou no mínimo sua incipiência, impunha a necessidade de instrução a partir de membros da própria família, ou de professores, até o século dezenove intitulados de

  “mestres”, que desempenhavam essa função apenas de forma secundária. Geralmente o faziam a título de complementação de renda, posto que a rigor desempenhavam primordialmente outras atividades, como o sacerdócio.

  A fundação do Liceu Maranhense na primeira metade dos oitocentos, e de outro razoável número de escolas públicas e privadas na seguinte, ainda que de vida efêmera, em especial para esse último tipo, específicas para moças e rapazes até a idade média de dezesseis anos, contribuiu para uma relativa diversificação educacional em São Luís, antes entregue quase totalmente aos colégios das ordens católicas.

  Contudo, inexistia na capital maranhense uma entidade dedicada à formação de pessoas que fossem atuar diretamente no comércio, ao menos até a criação do

  “Centro Caixeiral”. A institucionalização das profissões de “comerciante” e “auxiliar do comércio”, em especial após a edição das primeiras leis de regulação do trabalho e a crescente complexidade das transações econômico-financeiras verificadas no início do regime republicano, implicou no surgimento de diversas escolas de nível técnico nessa área, pelo país.

  Em um meio marcado por uma proposta de ensino sem muita aplicabilidade imediata, de acesso extremamente limitado e voltado para a aprendizagem de conhecimentos ditos

  “eruditos”, como latim e grego, essa associação de aprendizes mercadores se transformou rapidamente em um marco de referência para a educação profissional dos agentes que se engajavam nas atividades relacionadas ao comércio.

  O Centro não era uma instituição apenas para homens. Mulheres também se formaram através dele, mas, principalmente, para exercerem um labor estritamente técnico, e alheio ao comando das empresas. Isso é corroborado pelo fato de não se ter encontrado nomes femininos em qualquer lista de diretores de unidades fabris ou casas comerciais durante a época me que se centrou a pesquisa. Também as mulheres restaram excluídas das diretorias da ACM no mesmo período. Contudo, poderiam ainda atuar no exercício do magistério, na área de suas graduações. Um dos cursos disponíveis para esse público era o de datilografia, pelo qual se formou Marieta de Oliveira Serrão (Figura 5):

  Figura 5: Formanda em datilografia, Marieta de Oliveira Serrão Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1926)

  Contudo, os indivíduos do sexo masculino formados no Centro Caixeiral eram apresentados como possuidores de conhecimento técnico especializado, aptos a exercerem cargos de direção nos empreendimentos econômicos onde já laboravam, ou naqueles onde houvesse demanda por esse tipo de trabalhador. Apesar de seu caráter subsidiário, dado que se trata de uma sociedade que não tem a profissão como medida de hierarquização (CORADINI, 1997), o capital simbólico

  de reconhecimento

  • – obviamente sem desconsiderar os laços de parentesco e apadrinhamento
  • –, dos egressos dessa escola entre o empresariado era claro. Por exemplo, muitos contadores recém-formados na citada escola eram recebidos e se tornaram gestores de grandes casas de comércio e indústrias, depois figurando entre os diretores da ACM.
  • – Raimundo Tribuzi, substituído por José Ribeiro do Amaral [um

  Sua organização se deu logo nos primeiros meses do regime republicano, com a fundação se realizando no dia 22 de janeiro de 1890. Antes dele, havia a possibilidade de instrução específica para o comércio apenas fora da Província, com uns poucos se dirigindo para a Europa com esse fim. Inicialmente, a partir de março de 1891, o Centro oferecia um curso composto das seguintes cadeiras, com seus respectivos professores

  Português

  dos fundadores da Academia Maranhense de Letras

  • – grifo nosso];
  • >– Dr. Álvares Pereira; Geografia – Dr. Justo Jansen Ferreira; Inglês
  • – Dr. Nestor Rosa; Aritmé
  • – Major Arthur E. Pereira; Escrituração
  • – Antônio J. de Almeida;

    Direito Comercial – Dr. Manuel Jansen Ferreira [advogado, comerciante e diretor da ACM] (VIVEIROS, 1964, p. 126, grifo nosso).
  • – rudimentos de Português, Aritmética, Geografia, Geometria, História do Brasil, Ciências Físicas e Naturais e Caligrafia. Curso Profissional – está dividido em 5 anos, compreendendo as seguintes matérias: Português, Francês, Inglês, Alemão, Italiano, Geografia, Cosmografia, Corografia, Aritmética, Álgebra, História Universal e do Brasil, Escrituração Mercantil, Contabilidade, Direito Comercial e Economia Política (VIVEIROS, 1964, p. 130 - 131).

  Francês

  O projeto do Centro Caixeiral evoluiu para a instalação do “Curso Superior do Comércio

  ”, na segunda década do Século XX, conforme as disposições legais decorrentes do Decreto Federal nº 3.582, de 25 de novembro de 1918, e fiscalização da União. Segundo Viveiros (1964, p. 130 - 131),

  “[...] lá houve uma sociedade de Tiro de Guerra para a instrução militar de seus sócios [...]

  ”. Em 1925 mantinha uma “Escola do Comércio”, que oferecia “[...] o curso preparatório e curso teórico-prático, profissional [...]

  .”. Os cursos possuíam as seguintes disciplinas:

  Curso preparatório

  O Centro tem em seu nome uma antiga denominação dirigida para os aprendizes da profissão de comerciante. O caixeiro cuidava originalmente da mensuração e registro dos produtos entrados e saídos da casa comercial onde laborava, preenchendo os livros contábeis e rubricando nas caixas que transportavam os bens, a propriedade dos mesmos e certas especificações como peso e número.

  Além disso, coordenava uma série de outras tarefas acessórias, como organização e exposição dos objetos negociados, limpeza da loja e atendimento de balcão. Campos (2009, p. 261) declina, a partir de sua experiência pessoal, como um caixeiro se identificava com seu trabalho, inclusive pela posição social por ele ocupada dentro do grupo:

  Os homens que nunca viveram no comércio não podem compreender, absolutamente, a mentalidade comercial. O comércio antigo constituía, sob o ponto de vista social, um mundo à parte, com a sua aristocracia e a sua moral, e um padrão especial para julgamento das virtudes e dos defeitos. O empregado de uma firma identificava-se de tal maneira com ela, que participava do orgulho dos chefes, no seio da classe. O auxiliar de uma grande casa exportadora ou importadora sentia tamanha vaidade da sua condição, que, despedido, não aceitava emprego senão em estabelecimento do mesmo gênero, e de equivalente prestígio na praça. Por isso mesmo, cada um procurava manter-se no lugar conquistado, sofrendo, embora, dos chefes, as mais terríveis humilhações. O patrão era quase um pai. E era preferível o castigo sofrido em família, ao desdém lá fora, diante dos companheiros. O empregado no comércio era, em suma, como essas senhoras que, no lar, apanham do marido, mas nos passeios perante a sociedade, sentem profundo e secreto orgulho de serem portadoras do seu nome. E eu, caixeiro de Dias de Matos & Cia., mercearia modesta, mas honrada, era animado pela mentalidade de minha classe. De passagem pela Praça Gonçalves Dias, rodeada de palmeiras, nunca levantei os olhos para contemplar o poeta, lá em cima. Nunca, porém, deixei de olhar uma casa de secos e molhados que havia quase à esquina, para, examinando-lhe o sortimento, e o letreiro das tabuletas, e a arrumação das mercadorias, estabelecer, com íntimo desvanecimento, confronto com as pilhas de latas de leite, de azeitonas, de marmelada, de ervilhas, de paio, de banha de porco, e com os caracteres góticos, feitos por mim, com alvaiade diluído, nas louças de madeira da Casa Trasmontana. Os grandes e opulentos príncipes italianos da Renascença tratavam com desdém um duque de Módena. E os vendeiros do Maranhão não eram mais, no meu julgamento, do que insignificantes duques de Módena, a que eu, caixeiro de confiança de Dias Matos & Cia., olhava superiormente, como um valido, prestigioso homem da corte, do doge de Veneza ou de Gênova.

  Humberto de Campos Veras (1886-1934), ou simplesmente “Humberto de

  Campos ”, é um dos principais escritores maranhenses, e alcançou reconhecimento nacional, tendo publicado inúmeras obras sobre os mais variados temas,

  • – destacando-se no gênero das crônicas. Nasceu na antiga povoação de Miritiba que hoje é um município rebatizado com o nome de seu ilustre filho
  • – no litoral leste do Estado.

  O pai faleceu quando o futuro cronista tinha pouco mais de sete anos. As condições financeiras da família permitiram que fosse enviado a trabalhar em São Luís como caixeiro da firma de um tio, mas os parcos recursos não lhe deixaram ingressar em escola. Isso não o impediu de aprender as primeiras letras, ainda que tardiamente.

  Incentivado por seus próprios parentes da capital, desenvolveu a escrita e o raciocínio lógico, de aplicação corrente no comércio. Era presenteado com livros didáticos e obras clássicas, o que lhe fomentou o gosto pela leitura, e a sua boa redação, a escrever e ter publicados nos jornais da cidade seus contos e poemas. Aos dezessete anos se muda para Belém, onde labora como jornalista. A partir de então, a carreira literária de Humberto de Campos apenas progride, sendo eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1920.

  Episódio dos mais interessantes é que, mesmo após sua morte em meados da década de trinta, diversos novos textos começam a aparecer sob a sua identificação, mas redigidos por Francisco Cândido Xavier, ou simplesmente

  “Chico Xavier

  ”, um dos principais difusores do espiritismo no Brasil. Quando “Chico Xavier” desenvolve sua “mediunidade” pelo final da adolescência, Humberto de Campos não só já era um escritor de larga aceitação por todo o país como também deputado federal por seu Estado, sendo reeleito inúmeras vezes até perder o mandato com a Revolução de 1930. Nem por isso deixou a administração pública, pois foi nomeado por Getúlio Vargas como diretor da Fundação Casa Ruy Barbosa.

  Mas a descrição feita pelo emérito escritor quanto aos idos de caixeiro no Maranhão, merece algumas observações. A primeira toca à temporalidade, vez que esta pesquisa se debruça justamente sobre a época em que Humberto de Campos se ocupava da organização de mercadorias nas estantes da “Casa Transmontana”. Em seguida, por ser o caso de um agente que não estará inserido no grupo dirigente de empresários, mas que dispõe e se vale de recursos semelhantes aos utilizados naquele, como o ingresso na atividade a partir dos laços de parentesco. Outra observação pertinente é quanto às duas reconversões operadas com muito sucesso, de início saindo do comércio e investindo na via literária e depois de consolidado nesta, para a política.

  A principal nota, todavia, se refere ao fato de que um empregado do comércio não se identificava, ao menos nesse caso, como pertencente a uma “classe explorada” por uns poucos e violentos indivíduos, os patrões. O corte realizado, talvez despropositadamente, na unidimensionalidade de um mundo social que tem sido apresentado como construído de forma exclusiva sobre a égide da produção econômica, em tese estruturado na divisão entre dois blocos fixos e antagonistas, os “explorados” e “exploradores”, revela as lutas constantemente travadas conforme os condicionantes em jogo e toda uma série de outras dimensões simbólicas de grande importância.

  Dentre essas está a identificação pessoal frente a indivíduos em escala superior de poder, associados e aproximados à própria lógica de organização familiar, como o patrão, que era quase como um

  “pai” ou um “marido”. De igual forma a criação e fluência na leitura e difusão de códigos de diferenciação social próprios, como o pertencimento a um determinado tipo de casa comercial prestigiosa e o desprezo por outras tidas por inferiores. Nesse ponto, o processo de sua socialização no interior do segmento partia de uma autocompreensão enquanto ocupante de uma posição hierárquica superior em relação a outros caixeiros que atuavam em estabelecimentos de menor porte. Também é clara a desconsideração, ou não compreensão, de elementos representativos e comuns a outros espaços.

  Por mais de uma vez, enquanto caixeiro, Humberto de Campos demonstrou seu menoscabo por alguns próceres da erudição maranhense, ignorando cotidianamente, por exemplo, a estátua do autor da

  “Canção do Exílio”, ainda que fronteira ao seu local de afazeres e um símbolo fundamental no século dezenove para a elite literata da terra. Da mesma maneira, pouco lhe significava o poeta e cliente da

  “Casa Transmontana”, Joaquim de Sousa Andrade (1833-1902), o auto-rebatizado como “Sousândrade”, intendente municipal de São Luís logo após o advento da República, do qual sequer tinha lido uma linha que fosse de suas odes, mas que sempre por lá estava, meio taciturno, a comprar fósforos e pães fiados, pagando-os com dinheiro miúdo.

  Frente a tudo isso, o “Centro Caixeiral” nasceu como uma associação de empregados do comércio, nos moldes das

  “sociedades de auxílio mútuo”, que se assemelhavam em seus propósitos aos das antigas irmandades religiosas. Objetivava, assim, promover a instrução de seus membros, subsidiá-los quando se encontrassem em dificuldades financeiras e defender determinadas causas do grupo. Rezavam seus estatutos, Viveiros (1964, p. 120):

  1º - A união da classe caixeiral em todas as exigências sociológicas; 2º - Auxiliar moralmente seus associados; 3º - Socorrê-los pecuniariamente; 4º - Difundir a instrução entre eles, criando para esse fim cursos gratuitos. [...] a) Promover por todos os meios ao seu alcance, colocação para os sócios desempregados; b) Socorrê-los quando desempregados ou atacados por moléstia grave que o impossibilite de trabalhar; c) Conceder-lhes uma pensão de 20$000 mensal, quando inutilizados para o serviço; d) Arbitra-lhes uma mesada de 30$000 enquanto estiverem presos;

  e) Envidar sua soltura por todos os meios lícitos;

  f) Dar-lhes passagem de 2ª classe, no caso de ficarem sem emprego, para procurá-lo em outra parte, e também 50$000 para as primeiras despesas; g) No caso de morte, beneficiar sua família com 100$000.

  Os requisitos solicitados para ingresso no Centro Caixeiral exigiam que o candidato fosse empregado no comércio, gozasse de boa saúde e fosse maior de doze anos. Com inicialmente com 181 sócios, era administrado por uma

  “Diretoria” composta de três cargos efetivos e igual número de suplentes, uma “Assembléia

  Geral ” que contava com um presidente, vice-presidente, primeiro e segundo secretários, além de uma

  “Comissão Fiscal”, também com três ocupantes. Na lista de treze dirigentes em exercício após sua criação, encontra-se o nome do português João Alves dos Santos, ocupando a cadeira de suplente de diretor em 1890. Poucos anos mais tarde, exerceria a presidência da ACM por aproximadamente dez anos. Tendo imigrado para o Maranhão ainda muito jovem, conforme muitos outros conterrâneos seus o fizeram, engajou-se na casa comercial de parentes já firmados na atividade.

  Acumulou grande fortuna, sendo seu próprio estabelecimento um dos maiores da cidade. O capital financeiro reunido era farto o suficiente para investir com peso na construção de têxteis em São Luís. Tendo participado da sociedade “Companhia de Fiação e Tecidos de Cânhamo” ao lado de outros comerciantes portugueses como Manuel Mathias das Neves, seu principal feito no ramo industrial foi a edificação da maior fábrica de tecidos do Estado, a

  “Santa Izabel”, de propriedade da “Companhia Fabril Maranhense”, da qual também era sócio Cândido José Ribeiro.

  As relações deste último com o alto comércio de origem lusitana sempre foi de marcada proximidade, o que pode ser verificado através das menções elogiosas proferidas na festa organizada em maio de 1892 para comemorar seu retorno à direção da Companhia.

  A participação nesse evento de indivíduos engajados em outras esferas de poder e inclusos em suas próprias elites, como a literária, representada por Antônio Baptista Barbosa de Godóis (1860-1923) e a política, por Tarquínio Lopes, bem demonstra a fácil comunicação entre os diversos grupos dirigentes, com um intercâmbio de legitimação e congraçamento mútuos.

  Com efeito, Chrispim e Joaquim eram filhos de João Alves dos Santos. O primeiro chegou a ocupar a vice-presidência da ACM em 1889, já o segundo não participou dos quadros executivos da mesma instituição, e sequer talvez tenha figurado como um de seus membros, ainda que tivesse participação ativa na condução da fábrica Santa Izabel e possuísse formação em

  “técnicas têxteis”, obtida na Grã-Bretanha. Mas João Alves dos Santos, ao contrário da maioria dos demais sócios, já era comerciante e industrial de renomada quando figurou entre os diretores do

  Centro Caixeiral. Muitos outros apenas estavam iniciando suas carreiras. Por exemplo, Euclides Pereira de Sousa, segundo secretário do Centro Caixeiral no mesmo mandato em que João Alves fora suplente, havia nascido em Codó, a 11 de janeiro de 1866. Contava então com 24 anos quando sobreveio o falecimento do pai em Alcântara, deixando uma viúva e filhos menores, Euclides teve que assumir o papel de chefe da família, ao passo que mudava de ocupação.

  Assignei o termo de tutoria dos meus irmãos em 17 do mesmo mês, do cartório do escrivão Rocha Pereira [...]. Deixei de ser empregado dos Drs. Graça e Cª, successores da extincta firma Graça & Carvalho, em 30 de setembro, entrando no seguinte dia 1º de outubro do mesmo anno de 87 na Compª de Seguros Maranhense (SOUZA, 1900, não paginado).

  Depois de longos anos de dedicação à “Companhia de Seguros

  Maranhense ”, que inclusive prestava seus serviços às companhias fabris, arcando com as despesas decorrentes de acidentes de trabalho muito comuns em suas instalações, Euclides se tornará sócio proprietário da firma mercantil de Manuel Mathias das Neves. Ela passou a se denominar

  “Neves, Souza & Cia.”, que era proprietária da “Casa Americana”, grande loja de artigos de luxo localizada à Rua do Sol, número 03.

  A sociedade nesse, como em diversos outros casos, não é meramente empresarial, mas essencialmente familiar. A primeira filha de Euclides, sua segunda descendência, Celeste Souza, casou-se com Manuel Mathias das Neves Filho, que de perto auxiliava o pai nos negócios, juntamente com o irmão Almir Pinheiro Neves. Com o falecimento de Manuel Mathias das Neves em 1925, passa a ele ser o principal condutor dos negócios do grupo, tornando-se presidente da Associação Comercial do Maranhão em 1939.

  Sobre casos semelhantes a esse, existe menção a uma espécie de “capitalismo de herdeiros” (OFFERLÉ, 2009, p. 10, tradução nossa), construído a partir da transmissão econômica e cultural, fundado em três recursos essenciais para o acesso às posições de direção: o

  “capital econômico”, criado, desenvolvido ou herdado, o “capital estatal”, referente ao exercício de funções estatais, como serviços administrativos, técnicos e políticos, e por último o

  “capital de carreira”, derivado da ascensão na mesma empresa ou do acúmulo de diplomas. Dentre os 181 sócios iniciais do Centro Caixeiral, alguns foram também diretores da ACM, como Eduardo Melo, vogal, Emílio José Lisboa, presidente,

  Albano Mendes da Silva, vogal, Serafim Teixeira Júnior, vogal e tesoureiro, e José Francisco Jorge (Figura 6), segundo secretário e tesoureiro. Além desses, várias famílias possuíam membros em uma e outra instituição, como os Jansen, Tavares e Tribuzi. Viveiros (1954, p. 123) faz um paralelo entre as duas instituições, Centro Caixeiral e Associação Comercial do Maranhão, enfatizando que essa era uma

  “[...] sociedade formada com elementos

  • – os patrões – de muito mais recursos [...]”.

  Figura 6: José Francisco Jorge

Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1935) Nesse sentido, o Centro seria o lugar de congregação de alguns de seus trabalhadores. Entretanto, não há como negar que a presença de agentes já profissionalmente estabelecidos, ocupando cadeiras de suplência enquanto os titulares são os jovens caixeiros

  • – ainda que não fossem diretamente seus funcionários
  • – traz a marca de um forte caráter de apadrinhamento dos primeiros pelos últimos, no mínimo uma extensão do que ocorria entre as grossas arcadas dos baixos de sobrado que hospedavam os balcões de comércio. Informa Viveiros (1964, p. 130), que ocorreram

  “[...] duas cisões, abertas nas suas diretorias e entre os sócios [.. .]” que redundaram na criação de outras duas outras instituições de fins semelhantes, a

  “Academia do Comércio do Maranhão” e “Associação dos Empregados do Comércio do Maranhão ”.

  É de se constatar que, em muitas situações, as relações estabelecidas entre patrões e caixeiros podem ser compreendidas também enquanto vínculos clientelistas, onde se estabelece um sistema particular de trocas, que por sua vez pode ser definido da seguinte forma:

  Uma aliança patrão-cliente é uma aliança diádica vertical, isto é, uma aliança entre duas pessoas de status, poder ou recursos desiguais que acham útil ter como aliado alguém superior ou inferior a si mesmo. O membro superior de tal aliança é chamado de patrão e o membro inferior, de cliente. [...] Nas relações patrão-cliente, os benefícios trocados entre os patrões e os clientes quase sempre são de tipos diferentes porque a utilidade do patrão para o cliente, e vice-versa, não provém tanto do fato de que suas necessidades ocorrem em épocas diferentes, mas no fato de que cada um, quase em qualquer época, pode prover o outro com benefícios que o ultimo nunca poderia obter por si mesmo, ou poderia obtê-los sozinho em raras ocasiões. Essa diferença qualitativa nos benefícios trocados se aplica tanto a troca de favores simbólicos e substantivos, como à certeza mútua de

ajuda em caso de necessidade (LANDÉ, 1977, p. 20).

  Dessa maneira, os agentes se diferenciam e se sobrepõem entre si, justificando as posições ocupadas, sempre a partir das origens e colocações sociais que proporcionam a comunicação com o poder. Assim,

  “[...] as relações com o campo educacional pautam-se, aqui, por um uso instrumental de seus produtos, mais do que pela inserção em sua racionalidade e ethos próprios. [..

  .]” (CORADINI, 1998, p. 428). Segundo os dados obtidos de todos os diretores da Associação Comercial do Maranhão com notícias disponíveis, a maior parte possuía formação acadêmica, ou seja, concluíram cátedras superiores, ou equivalentes. Conforme já indicado na Tabela 2, são 18 diretores que haviam terminado cursos oferecidos em instituições de ensino básico ou médio. Desses, 16 se tornaram graduados em nível superior, contra outros 11 que não haviam freqüentado escolas, ao menos as oficiais. A diferença entre eles, qual seja, os com formação escolar não acadêmica, e os portadores de titulação de ensino superior, é resolvida por 2 que se matricularam em universidades, mas, por impedimentos supervenientes, não puderam concluí-las e ainda outros 2 que acumularam mais de uma titulação.

  Para a primeira ocorrência, tem-se Arnaldo Júlio Corrêa, que estudou direito em Coimbra, porém, antes de sua conclusão, teve que retornar ao Maranhão a fim de assumir a chefia do empreendimento comercial que a família mantinha em São Luís. Por seu turno, Temístocles Aranha, em 1853, ingressou no curso de engenharia, na Corte Imperial do Rio de Janeiro, precisamente na

  “Escola Central”, onde foi colega de classe de André Rebouças (1838-1898), futuramente um dos principais engenheiros do país, desenvolvendo inclusive um projeto de desobstrução do porto de São Luís.

  Contudo, quatro anos depois, Temístocles não defendeu os trabalhos finais, do mesmo modo voltando para a capital maranhense, e por razões semelhantes às de Arnaldo Júlio. Para a segunda, Eduardo Aboud, que matriculado no

  “Curso Comercial” do Centro Caixeiral, o qual frequentava pela manhã, terminou se formando como “Guarda-Livros”, função que modernamente seria análoga à de Contador.

  No ano de 1937, já um dos maiores comerciantes da capital maranhense, ocupando o cargo de Primeiro Secretário da ACM, se gradua como bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Maranhão, com inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil, seccional local, de número 111. Não advogou, porém, dedicando-se quase exclusivamente à atividade empresarial. Igual a si é Arnaldo de Jesus Ferreira, também bacharel em Direito e Contador, que será presidente da Associação Comercial do Maranhão em período posterior ao avençado para a pesquisa.

  Existe uma predominância de cursos da área de contabilidade, provavelmente em virtude da aplicabilidade imediata no exercício comercial quando ainda não gozavam da consagração profissional. Na ordem numérica, são 8 contadores, 3 juristas, 2 técnicos comerciais ou industriais, 2 militares e 1 farmacêutico. É pertinente verificar-se como de deu a ocupação de cargos de direção da ACM conforme a formação acadêmica. Isso é indicado na Tabela 3. 6 Tabela 3: Cargos mais elevados ocupados da direção da ACM conforme a titulação acadêmica

Titulação Técnico Jurista Acadêmica/Cargo Contabilista Comercial/Industrial Militar Farmacêutico

  2

  1

  1

- - Presidente

Vice-Presidente 1 -

  1

  4

  1

  • Primeiro-Secretário
  • Segundo-

  1 -

  • Secretário

  1

  • Tesoureiro

  2

  • Vogal

  1 Total

  8

  2

  2

  1

  3 Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1925-1940); Viveiros (1954)

  A grande quantidade de títulos na área das ciências contábeis parece ser um indicativo de legitimação do agente enquanto profissional especialista, ou seja, apto a liderar a classe, no caso, de empresários. Não por coincidência, o número de presidentes e vice-presidentes com essa característica é maior que o de todas as outras profissões para os mesmos cargos, somados. Uma titulação nesse ramo do conhecimento remontaria ao interesse ideal apresentado, tanto do grupo dirigente, quanto daqueles por eles dirigidos: homens dedicados exclusivamente à obtenção de situações objetivamente favoráveis não só para seus próprios empreendimentos, mas principalmente para a instituição administrada e, em certas ocasiões, para outras vinculadas a instâncias de poder específicas.

  A obtenção de diferentes tipos de formações acadêmicas, em especial as de notório reconhecimento, redunda também na dedicação, ainda que meramente acessória, a atividades não propriamente empresariais, como a de professor em 6 cursos do Centro Caixeiral, Faculdade de Direito, Filosofia ou História, e mesmo no

  

Consignou-se o caso dos que possuem dupla titulação acadêmica da seguinte forma: Eduardo

Aboud foi inscrito como contabilista por não ter exercido a advocacia como profissão efetiva, ao

contrário da empresarial, assim como Arnaldo de Jesus Ferreira, pois, a rigor, os mesmos não são “juristas”. ensino secundário, é tributária da formação de uma personalidade de múltiplas relações e conhecimento, apropriada à liderança.

  A presença de militares é pouco significante, sendo apenas dois diretores a integrar as forças armadas, especificamente, o Exército. Mesmo assim, ambos possuíam patentes elevadas e pertenciam ao grupo dirigente de sua corporação. Mais que isso, tinham fortes vínculos com a política local, aumentados durante o início do período republicano, com a ascensão dos governos militares que se seguiram em substituição ao Segundo Reinado. Um detalhe importante que poderia desvirtuar a análise, sob este ponto específico, está vinculado às patentes da Guarda Nacional, genericamente simplificadas na de

  “Coronel”, concedidas em maior quantidade aos diretores que tem origem social relacionada ao meio rural escravocrata. A se levar em conta esses títulos, o número de “militares” subiria a 8.

  Contudo, não é esse um dado válido para a análise neste momento desenvolvida. Por um lado porque a mencionada corporação tinha o caráter de uma força civil desmobilizada, e por outro, também por não configurar uma carreira profissional, em vista das condições sociais absolutamente divergentes, onde se verifica que os portadores de distintivos da mencionada corporação, não passaram por qualquer academia de instrução bélica.

  Apesar da ocupação dos cargos na Associação Comercial por militares não poder ser associada diretamente à conjuntura política republicana de nível nacional

  • – o primeiro, Francisco Xavier de Carvalho, foi diretor em 1881, e o segundo, Manoel Ignácio Dias Vieira, entre 1897 e 1901, já durante o governo civil do presidente Prudente de Morais (1841-1902)
  • – os membros das forças armadas passaram a usufruir de crescente prestígio político após a campanha brasileira na Guerra do Paraguai. Interessante é se notar que as suas origens sociais e trajetórias profissionais não são similares àquelas apresentadas como as ordinárias para os empresários do comércio. Provinham de abastadas famílias e grupos associados ao patriarcalismo rural escravocrata.

  Francisco Xavier de Carvalho exerceu apenas um mandato de segundo- secretário da Associação Comercial, durante a Monarquia, não constituindo carreira nessa instituição. Contudo, portando nos pulsos galões de Tenente-Coronel, foi indicado para compor a Junta Provisória instalada em 18 de novembro de 1889, que tomou posse do governo da Província agora transformada em Estado do Maranhão. O responsável pela indicação foi José Francisco de Viveiros, um dos líderes do Partido Conservador maranhense, proprietário do engenho Tramaúba, em Penalva, e filho do Barão de São Bento.

  José Francisco de Viveiros graduou-se na universidade de Direito de Recife, em 1862, advogado e deputado provincial por várias legislaturas, e uma na Assembléia Geral, na Corte. Ele próprio foi um dos componentes da primeira junta provisória republicana, passando em seguida para o cargo de conselheiro da Intendência (antiga nomenclatura da Prefeitura) de São Luís, ao lado de Joaquim de Sousa Andrade, o “Sousândrade”.

  Seu pai, o Barão de São Bento, tinha por graça o nome de Francisco Mariano de Viveiros Sobrinho (Figura 7). Nasceu e morreu na mesma cidade de Alcântara, a 12/01/1819 e 10/01/1860. Era filho de um dos mais ricos lavradores maranhenses do início do século dezenove, Jerônimo José de Viveiros, senador do Império. O Barão de São Bento estudou Direito em Coimbra, graduando-se em 1839 (COUTINHO, 2005, p. 314).

  Figura 7: Francisco Mariano de Viveiros Sobrinho Fonte: Viveiros (1954)

  Como muitos outros descendentes da aristocracia rural brasileira, retornou não para exercer a profissão na qual se titulou, mas para administrar os negócios da família. É no esteio de linhagens como essa que Francisco Xavier de Carvalho e outros, encontram o apoio necessário para suas carreiras políticas. Sobre esse tipo de relação caracterizada pela vinculação familiar, em situações de não parentesco, é tanto mais lucrativa quanto os regulamentos oficiais são frágeis ou a busca por sua eficácia gere dispêndios elevados

  A vantagem mais óbvia desse tipo de relação apareceria, portanto, em situações em que a lei pública não pudesse garantir proteção adequada contra rupturas de contratos com não-parentes. Isso pode ocorrer quando a lei pública é fraca ou onde não existem padrões culturais de cooperação

entre não-parentes que orientam a relação requerida.

[...] Finalmente, cooperar é útil aos parentes onde o acesso à lei acarrete custos e complicações de tal ordem que deixariam os parceiros em disputa deprivados economicamente ou de qualquer outra forma, após a resolução da disputa (WOLF; FELDMAN-BIANCO; RIBEIRO, 2003, p. 102).

  Outro egresso da ordem rural escravocrata que alcançou a presidência da Associação Comercial do Maranhão por cinco mandatos consecutivos e sem ocupar qualquer outra posição anterior a essa, dentro de tal instituição, é Manoel Ignácio Dias Vieira, entre os anos de 1897 e 1901.

  É pertinente se evidenciar que o Tenente-Coronel Francisco Xavier e o Coronel Manoel Ignácio não compartilhavam apenas as mesmas fileiras do braço armado. Outro membro da família Dias Vieira, Casimiro Dias Vieira Júnior (1853- 1897), ou simplesmente

  “Casimiro Júnior”, como ficou conhecido, e que depois emprestaria seu nome à principal avenida do atual bairro do Anil, promotor público, deputado provincial e constituinte, foi nomeado Chefe de Polícia da junta governativa republicana, ou seja, laborou ao lado do Coronel Francisco Xavier de Carvalho.

  A chefatura de polícia não era um cargo menor a esse tempo. Ao contrário, para o delegado chefe estava destinada uma importante missão: perseguir os defensores do regime decaído e, sob essa justificativa, anular rápida e objetivamente toda e qualquer oposição ao novo governo e seus representantes “Casimiro Júnior, Chefe de Polícia, promoveu verdadeira caçada aos „inimigos do regime

  ‟, submetendo-os a pranchadas e palmatoadas, mandando raspar-lhes as cabeças ” (LIMA, 2010, p. 34).

  Um parente muito próximo lhe havia nomeado para a função: o primo e então governador, militar da Armada, Manoel Ignácio Belfort Vieira (1854-1913). Todos esses, incluindo o Coronel Manoel Ignácio Dias Vieira, que tomou posse do cargo no mesmo ano do falecimento do delegado Casimiro Júnior, eram descendentes de uma das mais antigas famílias maranhenses, que se instalou no entorno da Baía de Cumã, posterior à cidade de Alcântara, no litoral oeste do antigo Estado, na segunda metade do século dezoito.

  Os trabalhos de Manoel Ignácio Dias Vieira como empresário não foram de grande projeção. O único empreendimento de vulto do qual participou foi a “Companhia de Fiação e Tecidos São Luís”, proprietária da fábrica homônima, localizada no bairro da Madre-Deus, bem ao lado da Cânhamo. Sob sua administração, a sociedade anônima concluiu a edificação da têxtil, mas não conseguiu colocá-la em funcionamento, restando mesmo material importado retido na alfândega por falta de pagamento das taxas de liberação.

  Companhia de Fiação e Tecelagem São Luiz

  • Venda da Fabrica - A commissão abaixo assignada recebe proposta em carta fechada para a venda da fabrica de fiação e tecidos de algodão de propriedade da Companhia, sita à rua de S. Pantaleão desta cidade. Esta fabrica construída na quinta BOA HORA, local salubre, terrenos de grandes dimensões e abundante d ‟agua dispondo de 6 poços, offerece fácil transporte por terra e por mar, recommendando-se pelo seu material todo novo e bem conservado e está apercebida de 55 teares e machinismo de fiação para trabalhar com mais 30 teares produsindo mensalmente de 26 a 28.000 metros de tecidos de diversas larguras, podendo trabalhar em acto continuo a venda, visto ter grande quantidade de fio em diversos grãos de laboração em todo machinismo. N ‟Alfandega ainda se achão alguns aparelhos de fiação e teares sujeitos a despacho que também fazem parte da fabrica. Os immoveis, machinismo e fio estão a Companhia pelo valor de rs.

  474:000$000. As propostas serão apresentadas até o dia 30 de julho vindouro e ficarão dependendo de approvação da Assembléa Geral dos accionistas que será previamente convocada. Maranhão, 23 de Abril de 1897.

  Manoel Ignácio Dias Vieira.

  Acrisio Tavares. Salustiano Faria (COMPANHIA DE FIAđấO E TECELAGEM, 1897, p. 4, grifo nosso).

  Exerceu ainda a tesouraria da “Companhia Usina Castelo”, beneficiadora de arroz de porte mediano, localizada na periferia de São Luís, e foi sócio- proprietário de outro empreendimento semelhante, de menor escala, sediado em Guimarães, a

  “Usina João Antônio”. Encerrou sua carreira política integrando a sétima legislatura do Congresso Estadual, entre 1910 e 1912, vindo a falecer três anos depois.

  Como salta aos olhos, seu ingresso e permanência no cargo mais elevado da Associação Comercial do Maranhão não se deu a partir da carreira de empresário. Os feitos pessoais nesse sentido são absolutamente limitados. Chega mesmo a ser difícil classificá-lo nas categorias de “comerciante” ou “industrial”, e nem as fontes pesquisadas o fazem. Frente a tais circunstâncias, é impossível se ocultar a constatação de que os mecanismos de reprodução das estruturas de poder lastreadas essencialmente nas relações diretas de parentesco, e outras derivadas dessa mesma lógica, não somente contribuem para a hierarquização das posições de comando na ACM, como também são as bases primordiais de sua própria existência.

  No que se refere especificamente às profissões empresariais, verifica-se que, no período pré-abolição, com a pouquíssima diversidade econômica da Província, quase a totalidade dos diretores da Associação Comercial eram apenas negociantes de produtos industrializados importados, ao mesmo tempo em que remetiam bens in natura ao mercado exterior. Cuidavam pessoalmente dos negócios, francamente de caráter familiar, e isso demandava inclinação quase exclusiva à atividade, o que talvez explique a maior circularidade de diretores da ACM durante o Império. Uma grande casa comercial mantinha uma vasta rede de agentes, que negociavam em diversas vilas do interior ou mesmo para além das fronteiras maranhenses. As entradas e saídas de bens, postos sempre no atacado, importavam em um controle ostensivo e rigoroso do proprietário do estabelecimento, sob pena de, não o fazendo, ver surgir um balanço negativo ao final do mês.

  A maior liberação de tempo do comerciante, e a conseqüente possibilidade de aumento nos investimentos em outras posições de poder, geralmente ocorria quando o filho mais velho, retornando dos estudos realizados fora do Maranhão, poderia receber o encargo e suas funções. Com a criação das sociedades anônimas para a concretização dos projetos de edificação de fábricas têxteis, sendo essas a partir de então o eixo principal de movimentação da economia maranhense, nos anos imediatamente antecedentes e posteriores ao fim do regime de trabalho escravo, se tornou viável a vários empresários se desligarem do cuidado cotidiano com esse tipo de empreendimento.

  Isso porque haviam “comissões” de gerenciamento eleitas por assembléia geral de acionistas para o exercício de fiscalização das complexas tarefas do núcleo fabril. Essas subdiretorias, comandadas por alguém de alta confiança do investidor majoritário, a rigor um parente direto, emitiam relatórios circunstanciados, que inclusive, por força de exigência legal, eram tornados públicos através dos jornais de maior circulação do Estado e por seu Diário Oficial. Não é por outro motivo que

  Apesar de fisicamente distante, Cândido José Ribeiro administrou a fábrica de Sobral

  • – Ceará a partir de seu gabinete de trabalho em São Luís – Maranhão, já que contava com a dedicação e a honestidade do sócio e amigo doutor Ernesto Deocleciano de Albuquerque (SARDINHA, 2010, p. 67).

  Assim, ainda que porventura eles não conduzissem de forma direta a administração da fábrica, e mesmo sequer a visitassem, continuavam a usufruir plenamente, e talvez com maior força, os diversos recursos emanados da conexão de seus nomes à empresa.

  Nesse diapasão, desembaraçados de maiores empecilhos, servindo-se do trabalho de intermediários que atuavam na ligação entre si, os demais sócios e a firma, muito rápido puderam ingressar em outras, sob igual mecanismo, e já na posição de gerenciador. Isso permitiu que partissipassem em várias sociedades anônimas, concomitantemente. Veja-se a Tabela 4 (todos os 149 diretores com informação disponível):

  Tabela 4: Diretorias de Empreendimentos Econômicos

Tipos de Empreendimentos Número de Diretores

Casa Comercial

  85 Casa Bancária

  27 Agro-indústria

  7 Indústria

  57 Imprensa/Comunicação

  8 Prestação de Serviços

  26 Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1925-1940)

  Por causa disso, não dirigindo diretamente esses vários tipos de sociedades de acionistas, puderam eles se dedicar às instituições objeto de interesse, onde constituíram longevas linhagens. Offerlé (2009, p. 12, tradução nossa), em seu esquema de análise, já havia percebido que a compreensão das bases potenciais de uma representação patronal passa tanto pelas empresas quanto pelos empreendedores. Por isso:

  [...] há muito mais empresas que chefes de empresas (alguns possuindo ou dirigindo várias) e muito mais empreendedores que chefes de empresa, no sentido estatístico do termo (de dirigentes assalariados de sua própria empresa, ou de outra, não se declarando como chefes da mesma), podendo ser proprietário, gerente ou presidente-diretor geral da sua própria empresa, diretor-geral ou diretor de estabelecimento (assalariado), presidente de diretório ou de conselho de fiscalização, ou ainda administrador de

sociedades (OFFERLÉ, 2009, p. 12, tradução nossa).

  Não é o objetivo deste trabalho, em razão de suas limitações, seguir estritamente a agenda de pesquisa proposta pelo citado autor. Mesmo assim, é bem retratar que ele define quatro características básicas para tentar perceber como se operacionaliza a diversidade das empresas e, dessa maneira, compreender como se forma a representação patronal por elas influenciada. São o

  “tamanho”, “a propriedade ”, a “atividade” e o “território”. No concernente à participação de agentes possuidores de origens e trajetórias sociais vinculadas ao patriarcalismo rural escravocrata, como já amplamente demonstrado, é tão marcante dentro da associação de empresários que não pode ser considerada apenas uma exceção aos

  “padrões” aguardados por seus próprios estatutos, ou àqueles apresentados como regulares, dentro do processo de contínua legitimação da instituição. Por óbvio que não é harmônica essa convivência de agentes possuidores de origens sociais e trajetórias diferentes, apesar dos mecanismos de recrutamento, em última análise, serem basicamente os mesmos, e constante também

  “[...] a recorrência da transmissão política familiar [...]” (GRILL, 2008, p. 131). Há, factualmente, aguda demanda pelo controle dos princípios de legitimação e pelas posições de efetivo comando, tanto mais que um e outro grupo se encontrassem em condições mais ou menos equivalentes na disputa.

  Assim, não é sequer viável tentar-se uma vinculação entre a presença e a capacidade de influência desse tipo de agente emanado dos meios “não- empresariais

  ” ao período cronológico, em tese, mais próximo ou adequado a isso, como a vigência da ordem Imperial ou os primeiros anos do novo regime que a derrogou. Constrói-se, na verdade, um tipo de

  “herança”, no interior da instituição, que distribui seus efeitos a curto e longo prazos, apenas incorporando estratégias que se apresentam como

  “renovadoras”, mas que são, contudo, apenas adaptações às transformações ocorridas ao longo do tempo. João Salles de Oliveira Itapary (Figura 8) exerceu sete presidências consecutivas da ACM a partir de 23 de janeiro de 1939, eleito que foi através de uma Assembléia Geral Extraordinária convocada no mesmo dia das renúncias do presidente e de seu vice ordinários, que haviam alçado tais cargos em escrutínio realizado ao final do ano anterior.

  Figura 8: João Salles de Oliveira Itapary Fonte: Viveiros (1954)

  Tratava-se então dos afastamentos, cujas razões até os dias presentes não são bem esclarecidas (a Biblioteca da ACM não possui a revista do ano 1939, talvez inclusive como meio de ocultação das disputas internas da instituição), de dois dos mais influentes comerciantes e industriais de

  “origem” portuguesa da capital maranhense: Manuel Mathias das Neves Filho (Figura 9) e Arnaldo Júlio Corrêa, respectivamente.

  Figura 9: Manuel Mathias das Neves Filho Fonte: Acervo pessoal do autor

  Durante sua administração foi construído o “Palácio do Comércio”, que em uma parte hospedava, desde então, a sede da ACM, saída que foi da baixa

  Praia Grande para o alto da Praça Benedito Leite. O referido imóvel foi divulgado como sendo o grande feito administrativo de João Salles de Oliveira Itapary, e tido na oportunidade enquanto marco modernizador de São Luís. Contou a sua edificação com financiamento parcial do erário pertencente ao Estado, e teve sua inauguração alardeada pelos principais jornais e rádios locais.

  Figura 10: Diretores da ACM e o Interventor Federal (sentados, da esquerda para direita:o presidente da ACM em exercício

  • – vice-presidente naquela gestão – Acir Barbosa Marques, ao centro, o interventor Paulo Ramos, e à direita o Secretário Geral do Estado, Albuquerque Alencar) Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1940, p. 1)

  Na Figura 10, realizada no Palácio dos Leões após a assinatura do contrato de construção da nova sede da ACM, o interventor surge como figura central, e em volta dela se organizam as demais. O seu cargo, oficialmente, representa a ordem do Estado Novo. Dessa forma, a disposição das elites econômicas e políticas ao seu entorno, ainda que em uma escala local, afigura-se ao mesmo tempo enquanto apoio e submissão. Em tal lógica, o governante se apresenta sentado, como que irremovível, mas nunca em posição de descanso, e sim retilíneo, altivo e austero, ao contrário dos que lhe ladeiam, um pouco mais relaxados e em busca de uma melhor posição para a foto. Chega mesmo a ser notável a construção da imagem do poder representada pela figura do interventor: os dois que lhe acompanham no canapé não o

  “ombreiam”, mas afastam-se fisicamente, mesmo que isso redundasse em flagrante desconforto, ao menos para um deles. Os ternos brancos, flagrantemente dominantes, estiveram em moda nos Na cerimônia em questão compareceram indivíduos oriundos de várias outras instâncias de poder, dentre eles Pedro Neiva de Santana, prefeito da capital, Cláudio Brandt, chefe do Departamento Administrativo do Estado, Helvídio Martins, diretor do Departamento Estadual das Municipalidades, Antônio Baima, Engenheiro do Estado, Francisco Aguiar, cônsul de Portugal, J. Pires, diretor do jornal

  “O Imparcial

  ” – órgão dos “Diários Associados”, pertencente a Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo (1892-1968), relativamente, um aliado político de Getúlio Vargas

  • – e Domingos Silva, juiz de direito. É interessante a indicação profissional de Djalma Fortuna, que aparece como

  “Delegado do Recenseamento”, provavelmente um cargo federal de lotação no Maranhão. Até o final da década de 1940, era ele o editor da Revista da Associação Comercial do Maranhão. Não é improvável que tenha logrado essa nomeação pública a partir das relações de proximidade da ACM com a interventoria.

  Quanto ao prédio em construção, largo e elevado, de arquitetura destonante do casario luso-maranhense que o cerca, portava

  [...] um hotel com cassino no último andar, com linhas bem modernas, com lustres e tudo, imitando o art déco

  • – depois que eu estudei, me aprofundei em várias áreas, e vi que aquele prédio já era um art déco dos pobres

    (LIMA apud MARANHÃO, 2006, p. 244) (Figura 11).

  Figura 11: Croqui do

“Palácio do Comércio” e “Hotel Central

Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1940)

  O presidente da ACM na época era filho, como antes dito, de José Joaquim Seguins de Oliveira, o Barão de Itapary. Seu avô, o

  “Comendador Oliveira”, foi identificado como “capitalista” (MOURA, 1992, p. 66), e era proprietário do sobrado de três pavimentos cuja fachada é coberta por azulejos róseos, na Rua do

  Sol. Do avô ao neto, todos eram graduados em Direito, mas não exerceram a profissão.

  Apesar de ter vivido sua infância em São Luís e a juventude na cidade de Funchal, na Ilha da Madeira, onde se casou com uma descendente da nobreza italiana, Genoveva Hortência Bianchi Salles Caldeira (COUTINHO, 2005, p. 393), ao retornar ao Maranhão, o Barão de Itapary passou longos anos em sua fazenda, na região de Viana, onde lhe cruzava as terras o Mearim. Após alforriar mais de quatrocentos escravos em 1886, e com o fim do regime escravocrata dois anos depois, o Barão retorna à capital da Província e vai residir, até o fim da vida, em uma vasta morada térrea fronteira ao Largo dos Remédios. Membro do Partido Conservador, mas sem exercer mandato político, possuía forte influência nos círculos de poder de então.

  É bem se perceber que ao tempo de seu casamento, não possuía o título de nobreza, conferido apenas no eclipsar do Segundo Reinado. No entanto, o enlace com alguém de descendência nobre 7 – e o reconhecimento da nobreza é transnacional entre os países de governo monárquico, no caso Itália (ou os estados então existentes antes da unificação de 1870, como os reinos de Nápoles, Florença, Savóia e os Pontifícios), Portugal e Brasil na época

  • – deve ter contribuído, em alguma medida, para a obtenção futura do baronato, mas também foi um investimento garantidor da ascensão e da reprodução das posições ocupadas no cenário político e econômico, rural e escravocrata, maranhense dos oitocentos.

  Dois relatos existem sobre o aspecto mesmo físico do Barão de Itapary. Um retirado dos tempos em que administrava a próspera propriedade rural da família, durante o Império, e outro, quando na República, despendia seu tempo na casa comercial que herdara do pai no bairro da Praia Grande. Os autores das 7 descrições que seguem são os escritores e políticos maranhenses já citados João

  Os títulos de nobreza no Brasil eram registrados em um cartório específico chamado “Cartório de Nobreza e Fidalguia ” (não está excluída a possibilidade do chefe da “família real brasileira”

contemporânea conceder titulação nobiliárquica, no entanto, sem mais o registro e, obviamente, o

reconhecimento oficial) sediado no Rio de Janeiro. Uma vez anotado, o título e seu portador

  Dunshee de Abranches Moura (1867-1941) e Humberto de Campos Veras (1886- 1934). Entre um e outro traço, parece sobressair o mecanismo da reconversão, no caso, entre as

  “profissões” de fazendeiro a empresário, o que no futuro muito contribuiria para a carreira de João Salles de Oliveira Itapary:

  [...] mas, apesar do meio rude em que se achou, jamais perdeu os hábitos elegantes e distintos, vestindo-se sempre no rigor da moda. [...] Agora, meu amigo tem de saudar o D'Artagnan do Mearim [...]. Minutos depois, sobre um cômoro ao fundo do estirão, surgia um cavaleiro, acenando-nos de longe com o chapéu de abas largas [...]. Montado em um soberbo alazão, ricamente ajaezado, com estribos e arreios de prata e trajado elegantemente com roupas aristocráticas de equitação, calçadas as mãos com finas luvas de pelica, cabelos castanhos, cavanhaque cortado à francesa, rosto alvo, rosado e formoso, o Dr. José Seguins de Oliveira, futuro Barão de Itapary, parecia mesmo um dos heróis dos velhos romances de cavalaria (MOURA, 1992. p. 66 - 67).

  [...] achei a pequena escada um pouco suja, mas era possível que aquilo fosse para disfarçar a riqueza que reinava lá dentro um instante mais e entreabre-se a porta do corredor escuro, dando passagem à cabeça de uma preta gorda, e beiçuda, que indagava em uma voz gritante: - qui é? [...] em frente à Igreja dos Remédios, ainda cercada de velhos andaimes, um cavalheiro vestindo paletó preto e comum, fumava um fim de cigarro, ao mesmo tempo em que esgaravatava a terra com a ponta do guarda-chuva. Bigode negro, e, se bem me lembro, uma barbicha curta, da mesma cor. Figura vulgar de burguês. Cara de comerciante da Praia Grande. [...] - sim senhor! [...] isto que é um barão? [...] eu acabava de vender, na verdade, por cinquenta ou sessenta mil réis, que nem seriam meus, uma das mais lindas ilusões da minha meninice! [...] (CAMPOS, 2009. p. 270).

  Nesse sentido, a “vocação”, no caso para o mundo dos negócios, é resultado de uma série de investimentos realizados a partir do âmbito familiar, por múltiplas estratégias de reconversão de capitais e práticas próprias que conduzirão a uma

  “competência específica”, a qual, por sua vez, permitirá ao agente participar das disputas pela liderança e legitimação no interior do segmento “[...] sempre com alguma probabilidade de sucesso [...]

  ” (CANÊDO, 1991, p. 221). Em tal perspectiva, se João Salles é apresentado com um empreendedor “nato” nos círculos empresariais de São Luís, isso se deve em grande parte ao capital de simbólico de reconhecimento recebido de seu pai, através da própria reconversão que operou.

  Não se nos parece ter sido Itapary o único a fazer tal mudança. Grande número de antigos proprietários de escravos de fato o fizeram, o que deve ter levado Viveiros (1954, p. 558), a falar que haviam se fixado em São Luís, onde se teriam deixado

  “[...] arrastar na vertigem das fábricas [...]”, transformando-os em uma “[...] vítima da loucura da época [...] ”. Entretanto, essa transformação deve ser

  compreendida racionalmente, segundo o jogo de negociação de estratégias possíveis, visando a preservação e reprodução dos agentes nas posições de poder.

  A sua postura em identificar uma crise sócio-econômica no Maranhão originada principalmente do fim do fim do trabalho escravo, do desamparo estatal em relação aos antigos lavradores, além do pretenso desregramento quanto aos investimentos no setor têxtil, deve ser interpretada como a reafirmação das estruturas agrárias tradicionais, o que encontraria eco entre aqueles a elas relacionadas.

  Com efeito, a família de Jerônimo de Viveiros foi uma das que mais teve seu patrimônio diminuído com a abolição, inclusive no início do século vinte abandonando as vastas propriedades rurais em Alcântara e região. Isso forçou vários de seus membros a reconverterem seus investimentos, como ele próprio o fez para a esfera literária e de mediação entre instituições.

  Em sua interpretação, Viveiros (1954, p. 558), por exemplo, a indústria no Maranhão está diretamente relacionada ao fim do escravismo e à consequente desvalorização da propriedade rural:

  Por tudo isso, no próprio ano de 1888, a desvalorização da fazenda agrícola maranhense atingia a 90% [...]. Das fazendas afastavam-se os senhores com a mesma ansiedade com que os ex-escravos deixavam os ranchos do seu cativeiro. Êstes tinham horror do passado; aquêles, mêdo do presente

  Jerônimo de Viveiros, legitimado como um “especialista” e autorizado pela

  Associação Comercial do Maranhão, enfatiza o papel heróico da entidade nesse cenário, escusando-a pelas possíveis falhas e problemas do processo de modernização econômica da então província.

  Da exposição que acabamos de fazer ressalta não terem sido inferiores aos da Comissão da Praça os serviços prestados pela Associação Comercial em favor do progresso da terra maranhense, apesar de haver lhe reservado o destino o período mais grave da vida econômica do Maranhão

  • – a organização do trabalho livre. De um modo geral, todas as diretorias cumpriram suas missões; se não resolveram os problemas econômicos do momento foi porque lhes faltou a colaboração do Governo ou da sociedade. Não há negar que souberam vê-lo se procuraram por todos os meios solucioná-los. Do caminho errado que tomamos não lhes cabe a culpa, que elas não se forraram ao desprazer de apontar os seus precipícios (VIVEIROS, 1954, p. 472).

  Enquanto Viveiros tem uma visão negativa sobre o processo de instalação das fábricas, a partir do próprio revés financeiro familiar, Fran Paxeco (1916, p. 145), aproximado aos proprietários das têxteis e por eles subsidiado, muitos inclusive sendo conterrâneos portugueses, vê nelas o cumprimento de uma função social:

  As fábricas valeram, numa percentagem incalculável, aos que largaram os seus lares, despidos de qualquer arrimo que não fosse o braço. Há milhares de pessoas nesses febris e álacres núcleos manufatureiros, que devem o alimento às empresas do fabrismo.

  No caso de João Salles de Oliveira Itapary, terminou por ser incumbido da administração da casa comercial legada pelo pai e ainda se tornou sócio-diretor da firma

  “Martins, Irmãos & Cia.”, proprietária de uma fábrica intitulada “Santiago” por se localizar próxima do local onde havia, no século dezoito e por boa parte do seguinte, uma ermida com essa invocação, bem no início do bairro da Madre-Deus. A indústria em questão, porém, não era muito conhecida por seu nome oficial, sendo mais notabilizada por um de seus principais produtos, o

  “Sabão Martins”. Além deste, outro artigo de grande aceitação, inclusive em mercados internacionais, era o “Algodão Hidrófilo Martins”, de uso medicinal e comercializado em farmácias. Essa fábrica foi uma das que mais colecionou acidentes de trabalho, com cerca de 29,16% de todos os eventos dessa natureza registrados entre 1920 e 1950, dentre sete estabelecimentos pesquisados (MARANHÃO, 1920-1950). Igual porcentagem foi alcançada pela maior têxtil da época, a “Fábrica Santa Isabel”.

  Talvez, porém, o que de mais importante João Salles tenha herdado do pai, como garantia de sua excelência social, não tenham sido os empreendimentos econômicos por ele deixados, mas sim o próprio nome, Itapary.

  De início, não era ele designação de qualquer família. Como muitos outros títulos nobiliárquicos, a nomenclatura que segue ao grau de nobreza (barão, visconde, conde...) geralmente representa, ou deveria representar, o território físico do qual era proprietário o sujeito agraciado com esse tipo de reconhecimento, ou onde havia ele efetuado uma conquista militar em nome do monarca, por exemplo.

  Era o caso do “Marquês do Maranhão”, título entregue por D. Pedro I ao nobre escocês Lord Thomas Cochrane (1775-1860), décimo Conde de Dundonald,

  Barão Cochrane de Dundonald, de Paisley e de Ochiltree, Par da Escócia e almirante da Marinha Britânica. A titulação brasileira se deveu aos serviços prestados na consolidação da adesão do Maranhão ao Império que surgia a partir de 1822. Fundeando seu vaso de guerra na desembocadura dos rios Anil e Bacanga, ameaçou bombardear os prédios públicos de São Luís caso a junta governativa portuguesa, até então resistente, não assinasse sua capitulação. Obtida a vitória sem disparos, recebeu a distinção em comento. Essa, por seu turno, não se referia apenas ao Estado, mas principalmente à sua capital, simplesmente conhecida como “O Maranhão”, a exemplo do que ocorrera com o Rio de Janeiro (São Sebastião do Rio de Janeiro) e São Paulo.

  Coisa semelhante havia ocorrido também com o pernambucano Jerônimo de Albuquerque (1548-1618), que se tornou Capitão-Mor da Capitania do Maranhão, após a vitória obtida sobre os franceses no século dezessete, tomando para si o nome de sua conquista, passando a chamar-se e ser reconhecido por Jerônimo de Albuquerque Maranhão. No mesmo sentido foi Luís Alves de Lima e Silva (1803- 1880), que ao debelar a Balaiada, encerrando uma das mais importantes revoltas populares do período regencial, foi honrado com seu primeiro título de nobreza, tornando-se o Barão de Caxias, cidade que havia sido o principal teatro das operações militares na província.

  Mas “Itapary”, na morta língua dos extintos povos indígenas que habitavam o litoral leste do Maranhão, significava

  “cortina de pedra” (COUTINHO, 2005, p. 387). Era alusiva a uma fortaleza construída nos tempos das guerras contra o Senhor de La Ravardière, nas proximidades da povoação chamada

  “Caúra”, no atual município de São José de Ribamar. O local, associado à defesa da antiga Capitania, nada tem que ver com José Joaquim Seguins de Oliveira, agora portador de um título de nobreza com essa denominação. Nenhum ancestral seu havia, naquelas praias ou mesmo em quaisquer outras plagas, praticado algum ato heróico. De outro lado, sua propriedade rural, bem distante desse cenário litorâneo, localizava-se na região lacustre de Viana, e chamava-se “Santa Isabel”.

  Tornou-se um nobre por ter alforriado mais ou menos quatrocentos cativos localizados em duas ou três propriedades rurais que herdara do pai após o falecimento deste, isso em plena campanha abolicionista e quando a força de trabalho livre já era predominante por todo o Brasil, inclusive no Maranhão (RIBEIRO, 1990).

  O motivo do título ter a forma que possui, porém, não é muito claro. Muito mais elucidativa é razão de João Salles assinar-se “Itapary”, uma vez que foi incorporada essa nomenclatura como sobrenome familiar. Isso se deu porque José

  Joaquim Seguins de Oliveira havia batizado seus filhos com a mesma identificação titular por ele auferida.

  A Constituição Imperial do Brasil vedava a “hereditariedade” da nobreza, no sentido de não admitir que o descendente do titular pleiteasse a mesma qualificação apenas com esse argumento específico. A primeira Carta Magna republicana, surgida três anos depois do ato de prestígio subscrito pela Regente Princesa Isabel, poria fim ao agraciamento e reconhecimento estatais da titulação nobiliárquica.

  Contudo, especialmente para João Salles, mais do que para seus outros irmãos que não haviam se dedicado

  • – ou recebido – a condução dos empreendimentos econômicos da família, era importante que fosse vinculado a si, de alguma forma, o nome e o status de seu progenitor, ou mais, o

  “feito heróico” por ele praticado. Como que a legislação não permitisse a apropriação pura e simples do título, mas também não vedasse a inclusão de outro nome que a parte demandante achasse por bem, sem prejuízos a outrem, fundava-se ali uma nova “linhagem”, ainda existente hodiernamente. Ressalvadas as particularidades evidentes entre as sociedades francesa e brasileira, ou, pontualmente, entre o Conde de Brissac e o Barão de Itapary, a importância e usos do nome de nobreza encontram um equivalente de evidência.

  Mais talvez que em nenhum outro grupo dominante, se desenvolveu na nobreza o sentimento de pertença a uma descendência, da possessão a uma classe, de um título e de um nome [...].

  “Cada grande senhor se refere de bom grado à sua „casa‟ [...]. Casando, a aristocracia da corte intencionava em primeiro lugar

  „alicerçar‟ e „manter‟ uma casa, lhe dando o prestígio e as relações de acordo com sua classe, e aumentar, na medida do possível, o brilho dessa „casa‟, da qual os dois esposos eram os representantes ”. Afirmar sua classe era uma necessidade absoluta. Se existe ainda hoje uma autonomia relativa do nome, do título, o prestígio de um nome, a qualidade de uma

  “grande família”, podendo sobreviver um tempo, pelo menos à diminuição do patrimônio econômico da família, o valor de um título ou de um nome, não é, entretanto, independente da utilização objetiva que cada um dos que o portam faz, do valor que os outros membros do grupo lhe reconhecem. O mesmo nome tende a valer tanto mais, a produzir tanto mais de proveitos que ele é sustentado, por alguém que ocupa uma classe mais elevada, por um rapaz, de preferência, que por uma moça, por um primogênito, de preferência, que por um caçula [...] (SAINT-MARTIN, 1980, p. 7, tradução nossa) 8 .

  No caso, João Salles de Oliveira Itapary possuía e utilizava recursos altamente valiosos para o jogo de reconhecimento e afirmação das lideranças empresariais que, como exposto, foram em boa parte herdados das estratégias e 8 Todos os textos originalmente redigidos em língua francesa, neste trabalho consignados em investimentos sociais de seus familiares. Há, na verdade, uma preparação do indivíduo para o acolhimento do patrimônio social constituído por sua ascendência, através da

  “[...] iniciação com provas e ritos de passagem para inculcar o domínio prático de toda a produção acumulada [...] ”. Isso contribui sobremaneira para a formação

  “vocacional” do agente e, para si, sua naturalização. Dessa maneira, a análise de fatores como a história familiar, profissão dos pais, matrimônios e o domínio de títulos e sua exibição pública também são elementos importantes para a compreensão das lógicas desse processo (CANÊDO, 1991, p. 222).

  Com efeito, João Salles detinha e apresentava uma genealogia identificada como “autenticamente nobre”, já que seu pai, se por um lado pertencia a uma espécie de nobreza

  “tardia”, surgida na última regência da Princesa Isabel, em um período que se pensava transitório até o não acontecido Terceiro Reinado, por outro, o casamento com uma descendente de titulares italianos asseguraria aos filhos do casal uma ancestralidade de dignatários dentro da ordem monárquica brasileira. Isso foi mesmo confirmado com a fundação de uma linhagem cujo nome remontava ao próprio título outrora recebido.

  Mesmo com o advento do governo republicano, não há um bloqueio aos benefícios advindos dessa estratégia matrimonial. O que ocorre é o seu uso durante a reconversão de investimentos sociais para a esfera econômica, a partir da evidência e enaltecimento do

  “ato de desprendimento” do Barão de Itapary e todos os conceitos de caráter e moral envolvidos (por exemplo, bondade, generosidade, ética humanitária), que eram especialmente aguardados de alguém oriundo de tal “estirpe”.

  No ponto, a libertação dos cativos significaria não apenas uma ação heróica, mas também uma postura modernizante e “empreendedora”, fazendo, tanto o pai quanto o filho

  • – a quem é legado esse patrimônio – pretensamente atentos à necessidade de transformação das estruturas produtivas maranhenses, em voga na época, legitimando-os para a representação e liderança dos comerciantes e industriais locais.

  Mas ele não era o único diretor da ACM descendente de titular nobiliárquico da ordem imperial brasileira. Também o era Pedro Perdigão de Barros e Vasconcelos (Figura 12), que, no entanto, apesar de contemporâneo de João Salles, alcançou apenas o cargo de vogal na mencionada instituição no ano de 1937.

  Figura 12: Pedro Perdigão Barros e Vasconcelos Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1936, p. 3)

  Um dos ascendentes de Pedro Perdigão era Antônio Augusto de Barros e Vasconcelos, o Barão de Penalva, militar que participou das linhas de frente da Guerra do Paraguai, ferido duas vezes em combate. Era bisneto paterno de Felippe de Barros e Vasconcellos, Comandante de Esquadra, Capitão-de-mar-e-guerra, intendente geral da Armada no Maranhão e integrante da Junta Governativa de 1821-1822. Segundo Coutinho (2005, p. 263):

  A família Barros e Vasconcelos tem nome e tradição em nossa terra. Nela contam-se magistrados, parlamentares, banqueiros, capitalistas, nobres titulares, fidalgos e intelectuais. Um dos últimos representantes desse clã respeitável foi o Desembargador Benedito de Barros e Vasconcelos, que honrou as letras maranhenses e pertenceu aos quadros da Academia Maranhense de Letras.

  Além desses familiares de portadores de títulos de nobreza, havia entre os diretores da Associação Comercial um único que realmente ostentava tal grau de distinção, José Moreira da Silva Júnior, o Visconde de Itaqui do Norte, que foi seu primeiro Presidente, entre os anos de 1878 e 1880.

  José Moreira herdara grande fortuna do pai, o comerciante português José Moreira da Silva Santos, fenecido no ano de 1855. Exerceu a partir de então, não só o controle dos empreendimentos testados a si, como também cargos elevados na burocracia local, incluindo a presidência da

  “Caixa Filial do Banco do Brasil

  ” no Maranhão. Apesar da honra nobiliárquica com que foi agraciado pelo Rei

  D. Luís I, de Portugal, e da confirmação no Brasil, com a conseqüente autorização para seu uso, José Moreira da Silva Júnior flagrantemente pertence ao grupo dos comerciantes luso-maranheses que acumularam riquezas a partir do apoio de outros empresários já estabelecidos.

  Assim, a ostentação do título de Visconde, como também de outros da mesma natureza, como a Comenda da Real Ordem Militar Portuguesa de N. S. da Conceição de Vila Viçosa, Ordem da Rosa, brasileira, e Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, também portuguesa, deve ser percebida enquanto um mecanismo de incorporação e reprodução das formas distintivas de poder correntes em outros extratos sociais, no caso, a aristocracia rural escravocrata, principalmente, que inclusive possuía forte penetração nos quadros dirigentes da Associação Comercial.

  Não eram pequenos os esforços para se obter o reconhecimento de fidalguia. Os gastos financeiros objetivos eram elevados. Faziam-se pesquisas genealógicas exaustivas em vários cartórios europeus a fim de se encontrar um ancestral que já fosse reconhecido como nobre. No caso de José Moreira da Silva Júnior, as titulações emanadas da corte portuguesa foram especialmente onerosas. Para que pudesse firmar-se no Brasil como Visconde de Itaqui do Norte, pagou a soma de quatro contos de réis na alfândega maranhense, valor mais ou menos equivalente aos lançados em inventário para dois imóveis assobradados bem conservados, no mesmo período (COUTINHO, 2005, p. 403).

  Ainda para adquirir outro selo, para uso da comenda, desembolsou trinta mil réis, valor que corresponderia hodiernamente a, aproximadamente, quinze 9 salários mínimos . No tocante aos seus investimentos econômicos, foi sócio de Martinus Hoyer, dinamarquês enriquecido no Maranhão, tanto quanto outros jovens chegados em São Luís na primeira metade dos oitocentos. Ao lado de Hoyer, investiu na criação do

  “Engenho Central São Pedro”, em Pindaré, convertendo também largas quantias na fundação da “Companhia de Águas de São Luís”, empreendimento que foi diretamente contrário aos interesses de José da Cunha

  Santos e de sua parceira na venda de água aos lares da cidade, Ana Joaquina Jansen Pereira.

  9

  O credo religioso demonstra como os diretores da ACM também poderiam ocupar posições de proeminência em outras dimensões sociais de poder. Por exemplo, dois dos maiores incentivadores do protestantismo em São Luís foram os líderes pastorais Martinus Hoyer e Henry Airlie, ambos nascidos no exterior e de origem não-ibérica.

  Ainda que não seja um dos objetivos deste trabalho analisar a filiação a uma crença espiritual e os créditos sociais decorrentes nas relações de mercado, notadamente a vinculação entre as éticas protestante e comercial, como trabalhado por Weber (2008), não se deve descartar as profundas afinidades entre uma e outra, mesmo no caso maranhense. No mais, a congregação dos empresários, seja em torno das igrejas de fé reformada, seja nas irmandades católicas, faz com que de fato exista o estabelecimento de laços de confiabilidade e credibilidade entre os referidos, fundamentais, talvez mais do que os regulamentos jurídicos, para as transações financeiras.

  Verificou-se que aproximadamente 90,3% dos diretores, com informação disponível, professavam a fé católica romana, e 9,64% eram de outras confissões. A participação dos primeiros em confrarias religiosas era corrente, e grande parte deles exercendo cargos de gerenciamento em suas organizações. José Moreira da Silva Júnior, por exemplo, era benfeitor de várias, tornando-se provedor da Irmandade de Santa Cruz do Senhor Bom Jesus dos Passos.

  Isso é importante porque as irmandades tanto proporcionavam o reencontro dos diretores da ACM para além do ambiente profissional, como também a aproximação de suas famílias, esposas e filhos, pois, especialmente nos tempos das festas religiosas, antes e depois das procissões, ocorriam visitas às residências dos

  “irmãos”. Nessas ocasiões, sobressaía a participação feminina no preparo e adorno do lar, preparação de alimentos e recepção dos visitantes.

  As chamadas “Irmandades de Quaresma” também expunham e reproduziam as posições de poder ocupadas por seus membros em outras instituições ou mesmo fora delas:

  “[...] a irmandade de lá, apesar de ser de operários, estivadores, era chefiada pelo Bernardino José Maia, que vinha a ser sogro de Francisco Aguiar, bisavô de Adhema r”. Cuidavam mesmo de deixar representado materialmente o cargo ocupado, em circunstâncias que não consentissem passar dúvida quanto à sua “dedicação” e “compromisso” ao grupo:

  “Eram oito jarros de prata [...], só existem dois [...]. Tem escrito – „Lembrança do provedor José Maia, 1877 ‟” (ARANHA apud MARANHÃO, 1997, p. 144 - 145). A que tinha José Moreira por provedor era a mais rica de São Luís, no século dezenove. Possuía várias alfaias, jarros e lanternas em prata e ouro, além de imagens sacras adquiridas na Europa, como duas em roca, Bom Jesus da Coluna e N. S. das Dores. Localizava-se na Igreja do Carmo, que abrigava dois antigos ossuários das famílias mais antigas e abastadas da cidade, e

  “[...] eram os brancos [...]

  ” (ARANHA apud MARANHÃO, 1997, p. 139), apenas, que carregavam o andor da imagem. Dentre os confrades da referida estavam outros diretores da ACM, como Adhemar Maia Aguiar, Ignácio do Lago Parga, Pedro Perdigão Barros e Vasconcellos e Antônio Paiva Fernandes Maia.

  Mas as irmandades cristãs não eram as únicas associações onde os líderes empresariais terminavam por se reunir. Se a família Maia tinha forte participação na coordenação e financiamento de diversas dessas congregações de leigos católicos, ela se uniria à família Aguiar, que por sua vez possuía entre os seus um com alta titulação na maçonaria do Maranhão.

  Outra vez o peso determinante dos sistemas de reprodução e transmissão do poder a partir da lógica de agregação por laços de parentesco se mostra presente. Francisco Coelho de Aguiar era português, e exerceu, por alguns anos, o cargo de Primeiro Secretário da Associação Comercial. Casou-se com uma das filhas de Bernardino José Maia, também lusitano e comerciante, o qual, quando de sua chegada ao Maranhão, o hospedou e deu-lhe emprego de caixeiro em sua casa de exportação.

  Francisco Coelho de Aguiar foi chefe da “Venerável Loja Renascença

  Maranhense ”, e Grão-Mestre da Maçonaria Brasileira. O filho, e também maçom,

  Adhemar Maia Aguiar, ocupou o cargo de vogal na ACM. Também, Cândido José Ribeiro teria sido um dos fundadores da

  “Loja Maçônica Vera Cruz” em São Luís, por volta de 1895 (SARDINHA, 2010, p. 164). Não foi possível, porém, identificar-se outros possíveis

  “pedreiros-livres” entre os diretores analisados. Isso provavelmente se deu porque os demais componentes, em razão do caráter reservado dessa corporação, tanto omitissem dela participar, como também por não ocuparem, no interior de seus quadros, posições de controle. Diferente era o caso de Francisco Coelho, consagrado não apenas dentro do grupo pela colocação assumida, mas fora dele, em outros agremiações, quando os títulos obtidos no interior da maçonaria passam a figurar, para além da instituição que os concedeu, como autenticadores de sua competência administrativa e liderança, o que é possível se constatar nas notas elogiosas e comemorativas de seu aniversário publicadas na Revista da Associação Comercial do Maranhão, que mesmo traz um retrato no qual esse diretor está em trajes onde porta os galardões do Grande Oriente.

  O processo de construção das identidades sociais, no caso, envolvendo as práticas de uma elite econômica própria, que dialoga e se relaciona com outras mais ou menos semelhantes, pode ser compreendido a partir de certas disposições, que redundam em preferências e aspirações do grupo ou dos agentes que o compõem, segundo as trajetórias sociais relativamente comuns ou próximas (BOURDIEU, 1983, p. 66).

  Nesse sentido, a pertença a determinados clubes sociais e o reconhecimento pelo usufruto pleno das atividades esportivas e de distração por eles oferecidas, como torneios e bailes

  • – geralmente restritos e não-acessíveis a todos os sócios
  • – são distintivos importantes de uma posição elevada, conscientemente ou não, dentro e fora do grupo de líderes empresariais. Todos os diretores da ACM com informação disponível sobre esse ponto, cerca de vinte, aproximadamente, eram membros de clubes sociais e, ou, esportivos. A maioria inclusive figurava na categoria de sócio-fundador.

  Historicamente, em São Luís, quatro grandes clubes podem ser identificados como próprios dos grupos dirigentes relacionados às elites econômicas e políticas locais. São eles:

  “Clube Euterpe Maranhense”, de 1904; “Cassino Maranhense

  ”, da primeira década do século seguinte, tempos depois rebatizado com a retirada uma letra “s” de seu nome, quando da proibição dos jogos de aposta no país durante a ditadura varguista;

  “Grêmio Lítero Recreativo Português”, da década de 1930, e o “Clube Recreativo Jaguarema”, inaugurado duas décadas depois. Desaparecido o primeiro ainda durante os primeiros anos dos novecentos, os três restantes coexistiram por quase todo esse último período e, conforme a memória oral (NEVES, 2004a; 2004b; 2004c), conformavam-se mesma nessa ordem de importância e distinção. Inclusos nos quadros do “Clube Euterpe Maranhense” estavam os Vice-

  Presidentes da ACM, Joaquim José Alves Júnior e Manoel Coelho Pecegueiro Júnior. Era ele sediado no

  “Solar dos Leite”, que pertencera ao Comendador Leite, pai do governador Benedicto Leite. O Imóvel por si só é majestoso. Três pavimentos e um mirante, janelas com arcadas em pedra lioz lavrada, bandeiras de raro desenho e uma larga sacada com vista à Rua Direita e Igreja do Carmo, guarnecida por armações de ferro fundido, trazidas do Velho Mundo. No térreo, um pórtico monumental dá acesso a um piso de seixos distribuídos em claro e escuro, formando composições geométricas. Em seguida, uma espaçosa escada em madeira de lei dá acesso aos andares superiores.

  Em seus salões de estilo neoclássico se jogava bilhar, sobre mesas de ébano, com bolas de marfim e tacos de cedro libanês, tudo adquirido nas melhores casas francesas. Um de seus principais idealizadores foi Orphila Cavalcanti, riquíssimo comerciante e industrial, que se casaria com uma das filhas de Cândido José Ribeiro, Primeiro Secretário da Associação Comercial, também freqüentador do “Clube Euterpe Maranhense”. Desde meados do século dezenove que eram promovidos, nas casas particulares, soirées com aulas de dança, e outros diversos tipos de festas que proporcionavam o encontro das famílias, e isso conduzia à renovação dos vínculos de amizade ou a construção de novos. Não raros eram os casos de

  “galanteios” surgidos no curso e após os bailes realizados, culminando em enlaces matrimoniais que uniriam ou confirmariam a junção de estirpes já próximas ou em aproximação. Verificou Saint-Martin (1980, p. 10, tradução nossa) que:

  A relação de algumas cenas dessa vida mundana, que não é possível apresentar nem reconstituir aqui em seu conjunto, dará, ao menos, uma idéia da importância das relações sociais mobilizadas [...], ao mesmo tempo em que é um resumo da rede de relações. O cruzeiro sobre o Achilleus, organizado por uma jornalista americana, Elsa Maxwell, sobre o modelo dos cruzeiros dos reis, de 1954, ao qual o Duque de Brissac aceitar participar em 1955, representa, sem dúvida, um exemplo limite destes falsos encontros de acaso, sabidamente organizados, para aproximar as pessoas tão semelhantes quanto possível, apesar de sua pertença à universos diferentes.

  Um correspondente de clara analogia, desta vez nas águas do Atlântico Sul, colocaria em um encontro

  “fortuito”, José Mathias de Souza Neves e Francisca Carvalho. O rapaz era o descendente mais velho de Manuel Mathias das Neves Filho, e a moça, sobrinha de José de Mattos Carvalho, posteriormente, governador do Maranhão.

  [...] foi numa viagem de navio, vindo de Salvador. Havia uma festança, era comemoração de Sete de Setembro. Ele sempre muito papeador, veio falar comigo. [...] Sabia que era filho de “Seu Maneco” e de “Dona Celeste”. Já os conhecia. Minha mãe se dava com a família dele de muito [...], era muito conhecida na cidade, eram muito ricos. Tinham prestígio. No começo tinham muito dinheiro (NEVES, 2004a).

  Havia ainda diversos torneios esportivos, para além das casas de recreação, em que estiveram juntos vários jovens que mais tarde se tornariam líderes empresariais, políticos e escritores. Alguns foram os responsáveis pela criação de equipes de remo, como Almir Pinheiro Neves, irmão de Manuel Mathias das Neves Filho, presidente da ACM em 1939, e filho de Manuel Mathias das Neves, vogal. Francisco Coelho de Aguiar, oito vezes primeiro-secretário da mesma instituição, foi árbitro em uma competição dessa natureza realizada em frente ao Cais da Sagração no ano de 1909. Outros ainda investiram em esgrima e ciclismo. Mas poucas distrações possuem

  “caráter” tão aristocrático quanto as que envolvem montarias. Um hipódromo, lugar onde se poderia ver e ser visto, em trajes ao rigor da moda, e que, ao mesmo tempo, se tem o direito de jogar os cobres em apostas no melhor jockey ou animal, seria o ambiente de excelência para a nobreza. De fato, em São Luís, construiu-se algo parecido. Em 1881, no ato de inauguração, lá estava José Moreira da Silva Júnior, que naquele ano já era líder do grupo dirigente de empresários.

  O hipódromo localizava-se no antigo Campo do Ourique e o terreno era espaçoso e apropriado, com o Quartel do 5º Batalhão de Infantaria à sua frente. Foi fundado em 4 de setembro deste ano, com grandes festividades: O dia da abertura do hipódromo foi um acontecimento contagiante. Queimaram-se fogos de artifícios, Nesse empreendimento saiu vencedor o cavalo

  „Ouro Preto, um animal montado pelo jockey José Antônio Rodrigues, que se identificavam pelo vistoso uniforme nas cores rosa e azul [...] o segundo colocado ficou com „Sinimbu‟, de cor „melado cachito‟, montada pelo jockey Ataliba Soares, que se trajou com uma indumentária rósea.

  „Ouro Preto‟ era um belíssimo animal, fogoso, veloz, muito bem tratado, orgulho de seu proprietário, o Visconde do Itaqui do Norte, [montado por] Djalma Moreira, residente nas proximidades do Hipódromo do Racing Club Maranhense. O outro cavalo pertencia a Vitorino José Rodrigues. O Racing Club Maranhense organizou-se em forma de sociedade, sendo deliberado que não teria mais que cem sócios. Desde a corrida inaugural, reunindo os associados, caberia ao vencedor um prêmio substancial de cem contos de réis. Os sócios participantes deveriam trajar-se como requeria a um jockey: na apresentação, o disputante dizia o seu nome, para conhecimento das autoridades e do público presente, exibindo as cores de sua indumentária, bem assim como dava o nome do cavalo que montava (MARTINS, 1989, p.196). Por sua vez, José Manuel Vinhaes, que igualmente ocuparia a presidência da Associação Comercial, participou da “União Velocipédica

  Maranhense ”, agremiação que fomentava voltas de bicicleta nos arrabaldes da cidade, como a que se passou no dia 19 de Dezembro de 1900, onde foi

  “Diretor de Corridas

  ”, ladeado por Joaquim Alves dos Santos. No entanto, os torneios mais disputados foram os de futebol e, para isso, esse mesmo Joaquim Alves dos Santos contribuiria bastante. Ao final do ano de 1905, reuniram-se na residência da família do comerciante português João Alves dos Santos, proprietário da

  “Fábrica Santa Isabel

  ”, da Companhia Fabril Maranhense, os seus filhos, Chrispim, Antônio, Joaquim e Manoel Alves dos Santos, acompanhados de diversos convidados, dentre eles Carlos Soares de Oliveira Neves (Figura 13), também português, para fundarem a

  “Foot Ball Association of Maranhão”, entidade que regulamentaria a prática do esporte, e planejaria um campeonato regional a partir do também inaugurado “Fabril

  Atletic Club ”, que contaria com duas equipes de jogadores.

  Figura 13: Carlos Soares de Oliveira Neves

Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1931)

  A sede se localizava onde antes estava hospedado o campo Santo da Irmandade de Bom Jesus dos Passos, bem defronte à têxtil

  “Santa Izabel”, agora transfigurado em campo de futebol. Presentemente, lá existe o Estádio Nhozinho Santos, que homenageia o antigo proprietário da fábrica e do terreno. Estavam os sócios bem instruídos por patrícios daqueles que haviam criado esse entretenimento, os ingleses John Shipton, John Moon e Ernest Dobler, empresários estabelecidos na cidade e responsáveis pela “Boat Steamship Co. Ld.”, a Mala Real

  Inglesa, e pela “Booth Line & Co. Ld.”, companhia responsável pelo vapor

  “Brunswick” que vazia linha até Londres com escalas em São Luís e outras cidades americanas. Esses mesmos súditos de Eduardo VII acompanharam Joaquim Alves em uma viagem para a Grã-Bretanha, onde, anos antes, também havia estado seu sócio, e amigo, Cândido José Ribeiro. Ambos de lá voltaram versados e diplomados em técnicas comerciais e têxteis, sendo elas as mais citadas referências meritórias de ambos os dirigentes empresariais. Daqueles dois primários times montados, o “Black and White” e o “Red and White”, sairiam João Alves dos Santos, como presidente da ACM, Chrispim Alves dos Santos, como Vice-Presidente e Carlos Soares de Oliveira Neves, como Tesoureiro.

  Também trocaram passes de bola: Acrísio José Tavares, sócio- proprietário da “Companhia de Fiação e Tecidos do Rio Anil”, presidente em 1917 do

  “Anilense Foot Ball Club”, Segundo Secretário da Associação Comercial; Clóvis Vieira da Silva (1886-1916), filho primogênito de Manuel Ignácio Dias Vieira, que foi seu Presidente por três mandatos consecutivos; Belarmino Borgnheth e Saturnino Bello, que exerceram cada um o cargo de Vogal por apenas um ano, mas sendo o último alçado ao cargo de Governador do Estado em 1950. Ainda contam-se Antônio dos Santos Moreira, Tesoureiro, Saturnino Bello, Vogal, José Francisco Jorge, Segundo Secretário, José da Cunha Santos Guimarães, Vogal, e Gerson Corrêa Marques, Presidente, que foram os fundadores de “Sport Club Luso-Brasileiro”.

  Antes e depois dos jogos, afastados dos deveres e obrigações profissionais, aqueles industriais e comerciantes poderiam tratar de assuntos que não dissessem respeito à política-econômica do país, expansão ou retração dos mercados, impostos e concorrência externa. Tais encontros, no entanto, forneciam a ocasião ideal para se argumentar

  “incidentemente” essas e outras questões de interesse comum. No caso da nobreza francesa, no curso de uma caçada organizada em meio à parentela de titulares, discutia-se, por exemplo, entre o ministro das finanças e o Conde de Brissac, as estratégias pouco satisfatórias de sucessão implementadas para certa liderança empresarial (SAINT-MARTIN, 1980, tradução nossa).

  Outras associações havia em que temas da ordem econômica e política poderiam ser debatidos não só por chefes de grandes empresas

  • – ainda que estes, dentro dessas ligas, também se organizassem hierarquicamente
  • – como também
magistrados, literatos e políticos, entre elas o Lions Club e o Rotary Club, estruturados no Maranhão na década de 1930. Um caso do último, um de seus fundadores no Estado foi Acyr Barbosa Marques, diretor da ACM e seu presidente durante parte da década de 1940. Até o ano de 2010, o governador da aérea

  “20 D

  4490

  ”, que compreende o território maranhense na disposição dessa entidade é um descendente direto de seu organizador, Acyr Barbosa Marques Neto.

  Dentre o que foi narrado, é possível constatar-se que a lógica de organização familiar e os laços de amizade e apadrinhamento não só adentram as instituições que oficialmente se afirmam como possuidoras de finalidades específicas e impessoais, como também se tornam a sua estrutura principal, especialmente nas organizações montadas em sociedades periféricas, como é o caso da Associação Comercial e do Maranhão no entresséculos. Em outra vertente, as lideranças são recrutadas, produzidas e reproduzidas a partir desse mesmo arranjo. Processos complexos que avaliam e avalizam os agentes segundo os patrimônios de relações herdados, além dos recursos que lhes estão disponíveis ao acionamento quando necessário para a ascensão no grupo, ou mesmo a manutenção das posições já ocupadas, determinam a aptidão ou não para o ingresso no grupo dirigente.

  Assim, as carreiras profissionais e as titulações escolares servem antes como marcadores de hierarquização ou representação úteis aos agentes apenas se conjugadas, sob a forma de subsídio, à capacidade dos mesmos em se vincularem ou pertencerem a ramos

  “tradicionais” e “especializados” não só na atividade empresarial, como também em outros espaços que possam contribuir para o controle dos mecanismos de poder. Com efeito, a organização de empresários se transforma em uma instância precípua de consagração dos membros de seu grupo dirigente, onde os recursos de natureza familiar e de amizade são apresentados e recebidos como legítimos, autenticadores definitivos da diferenciação entre os líderes e dos liderados.

  Dessa forma, a representação empresarial já está desvinculada da fiscalização direta de seus empreendimentos econômicos, tarefa que é delegada a familiares ou indivíduos de confiança, participantes ativos nos processos de seleção patronal. Tempo livre e recursos sociais suficientemente acumulados permitem o investimento em ambientes até então por si não explorados, mas de igual maneira potencialmente lucrativos, como a literatura e a política.

  “intérpretes” e suas origens sociais Para expor a sua posição frente aos temas relacionados à vida econômica, como definido em suas bases estatutárias, a Associação Comercial do

  Maranhão valia-se de diferentes meios de divulgação das próprias reivindicações e vias de acesso a outras instâncias de poder. Isso poderia ser feito abertamente por seus diretores, muitos deles ocupando cargos políticos ou administrativos, através de sua Revista ou ainda pelas assembléias ordinárias ou especiais.

  No entanto, se observa que outros agentes, que não figuram entre as suas lideranças formais, e sequer mesmo integram os quadros da entidade, falam em seu nome, apresentando as leituras de mundo e tomadas de posição emanadas de si. Isso se dá, corriqueiramente, não pela vinculação direta e explícita à instituição, mas por uma postura de apoio que surge a partir de assuntos relacionados às suas finalidades oficiais, como os decorrentes da

  “Transformação do Trabalho ”, dos “Interesses Maranhenses” e da “História do Comércio”. Esses indivíduos podem ser identificados como

  “intérpretes”, ou seja, um tipo de agente que se coloca enquanto “especialista” nas discussões de cunho econômico. São legitimados pela própria desvinculação objetiva da organização patronal, o que contribui para a credibilidade frente aos seus interlocutores, como também para o trânsito não só nessa arena de disputa, mas também outras, as quais as lideranças da entidade encontram maior dificuldade de acesso, como a literária, por exemplo.

  Assim, trata-se de “escritores” ou “literatos”, que alcançam o argumento de autoridade (GRLL, 2005; NEIBURG, 1997) a partir de obras editadas sobre os mais variados assuntos, e alguns com franca atuação no jornalismo, publicando artigos sobre política, economia, história, crônicas e poesias, o que configura uma espécie de

  “[...] competência generalista” (OFFERLÉ, 2009, p. 78, tradução nossa)

  e, curiosamente, “não-especialista”, no sentido de inexistir uma dedicação exclusiva a uma ou outra temática.

  Porém, esse domínio vai permitir aos referidos se transfigurarem como “peritos” não só frente à ACM, mas em várias outras instituições nas quais são reconhecidos e legitimados, como na Academia Maranhense de Letras, no Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão ou ainda nos poderes Executivo e Legislativo, quando ocupam cargos eletivos ou são demandados a se posicionarem quando das tomadas de decisão.

  Apesar disso, é possível se perceber que seu recrutamento e atuação cumprem a mesma lógica de formação das lideranças da Associação Comercial do Maranhão e de suas posições quando identificados os problemas, ou seja, são postos em evidência recursos como a origem social comum, os vínculos de reciprocidade e os laços de parentesco. Quando é feita a exposição do chamado conhecimento técnico, é para se realizar os interesses mais pragmáticos desses agentes, como o domínio dos lugares de onde e para quem se fala. Em João Dunshee de Abranches Moura, Fran Paxeco e Jerônimo de Viveiros, os três principais a discursar pela ACM, isso são constatados limpidamente.

  Figura 14: João Dunshee de Abranches Moura na década de 1910 Fonte: Moura (1907, não paginado)

  João Dunshee de Abranches Moura (Figura 14), ou “Dunshee de

Abranche s”, como ficou conhecido nos meios literários e políticos do Maranhão e do

  Rio de Janeiro, nasceu em São Luís no ano de 1867, e faleceu na cidade de Petrópolis em 1941. Sua desenvoltura para ambas as atividades era apontada por si mesmo como um tipo de

  Garcia de Abranches (1769-1845), alcunhado de “O Censor”, em razão do jornal que com esse nome fez circular. Chegado à antiga Província com cerca de vinte anos,

  Garcia de Abranches inicialmente laborava como relojoeiro. Em seguida abriu uma pequena casa comercial, e com ela prosperou financeiramente, ajudado por portugueses já estabelecidos na cidade.

  Envolvido profundamente nas lutas pela Independência, defendia a posição lusitana, o que lhe rendeu um ostracismo político durante o Primeiro Reinado. Dunshee de Abranches não o conheceu pessoalmente, mas leu diversos escritos de sua autoria guardados na casa da família, inclusive a primeira parte editada da obra

  “Espelho Crítico-Político da Província do Maranhão”, de 1822: Essas páginas pungentes do Espelho crítico, escritas por meu avô em pleno regímen colonial, causaram-me profunda impressão. No meu cérebro infantil, surgiu desde logo a idéia de escrever um dia os dramas do cativeiro em Maranhão, sob o título pomposo de Negreiros, feitores e capitães-do- mato [...] (MOURA, 1992, p. 24).

  Um irmão do seu pai, Antônio da Silva Moura, também havia se envolvido em disputas políticas, ainda quando residia no exterior:

  Nascido em Portugal, mas educado na França desde tenra idade por seu tio e padrinho, ali domiciliado, o meu extremoso progenitor fora forçado, como estudante em Paris, a tomar armas por ocasião das barricadas (MOURA, 1992, p. 15).

  Sua avó materna era proprietária de uma escola para moças chamada de “Colégio Nossa Senhora da Glória”, localizada inicialmente na Rua do Giz e posteriormente transferida para a casa dos Abranches Moura, na Rua do Sol. Além dos cursos regulares, promovia saraus literários e artísticos que atraíam poetas, escritores, pintores e músicos. Um amigo muito próximo da família era o

  “jornalista”, empresário e diretor da Associação Comercial do Maranhão, Temístocles Aranha, que, em não menos de uma oportunidade, noticiava em seu periódico

  “O País” eventos realizados pelo colégio (MOURA, 1992, p. 98). O capital de relações constituído por seus antecedentes, além do processo de socialização por ele experimentado, permitiu a Dunshee de Abranches formar um círculo de amizades com outros jovens pertencentes às elites políticas e econômicas locais.

  Carlos Moreira da Silva, filho do Visconde Itaqui, Domingos Coco Ribeiro e Francisco Nina, que eram inseparáveis, quiseram juntar-se ao nosso grupo, entrando na luta pela redenção dos cativos [...]. Resolvemos então, com o auxílio de alguns colegas endinheirados, como Domingos Coco Ribeiro, Álvaro Sá e Carlos Moreira da Silva, alugar uma meia morada à Rua dos

  Afogados em face da Travessa do Teatro, para ali reunir livremente o Diretório dos Cinco, como passamos a designar-nos e acoutar os escravos que quisessem fugir para o Ceará (MOURA, 1992, p. 132 - 147).

  Nesse tempo, Dunshee de Abranches contava quinze anos, um pouco mais, ou menos. No entanto, essa não era, propriamente, uma idade precoce para se principiar o manejo de temas políticos. A produção e o recrutamento de lideranças nessa esfera, tal como se verificou no caso das elites econômicas, se dá logo após a infância ou durante a puberdade. Os chamados

  “caixeiros”, por exemplo, aprendizes do comércio, eram engajados na vida cotidiana do estabelecimento a partir dos oito ou dez anos. Entre os quinze e dezoito, já deveriam estar relativamente aptos a assumir os postos de comando. Isso terminava por contribuir, com grande força, para que posteriormente o agente e os indivíduos que em seu entorno conviviam, acreditassem em uma

  “vocação” natural para aquela profissão. Como observou Canêdo (1991, p. 233):

  Cumprimentar convidados, parentes e amigos, aprender a sorrir, deixar brinquedos e freqüentar festas de casamento [...], escutar distraidamente conversações de políticos, acompanhar o trabalho os eleitores e a “elevação da temperatura” na vida familiar às vésperas das eleições, perceber os pequenos cuidados necessários para dominar os detalhes do jogo básico do homem político, tudo isso faz parte da conduta regular de uma criança e representa a forma a forma de capital mais importante dentre todas as que constituem investimento para o sucesso na carreira política.

  Assim, no caso de Dunshee de Abranches, a subsidiar grandemente seu ingresso na arena política, havia o “legado” deixado pelo avô, o convívio dentro do lar com profissionais liberais contrários ao regime de trabalho servil e à monarquia, além do incentivo dos pais na aproximação do filho com esses últimos, sob o credo de que isso fortaleceria sua

  “educação”. Já aos dezessete anos, enquanto se dirigia para o Rio de Janeiro a fim de ingressar em um curso superior, durante uma escala na cidade de Fortaleza, conheceu o abolicionista José Correia do Amaral, tido como um dos responsáveis pelo fim da escravidão no Ceará. Na oportunidade,

  [...] ao receber-me com a hospitalidade inata dos nortistas, fixou a vista sobre o cartão, com o que me anunciara, e encarou-me um tanto surpreendido...

  • – Acha-me muito criança? Indaguei. – Não senhor; aqui pelo Ceará, há muitos mocinhos abolicionistas também [...] (MOURA, 1992, p. 164).

  Uma vez na Corte, hospedou-se em uma república onde reconheceu um ator que havia estado em São Luís, e que lá mantivera um caso amoroso com uma dama, cujo marido, rico empresário, estava em viagem de negócios a Portugal. O caso havia sido comentado em sua residência, e ele conhecia os detalhes da trama. As relações

  “amistosas” com o referido, Eugênio de Magalhães, proporcionaram a Dunshee de Abranches o acesso aos teatros da cidade, além de ser apresentado a pessoas de influência na capital do Império.

  Foi assim que Lucinda Simões me aproximou de Sizenando Nabuco; e este me fez conhecido não só do seu glorioso irmão, o grande Joaquim Nabuco, como de Patrocínio, João Clapp, Campos da Paz e outros ardorosos agitadores da época. Também nessas rodas que, depois das dez horas noite, se viam nos jardins das casas de espetáculos, duas figuras que bastante me interessaram: o Conselheiro Silveira da Mota e Paula Ney, cujo espírito revolucionário de nortista muito se assemelhava ao meu. Naquele emérito parlamentar e homem de letras, pai do Barão de Jaceguay [...] achei um admirável mestre da história política de nossa Pátria (MOURA, 1992, p. 175).

  Após a queda da monarquia, os que se ajustaram à nova forma de governo foram de grande valia para o recebimento de Dunshee de Abranches nas mais elevadas instâncias de poder na capital federal durante seu mandato de deputado no

  “Governo Provisório” de Deodoro da Fonseca. No mais, retornara ao Maranhão ainda no Império. Após a conclusão do curso de direito, participa ativamente do processo de emancipação do trabalho escravo, fazendo comícios e promovendo encontros de abolicionistas e republicanos em torno de um grupo por ele fundado sob o título de

  “Centro Artístico Abolicionista Maranhense”. Quando noticiada a assinatura da Lei Áurea, toma parte em uma reunião na Câmara Municipal, onde estavam presentes os principais líderes políticos da

  Província.

  No dia seguinte, após a oferta da pena de ouro, feita por mim em Palácio, como orador oficial do Centro Artístico Abolicionista Maranhense, ao presidente da Província, a fim de assinar os comunicados da decretação da lei redentora aos municípios do interior, realizava-se no Teatro São Luís o festival acadêmico (MOURA, 1992, p. 196).

  Nessa ocasião, Dunshee de Abranches havia proferido um discurso em favor dos cativos e, sob essa alegação, foi convidado pelo presidente da Província, José Moreira Alves da Silva, a participar de um almoço de agradecimento no Palácio dos Leões. Entrando na sede do governo.

  [...] uma jovem de vinte anos aproximara-se de mim, abraçando-me e conduzindo-me à presença do presidente da Província: „Aqui tem, Dr. Moreira Alves, disse-lhe sorrindo alegremente, um dos heróis do dia; já era abolicionista e revolucionário aos onze anos de idade [...]

  ‟. Era a filha mais moça do comendador Casusa Lopes, a minha boa companheira de infância,

  naquela hora, noiva do Comandante Barros Barreto, parente próximo do presidente (MOURA, 1992, p. 197).

  Dunshee de Abranches tinha em Moreira Alves um aliado político, através da influência do Barão de Grajaú, que contribuíra diretamente para a sua nomeação como promotor de justiça, justamente em um de seus redutos eleitorais mais fortes, a vila de Grajaú. Mas ainda pouco antes disso, após o fim do trabalho escravo, a perda patrimonial de muitos lavradores teria se agravado com a célere extração de braços para os seringais da Amazônia, cuja economia estava em franca expansão. Assim, o governo provincial, através de Moreira Alves, convocou uma audiência com os principais empresários locais, incluindo-se comerciantes, industriais, agricultores e banqueiros para deliberarem sobre as soluções possíveis de adoção naquele cenário. De pronto a ACM se engajou nos debates e abriu um concurso monográfico com prêmio em dinheiro para quem melhor desenvolvesse uma estratégia prática de transformação do trabalho compulsório ao remunerado.

  Dunshee de Abranches informa que redigira a sua memória, de mais de sessenta páginas, em “[...] menos de uma semana [...]” (MOURA, 1993, p. 34), isso como uma prova indelével de seu conhecimento técnico, adequado ao que a instituição demandava. Quando pronta, fizera a leitura da mesma em uma

  “[...] reunião íntima [...] ” com vários diretores da Associação Comercial, dentre eles

  Theodoro José de Abreu Sobrinho, Cirino Ribeiro, Anacleto Tavares, Ramiro Costa e Cândido César da Silva Rios, este vereador de São Luís. A opinião geral foi que o texto em questão, intitulado

  “Transformação do Trabalho: memória apresentada à

  Associação Comercial do Maranhão

  ” seria o vencedor. Contudo, a sua articulação tinha a concorrência de outra talvez mais forte, tocada pelo consultor jurídico e secretário da própria ACM, a quem Dunshee de Abranches se refere em flagrante desprezo e com o objetivo de desqualificá-lo, sob a identificação de

  “[...] Dr. Faboca, apelido familiar com que era conhecido ilustre advogado [...] ”, e que se dizia já ser antecipadamente o ganhador do prêmio (MOURA, 1993, p. 35, grifo nosso). No dia da abertura da sessão de premiação, Dunshee de Abranches discursa enfatizando os trunfos que dispunha para colocar em jogo naquele momento, ou seja, os laços de parentesco e os vínculos de reciprocidade.

  Ao contrário do que se murmurava, fui logo declarando que os representantes, ali presentes, do alto comércio maranhense, decerto não estranhariam a intervenção neste magno debate de um moço de vinte anos. Poderia talvez dizer sem errar que algumas figuras respeitáveis que via em

  minha frente haviam passado pelo balcão da casa comercial de meu pai. E que este fora seu patrão e seu mestre, não somente me instruíra em escrituração mercantil como me despertara o gosto pelos estudos de Economia Política e Finanças. Descendia também de uma família de lavradores e industriais, e tinha orgulho de recordar ali que, há setenta anos passados, já o meu avô, Garcia de Abranches, o Censor, chamava a atenção dos governos e governados do Brasil para o gravíssimo erro de se querer colonizar o País com os negros da Costa da África, reduzidos à

mísera condição de escravos (MOURA, 1993, p. 36).

  Como que o consultor jurídico da Associação Comercial se manifestasse apresentando sua obra, informando também que recebera outras ainda naquele dia, e que por esse motivo seriam incluídas na análise da comissão de empresários, a divulgação do nome do ganhador se daria pela imprensa. Dunshee de Abranches relata que, pelos aplausos e congratulações que recebera, aguardava ser o vitorioso:

  “[...] o prêmio anunciado não poderia deixar de me ser conferido.” (MOURA, 1993, p. 38). Entretanto, a

  “memória” vencedora foi outra. A ACM divulgara que Dunshee de Abranches não poderia receber a premiação, apesar da qualidade de seu texto, porque ele havia fugido aos fins previstos do certame. O escritor atribuiu a responsabilidade de sua derrota não ao debate técnico, mas à

  “[...] má vontade dos escravocratas de São Luís contra um de seus adversários na campanha abolicionista [...]

  ” (MOURA, 1993, p. 35), que serrariam também as fileiras da entidade. Assim mesmo, a sua

  “Transformação do Trabalho” foi editada pela Tipographia da Pacotilha em 1888 por dois amigos empresários,

  “[...] em sinal de desagravo da parte sã e culta do comércio maranhense ” (MOURA, 1993, p. 39, grifo nosso). Apesar do bloqueio inicial por parte da ACM, nem por isso Dunshee de

  Abranches deixou de falar pelo empresariado quando ocupou cadeira no parlamento federal, isso conforme os interesses dos agentes com os quais mantinha vínculos de reciprocidade.

  Figura 15: Fran Paxeco Fonte: Paxeco (2008)

  Manuel Fran Paxeco (Figura 15) nasceu em Setúbal, Portugal, no ano de 1874, sendo batizado Manuel Francisco Pacheco. Faleceu na cidade de Lisboa em 1952. Aos quatorze anos começa a trabalhar em uma tipografia da família, e edita um periódico chamado

  “Gazeta Setubalense”. A atividade de jornalista o aproxima de elementos contrários à monarquia portuguesa, pelo que, ainda jovem, se torna republicano. No jornal

  “A Vanguarda” publica uma nota sobre o rei D. Carlos, que é tomada por ofensiva. De imediato encontra-se uma forma de anulá-lo politicamente. Descobre-se que estava inscrito no corpo de reservistas do exército, e o artigo torna-se prova de um processo judicial militar, cuja acusação era indisciplina. Após consultar amigos e advogados, foi aconselhado a exilar-se. Para tanto, saindo secretamente de navio a partir de Setúbal, ainda deveria passar por Lisboa enquanto parada obrigatória da embarcação. Como não fosse isso conveniente para sua segurança, desembarca antes, e parte até Gibraltar, e de lá para o Rio de Janeiro.

  Uma vez na Capital Federal, logo após a proclamação da república brasileira, é recebido por comerciantes e industriais portugueses abastados, que lhe parte para Manaus, o centro econômico do norte do Brasil, exatamente no período de grande prosperidade da borracha, e para onde aflui número considerável de imigrantes, a maioria, lusitanos. Na capital do Amazonas conhece negociantes maranhenses de origem portuguesa que forneciam produtos alimentícios como farinha e arroz, além de tecidos de suas fábricas têxteis ao mercado local. É convidado a visitar São Luís e, acolhido pelos empresários portugueses residentes, fixa-se em maio de 1900.

  Constitui família através do casamento com a ludovicense Isabel Eugênia de Azevedo Fernandes, cujos pais eram comerciantes e com quem teve uma filha, Elza Pacheco. Até o início da década de 1910, além do jornalismo, desenvolve diversas atividades de natureza cultural. Publica em São Luís vários artigos e livros sobre história, geografia, política e economia, dentre os quais

  “O Sr. Sílvio Romero e a literatura portuguez a” (São Luís do Maranhão, A. P. Ramos d'Almeida, 1900); “O

  Maranhão e os Seus Recursos ” (São Luís do Maranhão, 1902); “Os interesses maranhenses

  ” (São Luís do Maranhão, A Revista do Norte, 1904, XXVIII); “A literatura portugueza na Idade Média: conferência ” (São Luís do Maranhão,

  Universidade Popular do Maranhão, 1909); “O Maranhão: subsídios históricos e corográficos

  ” (São Luís do Maranhão, 1912) e “Os Braganças e a restauração” (São Luís do Maranhão, Tipografia da Pacotilha, 1912). Organiza o grupo de literatos chamado de Oficina dos Novos, que em 1908 dará origem à Academia Maranhense de Letras, da qual se torna membro fundador e patrono. Inaugura também a Legião dos Atenienses, o Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, a Universidade Popular e o Curso de Direito do Maranhão. Dentre as organizações em que foi participante, duas merecem uma atenção especial: o Centro Republicano Português do Maranhão e a própria Associação Comercial do Maranhão.

  O primeiro foi organizado ainda no fim do século dezenove, com o propósito de apoiar não só a consolidação da república proclamada no Brasil como de, através dos seus membros, ricos comerciantes e industriais, articular a intermediação com agentes políticos dentro do país e em Portugal para promover a mudança de regime nesse último também. Atuando pelo Centro Republicano Português do Maranhão, Fran Paxeco mantinha ativa correspondência com Joaquim Teófilo Fernandes Braga, ou Teófilo Braga, escritor e um dos líderes do Partido Republicano Português a partir de 1878.

  O processo de substituição efetiva do poder em Portugal se inicia em 1908 com o assassinato do rei e de seu herdeiro imediato, e se conclui com a as revoltas populares que conduzem à deposição de Manuel II em 1910. Teófilo Braga ascende à chefia do governo provisório e, no mesmo ano, Fran Paxeco é nomeado diretamente por ele cônsul de Portugal no Maranhão, cargo antes ocupado por seu conterrâneo e confrade maçônico, o comerciante e industrial Francisco Coelho Aguiar. Passa apenas mais três anos no Estado, quando é chamado a trabalhar com o embaixador português no Rio de Janeiro. A partir de 1916, assessora o presidente de Portugal e onde permanece até 1923, nomeado novamente cônsul no Brasil, desta vez na cidade de Belém, ocupando esse cargo por dois anos.

  Mesmo estando em Portugal como secretário particular do presidente Bernardino Machado, pediu que conservasse o cargo de cônsul no Maranhão, ainda que aquele consulado fosse presidido já por outro representante. Isso, no entanto, foi conseguido através de uma nomeação como

  “Cônsul de Segunda Classe”, em 1914. Esse fato, juntamente como as supostas recusas de Fran Paxeco em assumir outras representações diplomáticas de maior destaque do que a maranhense, quando residia no Estado, é apontado por seus biógrafos como prova de seu

  “amor” pelo Maranhão (LUZ, 1957). Objetivamente, Fran Paxeco estabeleceu laços de reciprocidade e parentesco com membros diretores da ACM, como já se viu, de marcada presença portuguesa. A origem patrícia comum a alguns de seus líderes proporcionou a aproximação com os referidos e seu ingresso na instituição como um mediador entre ela e outras instâncias de poder locais, exercendo a função de secretário externo. No ponto, quem o convida para ocupar a pasta em questão não é um português, mas o maranhense da então vila de Guimarães, Manoel Ignácio Dias Vieira, presidente da entidade e um dos principais políticos da época. A indicação, contudo, parte do comerciante lusitano e amigo de Fran Paxeco, Pedro Freire.

  Assim, a Associação Comercial financiou a edição de várias obras suas, no período em que se ocupava apenas do jornalismo. Por outro lado, ele retribuía elaborando trabalhos sobre economia-política, divulgando a entidade como instância precípua de representação do empresariado e dos negócios afetos ao desenvolvimento do Maranhão, enquanto seus líderes figuravam como a personificação do empreendedorismo e do conhecimento técnico aplicado. Por exemplo, em 1904, os empresários Cândido José Ribeiro, Chrispim Alves dos

  Santos, João Alves dos Santos e João de Aguiar Almeida, todos ocupantes de cargos elevados na ACM, arcaram com as despesas de impressão e divulgação da monografia

  “Os Interesses Maranhenses”, onde Paxeco demonstra a evolução da balança comercial local, identifica problemas e apresenta soluções para a melhoria da atividade econômica, inclusive conforme os apontamentos da própria instituição sobre o tema.

  Nesse ponto, é de se notar que os discursos laudatórios sobre Fran Paxeco cumprem, na Academia Maranhense de Letras, função semelhante aos produzidos pela Associação Comercial do Maranhão com relação a seus fundadores. Nesse caso específico, o indivíduo é sublimado através da divulgação de seus dons, pretensamente inatos e extraordinários, não só à literatura, como a toda sorte de

  “[...] iniciativas relevantes [...]” (PAXECO, 2008, p. 12). Fala-se, pois, ainda hodiernamente, em um sujeito “[...] precocemente vocacionado para as letras

  [...] ”, membro de uma “[...] constelação de talentos realmente privilegiados [...]”, portador de um

  “[...] entusiasmo inquebrantável [...]” e de um “[...] tirocínio, visão de mundo e uma cultura que se revelam imprescindíveis [...] ” (PAXECO, 2008, p. 12). Notoriamente, Fran Paxeco, em boa parte das instituições da qual participou, exerceu a mediação entre elas e outras arenas de disputa pelo poder e legitimação. As suas ligações com a República Portuguesa contribuíram para o fácil acesso ao Palácio dos Leões, o que proporcionava uma aproximação muito estreita da entidade de empresários com a esfera política. No mais, o congraçamento do referido com as lideranças políticas, literárias e empresariais, cada qual no interior de sua própria organização, favoreceu a formação de uma personalidade

  “unânime”, bem quista e aceita por onde transitasse. Durante a pesquisa, tivemos a oportunidade de manusear uma documentação chegada ao Maranhão há não mais que três anos, da mais alta relevância para qualquer estudo sobre Fran Paxeco. Trata-se de um álbum de fotografias carte de visite e cabinet portrait, não publicado e pertencente ao acervo particular de um descendente da junção de duas famílias de comerciantes portugueses e diretores da ACM: Manoel Coelho Pecegueiro Júnior (Figura 16) e Arnaldo Júlio Correia. O caderno de imagens foi montado pelo próprio Fran Paxeco com fotografias enviadas por seus amigos, todas com dedicatórias no verso, um costume comum durante o século dezenove e por muitos anos da centúria seguinte.

  O primeiro retrato, não casualmente, é de Teófilo Braga, acompanhado de uma mensagem de agradecimento e felicitações.

  Figura 16: Manoel Coelho Pecegueiro Júnior Fonte: Geneall net (2000-2011)

  A ele se seguem diversos outros, de escritores, jornalistas, empresários e poetas, inclusive o pouco lido José Américo Augusto Olímpio Cavalcanti de Albuquerque Maranhão Sobrinho, autor do livro

  “Papéis velhos... roídos pela traça

  do Símbolo ” e um dos principais autores do chamado “Simbolismo” no Brasil.

  Maranhão Sobrinho nascera no município de Barra do Corda e morreu ainda jovem, em condições de miserabilidade em Manaus, onde conhecera Fran Paxeco, um dos incentivadores da publicação da citada obra, que possui apenas duas edições, uma de época e outra do ano de 1999. Notável também é a foto de um

  “jantar de despedida ” realizado na sede do Governo do Estado por ocasião da partida de Fran

  Paxeco para Portugal. Na cerimônia ladeiam-no chefes dos poderes executivo e legislativo, diretores da ACM e membros da Academia Maranhense de Letras.

  Há uma explicação para o fato desse acervo hoje se encontrar no Maranhão. Manoel Coelho Pecegueiro Júnior, apesar de ser um

  “[...] monarquista atu ante” (RESENDE, 2010), muito apoiara Fran Paxeco quando este se instalara em

  São Luís. Uma neta sua, Rosa Pacheco Machado, ao visitar a cidade em 2008, foi convidada pelo então presidente da Academia Maranhense de Letras a integrar os quadros da entidade, como sócia correspondente em Lisboa. De início, Rosa Pacheco Machado declinou do convite alegando incompatibilidade com suas atividades profissionais, mas o aceitara em outubro de 2010. Naquela pretérita oportunidade, foi recebida pelo mencionado descendente do empresário, que foi recompensado, em doação, com grande número de objetos pertencentes à Fran Paxeco, inclusive o álbum. Rosa Pacheco Machado não publicou qualquer livro, mas sua

  “capacidade intelectual”, bem como sua ascendência, justificaram a nomeação:

  SÃO LUÍS - Uma solenidade de muita gratidão vai ser realizada, hoje (14), à noite na Academia Maranhense de Letras (AML), em São Luís. Os integrantes da AML decidiram homenagear a bibliotecária portuguesa Rosa Pacheco Machado, neta do escritor Fran Pacheco, fundador da Academia. [...] Ela é portuguesa e tem 64 anos de idade. Rosa Pacheco Machado, bibliotecária com mestrado em Ciências Documentais pela Academia de Ciências de Lisboa, está prestes a assumir a cadeira de número cinco, na casa de Antônio Lôbo. O convite foi feito pelos acadêmicos no ano passado, quando Rosa esteve em São Luís pela primeira vez. As ligações da intelectual com a AML começaram no início do século 20. A história da futura imortal com a AML é bem antiga: foi o avô dela, Fran Pacheco, que fundou a Casa, em 1908, em São Luís. Além disso, Rosa é filha do nobre escritor português José Pedro Machado e da intelectual maranhense Elza Pacheco. O pai é considerado, ainda hoje, um dos maiores dicionaristas do mundo. A mãe foi a primeira mulher a receber o título de doutora na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Com a literatura na veia, a Rosa portuguesa se prepara para imortalizar seu nome, seguindo os passos dos pais (RÊGO; NAZARÉ, 2010, p. 1).

  Com razão, se verifica que a importância simbólica de Fran Paxeco enquanto antepassado biológico é de uma tal grandeza que um de seus descendentes, mesmo sem qualquer publicação literária que não a de nível acadêmico, conseguiu se incluir em uma organização, ao menos oficialmente, destinada a receber e promover escritores. Ademais, constata-se também que uma origem geográfica comum, os laços de parentesco e os vínculos de reciprocidade, são os recursos que permitiram a Fran Paxeco se afirmar como mediador de vários tipos de elites locais, entre elas e outros níveis de poder equivalentes ou superiores.

  Jerônimo José de Viveiros nasceu em São Luís a 11 de agosto de 1884 e faleceu na mesma cidade no ano de 1965. Diferentemente de seus ancestrais paternos, não foi agricultor, comerciante ou industrial, e nem ocupou qualquer cargo eletivo. Ao contrário, exerceu apenas a docência de história no Liceu Maranhense, mesma escola onde havia estudado, e em algumas oportunidades o cargo de Diretor de Instrução Pública. Foi aluno do escritor Antônio Lobo, um dos fundadores da

  Academia Maranhense de Letras. Uma nota biográfica informa que ele teria sido seu “discípulo” (VIVEIROS, 1954, “orelha”). Inscrevera-se na Faculdade de Ciências Jurídicas do Rio de Janeiro, mas por questões financeiras, foi forçado a abandoná-la no penúltimo ano.

  Escreveu diversos livros sobre personalidades, economia, política e história maranhenses, tornando-se membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM), e da Academia Maranhense de Letras, em período cronológico posterior à Fran Paxeco. Nessa última instituição, o enaltecimento de sua personalidade é feito através da exposição de

  “dons” a ele pertencentes e teoricamente incomuns, como o “[...] estilo claro, escorreito e eficaz” (VIVEIROS,

  1999, p. 10). Viveiros (199, p. 10) também é frequentemente identificado como “historiador” (RIOS, 2010, grifo nosso), ainda que não portasse diploma em tal área de conhecimento, ou em qualquer outra.

  Na primeira edição da História do Comércio do Maranhão, em uma nota biográfica laudatória

  • – de autor não identificado – é apresentado como “Nome sobejamente conhecido nos meios intelectuais do Maranhão e do Brasil ”, e

  “Infatigável no trabalho, de competência insuspeita”, cujo “[...] estilo inconfundível de simplicidade, quando escreve o faz sem retoques, sem paradas bruscas para medir. As idéias já estão ordenadas. É homem que transpõe para o papel o que já está perfeitamente e amadurecido no pensamento [...

  ]” (VIVEIROS, 1954, “orelha”). Nesse sentido, o articulista pretende demonstrar que a intelectualidade do escritor é nata, e completamente independente dos títulos acadêmicos, em clara intenção de legitimá-lo.

  Digno de constatação é o fato de se descrever o local de nascimento do referido, “[...] num velho e formoso sobrado da Rua de Santo Antônio, antigo solar de seus avós [...], os Barões de São B ento” (VIVEIROS, 1954, “orelha”). Não sem propósito, é citada a ascendência familiar porque ela é um fortíssimo subsídio de autenticação social para Viveiros, haja vista a inserção e o domínio, por parte de seus ancestrais, ainda naquela época não tão remotos, em diversos postos de liderança política e cultural. Isso é corroborado inclusive por seu próprio nome de batismo, absolutamente idêntico ao do pai, Jerônimo José de Viveiros (1847-1884) médico formado em Portugal e do bisavô, Jerônimo José de Viveiros (1780-1857), senador do Império e abastado lavrador em Alcântara.

  Os elogios a Viveiros culminam na comparação em equivalência a outros escritores consagrados como “ícones” da pretensa erudição oitocentista local, como

  “[...] sabedores da história do Maranhão, pertencendo à estirpe famosa dos Cândido Mendes, João Lisboa e César Marques ” (VIVEIROS, 1954, “orelha”).

  A falta de titulação acadêmica, porém, ao menos para quem fala em nome da Academia Maranhense de Letras, como o fez seu presidente Jomar Moraes no ano de 1999, não teria sido um obstáculo para o seu reconhecimento público enquanto

  “intelectual” e, menos ainda, um impeditivo para o ingresso na referida instituição, porque “[...] superou tal circunstância, aliando talento à vocação, o empenho de aturados e sistemáticos estudos

  ” (VIVEIROS, 1999, p. 10). Dois livros da autoria de Viveiros têm importância objetiva para a presente análise, são eles a

  “História do Comércio do Maranhão” (VIVEIROS, 1954), em três volumes, e “Alcântara no seu passado econômico, social e político”. O primeiro, “[...] realmente monumental, para os nossos padrões domésticos [...

  ]” (VIVEIROS, 1999, p. 9), importou na inclusão de seu autor como um agente autorizado a falar em nome da ACM, posto que, nos segundo e terceiro volumes, cita amplamente as ações da instituição frente aos temas relacionados às finanças e às lutas políticas, a partir de uma ordem cronológica do desenvolvimento da atividade comercial (VIVEIROS, 1954; 1964).

  Mais que isso, os seus líderes são trazidos ao texto como portadores de “propósitos elevados” e desinteressados dos benefícios individuais, sempre menores que os da coletividade (VIVEIROS, 1954), em uma franca perspectiva de heroicização. Não por coincidência, são trazidas fotos dos diretores contemporâneos à publicação da História do Comércio, bem como daqueles que, tendo ocupado a liderança da entidade em tempo pretérito, foram os ascendentes diretos do próprio autor, como José Francisco de Viveiros (1840-1903), este por sua vez

  “Descendente do Barão de São Bento e proprietário do engenho „Tramaúba‟, em Penalva” (VIVEIROS, 1954, p. 518 - 519).

  Tudo isso pode ser compreendido pelos condicionantes pertinentes à elaboração da citada obra. De um lado, o financiamento da pesquisa e edição inteiramente sob o encargo da ACM, na década de 1950, período de grande aproximação da instituição com o Governo do Estado. Na verdade, Viveiros teria concorrido a um certame promovido pela entidade por ocasião de seu centenário, e que visava premiar o melhor trabalho sobre a origem e o desenvolvimento da atividade comercial no Maranhão. De outro, o pertencimento do autor a uma “linhagem” de ricos empresários e políticos do Império e primeiros anos da república.

  A importância da afirmação do legado familiar recebido por Jerônimo de Viveiros foi bem demonstrada por si mesmo no livro

  “Alcântara no seu passado econômico, social e polític o” (VIVEIROS, 1999). Ao abordar temas relacionados à história daquela que é uma das mais antigas povoações maranhenses, Viveiros lista o nome de 23

  “Figuras Alcantarenses”, sendo que aproximadamente ¼ delas são seus ascendentes diretos. Dividindo-se os demais entre as famílias Borba, Coutinho, Gomes de Castro, Seixas, Serrão, Franco de Sá, Maia, Guimarães e Guterres, a sua é a que mais aparece por todo o texto, e a que é mais retratada.

  Ao redigir a biografia do Barão de São Bento, Francisco Mariano de Viveiros Sobrinho (1819-1860), bacharel em matemática pela Universidade de Coimbra, informa que ele teria se graduado com menos de vinte anos, e com um “[...] atestado dizendo: que na tinha dado uma só falta em todo o seu curso, que as notas haviam sido sempre as melhores, bem como exemplaríssima a sua conduta civil e literári a” (VIVEIROS, 1999, p. 129). A ênfase em demonstrar o tipo de formação acadêmica e os modos como foi obtida, tem a finalidade de indicar uma capacidade intelectual no mínimo diferenciada, posto que é absolutamente diminuto o número de graduados nessa área, sendo muito maior a quantidade de indivíduos formados em direito ou medicina. Provavelmente, a procura pelo curso de matemática, nesse caso, sem nenhuma aplicabilidade às atividades desenvolvidas por seu portador, estivesse relacionada às estratégias do agente na esfera política, posto que o chefe da facção adversária, o também alcantarense, Carlos Fernando Ribeiro (1815-1889), possuía três graduações, as duas mais comuns e uma em agronomia pela Universidade de Yale, nos Estados Unidos.

  Contemporâneo a Viveiros Sobrinho, era o também matemático Joaquim Gomes de Souza (1829-1864), igualmente graduado com menos de vinte anos, pertencente a uma das mais ricas famílias de lavradores da região do Itapecuru, mas residente na Europa e com uma breve passagem pela Assembléia Geral do Império como representante do Maranhão. Já naquele período era identificado como “[...] talvez a inteligência mais elevada que esta terra tenha produzido [...]” (AMBROSIO, 2010, p. 1), tendo publicado vários trabalhos, na Inglaterra, França e Alemanha, inclusive uma dissertação sobre equações diferenciais, ainda atualmente aplicáveis.

  O Barão de São Bento era membro do Partido Conservador, e foi deputado tanto na Assembléia Provincial do Maranhão, quanto na Assembléia Geral do Império, construindo uma carreira política na esteia das articulações conduzidas por seu pai, o senador Jerônimo José de Viveiros. Nas eleições para a Assembléia Geral em 1856, Jerônimo José de Viveiros (Figura 17) indicou seu filho para disputar uma das vagas sob a legenda do Partido Conservador, enquanto apoiava também João Pedro Dias Vieira, da vila de Guimarães, e membro da

  “oposição” Liberal, para a outra. João Pedro, que depois ocuparia pastas importantes no Segundo Reinado, apesar da filiação partidária comum, não tinha ligações com Carlos Fernando Ribeiro. No dia do pleito,

  “[...] os Viveiros despejaram seus votos em Dias Vieira, fazendo o barão de Grajaú amargar dura derrot a” (COUTINHO, 2005, p. 316).

  Figura 17: Jerônimo José de Viveiros (Senador do Império, com fardão e comendas. Década de 1860) Fonte: Acervo pessoal do autor

  Por fim, se verifica que os legados familiares e os laços de reciprocidade e parentesco, não apenas no caso de Jerônimo José de Viveiros, como também nos demais, são construídos, apresentados e utilizados como recursos válidos para a legitimação

  “técnica” dos agentes relacionados à elite econômica em estudo, muito mais do que a fluência em uma ou outra área do conhecimento acadêmico. Isso de igual maneira franqueará o ingresso, permanência e reconhecimento não apenas em uma, mas simultaneamente em diversas instâncias de poder que, segundo suas próprias configurações, tem esses elementos como de fundamental importância para a seleção e reprodução tanto de suas lideranças quanto daqueles a que a elas se vinculam.

  Como anteriormente dito, as redes de reciprocidade, o legado familiar e o crédito social deles decorrentes, atribuídos em conjunto a certos indivíduos e por eles reproduzidos e redimensionados, são contribuintes importantes para o estabelecimento e permanência de longas carreiras dedicadas à administração da Associação Comercial do Maranhão.

  A isso, porém, somam-se vários outros elementos, também fundamentais para o processo de legitimação da liderança institucional e da própria entidade, incluindo-se as características da atuação

  “profissional” dos agentes que a representam publicamente, que passam a figurar enquanto empresários de sucesso, bem como a capacidade de desenvoltura dos mesmos no estabelecimento do diálogo de intermediação com outras instâncias de poder.

  No mesmo sentido, a ACM, através de suas diretorias, e pelos veículos de comunicação por si produzidos ou financiados, fomenta a mobilização de seus membros e de outros indivíduos que lhe são exteriores, mas que com ela mantém algum tipo de relação. Isso se dá em prol de interesses que são a rigor apresentados como gerais e unânimes, no entanto, objetivamente, se afiguram como demandas particulares emanadas de setores específicos de seus quadros.

  De uma ou outra forma, a ocupação das posições de comando na entidade, e não apenas nela, mas em várias outras dedicadas a diferentes segmentos sociais, permitiu que alguns de seus diretores construíssem capital político suficiente a disputar e vencer pleitos eleitorais, inclusive reconvertendo investimentos para a formação de carreiras políticas relativamente duráveis. O presente capítulo tenta demonstrar essa operacionalização.

  Nos últimos anos do século dezenove e por pelo menos durante as primeiras três décadas do seguinte, na Associação Comercial do Maranhão se verificou a frequente reeleição de suas diretorias, o que redundou em mandatos contínuos de oito, dez e mesmo dezenove anos, no caso mais extremo, de José João de Sousa. A Tabela 5 demonstra o fato:

  • Presidente

  18

  4

  1 Primeiro Secretário

  13 - - -

  9 Tesoureiro - -

  4 10 - - - Vogal

  1

  2

  10 Vice-Presidente

  5 1 -

  2 Total 29 anos 22 anos 19 anos 15 anos 14 anos 11 anos 11 anos Tabela 5: Tempo de Mandato, Cargo e Quantidade de Diretores 10 Tempo de Mandato/Cargo

  Presidente Vice-Presidente Primeiro Secretário Segundo Secretário

  Tesoureiro Vogal Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1925-1940); Viveiros (1954)

  Ainda que longeva, a ocupação de determinado cargo por um diretor não significa que tenha sido aquele o único posto a dedicar suas atenções. Por exemplo, José João de Sousa, mesmo exercendo a presidência da Associação Comercial do Maranhão por praticamente vinte anos, passou outros oito como Vice-Presidente. Isso bem demonstra como o monopólio da representação do empresariado poderia ser de fato explícito. Veja-se a Tabela 6 que segue, para os diretores com dez anos ou mais de mandatos, e mais de um cargo, somados:

  Tabela 6: Ocupação Geral de Cargos por Diretor (em anos) Carlos r

  8 4 -

  19 - - - -

  Fonte: Revista da Associação do Maranhão (1925-1940); Viveiros (1954) 10

  3 2 - 23 -

  1-3 Anos 4-6 Anos 7-9 Anos 10 ou + Anos

  13 3 -

  2

  19

  4 2 -

  21

  2

  1 Cargos/ Diretor José João de Sousa José Alves Martins de Sousa José Francisc o Jorge Soares de Oliveira Neves Manoel Sátiro Lopes de Carvalho João Alves dos Santos Manoel Coelho Peceguei o Júnior

  1

  18 4 -

  2

  79

  13

  1

  • 9 - - Segundo Secretário 1 -
Nesse ponto, Offerlé (2009, p. 10, tradução nossa) apresenta algumas indagações pertinentes que relacionam o ofício da representação do segmento com as características e interesses dos agentes ocupantes dos cargos de liderança. Elas abordam três figuras distintas e que comportam a necessidade de uma análise mais detida:

  “Uma organização patronal é uma compensação para os empresários menos bem dotados, um instrumento suplementar confortando a dominação dos mais dominantes, ou uma burocracia à mão dos permanentes

  ?” Tais questões são postas em confronto a uma série de motivos consignados por Offerlé (2009, p. 11, grifo nosso, tradução nossa), já outrora relatados, que conduziriam os empresários, em tese, a não se mobilizarem coletivamente de forma durável. Entre eles estão a situação de concorrência econômica entre si, a heterogeneidade dos interesses dos agentes vinculados às posições por eles ocupadas no mercado econômico, e por último a desnecessidade de uma organização apartada do núcleo político porque este, a priori, obrigatoriamente responderia às suas demandas em razão da dependência dos capitais econômicos do segundo frente ao primeiro. A isso tudo, entretanto, não podem ser negligenciadas as chamadas oficiais de defesa de temas como o “liberalismo” e da “iniciativa individual”, enquanto credos justificadores e reais para os agentes, frente ora a uma sociedade organizada em torno do trabalho escravo, ora ao crescimento e manifestação de outros setores portadores de

  “ideologias” diferentes. Nesse sentido, a compreensão dos elementos que conduzem e fundamentam a mobilização coletiva do empresariado, no caso maranhense através da ACM, parte também da característica dessa organização enquanto amalgama resultante de modelos importados e os condicionantes locais de estabelecimento e controle do poder. Deve ser recordado que se está cuidando de uma instituição localizada em uma

  “sociedade periférica”, onde o domínio de recursos como o pertencimento familiar e os vínculos de reciprocidade são marcadores importantes para a inclusão e o auto-reconhecimento dos agentes.

  Nesse cenário, os produtos decorrentes da mobilização coletiva podem ser altamente vantajosos àqueles que se encontram na liderança, incluindo-se aí a maximização de suas posições frente ao mercado econômico e o ingresso na arena política. Não se trata, porém, de uma perspectiva

  “utilitarista” de investimento e retribuição, mas de se compreender a multiplicidade dos recursos em jogo pela disputa e domínio das posições de poder, bem como o tipo de universo social ao qual pertence a ACM.

  Parece claro que a entidade de representação do empresariado, ao menos no caso da Associação Comercial do Maranhão, não atenderá a apenas uma das formulações consignadas no início do capítulo.

  Também existe outra vasta série de razões que pode conduzir o indivíduo a se engajar no processo de mobilização e que mesmo não visam conscientemente o investimento como forma direta para a obtenção de lucros personalíssimos, como a produção da sociabilidade, o cumprimento de um papel de cunho

  “ético” frente a seus pares, ou apoiar ou opor doutrinas, idéias e posturas favoráveis ou que sejam contrárias ao que entende como pertencente ou afeta ao “grupo”.

  Nesse sentido, para a representação do segmento, importa o que a entidade. “[...] designa como o interesse geral de empresas, e os interesses das profissões pela mediação das quais esses interesses são produtos [...]

  ”, desinvididualizando a expressão dos interesses representados (OFFERLÉ, 2009, p. 22, tradução nossa).

  De igual forma, seria um equívoco se crer que o maior ou menor domínio dos recursos de natureza financeira determinasse o nível de cargo ocupado pelo agente no interior da ACM. Com razão, apesar da propriedade de capital monetário ou a capacidade de reunião desse em torno do indivíduo ser um componente formidável para o segmento analisado, por si só, não é o mais decisivo.

  No caso de José João de Sousa, isso é notório. Foi ele quem mais presidiu estatutariamente a Associação Comercial do Maranhão. O fez por dezenove anos ininterruptos. Sua trajetória na diretoria da entidade demonstra dedicação a outro cargo, o de vice-presidente. Passou oito anos na função, o mais longo tempo ocupado por um único diretor.

  Contudo, as atividades econômicas por ele expendidas não estão entre as de maior monta, ao menos se comparadas às de outros empresários também integrantes do quadro diretor da ACM e que ocuparam cargos menores e por tempo bem mais curto.

  Identificado como “Leader do Comércio”, quando por ocasião de seu aniversário, em outubro de 1926, a Revista da Associação Comercial do Maranhão publica em toda a primeira página uma nota elogiosa, acompanhada de foto, em que expõe as razões de, àquele tempo, já ter José João de Sousa ocupado dozes vezes a presidência da entidade. De plano são apresentadas como justificativas referências voltas à sua personalidade: “[...] brilhantes qualidades que estornam o caráter, pela nobreza de suas atitudes e pela sua larga capacidade de trabalho

  ” (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1926, p. 1). Em seguida, descreve o seu currículo profissional, inclusive arrolando atividades que não dizem respeito, propriamente, ao comércio e indústria, como cargos políticos e administrativos:

  O cel. J. J. de Sousa é sócio de uma das mais antigas e conceituadas firmas desta praça, Azevedo, Almeida & C., cuja fundação conta mais de um século (1815) e representa, sem favor, um dos membros de maior prestígio de sua classe. Exerceu, por longo período, os cargos de diretor do Banco Hipotecário, do Banco Comercial, da Comp. Fluvial Maranhense, da Comp. de Navegação a Vapor do Maranhão, membro do conselho fiscal da Comp. de Fiação e Tecidos do Rio Anil, foi presidente da Câmara Municipal de São Luís, durante seis anos [...]. S. s. exerce, atualmente, o cargo de provedor da Santa Casa da Misericórdia, com a superintendência do Hospital dos Lázaros, Casa dos Expostos e Hospital de Alienados, tendo sido já reeleito para dois períodos administrativos, a custa de ruidoso pleito do qual obteve votação unânime (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1926, p. 1).

  Essa prática se repetia a cada mês de outubro na revista, quando esta fazia referência à data de seu nascimento, no dia dez. A rigor são repetidos, ipsis

  

literis, os mesmos informes, ainda que já distassem no tempo os seus feitos. Uma

  década depois, em 1936, quando não era mais presidente da instituição, a Revista da Associação Comercial do Maranhão ainda relembrava os seis anos em que figurou como presidente da Câmara Municipal (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHÃO, 1936, p. 1).

  Apesar da pluralidade de diretorias que ocupou em nenhuma das empresas listadas José João de Sousa foi sócio majoritário. A única firma na qual detinha esse nível de participação era a

  “Azevedo, Almeida & Cia.”. Além dessa, outra fonte de receita pessoal eram as remunerações “pro labore” advindas das instituições por ele dirigidas e nas quais detinha participação minoritária no caso das empresas privadas. Por óbvio, banqueiros, industriais, e mesmo outros comerciantes proprietários de grandes estabelecimentos, arrecadavam divisas muito mais elevadas através de suas empresas do que a mera remuneração por atividades de gestão a elas prestadas.

  Um dado pertinente sobre esse quesito é o fato de José João de Sousa diferir de outros membros da ACM, que possuíam investimentos em vários ramos produtivos ao mesmo tempo, o que inclusive dificulta a classificação desses por profissão. Manuel Mathias das Neves e seus filhos, por exemplo, eram proprietários da

  “Companhia de Fiação e Tecidos de Cânhamo”, do “Banco Comercial” e da “Casa Americana”, uma loja de artigos importados localizada na Rua do Sol. Porém, José João de Sousa era “apenas” comerciante.

  Ao arrolar as empresas em que ele atuou como diretor, o articulista pretendeu apresentar subsídios que confirmassem a sua capacidade administrativa. No ano de 1929, comentando sobre o tempo em que esteve na Companhia de Navegação a Vapor do Maranhão, informa dos benefícios alcançados no período, em que

  “[...] se adquiriram os vapores „Turiaçu‟ e “Cururupu‟, [...] onde prestam relevantes serviços ao comércio do norte, fazendo a linha Recife-Belém ” (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1929, p. 1).

  Mesmo assim, não se pode dizer que José João de Sousa foi um empresário menor ou em dificuldades financeiras. O estabelecimento “Azevedo,

  Almeida & Ci a.” foi sucedido por “José João de Sousa & Cia”, proprietário de dois imóveis vizinhos, azulejados, cada um com três pavimentos, que somavam juntos dez janelas simples, outras dez com sacada e gradil de ferro, além de igual número de portas voltadas ao logradouro principal, a Rua Portugal, no Bairro da Praia Grande, centro do comércio de São Luís.

  Enquanto ainda ocupava o cargo mais alto da Associação Comercial, constituiu sociedade com Manuel Lages Castelo Branco, outro comerciante de destaque e diretor da ACM, momento em que investiu a quantia de cento e sessenta contos de réis, e o último, apenas quarenta (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHÃO, 1929, p. 4). Essa empresa esteve ativa até o início da década de 1980 como uma das maiores do Estado e a primeira a incluir, na década de 1940, uma inovação tecnológica em sua estrutura, o elevador (LIMA, 2002, p. 47). Salta aos olhos a constatação de que, ao tempo do exercício da presidência, cuidava ele com proximidade da administração de seu empreendimento econômico, em expansão naquele período.

  O segundo vice-presidente por tempo de mandato, Bernardo Pedrosa Caldas, contabilizou sete anos no cargo, um a menos que José João de Sousa, e como ele, não possuía patrimônio equivalente aos maiores empresários da ACM.

  Era farmacêutico e tinha um laboratório de medicamentos localizado em um imóvel de dois pavimentos com fachada estilo Art Noveau, na Rua Grande, nº 240. Foi um dos fundadores da Faculdade de Farmácia do Maranhão, na década de 1920, e professor nessa instituição de ensino.

  O segundo diretor a mais se demorar na presidência da ACM foi o português João Alves dos Santos, que ocupou o cargo por dez anos em período cronológico anterior a José João de Sousa. Enquanto este ingressa na função em 1916, o outro o faz no século dezenove, por volta de 1895. Sua fortuna era realmente vasta. Além de comerciante, fundou, juntamente com seus filhos, Joaquim e Chrispim Alves dos Santos, a

  “Companhia Fabril Maranhense”, que se anunciava como a maior têxtil do norte/nordeste do país (COMPANHIA FABRIL MARANHENSE, 1893).

  De se recordar que a construção da fábrica pertencente aos Alves dos Santos teve a participação de Cândido José Ribeiro, amigo pessoal dos citados. A sua inauguração foi celebrada em grande evento, acompanhada por autoridades políticas e religiosas, além da imprensa e público em geral. Entre os bens privados da citada famílias estavam muitas novidades da época, trazidas pioneiramente da Europa ao Maranhão, como o telefone, toca-discos, equipamentos para a prática do futebol e o primeiro automóvel (Figura 18).

  Figura 18: Automóvel inglês modelo “Speed Well”, 1905. Ao volante, Joaquim Alves dos Santos nas dependências da Companhia Fabril Maranhense

  Fonte: Revista do Norte (1905)

  Fato é que a eleição de João Alves dos Santos para a presidência da ACM se dá conjuntamente à inauguração da têxtil da

  “Companhia Fabril Maranhense ”. Nesse período ainda não havia a publicação da revista da entidade, no entanto, é possível que o seu sucesso enquanto empresário da indústria tivesse sido repetidamente evocado como um fundamento de peso para a assunção e permanência no cargo. Antes dele, só tinha exercido um único mandato de doze meses como vice-presidente.

  Dignos de nota são os empresários José Francisco Jorge, por treze anos segundo-secretário, Antônio Rodrigues Martins e Carlos Soares de Oliveira Neves, respectivamente tesoureiros por onze e dez anos. Todos eram portugueses, ao mesmo tempo comerciantes e industriais. O primeiro proprietário da firma

  “Jorge & Santos

  ” e da “Companhia de Fiação e Tecidos do Rio Anil”, onde José João de Sousa havia sido membro da comissão fiscal. O segundo da

  “Martins & Irmãos”, indústria fabricante de sabão e congêneres, além de um tipo de algodão medicinal, chamado

  “hidrófilo”. O último, dono da casa “Mercearia Neves”, sócio proprietário da firma “Almeida, Neves & Cia.” e da “Companhia de Fiação e Tecidos Maranhense”. Há ainda um indivíduo, vogal por dezoito anos entre os séculos dezenove e vinte, chamado José Alves Martins de Sousa, também sócio e diretor da

  “Companhia de Fiação e Tecidos do Rio Anil

  ” e de duas empresas de navegação, a “Companhia de Navegação a Vapor do Maranhão ” e a “Companhia Fluvial Maranhense”.

  Tais diretores, no exercício da função de porta-vozes de parte da elite econômica local, gozaram de uma legitimação que perpassou as imagens produzidas e divulgadas sobre eles enquanto portadores, também, de uma vida voltada à profissão de empresário e o

  “sucesso” que seria decorrente da longa dedicação à atividade. Tal vinculação, contudo, parece pertencer a uma “[...] alquimia representativa, tendente a fazer coincidir a organização patronal e o mundo patronal [...]

  ” (OFFERLÉ, 2009, p. 59, tradução nossa), isso porque as qualificações que fazem do agente um chefe de empresa destacado não são suficientes, apenas, para fazer dele um líder de igual medida na instituição de representação, exigente de uma capacidade de articulação específica, que proporcione a aproximação com outras instâncias de poder. pareceres técnicos O trabalho de legitimação da atividade de representação da ACM se configura, de igual forma, pelo veículo por excelência de suas chamadas e posicionamento para a mobilização coletiva: a sua revista mensal. Através dela é exercida uma parte importante de suas funções institucionais, como discorrer sobre a produção agrícola e industrial, além da circulação de mercadorias nas praças de comércio do Estado e das principais cidades do país, Estados Unidos e Europa. Além disso, confecciona petições a outras instâncias de poder, conclamando seus sócios e leitores a apoiarem uma ou outra campanha, como a formulação do orçamento anual. Também solicita o cumprimento de serviços públicos, como a colocação de papel moeda em circulação. De igual forma promovia a participação política do empresariado, apoiando ou repudiando agentes dos Poderes Legislativo e Executivo conforme os interesses que divulgava como pertencentes ora ao empresariado, ora à população em geral.

  Dessa maneira, é franca a característica de mediação desse tipo de organização, já funcionalmente destinada a assessorar e intermediar campos de poder escalonados, em especial para assuntos de ordem econômica, constituindo a ligação direta entre esferas sociais interdependentes. Por essa importância institucional que lhe é conferida, e sobre a qual se estrutura, se formam as condições que ditam as características de sua apropriação e estabelecem os modos como servirá ao uso prático de seus representantes. Analisando-se as publicações da ACM através de sua revista, é quase notório que essa instituição se funda sobre duas dimensões distintas.

  De um lado, fornecendo dados e indicativos da situação econômica do Estado e para o Estado, traz o comércio e indústria para o centro decisivo das políticas econômicas oficiais, descrevendo onde e de que forma deveriam ser aplicados recursos financeiros públicos e privados, ao mesmo tempo em que disciplina as atividades mercantis e industriais conforme os regulamentos e doutrinas emanadas de esferas de poder exteriores às quais está vinculada. Nessa seara está incluída a defesa de demandas ditas

  “comuns” e de “interesse geral” do empresariado, mas que na verdade em muito se afiguram como problemas estritamente circunscritos aos empreendimentos econômicos de seus diretores. Nesse sentido é que dialoga com a arena política, aproximando ou afastando indivíduos conforme seus interesses mais pragmáticos. Diversas petições, cartas abertas e manifestos foram publicados com posicionamentos contrários ou favoráveis às ações estatais, sempre apresentados como unânimes e de comum acordo entre os associados. De outro, ainda contribuiria com força para a formação de imagens sociais de consagração de determinados agentes, isso de forma direta e explícita, em notas biográficas elogiosas, comunicações oficiais, sessões solenes ou similares.

  Assim, nessa função de acionamento de outras instâncias de poder, em uma petição de natureza “pública”, no mês setembro de 1929 a ACM emite um telegrama ao ministro da fazenda solicitando numerário em papel para o Estado, posto que o meio circulante a predominar eram moedas, o que ocasionava embaraços ao comércio.

  A praça do Maranhão solicita à V. Exc.ª a fineza de providenciar urgente a remessa de numerário em papel, para a Delegacia Fiscal, em virtude de estar lutando com as maiores dificuldades para satisfazer os pagamentos aos Bancos, que se recusam receber importância superior a vinte mil réis em moedas do centenário (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHÃO, 1929, p. 4).

  Uma temática recorrente entre as manifestações emitidas pela Associação Comercial do Maranhão é o aumento de tributos incidentes nos meios de obtenção de receita do empresariado, incluindo-se aí fábricas, casas comerciais e imóveis para locação, bem como a crise econômica inexorável que em tese se seguiria, transformando essa correlação como um objeto legítimo a ser amplamente discutido no interior da instituição e fora dela. Quanto a essa questão, que envolve a disputa de preços entre os produtos maranhenses e seus concorrentes serviu de argumento para as lideranças da Associação Comercial se posicionarem em diversas oportunidades contra o município de São Luís e o próprio Estado. Nesse ponto faz sentido a observação de Offerlé (2009, p. 15, tradução nossa):

  Se uma cidade ou uma aglomeração propõe, do ponto de vista fiscal, as organizações, os auxílios para melhores vantagens competitivas, um grupo ou um jovem empreendedor poderá escolher ali se implantar mais ou menos duravelmente. Essas situações aqui descritas podem ser investidas pelos chefes dessas empresas e criar ou reforçar disposições para agir

coletivamente em diversos movimentos patronais.

  Na década de 1920 a ACM se coloca contrariamente às pretensões da Câmara Municipal - e da Prefeitura - em aumentar a tributação sobre imóveis urbanos para equilibrar as despesas públicas oriundas do rápido crescimento da cidade, que teve sua população praticamente dobrada em três décadas. As discussões alcançaram grande repercussão, e o governador interveio conforme o parecer da Associação Comercial sobre a matéria, modificando na Assembléia Legislativa a proposta orçamentária daquele ano. De se recordar que a ACM era reconhecida, inclusive legalmente, pelo menos até a década de 1950, como órgão consultivo estadual.

  Essa mesma força foi testada ainda poucos anos depois, quando o município planejou estender os serviços de fornecimento de água e esgoto do Largo do Carmo, na atual Praça João Lisboa, até o antigo

  “Campo de Ourique”, hodiernamente Praça Deodoro. Na oportunidade, foi enviado para cada imóvel a cobrança pela instalação dos medidores hídricos. Imediatamente a Associação Comercial foi acionada: cerca trezentos empresários de suas fileiras eram proprietários de mais de três mil imóveis, dos seis mil arrolados. Novamente a entidade conseguiu que seus sócios restassem livres de tal ônus (BURNETT;

  VENÂNCIO, 2008, p. 101 - 103). Fran Paxeco, contudo, já defendia que os maiores financiadores da receita municipal eram justamente os empresários e industriais, alguns diretores da Associação Comercial do Maranhão, e declinara uma lista com os maiores pagadores da

  “décima urbana”, cujo equivalente contemporâneo seria o IPTU. Dos 51 nomes, 36 figuravam como sócios da entidade (PAXECO, 1916, p. 53).

  A consagração do tema “tributo” como fundamental e imprescindível tanto para a sobrevivência da instituição quanto do próprio empresariado, conduz à interiorização e solidificação de uma espécie de senso comum dos dirigentes. Isso vai permitir o reconhecimento das posições de quem fala, e também daqueles indivíduos a que são referidos através dos discursos, na constituição dos espaços de diferença segundo uma base de reconhecimento comum do sistema de classificações em que cada agente

marca sua própria posição (NEIBURG, 1997, p. 29).

  Em julho de 1931, meses após a ascensão de Getúlio Vargas ao governo federal através da “Revolução de 1930”, a Associação Comercial publica em sua revista um relatório sobre o resultado das reuniões havidas entre o interventor nomeado para o Maranhão, seu secretariado e a direção da instituição acerca da confecção do orçamento vindouro. O presidente da ACM, José João de Sousa (Figura 19) e os diretores Carlos Soares de Oliveira Neves e Afonso Assis Pereira de Matos estiveram no Palácio dos Leões para dizer que o Estado não necessitava de qualquer alteração orçamentária, devendo ser mantida mesma política de receitas e despesas já em vigor, sem diminuição e principalmente incremento de impostos.

  Figura 19: José João de Sousa Fonte: Viveiros (1954, não paginado)

  O parecer apresentado estava de acordo com o que a Administração Pública já planejara, com alguns poucos aditamentos. No entanto, os representantes da ACM exortaram o Governo do Estado a encabeçar, e a população em geral a apoiar, um movimento tocado pela instituição e contrário ao fim do imposto interestadual sobre bens industrializados. A alegação era que os produtos vindos de outras partes do país, livres de taxas de ingresso, terminariam sendo comercializados a preços bem menores dos que os produzidos internamente. Essa preocupação era apresentada como de interesse geral de todos os maranhenses, e relacionada à sobrevivência do empresariado

  O Sr. José João de Sousa disse [...] que achava que os Estados do norte, os pequenos Estados, deveriam coligar-se no sentido de ser revogado aquele ato do Governo Central, que virá a matar os industriais nortistas, que não poderão competir com os dos Estados sulistas, de vida própria. Esperava que o governo do Maranhão apoiasse o movimento do comércio, que, breve, terá que se por à frente da campanha, em benefício da própria vida. (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1931, p. 3).

  Contudo, foram bloqueadas as pretensões quanto à mobilização estatal aventada pelo presidente da ACM, posto que o secretário de fazenda entendeu que a mesma “[...] devia partir das próprias classes prejudicadas [...]” (REVISTA DA

  ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1931, p. 3), excluindo o Estado - e seus agentes

  • – de tal tarefa, especialmente em um período de exceção política. Dois anos depois, a instituição faz nova chamada, desta feita contra o

  “[...] originalíssimo sistema tributário adotado pela prefeitura de São Luiz ” (REVISTA DA

  ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1933, p. 4). Apresentando por meio de sua revista a função estatutária de representação, a diretoria da Associação Comercial se manifesta como intermediária entre

  “o comércio da capital maranhens e” e a municipalidade, para se opor ao que chamou de “tributação por intermitência

  ”. Na verdade, tratando-se o caso de uma revisão com parcelamento das taxas urbanas, a ACM informa que o fato redundaria em “[...] sensíveis majoraçõe s”, e ainda que inicialmente falasse em nome dos comerciantes, a mensagem redimensiona o problema para todos os contribuintes (REVISTA DA

  ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1933, p. 4).

  Segundo a Revista da Associação Comercial do Maranhão (1933), o militar cearense Juarez Távora (1898-1975), chefe da Comissão de Estudos Econômicos do governo federal, foi o primeiro a ser procurado pelos diretores da instituição a fim de que interviesse frente ao gestor do município de São Luís para forçar uma alteração no sistema tributário implantado. Isso pode ser explicado pela posição ocupada por Távora durante a ditadura varguista, quando foi o principal articulista político no norte e nordeste do país, tendo nos anos de 1920 participado da sublevação conhecida como o a

  “Revolta dos 18 do Forte de Copacabana” e integrado a “Coluna Prestes”, atuando também na repressão à “Revolução

  Constitucionalista ”, ocorrida em São Paulo no ano anterior.

  Tentando acionar uma instância de poder externa e superior ao Estado, ainda que por uma causa afeta apenas ao município de São Luís, os diretores da Associação Comercial buscavam um resultado positivo, após uma série de pleitos não atendidos a nível local pelas interventorias. Sem obterem, porém, uma resposta “satisfatória”, recorrem diretamente à presidência da república, a qual também não se manifesta.

  Poucas linhas depois, a revista publica um oficio do presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro informando que a reclamação apresentada pela presidência da ACM sobre o ato do interventor que aumentou em mais de

  100% os tributos estaduais sobre importação de bens foi recebida pelo Ministro da Justiça, que averiguaria o fato, inclusive já o colocando em pauta para apreciação.

  O evento por si só é estranho, posto que dois anos antes os mesmos diretores reclamavam do fim desse tipo de taxação, do que restam duas conclusões. A primeira que, mesmo com previsão legal, a Associação Comercial do Maranhão perdeu, em termos objetivos, a função de órgão consultivo do Estado ao menos durante o início da década de 1930. Flagrantemente os diretores da instituição deixaram de gozar do livre acesso que possuíam ao Palácio dos Leões até a deposição do presidente Washington Luís. A segunda, ainda quando esse canal permanecia fechado, nem por isso a entidade perdera sua capacidade de ativação de outros níveis de poder, agora utilizando vias diversas, como no caso de uma instituição correlata, mas muito mais influente, e localizada na então capital do país.

  Notória também é a importância dos vínculos de reciprocidade em jogo, abertamente divulgados e aceitos. Sobre essa última ocorrência tributária, Juarez Távora, já ocupando a pasta do Ministério da Agricultura, também havia sido contatado, mas se escusara de nada poder fazer porque era

  “[...] amigo pessoal do interventor naquele Estado Ể (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO

  MARANHÃO, 1933, p. 5). De qualquer forma, a questão dos impostos incidentes sobre as atividades industriais e de comércio é sempre apresentada na revista como essencial, não apenas aos segmentos da elite econômica, mas ao Estado, e sequencialmente, a toda população:

  Estado pobre, sacrificado e de parcos recursos, entregue à sua própria sorte, assistindo às suas energias vitais se aniquilarem ao peso dos tributos escorchantes, empenhando a uma companhia estrangeira que detém em suas mãos o monopólio do beneficiamento do seu principal produto de exportação, e sem recursos para o pagamento de uma dívida, interna e externa, de soma assaz elevada (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHÃO, 1933, p. 5.)

  A natureza desse tema conduziu, em não poucas oportunidades, à manifestação dos interesses político-partidários dos diretores da Associação Comercial. Comentando a interventoria do Coronel Lourival Serôa da Mota, responsável pelos aumentos tributários e substituído ainda no auge dos debates pelo maranhense e também militar e Coronel, Álvaro Jansen Serra Lima Saldanha, a entidade é apresentada como integralmente oposta ao primeiro e favorável ao segundo.

  Pelo menos, o último não só era conterrâneo como também pertencente às elites econômicas e políticas locais, descendente de dois ramos familiares de “tradição” nessas esferas de poder, os Jansen e os Serra Lima. Inclusive, possuía parentes na direção da instituição, como Franklin Jansen Serra Lima e Apolinário Jansen Ferreira. Nas palavras da revista, durante a interventoria de Álvaro Saldanha “[...] as classes conservadoras encontram sempre o abrigo que a elevação de seus princípios tanto reclamam

  Ể (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHÃO, 1933, p. 3). Na ocasião, ela apresenta as razões da lacuna instalada entre a ACM e a interventoria anterior, atribuindo inteiramente a essa última as razões da dissensão, ao mesmo passo que envolvia seus atos em uma atmosfera heroicizante:

  Responde aquele gesto inexplicável do Sr. Serôa da Mota, feio crime que, no seu conceito, a Casa do Comércio perpetrou: o de haver sido sincera, o de haver tido uma atitude retilínea quando, respondendo os quesitos do major Juarez Távora, então delegado do Norte, lhe dirigia, afirmou desassombradamente que aquele interventor não estava se desincumbindo satisfatoriamente da missão administrativa que lhe foi confiada; que a coletividade maranhense não tinha motivos para esperar daquele governo discricionário novos benefícios, e que essa mesma coletividade teria mais a lucrar com a volta imediata do país ao regime constitucional. Essa atitude da Associação Comercial, com a qual foram solidárias todas as classes ativas e laboriosas, em memorável conclave realizado em sua sede, mereceu de todos os maranhenses dignos os mais ruidosos aplausos (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1933, p. 3).

  Entre os meses de janeiro e julho de 1933 para o Estado foram nomeados três interventores. Em menos de quarenta dias Álvaro Saldanha foi removido, e designado ao posto o capitão do exército Antônio Martins de Almeida, que trouxera para trabalhar em seu secretariado um amigo próximo, o pernambucano Vitorino de Brito Freire, ou simplesmente Vitorino Freire (1908-1977), o principal nome da política estadual até a década de 1960. Martins de Almeida inicialmente foi bem acolhido pela diretoria da ACM, posto ter formado uma equipe em que foram alocados nas principais pastas indivíduos bem vinculados ao grande comércio e indústria maranhenses.

  Assim, quando a ACM buscou o governo para discutir o orçamento do ano próximo, foi bem recebida pelo secretário de fazenda, Francisco Franco de Sá Collares Moreira, descendente de duas das mais abastadas e influentes famílias locais, com vários de seus membros exercendo cargos eletivos. Durante o Império, Felipe Franco de Sá (1841-1906), avô materno do secretário, havia sido Ministro da Guerra e Ministro dos Negócios Estrangeiros, além de deputado geral e senador, figurando como um dos chefes políticos do partido liberal no Maranhão. Também eram parentes próximos Alexandre Collares Moreira Júnior (Figura 20) e Alexandre Collares Moreira Neto, deputados estaduais por vários mandatos. Além destes, tinha ainda um parentesco no quadro diretor da Associação Comercial, o negociante João Pedro de Assis Collares Moreira.

  Figura 20: Alexandre Collares Moreira Júnior Fonte: Acervo pessoal do autor

  Dessa maneira, Martins de Almeida foi constantemente objeto de discursos laudatórios, sendo referido como “[...] figura de destaque do Exército” e

Ề[...] possuidor de honestos propósitos [...]Ể (REVISTA DA ASSOCIAđấO

  COMERCIAL DO MARANHÃO, 1933, p. 3). Por ato de sua lavra, a nomeação de um comerciante filiado à ACM para o cargo de prefeito, Pedro José de Oliveiro, sela o congraçamento da entidade com a interventoria.

  Esse tipo de postura conduziu a outro fim, para além das propostas oficiais da instituição, de tomada de posição na esfera das disputas políticas por parte de seus diretores. Nesse sentido, a Revista da Associação Comercial do Maranhão é o meio francamente utilizado para a difusão de idéias e orientações nessa arena de luta, sem abandonar um de seus propósitos mais fundamentais, qual seja a consagração de seus diretores como líderes justificados do empresariado, inclusive frente ao teatro político. No capítulo VI das “Disposições Geraes” da proposta de alteração dos estatutos da Associação Comercial do Maranhão está consignado o artigo 45, que possui a seguinte redação.

  Art. 45

  • – A Associação Comercial é extreme de qualquer idéia política, partidária ou religiosa, não podendo se manifestar, por qualquer meio, sobre questões daquela natureza, sendo proibidas expressamente tais discussões, quer nas sessões da Diretoria, que nas da Assembléia Geral (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1930, não paginado)

  Em que pese tais diretrizes, o debate sobre questões inerentes a assuntos políticos no interior da ACM era corrente, e divulgado em sua revista, sempre com um resultado consensual e unânime. Isso, no entanto, sem ser apresentado como objeto de apreciação oficial da entidade que, ao tratar de questões relacionadas à administração pública, em diversas oportunidades, descrevia suas manifestações como desinteressadas e alheias às contendas envolvendo a posse propriamente dita dos cargos eletivos. No mesmo sentido, se propunha a focar apenas os temas de fundo econômico-financeiro, como o mencionado orçamento estadual, ainda que isso não tenha se operado conforme descrevia o regulamento da entidade.

  Nesse sentido, a publicação explícita em sua revista de artigos de cunho estritamente político, demonstrando o envolvimento e o apoio dos diretores da Associação Comercial do Maranhão a um ou outro administrador, evidenciam uma das características mais marcantes da entidade, que é a sua função de intermediação e atuação frente a essa esfera de poder.

  Em fevereiro de 1928, a ACM publica parte da mensagem do governador

  • – José Maria Magalhães de Almeida (Figura 21) ao Congresso Legislativo Estadual atual Assembléia Legislativa – selecionando o trecho do discurso que abordou a abertura de estradas de rodagem. Nela,

  “[...] mais alto do que quaisquer palavras de encômios à lisura que tem pautado a directriz do atual chefe do Poder Executivo do Estado, fala a eloquencia do brilhante documento [...]

  Ể (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHÃO, 1928, p. 1).

  Figura 21: Magalhães de Almeida Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1928, p. 2)

  Seis meses depois, por ocasião de seu aniversário, traz na primeira página da revista uma fotografia do governador, tratado como “comandante” (era militar da Marinha), e que toma mais da metade da lauda. Logo abaixo, uma nota elogiosa intitulada

  “Honra”, expõe as suas qualidades pessoais, em congraçamento solene: “[...] elevado patriotismo e inatacável honestidade”, “espírito educado do trabalho metódico

  ”, “[...] administrador modelar [...]”, que desenvolve uma atividade Ề[...] febril que não sofre colapsos [...]Ể (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHÃO, 1928, p. 2, grifo nosso). Em dezembro, nova fotografia do governador, homenageado pela abertura de estradas, razão pela qual a

  Associação Comercial, órgão legítimo das classes ativas e produtoras do Maranhão apresenta [...] a expressão sincera da sua homenagem, nesta página em que publica o seu retrato, como preito de justiça aos seus reconhecidos méritos de estadista [...] (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHÃO, 1928, p. 2).

  Dois anos depois, em março de 1930, a revista da ACM informa que tomara posse do governo estadual o jurista José Pires Sexto, lavrador e proprietário de engenho no município de Cururupu, que sucedera Magalhães de Almeida em um pleito eleitoral realizado

  Ề[...] sem contestadoresỂ (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL, 1930, p. 1). Também com a publicação de foto do homenageado, nesse artigo, a Associação Comercial diz ser

  “[...] dever de todas as classes e correntes políticas trazem a sua solidariedade aos elevados propósitos que o novo presidente (governador) sobe ao poder

  [...]Ể (REVISTA DA ASSOCIAđấO

  COMERCIAL, 1930, p. 1). Um dos primeiros atos de Pires Sexto foi convocar a direção da ACM, na pessoa de seu presidente e vice, para se discutir com os deputados estaduais o orçamento de 1931.

  Entretanto, o projeto orçamentário maranhense foi anulado, juntamente com todos os atos dos governadores eleitos, através do movimento intitulado “Revolução de 1930”, em curso entre os meses de outubro e novembro daquele ano. Na oportunidade foi deposto o presidente da república, Washington Luís, impedida a posse do eleito Júlio Prestes e ascendido ao poder seu adversário na disputa, o gaúcho Getúlio Vargas. José Pires Sexto (Figura 22) abandonou o Palácio dos Leões durante a execução da tomada do poder pelos militares do 24º Batalhão de Caçadores, então sediado em um antigo edifício frente ao Campo de Ourique.

  Figura 22: José Pires Sexto Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1930, p. 1)

  A Revista da Associação Comercial do Maranhão silencia em absoluto sobre as trocas de comando no Executivo estadual durante os três ou quatro meses de instabilidade que seguiu à saída de Pires Sexto. Mas, ainda que ele houvesse perdido o cargo compulsoriamente, após a consolidação política advinda com a Constituição de 1934, foi elevado a desembargador do Tribunal de Justiça e, dois anos depois, publicou uma conferência apresentada no

  “Sindicato Maranhense de Imprensa

  ” intitulada “Os Problemas da Democracia”, onde conclui que o texto

  reação contra os elementos comunistas, fascistas até certo ponto [...] ‟” (SEXTO,

  1936, p. 8 - 9). Segundo o magistrado, o “progresso econômico” do país deveria ser acompanhado de um modelo específico de governo

  “forte”

  Assentadas as diretrizes, devemos salientar com o maior interesse e relevo, que a democracia, sem quebra de sua principal função, que é a de captação de valores no seio das massas, comporta perfeitamente a organização de governos fortes, no sentido mais enérgico do vocábulo, assim como permite que se estabeleça uma mais justa ordem econômica, como determinada por Spengler, Bardiaeff, Lombroso e outros pensadores, que a caracterizam como reino da máquina ou da técnica ((SEXTO, 1936, p. 8 - 9).

  O fato é que após o início das interventorias, não parecia ser conveniente aos diretores da ACM indicarem seu apoio ou repúdio aos primeiros chefes do Executivo em razão da rapidez com que esses eram nomeados e removidos. Ao menos três indivíduos tomaram posse do governo até meados de 1931: Luso Torres, José Maria Reis Perdigão, esse de orientação comunista, e Astolfo Serra.

  Contudo, para o último, um padre afastado de suas ordens e nascido no município de Viana, a revista da ACM publica duas notas elogiosas. A primeira informa que os diretores da instituição foram bem recebidos no Palácio dos Leões e que as ações desse interventor eram concordantes com o pensamento do empresariado sobre os assuntos relacionados à tributação e à economia. Na ocasião, a entidade é apresentada como

  “[...] sem cunho político-partidário [...]” e “[...] estreme de qualquer idéia político-partidária [...]”. A segunda, em julho, é o padre Astolfo Serra quem visita a Associação Comercial, recebido por toda a mesa diretora da instituição. Durante esse evento,

  “[...] o Interventor, a convite do presidente da ACM, ocupou a cadeira presidencial, no salão de honra [...]” (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1931, não paginado).

  Logo no mês seguinte, a revista edita uma manifestação telegrafa ao Ministro Osvaldo Aranha (1894-1960), gaúcho, então

  “[...] chefe do governo provisório [...] ”, de apoio a Astolfo Serra, que perdia rapidamente sua sustentação política em decorrência de conflitos com o Poder Judiciário local. Novamente sem

  “[...] intuito político-partidário, visando apenas o espírito de justiça [...]”, os diretores que a subscrevem dizem acabar de “[...] ressurgir a campanha difamatória há dois meses tramada com o intuito de retirá-lo da Interventoria [...]

  ”, ainda informando não acreditarem que “[...] V. Exc.ª, para satisfazer ódios pessoais, retire o interventor maranhense do cargo, que vem desempenhando satisfatoriamente [...]

  ” (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1931, não paginado).

  Assim mesmo, a situação de Astolfo Serra se tornou insustentável. Apesar dos vocativos de desinteresse político consignados em seus artigos, mesmo frente a uma atuação clara nessa arena de disputas, a Revista da Associação Comercial do Maranhão publica em dezembro daquele ano, após a demissão de Astolfo Serra e já na interventoria do outrora citado Lourival Serôa da Mota, uma convocação da Associação Comercial do Paraná para que todas as associações comerciais do país se reunissem em convenção, a fim de que essas entidades se convertessem em

  “forças político-eleitorais”. Sob o título de “O Momento Nacional e

  as Classes Conservadoras

  ”, o artigo que publicou o “manifesto” da associação paranaense foi precedido por uma digressão lavrada pela presidência da ACM, nos seguintes termos (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL, 1931, não paginado, grifo nosso).

  País conservador por excelência, o Brasil só pode ter assegurada a sua felicidade e a sua paz enquanto o seu destino repousar às mãos das classes conservadoras. Todas as tentativas de criar entre nós uma mentalidade de extrema esquerda fracassaram sempre irremediavelmente porque ficam anuladas diante do temperamento moderado do povo brasileiro. É prova disso a revolução de outubro 11 , cujos elementos radicais tem estado a ceder dia a dia dos seus pontos de vista em favor da corrente contrária, que é a dos adeptos das soluções constitucionais para os nossos problemas. [...] A última revolução veio mais uma vez provar que não há atmosfera propícia, no Brasil, ao florescimento de ideologias avançadas. As poucas vozes que tentaram pregar verbos vermelhos diluíram-se no meio da grande massa e ficaram despercebidas. Nossa pátria foi e será ainda por muito tempo um clima social somente compatível com regimes moderados de governo, nos quais tenham funções preponderantes os elementos de colorido direitista, isto é, as figuras do trabalho, da indústria, do comércio, da agricultura e outras atividades semelhantes, que repelem os extremismos. Em suma: no Brasil a direção da causa pública cabe e caberá longamente às reservas conservadoras (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL, 1931, não paginado).

  A diretoria da ACM responde positivamente à solicitação da Associação Comercial do Paraná, e mais que isso, esboça um tipo de projeto eleitoral cuja seleção dos candidatos se realizaria a partir da aprovação prévia e da indicação pelas associações comerciais estaduais e de uma futura corporação de nível nacional que ainda seria criada para congregá-las. Nesse cenário, tais instituições assumiriam integralmente a atuação política, ainda que isso conduzisse a

  “[...] certos inconvenientes locais, arrastando a classes conservadoras a uma luta de choques 11 de paixões [...]

Ể (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1931, não paginado). Quanto aos pleitos eleitorais, elas contribuiriam da seguinte forma:

  A escolha do presidente e vice-presidente da República seria verificada pela adesão das Corporações filiadas, e depois de firmada por maioria de votos, seriam então os candidatos recomendados pelas Associações dos Estados. Isso não impediria, todavia, que cada Associação pudesse recomendar, pela imprensa, à votação dos seus filiados e do eleitorado em geral, qualquer candidato que se apresentasse com credenciais capazes de assegurar a preferência das classes conservadoras, desde que os interesses destas entrassem em seu programa de ação. Quando cada Associação, de modo particular, não conseguisse bom êxito em uma aspiração, reconhecida justa pela Federação Central, todas as classes coligadas teriam o dever moral de pleitear em conjunto a realização do objetivo para o que todas sejam obrigadas a empregar o máximo de esforço junto às autoridades até a vitória da idéia sã (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1931, não paginado)

  As divergências entre a direção da Associação Comercial do Maranhão e a interventoria de Louviral Serôa da Mota foram comentadas publicamente através da revista apenas quando este já não mais ocupava o governo do Estado, e sim o maranhense Álvaro Jansen Serra Lima Saldanha. Ao cumprimentá-lo, um artigo diz que

  “[...] entre o governo do Sr. Serôa da Mota e as classes conservadoras, representada pelo seu lídimo órgão - a Associação Comercial - abriu-se um vácuo que a boa razão dificilmente pode compreender

  Ể (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHÃO, 1933, não paginado). Na verdade, a 21 de fevereiro de 1932, em sua visita ao Maranhão,

  Juarez Távora havia expedido um ofício à ACM, para que ela se pronunciasse sobre três indagações, a saber: “Se o interventor desincumbia-se bem de sua missão”; “Se a coletividade maranhense esperava benefícios do governo discricionário

  ”; “Se julgava lucrar, essa mesma coletividade, com a volta do país ao regime constitucional

  ”. A resposta deveria ser posta em envelope lacrado, a ser entregue na interventoria, para ser lido somente pelo Ministro da Justiça ou pela Presidência da República. As respostas enviadas foram as seguintes:

  1) Que o interventor, aqui chegando, dirigiu-se imediatamente para o interior, lá permanecendo durante quarenta dias; de volta, trancou-se em palácio, sem contato com as classes conservadoras, ignorando, portanto, as suas aspirações;

  2) Que seus diversos auxiliares, desconhecedores de nossas necessidades vitais, porquanto estranhos, tem mal julgado os interesses do Estado, com o que tem “muito tem sentido o Maranhão”;

  3) Quanto à Constituinte, o pensamento da maioria dos membros da Associação é que deve vir o quanto antes para evitar males futuros (LIMA, 2010, p. 125). Apesar do volume do ano de 1932 da Revista da Associação Comercial do Maranhão não estar disponível atualmente em sua biblioteca, consta que no mês de março ou abril daquele ano publicou-se a ata da assembléia geral extraordinária convocada para apreciar o ofício de Távora. Ao final da fala do presidente José João de Sousa, foram apostas as perguntas e respostas na forma que segue:

  “O interventor cumpre bem suas tarefas? Não. Há perspectivas de benefícios vindos do novo governo? Não. O regime constitucional deve voltar logo? Sim ” (LIMA, 2010, p. 125). Depois da divulgação do parecer da ACM, como antes relatado, não houve mais comunicação entre a direção da instituição e o Palácio dos Leões, até a remoção de Serôa da Mota.

  Antônio Martins de Almeida, que substituiu Álvaro Jansen Serra Lima Saldanha, foi bem recepcionado pela ACM, mormente porque o secretário da pasta de maior interesse da entidade, a fazenda, fora entregue a um maranhense pertencente às elites políticas e econômicas da terra, o já outrora mencionado Francisco Franco de Sá Collares Moreira, que possuía vínculos familiares no Legislativo e mesmo no interior da instituição. Isso permitiu que os diretores da Associação Comercial retomassem o papel de assessoramento frente ao governo estadual para a elaboração das leis orçamentárias.

  De julho até novembro de 1933, a revista da ACM publicou uma série de mensagens suas endereçadas ao interventor, não economizando elogios à sua administração. Durante a passagem de Getúlio Vargas e Juarez Távora por São Luís, no mês de setembro, a Associação Comercial fez circular um artigo intitulado “A Viagem do Ditador”, onde consta uma foto do presidente e um relatório sobre as ações do interventor na ocasião. Conforme é relatado

  “Em todos os momentos, não descansou em cuidados o capitão Martins de Almeida, que pediu ao nosso eminente itinerante, que olhasse com patriotismo para as nossas necessidades [.

  ..]” (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1933, não paginado). O congraçamento da direção da ACM com os governos estadual e federal pode ser constatado pela recepção organizada por ela naquela ocasião.

  As classes conservadoras prestaram ao Sr. Getúlio Vargas e sua comitiva, eloqüente prova de apreço, representada por um banquete de 150 talheres, no Teatro Arthur Azevedo, no qual o comerciante Saturnino Belo, produziu uma brilhante oração, vasada em conceitos de alta relevância, reclamando, em nome da classe que é elemento de reconhecido destaque, as vistas do

Governo Central, os nossos problemas em equação.

[...]

  O chefe do governo, em resposta, produziu uma expressiva oração, enaltecendo as gloriosas tradições maranhenses e manifestando a sua profunda simpatia pelo Maranhão, cujas necessidades o seu governo procurará prover [...] (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHÃO, 1933, não paginado).

  Ainda no mesmo mês, a revista publica um “memorial” do interventor dirigido à Vargas (Figura 23 e 24). Ele foi inserido em um artigo com o título de

  “O

  Interventor Maranhense

  ”, que possui um flagrante fim laudatório, apresentando uma fotografia do homenageado em trajes militares, o que parece evocar o sentido de autoridade pública que se queria divulgar na época. Mesmo que Getúlio não pertencesse à caserna, trajou indumentária característica por ocasião da deposição de Washington Luís. Uma analogia do editor da revista entre uma e outra imagem não pode ser descartada. A década de 1930 também é distinguida pela ascensão e consolidação de regimes baseados na suspensão de eleições diretas e no uso ostensivo de forças armadas para o exercício do poder em parte dos principais centros políticos do mundo, como verificado na Itália, Alemanha, Japão e mesmo na URSS.

  Figura 23: Getúlio Dorneles Vargas em Itararé, São Paulo, 1930 Fonte: Wikipédia (2010)

  Figura 24: Interventor Antônio Martins de Almeida Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1930, não paginado)

  No texto, o “memorial” é referido como “[...] documento que muito honra o ilustre militar que nesse momento dirige os destinos dessa terra [...]

  ” e que “[...] calou profundamente no espírito maranhense [...] Ể (REVISTA DA ASSOCIAđấO

  COMERCIAL, 1930, não paginado). Seu autor, por conseguinte, portaria atributos como “elevação e patriotismo”, “franqueza” e “sinceridade”. Entretanto, as relações de reciprocidade entre a direção da ACM e o interventor se deterioraram rápida e profundamente quando da elaboração da lei de orçamento para o ano de 1934. Foi nomeada uma comissão de empresários do comércio e indústria entre os diretores da Associação Comercial para apresentar as sugestões da entidade, que basicamente se resumiam à repetição da proposta orçamentária de 1930. Um acordo prévio nesse sentido havia sido trabalhado entre a presidência da ACM e o secretário Francisco Franco de Sá Collares Moreira. Contudo, a interventoria propôs novas taxações sobre alguns produtos importados de outros Estados. Questionado pela comissão técnica designada pela Associação Comercial, o secretário de fazenda manteve a postura governista.

  Muitos debates se seguiram no interior da ACM, através de sessões extraordinárias. Alguns foram identificados como ofensivos ao secretário, que acusou a diretoria da Associação Comercial de

  “[...] deslealdade [...]” (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1933, não paginado). Em poucos

  dias pediu a exoneração do cargo, nomeando-se em seguida um pernambucano, Elpídio Lins. Com efeito, Arnaldo de Jesus Ferreira, um dos membros da comissão, pronunciou-se sobre o rompimento do pacto nos seguintes termos:

  Não foi esta Diretoria que prejudicou os entendimentos havidos com o Governo do Estado, mas o próprio senhor Diretor de Fazenda, ao nos afirmar que a reforma se realizaria [...]. Um matutino local, em “suelto” comentando um ofício dirigido pelo Sr. Diretor de Fazenda a esta Associação Comercial, em 21 do corrente, tece conceitos que não se ajustam à realidade dos fatos e deixam entrever que o órgão do comércio tenha proposto medidas prejudiciais aos pequenos comerciantes e, ainda, cortes profundos no funcionalismo.

  O novo secretário de fazenda, durante uma visita à Associação, ouviu que não seriam aceitos quaisquer novos lançamentos tributários. O governo recusou a manifestação da ACM, elaborando sem a participação desta, o orçamento em questão. Após o fato, em outra Assembléia Geral Extraordinária, já em maio de 1934, após uma fala de Arnaldo Ferreira, dois discursos proferiram palavras ofensivas contra Martins de Almeida. O interventor então convocou o presidente da Associação Comercial, José João de Sousa e outros dois diretores, Francisco Aguiar (Figura 25) e João Pereira Martins (Figura 26), para saber se endossavam as falas proferidas na sede da instituição (LIMA, 2010, p. 128).

  Figura 25: Francisco Coelho Aguiar

Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1928, p. 3) O mesmo grupo de empresários retornou com uma réplica que demonstrava haver se instaurado uma dissidência no seio da liderança empresarial: apenas uma parte dela não corroborava os termos proferidos, e nesta se incluíam os diretores que lá se encontravam. De se notar, porém, que dissensões sempre existiram dentro da entidade. A Revista da Associação Comercial do Maranhão, contudo, se esforçava

  Os que procuram acusar-nos hoje são os mesmos que ontem se recusavam a comparecer aqui; são aqueles que alegavam excesso de serviço, para não nos vierem dizer, pessoalmente, o que pensavam sobre a reforma tributária. São essa meia dúzia de colegas nossos, sempre prontos a militar em campo adverso ao dos seus companheiros, fugindo sempre, com horror e comodismo, à responsabilidade de declarar a sua opinião desassombrada, para depois condenar o que se resolver e procurar destruir o que não tiveram a coragem precisa de ajudar a erguer. [...] E ultimamente, quando os convidamos para junto a nós colaborarem no futuro orçamento, mais uma vez eles se fugiram ao cumprimento do dever, medrosamente. Como levá-los a sério? Acaso terão eles a força moral para

  Figura 26: João Pereira Martins Revista da Associação Comercial do Maranhão (1928, p. 3)

  • – em razão dos objetivos intrínsecos de consagração dos diretores
  • – por apresentar um quadro de harmonia consensual, suprimindo falas ou as editando, na tentativa de evitar a exibição das posturas conflitantes. Esse fim nem sempre foi alcançado. Ainda durante os enfretamentos com o secretário de fazenda Francisco Franco de Sá Collares Moreira, Arnaldo de Jesus Ferreira dirigia sua fala contra adversários que com ele serravam fileiras na ACM

  nos acusar? Não e não (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHÃO, 1933, não paginado).

  Mas a resposta levada a palácio por José João de Sousa não teve o efeito de atenuação esperado. Quando os diretores da Associação Comercial afirmaram que de nenhuma forma aquiesceriam com os novos tributos, o interventor determinou a prisão de todos os membros da comissão que a entidade havia reunido para discutir o orçamento, incluindo-se Arnaldo Ferreira, sob a acusação de promoverem eles um

  “[...] movimento da ordem pública [...]” (LIMA, 2010, p. 128). Em contrapartida, foi iniciada uma greve que fechou parte do comércio de São Luís, ao mesmo passo que se buscavam as medidas jurídicas pertinentes à soltura dos detidos, o que terminou por ocorrer após três dias. Através da intermediação do Ministério da Justiça articulou-se um acordo sobre a tributação estadual, que seria calculada à base do orçamento de 1933.

  A deposição de Martins de Almeida ocorreu com o advento da Constituição de 1934. No ano seguinte, foi eleito indiretamente, por votação majoritária da Assembléia Legislativa, o médico Aquiles de Faria Lisboa (1872- 1954), como Pires Sexto, natural do município de Cururupu, onde havia sido prefeito.

  A Revista da Associação Comercial do Maranhão (1935, não paginado, grifo nosso) divulga diversas notas elogiosas ao novo governador, incluindo-se fotografias. No mês de seu aniversário é tratado como

  “[...] um dos principais expoentes da intelectualidade maranhense [...] ”. Em um artigo chamado “O Governo

  Constitucional

  ”, a mesma publicação edita trecho de uma palestra por ele proferida na sede da Associação Comercial no ano de 1922, quando defende a vinculação da entidade com a administração pública, enquanto órgão consultivo. Logo abaixo, é aclamado como

  “eminente brasileiro”, “espírito rutilante”, proprietário de uma “correção inatacável” e “personalidade invulgar”. Segundo a revista, antes de Aquiles Lisboa, o Maranhão

  “[...] recebeu um quinhão bem amargo na partilha dos benefícios distribuídos pela ideologia revolucionária de 1930 [...] ”. Porém, a administração de Aquiles Lisboa é curta, em razão de disputas partidárias que conduzem ao seu afastamento.

  Através de outro pleito indireto pela Assembléia Legislativa é nomeado para o Executivo, com a chancela federal, o maranhense e alto funcionário do

  Tesouro Nacional, Paulo Martins de Sousa Ramos. A criação do “Estado Novo”, medida política que permite a Getúlio anular a disputa eleitoral pela presidência que ocorreria em 1938 e se perpetuar no poder, também faz retornar o sistema de interventorias. No caso maranhense, Paulo Ramos é confirmado no governo estadual, logrando permanecer nele até 1945, quando ocorre a destituição de Vargas.

  Ocorre que não se interromperam as congratulações de cunho político nos textos da revista da ACM. Sob o título de “Novas Perspectivas”, ela apresenta uma saudação laudatória ao novo interventor, que teria

  “[...] o apoio de todas as correntes políticas do Maranhão e aplauso unânime de todos os maranhenses [...] ”, posto que

  Ề[...] liberto das peias partidárias [...]Ể (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHÃO, 1936, não paginado). O interventor (Figura 27), segundo o artigo, encimado por uma fotografia em que o referido está sorrindo, não possui qualquer pretensão

  “pessoal”

  [...] nada deseja da Política; deixa de parte todos os seus interesses de ordem material para atender o apelo da terra berço; quer a colaboração de todos os Partidos, mas nunca, jamais, subordinará seus interesses ao partidarismo (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1936, não paginado).

  Figura 27: Interventor Paulo Martins de Sousa Ramos Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1936, não paginado)

  Segundo informa o escritor Carlos de Lima (2010, p. 140), Paulo Martins de Sousa Ramos é descendente de Manuel de Sousa Martins, o Visconde da Parnaíba (1767-1856), figura central da política da Província do Piauí, durante a Independência, Primeiro Reinado e Regências. Esse mesmo autor hodiernamente soma mais de oitenta anos, e em sua juventude militou na política ludovicense, inclusive pela

  “Ação Integralista Brasileira”, expurgada por Vargas após uma tentativa frustrada de retirá-lo do poder em meados da década de 1930. Em sua obra

  “História do Maranhão – República” faz um comparativo entre as personalidades de Paulo Ramos e seu ascendente possuidor de título nobiliárquico:

  “Herdara Paulo Ramos as „virtudes‟ de seu antepassado [...] „homem pernicioso e mau, cuja grande arma foi a bajulação [...] ‟”. O Interventor padecia “[...] de um grande complexo, o da feiúra [...]. ”, e em uma nota de rodapé, complementa:

  “Era realmente feio, escuro e de feições simiescas” (LIMA, 2010, p. 140, grifo nosso).

  No entanto, é o próprio Carlos de Lima que dá as pistas para tão pouca cordialidade: teve um tio preso por ordem do interventor, e encaminhado para a detenção onde eram acondicionados os portadores de deficiência mental. Passou dez dias em uma sela sem higiene, de lá retornando com graves problemas de saúde. De outra feita, relata que uma tia-avó de sua esposa sofreu grande prejuízo financeiro, quando Paulo Ramos decretou que os títulos da dívida pública estadual seriam pagos à metade do valor consignado em folha, sob pena de não recebimento.

  Ainda em 1936, no mês de novembro, esteve de passagem rápida pelo Maranhão o embaixador Osvaldo Aranha, que retornava dos EUA onde então servia. A revista publica duas fotos, à direita o representante do país na América do Norte e ao seu lado o interventor Paulo Ramos, que, segundo o artigo, havia se dirigido à Belém para encontrá-lo. O diplomata se demorava na capital do Pará em razão de uma escala de vôo realizado em um hidroavião da empresa Panair do Brasil. Lá, ambos acertaram uma visita não-programada ao Estado, que

  “[...] tendo à frente o seu operoso Governador, as classes conservadoras e a alta sociedade maranhense, prestou ao ínclito brasileiro significativas homenagens

  [...]” (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1936, não paginado) quando de sua chegada. Essas, porém, foram entregues pelos empresários Zoroastro Vieira e Eduardo Aboud, dentro da aeronave, que estava atracada frente ao porto da cidade.

  A estada de Osvaldo Aranha se resumira a um pouso de poucos minutos no estuário do Rio Anil (Figura 28).

  Figura 28: Hidroavião da Panair do Brasil, modelo Sikorsky S-43, matrícula PP - BN no porto de Belém

  • – Pará, 1941. Mesma aeronave que transportou Osvaldo Aranha Fonte: Baleixe (2009)

  Durante toda a administração de Paulo Ramos foram publicadas notícias de viagens, relatórios e pareceres nos quais ele é tratado como “laborioso” e

  “disciplinado”. Digno de nota é um artigo dedicado ao secretário de fazenda, Clodoaldo Cardoso, no qual é publicada uma foto em que o citado traja uma beca, um indicativo de seu conhecimento técnico para o cargo, além de ser identificado como homem de

  “espírito culto” e “dotado de caráter puro”. A sua freqüência nas reuniões semanais da ACM criaram laços de “mútua confiança” entre ele e a diretoria da instituição (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO,

  1940, não paginado, grifo nosso).

  Figura 29: Clodoaldo Cardoso Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1940, não paginado)

  Dessa forma, verifica-se que a Revista da Associação Comercial foi utilizada também com veículo de divulgação do posicionamento político ativo da direção da entidade, apesar de seus próprios regulamentos oficiais não permitirem esse tipo de função ou de atuação. São envolvidos princípios de intermediação entre múltiplas esferas de poder, ao mesmo tempo em que certos indivíduos são consagrados, através de suas qualidades pessoais, como representantes legítimos do empresariado no interior na arena eleitoral, ou

  “removidos” de tal posição quando colocados em xeque os interesses mais objetivos dos agentes, ainda que possuíssem prévios laços de reciprocidade.

  Um dos fins precípuos da Revista da Associação Comercial do Maranhão é a divulgação de artigos técnicos sobre temas vinculados ao comércio, lavoura e indústria do Estado. Tal dimensão, especificamente, está vinculada à própria legitimação da entidade enquanto instância de saber especializado e benéfica aos seus associados, pois esses desfrutariam do compartilhamento, através da publicação em tela, de conhecimentos necessários aos seus empreendimentos econômicos, os quais, de outra maneira, não poderiam ser alcançados, ou isso seria bem mais problemático.

  Nesse sentido, uma série de entrevistas, pareceres e relatórios são produzidos por administradores e proprietários de fábricas, grandes agricultores e comerciantes, sendo a rigor todos membros da própria ACM e ocupantes de cargos de direção nessa instituição. Uma abordagem recorrente é indústria têxtil que, na passagem do século dezenove ao seguinte, modifica o sistema produtivo local, antes centralizado apenas na exportação de bens in natura. Em 1926, a revista a apresenta uma entrevista com José Gonçalves Pereira (Figura 30), sob o título de

  “A Indústria dos Tecidos

  • – a subida do câmbio e a indústria têxtil. A baixa do algodão. A lei das oito horas de trabalho

  Ể (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHÃO, 1926, p. 2).

  Figura 30: José Gonçalves Pereira Revista da Associação Comercial do Maranhão (1926, p. 2)

  O texto é acompanhado por uma foto do entrevistado, que era diretor da “Companhia de Fiação e Tecidos do Rio Anil”, uma das maiores unidades fabris maranhenses. Era especializada na fabricação de um tipo de tecido chamado “morim”, “alvejado” ou “madapolão”, produzido a partir da fibra do algodão misturado a produtos químicos e utilizado geralmente para a confecção de roupas brancas. De pronto, através de si, a revista informa o propósito institucional da Associação Comercial:

  “Prosseguindo a nossa tarefa de bem informar aos nossos leitores sobre os problemas que dizem respeito à vida e ao progresso do nosso Estado, procuramos ouvir, em seu escritório, o conceituado industrial [...]

  ” (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1926, p. 2). Discorrendo sobre a situação das fábricas frente à subida do câmbio, baixa nos preços de sua principal matéria-prima e o estabelecimento do limite máximo de oito horas diárias de trabalho para o operariado, o industrial expõe um quadro negativo sobre a situação das têxteis:

  Com a subida do câmbio, a indústria dos tecidos ficou em situação favorável?

  • Não, respondeu-nos o distinto cavalheiro. Penso, entretanto, que não é a alta do câmbio, propriamente dita, que cria a situação desfavorável em que se encontram as indústrias e também o comércio e a lavoura. O que motiva a situação é a falta de estabilidade em tudo, motivando assim um retraimento geral. Normalizado que seja o câmbio, embora a sua taxa atinja a 8 d., penso que todos os negócios se modificarão, desde que haja uma base segura para operar. A baixa do algodão, matéria-prima, de certo modo contribuiu para que as fábricas de tecidos aumentassem seus stocks, assegurando a produção para largo espaço de tempo?
  • Não. As fábricas compram algodão na base de suas necessidades; não especulam; sendo-lhes, portanto indiferente o preço em que se mantenha a matéria-prima, desde que haja compradores para os tecidos. [...] (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1926, p. 2).

  Ao comentar sobre a determinação legal das oito horas diárias, o industrial arrola o fim do regime de escravidão, pelos modos como se operou, como um dos eventos mais prejudiciais ao sistema fabril maranhense. Ainda que tenha ocorrido quase quarenta anos antes, e mesmo anteriormente à instalação de todas as fábricas, a abolição do trabalho compulsório é um assunto sensível aos industriais e, em geral, às elites econômicas locais, posto que é apontada como a causa maior da perda de fortunas particulares e, por consequência, da receita pública, ambas configurando a

  “decadência econômica” da então província, postura essa inclusive apresentada e defendida por Viveiros (1954). Nas palavras do gestor da

  “Rio Anil”:

  [...] A lei, estabelecendo o regime das oito horas de trabalho, tem sido mal interpretada. Segundo o meu modo de ver, aliás, desautorizado, penso ter sido o pensamento do legislador garantir o proletariado da obrigatoriedade que lhe pudesse ser imposta de aceitar contratos para trabalho por mais de oito horas diárias, o que, aliás, é um direito que assiste a qualquer pessoa de se contratar para qualquer serviço pelo tempo e hora que afiguraram convenientes, visto que não temos uma lei regulamentando o trabalho. Tal fato, digamos de passagem, constitui uma lacuna da nossa legislação, cuja falta foi seriamente sentida por ocasião de ser extinto o elemento servil, causando a perturbação do trabalho agrícola, perturbação essa que ainda hoje perdura onde não existe o elemento do braço livre, proveniente dos imigrantes europeus. [...] (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1926, p. 2).

  Dunshee de Abranches já havia se dedicado ao tema em sua “memória” apresentada à Associação Comercial do Maranhão, intitulada

  “Transformação do

  Trabalho

  ”, de 1888. Nessa obra, tenta colocar-se na função de perito da instituição, buscando tornar-se uma voz autorizada a falar em nome. Ali informa que:

  Estacionária há muitos anos, em uma decadência latente, enfraquecida todos os dias em suas fontes produtoras, únicos elementos de assimilação para a sua prosperidade, o Maranhão permaneceu longamente em um torpor profundo, e só tarde despertou de seu perigoso letargo. Confiando demais nos poderes públicos, e esperando quase sempre tudo de suas mal cumpridas promessas, ele cometeu um erro desculpável, porém enorme e só tarde sentiu a benéfica influência da iniciativa individual. Enquanto as outras províncias levantavam empresas agrícolas e industriais, que imprimiam uma nova fase ao seu desenvolvimento, e exigiam subvenções para as suas estradas, o Maranhão esperava (MOURA, 1888, p. 11).

  E posteriormente lista uma série de medidas que já deveriam ter sido implementadas pela ACM, “[...] ou de outra criada para tal fim” (MOURA, 1888, p. 29

  • 30), e que deveriam ser executadas imediatamente: 1. Criação de um banco rural.

  

2. Publicação de um anuário comercial e agrícola.

  3. Organização de uma estatística de importação e exportação.

  4. Instituição de uma exposição agrícola anual.

  5. Distribuir um boletim mensal ou por trimestre contendo a indicação detalhada dos aperfeiçoamentos da lavoura e dos preços dos diversos gêneros nos mercados estrangeiros e nacionais.

  6. Fornecer sementes aos lavradores, dos gêneros que podem ser aproveitados no nosso clima em benefício de suas empresas.

  7. Contratar por conta dos interessados os libertos que quiserem seguir para as lavouras.

  8. Contratar (conforme o fundo da associação) a publicação nas principais cidades européias de artigos, mostrando as vantagens do nosso solo e do nosso clima, e atraindo assim a imigração espontânea ((MOURA, 1888, p. 29 - 30)

  O quinto item seria recepcionado apenas em 1925, quando da criação da revista da entidade. É nesse ano inclusive que ela publica uma série de artigos que compõem parte de uma

  “Tese”, subdividida em quatro segmentos, cujo autor era o também industrial Cândido José Ribeiro. Como de praxe, havia um retrato seu encabeçando o texto. Na

  “Tese IV”, tratando do surgimento das indústrias de tecido no Estado, aponta que a gênese fabril maranhense teria ocorrido “[...] na cidade de

  Caxias, ao influxo da grande intelligencia do Dr. Dias Carneiro [...] ” (REVISTA DA

  ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1925, p. 2). Apesar de Dias Carneiro não figurar na direção da ACM, era um abastado comerciante e chefe político da região de Colinas, no sul do Estado, com grande transito no governo provincial e dentro da instituição.

  Igualmente, o industrial José Pedro Ribeiro, um dos fundadores da agro- indústria “Engenho Central São Pedro”, em Pindaré, sócio e amigo pessoal de

  Cândido Ribeiro

  • – apesar do sobrenome comum não tinham laços de parentesco entre si
  • –, publica um artigo chamado “Fibras Vegetaes”. A revista classifica seu autor como

  “[...] um dos vultos mais proeminentes do nosso meio, pela sua sólida cultura e pelo acentrado amor que dedica a tudo quanto respeita aos elevados interesses do Maranhão

  [...]Ể (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHÃO, 1926, não paginado). As suas qualidades de

  “especialista” já eram divulgadas por outro agente que cumpria essa função no início do século vinte, Paxeco (1916, p. 48):

  O ministério da agricultura, indústria e comércio fez editar uma bela monografia, com destino à exposição nacional da borracha, sobre os espécimes deste recurso maranhense. É seu autor o ilustre José Pedro Ribeiro, cuja competência no assunto ninguém nega, conhecedor como poucos da exuberância da flora estadual e das possibilidades compradoras no estrangeiro. [...] O incansável Sr. José Pedro Ribeiro, queixa-se, à todo passo, com infinita razão, da mais notória míngua das estatísticas estaduais.

  Como já relatado para outros casos, a publicação de uma imagem do articulista tem o objetivo de homenageá-lo, e isso é dito em termos claros “Estampando o seu retrato, esta revista presta uma justa homenagem ao seu ilustre conterrâneo, cujas ideais sempre defendidas com denodo, constituem elevado apanágio do seu inconfundível valor intelectual

  Ể (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHÃO, 1926, não paginado). Em seu escrito, José Pedro Ribeiro defende a introdução de um novo tipo de cultivo no Estado, baseado em fibras têxteis grossas, como o

  “sisal” (agave sisalana), natural do México, ou das fibras naturais da flora maranhense:

  As plantações devem ser feitas obedecendo todas as regras, como se se tratasse de um jardim, como o Ceilão fez com o plantio da nossa borracha. Com três anos de crescimento, o “sisal” começa a dar ensejos para que suas folhas possam ser colhidas. O “sisal” brota em qualquer terreno; não requer de cuidados especiais, a não ser a capina, e dura indefinidamente. Não se extingue, porque os bulbos amadurecidos caem e brotam rapidamente no sitio onde caíram. [...] Em junho de 1914 tentei levantar algum capital na Inglaterra e para lá mandei amostras do nosso sisal e de tucum, abundante em nossas matas. A resposta que tive foi que essas fibras encontrariam bom mercado em Liverpool, e poderiam ser vendidas a £ 20 por tonelada, preço mínimo. Conviria, porém, que o seu comprimento não fosse inferior a quatro pés. Na América do Norte, o preço leva vantagem, mas, não estou agora em posição para cotá-lo. Entretanto, tomando aquele preço por base, a tonelada valeria Rs. 700$000 e o quilo 700 Rs. da fibra em bruto. É magnífico o resultado, se refletirmos que são as máquinas que fazem quase todo o serviço, rápida e limpamente. Note-se, porém, que a informação não veio de uma fábrica de fiar e tecer, e sim de uma fábrica de cabos de manilha (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1926, não paginado).

  Em maio de 1928 é trazida matéria que descreveu uma conferência realizada no salão nobre da Associação Comercial sobre a qualidade do algodão maranhense. O conferencista, de igual forma retratado, é João Protázio Bogéa (Figura 31), chefe do

  “Serviço de Classificação do Algodão”, na época, uma secretaria vinculada ao Ministério da Agricultura.

  Figura 31: João Protázio Bogéa

Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1928, p. 4)

  Conforme descrito, “perante os membros da diretoria da citada corporação e pessoas interessadas no assunto [...], passou a dissertar em interessante demonstração das atuais condições do nosso ouro branco

  ”, alvitrando medidas capazes de colocar em lugar de relevo a exportação daquela preciosa fibra. O expositor apresentou uma série de gráficos e planilhas sobre a situação da lavoura no Estado. Dados comparativos indicavam que, em termos de qualidade, o produto local não tinha capacidade de concorrência nem mesmo frente a seus vizinhos mais próximos (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHÃO, 1928, p. 4).

  Exibindo esquemas do algodão classificado em cada Estado, mostrou que o Maranhão, no ano último, classificou 23.494 fardos de algodão, sendo que dessa quantidade, somente 9% foi de qualidade boa (primeira sorte), contra 17,42 % do Ceará, 64,44% do Rio Grande do Norte, e 40,89% da Paraíba. A porcentagem do “mediano bom” do Maranhão foi 25%, contra 65,18% do Ceará, 39,28% do Rio Grande do Norte, e 47,57% da Paraíba. Classificado na classe

  “mediano comum”, o Maranhão teve 32%, contra 13,39% do Ceará, 2,28 % do R. G. do Norte, e 5,77% da Paraíba. Finalmente, tratando- se de algodão “ordinário”, o Maranhão produziu 32,96%, contra 4,01% do

Ceará, 0,37% do R. G. do Norte, e 2,87% da Paraíba.

Além desses esquemas, apresentou outros mais, nos quais consignou as curvas atingidas pelos Estados do Norte, e que demonstram, de modo claro e positivo, a situação de inferioridade do Maranhão no que concerne ao selecionamento e boa cotação do produto. À medida que a curva do Maranhão sobe quando o algodão é mau, o diagrama de outros Estado desce de curva à proporção que o algodão é ordinário, subindo sempre para alcançar a classificação Ềprimeira sorteỂ (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHÃO, 1928, p. 4).

  Após a palestra, alguns empresários e diretores da ACM se pronunciaram. Todos os discursos seguiram em confirmação das teses apresentadas pelo palestrante:

  O Sr. João Abreu, representante da firma Cândido Ribeiro & Cia. expos apreciáveis teorias sobre as causas que vem tolhendo o desenvolvimento do mercado algodoeiro, demorando-se em considerações sobre a prensagem, que não deveria ser obrigatória, na capital, e sim aquele que dispusesse de mecanismos apropriados, os quais podem ser fiscalizados pelo governo. [...] O Sr. José Jorge fez considerações sobre os inconvenientes, para compradores, das duas classificações, de entradas e de saídas. Citando os prejuízos sofridos, insiste para que a classificação, na boca da prensa, seja acompanhada na seleção. Sobre este ponto, ainda falaram o Dr. Pedro Oliveira e outros, aprovando o projeto de seleção junto à classificação (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHÃO, 1928, p. 4)

  No mês de outubro do mesmo ano, um longo artigo tratou sobre a “Situação do Commercio”. O autor é o diretor Alfredo Benna (Figura 32). Num intróito, a revista informa ser ele gerente da

  “Pacotilha”, um dos periódicos diários de maior circulação em São Luís. O referido discorreu sobre a agricultura relacionada à atividade comercial.

  O babaçu, em setembro do ano passado, começou a melhor no mercado. Este ano mantém com a “copra” em baixa. O comércio tem informações pelos telegramas, mas não sabe as causas. Desconhece a safra da “copra” deste ano, que foi grande, e que o stock se conserva relevante. Poucos se lembram que, a dez anos passados, nessa época, ninguém imaginava que um dia teríamos mandado arroz para o Rio, pois em 1918 remetíamos arroz em casca para Portugal. Pelas estatísticas comparativas, ganhávamos mais naquele tempo, em que o arroz estava a 7$000, do que hoje, que está a 13$000/14$000, e no Rio a 60$000, o pilado. Dobram-se os impostos e os fretes, e o arroz úmido perdeu o mercado de Portugal, em benefício das colônias (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1928, p. 4).

  Figura 32: Alfredo Benna Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1931, não paginado)

  Em outra exposição, datada de janeiro de 1931, Heitor Fróes da Cruz, que não figura entre os diretores da ACM, discute sobre as técnicas de melhoramento e preparação do produto para a mesa de classificação.

  A mistura do algodão bom com o caroço doente, morto ou atrofiado, modifica enormemente seu aspecto. E deve ser evitada a poeira e substâncias estranhas. Na colheita, não tendo o lavrador o devido cuidado em apanhar o algodão, ele vem, quase sempre, acompanhado de fragmentos de folhas secas, de sépalas, de talos, etc., os quais são triturados no descaroçamento, e vem sempre em mistura com a pluma, determinando que o algodão sofra classificação nos tipos inferiores. Daí a necessidade imperiosa do lavrador separar o seu algodão em caroço, devendo então ser o mesmo classificado da seguinte maneira: 1º apanha, algodão bom; 2º apanha, algodão regular; 3ª apanha, algodão inferior (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1931, não paginado).

  No mês de abril de 1936, a Revista da Associação Comercial do Maranhão publica um artigo sobre uma matéria divulgada no jornal

  “A Tribuna”, na qual são entrevistadas “[...] as figuras mais destacadas do comércio maranhense

  [...] Ể, intitulado ỀA Voz do ComércioỂ (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO

  MARANHÃO, 1936, não paginado) Os indivíduos em questão são os diretores da

  ACM, Afonso Assis Pereira de Matos (Figura 33), José Alexandre da Silva Oliveira e Arnaldo Ferreira. A revista produz uma edição do texto levado ao periódico e para cada um dos empresários são apresentadas qualificações pessoais que remeteriam à competência profissional.

  Figura 33: Afonso Assis Pereira de Matos Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1926, p. 2)

  Para os primeiros, sequencialmente, “Espírito prático e observador [...]” e

  “[...] inteligente e operoso [...]”. No caso de Arnaldo Ferreira (Figura 34), no entanto, há uma evidente dedicação na sua exaltação, talvez em virtude do papel por ele exercido nas disputas políticas em nome da entidade, em curso naquele período:

  É bem moço ainda, mas revela-se no seio da sociedade de sua terra em espírito de grande brilho, cheio de vivo entusiasmo pela sua grandeza. Expende idéias elevadas, em sabedoria e percuciência, em estilo aprimorado e elegante (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHÃO, 1936, não paginado).

  Figura 34: Arnaldo de Jesus Ferreira Fonte: Viveiros (1954, não paginada)

  Mais que isso. O que teria sido a fala de Arnaldo Ferreira aparece figurando como a última das três, ou seja, protocolarmente, é a mais autorizada, pois que, depois dela, ninguém mais se manifesta. Ela também é precedida por uma nota explicativa do articulista da revista. Ademais, de maneira diversa aos dois outros antecessores, é aposta em uma configuração de tópicos, o que lhe atribui um sentido mais didático

  O Sr. AFONSO ASSIS PEREIRA DE MATOS [...]. Foram estas suas idéias: Os governos passados nunca se lembraram que o nosso Estado deveria viver da terra.

  • – Aconselha o trato da agricultura em larga escala e o preparo de vias de comunicação que conduzissem o máximo da colheita ao porto da capital.
  • – No Maranhão a produção agrícola se escoa mais facilmente pelos Estados vizinhos e cada vez mais andamos por trás como os caranguejos. [...]. [...] O problema do Maranhão, disse o Sr. Arnaldo Ferreira, é daqueles que não se resolvem com facilidade. Em todos os ramos de atividade, a balbúrdia é enorme, e ninguém se entende; as próprias leis, que deveriam ser a bússola norteadora, são o que mais contribui para a confusão geral, numa disparidade de dispositivos que se entrechocam e atentam contra a Constituição Federal. Os espíritos estão intranqüilos pelas tentativas de subversão da ordem pública. É nesse ambiente que a classe comercial é obrigada a exercer sua atividade, sem imprensa que a defenda e até impedida, por caprichos políticos, de gozar do direito de representação, assegurado pela Constituição. Dentre outros males, aponta: METODOS ANTIQU
  • – Já é tempo de reformarmos os métodos usados no comércio. Pequeno é o número de estabelecimentos maranhenses para os quais a inovação das duplicatas, a prazo determinado e com título de dívida, tem aproveitado. A maioria usa ainda debitar esses títulos em conta correte, tirando-lhes assim o seu valor líquido e certo e lhes
adulterando a finalidade. A época dinâmica dos nossos dias não permite a continuação desses processos rotineiros. DEFICIENCIA DE TRANSPORTES

  • – EXCESSO DE DESPESAS – Servidos por única estrada de ferro e meia dúzia de empresas de navegação, uma e outras sem o material suficiente, não podemos concorrer com outras do país. [...]. FALTA DE AUXÍLIO
  • – Lutando contra a falta de transporte, o lavrador sofre ainda a falta de auxílio para incremento da sua lavoura. Pouco a pouco o volume de produção maranhense vai baixando enquanto a importação sobe consideravelmente. [...] (REVISTA DA ASSOCIAđấO COMERCIAL DO MARANHấO, 1936, não paginado).

  Além desse tipo de comunicação, a Revista da Associação Comercial do Maranhão ainda publicava uma série de outros informes, como quantidade de algodão, babaçu e tecidos exportados, os tipos e o número de peles que se encontravam no

  “Depósito de Couros”, taxas cambiais, preços correntes, eventos e festividades relacionadas ao comércio, indústria e lavoura, além de anúncios pagos das empresas em geral e dos sócios da instituição.

  Conforme anteriormente demonstrado, os investimentos da liderança empresarial no diálogo com outras esferas de poder, equivalentes ou superiores à entidade de representação do

  “grupo”, são recorrentes, como resultado de seu próprio exercício de legitimação. Com frequência são suscitados temas afetos, ou ao menos apresentados enquanto tais, a interesses compartilhados entre aquela parte da elite econômica local e outros segmentos, redundando em uma aproximação de determinados agentes dela com a esfera política. Para Offerlé (2009, p. 19

  • – 20, tradução nossa):

  [...] é preciso colocar um lugar para os agrupamentos oriundos do grupo patronal que entendem participar do debate público, chamando os chefes de empresa a investir pessoalmente (sozinhos ou com outros), às vezes financeiramente. Pode se tratar de organismos de combate, tendendo a replicar a mobilização coletivista e a desenvolver o repertório de argumentos [...].

  Durante esse processo estão presentes os mesmos elementos que subsidiaram a constituição da liderança no interior da instituição. Há o enaltecimento das relações de reciprocidade, das vinculações a determinadas famílias “tradicionais” na política e a atribuição de características pessoais adequadas a ambas as funções, de empresário e político, como os pretensos “esforço” e

  “trabalho” incomuns. Em seguida, o agente é exposto como um exemplo de diferenciação frente aos demais, enquanto um represente “nato” do empresariado. Esses caracteres personalíssimos, como a

  “predisposição ao trabalho”, “grande

  descortino

  ” e “percepção incomum”, são trazidos aos demais como a explicação lógica para as posições de domínio alcançadas ou ainda por alcançar.

  Nesse sentido, a constituição e o recrutamento de lideranças políticas, no caso em apreço, a partir de um tipo específico de elite econômica que se aglutina em torno de uma instituição de representação do

  “grupo”, envolve recursos como a vinculação por parentesco, através da consangüinidade ou ainda por conexões pensadas e executadas conforme o padrão e vocabulário das relações familiares (GRILL, 2008, p. 129).

  As estratégias executadas podem igualmente revelar os princípios de classificação em jogo, incluindo-se aí critérios de legitimação como a diplomação acadêmica obtida fora do Maranhão e a

  “[...] associação com uma época de apogeu inventada que se traduzia em um estilo de vida sofisticado e na tradição da intelectualidade

  [...]” (GRILL, 2009, p. 142 - 143), fazendo também aflorar as percepções de política e sociedade, bem como “[...] estas se tornam eleitoralmente eficazes em determinadas condições históricas e sociais

  ” (GRILL, 2008, p. 130). No ponto, é bem se evidenciar que o recrutamento de agentes e a formação de

  “tradições políticas”, no contexto histórico e configuração social abordados, perpassam por uma aproximação muito estreita com segmentos já estabelecidos em diversos campos de poder.

  Os modos como se opera a reconversão do recurso social de pertencimento a uma “facção” versada no ambiente político devem ser pensados a partir de uma perspectiva de permanência e conservação dessas mesmas estruturas de controle, ao menos durante o Império e até a década de 1930, no que se identificou como

  “República Velha”. Com efeito, se verifica a formação de alianças em vários níveis para assegurar eleições tranqüilas e de resultado esperado. Não raros são os casos de candidato único, voto previamente conhecido e ausência de conflitos

  “ideológicos” ou “programáticos”, em um processo eleitoral marcado por forte cooptação de agentes que não correspondem a essa configuração. Se nos principais centros políticos e econômicos do país se constatava a emergência de organizações e demandas de segmentos anteriormente excluídos ou de ascensão limitada na esfera das disputas políticas, em especial durante a década de 1920, como as baixas e médias patentes militares e o operariado urbano, no Maranhão isso não se verificou ou foi incipiente.

  Ainda assim, como já mencionado anteriormente, há de fato a portabilidade de um discurso que em tese se coloca em defesa dos interesses do “grupo”, como a temática tributária, em que os empresários ocupantes de cargos eletivos se posicionam a favor ou contra modificações legais incidentes sobre o orçamento estadual, ou a não ingerência direta dos poderes públicos sobre as transações comerciais.

  Como adiante será demonstrado, há um maior direcionamento dos diretores para ACM para o Legislativo, talvez porque nessa instância se realize objetivamente a apreciação e aprovação das propostas que formarão a lei orçamentária anual. A mobilização de agentes oriundos dos meios empresariais e pertencentes a uma elite econômica específica, para essa instância de poder, talvez não represente a formação de uma

  “frente parlamentar”, como é tratado pela linguagem política contemporânea e abordado por Coradini (2008), inclusive em razão de distinções específicas, como o contexto histórico e mesmo a escala de análise. No entanto, este último autor fornece algumas noções que podem contribuir para a compreensão dos mecanismos de mobilização nessa arena.

  Cuida-se, então, de definir e impor interesses no espaço político, especialmente através das “atividades de expertise”, importando em uma

  “articulação”, em primeiro lugar, produzida entre os legisladores que possuam afinidade de cunho eletivo com a “questão” apresentada. Para um segundo momento, essa congregação aciona agentes pertencentes a outros níveis do poder político, como no Executivo, mas também vinculados ao mesmo “problema”.

  Por último, está presente a criação de uma composição em torno da definição e da organização de demandas direcionadas a alguma “unidade social” ou entidade de

  “agrupamento, mobilização e representação” (CORADINI, 2008, p. 77). A par das diversas modalidades de mobilização daí decorrentes, o que deve ser percebido de fato são os modos como se operam as reconversões dos recursos em jogo em capital político e as lógicas sociais que lhes são inerentes (CORADINI, 2008, p. 81). Justamente, nesse sentido, se tentou observar como os diretores da ACM converteram em capital político os recursos usualmente utilizados para sua própria configuração enquanto líderes de uma parte da elite econômica local e, nesse caso, as condicionantes sociais que permitiram essa passagem.

  Uma característica notável é que a participação política dos diretores da ACM, ao menos no que toca a ocupação efetiva de mandatos, não foi, em geral, longa. A rigor, cuidava-se do exercício de um ou dois mandatos, sendo de franca exceção tempo maior que esse. Provavelmente isso se devesse ao fato de que ela se realizasse conjuntamente a uma série de outras atividades de liderança, fosse na Associação Comercial, nos empreendimentos econômicos, clubes privados, organizações literárias ou ainda religiosas, todas elas demandando ao menos um mínimo de acompanhamento de gestão.

  Assim mesmo, verificou-se que, entre 99 diretores da Associação Comercial do Maranhão com informação disponível, aproximadamente 23% tinham inscrição partidária. Ao menos 17 ocuparam cargos eletivos, ou 12% do total absoluto, enquanto outros 9 desempenharam funções relacionadas à Administração, de caráter não-eletivo. O mandato mais comumente exercido é o de deputado estadual (Tabela 7).

  Tabela 7: Vinculação com a Administração Pública

Cargos eletivos Diretores Cargos não-eletivos Diretores

Poder legislativo Representante

  3

  6 imperial/federal Diplomático Chefia do poder executivo Secretarias de

  3

  3 provincial/estadual Estado Poder legislativo 7 -

  • provincial/estadual Chefia de poder executivo

  1 municipal

  • Sem informação 132 Fonte: Revista da Associação Comercial do Maranhão (1925-1940)

  Para os diretores da ACM ocupantes de cargos no Legislativo e Executivo, tanto municipal quanto estadual, é possível fazer-se uma subdivisão cronológica em três partes, correspondentes aos períodos em que um ou outro teve maior destaque na arena eleitoral maranhense, e em face das alterações transcorridas na política no país. Em cada uma delas, um caso exemplar de como determinado empresário, pertencente à liderança institucionalizada de um “segmento” da elite econômica local, dedicada ao comércio e indústria, ingressou e dialogou com esse nível de representação e poder.

  O primeiro compreenderia um período que vai até o final do Segundo Reinado, no ano 1889. Nessa época, o diretor da então

  “Comissão da Praça”, que futuramente se transformaria na Associação Comercial do Maranhão, apontado como a referência da instituição em termos de articulação política foi o dinamarquês Martinus Rolemberg Hoyer. Apesar de não ter ocupado qualquer cargo eletivo em razão de impedimentos legais motivados por sua origem geográfica, interveio em diversas oportunidades nessa seara, em especial através de artigos editados nos principais jornais da cidade. Por ter sido diretor em período anterior ao definido para a atual pesquisa, ele não figurou entre os agentes estudados.

  Contudo, uma das amizades mais próximas de Martinus Hoyer era o já citado Temístocles da Silva Maciel Aranha (1837-1887), diretor da ACM e deputado provincial na década de 1870. O referido é tido como uma das principais referências do

  “jornalismo” do Maranhão no século dezenove. Atuando no “O Publicador Maranhense

  ”, em 1863, na função de redator-chefe, substituiu Francisco Sotero dos Reis (1800-1871), professor, autor de obras literárias sobre a língua portuguesa e clássicos greco-latinos, que teve ainda ativa participação política nas fileiras do Partido Conservador maranhense.

  Temístocles editou o periódico “Imprensa”, em sociedade com Carlos

  Fernando Ribeiro, político que capitaneava o Partido Liberal na então Província, e que seria depois agraciado com o título de Barão de Grajaú. Foi também editor do “Jornal do Commercio” e do jornal “O País”. Esse último, se por um lado contribuiu com peso para seu ingresso e progressão no interior da Associação Comercial do Maranhão, por outro permitiu também que se integrasse na arena política. Produzira ali uma espécie de editorial onde não se restringia a debater apenas a temática econômica.

  Mesmo possuindo um aparente fim específico, o periódico se dedicava a outros assuntos, como a política educacional e o funcionamento das repartições públicas. Em tal contexto, as disputas eleitorais constituíam um tópico importante, discutindo-se a participação de maranhenses na assembléia geral, senado e nos ministérios imperiais, bem como as articulações políticas na Província e a preponderância variável das facções liberal e conservadora através da distribuição de cargos administrativos:

  “Era um domingo, em princípio de 1878, quando meu pai recebeu o telegrama do Rio anunciando a queda do Partido Conservador e a formação do gabinete liberal de Sinimbu. O País tinha que dar boletim

  ” (ARANHA, 1996, p. 53). Assim, é possível se perceber que as contribuições dispensadas pela edição de

  “O País”, incluindo-se o pertencimento à direção da ACM, para a esfera política, não se deu exclusivamente por sua acuidade na análise da situação econômico-financeira local. Ao contrário, um recurso do nível de um periódico que gozava de ampla aceitação, pretensamente

  “desinteressado” de temas que não aqueles pertencentes ao mundo das finanças seria por demais importante, em especial quando questões mais imediatas, notadamente as do meio político, estivessem em jogo.

  Ademais, se havia uma “linhagem de escritores” na família de Graça

  Aranha, existia “outra” que poderia ser identificada como “linhagem de políticos”, onde seus membros ou participavam diretamente das disputas eleitorais ou se acomodavam em cargos de nomeação, a partir da existência de vínculos de reciprocidade e de parentesco. O anteriormente comentado José Pereira da Graça Aranha, filho de Temístocles, além de escritor, fora promotor de justiça, procurador seccional no Rio de Janeiro e diplomata.

  A esposa de Temístocles, Maria da Glória da Graça, mãe de Graça Aranha, era filha do cearense José Pereira da Graça Júnior (1812-1889), que recebeu o título de Barão de Aracaty no ano de 1887 em razão dos serviços prestados à administração da justiça. Bacharel em direito pela Academia de Ciências Jurídicas e Sociais de Olinda, foi juiz e deputado pelo Ceará durante várias legislaturas, além de compor a Assembléia Geral do Império por dois mandatos.

  Muda-se para o Maranhão com mulher e filhos na década de 1860, quando se tornou presidente de província, função que ocupou por quatros vezes consecutivas. Em 1876 fixou-se no Rio de Janeiro, nomeado por Pedro II como desembargador do Tribunal da Relação (órgão máximo do Poder Judiciário da época, cujo equivalente hodierno é o Supremo Tribunal Federal).

  Pelo lado paterno, Temístocles contava com a “tradição política” legada por um tio cuja graça seria associada às violentas lutas que antecederam o fim do

  Primeiro Reinado, José Cândido de Moraes e Silva (1807-1832), que recebera a alcunha de “O Pharol”, em razão do nome da folha por ele fundada. Esse periódico foi distinguido do grande número dos demais que se encontrava em circulação na

  época por possuir uma linha identificada como muito radical, e direcionada contra as autoridades representantes da política de Pedro I estabelecidas no Maranhão. Acusando-as de obstacularizar a consolidação da Independência, terminou perseguido e preso, sucumbindo muito jovem e sem recursos financeiros, aos vinte e seis anos.

  O legado político deixado por José Cândido Morais e Silva permitiu a continuidade do periódico, com um ou outro intervalo. Foi ele renomeado para “O

  Pharol Maranhense ”, cujo editor, João Francisco Lisboa (1812-1863), seria um dos nomes de referência do Partido Liberal local, ao lado de Ana Jansen (que atuava fortemente nos bastidores), e mais tardiamente, do Barão de Grajaú, o mesmo que seria sócio de Temístocles na redação da

  “Imprensa”. De se recordar a sociedade de Ana Jansen com o abastado comerciante José da Cunha Santos, cujo filho seria um dos fundadores da ACM, juntamente com o amigo Temístocles.

  Dessa forma, vê-se que através do laço de parentesco firmado com o Barão de Aracaty, a ancestralidade figurada em um

  “herói” (ARANHA, 1996, p. 36) da política maranhense na primeira metade dos oitocentos, além dos vínculos de amizade com ricos empresários, diretores da Associação Comercial do Maranhão, Temístocles Aranha teve aberto para si o caminho de ingresso na arena política, e o trilhou, ainda que por não muito tempo.

  O segundo período abarcaria a consolidação do regime surgido em novembro de 1889 e a sua queda em outubro do ano de 1930. O diretor da Associação Comercial do Maranhão a mais atuar politicamente na época foi Manoel Ignácio Dias Vieira.

  Sua família teve participação direta na fundação da vila de Guimarães, o principal centro político-econômico da vasta área que partia da desembocadura do Rio Pericumã até o Pará, colonizada que foi por dois de seus ancestrais diretos, o capitão Manoel Ignácio Vieira e Manoel Dias Cadete. Em razão disso, as bases eleitorais de Manoel Ignácio e outros parentes seus atuantes nessa instância de poder tinham a comarca em questão como o principal reduto eleitoral. Por ser na

  época uma das povoações de maior população da Província, logravam, através do número de votantes, participação política de nível nacional.

  O Coronel Manoel Ignácio Dias Vieira nasceu na ampla morada térrea da família, localizada dentro da vila, em 1858. Herdou do pai o nome, absolutamente idêntico. Porém, o superou quanto à patente militar alcançada, pois seu ancestral havia sido tão somente Tenente-Coronel. Faleceu o progenitor quando o pequeno Dias Vieira tinha apenas dois anos (FURTADO FILHO, 2000, p. 79). Sua mãe, Anna Cantanhede, era proprietária do

  “Engenho Coberta”, também em Guimarães, e contraiu núpcias com o seu cunhado, Casimiro Dias Vieira, tendo ambos se retirado para viverem na

  “Fazenda Santa Maria”, de propriedade deste último, onde o futuro diretor da ACM conviveria com novo casal até os doze anos. Casamentos endogâmicos, na própria família, estavam diretamente relacionados à manutenção e continuidade do domínio sobre as propriedades rurais, conforme foi observado por Canêdo (1991, p. 227):

  [...] percebe-se tanto no Brasil como em outras sociedades, a persistência de casamentos consangüíneos no interior da descendência. Uma preferência que está associada à tentativa da família de manter as terras dentro do seu domínio.

  Os Dias Vieira, de longo tempo, sempre estiveram muito próximos da administração política portuguesa, imperial e republicana no Maranhão. Para isso contribuiu uma forte

  “tradição militar”, emanada das carreiras comuns de vários de seus membros dentro do oficialato das forças armadas, do final dos setecentos, até o início do século vinte. É relevante o fato de alcançarem sempre postos de comando superior em suas organizações (em ordem cronológica): Capitães Manoel Ignácio Vieira e Manoel Dias Cadete; Coronel Manoel Ignácio Dias Vieira; Tenente- Coronel Joaquim Cantanhede Dias Vieira; Major Casimiro Dias Vieira; Coronel Pedro Wenescop Dias Vieira; Almirantes Ricardo Salazar Dias Vieira e Manoel Ignácio Belfort Vieira, além do Capitão Gastão Cantanhede Dias Vieira.

  Manoel Ignácio Belfort Vieira, por exemplo, primo quase homônimo e contemporâneo do diretor da ACM, era descendente por parte de mãe de Lourenço Belfort, o irlandês que fizera fortuna no Maranhão no final do século dezoito. Foi ele o primeiro governador eleito durante a república, ainda que por voto indireto do congresso estadual, em 1892. Antes havia sido deputado federal e nomeado vice- governador dos Estados do Amazonas e do Maranhão, logo após a queda da monarquia. Era militar da Marinha, tendo alcançando o almirantado.

  Enquanto não ocupava mandatos eletivos, uma aliança com Benedicto Leite, principal articulista político local no período e com grande trânsito nas mais elevadas esferas de poder no Rio de Janeiro, garantira várias nomeações suas a cargos administrativos dentro da Armada, como

  “[...] inspetor geral de navegação” e “superintendente de portos e costas” (FURTADO FILHO, 2000, p. 74). Foi dito que Belfort Vieira

  “[...] aproveitou a situação para fazer sua política de família em benefício de parentes e correligionários ” (LIMA, 2010, p. 40). Com razão, os laços de parentesco serão fundamentais para o ingresso e progressão dos Dias Vieira na administração pública.

  Por exemplo, a ascensão de Manoel Ignácio Belfort Vieira ao governo do Estado, reestruturando o extinto Partido Liberal, foi precedida pela projeção alcançada por Casimiro Dias Vieira, bacharel em direito, major do Exército e membro do Partido Conservador durante o Império. Elegeu-se deputado provincial por dois mandatos, entre 1877-1885 e deputado estadual constituinte entre 1892-1894. Seu filho mais velho, Casimiro Dias Vieira Júnior, também se formara em direito pela mesma faculdade, sendo posteriormente nomeado promotor público na comarca de Viana. Filiando-se ao Partido Liberal, foi contemplado como chefe de polícia do Estado, logo nos primeiros dias da república, por ato oficial subscrito por Belfort Vieira. Apoiado por este, tornou-se deputado constituinte no Congresso Nacional.

  Ao final do mandato, retorna ao Maranhão onde se elege para o cargo de Primeiro Vice-Governador, revezando-se com Belfort Vieira na liderança do Poder Executivo. Quando a delegação de ambos finda, Casimiro Dias Vieira Júnior consegue, frente à presidência da república, ser investido na função de cônsul brasileiro em Londres. Dessa forma, incluindo-se o diretor da ACM, não menos que quatro membros da família Dias Vieira ocuparam posições de liderança na arena política durante a estruturação das instituições republicanas locais.

  Com efeito, Manoel Ignácio Dias Vieira não se ocupava apenas da presidência da instituição no alvorecer dos novecentos. Preparava sua eleição para o mandato de deputado federal, na legislatura que se iniciaria em 1903. Para tanto, necessitou deixar o cargo para assumir o posto de Segundo Vice-Governador, na administração de outro político nascido em nas mesmas plagas que ele, o Governador Urbano Santos da Costa Araújo.

  A partir dessa posição, e contando com o apoio ostensivo de seu conterrâneo, conseguiu formar as bases de uma vitória certa. Ao final de 1902 já embarcava para o Rio de Janeiro. Com o término de seu primeiro mandato na Câmara Federal, tentou reeleger-se, mas não conseguiu. Retornando ao Maranhão, concorreu à vereança de São Luís, obtendo uma cadeira no parlamento municipal, do qual foi também presidente.

  Um terceiro período tem início com a Revolução de 1930 e a instauração das interventorias, que se estendem até 1945. Durante esse lapso de tempo, apurou-se que apenas um diretor da ACM

  • – com informações disponíveis – exercera mandato eletivo. É Aurino Wilson Chagas e Penha, deputado pela primeira vez em 1936 e de longa carreira no parlamento estadual.

  No entanto, especialmente na década de 1940, são construídas alianças políticas que redundarão em vários mandatos entregues a diretores da Associação Comercial do Maranhão após a

  “redemocratização” advinda com o fim do Estado Novo. Entre esses, são notáveis os de Acyr Barbosa Marques, suplente e deputado estadual em 1947 pelo Partido Proletário do Brasil; Domingos de Freitas Santos Jorge, suplente e deputado federal pelo Partido Republicano e posteriormente pela UDN; Eduardo Aboud, deputado estadual e presidente da Assembléia Legislativa na década de 1950, além de governador; Gérson Correia Marques, deputado federal pelo PSD em 1959, e por último Alarico Nunes Saturnino Bello, vice-governador e governador eleito, mas não empossado, no início dos anos cinquenta.

  Nesse sentido, circunscrita a atual pesquisa aos anos de 1880 a 1940, não poderia estar incluído no rol de seus objetivos a análise pormenorizada de como se operou a reconversão desses líderes da ACM para a esfera das disputas políticas, haja vista que em tal cenário há o ingresso de agentes oriundos de outros estratos sociais e a configuração de elementos próprios, ainda que, ao menos aparentemente, permanecessem em voga os mesmos recursos já

  “tradicionalmente” usuais, como o legado familiar e os vínculos de reciprocidade. Não se deve negligenciar, todavia, a participação política ativa de membros da ACM com ascendência sírio-libanesa, nessa época. Além do empresário Eduardo Aboud, outros como Alfredo Duailibe, ocuparam mandatos eletivos. O ingresso de agentes dessa origem geográfica em tal arena de disputas foi estudado, no Estado de São Paulo, por Truzzi (1995, p. 27) as

  “[...] trajetórias

  sócio-econômicas [...] ”, por ele identificadas para aquela realidade não diferem muito das que se configuraram no Maranhão, quais sejam:

  a) uma inserção marcadamente urbana, embora não concentrada apenas na capital; b) a constituição e o desenvolvimento de um nicho integrado de especialização econômica

  • – o comércio e a industrialização de armarinhos e tecidos [...] com forte apoio em relações familiares e de conterraneidade;

  c) um investimento significativo na educação da primeira geração nascida aqui, cujo resultado provocou uma penetração substantiva de seus descendentes em escolas formadoras da elite das profissões liberais [...].

  Em São Luís, o Colégio Marista Maranhense, para rapazes, pertencente à ordem fundada pelo padre Marcellin Champagnat (1789-1840), foi a instituição de ensino precípua nesse sentido, onde estudaram membros das famílias Rachid, Sekeff e mesmo os Aboud, que depois se tornariam juristas, médicos e engenheiros. Nessa escola também se formaram jovens oriundos de famílias

  “tradicionais” e já estabelecidas das elites econômicas e políticas locais, entre elas os Gaspar, Jorge, Neves, Vasconcellos, Tavares da Silva, Parga, Nina, dentre outras.

  Um dos empresários e diretor da Associação Comercial do Maranhão de maior destaque na política estadual nesse período foi Saturnino Bello. Sua família é originária de São Luís, e possuía laços de parentesco com os Parga, ou Bello Parga, que por sua vez tivera um de seus membros como governador do Estado, o advogado Herculano Parga, entre 1914-1918. Consta que ele, apesar de sua

  “[...] absoluta honestidade [... ]” (LIMA, 2010, P. 91), não esqueceu sua ascendência, concedendo benefícios ao empreendimento econômico de seu pai, Ignácio do Lago

  Parga, duas vezes primeiro-secretário da ACM:

  [...] a proteção que o governador Herculano dá a seu pai Inácio do Lago Parga, principal acionista e gerente da Companhia de Águas, cujos serviços, além de deficientes e incertos, fornecem líquido de péssima qualidade [...] (LIMA, 2010, p. 94).

  A família de Saturnino Bello era proprietária do mais antigo cartório de São Luís, instituído na primeira década do século dezenove, ainda durante a regência de D. João VI. Seus avós e pais investiram também no comércio de importação de artigos, e com o capital financeiro legado a Saturnino Bello, foi possível a ele participar da fundação da Companhia Fabril Maranhense, já no final dos oitocentos.

  Através da direção dessa empresa, juntamente com outros sócios, organiza a primeira equipe de futebol do Estado, o “Fabril Atletic Club”, ou “FAC”, depois renomeado para

  “Foot-Ball Atletic Club”. A esse tempo não era apenas um dirigente do time, mas também jogador amador, um tipo identificado como “sportman” (CARVALHO, 2009b, grifo nosso). Com a rápida popularização e posterior profissionalização do futebol, Saturnino Bello passa a gozar de amplo reconhecimento popular, inclusive em razão de

  “matchs” de caráter beneficente, promovidos com relativa freqüência: “„Defrontar-se-ão no esplendido campo da Rua

  Grande os teams organizados pelo F.A.C. para a partida em benefício da

Assistência Maçônica ‟” (CARVALHOb, 2009, p. 129, grifo nosso)

  Em 1934 tentou concorrer ao cargo de deputado estadual, mas não conseguiu estruturar apoio partidário, ao que suas pretensões foram momentaneamente bloqueadas. No entanto, sua trajetória na política estava apenas começando. O interventor Martins de Almeida havia trazido de Pernambuco um amigo para coadjuvá-lo na articulação política de seu governo. Era Victorino de Britto Freire (1908-1977), que se tornaria o chefe político de maior poder no Maranhão na primeira metade do século vinte. Em 1946 Victorino conseguira uma ampla vitória nas urnas, juntamente com as lideranças Clodomir Cardoso e Genésio Rego. Mais que isso. Tinha no presidente eleito, Eurico Gaspar Dutra, uma amizade de longa data, construída desde a época em que se conheceram na Academia Militar, no Rio de Janeiro.

  Através da indicação de Victorino, Saturnino Bello foi nomeado por Dutra interventor no Maranhão até que fossem marcadas as eleições para o governo do Estado. Clodomir e Genésio entram em conflito mútuo, ambos se afastando de seu antigo aliado. Quando é agendado o pleito, emana diretamente do Palácio do Catete o apoio aos candidatos oficiais: o industrial Sebastião Archer para o governo e Saturnino Bello para vice, em uma aliança firmada a partir da influência de Victorino, que se consolida como a figura central da política maranhense. Sebastião Archer era filho do comerciante e industrial Raimundo Archer da Silva e de sua mulher, Filomena Coelho da Silva. Raimundo Archer fora tesoureiro da ACM por seis anos, e era proprietário da

  “Companhia Manufatureira e Agrícola de Codó”. Apesar de Sebastião Archer ser natural de São Luís, ao assumir a administração da têxtil de seu pai, localizada no município de Codó, é lá que efetivamente constitui a base de seu eleitorado. Dissidências se organizam em vários partidos que se autodenominam como “Oposições Coligadas” (BUZAR, 2001), e convencem Saturnino Bello a se afastar de Victorino, para ser candidato a governador em 1950. Aquiescendo ao pedido, Saturnino enfrenta o também industrial Eugênio Barros, proprietário de uma fábrica têxtil no município de Caxias, como candidato da situação. Apesar de Saturnino ter somado maior número absoluto de votos, o Tribunal Regional Eleitoral termina por anular diversas urnas sob a justificativa de fraude, e com isso Eugênio Barros passa à frente com uma margem mínima de seis mil votos aproximadamente (LIMA, 2010). Enquanto se aguarda o julgamento de recurso frente ao Superior Tribunal Eleitoral, Saturnino Bello falece repentinamente, transformado por seus aliados em uma espécie de mártir, principiando o movimento conhecido como “Greve de 51”.

  Dessa forma, percebe-se claramente que os investimentos na arena política por parte da liderança empresarial oriunda da Associação Comercial do Maranhão se dão a partir do estabelecimento de vínculos de reciprocidade e reafirmação dos laços de parentesco entre os agentes. Estão em jogo os interesses mais objetivos pelo ingresso, permanência e reprodução do controle das posições de comando, e por esse motivo, a confiabilidade e o crédito político são moedas válidas a partir da lógica das trocas pragmáticas de benefícios, e sob ela é que se estrutura.

  A pesquisa que ora se conclui abriu a oportunidade se investigar um tema ainda muito pouco abordado, não apenas em sua dimensão empírica, como também a partir da compreensão das especificidades que conduzem a produção e reprodução dos mecanismos efetivos para o controle efetivo das posições de poder.

  Nesse sentido, os estudos sobre a formação das elites econômicas locais do final do século dezenove e início do vinte, bem como de sua entidade de representação, a Associação Comercial do Maranhão, importou na apreensão dos elementos inerentes aos processos de seleção de líderes, e também no estudo de um complexo repertório de ações desenvolvidas a partir dessa instituição.

  Para tanto, buscou-se demonstrar a formação histórica de um segmento da elite econômica que se aglutina em torno de um produto institucional sujeito às condicionantes locais de organização, sempre a partir dos vínculos de reciprocidade, laços de parentesco e utilização objetiva do saber técnico como trunfos válidos para a escolha dos agentes que se tornarão líderes e frente às disputas pela legitimação e permanência.

  Foi então selecionada uma população de 149 diretores, entre os anos de 1880 a 1940. A partir disso, desenvolveu-se uma análise inicialmente centrada na definição das origens sociais desses proprietários de estabelecimentos comerciais e indústrias. De pronto se percebeu uma marcada presença de estrangeiros, principalmente de portugueses, vindos para o Maranhão ainda jovens, para serem instruídos na condução dos empreendimentos econômicos de seus próprios familiares. Esse dado, juntamente com a exposição de suas trajetórias profissionais, indica que os elementos realmente determinantes para o acesso e progressão do agente em tal segmento está pautado na construção, posse e utilização de um “legado familiar”.

  Foram basilares as contribuições advindas dos trabalhos de Coradini (2005; 2008) e seus achados sobre a Academia Nacional de Medicina, em que identificou o capital simbólico personalizado como elemento fundamental no contexto de uma entidade pensada para uma determinada sociedade e

  “adaptada” a outra. Na mesma perspectiva, Offerlé (2009, tradução nossa) cedeu grande apoio, ao abordar a multiplicidade de formas e ações oriundas de uma organização patronal. Esses esquemas de análise permitiram uma visão mais sistematizada sobre a operação e uso de determinados recursos que se destinaram ao recrutamento e seleção de lideranças empresariais, bem como as funções de mediação desempenhadas.

  Quanto às séries documentais consultadas, destaca-se a Revista da Associação Comercial do Maranhão, que se apresenta como meio de consagração das lideranças da entidade, ao mesmo tempo em que demonstra, pelo menos, três focos de sua atuação: um direcionado ao conhecimento técnico especializado, outro de intermediação frente aos demais agrupamentos sociais, e por último um de tomada de posição política.

  Dessa maneira, apesar de seus objetivos oficiais, a Associação Comercial do Maranhão se mostra como uma via de consagração do grupo dirigente, bem assim da propriedade de recursos e relações de força simbólica, onde os laços de parentesco e a estruturação de vínculos a eles equivalentes são absolutamente determinantes para se pensar o processo de constituição do empresariado maranhense do entresséculos.

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