COMÉRCIO INFORMAL: PARA ONDE VAMOS? (SANTA MARIA, 1991-2011)

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CENTRO UNIVERSITÁRIO FRANCISCANO

MATHEUS ROSA PINTO

COMÉRCIO INFORMAL: PARA ONDE VAMOS? (SANTA MARIA, 1991-2011)

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ÁREA DAS CIÊNCIAS HUMANAS CURSO DE HISTÓRIA

COMÉRCIO INFORMAL: PARA ONDE VAMOS? (SANTA MARIA, 1991-2011)

elaborado por

Matheus Rosa Pinto

como requisito parcial para obtenção do grau de

Licenciado em História

COMISSÃO EXAMINADORA:

_________________________

Roselâine Casanova Corrêa, Me. (Presidente/Orientadora)

_________________________

Carlos Roberto da Rosa Rangel, Dr. (UNIFRA)

__________________________

Diorge Alceno Konrad, Dr. (UFSM)

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MATHEUS ROSA PINTO

COMÉRCIO INFORMAL: PARA ONDE VAMOS? (SANTA MARIA, 1991-2011)

Trabalho Final de Graduação, no curso de licenciatura em História do Centro Universitário Franciscano – UNIFRA.

Orientadora: Roselâine Casanova Corrêa

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO. ... 6

1. NEM MACONDO, NEM PASÁRGADA: A EVOLUÇÃO URBANA DE SANTA MARIA ... 12

2. O PESQUISADOR COMO FLANÊUR: UM PASSEIO BIBLIOGRÁFICO ... 18

3. NEM BAUDELAIRE, NEM LIMA BARRETO: ONDE ACABA O PASSEIO E INICIA O CONFLITO ... 29

3.1 Dos artesãos aos primeiros anos do Camelódromo: considerações sobre a ascensão do trabalho informal em Santa Maria (1980-1996) ... 29 3.2 Quando a solução se torna problema: do camelódromo ao Shopping Independência (2005-2011) ... 39

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 50

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RESUMO

Esta pesquisa visa compreender como se deu o surgimento e o crescimento do comércio informal na cidade de Santa Maria (RS), no período que engloba o ano de 1991 até 2011. Dentro deste recorte temporal, tem-se como pontos essenciais a criação do centro comercial urbano para os vendedores ambulantes - o Camelódromo - e o posterior estabelecimento dos vendedores no Shopping Independência. Além disso, também são focos de estudo: a evolução urbana, a economia da cidade, o percepção de agentes do comércio formal e informal e da imprensa, bem como o processo de crescimento das atividades informais e suas peculiaridades em uma cidade do centro do estado do Rio Grande do Sul: Santa Maria, atualmente com população em torno de 300 mil habitantes.

Palavras chave: Comércio informal; Camelódromo; Shopping Independência, Santa Maria.

ABSTRACT

This paper presents a comprehension of the rise and growth of informal trade in the city of Santa Maria (RS), from the year of 1991 to 2011. Inside this context, the key points involve the foundation of the urban shopping center for the street vendors - the street vendors’ market - and the later settlement of these vendors at the Independência Mall. Furthermore, this study also focuses on issues over the

urban evolution, the city’s economy, the awareness of the agents from the formal and informal market

and the media, as well as the way the growth process happened in this informal trade and its peculiarities in a city in the center of Rio Grande do Sul: Santa Maria, currently with a population of around 300,000 inhabitants.

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INTRODUÇÃO

Desde sua fundação, Santa Maria se notabilizou por ser um local de intenso trânsito de indivíduos. Tal afirmação se justifica pelo fato de que, durante sua breve história, diferentes hordas de migrantes passaram pela localidade, aumentando, com isso, a importância da cidade no âmbito regional e nacional. Dentre os grupos que por aqui passaram, merecem destaque: os indígenas, os jesuítas, os regimentos militares das Coroas Ibéricas, os ferroviários e os imigrantes. Atualmente, esta demanda fica a cargo de estudantes e militares de todas as partes do país e de estrangeiros.

A respeito deste crescimento, surgem questionamentos vinculados aos motivos que levaram estas hordas migratórias a seguir para Santa Maria. O posicionamento mais aceito é de que a ascensão social/pessoal dos moradores foi um elemento propulsor da atividade migratória. Neste sentido, Roncayolo (1986) aborda que,

o prolongamento da esperança de vida, a redução voluntária da fecundidade parece estar logicamente ligada à deslocação das massas populacionais para a cidade e à sua integração na civilização urbana (p. 410).

Assim, a migração para o centro urbano traz em seu bojo a busca por melhores condições de vida, sejam elas profissionais, econômicas ou pessoais. Entretanto, alcançar tais objetivos mostra-se complicado e, neste processo desordenado, acabam surgindo disputas no interior da sociedade já estabelecida, Acerca disto, Romero (2006) diz que,

as velhas sociedades começaram a transformar-se. De início, invadiram-nas os novos contingentes humanos que se incorporavam à vida urbana, algumas vezes resultantes do êxodo rural e outras, do surgimento de imigrantes estrangeiros. [...] Não demorou a perceber-se o resultado, e o sistema tradicional das relações sociais começou a modificar-se. Onde havia um local preestabelecido para cada um, começou a aparecer uma onda de aspirantes a cada lugar (p. 295).

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Toda essa tensão estava mudando as cidades e, em muitos aspectos, no sentido negativo. Mesmo assim, o contingente populacional não diminuía, já que ninguém queria deixar o lugar onde tudo acontecia: o centro urbano. Ainda que nem tudo fossem benefícios:

as cidades cresciam, os serviços públicos tornavam-se cada vez mais deficientes, as distâncias mais longas, o ar mais impuro, os ruídos mais ensurdecedores, mas ninguém quis renunciar à cidade. [...] E nas cidades, adquiriam cada vez mais influência nas massas (ROMERO, 2006. p. 364).

As relações interpessoais também sofreram com essas mudanças. O sentimento de pertencimento diminuiu e o individualismo passou a imperar. Por meio disto, a disputa pelos melhores lugares na pirâmide social se tornou mais acirrada. Berman (1987) diz que,

a experiência ambiental da modernidade anula todas as fronteiras geográficas, raciais, de classe e nacionalidade, de religião e ideologia: neste sentido, pode-se dizer que a modernidade une a espécie humana. Porém, é uma unidade paradoxal, uma unidade de desunidos: ela despeja a todos num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambiguidade e angústia (p.15).

No interior destes processos, os indivíduos procuram meios para atenuar tal desigualdade e afastamento. Um deles é o consumo/consumismo que, segundo

Canclini (1996), “é o conjunto de processos socioculturais em que se realiza a apropriação e os usos dos produtos” (p. 53). O consumo deve ser visto como mecanismo de expansão do mercado (procura incessante de lucro), reprodução da

força de trabalho (demonstrar o ‘sucesso’ obtido), juntamente com o fato de

distinção dos demais.

Observando estes processos, a figura do vendedor ambulante surge como uma ponte para diminuir esse distanciamento classista, pois, com suas mercadorias livres de impostos e, consequentemente, com menor custo, a compra de produtos, antes alcançados apenas pelos mais ricos, torna-se viável para as camadas menos abastadas da sociedade.

Através disto, questionamentos surgiram, todos girando no mesmo ponto, o qual se sintetiza em:

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Como os vendedores informais – os camelôs – são percebidos pelo comércio formal?

E, finalmente, como eles próprios percebem tal processo de ordenamento de sua atividade profissional.

Além disso, punteam-se tais questões com fragmentos publicados na mídia impressa e eletrônica local.

O aporte teórico desta pesquisa assenta-se em reflexões acerca da História Urbana, da História do Tempo Presente, da Economia e, sobretudo, da História de Santa Maria. Também foi utilizada a História Oral, pois, como salienta Montenegro (1992),

a história oral se apresenta válida no sentido que, através dos depoimentos, analisarem que elementos simbólicos são construídos pela população, e se apresentam, muitas vezes, como o avesso daquilo que lhe é imposto cotidianamente, à medida que essa população convive, tolera, assimila, reproduz a cultura/história oficial (p.13).

Vale salientar que os depoimentos orais para esta investigação foram amplamente discutidos com os depoentes, por meio de entrevistas pré-estabelecidas ou não. Após foram transcritos e assinados os Termos de Cessão de Entrevistas de tais depoentes (anexos).

A pesquisa historiográfica do tempo presente ainda é vista com relativa desconfiança acadêmica, visto que a mesma é ‘recomendada’ a jornalistas e sociólogos1.

O receio gira em torno da impossibilidade de recuo no tempo, aliada à dificuldade de apreciar a importância e a dimensão em longo prazo dos fenômenos, bem como o risco de cair no puro relato jornalístico. Este receio de tratar temas mais atuais está vinculado ao antigo pensamento no qual,

a competência do historiador devia-se ao fato de que somente ele podia interpretar os traços materiais do passado, seu trabalho não podia começar verdadeiramente senão quando não mais existissem testemunhos vivos dos

1

“A fundação na França da revista Annales, em l929, e da École Pratique des Hautes Études, em 1948, iria dar impulso a um profundo movimento de transformação no campo da história. Em nome de uma história total, uma nova geração de historiadores, conhecida como École des Annales, passou a questionar a hegemonia da história política, imputando-lhe um número infindável de defeitos – era uma história elitista, anedótica, individualista, factual, subjetiva, psicologizante. Essa nova história sustentava que as estruturas duráveis são mais reais e determinantes do que os acidentes de conjuntura. Seus pressupostos eram que os fenômenos inscritos em uma longa duração são mais significativos do que os movimentos de fraca amplitude, e que os comportamentos coletivos têm mais

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mundos estudados. Para que os traços pudessem ser interpretados, era necessário que tivessem sido arquivados. Desde que um evento era produzido ele pertencia à história, mas, para que se tornasse um elemento do conhecimento histórico erudito, era necessário esperar vários anos, para que os traços do passado pudessem ser arquivados e catalogados. Noiriel (Noriel in FERREIRA, 2000, p. 03).

Alegava-se também que os testemunhos não podiam ser considerados representativos de uma época ou de um grupo, pois a experiência individual expressava uma visão particular que não permitia generalizações.

Contudo, a partir dos anos 1990, registraram-se transformações importantes nos diferentes campos da pesquisa histórica. A análise qualitativa voltou com prestígio e as experiências individuais superam o antigo pensamento estruturalista-globalizante. Essa perspectiva que explora as relações entre memória e história acaba rompendo com a visão determinista que elimina a liberdade dos indivíduos, colocando em evidência a construção pelos atores de sua própria identidade e acabam reequacionando as relações entre passado e presente.

Assim, a história do tempo presente constitui um lugar privilegiado para uma reflexão sobre os mecanismos de incorporação do social dos indivíduos, pois tem a possibilidade de trabalhar com documentação oficial e relatos sobre os casos de indivíduos participantes do mesmo. Acerca disto Chartier (in AMADO & FERREIRA, 1998) enxerga que a pesquisa de história do tempo presente causa inveja, pois argumenta,

[...] não é uma busca desesperada de almas mortas, mas um encontro com seres de carne e osso que são contemporâneos daquele que lhes narras as vidas. Inveja também de recursos documentais que parecem inesgotáveis [...]. O historiador do tempo presente, por sua capacidade de construir observatórios ajustados às suas preocupações, parece estar em condições de superar os entraves que classicamente limitam a investigação histórica (p. 215-216).

A história do tempo presente pode permitir com mais facilidade as necessárias articulações que tecem os laços sociais. Segundo Frank (in

CHAUVEAU; TÉTART, 1999),

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É função de o historiador trabalhar também as temáticas mais atuais, auxiliando assim as novas gerações a entender o que se passa ao redor delas, dotando-as de capacidade de fazer o “recuo” histórico. Rioux (in CHAUVEAU; TÉTART, 1999) afirma que,

essa história, de fato, por ser feita com testemunhas vivas e (...) levada a desconstruir o fato histórico sob a pressão dos meios de comunicação, porque globaliza e unifica sob o fogo das representações tanto quanto as ações podem ajudar a distinguir talvez de forma mais útil do que nunca o verdadeiro do falso (p.49-50).

Por isso, é imprescindível que haja um posicionamento firme e ético durante a pesquisa, desvinculando ao máximo as inclinações pessoais sobre o tema escolhido, pois, além de testemunha, o historiador é narrador e formador de opinião. Rioux (in CHAUVEAU, 1999), menciona que essas dificuldades metodológicas e não podem ser levadas em conta, já que,

a desistência não resolveria nada. É, pois, a própria sociedade que impulsiona o historiador a não desistir, que lhe sugere não tropeçar diante do obstáculo da proximidade e até mesmo utilizá-lo para melhor saltar (p. 42).

Um dos parceiros da história do presente é a história oral, já que esta é um dos meios o qual pode reconstituir os processos e revelar informações que de outra forma se perderiam. Segundo François (in AMADO & FERREIRA, 1998),

a história oral seria inovadora primeiramente por seus objetos, pois dá

atenção especial aos “dominados”, aos silenciosos e aos excluídos da

história (mulheres, proletários, marginais, etc.), à história do cotidiano e da vida privada (numa ótica que é o oposto da tradição francesa da história da vida cotidiana), à história local e enraizada. Em segundo lugar, seria

inovadora por suas abordagens, que dão preferência a uma “história vista de baixo” [...] atenta às maneiras de ver e de sentir, e que às estruturas

“objetivas” e às determinações coletivas prefere as visões subjetivas e os percursos individuais, numa perspectiva decididamente “micro-histórica” (p.

04).

Além das entrevistas, várias leituras sobre o tema, seguido da elaboração de pareceres, fichamentos e de entrevista com o método indutivo, com questionários pré-estabelecidos com personagens envolvidos no processo.

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o Shopping Independência (Praça Saldanha Marinho) em 2011, em Santa Maria (RS).

O estudo é relevante, além do sentido historiográfico, para compreender os estereótipos que são criados entre os agentes participantes. Vale ressaltar que o estudo em questão não pretende o juízo de valores acerca do tema. Este trabalho pretendeu apresentar e compreender a dinâmica dos vendedores informais, as relações com os lojistas formais, as práticas informais de comércio e como tudo isso é tratado pela sociedade, no período mencionado.

O primeiro subtítulo ‘Nem Macondo, nem Pasárgada: a evolução Urbana de

Santa Maria’, traz uma breve explanação sobre a história da cidade de Santa Maria

e de momentos importantes da história do Brasil. O texto está dividido em quatro momentos: o surgimento da cidade (comissão demarcadora, conflitos e acampamento), a chegada da ferrovia (transformações com o advento do trem e a sua importância da cidade no setor econômico-social do estado), a fundação da Universidade Federal de Santa Maria (e a demanda de serviços daí advindas) na cidade até o início da década de 1990.

O segundo subtítulo, intitulado ‘O pesquisador como Flaneur: um passeio

bibliográfico’, procurou estabelecer um marco/aporte teórico apropriado aos objetivos

do trabalho, abordando os posicionamentos sobre os temas desenvolvidos na pesquisa. Entre os pontos debatidos estão a história urbana (urbanização, expansão, demografia, organização) com ênfase nos estudos de Roncayolo (1986), Lefebvre (1970), Romero (2006), Pesavento (1992), Losnack (2004), Pechman (2002). Sobre a História do Tempo Presente: Rioux (1999), Frank (1999), Chauveau & Tétart (1999). Na sequência, considerações sobre consumismo, modernidade e individualismo na era do capital, temas embasados nos estudos de Canclini (1996), Lipovetisck (2005) e Baumann (2001-2008). E, por fim, Kraychete (2000), Singer (2000), Cacciamali (2000), Santos (2004), Silva e Yazbek (2006) e Pochmann (2000) sobre a questão do trabalho informal no Brasil.

O terceiro subtítulo, chamado ‘Nem Baudelaire, nem Lima Barreto: onde

acaba o passeio e inicia o conflito’, explicita como seu deu o surgimento do trabalho

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1. NEM MACONDO, NEM PASÁRGADA: A EVOLUÇÃO URBANA DE SANTA MARIA

A cidade de Santa Maria, com o passar dos anos, conviveu com distintas alcunhas e títulos. Entre os mais saudosistas, ela ainda é reconhecida por ter sido um dos principais entroncamentos ferroviário do país. Mais tarde (1960), passou a ser a primeira cidade a receber uma Universidade Federal, sem ser a capital do Estado. Acolheu um grande contingente militar desde sua fundação até os dias atuais. As atribuições são diferentes, contudo, podemos notar em todas elas que o prestígio e relevância acompanham a cidade desde sua fundação, em 1797.

O surgimento do centro urbano santa-mariense está diretamente vinculado ao início das atividades empreendidas pelas comissões demarcadoras2 dos reinos Ibéricos, após a assinatura do Tratado de Santo Idelfonso, em 1777. O trabalho destas comissões objetivava a demarcação das fronteiras dos domínios ibéricos na região3 e o fim das disputas entre os envolvidos.

Os regimentos da comissão demarcadora eram formados principalmente por militares, os quais transmitiam a ideia de que a região, por ser um centro militarizado, seria um local seguro para residir e desenvolver práticas comerciais. Foi então que, pensando nesta segurança, diversos grupos populacionais migraram para a região, buscando melhores condições de vida, em um ambiente organizado e próspero. A multiplicação do trânsito de pessoas foi intensa e em pouco tempo o pequeno acampamento acabou tomando ares de vilarejo e, como menciona Belém (1989), a presença do acampamento militar,

2

Segundo Machado (in WEBER & RIBEIRO, 2012) “Apesar da passagem e dos relatos da primeira

Comissão Demarcadora de Limites por Santa Maria, em 1787, este fato não provocou a sua origem ou fundação [...], é definitivamente, com a chegada da Segunda Comissão Demarcadora que Santa Maria começa a se destacar no mapa, estabelecendo-se aqui o acampamento militar da mesma [...] no topo de uma coxilha onde hoje está assentado o centro urbano de Santa Maria, bem como a primeira rua que originou a cidade e deu início a evolução espacial do sítio urbano, a rua do Acampamento” (p. 39).

3

Segundo Rhoeder (in BOEIRA, GOLIN) “a divisão territorial entre as duas potências separava as bacias hidrográficas do rio Uruguai e do rio Jacuí, o que significava a perda do território das Missões,

e sendo estabelecida uma zona de exclusão, denominada de “campos neutrais” entre os territórios de

Portugal e Espanha, ao sul. Somente em 1801, com a invasão das missões e dos campos neutrais pelos luso-brasileiros, ficaram definidos os limites do Rio Grande do Sul junto ao rio Uruguai, a oeste,

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contribuiu para o surgimento do município, atraindo habitantes e abrindo caminhos e estradas. Assim, surgiram as primeiras ruas, a São Paulo que depois passou a ser do Acampamento como lembrança do antigo acampamento militar, e a Rua Pacífica, depois Rua do Comércio (hoje rua Dr. Bozzano), a qual seguia em direção ao Passo dos Ferreiros para a guarda portuguesa (hoje bairro Passo da Areia).

Em 1801, a subdivisão demarcatória deixou a região rumo a capital da província, atitude esta que, diferente do imaginado, não fez com que houvesse um retrocesso no desenvolvimento do povoado, já que mesmo após a volta da comissão demarcadora as migrações permaneceram em ritmo contínuo. Sobre isto, Belém (1989) afirma que,

o povoado continuou [...] recebendo elementos vindos não só da vastíssima comarca de S. Paulo, mas também de Rio Pardo, Cachoeira, Taquari, Triunfo, Viamão e de outras localidades do Rio Grande (p. 40).

No início da década de 1820, o povoado já contava com prestígio regional, sendo visto como um importante ponto de passagem de pessoas e de produtos, contando com algumas vias bem definidas e comércio em fase de ascensão. Ainda na década de 1820, iniciou-se um dos processos que auxiliaria consideravelmente o crescimento regional. Isto é, começaram as migrações provenientes do continente europeu para a região.

O governo imperial decidiu designar regimentos de soldados mercenários de origem alemã4, com a missão de proteger os domínios territoriais brasileiros durante

a Guerra Cisplatina5 (1825-1828). A vinda dos soldados para Santa Maria

beneficiou o setor da segurança, evitando que os ataques dos inimigos do império chegassem as suas fronteiras; o setor econômico-comercial, pois se tornavam consumidores do que a cidadela oferecia e, por fim, após o término da querela,

4

Segundo Machado (in WEBER & RIBEIRO, 2012) “O 28º Batalhão de Caçadores alemães (28º BC)

teve sua origem com a criação do Regimento de Estrangeiros durante o Império, por decreto de 8 de Janeiro de 1823 (...) Este acampou em Santa Maria por volta de 1828” (p.36).

5

“Quatro anos após a sua incorporação oficial ao Brasil, iniciou esta província, em 1825, uma rebelião, de que se aproveitou Buenos Aires para anexá-la, em 25 de outubro do mesmo ano, às Províncias Unidas do Prata. Diante disto, em dezembro o Brasil declarou guerra à Argentina, a qual se estendeu até 1828, trazendo consigo uma série de perturbações: em primeiro lugar, constituiu mais uma alta cargas aos cofres públicos já exauridos do país; em segundo lugar, praticamente interrompeu o abastecimento (...) de gado bovino e muar do Rio Grande do Sul ao Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais; em terceiro lugar, exigiu um grande aumento do recrutamento militar,

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alguns antigos combatentes decidiram manter-se na região, auxiliando assim, no aumento da população e no desenvolvimento local.

O vilarejo não parava de crescer. No início da década de 1830, a população da cidade já chegava aos 3.000 habitantes, convivendo com práticas comerciais a pleno vapor, ganhando corpo e alcance, transformando a cidade em um entreposto comercial que abastecia cidades como Caçapava do Sul, Cachoeira, Alegrete, São Borja (Ribeiro in WEBER & RIBEIRO, 2011, p. 232).

Nem mesmo durante a Revolução Farroupilha a freguesia6 decaiu. Sobretudo por não ter ocorrido nenhum conflito armado de grande proporção, mesmo que a região tivesse sido ocupada por tropas farrapas até o ano de 1840. O início das atividades ferroviárias no Brasil7, no entanto, influenciou na trajetória do pequeno vilarejo.

O ano de 1885 não marcou apenas a chegada da ferrovia à Santa Maria8, mas também da modernidade a cercania. Além da economia, as estradas de ferro transformaram as cidades por onde passavam, no sentido urbano9 e cultural. Sobre

estas mudanças, Grunewaldt (in WEBER & RIBEIRO, 2011) afirma que,

A imagem de vilarejo foi deixada para trás. A Avenida Progresso (atual Rio Branco) tornou-se o eixo comercial da cidade. No final norte dessa avenida encontrava-se a Estação, a gare e as oficinas de manutenção. No outro extremo, a Praça Saldanha Marinho que dava acesso à Rua do

6 Título Alcançado atravé

s da “Lei Provincial n.6, de 17 de novembro de 1837, foi criada a Freguesia

de Santa Maria da Boca do Monte, passando, por isso, o Curato à Paróquia, o que quer dizer que deixava de ser Capela Curada filial da Matriz de Cachoeira para também Matriz” (BELÉM, 1989, p. 95).

7 Sobre isto, Corrêa

(2005) acena que, “a ferrovia no século XIX, nos países em estágio de

desenvolvimento capitalista, auxiliou a promover a industrialização e a urbanização. No caso do Brasil, ela não fomentou a industrialização, mas sim o comércio, já que, no período do seu surgimento (Século XIX) a economia brasileira era predominantemente agrária. Seu foco era a produção e exportação de café. Vale salientar que, as peças para montagem e manutenção dos trens e vias férreas era proveniente de outros centros - principalmente da Europa. Mesmo assim, não podemos ignorar que a presença da malha ferroviária trouxe mudanças em vários setores (economia,

política, social)” (p.30).

8A inauguração da via férrea, trecho Cachoeira Santa Maria, em 1885 foi um marco fundamental no desenvolvimento da cidade. A facilidade do transporte de pessoas e produtos para a capital e outras cidades do interior trouxe um afluxo muito grande de pessoas à Santa Maria. Com isso, foi incentivada a criação de novos hotéis, restaurantes e casas de comércio, que se tornavam atrativos

para os novos visitantes” (CORRÊA, 2005, p. 04).

9 Aos poucos, prédios foram se tornando mais presentes na paisagem e o comércio se fortalecendo. Entre 1883 e 1891 o município passou de 3.224 habitantes para 25.207, número que em 1900 subiu

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Acampamento e à Rua do Comércio (atual Dr. Bozzano). Nesses espaços, imigrantes, especialmente judeus, libaneses e alemães, instalaram casas de comércio, hotéis, restaurantes, cervejarias, jornal, entre outros, fazendo de Santa Maria cada vez mais um polo comercial na região (p. 337).

Modernidade nos meios de produção, nos costumes, nas expectativas, tudo em alcance graças aos avanços tecnológicos e da expansão do pensamento capitalista. Santa Maria passou de cidade interiorana para o posto de centro cosmopolita. A respeito da modernidade e das transformações sentidas na sociedade10,Rangel (1998) afirma que Santa Maria,

experimentou no período compreendido entre 1885 e 1905 o maior desenvolvimento de sua história. Em 20 anos o número de prédios cresceu de 400 para 1.500 e a população urbana de 3.000 para 15.000 habitantes. Com apenas 48 anos de emancipação política e administrativa, em 1905, a cidade já contava com quase todos os requisitos de um pólo urbano regional da época: um jornal, a Gazeta (desde 1883), a iluminação elétrica (1898), um hospital (1898), dois estabelecimentos de ensino secundário, o Colégio Santa Maria e o Colégio Santana (1905), o serviços de telefone e uma intensa vida comercial, cultural e política (p. 04).

Além da ferrovia, Grunewaldt (in WEBER & RIBEIRO) diz que “a criação do

primeiro regimento da cavalaria da Brigada Militar, em 1892 [...] trouxe um grande contingente de pessoas para residirem na cidade” (2010, p. 337), iniciando assim a

tradição que perdura até os dias atuais: a cidade como um grande centro militarizado do país.

Em 1898, a diretoria da Compagnie Auxiliare des Chemis de Fèr du Brésil,

decidiu transferir seus escritórios e oficinas para a cidade, transformando esta na

‘cidade ferroviária’.

Assim, Santa Maria passou de coadjuvante para o papel de protagonista no estado. As escolas, o setor comerciário e as oportunidades de emprego na ferrovia, fizeram com que o centro continuasse sendo o destino de grupos sociais do interior e de outras cidades. Belém (2000) apresenta números sobre o crescimento dos

prédios na cidade, que, segundo ele, “no ano de 1893, a cidade possuía registrados

496; em 1900 era 1.251; em 1912 o número chegara a 2.409 e em 1920 atingira a

2.956 prédios” (p. 184).

10Grunewaldt (in WEBER & RIBEIRO, 2011) acena que durante a década de dez, do século XX, que

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O quadro de crescimento acaba por ser interrompido em 1917, quando a organização da ferrovia passa a apresentar seus primeiros sinais de fragilidade. Neste ínterim, os funcionários passaram a questionar os contratantes no que dizia respeito às condições de trabalho, acarretando assim, em movimentos grevistas11, desgaste na relação das partes envolvidas e, além do mais, os serviços não mantinham o alto nível do passado. Muito disto era causada por problemas financeiros que a Compagnie enfrentava. Percebendo este quadro, o governo decidiu interferir e, em 1920, sob o governo estadual de Borges de Medeiros12, rescindiu o contrato com os belgas.

A estatização era uma nova realidade que trouxe a ferrovia momentos de estabilidade, com o aumento e o melhoramento das linhas, compra de novos

equipamentos e ‘paz’ nas relações com os funcionários. Todavia, com a crise de

1929, a situação da VFRGS complicou-se tanto que nem o auxílio federal e corte de gastos mudaram o quadro. Nos anos que se seguiram, o transporte ferroviário foi

entrando em declínio e, como diz Ribeiro (1979), “este não tendo mais o apoio

necessário dos governantes, e sendo vítima de uma má administração, começa a

enfrentar um longo processo de decadência” (p. 24).

O golpe final nas atividades da ferrovia se deu nos anos do governo Juscelino Kubitschek13 (1956-1961), o qual privilegiou algumas áreas da economia,

como o setor automobilístico e rodoviário, deixando de lado o transporte férreo. Sobre o governo, Singer (in LOSNAK, 2004, p.121) acena que,

houve investimentos em várias áreas (produção siderúrgica, de eletricidade, alumínio, de cimento, de celulose, refino de petróleo, crescimentos nas áreas de material de transporte e transporte propriamente dito, de material

11

“Os ferroviários [...] estavam descontentes com as condições de trabalho e com os baixos salários,

cujos valores eram insuficientes para suprir as necessidades [...] de habitação, alimentação e saúde”

(FLÔRES, 2007, p.117).

12

“Borges de Medeiros governou o Rio Grande do Sul durante praticamente um quarto de século

(entre 1898 e 1908 e entre 1913 e 1928) consolidando definitivamente o poder do PRR (Partido Republicano Rio-grandense). Um [...] aspecto fundamental do governo borgista foi sua política de transportes, entendido como o principal problema para o desenvolvimento econômico do estado. As condições precárias das ferrovias e do único porto marítimo (Rio Grande) passaram a ser objeto da atenção governamental, o que acabou culminando na nacionalização (encampação) [...]. Essas medidas tinham caráter intervencionista e foram tomadas em um conjuntura de crise econômica, pós- Primeira Guerra” (KUHN, 2002, p. 117).

13

“Resumia seu governo com as ideias de movimento, ação e desenvolvimento. Seu maior compromisso foi acelerar as transformações e o crescimento econômico do “gigante adormecido”

para transformá-lo em uma nação próspera em todos os quadrantes de seu território” (Moreira in

(17)

elétrico, de química, de mecânica, metalúrgica e borracha, dentre outros) articulados ao boom do pós-guerra e à difusão do capital internacional por alguns países pobres.

O quadro de desilusão e desconfiança em que se inicia a década de 1960 assustava aqueles acostumados com os áureos tempos da ferrovia em Santa Maria. As mudanças eram constantes e o centro urbano era seu principal alvo. Contudo, a população continuou a crescer com a chegada de novos empreendimentos no município. Dentre eles, podemos destacar a UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) na década de 1960 e a Base Área, na década de 1970.

Neste contexto, a fundação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) pode ser entendida como uma maneira de manter o destaque/força da cidade no contexto político-econômico. Solidificando a ideia de “Metrópole Educacional do Estado”,14 pressuposto este que se encaixa no que entende Carlos (2011) sobre as ‘cidades vendidas’. O autor acena que,

as cidades que passam a ser “vendidas” dentro das políticas do Estado, que, no atual estágio do regime de acumulação capitalista, procura cumprir com uma agenda estratégica de transformações exigidas para a inserção econômica das cidades nos fluxos globais. Nesse contexto, não basta renovar as cidades, é preciso vendê-las e, ao fazê-lo, vende-se a imagem da cidade renovada (p. 51).

Com a fundação da Universidade Federal, a cidade de Santa Maria encontrou, neste novo agente, um mecanismo para a manutenção do status quo

alcançado nos anos da estrada de ferro. Em suma, o entroncamento ferroviário era passado, a realidade era de um pólo educacional em desenvolvimento e a cidade deveria moldar-se para compor este novo ‘cliente’. O comércio, as habitações, os

meios de comunicação, lazer, o setor de saneamento, vias e acessos, tudo passou a girar em torno da Universidade. O eixo principal da cidade não era mais a Avenida Rio Branco. O centro passou a ser a Rua do Acampamento e seus arrabaldes, sobretudo na Rua do Comércio (atual Rua Dr. Bozano), onde as lojas se empilhavam cada vez mais.

Durante o governo civil-militar (1964-1985), as políticas econômicas visaram à diminuição dos processos inflacionários15 que o país convivia constantemente e o

14

Segundo BEBER (1998) A cidade de Santa Maria, desde meados da década de 1920, conviveu

(18)

desenvolvimento econômico. Para tal, o governo institui ‘achatamento salarial’,

alcançando a diminuição do poder aquisitivo da grande parcela da população. Como Santa Maria consistia em um centro urbano, cuja estrutura se firmava no setor terciário, a diminuição dos rendimentos e dos empregos também refletiu na cidade. Para piorar a situação, o êxodo rural-urbano ganhava cada vez mais força e os contingentes que se destinaram para cá passaram a conviver com um grave problema: a habitação. Botega (in RIBEIRO & WEBER, 2012) afirma que, “entre

1950 e 1990, a população urbana da cidade cresceu impressionantes 410%” (p. 75). A primeira metade dos anos 90 marca a posse do primeiro presidente eleito pelo voto direto, Fernando Collor de Mello. As reformas propostas por Collor, introduziram uma ruptura com o modelo brasileiro de crescimento com elevada participação do Estado e proteção tarifária, ainda que, na prática, a abertura comercial e financeira, bem como o processo de privatização, apenas deram seus primeiros passos no período de 1990-94.

Os problemas causados pelas crises da economia nacional fizeram com que o mercado de trabalho se tornasse um ambiente de insegurança e tensão. Influenciado pela ótica capitalista, algumas parcelas da sociedade, geralmente as com menor grau de instrução e poder aquisitivo, passaram a buscar saídas para permanecerem nos centros urbanos e desenvolverem suas atividades. Todavia, nem todos encontraram possibilidades para ascender na sociedade, procurando assim, formas de burlar estas dificuldades. Neste quadro a atividade de comerciante informal se apresenta como uma das possibilidades.

2. O PESQUISADOR COMO FLÂNEUR: UM PASSEIO BIBLIOGRÁFICO

Para o perfeito Flâneur (...), é um

imenso júbilo fixar residência no

numeroso, no ondulante, no

movimento, no fugidio e no infinito. (BAUDELLAIRE, 1988, p.170).

Pode-se compreender a modernização como um resultado da busca incessante por melhores qualidades de vida, vinculada com desapego ao já consagrado, ao antigo, que passa a ser entendido como ultrapassado, obsoleto.

Em Agosto foi divulgado o principal documento de estratégia econômica do governo Castelo Branco:

(19)

A cidade de Santa Maria se encaixa como ‘centro atrativo’ na ótica do

capitalismo, já que, levando em conta sua localização geográfica, processo de fundação e trajetória socioeconômica, se encaixa perfeitamente em um exemplo de cidade burguesa, que sofreu seu boom de crescimento na mesma época dos câmbios econômicos no final do século XIX, início do XX.

O pequeno vilarejo passou então por um considerável crescimento em seu contingente populacional16, comportando indivíduos extenuados das atividades que pareciam não lhe permitir o salto qualitativo almejado para sua vida e que entendiam a cidade como uma espécie de trampolim para alcançar os objetivos. Esse era o mote do modernismo, ou seja, as melhorias de vida.

A chegada destes novos moradores, como era de se esperar, iniciou imensas transformações na organização da cidade, dentre as quais merecem destaque: uma maior movimentação de recursos financeiros17, a expansão das atividades econômicas18 e mudanças na paisagem urbana19.

A cidade passou a ser um ambiente de heterogeneidade crescente, comportando diferentes costumes e aspirações. Com essa explosão urbana o perfil da cidade muda e, com isso, crescem os descontentamentos daqueles que desfrutaram dela em épocas anteriores, as quais eram mais aprazíveis e tranquilas, sem diferenciação e correria.

Romero (2006) destaca que,

16 Acerca disto, Grunewaldt (in

WEBER & RIBEIRO, 2010) afirma que “Entre 1883 e 1891 o município

passou de 3.224 habitantes para 25.207, número que em 1900 subiu para 33.524. E o número de edificações subiu de 486 em 1894 para 1323 em 1900 e para 1904, em 1904”.

17 Padoin (in WEBER & RIBEIRO, 2010) exemplifica a influência das ferrovias em Santa Maria, dividindo em dois períodos: o que se estende de 1858 (instalação do município) a inauguração dos trilhos em Santa Maria, em 1885 e, o período posterior, até 1958. A média de arrecadação de 1858 a 1884, no período de vinte e seis anos foi de 4.769$847 e de 1885 a 1889, a média de arrecadação é de 43. 312$ 666, no período de quatro anos. Verifica-se que, a partir de 1885, com a instalação dos trilhos em Santa Maria, a rede municipal no período de quinze anos aumentou em 523% em relação aos anos anteriores. Santa Maria em 1910 possuía uma renda superior em 102,62% de Cruz Alta, de

151,13% em relação a Passo Fundo e de 179,40% em relação a Rosário do Sul” (p.329).

18 Como afirma Belém (1989),

“o comércio era um ‘milagre germânico’ [...] foram os alemães os grandes animadores do comércio da região central da província, com lojas de fazendo, armazéns e secos e molhados, tamancaria, ferraria, etc.” (p.106).

19 Segundo

Marchiori & Noal (1997) “no final do século XIX, já existiam na localidade 33 ruas, 7

praças, 5 fontes públicas, 1 hipódromo, um olaria a vapor, uma fábrica de café, 4 fábricas de cerveja, 2 fábricas de sabão, uma fábrica de gasosa, 2 fábricas de licores, diversas fábricas de vinho, de

(20)

as velhas sociedades começaram a transformar-se (...) Não demorou a perceber-se o resultado, e o sistema tradicional das relações sociais começou a modificar-se. Onde havia um local preestabelecido para cada um, começou a aparecer uma onda de aspirantes a cada lugar (p. 295).

A presença da estrada de ferro contribuiu para o desenvolvimento do setor terciário e do transporte de produtos para outras cidades, vilas menores, e regiões litorâneas. Com isso, novas fontes de trabalho apareciam aos montes nesta época. Segundo Romero, “a passagem dos serviços subsidiários da vida urbana para o

pequeno comércio foi um dos esquemas típicos da ascensão social nas classes

populares das cidades que cresciam” (2006, p.306).

Acerca disto, Losnak (2004) salienta que,

graças às ferrovias, a cidade sofreu um direcionamento mais acentuado de seu perfil econômico, com a predominância do setor terciário da economia. Mudanças aceleradas tiveram início: chegada dos trabalhadores da construção da linha e das instalações e depois de funcionários das ferrovias, ampliando o mercado local com a intensificação e a diversificação de comércio e serviços (armazéns, restaurantes, pensões, hotéis, prostituição, bares, casas de aluguel, materiais de construção, fornecimento de alimentos, serviços manuais especializados e não especializados, serviços burocráticos, depósitos).

Com esse crescimento espacial e demográfico, as cidades perderam o

antigo sentido. Sobre isto, Bresciani (1997) entende que “a cidade é produto da arte

humana, simboliza o poder criador do homem, a modificação/transformação do meio

ambiente, a imagem de algo artificial, um artefato enfim” (p.14). Sobre as mesmas mudanças, Romero (2006) afirma que,

em todos os segmentos da sociedade houve uma expansão que criou novas possibilidades e expectativas. A cidade era, basicamente, um centro intermediário, e as necessidades dessa função multiplicavam as da própria produção (2006, p.308).

A modernidade que tomava conta da urbe trouxe inovações, mas também destruiu. O novo veio com a destruição do velho. Sobre o assunto Marx (in Berman, 1987) acena que,

todas as relações fixas, enrijecidas, com seu travo de antiguidade e veneráveis preconceitos e opiniões, foram banidas; todas as novas relações se tornam antiquadas antes que cheguem a se ossificar (p. 20).

(21)

elemento de destruição, que ameaça valores” (p. 9). Ou seja, a modernidade gera

sentimentos dúbios no homem.

Em seus objetivos, a modernidade20 visa à libertação do homem, sem distinção de sexo, cor, raça, credo ou opinião, que a razão devia emancipar a humanidade, que a sociedade civil devia ser livre a atuar sobre uma sólida opinião pública que geraria tanto o dissenso como o consenso. Entretanto, o que ocorreu na maioria dos casos foi o oposto do pregado. Ou seja, o progresso material/econômico dos indivíduos/sociedade não foi acompanhado de maior liberdade, nem da emancipação almejada. Houve sim, intensas fragmentações, dependências e desigualdades.

O crescimento fez com que a cidade tradicional fosse vista agora como a

‘cidade velha’, tornando-se insuficiente na nova realidade. Isso estava diretamente vinculado com os problemas de ordem organizacional na urbe, pois os mesmos a aumentaram em grande escala. O antigo centro urbano não estava conseguindo comportar as necessidades desta crescente demanda e mudanças nas organizações se fizeram necessárias, tudo almejando maior dinamismo e progresso. Segundo Giovanaz,

a relação estabelecida entre o homem e a urbanidade é uma relação em constante tensão, pois a cidade é algo sempre inacabado, sempre demandando outras ações de controle, de construção. [...] ela configura-se, cada vez mais, como algo inacabado ou defeituoso (1996, p.41).

A cidade deveria se organizar de maneira que comportasse, sem problemas, o contingente populacional que nela habitava. Para isso, bairros novos foram organizados, escolas foram sendo construídas, serviços de infraestrutura reorganizados. Sobre isto Souza (in PESAVENTO, 1992) diz que os,

conceitos de ruas e praças foram sendo reformuladas, assimilando novas formas, explicitadas através de suas morfologias e tipologias arquitetônicas. Novas ideias, novas tecnologias e mão de obra mais qualificada foram responsáveis pelas mudanças na produção do espaço urbano (p.11).

Dentre os principais reorganizadores urbanos da virada do século XIX, estava o ex-prefeito de Paris, o Barão Georges-Eugène Hausmann (1853 e 1870), o

20

Sobre o termo ‘modernidade’ será utilizada a divisão feita do Peter Burke (2008, p. 27) que entende a modernidade passando por três momentos “a primeira, que vai aproximadamente 1650 a 1850; a segunda, que vai de 1850 a 1950; e a terceira, que vai de meados ou fim do século XX até o

(22)

qual, segundo Fabris (2011, p. 137) pregava que a cidade deveria seguir algumas premissas básicas, como: isolar-se dos grandes edifícios (quartéis, palácios), pensando tanto na parte estética quanto no celebrativo-defensivo; melhoramento do estado de saúde da cidade por meio da destruição sistemática de becos infectos e outros focos de epidemias; criação de amplos bulevares, que auxiliariam na circulação do ar, da luz e acesso; estabelecimento de um sistema de ligação entre as estações ferroviárias e os centros comerciais e de lazer, visando acabar com os congestionamentos e os atrasos.

Vale destacar que em Santa Maria e na maioria de outros centros, esses ensinamentos não foram seguidos à risca. Mesmo assim, as mudanças instituídas

fizeram com que os ‘novos’ centros urbanos passassem/potencializassem a

formação de estilos de vida caracterizados pela constante diferenciação social e perda dos vínculos pessoais. Pechman (2002) entende que o desenvolvimento de

“novos padrões de sociabilidade” levou a uma percepção de que o mundo dividia-se entre aqueles tocados pela Politesse (civilizados) e aqueles à parte de qualquer vínculo social (bárbaros) (p.136). Sobre estes processos, Lefebvre (1970) diz que,

a realidade urbana, ao mesmo tempo em que amplifica e estilhaça, perde os traços que a época anterior lhe atribuía [...] perde-se a antes presente totalidade orgânica, sentido de pertencer, imagem enaltecedora (p. 26).

Vários mecanismos passam a serem desenvolvidos visando tal controle, entre eles, no caso de Santa Maria, os códigos de postura que, segundo Grunewaldt (in WEBER & RIBEIRO, 2011. p. 342) serviram “para ordenar a cidade segundo

valores burgueses, controlar o espaço público impondo regras à rua, as diversões,

ao comércio, a higiene domiciliar e a moral”. Em suma, tais códigos consistiam em

formas de modelação social, maneiras de conter a sociedade que passava por um processo de ebulição, designando, a cada indivíduo, um local específico e maneiras recomendáveis de agir neste local.

Losnak, afirma que,

a noção de “limpeza” articulava-se com concepções da cidade higiênica da sociedade moderna. A higienização conjugava saneamento e embelezamento do espaço urbano com a expulsão dos “tipos sociais”

(23)

Para os segmentos sociais que destoavam – marginalizados - cresceram os mecanismos cerceadores dentro da cidade. Além dos códigos de conduta, a polícia

e a imprensa aparecem como observadores e delatores dos vistos como ‘diferentes’. Sobre a imprensa, Angel Rama (1985) a entende como sendo “a maior invenção da

modernidade e ferramenta mais forte dos grupos dominantes”. Acerca da

participação da polícia Pechman (2002) vê que,

dentre as instituições criadas, se destaca a polícia como articuladora de uma ordem que se impunha diante do quadro de transformações econômicas, políticas, institucionais e culturais pelo qual passava o país (p.107).

Mesmo com esses mecanismos de controle das massas, ninguém queria renunciar o seu direito à cidade, pois era lá que tudo acontecia. Sendo assim, o crescimento demográfico era gradual e a importância do centro urbano também crescia21. Sobre isto, Romero (2006) vê que,

assim como no caso da explosão social do final do século XVIII, a que ocorreu depois da crise de 1930 consistiu, sobretudo em uma ofensiva do campo sobre a cidade, de modo que se manifestou sob a forma de uma explosão urbana que transformaria as perspectiva da América Latina. (...) As migrações e o alto índice de aumento vegetativo contribuíram para provocar o crescimento quantitativo das cidades. Outras circunstâncias concorreram para que houvesse, na nova estrutura social das cidades que cresciam uma transformação qualitativa que influiria sobre as características da explosão urbana (p. 355-361).

Os grupos eram outros, mas as expectativas eram as mesmas – melhores condições de vida e oportunidades de ascensão. Todos queriam viver na cidade e aproveitar a proximidade com os centros financeiros, administrativos e políticos. Ali o

imigrante poderia encontrar ‘trabalho urbano’ nos serviços, no comércio ou na

indústria, e talvez, com altos salários, alcançasse as melhorias desejadas.

Entretanto, a realidade era diferente, já que as políticas públicas não iam ao encontro às necessidades da grande massa populacional que habitava os centros urbanos e, por essa postura do Estado, o que ocorreu gradualmente é o

‘sucateamento’ das cidades. Acerca disto, Castells (1980) entende que,

21

“A partir da década de 1920, a cidade de Santa Maria passou a ser conhecida como um centro

(24)

a crise urbana conhecida por experiência própria pelos habitantes das grandes cidades provém da crescente incapacidade da organização capitalista para assegurar a produção, distribuição e gestão dos meios de consumo coletivo necessários à vida cotidiana, da moradia às escolas, passando pelos transportes, saúde, áreas verdes, etc. (p.20).

A cidade estava mudando novamente. Sobre isto Romero disse que,

no início, foi o número de habitantes que alterou o perfil da cidade, e que chamou a atenção para algo que estava mudando. Mais pessoas foram vistas nas ruas; começou a ser difícil encontrar casa ou apartamento; começaram a surgir moradias precárias em terrenos baldios, que de modo rápido formaram bairros; tornou-se difícil pegar um bonde ou um ônibus (2006, p. 382).

O surgimento de moradias precárias em terrenos baldios está relacionado à progressiva disputa pelos territórios nas cidades. A localização perto dos locais mais rentáveis da cidade trazia implícita a posição daqueles que a habitavam. Neste pensamento, morar no centro da cidade denotava importância pessoal, e os mais afastados ficariam inseridos no grupo menos abastado. Carlos (2011) vê que,

o espaço produzido se torna mercadoria, assentado na expansão da propriedade privada do solo urbano no conjunto da riqueza. [...] O resultado é a cidade como mercadoria a ser consumida e, nessa direção, seus fragmentos são comprados e vendidos no mercado imobiliário, sendo que a moradia é uma mercadoria essencial à reprodução da vida (p.120).

A partir da década de 1940, a cidade de Santa Maria passou a conviver com o declínio dos trabalhos ferroviários, causando certa apreensão sobre o futuro da cidade, pois seu principal meio de destaque e lucratividade demonstrava sinais de fraqueza. A ferrovia estava com problemas22 e seu processo de declínio apenas aumentou com os anos, chegando ao seu ápice com sua substituição gradativa pela novidade dos anos Juscelino Kubitschek: o transporte rodoviário23.

O Brasil passava pelo surto de industrialização, o qual é compreendido por Santos (1993) como um,

22

“A associação Comercial, representando o pensamento do comércio e da indústria, promoveu

diversas campanhas pedindo maior eficiência e rapidez no transporte de cargas e encomendas. Além das deficiências administrativas e materiais, os serviços da ferrovia eram prejudicados pelas longas greves e reivindicações dos ferroviários” (BEBER, 1998, p.76-77).

23

Que tinha como principal objetivo “a interiorização, com a eliminação das grandes distâncias do

país-continente, fator considerável indispensável ao desenvolvimento do Brasil.”. Tratava-se de iniciar

(25)

processo social complexo, que tanto influi na formação de um mercado nacional, quanto nos esforços de equipamento do território para torná-lo integrado, como a expansão do consumo em formas diversas, o que impulsiona a vida de relações (leia-se terceirização) e ativa o processo de urbanização (p.27).

Paralelo a isso, o setor da agricultura nacional passava por consideráveis mudanças, a maioria girando em torno da introdução de novas tecnologias, especialmente na região Centro-Sul, modificando sua estrutura e fomentando a desigualdade social. O modelo político24 passa a dar preferência aos grandes proprietários de terra em detrimento aos pequenos produtores rurais.

A mecanização do campo acarretou a diminuição da necessidade de mão de obra drasticamente, provocando, com isso, forte êxodo rural em direção aos ‘centros atrativos’ – leia-se centro urbano. Segundo Muller & Martine “durante as décadas de 1960 e 1970 quase 30 milhões de pessoas deixaram o campo, rumo às cidades”

(1997, p. 86).

Muitas das pessoas vivendo no campo migraram para a cidade e incorporaram-se à intensificação da produção e das relações capitalistas. Com relativo sucesso, envolveram-se com atividades sociais, movimentos de bairro e partidos políticos, criando novas identidades sociais. Lefebvre (1970) entende que, a partir disto, a cidade entra na sua fase de implosão-explosão, consistindo em uma enorme concentração de pessoas, atividades, riquezas, coisas, objetos, instrumentos, meios e pensamentos. Abordando o mesmo fato, Romero nota que,

o número de habitantes mudou a maneira de locomover-se dentro da cidade. As estreitas ruas do velho centro urbano tornaram-se insuficientes para a crescente concentração de pessoas. [...] Aos poucos se notava que ninguém conhecia ninguém. O número de habitantes ultrapassou a capacidade de transporte urbano. Aumentou o número de automóveis. [...] Alargamentos, pavimentações e severos controles de trânsito procuraram aliviar a gravidade dos problemas criados, sobretudo, pelo número incontrolavelmente crescente de automóveis. [...] A fisionomia tradicional das cidades, um tanto achatada, foi substituída pela crescente quantidade de edifícios de apartamentos: primeiro no centro, e pouco a pouco nos bairros (2006, p.383).

24Durante a Ditadura Militar, a opção da política econômica era atender ao consumo dos setores médios e às classes dominantes. Com o aumento da produção de bens duráveis, semiduráveis e de manufaturados, as classes médias passaram a ter maior possibilidade de consumo, principalmente a partir do período do “milagre”, com novas e melhores opções de emprego, reajustes salariais,

(26)

O processo de globalização iniciado na década de 1960 chega forte aos centros periféricos após a crise dos anos 1970-8025, trazendo modificações em

todos os segmentos da sociedade. O conceito de globalização pode ser compreendido de inúmeras formas – complexo, ambíguo e ideológico. Dá-se destaque ao conceito elaborado por Vieira que associa a globalização,

a processos econômicos, como a circulação de capitais, a ampliação dos mercados ou a integração produtiva em escala mundial. Mas também fenômenos da esfera social, como a criação e expansão de instituições supranacionais, a universalização de padrões culturais e o equacionamento de questões concernentes à totalidade do planeta (1997, p.73).

Além de todas as mudanças no âmbito econômico, a globalização mexeu forte na comunidade, nos desejos, objetivos e sonhos. Os valores antes estabelecidos deixaram de ser plausíveis e a identidade nacional perde espaço para uma constante – e utópica - busca por homogeneização pelos setores menos abastados.

A igualdade tão sonhada desde os primórdios do modernismo voltou novamente ao palco. A ostentação de ‘poder’ moldou as relações e neste ínterim a

cultura das massas teve papel importante, já que, através de um dos seus mecanismos primordiais, este pensamento foi potencializado e, gradativamente, encorajado. Estamos falando dos meios de comunicação – as mídias – e seu poder na formação de opinião.

A ideia de igualdade e ascensão social são temas constantes nos meios de comunicação – filmes, revistas, desenhos, telejornais, programas esportivos, novelas -, pregam que tudo é possível, desconsiderando o contexto de cada indivíduo. Entretanto, sabemos que a grande parcela da sociedade ainda sofre com

o abismo existente entre ‘o querer ter e o poder ter’, ou seja, entre o sonho e o real.

Neste contexto, ganha corpo a ideia de que através do consumo26 tais distâncias

25

“Tendo em vista os dados macroeconômicos, se nos anos 70 o crescimento econômico flutuou entre 6% e 8%, a década de 80 foi considerada perdida para a maioria dos países da América Latina e Caribe. A dívida externa atingiu níveis alarmantes. A inflação era crescente e parecia incontrolável. Os países da região – com exceção de Chile, Cuba e Colônia – tiveram perdas expressivas na renda per capita. Em face de essa situação, programaram-se políticas neoliberais com os programas especiais de ajuste econômico” (WANDERLEY, 2000, p. 126-127).

26

Featherstone “identifica três perspectivas fundamentais sobre a cultura do consumo. A primeira é a

(27)

serão diminuídas e quem lucra com isso é a economia – representada pelas grandes empresas (marcas).

Sobre o consumismo, Zygmunt Bauman (2002) diz que,

O “consumismo” é um tipo de arranjo social resultante da reciclagem de vontades, desejos e anseios humanos rotineiros, permanentes e, por assim

dizer, “neutros quanto ao regime”, transformando-os na principal força propulsora e operativa da sociedade, uma força que coordena a reprodução sistêmica, a integração e a estratificação sociais, além da formação de indivíduos humanos, desempenhando ao mesmo tempo um papel importante nos processos de auto-identificação individual e de grupo, assim como na seleção e execução de políticas de vida individuais (p. 41).

Com isso, nota-se que a preocupação da população gira em torno da aceitação dos outros. A ostentação forja as identidades, constrói uma imagem/personalidade para a sociedade: a sociedade da não satisfação perpétua27

como superficial, individualista e competitiva.

Canclini (1996) salienta que vivemos em um tempo de fraturas e heterogeneidades, de segmentações e comunicações fluídas dentro de cada nação. A globalização não trouxe a homogeneidade, muito pelo contrário, ajudou no crescente sentimento de heterogeneidade, o ser/estar diferente. Sennett (1988) diz que,

por causa desse deslocamento, as pessoas procuraram encontrar significações pessoais em situações impessoais, em objetos e nas próprias condições objetivas da sociedade (p. 318).

Mesmo assim, em meio a essa heterogeneidade crescente, os seres

humanos encontram códigos que os “assemelham” aos demais. Esta preocupação

com a homogeneização não está ligado ao conceito de igualdade, mas sim à capacidade de inserção em certo nicho. A elaboração de tais códigos leve cada vez menos em conta questões étnicas, de classistas, ou nacionais, já que, atualmente o

de compra e consumo (...) que são considerados por outros como alimentadores da capacidade de

manipulação ideológica e controle “sedutor” da população, prevenindo qualquer alternativa “melhor”

de organização das relações sociais. Em segundo lugar, há a concepção mais estritamente sociológica de que a relação entre a satisfação proporcionada pelos bens e seu acesso socialmente estruturado é um jogo de soma zero, no qual a satisfação e o status dependem da exibição e da conservação das diferenças em condições de inflação. Nesse caso, focaliza-se o fato de que as pessoas usam as mercadorias de forma a criar vínculos ou estabelecer distinções sociais. Em terceiro lugar, há a questão dos prazeres emocionais do consumo, os sonhos e desejos celebrados no imaginário cultural consumista e em locais específicos de consumo que produzem diversos tipos de

excitação física e prazeres estéticos” (1995, p.31).

27

(28)

que pauta as relações e, em certo grau difere os indivíduos, é a sua capacidade de consumir. Consumir não apenas no sentido de compra de produtos industrializados, mas em costumes, ideologias e formas de agir. As pessoas não estão incorporadas à esfera pública como cidadãos, agora são vistas como clientes, consumidores condicionados a comprar incessantemente.

Contudo, as desigualdades sociais e de rendimentos dificultam este processo de inserção. Somado a isso, o contexto econômico-trabalhista da década de 1990, torna mais nítido o fenômeno do desassalariamento, influenciado, principalmente, pela redução dos empregos assalariados com registro.

Sobre isto, Cardoso Junior (1999) acena que a,

[...] recessão doméstica no início dos anos 90, por sua vez, agiram no sentido de aprofundar as inserções ligadas aos serviços prestados às empresas (serviços produtivos), comércio e transportes (serviços distributivos), serviços prestados às famílias (serviços pessoas) e serviços não mercantis (serviços diversos). Ao mesmo tempo, acentuaram-se as inserções ocupacionais consideradas informais [...], assalariados sem carteira e trabalhadores autônomos por conta própria (p. 28).

Entre 1994 e 1999, embora a economia tenha apresentado evolução positiva do PIB, o volume de emprego assalariado com carteira profissional em todo o país foi reduzido em 1,5 milhão. Nos anos 1990, portanto, há uma forte ampliação das ocupações por conta própria, visando fugir da crise do desemprego28. Pochmann (in

SILVA & YAZBEK, 2006)

Desde 1990, com a opção pela abertura da economia brasileira, as principais fontes geradoras de novas ocupações foram fortemente comprimidas. O setor industrial, por exemplo, terminou sendo emblemático desta situação. Somente na década de 1990, cerca de 1,2 milhão de postos de trabalho do setor secundário foram destruídos pela nova situação de abertura da economia brasileira. Além disso, o setor privado terminou adotando novas práticas de gestão de mão de obra, como uso recorrente da terceirização [...]. Todas essas modalidades [...] foram favoráveis tanto ao corte de pessoal como à intensificação do tempo de trabalho entre os ocupados, mesmo que recebessem salários decrescentes em termos reais (p.30-31).

28

(29)

Essa conjuntura, que combina ao mesmo tempo a elevação da taxa do desemprego e da precarização, amplia o espaço da informalidade29 na década de

1990, agravando ainda mais a heterogeneidade presente na estrutura ocupacional no país. A partir e motivado por isso, o comércio informal30 toma forma em Santa Maria, acarretando no aumento do número e força destes vendedores, o que traz consigo descontentamentos dos setores formais, algo recorrente na história, pois,

como nos assinala Braudel (1985) “a venda ambulante é sempre uma maneira de

contornar a ordem estabelecida do sacrossanto mercado, de zombar das

autoridades” (p. 65).

A relação entre informalidade e a pobreza é algo cuja compreensão não se dá mecanicamente ou de maneira simplista, mas requer que se entendam as interfaces que unem as desigualdades, a pobreza e o trabalho na conjuntura do capital. Além de motivações econômicas, com o modelo econômico voltado e subordinado ao exterior, também auxilia na reprodução da desigualdade. Também se devem levar em conta outros pontos estruturais da sociedade contemporânea que influenciam no crescimento das práticas informais. Entre ela estão: o desordenado crescimento das cidades, a precarização dos setores públicos, saneamento, escolas, saúde, segurança.

Com este contexto, os indivíduos procuram maneiras mais ‘factíveis’ de

alcançar o tão sonhado ‘sucesso’. Seguindo este raciocínio, a seguir abordam-se os processos que ajudam a explicar o porquê do boom dos ambulantes em Santa Maria (RS).

3. NEM BRAUDELAIRE, NEM LIMA BARRETO: ONDE ACABA O PASSEIO E INICIA O CONFLITO.

29

“No Brasil, a informalidade apresenta-se heterogênea, envolvendo grupos de trabalhadores com

qualificação diferenciada e variadas formas de organização da produção. Está articulada de forma subordinada aos movimentos de expansão e reprodução do capital. Seu espaço é ampliado ou reduzido de acordo com esses movimentos, já que, em seu interior, estão atividades criadas para

(30)

3.1 Dos artesãos aos primeiros anos do Camelódromo: considerações sobre a ascensão do trabalho informal em Santa Maria (1980-1995)

O trabalho informal31 em Santa Maria, nos moldes que conhecemos hoje, tem seu início na década de 1980. Durante os primeiros anos, estas atividades foram desenvolvidas por pequenos grupos de artesãos locais que ficavam expondo seus trabalhos manufaturados pelas principais ruas da região central de Santa Maria. Dentre os motivos que acarretaram na formação e, posteriormente, na proliferação deste tipo de atividade, o comerciante João Mafalda (antigo artesão que atualmente tem um Box no Shopping Independência) menciona que,

o trabalho na rua se iniciou, por necessidade, pois sendo novo na cidade, não tinha conhecidos. O que prejudicava para conseguir trabalho e lugar pra ficar. Eu cheguei aqui em Santa Maria com uma mochilinha nas costas e na época eu me tornei um artesão, era o hippie, né?! [sic]. E na época, comecei a expor o meu trabalho, com uma mesinha pequena, um paninho, uns aramezinhos, foi o jeito honesto que eu achei pra viver (2012).

Neste momento, os principais produtos comercializados eram brincos, colares, acessórios para casa. Muitos quesitos auxiliaram na solidificação das atividades informais em Santa Maria. Segundo Franchi (2012) “inicialmente não havia muita concorrência no setor, fato que auxiliou os trabalhadores na formação de uma clientela fiel e recorrente, alcançando assim maiores lucros”.

Segundo o entrevistado Miguel Antônio Montano Franchi (antigo artesão e atual comerciante do Shopping Independência), a localização dos artesãos variava pouco. A escolha das ruas centrais ia ao encontro com a percepção de que o centro da cidade se caracterizava por seu o local de maior fluxo de indivíduos, sendo mais rentável do que regiões de menor trânsito. Para Franchi,

[...] os artesãos ficavam circulando pela Praça Saldanha Marinho e em volta do Banrisul. Bem antes, nos colocamos perto do Museu Gama d’ Eça ali na entrada nós fazíamos uma exposição. Naquele momento, permitiam e a gente trabalhava só com artesanato (2012).

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Outro ponto relevante no desenvolvimento do comércio informal foi a crescente inflação que assolava o país. Com isso, mais pessoas acabaram por perder seus empregos devido ao enxugamento de alguns setores e passaram a ver o comércio como uma forma honesta de alcançar os rendimentos necessários para alimentação e moradia. Não tardou e esse novo setor informal passou a crescer desordenadamente, sem controle e dotado de parca fiscalização. Esta falta de organização fez com que essas mudanças, em muitos casos, não fossem encaradas como algo benéfico. Segundo o empresário Mário Gaiger “a fiscalização era muito

deficiente, pois naquela época os fiscais da prefeitura eram mínimos [...] e acontecia

de a fiscalização bater e ser aquela correria” (2012).

Algum tempo depois a situação era de tensão progressiva. Os trabalhos não permaneceram ligados apenas ao artesanato, passando a serem comercializados também artigos eletrônicos, bijuterias, óculos, relógios e brinquedos. Os manufaturados deram espaço aos industrializados e, na sequência, o comércio de objetos falsificados. Neste ínterim, havia segmentações dentro do trabalho informal, levando a formação de grupos distintos dentro do comércio. Acerca disto, Posebon (2011), vê entre os trabalhadores informais de Santa Maria, cisões e segmentações, pois estes,

eram [...] subdivididos em três grupos: camelôs (que trabalhavam em bancas, na Praça Saldanha Marinho e ao longo do canteiro central da Avenida Rio Branco), ambulantes (que tinham bancas em calçadas em locais fixos ou não) e artesãos (que apesar de dividir o espaço de trabalho com ambos os grupos anteriores tem um diferencial: são regularizados) (p.37).

Cabe destacar que apenas os artesãos eram regularizados e tinham uma associação, com estatuto e registro. Os outros dois grupos (ambulantes e camelôs), inicialmente não dispunham da mesma organização, mas mesmo assim, para exercer suas atividades de comércio, todos eram obrigados a pagar um alvará de licença e um piso à Prefeitura Municipal de Santa Maria. Isso para ter o direito de

“permanecer à beira das calçadas, vendendo, como forma de adquirir o seu

sustento” (Jornal O Expresso, 1990, p.09).

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