PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO – PUCSP PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM PSICOLOGIA CLÍNICA ANDREA DE DAVIDE RATTO MORELLI

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO – PUC/SP

PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM PSICOLOGIA CLÍNICA

ANDREA DE DAVIDE RATTO MORELLI Barreiras, refúgios, claustros: vias cruzadas numa travessia

  

MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA

SÃO PAULO

2013

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO – PUC/SP PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM PSICOLOGIA CLÍNICA ANDREA DE DAVIDE RATTO MORELLI Barreiras, refúgios, claustros: vias cruzadas numa travessia. MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA

  Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Psicologia Clínica, pelo Núcleo de Método Psicanalítico e Formações da Cultura, sob a orientação do Prof. Dr. Luis Cláudio M. Figueiredo.

  SÃO PAULO 2013

  

Banca Examinadora

  _________________________________________________________________ Orientador: Prof. Dr. Luis Claudio M. Figueiredo

  _________________________________________________________________ _________________________________________________________________

  Autorizo exclusivamente para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial deste trabalho, por processos fotocopiadores ou eletrônicos. São Paulo, 4 de fevereiro de 2013 ________________________________________________ Andréa de Dávide Ratto Morelli

  

Para Isabella, Marcello

e Ricardo, com amor.

  

Agradecimentos

Ao meu orientador Professor Dr. Luis Cláudio Mendonça Figueiredo, pelas

indicações de leitura, pela oportunidade de conviver com sua capacidade intelectual e

por ter clareado minha percepção várias vezes.

  E juntamente com ele, agradeço a meus demais professores e colegas as

incontáveis oportunidades de aprender, e a convivência que me trouxe não apenas

conhecimento, mas aperfeiçoamento como ser humano.

  A professora Dra. Elisa Maria de Ulhoa Cintra, cujo carinho, continência e inteligência foram para mim um estímulo e um apoio consistentes. A Professora Dra. Marina R. Ribeiro pela atenção, refinamento e ponderações enriquecedoras para com meu trabalho. A minha analista Dra. Maria da Penha Amâncio de Camargo Barros Munhoz por suas contribuições e cuidados para com minha saúde. Aos meus supervisores os Drs. Mario Pacheco de Almeida Prado (In Memoriam),

Heitor Fernando Bandeira de Paola e Neilton Dias da Silva pelas contribuições, á minha

formação como psicanalista.

  A meus pais, Regina Maria de Dávide Ratto, e José Affonso Pinheiro Ratto

(ambos In memoriam) por me darem a vida e terem contribuído de corpo e alma para

aquilo que sou.

  A meu esposo Ricardo, e meus filhos Isabella e Marcello que muito me compreenderam e apoiaram e são grande parte do sentido desta travessia. A meu sogro, Sr. Plácido Morelli cuja presença junto a meus filhos muitas vezes permitiu que eu me ausentasse sem tanta angústia. A minhas auxiliares: Núbia Cristina, Sulimar e Maria que tanto me ajudaram na administração do dia a dia em casa e no consultório. A meus pacientes em cuja companhia permaneço aprendendo e que me auxiliam imensamente na difícil tarefa de ser tolerante e lutar para ir além. Aos poetas e literatos, populares ou eruditos, por terem iluminado meu caminho e me acompanhado através das diversas etapas de minha vida.

  “Quem possua a noção sem a experiência e conheça o universal, ignorando o particular

nele contido, enganar-se-á muitas vezes no tratamento, porque o objeto da cura é, de

preferência, o singular”.

  Aristóteles.

  MAR PORTUGUÊS Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

  Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena

  Se a alma não é pequena. Quem quere passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu.

  Fernando Pessoa

  

MORELLI, Andrea de Davide Ratto. Barreiras, refúgios, claustros: vias cruzadas numa

travessia. São Paulo, 2013. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) Núcleo de

Método Psicanalítico e Formações da Cultura do Programa de Estudos Pós-Graduados

em Psicologia Clínica, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo .

  

RESUMO

  Este estudo tem por objetivo recolher informações sobre alguns tipos de organizações patológicas da personalidade, utilizando conhecimentos psicanalíticos. Vários autores embasam-no partindo de Sigmund Freud, Melanie Klein, Joan Riviere, Wilfred Bion, Herbert Rosenfeld, Hanna Segal e chegando a John Steiner, Donald Meltzer, Frances Tustin, Judith Mitrani e James Grotstein, cujos trabalhos nessas áreas são discutidos mais profundamente. Esforços são realizados para compreender e identificar pontos de convergência, divergência e/ou intersecção entre conceitos como claustros, refúgios psíquicos, cápsulas autistas e pseudorrelações objetais adesivas. Discussões da importância da continência e da elaboração das posições esquizoparanoides e depressivas perpassam todo o trabalho e são fundamentais para a abordagem do material clínico apresentado. A continência psíquica do analista é questionada em face de dificuldades como a sedução dos claustros e a atratibilidade de pseudorrelações objetais adesivas, o embaraço diante da ternura e lutas por dominar ou excluir o analista. Diante da dificuldade de manejo com sistemas defensivos complexos, como os das organizações patológicas, a confiança na existência da necessidade inconsciente da verdade psíquica permanece estimulante e acalentadora tanto para continuar a trajetória do exercício psicanalítico, quanto para alcançar as necessidades dos pacientes.

  

Palavras-chaves: Organizações patológicas da personalidade, claustros,

  cápsulas autistas, pseudorrelações objetais adesivas, refúgios psíquicos, continência, duplas vias, Infinito Geômetra.

  

MORELLI, Andrea de Davide Ratto. Barriers, retreats, claustrum; crossed paths on a

journey: São Paulo, 2013. Thesis (MA in Clinical Psychology) Psychoanalytic Method and

Cultural Formations on Clinical Psychology, Pontifical Catholic University of São Paulo.

  

ABSTRACT

  This study aims to gather information on some types of pathological organizations of the personality, using psychoanalytic knowledge. Several authors underlie it, starting with Sigmund Freud, Melanie Klein, Joan Riviere, Wilfred Bion, Herbert Rosenfeld, Hanna Segal and getting to John Steiner, Donald Meltzer, Frances Tustin, Judith Mitrani and James Grotstein, whose works in these areas are discussed more deeply. Efforts are made to understand and identify points of convergence, divergence and/or intersection among concepts like claustrum, psychic retreats, autistic capsules and adhesive pseudo-object relations. Discussion of the importance of continence and the development of schizo paranoid and depressive positions, permeate all the work and are fundamental to the approach of the clinical material presented. Analyst's psychic continence is questioned in face of difficulties as the claustrum seduction, attraction of adhesive pseudo-object relations, embarrassment of tenderness and struggles for dominate or exclusion of the analyst. Facing the difficulties of handling complex defensive systems, such as pathological organizations, confidence in the existence of unconscious need of psychic truth remains encouraging and cherishing, both to continue the trajectory of psychoanalytic exercise, and to achieve the needs of patients.

  

Keywords: Pathological organizations of the personality, claustrum, autistic

  capsules, adhesive pseudo-object relations, psychic retreats, continence, dual track, Infinite Geometer.

SUMÁRIO

  

1 APRESENTAđấO ................................................................................................................ 10

  

2 INTRODUđấO ...................................................................................................................... 12

  3 EXPERIÊNCIAS CLễNICAS: ONDAS NUNCA VOLTAM? APROXIMAđấO PARA ACOLHER AS FORMAS SONORAS E AS FORMAS AFETIVAS ...................................... 21

  

4 COMPREENDENDO AS ORGANIZAđỏES PATOLốGICAS DA PERSONALIDADE ......... 28

  

4.1 Pseudorrelações-objetais adesivas, cápsulas autistas e a não instauração do

ritmo de segurança ..................................................................................................... 28

  

4.2 Narcisismo destrutivo e organizações mafia-like; as gangues que oferecem

proteção e mantém o ego refém ................................................................................. 38

  

4.3 Refúgios psíquicos: objetos pseudoprotetores, falsa continência, relações

perversas .................................................................................................................... 52

  4.4 Claustros: territórios interiores para onde a identidade pode ser seqüestrada ............. 62

  4.4.1 Comparando claustros e refúgios ...................................................................... 68

  

5 RETOMANDO A CLÍNICA: ONDAS SE DESDOBRAM ....................................................... 73

  5.1 A partir do balanço do ritmo de segurança: entre o acolher e o aderir ......................... 73

  

5.2 Agitações: dificuldades para uma continência verdadeira entre ilhas de

organização patológica e ondulações autísticas ......................................................... 77

  

5.3 Seduções: pseudorrelações objetais adesivas, falsa continência de refúgios e

claustros ..................................................................................................................... 88

  

5.4 Recolhendo do mar da clínica: embaraço diante da ternura, desejo de excluir o

analista, conflitos edípicos precoces e tentativa de visão binocular ............................ 96

  6 CAMINHOS CRUZADOS EM TERRAS E MARES: CONTINÊNCIA,

ENTRELAÇAMENTO DE DEFESAS, PERVERSÕES E A NECESSIDADE DA

  VERDADE ....................................................................................................................... 107

REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 119

ANEXOS ................................................................................................................................ 123

  Desde a infancia, duas questões humanas intrigavam-me. Uma delas, era a existência de dores físicas, para as quais existiam recursos, ainda que fossem limitados e às vezes parecessem não funcionar. A segunda era a existência de outras dores, inscritas naquilo que na época eu chamaria de alma, imperceptíveis a olho nu ou na aparência física. Essas dores pareciam-me misteriosas, complicadas e surpreendentes em suas formas e em seus efeitos. Para elas os remédios comuns eram inúteis. A observação de que essas dores interferiam ou mesclavam-se umas às outras também me instigava.

  Minha mãe foi quem primeiro mencionou a possibilidade de algumas dessas dores virem de uma parte da mente chamada inconsciente. A partir daquela época, no início dos anos setenta, a ideia do inconsciente e seu “descobridor”, Freud, passaram a me acompanhar. Ainda hoje fazem com que eu possa aceitar, compreender (um pouco), e ter humildade diante da tarefa humana e inalienável de lidar com dores físicas e psíquicas.

  Vindo de uma formação psiquiátrica e psicanalítica e exercendo as duas atividades, percebo que atualmente o panorama da saúde mental, não é luminoso. Faltam recursos em diversos níveis, desde geográficos até humanos. A falta de compreensão e de acolhida para a complexidade das questões mentais parece-me um dos problemas mais sérios, e é com a intenção de buscar mais recursos para essa acolhida (e compromisso) que se efetua esta pesquisa.

  Conhecer sistemas defensivos adoecidos, o conceito de refúgios, das organizações patológicas da personalidade, parece-me ser de grande ajuda, pois esse conhecimento permite identificar estados mentais severos e diferenciá-los. Sem perceber isto, um paciente pode fazer inúmeros tratamentos, com altos custos, humanos e materiais, e não obter melhora alguma, ou muito pouca. Contar com mais essa forma de compreensão e poder perceber a complexidade das situações mentais pode direcionar o tratamento para abordagens que levem em conta as dinâmicas psíquicas complexas, e portanto, tenham mais chance de

  A Psicanálise, além da investigação do inconsciente, constitui-se como método terapêutico. Muitos pacientes procuram ajuda, mas a elaboração de questões e sofrimentos psíquicos quase nunca é simples ou fácil e, em algumas situações, pode ser impossível, mesmo com diferentes e simultâneos recursos terapêuticos. Ao longo de décadas de trabalho, numerosos analistas encontraram e seguem encontrando vários obstáculos nessa tarefa. A presente pesquisa enfoca alguns desses obstáculos que podem ser mais bem compreendidos e trabalhados, se as organizações patológicas da personalidade forem levadas em conta.

  O trabalho se inicia com uma aproximação de material clínico, cujos desdobramentos virão depois de contribuições teóricas, as quais apresentam conteúdos que pretendemos entrelaçar, e que supomos apresentar razoável complementaridade. São provenientes de autores dos quais falamos brevemente nesse momento, e cujos trabalhos clínico e teórico falam por si.

  Embora esta pesquisa focalize material clínico, seu objetivo é utilizá-lo para o estudo de algumas questões teóricas. Em respeito ao sigilo, vários dados são omitidos e modificados. O material entra como apoio e como articulador para o estudo e para a investigação de algumas ideias psicanalíticas.

  Não se pretende esgotar os temas, o que seria impossível em se tratando de Psicanálise. Foi feita uma seleção de autores e, como algumas obras usadas não dispõem de tradução, optou-se, depois de pesquisar a ABNT, por usar a tradução livre e a citação textual original logo abaixo, permitindo, assim, um rápido cotejar entre ambas.

  Embora tendo o trabalho de Steiner como disparador e parte do âmago desta pesquisa, houve desdobramentos a outros campos. Este trabalho constitui-se numa proposta de diálogo entre ideias e conceitos, alguns dos quais são mais detalhadamente estudados. Apresentamos resumidamente alguns dados bibliográficos de autores mais utilizados.

  John Steiner é analista didata da Sociedade Britânica de Psicanálise e trabalha como psicanalista em prática privada, em Londres. Seu livro sobre Refúgios Psíquicos data de 1993. Recentemente (2011) publicou: Seeing and

  

being seen: Emerging from a Psychic Retreat que se constitui numa compilação

  e descrição minuciosa de casos clínicos de pacientes que apresentam refúgios e organizações patológicas de vários tipos. Nas palavras de Roy Schafer, que assina a apresentação da obra citada, ela pode ser considerada um belo complemento para o grande trabalho de Freud, intitulado Análise Terminável e

  Interminável.

  Herbert Rosenfeld nasceu na Alemanha, em 1910, emigrou para a Inglaterra fugindo da perseguição nazista em 1935 e, depois de tornar-se analista, desenvolveu um brilhante trabalho com pacientes psicóticos e/ou borderlines, principalmente no campo da patologia narcísica. Foi membro da Sociedade Britânica de Psicanálise. Faleceu em 1986.

  Donald Meltzer foi um singular pensador da Psicanálise. Foi membro da

  

International Psychoanalytical Association, mas retirou-se dela por discordar das

  regras de formação de analistas. Já exercia e continuou exercendo alentadas atividades clínicas e didáticas de forma independente e em conjunto com vários colegas. Estudou profundamente as obras de Freud, Klein e Bion e publicou estudos e discussões sobre elas, além de desenvolver várias linhas de trabalhos ricos e inquietantes. Nasceu em 1922 e faleceu em 2004.

  Frances Tustin nasceu na Inglaterra, mas trabalhou muito tempo nos Estados Unidos da América, realizando um corajoso e impressionante trabalho com crianças, adultos e jovens que se enquadram no espectro autista. Faleceu em 2004, e tem como seguidora Judith Mitrani, que vive e trabalha nos EUA e teve uma convivência profissional e pessoal com Frances Tustin. Mitrani (2007) fez acréscimos e explicitações importantes a várias questões levantadas por Tustin. Atualmente continua desenvolvendo linhas de pesquisa iniciadas pela mentora, mas possui um trabalho com brilho, consistência e alma próprias. É analista didata e supervisora no Centro Psicanalítico da Califórnia e na Sociedade para Estudos Psicanalíticos de Los Angeles.

  No trabalho com as dores mentais, a continência e a disponibilidade psíquicas são sempre testadas e solicitadas. Mesmo que um paciente esteja movido por genuíno desejo consciente de resolver seus problemas e que encontre um analista disposto a trabalhar no caso, há várias dificuldades. Freud já havia descrito os fenômenos das resistências e da transferência como característicos e já havia ressaltado que tanto eram fundamentais para o processo, quanto podiam criar obstáculos, e que o manejo destes seria talvez a alma da tarefa analítica. Preocupou-se em compreender o mais profundamente possível o método que criara e submetê-lo ao mais completo escrutínio de que sua mente genial fosse capaz. Não se furtou a mostrar, além das vantagens e de

  Melanie Klein (1982), ao estudar a identificação projetiva, abriu um campo prolífico para a compreensão de dificuldades psíquicas que eram de natureza diferente da repressão. A identificação projetiva permitia compreender fenômenos mentais com tremendos efeitos sobre a vida emocional e sobre a conduta de um indivíduo. As fantasias veiculadas dessa forma podem atribuir algo a um objeto ou adquirir algo dele, e envolvem não apenas livrar-se de aspectos mentais indesejados, mas também entrar (em fantasia) na mente de outros para obter aspectos de seu psiquismo. A partir de um sólido trabalho, e do desenvolvimento destas ideias, chegou a outros conceitos, dentre os quais o das posições esquizoparanoide e depressiva.

  Joan Riviere (SPILLIUS; MILTON; GARVEY; COUVE; STEINER, 2011, p. 198) descreveu sistemas de defesas para evitar o contato com angústias depressivas. Rosenfeld (1988, p. 198) por sua vez, descreveu uma organização de defesas a que chamou mafia-like, ou gangue, que podia dominar o psiquismo

  e, mesmo que o paciente quisesse mudar e superar seus problemas tornava a tarefa dificílima.

  John Steiner, partindo principalmente das contribuições dos autores anteriores, realizou com critério um minucioso trabalho apoiado em atividades clínicas, descrevendo que as organizações patológicas permitem criar um tipo de “clima” psíquico, semelhante a uma posição, que ele nomeou como refúgio

  

psíquico (1981, 1991, 1993, 1994, 2011). Steiner fundamenta-se nas descrições

  de Klein das posições esquizoparanoide e depressiva, para desenvolver o conceito. A organização faz com que mesmo partes saudáveis do Self se submetam a ela.

  Outro vértice que contribui para a discussão presente é o apontado por Tustin. A seu ver algumas crianças analisadas por Klein como sendo esquizofrênicas tinham um funcionamento defensivo muito diferente, mas também fortemente impeditivo de seu desenvolvimento, e bastante enraizado. Esse lhe pareceu ser consequente a mecanismos que não são organizados pelo ego na acepção a que estamos acostumados a pensar sobre ele.

  O objetivo deste trabalho é o estudo de alguns tipos de sistemas defensivos, com ênfase especial às organizações patológicas da personalidade e

  1

  considerar a necessidade daquilo que Bion trouxe como capacidade negativa , que supõe o abster-se de qualquer saturação de conhecimento e alívio rápido para qualquer questão (BLÉANDONU, 1993).

  Em 1981, Steiner introduz o termo organizações patológicas, no trabalho

  2

  “Perverse relationships between parts of the self” , (Relações perversas entre partes do self). A partir daí, desenvolve uma linha de pesquisas que o conduz a postular uma situação em que angústias das posições esquizoparanoide e depressiva são evitadas, e em que se estabelece algo como um equilíbrio entre elas. O autor demonstra que mesmo quando um tratamento parece caminhar razoavelmente bem, se esta situação se fizer presente, isso indicará um sistema defensivo muito complexo, que pode comprometer profundamente o desenvolvimento do trabalho. Defesas são ferramentas necessárias, mas:

  Defesas são paradoxais por serem um aspecto essencial da atividade psicológica do ser humano, e poderem promover o desenvolvimento ou impedi-lo. Defesas podem começar como uma proteção para o ego, mas se não for possível renunciar a elas, poderão interferir num desenvolvimento saudável. Por exemplo, na teoria Kleiniana da posição esquizoparanoide, a aquisição da possibilidade de divisão binária do self e do objeto, em bom e mau protege o ego frágil e imaturo e é um pré- requisito para que ele se organize e desenvolva-se de forma saudável.

  Entretanto, se tal divisão for rigidamente mantida e houver nisto uma defesa contra o conhecimento da realidade, a divisão será 3 destrutiva para o desenvolvimento (Tradução livre).

  Defences are paradoxical in that they are an essential aspect of human psychological activity; they can foster development or they can hinder it. Defences may start off by providing protection for the ego, but if never given up they can interfere with healthy development. For example, in Klein´s theory of the paranoid-schizoid position‘ paranoid-schizoid’ position, the achievement of binary splitting of the self and object into “good” and “bad” protects the fragile immature ego and is a prerequisite for ego organization and healthy development. However, if splitting is rigidly retained and knowledge of reality defended against, splitting is destructive of development. (SPILLIUS; MILTON; GARVEY; COUVE; 1 STEINER, 2011, p. 305).

  

Bion tomou de John Keats a acepção do termo. Numa carta a seus irmãos, Keats diz que “At

once it struck me, what quality went to form a Man of Achievement, especially in literature, and

which Shakespeare possessed so enormously- I mean Negative Capability, that is when man is

capable of being in uncertainties. Mysteries, doubts, without any irritable reaching after fact or

reason.” Certa vez isto me chamou atenção, qual qualidade servia para formar um homem de

alcance, especialmente na literatura, e que Shakespeare possuía tão enormemente: a

capacidade negativa que é quando o homem é capaz de existir em incertezas, mistérios e

2 dúvidas sem qualquer irritada busca por fato ou razão.

  

Este trabalho encontra-se revisado e algo modificado e publicado sob a denominação: Relações

perversas nas organizações patológicas. In: ______. Refúgios psíquicos. Rio de Janeiro: Imago

3 Ed., 1997. Cap. 9, p. 123, e nos originais de Psychic retreats, de 1991.

  Podemos observar que defesas são úteis, fazem parte naturalmente do desenvolvimento humano, mas podem contribuir para a patologia se usadas de forma rígida, repetitiva e se delas não se puder abrir mão diante da necessidade de mudanças e de novas adaptações em favor do desenvolvimento. É nesta acepção que Steiner descreve os refúgios psíquicos, estados em que um paciente está imerso, em maior ou em menor grau, sustentado por sistemas defensivos complexos, arraigados, que não permitem crescimento mental. Em alguns casos, ele observou que o paciente procurava a análise para revitalizar o sistema defensivo, ou para, através do tratamento, ganhar condições para organizar outro, sem que o analista percebesse, ou mesmo assim.

  Steiner destacou que os refúgios poderiam ser representados de várias maneiras, e que uma figurabilidade era um aspecto importante deles. Ele diz:

  A visão que o paciente tem do refúgio reflete-se nas descrições que fornece, e também nas fantasias inconscientes reveladas em sonhos, recordações e relatos da vida diária, que proporcionam uma imagem pictórica ou dramatizada de como o refúgio é experimentado inconscientemente. Tipicamente, ele aparece como uma casa, caverna, fortaleza, ilha deserta ou local semelhante, vistos como área de relativa segurança. Alternativamente, ele pode tomar uma forma interpessoal, em geral como uma organização de objetos ou objetos parciais que se propõe a oferecer segurança. Ele pode ser representado como um estabelecimento comercial, um internato, uma seita religiosa, um governo totalitário ou uma gangue de mafiosos. Frequentemente ficam evidentes elementos tirânicos e perversos, na descrição, mas algumas vezes a organização é idealizada e admirada. (STEINER, 1997, p. 18).

  Steiner ressalta que a organização tem maneiras típicas de se mostrar, através de representações que aparecem em sonhos, ou em relatos durante a análise, como casas, fortalezas e também nas relações interpessoais. Se a organização é parte importante do mundo interno do paciente, ela encontrará formas de ser representada, mesmo que sua natureza real se mantenha oculta.

  Nos refúgios não existe a capacidade negativa. Suportar mistérios e/ou dúvidas é parte da elaboração das posições esquizoparanóide e depressiva, e só se pode evoluir nessas posições a contento, se não se buscarem saídas de puro (e rápido) alívio e for possível vivenciar o processo.

  Como os refúgios psíquicos remetem às organizações patológicas da

  

personalidade, e uma das descrições seminais destas organizações foi realizada por Rosenfeld, nos deteremos em seus trabalhos. Mas várias contribuições, por exemplo, as de Meltzer, Tustin e Mitrani também respaldam a tarefa.

  Em contraposição às organizações patológicas, e como mais um recurso para evidenciá-las, recorremos às palavras de Winnicott para descrever uma pessoa saudável:

  Se partirmos do princípio de que se alcançou um grau razoável em termos de capacidade instintiva, veremos então novas tarefas para a pessoa relativamente saudável. Existe, por exemplo, a relação que ele ou ela mantém com a sociedade - uma extensão da família -. Digamos que um homem ou uma mulher saudáveis sejam capazes de alcançar uma certa identificação com a sociedade sem perder muito de seus impulsos individuais ou pessoais. É claro que deve existir alguma perda, no sentido de controlar o impulso, mas uma identificação extremada com a sociedade acompanhada de perda do self, e da

importância do self, não é normal de modo algum.

Se fica claro que não nos satisfazemos coma ideia de saúde como uma simples ausência de doença psiconeurótica – ou seja, de distúrbios relativos à progressão das posições do id em direção à genitalidade plena e à organização de defesas relativas à ansiedade e relações interpessoais, - podemos dizer que, em tal contexto a saúde não é fácil.

  (WINNICOTT, 1999, p. 10).

  De forma cristalina, apreende-se que não se é sadio só por ter algum grau de desenvolvimento e que nem toda organização defensiva é saudável, por exemplo, uma identificação defensiva intensa com o grupo social pode significar uma perda insalubre da individualidade. Vê-se que a vida de relação traz a necessidade de acolher a diversidade do mundo e dos seres humanos, a tolerância ao diferente e ao frustrante. Requer também a aceitação de mudanças e a capacidade para adaptar-se e transformar-se, além do estabelecimento de relações reais consigo mesmo e com os outros. Winnicott expõe o quanto de esforço individual é exigido para uma pessoa ser e manter-se saudável, pois ela terá que vivenciar o ônus e o bônus de ser o que é.

  Talvez em pequenos momentos seja possível emergir das profundezas do oceano interior e fazer algum contato; lembremos Joseph que denominou estes momentos de shifts

  4 , em que mudanças de atitudes mentais muito sutis ocorrem.

  Esse contato, ainda que efêmero, poderá servir de continente e base para outros 4 JOSEPH, B. Equilíbrio psíquico e mudança psíquica. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1992. O termo é

  

usado para retratar mudanças muito delicadas, tão sutis, que podem ser quase imperceptíveis, e contatos, que, a partir dali, possam surgir, numa sequência que, mesmo tímida, poderá ser essencial.

  Alguns tratamentos podem criar, sem intenção, uma moldura propícia para que refúgios ou outras organizações defensivas patológicas se mantenham. O paciente pode ser visto de forma empobrecida, apenas como vítima, e não ser percebido ou considerado como um agente terapêutico ou antiterapêutico da maior importância para si mesmo, e, ainda, poderá estar no que Steiner (1994, 1997, 2011) mostra - como um conluio não inocente com a organização patológica dentro de sua personalidade:

  Vejamos o que Steiner diz da forma pela qual a organização se apresenta:

  A organização pode apresentar-se como um objeto bom que protege o indivíduo de ataques destrutivos, mas na verdade, sua estrutura é composta de elementos bons e maus, que se originaram tanto do self quanto dos objetos para dentro dos quais foram projetados. Esses elementos são usados como material para a construção da organização extremamente complexa resultante. Em minha opinião o self dependente, que é dominado pela organização, pode ser complexo também, e não uma vítima tão inocente como pareceria em princípio. (STEINER, 1997, p. 23). Grifos nossos.

  A organização mistura aspectos bons e maus tanto do self quanto de objetos, mimetizando um objeto confiável, mas essa mistura cumpre a função de disfarçar a destrutividade. A extrema complexidade da estrutura resultante fica óbvia. Significativa é também a colocação de que o self dependente, que é dominado pela organização, é igualmente complexo e não a vítima inocente que a princípio parece ser.

  Tentamos ter em mente a importância da capacidade negativa, e não saturar com respostas precoces a presente pesquisa. O material teórico trouxe enriquecimento e desdobramentos férteis, e ao invés de saturação, muitos desafios para os quais ainda se requer mais estudo.

  O material clínico que ilustra as questões da pesquisa remete tanto às organizações patológicas, quanto às defesas autistas. Por causa dessa mistura, optamos por falar sobre ideias de Tustin e Mitrani antes da colocação das organizações patológicas propriamente ditas. Essas autoras trabalham a partir de fenômenos muito primitivos e iniciais, quando o psiquismo parece estar em status

  Examinamos as organizações patológicas descritas por Rosenfeld, com a idealização de aspectos destrutivos do narcisismo e, a seguir, a estrutura organizada que ele denominou gangue.

  Para apoiar o estudo do narcisismo, valemo-nos das compreensões de Joan Riviere, pois suas postulações permanecem fundamentais até hoje, como também seus aportes ao estudo de sistemas defensivos complexos.

  Faz-se breve explicitação dos conceitos kleinianos das posições esquizoparanoide e depressiva. Outros conceitos básicos são comentados ao longo do texto, como o splitting e a fragmentação, bem como sobre as áreas neuróticas e psicóticas da personalidade. Um referencial bioniano e certos conceitos pertinentes também são utilizados, uma vez que fundamentam muitos dos trabalhos dos autores aqui apresentados.

  O texto obedece a uma organização em capítulos, que descrevemos brevemente nesse momento para auxiliar seu acompanhamento e destacar alguns pontos fundamentais.

  O capítulo 3 “Um olhar para a clínica: Ondas nunca voltam?” descreve o início do tratamento de um paciente, cuja voz era dificílima de ser ouvida, e perdia-se como ondas. A música Ripples é usada como ponto de partida e permite fazer associações com fenômenos psíquicos que levam ao estudo de conceitos descritos nos capítulos seguintes.

  O capítulo 4 possui quatro subdivisões. O item 4.1 traz conceitos de Tustin e Mitrani e define o que seriam objetos autísticos e pseudorrelações de objeto. Expõe também o tipo de retraimento autístico, e como este pode ficar encoberto e ser mantido, mesmo que outras áreas da personalidade se desenvolvam.

  O item 4.2 enfoca o narcisismo em sua vertente destrutiva, da forma como foi descrita por Rosenfeld, e que lhe deu ensejo a investir no estudo de sistemas defensivos complexos, que podiam tornar o paciente viciado e aprisionado neles, em troca de contar com sua proteção. Daí chamar tais sistemas de máfia ou gangue.

  O item 4.3 mergulha na proposta de Steiner que levanta o fato de ser possível fugir e evitar a elaboração das ansiedades das posições elas. Este seria o refúgio, em que apesar da aparência de estabilidade, há vários problemas, além do fato de não ser possível nenhum crescimento. A questão de ocorrer um acordo perverso entre partes da personalidade para manter o status quo, também é discutida, bem como a questão da continência verdadeira em contraposição à falsa.

  O item 4.4 esclarece o que seriam claustros, conceito proposto por Meltzer para designar uma projeção para dentro de objetos parciais do mundo interno, num momento de formação de identidade, o que faz com que esta fique comprometida com tais objetos, trazendo várias implicações patológicas.

  Depois deste percurso teórico, retoma-se a abordagem de situações clínicas no capítulo 5, que possui quatro subdivisões. Nelas são cotejados aspectos teóricos em conexão e diálogo com as diferentes situações clínicas. No item seis, trazemos e fazemos comparações, considerações e reflexões na tentativa de compreender, aprender e, aproximar-se de uma síntese, e para isso aproximamo-nos de conceitos como vias paralelas, o Infinito geômetra, busca da verdade, advindos da leitura de Grotstein. A pesquisa suscitou vários questionamentos e o desejo de aprofundar o tema buscando mais elementos em outras situações clínicas, e/ou desdobrando mais as já abordadas. Outros conteúdos teóricos encontrados em Winnicott, Grotstein, Fairbairn e Balint seriam boas escolhas para um aprofundamento e incremento dos conceitos e ideias. Mas por hora, pensamos serem válidas as contribuições que passamos a mostrar.

  

3 EXPERIÊNCIAS CLÍNICAS: ONDAS NUNCA VOLTAM?

APROXIMAđấO PARA ACOLHER AS FORMAS SONORAS E

AS FORMAS AFETIVAS

  Sail away, away Ripples never come back Gone to the other side Sail away, away The face that launched a thousand ships Is sinking fast, that happens you know The water gets below Seems not very long ago Navegue, navegue, veleje Ondulações nunca retornam vão para outro lado/navegue, navegue... A face que lançou centenas de navios está afundando rapidamente, isto acontece, você sabe/ As águas ficam mais fundas parece nem ter sido há muito tempo atrás...

  Estes versos foram extraídos de uma canção de um grupo de rock, chamado Genesis

  5

  . A música “Ripples” é de autoria de Tony Banks e Mike Rutherford, do álbum A Trick of the Tail, e o principal vocalista da banda, na época (anos 70), era Phil Collins. Os comentários sobre a música não dizem respeito a seu valor artístico, mas ao fato de que sua melodia e letra contribuem para pensar o material clínico. A letra expõe e permite associações do tipo: navegar, estar perdido e perdendo coisas que, de tão sutis, podem beirar o inapreensível. Embora de estilo simples, sem sofisticação, a letra aborda uma questão importante: é possível “lançar muitos barcos”, fazer enormes esforços e afundar. A canção afirma, falando diretamente ao interlocutor, que isso é algo que já se sabe: as dificuldades, as coisas que não voltam, as águas que ficam mais fundas. Alude ao fato de que a experiência da perda está sempre por perto. Faz- nos pensar que navegar, embora seja coisa conhecida, é também uma experiência sujeita a transformações e complexidades insuspeitadas. Lembrei-me dessa música apenas mais recentemente, em 2011, mas sua presença, aliada aos versos de Fernando Pessoa em Mar Português, serviu de continente para eu que pudesse continuar escrevendo sobre o caso do qual quase havia desistido. 5 A melodia tem um que de tristeza, é envolvente e suave, com tons que ondulam e parecem convidar a uma entrega. Se essa entrega for feita, seguindo- se também a letra, um mergulho em algo fluído ocorrerá sem data para retorno. Há um ir para outro lado, deixar-se, entrar numa frequência abrangente, que preenche o espaço e, sem que percebamos como, isso tudo o transforma. Os líquidos têm a propriedade de mudar o modo como um espaço está (de seco para molhado), ao mesmo tempo em que podem se acomodar a ele, ou dele escapar. Um líquido pode ligar (provocando uma reação química) ou aderir a algo, pode tornar-se sólido, escorrer, esvair-se, gaseificar-se. Remete-nos a coisas das quais conhecemos uma forma, mas não a que forma chegarão. As coisas que podem ser vistas e sentidas em suas ondulações ou seus tsunamis.

  A letra convida a “ir para longe”, no balanço de ondulações que nunca voltam, criando uma imagem de algo pequeno e constante, que leva a algo maior e incerto. Sugere simultaneamente um balanço acolhedor lembrando a continência materna e o perigo de naufrágio. A mensagem revela a duplicidade de um objeto que acolhe, mas pode levar à destruição. Também parece mostrar que não podemos só ser contidos, ainda que o mar seja uma boa metáfora para um continente “infinito”, mas que temos de ter uma capacidade própria para conter, ou afundaremos.

  Em Mar Português, Pessoa traz as lágrimas como um ingrediente de peso para a salinidade do mar, como se um elemento tão pequeno e delicado estivesse ao lado e fosse parte fundamental de algo grande e rude, como o oceano. Sugere à nossa imaginação que a enormidade das perdas e das tristezas são mares profundos. Convida-nos a pensar nas dores oceânicas que atravessamos e na necessidade de alargar a “alma” o que remete à continência e a ter contato com a capacidade negativa. Essa implica em enfrentar perdas, dispersões, incertezas. Experiências que, no entanto, valem a pena, se a alma não é pequena, noutra alusão a algo que a meu ver, trata-se da novamente da capacidade de continência.

  O paciente citado na introdução fazia com que houvesse - para mim e para ele - um clima como o descrito anteriormente. O timbre de sua voz ondulava. Em alguns momentos era uma alta onda, em outras, suave marola que se perdia indo chegar ao lugar onde poderia encontrá-la. Os “navios naufragam”; pode-se sentir, e era preciso preparar-se.

  Da crista de uma onda de vozeirão, podíamos ser arremessados, pois a voz se transformava, e era impossível ouvir a conclusão de uma frase que completaria seu sentido. As ondulações-palavras iam literalmente embora, mas poderiam ir para um encontro, uma perda ou uma retomada, num vaivém. As palavras e qualquer sentido que elas pudessem ter podiam ir e iam a outro lado, talvez intangíveis. Um constante conviver com o inatingível, com o que parece que será encontrado, mas é perdido.

  Havia também a sensação de que aquelas conversas me lançavam em busca de algo - justamente o que era inaudível e poderia ser importante. Por isso, Mariano pareceu-me um bom nome, pela lembrança de mar, marear, mareando, maresia, efeitos físico-químicos e emocionais do contato com o mar, com a água, com as formas ondulantes.

  Mariano se esforçava para soltar sua voz. Em meio ao discurso, fazia exercícios fonoaudiológicos para limpar a garganta. O ritmo era mais ou menos assim: a voz tentava ser forte, parecia lutar para sair, parecia cansar-se, enrouquecer, depois voltar a ter alguma força, então sumir, ou quase; mudar o timbre, e outra vez recomeçar. Sempre era necessária outra tentativa de ouvir e entender, perder e encontrar, encontrar e perder. Com todas estas dificuldades, eu conseguia ouvir muito, e também perder muito, e a impressão que eu tinha era de inundação, trabalho pesado, delicado, como a laboriosa restauração de algo antigo (recolher restos de naufrágio?).

  Mariano procurara fazer análise pelo estado de nervosismo, pelas suas crises de ansiedade e, principalmente, pela sua dificuldade para falar, que ele não lembrava exatamente quando havia começado, mas que já fazia muitos anos, (mais de 15) e surgiu após um acidente grave, no qual houve risco de vida e, consequentemente, uma demorada e trabalhosa recuperação. Os problemas da voz pareciam não ter relação com os problemas gerados por ocasião do acidente, mas a dificuldade na voz ficara como uma sequela, embora não se conseguisse encontrar nada orgânico que a motivasse. Aí estava um sintoma; teria uma natureza histérica? Uma somatização, ou algo psicótico? Lembrava algo fonoaudiológicos, as alterações na voz persistiam. O paciente se envergonhava, sofria muito, sentia-se inseguro e cansado diante daquilo tudo. Nunca fora gago, nem tivera qualquer problema semelhante na infância.

  Ouvir esse paciente era um exercício de persistência e calma diante das alterações e dos tropeços apresentados por seus discursos. Os fragmentos de fala que se quedavam inaudíveis ou incompreensíveis preocupavam-me. Assustava-me a possibilidade de que os fragmentos perdidos ou fora do lugar pudessem fazer falta inestimável ou iniciar um desabamento em alguma parte de minha mente ou na dele se não conseguíssemos segurá-los. Como às vezes não ouvia o fim de frases, lembrava-me das estórias das mil e uma noites, que não podem acabar, pois seu fim traria a morte.

  Devido ao clima comecei a pensar na defesa autista, na impossibilidade de tolerar qualquer descontinuidade, qualquer finalização ou acabamento e também algum sentido, pois, se pudéssemos juntar os sons e completar as frases, seria um momento de terminar, definir, identificar e separar. Esse fato foi abordado em nossos encontros depois de muita reflexão dentro de mim. Numa ocasião, o paciente disse gostar de perceber que eu prestava muita atenção no que ele dizia e que eu devia fazer aquilo porque ele precisava muito. No entanto eu temia que não conseguisse ir além do que parecia um exercício auditivo, de acolhimento do caos. Temia que a confusão me colocasse muito distante do que realmente precisava ser ouvido, além do concreto da balburdia sonora. Mas creio que Mariano precisava colocar essa situação entre nós, para que fosse digerida. Temia que ficássemos envolvidos na aderência aos sons, à busca, naquela espécie de estar ao lado, mas sem sentido ou diferenciação.

  A voz ondulante, às vezes sussurro, às vezes gemidos, mantinha-me colada, ou quase, para conseguir ouvi-lo. Colada visceralmente, pelos ouvidos, pela tensão do corpo que eu instintivamente aproximava do divã. Era um pouco semelhante ao atendimento de crianças, em que temos de observar as várias brincadeiras agitadas e, por vezes, barulhentas, que nos surpreendem a todo o momento, e participar fisicamente delas. A atenção flutuante não é fácil de ser estabelecida. Lembravam-me de Bion com a necessidade de suportar afetos, ideias, coisas na mente para poder gerar pensamentos, mas me perguntava se comunicação entre duas mentes. Ou se aquele ritmo era a forma de estar com

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  ele, de juntar duas mentes (at-one-ment?). Pensava em Meltzer (1997) , ao dizer que, no primeiro ano de análise, os progressos que ocorrem são muito menos por

  insight e bem mais por sintonia na contratransferência.

  A experiência de tentar colar em algo que escorre parecera-me uma proposta para entender o medo de se perder completamente, de sumir, de tolerar o desafio e a experiência de perda que eu devia suportar para que ele, mais tarde, pudesse fazê-lo. Aos poucos, fui pensando e falando com Mariano, que era importante tentar encontrar suas falas e suas ideias, mesmo que demorássemos um pouco, afinal talvez ficar um tempo juntos ajudasse a perceber que tínhamos fôlego e que estávamos vivos. As palavras podiam sumir, mas elas voltariam, pois, afinal, o que está vivo aparece. Manter os ouvidos e a mente vivos poderia ser parte fundamental da trilha.

  Comentava com ele sobre a situação da criança com o carretel, que some e volta, à espera da mãe, enquanto aprende a pensar em sua ausência e ter esperança de seu retorno. Todas essas experiências afetivas decorrentes da situação sensorial concreta que ali se colocava foram aos poucos sendo trazidas e verbalizadas em nossos encontros. Sentir-me procurando por ele como uma etapa inicial do contato construído entre nós pareceu-me, a princípio, trazer a certeza de que eu o julgava vivo e importante e de que suas coisas vivas, mesmo que embrionárias, seriam levadas em consideração por nós, ou ao menos por mim.

  Numa das vezes em que coloquei isso a ele, vi-o chorar e relembrar o acidente do qual viera a “sequela”. Outro aspecto importante das sessões era o clima grave, pesado, até sombrio, com a tensão e o embaraço que, às vezes, precedia o pronunciar de cada palavra e me deixava em suspenso, preocupada, com um misto de vontade de acolher, entender, medo de ser incapaz e ofender Mariano por não ter sido capaz. Receio de evidenciar a dificuldade dele, com a minha. Quando tentei 6 MELTZER, D. A evolução das relações objetais. In: TIRELLI, Luisa; SCAPPATICCI, Anne Lise S.

  

(Orgs.). Bion e a psicanálise infantil: interações entre os indivíduos e nos grupos. Trad. da ed.

brasileira Anne Lise S. Scappaticci. São Paulo: Primavera Editorial, 2011. Publicado escrever este caso, vi-me com enorme dificuldade de achar as palavras certas e se as encontrava parecia que a forma como as encadeava resultava em um texto confuso, com uma estranha cadência, e gerava caos. Outro “efeito” do contato com as “ondulações” do caso? A dificuldade de ter que gerar algo mental, tirar as palavras da simples forma sonora para que tivessem também uma alma?

  Aos poucos ia juntando as partes: tinha que ouvir em ondulações, ouvir as ondulações, aceitar que não voltariam e que iria perdê-las. Que ali estava/havia algo sendo mostrado por estar perdido. A presença da ausência de alcance para o status mental, algo que parece ter a tendência para ficar dessa forma, uma forma autista?

  O compartilhar da perda através das lacunas, em vários sentidos, parecia ser tarefa fundamental, mas a experiência afetiva poderia ser ofuscada pela invasão dos sons e do problema prático da comunicação. No entanto, tentava trazer a experiência de algo que se vai, mas deveria ou poderia estar presente, sem colocar precocemente a experiência emocional da perda, embora ela estivesse, até certo ponto, implícita. Mas havia algo que precisava ter lugar, o ritmo de segurança (TUSTIN, 1990), que envolve encontros e perdas, numa dose suportável, e algo que começasse a indicar essas duas possibilidades, que assim poderiam ficar disponíveis para pensar. Tal ritmo implica na possibilidade de colocar juntas duas experiências opostas, como encontro e perda, e mantê-las suportáveis, sem que uma corresponda ao aniquilamento da outra. Experiências que, embora antagônicas, podem coexistir e estar próximas, sem destruir uma à outra.

  No entanto, parecia-me que a “perda” não se concluía, era algo ondulante, cuja presença diluída era invasiva e constante. Íamos falando disso: das idas e vindas, e que as palavras entre nós podiam servir para várias coisas: algumas eram palavras-pedaço, outras eram as palavras-som, outras podiam ser palavras- sonho... Daquelas que ajudam a ir além das coisas e do próprio som.

  Algum tempo depois, a imagem de um bebê no útero e, a seguir, a do parto, pareceram-me um possível elo com a natureza da experiência com meu paciente. O parto traz ao bebê novo local para viver, mas causa a perda (para sempre) das ondulações leves do líquido amniótico, do balanço da pulsação

  

Mar Português retratam ondulações que se perdem, pessoas que se perdem. As

  ondulações dentro do útero jamais voltarão após o nascimento, o parto é a última etapa desse navegar para longe, sem volta. O ritmo ondulante assegura a estadia no útero enquanto engendra a futura partida. Uma mudança de um continente para outro, que envolve a necessidade de que o bebê venha a consolidar gradualmente, uma continência própria, pois não há desenvolvimento só com a continência externa.

  Imagens de um fundo líquido, de coisas molhadas, de algo que se esvai ao mesmo tempo em que algo chega ou retorna. De algo que cria um ritmo, e de algo que nos toca como a água que molha e envolve ao entrarmos nela e, de certa forma altera nosso estado, foram constantes com esse paciente e um pouco do que eu tentava verbalizar com ele. Estar com pessoas é algo ondulante, há chegadas e partidas...

  Outro fato importante é o da vida trazer sempre um pulsar: abrir e fechar, um ritmo que se coaduna, nas pessoas que o conseguem, com as oscilações entre as posições esquizoparanoide e depressiva, ser contido/ter continência, ad

  

infinitum. Parecia-me que, apesar de ter momentos assim, as oscilações daquele

paciente também provinham de outra fonte e podiam ser de outra natureza.

  Talvez Mariano trouxesse várias histórias, refúgios, mares profundos, naufrágios...

  

4 COMPREENDENDO AS ORGANIZAđỏES PATOLốGICAS DA

PERSONALIDADE

  

4.1 Pseudorrelações-objetais adesivas, cápsulas autistas e a não

instauração do ritmo de segurança

  Frances Tustin analisou, dedicada e pacientemente, crianças, jovens e adultos com defesas ou francamente autistas. Ela observou nesses pacientes formas peculiares de vivenciar a experiência consigo mesmos e com o mundo. Postulou que, ao nascer, nem sempre a criança está preparada para a ruptura e para a mudança que tal evento traz e, por outro lado, algumas crianças parecem ter sofrido experiências de separação num momento, -seja no interior do útero ou logo após o nascimento-, em que estavam especialmente sensíveis e incapazes de suportá-las (TUSTIN, 1990). Tais eventos foram para esses pacientes muito traumáticos e mobilizaram defesas que se tornaram patológicas. Embora parte essencial do trabalho de Tustin tenha se desenvolvido com autistas, atendeu pacientes diversos. Sua percepção e aprofundamento daquilo que designou como defesas e formas autistas deram-lhe grande sensibilidade e levaram-na a ampliar a aplicação de suas descobertas. Percebeu que pacientes neuróticos (no sentido clínico aceito para a palavra), neuróticos mais graves e borderlines podiam mostrar defesas e funcionamentos mentais que se assemelhavam muito ao tipo de defesas dos autistas.

  Vejamos as palavras de Tustin:

  Comecei a ver que um fator significativo na precipitação do autismo psicogênico é o fato de que a criança experimentou a perda em um estado tão imaturo de organização psíquica que não foi capaz de suportar satisfatoriamente o pesar e o luto provocados pela perda. O luto satisfatório impõe o abandono do objeto perdido e o estabelecimento deste como um constructo mental. Hanna Segal demonstrou a importância para a formação de símbolo de se lidar com os sentimentos de perda (Segal, 1957). A criança autista não foi capaz de lamentar, porque o mamilo que ela sentia que havia perdido mal alcançara a condição de objeto; isto foi principalmente experimentado como um conjunto de sensações. (TUSTIN, 1990, p. 53). Grifos nossos.

  Tustin propõe que a consciência de separação entre o bebê e sua mãe

é flutuante no início da vida, e é tolerada pelo bebê de forma variável,

dependendo tanto de fatores inerentes à própria criança, quanto a fatores

ambientais. Num ambiente “hostil”, a criança seria muito menos capaz de

  suportar a ausência da mãe ou a consciência dessa separação. Tustin menciona que “o indivíduo emergente começa a sentir - talvez a princípio apenas momentaneamente - que tem limites corporais distintos. Esses limites corporais indicam um espaço interior, eles não são apenas bordas a partir das quais uma superfície é subentendida.” (TUSTIN, 1990).

  No indivíduo normal, alguma consciência de separação está presente desde o nascimento e é suportada, e se alterna com a fusão. Aí também começa a noção de conteúdo interno, de limite entre bebê e mãe como objetos dotados (separadamente) de conteúdos próprios. A capacidade para suportar a consciência flutuante de separação é importante porque permitirá que as noções de espaço interno/externo, conteúdos internos/externos, e mais tarde a individuação, sejam desenvolvidas.

  A consciência de separação entre bebê e mãe torna-se viável ao bebê principalmente por dois motivos. O primeiro é que as atividades autoeróticas do bebê (como a sucção) e as interações físicas e psíquicas com a mãe são muito intensas e mantêm uma forte associação entre ambos, estar junto e separado

  

ao mesmo tempo. A segunda é que tudo isso mantém a vivência da separação

  num grau ameno e tolerável pelo bebê. Tais estados se alternam, e ela denomina este vaivém de ritmo de segurança (rhythm of safety, TUSTIN, 1990). Para isso, a mãe teria que ser bastante responsiva e ter um acolhimento sintônico e tranquilo para com seu bebê, o que significa que é capaz de vê-lo como um ser separado, dotado de uma mente própria, mas mesmo assim estar muito unida às necessidades psíquicas nascentes nele.

  Isso lembra o que Bion chama at one ment, “estar como (em) uma só mente” e que implica na capacidade de fazer ressonância com a mente do outro. Para a criança, a experiência de estar acolhido na mente materna seria algo que poderia reparar a dor da cesura, a dor de nascer. A mãe terá de ter um bom contato e compreensão de sua própria mente e de sua humanidade para se unir à mental de seu filho. Ela não deve invadi-lo psiquicamente, nem invalidar seu psiquismo.

  Apesar de muito junto, a mãe deve, de alguma forma, aceitar a diferença, admirar seu bebê e dar-lhe lugar no mundo e em si mesma, ainda que o considere seu. Essa seria uma ligação primitiva, mas não regressiva, pois depende de um refinamento, um modo de estar junto em que não há dissolução de individualidades (MELTZER, 1995; TUSTIN, 1990). A capacidade para suportar a separação seria variável em cada bebê, por isso é importante que ela seja feita de forma suave e que a mãe tenha esta capacidade. Graus diferentes dessa capacidade trarão diferentes consequências.

  Na situação autista, ocorrem vários problemas. Primeiramente, os bebês autistas seriam muito sensíveis à separação e/ou passaram por separações inadequadas e de difícil processamento mental. Tais separações ocorreram num momento em que ainda não podiam ser suportadas e foram, portanto, traumáticas (TUSTIN, 1990). O bebê, ao encontrar uma mãe pouco responsiva, ou qualquer outro evento inesperado, teve de suportar um grau de “decepção” ou separação para ele impossível, significando que o encontro e a acolhida na medida de suas necessidades não ocorreram. Nessas crianças, uma vivência terrível se instala: talvez um vazio, uma ruptura, algo como uma perda de inteireza física, um arrancamento. A criança não encontra recurso mental para lidar com isso. Para

  

Tustin, a essa situação definitivamente traumática seguem-se as medidas

autistas (como reação específica ao trauma). Essas crianças precisariam

  demasiadamente do ritmo de segurança, e não o encontraram.

  Cabe lembrar que esses bebês não são capazes de projeção. Eles têm grande necessidade de sentir a continuidade física com seu objeto, pois não têm ainda funções mentais minimamente integradas, e dependem, fundamentalmente, do suporte físico e do acolhimento psíquico materno. Só mais tarde poderiam abrir caminho para o mental. Mas as reações autistas divergem do desenvolvimento normal de ligações afetivas e o substituem pelas defesas e formas autistas.

  Problema igualmente grave, e para Tustin não infrequente, é que algumas mães prolongam exageradamente seu estado indiferenciado com seus bebês, separação tolerável. Para essas mães, a separação não deveria ou não precisaria existir, e não puderam preparar suavemente seus bebês para ela. Essas mães criam um estado de ligação fusional com seus bebês, sem se darem conta de que estão dificultando as coisas, pois a separação é inevitável e o bebê irá senti-la em algum momento. Quando não é possível, pelas vicissitudes normais do desenvolvimento ou outro problema qualquer, manter a indiferenciação e a fusão com a mãe, a perda cai sobre a criança, perda essa aparentemente sem chance de reparo. Se a situação pudesse ser suportada, a mente individual se fortaleceria aos poucos.

  Nas defesas autistas, as vivências de separação são abafadas, criando estados em que há uma hipertrofia de contato com sensações físicas tranquilizadoras, e a tentativa de escapar a todo contato emocional. Isso porque tal contato ocorreu justamente pela vivência de uma dor de separação, quando tal dor não podia ser simbolizada, e ficou, por isso, num doloroso nível físico (TUSTIN, 1990). As sensações físicas agradáveis são uma forma de se opor e de vedar o contato com essas experiências traumáticas e formam os “objetos” e as “formas autistas”. Elas ocupam a mente destes bebês e colocam-nos à distância da separação, prejudicando e talvez os incapacitando para o desenvolvimento de ligações com objetos reais.

  O preenchimento da ausência de contato com uma mãe viva e continente é feito pelas sensações físicas que as formas e os objetos autistas propiciam. Elas dão a ilusão de uma fusão com a mãe, uma sensação física, uma superfície na qual ficam aderidos. Isto é impeditivo do encontro com uma mãe verdadeira. O crescimento da sensorialidade turva o crescimento de outras capacidades.

  Tustin afirma que há uma diferença útil e significativa entre ego e self. Ela diz:

  ...As primeiras atividades de ego pareciam surgir, em primeiro lugar, do sistema neuromental. A princípio o bebê recém-nascido que carece das experiências do mundo exterior pode apenas reagir em termos de 7 tendências neuromentais inatas que são expressadas através de atividades auto-sensuais. O ego primário é um ego autosensual. Esta visão está de acordo com a afirmação de Freud de que “o ego é primeiro e acima de tudo um ego corporal” (Freud, 1923) No desenvolvimento 7 normal, a crescente experiência do mundo exterior facilita a maturação e

  sofisticação deste ego elementar. Mas a criança autista traumatizada fecha a porta à experiência do mundo exterior. Assim o desenvolvimento do ego fica morbidamente fixado a um nível físico agreste, cru de reações precoces, superconcretizadas e hipertrofiadas. Isto leva ao senso de haver uma concha vazia intumescida construída das próprias atividades físicas do indivíduo. Esta é uma barreira às relações com o mundo exterior. Os pacientes autistas nos estados encapsulados também carecem de um senso de self e de identidade individual. Isto porque o senso de self e de identidade individual depende das relações com as outras pessoas. As crianças autistas evitam tais relações e deste modo não possuem senso de self. Portanto vim a perceber que estava errada ao atribuir a crianças um “falso self” conforme descrito por Winnicott (1960). Também compreendi que os estados de autismo não são narcisísticos. Isto porque um senso de self é obviamente um pré-requisito para o desenvolvimento do narcisismo. Pacientes tipo esquizofrênicos e crianças negligenciadas desenvolveram relações com pessoas, embora estas sejam frágeis e perturbadas. Assim pode-se dizer que elas tem um “falso self” e que são narcisistas. A criança autista psicogênica, e os pacientes neuróticos em um estado autista, evitam relações humanas. Portanto, eles são destituídos de um senso de self, e não se pode dizer que têm um falso self ou que são narcisistas. (TUSTIN, 1990, p. 42).

  Tais conclusões contribuem para uma diferenciação importante dos fenômenos que se pretende investigar ao longo deste trabalho, pois permitem definir que, além da questão dos pacientes narcísicos e com aspectos psicóticos, é possível deparar-se com quadros em que há defesas arcaicas, muito estáveis, que não permitem o desenvolvimento e o progresso da análise, mas são de outra natureza. Se estas forem confundidas com as organizações patológicas do tipo descrito por Rosenfeld e Steiner, podem permanecer inacessíveis e levar a um impasse, ao esvaziamento ou estancamento do processo de análise.

  As formas autistas não correspondem à ideia de forma que pertence ao senso comum. São formas produzidas através da estimulação sensorial que despertam em seu portador, e criadas a partir do uso que ele faz de partes de seu corpo, de seus fenômenos fisiológicos, como secreções, gases, posições de partes do corpo, e também pela sensação de contatos físicos com superfícies de objetos e ou qualquer tipo de evocação sensorial que um objeto possa provocar. Essas formas, como já dito, ocluem qualquer contato com a percepção de descontinuidade e diferenciação entre o sujeito e o mundo. A vivência desse tipo de sensorialidade preenche o mundo mental de seu portador, levando, no caso de um autista grave, a severo prejuízo e/ou impedimento à instalação de elementos mentais de vários tipos, como sentimentos e pensamentos. Tustin (1990) e Mitrani

  (2007) fundamentam a existência de áreas, ou cápsulas de autismo (como prefere dizer Tustin), em muitos indivíduos. Esta perspectiva é considerada ao longo de nossa discussões clínicas.

  Tustin diz:

  ...O funcionamento da criança autista é muito diferente. Ela está em mundo dominado pelas sensações no qual ela procura mais as sensações do que os objetos como tais. Ela não responde às pessoas como pessoas, mas principalmente em termos das sensações que elas provocam. Ela está em um estado primitivo de busca de correspondência, em termos de sensação, do mundo exterior que coincidam com seus padrões inatos. Se ela se torna consciente da falta de ajustamento a suas tendências inatas de busca de padrão, ela bloqueia isto a fim de se sentir contínua com o mundo exterior e não separada dele. (TUSTIN, 1990, p. 49).

  Clareando um pouco mais as formas autistas, menciona-se: “não são compartilháveis com outras pessoas”, e são “tipos aberrantes de experiências eróticas padronizantes”, sendo “ineficazes no sentido de um funcionamento efetivo” (TUSTIN, 1990). As formas “dariam vida a uma mãe sempre presente” e “infinitamente controlável” (Id. Ibid.). O paciente autista ou com uma cápsula de autismo teria desistido de estabelecer contato humano por senti-lo como insuportável e perigoso. Teria criado as formas para se satisfazer, de modo que não tenha o contato com a dolorosa separação, que nem é entendida como tal, mas como esvaimento, arrancamento ou queda “num buraco negro com uma picada ruim”, como relatou um dos pacientes de Tustin quando pode falar sobre o que sentia. As formas povoam o mundo do autista e fazem com que ele não se preocupe nem seja atingido por dores humanas. Ou não o perceba.

  As formas não são compartilháveis, pois não têm concordância simbólica, e só interessam a seu autor. Não criam representações, apenas produzem sensorialidade e estão presas a isso. Por esse motivo, são aberrantes e erotizantes. Apesar da aparente rigidez e estabilidade dessas formas, haverá falhas e momentos de contato com a não continuidade, e mesmo algum tipo de emoção, fazendo com que esses pacientes se desesperem, vivenciando terrores de esvaírem-se ou derramarem-se ou caírem eternamente.

  Judith Mitrani aponta uma questão fundamental: na dificuldade de estabelecer relações objetais, podem se desenvolver pseudorrelações-objetais de um tipo adesivo. Ela não vê esse estado como sadio, nem normal e diferencia-o

  8

  do que foi descrito por Ogden como posição autista contígua. Chamamos atenção para as ideias de Mitrani:

  Eu delineei o desenvolvimento de pseudorrelações objetais adesivas que se petrificam (Mitrani, 1994ª e 1995ª) como uma aberração assimbólica do desenvolvimento normal, enraizadas em experiências traumáticas de extrema privação ocorrendo no útero e/ou na tenra infância. Esta forma de “ser” interrompe prematuramente o desenvolvimento necessário e a confiança num ritmo de segurança (Tustin, 1986b) entre mãe e criança, resultando num impedimento da emergência de um estado elementar de subjetividade e do gradual desenvolvimento de uma verdadeira objetividade. Tal modo de pseudorrelações pode existir de uma maneira similar à descrita por Grotstein como uma via dupla, ao lado de relações normais e relações narcísicas. Entretanto, as pseudorrelações objetais adesivas em formas encapsuladas, endurecidas e desafiadoras quase sempre são patologicamente defensivas e estáticas. (Tradução livre). I have outlined the development of an enduring mode of adhesive pseudo-object-relations (Mitrani 1994a and 1995a), as an asymbolic aberration of normal development, rooted in traumatic experiences of extreme privation occurring in utero and/or in early infancy. This way of “being” prematurely interrupts the necessary development of and trust in a “rhythm of safety” (Tustin, 1986b) between mother and infant, resulting in a crippling of the emerging elemental state of subjectivity and the gradual development of true objectivity Such a mode of pseudo-relating may exist, on something similar to what Grotstein referred to as a “dual track” (1986), alongside normal and narcissistic object relations. However, in its encapsulated, enduring and rigidified form, adhesive pseudo-object-relations are nearly always pathologically defensive and static. (MITRANI, 2007 p. 37). Grifos da autora.

  Nesse trecho, Mitrani declara que, em alguns pacientes, há um rígido e persistente desenvolvimento de um tipo de pseudorrelação objetal adesiva. Ela escolhe o termo pseudo para frisar o arremedo de relação e a ausência de relação verdadeira, e com isso, a ausência de “metabolização” psíquica, portanto de possibilidade simbólica. A aparência de relação funda-se numa aderência ao objeto enquanto superfície, não como objeto, e este último não é buscado como algo que tenha conteúdo. Afirma tratar-se de um estado aberrante do 8 Para Ogden, a posição autista contígua implica em uma dialética pré-simbólica entre

  

continuidade e ruptura, entre fronteira e o at one ment, isto é, estar em uníssono, ou em

entrosamento com outra mente, com um objeto subjetivo. Não faz parte do escopo desta desenvolvimento onde não há simbolização, e tal estado pode persistir como uma anomalia assimbólica na mente de um sujeito.

  Mitrani enfatiza a qualidade aberrante que resulta da experiência traumática, ocorrendo numa fase onde há extrema fragilidade, e acompanha Tustin ao sugerir uma forma de evitar a separação, mas não exatamente com uma “forma autista” (TUSTIN, 1990), e cunha o termo pseudorrelação objetal adesiva (a qual é assimbólica).

  Continuando, vemos que essa forma de “ser” interrompe prematuramente o desenvolvimento da necessária confiança em um ritmo de segurança entre mãe e criança. Isso resulta numa incapacidade para que possam emergir de dentro da criança os inícios dos estados de subjetividade e também o gradual desenvolvimento de uma verdadeira objetividade, provocando o comprometimento da capacidade de autopercepção e de percepção do mundo e do outro. O uso do termo aberração é útil por evidenciar a anormalidade grave em que consiste o não desenvolvimento dos processos de subjetivação, simbolização e diferenciação. Talvez essas aberrações não sejam maiores do que as equações

  9 simbólicas , mas são tão problemáticas quanto.

  A autora segue dizendo que essas pseudorrelações podem coexistir com outras formas de relações normais ou narcísicas, como em uma estrada onde há várias pistas para o tráfego numa mesma direção (ao modo de uma Rodovia

  10 Bandeirantes ou uma highway) e carros diferentes trafegam paralelamente .

  Comenta que Freud já havia percebido que aspectos primitivos do psiquismo são comumente preservados e convivem ao lado de versões mais evoluídas da mesma questão. Alega para exemplificar que - como Tustin percebera- alguma 9 Equação simbólica é termo cunhado por Hanna Segal para designar que, ao invés de símbolo

  

verdadeiro, que representa ou remete à coisa simbolizada, na equação simbólica a

10 representação é vista e vivida como sendo o objeto que deveria apenas representar.

  

Esta ideia baseia-se num artigo de James Grotstein, chamado A Dual Track Theorem, publicado

pela American Psychological Association em que ele faz uma discussão sobre neurociência e

psicanálise e vê os seres humanos como contendo visões separadas de si mesmos e do

universo, que incluem discrepâncias, paradoxos e convivem entre si paralelamente. Aponta o

fato de que o sistema nervoso tem vias múltiplas, diferentes e simultâneas para efetuar tarefas, o

que, talvez, seja característica evolutiva da espécie, exemplificando com funções que podem ser

duplicadas e simultâneas nos hemisférios cerebrais, embora geralmente o resultado possa

evidenciar a preponderância de alguma via num dado momento, o que não significa que sempre

ocorra assim. Grotstein também menciona duplas vias em seu livro Quem é o sonhador que autossensualidade pré-simbólica é normal e convive com a capacidade simbólica, sem impedi-la de evoluir, o que ajuda a confirmar as possibilidades de paralelo entre capacidades e aspectos mentais.

  Várias características marcam as pseudorrelações objetais adesivas, e são mencionadas a seguir.

  1 Não há percepção de que o objeto é humano e tem uma existência separada do sujeito.

  2 O objeto é usado e procurado por proporcionar sensações reconfortantes ao sujeito.

  3 As ansiedades que nas relações objetais são paranoides e depressivas, são nas pseudorrelações objetais muito elementares, do tipo: cair, entrar no nada, desmanchar, sem esperança de recuperação. Não haveria qualquer possibilidade de progresso para além da situação adesiva.

  4 Nas situações em pauta, as experiências não são mentalizadas: ”unmentalized experience”.

  5 A autossensualidade é usada para bloquear as dores e outras sensações normais.

  6 Mitrani usa a expressão “equações adesivas” para dizer da intensidade com que as sensações são usadas para equivaler a toda e qualquer emoção e para vedar a própria noção de ser um self e de estar vivo. Viver se resume a estar aderido a algo que dá boas sensações.

  7 O ego permanece passivamente não integrado.

  8 O desenvolvimento da capacidade para pensar fica prejudicado, embora possa existir noutras áreas do self.

  9 As reações à separação não são normais, sendo de indiferença ou colapso.

  10 A pessoa que opera muito com as pseudorrelações-objetais adesivas agarra-se a objetos, situações e rituais de forma tenaz, mesmo quando se tornaram inúteis ou perigosos.

  Mitrani usa o termo onipotência ao falar das pseudorrelações-objetais. Ela dá a impressão de que as funções psíquicas mais evoluídas operam, mesmo sem mudanças de áreas bem primitivas e que ao invés de mudá-las, ajudam a mantê- las. Uma forma paralela, que até pode dar sustentação às defesas autistas. Ou seja, parece que as funções psíquicas operam de forma conivente com a autossensualidade, pois Mitrani diz:

  Quando a onipotência falha nas pseudorrelações objetais adesivas, essa falha é sentida como colapso catastrófico ou como uma apavorante sensação de ser rasgado e arremessado para fora. (Tradução livre). When omnipotence fails in the adhesive pseudo-object-relationship, this failure is felt as a totally catastrophic collapse or as a dreadful sensation of being ripped and thrown away (MITRANI, 2007).

  Mitrani também usa o termo adhesive equation, que parece denotar também um mecanismo psíquico posto em ação para dar suporte à autossensualidade. Seria um mecanismo que, de certa forma, evita a evolução para funções psíquicas. Lembra o termo “equação simbólica”, que foi cunhado por Segal e retrata um mecanismo primitivo, e capaz de ser usado rigidamente. Talvez por esse motivo Mitrani fale de desenvolvimentos de aberrações assimbólicas, embora equação possa implicar alguma evolução nas funções psíquicas. No entanto Mitrani quer ressaltar que algo pré- ou protopsíquico ocupa o lugar e a função de algo psíquico.

  Pode-se ver aqui outra possível aplicação da ideia do postulado das vias

  11

  paralelas de Grotstein , que desde Freud já tinha seus começos, pelo paralelismo consciente/inconsciente. Antigos mecanismos não são abandonados e seguem juntos e concomitantemente a outros, diferentes ou mais evoluídos.

  Completando as ideias de Mitrani, temos que a falha da onipotência das relações adesivas é sentida como um colapso totalmente catatrófico, ou como uma sensação apavorante de ter sido atirado para fora. Isso permite até certo ponto lembrar os partos prematuros ou os descolamentos de placenta que podem até matar o bebê e que sugerem sensações físicas extremas. 11 Grotstein desenvolve a ideia de vias paralelas até uma ponto de admitir que enquanto pensa, a

  

mente pode se auto-observar, paralelamente a fazer algo, ou pensar outras coisas, o que será

  Podemos, para finalizar, ressaltar um possível funcionamento psíquico mais evoluído, cujas capacidades sejam canalizadas para sustentar a situação autista, pois com terrores tão elementares, defender-se deles parece imperativo ou a melhor (única?) saída.

  

4.2 Narcisismo destrutivo e organizações mafia-like; as gangues que

oferecem proteção e mantém o ego refém

  Herbert Rosenfeld (1968, 1988) realizou uma investigação fundamental sobre personalidades com características narcisistas. Os ângulos abordados por ele são uma das bases para o desenvolvimento do conceito de Steiner sobre refúgios psíquicos e também podem ser pensados como um dos alicerces mais consistentes para a compreensão das organizações patológicas da personalidade. Suas ideias sobre relações objetais narcísicas e sobre organizações defensivas estáveis são centrais no desenvolvimento do trabalho de

  12 Steiner. A introdução do conceito de narcisismo remonta a Freud (1910 ). Há

  elementos interessantes em seu estudo sobre Leonardo da Vince. Freud descreveu como o artista se relacionava com seus alunos, como se fossem ele próprio, e deles cuidava como fora ou gostaria de ter sido cuidado e amado por sua mãe. Portanto, embora se servindo de um objeto para amar, era a si mesmo que Leonardo amava, pois o objeto era depositário do peso de sua transferência e identificação.

  13 Em Sobre o Narcisismo: uma introdução, Freud menciona que o primeiro

  tipo de escolha objetal de uma criança recai sobre as pessoas que são sua fonte de alimento, cuidados e proteção e chama esse tipo de ligação de anaclítica. Diz, porém, que há outro tipo de amor em conformidade com outro tipo de relação: o narcisista. Os aspectos narcísicos descritos por Freud ajudam na compreensão dos fenômenos envolvendo questões que Rosenfeld mostrará. Pode-se dizer que Rosenfeld é responsável por enriquecer o estudo do narcisismo, pois ele 12 Leonardo da Vince e uma lembrança de sua infancia. (1910). In: OBRAS completas. Edição 13 Standard. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1974. v. XI. descreve vertentes patológicas deste, que fornecem ferramentas valiosas para o trabalho clínico.

  Freud (1914) destaca o narcisismo como componente importante e inevitável do ser humano, mas não o isenta de problemas. Pela força do narcisismo, o indivíduo está sujeito a escolher para amar objetos que tenham ressonância com seu próprio eu. Apesar de crer que as escolhas narcísicas são comuns, principalmente nas mulheres, Freud coloca que as relações narcísicas poderiam levar a complicações nas relações objetais, tanto que cita as perversões sexuais como exemplo cabal de escolhas narcísicas. Ele esclarece as diferenças entre as escolhas:

  Uma pessoa pode amar: 1-Em conformidade com o tipo narcisista: a) O que ela própria é (isto é, ela mesma);

  b) O que ela própria foi;

  c) O que ela própria gostaria de ser;

d) Alguém que foi uma vez parte dela mesma.

  Juntando a esses itens um pouco da visão kleiniana, nota-se que escolhas do tipo narcisista são ligadas aos mecanismos da onipotência, da autoidealização, da negação de dependência e se sustentam na projeção e no

  

splitting de partes indesejadas, sobre outros objetos. São, portanto, baseadas na

  posição esquizoparanoide e não têm compromisso com a aceitação da realidade, das diferenças entre objetos, nem limites. Também são encontrados nas defesas maníacas. Um paciente que estabeleça com seu analista esse tipo de relação desejará incorporar os aspectos desejáveis do analista e negar que precise dele. Poderá como mostra Rosenfeld, entrar em severos estados confusionais com o analista.

  No outro tipo de vinculação, a busca é pela vivência de uma boa relação real com um objeto que sustente e proteja. Embora se esteja levando em conta os aportes de Melanie Klein às teorias das relações de objeto para pensar o narcisismo, os esclarecimentos feitos por Freud, além de fundadores, oferecem um ótimo diferencial como guia.

  Lembramos que Cintra e Figueiredo (2004) ressaltam que Melanie Klein cunhou o termo posição esquizoparanoide e a descreveu ricamente, como uma primeira forma de organização do caos mental: manter separados bons e maus objetos, para ir criando a distinção entre eles dentro do mundo mental. Com isto, assegura-se uma diferenciação e consegue-se um rudimento de organização com a sensação de que os bons objetos estão a salvo dos maus. Ressalta-se que neste período, e na posição esquizoparanoide, as vivências de bem e mal são marcadas pela onipotência. O objeto não é visto como autônomo, mas como parte do self, o que caracteriza o tipo de relação de objeto parcial e narcísica. Neste momento, o self não está suficientemente integrado. O objeto serve como fornecedor de tudo que é necessário e também como depositário do que não é desejado (ou não pode ser suportado). Nesse tipo de relação, as angústias vivenciadas são esquizoides: de fragmentação, e paranoides, isto é, há o medo e preocupação consigo mesmo: ser atacado ou destruído.

  A projeção é frequente e se constitui num mecanismo propício para a

  14

  mente primitiva . Ela faz com que, continuamente, o que não é desejável seja projetado, o que gera nesse caso a percepção de um objeto contendo coisas ruins. Na posição esquizoparanoide não há preocupação ou consideração com o objeto, a preocupação é de se preservar e de sobreviver. Por outro lado, o objeto importa, e muito, como provedor ou depositário. O aspecto amado do objeto é mantido afastado o mais possível de seu aspecto odiado e, assim, em contato com o aspecto vivido como bom, há um estado de intenso prazer e idealização. Quando houver uma inversão, um desprazer, o contato será com o objeto odiado, e a vivência será inapelavelmente ruim. Mas, à medida que a criança se desenvolve e torna-se mais capaz de suportar esses estados, diminuindo as projeções e aumentando a percepção da realidade, há um abrandamento deles.

  A ocorrência de introjeções firmes dos bons objetos e a permanência e sequência delas asseguram o predomínio dessas experiências e permitem mudanças. O objeto passa a ser visto como mais inteiro e menos idealmente bom ou mau. Passa a haver a percepção da ambivalência em relação ao objeto e a 14 Mas a comunicação pela identificação projetiva, mesmo primitiva, é a ferramenta básica de todo

  

entendimento e empatia humanos, como Bion (1997) e Meltzer posteriormente (1990, 1995, necessidade de protegê-lo. Esse é o início da posição depressiva: o medo de perder ou de ter danificado os bons objetos, o receio de não ser capaz de reparar os estragos perpetrados a eles, pois agora se percebe que o objeto atacado, quando era visto como mau, era o mesmo que, no momento de gratificação, era visto como bom. Essa experiência carrega a tristeza pelo dano acarretado ao objeto (mesmo que em fantasia), o medo de sua perda e a consideração pelo objeto pode começar a ser vivenciada. Se tudo isso não for suportado, pode ocorrer um retorno ao funcionamento esquizoparanoide, e a impossibilidade de elaborar a posição depressiva. Essa impossibilidade pode ser revertida, e se dar em graus variáveis.

  As patologias narcísicas que Rosenfeld pesquisa (e que fazem parte das organizações patológicas da personalidade) revelam os elementos descritos por Freud como caracterizando as escolhas narcísicas, mas de forma tão rígida e inflexível que uma verdadeira relação de objeto fica extremamente difícil. A autoidealização e a negação de separação com o objeto são buscadas e estabelecidas como uma verdade dentro do ego. Portanto, algum grau de ruptura com a realidade é necessário. Também há uma séria dificuldade de construir e perceber o próprio self, uma vez que as qualidades desejadas são obtidas pela identificação projetiva com o objeto ideal, e não por desenvolvimento real das mesmas no self. Vejamos as palavras do autor:

  Na identificação projetiva, partes do eu entram onipotentemente no objeto, por exemplo, na mãe, para se apossar de certas qualidades consideradas desejáveis, e se proclamam, por conseguinte, o objeto ou o objeto parcial. A identificação pela introjeção e pela projeção ocorre em geral simultaneamente. Nas relações de objeto narcísicas, as defesas contra todo reconhecimento de separação existente entre o eu e o objeto constituem uma parte predominante. A percepção da separação conduziria a sentimentos de dependência do objeto e, consequentemente, à ansiedade. A dependência do objeto implica amor por ele e reconhecimento de seu valor, o que ocasiona agressividade, ansiedade e sofrimento, por causa das frustrações inevitáveis e suas consequências. Além disso, a dependência estimula a inveja, quando se reconhece a bondade do objeto. As relações de objeto narcísicas onipotentes evitam, por conseguinte, tanto os sentimentos agressivos causados pela frustração como toda percepção da inveja. ... A inveja apresenta características onipotentes; parece que ela contribui para as relações de objeto narcísicas, enquanto a inveja propriamente é, a um tempo, expelida e negada. Em minhas observações clínicas de pacientes narcísicos, a projeção de características indesejáveis no objeto desempenha um papel importante. O analista amiúde se representa nos

  15 sonhos e fantasias como uma latrina ou como um colo . (ROSENFELD, 1968, p. 194-195).

  Desta forma, nem objeto e nem self são vistos na realidade, mas sob a ótica de idealizações, projeções etc. Relações desse tipo tendem a ser estáveis: abandoná-las seria temerário, pois, além de provocar inveja, levariam ao medo e ao desamparo, com penosos sentimentos de dependência. A personalidade que engendrou fortes relações narcísicas evita, portanto, sair delas.

  Isto leva à lembrança de que Joan Riviere em 1936, estudando pacientes difíceis, relatou o uso por estes de sistemas defensivos altamente organizados, dirigidos contra as dores da posição depressiva. Ela conclui que tal tipo de sistema é baseado numa rede de relações de objeto parciais, narcísicas e extremamente estáveis. Estas podem fazer com que a análise fique estagnada e, obviamente, estanquem o crescimento do indivíduo. O The New Dictionary of

  

Kleinian Thought descreve suas contribuições como um preâmbulo para as

  concepções contemporâneas das organizações patológicas:

  A confiança de Riviere nos conceitos kleinianos de defesas maníacas e da posição depressiva, limita as primeiras formulações, mas suas contribuições pioneiras têm feições que prefiguram outras concepções mais contemporâneas sobre organizações patológicas: as defesas muito coesas e intrincadas que produzem uma organização narcísica de personalidade resistente ao contato emocional; o controle exercido sobre o analista e o convite ao conluio; o equilíbrio rígido e firmemente defendido à custa de prejudicar o desenvolvimento na análise e na vida em geral; e a necessidade de que o analista seja capaz de compreender imaginativamente (e intuitivamente) as subjacentes ansiedades primitivas do paciente, para evitar reações que impeçam a análise, em face às quais o processo poderia ser estrangulado. (Tradução livre).

  Riviere´s reliance on Klein`s concept of the manic defences and the depressive position limits this first formulation, but her early contribution has features that prefigure more contemporary conceptions of pathological organisations: the tightly knit defences that yield a narcissistic personality organisation resistant to emotional contact; the control exerted over the analyst and the invitation to collude; the rigid, closely guarded equilibrium at the cost of the development in analysis and in life in general; and the need for the analyst´s imaginative understanding of the patient´s underlying primitive anxieties to avoid impatient reactions in the face of the stranglehold on analytic progress.

  (SPILLIUS; MILTON; GARVEY; COUVE; STEINER, 2011, p. 198).

  15

  Destacam-se os aspectos maníacos, como o controle, a resistência ao contato emocional, a rigidez do equilíbrio mantido à custa de impedir o desenvolvimento psíquico, organizados num sistema coeso. Mostra a personalidade narcísica convidando o analista a se aliar a ela, partindo de defesas forjadas para evadir-se da posição depressiva. Embora não se trate de uma posição esquizoparanoide, cujas características são descritas por Rosenfeld quando ele constrói seus modelos de organizações patológicas, o sistema de defesas maníacas também é estavelmente organizado e imensamente onipotente.

  Outra questão que Riviere já anteviu foi a necessidade de que o analista tenha tato e compreensão, isto é um grande acolhimento , sem o que o processo analítico fica estagnado ou inviável. Sem mencionar explicitamente uma organização patológica, Riviere oferece um perfil possível para estas e comprova que elas podem ocorrer não exatamente como na posição esquizoparanoide, mas com um conjunto de defesas tão organizado e

  16 característico que emula uma posição .

  A autora (RIVIERE, 1982) partiu do estudo das relações precoces de bebê e mãe e fez um delineamento do que há de rico e também conflitivo nelas, encontrando elementos que dão uma compreensão fundamental ao narcisismo infantil. O frágil ego do bebê mantém equilíbrio psíquico à custa de uma relação objetal peculiar que seria narcísica. Essa se constitui de vivências em que um objeto é tudo para o self, e a ele pertence. Por causa dela, o bebê sente que tudo de bom e de que necessita está disponível e faz parte dele (ao menos temporariamente). A concomitante necessidade de dissociar-se do desconforto e do desprazer é tão importante que é preciso também, para manter o narcisismo preservado, que uma relação com um continente fora do self ou afastado do núcleo deste, que receba o indesejável, esteja sempre disponível. Essa relação assegurará (em parte) a cisão normal entre bom e mau na mente infantil e permitirá que, gradualmente, em contato duradouro com bons objetos e bom ambiente, o bebê estabeleça um bom objeto interno seguramente diferente do mau. 16 Melanie Klein havia pensado numa posição maníaca ao estudar os quadros maníaco-

  Riviere pensa que sofrimentos como fome, frio, desconfortos físicos no ambiente extrauterino (e outros sofrimentos) são percebidos pelo bebê e não podem ser simplesmente aniquilados por uma alucinação ou simples projeção. Requerem algo para onde possam ser seguramente enviados, isto é, para um

  17

  continente específico. ·Isso será efetuado através da identificação projetiva (KLEIN 1982, 1991, BION, 1988, 1966).

  Observa-se que a manutenção do equilíbrio narcísico depende, entre outros fatores, da existência subjacente e estável de uma relação de objeto, para que este seja o detentor do indesejável. E que, por outro lado, o mecanismo de divisão permita que uma parte do Self fique fortemente identificada com os aspectos bons do objeto, tendo assim seu bem-estar assegurado. Para Riviere, Klein e Rosenfeld, isso ocorre porque, no início da vida, as percepções de self e objeto são confusas e flutuantes, mas já estão ocorrendo. Interessa lembrar que Tustin (1990) e Mitrani (2007), ao falarem do ritmo de segurança, também postulam uma diferenciação nascente entre mãe e bebê, ocorrendo paralelamente à experiência de fusão entre ambos.

  Riviere crê que a dependência do bebê em relação ao objeto é tão grande que ele confunde sua necessidade com o próprio objeto. Some-se a isso a dificuldade de percepção e a não integração de vários aspectos do ego e teremos mais motivos para a confusão.

  Os bons objetos precisam estar afastados dos maus, portanto, quando o bebê estiver vivenciando sofrimentos e experiências agressivas, ele precisará de um local razoavelmente separado dele onde os bons objetos fiquem seguros.

  18 Depois, para serem reencontrados, requerem um objeto a ser reencontrado que

  os forneça, isso é, um continente externo. Riviere diz:

  Contudo, a experiência objetiva desenrola-se na mesma direção da fantasia, pois a experiência constante da criança é que suas satisfações e seu alívio de estímulos dolorosos internos ou externos lhe chegaram da mãe externa, na medida em que ela é apreendida. Assim, desde o princípio, qualquer necessidade interna inexorável é referida como uma exigência imposta à mãe externa; ela e a necessidade são uma 17 só coisa. (Uma agressiva reação de ansiedade também constitui um

  

Lembramos o desenvolvimento disso feito por Bion (1988, 1966), mas ressaltamos que Riviere

18 parte, fundamentalmente, da noção de objeto bom e provedor de Melanie Klein.

  

Em Sobre a gênese do conflito psíquico nos primórdios da infância. In: KLEIN, M; HEIMANN, P;

  apelo à mãe externa). Se ela não a satisfaz, é tão inexorável quanto à necessidade interna; fica identificada, pois, com a necessidade e a dor internas. Portanto, este é o mais profundo nível de projeção: a privação e a necessidade internas são sempre sentidas como frustração externa. Uma situação interna de necessidade e tensão é necessariamente tratada como externa, em parte porque a ajuda tem vindo e vem (experiência) e, portanto, deve vir (onipotência) de uma agência externa. (RIVIERE, 1936, 1982, p. 57-58).

  Riviere mostra que a identificação narcísica e as relações de objeto que elas engendram atestam a carência do ser humano e sua completa dependência de outro, e o fato de que um narcisismo sadio seja vital. Este implica numa percepção; ainda que parcial, de outro objeto e a aceitação dessa relação, que se alterna e também pode se sobrepor à vivência de ser este objeto.

  19

  . O que pode constituir obstáculo ao desenvolvimento é o fato de essas relações, ao invés de principiantes, se tornarem as principais e substituírem outras relações com objetos mais inteiros e reais ao longo da vida.

  Rosenfeld afirma, em concordância com Klein e Riviere, que desde o início existe uma necessidade de um objeto externo, onde o self busca apoio e com o qual estabelece uma relação que, embora tenha características fusionais, teria uma nascente diferenciação.

  Freud considerava o sentimento oceânico, o desejo de união com Deus ou com o Universo uma experiência narcísica primária... Balint (1960) foi mais longe ao sugerir que a descrição de Freud do narcisismo primário deveria chamar-se de amor de objeto primário. Pessoalmente acredito que se teria evitado muita confusão, se reconhecêssemos que as inúmeras condições clínicas observáveis que se assemelham à descrição de Freud do narcisismo primário, constituem, de fato, relações objetais primitivas. (ROSENFELD, 1968, p. 194).

  Rosenfeld comprovou, através dos atendimentos que realizou a pacientes psicóticos e fronteiriços, que, diferentemente do que Freud pensava, esses desenvolviam intensa transferência. Outros analistas, kleinianos ou não, também trataram de pacientes desse tipo. Entre estes, Bion explicitou, aprofundando linhas de pesquisas de M. Klein, que a forma principal de comunicação e relacionamento entre a mente primitiva e o mundo, se fazia através da identificação projetiva. Tomou como modelo a relação do bebê com sua mãe, e 19 Este raciocínio segue o pensamento Kleiniano, e tem correspondência com a visão de Frances trabalhou com pacientes graves, incluindo esquizofrênicos, e com grupos de

  20 pacientes afetados por traumas .

  Esses pacientes mostravam atitudes onipotentes para com as pessoas em geral e principalmente para com seus terapeutas. Em fantasia, faziam exigências insaciáveis a seus objetos, confundiam seu self com o de outras pessoas, colocavam outros dentro de si e se colocavam dentro de outros. Rosenfeld (1988, 1968) percebeu que não apenas pacientes francamente psicóticos faziam aquele tipo de relações narcisistas e transferência, o que corroborava a percepção de Klein (1982) de que as posições esquizoparanoide e depressiva faziam parte do funcionamento psíquico de todo ser humano. Rosenfeld também documenta, como Bion (1988), a percepção da coexistência e o funcionamento de áreas psicóticas e neuróticas, convivendo numa personalidade. Ao analisar um paciente aparentemente neurótico, poderiam ser encontrados núcleos de funcionamento psicótico e, da mesma forma, pacientes psicóticos também poderiam mostrar áreas neuróticas.

  Rosenfeld (1988, 1968) descreveu constelações de defesas organizadas que servem para projetar fortemente o que não se deseja e se identificar maciçamente com o desejável, apoderando-se e/ou entrando no objeto (em fantasia). Isso pode levar a estados confusionais e/ou de despersonalização. Concluiu que essas organizações eram de natureza profundamente narcisista e classificou-as em dois tipos: narcisismo libidinal e narcisismo destrutivo.

  A descrição anterior refere-se ao narcisista libidinal e, para completá-la, adicionam-se alguns elementos. O paciente vive como se tudo que houvesse de bom no analista pertencesse a ele e estivesse sempre à sua disposição, não havendo percepção de separação entre ambos. Se houver alguma percepção de separação, o paciente pode se enfurecer ou se sentir traído. Sendo detentor de tudo o que seja bom e desejável, os sentimentos de precisar do outro ou de ter inveja dele por suas qualidades são negados e escamoteados. Há triunfo e controle sobre o objeto. 20 BION, W. Experiências com grupos. Rio de Janeiro: Imago, 1975; Estudos psicanalíticos

  

revisados. Rio de Janeiro: Imago, 1988; BLÉANDONU, G. Bion a vida e a obra. Rio de Janeiro:

  Rosenfeld afirma, amparado em sua experiência, que tanto a identificação por projeção quanto por introjeção estão ocorrendo simultaneamente, o que traduz um primitivismo oral, como diriam Klein e Meltzer, e a possibilidade da persistência desse tipo de relações implicará na impossibilidade de elaborar a

  21

  inveja do objeto e de desenvolver capacidades reais para si. O que ocorreu - o apoderar-se em fantasia dos valores do outro -, não permitirá uma construção de valores próprios e, com o tempo, será possível o paciente recear jamais poder fazer isso. A inabilidade de enfrentar a inveja faz com que ela continue sendo negada e projetada, levando a uma situação viciosa.

  Conforme Bion (1966, 1988), a capacidade para aprender requer aceitação do limite e da dependência do outro, acrescida do fato de que não se tem e não se sabe muito coisa sobre o que se deseja ou precisa, ou seja, que os meios mágicos e a onipotência não funcionam, embora possam conviver no psiquismo, e efetivamente não dominam o objeto na realidade (BLÉANDONU, 1993). Se o

  

self se utiliza exageradamente desses meios, haverá uma forte característica

  psicótica, que cria pseudopoderes para o self. Quando a onipotência predomina, o trabalho da inveja comparece frequentemente como pano de fundo, negando qualquer bondade ao objeto e, por vezes, tentando destruí-lo. Mas Rosenfeld alega que o narcisista libidinal ainda não revela os aspectos mais destrutivos da inveja, pois a introjeção e/ou a identificação projetiva (intrusiva, como dirá Meltzer, 1995, 2008) “poupam” até certo ponto o objeto. A relação de objeto existe, mas de modo deformado, pois não há separação realista entre o eu e o objeto, e o eu é sentido como contendo todas as qualidades desejadas do objeto. A relação precisa continuar, pois o self depende do objeto para com ele se identificar e, quando necessitar, deixar nele aspectos indesejáveis.

  Quando, no processo terapêutico, a autoidealização narcisista diminui, e o paciente sente necessidade do analista, percebendo que este o ajudou, podem sobrevir a inveja e penosos sentimentos de dependência e fragilidade. Isso pode 21 Na acepção de M. Klein, a inveja seria uma dotação do ser humano, ligada ao instinto de morte,

  

mas variável nos indivíduos. Poderia ser aumentada ou diminuída, dependendo do ambiente em

que o indivíduo se desenvolve. Ela leva a que, ao invés de aceitar a dependência de um bom

objeto, que oferece vida, exista o predomínio da raiva dessa dependência, que levaria ao desejo

de destruir ou de negar as qualidades do objeto. Nos indivíduos em que a inveja é intensa, a

formação de vínculos com objetos bons é dificultada por isso e as relações narcísicas ser tão terrível que o paciente é capaz de retomar as defesas onipotentes. Esta e outras características do processo analítico, como o fato de o paciente poder detestar as capacidades do analista (BION, 1988) e se sentir diminuído diante delas (STEINER, 2011), podem dar origem às reações terapêuticas negativas e/ou ao ataque às percepções indesejadas e retorno ao relacionamento antigo. Tudo isso implica na entrada na posição depressiva e pode ser insuportável. Outra possibilidade é que analista e paciente, receando tal situação, procurem preservar seu relacionamento como ideal. Podem negar as dolorosas separações e não enxergar a piora ou a manutenção da doença do paciente (e nesse caso também do analista).

  Rosenfeld propõe o termo narcisismo destrutivo para caracterizar relações mais destrutivas do que as descritas anteriormente (as narcísicas

  22

  libidinais ). Nessa segunda forma de narcisismo, a relação com o analista é mais agressiva, não há a tentativa de englobar o analista igualando-se a ele, mas ataques através de depreciação, desprezo e distorção de tudo o que o analista oferece ou qualquer coisa útil que ele faça. Embora uma identificação projetiva com capacidades do analista tenha ocorrido, o que predomina é o sacrifício disso em prol do ataque ao analista. Se, na situação do narcisismo libidinal, reações terapêuticas negativas podiam ocorrer, aqui elas são mais frequentes. Os aspectos destrutivos do self altamente organizados são idealizados como um bom amigo ou mentor espiritual, e como fonte de superioridade. Se o paciente percebe dependência em relação ao analista, ou que esteja se beneficiando de suas contribuições, há crítica imediata, e a relação com o analista é, no íntimo do paciente, distorcida e diminuída. Qualquer parte do self que deseje um vínculo saudável com um objeto é atacada, projetada e tratada com desconfiança e distorção. Assim, um progresso na análise é muitíssimo difícil. Rosenfeld alerta para o fato de que a estrutura narcisista varia muito e aspectos de ambas, tanto a que chamou libidinal quanto a que chamou destrutiva podem coexistir em graus variados. As fantasias de onipotência podem ser estimuladas em qualquer fase da vida. Mas ele ressalta, lembrando Riviere: 22 Hanna Segal se opôs a este termo, mas aqui o utilizamos para seguir o raciocínio de Rosenfeld.

  

Ela alega que, mesmo naquela descrição, o narcisismo desse tipo é destrutivo e não libidinal, na

  ...temos de lembrar que as fantasias onipotentes tiveram origem na primeira infância, numa época em que o indivíduo se sentia indefeso, pequeno, incapaz de enfrentar a realidade de nascer e todos os problemas relacionados com ela. A partir do nascimento, ele não só construiu uma fantasia de um self onipotente, mas também objetos criados de forma onipotente (a princípio, os objetos parciais) que sempre estivessem presentes para realizar seus desejos. Nesta situação, a separação, a indulgência excessiva ou, em especial, a falta de um ambiente de proteção e contenção aumenta o desenvolvimento e a persistência de estruturas narcisistas. (ROSENFELD, 1988, p. 121).

  Neste caso, Rosenfeld aponta para um narcisismo saudável e protetor do indivíduo, mas ele usa o termo narcisismo mais para falar de situações patológicas ou da problemática a que pode levar. Talvez esteja mais perto da acepção de Freud em Uma Introdução ao Narcisismo, pela conotação de autoidealização.

  Se a análise começa a ajudar o paciente a perceber como é dominado pela estrutura narcisista, e o paciente fizer esforços para diminuí-la, a estrutura pode tornar-se ameaçadora, como uma gangue que irá punir o desertor. Nessa estrutura, há objetos providos de um caráter superegoico primitivo que menospreza e ataca as capacidades de ligação do paciente (isto é, de dependência) e de viver com objetos reais. O paciente pode sentir que está abandonando algo essencial e sendo ingrato, ficar confuso, e enveredar por

  23 reações terapêuticas negativas .

  O paciente não percebe que é o produtor de sua organização patológica e que pode mudá-la. Ela tem um status diferenciado pelas várias manobras projetivas e por sua estrutura tão onipotente que as partes sadias do eu não conseguem percebê-la como algo manejável por elas. O que foi introjetado depois de projeções maciças e vivências de fragmentação parece ser principalmente a relação com essa estrutura onipotente (ROSENFELD, 1988) que se estabeleceu como um imperador no ego.

  As partes narcísicas destrutivas podem estar ligadas a uma estrutura ou organização psicótica cindida do resto da personalidade. Essa estrutura é semelhante a um mundo ou objeto delirante no qual partes do self ficam 23 Freud, (1917, 1914); Rosenfeld, (1968, 1988), referindo-se ao fato de um paciente piorar depois

  24

  recolhidas . O autor prossegue dizendo que “Parece ser dominada por uma parte onipotente ou onisciente e extremamente implacável, que cria a ideia de que, dentro do objeto delirante, há uma total ausência de sofrimento e também a liberdade de o indivíduo entregar-se a qualquer atividade sádica. Toda a estrutura está comprometida com autossuficiência narcisista e é estritamente dirigida contra qualquer relação objetal.” (ROSENFELD, 1988, p. 146). Esta descrição remete ao estado em que ficam as Bacantes na peça homônima de Eurípedes, ao estarem sob o transe e assim dominadas por Baco. Nesse frenesi elas destroçam os objetos que amam, negando qualquer dependência deles, num estado de felicidade onipotente e indiferente. Podemos fazer um paralelo com os dias atuais: a embriaguês alcoólica, aliada ou não ao uso de variadas drogas, tem como consequência terrível acidentes automobilísticos com morte ou debilitações graves, que nas estatísticas brasileiras nos colocam numericamente igualados ao contingente de mortos em períodos de guerra.

  Rosenfeld adotou o termo Mafia-like, um tipo de máfia ou gangue, para descrever essa organização que também seduz e persuade o ego a manter-se fiel. Ele diz que o alcance dos efeitos da organização é intenso e que “falsas

  

promessas têm o efeito de tornar o self normal do paciente dependente de

seu self onipotente, ou viciado nele, bem como atrair as partes sadias e normais

  para essa estrutura ilusória, a fim de aprisioná-las.” (ROSENFELD, 1988, p. 146). Grifos nossos.

  A gangue geralmente se disfarça e sua tirania e/ou perversão são ocultadas ou racionalizadas, mas, em muitos momentos, se tornam claras, ainda que o próprio paciente não o perceba. É possível, gradativamente, auxiliar o paciente a conquistar essa percepção, e ver os efeitos nocivos da organização, sem contestá-la diretamente e sem afronta. Em consequência de múltiplas cisões e da estrutura defensiva, o paciente não consegue se perceber, e receia o que irá encontrar. Steiner trabalha muitas dessas implicações clínicas em seu livro Seeing and being seen: emerging from a psychic retreat (2011).

  Embora a gangue possa lembrar o superego arcaico, Rosenfeld chama a atenção para diferenças fundamentais entre suas estruturas. A organização é sofisticada, em contraste com o superego primitivo, e há uma falta de compromisso com o crescimento do self, questão importante para o superego saudável. Este último também ajuda o indivíduo a buscar a realidade, justamente pela demanda de crescimento real, o que não ocorre com a organização.

  Rosenfeld notou que a análise de aspectos invejosos não deveria ser feita de forma insistente, como pareceu importante para muitos Kleinianos durante algum tempo. Ele argumenta que experiências de frustração levam, inevitavelmente, à inveja e que muitos pacientes podem ter sido tratados de forma depreciadora por pessoas de suas relações, o que pode ter aumentado muito sua inveja. Se a interpretação da inveja tiver elementos através dos quais o paciente possa se sentir muito inferiorizado e frustrado, ele não conseguirá melhora alguma.

  Steiner também aponta tal fato como um dos obstáculos a sair do refúgio, o que será discutido adiante. Rosenfeld concluiu que a inveja é um dentre vários fatores que podem levar a um impasse na análise e talvez não o pior. Ele alega a possibilidade de que, quando o “paciente se sente aceito e sente que tem um espaço para pensar e crescer, essa inveja diminui gradualmente” (ROSENFELD, 1988, p. 302).

  Outro ponto importante para o manejo analítico dessas situações seria que: “Quando é interpretada para o paciente a influência hipnótica e silenciosa da figura destrutiva interna, fazendo-se passar por uma figura benevolente, este fica pouco a pouco mais consciente do que está se passando dentro dele, e a influência paralisadora sobre ele e o processo analítico diminui gradativamente” (ROSENFELD, 1988, p. 303). Interpretar a destrutividade diretamente não ajudaria, mas sim mostrar algo dentro do paciente que poderia paralisá-lo (e o faz frequentemente). Diz também:

  Por fim, o que acontece é que a força assassina aparece nos sonhos do paciente. Pode-se ver que, uma vez exposta, essa força assassina é dirigida principalmente contra o próprio paciente e fica muito mais fácil lidar com o problema analiticamente. O paciente pode sentir mais claramente com o que ele está assustado. Também fica mais óbvio que ele quer ser protegido dessa força. Ao mesmo tempo, associações a respeito de pensamentos e sentimentos agressivos que anteriormente

  paciente torna-se mais capaz de admitir que tem sentimentos agressivos e que estes muitas vezes foram dirigidos contra si mesmo. Estou convencido de que a análise e o reconhecimento, na análise dessa força 25 mortífera são, com freqüência, absolutamente essenciais, caso se deseje evitar um impasse. (ROSENFELD, 1988, p. 304).

  

4.3 Refúgios psíquicos: objetos pseudoprotetores, falsa continência,

relações perversas

  Ao longo do presente texto o termo organizações patológicas da

  

personalidade vem sendo usado, e é mister esclarecer que ele foi cunhado por

  Steiner, que o considerou expressivo para designar os fenômenos que abarcassem conjuntos estáveis e sólidos de defesas. Trata-se de sistemas bem organizados, descritos por vários analistas sob outras designações (algumas até semelhantes), e que conduziam à estagnação da análise e ao escasso crescimento psíquico. A utilidade do termo franqueou seu uso ao longo do texto antes de sua apresentação.

  Steiner traça um “des-fecho” para as posições esquizoparanoide e depressiva diferente dos esperados. Um des-fechamento, no sentido de que não há resolução, mas fuga, e o vivenciar das posições é evitado com a “des- construção” da possibilidade de elaborá-las. Uma terceira “via” é postulada para as dores e desafios dessas posições. O termo via procura indicar que um movimento de saída das posições é viabilizado, embora não implique em ser um caminho útil. Talvez um labirinto, local em que há diversos falsos caminhos, seja mais adequado. Como analistas, sabemos que muitos caminhos são descaminhos ou saídas ilusórias. No caso do refúgio, a “via” lembra a ilha aonde Ulisses chega durante sua viajem de retorno a Ítaca, e fica tentado a lá permanecer e desistir do objetivo de chegar à sua casa e às pessoas que ama.

  É possível traçar alguns paralelos: Ulisses afasta-se da guerra - posição esquizoparanoide, mas não sabe se irá suportar a posição depressiva e conseguir elaborá-la; reparar os danos que a longa ausência causara. A ilha e sua bruxa servem de metáfora para o refúgio (STEINER, 1997) e para o líder da 25 organização patológica descrito como o chefe da gangue ou da máfia por Rosenfeld. O conforto do refúgio corresponde à perda da possibilidade de se ligar aos objetos amados, mas humanos.

  O refúgio lembra ambientes protetores. Ao incluir essa “construção” na dinâmica psíquica, viabiliza-se um estado mental em que as agruras das duas posições são evitadas. O self fica albergado num domínio cuja constelação de

  26

  defesas propicia uma estrutura estável, arraigada, que não permite crescimento mental. Seria como outra posição.

  O analista observa que refúgios psíquicos são estados mentais em que o paciente fica estagnado, isolado e fora de alcance, sendo possível inferir que estes estados surgem a partir da operação de um poderoso sistema defensivo. (STEINER, 1997, p. 18).

  E mais adiante:

  Como vimos, os refúgios variam tanto em sua estrutura quanto no tipo de ansiedade da qual se defendem. Alguns funcionam predominantemente como um refúgio contra as ansiedades esquizoparanoides de fragmentação e perseguição, enquanto outros são acionados para lidar com os afetos depressivos, tais como a culpa e o desespero. (STEINER, 1997, p. 118).

  O The New Dictionary of Kleinian Thought (2011) menciona que Steiner em seu artigo intitulado Perverse relationships between parts of the self: A cilinical

  27

illustration, de 1981 , trouxe pela primeira vez o termo organização patológica

  para o vocabulário psicanalítico. Cita ainda, que o trabalho de Steiner foi um marco para o início de uma teoria compreensível que incorpora tanto o narcisismo patológico quanto o equilíbrio entre a organização patológica e as posições

  28

  esquizoparanoide e depressiva . Ele percebeu a variabilidade da organização por se tratar de conjuntos de defesas e trouxe uma denominação que facilita que sejam identificadas e, ao mesmo tempo, ressalta sinteticamente suas características. As organizações patológicas seriam um termo amplo que

  

serve para englobar tanto organizações narcisistas, como outras em que

26 27 Vide introdução.

  

Traduzido e revisado como Relações perversas nas organizações patológicas, em Refúgios

28 psíquicos, cit.

  

configurações obsessivas, histéricas, maníacas ou psicóticas predominam

(SPILLIUS; MILTON; GARVEY; COUVE; STEINER, 2011).

  Refúgios são construídos para lidar com a destrutividade, problema inerente ao ser humano. As origens da destrutividade podem ser internas, externas ou mistas, mas, inapelavelmente, o indivíduo será por elas afetado, principalmente quando for ou estiver mais frágil, como na infância. Traumas, violência, descuido ou rejeição por parte do ambiente promovem a internalização de objetos violentos, os quais funcionarão como receptores pertinentes para a destrutividade individual. Steiner afirma que organizações defensivas são universais na constituição dos seres humanos e muitas daquelas às quais dedica sua pesquisa, eram capazes de dominar completamente o psiquismo. As organizações patológicas, conceito que Steiner usa numa acepção enraizada em Rosenfeld, são tanto uma demonstração da destrutividade quanto uma tentativa de lidar com ela. Essas organizações foram criadas em momentos de tremenda angústia e se apresentaram ao frágil indivíduo como uma salvação, e uma forma segura para lidar com a destrutividade.

  Para seguir a explanação sobre os refúgios, Steiner (1997) utiliza alguns conceitos de Bion. Uma das principais diferenças entre a área psicótica e a área neurótica da personalidade pode ser reputada à intensidade e ao modo como a identificação projetiva é usada, pois para a área psicótica, ela tem a finalidade de descarregar qualquer aspecto indesejado do psiquismo em outro objeto. Ao invés de ser usada de forma comunicativa, mais fluída e reversível, como na área neurótica, nas áreas psicóticas a identificação projetiva é “pesada”, rígida, como

  29

  via de mão única, em que o sentido de retorno está “proibido” . Isso decorre da pouca tolerância em relação à realidade interna e externa, e torna esta tolerância ainda mais remota.

  Outra questão é que aspectos desejáveis do objeto são também confundidos com o self. Nesse estado, com o funcionamento típico da posição esquizoparanoide, os objetos são apenas parciais e, através da projeção, pedaços do eu são alojados neles. A incorporação de partes desejáveis do objeto pelo ego também pode ocorrer, por intrusão no objeto ou por identificação maciça 29 com ele. Esses conceitos, por terem sido muito trabalhados por Meltzer (2008), serão examinados no capítulo dedicado ao seu trabalho.

  Cabe lembrar que, a qualquer divisão do objeto, corresponde uma divisão no ego, o que aumenta a confusão e dificulta os esforços de reintegração, que envolveriam o lidar com tudo o que foi projetado, como pertencente e de responsabilidade do eu. Também implica na devolução dos aspectos do objeto, isto é, na separação e na perda do controle sobre tal objeto. O funcionamento psíquico menos integrado e a tendência a manter as projeções tornam mais fácil para uma organização patológica assumir a liderança e obscurecer áreas mais neuróticas ou sadias. A identificação projetiva exagerada também serve para

  30

  atacar as capacidades de pensar e contribui para a proliferação do funcionamento psicótico: desagregado, com pouca capacidade para unir as percepções e vivências. Isso debilita a percepção dos objetos e do próprio self como inteiros e complexos, e enfraquece mais as áreas neuróticas.

  Steiner aproveitou e estendeu o esquema de intercâmbio entre as posições esquizoparanoide e depressiva proposto por Bion, para mostrar que o refúgio seria uma posição entre elas, criando um modelo de equilíbrio triangular (STEINER, 1997, p. 46, 57). As organizações patológicas nas quais se inserem os refúgios estão nas fronteiras ou bordas das duas posições e, a partir dessa colocação separada, mantêm um rígido e estático equilíbrio. O autor indica, usando a notação utilizada por Bion e que remete a intercâmbios nas reações químicas, que do refúgio se pode ir e vir para as duas posições, mas há uma tendência a permanecer nele, evitando ambas.

  O refúgio funciona em relação às duas posições básicas, mas como se fosse ele próprio uma posição, pois sua estrutura é marcada por uma organização patológica da personalidade. As organizações patológicas embrutecem a personalidade, impedem o contato com a realidade e interferem no crescimento e no desenvolvimento. Em indivíduos normais, elas são postas em ação quando a ansiedade excede os limites toleráveis e são abandonadas novamente, quando a crise termina. Entretanto, permanecem potencialmente disponíveis e podem servir para por o paciente fora de 30 contato, desencadeando um período de estagnação na análise se o

  

“A personalidade psicótica e os problemas próprios da mesma obscureciam a personalidade não

psicótica e os problemas inerentes a esta” p. 55 e “não apenas o pensamento verbal sendo ele

mesmo um elo de ligação é atacado, mas os fatores que contribuem para a coesão do próprio

  trabalho analítico tocar em questões que estão na margem do tolerável.

  (STEINER, 1997, p. 21).

  Criar condições para lidar com a destrutividade é tarefa do desenvolvimento humano. Mas em situações em que a destrutividade seja intensa, podem ocorrer problemas para estabelecer uma distinção firme entre objetos bons e maus. A inveja que é parte essencial da destrutividade dificulta o reconhecimento dos bons. A confusão a respeito da natureza dos objetos impede o estabelecimento de uma genuína confiança nos bons. Além disto, os objetos “bons” criados pela divisão anômala entre bom e mal têm uma mistura de características onipotentes, negando sua maldade, e uma incapacidade para enfrentá-la. Por isso, são pouco humanizados, rígidos e incapazes de ajudar a lidar verdadeiramente com angústias. Ataques são efetuados para não perceber a bondade e a dependência dos objetos reais.

  A necessidade de evacuar o excesso de destrutividade cria objetos impregnados de maldade ao redor do ego, o que, por sua vez, aumenta as projeções e os ataques à própria percepção (BION, 1988). Tais dificuldades podem ser pioradas pela deficiência de continência do ambiente: a escassez de objetos bons a serem introjetados obviamente aumenta a introjeção dos maus (STEINER, 1997, 2011). Vê-se que as organizações patológicas têm duas

  

funções principais: recriar uma divisão entre objetos protetores e objetos

maus em face do colapso da divisão normal entre esses objetos. A outra

função é criar uma rede de proteção contra a destrutividade que engendrou

o colapso. Contudo, a organização expressa a destrutividade contra a qual

  pretende se proteger (SPILLIUS; MILTON; GARVEY; COUVE; STEINER, 2011).

  As organizações patológicas são complexas, vindo a formar uma rede de relações composta por vários elementos que se originam tanto do self quanto de objetos para dentro dos quais foram projetados aspectos do self e, depois, reintrojetados dessa forma alterada. Essa estrutura coesa é atraente, e as outras áreas da personalidade que a elas se submetem podem não ser apenas vítimas. Podem relacionar-se com ela de várias formas, inclusive extrair ganhos e prazeres dessa espécie de escravidão.

  Uma vivência de sofrimento severo, como a experiência de fragmentação psíquica, contribui para o estabelecimento de uma organização patológica.

  para falar de um splitting extremamente intenso (SPILLIUS, 2011), ou seja, uma projeção maciça, talvez sem possibilidade de reintrojeção. Uma espécie de explosão do self, quando a intensidade das vivências de sofrimento, ódio e desamparo fossem insuportáveis, e fosse preferível o desmantelamento como último e desesperado recurso para aplacar a dor. Com a violenta expulsão do que fosse percebido como ruim, o próprio self se despedaça, pois a toda projeção corresponde uma divisão no self. Klein (1982, 1991) exemplificou isso com o despedaçamento descrito no caso de Schreber. Apesar de os processos de cisão serem úteis e eficazes para lidar com muitas angústias, às vezes podem ser insuficientes, e a fragmentação patológica consiste numa defesa extrema, frente a uma intensa angústia persecutória, que ameaça a própria sobrevivência.

  Bion (1988) descreve e caracteriza essa situação como uma exacerbação do funcionamento esquizoparanoide, causando um desmantelamento do self em minúsculas partículas (mesmo que algumas partes ainda permaneçam integradas). O self não pode mais ser destruído como um todo, mas fica aos pedaços, como se vê no que restou de Schreber depois de alguns surtos psicóticos (STEINER, 2011). As partes do self reduzidas a fragmentos são projetadas violentamente e podem se relacionar de modo caótico e mesmo aspectos das capacidades funcionais de órgãos sensoriais, como visão, audição, olfato, podem ser retalhados e contribuírem para o caos. Até as ligações que unem os pensamentos podem sofrer tal agressão. Bion (1988) relata que a consequência será a formação de objetos bizarros, pela união de fragmentos de self projetados em objetos, que assim adquirem características estranhas. Seu uso funcional normal fica prejudicado, e podem ser assustadores para o ego que não os reconhece mais. Tais objetos podem ser recolhidos por uma

  

nato:“ Eu diria que ao ego primitivo falta coesão, em elevado grau, e a tendência para a

integração alterna com a tendência para a desintegração, a fragmentação em múltiplas

parcelas”, em Notas sobre alguns mecanismos esquizoides. In: KLEIN, M.; HEIMANN, P.; organização patológica e sob seu domínio podem servir para coagir as áreas mais neuróticas do ego.

  Se algum grau de cisão normal puder ser mantido para se preservar alguns objetos bons que possam ser reconhecíveis e fornecer proteção, ainda será possível que a fragmentação se limite. Mas se a inveja (KLEIN, 1991) tiver sido demasiada e tiver colocado em dúvida a bondade dos objetos, haverá poucos (ou frágeis) objetos bons aos quais recorrer. A confusão e o horror predominarão. Justamente nesses momentos uma organização patológica poderá ser acionada, como forma de escapar ao caos e ao desespero, e sua onipotência será confundida com proteção. O paciente pode se acalmar não por retornar ao normal, mas porque nele se estabeleceu a organização. Ela assumiu a situação caótica e trouxe uma espécie de calma, porém embasada numa grave distorção da realidade interna e externa.

  Bion (1966, 1988) introduziu o conceito de continência para designar a capacidade de manter estados psíquicos no próprio psiquismo, com toda a magnitude emocional que eles possam oferecer. Trouxe a capacidade materna de conter as ansiedades do bebê como o protótipo da continência e o fato de a mãe ser capaz de exercê-la como a base para a criança desenvolvê-la. A continência implica, além do acolhimento do que foi projetado, na realização de um trabalho mental com o que foi projetado, sendo um processo psíquico ativo (BION, 1966, 1988). Assim, um bebê pode aprender a capacidade de continência, e a vivência do processamento mental das angústias, desde que tenha na mãe alguém capaz disso e que ela também possa lhe transmitir condições facilitadoras dessa função mental. Portanto, o paciente depende de seu analista para fazer isso por ele e com ele, e a emergência do refúgio tanto é desejada, quanto temida. No entanto, o refúgio mimetiza uma continência que foi importante ou foi a única encontrada nos momentos de caos e de fragmentação, e que é capaz de competir com a continência verdadeira.

  A permanência no refúgio faz com que não se sofra a experiência de estar sozinho, e ter que fazer algo por si, não se percebe bem a perseguição ou a fragmentação, mas a falta de algo – uma continência verdadeira, objetos reais e confiáveis - está no horizonte e pode motivar tentativas de sair do refúgio extrema, o que remete ao fato de que a onipotência decorre da fragilidade que se destina a encobrir. Assim, tendo o refúgio como horizonte, seu portador seguirá submisso. Como o rei do conto A roupa nova do rei , ele está despido das capacidades de sofrer perseguição ou perda (oscilação normal entre as posições

  32

  esquizoparanoide e depressiva) e não vê como isso o empobrece, está nu ao vestir-se com um poder imaginário. Nesse estado, é difícil aprender com a experiência, o que ocorre com o rei na história. Só a criança que o vê sem a roupa e aceita esse fato consegue aprender algo (por ser a parte mais dependente e menos onipotente).

  Habitar um refúgio pode dar a impressão de que se está num local onde não há angústia. Mas não se trata exatamente disso. A rede de defesas forma obviamente um apoio. Há algum equilíbrio, mas ele não é um equilíbrio saudável e por isso a qualidade do bem estar que proporciona é espúria e não convence o tempo todo. Por se tratar de uma posição (ou como se fosse), não se constitui num sistema absolutamente fechado, e muitos pacientes procuram ajuda e têm necessidade de obtê-la quase tão intensamente quanto têm necessidade de permanecer no refúgio. Steiner, no entanto, concorda com as pesquisas de

  Uma questão muito significativa surge de sua descrição sobre o destino da organização, quando o desenvolvimento ocorre realmente. Isso não significa que a organização foi desmantelada, mas que se desenvolveu uma cisão na personalidade e, apesar da existência ininterrupta das organizações patológicas da personalidade, uma parte do paciente, a que foi capaz de ficar em contato com seu objeto e com a realidade, foi reforçada. Uma parte onipotente do paciente continuou preferindo manter a identificação projetiva com os poderosos objetos destrutivos, sendo obstrutiva e desdenhosa para com os esforços realistas de desenvolvimento. (STEINER, 1997, p. 69).

  Da citação anterior, percebe-se algo que Steiner considera outro elemento fundamental na sustentação e no poder das organizações patológicas. Elas permitem e dão guarida às relações perversas dentro da personalidade. Ele ressalta (como fez O`Shaughnessy) que uma parte do paciente pode ser capaz, 32 Posição esquizoparanoide Posição depressiva, na acepção bioniana de equilíbrio dinâmico 33 entre elas.

  

Refere-se ao trabalho dessa autora: Um estudo clínico de uma organização defensiva. In:

SPILLIUS, Elizabeth Bott (Org.). Melanie Klein hoje: desenvolvimentos da teoria e da técnica. 1. através da análise e de outras experiências, de ter maior contato com o objeto e com a realidade, mas, mesmo com esse progresso, persiste noutra parte a identificação projetiva com os objetos destrutivos. Steiner baseia-se no que Freud (1919) observou sobre o fetichismo, para compreender o teor perverso das relações da organização. Freud esclareceu que a perversão, assim como a neurose, seriam um compromisso formado a partir do conflito entre a pulsão, a defesa e a ansiedade. O ego faria uma espécie de barganha com o id, aceitando que certos atos perversos permaneçam egos sintônicos, e o id aceitaria a repressão de outras satisfações pulsionais.

  Steiner utiliza o conceito de perversão de forma mais ampla do que a ligada à esfera da sexualidade. Ele diz que a perversão implica em falsear a realidade que é simultaneamente percebida e em não abrir mão das duas possibilidades, ou seja, da falsa e da verdadeira. Há condições para haver um

  

insight mais profundo, mas este é deixado de lado e o acordo perverso, mantido.

  Steiner coloca:

  Deveria enfatizar-se que não é simplesmente a coexistência da contradição que é perversa, porque tal contradição pode resultar, em última instância, em um nível mais primitivo, da cisão do ego. A perversão surge quando a integração começa, e tenta encontrar uma falsa reconciliação entre visões contraditórias que se tornam difíceis de manter separadas à medida que a integração prossegue. Tal reconciliação não é necessária quando a cisão mantém as visões contraditórias totalmente separadas e incapazes de se influenciar mutuamente. O problema surge somente quando a cisão começa a diminuir e há tentativa de integrar as duas visões. (STEINER, 1997, p.

  112).

  Steiner afirma que são encontrados elementos perversos no self carente, o qual, muitas vezes, pede e aceita a proteção e a exploração perversas, apesar de ter insight dos acontecimentos. A parte narcisista da personalidade pode ter

  

um poder desproporcional por controlar as partes sadias e por ir

convencendo-as a fazerem vínculos perversos. Mesmo tendo insights sobre os

  métodos cruéis da parte onipotente, através da vinculação perversa é possível que o paciente continue dando a liderança de sua personalidade à área narcísica. Não se trata de uma simples cisão, mas do reagrupamento de partes cindidas sob o comando da organização patológica, e o paciente não é apenas uma vítima inocente.

  A saída do refúgio constitui um longo e difícil processo de elaboração. Ao emergir dele (ou tentar) o paciente se sentirá como alguém que vê a própria autoidealização exposta e ficará envergonhado e humilhado (STEINER, 2011). É difícil admitir o narcisismo e, nesses pacientes que o têm de forma tão exacerbada é mais duro ainda encarar essa situação. Eles não desejam admitir que pudessem ser ou ter em si tanto narcisismo. Se a admiração pela organização e por si mesmo entrar em colapso, esses pacientes podem sentir que serão eternamente humilhados. São intensos os sentimentos de terem sido injustiçados e mal entendidos, e de que o analista será uma espécie de torturador que os exporá a contínuas perdas e humilhações.

  Ao analista resta ter paciência e habilidade para não reforçar esses sentimentos de humilhação e para apontar o exagero sedutor e perverso de alguns deles. Essas sensações são provocadas pela parte onipotente, que tenta encontrar estratégias para restabelecer seu domínio. Há que ter cuidado para não ser superegoico nem ter pressa, pois pode ser necessário aceitar voltas ao refúgio e ataques. Em princípio, muitos pacientes não conseguem ver nenhum ganho em sair do refúgio. Isso pode levar o paciente a entrar numa situação persecutória, indo do refúgio para uma posição francamente esquizoparanoide e, por esse motivo, retornando ao refúgio. Essa dificuldade é demonstrada no estudo que Steiner faz do caso Schreber, em que clareia o modus operandi da organização patológica liderada por uma parte psicótica e onipotente.

  Outra questão seria o doloroso e não menos difícil enfrentamento das

  34

  vivências depressivas, situação também evidenciada no estudo de Schreber . O paciente que se recolheu ao domínio de um refúgio receia seus sentimentos amorosos, e teme profundamente depender de objetos reais, que podem frustrar e falhar, pois não são onipotentes. O acordo perverso faz com que seja mais aceitável permanecer dominado pelo refúgio do que tentar viver e vincular-se a objetos reais. A perversão, no entanto, engendra para o indivíduo sob seu domínio, uma vida dependente de falsos objetos bons, dotada de uma estabilidade enganosa e no fundo amarga. Justamente por isso, sair do refúgio segue sendo uma possibilidade desejável. 34

  

4.4 Claustros: territórios interiores para onde a identidade pode ser

seqüestrada

  As ideias aqui coligidas vêm de um livro de Donald Meltzer intitulado The

  

Claustrum e trazem aportes significativos aos campos da identificação projetiva e

  do mundo interno, mas também se encontram em vários outros trabalhos do autor. Suas contribuições baseiam-se em longos anos de experiências clínicas com crianças e adolescentes. Ele descreveu um tipo de identificação chamada intrusiva, ou identificação projetiva intrusiva, que provinha e contribuía para sedimentar características psíquicas especiais.

  Tais crianças ou jovens formavam núcleos importantes de identidade a partir da projeção que faziam para dentro de objetos parciais de seu mundo interno. Elas tinham a fantasia de invadir maciçamente o corpo materno e ficavam emocionalmente presas ao tipo de funcionamento ligado às características que a parte do corpo invadida adquiria em suas mentes. Essas identificações tornavam- se base para funcionamentos psíquicos estáveis, que incluem sistemas defensivos complexos e, por isso, sua pertinência a essa pesquisa. As vivências especiais dessas situações servem para formar o que ele denomina Claustros.

  Para Meltzer, as funções mentais se iniciam nos últimos meses da vida intrauterina, e isso o fez supor que perturbações e/ou traumas na gestação e ao nascimento podem fazer com que o bebê abandone aspectos mentais, que teriam começado a se desenvolver no útero. A falta desses aspectos e/ou a interrupção do curso de seu desenvolvimento criaria dificuldades para a integração de outros, além de favorecer a instalação de lacunas no crescimento e na resposta aos estímulos do ambiente (mesmo que adequados). É oportuno relembrar que a possibilidade da instalação de uma organização patológica e de refúgios psíquicos é aumentada após graves experiências de perda e abandono. Esse fato permite intuir que crianças ou pessoas fragilizadas, por suas imensas necessidades, podem ser mais suscetíveis a se organizarem dessa forma diante de experiências dolorosas. No entanto, cumpre mencionar que, no caso da identificação projetiva intrusiva, a inveja é uma característica que parece estar presente num grau exacerbado.

  Meltzer define os espaços do mundo interno da seguinte forma: 1- o mundo externo; 2- o útero; 3- o interior dos objetos externos; 4- o interior dos objetos internos; 5- o mundo interno; 6- o sistema delirante:

  nowhere, não lugar, lugar nenhum.

  Diferenciando áreas do mundo interno, é possível raciocinar sobre como

  35

  elas interagem entre si e quão complexas podem ser as interações . Muitos aspectos de como um sujeito sente e vivencia seus objetos reais e a si próprio dependem disto. Por exemplo, o espaço interno de um objeto interno pode ser muito diferente da representação do espaço interno desse objeto quando em seu estado de objeto externo, o que, por sua vez, é diferente de seu aspecto externo, embora todos esses aspectos façam parte do mundo interno do sujeito. Essas considerações levam a pensar nas muitas implicações técnicas decorrentes disso, e diferenciar várias nuances dos processos de identificação. Demonstram a existência de um cosmos sofisticado em cada mente individual. Por outro lado, expõe a intrincada e difícil tarefa do analista, principalmente quando a área do

  36 mundo interno for o nowhere .

  Ao descrever a geografia do espaço mental interno, Meltzer está interessado principalmente nas personalidades que fixaram seu senso de identidade numa parte infantil que habitava algum desses mundos. Por isso, ele cunhou o termo identificação projetiva intrusiva. Tal termo serve para salientar um tipo de identificação projetiva em que a mente que a produz deseja habitar, residir numa região do objeto. Na verdade, essa região está estabelecida no espaço mental de seu portador, mas foi criada pela fantasia de penetrar no interior do objeto e lá permanecer secretamente. Portanto, funciona para o ego, como se fosse o interior do objeto.

  Essa região goza de certa independência, ficando até certo ponto livre da influência de processos maturacionais do resto do eu e, por isso, Meltzer chamou- a de Claustro. Nela, uma parte do self infantil permanece numa relação primitiva e 35 36 Aspecto também discutido mais adiante ao mencionar ideias de Grotstein.

  

Esta área poderia conter os estados que Tustin e Mitrani descrevem em que não há rígida com seu objeto, como um “congelamento” organizado fortemente pelas identificações projetivas e defesas onipotentes da posição esquizoparanoide. A fantasia de penetrar ativa e forçadamente (em segredo) no objeto é dominante, e não seria uma projeção simples de partes para dentro dele. A intenção é habitar o objeto. Essas crianças parecem bastante incapazes da capacidade negativa, isto é, preenchem logo as expectativas, não conseguem tolerar construir um objeto aos poucos e, portanto, procuram uma forma mais rápida de “construir” seu mundo interior.

  A fixação da identidade num claustro implica outras diferenças para com o desenvolvimento normal. Isso não ocorre por imaturidade, nem pelas cofusões de zonas, que podem ocorrer na mente infantil (mencionadas por Money Kyrle), mas

  37

  por causa de fenômenos que Bion classificou na coluna dois de sua grade , que neste caso seriam mais difíceis de mudar, por estarem sob o domínio de uma função alfa inversa ou reversa. Esse tipo de distorção da função alfa ocorre por intolerância à dor da formação de símbolos, e não há uma evolução para a capacidade de pensar, mas uma produção de elementos beta com traços de ego e superego. São simulações, mas podem convencer, e vem da incapacidade de transformar os elementos beta em alfa, criando elementos que simulam a função alfa.

  Também é mencionada a implicação dos vínculos tipo minus para a formação desse sistema, bem como mecanismos onipotentes como splitting, controle onipotente dos objetos, e identificação intrusiva.

  De um lado, poder-se-ia alinhar as manifestações das confusões infantis tanto geográficas quanto da natureza da zona ao longo do acompanhamento da a tese de Money-Kyrle sobre as concepções confusas ou equivocadas do período do desenvolvimento infantil. Em contraste com isso, estão as construções patológicas que nascem daquilo que Bion chamou “mentiras” ou coluna dois da Grade, que são falhas da função alfa, talvez induzidas por aquilo que chamei fabulação por reversão da função alfa com detritos (de elementos beta com traços de ego e superego), dos quais objetos bizarros e o sistema delirante alucinatório são moldados, pelas forças de menos LHK e, finalmente, pela operação de mecanismos onipotentes (splitting, controle 37 onipotente de objetos e identificação intrusiva). (Tradução livre).

  

A grade é um sistema de notação para que o analista possa situar em que nível de evolução e

utilização do pensamento estão ele e o paciente, a coluna 2 seriam elementos beta, concretos,

  On the one hand one can range the manifestations of infantile confusions of both a geographic and zonal nature along with Money- Kyrle´s thesis of developmental misconceptions. In contrast to this are the pathological constructions which arises from what Bion calls “lies” or column 2 of the grid, failure of alpha –function perhaps induced by what I have called “story-telling” reversal of alpha-function with a debris( beta-elements-with traces of ego and superego) from which bizarre objects and the delusional system are shaped by the forces of minus LHK, and finally the operation of omnipotent mechanisms (splitting process, omnipotent control of objects and intrusive identification). (MELTZER, 2008, p. 61).

  Bion pensa que emoções são fatores presentes em qualquer vínculo humano, e que a criação de conexões e, portanto, a possibilidade de compreensão depende disso (BLÉANDONU, 1993). Propôs o termo vínculo e

  38

  também “elos de ligação” para falar do mesmo fenômeno . Os vínculos são experiências emocionais entre duas pessoas relacionadas entre si, ou entre partes da mesma pessoa, por exemplo, entre objetos internos. Eles criam consistência e entrosamento entre conteúdos ou “matéria mental”. Ele os denominou de vínculos Hate: H (ódio), Love: L(amor,) e Knowledge: K, (conhecimento), dependendo da emoção predominante (BION, 1966; MELTZER, 1998, 2008, ZIMERMAN, 2004). Em sua vertente minus, são: menos conhecimento, menos amor, menos ódio, isto é, distorções dessas emoções, inverdades que tentam parecer verdades, invalidando as capacidades que elas teriam e trariam.

  Há outros modos de uma pessoa se tornar habitante do claustro. Um deles seria decorrente do que ele chama de indução passiva para dentro de objetos

  39

  externos , que é associado a certas circunstâncias. Uma dessas seria a perda de um objeto externo com o qual a criança tinha intensa ligação e transferência. Tal criança em sofrimento pode “escorregar” para dentro desse objeto (ou talvez criar algum tipo de equação simbólica com ele). Passaria a agir como se tivesse se tornado o objeto perdido (MELTZER, 2008), como se o tivesse engolido, como uma incorporação oral canibalística. 38 Segundo Zimerman, in Bion: da teoria à prática, uma leitura didática. Porto Alegre: Artmed Ed., 39 2004. p. 103.

  

Aqui é pertinente lembrar-se do que Frances Tustin e Judith Mitrani definem como a aderência a

um objeto. Embora para Meltzer exista um interior do objeto, o fato de haver um deslizamento

para dentro do objeto parece sugerir uma possível aderência a este, sem noção da

complexidade do objeto, isto é por aderir aquilo que o objeto parece ser, dando a impressão de

  Outro processo que pode ter resultado similar seria consequência da pressão que alguns objetos externos, como os pais, exercem sobre seus filhos, através de suas projeções intensas e hipnóticas que atraem a criança para dentro de si. Melhor dizendo, a criança é seduzida e estimulada ou mesmo coagida a dar um lugar muito grande em seu mundo interno para seus pais, e passa a viver no interior dos objetos pais (ainda que isto ocorra no mundo interno da criança), como se tivesse sido sugada. Nestes casos, as identificações narcisistas mútuas são propiciadoras da atração.

  Os habitantes do claustro acreditam que as outras pessoas vivem em seus próprios claustros. As áreas dessa geografia intrapsíquica se comunicam e a criança ativamente transita por elas.

  A primeira dessas áreas seria chamada Head-breast ou “peito–cabeça”, e seu habitante tem tranquilidade, plenitude e segurança, acreditando que irá receber tudo de que precisa e ser cuidado num modo oral receptivo. Ele sente que haverá sempre um objeto disponível fornecendo o que ele precisa, sem que tenha que fazer esforço, o que faz com que procure esse tipo de relação com outras pessoas, sendo este o maior objetivo do habitante desse claustro.

  Lembra o funcionamento da mentalidade de suposto básico de esperança messiânica, seu residente mora com o messias (neste caso a mãe), e espera que ele (ela) resolva tudo por ele. As mentalidades de suposto básico foram descritas por Bion em seu livro Experiências com grupos como sendo funcionamentos psíquicos primitivos, sem a capacidade de pensamento verdadeiro.

  Outro compartimento seria o dos genitais dos pais ou da mãe, contendo o falo paterno. Nesse Claustro, a pessoa deseja ser objeto sexual irresistível de outra pessoa, e de várias pessoas, para afirmar cabalmente tal “potência”. O clima de sedução e erotismo parece ser o sentido da existência, e há um endeusamento do falo. Os habitantes desse claustro estão sempre buscando experiências sexuais, sustentam-se como objeto erótico e disso retiram uma sensação de prazer e poder. Dominar e seduzir seriam a tônica do mundo. Existiria um estado de obsessão pelo encanto e pelo exercício sexual, como forma de domínio do outro. Meltzer usa ao termo “religião priápica”, para falar do modo como estas pessoas parecem precisar viver. Lembra o grupo de acasalamento, embora nesse caso o grupo de acasalamento pareça mais leve e menos destrutivo.

  Finalmente, outro claustro seria no reto, a parte final dos intestinos, em que as sensações dominantes - e em consequência a dinâmica do mundo- seriam o reter coisas boas e expulsar inimigos. Implica na crença de que existir se baseia em lutar e/ou fugir, num clima que corrobora o tipo de mentalidade proposta por Bion para o grupo de luta e de fuga. Livrar-se do que é ruim e preparar-se para novo ataque é a regra. A vida estaria totalmente voltada para expulsar ou reter.

  Por se terem deixado dominar pela fantasia de invadir o corpo materno, os habitantes do claustro têm medo de serem expulsos do local onde vivem. São como parasitas e têm medo de serem perseguidos. Em que pese o fato da fantasia onipotente, é preciso lembrar que o psiquismo só consegue equilíbrio real lidando com suas questões internas de modo realístico e não mágico.

  Meltzer propõe que os motores da intrusão seriam a voracidade, a inveja e o desespero. O objeto atraente, visto como detentor de tudo o que importa, precisa ser invadido e dominado. A inveja da beleza e do saber que esses objetos detêm (que são vistos de forma ideal e irreal) parece minar e até, em alguns casos, solapar o amor e a admiração por eles. Mesmo as necessidades de se comunicar e de ser acolhido podem ser prejudicadas e enfraquecidas pela premência de invadir e conquistar.

  A inveja, nesses casos, se associa ao instinto epistemofílico, fazendo com que o desejo de conhecer seja deteriorado e se transforme, sempre lembrando os vínculos -K, num apoderar-se onipotente do saber do objeto. Consequentemente, o invasor fica aprisionado no objeto, uma vez que dele extrai o que precisa, e neste interior pode se sentir perseguido. Mas, ao mesmo tempo, sente não ter saída, por precisar desse objeto. Por isso, tenta controlá-lo e também não existe aprendizagem, - fato que os vínculos em vertente mais (+L, +H, +K) permitiriam -, pois a identificação não ocorreu para comunicar e ser reintrojetada, mas por seu aspecto invasivo e parasitário.

  A palavra claustro deriva-se do latim claustrum e significa uma área dentro de mosteiros onde os iniciados circulam, e que comunica seus aposentos íntimos, através de corredores ou de jardins internos. Por lá só circulam os selecionados e já aceitos na seita. Vê-se que Meltzer fez uma boa escolha ao usar tal palavra para descrever o que observou.

  Por todas as características arroladas, os claustros assemelham-se a refúgios: constituem-se por conjuntos de defesas extremamente organizadas e, portanto, estáveis, as quais, como nos refúgios, promovem uma maneira alterada de lidar com agruras das posições esquizoparanoide e depressiva. Em todos eles, há uma parada no desenvolvimento, vivências e relações de objeto peculiares. Deixar os claustros é difícil, pois além da sensação de estarem presos pela identificação projetiva intrusiva (que também cria o clima de claustrofobia), existe ali a sensação de pertencimento e de identidade.

  Por exemplo, no compartimento chamado peito-cabeça (Head-brest), as defesas criam a sensação de segurança e de sustentação por um objeto idealmente poderoso e provedor: o seio e a cabeça da mãe. Há uma sensação de interesse, mas pouco intenso, pelos desafios da vida, uma espécie de acolhimento educado, mas superficial das coisas vivas. Não há lutas, nem muitas expectativas ou sonhos, trazendo a sensação de se estar livre e longe de carências e angústias. Esses moradores podem demonstrar enfado e agir como se as demandas por buscar ligações e desenvolvimento fossem para outros, não para eles. São capazes de manter relacionamentos afáveis, mas pouco profundos, pois o egocentrismo predomina. Podem aceitar situações de perversão ou conluios doentios em seus relacionamentos, desde que o objeto os sustente e exija pouco mais que conivência. Note-se que Meltzer, embora descreva exemplos marcantes de habitantes de seus claustros, também relata graus mais amenos de pertencer a eles e a outros espaços dos objetos internos.

  A questão da claustrofobia e a presença simultânea de receios de expulsão merecem pequena digressão. Como a entrada no claustro foi realizada de forma forçada, ou sub-reptícia, e não pela via de identificação projetiva comunicacional, o receio de ser expulso é constante. Há também um desejo de se libertar do parece ser a única possível, o que implica que seus habitantes receiem não conseguir viver de outra forma, e possam acreditar que aquele modo de vida mental seja o único possível.

  Por ser uma entrada intrusiva, a perseguição pelo objeto invadido está sempre em pauta, e as relações com esse objeto tem boa dose de ambivalência. Não se trata de acolhimento ou continência verdadeira. Além disto, o objeto foi deformado pelas projeções, pela atividade de pensamento mágico e contém elementos beta, com traços de superego e de ego (BION, 1988, MELTZER, 2008). Assim, torna-se facilmente um perseguidor, contribuindo para a claustrofobia. A identificação intrusiva também implica na existência de voracidade e inveja, que são projetadas no objeto. Portanto, mesmo que o claustro contenha elementos desejados, também contém partes hostis e/ou destrutivas.

  O desejo de ter uma vida mental livre e criativa existe, como nos refúgios, mesmo que submisso, e aumenta a sensação de confinamento e claustrofobia, a qual também pode ocorrer nos refúgios. Além disso, ficar aprisionado em qualquer outro tipo de reduto é uma ameaça e uma atração permanente para a personalidade com essa dotação (claustrofilia, isto é, a tendência e/ou afinidade para entrar em claustros).

  Percebe-se também na qualidade das relações do habitante do claustro e seus objetos, bem como nos refúgios, que há sempre algo sádico ou masoquista, e que são objetos parciais. Em ambos há uma estrutura de objetos organizados de tal forma que controlam, submetem, e dominam outras áreas do ego, que não pode por isto crescer. Neles também os objetos são parciais e onipotentes. A elaboração das angústias paranoides e depressivas não é possível nos claustros nem nos refúgios.

  Na proposta de Steiner, a questão de fugir das dificuldades das posições é central. Na de Meltzer, embora haja sensações de desconforto fóbico e receio de expulsão, esses sentimentos se alternam ou são sobrepujados por outros, de proteção e de ser vantajoso estar no claustro. Mas as defesas que sustentam tal estado, embora poderosas, não emergiram após uma situação de fragmentação e caos mental.

  Mesmo o habitante do reto, onde as angústias paranoides são mais claras, pode migrar para o Head-breast e, temporariamente, eclipsar a situação esquizoparanoide. No entanto, a identificação com defesas muito onipotentes faz com que a situação paranoide possa ficar sob controle, gerenciada pela organização patológica. Portanto, objetos onipotentes e identificações narcísicas (com componente destrutivo) estão presentes tanto na proposta de Meltzer quanto na de Steiner. A divergência quanto ao conforto em cada um dos redutos pode ser minimizada, se considerarmos que, no refúgio, também existe o medo de ser odiado pelo objeto onipotente e protetor, bem como a necessidade de obedecer a ele para não sê-lo. Observa-se assim um aprisionamento aos desejos do referido objeto, o que pode levar o paciente a um relacionamento claustrofóbico.

  A falsa continência existe em ambos os casos, pois, no claustro, o objeto foi invadido e, no refúgio, mesmo sem a invasão o objeto também é parcial e onipotente e desumano, como parte da organização patológica. Portanto, há, em ambos, um mimetismo de continência, nunca uma continência real.

  Indo mais além, observa-se que, nas situações graves de doença mental, as sensações de estar junto a um objeto poderoso (e perseguidor, pois desumanizado) são frequentes, por exemplo, nos chamados estados de pânico, em que o objeto perseguidor fica localizado em algum órgão corporal, e a situação psicológica é a de uma fobia a algo alojado nesse local. Veem-se, dessa forma, confluências nos conceitos de refúgios e claustros entre as quais deve-se ressaltar a importância central da relação de objeto onipotente e narcísica, que se estabelece no âmago do ego e se torna duradoura.

  Importa referir que a entrada no claustro é buscada sorrateiramente pelo sujeito, com uma fantasia poderosa de intrusão e para estabelecer uma identidade. Já no refúgio houve uma espécie de colapso psíquico, com uma perda insuportável e uma experiência de não encontrar continência (ou não poder aceitá-la) e, portanto, acabar buscando-a de forma espúria. Nessa última, o objeto parcial onipotente surge como a única opção para organizar e amenizar o sofrimento. Variam, assim, as formas sob as quais se entra em contato com o objeto parcial onipotente, e as causas que podem levar a isso.

  Meltzer concebe que, diferentemente da entrada num refúgio, alguns habitantes de claustros foram para lá atraídos ou mesmo forçados pela sedução de um adulto importante para aquela criança. Isso significa que Meltzer aventava a possibilidade de um adulto portador de um objeto parcial onipotente atrair um sujeito vulnerável, e coloca a relação humana no centro do problema.

  Na proposta de Steiner, em que pese a ênfase à luta interna do ego, acossado pelas dores das posições esquizoparanoide e depressiva, também é mencionada, como muito significativa para a construção de refúgios, a influência do meio externo. Tal influência é exercida por objetos hostis, que podem diminuir as oportunidades da criança de introjetar objetos verdadeiramente continentes e bons, e contribuir para a internalização dos maus. Observamos também que o self fragmentado e carente poderá ser seduzido pela parte onipotente e permitir que a organização patológica estabeleça seu domínio.

  Mesmo com defesas tão poderosas, a situação nos claustros não é boa. As vicissitudes da vida põem em xeque as defesas que, frequentemente, irão fracassar. Diante das experiências reais da vida, os claustros desempenham um papel de convidar à retirada e não a alcançar algo na vida. Por isso, muitos pacientes buscam ajuda, mas, mesmo assim, podem ser atraídos de volta. Essas vicissitudes expressam e trazem os balanços entre as possibilidades de saída e os retornos aos claustros.

  Meltzer diz:

  Em resumo, a experiência analítica com crianças e adultos sugere fortemente a existência de uma ou outra parte infantil vivendo tanto em identificação projetiva quanto facilmente provocada a entrar no claustro de objetos internos, com muita frequência. Toda análise começa com copioso material sobre esgotos, encontros eróticos ou felicidade parasitária, tão cedo quanto a transferência preformada possa ser dissipada, de modo que algum grau de intimidade possa ser permitido.

  (Tradução livre).

  In summary, psycho-analytical experience with children and adults strongly suggests that the existence of one or another infantile part either living in projective identification or easily provoked to enter the claustrum of internal objects is fairly ubiquitous. Every analysis begins with copious material referable to the sewer, the erotic encounter or parasitic bliss, as soon as the preformed transference has been dispelled so that some degree of intimacy can be allowed. (MELTZER, 2008, p. 134).

  As palavras anteriores afirmam ser frequente que partes infantis do self a entrar nos claustros desses objetos (portanto, que tenham criado objetos internos assim). Propõe que essas fantasias são regularmente encontradas nos pacientes em geral, e que a busca de projeções que aliviem por soluções onipotentes, paralela e concomitante à necessidade de encontrar continência verdadeira, está sempre presente na mente humana. Atesta-se com isso a regularidade com que as fantasias de estar no interior de objetos internos aparecem num processo analítico, e a importância de diferenciar e compreender as várias nuances da continência e da identificação projetiva intrusiva.

  Navegar é preciso, viver não é preciso. (Fernando Pessoa) Navigare necesse, vivere non est necesse (Pompeu, general romano 106-48 AC, citado por Putarco)

  A sensorialidade, o ritmo e as variações sonoras estavam constantemente presentes nas sessões e, durante algum tempo, seguir estas vivências foi importante. Mas à medida que o processo transcorria, falar e pensar no ritmo musical e ao mesmo tempo dissonante remetia a defesas autistas que buscam eco e a discordâncias, que pareciam denunciar tema bem diferente.

  Por mais que tivéssemos alcançado alguma sintonia, que poderia lembrar um ritmo de segurança (TUSTIN, 1990), este parecia frequentemente se romper. A sensação de desconforto que me ocorria com regularidade fazia com que eu sentisse que, embora ondulações fossem naturais, havia outro fenômeno paralelo. Sentia-me visitada por angústias: magoá-lo, “falhar”, não o entender, como se isso fosse algo muito reprovável, quase um insulto.

  Por outro lado, era óbvio: falhas existem, e precisam ser sentidas, pois fazem parte do processo de análise (e de separação), e até o ritmo de segurança tem seu “vaivém”. Se houver crescimento, a descontinuidade é sentida, tanto na parte autista quanto nas partes neuróticas, que podem reaver suas projeções (BION, 1988). Parecia-me que minha preocupação de não decepcionar, que só aos poucos percebi ser contratransferencial, tinha raízes noutra situação. O vislumbre de uma parte não autista, que desejava estabelecer um contato onipotente comigo, para que auxiliasse a refazer/fazer outras defesas, precisava ser cogitado. Talvez as questões dos refúgios surgissem por esse motivo. Eu procurava uma forma de compreender melhor o que acontecia, de não atropelar, constranger ou subestimar a necessidade de continência (MITRANI, 2007; BION, 1966), mas também me questionava: estaria fazendo um acordo perverso com ele

  (STEINER, 1997)? Eu estaria tendo insights, mas pensando poupar e acolher aspectos autísticos, deixava-os passar? Outro ponto relevante era o fato de Mariano fazer muitas críticas à família e a pessoas que não tinham paciência para ouvi-lo, ou não parecessem empenhadas em fazê-lo. Também ficava muito tenso e se fechava quando se decepcionava com sua performance. Como consequência, havia um sutil retraimento que podia se manter por semanas, nas quais ele parecia não alcançar ou não conseguir aceitar qualquer ajuda.

  Por mais que fosse preocupado e compreensivo com muitas pessoas, gostasse de tocar música com colegas, de festas e de socializar-se, parecia capaz de criar uma distância, como se um aspecto essencial dele, que era a necessidade de envolvimento, nunca tivesse lugar para realmente se estabelecer. Era também frequentemente muito duro ao evidenciar erros nos outros. Isso não parecia ligado à cápsula autista, embora pudesse ajudar a mantê-la. Parecia usar o mecanismo autista para me atrair, mas usava de projeções constantes e paralelas para me afastar, e também afastar-se de si mesmo.

  Por que alguém que está querendo se comunicar melhor e se aproximar mais das pessoas, alimentava tantas restrições? Como dar força à voz, à melodia, ao balanço, se a afetividade que daria base para isso era empurrada para longe? O som da fala poderia melhorar e, às vezes, melhorava, quando havia menos queixas e mais receptividade. Quando uma mãe fala a seu bebê é o teor afetivo, o que envolve o timbre, a alma das palavras que é ouvido, indo além do timbre e da forma. Portanto, a beleza da forma das palavras não é tão fundamental, e um bebê pouco conhece de seu significado...

  Às vezes, a mãe murmura ou cantarola, e é o que está de certo modo além do som de sua voz que é ouvido pela criança. A mãe, através da sonoridade e do envolvimento, convida e reclama a presença da criança e propicia um entrosamento mútuo (ALVAREZ, 1992) E é por isso que as separações e os encontros começam a ser vividos no balanço da voz e do contato e formam uma base para a construção de relações humanizadas (TUSTIN, 1990).

  Mariano tinha um relacionamento algo reservado com seus familiares. Tratava-os bem, mas reclamava muito de despesas, e parecia ser econômico a ponto de achar que gastos normais eram exagero (inclusive a análise, embora tivesse pedido e obtido um preço especial). A mãe era descrita como muito rígida e exigente, e rápida para aplicar castigos. Era trabalhadeira, pouco carinhosa, batia nos filhos quando pequenos, sempre irritada com os conflitos entre eles. Do pai pouco falava.

  Tinha uma ex-companheira, com quem mantinha contatos frequentes, incluindo relações sexuais, mas afirmava querer separa-se em definitivo. Tinha filhos com os quais se dava muito bem, desde que concordassem com os parâmetros financeiros que impunha. Ao ouvi-lo criticar os filhos nas sessões, sentia-me entediada, e até irritada, pois ele parecia forçar as características negativas deles.

  Depois de seu acidente, havia precisado restringir sua vida profissional, mas era estudioso, muito inteligente e perspicaz. Buscava atividades nas quais pudesse se desenvolver, tinha sonhos e ambições, entre as quais falar bem. Mas trabalhava muito pouco para quem tinha tantos projetos e não aceitava ser questionado neste aspecto.

  A fala dissonante também sugeria a dissociação entre o que ele pensava buscar e o que ele queria encontrar. O que ele sentia e o que realizava... Perder a capacidade da voz seria um sintoma paralelo a outras dificuldades que, por ser impactante, disfarçava e dificultava a percepção das outras. Parecia às vezes tão sofrido que só poderia ser tratado com suavidade, mas nele havia posturas endurecidas, vontade de ser impositivo, enérgico, educador eficiente e líder para os filhos e, inconscientemente, para as demais pessoas. Eu devia aceitá-lo, mas isso teria que ser muito diferente de submissão e conluio se quisesse ajudá-lo. Estávamos então nos deparando com um refúgio?

  Outra possibilidade seria que Mariano se recolhia ao claustro de um objeto acolhedor e poderoso o suficiente para oferecer estabilidade e afastá-lo de interações mais humanizadas. Meltzer (2008) alega que a infância é muito propícia para a criação de claustros. A criança fantasia que pode penetrar no interior de um objeto para dele usufruir e tais fantasias podem perdurar e ser reativadas ao longo da vida. Como Mariano após o acidente passara por um processo de longa recuperação, habitar um claustro poderia ser reconfortante existe provisão e proteções infinitas conseguidas sem esforço poderia ser propício. Que a análise pudesse se parecer ou se tornar algo similar, era uma questão que não se podia perder de vista (MELTZER, 2008).

  O fato de ele ter muitos planos, mas trabalhar pouco também sugeria a fantasia daquele claustro. A privação, o pavor e o trauma de ter sofrido um acidente também favorecem a busca de claustros e refúgios, pois sentimentos de terror e de aniquilamento são muito mobilizados nestas experiências (STEINER 1997). Steiner também relata que a falta de um objeto realmente capaz de continência, tanto no meio externo quanto no mundo interno, cooperam para o estabelecimento do refúgio.

  Assim, eu receava que, embora ele quisesse crescer, também poderia não ser capaz de renunciar ao sistema fechado em que vivia: sonhava muito, mas fazia pouco e se ressentia com qualquer dificuldade: queria ser entendido, falar melhor, mas se houvesse alguma rejeição ou limitação por parte do outro, ele se magoava e tudo se interrompia. Nestes momentos, era muito plausível a ideia de Meltzer (2008): se ele perdesse o lugar naquele claustro tipo Head-Breast, poderia se sentir expulso para outro claustro, como o reto, com lutas, perdas e depreciação. O fato de que tivesse passado pela dura recuperação após seu acidente fazia coro com essas fantasias e dificultava enxergar as coisas sob outro ponto de vista.

  Steiner (1997) também lembra que o paciente procura análise tanto por desejar sair do refúgio, quanto para reaver a estabilidade deste. Penso que havia em Mariano uma ambivalência entre sair e se manter no refúgio e/ou no claustro. E dava-me conta de que o meu sentimento de “balanço das ondas” podia também ligar-se a isso, a uma permanência naquela situação, sem que nunca fosse possível sair. Mais adiante, ao abordar uma sessão em que falamos sobre uma música (Travessia), as questões do emergir ou retornar ficam mais patentes.

  

5.2 Agitações: dificuldades para uma continência verdadeira entre ilhas de

organização patológica e ondulações autísticas Damo-nos tão bem um com o outro Na companhia de tudo Que nunca pensamos um no outro, Mas vivemos juntos e dois, Com um acordo íntimo Como a mão direita e a esquerda. (Fernando Pessoa)

  Notei, a partir de seus relatos, que quando Mariano se aproximava de alguém, em diferentes situações, procurava criar um clima de respeito para com ele. Em parte, isso parecia devido ao esforço que ele fazia para falar, criar um clima grave. O interlocutor parecia sentir-se obrigado a uma postura de seriedade e solicitude. Isso parecia conter certa forma de pressão e, até certo ponto, contribuía para estabelecer um molde dentro do qual a relação deveria ocorrer inclusive na análise.

  Tustin (1990) afirma que a ruptura da sensação de continuidade com a mãe, que autistas e pessoas com barreiras autistas vivenciaram, foi insuportável, ou num momento em que não havia ocorrido suficiente formação de aparato mental capaz de tolerá-la. Nessa época, também não havia suficientes condições para estabelecer funções simbólicas e trocas. Ela e posteriormente Mitrani (2007) enfatizam a busca pelo ritmo de segurança, mas ponderam que o paciente não reclama por ele, o terapeuta é quem precisa ser capaz de detectar essa necessidade e dar uma resposta através da continência.

  Quando um paciente é capaz de se queixar e exigir acolhida, é um sinal de que algo já se desenvolveu. Portanto, as reclamações de Mariano eram, até certo ponto, um avanço. Mas, aos poucos, comecei a observar que elas tinham outras funções. A primeira parecia seguir o desejo de ser compreendido e realmente ter um contato comigo, um progresso na capacidade de solicitar companhia viva (ALVAREZ, 1992).

  Mas, mesmo usando essa capacidade, outra parte dele revelava a tendência a manter o padrão de pseudorrelações objetais adesivas, de forma que se sentir mal-entendido era vantajoso para a área de personalidade que desejasse manter a aderência como superior a uma verdadeira relação.

  Água e locais molhados apareciam muito em seus sonhos. Certa vez, contou ter tido um sonho do qual gostara muito. Ele se encontrava à beira de uma lagoa, e com vontade de entrar. Decide-se a fazê-lo e fica muito alegre, pois uma criança se aproxima dele. A criança, um menino, brincava na água e, então começa a fazer xixi, mostrando grande prazer com isso. Mariano descreveu o sonho com entusiasmo, e frisou o ato da criança urinar como coisa prazerosa e sinal de muita liberdade. Disse que era bom poder fazer xixi onde quisesse, e não ter problema, não se incomodar com nada. Ninguém iria reclamar ou perceber, a criança era livre.

  Meu primeiro sentimento foi o de continuidade: água, xixi, tudo junto, molhado, causando a sensação de uniformidade e de continuação, tão importante para os pacientes com uma cápsula de autismo (TUSTIN, 1990). Houve, então, uma vivência de acolhida, com vários aspectos juntos, dos quais seleciono alguns.

  Falei com ele sobre a sensação de acolhimento e todo aquele “jogo” de brincar num lago: ele e a criança estão na água, traziam ideias de aceitação e liberdade para fazer suas coisas aparecerem na análise. Mas será que era acolher mesmo ou só ficar molhado junto? A questão das pseudorrelações adesivas descritas por Mitrani mostrara-se relevante: parece haver relação, mas se adesiva, seria sem profundidade, sem encontro real, embora a valorização de um encontro também estivesse presente. Interpretei, ainda, que aquele nosso encontro, em que havia sonho e conversa, poderia ajudar a pensar se ele estava disposto a encontros, ou só a ficar molhado, ou misturado...

  Ele pareceu achar graça, falou que era difícil saber, e continuou elogiando a liberdade. Diante disso, pensei que depois do acolhimento, segue-se a necessidade de entender, e podem surgir aspectos mais estranhos, diferenças, situações que provocam ciúme, se todos não pensarem igual, ou se alguém ficou numa posição supostamente inferior. Por exemplo, fazer xixi tem algumas funções, água tem outras... Depois de haver o real entendimento, podemos ficar de verdade com alguém.

  Quando pensamos que tudo fica igual, e é uma continuação, podemos lembrar também o claustro Head breast: a criança está identificada com um local para viver onde tudo o que faz é bem-vindo e onde encontra tudo o que precisa, é uma lagoa que provê tudo de que se precisa, como o bebê que ficou imerso no líquido amniótico e conseguiu reproduzir esse estado se abrigando no colo e no olhar atento de sua mãe. Mas encontros para crescer podem mostrar coisas para além e até divergências.

  Outro aspecto do sonho era o fato de a criança ser olhada por um adulto. Quais aspectos adultos poderiam estar de olho na criança? Os meus? Os dele? Os pseudo-cuidadores de uma organização patológica? Quando Mariano dá um sentido de liberdade ao ato de fazer xixi e diz que não há problema, parece sinalizar algo.

  Steiner (2011, p. 60) diz, em seu estudo sobre Schreber, que a onipotência psicótica deste permitiu-lhe contar suas memórias sem constrangimento, mostrando francamente sua doença. Assim: “The delusional system acted as a

  

psychic retreat and functioned as a hiding place that contact with reality would

shatter in a humiliating way.”, Traduzindo: o sistema delirante agia como um

  refúgio psíquico e funcionava como um local escondido ou apartado do contato com a realidade, que se ocorresse, iria despedaçá-lo de maneira humilhante.

  Graças ao desprezo ou ao afrouxamento do senso de realidade, o psicótico revela muito sobre si. Podemos, parafraseando Freud, lembrar que o sonho, ao afrouxar o senso de realidade, revela aspectos que de outra forma ficariam escondidos. Isso nos leva a pensar, que, além das questões de uma pseudorrelação adesiva, que estariam quase manifestas, e com as quais vínhamos tentando lidar, Mariano trazia algo mais sofisticado. Ele não era psicótico, e penso que as áreas autistas encobriam, ao menos em parte, uma organização patológica, que parecia oferecer soluções mágicas: água e xixi seriam iguais, e liberdade seria poder fazer qualquer coisa, como xixi em qualquer lugar... Projetar em qualquer lugar, e ter um objeto capaz de proteger e garantir que as projeções podiam ser feitas com liberdade e sem consequência dolorosa ou sem responsabilidade de reavê-las. Então falar também poderia ser perigoso, pois poderia expressar uma liberdade destruidora, agressiva... Quando falamos que eram essas nuances e diferenças que Mariano tentava encontrar e aceitar, mas também entrava em conflito, por sentir outras coisas, além disso. O conflito podia distorcer a voz. Como falar com ele sobre tais coisas sem que ele se sentisse humilhado ou excluído (STEINER, 2011)?

  Se Mariano se sentia convidado a elaborar algumas angústias da posição depressiva, depois de ter sido ajudado e acolhido em seus aspectos autistas, se ficara encorajado a tentar ir adiante, tínhamos agora novas tarefas: lidar com a onipotência de uma a organização patológica. Tínhamos que ficar juntos e dois, com separação e entrosamento suficientes, mas isto não era fácil ou automático, como na poesia de Pessoa, em que o poeta retrata sua vida junto ao menino Jesus.

  Trazer um sonho onde se colocava a questão da liberdade e seu significado era promissor. Mas pensar realmente significa tolerar frustrações (BION, 1988) e se afastar do pensamento mágico (OGDEN, 2012, p. 193-214). Este pensamento parece se revelar na ideia de que fazer xixi já significa grande liberdade, e ao fazer na água tudo fica maravilhosamente equivalente e feliz, o que também remete ao Head breast (MELTZER, 2008). É promissor que um sonho traga a questão da liberdade, mas Mariano parece sobrepor algo onipotente à tentativa e à inspiração que a ideia liberdade traz, acabando por transformá-la em algo um pouco acabado demais, resolvido demais.

  Encontrar símbolos e compreensões verdadeiras implica em renunciar a soluções maníacas e mágicas. Elas parecem deixar-se entrever pelo entusiasmo do paciente: a criança está feliz porque faz xixi, tudo se mistura, e aquilo é a liberdade. Uma diferenciação e um caminho para uma simbolização mais madura estariam perdendo terreno para uma onipotência maníaca que diz que já se encontrou toda a liberdade, descartando o fato importante de estar buscando caminhos para ela, sem precipitações. E que sua forma de se relacionar consigo mesmo e com os outros também teria que revelar esta liberdade, se ela estivesse ocorrendo.

  Ao mesmo tempo, pode-se também pensar na atuação da organização patológica que diz que a liberdade é fácil, tudo está resolvido. Uma solução maníaca é oferecida: já se conquistou a liberdade, mesmo sendo através de simples xixi (ou simplesmente atos de evacuação, como se descarregar a mente fosse o mesmo que estar bem).

  Se assim fosse, não haveria porque melhorar a fala, ela já seria boa por ser uma descarga livre. Se soluções mágicas fossem importantes, ele não precisaria de mim. Mas se ocorrem outros fenômenos, um acolhimento real, isso poderia conduzir a outras etapas de trabalho.

  Mariano contava comigo para “entregar” suas coisas, mas será que as aceitaria de volta? Além disso, era importante ajudá-lo a pensar nas diferenças entre as coisas e as pessoas não como uma agressão, nem como um expulsar. Seria mesmo ruim ver a diferença entre água e xixi? Será que para estar junto temos que pensar que tudo é igual? Que sempre continua e também se mistura?...

  Steiner (2011) comentou que Schreber não conseguiu encontrar um objeto capaz de continência para responder e às suas projeções e nem trabalhar com elas. Na ausência desse objeto, também não teve ajuda para lidar com a humilhação que nasceu em concomitância com sua depressão, por não ser capaz de ter filhos. Schreber não encontrou esse objeto nele próprio, nem naqueles que tentaram cuidar dele, principalmente no médico que lhe garantiu imensas melhoras, que não se concretizaram.

  Essas agruras fizeram com que fosse impossível para Schreber tolerar e trabalhar a depressão. Em consequência, voltou à posição esquizoparanoide e, subsequentemente, à organização patológica psicótica, que criou um refúgio psíquico (STEINER, 2011). Por isso, Schreber pareceu melhorar e ficar estável. Tal estabilidade era baseada em crenças onipotentes de ser especial e escolhido por Deus, e superior aos seres humanos. Schreber não se sentia mais deprimido nem perseguido, e o sistema cristalizou-se para o resto de sua vida, como se pode ver em seu livro de memórias.

  Steiner (2011, p. 83) pensa como Klein, que o ego é constantemente sujeito a splitting e, dependendo da pressão psíquica, poderá sofrer fragmentações patológicas. Acredito, de acordo com Steiner, que naquela sessão, o analista estava recebendo partes específicas de Mariano que ele não podia tolerar: a fragilidade, a sensação de receio das soluções onipotentes, a experiência de ser um observador excluído da relação do paciente (STEINER, 2011) com seus objetos onipotentes.

  Meu paciente pareceu criar também uma crença em sua habilidade para selecionar as pessoas e as situações de acordo com o que faziam em relação à sua voz. Isso poderia ser algo razoável, mas acabou por se transformar numa exigência excessiva e num critério que excluía e depreciava facilmente, e parecia ficar, com o tempo, mais a serviço da organização patológica, do que colocá-lo em contato com o mundo e com a realidade. Tornou-se um motivo para ele ver-se justificado em diminuir as pessoas e, portanto, ter um tipo de superioridade em relação a elas, embora isso fosse negado e racionalizado por ele, quando eu tentava mostrar. Tal fato fazia também ressonância com o que Steiner (2011) descreve sobre a exclusão do analista.

  Recapitulando: eu ficava na posição de observá-lo em suas relações com objetos poderosos, e eu é que sentia a fragmentação (minhas ideias eram frágeis e limitadas, nada que se comparasse à beatitude da lagoa). E também ficava sob o impacto das concepções rígidas sobre a liberdade, não podendo lhe oferecer nada igual. O objeto interno poderoso lhe oferecia soluções e prazeres e o autorizava a descartar o que era oferecido por mim, a “pouca capacidade” de ouvi-lo. Eu também era selecionada e deixada de lado.

  Esse fato lembra, também, alguma inversão de perspectiva (BION, 1988), as pessoas não estão à sua altura, eu não sou capaz de ajudá-lo, aliás, ele nem necessita, e ele não está realmente interessado, já tem lagoa, espaço, liberdade.

  Se eu tentasse ajudá-lo a ser mais tolerante e receptivo, em princípio parecia aceitar, mas, pouco depois, demonstrava, com os elementos trazidos às sessões, que eu o estava enfraquecendo. Se no começo da análise pude ajudá- lo, agora eu iria atrapalhá-lo e o “faria” fraco, atrasado.

  Mariano não era delirante, mas algumas de suas crenças, como a sobre a seletividade, a liberdade, eram ao menos parcialmente sustentadas por fantasias onipotentes, de modo que questioná-las era dificílimo. A manutenção dessas crenças perpetua o refúgio e afasta da posição depressiva. Britton (2003) mostrou que abandonar crenças deste tipo, é um processo que requer imenso luto. Em alguém que já viveu uma grande perda – o acidente que o deixara acamado e envolvera longa renuncia concreta –, forças poderiam ser postas em ação para lidar com todo o sofrimento, as forças de uma área psicótica da personalidade ou uma organização patológica. Naquele momento da análise tal organização pode ter se sentido ameaçada, correndo risco de perder a hegemonia. Não viver mais nada similar a um desmantelamento, ou um terror de ser destruído, um acidente, um trauma enfim, pode se tornar uma obsessão nestes casos e, nesta luta para fugir da dor, o desenvolvimento pode se estancar, e os refúgios se afirmarem.

  Embora sua voz mostrasse fragilidade e conflito e isso o estimulasse a buscar ajuda, era usada pela organização para outras finalidades que vêm sendo descritas, distorcendo e dificultando que ele realmente se ligasse a objetos reais. A organização também fazia com que fosse indulgente consigo mesmo, embora não lhe privasse de contar mais extensamente com minha ajuda para melhorar a voz, que era algo tão desejado. Não obtendo essa ajuda, podia justificar que eu e outras pessoas fôssemos depreciadas e excluídas. Tudo isso

  40

  nos leva a um questionamento sobre a inveja impenitente . Creio que havia algum insight a respeito, mas um acordo perverso se havia estabelecido e mantinha tudo na mesma.

  Hanna Segal (1993) fala que a experiência de ser contido requer uma

  

tolerância ao fato de se precisar de um objeto que faça isso, quer dizer,

  suportar que há um objeto do qual vem algo útil. Penso que conseguíamos, até certo ponto, criar este objeto continente na relação e que Mariano, de uma forma discreta, confiava nele e sabia que eu fazia o mesmo. Penso que mostrando suas dificuldades e desconfianças ele dava oportunidade a que elas aparecessem e fossem trabalhadas. E que havia nele uma área necessitada e carente que confiava em mim para ajudá-lo a perceber e discriminar seus problemas. E que acreditava que podíamos suportar aqueles percalços, isto é, confiava numa continência real.

  Mas paralelamente a isso, não conseguia deixar de atuar na análise a experiência de exclusão. Steiner enfatiza a intolerância à dependência de bons objetos, não pela necessidade legítima de criar um self independente e individual (o que remeteria ao protesto masculino), mas pela inveja para com a bondade 40 destes objetos. Objetos dotados de uma bondade humana e normal, não onipotente, e principalmente capaz de criar e sustentar vínculos reais e criativos.

  Pouco tempo depois, trouxe outro sonho em que se encontrava descendo para dentro de um poço. Creio que neste sonho as questões de acolher e conter podem ser revisitadas. Ele descia por uma passarela que circundava a parede do fosso, escavada nela e que ia até o fundo. À medida que descia, notava água minando das paredes, como que de várias fontes. Chegava a um local onde estava uma mulher sentada numa cadeira e se sentia muito bem acolhido.

  O apelo sensorial tem relevância, mas também há um encontro num local especial. Head breast (MELTZER, 2008)? Refúgio? No discreto horizonte de um encontro num poço, numa sala de análise, há sempre a possibilidade para ampliar a continência. Aspectos como a continuidade e a união fusional (TUSTIN, 1990, MITRANI, 2007) eram mais uma vez evocados, talvez para encobrir e dar a impressão de prescindir de outras formas de encontro. Steiner (2011) descreve os receios do paciente de se ver ligado ao analista de formas afetivas, onde exista uma assimetria, isto é, a percepção de diferenças que levem a sentimentos de dependência e de estar sujeito a não conseguir tudo o que deseje ou precise, e envolvem as questões edípicas. Embora estivéssemos juntos, suas fantasias pareciam nos colocar mais como aderidos ou fundidos e menos como contribuintes e parceiros. As relações simbólicas e interindividuais implicando separação poderiam ser engolfadas pela forte sensorialidade e até pela beleza da imagem. Qualquer coisa que não fosse fusão seria deixada de lado e poderia ser substituída por outra que promovia o ouvir-calar-estar aderido-dissolvido, como a melhor forma de união.

  Ao mesmo tempo que os encontros ocorriam, outra área parecia aproveitá- los de outras maneiras, e para reforçar a organização patológica, como se eu também fosse uma parte dela, ou me ligasse a ele adesivamente.

  Tal clima leva a pensar no acordo perverso apontado por Steiner. Esse implica em que uma parte da personalidade pode ter insight sobre o que está ocorrendo, mas aceita a situação como se nada pudesse ser melhor compreendido ou mudado.

  Mariano, ao longo do tratamento, havia mencionado que se encontrava com prostitutas, pois se sentia “carente de sexo, pois era homem”. Mantinha relações com a ex-companheira, sempre que se viam, mesmo com sua expressa recusa de reatar com ela. As sensações corporais pareciam reafirmar uma primazia nestes encontros com prostitutas, e evocavam a continuidade e o caráter assimbólico das pseudorrelações objetais adesivas, descritas por Mitrani (2007). E deixariam as emoções e outros sofrimentos bem longe. Mas Mariano não reagia bem quando eu tentava falar sobre o realce que ele dava às sensações, e à menor importância que destinava ao envolvimento afetivo, que era diminuído, distorcido e/ou negado em relação à mim e à esposa.

  A necessidade de manter uma dissociação persistente entre sexo e afetividade pareciam-me ligadas a seus aspectos autistas até certo ponto. Além destes, estavam a serviço de outros mecanismos, destinados a sustentar a relação com um objeto onipotente, que “sobrepujasse” as demais. Se as pessoas se prestavam a relações sem aprofundamento, ou se eram pouco capazes de oferecer mais que isto, se eu também era pouco capaz de oferecer mais que aderência, ele não precisaria deixar seu refúgio. Talvez acreditasse que eu devia ajudá-lo no âmbito da sensorialidade da voz: uma voz mais bela, suave e calma, como ele dissera ser a minha no momento em que me conhecera.

  Conforme Steiner (2011) penso que o sonho traz a ambivalência da situação: acolher é importante, mas se a acolhida for só aderência e não puder ajudá-lo um pouco mais eu seria apenas uma assistente, uma expectadora periférica. A exclusão e\ou a diminuição da importância do analista enfatizadas por Steiner, pareciam-me muito perceptíveis naqueles momentos com Mariano.

  Quando trouxe o sonho, ele parecia feliz e me disse que, para ele, aquilo representava que eu iria ajudá-lo. Tendo em vista que entender as pseudorrelações adesivas seria um passo para possibilitar a ampliação da capacidade simbólica e a abertura para novas relações, achei que havia ali elementos que indicavam a possibilidade de ele aceitar ajuda, mas simultaneamente, de me colocar como um suporte para restabelecer uma proteção do tipo do refúgio.

  Concordei sobre a ajuda e falei da possibilidade de pensarmos se forma, como o bebê fica junto da mãe depois de nascer, saindo do poço da barriga. Ele concordou, e chorou um pouco. Disse que sua mãe era muito brava, e que os anos foram acentuando tal modo de ser. Então, eu falei que talvez fosse possível descobrir várias outras situações com as quais se pode ficar junto e como isso poderia ser. Se ficarmos junto de alguém bravo e também nos enraivecemos, acabamos ficando parecidos com aquilo de que queríamos nos diferenciar... Assim, pensar nas nossas atitudes: se são iguais às das quais não gostamos, até que ponto são acolhedoras, era importante. E nisto, nós queríamos a mesma coisa: um acolhimento verdadeiro, mais do que só sensação confortável, pois ser acolhido mesmo vai além das sensações agradáveis.

  Embora ele trouxesse aquela vivência de bem-estar, havia trazido outra, a mãe rude, e desta conversa surgira a possibilidade de verbalizar mais sobre sentimentos e carências. Os sonhos compareciam em muitas sessões, não estavam num poço onde não se podia encontrá-los. E, para sair do poço, precisávamos primeiro entender o que ocorria. E isso poderia nos levar a outros lugares e desencadear novos pensamentos. Como, por exemplo, sobre a liberdade que ele havia mencionado no sonho anteriormente analisado, e que talvez tivesse outro viés: ter liberdade para pensar e poder ver coisas diferentes, por exemplo, se alguém quer cuidar, não pode só restringir e ficar no poço... nem só permitir, nem se pode fazer qualquer coisa em qualquer lugar...

  Seria pertinente, além dessas questões, lembrar que o poço remete a refúgios e aos claustros e, levando em conta a água brotando e a descida, poderíamos associar outros pensamentos. Começamos com Meltzer, que postulava que o feto tinha capacidades mentais na vida intrauterina e acreditava que algumas funções podiam ser perdidas ao nascer. Ao falar de claustros, concebeu-os como recessos dentro de um objeto interno, uma fantasia de identificação projetiva com o interior de um objeto, na mente da criança. Em seu livro A apreensão do belo, descreve lindamente um feto muito feliz ao lado de sua placenta, cujo sopro caloroso e calmante preenchia o ambiente (MELTZER, 1995). Esta imagem, que evoca fortemente um claustro, faz pensar que nele exista um tipo de relação de objeto especial que inclui contato do corpo do bebê com as ondulações do líquido amniótico, decorrentes das pulsações materna e placentária, e o sopro, ou som da placenta. Um mundo rico de sensações, que talvez possa deixar marca indelével.

  Os claustros onde alguém se refugia (MELTZER, 2008), ou os refúgios descritos por Steiner, podem ter como matriz a existência humana intrauterina e estar ligados por um fio condutor, à experiências muito primitivas no “claustro uterino”. Além disto, Meltzer parece sugerir a existência de uma relação entre o bebê e a placenta, ou entre o bebê e o interior materno onde ele está. A relação com um objeto continente e abarcador, o corpo e o útero materno, está na origem

  41 do ser humano .

  Rosenfeld (1988, p. 221) diz que estados afetivos podem atingir um feto, por um fenômeno semelhante a um transbordamento. Apoia-se nas palavras de Tustin, de que “o transbordamento” é um precursor da projeção, e que serve para, juntamente com a identidade, manter uma ilusão da unidade primária entre a mãe e o bebê.

  Rosenfeld também diz que quando um paciente se sente aceito na análise, a inveja diminui, mas uma das características do narcisismo destrutivo é a dificuldade de aceitar ajuda, porque isso suscita sentimentos de dependência. Pensando em Mariano, poderíamos olhar esta questão pensando que, se houvessem fusões e/ou aderências, não haveria diferenças ou dependências. E nem mesmo a dependência de ser acolhido, pois esta seria quase automática, por ser mais uma aderência, uma pseudorrelação objetal adesiva do que um acolhimento.

  A experiência de continência precisa ser vivida a partir de algum grau de separação e, justamente por isso, pode aliviar, mas também suscitar desamparo e frustração, e, portanto, inveja e necessidade. Rosenfeld também alerta para o fato de ser útil mostrar ao paciente uma força paralisadora dentro dele que se passa por uma figura benevolente, mas que, na realidade, opõe-se a que ele melhore. E que não é qualquer tipo de continência que será propiciador de evolução. O autor crê que o paciente pode se sentir humilhado e com inveja da capacidade que o analista tem para entendê-lo melhor do que ele próprio é capaz. Portanto é preciso muito tato para transmitir essas questões. 41

  Lembramos ainda que as experiências protomentais (MITRANI, 2007; MELTZER, 1995) são de difícil apreensão e um mistério para nós. Mas ao mesmo tempo, parecem tão familiares. Estados de indiferenciação, mesmo que levados a efeito por uma parte autista da personalidade, não devem embotar a capacidade e a sensibilidade para outros fatos que ocorrem no curso de uma análise.

  Podemos lembrar que um feto não precisa e nem pode decidir a diferença entre bons e maus objetos, e talvez nem faça diferença perceber um objeto, ou o que o faz crescer ou não. Mas para que o desenvolvimento ocorra tudo isso precisa entrar em cena. E suscita medo, desamparo, e sensações de carência e inveja.

  

5.3 Seduções: pseudorrelações objetais adesivas, falsa continência de

refúgios e claustros Solto a voz nas estradas, já não quero parar, meu caminho é de pedra, como posso sonhar?(Milton Nascimento)

  Mencionamos alguns outros sonhos que marcaram momentos de trabalho e mais tarde, sua interrupção. Num deles, ele pilotava um avião e voava entre prédios. Tinha acabado de sair de um presídio e podia voltar assim que quisesse. Gostava do voo que estava fazendo com habilidade, pois não se chocava com nenhum edifício. E se sentia bem e tranquilo, a sensação era de prazer, ele poderia voltar ao presídio assim que quisesse.

  Comentei que voar, pilotar, pareciam coisas boas, mas voar entre prédios parecia difícil, até perigoso. Ele concordou, mas descreveu a satisfação que sentia durante o sonho. Ele sentia bem por poder voltar ao... presídio! ? Era isso mesmo? Ele disse que era sim, aparentemente sem notar minha surpresa. E acrescentou que era um lugar onde tinha segurança. Falei sem perceber, como pensando em voz alta que lá podiam estar pessoas seguramente presas! Ele disse que talvez, mas voltou a falar da sensação de voar, de estar livre, de poder manobrar, etc. Continuei com a sensação de que havia algo contraditório, vias paralelas envolvendo mecanismos diferentes e paralelos. Como em dupla via, conforme Mitrani (2007) e Grotstein (2003), uma liberdade, uma saída talvez da cápsula autista, mas talvez outro tipo de abrigo, o presídio seguro: um refúgio.

  E o fato de no sonho estarem elementos conflitantes: como o voo, o presídio, o pilotar com habilidade, mas entre prédios. Todos pareciam bastante significativos, capazes de carregar um conteúdo simbólico que podia permitir associações com habilidade, que ele mesmo fez, mas também com alguma astúcia, para escapar e não colidir. Na vida pessoal, Mariano estava mais livre para conversar, tendo mais amizades estáveis e se sentindo melhor. A voz continuava oscilando, paralela às outras conquistas. Que presídio seria este em que ele sentia segurança? Algo que faz com que a cápsula autista fique segura, sem ser mobilizada?

  Uma organização patológica estava se apresentando e parecia tentar cuidar da parte frágil, infantil, inclusive com aspectos autistas. A segurança assim obtida poderia eclipsar as defesas autistas e fornecer uma falsa continência. Substituiria o desejo de ligar-se verdadeiramente a objetos reais, e ofereceria ligações com objetos parciais onipotentes. Creio que a questão da voz também tinha a ver com isso. Enquanto nós dois podíamos trabalhar com as limitações reais, inclusive com as emoções dolorosas para daí podermos conseguir alguma coisa, a parte onipotente oferecia outras benesses.

  Na mesma sessão, Mariano comentou longamente sobre problemas com colegas na hora de falar, ouvir e interagir. Achava que seus colegas podiam se aproveitar de sua dificuldade de fala. Queixou-se também de que uma garota de programa com quem saíra tinha roubado seu telefone celular, e que ela parecia amorosa, e que o encontro fora bom, mas que tinha ocorrido um roubo.

  Falei com ele sobre uma insistência em ser acolhido fisicamente e que admirassem sua voz. Ele parecia diminuir a importância de que podia se fazer entender, e tinha capacidade para transmitir ideias. Mesmo que não gostassem da sonoridade de sua voz, as ideias e o conteúdo poderiam transmitir muito além do som. E isso era uma das coisas importantes que eu pensava que ele esperava da análise: que ela o ajudasse a se libertar daqueles receios. Que seus sentimentos ficassem mais livres e que ele

  Nossa reunião analítica poderia causar-lhe angústia, por eu apontar para a prisão para a qual ele voltava por identificar aquilo com segurança. A liberdade era possível, mas parecia-me que ele se apegar tanto ao som e ao suposto desagrado das pessoas podia ser uma forma de ficar preso e de não ver nada além disso. Ouvir essa interpretação de mim não era agradável, mesmo que a minha voz o fosse. Mas talvez se eu fosse suave e só criasse um contato confortável entre nós, fosse como a prostituta, que dá prazer, mas rouba algo importante: a capacidade de comunicar coisas úteis além da beleza dos sons e não ter medo de revelar as diferenças entre o que liberta e o que aprisiona.

  Nesse ínterim, podemos ver uma organização patológica relacionada com a gangue descrita por Rosenfeld. Ela dá suporte: prazer sensual e aparente independência afetiva, mas torna-o dependente destas manobras e com isso rouba e prejudica o desenvolvimento de outras capacidades. Os pensamentos gangue fazem com que se sinta mal em reuniões onde tem que se esforçar para ser entendido, e bem com prostitutas, mas o roubo real é atuado pela parte que suprime seu senso e seu discernimento sobre o que pode lhe dar liberdade e o que o prende.

  Na longa recuperação depois do acidente, a companheira foi muito cooperante, mas Mariano, na época, já desejava se separar, e esse evento complicou tudo. Creio que a experiência de ser cuidado, mas, ao mesmo tempo ficar ligado a alguém de quem queria se afastar, pode ter suscitado as dúvidas sobre a continência, a bondade do objeto e pode ter despertado tanto a mágoa de ser dependente quanto a culpa por isso. E talvez tenha ensejado a atração para o claustro de um objeto ou para o sossego de um refúgio.

  Talvez ele também me sentisse como que tirando dele suas formas peculiares de se comunicar e mostrando outras, como a raiva, a vontade de não ter ninguém para ter ideia diferente sobre as quais precisaria conversar e poderia ser contrariado. Continuar ligado às formas antigas de segurança, e nalguns momentos parecer dar tanto valor ao prazer sensual por si só, sugeriam uma segurança que aprisionava.

  Apesar dessas reflexões há que se levar em conta a intensidade da experiência traumática de Mariano, embora ele a negasse, dizendo que todo o a construção das defesas autistas justamente ao trauma precoce pela incapacidade da criança suportar a vivencia de separação da mãe. Talvez o acidente, e outras decepções e problemas tenham feito Mariano reviver esse tipo de perda muito precoce às quais podem ter se juntado outras mais tardias, como a da imagem que tinha de si, e seus projetos de vida. Por não suportar isto, poderia ter resgatado as defesas autistas, e ainda, para dar suporte a si próprio, tenha também encontrado a onipotência da organização patológica.

  Steiner comenta que, para sair do refúgio, é preciso sustentar a percepção das diferenças entre o self e o objeto, e não se sentir humilhado por isso (STEINER, 2011, p. 40). Na relação com o objeto primário, as diferenças são aos poucos sentidas e vividas, mas uma boa elaboração dessas depende de vários fatores, entre os quais a continência materna e a capacidade da criança de tolerar as diferenças sem ficar muito humilhada ou com raiva. Em seu desamparo, a criança pode achar muito difícil não ser e não ter a mãe e todas as suas capacidades e pode, por contrariada e frustrada, desejar não depender de nada ou ninguém.

  Joan Riviere descreve de forma comovente a situação de um bebê passando por privações. As dolorosas experiências de dores, fome e desamparo deixam nele uma marca indelével e o fazem tentar, a todo custo, se afastar destas experiências e garantir que tudo esteja sob controle. Ela lembra que o bebê ao mesmo tempo em que se sente desesperado pode vivenciar a lembrança do bem- estar, o qual depende de alguém, pois o próprio bebê não consegue suprir-se ou proteger-se sozinho. Isso cria um conflito, pois a ausência do objeto provedor e sua importância despertam ódio, mas justamente porque a presença despertara e propiciara amor e segurança. Palavras de Riviere:

  A reação imediata a este penoso estado de coisas é que ele tenta reconquistar, e portanto também preservar, algo da bem-aventurada segurança de que desfrutava antes que sentisse a falta e que impulsos de destruição surgissem. Assim se desenvolve em nós a profunda necessidade de segurança e proteção contra esses tremendos riscos e intoleráveis experiências de privação, insegurança e agressão, internos e externos. Dessas primícias partimos todos para a tarefa, que se estenderá por toda a nossa vida, de tentar garantir a nossa autopreservação e os nossos prazeres com o mínimo risco possível de despertar em nós aquelas forças destrutivas capazes de acarretar igualmente a destruição de outros. (KLEIN, M.; RIVIERE, J, 1975, p. 22).

  Grifos nossos. Diante destas agruras, é possível lançar mão de várias estratégias para se proteger, na medida das condições de cada um. Tentar ficar a salvo da necessidade de contar com um objeto real é a estratégia eleita nos refúgios, nas organizações patológicas, claustros ou gangues e nos estados autistas. Objetos reais se atrasam, não conseguem ouvir e entender sempre, divergem, precisam de descanso, são finitos. Bion (1966) afirmou que as experiências de frustração são inevitáveis, pois, para ter prazer de ser alimentado, o bebê terá que sentir fome antes (o que implica em sentir frustração). Portanto, a necessidade de projetar, isto é, de livrar-se da frustração é inexorável, mas a capacidade de recolher uma projeção ou diminuí-la é essencial para poder receber, depois da frustração, algo bom.

  Voltar ao presídio na fala de Mariano era bom, e dava segurança, e para ele não havia contradição entre a liberdade e esse tipo de abrigo. Velhos hábitos, velhas situações tranquilizam, mas restringem, pois para crescer muitas vezes é preciso deixá-las. A organização traz segurança, deixá-la traz a vivência de ser diminuído, de perda da alternativa onipotente. O “caminho de pedra”, e a dificuldade de sonhar aí estão.

  Era possível que a segurança de voar entre prédios tivesse relação com a expectativa de não haver interação, ou de poder voltar atrás se a interação não seguisse o seu desejo.

  Talvez pudéssemos pensar que as palavras seriam edifícios com os quais ele poderia não colidir, mas precisava se arriscar a tocá-las com seus sentimentos. No entanto, ter esta liberdade, poderia fazer com que ele não voltasse para o presídio seguro.

  Esse poderia representar a dureza, o embaraço diante do envolvimento que estávamos tendo (STEINER 2011), que permitia a evolução da análise e que ele não dependesse tanto de barreiras autistas e nem de uma organização patológica. Talvez o medo de depender e de precisar de algo humano, falível, não de um objeto ideal, e a inveja do que eu e ele estávamos fazendo também estivessem sendo intensificadas.

  Steiner alerta para o fato de que vários motivos operam juntos em graus diferentes, e ao mesmo tempo, para estabelecer diferentes formas de identificações projetivas, mas que pode ser útil perceber qual deles, num determinado momento, é proeminente. Isto ajuda a entender o paciente e se este último puder tolerar o que foi mostrado pelo analista, também será beneficiado. Lembramos que Mariano poderia estar aumentando seus motivos para se sentir ressentido, e não sair do presídio: ser uma pessoa ofendida e machucada, que poderia reivindicar ressarcimento inesgotavelmente.

  Steiner (2011, p. 99-106) evidencia tais atitudes falando de pacientes que se sentem anormalmente ofendidos pela situação edípica. Ele esclarece que esses pacientes sentem que a diferença normal e universal entre as gerações, por exemplo, os fatos de que a mãe não pertença sexual e exclusivamente à criança, sejam uma ofensa terrível e injusta. Estas pessoas se recusam a seguir em frente, não conseguem fazer um luto saudável diante das diferenças, e, portanto podem se envolver em ressentimentos inegociáveis, e não poderem ser ajudadas. Elas esperam algo impossível: não ter perdas e nem os limites normais da vida e da passagem do tempo.

  Mariano parecia inconscientemente desejar uma recompensa enorme pelas privações pelas quais passara depois de seu acidente, e também pelas dificuldades com sua voz. Talvez estas limitações: ter que viver sua própria história, ter de manobrar a voz entre as emoções, e as perdas, não poder ter toda a liberdade para fazer com que tudo fosse proveitoso: presídio só dar segurança, voar sem colisões ser sempre fácil... Enfim, ser habilidoso e capaz sem restrições, e ter sido poupado de passar pelo acidente de carro e por todos estes outros, criassem nele tantas reivindicações e necessidades, que a análise jamais poderia mudar e ainda menos suprir.

  Algum tempo depois, ele conta um novo sonho em que procurava alguém numa caverna. Era possível ouvir a pessoa lá dentro e ele sabia que o outro também podia ouvi-lo. Mas tinha a impressão de que a pessoa entrava cada vez mais na caverna, e quando ele chamava, parecia se esconder mais. Pouco tempo depois, sonhou que, em sua casa, havia uma estante bem grande, com muitas prateleiras cheias de livros. Numa das partes, havia uma espécie de divisão ou

  A possibilidade de que estivéssemos tomando contato com a estrutura de um refúgio crescia e os ressentimentos e a retração que a exposição disto trazia estavam mais evidentes. Num outro dia, ele parecia muito triste e queixoso. Falava sobre suas dificuldades e seu medo de se aproximar de alguém, de como poderia ter condição ou esperança para superar suas dificuldades e que sabia da necessidade de se expor mais através da fala, mas continuava por vezes muito ansioso. Também contou de numa reunião com amigos em que cantaram e tocaram e ele se sentiu bem nessa ocasião, até que um deles fez alguma crítica sobre pessoas que só saíam pra se divertir com garotas, não conseguiam ter relacionamentos sérios, se envolver. Ele pensou em sua situação e se sentiu muito chateado... Sentiu até vontade de ir embora, mas a música o tinha segurado lá.

  A música Travessia, de Milton Nascimento, surgiu em minha mente naquele momento e eu comentei a respeito dela. Ele disse, entusiasmado, que adorava aquela música, pois ela começava triste, mas... Cantarolou: “quando você foi embora fez-se noite em meu viver, forte eu sou”... E cantou até quase o final da música. Então, eu ressaltei que a música falava de mudar depois de passar por uma perda, e que os versos finais diziam “já não sonho, hoje faço, com meu braço o meu viver”, e que eles me pareciam ter um pouco a ver com o que ele estava vivendo. Estávamos tentando ajudá-lo a não apenas sonhar com a fala perfeita, namorada maravilhosa que nunca aparecia, ou sucesso profissional, sensações agradáveis. Estávamos tentando fazer com que seus sentimentos pudessem abraçar suas palavras e carregá-las até que elas encontrassem seus objetivos. E que os sentimentos não ficassem perdidos no sonho de ser forte, durão, que fazia com que criticasse tanto...

  Ressaltei, também, que ficávamos ali tentando fazê-lo ter mais contato e tolerar seus sentimentos de medo, de insegurança, coisas não só agradáveis, não só sensuais. Com isso, as falas e quem sabe suas atitudes poderiam ficar mais consistentes. Traduções da experiência de uma pessoa que luta pra viver, como na música “Hoje eu tenho que chorar minha casa não é minha”, que é experiência de dor. Os versos que dizem “já não sonho, hoje faço com meu braço meu viver” trazem a ideia de deixar o sonho ilusão, o sonho todo poderoso e mágico (casa- voz maravilhosas, garotas perfeitas que não dão trabalho, só lucro), e aceitar a passagem e a travessia de momentos de dor. Aprender a deixar o sonho falso e fazer coisas na vida, sem pretender que sejam iguais ao sonho perfeito.

  Mariano chorou. Na sessão seguinte, disse que saíra se sentindo muito feliz, apesar de ter chorado, e que era uma emoção muito grande. Que muita coisa fizera mais sentido na vida dele.

  Depois disso, paulatinamente, outras coisas foram se desencadeando. Mariano começou a se mostrar mais crítico em relação à análise. Como o tratamento tinha a ver com o falar, ele dizia que a fala era uma ferramenta importante, mas precária. Mesmo estando mais calmo e seguro para falar, e bem menos preocupado com a possibilidade de se sentir humilhado pelos colegas de trabalho (ou outros), começou a criticar claramente a análise. Trazia notícias de técnicas novas, principalmente algumas que pareciam ter um viés artístico ou intelectual que ele enaltecia. Afirmou que preferia outras técnicas e que estava se informando sobre coisas mais modernas. Dizia preferir o método artístico, com música ou pintura, e que ele mesmo iria fazer um curso de arte terapia ou coisa semelhante e buscar alguém que trabalhasse com isso. Argumentava que sua voz não melhoraria mesmo e que teria que se valer de outros recursos para ter sucesso em seus objetivos.

  Na sequência desse clima, começou a trazer sonhos onde havia fezes em várias situações. Num deles, ele estava numa sala bem grande, cheia de montinhos de fezes, espalhados pelo chão. A mãe estava lá com ele. Ela ia ajudá- lo a limpar, mas ele não o permitia e tentava limpar sozinho. Noutro sonho, ele e a ex-esposa precisavam atravessar um pequeno riacho por uma ponte estreita, para ajudar alguém do outro lado. Na margem em que estava, havia fezes, mas ele ficava sem vontade de caminhar pela ponte, achando que ela era precária. Apesar disso, do outro lado estava uma pessoa jovem, que ele conhecia, e que precisava de ajuda.

  Aos poucos, foi dizendo-se cansado, e deixou o tratamento, afirmando que iria procurar algo novo.

  

5.4 Recolhendo do mar da clínica: embaraço diante da ternura, desejo de

excluir o analista, conflitos edípicos precoces e tentativa de visão binocular

  ...quando o mar tem mais segredo não é quando ele se agita nem é quando é tempestade nem é quando é ventania quando o mar tem mais segredo é quando é calmaria (Cacaso)

  Os versos mencionados nesta epígrafe lembram a necessidade de manter a mente aberta, as “coisas” podem conter desafios, mesmo quando parece que tudo está calmo. Depois de passar pela posição esquizoparanoide, elaborar a posição depressiva, e depois dela não se acomodar, é preciso aceitar novas incursões nas posições esquizoparanoide e depressiva, e assim sucessivamente, como nos mostrou Britton (2003) num belo trabalho intitulado

  

Antes e Depois da Posição Depressiva. Britton nos convida a perceber que

  nunca estamos na posição de sabermos ou termos feito o melhor, e sempre precisamos estar em busca.

  A precariedade da voz de Mariano tornava a experiência terapêutica peculiar, de forma que a existência de barreiras autistas parecia plausível e o enfoque desses aspectos trouxeram possibilidades de alcançar o paciente. Creio que a cápsula autista fazia parte da configuração mental de Mariano, e esteve presente ao longo de todo o percurso. Mesmo que tenha sido razoavelmente elaborada, provavelmente permaneceu, até certo ponto, como possibilidade de proteção extraordinária conforme Mitrani (2007). Pode ser mantida em estado latente ao longo de toda a vida. Creio que Mariano colaborou para me chamar a atenção para sua cápsula autista, e o clima da etapa inicial de tratamento pareceu muito ligado a uma necessidade legítima de crescimento e a uma verdadeira cooperação, apesar da confusão de sons.

  Penso que não só a limitação imposta pelos processos autísticos, mas também os efeitos de uma organização patológica se faziam presentes. Num processo psicanalítico, à medida que se trabalham alguns conflitos, abre-se

  Ao mesmo tempo em que Mariano queria falar com mais facilidade, ter sucesso profissional, viajar, coisas que implicavam capacidades afetivas e comunicativas, começou a parecer cansado e enfadado, às vezes discretamente, às vezes de modo evidente. Em algumas ocasiões, deixou claro - e já falava de forma mais compreensível e organizada - que sentia que melhorar a fala era todo o trabalho que ele deveria fazer na análise e que, como pessoa, ele estava bem. Fazia racionalizações para justificar as críticas às pessoas e às exigências para com elas.

  Comecei a perceber que os aspectos carentes e colaboradores estavam se alternado com outros. Minha contratransferência para com ele, que envolvia a ideia de poder ofendê-lo, também começou a indicar a existência de um objeto interno supostamente bom, mas muito exigente ao qual eu devia satisfazer. Agora ficava mais claro que esperava de mim alguma coisa onipotente e mágica, como o líder de uma organização patológica oferece (ROSENFELD, 1988). Se eu não estivesse “à altura”, eu o ofenderia, ou decepcionaria.

  As críticas à ex-esposa, às possíveis namoradas, a impaciência e o menor carinho com os filhos, tudo levava a pensar na possibilidade de que ele receasse e criticasse igualmente seus aspectos dependentes e capazes de se vincular (STEINER, 2011), e que precisavam de auxílio para crescer verdadeiramente. Naquele momento, as barreiras autistas começaram a me parecer muito menos difíceis do que as novas.

  Essas outras dificuldades pareciam bastante ligadas ao domínio de uma organização patológica. A organização, como mostram Rosenfeld (1988) e Steiner (1994, 1997, 2011), tenta aliciar as partes dependentes do self e mostrar- se como protetora confiável. Seduz com promessas de alívio e superioridade, e a aceitação de ajuda fora dela é vista como fraqueza e humilhação. Talvez por isso, entre outros motivos, ele tivesse começado o movimento de se afastar. E que realmente veio a culminar com a interrupção da análise.

  É possível cogitar que aspectos invejosos faziam com que, mesmo tendo melhorado, sentisse, por exemplo, que a análise era um atraso de vida, e que havia a arteterapia e outras coisas melhores. Frequentemente, ao falar de seus filhos, exibia a ideia de que devia ser duro com eles, e que eu errava ao falar da sentiu muito assustado com o envolvimento e com seus sentimentos de aproximação ocorridos na sessão com a música Travessia. Steiner (2011) propõe

  42

  e demonstra um “embaraço diante da ternura” que ele define como o receio de o paciente assumir seus sentimentos de dependência e carinho, e sua verdadeira capacidade de se ligar dessa forma.

  Agindo daquela maneira, Mariano negava que ele próprio queria compreensão e confiança de minha parte e que quisesse libertar-se de algo dentro dele que o impedia de usufruir plenamente dessas conquistas. Também conseguia me depreciar, como se eu fosse alguém facilmente iludível pelas pessoas e sem muito pulso e, por esse motivo, não devesse confiar em mim. Interessante como a fragilidade da fala encobria uma paradoxal rigidez crítica em relação às seus aspectos dependentes, bem como aos de outras pessoas e, ao mesmo tempo, tentava revelá-la.

  A ajuda que eu pudera lhe oferecer com os aspectos autistas parece ter sofrido uma distorção, e poder-se-ia lembrar do efeito do que Bion (1988) e Meltzer (2008) comentam ser a reversão de perspectiva. Tal situação implica na atitude de reverter o que o analista falou para concordar especificamente com premissas do paciente. Desta forma, o significado das interpretações do analista fica perdido, mesmo que o paciente tenha concordado com as interpretações. Bion ligou esse fenômeno ao funcionamento da parte psicótica da personalidade.

  Portanto, outro aspecto a levar em conta seria o de que a dificuldade vocal pudesse conter elementos psicóticos, talvez algo como um objeto bizarro. As emoções poderiam passar por um processo de projeção e, ao voltar, viriam estranguladas, chegando às palavras naquele estado de mutilação, que criava a cacofonia.

  Podemos também pensar que a capacidade de perceber dependência e ligação ao analista como um bom objeto foi atacada, conforme mostram Steiner (1997, 2011), Rosenfeld (1988) e Meltzer (2008). Meltzer ainda comenta que a inversão da função alfa serve para destruir ou prejudicar elementos beta que estavam em transformação para se tornar elementos alfa. Esses então acabam 42 Improvement and the embarrassment of tenderness, in Seeing and being seen: emerging from a formando objetos bizarros, carregados de aspectos de ego e superego, mas rígidos, dotados de uma concretude que os torna incapazes de serem usados para pensar realmente. Talvez possam ser equiparados às quimeras, que são objetos mistos que mimetizam outros, mas só servem para enganar. Muitas vezes parecia que as ideias de Mariano ficavam endurecidas, repetitivas e ditatoriais. Se eu ameaçasse tais ideias, era vista como capaz de enfraquecê-lo.

  A organização guiada por um narcisismo destrutivo (ROSENFELD, 1988) se opõe à ligação a objetos reais, a depender deles e a fazer vínculos verdadeiros, pois ligar-se a objetos que admiramos pode despertar inveja e sentimentos de inferioridade. Suportar o sentimento de inveja não é fácil. Ela só pode ser mitigada se os bons vínculos com o objeto a sobrepujarem. Creio que Mariano não suportou a inveja e que os vínculos comigo não puderam resistir. A inveja seguiu negada, sendo exercida pela postura crítica, depreciadora e por seu cansaço para com o que ele dizia ser meu método velho. Também poderia ser cogitada, pensando na forma como descrevia as namoradas, os filhos e eu: dependentes, querendo compromissos aprisionadores, atenções excessivas, etc.

  O sintoma da dificuldade para falar era usado por ele para “selecionar” as pessoas. Os que lidavam com ele com evidente diligência e tolerância com sua voz eram vistos como adequados e aceitáveis. Mas quando, a seu ver, falhavam nisso, eram descartados, mesmo que não o tivessem magoado. Steiner, ao falar da dificuldade de sair de um refúgio (2011), trouxe uma contribuição de Elizabeth Bott Spillius sobre um tipo de atitude invejosa, chamada inveja impenitente. Spillius diz:

  O sujeito com ressentimento, no entanto, não sofre de culpa consciente ou senso de responsabilidade por sua inveja; ele pensa que é por culpa da pessoa invejada que ele, o invejoso, sente-se tão desgraçado. Ele não se sente culpado ou mesmo responsável por sua inveja impenitente. O culpado deve ser outro. A definição de inveja desse paciente, na situação analítica, é diferente da do analista. Se o analista estiver usando a definição kleiniana que descrevi antes, ele pensa que o paciente está fazendo um ataque destrutivo a um objeto bom; o paciente acha que está fazendo um ataque legítimo a um objeto que merece ser odiado. O paciente pode não se espantar se lhe for dito que ele é invejoso - no caso de o analista ser tão imprudente de lhe dizer diretamente -, porque o paciente que sofre de inveja impenitente não define a inveja da mesma maneira que o analista kleiniano. Ele acha que seu ressentimento é legítimo. (SPILLIUS, 2007, p. 261). Parecia que esse tipo de inveja impenitente apresentava-se: o paciente se sentia no direito de achar-se cansado e ressentido com familiares, colegas, analista. As queixas de não encontrar paciência ou respeito nos outros, - e para comigo de que algumas interpretações podiam enfraquecê-lo -ou que nosso trabalho não era o que precisava- se reiteravam. Afirmava que com a análise não ficaria forte nem preparado para enfrentar os demais. Também trazia preocupações com a ex-esposa e com os filhos, que a seu ver eram sem limites e gastavam demais. Inclusive ele deveria guardar seu dinheiro para um tratamento mais moderno. Pareceu surgir uma crença de merecer alívio rápido, mas não por intermédio da análise.

  O trabalho que vínhamos realizando foi turvado e encoberto por uma premência em investir em algo concreto, como uma viagem, novos trabalhos, cuja execução faria com que se tornasse incompatível a permanência na análise. Permanecer em análise poderia tornar incompatível manter o insight de lado, e ter que desfazer alguns acordos que poderiam se dever a uma parte perversa da personalidade (STEINER, 1997).

  Sob a ótica de Rosenfeld, vemos essa situação como decorrente do narcisismo destrutivo em que a inveja e a separação do objeto, bem como a percepção de diferenças entre self e objeto, são negadas maciçamente, e a pessoa sente que as qualidades e bondade do objeto lhe pertencem.

  A questão dos claustros pode ser vislumbrada pelo material que vinha se avolumando. As críticas, e o querer deixar a análise, significavam que ele estava na análise perdendo tempo, preso num tratamento velho, ruim... Se nosso paciente se sentia no claustro do reto, eu e ele teríamos que lutar. Um de nós teria que ser expulso, pois ameaçava o outro. Talvez se possa pensar nos sonhos com fezes como uma alusão a isso. Em um desses sonhos, ele não deixava que lhe ajudassem a recolher os dejetos, não aceitando a ajuda da mãe; no outro, a esposa estava suja e não notava.

  A sessão em que falamos sobre a música Travessia, fora, talvez, um bom momento. Ele ficara muito próximo, e pudéramos falar sobre suportar perdas, como uma parte essencial da vida. Era doloroso, mas fortalecedor, ele o reconhecera e o verbalizara. E também se lembrara da paciência com que os familiares o ajudaram para que se recuperasse de sua longa doença, durante a qual o problema de voz havia se instalado.

  Ao falar dos sentimentos que dariam força e vida às palavras, eu colocara para ele que me parecia querer muito isso, mas ficava um bocado impedido por coisas dentro dele que o prendiam. Queria ser afetivo, mas achava que ficaria fraco, ou talvez que se a voz saísse livremente poderiam vir junto tristeza, raiva ou fragilidades, coisas que ele, em parte, achava inadequadas, ou talvez não soubesse ainda o que fazer com elas.

  Naquele momento, como em outros, algo mais frágil, magoado e conflitivo de Mariano surgia. De dentro de sua cofusão vocal, conseguíamos discernir fraquezas, dores, elementos que podiam ajudá-lo a ficar mais integrado, se fossem entendidos. Alguma emersão de defesas e do refúgio pareciam possíveis, bem como vivências da posição depressiva. Steiner (2011) diz que alguns pacientes sentem-se tão desprotegidos se não podem contar com a proteção do refúgio, que têm a sensação de estarem extremamente expostos, humilhados e transformados em criaturas indefesas. Sentem que o apego que têm a uma autoimagem onipotente e narcisista foi descoberto, e ficam dolorosamente envergonhados com isso.

  Creio que notícias de uma organização patológica e de um refúgio já vinham sendo trazidas através de sonhos como o da pessoa que ia para o fundo da caverna, a criança que estava numa parte fechada de uma estante, o voo entre prédios e de volta ao presídio, além das atitudes para comigo e para com as pessoas.

  Noutro sonho, era preciso atravessar uma ponte, e do outro lado alguém esperava ajuda, mas o paciente não queria fazer isso. Deve-se lembrar de que o conteúdo manifesto de um sonho é apenas parte dele, mas podemos ver elementos pertinentes às situações, principalmente ao estudar o caso retrospectivamente. O paciente realmente foi assumindo uma atitude paulatina de crítica à análise, e que o conduziu a interrompê-la. Nesse caso, o sonho seria premonitório, mas na época preferi não pensar assim.

  Steiner (1997) utilizou o termo perversão indo além da acepção da sexualidade, para falar de um acordo entre partes da personalidade, que ataca a possibilidade de insight, sem destruí-lo de todo, mas se negando a assumi-lo e a utilizá-lo. Uma parte teve um insight e poderia tê-lo sustentado e evoluir a partir dele, mas um acordo mantém a visão falsa a respeito da situação ao lado da verdadeira, com prejuízo para esta última. Penso que Mariano desejava evoluir e tinha podido perceber seu isolamento e sua recusa em ter relações mais amplas com seus objetos, não só pela cápsula autista. Isso parece demonstrado no sonho pela ideia de que era possível atravessar a ponte, o que representaria a possibilidade de alcançar o insight, aceitar a dependência e cuidar da parte carente. Mas esta travessia possível ficava em suspenso.

  Mariano não pode sustentar-se nessa posição depressiva e ampliar o

  

insight. Ao contrário, aos poucos foi negando a utilidade do que estava

  percebendo, trazendo críticas à análise, até interrompê-la. Nessa situação, parece possível acompanhar Steiner quando diz que algumas organizações patológicas são sustentadas por acordos perversos, dos quais o paciente não é apenas vítima, mas participante e conivente (STEINER, 1997). E, além disto, é preciso pensar que o analista pode não ter sido capaz de oferecer todo o suporte que o paciente requer. Esse pode ser envolvido num conluio inconsciente com os objetos onipotentes do paciente (STEINER, 1997, 2011), e assumir atitudes críticas, ou ser levado a parecer crítico, quando tenta pensar e não ser conivente com aspectos onipotentes ou críticos do paciente.

  Esta dificuldade era frequente quando Mariano exibia rigidez e seletividade para com as pessoas, e criticava os gastos de seus filhos, ou os custos da análise. Steiner (2011) aponta toda a gama de dificuldades que o analista enfrenta na relação com o paciente e dentro de sua mente. Desde o risco de ser conivente para não parecer crítico, e ter neste caso uma falsa continência, até o de querer apontar demais as dificuldades do paciente, que por sua vez, pode levar o analista a portar-se como o objeto interno do paciente, vaidoso e superior.

  Ainda há uma questão suscitada pelo material: a dificuldade de elaborar a situação edípica. Steiner (2011) frisa que é muito importante observar que estas podem estar subjacentes por toda a análise, e revelar o desejo do paciente de ser receio de depender de bons objetos, por exemplo, o analista e a mãe, a dependência desperta carências, bem como inveja, e o medo de não ser o preferido. Ainda que seja natural que o bebê tente se defender da dependência absoluta, e caminhe para a independência ao longo da vida, precisando até certo ponto depreciar a mãe para fazê-lo, há graus de depreciação excessivos que correspondem a um excesso de raiva e intolerância à própria condição humana, que implica na necessidade do outro, não só quando se é um bebê, mas em larga medida enquanto se é um ser vivo. Mesmo uma pessoa que se creia poderosa só pode sustentar tal crença, se puder se comparar a outros o que a faz, portanto, precisar deles para provar sua suposta superioridade.

  Alguns pacientes no refúgio entendem que depender de um objeto pode ser muito perigoso, e quando percebem e se sentem dependendo e contando com o analista, fazem manobras para romper com isto, dominarem e serem superiores ao anlista (STEINER, 2011). Este tipo de dificuldade edípica também parecia mostrar-se no sonho. O paciente parecia mostrar o desejo de manter separada uma parte que desejava e podia depender de mim para ajudá-lo: a pessoa que estava do outro lado da ponte. Outras partes, (o casal) ficavam do outro lado, percebendo a necessidade de ajuda, mas não atravessando a ponte. Seria um impasse: o casal não parecia disposto a ajudar e a outra parte também poderia não conseguir obter a ajuda ou não acreditar que ela realmente servisse. As duas margens pareciam não poder se comunicar e integrar: um casal não pode ajudar uma terceira pessoa (criança?), pois terá de deixá-la excluída pois a única forma de incluir seria a de igualá-la a eles. Por seu turno, a criança não poderia suportar sua diferença em relação ao casal, e nem a forma como poderia ser incluída, aceitando esta diferença. Tampouco suportar a dependência sem se sentir humilhada e roubada. A recusa dessas verdades pode implicar em vários tipos de perversões.

  Creio que habitar um claustro poderia ser uma fantasia de Mariano. Enquanto ele pudesse estar envolvido comigo num local seguro, sem riscos e com o tudo que precisasse sempre à mão, tudo estaria bem. Se estivéssemos num Head- Breast as dores das diferenças edípicas, e a consequente perseguição e também possibilidade de elaboração da posição depressiva não existiriam. A inveja e os ressentimentos edípicos também ficariam de lado.

  Se nos lembrarmos da ligação a um objeto onipotente mostrada por Rosenfeld, (1988), Steiner, (1997, 2011), Meltzer, (2008) e Grotstein, (2009) que sustenta as organizações patológicas da personalidade, podemos cogitar que a pessoa presa a uma organização deste tipo, vá recear que as demais possibilidades de ligações objetais serão incapazes de boa continência, e indignas de confiança. Na opinião de Grotstein (2009) os pacientes que vivem sob esse domínio passaram efetivamente por situações traumáticas na infancia, tendo encontrado um objeto incapaz de boa continência e frequentemente seriam psicóticos, borderline, ou passaram por transtornos de estresse pós-traumático.

  Esse autor crê que o refúgio é composto por uma tela beta, isto é, elementos beta que não foram capazes de ser transformados em alfa, sendo degradados e rejeitados, podendo formar também objetos bizarros. Talvez isto explicasse as distorções sonoras na voz de Mariano, e com certeza é uma boa alternativa para entender as dificuldades de valorar as ligações reais consigo mesmo e com outros. Além disto, ele comenta que tais pacientes tem imensa dificuldade de tolerar a posição depressiva. Em suas palavras é por isso que tantos pacientes psicóticos discutidos por Rosenfeld e Bion experimentavam reações terapêuticas negativas quando se aproximavam da posição depressiva. Nesses pacientes, o processo secundário perdeu seu domínio sobre o primário e esse último se torna patologicamente autônomo, constituindo o refúgio. Eles teriam perdido a esperança em si mesmos e feito “um pacto com o demônio, seu instinto de morte”, evitando progresso e mantendo-se no refúgio.

  Mas, ainda podemos “olhar” este sonho usando ideias de Grotstein (2003) baseadas em Bion e Matte-Blanco. Para tanto trazemos a visão binocular, que tenta enxergar por várias perspectivas, e não toma nenhum vértice como absoluto. Há duas margens, há uma ponte, há a possibilidade de que uma travessia ocorra, em algum nível, e em algum lugar. Não importa que durante o sonho isto pareça não ocorrer.

  Grotstein (2003) também usa a ideia de dupla via para postular que a mente pode tornar-se temporariamente dissociada de maneira a alcançar auto- reflexão e intersubjetividade. No modo reflexivo, a mente pode se subdividir e contemplar o que está sentindo, e também considerar o que a intersubjetividade mente saudável pode usar tais recursos, mas na doença, o paciente fica como que preso na armadilha de ser obrigado a ver e viver de uma única forma, como que usando uma visão ciclópica, que só percebe uma única trilha. Em outras palavras: não existem alternativas. O autor nos leva a pensar que um paciente ainda que podendo ter alguma percepção de novas vias, isto é uma capacidade para perceber as questões da vida como tendo estereoscopia, ou seja, de modo tridimensional, ainda pode sentir-se preso em uma via. Pode, portanto, não usar a auto-reflexão por ser ameaçado por seus objetos onipotentes ou seduzido por esses, e ainda por ter inveja da capacidade do analista de usar a reflexão e a empatia.

  43 Grotstein (2003) concorda como Matte-Blanco , que não existe uma

  oposição dialética entre consciente e inconsciente, como colocou Freud. Para Matte-Blanco, entre inconsciente e consciente há correspondência e uma complementaridade ativa. O inconsciente é regido pelos princípios de simetria, e de generalização, isto é: tudo pode ser agrupado como igual, sem contradição, numa totalidade indivisível. Isto significa a possibilidade de homogeneidade e simetria absoluta. Mas na estrutura do ser humano há também outro componente, cujo extremo perceptível e mais distante do anterior, seria o que chamamos de consciente. Há infinitas gradações entre estes extremos. No consciente evidenciam-se as capacidades para a percepção e uso da assimetria, e, portanto da individualização, diferenciação e separação, e consequentemente de uma lógica bivalente, aristotélica clássica. O extremo inconsciente seria a psicose onde tudo equivale a tudo, o que faz com que no outro extremo possamos colocar a capacidade para vivenciar as posições esquizoparanoide e depressiva.

  O psiquismo funciona pela interação dessas duas lógicas, por isto Grotstein (2003) trabalha com o conceito de bi-lógica, onde essas estruturas diferentes estão juntas, e combinam-se numa estrutura binária oposicional. Existiria um

  

continuum entre consciente e inconsciente, e em cada situação psíquica, há uma

  interação dessas lógicas, a da simetria e a da assimetria. O autor diz:

  Gostaria de apresentar uma conjectura imaginativa sobre como essas várias entidades podem ser estruturadas. Primeiro imagine uma estratificação infinita de estruturas bi-lógicas, umas sobrepondo-se às outras ad infinitum, da indivisibilidade absoluta em direção à heterogeneidade absoluta. Também imagine que cada estrutura bi-lógica dessa estratificação infinita é, paradoxalmente, separada de sua estrutura adjacente e no entanto está ao mesmo tempo misteriosamente unida à ela, talvez numa faixa de Möbius de continuidade descontínua. Finalmente, imagine uma presença sobrenatural, segurando os braços de um compasso e ao mesmo tempo jogando os montes estratificados das estruturas bi-lógicas e da estrutura lógica bivalente como uma mão do corpo que pode ser esticada, torcida e comprimida. Por assim ser, esta presença sobrenatural, este “Geômetra Infinito”, pode orquestrar imaginativamente todas as possibilidades criativas estética, ontológica, e científica, podendo ainda coreografar todos os comportamentos concebíveis. (GROTSTEIN, 2003, p. 130).

  Sob este olhar binocular ou talvez mais propriamente multiangular, podemos pensar na sobreposição dos funcionamentos psíquicos, portanto, das atitudes e comportamentos emocionais de Mariano, ora autista, ora adesivo numa pseudorrelação comigo, ora ligado e tentando emergir de seu refúgio. E em nossas mentes tentando utilizar visões binoculares, conseguindo nalguns momentos e falhando noutros.

  Recordamos que, quando uma organização patológica é erguida, houve intenso sofrimento e fragmentação patológica (BION, 1988; STEINER, 1997). Uma parte onipotente passou a coordenar e trouxe alguma ordem à fragmentação, mimetizando uma função continente, com traços de ego e superego. Num momento em que o ego havia passado por intensíssima angústia, a estrutura onipotente, capaz de conter elementos psicóticos, assumiu o controle, dando certa tranquilidade ao caos. A tranquilidade da simetria, onde tudo pode ser equivalente, tem a ver com a morte do sujeito, mas paradoxalmente, enquanto tal estado mental puder ser levado para a proximidade de uma continência por parte de um analista, a possibilidade de novo encontro irá se manter. Um “Infinito Geômetra” poderá articular novo movimento.

  

6 CAMINHOS CRUZADOS EM TERRAS E MARES: CONTINÊNCIA,

ENTRELAÇAMENTO DE DEFESAS, PERVERSÕES E A

NECESSIDADE DA VERDADE

  O barco Meu coração, não aguenta Tanta tormenta, alegria Meu coração não contenta O dia, o marco, meu coração O porto, não! Navegar é preciso, Viver não é preciso (Caetano Veloso)

  Várias questões foram suscitadas pelo desenvolvimento da pesquisa. As ideias de Meltzer trazem uma visão do mundo interno, e por isto, começamos por elas.

  Meltzer enfoca o mundo mental construindo a imagem de uma geografia, e segue com figurações deste que vão desde o interior de objetos que remetem a partes do corpo materno até espaços sem forma ou sem nome.

  A figurabilidade pode ser algo que limita e que pode saturar ou dar aspecto excessivamente concreto a várias questões. Observamos, no entanto, que figurar e representar coisas num espaço é parte importante do aparato mental, tão importante que, apenas para citar um exemplo, sustenta manifestações artísticas desde os primórdios da humanidade. A capacidade simbólica é de extrema importância para a saúde mental e para o desenvolvimento do pensamento e, portanto, se as representações forem usadas de forma realmente simbólica e não concreta, a figurabilidade não será algo restritivo. Segundo Segal (1993, p. 68- 69), a verdadeira simbolização faz uso de elementos alfa, abertos a várias realizações, que se prestam à generalização, à abstração e à diferenciação. Ela diz, seguindo Bion, que quando há uma identificação projetiva normal, há um intercâmbio benigno entre coisa e representação, mas que se o continente tornar- se completamente identificado com a parte projetada ele desaparecerá e obstruirá a capacidade simbólica.

  Ela acredita que “uma identificação completa entre continente e contido seja devida à inveja e à incapacidade de tolerar e depender do continente, de modo que a identificação completa torna impossível a experiência de sentir-se contido” (1993). Dessa forma, as ideias de Segal mostram porque a experiência de ser contido (e de verdadeira continência) não é possível num claustro, nem num refúgio e nem em qualquer organização patológica. Como neles existe uma tentativa de identificação absoluta com objetos onipotentes, a experiência de continência não ocorre, pois ela só é possível quando há, apesar da identificação, alguma diferenciação e tolerância a ela, o que envolve algum contato com a experiência depressiva.

  Segal (1993, p. 62-69) também postula que as equações simbólicas tenham um rudimento de significado simbólico, muito primitivo. Ela acredita que a equação concreta seria um estágio transicional entre os elementos beta e alfa (Id. Ibid.). Estes se tornam impeditivos de crescimento se houver uma retenção nesse estágio. A essa altura talvez seja útil aventar a possibilidade de que formas autistas possam se aproximar lentamente de equações simbólicas. E a posteriori poderão se aproximar mais da simbolização mais evoluída, se a experiência de continência verdadeira estiver disponível. Seria uma passagem de uma pseudorrelação adesiva para uma relação através de uma equação simbólica, e daí, ainda dependendo de encontrar boa continência no objeto, caminhar para relações verdadeiras, as quais também se desenvolvem muitíssimo com a simbolização. Isso não implica que as pseudorrelações deixem de existir no universo mental, nem que a equação simbólica seja destino obrigatório para as pseudorrelações.

  Mas isso também irá requisitar a possibilidade de se transitar entre as posições esquizoparanoide e depressiva. Vimos, porém, que se as angústias forem muito intensas, aliadas ou não à falta de continência por parte do objeto, isso ficará muito difícil. É nesse momento que Steiner aponta para a possível ocorrência de algum grau de fragmentação patológica, abrindo a possibilidade para a criação de um refúgio que será sustentado pela organização.

  Se voltarmos ao exemplo da arte, veremos que mesmo que por séculos alguns padrões tenham sido impostos como forma de beleza, estes mesmos não puderam impedir outros processos e outras concepções sobre arte, muitos radicalmente diferentes do modelo e das regras. Isso nos lembra de que símbolos mantêm a abertura à mudança e à transformação, e que relembrando o caso de Mariano, a possibilidade latente de crescimento poderá ser mantida, e talvez ser retomada noutro momento de sua vida.

  Penso que Meltzer, Rosenfeld e Steiner não têm seu valor diminuído por arriscarem-se a dar nome a situações mentais e mesmo representá-las com alguma figurabilidade, coisa que quem os estuda poderá perceber não ter a pretensão de serem verdades absolutas ou obstruírem o que possa vir a ser desenvolvido com, além, ou à revelia de seus conceitos. A utilidade de nomes e símbolos decorre, a meu ver, do enriquecimento e de oferecerem alguma seletividade à apreensão de coisas do mundo. Ainda que localize e circunscreva, permite a individualização e a possibilidade de reconhecer cada experiência, processo pelo qual a lógica aristotélica pode ter lugar, mesmo que ao lado da lógica simétrica. Como disse Aristóteles, o indivíduo, ainda que contido no todo, é que é o objeto que faz o cuidado e a cura (quando possível) terem sentido.

  O esforço de Bion para demonstrar a importância de não saturar precocemente conceitos ou campos de conhecimento levou-o a propor conceitos abertos, como função alfa, reverie, transformações, etc., que mantinham espaço para mudanças, algo que faz lembrar a origem da palavra símbolo. Ela remonta ao nome das duas metades de um objeto de cerâmica que era partilhado entre duas pessoas e que, uma vez reunidas, lembravam um acordo de respeito mútuo que haviam feito e era uma forma de se reconhecerem e se aceitarem, mesmo que diferentes entre si.

  Meltzer fala de uma região no espaço geográfico interno que ele chama de

  

nowhere, onde ele pensa predominar o funcionamento psicótico. Talvez esta área

  possa ser pensada em conjunto com as aberrações assimbólicas do desenvolvimento, propostas por Mitrani. Pois para aquele autor, o nascimento de um bebê pode implicar em perder capacidades e aspectos (talvez funções) mentais, ou pré-mentais, que ele tinha no útero. Mitrani também aceita esta possibilidade, de modo que as deficiências da continência materna poderiam, junto à perda do ambiente uterino, envolver experiências insuportáveis, ou quase. pela placenta, e não dependem da ação complexa de um objeto externo. Ao nascer, essa dependência do objeto externo passa a ocorrer e o bebê é capaz de sentir fome, de respirar, de sentir peso e perde a capacidade para o bem-estar que havia no útero. O nowhere lembra o objeto obstrutivo (GROTSTEIN, 2010), com sua dificuldade de dar lugar a seus próprios conteúdos.

  Por isso, além das fragilidades descritas por Tustin e Mitrani, que implicam na impossibilidade de tolerar separação física da mãe, ainda teríamos, segundo Meltzer, outras descontinuidades e perdas. Diante destas perdas e da dificuldade de estabelecer novas maneiras de viver, o desenvolvimento de formas autistas poderia ser propiciado e, também, o de organizações patológicas. Na ausência de um bom continente para nutrir psiquicamente o bebê e assim fazer a vida seguir seu caminho e seu sentido, as capacidades simbólicas e de pensamento podem ser prejudicadas.

  Mitrani (2007) frisa em concordância com Grotstein, que o desenvolvimento psíquico e mental pode ser visto e concebido como ocorrendo em múltiplas vias simultâneas, paralelas e diferentes, como pistas ou raias numa quadra ou numa estrada. Bion também pensava que áreas neuróticas e psicóticas coexistem numa personalidade. Assim sendo, o fato de existirem fenômenos primitivos tipo autísticos não invalidaria a possibilidade de, em outras áreas da mente e da personalidade, existirem outros funcionamentos paralelos, como fenômenos psicóticos e/ou neuróticos. O próprio conceito de barreiras autistas e pseudorrelações objetais adesivas em pacientes neuróticos baseia-se nisso.

  Na área psicótica nowhere, o funcionamento é dominado por elementos beta com traços de ego e superego (MELTZER, 2008, p. 61-62). Para Grotstein (2010) a própria estrutura do refúgio seria composta por uma tela beta. Essa área poderia atrair para si e aliciar outros fenômenos mentais primitivos, como, por exemplo, as aberrações assimbólicas e os núcleos autistas. Fenômenos ligados ao fracasso em tolerar a realidade e usar pensamento poderiam se aproveitar do uso alterado das relações objetais que ocorrem nas pseudorrelações objetais adesivas, as quais também provocam uma alteração do modo de se relacionar com os objetos e consigo mesmo.

  Seguindo o raciocínio, uma criança que tenha ao nascer, deixado capacidades ou funções mentais no útero, e vier a sofrer por dificuldades no ambiente e falhas na capacidade de reverie da mãe, se for ainda sobrecarregada por mais privações poderia desenvolver formas autistas. Poderia, também, ao atravessar os conflitos entre ceder ao pensamento mágico da área psicótica e enfrentar as posições esquizoparanoide e depressiva, não suportar e desistir, cedendo ao pensamento psicótico. Nessa situação, uma organização patológica poderia crescer e, dependendo do momento, assumir o controle da personalidade.

  Defesas mais primitivas podem seguir com pouca mudança e permanecerem camufladas, coexistindo com áreas evoluídas e, juntamente com estas, serem aliciadas como propõe Steiner, pela parte perversa de uma organização patológica. As áreas mais primitivas não teriam recursos para se opor a isso.

  Rosenfeld (1988), como Tustin (1990), acreditava que algo semelhante a um processo osmótico poderia ocorrer e emoções maternas poderiam transbordar para o feto, que não teria como escapar disso. Tal situação poderia se ligar ao desenvolvimento de organizações patológicas, pois a falta de continência e

  

reverie maternas podem ter consequências desastrosas para um bebê. O

  transbordamento sugere que experiências ruins também poderiam ser transmitidas ao bebê, causando para ele maior dificuldade de manejo com a posição esquizoparanoide, e levando a uma catástrofe precoce (BION, 1988; GROTSTEIN, 2009, 2010). Nessa catástrofe também entram as dificuldades maternas de acolher as projeções de seu bebê.

  Algumas situações que podemos perceber como uma distorção da realidade, e que parecem perversas, talvez possam ter sustentação não somente no mecanismo perverso (STEINER, 1997) em si, mas também em mecanismos autistas (MITRANI, 2007) os quais, por sua discrepância para com relações de objeto normais e/ou mais complexas, podem dar a impressão de serem perversos, mas residem na tentativa de estabelecer pseudorrelações adesivas com algo inanimado que provê uma segurança sem meandros humanos e, portanto, sem risco de perda.

  A reiteração de privações pode também levar a isso, uma vez que repetir obsessivamente atitudes ou formas autistas, idiossincrásicas (TUSTIN, 1990), que dão suporte ignorando a realidade, pode provocar um afastamento da relação real com objetos, que, num âmbito mais amplo, pode ter efeitos perversos e, no âmbito do desenvolvimento do sujeito, possivelmente o tem. As pseudorrelações podem, justamente por sua precariedade, dar lugar a distorções e efeitos perversos nas relações afetivas, mesmo que não tenham essa intenção, nem sejam originadas disso. Tal me parece o caso de Mariano, mas creio que ele também se alinhe ao relatado nas considerações sobre organizações patológicas.

  Outra questão seria o fato de que, após algum progresso do self como um todo, defesas autistas possam vir a ser usadas de forma perversa por uma parte do ego mais evoluída, capaz de perceber e de ter insight, mas ligada e dependente de refúgios psíquicos (MITRANI, 2007, p. 141-146). E Bion (1988) também expôs o quanto áreas neuróticas da personalidade podem fazer mal uso de áreas psicóticas, e vice-versa.

  Meltzer refere que algumas crianças desenvolvem núcleos de identidade no interior de objetos com os quais fizeram intensa identificação projetiva. Assim sendo, ele veio a descrever vários núcleos de identidade no eu, diferentes entre si, em interação complexa na geografia mental interna. Embora nas situações autistas não haja uma noção de objeto ou de identidade, até porque uma depende da outra, talvez um senso de pseudoidentidade possa se fazer presente. Freud dizia que o ego é, antes de tudo, ego corporal, e as pseudorrelações adesivas (MITRANI, 2007) parecem criar em seus portadores uma espécie de identidade. Também podem fazer isto por proporcionarem uma experiência de concretude, tangível e persistente, e que parece ter nível primitivo, atávico e biológico, sendo por isso difícil de mudar.

  Isso lembra também a equação simbólica pois esta iguala coisas e suprime diferenciações. Portanto até alguns processos simbólicos primitivos ou psicóticos podem servir de apoio à pseudorrelações objetais, pois se houver uma equação simbólica que faça uma relação afetiva ser igual ao estar aderido, ela fomentará o mecanismo autista, mesmo que seja diferente dele. Essas cogitações requerem mais estudos, mas foram desencadeadas no processo de referirem ao princípio de simetria do inconsciente, e a proposta do Geômetra Infinito (GROTSTEIN, 2003).

  Outro aspecto importante relaciona-se com a experiência de ser jogado

  44

  fora, descrita por Tustin (1990), Mitrani (2007) e também Kristeva (1982). Sentir- se jogado fora, inexistente ou impróprio para existir é muito diferente de sentir-se perseguido. Parece envolver uma experiência de não ter lugar, não ter importância e não poder existir para alguém. Penso que essa experiência pode ocorrer quando a continência materna falha por diversos motivos. Para sentir-se perseguido, é necessário que tenha havido uma relação de objeto boa e que ela tenha sido perdida (ainda que temporariamente) e que, em seu lugar, tenha sido instalada uma relação com um objeto ruim.

  Essa outra experiência é a de não poder estabelecer o que deveria ser a relação com um objeto, pois o objeto que deveria propiciar isso não está disponível. Creio que, ao ter dificuldade para falar, o receio de meu paciente talvez não fosse apenas ligado ao de ser perseguido e humilhado. Mas também e talvez principalmente o de não encontrar alguém que o quisesse ouvir, de modo que o que tinha para transmitir ficava e era perdido num nada, numa ausência de importância, ou ausência de existência. Uma situação para onde ele podia ser sempre expulso. Faz pensar na experiência de uma criança não se sentir existindo de forma consistente para a mãe. E de uma mãe que não reclamasse a existência da criança (ALVAREZ, 1992).

  A vicissitude de ser tratado por alguém como um ser nulo, ou de ter as próprias necessidades vistas por alguém como descartáveis, pressupõe a frustração na busca de um objeto. Mas, além disto pode trazer uma experiência de que não há algo a ser encontrado, ou de que nessa busca, que deveria terminar num encontro, algo se perdeu, incluindo aquilo que o sujeito queria transmitir, até ele próprio. Assim, o sujeito pode estabelecer um modo de comunicação que também descarte o objeto, uma vez que este nem sempre esteve disponível. O ritmo de segurança não se fez. No entanto, o sujeito também “descarta” a si mesmo, pois desiste de criar condições para ser encontrado, fica 44 Mitrani cita a descrição de Kristeva da experiência de ser rejeitado, que faria com que uma única

  

qualidade de um objeto fosse retida pelo sujeito; a deste sujeito estar atado ou separado do com a experiência de ser nulo, e de que aquilo que tinha a transmitir não tinha importância. Tudo isso pode ter efeitos perversos.

  Tal experiência de ser deixado e não encontrar eco para o qual ou para quem tentávamos nos endereçar, e sentir-se anulado, não é difícil de ser reconhecida e, a meu ver, depois de todo este percurso, não está exatamente ligada à perseguição. Pode estar ligada a algo primitivo, uma dúvida e, às vezes, uma estranha sensação de não ter existência ou importância para o objeto e, portanto, para nós e para o mundo. As consequências disso podem ser coisas estranhas e bizarras, num nowhere, mas provindos de outra vivência fora das situações esquizoparanoides e depressivas.

  Uma organização patológica é sustentada amplamente por crenças falsas, às quais a pessoa pode ter imensa dificuldade de renunciar. Britton diz que crenças são sustentadas por fantasias que, mesmo quando expostas ao teste de realidade, podem permanecer intactas. Ele coloca:

  A partir do momento em que ideias se tornam crenças, elas têm consequências. As crenças podem ser conscientes ou inconscientes, mas não podem ser testadas ou abandonadas sem antes se tornarem conscientes. As crenças requerem o teste da realidade para se tornarem conhecimento. O teste de realidade ocorre através da percepção do mundo externo ou da correlação interna com fatos já conhecidos e outras crenças. Se a experiência e o conhecimento subsequentes desacreditam uma crença, é preciso renunciar a ela; isto requer um processo de luto se for uma crença importante ou preciosa. (BRITTON, 2003).

  Se uma experiência dolorosa oriunda de não ter importância ou existência para um objeto for muito reiterada e tornar-se duradoura, ela poderá contribuir para formar uma crença difícil de ser abandonada. Ainda tem-se que considerar que a organização patológica por buscar suportes onipotentes, só crê neles e cria dificuldades para a aceitação e valorização de cuidados menos onipotentes. Outras crenças inconscientes, como um intenso ressentimento pelas privações edípicas, também poderiam manter Mariano ligado e dependente de um sistema defensivo poderoso, para paradoxalmente não se sentir expulso.

  A posição do analista diante desse processo requer uma tolerância para as oscilações entre as posições esquizoparanoide e depressiva constantes. As questões a serem trabalhadas eram e continuam difíceis e melindrosas, mesmo as dificuldades concretas para ouvir, entender, os sobressaltos com as alterações de voz, implicavam numa enorme tolerância à situação esquizoparanoide, e exigindo o constante exercício da capacidade negativa. E a tentativa de compreender, a possibilidade de alcançar uma posição depressiva, por inúmeras vezes parecia inatingível e quando encontrada, aquém da necessária.

  O analista também tem que lidar com o sentimento de ser carente de habilidades mínimas: literalmente precário para ouvir e, ainda assim, precisa tentar. Não saber com que tipo de vivências primitivas irá se deparar e precisar tentar ter continência e trabalhar com elas, mesmo sem saber onde irão levá-lo e se será capaz disso. Ele precisa como o paciente, não sucumbir diante da sensação de que sua existência não importa ou de que foi lançado ao nada, quando tenta trabalhar.

  Anne Alvarez fala da função da mãe de chamar a criança para si, dar importância a ela, requisitá-la. Ela atribui à mãe a reclamação, a convocação de seu bebê para a vida e para o encontro com alguém vivo. Esta possibilidade e os sentimentos de que isto era fundamental com Mariano, e que permanecia importante apesar da presença do refúgio, existindo em paralelo com este, permaneceram comigo durante todo o trabalho.

  Revendo o caso de Schreber, Steiner (2011) observa que o quadro psicótico daquele magistrado desencadeou-se após um período depressivo, decorrente da frustração de seu desejo de ter filhos. Essa perda narcísica foi-lhe insuportável. Podemos pensar em algo semelhante em Mariano porque, depois do acidente, sua vida mudou. A voz poderia ser uma metáfora de outras perdas. Podemos compará-la a uma atuação das perdas no corpo, por dificuldade de elaboração interna. Talvez haja também um transbordamento em associação a algo psicótico: a dor psíquica e a sensação de fracasso da autoestima eram projetadas na voz, mas de forma tão intensa e persistente, que não eram uma projeção comum. Havia algo que produzia o efeito sonoro de uma lesão severa nas cordas vocais, e que, mesmo com todos os tratamentos e garantias de ausência de lesão orgânica, não melhorava.

  Embora também se possa pensar na dissociação histérica, a gravidade da situação apontava para algo mais complexo. Além disso, Mariano não tinha nada da belle indifférence tão comum no histérico. Ao contrário, era sobressaltado e afrontado por aquela situação em si próprio, e não parecia capaz de usar insights para aquela parte si mesmo. Neste ponto, parecia reviver uma cesura (TUSTIN, 1990), uma traumática separação, num momento em que sua mente estava totalmente incapaz para isso.

  Trazemos para terminar, algumas considerações a partir da leitura de Grotstein (2009). Esse autor publicou um livro com o sugestivo nome de:...But at

  

the same time and on another level... (...Mas ao mesmo tempo e num outro

nível...) Nele estuda e discute ricamente várias teorias psicanalíticas baseadas

  em Klein e Bion. Um dos temas consiste nos refúgios psíquicos. Embora siga Steiner, Grotstein acrescenta ênfase à catástrofe emocional nos primórdios da vida psíquica que precede a instalação do refúgio. Por isto, realça a falha na função de continência materna, portanto da função alfa, e toma emprestada de Bion a noção de objeto obstrutivo, o qual se instala no interior do ego. Tal objeto não seria capaz de metabolizar as projeções que recebia, e sua instalação completaria o panorama da catástrofe emocional precoce. Ao invés de um objeto continente, estes pacientes seriam portadores de um objeto que obstrui a introjeção e a reapropriação de aspectos projetados. Por isso tem enorme necessidade de projetar, como se livrar-se de coisas indesejadas fosse o mesmo que estar bem. Na visão de Grotstein as organizações patológicas estariam ligadas a casos muito graves, ao passo que para Steiner há vários graus de pertencimento a refúgios e, portanto, diferenças nas organizações e no comprometimento global da personalidade.

  Uma metáfora para tal objeto obstrutivo pode ser percebida nos versos de

  

Os Argonautas, no coração que não aguenta tanta tormenta, e não se contenta

com a alegria. E na menção a algo que foi um marco e que parece fazer com que

  o coração ao se aproximar do porto diga Não! Há uma ideia de que os sentimentos são insuportáveis, e o estribilho convida a não viver, apenas navegar, sugerindo as ondulações, as formas autistas e as pseudorrelações adesivas em que algo é feito de forma automática para evitar o contato com coisas vivas e humanizadas.

  Outro elemento mencionado por Grotstein, baseando-se em suas compreensões de Bion e Matte-Blanco é que o inconsciente e o consciente funcionam em forma de oposição complementar, não necessariamente conflitante ou antagônica. Isto contribui para sustentar a possibilidade de vários tipos de funções mentais ocorrendo concomitantemente, como o autor havia postulado ao falar de duplas vias, e da sincronicidade dos hemisférios cerebrais como metáfora para o funcionamento psíquico: complexo, com várias possibilidades simultâneas, dotado de lógicas que se superpõem. E que também está contemplado em sua descrição do “Infinito Geômetra”.

  A proposta de que o ego mantém visões antagônicas sobre algo importante, fazendo prevalecer a acepção perversa, coloca Steiner ao lado da proposta de Grotstein das vias paralelas. O elemento perverso prevalece e impede que outras interações e integrações possam ocorrer. No refúgio psíquico, não é possível a complementaridade: esta existe, mas não é levada em conta, pois a natureza da perversão é desprezar a verdade. Pode haver insight sobre como a organização atrapalha, mas continua a ocorrer a primazia do vínculo –K, e a organização mantém a soberania. A tarefa analítica busca e tenta criar condições para a integração, e a minimização daquele tipo de prevalência.

  Parece-nos significativo aceitar a ideia de que nossos pacientes possam ter estruturas múltiplas, e sistemas defensivos múltiplos, mas justamente por isto, também tenham diversos recursos internos que podem ser mobilizados para promover crescimento. E que podem ficar ao alcance, em algum momento se tivermos capacidade de manter a mente aberta.

  Comprovamos que a compreensão dos refúgios psíquicos e de outras organizações patológicas tem imensa utilidade na área clínica, além de servir para desvendar um pouco das dificuldades da abordagem terapêutica de pacientes com sistemas defensivos adoecidos. Parece-nos possível propor que Steiner e Mitrani trabalham com aspectos complementares de uma questão fundamental: a continência. Em Steiner podemos pensar que mesmo quando a continência estiver disponível, a inveja e/ou a intolerância a depender de bons objetos poderá prejudicar o aproveitamento e a experiência de ser contido. Em Mitrani podemos observar a não formação do contato com o objeto continente e a pseudorrelações objetais adesivas. Vemos assim que formar vínculos capazes de trazer e prover saúde psíquica segue sendo uma necessidade básica do ser humano, mas é sem dúvida, uma construção desafiadora.

  A busca da verdade pelo inconsciente, como parte de nossa vida instintiva, e a necessidade dela como uma “respiração mental” são funções ressaltadas por Grotstein (2009, 2010), em sua compreensão do trabalho de Bion. Penso que a busca da verdadeira continência era uma parte da verdade de Mariano, que permanecia viva e revelada na dificuldade com a fala, e durante muitos momentos em nosso trabalho. Uma fala que se queria poderosa, mas se revelava frágil e carente, buscando ajuda, ainda que depois a recusasse ou a usasse de forma incerta. Creio que este desejo de verdade permaneceu e permanece oculto em muitos pacientes, como em Mariano, caminhando em paralelo e parcialmente obscurecido pela organização patológica. Nas palavras de Grotstein, percebe-se o impulso e a necessidade da verdade como legado inesgotável do ser humano. Tal legado está sempre presente, ao mesmo tempo e num outro nível.

  E para pensar no inconsciente, com sua lógica simétrica em que tudo pode ser igualado e valer à pena,e ainda nas vicissitudes e riquezas de nosso mundo interno e na mão que o “Infinito Geômetra” nos oferece e dá a tudo o que existe, trago um trecho de Fernando Pessoa:

  E a criança tão humana que é divina É esta minha quotidiana vida de poeta, E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre, E que o meu mínimo olhar Me enche de sensação, E o mais pequeno som, seja do que for, Parece falar comigo. A criança nova que habita onde vivo Dá-me uma mão a mim E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo E gozando o nosso segredo comum Que é o de saber por toda parte Que não há mistério no mundo E que tudo vale a pena.

REFERÊNCIAS

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ANEXOS

  Travessia (Milton Nascimento)

  Quando você foi embora, fez-se noite em meu viver Forte eu sou mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar Minha casa não é minha, e nem é meu este lugar Estou só e não resisto, muito tenho prá falar Solto a voz nas estradas, já não quero parar Meu caminho é de pedras, como posso sonhar Sonho feito de brisa, vento vem terminar Vou fechar o meu canto, vou querer me matar.

  Vou seguindo pela vida, me esquecendo de você Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver Solto a voz nas estradas, já não quero parar Meu caminho é de pedras, como posso sonhar Sonho feito de brisa, vento vem terminar Vou fechar o meu canto, vou querer me matar.

  Ripples (by Genesis)

  Bluegirls come in every size some are wise and some otherwise They've got pretty blue eyes For an hour a man may change For an hour her face looks strange Looks strange, looks strange

  Marching through the promised land Where the honey flows and takes you by the hand Pulls you down on your knees While you're down a pool appears The face in the water looks up And she shakes her head as if to say That it's the last time you'll look like today Sail away, away Ripples never come back Gone to the other side Sail away, away The face that launched a thousand ships Is sinking fast, that happens you know The water gets below Seems not very long ago Lovelier she was than any that I know Angels never know it's time To close the book and gracefully decline The song has found a tale My, what a jealous pool is she The face in the water looks up And she shakes her head as if to say That the bluegirls have all gone away Sail away, away Ripples never come back Gone to the other side

  Look into the pool Ripples never come back Dive to the bottom and go to the top to see where they havegone Oh, they've gone to the other side

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