UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA – UDESC CENTRO DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO – FAED

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UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA – UDESC

CENTRO DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO – FAED

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO E CULTURA

A INFLUÊNCIA DO PROFISSIONAL TÉCNICO EM UMA

COMUNIDADE EMPRESARIAL SOB A PERCEPÇÃO DOS

EMPRESÁRIOS

MARCOS HOLZ

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“A INFLUÊNCIA DO PROFISSIONAL TÉCNICO EM UMA

COMUNIDADE EMPRESARIAL SOB A PERCEPÇÃO DOS

EMPRESÁRIOS”

Por

MARCOS HOLZ

ESTA DISSERTAÇÃO FOI JULGADA ADEQUADA PARA A OBTENÇÃO DO TÍTULO DE

MESTRE EM EDUCAÇÃO E CULTURA

E APROVADA EM SUA FORMA FINAL PELO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO E CULTURA

Prof. Paulino de Jesus Francisco Cardoso, Dr. Coordenador do Curso

Banca Examinadora:

Prof. Mário César Barreto Moraes, Dr. Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC

Orientador

Profa. Silvana Bernardes Rosa, Dra. Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC

Prof. Sandro Murilo Santos, Dr.

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DEDICATÓRIA

• Aos meus pais, Ricardo Holz (in memoriam) e Waltrudes Holz por sonhar um futuro melhor para seus filhos.

• Aos meus filhos Marcus e Andréa pelo carinho e incentivo, me orgulho muito de vocês.

• A Nilva pelo carinho, incentivo, paciência, a companheira em todos os momentos.

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AGRADECIMENTOS

• Sociedade Educacional de Santa Catarina – SOCIESC, na pessoa de seu diretor geral Professor Dr. Sandro Murilo Santos, membro da banca, colaborador e incentivador deste trabalho;

• Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC;

• Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Educação e Cultura, na pessoa de seu coordenador, Professor Dr. Paulino de Jesus Francisco Cardoso, e de todos os seus professores e funcionários;

• Ao Professor Dr. Mário César Barreto Moraes, pela dedicação e esforço prestado como orientador do presente trabalho;

• A Professora Dra. Silvana Bernardes Rosa, em participar como membro da banca; • Ao Professor Paulo Sérgio Maia, pelo importante apoio na revisão deste trabalho;

• Aos empresários e colaboradores das empresas pesquisadas, pela presteza e consideração com que colaboraram para a coleta de dados;

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RESUMO

HOLZ, Marcos. A Influência do Profissional Técnico em uma Comunidade Empresarial sob a Percepção dos Empresários. Florianópolis, 2005. XXXf. Dissertação (Pós-Graduação em Educação e Cultura) Programa de Pós-Graduação em Educação e Cultura da Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2005.

No Brasil, em conseqüência do avanço tecnológico, tem-se percebido a importância da educação profissional e tecnológica como estratégia para o estabelecimento da cidadania e para a efetiva inserção de jovens trabalhadores na sociedade. O profissional técnico atende às necessidades de desenvolvimento nacional, regional e/ou local, tendo por estímulo o crescimento da indústria em função das novas demandas oriundas dos mercados nacionais e internacionais, que exigem maior qualificação e competência no processo produtivo. A presente dissertação, utilizando a pesquisa exploratória, apresenta o comportamento da indústria moveleira da região de São Bento do Sul, no intervalo de 2000 a 2004, para uma amostra composta por 10 (dez) empresas moveleiras, sendo 2 (duas) grandes empresas – mais de 1000 (mil) funcionários em 2004 – e 8 (oito) médias empresas –entre 100 (cem) e 499 (quatrocentos e noventa e nove) funcionários em 2004. Observa-se o crescimento significativo do corpo técnico formado por engenheiros, tecnólogos e técnicos de nível médio quando comparados ao total de funcionários neste período, bem como a relação entre o crescimento do corpo técnico e o crescimento relativo do faturamento, tendo como base o ano 2000. Constata-se para as empresas pesquisadas, na percepção dos empresários, que determinados indicadores ligados à produção como melhoria nos processos, na produtividade, na qualidade, na redução de custos, na mudança nos produtos, na diminuição de tempo de set-up, são influenciados pelo profissional técnico.

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ABSTRACT

HOLZ, Marcos. A Influência do Profissional Técnico em uma Comunidade Empresarial sob a Percepção dos Empresários. Florianópolis, 2005. XXXf. Dissertação (Pós-Graduação em Educação e Cultura) Programa de Pós-Graduação em Educação e Cultura da Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2005.

In Brazil, due to the technological advance, it has been noticed the importance of professional and technological education as strategy for the establishment of the citizenship and for an effective insertion of young workers in society. The professional technician deals with the needs of the national, regional and/or local development, stimulated for the growth of the industry due to new demands from national and international market, which require better qualification and competence in the productive process. The following dissertation, using the exploratory research, shows the behavior of the wood industry in São Bento do Sul region, between 2000 to 2004, for a samplig made in ten wood companies, two big ones (more than a thousand employees in 2004), and eight medium-size companies (between one hundred to 499 employees in 2004). It is noticed the significant growth of the technical staff, formed by engineers, technologists, and high-school technicians when compared to the total of the employees in this period, as well as the relation between the growth of the technical staff and the relative growth of the total sales, according to the year of 2000. It is confirmed for the companies involved, according to the businesspeople, which certain points connected to the production such as process improvement, productivity, quality, cost reduction, change in the products, time reduction of set-up, are influenced by the professional technician.

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SUMÁRIO

AGRADECIMENTOS... 4

RESUMO... 5

ABSTRACT... 6

LISTA DE FIGURAS E GRÁFICOS... 10

LISTA DE QUADROS... 11

LISTA DE SIGLAS... 14

1. INTRODUÇÃO... 15

1.1 Definição do Problema... 17

1.2 Objetivos... 20

1.2.1 Geral... 20

1.2.2 Específicos... 20

1.3 Relevância da Pesquisa... 21

1.4 Organização da Dissertação... 22

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA... 24

2.1 Terminologia sobre Ocupação, Trabalho, Profissões e Profissionais... 24

2.1.1 Análise dos termos ocupação, trabalho, profissões e profissional... 24

2.1.2 A conotação do termo profissional... 25

2.1.3 A percepção dos termos trabalho e profissão... 27

2.2. A Visão da Educação na História da Humanidade... 28

2.2.1 Evolução histórica da formação profissional... 28

2.2.2 Das civilizações antigas ao século XVII... 29

2.2.3 Séculos XVIII e XIX: a primeira fase da era contemporânea... 32

2.2.4 Século XX: a segunda fase da era contemporânea... 37

2.3 A Relação entre Educação e Trabalho... 41

2.3.1 A produção do saber... 42

2.3.2 Teoria para melhorar a execução... 44

2.3.3 A educação para o trabalho... 45

2.4 O Contexto da Educação no Brasil... 47

2.4.1 O Ensino Fundamental... 49

2.4.2 O Ensino Médio... 50

2.4.3 O Ensino Superior... 51

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2.5.1 Histórico da Educação Profissionalizante no Brasil... 53

2.5.2 Proposta da Secretaria de Educação Média e Tecnológica – SEMTEC/MEC... 59

2.6 A Administração de Recursos Humanos em uma Empresa voltada para a Gestão do Conhecimento... 65

2.6.1 O recrutamento e seleção... 65

2.6.2 O treinamento... 66

2.6.3 A carreira e o sistema de recompensa... 68

2.7 O Papel Estratégico e os Objetivos da Produção... 70

2.7.1 O papel da função produção... 71

2.7.2 Os cinco objetivos de desempenho da produção... 72

2.7.2.1 A qualidade dos bens e serviços oferecidos pela operação... 73

2.7.2.2 A rapidez com que são entregues os bens e serviços... 73

2.7.2.3 A confiabilidade na entrega dos bens e serviços... 74

2.7.2.4 A flexibilidade da produção em mudar... 74

2.7.2.5 O custo de produzir os bens e serviços... 75

2.7.2.6 A relação dos demais objetivos com o custo... 75

2.8 Estratégia de Produção... 76

2.8.1 A hierarquia das estratégias... 78

2.8.2 A estratégia de produção... 79

2.8.3 A prioridade dos objetivos de desempenho... 80

2.8.3.1 A influência do consumidor nos objetivos de desempenho... 82

2.8.3.2 Critérios qualificadores e ganhadores de pedidos... 83

2.8.3.3 A influência dos concorrentes nos objetivos de desempenho... 84

2.8.3.4 A influência do ciclo de vida do produto/serviço nos objetivos de desempenho... 85

3 METODOLOGIA... 89

3.1 A Natureza da Pesquisa... 89

3.2 Caracterização da Pesquisa... 90

3.3 Coleta e Análise dos Dados... 91

3.3.1 Amostra e Coleta de Dados... 91

3.4 Limitações da Pesquisa... 95

4 DESCRIÇÃO, ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS... 96

4.1 Descrição e Análise dos Dados de cada Empresa Pesquisada... 96

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4.1.2 Empresa B... 99

4.1.3 Empresa C... 102

4.1.4 Empresa D... 105

4.1.5 Empresa E... 107

4.1.6 Empresa F... 110

4.1.7 Empresa G... 112

4.1.8 Empresa H... 115

4.1.9 Empresa I... 118

4.1.10 Empresa J... 120

4.2 Descrição e Análise dos Dados da Amostra de Empresas Pesquisadas de forma Agrupada... 123

4.2.1 Na administração de recursos humanos... 123

4.2.2 Nos processos de produção... 124

4.2.3 Crescimento de 2004 em relação a 2000... 126

4.2.4 Crescimento em relação ao ano anterior... 127

4.2.5 Relação entre o corpo técnico (engenheiros, tecnólogos e técnicos e nível médio) e o total de funcionários... 128

4.3 Análise Comparativa dos Dados... 129

4.3.1 Relação entre o aumento do número de técnicos na empresa e o seu faturamento... 130

4.3.2 Relação entre o número de engenheiros, tecnólogos e técnicos e o número total de funcionários no período 2000-2004... 138

4.3.2.1 Crescimento em relação a 2000... 138

4.3.2.2 Análise estratificada ano a ano (2000 a 2004)... 142

4.3.3 Análise e interpretação dos dados... 143

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS... 147

5.1 Considerações Finais... 147

5.2 Recomendações para futuros trabalhos... 151

6 REFERÊNCIAS ... 152

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LISTA DE FIGURAS E GRÁFICOS

Figura 01 Os três papéis da função produção 71

Figura 02 Os objetivos de desempenho provocam efeitos externos e internos 76

Figura 03 Modelo geral de administração da produção e estratégia de produção 77

Figura 04 Importância dos objetivos de desempenho para a operação produtiva 81

Figura 05 Atividade dos concorrentes pode afetar ou modificar a importância relativa

dos objetivos de desempenho 84

Figura 06 Forma geral da curva do ciclo de vida do produto/serviço 85

Figura 07 Efeitos do ciclo de vida do produto/serviço na organização 86

Gráfico 01 Relação corpo técnico e faturamento de todas as empresas (Quadro 38) 131

Gráfico 02 Relação corpo técnico e faturamento das empresas grandes (Quadro 39) 133

Gráfico 03 Relação corpo técnico e faturamento das empresas médias (Quadro 40) 134

Gráfico 04 Relação corpo técnico e faturamento das empresas médias (Quadro 41) 136

Gráfico 05 Relação corpo técnico e faturamento das empresas médias (Quadro 42) 137

Gráfico 06 Crescimento relativo, em relação a 2000, dos engenheiros, tecnólogos, técnicos de nível médio e funcionários. Dados agrupados das empresas pesquisadas (Quadro 38)

139

Gráfico 07 Crescimento em relação a 2000, dos engenheiros, tecnólogos, técnicos de nível médio e funcionários. Dados agrupados das grandes empresas (Quadro 39)

140

Gráfico 08 Crescimento em relação a 2000, dos engenheiros, tecnólogos, técnicos de nível médio e funcionários. Dados agrupados das médias empresas pesquisadas (Quadro 40)

141

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LISTA DE QUADROS

Quadro 01 Dados do Ensino Fundamental no Brasil, Região Sul e Santa Catarina 50

Quadro 02 Dados do Ensino Médio no Brasil, Região Sul e Santa Catarina 51

Quadro 03 Dados do Ensino Superior no Brasil, Região Sul e Santa Catarina 52

Quadro 04 Comparativo entre Paradigma do Treinamento e Paradigma do Aprendizado

67

Quadro 05 Relação entre os fatores competitivos e os objetivos de desempenho 82

Quadro 06 Estratégias com um efeito especialmente significativo sobre objetivos de desempenho específicos

88

Quadro 07 Empresa A – Percentual em relação ao total de funcionários 97

Quadro 08 Empresa A – Crescimento em relação ao ano base 2000 97

Quadro 09 Empresa A – Crescimento em relação ao ano anterior 98

Quadro 10 Empresa B – Percentual em relação ao total de funcionários 99

Quadro 11 Empresa B – Crescimento em relação ao ano base 2000 100

Quadro 12 Empresa B – Crescimento em relação ao ano anterior 101

Quadro 13 Empresa C – Percentual em relação ao total de funcionários 102

Quadro 14 Empresa C – Crescimento em relação ao ano base 2000 103

Quadro 15 Empresa C – Crescimento em relação ao ano anterior 104

Quadro 16 Empresa D – Percentual em relação ao total de funcionários 105

Quadro 17 Empresa D – Crescimento em relação ao ano base 2000 106

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Quadro 19 Empresa E – Percentual em relação ao total de funcionários 108

Quadro 20 Empresa E – Crescimento em relação ao ano base 2000 108

Quadro 21 Empresa E – Crescimento em relação ao ano anterior 109

Quadro 22 Empresa F – Percentual em relação ao total de funcionários 110

Quadro 23 Empresa F – Crescimento em relação ao ano base 2000 111

Quadro 24 Empresa F – Crescimento em relação ao ano anterior 111

Quadro 25 Empresa G – Percentual em relação ao total de funcionários 113

Quadro 26 Empresa G – Crescimento em relação ao ano base 2000 113

Quadro 27 Empresa G – Crescimento em relação ao ano anterior 114

Quadro 28 Empresa H – Percentual em relação ao total de funcionários 115

Quadro 29 Empresa H – Crescimento em relação ao ano base 2000 116

Quadro 30 Empresa H – Crescimento em relação ao ano anterior 116

Quadro 31 Empresa I – Percentual em relação ao total de funcionários 118

Quadro 32 Empresa I – Crescimento em relação ao ano base 2000 118

Quadro 33 Empresa I – Crescimento em relação ao ano anterior 119

Quadro 34 Empresa J – Percentual em relação ao total de funcionários 120

Quadro 35 Empresa J – Crescimento em relação ao ano base 2000 121

Quadro 36 Empresa J – Crescimento em relação ao ano anterior 121

Quadro 37 Relação entre corpo técnico e o total de funcionários. Percentual de empresas pesquisadas em cada intervalo.

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Quadro 38 Crescimento ano a ano em relação a 2000. Dados agrupados das empresas

pesquisadas – Totais da amostra 130

Quadro 39 Crescimento ano a ano em relação a 2000. Dados agrupados das empresas

pesquisadas com mais de 1000 funcionários em 2004 132

Quadro 40 Crescimento ano a ano em relação a 2000. Dados agrupados das empresas pesquisadas com número de funcionários, em 2004, entre 100 e 499

133 Quadro 41 Crescimento ano a ano em relação a 2000. Dados agrupados das empresas

pesquisadas com número de funcionários, em 2004, de 300 e 499

135 Quadro 42 Crescimento ano a ano em relação a 2000. Dados agrupados das empresas

pesquisadas com número de funcionários, em 2004, de 100 e 299 136

Quadro 43 Relação de cada estrato com o total de funcionários.Dados acumulados da

amostra 142

Quadro 44 Afirmações quanto à administração de recursos humanos 145

Quadro 45 Afirmações quanto aos processos de produção 146

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LISTA DE SIGLAS

BID Banco Interamericano de Desenvolvimento

EF Ensino Fundamental

EJA Educação de Jovens e Adultos

EM Ensino Médio

ETT-SBS Escola Técnica Tupy – Unidade São Bento do Sul FAT Fundo de Amparo ao Trabalhador

FEJ Faculdade de Engenharia de Joinville FETEP Fundação de Ensino, Tecnologia e Pesquisa FURJ Fundação Educacional da Região de Joinville LDB Leis de Diretrizes e Bases

MEC Ministério da Educação

MEC Ministério de Educação e Cultura

PLANFOR Plano Nacional de Qualificação Profissional PMSBS Prefeitura Municipal de São Bento do Sul PROEP Plano de Expansão da Educação Profissional SEC Secretaria de Educação e Cultura

SEMTEC Secretaria de Educação Média e Tecnológica SENAC Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial SENAI Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial

SINDUSMÓBIL Sindicato das Indústrias da Construção e do Mobiliário de SBS SOCIESBS Sociedade Educacional de São Bento do Sul

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1. INTRODUÇÃO

No Brasil, em conseqüência do avanço tecnológico, tem-se percebido a importância da educação profissional e tecnológica, uma estratégia para o estabelecimento da cidadania e para a efetiva inserção de jovens e trabalhadores na sociedade. No que se refere à instrução, o cabedal de conhecimentos torna-se mais abrangente na medida em que respeita a evolução histórica da educação, não objetivando apenas o treinamento para o mercado de trabalho ou o preparo para a execução de tarefas instrumentais.

Da evolução e da mudança, da intrincada rede de mediações e conflitos entre as diferentes esferas da sociedade (econômica, social, política e cultural), resultam processos que desencadeiam tensas relações entre trabalho, o emprego, a escola e a profissão.

Percebe-se a educação profissional e tecnológica, neste contexto, como processo de construção social, que qualifica enquanto educa o cidadão, tanto em bases científicas, quanto ético-políticas, a fim de que a tecnologia seja compreendida como produção do ser social, que estabelece relações sócio-históricas e culturais de conhecimento e poder. Torna-se ainda um processo mediador entre a cognição e a estrutura material da sociedade, o que afasta o sistema educacional do perigo de se transformar em mercadoria e de considerar a educação profissional e tecnológica como adestramento ou treinamento.

Diante do exposto, impõe-se resgatar um princípio educativo que incorpore todas as formas que se posicionam no interior das relações sociais, inclusive, do trabalho, com o objetivo de formar o cidadão como ser político e produtivo, abrangendo-lhe todas as dimensões comportamentais, ideológicas e normativas.

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certa medida, funções intelectuais e instrumentais no sistema produtivo e no conjunto das relações sociais, o que vem causando significativas alterações nas relações sócio-culturais e introduzindo mais contradição na relação entre educação do trabalhador e o processo produtivo.

Na medida em que se reduz e simplifica as atividades operacionais manuais do fazer, tanto mais complexas tornam-se o gerenciamento e a compreensão dos elementos científicos inseridos na tecnologia.

Observa-se também uma ampliação nas áreas orbitais do processo produtivo: atividades culturais, associativas, sindicais e partidárias. São ampliadas as expectativas de reconhecimento, compreensão, raciocínio, criatividade, decisão, bem como participação nesses espaços, a fim de usufruir os benefícios do desenvolvimento social, econômico, cultural, científico e tecnológico.

A escola tende progressivamente a se transformar propiciando a aquisição de: - princípios científicos gerais que têm impacto sobre o processo produtivo;

- habilidades instrumentais básicas que incluem formas diferenciadas de linguagens próprias envolvendo diversas atividades sociais e produtivas;

- categoria de análise que facilitam a compreensão histórico-crítica da sociedade e das formas de atuação do ser humano, como cidadão e trabalhador;

- capacidade instrumental de exercitar o pensar, o estudar, o criar e o dirigir estabelecendo os devidos controles.

Sobre esses fundamentos deve-se estruturar a educação profissional e tecnológica, permitindo ao cidadão participar ativamente da construção social e adquirir capacidade de se exercitar intelectual e tecnicamente.

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É oportuno ainda destacar as contribuições dos pesquisadores, de diferentes grupos, instituições e movimentos sociais, que, ao longo da década de 90, empenharam-se em abordar a realidade educacional brasileira, as perspectivas da educação dos trabalhadores e os projetos alternativos para o país.

Evidenciam-se também as contribuições valiosas dos acadêmicos ao longo da década de 80, enfocando em profundidade as relações entre o trabalho e a educação numa perspectiva histórico-crítica.

Assim, diante de um quadro tão dinâmico quanto o do modelo educacional brasileiro, refém de tantas variáveis imponderáveis, torna-se relevante considerar a percepção da sociedade quanto às mudanças, e torna-se indispensável no presente trabalho, destacar a visão do grupo diretamente afetado e/ou beneficiado pelo processo de formação profissional técnica.

1.1. Definição do problema

Considerando o impacto das mudanças sócio-econômicas e educacionais na sociedade, o quadro em que se define o problema de pesquisa melhor se revela quando da sua apreciação segundo o contexto em que se insere.

Neste contexto, o profissional técnico, objeto da pesquisa, atende às necessidades de desenvolvimento nacional, regional e/ou local, tendo por estímulo o crescimento da indústria em função das novas demandas oriundas dos mercados nacional e internacional, que exigem maior qualificação e competência no processo produtivo.

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Os principais países para onde os móveis produzidos em São Bento do Sul são exportados são: Estados Unidos, Canadá, França, Alemanha, Inglaterra, Suécia, Itália, Oriente Médio, Grécia, Caribe, Suriname, Chile, Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, Venezuela.

“A necessidade de qualificação e formação de profissionais para atuar na indústria moveleira, em função das exigências de padrão de qualidade do mercado passou a ser mais acentuada a partir da década de 70” (MAFRA, 1993, p. 58).

A primeira instituição de formação profissional para atender as indústrias da região a se instalar em São Bento do Sul foi o SENAI – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, a partir de 1965, através da agência de Joinville e com agência em SBS desde 20 de março de 1972. O Centro de Treinamento foi inaugurado em 23 de setembro de 1977, tendo como foco cursos de capacitação profissional e aprendizes industriais.

Em 1975, a PMSBS - Prefeitura Municipal de São Bento do Sul cria a Fundação de Ensino, Tecnologia e Pesquisa, FETEP, pela Lei número 149 de 18/12/1975, tendo como objetivo principal promover estudos, pesquisas e projetos relacionados com o desenvolvimento tecnológico, econômico e social da região e do estado, com prioridade para o setor madeira/móveis e promover cursos de formação, treinamento e especialização de mão de obra.

Em 1982 é realizado o primeiro curso técnico de nível médio, desenvolvido pela FETEP em parceria com o Colégio Estadual Professor Roberto Grant – Curso Técnico de Móveis e Esquadrias – visando preparar mão-de-obra para a indústria moveleira da região. As disciplinas de educação geral eram ministradas no Colégio Roberto Grant e as profissionalizantes na FETEP.

A partir de 1984, passou a funcionar na FETEP, em convênio com a FURJ, o Curso Superior de Administração de Empresas buscando atender a necessidade de formação de gestores para as empresas da região.

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Em outubro de 1999, a SOCIESC – Sociedade Educacional de Santa Catarina, mantenedora jurídica da Escola Técnica Tupy de Joinville, atendendo ao seu planejamento estratégico, realiza convênio com a SOCIESBS – Sociedade Educacional de São Bento do Sul, formada por um grupo de 28 empresas e entidades lideradas pela ACISBS – Associação Comercial e Industrial de São Bento do Sul, com o apoio da Prefeitura Municipal de São Bento do Sul.

A Escola Técnica Tupy – Unidade de São Bento do Sul / ETT-SBS inicia suas atividades em 14 de fevereiro de 2000, junto ao campus onde se encontra a FETEP, oferecendo Ensino Médio e três cursos técnicos de nível médio: Curso Técnico de Mecânica, Curso Técnico de Eletrônica e Curso Técnico de Informática. A oferta de cursos é ampliada com o Curso Técnico de Automação Industrial (2001), Curso Técnico de Química Industrial (2002), Curso Técnico de Segurança do Trabalho (2003) e o Curso de Técnico de Gestão da Qualidade e Curso Técnico de Eletrotécnica (ambos em 2005).

Em dezembro de 2003, a portaria número 3.588 credencia o Centro de Educação Tecnológica Tupy de São Bento do Sul – CETT-SBS e autoriza o funcionamento do Curso Superior de Tecnologia em Automação Industrial. Em janeiro de 2004 é autorizado o funcionamento do Curso Superior de Tecnologia em Tratamento de Superfícies para Indústria Moveleira. O decreto número 5.225 de 1º de outubro de 2004 altera a denominação do CETT-SBS para Faculdade de Tecnologia Tupy de São Bento do Sul.

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Que influências o profissional técnico traz a uma comunidade empresarial, segundo

a percepção dos empresários da indústria moveleira da região de São Bento do Sul?

1.2. Objetivos

1.2.1. Geral

Identificar, segundo a percepção dos empresários da indústria moveleira da região de São Bento do Sul, quais as influências que o profissional técnico traz as suas organizações.

1.2.2. Específicos

Tendo em vista o objetivo geral formulado, definem-se como objetivos específicos: a) Identificar se existe relação entre o aumento do número de técnicos de nível médio,

tecnólogos e engenheiros na empresa e o seu faturamento;

b) Levantar junto às empresas pesquisadas, qual a variação ocorrida entre o número total de funcionários e o número de engenheiros, tecnólogos e técnicos de nível médio, no período 2000-2004;

c) Levantar, se existem indicativos de que a administração de recursos humanos das empresas pesquisadas está voltada para a gestão do conhecimento;

d) Identificar, na visão do empresário, que indicadores são influenciados pela contratação e/ou manutenção de técnicos, tecnólogos e engenheiros;

e) Verificar, na percepção do empresário, se o técnico contribui para a redução de custos dos produtos produzidos pelas empresas pesquisadas;

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g) Identificar se as empresas pesquisadas possuem indicadores de retrabalho e refugo e na percepção do empresário verificar se o técnico contribui para a melhoria destes índices;

1.3. Relevância da Pesquisa

Historicamente, a região de São Bento do Sul vivenciou um período de crescimento que tem seu ápice no início da década de 70.

Desde então, segundo Mafra (1993), a falta de investimentos em inovação e, sobretudo, a falta de mão-de-obra, reforçaram um período de queda acentuada na principal base da economia local: a indústria moveleira.

A partir da criação da FETEP – Fundação de Ensino, Tecnologia e Pesquisa em 1975 e implantação do SENAI, em 1977, na cidade de São Bento do Sul, com a implementação de cursos de capacitação e qualificação profissionais, inicia-se um processo de reversão do quadro negativo. Essa reversão culmina com a instalação de uma unidade da ETT – Escola Técnica Tupy no município em 2000, objetivando a formação de técnicos para a indústria.

Colocando no mercado de trabalho técnicos em mecânica, eletrônica, informática, automação industrial e química industrial, estabelece-se uma reconfiguração da mão-de-obra na indústria local, impulsionando, juntamente com outras medidas de gestão, um novo ciclo de desenvolvimento na região.

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1.4. Organização da dissertação

A organização desta dissertação está estruturada em cinco capítulos, sendo que o primeiro aborda a definição do problema de pesquisa, os objetivos geral e específicos a serem atingidos e a relevância deste trabalho.

Tratando da fundamentação teórica, o segundo capítulo apresenta uma análise da terminologia sobre ocupação, trabalho, profissões e profissionais, além da conotação do termo profissional e dos termos trabalho e profissão. Ainda nesse segundo capítulo, é apresentada uma visão da educação na história da humanidade, através da evolução histórica da formação profissional, desde as civilizações antigas até o século XX. A relação entre educação e trabalho também é abordada nesse capítulo que trata da produção do saber, da teoria para melhorar a execução e da educação para o trabalho.Outro item deste capítulo trata do contexto da educação no Brasil, desde o ensino fundamental, até o superior, abordando a caracterização do ensino profissionalizante a partir de um breve histórico e terminando com a proposta da SEMTEC/MEC - Secretaria de Educação Média e Tecnológica.

Ainda neste capítulo é apresentada a visão sobre a administração de recursos humanos em uma empresa voltada para a gestão do conhecimento, iniciando pelo recrutamento e seleção, passando pelo treinamento e abordando também a carreira e o sistema de recompensa. Par finalizar o capítulo dois, é apresentado o papel estratégico, os objetivos da produção, a estratégia de produção, a prioridade dos objetivos de desempenho e a influência do ciclo de vida do produto ou serviço nos objetivos de desempenho.

O capítulo três busca relatar os procedimentos metodológicos utilizados na condução da pesquisa. É descrita a natureza da pesquisa, sua caracterização, a amostra utilizada, a forma de coleta e análise e as limitações.

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seguir são feitas a análise e a interpretação dos dados de forma agrupada para as áreas de recursos humanos, processos de produção, crescimento de 2004 em relação a 2000, crescimento em relação ao ano anterior no intervalo 2000-2004, relação entre o corpo técnico (engenheiros, tecnólogos, técnicos de nível médio) e o total de funcionários para o intervalo 2000-2004.

Ainda no capítulo três é feita uma análise comparativa dos dados, relacionando o aumento relativo do corpo técnico e o faturamento das empresas pesquisadas para o intervalo 2000-2004, tendo como base o ano 2000, a relação entre o número de engenheiros, tecnólogos e técnicos e o número total de funcionários no período 2000-2004, analisando o crescimento em relação a 2000 e ano a ano.

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2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1. Terminologia sobre Ocupação, Trabalho, Profissões e Profissional

Bem como o indivíduo sofre as transformações inerentes ao processo de evolução, tudo o que estiver atrelado a este indivíduo igualmente sofrerá alterações. Assim se dá com a linguagem, uso ou carga semântica (significação) que os vocábulos vão agregando ou perdendo com o decorrer do tempo. O ensino profissionalizante, objeto desta pesquisa bibliográfica, envolve diversos termos que tiveram, e ainda têm, suas acepções alteradas conforme as características do momento em que são aplicados.

2.1.1. Análise dos Termos Ocupação, Trabalho, Profissões e Profissional

Labor, para a Roma do passado, era um termo ligado aos homens livres que compunham o exército e cultivavam a terra. Após o século II a.C., o termo foi substituído por tripalium, uma espécie de canga que se punha nos bois para propiciar a tração de carga. Este termo, que sugere a existência dos verbos “trabalhar” em português, travailler em francês, trabajar em espanhol e travagliare em italiano, inverteu a conotação positiva que labor inferia ao indivíduo.

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Já a palavra ofício, “também originária do latim officiu, refere-se a dever, obrigação, trabalho, arte, papel, função”. Ainda em Valle (2001, p.34), pode-se verificar que o significado da palavra ocupação deriva também do latim occupatio: “ato de preencher o tempo, de exercer uma atividade qualquer, ofício ou função remunerada, emprego, trabalho”.

Atualmente, entende-se por profissão a área em que o indivíduo atua, tendo em vista sua formação, em nível técnico ou superior. Esse indivíduo é visto como especialista em determinada área e atua especificamente em seu ramo de formação.

A polissemia ou similaridades entre os vocábulos professione, officiu e occupatio dificulta a delimitação quanto ao uso mais adequado de uma ou outra. Uma vez que o processo evolutivo do homem e, conseqüentemente, de sua linguagem é contínuo, o uso desta ou daquela palavra dependerá dos aspectos sociais, políticos, econômicos e históricos aos quais o indivíduo está sujeito, uma vez que está integrado a uma sociedade e é influenciado pela mesma.

2.1.2. A Conotação do Termo Profissional

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Um fator de mudança é que o trabalho passou a ser visto numa interação com a ciência; trabalho material e imaterial tornaram-se elementos fundamentais no mundo produtivo contemporâneo.

O que antes era caracterizado como processo improdutivo, pelo sistema fordista/taylorista1, hoje é dotado de maior relevância devido à ampliação da dimensão

intelectual das atividades industriais, como é o caso dos setores de serviços, comunicações, marketing, informática e publicidade. Nestas áreas, pensar, encontrar soluções, definir estratégias que propiciem o aumento da lucratividade são procedimentos valorizados e estavam relegadas a segundo plano, sendo consideradas improdutivas por não apresentarem resultados diretos de valor sobre os produtos fabricados. Porém, as atividades intelectuais passaram a predominar uma vez que sem a eficácia da gestão dos processos, os resultados não atingiriam as metas estabelecidas.

Esta nova situação determinou a necessidade dos trabalhadores ampliarem seus saberes, tornando a produção do conhecimento e a capacitação do trabalhador elementos essenciais no mundo da tecnologia. O trabalho passou a ser entendido como a união do esforço intelectual ao físico, sendo que o aspecto físico compreende as condições biológicas (força e saúde) para a realização de atividades braçais, além da demanda de energia despendida durante as atividades diárias, como ficar horas na frente de um computador digitando, o que pode comprometer as articulações, a coluna e a musculatura.

1 Frederick Winslow Taylor iniciou o movimento da gerência científica, nas últimas décadas do século XIX, que

significa um empenho no sentido de aplicar os métodos da ciência aos problemas complexos e crescentes no controle do trabalho nas empresas capitalistas. Enfim, Taylor ocupava-se dos fundamentos da organização dos processos de trabalho e do controle rigoroso sobre eles. O taylorismo caracteriza-se, portanto, na separação entre os trabalhos de concepção e de execução, intelectual e manual, qualificado e desqualificado, e ganhando destaque pela organização científica do trabalho.

Henry Ford, proprietário da Ford Motor Company – inaugurada em 1903, instituiu uma nova organização do trabalho, desde o lançamento do Modelo T – em 1908. Este processo se caracterizava pela esteira transportadora, na qual os componentes do carro eram transportados e, à medida que passava, com paradas periódicas, os operários executavam operações simples, tendo como resultado o aceleramento do índice de produção, e a conseqüente banalização e fragmentação de tarefas.

Assim, foi a partir de Taylor e Ford que os modos de produção passaram a ser rigorosamente sistematizados e controlados, tendo como fim uma maior produtividade e gerando, conseqüentemente, maiores lucros para o modo capitalista de produção. Todo trabalho que não seguisse tais modelos seria considerado improdutivo

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Analisando-se ainda a questão referente ao que se designa como atividades produtivas e improdutivas, é relevante observar as tarefas realizadas durante o estágio. Estas podem ser consideradas como “improdutivas” na medida em que se tem um profissional experiente e, portanto, considerado produtivo, extraído do processo para acompanhar, orientar e observar o trabalho do estagiário. Ou, pelo contrário, tornam-se produtivas na medida em que o jovem, ao ser preparado para atuar conforme os padrões vigentes, passa por um processo de transformação adequando-se, de modo a garantir a sobrevivência do sistema.

O termo educação profissional está relacionado às mudanças ocorridas a partir das décadas de 70 e 80 do século passado, quando se inovaram as formas de organização e de gestão, modificando estruturalmente o mundo do trabalho. Neste período, acontece uma nova transformação na utilização da força de trabalho, que tem conseqüências na qualificação, buscando valorizar a mesma e promover a independência profissional. Isto se dá devido à “destruição de lugares de trabalho” (DIEESE, 1997, p.30), ou seja, a especialização radical do trabalho é abandonada e busca-se uma integração de tarefas através da plurifuncionalidade de homens e equipamentos. Aquele trabalhador outrora qualificado para uma atividade específica, agora busca diversificar seus conhecimentos, a fim de conhecer, dinamizar e atuar em diversas áreas.

2.1.3. A Percepção dos Termos Trabalho e Profissão

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Baseando-se nesse preceito, profissão se alcançaria através da eleição de uma formação específica e da dedicação exclusiva a essa formação, além da atuação nessa área eleita. O indivíduo, então, após completar um ciclo de preparação definido, seria considerado um profissional, principalmente se atuante ou com experiência.

Neste conceito, a oferta de trabalho restringe-se ao campo de formação ou atuação do indivíduo que, formal ou informalmente, apresenta os conhecimentos para o exercício de determinada função.

2.2. A Visão da Educação na História da Humanidade

Dentro da evolução da história da humanidade, o trabalho, a educação e a formação profissional sempre estiveram atrelados à demanda de novas necessidades e atendimento das classes dominantes dentro do modelo político, cultural e econômico vigente em cada época.

Por isso, se faz necessária uma breve análise, iniciando pelas Civilizações Antigas até a Idade Contemporânea, o que se prestará a um melhor entendimento da situação brasileira e, por conseqüência, catarinense.

2.2.1. Evolução Histórica da Formação Profissional

A relação do homem com a produção de bens e serviços tem sido marcada pela necessidade de procurar viver cada vez melhor, ou seja, de obter conforto e bem-estar. Desta forma há uma busca incessante de recursos tecnológicos que venham a proporcionar a satisfação destas necessidades.

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nas mãos de poucos. Isto se modificou a partir da Revolução Industrial, no século XVIII, quando os modos de produção exigiram uma radical transformação na concepção do processo de ensino-aprendizagem, que deixou de ser centrado no homem, e a adaptação à máquina passou a ser fundamental.

As corporações de artes e ofícios, a partir do ano 1000, tentaram conciliar a escola com o trabalho, porém de forma bastante rudimentar. Com a Era Moderna, a escola passou a ser vista como uma instância de integração entre teoria e prática e, a partir do século XVIII, desapareceram as corporações, numa sociedade em busca de profissionais aptos a atuarem numa indústria que não mais valorizava o conhecimento do processo produtivo como um todo, mas a sua adequação à divisão do trabalho, que estava na origem da especialização.

Ao final do século XIX e início do XX, a separação entre escola e trabalho tornou-se uma situação problema que levou vários estudiosos, entre eles Dewey, Vigotsky, e outros a proporem uma reaproximação do jovem com a realidade da indústria, não sendo retomados modelos ultrapassados. As revoluções dos anos 60, do século XX, foram marcadas pela manifestação dos jovens contra os modelos escolares tradicionais e proporcionaram algumas mudanças no processo educacional. Um outro traço diferenciador está no toyotismo2 que determinou o conceito de instrução baseado no conhecimento amplo do processo produtivo, abandonando a especialização defendida pelo taylorismo e estabelecendo uma nova trajetória para as instituições de ensino.

2.2.2. Das Civilizações Antigas ao Século XVII

No início da história da humanidade no Antigo Egito, Grécia ou Roma, poucos registros dão conta da forma exata como se dava a transmissão do conhecimento, mas revelam que para a

2 O toyotismo, ou modelo de produção enxuta (

lean production), apóia-se em algumas técnicas de trabalho, como: o

controle estatístico do processo, o sistema de estocagem just in time, o melhoramento contínuo (kaizen) e o princípio

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classe dominante havia uma educação formal, visando a preparação para o comandar, enquanto que para os dominados restava o trabalho e a transmissão dos ofícios de pai para filho.

As guerras envolvendo os Impérios do Ocidente e os do Oriente determinaram grandes mudanças na sociedade, especialmente às relativas à formação cultural do povo, modificando as relações da formação para o trabalho. A partir do início do século VI teve-se o gradual desaparecimento da escola clássica e a formação de uma escola cristã, oriunda da autoridade da Igreja, tanto na cidade como no campo.

A partir da Baixa Idade Média, mais especificamente nos séculos posteriores ao ano 1000, surgiram as corporações de artes e ofícios, atendendo ao desenvolvimento de uma burguesia urbana. Este desenvolvimento exigiu “uma formação que pode parecer mais próxima da escolar, embora continue a se distinguir da escola pelo fato de não se realizar em um ‘lugar destinado a adolescentes’, mas no trabalho, pela convivência de adultos e adolescentes” (MANACORDA, 2000, p.161).

Foi no século XI que as corporações de ofício apareceram no processo de desenvolvimento urbano. Com a expansão e consolidação da atividade, houve uma organização das entidades e foram elaborados estatutos que regulavam as relações das corporações com o poder público e com o mercado, e também as relações entre os próprios trabalhadores [mestres, aprendizes ou assalariados], quanto ao número e à idade dos aprendizes, a duração da aprendizagem, o pagamento pelo aprendizado, e da “obra prima”, uma espécie da prova final prática, pela qual o aprendiz era recebido entre os mestres e podia exercer seu ofício autonomamente.

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Entre 1200 e 1400, com o aparecimento dos mestres livres3, surgiu a preparação profissional para as artes do fazer produtivo, isto significou que “a preparação escolástica é feita em vista da profissão: a gramática ou as letras de que se fala não são mais aquelas da Ars dictandi, e sim a correspondência comercial; como também o ábaco ou rationes [...] são exatamente a aritmética comercial, a contabilidade” (MANACORDA, 2000, p.170-171). A partir da constatação de que o aluno era obrigado a aprender muitas coisas, das quais poucas poderiam efetivamente contribuir para a sua vida profissional, teve início o ensino da teoria voltado à prática.

A educação nos anos entre 1500 e 1600 sofreu forte influência do movimento da Reforma, na medida em que Lutero4 dirigia-se aos pais para que mandassem seus filhos à escola,

pelo menos parte do dia, o tempo restante poderia continuar a ser empregado no trabalho em ofícios de tradição familiar, geralmente ensinado de pai para filho. “É interessante como ele [Lutero] tenta conciliar o respeito pelo trabalho manual produtivo com o tradicional prestígio do trabalho intelectual” (MANACORDA, 2000, p.197), mesmo sem saber, promoveu uma maior conscientização e politização da população, além do desenvolvimento da sua capacidade produtiva, pois o acesso à gramática e à aritmética passou a dividir espaço com a poesia, a oratória e a capacidade de interpretar, permitindo a construção de uma base para a cultura popular.

Manacorda apresenta na Inglaterra revolucionária dos anos de 1600, três estudiosos (Duri, Petty e Woodward) que se dedicaram à reforma e modernização das escolas, com o projeto de um Gymnasium mechanicum e de escolas profissionais, nas quais todos teriam a

3 Os mestres livres surgiram com o nascimento do mundo moderno, caracterizado por uma nova sociedade de mercadores e artesãos, vivendo em cidades, e tendo como expressão cultural as literaturas em vulgar. Os mestres livres foram os protagonistas das novas literaturas, da nova cultura e dos novos modos de instrução, antes a cargo dos clérigos.

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oportunidade de aprender um ofício, ao mesmo tempo em que receberiam uma formação cultural semelhante à das classes privilegiadas.

Seguindo uma linha diferenciada, Locke5 propôs a criação de escolas de trabalho (Workhouse-schools) que preparavam as crianças para as atividades da indústria têxtil, além de doutriná-las na religião oficial.

2.2.3. Séculos XVIII e XIX: A Primeira Fase da Era Contemporânea

A redação da Enciclopédia das ciências das artes e dos ofícios [1751 a 1765], por Diderot6, provocou uma virada na história da cultura e da organização dos processos de trabalho. O autor fez considerações acerca da importância de se relacionar o conhecimento dos artesãos às artes liberais, ou unir a geometria intelectual à experimental. A partir de então, engendraram-se as novas relações entre cultura e trabalho.

Em dezembro de 1774, a imperatriz Maria Teresa da Áustria aprovou um projeto geral de reforma da instrução, no qual encontrava um quadro organizativo da educação estatal, dividindo em níveis de ensino, semelhantes aos existentes hoje:

• com a Trivial ou deutsche Schule – dos 6 aos 10-12 anos;

• as Hauptschulen- entre elas as Normalschulen – para preparação de professores; • os Gymnasien – que preparavam para as universidades;

• e a reorganização das próprias Universidades.

Além disso, no mesmo período e no mesmo país, foram implantadas escolas especiais de vários tipos, das quais algumas eram de formação profissionalizante, como a escola de desenho manufatureiro para a indústria têxtil (1758) e a escola de comércio (1770).

5 A idéia de John Locke (1632-1704) era fornecer uma mão-de-obra menos rude, não apresentando nenhum caráter humanista nessa sua proposta. A indústria têxtil de lã era a base econômica fundamental da Inglaterra neste período e, conseqüentemente, o maior empregador de mão-de-obra.

6Denis Diderot (1713-1784), escritor e filósofo francês, notabilizou-se por ter sido o organizador da

Enciclopédia,

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Ao final do século XVIII, as corporações de ofícios mecânicos foram se diluindo pelas exigências das manufaturas, agora ávidas de força de trabalho livre do seu controle, barata e fácil de se contratar e de se dispensar.

Um dos eventos mais significativos na nova conformação da sociedade, ou seja, do surgimento da classe operária e da consolidação do poder da burguesia e o conseqüente desaparecimento da aristocracia, além da mudança dos modos de produção e do ensino, foi a Revolução Industrial. A partir desta, passou a existir uma preocupação maior em relação à definição da formação profissional.

A escola tornou-se um espaço de múltiplas aprendizagens não mais apenas acessíveis à elite, mas também ao trabalhador da formação básica, passando pela técnica e possibilitando o acesso à universidade. Neste novo contexto de desenvolvimento científico e tecnológico, o acesso à escola proporcionou um lugar de maior destaque na sociedade, na medida em que o homem necessitava aprender sobre as várias ciências de tal modo que pudesse ascender econômica e socialmente.

7Além disso, o seu desenvolvimento técnico-profissional não ficava mais restrito ao ambiente de trabalho, como mero repetidor das instruções recebidas pelo chefe, mas percebia-se a eminente busca na obtenção de um conhecimento mais amplo da realidade que cerca o trabalhador. É isto que caracteriza a primeira fase da Era Contemporânea.

Fator definitivo na transformação do ensino foi a Revolução Industrial que no início restringiu-se à Inglaterra de 1760 a 1850, mas espalhou-se rapidamente pelo mundo, englobando outros países europeus, além das Américas e do Japão. Ao provocar grandes modificações não apenas nos modos de produção, através da mecanização, mas também no modo de vida do homem, tornaram-se perceptíveis às mudanças também nas condições e nas exigências da formação humana.

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Disto Manacorda (2000, p. 271) assinala que “os trabalhadores perdem sua antiga instrução e na fábrica só adquirem ignorância”, uma vez que deixa de ser relevante o domínio de todo o processo produtivo, para restringir a atuação do operário a partes específicas, de modo mecânico e repetitivo.

Com o advento da indústria, a partir do século XVIII, desapareceram as corporações de artes e ofícios, bem como a aprendizagem artesanal como única forma de instrução. Surgia a moderna instituição escolar pública; saía o aprendiz, que adquiria seu conhecimento na oficina do mestre, e entrava o sistema escolar. “Fábrica e escola nascem juntas: as leis que criam a escola de Estado vêm juntas com as leis que suprimem a aprendizagem corporativa” (MANACORDA, 2000, p. 249).

Na França, em 1794, alguns anos após a Revolução Francesa (1789), criou-se um Conservatório de Artes e Ofícios, com a dupla função de instituto de instrução e de museu da técnica. No mesmo ano, foi instituída a Escola Politécnica, que qualificava profissionais de alto nível para todas as especializações da engenharia. Estas iniciativas devem ser entendidas a partir do processo de politização, democratização e laicização da instrução, proposto pela Revolução Francesa e que visava uma instrução universal e uma reorganização do saber, advindas do surgimento da ciência e da indústria moderna. É desta forma que se deu o início do aprendizado profissional por meio do sistema escolar, visando a atender às necessidades do processo de desenvolvimento.

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assume proporções gigantescas e formas novas; tanto mais se o problema do método se entrelaça com o problema dos novos conteúdos da instrução ‘concreta’, que surgem com o próprio progresso das ciências e com sua relativa aplicação prática”.

Enquanto na Inglaterra, nação industrialmente mais evoluída, a partir de 1823 foram criados institutos de mecânica para instruir os operários nos princípios científicos da matemática e das manufaturas, no resto da Europa desaparecem gradativamente as corporações de artes e ofícios, abrindo caminho para as instituições escolares.

As primeiras manifestações que podem ser observadas em relação ao interesse da escola pela relação entre o progresso científico e tecnológico e o universo educacional fizeram-se presentes, visando transpor as barreiras entre o espaço escolar e a nova constituição social que surgia.

O socialismo marxista não contestava as conquistas da burguesia no campo da instrução: universalidade, laicidade, estatalidade, gratuidade, renovação cultural, ascensão da temática do trabalho, opunha-se apenas à incapacidade, ou mais propriamente à falta de interesse da burguesia de colocar em prática estes programas. Além disso, defendia uma concepção de união entre instrução-trabalho de modo a possibilitar uma formação total de todos os homens.

Marx87 em seu posicionamento referente à instrução profissional, a qual foi explicitada nas Instruções aos delegados do I Congresso da Internacional dos Trabalhadores, realizado em Genebra em 1866, manifesta seu entendimento de que a instrução intelectual seria primordial. Como segunda instância, referia-se à educação física e a terceira envolveria treinamento tecnológico, transmitindo os fundamentos científicos gerais de todos os processos de produção.

Admitia ainda a tendência da indústria em introduzir a criança e o adolescente no processo produtivo, desde que adequado às forças infantis, e para isso eles deveriam ser

7 Karl Marx (1818-1883), filósofo alemão, tinha em mente uma unidade diversa entre instrução e trabalho,

para todos, possibilitando um conhecimento da totalidade das ciências como também as capacidades práticas em todas as

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preparados no uso prático e na capacidade de manusear os instrumentos elementares de todos os ofícios.

É importante destacar que tal documento não se referia à instrução profissional, porém Marx deixava clara a sua intenção de ver homens total e omnilateralmente desenvolvidos, de modo que tivessem uma noção de todas as ciências e das práticas produtivas.

Esta visão inovadora que tirava do espaço profissional, ou seja, das antigas oficinas, o processo de aprendizagem e o colocava no âmbito escolar, além de possibilitar o acesso aos conhecimentos técnico-profissionais para um número maior de pessoas, ampliou os horizontes também no sentido de se ter uma visão menos bitolada da sociedade, das artes, das ciências, viabilizando, enfim, a formação do cidadão completo, conhecedor do universo que o cerca. “A relação educação-sociedade contém dois aspectos fundamentais na prática e na reflexão pedagógica moderna: o primeiro é a presença do trabalho no processo técnico-profissional, que agora tende para todos a realizar-se no lugar separado ‘escola’, em vez do aprendizado no trabalho, realizado junto aos adultos; o segundo é a descoberta da psicologia infantil com suas exigências ‘ativas’” (MANACORDA, 2000, p. 304-305).

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trabalho, e visam ao mesmo objetivo formativo, o homem capaz de produzir ativamente” (MANACORDA, 2000, p. 305).

Ainda no século XIX, a escola americana introduziu o “learning by doing”, de John Dewey98, ou seja, aprender fazendo, no qual os alunos eram treinados para encontrarem sozinhos as verdades e resolverem individualmente os problemas científicos.

2.2.4. Século XX: A Segunda Fase da Era Contemporânea

Durante o século XX, na Europa, foram constatados vários problemas em relação à inserção do jovem no mundo de trabalho, uma vez que, segundo Manacorda (2000), adulto e adolescente trabalhavam em dois lugares separados: a escola, lugar do adolescente separado do mundo do adulto, separa também o adolescente do trabalho, apesar do esforço feito para reintroduzir o trabalho no seu currículo. Surgia então a necessidade de se recuperar a relação dos adolescentes com o processo de produção, sem, no entanto, permitir um retrocesso ao antigo modelo do sistema artesanal, tanto no que se referia à parte produtiva, quanto à aprendizagem.

Foi retomada a teoria do aprender fazendo, idéia lançada no século XIX, na qual Dewey reafirmou seu ideal educativo em uma conferência realizada em 1932. Esta teoria foi colocada como o centro da unidade de instrução e trabalho, apresentando-se como a adequação dinâmica da escola à vida produtiva real, no sentido de que o indivíduo devia participar da mudança.

Também no âmbito da interação entre educação e trabalho, referindo-se à pesquisa psicológica e sua relação com a questão pedagógica, para Vygotsky109 “no indivíduo, as funções

8 John Dewey (1859-1952), máximo teórico da escola ativa e progressista, do

learning by doing. Considerado um

dos mais geniais observadores das relações entre educação e produção, entre educação e sociedade (Internet: http://www.centrorefeducacional.pro.br/dewey.html, em 06/02/2001).

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nascem nas relações interpsíquicas (entre os homens) e somente depois se tornam intrapsíquicas, internas ao indivíduo”.

“Esta concepção atribui necessariamente um papel essencial não somente à linguagem, mas também à educação e ao trabalho, isto é, ao uso dos instrumentos auxiliares materiais na educação” (MANACORDA, 2000, p. 325).

A criança é, antes de tudo, um ser social, pois desde o início de sua vida passa a conviver em grupo, utiliza signos lingüísticos comuns, que promovem modificações no seu comportamento. Mais tarde, ao ingressar na escola, ela inicia o processo de voltar-se para si mesma em busca de respostas para as coisas que a cercam.

Desta forma, pode-se ler que Vygotsky defendia uma inserção precoce, já nos tempos de escola, no mundo do trabalho, uma vez que este promovia modificações no comportamento, as quais também agiam sobre o ser humano. Nota-se então que novamente as relações sociais – interpsíquicas – têm um poder de influência maior, dificultando as relações intrapsíquicas, que possibilitam o estímulo ao seu desenvolvimento potencial.

Manacorda (2000) fez também referência ao desenvolvimento da pesquisa de Jean Piaget, desenvolvida na mesma época de Vygotsky. Piaget declarava-se construtivista1110 e analisando-se a teoria construtivista pode-se considerar a possibilidade de ampliação da mesma para o universo do trabalho, ao se observar que é na interação do homem, visto como sujeito, com a realidade, ou seja, na prática diária das atividades profissionais que se dá à apreensão dos conceitos transmitidos na escola.

efetivadas, e o outro, o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes.

10

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Em suas reflexões Antonio Gramsci1211 fez uma análise da crise da organização escolar, considerando importante à construção de um novo princípio educativo que partisse da relação entre desenvolvimento científico-técnico e a escola, concluindo com uma volta ao desenvolvimento social. No trecho a seguir, é possível observar o caminho que Gramsci traçou para a escola: “... Hoje a tendência é abolir toda escola ‘desinteressada’ - aquela destinada a quem não precisa preocupar-se com o futuro profissional - e difundir sempre mais as escolas profissionais especializadas, em que o destino do aluno e a sua futura atividade são determinados desde o início” (in MANACORDA, 2000, p. 333).

Este trajeto era justificado pelo “advento da escola unitária1312 , que significa o início de novas relações entre trabalho intelectual e trabalho individual não somente na escola, mas em toda vida social. O princípio unitário se refletirá, portanto, em todos os organismos de cultura, transformando-os e dando-lhes um novo conteúdo” (MANACORDA, 2000, p. 333).

Gramsci foi apresentado por Manacorda (2000) como um indagador crítico dos aspectos culturais na história do desenvolvimento social, relacionando o fato educativo não apenas às questões políticas, mas especialmente à produção e ao trabalho, ou, conforme Gramsci, ao industrialismo, pela exigência rigorosa de conhecimentos científicos-técnicos e de comportamento no trabalho e na vida.

A segunda metade do século ficou marcada pelo progresso tecnológico e pela tomada de consciência da desigualdade na relação educativa, como parte mais ampla da desigualdade e opressão social.

No final dos anos 60 do século XX, houve a eclosão das manifestações juvenis e estudantis em vários países, fazendo diversas críticas aos professores, à rotina escolar e ao

11 Antonio Gramsci (1891-1937), político e pensador marxista italiano. Na sua obra

Cadernos do cárcere faz uma

análise da crise da organização escolar e apresenta sua pesquisa de um novo princípio educativo, tendo como base Marx e as contradições da experiência soviética, partindo da relação entre desenvolvimento científico-técnico e a escola e levando à conclusão com a volta ao desenvolvimento social.

12 A idéia de escola unitária, defendida por Gramsci, tinha a intenção de implantar uma escola única de cultura geral, formativa, que equilibrasse o desenvolvimento tanto da capacidade intelectual como da manual. Essa escola

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descuido em relação à realidade vivencial dos alunos e seus problemas, que nada mais eram do que um reflexo das diferenças sociais existentes. Paralelamente a esta revolta, houve a dos operários que apresentou contribuições mais significativas no campo educacional, tal é o caso da Itália, que se centrava sobre a figura do trabalhador-estudante e, em seguida, do estudante-trabalhador, que estudava não para melhorar seu trabalho, mas para fugir da condição operária.

Como resultado deste processo complexo, o operário continuava operário, porém, homem culto, contemporâneo de sua época. “Talvez o aspecto mais característico e novo seja a procura de uma adequação do sistema de instrução aos modelos da terceira revolução industrial: uma industrialização in progresso da instrução. [...] tentativas de uma instrução programada [...] com métodos de trabalho educativo à altura [...] aplicado não tanto no ato individual de ensinar-aprender [...] quanto na prefiguração ou programação do processo de ensino-aprendizagem e na previsão de seus resultados” (MANACORDA, 2000, p. 351).

Entre os anos 70 e 80 do século XX, consolidou-se o toyotismo. Este modelo de organização do processo produtivo das empresas influenciava no aspecto da qualificação profissional, uma vez que havia uma tendência para a qualificação geral, na medida em que se percebia uma tentativa de fortalecer a formação básica (ensinos fundamental e médio). Esta possibilitaria uma capacidade de adaptação do trabalhador às difíceis condições do mercado, estimulando-o a analisar, pensar e planejar criativamente, assim como a adquirir capacidade sócio-comunicativa. No caso da formação específica do trabalhador, não havia um único modo, apenas um ponto norteador que seria a abrangência e polivalência do conjunto de disciplinas, as quais estariam em torno de conhecimentos tecno-mecânicos, de transformações físico-químicas, de processos tecno-produtivos e de sistemas mecânicos automatizados. O que é certo, porém é que este novo modelo defendia a necessidade de uma constante requalificação e uma formação continuada.

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não era de fácil e nem de rápida preparação, implicando numa dificuldade crescente para a colocação do jovem aprendiz ou do estagiário nas empresas. Afinal, a escola estava habilitada a fornecer os subsídios teóricos, os conteúdos gerais, porém a vivência e a prática para este estar pronto para o trabalho não se obtinham na instituição de ensino.

No último quarto do século XX, evidenciou-se uma preocupação por parte de diversos países, do primeiro ao terceiro mundo, em encontrar caminhos educacionais eficientes e eficazes na preparação do homem tanto para atuar profissionalmente quanto para viver integrado e ser capaz de interagir na sociedade.

A inserção do conceito de cidadão, conforme Ferreira (1999, p.469) “Indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado, ou no desempenho de seus deveres para com este”, trouxe para o ambiente escolar esta valorização do indivíduo consciente e atuante na sociedade, participante ativo e produtivo na transformação da realidade que o cerca. Pautado na quebra ou na suavização das desigualdades, o conceito veio a contribuir para o desenvolvimento de um indivíduo que, preocupado com o outro, age pró-ativamente no meio em que está inserido e, atualmente, esta postura tornou-se mesmo exigência na qualificação profissional. Essa exigência se dá pelo fato de que o indivíduo que abraça semelhante atitude demonstra preparo em nível pessoal e sugere certa carga de liderança e empreendedorismo, vistos como qualidades essenciais ao profissional contemporâneo.

2.3. A Relação entre Educação e Trabalho

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2.3.1. A Produção do Saber

Onde e como é produzido o saber é um questionamento recorrente cada vez que se discute as relações envolvendo educação e trabalho ou a relação entre escola e trabalho no processo de produção e reprodução do conhecimento. “O saber não é produzido na escola, mas no interior das relações sociais em seu conjunto; é uma produção coletiva dos homens em sua vida real, enquanto produzem as condições necessárias a sua existência através das relações que estabelecem com a natureza, com os outros homens e consigo mesmos” (KUENZER, 1997, p. 26).

O ponto de partida para a produção do conhecimento, portanto, são os homens em sua atividade prática, ou seja, em seu trabalho, compreendido como todas as formas de atividade humana através das quais o homem aprende, compreende e transforma as circunstâncias, ao mesmo tempo em que é transformado por elas. Desta forma “o trabalho é a categoria que se constitui no fundamento do processo de elaboração do conhecimento” (MARX & ENGELS, 1978, p.24-7).

É sabido, porém, que a classe dominante detém o “controle” sobre o saber à medida que restringe as possibilidades de acesso ou de efetivo aproveitamento do processo educativo vigente. A escola, então, serviria de instrumento para a perpetuação de ideologias unilaterais, como acentua Kuenzer (1977, p. 27): “...Assim, mesmo existindo nas relações sociais, o saber é elaborado pela classe dominante, passando a assumir o ponto de vista de uma classe social, que o utiliza a seu favor. O saber socialmente produzido transformado em teoria passa a ter um lugar próprio para se distribuir: a escola”.

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desenvolvimento capitalista, com suas necessidades de especialização, acaba por inviabilizar a construção da ciência oficial enquanto totalidade, à medida que força a automatização e a fragmentação no processo de construção do conhecimento, o que faz com que a ‘teoria’ se imobilize, se descole do movimento real e se sobreponha à sua dinamicidade”.

Nesse contexto, ressurge a característica já exposta, em que há uma revalorização do trabalho, ou melhor, da educação pelo trabalho, pelo exercício de uma atividade. Segundo Vasquez (1968, p.153) a escola e a empresa participam do e no processo de distribuição do conhecimento, e “... retomando o conceito de trabalho em geral, verifica-se que a característica diferenciadora do trabalho humano é sua possibilidade transformadora e dinâmica; o homem é o único ser da natureza capaz de conceber a sua ação anteriormente a execução e de avaliá-la a partir de fins determinados. Assim, o trabalho se apresenta como o momento de articulação entre a subjetividade e a objetivação, entre a consciência e o mundo da produção, entre a superestrutura e infra-estrutura, compreendidos como pólos da relação dialética que define o objeto como produto da atividade subjetiva articulada à atividade real, material”

Como coloca Vasquez, não existe atividade humana da qual se possa excluir a atividade intelectual, assim como toda atividade intelectual exige algum tipo de esforço físico ou atividade instrumental. O que observamos no dia-a-dia é um grupo reduzido de pessoas exercendo funções intelectuais, justificados pela capacidade e competência que permitem a escolaridade mais extensa, escamoteando-se o caráter de classe da referida divisão. Já à maioria da população compete o exercício das tarefas de execução, para o que não se exige muita instrução e experiência, sob a alegação, fornecida pela escola e já incorporada no discurso do trabalhador, da sua suposta incapacidade de aprender.

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As pesquisas mais recentes têm demonstrado que a “qualificação” não se esgota na certificação pela freqüência a determinado curso, seja do sistema regular de ensino ou de formação profissional específica. O que trabalhador e empresário entendem por qualificação “é a capacidade técnica de fazer, aliada à posse do saber teórico”, ou seja, a capacidade de resolver problemas na prática, a partir do conhecimento da teoria.

No Brasil, com raras exceções, as propostas pedagógicas têm oscilado entre o academicismo vazio, que não dá conta de democratizar sequer os princípios elementares da ciência contemporânea, e a profissionalização estreita, que se atém, quando muito, a ensinar a execução de algumas operações sem que haja a preocupação de ensinar os princípios teóricos e metodológicos que as sustentam.

2.3.2. Teoria para Melhorar a Execução

Ao considerar-se o caráter desqualificador de pedagogia de fábrica, que é a própria pedagogia capitalista, a escola aparece como a única alternativa dos trabalhadores para a apropriação dos instrumentos básicos da ciência e dos princípios teóricos e metodológicos socialmente construídos, apesar de todas as limitações.

A escola e os cursos profissionalizantes que aí estão, com raras exceções, no momento estão longe de apresentarem competência para atender essas reivindicações em função de seu caráter excludente, da inadequação das suas formas de organização e de suas propostas curriculares, completamente desvinculadas do mundo do trabalho e das características do trabalhador.

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