Tamiris Carvalho OS GRUPOS DE ONZE: ENTRE A ORDEM E A DESORDEM

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Tamiris Carvalho

OS GRUPOS DE ONZE: ENTRE A ORDEM E A DESORDEM

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Tamiris Carvalho

OS GRUPOS DE ONZE: ENTRE A ORDEM E A DESORDEM

Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História – Área das Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado em História.

Orientador: Prof. Dr. Carlos Roberto da Rosa Rangel

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Tamiris Carvalho

OS GRUPOS DE ONZE: ENTRE A ORDEM E A DESORDEM

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área das Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado em História.

____________________________________________________ Prof. Dr. Carlos Roberto da Rosa Rangel – Orientador (UNIFRA)

____________________________________________________ Prof. Ms. Roselâine Casanova Corrêa (UNIFRA)

___________________________________________________ Prof. Ms. Alexandre Maccari Ferreira (UNIFRA)

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AGRADECIMENTOS

É chegado o momento final. Este instante foi muito esperado, pois se passaram quatro anos de estudo e dedicação e é nesta ocasião que unimos todas as nossas forças para que tudo ocorra da melhor maneira, pois este trabalho exige tudo de nós. Finalmente, está pronto e muitas pessoas contribuíram para que esta proposta investigativa chegasse ao seu final.

Primeiramente agradeço aos meus pais, que, durante estes quatro anos, sempre compreenderam a minha ausência nos finais de semana, nos feriados e inúmeras datas. Aos demais familiares, agradeço pelas palavras de carinho e compreensão, principalmente a Taís, que, muitas vezes, me consolou e ajudou na formatação deste trabalho.

Aos professores do Curso de História da Unifra, por ensinarem muito mais do que História, pelo apoio e ajuda durante este período. Especialmente, a professora Rose Corrêa, pois muito me escutou e confortou, quando tudo parecia perdido, foi como uma mãe que acolhe e ensina ao filho o melhor caminho a seguir. Um simples agradecimento é pouco para expressar o quanto fizeste por mim.

Ao professor e orientador deste trabalho, Prof. Dr. Carlos Roberto da Rosa Rangel, que aceitou este desafio de me orientar nas últimas horas, mas foi uma parceria que deu certo, obrigada pela compreensão e paciência durante estes meses.

Aos meus colegas, pelos momentos de convivência e crescimento, especialmente ao Dilson e a Daniela, que juntos, construímos ao longo desses quatros anos, uma amizade muito forte e verdadeira, formando o trio inseparável. Agradeço pelo carinho e compreensão em todos os momentos.

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RESUMO

A presente pesquisa sobre os grupos de onze, compreende o período que antecede os preparativos golpistas, desenvolvidos entre o segundo semestre de 1963 e os primeiros meses de 1964. Nesta monografia, procuramos compreender o efeito de sentido que a possível existência desses grupos gerava nas pessoas entrevistadas, testemunhas daquele contexto histórico. Para essa pesquisa, utilizamos fontes orais, contrastadas com as fontes historiográficas e demais obras da bibliografia. A abordagem histórica e antropológica deu ênfase aos conceitos de ordem e desordem de George Balandier. Inicialmente, a ordem estabelecida entre 1945 e 1961 passou por uma crise que levou ao desordenamento institucional. Desse embate de diferentes compreensões de ordem e desordem social/política as fontes orais apontam para o surgimento de um repertório de símbolos e representações, que identificam os grupos de onze e suas motivações, criando diferentes situações que poderiam acelerar ou retardar o conflito que se avizinhava (o golpe militar de 1964).

Palavras-chave: grupos de onze; ordem; desordem.

ABSTRACT

This research about the groups of eleven includes the period before the coup preparations developed between the second half of 1963 and the first months of 1964. In this monograph, our proposal was to understand the effect of meaning that the possible existence of these groups generated in the interviewed people, witnesses of that historical context. For this research we used oral sources, contrasted with the historiographical ones and other works of literature. The historical and anthropological approach emphasized the concepts of order and disorder of George Balandier. Initially, the order established between 1945 and 1961 went through a crisis that led to institutional disorganization. This clash of different understandings of social / political order and disorder, the oral sources point to the appearing of a repertoire of symbols and representations that identify the “groups of eleven” and their motivations, creating different situations that could accelerate or delay the conflict that was alarming (the

military coup of 1964).

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LISTA DE SIGLAS

Amforp – American and Foreig Company ITT – Internacional Telephone and Telegraph PCB – Partido Comunista Brasileiro

PL – Partido Liberal

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 08

REFERENCIAL TEÓRICO ... 10

I. A INSTAURAÇÃO DA DESORDEM OU O

RETORNO Á ORDEM? (1961 – 1963) ...16 (1961 – 1963)

II. OS GRUPOS DE ONZE: DA DESORDEM PARA O RETORNO À ORDEM ... 22

CONSIDERAÇÕES FINAIS ...35

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INTRODUÇÃO

Muito se comenta sobre a existência dos grupos de onze, mas não se sabe ao certo se esses, realmente existiram. Entretanto, há muitas incertezas sobre esse movimento e é a partir delas que procuramos, nesta monografia, responder algumas perguntas centrais como: o que eram esses grupos de onze? Qual a sua origem? Quais eram seus objetivos? A partir desses questionamentos iniciais, partiu-se para a pergunta central, que trata do efeito sobre a imaginação das pessoas, naquele período histórico, sobre a possível existência de uma organização clandestina de grande vulto, que se oporia aos preparativos golpistas, desenvolvidos entre o segundo semestre de 1963 e os primeiros meses de 1964.

Parte dessas questões foram trabalhadas por Claudio Braun, que se deteve na região de Carazinho, cidade natal de Brizola. A respeito dos questionamentos mais frequentes acerca dos grupos de onze, Braun nos diz que: “[...] estas são perguntas para as quais existem respostas diversas, pois, para uns, eram apenas grupos políticos que debatiam os problemas da época, como as reformas de base; mas, para outros, eram grupos subversivos e armados" (2006,p.92).

Assim como Braun, existem outros autores que enfatizam a existência dos grupos de onze como: Carlos Fico (2004), Marli Baldissera (2003) e Elenice Szatkoski (2003), e suas conclusões nos darão suporte historiográfico ao longo deste trabalho. Essa base é fundamental, pois nosso objetivo é estudar a reminiscência de cada indivíduo entrevistado, destacando o que lembra sobre os grupos de onze. Nessa perspectiva, buscou-se detalhar o entendimento sobre os grupos, enquanto atores políticos no processo de ordenamento e desordenamento sociopolítico na década de 1960, ou seja, mais do que a existência real dos grupos, buscou-se compreender os efeitos de sentido que sua possível existência causou na memória dos indivíduos entrevistados.

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Dentro desse referencial teórico, cruzaram-se as fontes orais com as obras historiográficas, com o propósito de desconstruir a memória coletiva “enquadrada” pelas versões da História, destacando que a subjetividade inerente a toda reminiscência pode ser objeto de estudo e compreensão de um contexto histórico. Para esse intento, utilizaram-se os conceitos de George Balandier, os quais serão mais bem detalhados no próximo tópico.

No primeiro capítulo denominado A instauração da desordem ou o retorno à ordem? (1961-1963), buscou-se fazer uma retrospectiva sobre a formação e estruturação dos principais partidos políticos entre 1945 e 1964, enfatizando a Campanha da Legalidade e todo o cenário que se formou em torno desse movimento. Serão relatados, através de nossos entrevistados, os momentos culminantes que antecederam ao golpe, bem como o sentimento pelos quais esses foram tomados.

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REFERENCIAL TEÓRICO

Nas tendências historiográficas contemporâneas, os historiadores questionam paradigmas referentes ao papel do Estado, ao sentido dos conceitos como Pátria, Nação e identidade nacional, assim como o significado do político, enquanto dimensão que afeta o cotidiano. Desta forma, ao destacar o cotidiano e as relações sociais, mais que narrar o passado, o historiador considera-se como agente modificador da sociedade, alimentando as discussões sobre as diferentes manifestações coletivas no campo político.

Além disso, a racionalidade deixou de ser eixo explicativo das ações humanas, o que levou os historiadores a romperem com os paradigmas de cientificidade com base em uma racionalidade, puramente objetiva, em crise desde o final do século XIX. Todas essas transformações possibilitaram uma renovada história política, desde o abandono da história tradicional pelos Annales, em 1929, até a retomada do interesse pelo político na terceira fase dessa corrente, nos anos 1970, quando houve um “alargamento do seu campo de ação onde temas, objetos e abordagens modificaram-se, redefinindo o papel do político na história” (FÈLIX, 1998, p.55).

Foi graças aos autores franceses, como René Remond (1994) e Jacques Julliad, (1974), que se abriu a possibilidade do alargamento do campo da história devido à interdisciplinaridade, pois utilizou-se de outras áreas do conhecimento para se ter uma melhor compreensão da mesma. Ampliou-se o entendimento do político que pôde ser compreendido como o comportamento dos cidadãos responsáveis por seus rumos e a história do político recebeu influências da psicologia social, da ciência política, da linguística e da filosofia, sendo que o casamento da mesma com a antropologia trouxe à luz uma história dos costumes. Como se percebe, houve uma mudança na forma de pensar história, com novos objetos de estudo, que não apenas os fatos políticos tradicionais ligados ao Estado, brindando-lhes um olhar diferenciado.

No Brasil, essa história constituída por acontecimentos associados aos grandes líderes e às questões do Estado, marcada pela linearidade e pelos critérios positivistas, marcou boa parte da historiografia até a década de 1960. Esse quadro mudou com a incorporação das críticas advindas dos Annales, dos marxistas e também dos estruturalistas.

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excessivamente ligada às questões nacionais, e propunham que o centro da explicação histórica fosse à luta de classes, tendo como origem o econômico. Essa abordagem, embora tenha tornado o “entendimento mais complexo dos fenômenos sociais, acabou gerando uma compreensão mecanicista, totalizante e sistemática das relações sociais” (FÈLIX, 1998, p.55).

Já os estruturalistas diziam que “o fundamental era o estudo das estruturas: o importante não é aquilo que é manifesto, aquilo que se vê, mas o que está por detrás do manifesto” (FÈLIX, 1998, p. 56). Jacques Julliard, em 1974, foi um dos primeiros historiadores a pedir a reversão desse quadro e apontou os vícios e defeitos de que era acusada a história política.

A história política é psicológica e ignora condicionamentos: é elitista, biográfica mesmo, e ignora a sociedade global e as massas que a compõem; é qualitativa e ignora o serial; visa o particular e ignora a comparação; é narrativa e ignora a análise; é materialista e ignora o material; é ideológica e não tem disso consciência; é parcial e não sabe o que é; atém-se ao consciente e ignora o inconsciente; é pontual e ignora o longo prazo; numa palavra, porque esta palavra resume tudo na gíria dos historiadores é factual. Em suma, a história política confunde-se com a visão ingênua das coisas, visão que atribui a causa dos fenômenos ao seu agente mais evidente, mais elevado na escala, e que avalia a sua importância real de acordo com a repercussão na consciência imediata do espectador. ( JULLIARD, 1976, p.57)

Na década de 1980, começou uma gradativa mudança, devido ao abandono da história tradicional em favor de uma compreensão mais dinâmica do político na história. Segundo Emília Viotti da Costa (1994, p. 24).

[...] a historiografia contemporânea focalizou os rituais, a linguagem, as formas cotidianas de resistência e de lazer. A nova historiografia repudiou também as abordagens teleológicas que assumiam que a história caminhava de forma unilinear para o socialismo e que viam em cada momento histórico uma nova etapa nessa direção. O foco de atenção deslocou-se do movimento operário, dos partidos políticos e dos sindicatos, para os trabalhadores; da fábrica para a casa e a rua; do operário para a família operária; do trabalho para as atividades recreativas e para a cultura.

É possível perceber, neste breve discurso, que houve uma mudança no objeto de estudo e também na metodologia de abordagem historiográfica. Essa mudança conduziu para a história do imaginário político, que até então não possuía um claro referencial teórico.

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um mundo civilizado e que possui como característica central o equilíbrio e a estabilidade relativa, a desordem se torna negativa, pois cria um mundo ao contrário” (BALANDIER, 1997, p.121). Entretanto, a ordem transformada em desordem, nem sempre levará a sociedade à ruína, pelo contrário, poderá formar um novo aspecto de ordenamento social, no qual as partes em conflito encontram seus termos de negociação. Segundo Balandier (1997, p. 121):

Faz-se então a ordem com a desordem, o sacrifício faz a vida com a morte, e a lei com a violência domesticada pela operação simbólica. Todas as sociedades reservam um lugar para a desordem, mesmo temendo-a. Na medida que é irredutível, e mais que isso, necessária, a única saída é transformá-la em instrumento de um trabalho com efeitos positivos, de utilizá-la no sentido de sua própria e parcial neutralização, ou de converte-la em fator de ordem.

Essa descrição serve para compreendermos o golpe civil - militar no Brasil no período de (1961-1964). Primeiro, os discursos das forças conservadoras, representadas especialmente pelos militares, identificaram uma ameaça de desordem social que seria provocada pela mobilização realizada pelo governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, no sentido de manter a previsão constitucional de substituição do Presidente pelo Vice, João Goulart, em virtude da renúncia do primeiro, Jânio Quadros.

Portanto, o conceito de ordem para essas forças conservadoras estava relacionado com o seu avesso, ou seja, com a participação política direta da população em passeatas e paralisações trabalhistas, assim como na desarticulação de uma das colunas básicas da instituição militar que é a disciplina – considerando que parte da oficialidade e setores subalternos das forças armadas colocaram-se a favor da manutenção da ordem constitucional.

Para Balandier, existem três formas de gestão da desordem, como podemos observar abaixo:

As duas primeiras obedecem a uma periodicidade; a última é excepcional, só aparece nos momentos de crises graves. A primeira provoca a irrupção da desordem a fim de levá-la a fecundar a ordem; a segunda tem o propósito de ridicularizar a desordem transformando-a em ordem; a terceira, enfim, a converte-se, por meio da operação sacrifical, em gerador de fortalecimento da ordem (1997, p. 124).

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na Campanha da Legalidade seria, para os setores militares e civis contrários a João Goulart, pois o nascimento da desordem social precisava ser evitado ou superado pela violência política. Então, a desordem institucional provocada pela interferência de planos golpistas contra o Estado de Direito mostrava-se, de fato, como um esforço de retorno a uma ordem social previsível e pacífica, ameaçada pelas mobilizações de Jango e de seus aliados.

Posteriormente à vitória dos legalistas, a campanha publicitária e a orquestração de alguns meios de comunicação de massa contra as medidas do governo federal – sobretudo contra as reformas de base – tinham o propósito de expor os supostos defensores da ordem constitucional à contradição de estarem, na verdade, promovendo a “desordem social no país” em benefício do comunismo.

Finalmente, nos momentos excepcionais e diante da grave crise política do segundo semestre de 1963 e primeiros meses de 1964, justamente quando ocorreu à convocatória dos grupos de onze por Leonel Brizola, desencadeou-se a terceira e última fase da inversão que será o tópico central de discussão dessa monografia: em situação de sacrifício da ordem republicana democrática, adotavam-se medidas de exceção para defender a democracia em risco, aprofundando as medidas repressivas contra uma ameaça maior. De outra parte, mobilizavam-se as pessoas para o esforço revolucionário em defesa da mesma democracia em risco.

Dentro desse faseamento metodológico, o Rio Grande do Sul foi o estado de maior mobilização para efetuar a posse de Jango, mas logo se percebeu que a força gaúcha era insuficiente para garantir a posse e era necessário mobilizar o restante do país. Conforme Ferreira: “era preciso, por amplos meios de comunicação, disseminar idéias, imagens e representações que atingissem a dignidade das pessoas, mobilizando-as e incitando-mobilizando-as mobilizando-as ações e atitudes de rebeldia em grande escala” (2005, p.286).

Brizola, com seus discursos inflamados chamava a população para que reagisse e defendesse a posse de João Goulart. Era considerado um dos personagens centrais nos episódios da crise de 1961, na qual, tornou-se uma personalidade emblemática. Ao fazer sua escolha contra os poderosos, a sua imagem foi a do grande líder. Seguindo Ferreira:

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Dos quatros modelos sugeridos por Ferreira, Brizola apresentava-se como o “arquétipo do profeta”, o Moisés, anunciador dos tempos por vir, de tal maneira que ele poderia ler na história aquilo que os outros ainda não viam. Seguindo Ferreira “ele próprio conduzido por uma espécie de impulso sagrado, guia seu povo pelos caminhos do futuro” (FERREIRA, 2005, p.294). Com toda essa situação de desordem:

Difundiram-se imagens que contrapunham o cosmos, um mundo inteligível e organizado – ‘o nosso mundo’ – ao caos, um lugar exterior, desconhecido e indeterminado, uma espécie de ‘outro mundo’ confuso e destituído de sentido. O Rio Grande do Sul era representado, sobretudo como o ‘verdadeiro mundo’, porque surgia como um cosmos que se queria organizado. (FERREIRA, 2005, p.301).

Conforme Mircea Elíade “todo microcosmo, toda região habitada, tem o que poderíamos chamar um ‘centro’, ou seja, um lugar sagrado por excelência”. Percebemos que o Rio Grande do Sul tornou-se um local sagrado e a Praça da Matriz no centro de Porto Alegre o ponto fixo, ou seja, “o ponto central a partir do qual o cosmo se estruturava e se contrapunha ao caos” (Mircea Eliade apud FERREIRA, 2005, p.301).

Percebemos que os historiadores brasileiros contemporâneos como Jorge Ferreira, utilizam fartamente o referencial teórico da antropologia, para perceber novas perspectivas da História Política. Nesta monografia, adota-se uma abordagem semelhante, utilizando-se a teoria de George Balandier sobre a articulação cultural de “ordem” e “desordem”, dos dois grandes grupos em conflito: de um lado Jango e Brizola com seus seguidores e militantes e, de outro, os militares e a elite civil que organizou o golpe de 1964. Para tratar essas duas categorias (ordem e desordem) nesse contexto histórico, tomou-se como objeto de estudo os grupos de onze, procurando destacar o efeito de sentido criado em torno deles como elementos que garantiriam a ordem constitucional ou àqueles que conduziriam a sociedade à guerra civil.

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I. A INSTAURAÇÃO DA DESORDEM OU O RETORNO À ORDEM ?(1961-1963)

O período compreendido entre 1945 e 1961 foi o de amadurecimento e consolidação das instituições democráticas brasileiras, no qual os partidos políticos e a prática do voto expressavam a participação política institucional. Era esse ordenamento político que entrou em crise e passou a correr perigo com os conflitos da primeira metade da década de 1960.

Para entendermos melhor essa estrutura e essa funcionalidade democrática ameaçada é necessário lembrar que os grandes partidos políticos surgiram no Brasil com o fim do Estado Novo. Inicialmente, estes partidos se estruturaram tendo “como principal elemento de divisão partidária o apoio ou oposição a Getúlio Vargas” (CARDOSO; FLACH, 2007, p. 59).

Vargas criou dois partidos, o Partido Social Democrático (PSD) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), duas correntes políticas que sustentaram seu governo. O primeiro partido estava direcionado para os setores ligados as interventoras estaduais, já

o segundo aos lideres sindicais e aos estudantes.

No Rio Grande do Sul, surgiram dois grandes blocos: um de apoio ao PTB e outro contrário a este. O PSD e PTB eram pró-Getúlio; a União Democrata Nacional (UDN) e o Partido Libertador (PL) anti-Getúlio; Partido Comunista Brasileiro (PCB) e o Partido de Representação Popular (PRP) tinham características mais ideológicas.

Em 1946, nascia o “PTB gaúcho”, que se transformou no maior partido regional, sendo este influenciado por três correntes: “a sindicalista, a doutrinária-pasqualinista e a pragmático-getulista” (CARDOSO; FLACH, 2007, p. 69). Mas em 1954, com a morte de Getúlio Vargas, o partido sofreu algumas modificações e, no ano seguinte, voltou ao cenário político como força destacada com João Goulart, o qual se elegeu vice-presidente da República e somente saiu de cena política em 1964, devido ao golpe militar.

Em 31 de janeiro de 1961, Jânio Quadros, da União Democrática Nacional (UDN) e João Goulart (Jango) do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) foram empossados como presidente e vice-presidente, respectivamente. Jânio, durante seu governo, que durou apenas 7 meses, adotou uma política externa independente, buscando manter relações comerciais e diplomáticas com os países socialistas.

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partido, o reatamento das relações entre o Brasil e a China. A evidência dessa postura foi o fato de que, quando Jânio renunciou, Jango encontrava-se em Cingapura, sudeste da Ásia, último ponto da viagem oficial à União Soviética e à China.

No dia 28 de agosto de 1961, após a renúncia de Jânio Quadros, Jango começava uma longa viagem de retorno ao Brasil. Em uma de suas escalas, em Paris, Jango soube da posição dos militares que almejavam instituir o parlamentarismo. Em primeiro de setembro, Jango chegou ao Brasil impelido a governar com poderes limitados.

Enquanto Jango buscava alternativas para permanecer no poder, seu cunhado Brizola agia como um líder situacionista, tentando manter o presidente no exercício do cargo e defender a ordem constitucional. Para tanto, “mobilizou os militantes do PTB e seus simpatizantes, especialmente através do rádio” (CHAGAS, 2008, p.95), chegando a reconhecer que “ele se utilizava do rádio como melhor veículo para fazer chegar sua mensagem ao povo” (LEITE, 2008, p.96). O efeito emocional dos discursos de Brizola e, consequentemente, sua capacidade de mobilizar as pessoas daquele período histórico não pode ser subestimado, como percebemos nas palavras do seguinte depoimento de Jarbas Moreira1, que nos relatou:

Tudo o que eu tenho de sentimento de brasilidade, este sentimento social , esta ânsia que toda família tenha um teto, que toda mesa tenha um pão, que toda criança tenha escola, esse sentimento que eu tenho dentro de mim, que é uma coisa muito arraigada de solidariedade humana, isso brotou em mim, ouvindo as pregações do Brizola, foi quem despertou em mim esse sentimento altruísta de Pátria e cidadania. Sei que não é muita gente que tem esse sentimento coletivo de saber que os problemas dos outros também é meu (MOREIRA, 2009).

Percebemos que Brizola fazia um chamamento à população com grande repercussão. Seu discurso forçava uma aproximação ideologicamente formulada entre os plenos poderes de João Goulart e a conquista de direitos sociais para a população, bem como o atendimento das necessidades mais urgentes das classes de menor renda. Ainda que não houvesse uma relação direta entre a manutenção de um agente de governo e o aprofundamento das reformas sociais, sem considerar as outras forças políticas que estavam atuando em sentido contrário, o que a memória dos depoentes guardou foi o efeito coletivo do discurso e seu nível de persuasão, tal como fica claro nas palavras do Sr. Odilon Vieira2:

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MOREIRA, Jarbas. Entrevista cedida à Tamiris Carvalho. São Sepé, 16 de jul 2009. 2

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Quando estoura a Legalidade eu lembro de um fato no teatro velho em São Sepé, onde hoje é o Centro Cultural Diolofau Brum. Ali foi feita uma grande reunião e com uma afluência muito grande de público em que a totalidade assinou o livro, apoiando a Legalidade, eu não me lembro de todos que apoiaram, mas a sociedade sepeense apoiou e assinou o livro e, muitos dos que apoiaram a Legalidade, mais tarde foram contra o Brizola porque apoiaram a ARENA, apoiaram a revolução de 64, muitos e muitos, eu não cito nomes, que é para não causar constrangimento, mas eu me lembro que o teatro velho estava repleto de gente que assinou o livro e apoiava a Legalidade e o Doutor Brizola em favor da Constituição (VIEIRA, 2009).

Nota-se que, na memória individual do Sr. Odilon Vieira, o apoio à Legalidade era uma decisão coletiva da pequena comunidade sepeense. Então não era um fato ou movimento próprio dele, como indivíduo, mas uma atitude guardada na memória coletiva e compartilhada por várias pessoas. Na medida em que os vencedores da Campanha da Legalidade tornaram-se os derrotados do golpe militar, essa memória sobre as atitudes de resistência e de mobilização contra o desrespeito à ordem constitucional tornou-se subterrânea, escondida por aqueles que tinham muito a perder ao se identificarem com o discurso de Brizola ou de seus simpatizantes.

Esta memória, ao vir à tona, ou seja, quando pôde ser revelada, pois as condições de sua expressão voltaram a surgir (décadas de 1980-1990), houve o temor de “causar constrangimentos” entre aqueles que mudaram de lado, apoiando os militares nas duas décadas anteriores. Segundo Marli Baldissera (2003), Brizola deixou de ser uma figura secundária da política e o “vilão” subversivo que queria provocar a desordem social. Ao subverter as forças armadas e colocar o povo contra as autoridades constituídas para se tornar o herói defensor da ordem, da legitimidade e, por extensão, da própria democracia. A respeito disso, a mesma autora acrescenta ainda que: “[...] devido à sua atuação no governo do Rio Grande do Sul, Brizola detém um crédito elevado junto à população do estado. Portanto, quando conclama o povo para defender o regime constitucional e a posse de João Goulart, é prontamente atendido” (2003, p.38).

As pessoas acreditavam na união de Brizola e Jango, na força que eles possuíam para liderar o movimento e expulsar os militares. Mas diante da renúncia de Jango e do seu exílio no Uruguai, a população (que apoiava a Legalidade) foi tomada por um sentimento de tristeza, como é possível observar nas palavras de Odilon Vieira:

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corresse entre irmãos. Queríamos que as coisas fossem resolvidas através do diálogo, através da parlamentação, da conversa, mas quando não foi possível, nós quedamos para esperar o melhor momento, se for possível retomarmos a democracia (VIEIRA, 2009).

Embora a ascendência da liderança de Brizola sobre os militantes fosse fato indiscutível, ela sozinha não seria suficiente sem um discurso legitimador que desse sentido moral às ações de resistência em relação às manobras golpistas dos militares e da elite civil contrária a João Goulart e Leonel Brizola. Esse discurso legitimador foi o nacionalista.

O sentimento nacionalista que unia os ativistas do PTB tinha um marco simbólico bastante nítido, que foram as oportunidades das encampações da American and Foreign Company (Amforp) e da Companhia Telefônica Rio-Grandense subsidiaria da multinacional Internacional Telephone and Telegraph (ITT), em 1962, pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola. Essas iniciativas aparecem na memória dos entrevistados, como o momento culminante da política nacionalista do governador.

As relações entre Brasil e EUA tornaram-se tensas devido a essas medidas audaciosas do governador do Rio Grande do Sul. Assim, gerou nos brasileiros, um sentimento nacionalista, propiciando ao governador e aos seus simpatizantes um elemento identificador. Essa identificação ideológica foi essencial para a mobilização dos ativistas e dos simpatizantes com a causa de Jango e Brizola e também deu à luta um caráter de cruzada contra um inimigo externo imbuído de ideias imperialistas. Acerca desse assunto, pode ser destacado pelas palavras de Jarbas Moreira o relato: “esse sentimento de Pátria, de cidadania era muito arraigado, então eles tiveram coragem de ir e enfrentar os milicos e oferecer a vida em holocausto à Pátria”. Ainda acrescentou em seu relato que não era apenas Brizola que tinha um discurso nacionalista, Jango também era um enunciador desse discurso nacionalista econômico, como podemos ver no relato de Jarbas Moreira:

Jango tinha um pensamento populista e nacionalista, não era bem visto pelas forças conservadoras da época, pelo seu sentimento nacionalista, era um homem voltado para os deserdados, para os despossuídos. Tinha um compromisso político e moral com a sociedade brasileira, com essa massa que vivia a margem da sociedade (MOREIRA, 2009).

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(1989) e Gellner (1983). Contudo, admite-se que “nacionalismo” é uma categoria histórica constituída, que varia de sentido conforme o contexto que cerca as enunciações sobre a nação e o nacional. Domingos (2008, p.03) lembra que o nacionalismo mudou ao longo dos tempos por ser um fenômeno histórico e que, no Brasil, essas mudanças foram marcantes a partir da década de 1950, “realizando-se como um nacionalismo a favor de reformas no capitalismo brasileiro”.

Os conceitos de nacionalismo, utilizados pelas fontes orais, guardavam os sentidos necessários para a mobilização política e para o engajamento na causa defendida por Jango e Brizola, dentro de um contexto histórico definido, como bem lembrou o autor acima citado.

O paradoxal daquele contexto político foi que, ainda que existisse intenso sentimento de adesão à causa nacionalista e entusiasmo pela liderança de Brizola, os meses que antecederam o golpe foram marcados por atividades conspiratórias por parte dos oficiais-generais, oficiais superiores, governadores, parlamentares e empresários. Porém, não houve uma reação ou preparação de resistência concreta ao provável uso da força contra as instituições vigentes.

Nesse sentido, “todos esperavam ansiosamente qualquer deslize do presidente João Goulart, para que fosse possível convencer comandantes de grandes unidades militares a marchar sobre o Rio de Janeiro e controlar Brasília” (FICO, 2004, p.15). Mas, mesmo diante das conspirações que pairavam no ar “havia, igualmente, o excesso de autoconfiança das esquerdas, inclusive do próprio Brizola, seguras estavam de que os golpistas seriam esmagados pela avalanche das multidões” (LEITE, 2008, p. 255). Com a derrota, em março de 1964, aqueles que apoiavam Brizola tiveram que se calar e foram tomados por um sentimento de decepção como nos disse Odilon Vieira:

Do meu lado, do meu grupo, era a maior decepção possível e da maior contrariedade. É evidente que o outro lado estava vibrando, os burgueses, a mazorca, mas eu não participei dessa alegria. Participei do meu lado, que foi uma tristeza profunda, uma preocupação profunda porque a partir dali nós sabíamos que as liberdades acabariam e que a perseguição seria muito grande e não foi por menos, as perseguições começaram, por vezes por insinuações, por vezes até com ofensas morais, mas quem estava derrotado, baixa bola e se aquieta, espera a volta (VIEIRA, 2009).

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parte daqueles que se sentiam vitoriosos. Jarbas Moreira relata que, “após a queda do Jango, o meu sentimento, eu não posso nem te retratar o que eu intimamente senti, porque eu era um homem consciente, tinha consciência porque derrubaram o Jango, porque perseguiram Brizola, pois eram as mesmas forças que combateram o Getúlio”.

Verificamos que a partir da década de 1960, o cenário político gaúcho sofreu grandes transformações. Inicialmente, com a Campanha da Legalidade em 1961, teve a frente o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que mobilizara a população para que João Goulart assumisse a presidência do país. Tão logo Jango assumiu a presidência com poderes limitados e com constantes mobilizações contra a estabilidade do seu governo.

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II. OS GRUPOS DE ONZE: DA DESORDEM PARA O RETORNO À ORDEM.

Os “Grupos de onze Companheiros” ou “Comandos Nacionalistas” foram criados por Leonel Brizola em outubro de 1963, meses antes do golpe. Sua finalidade era de forçar o presidente João Goulart a efetuar as reformas de base e impedir que os preparativos golpistas, desenvolvidos pelos militares e pela elite civil contrária às mencionadas reformas, se concretizassem.

Brizola utilizou-se do rádio, assim como fez na Campanha da Legalidade, para chamar a população na formação desses grupos. Conforme Marli Baldissera (2003, p.12): “a ampla divulgação dos grupos de onze através de uma cadeia de rádio, atingindo milhares de pessoas, contribuiu decisivamente para a repercussão política que obtiveram”. A mesma autora ainda destaca que a formação desses grupos não agradou aos militares, agravando ainda mais a aversão que tinham ao governo de Goulart. Eram consideradas subversivas as pregações de Brizola e, por conseguinte, a formação dos grupos era visto como um crime contra a segurança nacional.

Inicialmente, a ideia de Brizola era constituir grupos com cinco integrantes, conforme esclarece Baldissera (2003, p. 59):

[...] em maio de 1963, Brizola foi ao Nordeste [...]. O ex-governador gaúcho conclamou o povo a se unir em células de cinco pessoas, que por sua vez, deveriam multiplicar-se. A finalidade das células seria uma resistência às insolências e abusos dos ‘gorilas’ que, segundo ele, estariam por toda parte, tramando o golpe.

Conforme Marli Baldissera (2003, p.58) “para Brizola, os grupos de onze deveriam ser grupos de pressão sobre o presidente, sobre o Congresso e sobre a sociedade em geral para a realização das Reformas de Base”. Elenice Szatkoski (2003, p.103) compreende que “os grupos, além do potencial guerrilheiro, desempenhariam o papel de conscientizadores políticos de um processo revolucionário”. A criação dos grupos e, mais tarde, em março do ano seguinte, o comício da Central do Brasil seriam os dois fatores agravantes para o golpe de 1964.

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alerta, como uma senha que unificou grupos e propostas heterogêneas no sentido de romper com o jogo democrático” (FERREIRA, 2005, p.325). O objetivo principal era realizar uma série de comícios semelhantes ao do Rio de Janeiro, em várias cidades, como em Porto Alegre, Recife, Belo Horizonte e São Paulo. O intuito era mobilizar a população contra o Congresso Nacional, obrigando os parlamentares a aprovarem a reformas de base.

Associados a esses comícios, os grupos de onze teriam de garantir a continuidade da mobilização popular e manter ativo um grupo de militantes que se encarregariam de organizar a resistência da população. Contudo, esses grupos se revelaram inofensivos diante das forças conservadoras, as quais os consideravam como expressão do comunismo. Essa percepção conservadora, sobretudo dos militares, pode ser percebida analisando-se o texto que, supostamente teria sido apreendido pelo Exército em Niterói, na Rua Marquês de Caxias, número 24, e que se encontra no Laboratório de História da Unifra ( Doc. 9 E34 – Pasta 2- Laboratório de História - LAHIS, UNIFRA).

Nesse texto, o autor desconhecido faz constantes inferências sobre a natureza subversiva dos grupos de onze, que se dedicariam prioritariamente “ao terrorismo e a perturbação da ordem pública” (Doc. 9 E34 – Pasta 2- Laboratório de História - LAHIS, UNIFRA). Nas linhas seguintes, passa a transcrever o suposto relatório secreto de um grupo de onze da cidade de Niterói, como já foi dito, que orientaria as táticas que seriam empregadas contra o governo federal e contra o exército, à semelhança do que fez a Guarda Vermelha da Revolução Socialista de 1917, na União Soviética.

Consta neste documento a suposta existência de 1.298 grupos destinados ao terrorismo e a perturbação da ordem pública. Notamos o detalhamento da organização como, por exemplo, que se deveria evitar nos grupos de onze, parentes consaguíneos ou amigos íntimos. Segundo as instruções, o objetivo destes militantes era servir como instrumento principal e vanguarda do Movimento Revolucionário, que libertaria o país da opressão capitalista internacional e de seus aliados internos, com a finalidade de “instituir no Brasil um governo do povo, pelo povo e para o povo” (Doc. 9 E34 – Pasta 2- Laboratório de História - LAHIS, UNIFRA).

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poderiam ser esquecidos os preciosos coquetéis Molotov e outros tipos de bombas incendiárias, até mesmo estopa e pano embebido em óleo ou gasolina. E na falta de armas particulares, o armamento seria suprido pelos aliados militares, pois contariam com o apoio dos sargentos que eram partidários de Brizola (Doc. 9 E34 – Pasta 2- Laboratório de História - LAHIS, UNIFRA).

Com relação ao conteúdo das fontes e da intenção de seus produtores, devemos lembrar que frequentemente são utilizadas para a produção de sentido de discursos ideologicamente orientados. Essa produção de sentido não é unicamente destinada à transmissão da palavra, pois “inscrevem-se no sistema de práticas mais ou menos dramatizadas, chegam à materialidade por meio das encenações e máscaras” (BALANDIER, 1997, p. 144). Nessa perspectiva, os discursos nos comícios, os manifestos e os pronunciamentos pelos meios de comunicação de massa não se reduzem aos significados imediatos das palavras e aos conceitos que lhes são inerentes, mas provocam práticas sociais que reforçam esses conceitos como algo “real” que é ou que merece ser verdadeiro. Podemos verificar isso quando Brizola e seus aliados manifestaram-se pela Legalidade ou quando tentaram resistir aos preparativos para depor o presidente da República. Nesse esforço, os militantes traziam um conjunto de conceitos que propunham o rompimento com a ordem vigente. Porém, não era para que a sociedade migrasse para o desregramento e para o caos, e sim para manter uma ordem constitucional, que estava ameaçada por preparativos extrainstitucionais.

O pronunciamento de Brizola durante a Campanha da Legalidade é coerente com essa perspectiva. Vejamos a seguir como se percebe a sua tentativa de mobilizar a população para a luta na defesa da Constituição do país:

Aqui nos encontramos harmônicos, o Poder Civil e as Forças Armadas. A nossa atitude, patrícios, não é e nunca foi de revolução. Resistiremos até a última gota de sangue de nossas energias, mas, se quiserem rasgar a Constituição, então a nossa atitude passará de resistência à revolução. É melhor perder a vida do que a razão de viver. Posso vos garantir, porém, e a todo o Brasil, que não daremos o primeiro tiro. Mas creiam, o segundo será nosso (FERREIRA, 2005, p.292).

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Para George Balandier (1997, p. 145), “fazer a desordem não é apenas deixá-la passar ou tentar dirigi-la ao menor custo, é também abrir-lhe os espaços onde será simbolicamente capturada, depois domesticada”. Nesse sentido, os dois grandes segmentos em luta – pró ou contra o governo de Jango – defendiam a ação fora dos parâmetros institucionais da democracia representativa, ou seja, defendiam o desordenamento das regras do Estado de Direito, para prevenirem-se ou atacarem seus adversários.

Essa compreensão estratégica do embate político estava fortemente afetada por ideologias radicais, em um período histórico da América Latina pós-revolução cubana, no qual se difundia, de um lado e de outro, “imagens”, “representações” e discursos que impeliam para a ação violenta.

Com relação a esse grave conflito de convicções, percebemos que havia um sentido ideológico criado em torno de Jango e seus aliados, no qual, destacava-se a sua filiação ao comunismo, conforme lembrou Odilon Vieira:

As forças contrárias principalmente a UDN, comandada por Carlos Lacerda e outros políticos do centro do país como Magalhães Pinto, diziam que o Jango não podia assumir porque era comunista. Tanto prova que estava na China. Uma China comunista então começa a se formar no país, um movimento contrário, inclusive apoiado por certos segmentos da Igreja Católica prova que esta Marcha da Família com Deus em São Paulo e Rio de Janeiro contra o comunismo diziam até que era um absurdo, pois os comunistas comiam criancinhas, vejam que absurdo.

Esse aspecto simbólico normalmente é relegado a um segundo plano, pois a materialidade da luta, dos confrontos de rua e da mobilização das forças armadas sobressaem-se. Também é necessário frisar que, normalmente, as pessoas se mobilizam para a luta ou depositam sua confiança em um dos lados em confronto, se houver algum interesse imediato, (desejo de melhores oportunidades sociais e políticas, de melhor trabalho, de menor custo de vida, de maior consumo, de maior poder ou prestígio pessoal). Segundo Baldissera (2003, p.150), a pluralidade de motivações era mesmo grande:

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A conjugação da vida cotidiana com os discursos políticos não pode ser menosprezada, como algo que empobrece os ideais de luta. Faz parte do conjunto de motivos, mobilizar as pessoas para os assuntos políticos, tal como se percebe no depoimento de um agricultor que assinou a lista dos grupo de onze: “...que ouviu ele [Brizola], gritando pelo rádio, perguntando onde estavam os grupos de onze, que só então que compreendeu que as listas que Brizola mandava fazer era para organizar gente para brigar e não para conseguir terras como ele pensava” (BALDISSERA, 2003, p.72).

No conjunto de depoimentos conseguidos por Marli Baldissera, identificamos que as pessoas se inscreviam nos grupos não com intenções revolucionárias, mas sim no intuito de receberem alguma ajuda para suas necessidades imediatas, pois estavam habituadas com o assistencialismo. Percebemos, ainda, que essas pessoas não sabiam exatamente qual era a finalidade dos grupos “por isso, os grupos não apareceram, não esboçaram reação de espécie alguma quando ocorreu o golpe. Mesmo os que se reuniam, discutiam política, não estavam preparados para uma luta armada porque não era esse o objetivo da formação dos grupos” (BALDISSERA, 2003, p.72).

É possível destacar que parte dos depoimentos colhidos por Elenice Szatroski, sobre os grupos de onze foi obtida em um inquérito policial. Isso faz com que suas informações sejam relativizadas, pois as pessoas procuravam não se comprometer, a exemplo do depoimento a seguir:

Em depoimento para a Brigada Militar no dia 29 de maio de 1964, Vitalino Cerutti disse que, embora militante do PTB, jamais tomara parte de qualquer movimento de caráter subversivo, a exemplo da formação dos chamados grupos de onze, dos quais tinha conhecimento por intermédio da imprensa falada e escrita. Disse ainda que, levando em conta a sua formação religiosa, nos últimos tempos discordava frontalmente das idéias de Leonel Brizola e reafirmou “nunca ter aliciado elementos para a formação dos chamados grupos de onze, sendo que certa vez foi pelo Sr. Bispo local, advertido dos perigos que poderiam advir na formação dos chamados grupos de onze (SZATROSKI, 2003, p.110).

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comunismo no Brasil, enquanto que para muitos daqueles que assinaram as listas, foi verificado outros fins.

Entretanto, especialmente quando ocorre o acirramento do confronto ideológico, as necessidades e expectativas individuais são revestidas de representações. Com isso, reforça este ou aquele ponto de vista, esta ou aquela justificativa ou compreensão dos acontecimentos, não ocorrendo de maneira espontânea, exclusivamente ao sabor da subjetividade de cada indivíduo, mas tratando-se de sentidos que tomam suas imagens do real vivido pela coletividade e das experiências sociais concretas que são compartilhadas.

Esse compartilhamento e convivência são fundamentais para que ocorra a identificação dos grupos em luta e do “lado” (facção revolucionária, grupo de interesse, partido) ao qual se filiam. Muitos não foram à luta, mas mesmo assim torciam por um dos lados. Podemos analisar este fato no depoimento de Jarbas Moreira: “se eu não tivesse compromissos, talvez eu tivesse sido um guerrilheiro [silêncio], mas o sentimento que eu acumulei e daqueles que pensavam na realidade não por fazer política por paixão, mas por pensar na evolução social de seu país”. Já outros se engajaram no confronto armado em prol de um ideal como nos relata Odilon Vieira:

Doze meses se passaram. Nos primeiros momentos já comecei a mostrar contrariedade. Um amigo meu, Alcindor Aires, que tinha ligação com o Brizola, Clarimundo Flores (jornalista), Cel. Jeferson Cardim de Alencar e aí junto já vem Adamastor Bonilha, Sargento Firmino Chaves, que vinha do Maranhão até que eu comecei a entrar em contato com esses elementos. Eu era o mais jovem da turma, tinha 22 anos quando eu comecei a tomar conhecimento do Movimento que se esboçava para favorecer a retomada do poder e fazer com que Jango e Brizola voltassem para o país (VIEIRA, 2009).

Capturaras imagens simbólicas e domesticá-las, como sugere Balandier, (1997) é manejar o repertório de símbolos e representações que identificam os agentes da luta e suas motivações. Isso possibilitou criar situações favoráveis de desenlace para o conflito que se avizinhava. Essa manipulação do repertório de representações disponíveis, no sentido de alimentar um sentido favorável à luta contra as forças conspiratórias, pode ser verificada nos trechos do discurso de Leonel Brizola, no comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964:

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descer para o diálogo com o povo. Estamos certos de que o Presidente não veio esta noite apenas para falar, mas para ouvir e para ceder ao povo brasileiro, para ceder à pressão, é a voz que vem da fonte de todo o poder, é a pressão popular, a que com honra um governante se submete (FICO, 2004, p. 283).

O evento realizado, em meio à tensão e à desordem, representou para os militares a fraqueza do governo de Jango. Para os militantes mobilizados pelo comício, significava a luta pela reforma de bases. Conforme Jarbas Moreira:

Jango tinha um pensamento popular e nacionalista, não era bem visto pelas forças conservadoras da época, pelo seu sentimento nacionalista, era um homem voltado para os deserdados, para os despossuídos. Tinha um compromisso político e moral com a sociedade brasileira, com essa massa que vivia a margem da sociedade de fazer as reformas de base que até hoje ainda não foram feitas a reforma urbana, educacional, política, bancária e a reforma agrária que era um compromisso do Jango e do Brizola também. Era bem visto pelas forças conservadoras e por isso elas se imporiam num direito constitucional. O grande comício das reformas foi o estopim para darem o golpe na nossa democracia e destituírem um governo essencialmente democrático (MOREIRA, 2009)

Segundo a interpretação de Brizola, durante o comício, abriu-se um espaço de diálogo entre povo e governo para evitar um mal maior que era a guerra civil. Para Balandier no ritual de ensaio, de ameaça, armou-se um teatro sobre o risco que pairava no ar, levando a reflexão e ponderação até onde vale a pena conduzir os conflitos? Vejamos o discurso de Brizola na Central do Brasil em 13 de março de 1964:

[...] povo e governo em um país como o nosso devem constituir uma unidade. Unidade esta que já existiu em agosto de 1961, quando o povo, praticamente de fuzil na mão repeliu o golpismo que nos ameaçava e garantiu os nossos direitos... quando um povo se reúne como nesta noite, isto significa um grito do povo nos caminhos de sua libertação... pode ser que neste momento a minha palavra esteja sendo impugnada, podem julgar que as minhas credenciais não sejam suficientes, mas o meu lugar é ao lado do povo, interpretando as suas aspirações, é por isso que estou como um de seus autênticos representante. Chegamos a um impasse na vida de nosso país; o brasileiro não suporta mais as suas atuais condições de vida, hoje até as liberdades democráticas estão ameaçadas.... não podemos continuar nesta situação, o povo está exigindo uma saída ( FICO, 2004, p. 283).

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discursos da Central do Brasil defendiam a instalação da desordem. Vejamos este fragmento do discurso do Presidente João Goulart no comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964:

Dirijo-me a todos os brasileiros, e não apenas o povo através do rádio e da televisão. Dirijo-me a todos os brasileiros, e não apenas aos que conseguiram adquirir instrução nas escolas. Dirijo-me também aos milhões de irmãos nossos que dão ao Brasil mais do que recebem e que pagam em sofrimento, pagam em miséria, pagam em privações o direito de serem brasileiros e o de trabalhar de sol a sol pela grandeza deste país. Presidente de oitenta milhões de brasileiros quer que minhas palavras sejam bem entendidas por todos os nossos patrícios. Vou falar em linguagem [...] rude, mas que é sincera e sem subterfúgios. E também a linguagem de esperança, de quem quer inspirar confiança no futuro, mas de quem tem a coragem de enfrentar sem fraquezas a dura realidade que vivemos. [...] democracia, trabalhadores, é o que meu governo vem procurando realizar, como é do meu dever [..] (FICO, 2004, p. 283/284).

Para Balandier (1997, p. 147), “a simbolização e a ritualização propriamente políticas mostram ainda mais claramente essa conversão da desordem em ordem.”. O ritual fortalece um conjunto de crenças, cria um sentimento de união coletiva, mobiliza para a luta e marca uma identidade do grupo em relação aos outros. Assim, a desordem explícita das ruas cheias de barricadas e de grupos rebelados, de milícias e forças públicas em confronto direto e violento é uma forma de retornar à ordem desejada mediante instrumentos de desordem.

Os defensores de Jango defendiam “as reformas de base”, que eram a contestação do status quo de algumas esferas sociais. Ou seja, defendiam uma forma de desordenamento que suscitava a reação daqueles que teriam prejuízos com as mudanças. Esse desordenamento não era, obrigatoriamente, como queriam fazer acreditar os anti-janguistas, nem uma estratégia revolucionária de mudança radical da sociedade, mas o emprego dos recursos de força disponíveis como a ação dos poderes executivos (federal e estadual), atuação mobilizadora dos partidos políticos, atuação parlamentar.

Portanto, a desordem verdadeira, imaginada pelos janguistas, era aquela provocada pelas forças armadas e organizações adversárias pelo emprego dos meios violentos ou no preparativo desses meios. Também era aquela desordem das condições concretas de existência social, as quais deveriam ser estabelecidas em outros termos (uma nova ordem social). Conforme Odilon Vieira:

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supremo. Quando nos taxam de subversivos é errado, nós não somos. Nós estávamos defendendo o poder constituído, quando muito, eles podem nos chamar de sediciosos, pois o nosso objetivo era derrubar quem tava no poder e colocar o nosso povo que estava antes (VIEIRA, 2009).

Para os adversários de Jango, a leitura era a mesma, apenas com sentido inverso. O perfeito ordenamento das relações sociais estava em risco pelas desordens provocadas por seus adversários, que desejariam corromper as bases sobre as quais se organizava a sociedade. A adoção de medidas extremas de desordenamento das regras de convívio democrático, com base em uma Constituição e nos poderes constituídos deveria ser quebrada por meios violentos, mas apenas temporariamente, até que se obtivesse o retorno à ordem. Conforme Marli Baldissera,

dentro do imaginário de grande parte dos militares e dos grupos mais conservadores, a formação dos mesmos [dos grupos de onze] era a prova concreta e definitiva que o comunismo estava invadindo o Brasil, e que uma atitude enérgica deveria ser tomada: a derrubada desse governo que permitia que o comunismo avançasse (2003, p 86).

As palavras de Balandier (1997, p. 148) esclarecem que “nas sociedades tradicionais de Estado, o corpo soberano é o lugar central onde a ordem e a desordem se encontram e se enfrenta de tal maneira que a desordem é o veículo a serviço da instituição – domesticando-a”.

Segundo Carlos Fico: “a linha dura começou como simples grupo de pressão e, gradualmente, impôs a tese de que era inevitável um endurecimento do regime” (2004, p.76). Ou seja, nos sentidos empregados pelos militares, percebeu-se a necessidade de reprimir qualquer movimento que fosse contrário ao pensamento tradicional dos militares, sobretudo quando se tratava de “autênticas células comunistas”, prontas para a luta armada e para instalar tal regime no Brasil.

Para Balandier “a vacância de poder se torna um período de regressão durante a qual a energia social retorna simbolicamente (e, por um lado, efetivamente) ao estado bruto. Nada fica regulado, tudo parece conduzir ao caos” (1997, p. 148). Entre outubro de 1963 e março de 1964, o grande receio era o retorno à vacância de poder que Jânio Quadros tentou provocar em 1961 e todo o drama que se seguiu na luta pela constitucionalidade.

Para Marli Baldissera, os grupos de onze não tinham um caráter subversivo.

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representados. Na região estudada, os envolvidos eram pessoas inocentes, ingênuas, a maioria constituída de pacatos colonos, sem espírito revolucionário (2003, p.19).

Elenice Szatroski defende a teoria de que,

esses grupos seriam compostos por dez homens e um líder, treinados para a luta de guerrilhas. Caso fosse deflagrada a guerra civil, os seus chefes comunicar-se-iam, formando núcleos combatentes mais amplos, de acordo com a necessidade. Os grupos, além do potencial guerrilheiro, desempenhariam o papel de conscientizadores políticos de um processo revolucionário (2003, p.102).

Visualizamos que os princípios não apontavam para uma revolução socialista ou radical, como foi à cubana (receio constante dos grupos conspiradores e do serviço de inteligência dos EUA). Mas, traziam valores consagrados pelos regimes nacional-populares da década anterior, ou seja, um nacionalismo, um anti-imperialismo e a defesa de conquistas sociais, já alcançadas pelos movimentos populares.

Este sentimento nacionalista é fortemente defendido pelas pessoas que vivenciaram aquele período, como percebemos em um depoimento “debatíamos a política nacionalista, que era a nossa bandeira. Como o nosso chefe pregava o nacionalismo, nós éramos a favor dessa causa, não do comunismo” (BALDISSERA, 2003, p.81). Brizola, ao falar por meio do rádio, defendia essa bandeira e Odilon Vieira nos relata que o “Partido Trabalhista Brasileiro, um partido que pregava principalmente o nacionalismo, defendia o que é nosso, o que é brasileiro”. Havia um sentimento de brasilidade muito arraigado nas pessoas, inspirado pelo “Grande Líder”, como Brizola era conhecido.

Ao pesquisar sobre este tema, percebemos que, os grupos de onze, tinham em princípio a defesa da democracia, ou seja, eram contra o regime ditatorial. Abdo Mottecy,3 relatou que não acreditava na eficiência dos grupos de onze.

Ficava com lastima, com pena de companheiros esclarecidos que entraram nesse barco furado. Porque os grupos de onze individualmente, sem uma discussão mais ampla levaram informações para o Uruguai, para o Jango e o Brizola, e não haviam o mínimo cuidado, e o fato que por várias vezes os pombos correios foram presos (MOTTECY, 1998).

Abdo Mottecy comenta que, talvez se tivesse ocorrido maior debate e 3

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preparação das pessoas que integravam os grupos, não haveria iniciativas ingênuas e a eficiência das ações daria maior credibilidade ao movimento. Essa credibilidade também ficava comprometida pelas ações na clandestinidade, que fazia com que algumas pessoas não acreditassem na existência dos grupos de onze. O depoente, Izidro Gay4 nos remete a isso, afirmando: “dizem, dizem que ele chegou a organizar os grupos

de onze, eu não tenho muito conhecimento a respeito disso, mas ouvi isso várias vezes ser comentado os grupos de onze”.

Contudo, devemos reconhecer que a clandestinidade e a atmosfera de segredo, que cercava os grupos conspiradores e revolucionários também provocaram sentimentos de apreensão e medo entre aqueles que seriam alvo das ações violentas. Os militantes não tendo certeza sobre a verdadeira dimensão da ameaça, a tendência é super dimensioná-la, dando possibilidades e prerrogativas que, normalmente, não correspondem com exatidão ao que existe de real. Essa dimensão secreta e imprecisa fez com que o número dos grupos fosse estimado em valores pouco verossímeis, como é possível ver:

Os grupos foram formados com uma rapidez impressionante, tal era o prestígio que Brizola detinha junto á população. Schilling aponta que numa demonstração do enorme potencial organizatório que ate então havia sido desperdiçado, em somente três meses foram criados entre 30/40 mil grupos. Os números divergem: Brizola garante que chegaram a se formar 24 mil em todo país; já Neiva Moreira apresenta um número muito maior: de sessenta a setenta mil grupos de onze constituídos até 31 de março de 1964 (BRAUN, 2006, p.94).

O fato é que, mais que a quantidade, o que verdadeiramente fazia diferença naquele contexto histórico, era a necessidade de criar um sentido de “povo em armas”, pronto para a resistência e organizados sob um comando coeso. Portanto, especular sobre a possível existência dessa organização e sobre sua dimensão, acabava sendo mais importante para as lideranças políticas, contrárias aos preparativos golpistas do que a existência, propriamente dita de um sistema tão difuso, descentralizado, atomizado e sem a necessária logística e apoio financeiro para fazer valer a suposta resistência armada contra os conspiradores. Em relação a isso, relatou José Bica Larré5,

ex-integrante do grupo em Santa Maria:

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GAY, Izidro. Entrevista cedida ao LAHIS. Grupo de Onze, pasta 1, entrevista 05, LAHIS – UNIFRA, 20 de maio 1998.

5

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Com referência aos grupos de onze, posso dar um depoimento porque também me fizeram secretário do Movimento Nacionalista Brasileiro, aqui no núcleo, em Santa Maria. O problema dos grupos de onze, era uma ideia romântica, uma coisa estapafúrdia, coisa da cabeça do Brizola e que de fato nunca existiu, nunca tiveram qualquer aspecto de natureza agressiva, bélica, revolucionária. No fundo, tinha nitidamente uma finalidade eleitoral, pretendia, com certeza, transformar esses grupos de onze em células eleitorais, dentro da sua própria candidatura, das suas ideias [...] interessava muito a revolução, como forma de propaganda, divulgar que esses grupos se organizavam como grupos paramilitares, etc. e tal. Coisa que objetivamente nunca houve, tanto que não [...] resultou em nenhum achado jamais de que pudesse devotar os grupos de onze como sendo efetivamente grupos armados, como de fato não eram.

Esse depoimento nos leva a refletir se os militares tinham realmente medo do comunismo ou eles apenas incitavam e alarmavam o povo para que estes pudessem tomar o poder. Até os próprios integrantes dos grupos tinham consciência de que era uma ideia romântica do Brizola, sem qualquer caráter subversivo, muitos nem sabiam qual era finalidade dos grupos. Vários integrantes destes grupos eram admiradores de Brizola pela sua luta nacionalista, como veremos:“não tinha nada de comunismo, nada, apenas admirávamos o Brizola por ele ser nacionalista” (BALDISSERA, 2003, p. 72). Conforme Baldissera (2003, p. 81) que havia de fato era um sentido construído em torno dos grupos de onze, e estes que eram considerados comunistas e queriam se diferenciar destes, dizendo-se nacionalistas “o comunismo era muito temido, não somente pelos conservadores, mas também por muitos reformistas/nacionalistas, que faziam questão de se diferenciar deles, de se declarar não comunistas”.

Até mesmo alguns párocos proibiam que integrantes dos grupos participassem dos ritos religiosos como veremos:

O padre Máximo Coghetto, pároco da nova cidade de Sertão, vem de firmar edital proibindo aos católicos serem nacionalistas ou integrarem os chamados grupos de onze (ou comandos nacionalistas) sob pena de não poderem ser padrinhos de crisma na sua paróquia. […] Conforme as leis eclesiásticas podem ser padrinhos de crisma somente os católicos em comunhão com a Santa Igreja. Portanto, não podem ser padrinhos: […] comunistas, nacionalistas. Especialmente o grupo de onze (BALDISSERA, 2003, p.108).

Percebemos o quanto os grupos de onze eram perseguidos, até mesmo pela Igreja Católica, que bania os fiéis que fizessem parte dos grupos ou até mesmo por serem adeptos das ideias nacionalistas.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo desta pesquisa percebemos que o período entre 1945 e 1961 foi de ordenamento dos partidos políticos e que os mesmos se estruturaram a favor ou contra Getúlio Vargas, especialmente depois que este criou dois partidos, o PTB e o PSD.

Essa estrutura entrou em crise após a renúncia de Jânio Quadros e a ascensão de João Goulart, ocasionando a Campanha da Legalidade liderada por Brizola que, através do rádio, mobilizava os militantes políticos na tentativa de manter a ordem constitucional e o presidente no poder.

Os seus discursos ficaram guardados na memória dos depoentes e, em alguns casos, transformaram-se em lembranças subterrâneas. A campanha contra os preparativos golpistas de 1963 e 1964 não teve o efeito desejado e os vencedores da Campanha da Legalidade foram derrotados, fazendo com que as atitudes e mobilizações dos simpatizantes de Brizola e Jango se tornassem ocultas.

Muitos brasileiros acreditavam na união de Jango e Brizola e na força política que estes possuíam para liderar o movimento de reação contra os preparativos golpistas. Porém, com a renúncia de Jango e logo após seu exílio no Uruguai, a população foi tomada por um sentimento de tristeza como foi relatado por Odilon Vieira e como foi possível perceber no decorrer deste trabalho.

Entre as motivações do apoio emocional dado aos líderes Brizola e Jango, estava a encampação das empresas internacionais. Isso fez com que desencadeasse o estremecimento das relações entre Brasil e EUA. Em alguns gaúchos, propiciou um sentimento nacionalista que passou a ser o marco identificador de Brizola em relação a sua ideologia mobilizadora dos anos 1963 e 1964.

Em 1963, com a criação dos grupos de onze, a ala conservadora do governo acreditava que o Brasil corria um risco iminente frente ao comunismo, de tal maneira que os “comandos nacionalistas” ou “grupos de onze” eram vistos como autênticas células prontas para instalar o comunismo no Brasil.

À medida que o confronto ideológico acirrava-se, na passagem do ano de 1963 para 1964, mais destaque se dava a esses grupos “subversivos” e mais esperanças se depositavam sobre sua suposta capacidade de reação. Houve, com isso, momentos particularmente tensos, o que gerou prevenções recíprocas entre os militares e Brizola.

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nas mudanças políticas, econômicas e sociais. Nesse contexto de comoção popular, os grupos de onze seriam uma garantia para manter a mobilização da população contra as forças armadas e contra os partidos que se uniam em uma coalizão golpista.

Acreditava-se ou sugeria-se a existência de 1.298 grupos de onze, como consta em um texto apreendido pelo Exército em Niterói, que se encontra no Laboratório de História da Unifra, como já foi relatado no decorrer desta monografia. Neste documento consta como seria a atuação dos grupos de onze, destinados à perturbação da ordem pública e ao terrorismo, o que conduz para a avaliação do teor ideológico dessa fonte, no sentido de ser um texto que explora o antagonismo de discursos ideologicamente orientados.

Os conservadores compreendiam que a atitude de Brizola era para levar a população ao desregramento e ao caos, enquanto para Brizola ocorria justamente o contrário. Havia assim, uma luta pelo sentido correto acerca dos grupos de onze entre conservadores versus Brizola, uma luta ideológica, no momento em que a América Latina estava em um período de pós-revolução cubana, onde se propagavam imagens e representações que produziam políticas de ações violentas.

No entanto, por mais emotivas que tenham transparecido as recordações das fontes orais e por mais que a ideologia nacionalista tenha tido uma importante influência nas representações que restaram sobre aquele passado, reconhece-se que a população, normalmente, se alia a um dos lados do confronto ou “fazem suas apostas” na tentativa de suprir alguma necessidade imediata como o desejo de melhores oportunidades sociais e políticas, de melhor trabalho, de menor custo de vida, de maior consumo, de maior poder ou prestígio pessoal.

Ao longo da monografia, foi possível perceber que muitos que se inscreviam nestas listas de “grupos de onze” almejavam algum tipo de ajuda imediata, sem que houvesse uma ideologia nítida no posicionamento político a favor de Brizola.

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A desordem imaginada pelos militantes que apoiavam Jango e Brizola era aquela empregada pelas forças militares e pelos grupos conservadores, através de meios violentos e inconstitucionais. Já para os militares ocorria o inverso, pois acreditavam que os adversários estavam rompendo com as bases sobre as quais a sociedade se organiza. Os grupos de onze, e mais tarde o comício da Central do Brasil, seriam dois movimentos que, vistos sob o olhar dos militares, levariam a população ao caos. Para os janguistas, as atitudes violentas que se seguiram, estas sim, estavam levando a população ao desregramento, pois acreditavam que tanto o comício quanto a mobilização dos grupos de onze eram estratégias legítimas de resistência.

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