Contribuições da análise do comportamento à educação: um convite ao diálogo.

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CONTRIBUIÇÕES DA ANÁLISE DO COMPORTAMENTO À EDUCAÇÃO: UM CONVITE AO DIÁLOGO OUTROS TEMAS CONTRIBUIÇÕES DA ANÁLISE DO COMPORTAMENTO À EDUCAÇÃO: UM CONVITE AO DIÁLOGO MARCELO HENRIQUE OLIVEIRA HENKLAIN JOÃO DOS SANTOS CARMO 704 CADERNOS DE PESQUISA v.43 n.149 p.704-723 maio/ago. 2013 Agradecemos às professoras Aline Reali e Olívia Kato pelas críticas e sugestões feitas. Marcelo Henrique Oliveira Henklain é apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – Fapesp – mediante concessão de bolsa de mestrado, e esta pesquisa foi realizada durante a vigência de bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes. João dos Santos Carmo é apoiado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia – MCT –, no âmbito do Edital n. 15/2008, com auxílio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq – e da Fapesp. RESUMO A despeito de dados bastante sólidos, as contribuições da Análise do Comportamento ao planejamento de condições de ensino têm sido subutilizadas. Este artigo objetiva compartilhar algumas dessas contribuições com o campo da educação. Com base em trabalhos acerca das aplicações da Análise do Comportamento para a educação, ofereceremos algumas orientações sobre aspectos relevantes envolvidos nos processos de ensino-aprendizagem aos quais os professores devem estar atentos. Dividimos as contribuições em três categorias: contribuições da filosofia behaviorista radical; descrição e aplicação de princípios do comportamento ao contexto educacional; algumas propostas sistematizadas de ensino de base comportamental. Novos estudos poderiam aprofundar a descrição das contribuições comportamentais à educação e destacar essas contribuições por áreas. anÁlise do CoMPorTaMenTo ProCesso de ensino-aPrendiZageM PsiCologia da eduCação Marcelo Henrique Oliveira Henklain e João dos Santos Carmo CONTRIBUTIONS OF BEHAVIOR ANALYSIS TO EDUCATION: AN INVITATION FOR DIALOGUE ABSTRACT Despite solid evidence, the contributions of Behavioral Analysis for planning of teaching conditions have been underutilized. This article aims to share some of these contributions to the field of education. Based on work concerning the applications of Behavioral Analysis to education, the article offers some guidance on relevant aspects that teachers should be aware of in teaching-learning processes. The contributions are separated into three categories: radical behaviorist contributions; description and application of behavioral principles to the educational context; systematized teaching proposals with a behavioral basis. New studies could deepen the behavioral contributions to education and highlight them by areas. behaVior analYsis learning and TeaChing ProCesses eduCaTional PsYChologY CONTRIBUCIONES DEL ANÁLISIS DE LA CONDUCTA A LA EDUCACIÓN: UNA INVITACIÓN AL DIÁLOGO RESUMEN A pesar de datos bastante sólidos, las contribuciones del Análisis de la Conducta a la planificación de condiciones de enseñanza han sido subutilizadas. El presente artículo tiene el propósito de compartir algunas de esas contribuciones al campo de la educación. En base a trabajos acerca de las aplicaciones del Análisis de la Conducta para la educación, ofreceremos algunas orientaciones sobre aspectos relevantes involucrados en los procesos de enseñanza-aprendizaje a los que los docentes siempre deben estar atentos. Dividimos las contribuciones en tres categorías: aportes de la filosofía behaviorista radical; descripción y aplicación de principios del comportamiento al contexto educacional; algunas propuestas sistematizadas de enseñanza de base conductivista. Nuevos estudios podrían profundizar la descripción de las contribuciones comportamentales a la educación y destacarlas por áreas. anÁlisis de la ConduCTa ProCeso de enseÑanZa Y aPrendiZaje PsiCologÍa de la eduCaCión CADERNOS DE PESQUISA v.43 n.149 p.704-723 maio/ago. 2013 705 CONTRIBUIÇÕES DA ANÁLISE DO COMPORTAMENTO À EDUCAÇÃO: UM CONVITE AO DIÁLOGO P odeMos CaraCTeriZar a PsiCologia como uma das ciências da educação (PLAISANCE; VERGNAUD, 2003). Essa ciência é marcada pela diversidade de abordagens teórico-metodológicas (FIGUEIREDO, 1991), sendo importante o psicólogo destacar qual ponto de vista utilizou para analisar fenômenos e processos psicológicos ou propor intervenções. Adotaremos neste artigo o ponto de vista da Análise do Comportamento. Consideramos que essa abordagem tem contribuições importantes para oferecer aos educadores. Contudo, a insistência em classificar a abordagem comportamental à educação como tecnicista e redutora do homem, a despeito de diversos trabalhos que demonstraram o contrário (CARMO; BAPTISTA, 2003; CARRARA, 2005; LUNA, 2000; TEIXEIRA, 2006; TODOROV; MOREIRA, 2008; RODRIGUES, 2011; SKINNER, 1969, 1972 [1968], 1991 [1989]), cria barreiras a um diálogo proveitoso e ao desenvolvimento e implementação de propostas viáveis que podem colaborar com os diferentes esforços empreendidos para ajudar a educação brasileira a melhorar. Enquanto o trabalho de muitos profissionais é, por vezes, vetado ou diminuído em função de divergências entre abordagens teórico-metodológicas, nota-se que, sem a atenção e orientação necessárias, os professores persistem com dúvidas sobre as melhores práticas de ensino e podem acabar empregando metodologias ineficazes (SKINNER, 1972 [1968]). Essas dúvidas dos professores sinalizam uma importante demanda social: a necessidade de identificação de práticas de ensino que ajudem os alunos a aprender. Do ponto de vista da psicologia comportamental, segundo Skinner (1972 [1968]), para que seja possível contribuir 706 CADERNOS DE PESQUISA v.43 n.149 p.704-723 maio/ago. 2013 com as práticas de ensino, faz-se necessário estudar o comportamento humano por meio de uma análise experimental para que sejam identificados princípios do comportamento que permitam a proposição e aplicação de práticas de ensino eficientes e eficazes. Neste artigo não buscamos dar respostas definitivas; sabemos da complexidade envolvida na resolução dos problemas educacionais. A despeito da opção teórica que adotamos, reconhecemos que nossas respostas não são as únicas possibilidades de abordar essas questões. Existe uma rica e importante diversidade de perspectivas teóricas, com fundamentação científica e boa disposição ao diálogo, devendo, portanto, participar do debate. Educadores e cientistas com diferentes formas de pensar têm realizado em suas universidades e escolas trabalho árduo no sentido de pensar e propor reformas para a educação porque estão todos motivados a produzir mudanças socialmente significativas. Pretendemos compartilhar algumas contribuições da Análise do Comportamento com o campo da educação. Enfatizamos que um diálogo proveitoso pode ser estabelecido entre diferentes perspectivas teóricas que atuam nesse campo e a Análise do Comportamento (CARMO; BAPTISTA, 2003). Para alcançar os objetivos apresentados, ofereceremos um breve resumo dos princípios teórico-metodológicos da Análise do Comportamento, seguido por uma descrição de algumas contribuições comportamentais à educação. Pretendemos com este texto sinalizar aspectos fundamentais dos processos de ensino e aprendizagem segundo a Análise do Comportamento. Se o professor for sensível a esses aspectos, provavelmente terá melhores chances de criar condições facilitadoras da aprendizagem de seus alunos. Evidentemente, temos clareza de que um bom desempenho docente em sala de aula está atrelado a outros fatores relevantes que fogem à proposta do artigo; porém, os apontamentos aqui apresentados podem contribuir sobremaneira com a prática docente. Ressaltamos que este artigo deve ser lido não como uma crítica ao trabalho dos professores, mas como uma contribuição que busca sinalizar o que esses podem fazer ou a que aspectos do comportamento dos seus alunos devem estar atentos para produzir aprendizagem de forma eficiente e gratificante. Evitaremos ao máximo o uso de termos técnicos. Referências com maiores aprofundamentos nos temas discutidos serão fornecidas ao longo do texto. a anÁlise do CoMPorTaMenTo Análise do Comportamento é uma abordagem em psicologia, produto do intercruzamento do Behaviorismo Radical1 (pressupostos teóricos, filosóficos e históricos), da Análise Experimental do Comportamento 1 O termo radical significa raiz ou aquilo que é básico e essencial. Ao qualificar a expressão “behaviorismo”, esse termo traz o significado de que o comportamento é o objeto de estudo por excelência do psicólogo comportamental. Significa também que todos os fenômenos e processos psicológicos são interpretados como comportamentos. CADERNOS DE PESQUISA v.43 n.149 p.704-723 maio/ago. 2013 707 Marcelo Henrique Oliveira Henklain e João dos Santos Carmo CONTRIBUIÇÕES DA ANÁLISE DO COMPORTAMENTO À EDUCAÇÃO: UM CONVITE AO DIÁLOGO (método de investigação científica do comportamento – dados empíricos) e da Análise Aplicada do Comportamento (criação e administração de recursos de intervenção social) (TOURINHO, 1999). Essa abordagem estuda o comportamento, entendido como relação entre classes de estímulos (público e privado, histórico e imediato, social e não social) e classes de respostas de um organismo biologicamente constituído, ambas definidas por suas funções (CARVALHO NETO; ALVES; BAPTISTA, 2007). O comportamento é um processo (muda ao longo do tempo). Comportamentos apresentados em diferentes momentos podem ser similares em termos de forma e função. Contudo, não são iguais. O termo classe enfatiza justamente essa característica do comportamento. O que pode ser dito é que uma variedade de estímulos (uma classe) possui determinada função em relação a um conjunto de respostas (outra classe). O termo resposta é utilizado para destacar um dos componentes da relação comportamental; diz respeito a uma determinada ação do organismo num determinado momento. Portanto, é menos abrangente que o termo comportamento. Os analistas do comportamento estudam basicamente dois tipos de relações comportamentais: respondentes e operantes. Embora o estudo do comportamento respondente seja importante em muitos aspectos teóricos e práticos, existe uma ênfase no estudo dos operantes por sua relação direta com grande parte dos comportamentos complexos que exibimos cotidianamente. O comportamento operante pode ser explicado funcionalmente e estudado em termos de eventos antecedentes, respostas do indivíduo e eventos consequentes (TODOROV, 2007). Uma relação reflexa, por seu turno, é estudada em termos de eventos antecedentes e respostas eliciadas por esses eventos antecedentes. Em poucas palavras, os analistas estudam relações organismo-ambiente, denominadas comportamento. O comportamento é entendido como evento natural e multideterminado em três níveis de variação e seleção: (a) filogenético, (b) ontogenético e (c) cultural. Desse ponto de vista, o comportamento não é tomado como produto de um agente iniciador e/ou de uma mente não física (SKINNER, 1998 [1953]; 1999 [1974]). Os analistas do comportamento identificaram diversas regularidades no comportamento. A descrição dessas regularidades deu origem a um conjunto de princípios básicos de aprendizagem bastante útil no estudo e compreensão dos comportamentos humanos. Um desses princípios descreve que a consequência produzida por uma resposta pode ter, basicamente, dois efeitos sobre essa resposta: (a) fortalecimento ou (b) enfraquecimento. O efeito de fortalecimento implica que uma dada resposta tem a sua probabilidade futura de ocorrência aumentada. Já o efeito de enfraquecimento implica que a resposta terá menor probabilidade de ocorrer novamente no futuro. As consequências que fortalecem 708 CADERNOS DE PESQUISA v.43 n.149 p.704-723 maio/ago. 2013 Marcelo Henrique Oliveira Henklain e João dos Santos Carmo uma resposta são chamadas de reforçadoras. Aquelas que a enfraquecem podem ser denominadas de punitivas. No que diz respeito à produção de conhecimento novo, nota-se o emprego frequente em Análise do Comportamento de pesquisas experimentais ou quase experimentais, com sujeitos humanos e não humanos e, geralmente, o uso da taxa e da frequência de respostas como medidas dos efeitos da manipulação de variáveis independentes, que podem ser eventos antecedentes ou consequentes. A descrição das relações organismo-ambiente constitui o objetivo fundamental da análise comportamental, possibilitando a compreensão de por que “fazemos o que fazemos” nas circunstâncias em que o fazemos. Segundo Skinner (1998 [1953]), a Análise do Comportamento tem o papel de gerar conhecimento que nos capacite a lidar com o comportamento (seja ele de humanos ou não humanos) de modo mais eficiente. No jargão técnico dos analistas do comportamento, isso pode ser descrito como o compromisso da ciência comportamental com a previsão e o controle do comportamento. Falar em previsão e controle do comportamento parece ser algo que coloca em risco ou nega a liberdade e criatividade humana; e sugere que o homem é uma máquina, que o comportamento humano é simples e não complexo, linear e não mutável. Pensar assim é um equívoco. Ao contrário do que se acredita, previsão e controle podem gerar liberdade. Quando se diz que é possível prever um comportamento, não significa propriamente dizer qual será o futuro da pessoa, mas da probabilidade de se produzir um tipo de interação. Quanto mais soubermos quais e como as variáveis afetam nosso comportamento, maior será a nossa “liberdade” de mudar nossos caminhos e alterar o nosso futuro (SKINNER, 1998 [1953], 1999 [1974]). Ao se analisar a história da Psicologia, nota-se que a Análise do Comportamento foi inovadora em termos de sua proposta naturalista, contextualista e pragmática de estudo do comportamento, e de sua definição de psicologia como ciência do comportamento. A abordagem inovou também ao propor o modelo de seleção do comportamento pelas consequências, no emprego dos delineamentos experimentais de sujeito único e foi uma das responsáveis por denunciar a frequente ocorrência de explicações tautológicas em psicologia (LUNA, 2000). ConTribuições da anÁlise do CoMPorTaMenTo Para a eduCação Skinner (1969, 1972 [1968]) destaca que a Análise do Comportamento produz conhecimento sólido acerca do comportamento humano, o que possibilita sua aplicação ao contexto educacional. Saville, Lambert e Robertson (2011) relatam que, ao longo das últimas décadas, CADERNOS DE PESQUISA v.43 n.149 p.704-723 maio/ago. 2013 709 CONTRIBUIÇÕES DA ANÁLISE DO COMPORTAMENTO À EDUCAÇÃO: UM CONVITE AO DIÁLOGO pesquisadores comportamentais têm desenvolvido e testado diversos métodos de ensino. Todos eles estão ligados à psicologia operante inaugurada por B. F. Skinner. Embora esses métodos demonstrem ser mais efetivos2 que os tradicionais (SKINNER, 1991 [1989]; KELLER, 1972 [1968]; TEIXEIRA, 2006; SAVILLE; LAMBERT; ROBERTSON, 2011), não se tem notícia de seu emprego em larga escala no ensino regular. Os apontamentos a seguir objetivam dar subsídios à compreensão dos princípios e das contribuições da Análise do Comportamento à educação. Esses princípios podem fundamentar a identificação de práticas de ensino que aumentem as chances do aluno aprender. Podemos identificar diversas contribuições e aplicações da Análise do Comportamento à educação que estão descritas em diversos textos: Skinner (1998 [1953]; 1969, 1972 [1968], 1999 [1974], 1991 [1989]), Bijou (2006 [1970]), Keller (1972 [1968]), Neri (1980), Matos (1993), Hübner (1987), Luna (2000), Zanotto (2000), Nico (2001), Kubo e Botomé (2001), Pereira, Marinotti e Luna (2004), Teixeira (2006), Zanotto, Moroz e Gioia (2008) e Saville, Lambert e Robertson (2011). Com base nesses autores, ofereceremos algumas orientações fundamentadas na Análise do Comportamento e na filosofia Behaviorista Radical. Entendemos que existam, pelo menos, três categorias de contribuições da Análise do Comportamento para a Educação: (1) a primeira categoria diz respeito às contribuições da filosofia Behaviorista Radical; (2) a segunda, à forma com que a Análise do Comportamento interpreta certos problemas educacionais ou responde a questões como “qual o papel do professor?”, e a descrição e aplicação de princípios do comportamento ao contexto educacional; (3) a terceira está diretamente relacionada a algumas propostas sistematizadas de ensino de base comportamental, que neste texto serão apenas descritas brevemente. Essas contribuições serão apresentadas sob a forma de breves apontamentos ou orientações ao trabalho do professor. Três ressalvas são essenciais: (a) a simplicidade do que será descrito é apenas aparente; (b) não basta conhecer o que será discutido; é preciso agir em conformidade com essas indicações e, principalmente, avaliar criticamente seus resultados sobre o aprendizado dos alunos; e (c) as contribuições que serão citadas estão interligadas, de modo que as divisões que realizamos servem apenas para enfatizar a importância de cada elemento dessa rede. 710 CADERNOS DE PESQUISA v.43 n.149 p.704-723 maio/ago. 2013 ConTribuições do behaViorisMo radiCal 2 Por efetividade, pretendemos dizer que esses métodos garantem que mais alunos aprendam, em menor tempo e com menos dificuldade. Concepção de homem De acordo Skinner (1998 [1953] e 1999 [1974]), Micheletto e Sério (1993), Sério (2001 [1997]) e Carrara (2005), o Behaviorismo Radical propõe uma concepção de homem que se contrapõe a posições filosóficas amplamente aceitas pela cultura ocidental. O behaviorista radical Marcelo Henrique Oliveira Henklain e João dos Santos Carmo defende que: (a) o homem não existe por si mesmo, uma vez que faz parte do mundo e sua existência está intrinsecamente relacionada ao mundo social e físico que o cerca; (b) não é a causa ou origem de seu próprio comportamento, tendo em vista que seu comportamento não ocorre no vazio e é gerado por condições externas concretas; (c) não é Acesso em: 17 jul. 2009) 65 O Marechal Castelo Branco assumiu a Presidência da República em 15.04.1964. 116 A denominação do bairro remete à figura de Francisco dos Santos, o Chico dos Santos, dono de um rancho às margens do rio Machado onde ele administrava um entreposto de mercadorias, uma venda e uma pousada para os viajantes que comercializavam produtos através da estação de Fama (1896) da Estrada de Ferro Muzambinho e do barco que ia de Fama até a Cachoeira (ainda existente no rio Machado e próxima ao bairro). Segundo um de seus descendentes, Sr. João Esmeraldo Reis, nascido em 1932, figura de destaque no bairro, quando da construção de Furnas, a expectativa dos moradores é que a energia elétrica chegasse ao bairro. Até então apenas os moradores mais abastados do bairro eram sócios de uma pequena usina elétrica, inaugurada em 12 de abril de 1951.66 Em seu depoimento à pesquisadora, em estudo prévio sobre a comunidade atendida pela Fundamar, em 1994, Sr. João Esmeraldo relembrou as várias pontes construídas sobre o rio Machado, interligando o bairro do Chico dos Santos ao bairro do Coroado no município vizinho de Alfenas. Antes da construção da primeira ponte a travessia era de barco e para o gado era na água. Segundo o depoente, quando a primeira ponte foi construída, em torno de 1920, só aqueles que contribuíram para a obra tinham livre acesso. Os demais tinham que pagar para atravessar ou se valerem dos préstimos do barqueiro, Chiquinho Cordeiro. Depois que o rio Machado foi represado por Furnas, no bairro Chico dos Santos (1965?) a terceira ponte foi construída pela comunidade com ajuda de ambas prefeituras – Paraguaçu e Alfenas. O Sr. João Esmeraldo 66 O jornal “O Paraguassu”, Paraguaçu (MG), n. 496 de 15 abr. 1951 traz a notícia: “Inauguração da Luz Eletrica no Bairro Chicos dos Santos”. Segundo Sr. João Esmeraldo, eram vinte e dois sócios envolvidos na construção da usina de energia elétrica, captando as águas do ribeirão que deságua no rio Machado, no bairro Chico dos Santos. O responsável pela usina era Geraldo de Abreu, de Alfenas. 117 participou da construção da ponte de madeira amarrada com cipó, a base era de pedra e sua extensão era de 22m. Foi construída entre 25 de julho e 25 de agosto de 1967. Edição de “A Voz da Cidade” de 1º de outubro de 1967 confirma a informação de nosso depoente. Furnas só viria construir a ponte sobre o rio Machado, em substituição à antiga, já interditada, em 1981. O jornal “A Voz da Cidade” de 28 de março de 1981 refere-se a um convênio entre a Prefeitura Municipal de Paraguaçu e Furnas – Centrais Elétricas S/A para construção de obras para evitar o ilhamento de alguns produtores rurais, cujas propriedades localizam-se nas margens do lago de Furnas. Refere-se ainda à construção da nova ponte do rio Machado, de interesse direto dos moradores do Bairro dos Santos (bairro Chico dos Santos, em Paraguaçu) e do Coroado, no município de Alfenas, a ser executada diretamente por Furnas. Raro exemplo de publicação de memórias sobre um bairro rural do município de Paraguaçu, o livro “Memórias do Chico dos Santos”, de autoria de Edson Vianei Alves (1949-2002), sobrinho materno do depoente João Esmeraldo, registra suas lembranças sobre o rio Machado, ao tempo de seu pai, Joaquim Felipe: “No rio Machado, ele [o pai] pescava dourado, curimba, tubarana, piapava, mandi, bagre e lambari.” (ALVES, 2000, p. 34) Sr. José Cavaleiro, mais conhecido por Tonico Cavaleiro (1933), também nascido e ainda morador no bairro Chico dos Santos, lembra-se também das boas pescarias no rio Machado. Mas afirma que o represamento do rio facilitou muito a vida, pela facilidade de captação d‟água para a lavoura, 118 principalmente do alho, principal atividade do bairro na década de 50 a 60.67 Sr. Hélio Meirante, nascido em 1935, também nascido e ainda residente nas mesmas terras que foram de seus pais, às margens do rio Machado, lembra-se que seu pai perdeu três alqueires de terra e foi indenizado pelo valor nominal das mesmas. Seu irmão, Ademir de Souza Meirante, nascido em 1953, calcula em dez alqueires as terras perdidas por seu pai para Furnas. A chegada dos técnicos de Furnas no bairro é rememorada pelos irmãos Meirante: Foi uma coisa. Da moda que a gente nem esperava. Que antes a gente via passar, fazer a marcação, e ficava abismado de ver aquelas condução no meio do pasto. Que era para fazer a marcação, onde a água ia atingir. [.] Eles não explicava nada. Eles entrava [sic] no meio do pasto, com aqueles jipes, com aqueles aparelhos, marcando tudinho. Eles nunca veio [sic] aqui. (Depoimento do Sr. Hélio Meirante, 2009) Foi enchendo e foi acabando tudo. Se não vendesse [para Furnas] já perdia tudo. Lá no retiro, pra baixo do Matão, o rapaz não quis vender a casa, o terreno, de jeito nenhum. Não vendeu. Eu vi a casa, o terreno foi subindo, sumiu tudo. Perdeu tudo. [.] Que nem eles falou [sic]: „aqui tando cheio é nossa, tando seco é seu‟. (Depoimento do Sr. Ademir Meirante, 2009) Sr. Tonico Cavaleiro, quando indagado sobre a reação da população do bairro à chegada de Furnas, disse: “o povo achou bão [sic] e é bão [sic] até hoje”.68 67 O almanaque “O Sul-Mineiro Ilustrado” em reportagem intitulada “O Desenvolvimento de Paraguassú e a Administração Cristiano Otoni do Prado”, datado de 1941, informa sobre a cultura de alho no município, cuja produção “figura em primeiro logar no Brasil”. 68 Os depoimentos desses moradores ribeirinhos foram filmados por um grupo de educadores da Fazenda-Escola Fundamar, em 2009. Fragmentos de seus depoimentos foram incorporados a uma apresentação em PowerPoint integrante do instrumento de capacitação dos educadores, objeto dessa dissertação. 119 6.9. CINQUENTENÁRIO DE FURNAS: DUAS VERSÕES DISTINTAS Em 2000, a denúncia sobre as péssimas condições sanitárias do lago de Furnas era objeto do jornal “A Voz da Cidade”, em 1º de setembro. À época a preocupação era com o baixo nível das águas do lago, que prejudicava o turismo, principal fonte de renda da população lindeira. O jornal faz um paralelo entre os prejuízos daquele momento e aqueles sofridos à época da constituição do lago. E especula sobre as causas do rebaixamento do nível das águas, entre elas, a rivalidade entre o então presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Itamar Franco69, sobre a privatização de Furnas. Segundo essa versão, frente às ameaças do governador contra a privatização, o Presidente teria pedido à direção da empresa para esvaziar o lago. O jornal ainda noticia uma reunião de representantes da Associação dos Municípios do Lago de Furnas (ALAGO) com a diretoria da empresa em 28.11.2000, para encontrar soluções para as agressões ambientais que a represa vinha sofrendo, bem como recuperar o passivo que a empresa tinha com os municípios lindeiros: Diariamente são despejados no local, dejetos sanitários, industriais e agrotóxicos. A falta de infra-estrutura e a de uma política de utilização do Lago vem comprometendo o desenvolvimento da região, que aposta no turismo como uma das ferramentas para reverter a estagnação econômica. (A VOZ DA CIDADE, 12 set. 2000, p. 1) Em 2007, ano do cinqüentenário de Furnas, o jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, trouxe dois artigos sobre o evento, que evidenciam opiniões distintas sobre os impactos gerados pelo empreendimento. 69 O governador Itamar Franco e o Presidente Fernando Henrique Cardoso assumiram seus respectivos cargos em 1999. O Presidente iniciava então seu segundo mandato. 120 Luiz Neves de Souza, mestre em turismo e meio ambiente, em artigo intitulado “Os 50 Anos do Lago de Furnas”, denuncia a ausência de políticas públicas que canalizassem esforços voltados à preservação ambiental e também de projetos consistentes e objetivos para o fomento e desenvolvimento do turismo na região. E reclama: Basta percorrer as 34 cidades do Lago de Furnas e observar, em todas elas, toneladas de rejeitos em esgoto e lixo, além de defensivos agrícolas que são despejados em diversas regiões que se dizem próprias para o turismo e para a prática de esportes náuticos, para não falar da situação caótica da rede viária local. (SOUZA, 2007) O senador Eliseu Resende, no artigo intitulado “A Epopéia de Furnas” em “homenagem evocativa ao cinqüentenário”, imagina que sem a energia elétrica e a Petrobrás, o Brasil estaria hoje nos mesmos níveis de muitos países da África. Durante esse tempo [desde 1957] construímos nossos portos e modernizamos outros; instalamos a indústria química de base; desenvolvemos a produção de veículos e de navios; e entramos, firmes, na aeronáutica. Para tudo isso contribuiu a energia de Furnas e a que ela transporta e distribui, pelo principal sistema de interligação das grandes geradoras nacionais (RESENDE, 2007, p. 9). Ambos pontos de vista refletem faces distintas de um mesmo fato histórico. A percepção do ganho pela geração de energia para o desenvolvimento industrial nacional versus os prejuízos study has some limitations. The study sample consisted of a selected cohort of CML patients, as the enrollment was carried out in a single center. It is part of an observational study that was initially designed to evaluate imatinib-induced cardiotoxicity. Therefore, patients with cardiac disease, who have shown to be at increased risk for drug-induced nephrotoxicity [36], were excluded. The data were collected from the medical records, and the number of measurements differed among patients. Furthermore, only CML patients were enrolled. The effectiveness of imatinib has been demonstrated in several other diseases [3, 38, 39, 40] and it is also important to evaluate nephrotoxicity in these patients, as it is not known whether the propensity to develop imatinibinduced nephrotoxicity is related to the underlying malignancy. conclusions In conclusion, physicians should be aware that imatinib treatment may result in acute kidney injury and that the long- term treatment may cause a significant decrease in the estimated GFR and chronic renal failure. Therefore, it is important to monitor renal function of CML patients under imatinib therapy by measuring the creatinine levels and estimating GFR. Attention must be paid to concomitant administration of other potentially nephrotoxic agents, to avoid additive nephrotoxicity in these patients. acknowledgements We gratefully acknowledge the contributions of our patients, their families, and the hematologists (Cla´udia de Souza, Simone Magalha˜es, and Gustavo Magalha˜es). We also thank Heloisa Vianna for the constructive comments and suggestions, and Ka´tia Lage and Vera Chaves for the expert secretarial assistance. funding Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientı´fico e Tecnolo´ gico (478923/2007-4) to ALR; Fundaxca˜o de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais (PPM 328-08) to ALR; Coordenadoria de Aperfeixcoamento do Ensino Superior, Brazil (BEX 1199-09-9), to MSM. disclosure The authors declare no conflict of interest. references 1. Pappas P, Karavasilis V, Briasoulis E et al. Pharmacokinetics of imatinib mesylate in end stage renal disease. A case study. Cancer Chemother Pharmacol 2005; 56: 358–360. 2. 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