RODRIGO ALENCAR São Paulo 2012

Livre

0
0
101
8 months ago
Preview
Full text

  PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC - SP

  Rodrigo Alencar

  Porque a guerra às drogas? Do crack na política ao crack do sujeito

  MESTRADO EM PSICOLOGIA SOCIAL São Paulo

  2012 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC - SP

  Porque a guerra às drogas? Do crack na política ao crack do sujeito Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência para obtenção do título de MESTRE em Psicologia Social, sob a orientação da Prof.ª, Drª Miriam Debieux Rosa.

  RODRIGO ALENCAR São Paulo 2012

  BANCA EXAMINADORA

_________________________________

_________________________________

_________________________________

  A todos aqueles que vagam perdidos nas noites sujas.

  Agradecimentos:

  À Miriam Debieux Rosa, por ter me acolhido no extinto núcleo de estudos nomeado Violências: sujeito e política. Também por sua paciência, atenção e carinho ao longo dos trabalhos para os quais me convidou.

  À Caterina Koltai por seus comentários, suas indicações e alertas. Ao Guillermos Milán Ramos, por suas indicações, seu interesse e valorização das alusões feitas no texto.

  À Isabel Tatit, por partilhar os sonhos, o lar, a paixão pela psicanálise e, principalmente, por aceitar meu esforço em lhe dar aquilo que não tenho.

  Aos membros do Núcleo Psicanálise e Política pelos debates e contribuições. À Marta Cerrutti, Miriam Pinho e aos demais que me ajudaram na escolha dos caminhos a serem percorridos neste texto.

  Aos membros do Coletivo Desentorpecendo A Razão, pelos debates, reuniões e conversas agradáveis. Sou grato por terem me ensinado novas maneiras de lidar com velhos problemas.

  À minha avó Lídia Radis, por me ensinar os limites da razão. Aos meus pais, por me apoiarem e sustentarem o estranhamento diante de meus interesses e sonhos. À minha mãe por me ensinar o gosto pela leitura e pelo desconhecido. Ao meu pai pelos seus sábios silêncios e respeito aos diferentes modos de enfrentar às adversidades da vida.

  À minha irmã Jéssica, por seu carinho, inteligência e companheirismo, que apesar de pouco ter lhe declarado, sempre notei em suas manifestações mais sutis.

  Ao querido amigo Bruno Muniz Reis por mais de dez anos de forte amizade mesmo com tantos períodos de ausência.

  Aos amigos feitos durante o mestrado. Ao Patrick, Bruno e Alekssei, pelas longas conversas dentre inúmeros cigarros e debates políticos e filosóficos.

  À Sandra Luzia Alencar, por ter acompanhado os primeiros anos de minha formação acadêmica e por compartilharmos as intempéries da dimensão política irredutível à vida.

  À Sandra Letícia Berta, por suas preciosas supervisões que muito contribuíram para as análises presentes neste texto. Aos amigos de supervisão, Carolina Cardoso Tiussi e Roberto Propheta Marques pelo partilhar de experiências.

  À Regina Facchini, por ter me transmitido a seriedade e implicação imprescindíveis ao fazer uso das palavras. Também a agradeço por ter se tornado grande amiga.

  Aos autores das obras literárias presentes neste trabalho. Somente com a ajuda destas leituras pude me descolar da paranóia, do horror e do embrutecimento que revestem a temática do crack.

  Ao CNPQ, pelo apoio financeiro que garantiu o desenvolvimento deste trabalho.

  

Porque a guerra às drogas?

Do crack na política ao crack do sujeito

RESUMO

As drogas, ainda que sob outras coordenadas simbólicas, ocuparam

diversos lugares nas mais variadas sociedades e agrupamentos humanos. No

entanto, desde a passagem do século XIX para o século XX, seu uso e

circulação tem sido objeto de acordos internacionais. Tais acordos

estabelecem aos países participantes medidas de combate e controle,

aplicadas por meio da mobilização de aparatos militares em suas políticas

sobre drogas. Esta mobilização opera por estratégias que entrelaçam os

campos da saúde e da segurança pública, provocando certo obscurecimento

entre quem deve ser tratado e quem deve ser combatido. Portanto, neste

trabalho, nos lançamos à tarefa de identificar as operações inconscientes em

jogo no discurso da proibição. Estabelecemos enquanto recorte de objeto o

destaque dado ao crack nas políticas de atenção às drogas por o

considerarmos o episódio mais recente sobre o tema no Brasil. Pautados nesta

compreensão do problema, recorremos aos aportes da teoria psicanalítica e às

suas interpretações sobre o funcionamento grupal, bem como aos recursos

políticos que operam no escamoteamento da divisão do sujeito. Deste modo,

analisamos que as políticas de combate ao crack negam o mal-estar inerente à

vida cultural, recorrendo à apresentação desta substância como uma ameaça

para o laço social. palavras chave: drogas, inconsciente, psicologia de grupo, psicanálise.

  

Why a war on drugs?

From crack in politics to the subject’s crack

SUMMARY

  Drugs , albeit under other symbolic coordinates, have always been in the

  

most varied places, societies and human groups. However, since the turn of the

th

  

19 century, drug use and trade has been object of international treaties. These

agreements urge the signatory countries to take measures to control and

combat drugs, through the mobilization of the military in their drug policies. As a

result of this strategy, the fields of health and public safety intertwine, causing

some blurring between who should be treated and who should be fought.

Therefore, this work is dedicated to the task of identifying the unconscious

operations at stake in the game of prohibition. We establish as object

delimitation the highlight given to crack in the drug policies, since it is the most

recent episode about the topic in Brazil. Based on this understanding of the

theme, we draw on both the contribution of the psychoanalytical theory and its

interpretations of group interaction, as well as the political resources that act to

camouflage the subject’s division. Thus our analysis concludes that the policies

to combat crack deny the discontent in the cultural life, insofar as they present

this substance as a threat to the social bond . Keywords: drugs, unconscious, group psychology, psychoanalysis.

  André Dahmer / www.malvados.com.br

  

SUMÁRIO

  

INTRODUđấO ................................................................................................. 11

  1. SUBSÍDIOS PSICANALÍTICOS PARA O ENTENDIMENTO DA

POLÍTICA E DA GUERRA. .......................................................................... 19

1. 1. Aspectos metodológicos da pesquisa psicanalítica sobre os

fenômenos sociais .................................................................................. 21

  1.2. A psicanálise e a política: diferenciações necessárias ................ 23

  1.3. Psicanálise e guerra às drogas ....................................................... 28

  

2. AS DROGAS NO SÉCULO XX: SUBSTÂNCIAS E HÁBITOS DELINEIAM

O CORPO DE UM INIMIGO ......................................................................... 32

  2.1. O julgamento de Noriega ................................................................. 40

  2.2. Políticas sobre drogas no Brasil ..................................................... 42

  2.3. O Crack: observações sobre uma política de enfrentamento. ..... 48

  2.4. Da guerra às drogas ao combate ao crack .................................... 50

  3. DROGAS E PSICANÁLISE: PROBLEMATIZAđỏES NECESSÁRIAS

PARA UM ESTUDO. .................................................................................... 53

  3.1. As satisfações substitutivas do mal-estar ..................................... 54

  3.2. Toxicomania e psicanálise .............................................................. 57

  3.3. Toxicomania e laço social ............................................................... 60

  4. O CRACK DO SUJEITO CONTRA A AMEAÇA IMPOSTA PELA

POLÍTICA DO CRACK. ................................................................................ 70

  4.1. O objeto na cena ............................................................................... 71

  4.2. O proibido travestido de interdito ................................................... 77

  4.4. O sujeito e seu refinamento às avessas ......................................... 85

CONSIDERAđỏES FINAIS ............................................................................. 89

  INTRODUđấO

  As drogas, mesmo sob diversas coordenadas simbólicas, compõem parte indissociável da vida cultural. Seja em rituais xamânicos ou em momentos recreativos, o uso de substâncias que causam alterações sensoriais parece acompanhar a humanidade desde os seus primórdios. Assim, podemos considerar que cada sociedade atribuiu às drogas determinado espaço dentre as relações de seus membros.

  Portanto, na história de nossa sociedade, substâncias de potenciais oníricos, como o vinho, participam do registro de momentos fundamentais que compõem as bases do pensamento ocidental. O Banquete, escrito por Platão, detém passagens de conotação cômica, visto que o diálogo travado sobre Eros ocorre justamente num dia posterior a uma forte embriaguez. Sob um contexto que hoje seria ordinariamente denominado de ressaca, Pausânias dá início a um diálogo que parece contemporâneo:

  • Amigos, digam-me qual lhes parece a maneira menos nociva de beber. Devo confessar-lhes que a bebedeira de ontem não me fez bem. Na verdade, necessito de repouso. Passa-se o mesmo com vocês? Todos estivemos lá. Descobrir um jeito de suave degustação é do interesse de todos.

  Soou a voz de Aristófanes:

  • Acertaste, Pausânias, temos de descobrir o acesso a um

    bebericar raso. Sou um dos afogados de ontem.

  Erixímaco, filho de Acúmeno, todo ouvidos, tomou a palavra:

  • Vocês estão cobertos de razão. Falta-me ainda a opinião

    do número um. Agaton, aguentas ingerir mais?

    - De que jeito? Estou arrasado. (PLATÃO, pág. 31).

  Assim, se iniciam os debates sobre Eros, visto que entre os presentes, poucos suportariam outra jornada alcoólica, resta-lhes enaltecer e explanar as origens do amor e suas ascendências mitológicas.

  Portanto, o debate entre o vício e a virtude nos acompanha até os dias de hoje. De modo mais empobrecido, devemos reconhecer, hoje se alguém passa por alguma adversidade em decorrência do uso de uma substância, o diálogo sobre usar ou não usar possui um tom predominante, pouco se ouve, sobre quais maneiras este uso poderia ser mais qualificado e menos danoso ao corpo, assim como almejado por Aristófanes: “descobrir um acesso a um bebericar raso” (Ibidem).

  Estas transformações em nossas relações com as drogas integram um desenvolvimento histórico no qual o estatuto que conferimos ao termo droga, como uma substância externa que a ser introduzida em um organismo interfere no seu funcionamento, já pressupõe uma longa trajetória de construções e convenções sobre corpo, exterioridade e principalmente: funcionamento. Cabendo a este último a atribuição de normalidade.

  Assim, podemos afirmar que as drogas nem sempre foram um objeto regulamentado por um regime político. Conforme desenvolveremos neste trabalho, a história nos mostra que em determinado momento, as drogas passam a ser assunto central dentre as políticas de governo. Isto implica na demarcação de uma pauta no ato de governar e no foco que esta pauta obtém em determinados momentos.

  Das convenções internacionais sobre controle do ópio à proibição das chamadas drogas sintéticas, no que diz respeito à regulação das drogas, existem verdadeiros enodamentos de interesses comerciais e políticos. Sua proibição, assim como os conflitos que envolvem sua comercialização, mantém um constante Estado de Exceção sobre as classes mais baixas, em que o porte e a circulação destas substâncias podem ser motivos para a prisão ou até mesmo a morte. A luta contra o tráfico de drogas, bem como o pouco esclarecimento sobre o que demarca a diferença entre tráfico e uso mantém diversas práticas que podemos considerar como extremamente onerosas para a vida de uma população. Tortura, extermínio, encarceramento em massa e corrupção permeiam um cotidiano de violência e descaso, orquestrados pelo combate às drogas.

  Para que não repousemos no aturdimento destas constatações, se faz necessária esta pesquisa. Ao optarmos por pesquisar a articulação política que habita o contexto das drogas ilícitas, temos de considerar, dentre os mortos e encarcerados produzidos nesta guerra, que há uma razão e um consentimento que a sustenta. Portanto, ao lidarmos com esta operação, lançamos mão da teoria freudiana e suas investigações sobre a vida inconsciente. Deste modo, podemos desconfiar do apelo por controle e comedimento, bem como sua pretensão de administrar as mais variadas formas de gozar.

  Portanto, temos como proposta viabilizar uma leitura sobre o perigo das drogas e suas intercorrências até o advento do crack e suas repercussões. Através de materiais oriundos das Ciências Sociais, História e Relações Internacionais, esta pesquisa tem por objetivo delinear e dissertar acerca do discurso que circunscreve o crack enquanto ameaça para o laço social. Deste modo, o recorte feito por este trabalho pretende trazer elementos para elucidar a política de combate as drogas.

  Para percorrer este caminho, delineamos a seguinte questão: porque 1 determinadas substâncias com suas propriedades ditas “avassaladoras” receberam o status de inimigo público a ser combatido?

  Para a abordagem desta questão, iniciaremos com ponderações metodológicas sobre a psicanálise e sua articulação com a política e a guerra. Portanto, recorremos a teóricos que estabeleceram marcos para a compreensão do que é a guerra, como o general prussiano Carl von Clausewitz (2010). Também lançaremos mão do diálogo sobre a guerra estabelecido entre Freud e Einstein (1932), cotejando este diálogo com psicanalistas que discutem a história e os posicionamentos nesta relação, dentre os quais destacamos Plon (2002), Goldenberg (2006) e Rosa & Domingues (2010). Acreditamos que com esta fundamentação possamos localizar o modo como trataremos a questão da guerra às drogas, articulando a guerra e a política a partir da perspectiva psicanalítica, assim como tecendo considerações sobre a política de drogas internacional e seus combates.

  Depois de realizarmos as primeiras considerações necessárias aos aportes teóricos, nos implicaremos em uma melhor compreensão do que constitui a guerra às drogas. Deste modo, trabalharemos com um ordenamento de histórias surreais, gafes políticas, respostas truculentas, armadilhas e 1 claudicações presentes neste processo. Estes elementos foram levantados

  De acordo com a apresentação oral de Romanini, etimologicamente a palavra avassalador através de diversos trabalhos que concentram seus esforços em registrar, compreender e analisar as abrangências sociais, políticas, e históricas da

  

Guerra às Drogas (RODRIGUES, 2003; ARBEX & TOGNOLLI, 2004;

LABROUSSE, 2010; VARGAS, 2008; CARNEIRO, 2008).

  No entanto, é de suma importância que se considere o objeto desta pesquisa enquanto construído e refinado no próprio corpo deste texto. É com base nos meandros descritos no segundo capítulo que reconhecemos um material a ser tratado e analisado. Portanto, a questão sobre a qual nos debruçaremos diz respeito aos movimentos que se reproduzem a cada nova e “perigosa” substância.

  O problema, para além do seu entrelaçamento no jogo político e institucional encontra eco no silêncio e na repercussão do estabelecimento de

  2

  uma política do medo, na qual todos em contato com a questão das drogas são afetados. Portanto, diversos apelos se entremeiam nos pormenores das políticas de assistência social, saúde e segurança pública, tecendo um embromo. Neste processo, a seletividade entre aqueles que devem ser cuidados e aqueles que devem ser combatidos, se restringe ao planejamento de políticas públicas, muitas vezes, alheias às práticas executadas no cotidiano (ALENCAR, 2008).

  Portanto, ao condensarmos tal problemática, o foco de nossa atenção recai sobre a produção discursiva da ameaça do crack. A princípio, compreendemos esta ameaça sob a hipótese de um obscurecimento dos objetivos políticos em jogo, visto que o planejamento e a execução de ações sobre esta questão se constituem de modo lento e ineficaz.

  Deste modo, ao atentaremos para a racionalidade que compõe todo esse processo de consolidação e fortalecimento de tais políticas, buscamos o ponto de não sentido que passa a operar na racionalização de ações truculentas, assim como suas repetições irrefreáveis.

  Esta repetição trágica, também será abordada no capítulo dois, que 2 descreve como a transformação de determinadas substâncias em produtos

  Consideremos em contato com a questão das drogas, não só um usuário, mas um morador de um bairro no qual há um ponto de uso de drogas e este dado interage com a relação que ilícitos desarticula os circuitos simbólicos que poderiam sustentar esta prática.

  Assim, não focamos nossa compreensão sobre a gramática dos usuários com sua droga. A repetição metódica que está sob foco é a repetição da moral proibitiva. Desse modo, valorizamos o alerta feito por Conte (2003) de que a abstinência deve ser do analista, portanto, pensamos que para tratar da problemática do crack, é necessário que a moral proibitiva se abstenha, pois, na medida em que ações de repressão são empregadas sobre o uso de drogas, o primeiro resultado alcançado é mais violência e desamparo.

  Portanto, reforçamos que a repetição da qual tratamos é a repetição da terrorificação e da propagação do medo. Assim, classificamos os resultados deste modo de abordagem da questão das drogas com a mesma palavra usada para nomear certas situações decorrentes do uso de uma substância, a saber, uma viagem fracassada. As consecutivas tentativas de proibição, eliminação e repressão ao uso de drogas produzem com frequência,

  3 verdadeiras bad trips .

  Cabe reconhecermos que de modo geral, os problemas decorrentes do abuso de substâncias e da dependência química estão longe de obterem uma 4 solução , seja pela via farmacológica; pela via repressora, ou pelas diversas

  5

  vias de atenção psicológica ou psicanalítica (ROSA, 2006), as negociações entre o uso e abstinência costumam se configurar em um jogo erotizado (MELMAN, 1992) que conhece bem o fracasso. Já o comedimento, solução proposta por Freud frente ao gozo tóxico (FREUD, 1930) como um meio de aliviar o peso do mal-estar na cultura (1930), só pode se constituir enquanto tal, tendo por referência o que está do outro lado de seus contornos, a saber: o excesso. 3 Portanto, não é objetivo deste trabalho apontar quais os melhores e

  

Termo usado para nomear consequências adversas de uma incursão à fantasia que se

mostrou malfadada, talvez por isso acessível a uma nova tentativa, ou a uma nova a-

versão. Neste trecho há uma proposta de deslocamento do termo bad trip, usado enquanto

gíria para se referir aos efeitos aversivos e/ou persecutórios da droga, para o campo

político, dos efeitos violentos e marginalizadores da política proibicionista, considerando a

4 fantasia de um ordenamento social completo e eficaz.

  Atentemos para o deslizamento deste significante: solução enquanto resposta/ solução 5 química.

  

Quando me refiro a psicológico ou psicanalítico, também me refiro a aspectos sociais, visto mais promissores meios de lidarmos com a questão das drogas, mas apontar a modalidade de discurso que generaliza, classifica e descontextualiza os modos de uso destas substancias.

  Deste modo, este trabalho visa diferenciar e destacar a imagem do

  

crackeiro presente na mídia impressa e televisiva dos problemas dos usuários

  de drogas em suas particularidades. O que há de delicado nesta diferenciação é o lugar de onde se observa. Caso nossos objetivos fossem os problemas decorrentes do uso de drogas, discutiríamos as construções e articulações presentes na fala referente aos modos particulares de seu gozo, as formas de uso e obtenção da droga, assim como as relações sociais que entremeiam ou circulam em torno de seu uso. No entanto, este não é o nosso objetivo.

  Frente às questões a serem debatidas, é necessário certo rigor por parte do uso da teoria psicanalítica, bem como de seu diálogo com os saberes oriundos da sociologia, história ou relações internacionais. Assim, é de suma importância destacar que o objeto deste trabalho é recortado pela via da leitura e interpretação de dados históricos e sociais, com interlocução da psicanálise, buscando a dimensão inconsciente na motivação e nas declarações de guerra e combate, nas formações discursivas estruturadas abaixo.

  No entanto, não podemos realizar tais análises sem uma decantação de possíveis termos que nos sirvam de ferramenta para compreender o fenômeno pela lente da psicanálise. Esta preocupação nos levou a estruturar uma compreensão necessária do uso do termo toxicomania no campo psicanalítico. A justificativa da escolha de não utilizar este termo como eixo analisador neste tema é trabalhada no capítulo três. Neste capítulo focamos a categoria

  

toxicomania no esforço implicado em um posicionamento ético e metodológico

necessários para seguir adiante.

  Em seguida, para desenvolvimento de nossa proposta, obras oriundas da psicanálise servirão de referencial principal para demarcação e delineamento do objeto da pesquisa e consequentemente para a análise dos mesmos. Estas obras são: Psicologia das massas e análise do Eu (FREUD, 1923), O Seminário: livro 10 de Jacques Lacan (1962-1963) e O Seminário: livro 17, também de Jacques Lacan (1969-1970). Tal escolha está embasada em uma indagação sobre a eficácia do discurso de “perigo das drogas” e consequentemente do crack. Assim como trabalhado por Freud em Psicologia das massas e análise do eu (1923), trabalharemos com a noção de contaminação de pânico e sua relação com a angústia. O uso destes conceitos deslocados do contexto trabalhado por Freud exige um trabalho a ser feito nesta dissertação para pensarmos o efeito de contaminação de pânico para além das instituições militares e religiosas, transladando esta compreensão para um uso político mais amplo. Esta tarefa será realizada com a ajuda de reflexões presentes no texto “O mal-estar na civilização” (1930), visto que é no trabalho com este mal-estar que a psicanálise detém sua chave interpretativa do fato social.

  Concomitante à compreensão da contaminação de pânico consideraremos outro movimento, a saber, o da produção por meio de traços identificatórios de um inimigo em comum a um grupo social e a premissa de que este inimigo deve ser combatido. Tal inimigo, como é trabalhado nesta pesquisa, comporta as características de um mal epidêmico, de tal maneira que aqueles que ingerem, produzem ou portam determinadas substâncias tendem a ser tratados como doentes ou combatidos como criminosos.

  Assim como assinalado acima, este processo se desenvolve enquanto efeito de uma formação discursiva e é para compreensão desta formação que lançamos mão do Seminário: livro 17, o avesso da psicanálise (1969-1970). Tal obra nos serve para conceituação de discurso e elucidação da operação lógica do mesmo. Entretanto, vale ressaltar que este trabalho não irá operar com os quatro discursos expostos neste seminário. Dentre os quatro discursos abordados elegemos o discurso do mestre, que será utilizado para que possamos pensar o paradigma de controle e governabilidade operados pelas campanhas de prevenção e combate.

  Por último, O seminário: livro 10, a angústia (1962-1963), foi escolhido com a finalidade de subsidiar nossas análises sobre o estranhamento humano diante das substâncias psicoativas, bem como seu fascínio, interesse e até mesmo horror a uma verdade que habita a contradição inerente à condição de sujeito.

  Deste modo, nos empenhamos em apresentar análises que contribuam para uma qualificação do debate sobre as drogas, tanto no âmbito pertencente

  à psicanálise como o da política.

1. SUBSÍDIOS PSICANALÍTICOS PARA O ENTENDIMENTO DA POLÍTICA E DA GUERRA.

  Eu preferiria não.

  Herman Melville (Bartleby, o

  escriturário) Neste capítulo discutiremos a psicanálise em sua articulação com a política. Assim, recorremos a teóricos que firmaram marcos para a compreensão do que é a guerra. Em seguida abordaremos o diálogo sobre a guerra estabelecido entre Freud e Einstein (1932). Deste modo viabilizaremos maior esclarecimento metodológico para a abordagem da guerra às drogas, articulando a guerra e a política a partir da perspectiva psicanalítica.

  Consideremos a afirmação de Clausewitz na qual “a guerra é uma simples continuação da política por outros meios” (1832, pág. 27). Para que possamos estabelecer alguma compreensão sobre esta frase recorremos à definição que nos remete à compreensão da política enquanto prática de negociação. Assim como afirmado por Lacan:

  qualquer um, a todo instante e em todos os níveis é negociável, pois o que nos dá qualquer apreensão um pouco séria da estrutura social é a troca. A troca de que se trata é a troca de indivíduos, isto é, de suportes sociais, que são ademais o que chamamos de sujeitos, com o que eles comportem de direitos sagrados, diz-se, à autonomia. Todos sabem que a política consiste em negociar e, desta vez, por atacado, aos pacotes, os mesmos sujeitos, ditos cidadãos, por centenas de milhares. (LACAN, 1963-1964, pág. 13).

  Justificadamente, Paul Laurent Assoun denomina o tópico sob o qual discute a noção de política segundo Lacan, por “A política ou o sujeito negociável” (2003, pág.24).

  Portanto, podemos retornar à nossa tarefa de compreensão do fato da guerra ser uma continuação da política por outros meios. Ao compreendermos a política como operação de troca e negociação, podemos considerar que a guerra tem sua função dentro da política como estratégia e prática que define qual será este poder de negociação. É por meio dos territórios conquistados que aquele que se favorece da guerra adquire maior poder nas relações de troca. Desta forma, aquele que se impõe pela via das armas pode ditar aos seus aliados e inimigos quais são os termos que regem as operações comerciais.

  Assim, o aforismo de Clausewitz é seguido pela seguinte afirmação “vemos, pois que a guerra não é só um ato político, mas um verdadeiro instrumento político, uma continuação das relações políticas, uma realização destas por outros meios” (1832, pág. 27). Portanto, o entendimento da guerra enquanto instrumento político fortalece nossa definição.

  Iniciado nosso trabalho de clarificação do entendimento da guerra, podemos adentrar com mais segurança na troca de cartas entre Einstein e Freud sob a pergunta “Porque a guerra?” (1932).

  Neste diálogo, Einstein, incumbido pela Liga das Nações a recorrer à ciência para pensar modos de evitar o conflito que se aproxima, convoca Freud para auxiliá-lo em sua tarefa. Pautado na premissa de que Freud porta “profundo conhecimento da vida instintiva do homem” (Einstein e Freud, 1932), Einstein busca esclarecimentos sobre quais maneiras possíveis, a agressividade humana poderia ser contida. Freud atende à tarefa não sem questionar suas premissas, lembrando seu interlocutor de que chamamos de paz algo que pode corresponder à dominação pela violência nua e crua, ou ao estreitamento dos laços libidinais entre determinado grupo, baseado em um ideal de eu que sustente tais laços, ainda neste caso, tal paz pode ser considerada profundamente questionável, visto que a submissão baseada em uma fé cega, trabalhada por Freud como uma hipnose (1921), pode levar aos atos mais violentos e vis com o objetivo de garantir o amor deste líder, ou de aprovar qualquer coisa que este o faça se eximindo da responsabilidade da escolha sobre seus atos. Assim como lembrado por Freud (1932), alguém que adere às decisões de atacar outra nação ou grupo, pode ter diversos motivos, uns declarados e outros latentes que talvez nunca venham à tona. Portanto, a guerra não deve ser vista como manifestação de ódio irracional, mas como meios para atingir determinados interesses nem sempre declarados.

  Então, consideraremos as práticas bélicas como estratégias permeadas de objetivos políticos que mesmo em tempos de conflito se mantém em processo de negociação. Onde alguns interesses de seus participantes podem ser declarados e outros não (FREUD, 1932; CLAUSEWITZ, 1832).

  1. 1. Aspectos metodológicos da pesquisa psicanalítica sobre os fenômenos sociais

  Sustentamos a metodologia deste trabalho na tese de Freud sobre a impossibilidade da total separação entre uma psicologia individual e uma psicologia social. Segundo o autor:

  O contraste entre a psicologia individual e a psicologia social ou de grupo, que à primeira vista pode parecer pleno de significação, perde grande parte de sua nitidez quando examinado mais de perto. É verdade que a psicologia individual relaciona-se com o homem tomado individualmente e explora os caminhos pelos quais ele busca encontrar satisfação para seus impulsos instintuais; contudo, apenas raramente e sob certas condições excepcionais, a psicologia individual se acha em posição de desprezar as relações desse indivíduo com os outros. Algo mais está invariavelmente envolvido na vida mental do indivíduo, como um modelo, um objeto, um auxiliar, um oponente, de maneira que, desde o começo, a psicologia individual, nesse sentido ampliado mas inteiramente justificável das palavras, é, ao mesmo tempo, também psicologia social. (FREUD, 1921).

  Portanto, cabe considerarmos que ao nos referirmos a um sujeito, temos de nos referir em diversos momentos, na sua relação com o Outro. Neste sentido, os exemplos citados neste trabalho, dizem respeito a um sujeito, social, político e principalmente divido por um inconsciente. Esta divisão tende a operar justamente nas formas de resposta ao que é compreendido pelo sujeito como apelo deste Outro. Assim como, sua parte no jogo, separações e escolhas.

  Apesar de não trabalharmos com casos clínicos, quando tratamos de um desenvolvimento histórico e político, não podemos esquecer que este desenvolvimento se dá pela ação humana. Deste modo, trabalhamos com alguns posicionamentos e declarações que nos permitem dissertar sobre como estes sujeitos se posicionam e articulam o jogo político. Frente a estas informações não é descabido identificarmos os mecanismos inconscientes que operam neste jogo.

  Portanto, em nosso objeto de estudo escolhemos um recorte que se apoia nas construções da linguagem apresenta na bibliografia levantada. Para reforçar tal posição metodológica, citamos Rosa e Domingues que afirmam:

  no caso da contribuição da psicanálise ao estudo do campo social e político, não lhe cabe a pretensão de esgotar, por si só, o fenômeno: cabe-lhe esclarecer uma parcela dos seus aspectos, ainda que uma parcela fundamental. Sem pretensão de substituir a análise sociológica, cabe à psicanálise incidir sobre o que escapa a essa análise, isto é, sobre a dimensão inconsciente presente nas

práticas sociais. (ROSA E DOMINGUES, 2010).

  Cabe lembrarmos que Freud, nunca recuou frente às questões sociais, além de se mostrar assíduo leitor de pesquisas etnográficas e antropológicas, adentrou ao campo político com certa cautela, sem bradar bandeiras ou desferir ataques a qualquer funcionamento econômico. Parece-nos, ao considerarmos suas discussões sobre os impasses no campo social, que seu compromisso e sua crítica tenham se pautado sobre o desenvolvimento civilizatório. Esta prioridade de pauta em Freud é considerada por nós como uma fé ou militância com relação a este desenvolvimento. Esta promessa moderna ocupa um importante espaço em sua obra. No entanto, apesar do compromisso de Freud com sonho moderno, e inevitavelmente com o mal- estar. Este não se furtou a solapar a crença de que o homem é senhor de si. Deste modo, ao deitar o desenvolvimento civilizatório em seu divã e apontar seu mal-estar, Freud leva a psicanálise até a política. Devemos ressaltar que isto é feito sem qualquer prejuízo de sua proposta: a clínica do inconsciente. bem longe do que seria um analfabeto político. Ao contrário, ao longo de sua obra, possibilitou que seu trabalho clínico, comportasse uma significativa dimensão política de seu tempo, fecunda de debates realizados até os dias de hoje.

1.2. A psicanálise e a política: diferenciações necessárias

  Para um melhor posicionamento da psicanálise, consideramos que, metodologicamente, os questionamentos por parte da psicanálise não surgem de lugar evanescente. Deste modo, Freud, ainda que sem erguer uma bandeira e entoar palavras de ordem, reconhece a impossibilidade de ficar indiferente à barbárie. Em sua carta a Einstein, explorando os impasses do ato de questionar a guerra, afirma algo que caracteriza seu método: “poder-se-ia, talvez, permitir-se usar uma máscara de suposto alheamento”. Reconhecemos nesta passagem, um esforço de Freud frente à identificação da necessidade de alheamento ao objeto de pesquisa, desde o princípio imposto pela tradição acadêmica, tem seu lugar real denunciado pelo “suposto” (Ibidem), visto que nem mesmo uma máscara, enquanto representação egoica, pode significar indiferença. Aqui se exprime a contraditória relação da psicanálise com a ciência e seu compromisso com a condição de sujeito. Esta condição, assim como no diálogo entre Freud e Einstein, tende a ser interrogada pela política, ou, na ocasião deste diálogo: pela guerra.

  Portanto, temos de nos deter em um campo comum entre a psicanálise e a política. Para isso, lançamos mão de alguns autores que se implicaram a estudar esta relação. Segundo Plon (2002) podemos tecer uma analogia entre o campo da política e o campo da psicanálise por meio do trabalho com o tempo. Assim, o autor traça uma linha entre Freud, Maquiavel e Lacan, formando uma triangulação na compreensão do trabalho analítico como algo estratégico em relação ao tempo. Visto que a política tanto no que diz respeito ao poder público quanto no que diz respeito à clínica passa pela estratégia de agir no momento certo, no reconhecimento de um momento como propício à assunção de uma verdade. Sob o dito de “o Leão pula só uma vez” (PLON apud FREUD, 2002, pág. 183) e mais adiante com uma reformulação um pouco mais generosa via Marx “[o leão] nunca salta duas vezes do mesmo jeito” (pág.183), Plon fala sobre o momento certo de uma intervenção. Para um melhor esclarecimento, atentamos para a seguinte passagem, destacada da obra de Lacan por Ricardo Goldenberg:

  não é por se referirem a algum saber organizado que os práticos da política realizam uma ação suscetível de levá-los a serem considerados ou consagrados como 'grandes' pelo fato dessa ação vir a responder a uma espera ou acalmar uma angústia, e sim porque são portadores da verdade de um momento, ou de uma conjuntura, verdade de um momento que escapa ao saber estabelecido e que reconhecem como tal aqueles que se referirão a ela como uma idealidade (2006, pág. 55).

  Devemos considerar que a referência feita por Lacan, sobre os “práticos da política” (Ibidem) não pode ser transposta integralmente ao trabalho do 6 psicanalista. Se o homem da política lança mão da boa hora para ascender ao poder, o psicanalista usa desta mesma estratégia justamente para se manter alheio à idealização. Frente a tal contraste, encontramos esta constatação na figura do herói político como aquele que põe tudo a perder na expectativa de alcançar a glória, leia-se: o reconhecimento de seus súditos ao seu lugar de mestre. 7 Assim, por meio do veni, vidi, vici o herói se predispõe a sacrificar a si e aos demais com o dispendioso jogo da guerra, onde a princípio, quanto mais destruição e morte, mais valor e reconhecimento da força, se obtém, 6 consagrando o jogo político da troca como explica Bataille:

  

Lacan trabalha sobre a bonheur, termo em francês que seria traduzido ao pé da letra como

boa hora, sua tradução usual é apresentada como felicidade e no seminário 17 de

1968/1969 encontramos outra formulação que pode ter a mesma conotação, no caso Il fait

jour que foi traduzida por “faz bom tempo” (1969-1970 , pág 62). Neste último é importante

apresentarmos um alerta articulado por Lacan: “Justamente não digo que tenha uma razão,

continuo seguindo minha dedução, e integro o faz bom tempo, na condição de falácia –

mesmo que seja verdadeiro -, à minha incitação, que pode ser a de aproveitar para fazer

alguém acreditar que poderá ver minhas intenções claramente já que o tempo é bom”.

Ainda que a tradução literal de jour seja dia, podemos considerá-la em sua conotação no

7 termo.

  A variação das formas [de despesa] não acarreta alteração alguma dos caracteres fundamentais destes processos cujo objetivo é a perda. Uma certa excitação, cuja soma se mantém ao longo das alternativas numa estiagem relativamente constante, anima as coletividades e as pessoas. Sob sua forma acentuada, os estados de excitação, que são assimiláveis a estados tóxicos, podem ser compreendidos como impulsos ilógicos irresistíveis, no sentido de rejeição dos bens materiais ou morais que teria sido possível utilizar racionalmente (em conformidade com o princípio do equilíbrio de contas do equilíbrio das contas). Às perdas assim realizadas encontram-se ligadas – tanto no caso da “rapariga perdida” como no da despesa militar – a criação dos valores improdutivos dos quais o mais absurdo, e ao mesmo tempo que engendra maior avidez, é a glória. Completada pela degradação, a glória, sob formas sinistras ora fulgurantes, não parou de dominar a existência social e continua a ser impossível empreender seja o que for sem ela, ao mesmo tempo que ela é condicionada pela prática cega da perda pessoal ou social. (BATAILLE, pág 47, 1967).

  O que Bataille traça em seus estudos sobre a noção de despesa serve como uma linha de diferenciação entre o trabalho analítico e o que Maquiavel (2010) chamava de virtude na política. Na psicanálise, a glória possibilita, se muito, se enredar nas malhas de um narcisismo voraz e “condicionado pela prática cega da perda pessoal ou social” (Ibidem). O trabalho do psicanalista não se guia pela glória, muito menos sobre o sacrifício alheio. Ao contrário, no trabalho analítico não é a pessoa do analista que detém o foco.

  Lacan ao listar como o analista deve pagar por sua profissão, destaca três modos:

  pagar com palavras, sem dúvida, se a transmutação que elas

  −

  sofrem pela operação analítica as eleva a efeito de interpretação; (...) pagar também com sua pessoa, na medida em que, haja o que

  −

  houver, ele a empresta como suporte aos fenômenos singulares que a análise descobriu na transferência; (...) pagar com o essencial em seu juízo mais íntimo, para intervir

  − numa ação que vai ao cerne de seu ser. (1958, pág. 593)

  Esta listagem nos permite afirmar que ao contrário do grande líder, o analista é objeto do engano da fala de seus pacientes. Assim como, o ato de pagar com seu juízo, nos remete a máscara de suposto alheamento ao qual Freud faz referência em suas respostas a Einstein, já citadas neste trabalho.

  Deste modo, vamos demarcando o distanciamento do herói político da posição do psicanalista. Se os grandes ditadores da história se utilizam do momento propício para governarem por cem anos, o psicanalista não. O trabalho deste último, não é ornado de honrarias, e o seu lugar não é o de um Deus encarnado. Quando seu trabalho acontece, o psicanalista faz justa homenagem ao autor de quem faz a boa hora, a saber: o inconsciente do analisante.

  Portanto, na tentativa de ocupar um lugar de suposto alheamento, a posição do analista frente à demanda tende a uma posição paradoxal. Nesta posição, o analista não se deve deter à resolução de um problema, mas operar em uma mudança de posicionamento do sujeito. Quando alguém vai ao analista por não se sentir amado por seu parceiro, este não encontra uma receita para que seu paciente seja mais amado, não lhe é recomendado se vestir melhor, armar um jogo de sedução ou qualquer coisa do gênero. É comum nestas circunstâncias, o candidato a analisante se deparar com um pedido para que ele continue a falar, no qual o analista em uma espécie de 8

  “preferiria não” (MELVILLE, 1853), suspende a resposta à demanda neste momento. Transpondo para o campo da política, temos o exemplo de Slavoj Zizek frente aos conflitos na antiga Iugoslávia, ao ser questionado por um 9 jornalista se a OTAN deveria bombardear determinadas regiões, Zizek responde: “As bombas chegam tarde, e ainda assim, não são suficientes” (ZIZEK, 2003). De certo modo Zizek se recusa ser utilizado pelo jornalista em seu jogo de opinião. Da mesma maneira que não se limita a ser complacente com as atrocidades que acontecem em seu recém extinto país, o filósofo 8 esloveno encontrou sua maneira de dizer que preferiria não fazer parte deste 9 Do original: “I would prefer not to”.

  jogo. Uma recusa ao apelo, sob a indeterminação do verbo, “preferiria” (Melville, 1853), autoriza a suspensão da demanda para que se apresente a articulação de seus significantes, assim como os efeitos sobre o narrador deste conto de Wall Street, tal resposta, se é que pode ser chamada assim, passa a fazer enigma, possibilitando ao interlocutor indagar o próprio desejo.

  Ora, não é desta maneira que Freud responde a Einstein? Refutando as rotas que Einstein apresenta para chegarmos a uma proposta para o fim da guerra: o amor ao próximo, a educação e o poder. A psicanálise em relação com a política mantém uma posição que pode ser ilustrada com a de Bartleby. Quando o narrador tenta expulsá-lo de seu escritório e lhe diz para que lhe deixe, Bartleby lhe responde: “preferiria não deixar o senhor!” (Ibidem). Assim, o saber articulado pela psicanálise não envolve consagrar ou enaltecer a política. No entanto, não a abandona. Permanece em seu encalço, pela via que esta produz sofrimento.

  Portanto, cabe lembrar que a psicanálise tende a implicar o sujeito em sua ética na medida em que este se responsabiliza por si no laço social e neste vetor, toca a política em seu ponto de tensão. Segundo Goldenberg:

  Sustentar que a política nada tem a ver com a ética equivale a esquecer que a política é o lugar mesmo da escolha; e o que seria a ética senão as escolhas que alguém pode bancar? Está aqui talvez o maior ponto de atrito com o psicanalista, já que para o político o sujeito é negociável em massa ou no varejo e raramente prevalecem nas suas decisões as diferenças particulares, abolidas por princípio sob a razão do Estado (o “doa a quem doer” é um modo de dizer isso). Para o psicanalista, ao contrário, não existe cálculo coletivo da boa satisfação, como opera com o inegociável de cada um, com aquilo que em hipótese nenhuma, cairia sob o interesse geral da nação. (2006, pág. 39).

  Deste modo, pensamos que uma psicanálise que reconheça seu lugar em determinado momento político, estabelece sua crítica em compromisso com o lugar do qual se fala. Freud, conforme apontado anteriormente, demonstrou seu compromisso com o desenvolvimento da cultura e, desta posição, apontou com firmeza seus entraves. Isso diz da estranheza da psicanálise com os ditames políticos de um tempo sob o qual podemos reconhecer os efeitos no sujeito. Assim como fez Lacan frente ao discurso universitário e ao poder cada vez maior exercido pela ciência. Portanto, reconhecemos que é delicado ao psicanalista o lugar de militante orgânico, e talvez, se o seu lugar está dentro da militância, está mais pra militante inorgânico, estranho à natureza do sonho político, sem que necessariamente, isso deixe de colaborar com uma sociedade que tenha meios mais éticos de se fazer política. Novamente, retorna a imagem de Bartleby, o escriturário, se negando em deixar o escritório em Wall Street, fazendo enigma com seu silêncio e com a radicalidade de sua negativa.

1.3. Psicanálise e guerra às drogas

  Ao trabalharmos com as aproximações e diferenciações entre psicanálise e política, nos detivemos sob a figura do herói político em contraste com o trabalho do psicanalista. Cabe agora, nos perguntarmos como o homem da política paga pela sustentação de seu poder?

  Assim como um comandante exerce fascínio sobre seu exército, devemos considerar que um governante também pode exercer certo encantamento sobre seus governados. No entanto, a coesão de um grupo ou uma sociedade, exige determinada cota de sacrifício. Para além do sacrifício da capacidade de julgamento da parte de quem cede a tais encantamentos, devemos considerar que a existência de um inimigo, seja interno ou externo ao grupo, se faz imprescindível para que este funcionamento se mantenha. Deste modo, consideramos que se um governo não se mostra eficaz em manter seus governados satisfeitos, pode se mostrar eficaz em compensar sua falta com o sangue do inimigo e colateralmente o sangue de alguns governados. De uma maneira irônica, quem governa por esta via, pode provar a seus governados que ainda possui algum poder.

  Freud ao responder as indagações de Einstein (1932), questiona as iniciativas justificadas no bem de todos. Estas iniciativas, com frequência, exigem que algum grupo, portador de determinados hábitos, posturas ou descendência, seja expurgado por encarnar um mal que ameaça a todos. Deste modo, se reproduz uma lógica sacrificial: para que se alcance o bem de todos há aqueles que sob os ditames do bem serão submetidos ao pior.

  Para uma melhor compreensão deste funcionamento, devemos visitar o texto Totem e Tabu. O exaustivo estudo sobre o tabu realizado por Freud detém uma série de elementos etnográficos que resultam em um mito construído pelo próprio autor, esse nos possibilita um melhor entendimento no funcionamento social. Dentre esses elementos podemos destacar a interdição cultural, lida como interdição ao incesto nas mais variadas formas que são compreendidas como correspondentes da estrutura familiar e a fidelidade aos membros do clã, que consideramos como a condenação do assassinato entre estes membros. Assim, só podem ser mortos os membros que desrespeitam suas interdições ou em sacrifício a alguma figura totêmica sob qual a tribo está alicerçada e o respeito ao totem, compreendido como correspondente da figura paterna, assimilada como detentora da Lei da interdição e do pertencimento dos membros da comunidade enquanto semelhantes perante uma ordem maior.

  Segundo o mito freudiano, esta Lei que instaura a ordem na comunidade, tem sua origem no assassinato do Pai da horda primeva. Este Pai, detentor de poder ilimitado sobre os recursos e as mulheres, em um dado momento, é assassinado em um ato de revolta dos filhos. Estes últimos percebem que para que continuem a existir, devem viver sob uma Ordem, esta Ordem determina a partilha de recursos, as restrições sexuais familiares e o respeito ao lugar vazio deixado por este Pai morto.

  Segundo Lacan, o Pai morto é o que faz o agenciamento desta comunidade (1969-1970). Deste modo, a horda passa do regime do poder da força bruta à organização social formada entre seus membros. No entanto, assim como escrito por Freud

  À medida que o tempo foi passando, o animal [totêmico] perdeu seu caráter sagrado e o sacrifício, sua vinculação com o festim totêmico; tornou-se uma simples oferenda à divindade, um ato de renúncia em favor do deus. O próprio Deus foi sendo exaltado tão acima da humanidade que as pessoas só podiam aproximar-se dele através de um intermediário — o sacerdote. Ao mesmo tempo, os reis divinos fizeram seu aparecimento na estrutura social e introduziram o sistema patriarcal no Estado. Devemos reconhecer que a vingança tomada pelo pai deposto e restaurado foi rude: o domínio da autoridade chegou ao seu clímax. Os filhos subjugados utilizaram-se da nova situação para aliviar-se ainda mais de seu sentimento de culpa. Não eram mais, de maneira alguma, responsáveis pelo sacrifício, tal como agora se fazia. Era o próprio Deus que o exigia e regulamentava. Esta é a fase em que encontramos mitos apresentando o próprio Deus matando o animal que lhe é consagrado e que, na realidade, é ele próprio. Temos aqui a negação mais extrema do grande crime que constituiu o começo da sociedade e do sentimento de culpa. (1912).

  Portanto, ao nos referirmos à Lei com “L” maiúsculo, nos referimos a aceitar a morte deste Pai sem tentar substituí-lo, se responsabilizando pela vida comunitária. Compreendemos esta formulação, como a comunidade que se organiza para que não se repita a barbárie. Porém, o diagnóstico de Freud nos parece certeiro e a história mostra que a Lei acordada entre os semelhantes, não se sustenta ad infinitum. A recolocação de instituições políticas e religiosas que repetem ditames paternalistas e, por efeito colateral deixa transparecer suas facetas obscenas, convoca à fratria a um novo festim totêmico num esforço de atualização da Lei por meio do ritual parricida.

  Talvez a fratria, agenciada sob a Lei do pai morto enquanto organização social, detenha sua existência enquanto mítica. Costa (2007), ao discutir Totem e tabu, produz uma valiosa reflexão ao destacar que para que a horda dita primeva se organize para matar o pai, já é necessário o uso de um repertório cultural, dado a exigência de organização para tal prática. Assim, vale ressaltar o mito freudiano enquanto um evento que serve à atualização inconsciente, emergindo enquanto marcação de um tempo.

  Também devemos assinalar que, se a Ordem estabelecida pelo Pai morto falha em manter o lugar deste Pai vazio, a interdição instaurada por esta Ordem está abrigada no cerne da vida cultural e por consequência na divisão inerente aos falantes. Deste modo, compreendemos o mito freudiano do assassinato do Pai como algo universal do humano. Entretanto, este universal não se encontra nas formulações sobre complexo de Édipo. Mas, assim como trabalhado por Lacan, se há uma universalidade, esta corresponde à função de interdição como condição inerente do sujeito na cultura (KOLTAI, 2010).

  Esta interdição institui a divisão do sujeito, colocando-o na condição de sujeito do inconsciente. Desse modo, o sujeito não é senhor de si, dotado de plena consciência. Visto que para se constituir enquanto tal depende da passagem por um processo de alienação no desejo do Outro. Esta alienação se dá pela identificação com a imagem de si reconhecida pelo Outro, reconhecimento que institui uma demarcação imaginária do corpo como um todo. Assim, somente em um processo de separação, no qual o sujeito não se reconhece sob os contornos que o Outro lhe atribui se instaura sua divisão (LACAN, 1949). Esta condição se impõe enquanto corte intransponível ao abordarmos o campo da política, já que este sujeito opera em suas relações com este saber faltante. Falta que é comumente capitalizada pela promessa política.

  Talvez, devamos reconhecer em nossa atual organização política, uma estratégia de manejo com o tabu. Assim como descrito por Freud, no funcionamento do tabu, uma das características presentes é a dinâmica que permeia a circulação e o uso de substâncias ilícitas. Segundo Freud “o fato mais estranho [sobre o tabu] parece ser que qualquer um que tenha transgredido uma dessas proibições adquire, ele mesmo, a característica de ser proibido - como se toda a carga perigosa tivesse sido transferida para ele” (FREUD, 1912). Portanto, reconhecemos na dinâmica da guerra às drogas, uma cruel fidelidade a esta descrição. Não obstante a aproximação das drogas a objetos tabus neste trabalho, o estatuto de tabu requer certa cautela. Visto que este envolve um jogo simbólico pertencente a outras sociedades. Portanto, reservamos às drogas, este funcionamento especifico em comum com o tabu, excluída a relação de reverência ao totem. Por esta via a guerra às drogas deve ser compreendida como estratégia de dominação com uso da violência interligada a uma série de interesses econômicos e políticos. Este posicionamento encontra maior detalhamento e descrição no capítulo a seguir.

  

2. AS DROGAS NO SÉCULO XX: SUBSTÂNCIAS E HÁBITOS DELINEIAM

O CORPO DE UM INIMIGO E a peste cada um a traz consigo, porque ninguém, sim, ninguém no mundo, está imune.

  Albert Camus (A Peste)

  Para que possamos situar o que denominamos de “guerra às drogas”, recorremos a elementos históricos que possam nos dar subsídios à utilização da questão das drogas enquanto um problema social.

  Vale ressaltar que a questão das drogas é disparada como problema social a partir de uma série de intercorrências e estratégias que permeiam o final de séc. XIX e todo o séc. XX. Portanto, é imprescindível a crítica em relação aos diferentes lugares que as substâncias ocupam de acordo com o tempo ou o contexto social, de rituais xamânicos às tecnologias farmacêuticas, temos diversas variações referentes a intensidades e circunscrições do encontro do corpo com tais substâncias. Portanto, é na passagem do século

  XIX para o século XX e no desenvolvimento das técnicas médicas do século

  XX que estas circunscrições passam a sofrer curtos-circuitos no campo simbólico e, neste processo, surgem questões das quais não há repertório sócio-cultural para manejar situações que correspondem ao abuso e dependência química. Em uma era, na qual seu início é marcado pela produtividade como imprescindível para qualquer camada social. Deste modo, as drogas passam a serem identificadas como uma pedra no sapato de uma sociedade com seu desenvolvimento tecnológico e produtivo a todo vapor – a psicanálise por meio dos escritos de Freud é testemunha este processo –, como veremos adiante, tais curtos-circuitos não estão dissociados de estratégias políticas, desenvolvimento econômico, desenvolvimento científico e controle social. O desenvolvimento civilizatório cobra seu preço e quando o assunto diz respeito às “drogas” controles tecnocráticos e interesses políticos

  10 impõe sua sobretaxa .

  Conforme apontamos no início desse trabalho, desde a Grécia antiga encontram-se atribuições sobre o uso excessivo de álcool como responsável por experiências de “tentação ou de loucura divina” (CARNEIRO, 2008, pág.67). Isto não necessariamente nos revela a existência de um elemento chamado droga já nesta época, mas sim a uma atenção quanto aos excessos e as alterações de consciência. Nas navegações comerciais em que europeus buscavam especiarias no oriente encontramos registros de uma busca por “substâncias exóticas que teriam o gosto do paraíso” (VARGAS, 2008, pág. 44). Dentre estas substâncias exóticas estão diversos temperos. Por exemplo: o açúcar e suas propriedades energéticas devido a seu alto grau de calorias. Já entre os séculos XVIII e XIX encontramos as drogas presentes em nossa sociedade como ferramenta de dominação social e instrumentalização para o trabalho. Em um período de capitalismo emergente

  o tabaco e as bebidas alcoólicas tornam mais suportáveis a crescente (o)pressão disciplinar e as precárias condições de vida que se abatem sobre os mais pobres ao entorpecê-los. Enquanto isso, o açúcar, rico em calorias, além de fornecer energia indispensável para o trabalho, adoça tudo aquilo com que ele se mistura (VARGAS, 2008, pág. 48).

  Ainda no século XIX missionários ingleses passaram a problematizar o uso de ópio feito por chineses e nos Estados Unidos, grupos denominados

  

Prohibition Party e Liga Anti-Bares são os predecessores do que

  posteriormente vem a ser uma das maiores forças proibicionistas nos EUA. O 11 grupo denominado WASP foi um dos protagonistas na reivindicação de aplicação da Lei Seca (RODRIGUES, 2003), medida que é registrada como 10

  

“O economista da Universidade boliviana Mayor San Andrés, Jaime Vilela, ensina que a

ilegalização não evita nem a produção nem o consumo nem a circulação das drogas; pelo

contrário, o crescimento é mantido, o que se gera é o incremento dos preços para o

“consumidor, de forma extravagante. A transformação de seu comércio em tráfico, assim como

a violência e a corrupção que acompanham esse negócio rendem lucros extraordinários aos

capitalistas encarregados de realizá-los. A dívida lançada ao tráfico eleva o valor da droga, que 11 tem seu preço incrementado” (ROSA, 2006, pág. 7) uma das ações políticas mais desastrosas direcionada à população norte americana. Estas associações perduraram por um longo período e ainda hoje, 12 podemos encontrar estes empreendedores morais (BECKER, 2008) sob outros nomes.

  Neste mesmo período – passagem do século XIX para o século XX – inicia-se como parte constituinte do desenvolvimento social, uma medicalização dos corpos e da vida (FOUCAULT, 2008), impulsionada pelos novos modelos disciplinares da sociedade após a revolução industrial surgem às experimentações com opiáceos na área medicamentosa e a implementação de diversas terapêuticas. Suas propostas curativas buscavam o prolongamento da vida através de uma gama de substâncias fossem elas psicoativas ou não (VARGAS, 2008). Esta época foi denominada por Foucault como “invasão farmacêutica” (2008).

  Em 1909, os EUA, país que abrigou a força pioneira do proibicionismo no mundo, impulsiona uma conferência voltada para o controle do ópio. Esta conferência ocorreu em Xangai e teve por principal objetivo: estabelecer acordos internacionais em que o uso do ópio fosse restrito às recomendações e manuseios médicos, bem como sua produção e comercialização deveria ser rigorosamente controlada (RODRIGUES, 2003).

  Neste período, o ópio já havia causado significativo furor na Europa, Charles Baudelaire, na segunda metade do século XIX, relata no prefácio 13 escrito para sua tradução de “Memórias de um comedor de ópio” de Thomas

  Quincey, sobre homens que pela via do ópio apresentavam suas fraquezas e causavam constante embaraço dos farmacêuticos. Baudelaire relata que “o número de amadores de ópio é imenso e a dificuldade em distinguir as pessoas que fazem com essa substância uma espécie de higiene das que obtém para fins condenáveis é para eles [farmacêuticos] fonte de embaraços 12 cotidianos” (BAUDELAIRE, 1860, pág. 75).

  Howard S. Becker usou o termo para designar grupos que buscavam impor seus preceitos morais à população como um todo, além dos empreendedores, há a classificação dos impositores morais, que no caso seriam compostos pelas forças repressoras que entram 13 em ação para inibir atos moralmente condenáveis, por exemplo: policiais, juízes e etc.

  Texto presente no livro “Paraísos articiais: o ópio, o haxixe e o vinho”, a escrita deste material se dá pelo contato de Baudelaire com o clube dos hashinshins e pela tradução que

  Já a cocaína sem dúvida alguma antecede brevemente o processo de gênese das ideias psicanalíticas, Sigmund Freud a enaltece dentre seus primeiros escritos (FREUD, 1889) e suas cartas pessoais também dão o tom 14 do clamor que o fundador da psicanálise tem sobre tal substância

  (PACHECO FILHO, 1998). Numa época que antecede brevemente sua regulamentação e proibição, os princípios ativos da coca integravam uma gama de medicações e usos recreativos. Assim, as explorações sobre este “fármaco milagroso” (2004) renderam a Freud severas críticas por parte da comunidade médica, tornando-se, posteriormente um ponto de debate e exploração em suas biografias (GURFINKEL, 2008; SANTIAGO, 2001).

  Este furor em torno de substâncias vistas como milagrosas, não pode ser dissociado do ideal moderno de um sujeito uno e indivisível. Neste sentido, podemos dizer que as aspirações de Freud sobre a cocaína buscavam, nesta substância, a sutura do sujeito e um estancamento de seu sofrimento. Este ideal do homem enquanto unidade pertencente ao todo social, corresponde à política fundada na revolução francesa. As aspirações iluministas requerem justamente que por meio do saber, o homem seja senhor de si. Segundo Saint- Just, pensador integrante dos jacobinos durante a revolução francesa e defensor ardoroso do sufrágio universal, a liberdade moderada é a alma da democracia (1971-1972), ao contrário da política antiga, que “queria que a riqueza do Estado voltasse para os particulares; a política moderna quer que a felicidade dos particulares volte para o Estado” (Idem, pág. 35). Deste modo “não existe poder legítimo; nem as leis nem o próprio Deus são poderes, mas somente a teoria do bem. O espírito da igualdade consiste em que cada indivíduo seja uma porção igual da soberania, isto é, do todo” (Ibidem, pág. 37). O posicionamento de Saint-Just aponta justamente para a fissura pela qual a psicanálise entrou na política, visto que este ideal político até os dias de hoje não se mostrou possível.

  Portanto,

  o fato de que a ideia de que o saber possa constituir uma totalidade 14 é, por assim dizer, imanente ao campo político como tal. (…) A

Este trabalho não tem por finalidade explorar ou aprofundar tal relação, tal movimento nos ideia imaginária do todo tal como é dada pelo corpo – como baseada na boa forma da satisfação, naquilo que, indo aos extremos faz esfera –, foi sempre utilizada na política, pelo partido da pregação política. (LACAN, 1969-1970, pág. 31).

  Assim, podemos considerar a ideia imaginária do corpo pautada na boa forma da satisfação como um dos vértices do início da regulamentação e controle da circulação e uso das drogas, visto que o aumento de circulação de determinadas substâncias em detrimento de outras diz, justamente, de um 15 ideal de longevidade e de produtividade que circunscreve o indivíduo enquanto útil ao Estado e ao empreendimento privado.

  Passando a atentar estritamente ao campo da política institucional, não poderemos tratar de tal tema, sem dar devido destaque às manobras nacionais e internacionais da política norteamericana. Em 1933 cai a Lei Seca nos Estados Unidos, mas isso não indica um afrouxamento da política de proibição e controle, pois em 1937, Franklin Roosevelt enrijecia as restrições e sanções ao uso de cocaína e proibia o uso e a comercialização de Cannabis com a lei denominada “Marijuana Tax Act” (RODRIGUES, 2003, pág. 36). Tal estratégia impulsiona a destruição maciça de plantações de cannabis e a abolição de seu uso para fins industriais. Poucos anos depois, logo após a segunda grande guerra temos o boom dos antidepressivos estabelecendo um

  curioso contraponto à proibição dos fármacos psicodélicos também sintetizados na mesma década. Ambos agem sobre certos neurotransmissores – serotonina, dopamina, noradrenalida – cuja identificação e início de suas novas funções e atividades vem sendo descobertas em concomitância com as criações e usos dessa nova moléculas psicoativas (CARNEIRO, 2008, pág. 79).

  Durante todo este processo, notamos duas principais frentes que impulsionam as políticas proibicionistas: uma se configura por parcelas 15 conservadoras da população que por meio de associações de forte cunho

Usamos a palavra indivíduo quando fazemos referência ao ser historicamente determinado.

  

Já a palavra sujeito é empregada quando falamos de sujeito do inconsciente, conforme religioso pregavam a abstenção do uso de substâncias psicoativas, pois estas submeteriam os homens ao descontrole e a uma aptidão para praticar o mal, enquanto as mulheres estariam sujeitas à uma conduta lasciva, imoral e suscetível ao contato com raças diferentes (MOUNTIAN, 2006). Já a outra frente se configura por representantes da indústria médica e farmacêutica que passam a regulamentar o que é recomendado e proibido para um adequado prolongamento da vida e operacionalização para o trabalho (VARGAS, 2008). Por meio da moralidade e de políticas que passam a manejar os direcionamentos do consumo de suas populações, determinadas substâncias e formas de uso vão encarnando o lugar do mal, desencadeando estratégias que por meio de um imaginário social possibilitam a ação de identificar o inimigo (MOUNTIAN, 2006). Portanto, esta identificação é facilitada pelos traços vibrantes e escandalosos que passam a contornar o tema das drogas na política internacional na década de 70. Nesta década, diversas estratégias de conquistas territoriais e interesses econômicos se obscurecem em meio à truculência de práticas militares, submetendo populações inteiras a uma alternância de rígidos poderes em que o inimigo, assim como uma peste, pode ocupar o corpo de qualquer um.

  Portanto, a cocaína, enquanto substância proibida, tem o seu boom e neste período podemos testemunhar a América Latina protagonizando sua

  16

  difusão pelo mundo (LABROUSSE, 2010). Deste modo, os oligopólios se tornaram empresas que movimentaram bilhões. Estima-se que estas organizações obtiveram significativa importância para a economia mundial, porém, os números correspondentes, não são facilmente identificados devido à lavagem de dinheiro. Labrousse afirma que segundo agentes da célula antilavagem de dinheiro da Interpol “se fossem apreendidas aproximadamente 10% das drogas em circulação, somente 1% do lucro dos criminosos seria 16 confiscado” (CALLAMAND APUD LABROUSSE, 2010:57). Não é difícil supor

  Não utilizaremos o termo cartel, por este ser um termo impreciso e utilizado erroneamente por meios midiáticos. As organizações que gerenciam o narcotráfico não funcionam como Cartel pois não tem um gerenciamento único da produção, transporte e comercialização. Este processo é gerenciado por diversas organizações que confluem ou conflitam em seus interesses, estabelecendo acordos, ainda que temporários, este movimento, no caso corresponde ao termo oligopólio. Para ver mais: Narcotráfico, uma guerra na guerra. que, com o boom dos oligopólios colombianos, diversas organizações 17 internacionais ligadas ao negócio das drogas firmaram sede na América Latina e mais especificamente no Brasil, devido à extensão de sua costa marítima e as possibilidades de inserção na política institucional (ARBEX & TOGNOLLI, 2004; RODRIGUES, 2003).

  Este período é marcado por intensas movimentações políticas e militares nesta região, visto que não podemos ignorar o fato de que tal processo foi concomitante com o estabelecimento de diversos golpes de

  18

  estado . Estes golpes foram iniciados por militares para conter a ameaça

  19

comunista consolidada enquanto tal após a revolução cubana . Sob os golpes

  de Estado, alguns países terão regimes de poder que chegaram a ser denominados narcocracias (RODRIGUES, 2003), dentre as mais fortes

  

20

  destacamos a de Hugo Banzer Suárez que enquanto ditador da Bolívia entre 1971 e 1978 possibilitou um aumento de mais de 6 mil hectares de plantações de coca voltadas para refinamento e produção de cocaína (LABROUSSE, 2010). Em seguida, após a saída do ditador Banzer, Luis García Meza Tejada provocou um crescimento de 10 mil hectares de plantações de coca para 50 mil (Ibidem). Estes governos eram caracterizados por proteção a determinados grupos e ataque a outros desafetos através do aparelhamento do estado (RODRIGUES, 2003).

  Já no Peru o presidente Fernando Belaúde Terry criava pacotes de incentivos econômicos para o desenvolvimento da agricultura peruana ao leste de seu território. Tais planos foram aplicados pouco antes de Terry sofrer o golpe militar. Automaticamente, logo após o golpe, bruscas mudanças na política de subsídio agrário abandonam à própria sorte agricultores que passaram a atender traficantes americanos e seus apelos por remessas de 17 coca. Já no fim dos anos setenta, devido à brutal repressão e a falta de

  Dentre estas organizações figuram algumas máfias italianas e a Yamaguchi Gumi, 18 subdivisão da já conhecida Yakuza.

  Em 1964 no Brasil, 1966 na Argentina, 1973 no Chile e Uruguai, dentre outros países 19 citados neste capítulo. 20 1º de janeiro de 1959.

  Banzer foi reeleito em 1998 e buscando resgatar a confiança do governo americano lançou o “Plano Dignidade” com ações de fumigação que reduziriam as plantações a 2 mil hectares, este processo acompanhado de severa repressão foi enfrentado pelo movimento

  21

  amparo de tais comunidades, surgem grupos políticos de esquerda que ligados aos agricultores, passam a militarizar a região e usufruir de parte da produção para o financiamento de guerrilhas de enfrentamento ao Estado (ARBEX & TOGNOLLI, 2004; LABROUSSE, 2006). Cabe diferenciar aqui, movimentos como o de Pablo Escobar, que possuía uma estratégia de aproximação e cooptação de agentes do Estado, em contraste a países nos quais ocorreu o movimento inverso, a saber, o Estado gerir o crime organizado articulando sua estrutura de funcionamento. Assim ocorreu no México sob comando do Partido Revolucionário Institucional. Segundo Labrousse (2006), neste país, o crime organizado foi gerido e articulado por agentes pertencentes ao Estado, administrando o que estava na legalidade e na ilegalidade, conferindo grande campo de atuação e fortalecimento para os negócios ilícitos.

  Dificilmente atribuível à mera coincidência, é também, na década de setenta, que fica declarada a guerra contra as drogas, movimentando milhões em serviços e equipamento bélico na América Latina. De 1970 a 2010, apesar do forte investimento em campanhas públicas voltadas para prevenção, repressão ao uso e ao tráfico de drogas, poucos resultados podem ser apresentados como eficazes (LABROUSSE, 2010; RODRIGUES, 2003). Os efeitos e as continuidades desta guerra se fazem sentir até o momento, empresas de paramilitares, popularmente conhecidos como mercenários da

  22

guerra já possuem contratos principalmente no México e na Colômbia,

prestando serviços de repressão e apoio às relações internacionais.

  No relatório do departamento de drogas e crime da ONU lançado em 2010, uma discussão é feita acerca do fracasso da guerra às drogas, porém é ressaltada a importância de que o combate continue, fazendo com que as alternativas à proibição sejam descritas como irresponsáveis por não considerares os milhões de mortes decorrentes do abuso e dependência de substâncias ilícitas (UNODC, 2010). Cabe a nós, o questionamento de tal postura irredutível, quando se pode notar que tal preocupação não pode e nem 21 é amenizada pelos resultados pouco expressivos do combate bélico a usuários 22 Estes grupos são: Movimento Túpac Amaro e Sendero Luminoso.

  Talvez a maior dentre estas empresas seja a Xe Operations – anteriormente chamada

BlackWater Ops – mundialmente conhecida por ter cometido diversos crimes de guerra no e produtores.

  Ao atentarmos para este breve levantamento acerca do uso e proibição das drogas na sociedade ocidental, lembremos que há cerca de pouco mais de um século, “praticamente nenhuma droga, de uso medicamentoso ou não, era objeto de controle, quanto mais, sujeita à criminalização” (VARGAS, 2008, pág. 54). É ao decorrer da segunda metade do século XIX e ao longo do século XX que se iniciam as regulamentações quanto ao lícito e ilícito, sendo o debate sobre o que é socialmente nocivo e a delimitação de suas estratégias de combate pertencentes às justificativas de um vasto campo de manobras políticas.

2.1. O julgamento de Noriega

  Para maior clareza da breve trajetória que conduz às drogas ao status de inimigo público, recorremos a um episódio que consideramos como um marco da guerra às drogas a nível internacional. Após diversos trâmites políticos para conter a ameaça comunista, o governo dos Estados Unidos rompe com alguns de seus colaboradores e mira seu arsenal bélico no perigo das drogas. Em meio a este processo, destacamos este episódio como o que melhor ilustra as drogas no lugar de ameaça internacional. Neste contexto, o destaque dado ao tráfico de cocaína, apresentou esta substância como uma verdadeira arma de destruição em massa, conforme veremos mais abaixo.

  Em 1990, Manuel Antonio Noriega Moreno, líder militar e estadista do Panamá, se entrega ao governo americano, após quase um ano de conflitos armados e cerca de 3000 mortos. Noriega trabalhou como agente da CIA desde a década de setenta, fez sua carreira militar no Peru recebendo diversos treinamentos do governo americano e peruano e na década de 1980, no Panamá, fez parte do movimento de guerrilha conhecido como “Os Contras”, grupo guerrilheiro financiado pelo governo americano que se opunha ao atual governo de esquerda. Este episódio, denominado: Irã – Contras, ficou marcado pela movimentação feita pelos Estados Unidos de tráfico de armas para o Irã e

  23

  financiamento do golpe nicaraguense com narcodoláres . Tal episódio gerou grande embaraço para o governo Reagan, no qual Bush era vice-presidente e posteriormente para o próprio governo Bush (RODRIGUES, 2003). A operação que possibilitou o desfecho desta trama foi desencadeada em 1989 sob o nome de Operação Justa Causa.

  Acusado de comandar uma das maiores operações de tráfico de drogas disseminando grandes quantidades de sua mercadoria nos Estados Unidos, Noriega aguardou o seu julgamento por vinte meses em um presídio em Miami, sendo o primeiro chefe de Estado a ser julgado em território americano.

  Noriega não era americano, não havia cometido crimes em território americano. E o pior: quem o acusava eram criminosos condenados nos Estados Unidos e que recebiam milhares de dólares e comutação de penas para denunciarem o que sabiam sobre o

tráfico de cocaína (TOGNOLLI, 2004, pág. 157),

  Ainda de acordo com Tognolli (2004), o que foi a julgamento em vinte e nove de agosto de mil novecentos e noventa e um, não foi simplesmente um ditador e ex-agente da CIA, mas o narcotráfico como “o maior mal do mundo” (Ibidem) após a ameaça comunista (Ibidem). Em um julgamento que teve ao menos setenta e oito testemunhas, sessenta delas de acusação, figura o importante papel cumprido pelo chefe mais alto do cartel de Medellín, Carlos Lehder Rivas. Após negociar seu depoimento para diminuição de sua pena, o ex-chefe do Cartel De Medellín fez a seguinte afirmação: “meritíssimo, por muitos anos os Estados Unidos exploraram os povos pobres da América Latina. Mas nossa vingança chegou, senhor juiz: a cocaína é a bomba atômica da América Latina” (ARBEX & TOGNOLLI, 2004). Tal afirmação gerou grande polêmica midiática e, ainda que Lehder Rivas possa ter tido a intenção de chocar a opinião pública ou se proteger sob um argumento demagógico alegando opressão política por parte dos EUA, não podemos ignorar sua declaração. Assim, Rivas colocou as drogas ilícitas no mesmo lugar que 23 Richard Nixon o fizera em 1972, no lugar de “inimigo número 1 da América”

  (RODRIGUES, 2003, pág. 42).

  A partir daqui não é difícil recorrermos à Freud e seu clássico texto denominado “Psicologia de grupo e análise do eu” (1923). Segundo o autor, “quem quer que deseje produzir efeito sobre ele [o grupo], não necessita de nenhuma ordem lógica em seus argumentos; deve pintar nas cores mais fortes, deve exagerar e repetir a mesma coisa diversas vezes” (FREUD, 1923), e talvez devamos endossar as palavras de Freud, que além de repetir e exagerar, seja de suma importância arrancar da boca do inimigo, as palavras que confirmem o seu lugar, fazendo reluzir os quão afiados sejam suas garras e dentes.

2.2. Políticas sobre drogas no Brasil

  No Brasil, uma grande parcela da política de atenção às drogas, seguiu a cartilha internacional de abordagem do problema optando pelo foco na questão das drogas pela lente da segurança pública.

  Porém, no início do século XX, assim como nos EUA, boa parte da preocupação relacionada ao uso de substâncias e segurança pública estava relacionada ao abuso de álcool. No Brasil as organizações: Liga Antialcoólica de São Paulo, Liga Paulista de Profilaxia Mental e Sanitária, Liga Brasileira de Saúde Mental e União Brasileira Pró – Temperança davam o tom das ações assistenciais e higienistas frente aos problemas relacionados com o consumo de álcool (MACHADO & MIRANDA, 2007).

  Como exemplo da produção de regulamentações e diagnósticos, destacamos que a paixão pela cachaça acompanhada de perambulações e sumiços nas vielas e bares cariocas, promoveu Lima Barreto a um dos emblemáticos objetos de inscrição da psiquiatria eugenista no Brasil. Assim, sua pele mulata amargou longos períodos de reclusão no cemitério dos vivos. Visto que seus porres foram entorpecidamente compreendidos como decorrentes de sua debilidade moral e falha de caráter, só viabilizada enquanto produto trágico da mistura de raças (ARANTES, 2008), segundo o psiquiatra Juliano Moreira, é notável uma preocupação com a produtividade dos homens e sendo grande o número de alcoolistas que sobrecarregam o erário com uma despesa inútil, visto como muitas vezes somos obrigados a mantê-los aqui porque sabemos que, mesmo cessado o delírio, o dia da alta é frequentemente a véspera da volta ao carro de polícia, faz-se preciso crer nas colônias do Estado uma seção para tais doentes, muitas vezes excelentes trabalhadores quando isentos de álcool. (MOREIRA apud ARANTES, pág. 4, 2008).

  Era notório que na passagem do século XIX para o século XX, já houvesse a discussão sobre uma ala para quem tivesse problemas com drogas. Assim, Moreira, implicado em identificar as causas do alcoolismo identificado em negros e mulatos supõe um “fator de degeneração mental dos negros à alta absorção de álcool durante as viagens dos navios negreiros vindos da África” (ARANTES, 2008).

  Entretanto, a história entre o negro e o alcoolismo, não se restringe aos navios. Podemos constatar que o relato de Juliano Moreira faz um registro histórico da violência na escravatura e uso de drogas no Brasil, segundo Arantes, Moreira relata que

  o alcoolismo forçado foi um dos recursos mais eficazes dos colonizadores para manter a ordem e a disciplina dos negros desobedientes e revoltados. O álcool, ingerido em grandes quantidades, servia para abrandar o sofrimento dos negros nas penosas viagens pelos mares, assim como anulava a ‘agressividade inata’ dos negros africanos. (ARANTES, 2008).

  Estas passagens podem ser consideradas como retratos da história da saúde mental brasileira. O artigo de Marco Antonio Arantes evidencia o tom das preocupações e políticas de acento racista que marcaram o começo do último século no Brasil. Curiosamente, a substância em jogo é esta que até hoje detém alto níveis de consumo e ampla publicidade no mercado. Entretanto, estas passagens revelam uma preocupação com a ordem pública, marcada historicamente pelo decreto nº 206 assinado em 1980. Este decreto determinava que “todo cidadão que perturbasse a ordem pública, a moral e os costumes seria internado em asilos públicos” (Ibidem). Portanto, no Brasil, o motivo para reclusão dos bebedores de álcool estava antes abertamente ligado à ordem pública do que propriamente a saúde de quem bebe.

  Já a primeira lei de proibição de uma substância ilícita no Brasil surge vinte e um anos depois, datando 1911. Sua implementação ocorre devido à adesão do Brasil ao congresso de Haia, onde os países participantes, acordaram a proibição do ópio e uma rígida regulamentação da morfina. Porém, só no ano de 1971, surge uma nova lei sobre drogas com fortes aportes da psiquiatria brasileira e escrita com a finalidade “abrir as portas assistenciais do Estado aos dependentes de drogas” (BITTENCOURT APUD MACHADO & MIRANDA, 2007). Em 1976 esta lei é modificada, com substituição do termo viciado por dependente de drogas (MACHADO & MIRANDA, 2007).

  Desde este período até os dias atuais o Brasil ainda sofre de um sério obscurantismo no que é referente às diferenciações entre usuário e traficante. 24 Podemos tomar, por exemplo, em 1998, a criação da SENAD – na época Secretaria Nacional Anti-Drogas, atual Secretaria Nacional de Política Sobre Drogas – apontando para um reforço das imbricadas questões no âmbito da atenção, e principalmente repressão, às drogas. Curiosamente a criação desta secretaria anunciada em uma Sessão especial de uma Assembléia Geral das Nações Unidas foi alocada especificamente no Gabinete Militar da Presidência da República (ibidem), hoje denominado Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. Esta alocação pode indicar como as drogas ainda são tratadas prioritariamente no Brasil, claramente, sua gestão firmada na segurança a mantém como assunto de polícia. Ainda que exista um reconhecimento por parte do poder público de que as drogas podem ser tratadas como questão social, cultural e de saúde.

  Portanto, se atentarmos para a passagem de pouco mais de um século, o decreto de 1890 ainda parece ecoar situando a questão das drogas como altamente ameaçadora à ordem pública. Por mais que mudem as leis, 24 podemos afirmar que estas, continuam sob regência dos mesmos significantes.

  Ainda que o panorama não seja dos mais promissores, no ano de 2003, foram iniciadas mudanças significativas em relação à atenção de saúde no país, ano que data a publicação do "A Política do Ministério da Saúde para a Atenção Integral a Usuários de Álcool e outras Drogas" (BRASIL, 2004), trazendo dados com enfoque na questão da saúde pública, e reconhecendo o lugar álcool – enquanto substância lícita – um grave problema. Este movimento possibilitou a criação dos serviços denominados CAPS A.D. que configurou, após mais de 20 anos de luta antimanicomial, a criação dos primeiros serviços de Atenção Psicossocial em meio aberto. Este serviço, com exceção dos serviços de cunho religioso disponíveis, foi apresentado como a primeira possibilidade não restritiva de atenção ao problema do abuso e dependência de substâncias como uma questão específica na saúde pública.

  Entretanto, a questão das drogas na política brasileira, não deu passos significativos para avançar quanto às expectativas e posicionamentos frente ao problema, dado que no decorrer dos embates no campo político concernente à Saúde Mental, a questão das drogas permaneceu sob uma regulação

  25

  tradicionalmente pineliana . Em contraste com as posições mais conservadoras no atendimento aos usuários drogas, as experiências de Redução de Danos passaram a ser aplicadas no Brasil desde 1989 (NARDI E RIGONI, 2005) sob fortes confrontos judiciais e morais. Desse modo, foram se estabelecendo pouco a pouco, políticas de troca de insumos, além do princípio de não condenação moral do usuário, priorizando o respeito às suas escolhas e a atenção à sua saúde. Também cabe salientar, que estas iniciativas sofreram duros golpes dos setores conservadores do Estado. Dente estes golpes, podemos destacar diversos processos jurídicos por crime de apologia. Estas barreiras fizeram com que a implementação de tais políticas se constituíssem em uma verdadeira batalha, onde cada avanço, quando conquistado, permanecia sob ameaça de recuo e isolamento por parte do poder público. 25 Portanto, este movimento não ficou ileso ao grande destaque dado ao

  Consideramos o modelo de tratamento pineliano como aquele que prioriza a organização e ordenamento da rotina sob regime de internação, com o intuito de ajudar a “organizar” o crack em meio às matérias de grandes órgãos de mídia e consequentemente à sua inclusão nas pautas de campanhas eleitorais. Para demonstrar o aumento da frequência do crack na mídia brasileira, realizamos uma busca em um portal

  26 de um jornal on-line de grande circulação nacional .

  Neste portal, entre o dia primeiro de janeiro ao dia trinta e um de dezembro do ano de 2000 foram localizadas 94 matérias que contém a palavra

  27

  crack . Este número faz significativo contraste com as 292 notícias localizadas em uma busca entre o dia primeiro de janeiro até o dia 30 de novembro de 2011. Este aumento em mais de 100% do número de matérias sobre o crack, nos possibilita questionar frente a quais critérios editoriais o tema ganhou este espaço, apresentando notícias ligadas a uso de crack e violência, que, se fossem apresentadas sob o mesmo formato, relatando uso de álcool, causariam um fluxo de matérias infindáveis.

  Estes dados mostram como, por meio de veículos de mídia, é possível incluir um tema como central no debate político. O clamor suscitado pelo pavor da epidemia do crack possibilitou um coro de setores mais conservadores que exigiam, e continuam a exigir medidas mais firmes do poder público. Estas medidas, em sua grande maioria envolvem internações compulsórias e abertura de clínicas de internação financiadas pelo poder público. No entanto, um dado curioso, é que este movimento percorre às vezes em paralelo e às vezes em posição antagônica, a um pressionamento por parte de setores da sociedade civil organizada que pedem a legalização ou descriminalização de

  28 drogas consideradas mais leves como a maconha .

  Tais movimentos não podem ser vistos segregados do fato de que a partir do ano 2000, as políticas sobre drogas no mundo passaram por um 26 sopro revisionista. Nos últimos cinco anos, diversos países revisaram suas

  

Não citamos o nome do jornal por não termos realizado o mesmo levantamento em outras

fontes. Este exemplo serve como exemplo para enriquecimento da análise e não como 27 dado estatístico.

  Nesta pesquisa houve o cuidado de verificar se a palavra estava sendo usada em referência à droga. Para evitar o erro de contabilizar matérias que dissessem respeito à 28

crise financeira enquanto “crack na bolsa de valores”, ou referências a jogadores de futebol.

  

Em maio deste ano (2011) o Superior Tribunal Federal autorizou a realização de marchas

que defendam a legalização ou descriminalização da maconha. No mês seguinte houve legislações acerca de substâncias ilícitas, e muitos optaram por descriminalizar o porte de drogas do usuário. Dentre eles podemos destacar Portugal, Tchecoslováquia e Argentina. A descriminalização do porte tem variações em cada país, estas variações correspondem à quantidade, cultivo para consumo próprio e quais substâncias saem do campo da ilegalidade. O Brasil no ano de 2006 reformulou as sanções penais aos usuários, mantendo o porte como crime, mas não mais passível de reclusão, tendo como medida judicial

  29

  prioritária o encaminhamento para tratamento compulsório. Nesta nova lei também não está presente qualquer referenciamento a quantidades em que garanta ao indivíduo autuado em flagrante o status de usuário, permanecendo assim uma nebulosidade entre uso e tráfico, possibilitando que adolescentes e adultos continuem a ser detidos em reclusão sob o crime hediondo

  30 denominado “tráfico ilícito de entorpecentes” (2006).

  Assim, o início das práticas de Redução de Danos marca presença oficial no Brasil na década de 1980 (Brasil, 2003). Formalizadas com as políticas de atenção da rede pública da baixada santista, bem como outras ações ao longo do território nacional, o registro de suas práticas possibilitaram a crítica ao modelo da condenação moral dos usuários de drogas. Neste período, identificamos congressos e conferências que registram em seus anais a falência do modelo repressor enquanto prática de saúde (Brasil, 2003).

  Em contrapartida a este debate, em 2010, o lançamento da “Campanha Nacional de Alerta e Prevenção ao Uso de Crack” (BRASIL, 2010), sob os dizeres de “O crack causa dependência e mata!” (ibidem) demonstrou a nova face de um antigo inimigo. Políticos em campanha eleitoral incluíram em seus discursos o alto grau de periculosidade da substância e esclareceram que em seus governos o “combate ao crack” seria prioridade. Tal evento decorre do aumento da abordagem do tema por parte dos veículos de mídia, e do entendimento de uma expansão do uso da substância pelo país, 29 acompanhando esta expansão, um aparente aumento da violência, 30 Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006 Art. 33. Importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à

  venda, oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar: Pena - reclusão de 5 (cinco) a 15 principalmente entre varejistas e usuários (SAPORI, 2010).

  No entanto, ressaltamos que, ainda que o crack seja destaque nas pautas de políticas públicas, segundo a última pesquisa publicada pela Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas, a dimensão de seu uso, encontra-se em sétimo lugar no ranking das drogas mais usadas no Brasil. Na frente do crack, com seu uso identificado em 0,7% do total da população brasileira, apresentam-se substâncias como o álcool, utilizado por 74,6% da população e os benzodiazepínicos, utilizados por 5,6% dos brasileiros (SENAD, 2005).

2.3. O Crack: observações sobre uma política de enfrentamento.

  O primeiro registro de uso de crack na cidade de São Paulo, realizado por meio de uma apreensão policial, data de 1989 (NAPPO, 2008). Atualmente,

  31

  estima-se que no Brasil haja 600 mil usuários (MANSO e MOURA, 2010). Na região sul do país foi lançada a campanha “Crack nem pensar” (RBS, 2010) com o principal objetivo de erradicar o uso de crack em seu território de abrangência. Já o Ministério da Saúde, lançou a Campanha Nacional de Alerta e Prevenção ao Uso do Crack (2010), recorrendo novamente a um discurso de terrorificação e ao princípio básico da prevenção às drogas: caso as pessoas não tenham contato com as substâncias, elas não terão problemas com drogas (BRASIL, 2010b).

  Nas últimas eleições que ocorreram no ano de 2010, o discurso anti- crack foi consensual entre os candidatos dos partidos de direita, centro e esquerda. Em diversas matérias e colunas veículadas na imprensa, o crack surge frequentemente enquanto sinônimo de peste ou doença, títulos como “Descobriram a cura do crack?” (DIMENSTEIN, 2010) em São Paulo, ou “vício não tem cura” (TONI, 2009), publicado pela campanha “Crack nem pensar” da 31 rede RBS no Rio Grande do Sul, apresentam o tom de um discurso tutelar. O

  

Não há pesquisas em larga escala publicadas em periódicos, a mais próxima quanto à

abrangência, investiga uso de crack e violência, coordenada pelo sociólogo Luis Flávio

Sapori (2010). Os dados estimados foram dados em entrevistas e carecem de precisão.

Atualmente, a SENAD está conduzindo em torno de todo o território nacional para obtenção que antes era delimitado pelo governo federal como políticas de atenção ao álcool e outras drogas, passam a surgir como crack, álcool e outras drogas, conferindo status público notável a esta substância (BRASIL, 2010).

  Nesta década também houve a expansão de territórios geográficos denominados crackolândias, tais territórios são assim denominados por telejornais, mídia digital e impressa, quando estes fazem referência a uma determinada região, onde as pessoas se reúnem ou moram no intuito de usar crack. Tal comoção conduzida por fortes aportes midiáticos impulsionaram a destinação, por parte do governo federal, a verbas especiais para políticas de atenção e tratamento. No entanto, novas iniciativas que não apresentem um regresso na atenção à saúde mental, possuem uma tímida visibilidade e sofrem com um constante tensionamento de forças políticas.

  Portanto, os dados apresentados no tópico anterior, evidenciam o lugar do crack enquanto droga da vez. Vale ressaltar, que esta pesquisa não pretende discutir qualquer que seja o status farmacológico ou potencial de destrutividade do crack, pois optar por este caminho, a priori, seria eleger um objeto nos mesmos termos de tais políticas. Portando, o que é digno de nossa atenção, é a dinâmica do pânico que se instala sobre traços específicos de determinadas substâncias, numa espécie de produção incessante de inimigos que exijam medidas duras e implacáveis.

  Devemos considerar que os termos e a retórica utilizada nas campanhas antidrogas não são sem efeitos, produzem identidades cristalizadas a serem encarnadas pelos usuários. Na medida em que estas campanhas apresentam algo como nefasto, avassalador, mortífero, tais atribuições parecem alcançar reverberações nas quais, curiosamente, são repetidas por diversos usuários, geralmente fazendo referência à droga como algo diabólico, mortífero e arrasador.

  Neste ponto, identificamos um desafio ao movimento anti-proibicionista que costuma defender controle de qualidade sobre as substâncias que hoje são ilegais. É necessário reconhecer até onde o uso se dá pelo baixo custo da substância, em que ocorrem maiores condições de se fazer um uso mais frequente, e até onde o uso ocorre por uma atração a algo sujo e mundano, em uma atração com aquilo que pode ser visto como extremamente prazeroso e destruidor. Isto pode ser exemplificado pelo hábito que usuários têm de fumar a borra, nome dado às cinzas que sobram depois de fumada à pedra. A borra acaba comportando as propriedades da pedra de crack concentrada em restos, depois de fumada proporciona efeitos mais rápidos e mais fortes, nestes casos é comum o usuário ter pigarros acinzentados ou negros, ficando evidente um dano corporal instantâneo. Atualmente, diminuir o uso da borra que sobra da pedra de crack, no fundo do cachimbo, compõe um verdadeiro desafio a 32 redutores de danos e agentes de saúde (informação oral).

2.4. Da guerra às drogas ao combate ao crack

  Nosso levantamento sobre a guerra às drogas mostra como estas substâncias passaram a ser tratadas enquanto ameaça social, compondo um período recente da história da humanidade. A forma como as substâncias passaram a ser proibidas mostram um esforço por parte de grupos religiosos e governos na busca por uma administração das formas de gozo de uma população. Assim, as premissas que justificam tais ações, como o cumprimento de responsabilidades familiares, ou maior produtividade no trabalho, apontam para uma administração que vise uma maior instrumentalização da vida. Este processo se dá por um discurso que institui como uma vida deve ser vivida, a saber, de modo regrado e produtivo.

  No entanto, a proibição e o combate às drogas tem um desenvolvimento. O discurso sobre a proibição não se detém em um regulamento das ações. Mas assim como trabalhamos no episódio ocorrido no julgamento de Manuel Noriega, as drogas ganharam novos contornos. Se antes elas deveriam ser controladas ou proibidas para a melhor produtividade de uma população, a partir da década de setenta, estas passam a ocupar o lugar de um inimigo político de proporções internacionais.

  Assim, as drogas adquirem forte conotação enquanto um assunto de 32 segurança de estado. Portanto, é desta maneira que elas passam a ser

  

Seminário: Tráficos, violência urbana e o consumo de psicoativos: a contribuição etnográfica na compreensão das questões contemporâneas de interesse da saúde pública. FSP USP: articuladas no jogo político, possibilitando o Estado agir energicamente contra inimigos externos ou internos, recorrendo às armas e às prisões com o apoio da opinião pública.

  Para ilustrarmos o andamento deste processo, demos grande foco à política americana. Porém, reconhecemos que no Brasil, tal política também se impôs como um mecanismo de controle e aprovação da opinião pública de modo eficaz. Acatando as exigências de acordos internacionais, o Brasil passa a lidar com as drogas como um perigoso inimigo.

  No entanto, essas medidas não surgem como algo completamente alheio à nossa cultura. Conforme apresentamos, às drogas legais, em especial o álcool, eram tratadas como uma grave ameaça quando combinadas com a população negra. Como mostramos, este problema era tratado como ofensa à moralidade pública.

  Com as exigências de acordos comerciais internacionais, temos uma potencialização do aparato de repressão sobre tais questões. Desta forma, junto com a política de guerra às drogas, o Brasil importa os ditames sob os quais o perigo das drogas deve ser abordado. Assim, o maior departamento para tratar do assunto, nasce dentro de um gabinete encarregado de garantir à segurança do Estado, consolidando um tratamento policial sobre esta questão.

  Podemos considerar, que no Brasil, as drogas enquanto inimigo público tem o seu momento mais emblemático com a notoriedade sobre o crack. Esta pode ser considerada a substância em maior destaque enquanto ameaça à ordem social. Ainda que os dados estatísticos não justifiquem uma presença maior que o álcool ou mesmo os benzodiazepínicos, a cena composta por usuários pobres e em explícita deterioração, vagando em praça pública, demarca o triste fim daqueles que não se fiam no ideal do progresso. Esta cena, amplamente difundida pelos meios de comunicação, levou o crack para o elenco das principais pautas políticas, gerando certo entrave no desenvolvimento de políticas que reivindicam um tratamento que respeite a liberdade de escolha daqueles que usam drogas, bem como vosso direito de ir e vir.

  Portanto, a partir do próximo capítulo trabalharemos com os referenciais pertencentes à psicanálise na busca de obras que abordem às drogas como tema clínico e suas implicações políticas.

3. DROGAS E PSICANÁLISE: PROBLEMATIZAđỏES NECESSÁRIAS PARA UM ESTUDO.

  "Além disso, para voltar a minha tese de que a vida tem uma ofensiva variada, a sensação de desabamento não foi simultânea a um golpe, mas a uma trégua" S. Fitzgerald (Crack-up)

  Este capítulo comporta um breve levantamento sobre o lugar das toxicomanias no campo psicanalítico. Neste levantamento buscamos compreender como a categoria toxicomania passa a figurar dentre à nosologia das psicopatologias trabalhadas pela psicanálise. No entanto, para o enriquecimento desta leitura, intercalamos este levantamento com o resgate de algumas passagens que dizem respeito à estrutura discursiva que mobiliza a ação preventiva frente às drogas.

  Esta tarefa se faz necessária, perante o compromisso com nossa proposta de localizar as incidências correspondentes ao uso das drogas como ameaça à sociedade e consequentemente, um perigo a ser combatido. Portanto, um breve levantamento sobre como alguns psicanalistas trabalham às toxicomanias, pode nos revelar como alguns elementos pertencentes ao uso político do discurso de combate às drogas foram contrabandeados para dentro da teoria psicanalítica.

  Ao tratarmos a questão das drogas em nossa sociedade como uma questão historicamente datada, este caminho se impõe como rota obrigatória na direção de nosso objeto de estudo. Deste modo, esclarecemos que o entendimento sobre a toxicomania como um efeito discursivo permanece enquanto uma lente que nos possibilita deter uma mínima compreensão sobre o ranço político na relação de alguns psicanalistas com o tema das drogas. Portanto, na medida em que a psicanálise passa a tratar das drogas enquanto uma questão, demarcamos neste processo a inscrição de um discurso sob o qual uma série de propósitos e estratégias se engendram alheias à ética do desejo e até mesmo à proposta de cura.

  Uma discursividade toxicômana se constitui concomitante aos processos de inscrição de um problema denominado droga. Parafraseando Melman: “certamente alguém se torna toxicômano porque está preso neste discurso” (MELMAN, 1992, pág. 69). Portanto, a partir do momento em que nos colocamos a trabalhar a figura do toxicômano para a psicanálise, fazemos referência a uma operação discursiva. Vale destacar, que compreendemos esta operação como articulação significante que governa o uso das palavras. Deste modo, sua estrutura detém lugares simbólicos que põe em funcionamento uma razão que tende a dar o compasso de uma subjetividade circunscrita em seu domínio. Assim, o toxicômano, ou mesmo o nóia, considerando a gíria em seu uso ordinário, é dotado de uma existência, a partir do momento em que uma confluência de saberes passa a explicá-lo e a identificá-lo enquanto tal.

3.1. As satisfações substitutivas do mal-estar

  Portanto, ao considerarmos a imagem do usuário de crack como aquele que supostamente hospeda a ameaça à ordem social, recorremos a um afunilamento no qual às políticas de combate e enfrentamento concentram seu discurso. Ao dissertarmos sobre algo que ainda não tem reconhecimento internacional enquanto substância, visto que nos relatórios internacionais o crack é uma forma de uso da cocaína (UNODC, 2010), identificamos que aquém dos alardes feitos por campanhas e notícias veiculadas nas mais diversas mídias, esta é a substância que, neste momento, encarna a função de algoz. Esta ameaça sempre há de corresponder a algo na gramática do tempo no qual se vive, preconizando-o, sempre de modo falho ou postulando-o, nunca conclusivamente.

  Curiosamente, se pensarmos o crack enquanto forma de uso da cocaína, temos uma reedição da polêmica na qual Freud se envolveu, quando este defendeu (1884) e posteriormente temeu a cocaína (GURFINKEL, 2008). Entretanto, se a cocaína teve seu surgimento enquanto medicamento, o crack, desde o início de sua existência, já nasce na ilegalidade, circulando com única finalidade de entorpecimento, noticiado como flagelo entre aqueles de vida precária, causando temor na vizinhança.

  Portanto, em consideração a este temor que buscamos avançar com outro escrito de Freud, para pensarmos à ameaça do crack, recorremos à Psicologia das massas e análise do eu (1921), texto que aborda o contágio do medo em um grupo e suas formas de organização diante de um inimigo:

  Tomando a palavra 'pânico' no sentido de medo coletivo, podemos estabelecer uma analogia de grandes consequências. No indivíduo o medo é provocado seja pela magnitude de um perigo, seja pela cessação de laços emocionais (catexias libidinais); este 33 último é o caso do medo neurótico ou angústia . Exatamente da mesma maneira, o pânico surge, seja de um devido aumento do perigo comum, seja ao desaparecimento dos laços emocionais que mantém unido o grupo, e esse último caso é análogo ao da angústia. (FREUD, 1921, pág. 61).

  A cessação de laços emocionais e o aumento de um perigo comum, não necessariamente devem ocupar lugares opostos. Uma sociedade pode se sentir unida tendo de enfrentar um inimigo. Isto ocorre quando seus membros em sua maioria, o reconhece enquanto tal. Diante do enfrentamento deste inimigo, posições de liderança podem ser reconhecidas, apontando por quais meios este inimigo deve ser atacado e o quão importante é a união do grupo. Deste modo, ainda que tal movimento opere de modo legítimo ou como mero joguete de manipulação, o que está em jogo neste caso, é a prática de escamotear o mal-estar inerente a qualquer grupo social.

  Portanto, para que possamos trabalhar com a questão do crack na atualidade, teremos de compor a estas reflexões, outras proposições do 33 próprio Freud sobre o uso das drogas frente ao Mal Estar na Civilização (1930).

  

O termo presente no livro consultado é 'ansiedade', aqui ele é substituído por angústia

devido a um problema de tradução da edição utilizada. A diferenciação de angústia e

ansiedade (subtraída em traduções para o inglês) reside na relação direta com um objeto.

Na passagem anterior quando se refere ao “medo [que] é provocado pela magnitude do

perigo comum” Freud se utiliza da palavra Furcht. Quando Freud se refere a um estado de

excitação onde não há objeto aparente, este usa a palavra Angst. Que do alemão para o Para que não se perda de vista o estatuto histórico do tema sobre o qual trabalhamos, por hora, iremos nos deter no que Freud denominou de “satisfações substitutivas”, (FREUD, 1930). Segundo o autor,

  os métodos mais interessantes de evitar o sofrimento são os que procuram influenciar o nosso próprio organismo. Em última análise, todo sofrimento nada mais é do que sensação; só existe na medida em que o sentimos, e só o sentimos como consequência de certos modos pelos quais nosso organismo está regulado. O mais grosseiro, embora também o mais eficaz, desses métodos de influência é o químico: a intoxicação. Não creio que alguém compreenda inteiramente o seu mecanismo; é fato, porém, que existem substâncias estranhas, as quais, quando presentes no sangue ou nos tecidos, provocam em nós, diretamente, sensações prazerosas, alterando, também, tanto as condições que dirigem nossa sensibilidade, que nos tornamos incapazes de receber impulsos desagradáveis (Ibidem).

  Assim como

  uma pessoa nascida com uma constituição instintiva especialmente desfavorável e que não tenha experimentado corretamente a transformação e a predisposição de seus componentes libidinais indispensáveis às realizações posteriores, achará difícil obter felicidade em sua situação externa, em especial se vier a se defrontar com tarefas de certa dificuldade. Como uma última técnica de vida, pelo que menos lhe trará satisfações substitutivas, é-lhe oferecida a fuga para a enfermidade neurótica, fuga que geralmente efetua quando ainda é jovem. O homem que, em anos posteriores, vê sua busca da felicidade resultar em nada ainda pode encontrar consolo no prazer oriundo da intoxicação crônica, ou então se empenhar na desesperada tentativa de rebelião que se observa na psicose. (Ibidem).

  Ao lermos com atenção estas duas passagens, podemos notar que as drogas figuram como um método eficaz de suporte do mal estar. No entanto, além dos tóxicos, Freud cita as enfermidades neuróticas como uma fuga que proporciona satisfação substitutiva. Assim como a intoxicação, a enfermidade neurótica, pensada por nós como presente nos fenômenos grupais, também figura dentre os métodos de tamponamento do mal estar. Deste modo, consideramos que o medo, ou a reação violenta ao uso e a existência das drogas comporta uma dimensão neurótica de defesa à angústia.

  Este movimento, no qual o neurótico se lança, compõe um jogo pulsional. O que é vivenciado como um recalque pode passar a um avesso radicalmente superegóico, incidindo na repetição da tentativa de não lidar com o mal estar, visto que esta tentativa tende à falha.

  Assim, seguimos para um maior esclarecimento sobre a toxicomania, considerando um espelhamento neurótico. De um lado, a tentativa de tamponar o mal estar pelo uso de substâncias tóxicas, de outro, a mesma tentativa pela via da condenação moral e violência aqueles que recorrem às drogas.

3.2. Toxicomania e psicanálise

  Para termos uma compreensão de como situarmos a toxicomania na literatura psicanalítica, ainda que a toxicomania não seja especificamente o objeto a ser pesquisado, dedicaremos parte de nossos esforços a localizá-la e justificar o seu não uso enquanto categoria válida para esta pesquisa. Para tal finalidade nos guiaremos por alguns importantes levantamentos feitos por Jésus Santiago em sua tese de doutorado denominada “A droga do toxicômano: uma parceria cínica na era da ciência” (2001).

  Iniciemos pela utilização do termo 'toxicomania' na psicanálise. Santiago (Idem) aponta que o termo 'toxicomania' nunca fora utilizado por Freud, este chegou a utilizar os termos mofaínomania e cocaínomania quando se referia ao tratamento de seu amigo Fleishl, mas nunca uma denominação de um estado clínico estruturalmente alicerçado em um funcionamento específico, dito toxicômano. O termo toxicomania descende dos debates acerca da

  

monomania, quadro nosológico classificado por Esquirol. A síndrome

  monomaníaca era subdividida em três tipos: delirante, raciocinante e instintiva

  (TAVARES, 2008). Santiago afirma que o termo ganha força na medida em que as atenções se voltam para a discussão “sobre a mania aplicada à problemática dos distúrbios e atos impulsivos” (SANTIAGO, 2001, pág. 69), o que podemos compreender como adequada à categoria instintiva. No entanto, a monomania enquanto categoria clínica era “muito abrangente, reunindo ao mesmo tempo síndromes psicóticas e não psicóticas, e por isso foi abandonado” (TAVARES, 2008). Portanto será sob a pena de Emmanuel Régis que Santiago localiza a definição de toxicomania como categoria clínica:

  Essa tendência não é comum a todo mundo. Ela é observada nos neuropatas, sobretudo os histéricos, cuja apetência doentia, não apenas pela morfina, mas também pelo éter, o cloral e outras substâncias análogas, toma frequentemente a forma de uma verdadeira toxicomania, de uma necessidade imperiosa de se intoxicar. (REGIS apud SANTIAGO 2001, pág. 206).

  Para Regis, psiquiatra contemporâneo a Freud, é esta tendência imperiosa que poderá classificar um toxicômano. Entretanto, retornando especificamente ao campo da psicanálise, vale destacar que Freud nunca cunhou o termo 'toxicomania', este chegou a utilizar os termos mofaínomania e 34 cocaínomania quando se referia ao tratamento de seu amigo Fleishl , mas nunca uma denominação de um estado clínico estruturalmente alicerçado em um funcionamento específico, dito toxicômano (Idem, 2003).

  A toxicomania como categoria clínica na psicanálise é intrínseca à compreensão da relação com a droga como uma relação objetal, compreendendo tal relação como a droga posicionada no lugar de investimento libidinal e amoroso. Esta visão, talvez não considere o material onde a droga se constituiria enquanto objeto, ou seja, a linguagem. Portanto, a satisfação tóxica, não deve ser compreendida em si, como algo factual, visto que não cabe a psicanálise, a apuração de fatos concretos. Neste campo, as neurociências, com seus estudos sobre os neurotransmissores e seus 34 estímulos, serviriam de maneira muito mais eficaz para este entendimento.

  

“a dependência da cocaína pela em lugar da dependência por morfina – foram esses os

  Deste modo, a psicanálise tem como via de acesso ao fenômeno do que hoje pode ser denominado de toxicomania, a fala de quem situa à droga como elemento central em sua queixa ou o discurso que circunscreve o uso de drogas dentro de categorizações psicopatológicas, este é último, é considerado por nós como o discurso da moral pública que circunscreve o uso de determinadas substâncias como prática condenável.

  No entanto, alguns pós-freudianos se implicaram no entendimento das toxicomanias como algo factual dentro do funcionamento psíquico, pautados em uma visão do inconsciente como algo que opera de forma biológica. Dentre estes, podemos destacar Abraham e a hipótese de deterioração da sublimação por efeito do álcool, na qual “as bebidas alcoólicas agem sobre a pulsão genital, 35 suprindo obstáculos existentes e aumentando a atividade sexual” , Ferenczi e sua hipótese de destruição da sublimação pelo álcool, onde a “revelação da verdadeira estrutura sexual do indivíduo, ou seja, a escolha de objeto mesmo 36 sexo” ; e Ernest Simmel que pensou o supereu como algo solúvel em álcool ou mais especificamente “o supereu temporariamente paralisado por uma 37 toxina” (SANTIAGO, 2001, passim). Tais compreensões, de modo geral, apontam para a colocação das drogas em um lugar privilegiado. No entanto, dentre os psicanalistas citados, Ferenczi apresenta maior clareza sobre o tema, ao afirmar a droga não deve ser pensada como causa. Segundo o autor as instituições que tratam do alcoolismo “tentam esconder o fato de que o alcoolismo é apenas uma das consequências, certamente grave, mas não a causa das neuroses” (FERENCZI apud SANTIAGO, 2003, pág. 119).

  Porém, ainda que as drogas não sejam tratadas como causa, a busca pela compreensão de sua importância no funcionamento inconsciente, pode incidir em posicionamentos que consideramos equivocados, estes posicionamentos serão trabalhados no tópico a seguir.

  35 36 As relações psicológicas entre a sexualidade e o alcoolismo.

  

Neste trabalho, intitulado “O papel da homossexualidade na patogênese da paranóia”

Ferenczi se implica em explicar o ciúme que o marido de sua empregada, mantinha sobre

ele. Deste modo, quando o marido de sua empregada bebia, segundo o psicanalista,

37 revelava seu verdadeiro objeto amoroso, através do ciúme.

3.3. Toxicomania e laço social

  Ao atentarmos para as drogas enquanto produto de um trabalho discursivo, buscamos passagens nos autores que compõe o eixo de interpretação e análise dos dados desta pesquisa. No entanto, neste momento recorremos a estes autores com a pretensão de localizar passagens que dizem respeito às drogas em seu aspecto psicopatológico. Este movimento se faz necessário, visto que a droga facilmente surge enquanto sabotadora do laço social nos trabalhos de orientação lacaniana que propõe trabalhar este tema.

  Na literatura consultada, a classificação da droga como algo que possibilita o rompimento com o gozo fálico, é quase um consenso entre diversos autores na psicanálise (ALMEIDA, 2010; CRUGLAT, 2001; SOLER apud RIBEIRO, 2008; NOGUEIRA FILHO, 1999). Localizamos que esta concepção descende de duas passagens, consideradas referências para o entendimento das drogas na teoria psicanalítica:

  • Freud em o Mal Estar na Civilização:

  devemos a tais veículos [substâncias tóxicas], não só a produção imediata de prazer, mas também um grau altamente desejado de independência do mundo externo, pois sabe-se que com esse “amortecedor de preocupações”, é possível em qualquer ocasião, afastar-se da pressão da realidade e encontrar refúgio num mundo próprio (...). Sabe-se igualmente que é essa propriedade dos intoxicantes que determina o seu perigo e a sua capacidade de causar danos. São responsáveis em certas circunstâncias, pelo desperdício de uma grande quota de energia que poderia ser empregada para o aperfeiçoamento do destino humano (1930, pág. 27);

  • Freud em uma carta à Fliess: “o primeiro e único dos grandes hábitos, a protomania, e que todas as demais adicções como a do álcool, da morfina, do tabaco e etc. Só aparecem na vida como substitutos daquela” (FREUD APUD NOGUEIRA FILHO,

  1999, pág. 38)

  • Lacan na jornada de encerramento dos cartéis em 1975 (apud

  SANTIAGO, 2003):

  é por que eu falei do casamento que eu falo disso; tudo o que permite escapar a este casamento é evidentemente bem-vindo, daí o sucesso da droga, por exemplo; não existe outra definição da droga que esta: é o que permite romper o casamento com o faz-xixi. (LACAN apud SANTIAGO, 2001).

  A partir destas citações, podemos compreender porque alguns analistas compreendem as drogas como algo avesso ao laço social. No entanto, não concordamos com tal posição. Assim, se faz necessário abordarmos um exemplo para que possamos fazer a crítica.

  Almeida localiza o lugar da relação com a droga como “falência no laço” (2010), tratando o termo falência, com uma conotação que representa uma queda da função fálica. Cruglat (2001), também trabalha o uso de drogas como uma espécie de gozo autístico. Esta visão pressupõe que aquele que faz uso de drogas não tem maiores relações de gozo com seus pares, como se sua forma de gozar estivesse deslocada do laço social. Curiosamente este entendimento sobre a questão das drogas e a célebre frase de Carlos Lehder Rivas citada no início deste trabalho conflui na mesma direção. Se levarmos a cabo a frase de Rivas sobre a cocaína como uma “bomba atômica”, podemos olhar o que está implícito em seu discurso: esta substância há de proporcionar o pior e acabará com nossa sociedade. Se de fato o toxicômano não faz parte de uma ordem fálica e se aprisiona no ultrapassamento progressivo das fronteiras da capacidade de gozar de um corpo, temos aí a atomização de indivíduos no campo social, paradoxalmente alienado numa ordem que

  38 38 impossibilita laço, sem dúvida, um gozo atomizado .

  

Se pensarmos o significante atômico por meio da ciência, podemos nos remeter ao

“atomismo lógico”: O atomismo lógico propõe, (...) que o mundo decomponha-se em uma

série de entidades isoladas e independentes que não têm nada a ver umas com as outras.

Cada objeto é como um átomo e pode ser conhecido diretamente por ele mesmo; diferem-

se muito mais por sua independência do que por sua relação com o conjunto, isto é: com o

  Porém, devemos nos deter acerca do que supostamente impossibilita laço, tal concepção acata uma fantasia de que aquele que usa drogas está do outro lado da barreira do interdito, visto que o ideal fálico e o laço social é algo que submete a todos os seres que vivem na cultura, consequentemente à interdição imposta pela castração. Deste modo, se as drogas realmente possibilitassem tal gozo, de maneira grosseira poderíamos justificar a fantasia proibicionista de erradicação das drogas – visto que sem drogas podemos nos fiar ao limite imaginário de que seria difícil alguém se tornar toxicômano – isto é: se a proibição realmente atingisse este suposto objetivo, seria compreensível que uma substância de alto potencial de prazer e destruição contaminasse cada vez mais usuários, com esta suposta auto-suficiência. Sob tais premissas esta sociedade de fato teria um inimigo público a combater.

  Entretanto, se fiar a uma alienação ao ideal fálico e interpretar as drogas como uma chaga civilizatória, talvez não seja a melhor maneira de elaborar tal questão. Em contraste com este posicionamento, Melman (1992) coloca em cheque a efetividade da política proibicionista. Contra a proibição estatal ele sugere que às drogas sejam tratadas exclusivamente pela saúde:

  “Não a da liberalização (...) nem mesmo a de uma substituição de drogas como na Holanda, mas a de uma transformação dos lugares onde hoje os toxicômanos são tratados, em locais onde os médicos e o pessoal especializado nos cuidados teriam a faculdade de um contato permanente com eles, graças às drogas, estariam em condições de lhes fornecer dentro da plena legalidade. Pode se apostar, pelo menos a título de tentativa, na deserotização do produto que seria introduzida por esta medida” (1992, pág. 124).

  Assim, fica evidente como Melman se propõe a pensar a psicanálise para além de seu consultório e, de certa forma, se antecipa a colocar possíveis caminhos com saídas menos 'avassaladoras' para o tratamento das toxicomanias. Porém, como o mesmo afirma nesta citação que acabamos de apresentar: “a título de tentativa” (Ibidem), um possível resultado é o que consta anteriormente em seu próprio texto:

  Os produtos de síntese, assim como os benzodiazepínicos, revelam-se perfeitamente eficazes contra a dor de existir (…) a revolta e a indignação, o desgosto ou a piedade, a depressão e a insônia podem ser assim tratados como sintomas mórbidos. A passividade assim obtida se fará ao preço de uma adição, desta vez legal” (Ibidem, 1992, pág. 120).

  Deste modo, Melman, ainda que baseado na erotização que o usuário faz com a proibição das drogas, ao buscar neutralizar este jogo, não trata necessariamente da questão. Concordamos que caso as pessoas tivessem meios mais seguros para utilizar suas substâncias seria mais fácil estabelecer um trabalho que envolvesse uma melhor e mais acessível oferta de tratamento. No entanto, permanece a questão de uma crescente medicalização do

  39

  cotidiano. A epígrafe de Fitzgerald(2007) diz justamente sobre isso, servindo de alerta para as estratégias adaptativas, na sua tentativa de calar o sofrimento. Assim, pode ser no silêncio de uma trégua que as contradições inerentes ao sujeito apareçam de maneira trágica.

  Portanto, se o discurso do mestre lança mão da proibição como estratégia para justificar uma guerra contra as drogas. O discurso da ciência tende a submeter o sofrimento sob procedimentos rigorosamente administrativos.

  Assim, para que não nos limitemos à definição de toxicomanias somente pela lente da psicanálise, buscamos nos texto de um importante psiquiatra brasileiro, a definição que este faz de dependência química. Ainda que não possamos escorregar de um termo a outro tratando como se fossem o mesmo, a dependência química pode ser trabalhada como correlata da 39 toxicomania para a psiquiatria, com a ressalva de que esta nomeação dá maior

  

Crack up, traduzido em português como O Colapso, foi escrito em 1936, neste ano

Fitzgerald já sofria sérias complicações decorrentes do uso de bebida alcóolica, e no texto

relata inúmeras situações de sua época, dentre elas os suicídios de amigos e os crimes que

acompanharam a crise da bolsa de valores de Nova Iorque em 1929. Não por menos, em

tempo de pleno progresso capitalista, o sistema financeiro também sofreu um colapso enfoque ao funcionamento biológico de um corpo. Não obstante o termo ter esta conotação, o psiquiatra brasileiro Dartiu Xavier Silveira Filho, descreve o dependente químico como “um indivíduo que se encontra diante de uma realidade objetiva ou subjetiva insuportável, realidade essa que não consegue modificar e da qual não pode se esquivar restando como única alternativa a alteração da percepção da realidade” (1996, pág. 7). A definição de Silveira Filho passa por uma leitura motivacional da conduta de um sujeito, sendo esta motivação encurralada por uma realidade. É sabido que na psicanálise lacaniana, a realidade tem estrutura de ficção (LACAN, 1965-1966), e talvez frente ao impasse posto nessa definição de dependência química, Melman tenha a melhor resposta:

  poderíamos aconselhar àqueles que trabalham com os toxicômanos (…) a serem extremamente prudentes com sua linguagem. Quando, por exemplo, dizem a um toxicômano ‘você está chapado, eu o verei quando estiver mais claro’ (...) não é pelo fato de estarmos em nosso estado que estamos particularmente claros (MELMAN, 1992: 72).

  Este apontamento é justamente a referência à mediação da fantasia na nossa relação com o outro, dando destaque à impossibilidade de vivência de uma realidade objetiva pura por parte de qualquer sujeito.

  No entanto, a definição Silveira Filho (1993) também tece um apontamento que revela uma tentativa de aliviar o peso moral, suscitado pelo uso de drogas como se o desejo fosse sempre o desejo de uma liberdade moderada, sob os ditames do bom senso. O psiquiatra afirma que “não se trataria, portanto, do desejo de consumir drogas, mas da impossibilidade de não consumi-las” (1996, pág. 7).

  Quando nos referimos às toxicomanias ou dependência química, concordamos que se trata de uma impossibilidade e, curiosamente, há algo de freudiano na frase de Silveira Filho, ainda que seu texto faça referência ao que ele nomeia de dependência química. Seu lembrete, sobre a impossibilidade de não consumi-las, diz da condição humana, que desde tempos remotos e em variadas sociedades, lançamos mão de tais recursos. Podemos arriscar afirmar que a humanidade nunca deixou de ser dependente química em menor ou maior grau. Apesar deste joguete de significações que fazemos com a terminologia psiquiátrica, não podemos ignorar que se as mais diversas sociedades humanas não abrem mão de tais recursos é porque algo inerente a humanidade se mantém, de modo imprescindível, vinculado ao uso do que nós chamamos de drogas.

  Entretanto, salientamos que este trabalho não tem o objetivo de discutir o estatuto do desejo para a psiquiatria contemporânea, ainda que, devamos reconhecer que o que chamam de dependência química, de certa maneira, responde a uma impossibilidade em determinado momento, de não o ser. Todavia, não seria ético por parte da psicanálise subtrair a dimensão da escolha quanto ao posicionamento do sujeito neste processo. Devemos considerar que o lugar que estas drogas de modo geral ocupam, de certa maneira, já compõe uma escolha que antecede a condição de sujeito.

  Assim, o que nos serve à reflexão é a necessidade de considerarmos o próprio termo toxicomania, como termo que nos dias atuais tem suas maiores repercussões na psicanálise. Porém, trabalhar com a toxicomania como categoria clínica, envolve a escolha de um caminho refutado por vários autores pesquisados para a realização deste trabalho (GIANESI, 2005; ROSA, 2006; PACHECO FILHO, 1999; SANTIAGO, 2001; VORCARO, 2009). Esta classificação aparece como algo atrelado a sintoma social e não algo estrutural do sujeito (MELMAN, 1992; ROSA, 2006; VORCARO, 2009) ou não necessariamente se entra neste mérito (CRUGLAT, 2001).

  Não obstante Melman (1992) trabalhe com a toxicomania, colocando esta como uma discursividade e do toxicômano como produto deste discurso, foi Santiago (2001) quem pormenorizou a toxicomania enquanto efeito de discurso.

  Para trabalhar com as consequências do discurso científico, o autor se implica na compreensão e no uso do termo 'phármakon' enquanto significante em suas funções de símbolo e, distintamente: letra. Por meio do diálogo escrito por Platão denominado Fedro. Santiago explora os usos do 'phármakon' onde o termo é trabalhado como remédio que facilmente passa a veneno. Porém o que é denominado remédio no diálogo não é simplesmente uma substância – droga – em contato com o organismo como a estatutamos 40 contemporaneamente , mas como técnica, no caso: a técnica de escrever como um remédio para a memória, e é na reposta do rei Tamuz, rei do Egito, a Troth, pai da escritura, que Santiago (2001) faz um recorte perspicaz para ilustrar o termo:

  E eis que agora tu que és o pai da escritura [pater ôn grammaton], tu lhe atribuis, por complacência, um poder contrário àquele que ela possui. Na verdade, essa arte produzirá o esquecimento na alma daqueles que a terão aprendido, porque cessarão de exercer sua memória [mnéme] com efeito, confiando na escrita, é de fora [allotriôn tupôn], e não de dentro, graças a si mesmos, que poderão rememorar [anamimnes-komenous]; não é, pois, para a memória [mnéme], mas para a rememoração [hypomneseôs] que descobriste o remédio [phármakon]. Quanto à ciência, é a aparência que oferece a seus discípulos, não a realidade (Platão apud Santiago, 2001, pág. 34).

  Talvez se confirme nesta passagem, um dos estatutos da droga enquanto 'phármakon', sobre o qual Santiago lançará mão até o final de sua tese. Ainda parafraseando o autor: “segundo Tamuz, Troth desconhece o fato de que a letra nunca terá virtude própria e imanente. Para este, ela está destinada, para sempre, a ser apenas suplemento, aparência, simulacro” (Santiago, 2001, pág.

  34).

  Estas afirmações condizem com o que é apontado como desenvolvimento de tecnologias de prolongamento da vida, dada uma instrumentalização de uma classe para o trabalho (FOUCAULT, 2008;

  VARGAS, 2008). Argumentos como estes, estão presentes até mesmo nos textos de Benjamin, dentre eles “Experiência e pobreza” (1994) e “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” (1994), a lógica sustentada seria: 40 quanto mais técnica, menos experiência. Entretanto a questão que se faz para

  Segundo a definição da OMS: droga é qualquer substância não produzida pelo organismo que tem a propriedade de atuar sobre um ou mais de seus sistemas produzindo alterações a psicanálise acerca deste debate é de como a ciência foraclui a verdade do sujeito (LACAN, 1965-1966), bem como a que isso serve à política quando nos referimos às drogas. Todo o trabalho psicofarmacológico vem justamente nesta direção, por meio das catalogações de efeitos das substâncias e de seus usos em massa.

  Porém, assim como afirma Agamben (2009), cabe lembrarmos que dentre os primeiros dispositivos técnicos utilizados por seres humanos, está a linguagem e é a linguagem que possibilita o distanciamento da experiência. Deste modo, não acreditamos que se possa voltar ao nível da experiência pura, sem mediação da linguagem. Assim, nossa crítica se direciona a primazia da técnica fria e procedimental, destituída de valor humano, sem os seus impasses e sua ética.

  Portanto, o sujeito, qual nos referimos aqui, “continua a ser o correlato da ciência, mas um correlato antinômico, já que a ciência mostra-se definida pela impossibilidade do esforço de suturá-lo.” (LACAN, 1965-1966, pág. 875). É justamente neste correlato antinômico que nos detemos para pensar a ameaçada do crack para a psicanálise. Esta construção, do sujeito da ciência, não tem outro objetivo senão negar um vazio. No entanto, vem em nosso auxílio para que em nossa análise, não nos rendamos à suposta saída de pensar a toxicomania como fuga da égide fálica.

  Assim, se faz imprescindível ressaltar aqui a perspicácia que Santiago teve na denominação do nono capítulo de sua tese: “Vontade de ser infiel ao gozo fálico” (2001, pág. 161). Concordamos com a formulação de Santiago, visto que a vontade de ser infiel a este gozo é aquilo que revela a fidelidade aquém dessa vontade. Ou seja, só há vontade de ser infiel a este gozo, porque se vivencia seu peso e sua importância. Consideramos esta formulação, uma versão mais precisa à formulação feita por Lacan de que a droga permite o rompimento do casamento com o falo.

  A crítica desta posição fálica pode ser apontada por Dias (2005) acerca de uma razão toxicômana, “os pais que ao chegarem em casa, alegam que 'se matam' de trabalhar não podem reclamar que seus filhos tenham problemas com drogas” (2005). Tal afirmação corresponde ao modo que Lacan se referiu ao uso metódico das drogas (LACAN apud SANTIAGO, 2001), ou seja: um uso submetido a um imperativo categórico sob o qual não há saída caso o sujeito não se implique em seu desejo e, colateralmente, em suas formas de gozo.

  Portanto, se “a droga e a toxicomania são, afinal, resultantes do que ocorre na incidência do discurso da ciência nos interstícios do saber, como fenômeno de gozo” (Santiago, 2001, pág. 61) e “o valor de gozo da droga define-se portanto, como excedente da renúncia ao gozo do sentido, operada pelo sujeito da ciência nas tradicionais formas de conhecimento phármakon” (Idem), poderíamos atribuir unicamente ao desenvolvimento científico, as ditas toxicomanias? Não é o que sustentamos. Isto, de certa maneira, seria fechar os olhos para diversos dados já levantados neste trabalho, visto que a ciência detém um saber que opera a serviço de um mestre, todo este desenvolvimento, serve a uma ideia de progresso, que concomitantemente comportou como imprescindível a regulamentação, a proibição e inúmeros jogos econômicos nos quais drogas e armas se convertem em moeda como exposto no exemplo de Noriega.

  No tratamento entre ciência e política, consideramos que a necessidade imperiosa de se intoxicar apontada por Régis, encontra sua resposta no apontamento feito por Rosa (2006), já que a toxicomania “é um fenômeno que circunstâncias históricas e ideológicas cristalizaram como uma identidade: a

  

toxicomania”. Tal identidade não pode, nem mesmo ser compreendida como

41

  exclusiva das sociedades capitalistas , visto que tanto o bloco socialista quanto o bloco capitalista, durante a guerra fria, acusaram seus inimigos de traficarem drogas para seu território para corromperem sua juventude (ARBEX & TOGNOLLI, 2004). Talvez neste sentido, devamos discordar de Santiago. Este afirma que as drogas ganham espaço na era dos gadgets, objetos que ganham a caracterização de artigos de luxo inúteis (2001). Devemos frisar que 42 não queremos escalar a pirâmide de Maslow , e classificar o que é supérfluo ou não, não passa pelos objetivos deste trabalho. 41 Portanto, pensamos que a categoria Toxicomania diz muito mais do

  

O desenvolvimento do discurso toxicomaníaco está inegavelmente atrelado ao

desenvolvimento da sociedade capitalista. Porém, sua existência não se restringiu somente

42 a este sistema econômico.

  Fazemos referência, ao trabalho de Abraham Maslow que hierarquizou as necessidades impossível governar a especificamente do impossível de analisar. Fazemos tal afirmação, por reconhecer que as drogas como um problema de saúde, nunca abandonaram seu marco histórico como questão para governabilidade, da política de gerenciamento à de tratamento, este campo frequentemente pauta seus indicativos de avanço no tratamento, uma maior regulação comportamental e adaptabilidade à formas legalmente reconhecidas de se gozar.

  É no mínimo impressionante e até mesmo irônica, a maneira como os analistas se fiam em explicitar como funciona a toxicomania, obscurecendo a singularidade do falasser, tentando decifrar uma modulação de gozo que seja padrão no uso de drogas. Este movimento foi adotado por vários autores pesquisados e várias citações presentes em outros trabalhos levantados (ALMEIDA, 2010; CRUGLAT, 2001; NOGUEIRA FILHO, 1999; MELMAN, 1992). Talvez caiba aos psicanalistas reconhecerem, assim como afirmado por Lacan (apud SANTIAGO, 2001), quando alguém se propõe a tratar da toxicomania, isso só se faz de modo policialesco.

4. O CRACK DO SUJEITO CONTRA A AMEAÇA IMPOSTA PELA POLÍTICA DO CRACK.

  A cada dia, e de ambos os lados da minha inteligência – a moral e a intelectual –, eu chegava cada vez mais próximo daquela verdade cuja descoberta parcial tinha me condenado a um terrível fim: a de que o homem não é apenas um, mas sim dois.

  Robert Louis Stevenson (O médico e o monstro)

  Sob a constatação de Jekyll, uma das personagens de um dos contos mais explorados no século XX, é que podemos demarcar um descaminho sobre o qual as maravilhas da ciência – neste caso: as drogas – puderam apresentar uma armadilha propícia à elisão da alma humana. É na condição de sujeito que a personagem de Stevenson tenta se furtar a uma moral e uma intelectualidade que lhe cabem enquanto avesso de seu desejo. À sombra do homem vitoriano, o louco que se esgueira pelas portas do consultório do médico, testemunha, na mesma época das elocubrações de Freud, algo de uma dimensão de gozo do porvir e, é justamente sobre o artefato que não lhe falta, que esta sombra ganha força, falaciosa na sua tentativa de significação, emergindo travestida de verdade silenciada. O que os gregos apontaram como loucura divina (CARNEIRO, 2008), passa a reescrever o mito enquanto loucura infernal e degenerada.

  Portanto, neste último capítulo buscamos analisar com base na produção psicanalítica referente à angústia, bem como no aprofundamento do funcionamento do discurso do mestre, aspectos inconscientes desta relação bélica entre o Estado e às drogas. Nesta tarefa, lançaremos mão de passagens da obra de Robert Louis Stevenson, onde encontramos diversas ilustrações do fascínio e do terror na relação da humanidade com as drogas, assim como alguns retratos da angústia, uma circunscrição em objetos vistos como portadores de uma verdade do sujeito.

  Deste modo, buscamos na divisão irredutível do sujeito um contra- ataque à propagação deste escamoteamento de sua condição, de modo que o resgate desta condição possa denunciar o mercado de identidades como um atalho falacioso de não implicação naquilo que se deseja.

4.1. O objeto na cena

  A proposta política de enfrentamento ao crack, assim como suas ações são assimiladas ou justificadas diante da população em geral, comumente se sustentam no que Freud chama de contágio de pânico. Desse modo, o crack, ao emergir na cena pública como algo ameaçador, intimamente ligado a uma “cessação de laços emocionais” (FREUD, 1823), se atrela ao crackeiro enquanto aquele que não faz vínculos sociais e não possui uma vida produtiva, 43 abandonando sua família para viver do uso de crack . O horror a esta cena, assim como a forma que esta é especulada por jornalistas e demais meios de comunicação, denuncia o recalque sobre a angústia de não ter segurança de que o modo de vida que se escolheu seja uma vida que valha a pena ser vivida. Portanto, atribui-se ao crackeiro uma cota maior de gozo, como um privilégio que seria negado aos demais. Assim, esta angústia pode ter todo o seu peso convertido na culpabilização de quem opta por experimentar ou usar drogas.

  Nessa descrição, a cota maior de gozo que o crackeiro supostamente tem em relação a quem não faz uso de crack, diz exatamente de um gozo a mais. Segundo Lacan (1962-1963), esta cota de gozo atribuída ao Outro, faz com que o sujeito se sinta prejudicado, de forma que o sujeito passa a vivenciar este gozo do Outro como um pesadelo, algo que lhe é roubado. Portanto é diante deste gozo que o sujeito pode vivenciar que algo lhe falta, ou lhe é privado. Assim, se constitui o objeto a, ou como podemos chamá-lo aqui, objeto da angústia, furo que certifica sua impossibilidade enquanto todo. Este objeto localizado no Outro, detém o status de uma verdade sobre si, fazendo 43 operar este desejo enquanto causa, ou a fantasia para qual o sujeito recorre de

  

Infelizmente, muitas vezes as complicações decorrentes do uso de crack, atingem pessoas

em situação econômica precária e moradores de rua. No entanto, a cena de quem larga tudo para fumar crack, é noticiada com mais frequência, como se fosse a situação modo que não tenha de lidar com a implicação em seu desejo. Este processo, não indica necessariamente que as pessoas que ratificam que os usuários de crack devem ser tratados de forma violenta, gostariam de usar crack. Isto indica, em maior ou menor grau, que estas pessoas não aceitam o ônus da renúncia de gozo que envolve as escolhas que dizem respeito à vida que se vive.

  Assim, esta operação sempre opera por meio de uma cena, onde comumente, um elemento presente em sua narrativa, detém algo da verdade do sujeito. Portanto, é no endereçamento de uma mensagem ao Outro, que o sujeito se faz objeto da linguagem. Segundo Lacan:

  Antes da palavra, nada é, nem não é. Tudo já está aí, sem dúvida, mas é somente com a palavra que há coisas que são – que são verdadeiras ou falsas, quer dizer, que são – e coisas que não são. É com a dimensão da palavra que se cava no real a verdade. Não há nem verdadeiro nem falso antes da palavra. Com ela se introduz a verdade e a mentira também. (…) o ato mesmo da palavra que funda a dimensão da verdade, fica sempre, por esse fato, atrás, para além. A palavra é por essência ambígua. (1953- 1954, pág. 261).

  Para que possamos atentar às ambiguidades contidas no uso do crack enquanto palavra, buscamos as significações ordinárias desta onomatopeia, que tem seu uso mais explorado na língua inglesa. No dicionário Priberam de língua portuguesa, se apresentam as seguintes descrições: “1. cessação de pagamentos, 2. crise bancária, 3. baixa geral em título bancários”(2011). Já no dicionário Aurélio inglês / português:

  n 1 fenda, racha, fresta, ruptura. 2 estalido, estalo, estrépito,

  estrondo, pancada. 3 coll golpe, soco que produz um estalido. 4 tiro de arma de fogo. 5 abertura estreita, fresta. 6 instante, momento. 7 craque: esportista de excelente qualidade. 8 droga à base de cocaína. 9 arrombamento. •

  vi+vt 1 rachar, fender(-se), quebrar, rebentar. the plate is

  cracked / o prato está trincado. 2 estalar. he cracked his fingers / ele estalou os dedos. 3 crepitar. 4 estourar. 5 bater.

  6 ficar áspero e agudo, falhar, mudar de voz. 7 sl ceder, entregar-se. 8 contar (piada). 9 arrombar (cofre). 10 abrir (garrafa) e beber. they cracked a bottle / eles beberam uma garrafa. 11 falhar, falir. • adj excelente, brilhante. • interj zás! crack of doom prenúncio do juízo final. in a crack num instante. to crack a crib sl arrombar uma casa. to crack a crust viver modestamente. to crack a joke contar uma piada. to crack a tidy crust viver bem. to crack town a) Amer fazer ou dar uma batida policial. b) tomar medidas severas. to crack up a) exaltar, elogiar. b) sofrer um colapso mental. c) despedaçar-se. (2011).

  Ao atentarmos para estas significações, reconhecemos já no uso da palavra, algumas referências às consequências trágicas decorrentes do uso da droga. Portanto, cabe considerarmos que o crack, talvez desde o seu batismo, já tivesse dentre seus usuários o reconhecimento de uma droga de alto impacto sobre o corpo. Ou, de modo contrário, o entendimento do uso desta substância como algo baseado na fantasia de cessação de pagamentos, ou seja, um gozo pelo qual não se paga.

  Eduardo Leite (2005), ao discutir as campanhas de prevenção, aponta que nestas campanhas as drogas são apresentadas como um “anti-objeto, um objeto que inexoravelmente conduz ao pior” (Idem: 97), devemos considerar que tal especulação não é embasada no estatuto de objeto para a psicanálise, mas podemos considerá-la como uma versão de objeto a segregado dentro de uma pestilência que rodeia o dejeto. Em escritos pertencentes à psicanálise lacaniana que buscam desvelar a toxicomania encontramos elevado ao estatuto de objeto: os efeitos da droga sobre o corpo (CRUGLAT, 2001), no caso seria o status da função do psicoativo que seria compreendido como objeto – as produções da interação entre organismo e substância –, hipótese que consideramos em parte, visto que, estes efeitos só encontram significação dentro de uma narrativa. Há também o posicionamento de que o objeto droga está em seu estatuto social, no heroísmo do uso desenfreado e da rendição do corpo a um gozo na finalidade de causar inveja aos outros (MELMAN, 1992), descrição que só poderíamos considerar em trabalho com um caso clínico que contenham estes elementos.

  Nogueira Filho (1999) rechaça a proposta de que haja objeto para o toxicômano, segundo o autor:

  O encanto dos traços erógenos do corpo do outro, assim, não mais dirige ato algum num desfazer das operações que envolvem o objeto a. A pulsão que sustenta a nova borda erógena quer saber dos significantes e do semelhante tão somente enquanto representações unidimensionais, unisemânticas do gozo operado pelo efeito da droga (NOGUEIRA FILHO, 1999, pág. 54).

  O autor conclui com o apoio de Freud: “Assim, é teoricamente possível não considerar a droga um objeto, no sentido clássico que Freud conferiu a “objeto” (NOGUEIRA FILHO, 1999, pág. 54), já que este determina que “chamemos objeto sexual à pessoa que exerce a atração sexual”(FREUD APUD NOGUEIRA FILHO, pág. 54). Consideramos relevante o rigor do posicionamento de Nogueira filho. Freud ao trabalhar as relações objetais, faz referência as relações libidinais, e assim como o mito de Eros, proferido por Aristófanes, diz do desejo de fazer Um, encontrar a parte perdida de um ser que já foi completo, atualizando no encontro dos corpos as saudades de um tempo mítico, no qual o andrógino, “gênero comum composto de macho e fêmea” (PLATÃO, pág 63, 2010), reconhecia em si tamanha força a ponto de desafiar os deuses, de modo que, flagrados em sua tentativa, foram separados em dois, para que assim se resguardassem sob a condição de meros mortais. Entretanto, no decorrer do psiquismo humano o objeto é dotado de uma parcialidade e, diante da construção de Nogueira Filho, temos de discordar que o gozo de quem usa drogas seja sempre unidimensional, pois se este gozo é contado a alguém, ele automaticamente passa por uma bidimensionalidade, conferida nas palavras direcionadas a um outro.

  Já para Almeida (2010) a droga pode ser compreendida como objeto das pulsões parciais e não por menos, enquanto objeto a caído. Este seria o elemento que curto-circuita a função de deslocamento do objeto causa do desejo. Assim, “nas toxicomanias, o objeto a comparece na sua vestimenta de dejeto, de puro resto, uma vez que não ocorre a duplicação do plano narcísico ao plano do desejo, não há inversão da mensagem desde a pergunta o que

  

sou para o outro?” (ALMEIDA, 2010, pág. 115). Assim como as citações

  trabalhadas anteriormente, Almeida também parece cometer o erro de aceitação das toxicomanias, como um movimento comum ou padronizado. Todavia, o que é tratado como objeto em nosso estudo, não é a droga em si, mas o recorte de uma cena feita através do discurso. Nesta cena se situa a imagem do drogado e, neste sentido, podemos considerar esta identidade como produto do discurso proibicionista, a saber, dejeto enquanto produto do discurso do mestre.

  Portanto, apesar de concordar em parte com a afirmação de Almeida (2010) de que a droga pode adquirir o status de objeto a caído. Gostaríamos de demarcar que não julgamos adequado supor que aquele que tem problemas com drogas não se questione “o que sou para o outro?”. A problematização necessária a este tema não é a de que não se faça a inversão da mensagem contida nesta pergunta, mas devemos lidar com a possibilidade de que esta pergunta “o que sou para o outro?” encontre uma resposta breve em um circuito simbólico, inscrevendo o sujeito e suscitando um discurso de estereotipias correspondentes a uma identidade social. Este circuito, mesmo que um século depois, é delineado pelos mesmos saberes que demarcam o lugar de Lima Barreto, citado anteriormente neste trabalho. Assim, consideramos que há consciência por parte de um usuário de crack do olhar que este recebe dos passantes, ele sabe muito bem em qual lugar está, 44 justamente no lugar de dejeto , já que a imagem do nóia é um lugar social demarcado que pode ser visto por qualquer um, sofrendo ou não problemas decorrentes do uso drogas. Este processo se dá pelo reconhecimento que 44 efetuado pelos membros da comunidade em que vivemos. Este

  “Deveria ser tombado o patrimônio do bairro, sirvo pra mãe mostrar pro filho o fim do caminho errado” (Aperte o gatilho por favor, Facção Central), letra de rap que aborda reconhecimento contém códigos que o mantém em seu lugar. Como exemplo, podemos citar o código de conduta de meninos moradores de rua e usuários de crack que, ao pedir água para o dono de um estabelecimento comercial, lhe faz um sinal sem entrar no estabelecimento para não incomodar os demais clientes (LESCHER, A.D.; SARTI, C. Et al, 1998). Esta ação é uma amostragem de saber acerca do lugar de onde se é reconhecido pelo Outro. Infelizmente este lugar pode ser nomeado em qualquer via pública, geralmente chamado de sarjeta.

  Quem perambula pelas ruas e faz uso de crack, já detém uma série de 45 46 47 nomeações que demarcam um reconhecimento: nóia , crackeiro , crackudo , 48 cracolândia, drogado, junkie . Este reconhecimento visa estabilizar a vista daqueles que não se acostumaram com a imagem da pele acinzentada coberta por farrapos. Imagem que deveria ser indicativa de que algo não vai bem. A Sensibilidade que escapa a este reconhecimento é própria aos que conservam na sua percepção alguma estrangeireidade inerente à condição de sujeito, já que de modo usual, para os comerciantes e frequentadores, os indivíduos mais modulados e habituados à cena, a horda que se droga ao relento da miséria e do desemparo encontra-se atada às imagens grosseiramente estereotipadas que confortarão a vista sobre uma cena que pode mudar em conteúdo, mas 49 respeita uma forma fiel a qualquer filme trash .

  Portanto, o objeto do qual tratamos aqui é considerado o produto de uma operação discursiva e transmitida culturalmente. Desta forma, mantemos a droga, de acordo com a proposta deste trabalho, como um produto discursivo, ainda que insistam que quem faz uso da droga, lança mão de uma prática que não passa pela palavra (NOGUEIRA, 2003). Infelizmente, consideramos que na psicanálise, a ideia de que o uso de drogas não passa pela palavra, ou está 45 alheio à cultura, é um vício merecedor dos mais sérios esforços em prol da

  

O termo vem enquanto sufixo da palavra 'paranóia', é atribuído a usuários devido ao

sentimento de persecutoriedade de quando se está sob efeito de alguma substância. Seu

uso acabou abrangendo a referência de qualquer um que esteja fortemente vinculado a 46 uma substância ilícita. 47 Em São Paulo. 48 No Rio de Janeiro. 49 Gíria na língua inglesa utilizada para denominar o “drogado”

“olham pra mim como se eu fosse extraterrestre, esquelético, feridas na pele, tipo monstro abstinência. Quem sabe deste modo, abstinente de pré-concepções, o analista possa escutar sem maiores resistências aquele que lhe procura para falar sobre a dispendiosa relação na qual se enredam suas formas de gozo.

4.2. O proibido travestido de interdito

  Talvez figure como um dos principais pontos da proibição das drogas, o jogo erotizado que se dá nas repetições de ultrapassamento. Portanto, para realizarmos nossa análise, buscamos a compreensão das campanhas anti- crack na conclusão de Eduardo Leite sobre das campanhas de prevenção às drogas em geral:

  quando uma proibição é sustentada com o recurso da demonização, tanto há acomodação imaginária do proibido, para aqueles que já o aceitam e recebem uma confirmação, como também, ao mesmo tempo e contrariamente, para outros, constituem melhores condições de consistência imaginária da crença de que a quebra do proibido em questão reserva uma cota maior de gozo que equivaleria à superação do interdito. (2005, pág. 95).

  Nesta passagem, identificamos algo do jogo identificatório já descrito no capítulo anterior. Assim como descrito por Leite, aquele que busca gozar da transgressão pode recorrer às drogas como recurso oferecido pela própria campanha antidrogas.

  Deste modo, se constituem duas dimensões de uma prática de administração de gozo. Uma acontece pela via oficial, circula por propagandas e oferece diversos produtos em lojas de rua ou por meio da internet. A outra circula via contrabando, ao invés de impostos, mantém esquemas de corrupção e vende produtos tão cobiçados quanto os primeiros. Assim, o consumidor, ser supostamente soberano em uma democracia capitalista, detém uma identidade de acordo com o que consome, via compras legais ou contrabando.

  O filósofo esloveno Slavoj Zizek descreve um interessante paradoxo desfrutar da vida, mas cada prazer determinado é já uma traição ao prazer incondicional e deve, portanto, ser proibido. A versão substancial disto consiste em desfrutar diretamente da Coisa: Porque se incomodar com café? Injete cafeína diretamente nas veias!” (ZIZEK, pág. 36, 2003). O que se apresenta na colocação de Zizek é uma suposta passagem paradoxal da barreira do interdito. O prazer incondicional é justamente o que se deve obter a partir do momento em que se ultrapassa a linha na qual fica para trás o julgamento referente a um solo simbólico que permita escolhas e hesitações. Portanto, quando esta linha é atravessada, tudo que se obtém, se obtém ao máximo, sem ressalvas ou mediações, na obrigação de fazer valer aquilo que lhe teria sido privado.

  Para um aprofundamento da questão, recorremos à definição que Lacan faz acerca da lei no seminário 17,

  É certo, por exemplo, que a lei – entendamos a lei como lei articulada, a própria lei em cujos muros encontramos abrigo, essa lei que constitui o direito – não deve certamente ser considerada homônima do que pode ser enunciado em outro lugar como justiça. Pelo contrário, a ambiguidade, a roupagem que essa lei recebe ao se autorizar na justiça é, precisamente, um ponto em que, nosso discurso talvez possa indicar melhor onde estão os verdadeiros propulsores, quero dizer, aqueles que permitem a ambiguidade e fazem com que a lei continue sendo algo que está, primeiramente e sobretudo, inscrito na estrutura. Não há mil maneiras de fazer leis – estejam ou não animadas pelas boas intenções e inspiração da justiça – porque há, talvez, leis de estrutura que fazem com que a lei seja sempre a lei situada nesse lugar que chamo de dominante

no discurso do mestre. (1969-1970, pág. 44).

  A conclusão da passagem citada por nós, as “leis de estrutura que fazem com que a lei seja sempre a lei situada nesse lugar que chamo de dominante no discurso do mestre” (Ibidem), nos convida a refletir sobre como as noções de justiça tendem a um movimento neurótico de tamponamento da falta em sua ligação com a mestria. A afirmação do protagonismo do discurso do mestre neste processo possibilita a nós a compreensão do papel da política governamental frente ao inconsciente, assim como, o laço entre o senhor e o escravo pode se assentar, não necessariamente na força bruta, mas no submisso reconhecimento desta relação como regida por supostas leis naturais, assim positivadas legislativamente em um processo histórico.

  Portanto, estas leis comportam em sua função um manejo com o que a psicanálise considera irredutível na vida social: o mal-estar. Porém, em um aspecto específico em meio a tantos outros, as leis tem por efeito colateral a ambiguidade, “a roupagem que essa lei recebe ao se autorizar enquanto justiça” (Ibidem). Este processo é o que compreenderemos como passagem do simbólico ao imaginário durante o trabalho do discurso do mestre. Visto que a Lei, ao invés de possibilitar o relançamento do desejo do sujeito enquanto

  50

  interdição, passa a ser a lei de uma operação burocrática, possibilitando ao sujeito a ultrapassagem imaginária descrita por Leite (2005). Esta cota maior de gozo, se olhada enquanto efeito do discurso da proibição, é efeito de rechaço (LACAN, 1969-1970), ou seja: “o que se apresenta como mais opaco” (ibidem), a saber, gozo de transgressão.

  Portanto, o objeto a, que Lacan situará como mais de gozar, habita uma consequência análoga às definições de gozo localizadas no mesmo seminário. Lacan afirma que “o caminho para a morte nada mais é do que aquilo que se chama gozo” (Ibidem, pág. 17). Deste modo, este nada mais dito por Lacan é o que podemos situar como uma operação de extração, a saber, uma tentativa de subtração fantasmática da negatividade da experiência da morte, tentativa de ludibriar a castração por meio do recurso imaginário. Como conseqüência, podemos considerar esta fantasia de ultrapassagem do interdito como suposto acesso ao objeto em si. Entretanto, não há objeto em si, o que faz com que esta operação claudique para o pior. “O crack causa dependência e mata” (BRASIL, 2010a), eis aí a verdade de um objeto no qual estaria impedido o relançamento do desejo sobre outro objeto, o que “causa dependência e mata” só pode mesmo viabilizar o gozo do pior. Neste movimento, campanha e legislação operam sobre o comando de uma só voz: a da proibição, traçado 50 tentador de um limite, convertendo algo inanimado ao mundo dos homens

  Com “L” minúsculo enquanto suposto objeto de desejo. Assim “o que nos ensina aqui a experiência sobre a angústia em sua relação com o objeto do desejo, senão que a proibição é uma tentação? Não se trata da perda do objeto, mas da presença disto: de que os objetos não faltam” (LACAN, 1962-1963, pág.64). É através do ultrapassamento desta linha que se corre esse risco de não faltar nada.

  Para uma melhor ilustração desta definição, recorremos a outro conto de Stevenson. Este ao narrar uma velha lenda escocesa nomeada “O demônio da garrafa” (1983) nos apresenta uma bela metáfora para esta problemática no que toca a questão da angústia sob a temática das drogas. Nesta lenda, um demônio que habita uma garrafa, realiza qualquer desejo de quem a possui.

  No entanto, quem porta a garrafa tem de vendê-la antes da própria morte, caso morra portando a garrafa terá a alma levada pelo diabo. Para que a venda da garrafa seja realizada, só existe uma regra: tem de ser vendida por um preço mais baixo em relação ao preço pago no ato da compra. Outro aspecto não menos interessante é que se livrar da garrafa fisicamente, sem recorrer à transação comercial é impossível, quando o herói a lança ao mar, ou a enterra, esta reaparece entre os pertences do dono em cenas dignas do retorno do recalcado. Ora, a garrafa, como um objeto maldito que realiza seus desejos, não seria como as drogas são apresentadas na contemporaneidade? Merece destaque sua cotação, ao invés de ficar cada vez mais cara, fica cada vez mais barata, assim como a recente história das drogas, da cocaína, droga mais refinada e mais cara, para o crack, mais potente e mais barato. O ritmo do conto de Stevenson impõe um suspense justamente em sua cotação decadente, quanto mais barata a garrafa, mais o demônio se aproxima da alma 51 de quem a possui. De modo curioso, o herói do conto mantém um fort da com seu objeto maldito, vendendo-o para salvar sua alma e comprando-o novamente para realizar mais um novo desejo. Assim, vemos que a trajetória 51 deste herói não é muito diferente de diversos usuários. Para não ter sua alma

  

Jogo trabalhado por Freud, onde a criança lança um carretel para um espaço onde não há

visibilidade e depois, puxa o carretel pela linha, pegando-o e relançando-o novamente.

  Freud trabalha este jogo como atualização da vivência de alienação e separação com o objeto de amor. sugada pelo cachimbo, passa a vender daquilo que antes parecia realizar os seus desejos revesando entre consumidor e comerciante ou mantendo os dois papéis em paralelo.

  Este fort da das drogas já é bem conhecido, não se costuma fazer 52 estoque, mas sempre há de fazer alguns corres até a boca para que isso se ajeite. Assim como afirmado por Melman (1992), nesta relação goza-se de uma falta, sendo necessária a assunção de uma identidade, como apontado por ROSA (2006), para que a coisa entre em cena. Esta cena da qual nos referimos, já citada no capítulo anterior, não é sem enquadramento, não por menos, este foi o esforço de nosso recorte. O crackeiro, na medida em que se agrupa, transforma a praça pública em um quadro já conhecido e ainda assim com potencial de estranhamento, trazendo a possibilidade de reconhecermos algo como epidêmico. Assim, os seres aos farrapos passam facilmente a serem vistos como hospedeiros deste não-sei-o-quê de gozo que parece negar seu entorno engajado em desenvolvimento.

  Assim como no caso de Dr Jekyll, a angústia surge enquanto um

  53

  hóspede, seja no corpo ou na garrafa . Mr. Hyde no movimento de se esgueirar pela soleira da porta, passa a ser o frequentador noturno do templo da ciência do médico respeitado, assim como Jekyll descreve: “passei às escondidas pelos corredores, como um estranho em minha própria casa; e, ao chegar ao meu quarto, vi pela primeira vez a aparência de Edward Hyde” (Stevenson, 2011, pág. 85). Esta visão no espelho, a produção deste retrato no qual não se reconhece o próprio olhar, esta relação com o estranho em si é descrita por Lacan (2005), quando este fala acerca de um hóspede, estranho e ao mesmo tempo familiar,

  “A angústia é quando aparece nesse enquadramento o que já estava ali, muito mais perto, em casa, Heim. É o hóspede, dirão 52 vocês. Em certo sentido, sim, é claro, o hóspede desconhecido, que

Gíria que é uma abreviação da palavra correria, utilizada para indicar um procedimento para

53 conseguir algo.

  A garrafa pode ser considerada como uma das versões do vaso trabalhado por Lacan. Assim, comporta em seu meio, circunscrito por uma borda, um vazio. aparece inopinadamente, tem tudo a ver com o que se encontra no unheimlich, mas é muito pouco designá-lo desta maneira, pois, como lhes indica muito bem o termo em francês, assim, de imediato, esse hóspede [hôte], em seu sentido comum, já é alguém bastante inquietado pela espera.

  Este hóspede é o que já passou para o hostil [hostile] com que iniciei este discurso sobre a espera. No sentido corriqueiro, este hóspede não é o heimlich, não é o habitante da casa, é o hostil lisonjeado, apaziguado, aceito. O que é Heim, o que é Geheimnis [segredo, mistério], nunca passou pelos desvios, pelas redes, pelas peneiras do reconhecimento. Manteve-se unheimlich, menos não habituável do que não habitante, menos inabitual do que inabitado.” (LACAN, 1962-1963, pág. 87).

  Se acompanharmos o raciocínio de Lacan, no caso do conto de 54 Stevenson, não é propriamente Hyde que serve como representante de uma angústia, mas sua imagem dotada da crueza de um olhar não reconhecível, enquadrada pelo espelho daquele que é bem aceito e bem adaptado, o médico.

  Portanto, Lacan afirma que, diferente do que Freud elaborou, a angústia não é sem objeto. Assim, o objeto da angústia é descrito como o objeto pequeno a.

4.3. As drogas e o discurso do mestre

  Para um trabalho de análise mais pormenorizado de nosso objeto de estudo, perfilemos o discurso do mestre: Conforme a fórmula apresentada acima, S1 é a representação do 53 significante-mestre, ocupando no discurso o lugar de agência, lugar que abriga

  

Que detém em sua pronúncia e escrita, semelhança com a palavra inglesa: hide, que a função do enlaçamento do discurso. Já o S2 está como a representação do saber, ocupando o lugar do trabalho, que é o que está submetido ao

  55

  ordenamento da mestria. Já abaixo da barra está o a. O pequeno objeto a nesta operação representa o gozo e é produção realizada por S1 e S2. Por último o $, que representa a condição do sujeito do inconsciente. Este lugar, onde está o $, é o lugar da verdade, sob recalque do agente, como exposto, do significante mestre (LACAN, 1969 - 1970).

  Nesta operação, o S1, significante mestre, tem por função, definir todo um sujeito a outro significante. Entretanto, o sujeito está representado e não está, sendo o inconsciente prova disso (Ibidem). Não é irrelevante, que o S1 se situe sobre a barra e abaixo dela, o $, no caso, o que está em jogo nesta primeira coluna, é a verdade recalcada, a saber, o mestre também é castrado.

  Ao trabalharmos com este discurso, pensando sua operação como a governabilidade por meio da estratégia de combate às drogas, temos a seguinte fórmula: Assim, a agência é realizada pelo medo, compreendido por nós como significante mestre das drogas enquanto ameaça, por isso, em primeiro o

  

perigo das drogas. Já o saber, S2, é trabalhado por meio do combate e

prevenção, que são as ações pautadas em um saber do malefício das drogas.

  Abaixo da barra da segunda coluna, a figura do noia, atualmente representado 56 nas ruas pelo crackeiro . Este ocupa o lugar do produto do trabalho feito por S2, produzindo enquanto forma de gozo, o noia, alienado na identidade de 55 resto que lhe é conferida por este discurso. Por último e enquanto verdade 56 A barra detém a significação de recalque para a psicanálise

  

Optamos por deixar a gíria “nóia” por este movimento ser compreendido como algo que se

repete na questão das drogas. Hoje é o “crackeiro”, amanhã pode ser representado por um recalcada, o mal-estar, que diz respeito a cada um em sua condição de sujeito, tamponado pelo discurso das drogas enquanto ameaça a ser combatida.

  Esta operação detém uma ambiguidade: a droga não é necessariamente aquilo que é propagandeada, ou seja, aquilo que é construído pelo trabalho do saber. Portanto, pode ser experimentada. Ainda assim, aquele que é visto como drogado por fazer uso da droga, não é somente um drogado. Por mais 57 que o tratem desta maneira , o objeto que passa por dejeto é trabalhado de modo que operações governamentais possam tentar justificar suas ações, capitalizando votos, e por meio do medo e da insegurança, abastecer de crédito a máquina da governabilidade. Portanto, nesta operação que retratamos, ocorreria um giro no discurso, e do discurso do mestre, passaríamos ao discurso da histérica, neste próximo discurso entraria em jogo a denúncia, onde a castração do mestre se tornaria explícita.

  No entanto, em relação às drogas, este giro parece não se apresentar, e se retomarmos a história das políticas de drogas, já traçadas neste trabalho, podemos indicar que a cada momento em que uma substância se aproxima de perder a sua áurea obscura e vertiginosa, outra surge em seu lugar, reforçando novamente seu status de alta periculosidade e ameaça à ordem social, fazendo do medo um elemento paralisante, o que torna impossível o giro do discurso em um âmbito político e, por consequência, as transformações sociais sobre o tema.

  Ao resgatarmos a afirmação de que “é no primeiro efeito [de discurso] que surge a causa como pensada” (LACAN, 1962-1963, pág. 167), que podemos considerar esta operação como uma das estratégias características de governabilidade. Assim como trabalhado no capítulo três, a não demarcação da questão das drogas enquanto saúde, ou mesmo questão cultural, e sua insistência enquanto assunto de segurança pública, é um dos fatores que colabora para tal estagnação. Visto que a precária situação de vida dos usuários e o alto nível de impacto da droga no organismo são identificados 57 como a causa da miséria na qual se encontram. Deste modo, se ocultam as

  As ações tomadas no início de 2012 pela prefeitura de São Paulo atesta perfeitamente este tratamento, com um policiamento ostensivo que por meio de agressões físicas, obriga usuários de drogas a sairem de seus abrigos improvisados, pouco importando para onde questões referentes à situação econômica, habitacional e até mesmo dos efeitos da proibição sobre a precarização na produção das substâncias, fazendo com que estas cheguem aos usuários cada vez mais prejudiciais à saúde.

  Assim, para prosseguirmos com nossa análise, resta explorarmos a demarcação do objeto a enquanto objeto da angústia e suas incidências na história do sujeito com as drogas. Deste modo, demarcamos o apelo às substâncias tóxicas como um importante capítulo na história da humanidade, caracterizado pela tentativa insistente de domar as contradições inerentes ao sujeito da era moderna.

4.4. O sujeito e seu refinamento às avessas

  58 Talvez, Lehder Rivas ao denominar a cocaína de “bomba atômica ” dos

  pobres não estivesse errado em se referir a uma atomização possibilitada pelas drogas via tráfico. Podemos pensar que há uma operação de atomização que compreendemos como refinamento às avessas. Enquanto o processo de refinamento envolve a purificação de uma substância e eliminação de elementos impuros que a acompanham, o que temos é a potencialização daquilo que pode ser compreendido com o que é mais impuro. O que consideramos neste processo são as incidências do supereu na forma de mais de gozar do sujeito. Este processo é adequado à seguinte descrição: “o supereu é exatamente o que comecei a enunciar quando lhes disse que a vida, a vida provisória que se aposta como uma chance de vida eterna, é o a, mas isto só vale a pena se o A não estiver barrado, ou seja, se ele for tudo ao mesmo tempo” (LACAN, 1969-1970). A frase de Lacan toca a questão das drogas em uma vertente de interpretação deste fenômeno que é a abordada por Melman como um “heroísmo de massa” (MELMAN, 1993). Consideramos esta interpretação válida, já que é ilustrada por uma frase de Lima Barreto: “O 58 burguês bebe champanha, o herói bebe aguardente” (ARANTES, pág. 7 ,2008).

  

O termo bomba atômica não é necessariamente o mais adequado para referência à bomba utilizada militarmente na segunda guerra mundial, o termo seria bomba nuclear, dado a Este gozo, do qual tratamos, não é outro senão este do mercado das identidades. Segmentação de consumo que colaborou para precária salvação e permanência do sistema econômico capitalista.

  Quando falamos do crackeiro, falamos desta fantasia, que vem empedrada e que junto dela se adquire uma série de atributos mais ou menos maleáveis. O crackeiro é uma identidade capitalizável, sua proliferação serve à mais-valia do medo e o produto que protagoniza seu surgimento tem o seu alvará na proibição e no escândalo.

  No seu trabalho com o conceito de angústia, Lacan o descreve como o sentimento que não engana. A angústia, para além da definição de Freud de cessação dos laços emocionais (FREUD, 1923), diz de uma posição fantasmática, a saber, posição inconsciente que o sujeito se situa frente ao Outro é circunscrita em uma cena, que comporta, em um elemento específico: a angústia. Segundo Lacan, este elemento não engana, por não se tratar de um saber, mas especificamente de um não querer saber. Deste modo, esta posição, segundo Miller (1986), opera na conversão de gozo em prazer se mantém intocável.

  Esta definição pode nos levar ao tribunal de Noriega, onde o funcionamento da cena possibilita destaque à bomba atômica de Rivas. Desse modo, a negociação implícita por parte da política externa americana é: venda de gozo de transgressão em troca de um inimigo político. Já da parte de Lehder Rivas o pacto é aceito, para além da diminuição da pena que conseguiu com seu depoimento, Rivas se engaja em uma resposta e, mostrando-se como um algoz tenta converter sua atual situação de criminoso capturado, ou seja, prisioneiro, revestindo-a com um suposto orgulho latino- americano populista. Rivas, ao se engajar neste movimento, obtém como resultado imediato a criação da imagem de um Outro completo, sem castração. Esta transação possibilita que a dívida se renove e comecemos a calcular os juros, que serão cobrados na vida breve de muitos que continuam a se arriscar neste jogo com a morte. Entre pequenos varejistas e usuários, a entrada neste jogo como proibido, é acompanhada da tentativa de suturar a divisão inerente à condição de sujeito marcada pelo fracasso imposto pela castração.

  Talvez um dos exemplos mais fortes das consequências desastrosas deste jogo seja o México: governado pelo mesmo partido por 70 anos 59 ininterruptos, o PRI , contratou e coordenou diversos grupos que atuavam enquanto crime organizado com forte atuação no tráfico de drogas (LABROUSSE, 2010), isto possibilitou uma inflação do crime organizado e corrupção, que tem produzido efeitos devastadores sobre a população 60 mexicana nos dias de hoje . Já no contexto brasileiro, atualmente podemos pensar a região que é chamada de cracolândia como algumas zonas de conflito descritas por Zizek (2003). Segundo autor, habitantes de territórios em estado de guerra civil, ao avistarem helicópteros vindos do ocidente, não sabem se estes helicópteros lançarão bombas ou comida. Hoje, se o governo federal ou estadual apresenta publicamente uma ação de enfrentamento ao crack, não se sabe se os usuários de crack receberão oferta de tratamento ou batida policial. Esta indeterminação, a nosso ver, serve a interesses políticos e ao que podemos chamar de administração de desamparo (SAFATLE, 2010).

  Portanto, a guerra às drogas não cessa de não dizer sobre a condição do sujeito, visto que “a regulação do objeto com o corpo não se define, de modo algum, como sendo de uma identificação parcial que devesse totalizar-se nele, uma vez que, ao contrário, esse objeto é o protótipo da dotação de sentido do corpo como pivô do ser” (LACAN, 1960 pág. 817). Assim, a negativa de enfrentamento desta impossibilidade de totalização faz com que se foraclua a dimensão da verdade do sujeito, preservando o jogo ao saber tecnológico da administração dos corpos e das substâncias. Esta tentativa de atribuição de sentido ao corpo, não escapa ao corpo social enquanto metáfora moderna, e o lugar das drogas enquanto um flagelo. Assim como definido por Erlenmeyer, que após o contato com o texto de Freud denominado “Sobre a coca” (1884), criticou duramente o enaltecimento feito à cocaína, classificando esta 61 substância como o terceiro flagelo da humanidade (ERLENMEYER apud

  GURFINKEL, 2008). 59 Portanto, o sonho de Freud ao tentar tratar o mal-estar pela via do 60 Partido Revolucionário Institucional Como exemplo, podemos apontar a matéria publicada no Der Spiegel em 02/01/2011 “ O

  México mergulha na violência”. Disponível em: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2011/01/02/o-mexico-mergulha-na- 61 violencia.jhtm entorpecimento proporcionado pela cocaína antecede brevemente a gênese das ideias psicanalíticas e, inegavelmente, tem o seu potencial de satisfação registrado no corpo do psicanalista. Este registro, mesmo com a passagem de quatro décadas, se faz presente pela descrição dos meios mais grosseiros e eficazes para suportar o mal-estar (1930). Esta esperança de Freud, datada do final do século XIX, diz exatamente do que Lacan aponta como a ideia imanente à nossa política da pregação do todo, assim como a ideia imaginária do corpo (2005). Esta esperança, impulsionada pela aurora da modernidade, hoje sustenta o advento farmacológico, enxertando na política a esperança que deste corpo, nada pereça, e caso pereça, sem sofrimento que indique perda,

  62 ou seja, onde tudo possa ser administrada e não haja mais nada a ser dito .

  Frente a esta impossibilidade, podemos considerar que Dr Jekyll compreendeu algo da lógica do “flagelo” antes mesmo das políticas de combate às drogas: “agora estou convencido de que meu primeiro lote era impuro, e foi aquela impureza que tornou a poção eficiente” (Stevenson, 2011, pág. 103). É justamente no mercado de contrabando de gozo que podemos afirmar que é na impureza que habita a dimensão da verdade do sujeito. Metáfora crua para uma concepção de objeto a enquanto dejeto mistificado, que por meio das transações comerciais atualiza e intensifica a condição de miséria em uma espiral de omissão e violência. A resposta inconsciente de uma vida que se nega a desejar, facilmente recorre ao último recurso que é: puro gozo trágico e sobretaxado. A tentativa de abstenção de assumir o risco por seu desejo faz com que tal risco adquira exclusivamente esta dimensão trágica na qual a sensação de estar vivo só advém pelo pior do pior.

62 Talvez o cenário mais próximo disso seja a trama descrita na obra de ficção de Aldous

  Huxley. Em adminirável mundo novo, a aproximação da morte, bem como de tantas outras frustrações são administradas pela droga chamada de soma. Curiosamente esta palavra é usada para fazer referência ao corpo sem a psique, ou às partes de organismos que não se reproduzem.

  CONSIDERAđỏES FINAIS

  Freud, no diálogo estabelecido com Einstein sobre a guerra, trata do assunto sem recorrer a dados estatísticos sobre o tema. Em sua resposta se detêm em questões de ordem psíquica pautadas em seus próprios estudos. Desta forma, seu texto se dá de maneira muito distinta do modo que se aborda a guerra nos dias de hoje. Geralmente com volumoso recheio de dados jornalísticos e históricos sobre estratégias, escândalos e declarações públicas de chefes de Estado sobre seus objetivos e necessidades.

  Neste trabalho, ao tratar da guerra às drogas, optamos pelo segundo caminho na expectativa de que estes dados enriquecessem e favorecessem nossa análise sobre o objeto pesquisado. Não obstante este trabalho tenha lançado mão de argumentos numéricos, como os dados estatísticos referentes ao uso de drogas no Brasil, ou a quantidade de hectares de terras destinados ao narcotráfico que inflaram durante a guerra fria, acreditamos termos atingido o objetivo de apresentar ao leitor o trabalho inconsciente que opera neste processo.

  Assim, houve a preocupação de não perdermos de vista as indagações e proposições freudianas. Visto que, a quantidade de informações, em diversos momentos, impôs um verdadeiro desafio de organização e objetividade. Investimos grande parte de nosso esforço na coleta e na apresentação consistente dos dados referentes à guerra às drogas. Este esforço partiu da premissa de que, com uma contextualização sócio histórica traçada, ficamos mais à vontade para operar com a bibliografia pertencente à psicanálise sem incorrer no erro de sustentar posições conservadoras que provocassem uma interferência de julgamentos morais ou apelos conservadores em torno da temática.

  Deste modo, pudemos identificar que as drogas surgem enquanto problema social na passagem do século XIX para o século XX. Assim, as medidas proibitivas foram impulsionadas por duas frentes, uma pertencente à sociedade civil organizada e outra às necessidades econômicas. Enquanto sociedade civil organizada, identificamos grupos religiosos que viam nas drogas um perigo para a ordem social e para a instituição familiar. Concomitante a estes grupos, o desenvolvimento da indústria farmacêutica e a priorização da longevidade, apoiada sobre a necessidade de maior tempo do trabalhador na linha de produção passaram a demarcar o uso de substâncias enquanto lícitas ou ilícitas.

  Assim, notamos que as restrições e o controle das drogas iniciam, sob os ditames de estratégias internacionais, a proibição de determinadas substâncias correspondendo diretamente à regulação das políticas internas atreladas a acordos internacionais. Desse modo, o Brasil tratou a questão das drogas como uma questão prioritariamente policial. Ainda que a política de enfrentamento ao crack reclame tratamento ao usuário e repressão ao traficante, estes dois agentes são facilmente confundidos.

  Portanto, com base no discurso do mestre trabalhado por Jacques Lacan (1968-1969), reconhecemos que a política de combate ao crack tem como seu principal nó de articulação a eleição de uma ameaça. Assim, na medida em que esta ameaça é apresentada e passa a ser combatida, temos como produto destas práticas a identidade socialmente reconhecida como

  

crackeiro. Este processo mantém sob recalque o mal-estar inerente à vida

  cultural atribuindo às drogas uma questão que pertence às formas de administração de gozo.

  Esta estratégia não se detém ao crack. Periodicamente, há uma renovação daquele que habita o lugar de inimigo, fazendo com que surja uma nova substância ocupando o lugar de uma ameaça, impossibilitando um giro no discurso. Assim, trabalhamos com a compreensão de funcionamento grupal apresentada por Freud (1921) aplicada sobre a fórmula do discurso do mestre de Jacques Lacan (968-1969).

  Já o uso do termo toxicomania por parte dos psicanalistas, ainda que dotado de reflexões interessantes, é infrutífero quando lançado à tarefa de estabelecer padrões de sofrimento na relação com as drogas, visto que é tarefa ética inseparável do ofício de analisar, reconhecer o que este sofrimento diz da singularidade do desejo de cada um. Portanto, o investimento de psicanalistas sobre a toxicomania enquanto categoria clínica diz do impossível de governar, visto que a abordagem da toxicomania só pode ser feita por uma via policialesca. Assim, consideramos a toxicomania mais interessante para a pesquisa epistemológica e histórica da nosologia das psicopatologias ao seu uso clínico enquanto categoria.

  Quanto ao âmbito político, na medida em que pudemos nos deparar com o panorama traçado neste trabalho, apresenta-se como um verdadeiro desafio pensar por quais meios poderíamos lidar com o ideal de progresso desenfreado e seus efeitos colaterais predatórios. Portanto, temos de refutar a proposta de Freud na esperança de que “tudo o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra” (FREUD, 1932 pág. 143). Independente do que compreendamos por crescimento da civilização, esta proposta já soa um tanto dissonante do que podemos reconhecer nos dias de hoje. No entanto, no que diz respeito às drogas, talvez, uma rota viável, seja insistir no reconhecimento de uma matriz comum na qual estão atreladas legalidades e ilegalidades, ainda que sobre estas ocorra uma seletividade entre aqueles que possuem condições de terem suas dificuldades assistidas, e aqueles que, frente a determinadas adversidades, tem como único e exclusivo destino a vala comum da indigência e do esquecimento.

  Assim, com o devido destaque dado ao espaço ocupado pelo crack enquanto ameaça da vez, coberto por discursos que reproduzem os mesmos mecanismos antes aplicados em abordagens a outras drogas, reconhecemos que os combates travados contra as drogas compõe jogos ardilosos onde a violência surge com suas duas faces. Uma por meio da ação e do uso da mão de ferro para punir e subjugar e outra, por meio do desamparo cruel e embrutecedor daqueles que se encontram às voltas com seus tropeços.

  Em suma, consideramos os aspectos trabalhados e abordados neste texto, no que diz respeito à política de proibição às drogas e ao seu vício irrefreável no uso da força bélica, assim como as estratégias de dominação política que operam por estas práticas, como estratégias de manutenção de poder que envolvem sacrifício em larga escala. Não é aceitável o argumento de que estas mobilizações visam acabar com as drogas, já que na medida em que este objetivo é manifestado, ele se apresenta como estratégia para ludibriar e escamotear tantos outros objetivos políticos. Pautados sobre esta compreensão, demos destaque à manutenção de uma política do medo e à necessidade de sustentação de uma ameaça imaginária como estratégia de tamponamento do mal-estar inerente à vida social.

  Por fim, cabe sustentarmos a mesma questão que, apesar de não ser nova, se mantém atual e necessária quando nos referimos à política bélica travada contra as drogas. Por que, ainda, esta guerra?

  BIBLIOGRAFIA

  AGAMBEN, G. O que é um dispositivo?. In: O que é contemporâneo e outros ensaios. Chapecó: Ed. Argos. 2009.

  ALENCAR, R. O atendimento aos usuários de drogas nos serviços de CAPS A.D. Monografia para conclusão de curso. Faculdades de Guarulhos, 2008.

  ALMEIDA, A. R. B. Toxicomanias: uma abordagem psicanalítica. Ed. EDUFBA, Salvador. 2010.

  ARANTES, M. A. Para mim, Paraty: Alcoolismo e loucura em Lima Barreto. Revista eletrônica de saúde mental, álcool e drogas, v. 4, n 1, artigo 9, 2008. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_pdf&pid=S1806- 69762008000100010&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt. Acesso em: 05/07/2008.

  ARBEX JÚNIOR, J.; TOGNOLLI, C. J.. O século do crime. São Paulo: ed. Boitempo. 2004.

  ASSOUN, P. L. De Freud a Lacan: El sujeto de lo político. In: Jacques Lacan: la psicoanálisis y la política. Zarka, I, C. [Org.]. Buenos Aires: Ediciones Nueva Visión, 2003. BAUDELAIRE, C. (1860) Paraísos artificiais: o ópio e poema do haxixe. Porto Alegre: L&PM Pocket, 1998.

  BATAILLE, G.(1967) A parte maldita: precedido de “a noção de despesa”. Lisboa: Fim de Século, 2005.

  BENJAMIN, W. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In Obras Escolhidas: Magia e técnica, arte e política. Ed. Brasiliense, São Paulo. 1994

  BECKER, H. Outsiders: estudos de sociologia do desvio. Rio de Janeiro: ed. Jorge Zahar. 2008.

  BERTA, Sandra Leticia ; ROSA, M. D. As loucas da Plaza de Mayo. In: NINA

  VIRGÍNIA DE ARAÚJO LEITE. (Org.). CORPOLINGUAGEM ANGÚSTIA: O AFETO QUE NÃO ENGANA. 1 ed. Campinas: Mercado das Letras, v. 1, p. 333-346, 2006. BRASIL. Campanha nacional de alerta e prevenção ao uso do crack. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=8m2_57-KUeM. 2010. BRASIL. Subchefia para assuntos jurídicos. Sistema nacional de políticas

  2006. Disponível em: sobre drogas. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11343.htm. Acesso em 05/02/2011.

  BRASIL. Ministério da Saúde. A Política do Ministério da Saúde para a Atenção Integral a Usuários de Álcool e outras Drogas. 2004.

  BRASIL. Presidência da República: Superintendência da Casa Civil. Plano

Integrado de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas. Decreto nº 7,179.

20 de maio de 2010a. BRASIL. Presidência da República. Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas – SENAD. Prevenção ao uso indevido de drogas : Capacitação para Conselheiros e Lideranças Comunitárias. Brasília, 2010.

  BRENNER, C. Noções básicas de psicanálise: introdução à psicologia psicanalítica. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

  CAMUS, A. A Peste. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2010. CARNEIRO, H. Autonomia e heterenomia nos estados alterados de

  

consciência. In: Drogas e Cultura: novas perspectivas. Salvador: Ed. EDUFBA,

2008.

  CLAUSEWITZ, C. Da guerra. São Paulo: Martins Fontes, 2010. CONTE, M. Psicanálise e Redução de Danos: articulações possíveis? In: Jornada clínica da APPOA “A direção da cura nas toxicomanias”: o sujeito em questão. Disponível em: http://www.appoa.com.br/download/Revista%2026%20- %20Psican%E1lise%20e%20redu%E7%A6o%20de%20danos.pdf. Porto Alegre, 2003.

  COSTA, J. F. O risco de cada um: e outros ensaios de psicanálise e cultura. Rio de Janeiro: Ed. Garamound, 2007.

  CRUGLAT, C. Clínica das identificações. Rio de Janeiro: ed. Cia de Freud. 2001.

  CURTIS,

  A. O século do ego. 2002. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=MTKFVFjUr8c. Acesso em 08/10/2011.

  DIAS, M. M. e ROSA, M. D. Depressão, Melancolia e Toxicomania: O

  

sujeito entre a imagem e o olhar. DVD. São Paulo: Universidade de São

Paulo, 2005.

  DIMENSTEIN, G. Descobriram a cura do CRACK? Folha On Line. Pensata. 24/05/2010 . Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/gilbertodimenstein/739803- descobriram-a-cura-do-crack.shtml. Acesso em 15/06/2010.

  DOSTOIÉVISKI, F. Os Demônios. São Paulo: Ed. 34, 2004. FITZGERALD, F. S. Crack up. Porto Alegre: Ed. L&PM, 2007.

  FOUCAULT, M. Microfísica do poder. São Paulo: Ed. Brasiliense, 2008. FREUD, S. (1884) Sobre a coca. In: Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre. n. 26, ano: 2004.

  ________. (1912) Totem e tabu. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 2006 ________. (1920) Para além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Ed.

  Imago, 2006 ________. (1921) Psicologia de grupo e análise do ego. Rio de Janeiro: Ed.

  Imago, 2006 ________. (1930) O mal estar na civilização. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1997.

  ________. (1932) Sobre a guerra. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 2006. GIANESI, A. P. A toxicomania e o sujeito na psicanálise. In: Revista Psyché, janeiro-junho, vol. IX, nº 15, pág. 125 – 138. 2005.

  GOLDENBERG, R. Política e psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar: 2006. GURFINKEL, D. O episódio de Freud com a cocaína. In: Revista Lationamericana de Psicopatologia Fundamental. São Paulo, v. 11, n. 3, p. 420 -436, setembro, 2008.

  KOLTAI, C. Totem e tabu: um mito freudiano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

  LABROUSSE, A. Geopolítica das Drogas. São Paulo: Ed. Desatino, 2010.

  LACAN, J. (1966-1967) A lógica do fantasma. Cópia de trabalho. Centro de Estudos Freudianos de Recife, 2008.

  

________. (1953-1954) O seminário: livro1, Os escritos técnicos de Freud.

  Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1981. ________. (1959-1960) O seminário: livro 7, A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 2008.

  ________. (1962-1963) O seminário: livro 10, A angústia. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 2005.

  ________. (1963-1964) O seminário: livro 11, os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 2008a.

  ________. (1969-1970) O seminário: livro 17, O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1992.

  ________. (1949) O estádio do espelho como formador da função do Eu. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

  ________. (1958) A direção do tratamento. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

  

________. (1965-1966) Ciência e Verdade. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge

Zahar, 1998.

  ________. (1963) Kant com Sade. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998a.

  ________. O seminário sobre a carta roubada. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998b.

  ________. (1960) Subversão do sujeito e dialética do desejo. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998c.

  ________. Os nomes do pai. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar. 2005 LEITE, E. F. Drogas, concepções e imagens: um comentário sobre

dependência a partir do modelo usual de prevenção. São Paulo: Ed.

Fapesp e Ed. AnnaBlume, 2005. LESCHER, A.D.; SARTI, C. Et al. Cartografia de uma rede: Reflexões sobre

  

o mapeamento da circulação de crianças e adolescentes em situação de

rua da cidade de São Paulo. São Paulo: Projeto Quixote 1998.

  MACHADO, A. R. e MIRANDA, P. S. C. Fragmentos da história da atenção à

  

saúde para usuários de álcool e outras drogas no Brasil: da Justiça à

Saúde Pública. In: Rev. História, Ciências, Saúde. Manguinhos, v.14, n.3,

  p.801-821, jul.-set. 2007. MANSO, B. P.; MOURA, R.M. Estado de São Paulo. Notícias. 21 de maio de 2010. País chega a 600 mil usuários de crack e governo lança plano de

  

combate. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,pais-

  chega-a-600-mil-usuarios-de-crack-e-governo-lanca-plano-de- combate,554506,0.htm. Acesso em 20/02/2011.

  MAIMONE, F.C. Pressupostos lógicos da linguagem do primeiro Wittgenstein. Dissertação de mestrado em filosofia. PUC – SP, 2000.

  MAQUIAVEL, N. O príncipe. Rio de Janeiro: Penguim Books Companhia das Letras, 2010.

  MELMAN, C. Alcoolismo, delinquencia e toxicomania: uma outra forma de gozar. São Paulo. Ed Escuta, 1992.

  MELVILLE, H. Bartleby, o escriturário: uma história de Wall Street. São Paulo: Cosac Naif, 1853.

  MICHAELIS. Moderno dicionário inglês. Disponível em: http://michaelis.uol.com.br/moderno/ingles/index.php. Acesso em: 12/06/2010 MILLER, J. A. Dos dimensiones clínicas: sintoma y fantasma. Buenos Ayres: Ediciones Manatial, 1986.

  _______. Lacan y la política: entrevista com Jacques Alain Miller. In: Jacques Lacan: la psicoanálisis y la política. Zarka, I, c.. [Org.]. Buenos Aires: Ediciones Nueva Visión, 2003.

  MOSCOVITZ, J. J. Você me disse isso hoje. In: Trabalhando com Lacan. DIDIER-WEILL, A., SAFOUAN, M. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.

  MOUNTIAN, I. Identifying the Enemy: Deconstructing Drugs and Addiction. In: Range of evil: multidisciplnary studies of human wickdness. Ed. Inter- disciplary Press, Oxford. 2006 NAPPO, S. Crack na cidade de São Paulo: acessibilidade, estratégias de

  

mercado e formas de uso. In: Revista de Psiquiatria clínica. SãoPaulo, v. 35,

nº 6, p. 212 – 218, 2008.

  NARDI, R.C.; RIGONI, R.Q. Marginalidade ou cidadania? A rede discursiva que configura o trabalho dos redutores de danos. Psicologia em estudo, v. 10, n. 2,mar / maio , p.273-282,, Maringá, 2005. NOGUEIRA, A. M. P. Drogas e violência: considerações sobre um

  

fracasso superegóico. In: Pulsional: Revista de psicanálise, ano XVX, n 171,

julho, 2003.

  NOGUEIRA FILHO, D. M. Toxicomanias. Ed. Escuta, São Paulo. 1999.

  PACHECO FILHO, R. A. Drogas: um mal-estar na cultura contemporânea. In: Rev. Psicanálise e Universidade, n. 9 e 10, págs. 119 – 147, jul./dez; 1998 – jan./jun. 1999.

  PEIXOTO JÚNIOR, C. A. Metamorfoses entre o sexual e o social. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro. 1999 PLATÃO. O Banquete. Porto Alegre: L&PM Pocket. 2010 PLON, M. Da política em o mal-estar ao mal-estar na política. In: Em torno de O mal-estar na cultura, de Freud. LE RIDER, J., PLON, M. Et all [Org.] São Paulo: ed. Escuta, 2002.

  REED, J. (1917) Dez dias que abalaram o mundo. São Paulo Penguin Books, Companhia das Letras, 2010.

  PRIBERAM. Dicionário Priberam da língua portuguesa. Disponível em: http://www.priberam.pt/dlpo/. Acesso em 06/12/2010 RIBEIRO, C. T. Que lugar para as drogas no sujeito, que lugar para o

  

sujeito nas drogas? Uma leitura psicanalítica do fenômeno do uso de

drogas na contemporaneidade. Dissertação de mestrado. PUC – SP, 2008.

  RODRIGUES, T. Narcotráfico: uma guerra na guerra. Ed. Desatino, São Paulo. 2003 ROSA, M. D. Gozo e política na psicanálise: a toxicomania como

  

emblemática dos impasses do sujeito contemporâneo. In: Rudge, Ana

Maria. (Org.). Traumas. 1 ed. São Paulo: Pulsional, v. , p. 101-111, 2006.

  ROSA, M.D. e DOMINGUES, E. O método na pesquisa psicanalítica de

  

fenômenos sociais e políticos: a utilização da entrevista e da observação

  Psicologia & Sociedade, 22(1), págs. 180-188, 2010 SAFATLE, V. Freud como teórico da modernização bloqueada. In: A Peste, São Paulo, v. 1, n. 2, p. 355 – 374, jul/ dez, 2010.

  SAINT-JUST, L. A. L. (1791-1792) O espírito da revolução. Editora UNESP. São Paulo, 1989.

  SANTIAGO, J. A droga do toxicômano: uma parceria cínica na era da ciência. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 2001.

  SAPORI, L. F. A problemática do crack na sociedade brasileira: o impacto

  

na saúde pública e na segurança pública. Belo Horizonte: PUC – Minas,

2010.

  SILVEIRA FILHO, D. X. O que é dependência química. In: Dependência: compreensão e assistência às toxicomanias (uma experiência do PROAD), SILVEIRA FILHO, D.X. e GOGULHO, M. [org.]. Ed. Casa do Psicólogo, São Paulo. 1996.

  SOUZA, P. C. As palavras de Freud: o vocabulário freudiano e as suas versões. Ed. Companhia das Letras. São Paulo, 2010.

  STEVENSON, R. L. (1886) O médico e o monstro. Porto Alegre: L&PM, 2011. ____________. A garrafa do diabo. In: Contos fantásticos do século XIX: o fantástico visionário e o fantástico cotidiano. CALVINO, Í.[Org.]. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. TAVARES, H. Transtornos do controle do impulso: o retorno da

monomania instintiva de Esquirol. In: Revista Brasileira de Psiquiatria, vol.

30, suppl. 1, pág. S1 e S2, 2008. Acesso em 23/08/2011, disponível no endereço: http://www.scielo.br/pdf/rbp/v30s1/00.pdf.

Novo documento

Tags

Documento similar

PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA – OS IMPACTOS DA NOVA METODOLOGIA DE CÁLCULO TRAZIDA PELA LEI 12.715 DE 2012 (UTILIZAÇÃO DO MÉTODO PREÇO REVENDA MENOS LUCRO – PRL) MESTRADO EM CIÊNCIAS CONTÁBEIS E ATUARIAIS
0
0
121
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC – SP Thatyane Trepiccio
0
0
91
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC-SP LUIZ HENRIQUE TAMAKI
0
0
139
Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social Pontifícia Universidade Católica de São Paulo 2007
0
0
199
MESTRADO EM EDUCAÇÃO: PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO São Paulo 2008
0
0
165
Práticas de Reforço e Recuperação em Escola Fundamental Estadual de Ciclo II em São Paulo
0
0
216
UM BALANÇO ECONÔMICO E INSTITUCIONAL EM 2012
0
0
115
UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ FACULDADE DE ECONOMIA, ADMINISTRAÇÃO, ATUÁRIA, CONTABILIDADE E SECRETARIADO EXECUTIVO – FEAAC DEPARTAMENTO DE TEORIA ECONÔMICA CURSO DE CIÊNCIAS ECONÔMICAS RODRIGO ITO
0
0
73
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC-SP
0
0
100
Mestrado em Educação Matemática PUCSP São Paulo
0
0
176
DOUTORADO EM DIREITO DAS RELAÇÕES SOCIAIS (SUBÁREA DE DIREITO DO TRABALHO) SÃO PAULO 2012
0
0
453
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
0
0
200
MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS São Paulo 2012
0
0
319
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC-SP Luiz Otávio dos Santos Pereira
0
0
128
LUÍZA MAÍTE DE OLIVEIRA MARTINS MAXIMINO A EFICIÊNCIA DOS GASTOS PÚBLICOS EM SAÚDE E EDUCAÇÃO PARA OS MUNICÍPIOS DO ESTADO DO CEARÁ – UMA ANÁLISE EMPÍRICA DOS PERÍODOS DE 2007 A 2009 E 2012 A 2015
0
0
284
Show more