COMÉRCIO INFORMAL: PARA ONDE VAMOS? (SANTA MARIA, 1991-2011)

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  CENTRO UNIVERSITÁRIO FRANCISCANO MATHEUS ROSA PINTO

  

COMÉRCIO INFORMAL: PARA ONDE VAMOS?

(SANTA MARIA, 1991-2011)

  Santa Maria, RS Outubro de 2012

  ÁREA DAS CIÊNCIAS HUMANAS CURSO DE HISTÓRIA COMÉRCIO INFORMAL: PARA ONDE VAMOS? (SANTA MARIA, 1991-2011)

  elaborado por

  Matheus Rosa Pinto

  como requisito parcial para obtenção do grau de

  Licenciado em História COMISSÃO EXAMINADORA: _________________________ Roselâine Casanova Corrêa, Me. (Presidente/Orientadora)

  _________________________

  Carlos Roberto da Rosa Rangel, Dr. (UNIFRA)

  __________________________

  Diorge Alceno Konrad, Dr. (UFSM)

  Santa Maria, RS Outubro de 2012.

  MATHEUS ROSA PINTO COMÉRCIO INFORMAL: PARA ONDE VAMOS? (SANTA MARIA, 1991-2011) Trabalho Final de Graduação, no curso de licenciatura em História do Centro Universitário Franciscano – UNIFRA.

  Orientadora: Roselâine Casanova Corrêa Santa Maria, RS

  Outubro de 2012

  

SUMÁRIO

  

INTRODUđấO. ........................................................................................................... 6

  

1. NEM MACONDO, NEM PASÁRGADA: A EVOLUđấO URBANA DE SANTA

MARIA ................................................................................................................ 12

  

2. O PESQUISADOR COMO FLANÊUR: UM PASSEIO BIBLIOGRÁFICO ......... 18

  

3. NEM BAUDELAIRE, NEM LIMA BARRETO: ONDE ACABA O PASSEIO E

  INICIA O CONFLITO .......................................................................................... 29

  3.1 Dos artesãos aos primeiros anos do Camelódromo: considerações sobre a ascensão do trabalho informal em Santa Maria (1980-1996) ........................... 29

  3.2 Quando a solução se torna problema: do camelódromo ao Shopping Independência (2005-2011) .............................................................................. 39

  

4. CONSIDERAđỏES FINAIS ................................................................................ 50

  

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS. ................................................................. 53

  

RESUMO

Esta pesquisa visa compreender como se deu o surgimento e o crescimento do comércio informal na

cidade de Santa Maria (RS), no período que engloba o ano de 1991 até 2011. Dentro deste recorte

temporal, tem-se como pontos essenciais a criação do centro comercial urbano para os vendedores

ambulantes - o Camelódromo - e o posterior estabelecimento dos vendedores no Shopping

Independência. Além disso, também são focos de estudo: a evolução urbana, a economia da cidade,

o percepção de agentes do comércio formal e informal e da imprensa, bem como o processo de

crescimento das atividades informais e suas peculiaridades em uma cidade do centro do estado do

Rio Grande do Sul: Santa Maria, atualmente com população em torno de 300 mil habitantes.

  Palavras chave: Comércio informal; Camelódromo; Shopping Independência, Santa Maria.

  

ABSTRACT

This paper presents a comprehension of the rise and growth of informal trade in the city of Santa

Maria (RS), from the year of 1991 to 2011. Inside this context, the key points involve the foundation of

the urban shopping center for the street vendors - the street vendors’ market - and the later settlement

of these vendors at the Independência Mall. Furthermore, this study also focuses on issues over the

urban evolution, the city’s economy, the awareness of the agents from the formal and informal market

and the media, as well as the way the growth process happened in this informal trade and its

peculiarities in a city in the center of Rio Grande do Sul: Santa Maria, currently with a population of

around 300,000 inhabitants.

  Key words: Informal trade; Santa Maria; Street Vendors’ Market, Shopping Independência.

  

INTRODUđấO

  Desde sua fundação, Santa Maria se notabilizou por ser um local de intenso trânsito de indivíduos. Tal afirmação se justifica pelo fato de que, durante sua breve história, diferentes hordas de migrantes passaram pela localidade, aumentando, com isso, a importância da cidade no âmbito regional e nacional. Dentre os grupos que por aqui passaram, merecem destaque: os indígenas, os jesuítas, os regimentos militares das Coroas Ibéricas, os ferroviários e os imigrantes. Atualmente, esta demanda fica a cargo de estudantes e militares de todas as partes do país e de estrangeiros.

  A respeito deste crescimento, surgem questionamentos vinculados aos motivos que levaram estas hordas migratórias a seguir para Santa Maria. O posicionamento mais aceito é de que a ascensão social/pessoal dos moradores foi um elemento propulsor da atividade migratória. Neste sentido, Roncayolo (1986) aborda que,

  o prolongamento da esperança de vida, a redução voluntária da fecundidade parece estar logicamente ligada à deslocação das massas populacionais para a cidade e à sua integração na civilização urbana (p. 410).

  Assim, a migração para o centro urbano traz em seu bojo a busca por melhores condições de vida, sejam elas profissionais, econômicas ou pessoais. Entretanto, alcançar tais objetivos mostra-se complicado e, neste processo desordenado, acabam surgindo disputas no interior da sociedade já estabelecida, Acerca disto, Romero (2006) diz que,

  as velhas sociedades começaram a transformar-se. De início, invadiram-nas os novos contingentes humanos que se incorporavam à vida urbana, algumas vezes resultantes do êxodo rural e outras, do surgimento de imigrantes estrangeiros. [...] Não demorou a perceber-se o resultado, e o sistema tradicional das relações sociais começou a modificar-se. Onde havia um local preestabelecido para cada um, começou a aparecer uma onda de aspirantes a cada lugar (p. 295).

  Este fato ocorreu devido à falta de organização dos centros urbanos que não acompanhou o aumento do contingente populacional que nela passou a habitar, fazendo com que sua estrutura se tornasse insuficiente e precária. Somando-se a isso, a crescente desigualdade social/econômica, fomentada pelo capitalismo predatório desenvolvido no mundo, potencializou as fragilidades e a polarização

  Toda essa tensão estava mudando as cidades e, em muitos aspectos, no sentido negativo. Mesmo assim, o contingente populacional não diminuía, já que ninguém queria deixar o lugar onde tudo acontecia: o centro urbano. Ainda que nem tudo fossem benefícios:

  as cidades cresciam, os serviços públicos tornavam-se cada vez mais deficientes, as distâncias mais longas, o ar mais impuro, os ruídos mais ensurdecedores, mas ninguém quis renunciar à cidade. [...] E nas cidades, adquiriam cada vez mais influência nas massas (ROMERO, 2006. p. 364).

  As relações interpessoais também sofreram com essas mudanças. O sentimento de pertencimento diminuiu e o individualismo passou a imperar. Por meio disto, a disputa pelos melhores lugares na pirâmide social se tornou mais acirrada. Berman (1987) diz que,

  a experiência ambiental da modernidade anula todas as fronteiras geográficas, raciais, de classe e nacionalidade, de religião e ideologia: neste sentido, pode-se dizer que a modernidade une a espécie humana. Porém, é uma unidade paradoxal, uma unidade de desunidos: ela despeja a todos num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambiguidade e angústia (p.15).

  No interior destes processos, os indivíduos procuram meios para atenuar tal desigualdade e afastamento. Um deles é o consumo/consumismo que, segundo Canclini (1996), “é o conjunto de processos socioculturais em que se realiza a apropriação e os usos dos produtos” (p. 53). O consumo deve ser visto como mecanismo de expansão do mercado (procura incessante de lucro), reprodução da força de trabalho (demonstrar o ‘sucesso’ obtido), juntamente com o fato de distinção dos demais.

  Observando estes processos, a figura do vendedor ambulante surge como uma ponte para diminuir esse distanciamento classista, pois, com suas mercadorias livres de impostos e, consequentemente, com menor custo, a compra de produtos, antes alcançados apenas pelos mais ricos, torna-se viável para as camadas menos abastadas da sociedade.

  Através disto, questionamentos surgiram, todos girando no mesmo ponto, o qual se sintetiza em: Como se deu a formação e desenvolvimento do comércio informal em

  Santa Maria?

  Como os vendedores informais

  • – os camelôs – são percebidos pelo comércio formal?

  E, finalmente, como eles próprios percebem tal processo de ordenamento de sua atividade profissional. Além disso, punteam-se tais questões com fragmentos publicados na mídia impressa e eletrônica local.

  O aporte teórico desta pesquisa assenta-se em reflexões acerca da História Urbana, da História do Tempo Presente, da Economia e, sobretudo, da História de Santa Maria. Também foi utilizada a História Oral, pois, como salienta Montenegro (1992),

  a história oral se apresenta válida no sentido que, através dos depoimentos, analisarem que elementos simbólicos são construídos pela população, e se apresentam, muitas vezes, como o avesso daquilo que lhe é imposto cotidianamente, à medida que essa população convive, tolera, assimila, reproduz a cultura/história oficial (p.13).

  Vale salientar que os depoimentos orais para esta investigação foram amplamente discutidos com os depoentes, por meio de entrevistas pré- estabelecidas ou não. Após foram transcritos e assinados os Termos de Cessão de Entrevistas de tais depoentes (anexos).

  A pesquisa historiográfica do tempo presente ainda é vista com relativa desconfiança acadêmica, visto que a mesma é ‘recomendada’ a jornalistas e

  1 sociólogos .

  O receio gira em torno da impossibilidade de recuo no tempo, aliada à dificuldade de apreciar a importância e a dimensão em longo prazo dos fenômenos, bem como o risco de cair no puro relato jornalístico. Este receio de tratar temas mais atuais está vinculado ao antigo pensamento no qual,

  a competência do historiador devia-se ao fato de que somente ele podia interpretar os traços materiais do passado, seu trabalho não podia começar 1 verdadeiramente senão quando não mais existissem testemunhos vivos dos

“A fundação na França da revista Annales, em l929, e da École Pratique des Hautes Études, em

1948, iria dar impulso a um profundo movimento de transformação no campo da história. Em nome de

uma história total, uma nova geração de historiadores, conhecida como École des Annales, passou a

questionar a hegemonia da história política, imputando-lhe um número infindável de defeitos – era

uma história elitista, anedótica, individualista, factual, subjetiva, psicologizante. Essa nova história

sustentava que as estruturas duráveis são mais reais e determinantes do que os acidentes de

conjuntura. Seus pressupostos eram que os fenômenos inscritos em uma longa duração são mais

significativos do que os movimentos de fraca amplitude, e que os comportamentos coletivos têm mais importância sobre o curso da história do que as iniciativas individuais” (FERREIRA, 2000, p.116). mundos estudados. Para que os traços pudessem ser interpretados, era necessário que tivessem sido arquivados. Desde que um evento era produzido ele pertencia à história, mas, para que se tornasse um elemento do conhecimento histórico erudito, era necessário esperar vários anos, para que os traços do passado pudessem ser arquivados e catalogados. Noiriel (Noriel in FERREIRA, 2000, p. 03).

  Alegava-se também que os testemunhos não podiam ser considerados representativos de uma época ou de um grupo, pois a experiência individual expressava uma visão particular que não permitia generalizações.

  Contudo, a partir dos anos 1990, registraram-se transformações importantes nos diferentes campos da pesquisa histórica. A análise qualitativa voltou com prestígio e as experiências individuais superam o antigo pensamento estruturalista- globalizante. Essa perspectiva que explora as relações entre memória e história acaba rompendo com a visão determinista que elimina a liberdade dos indivíduos, colocando em evidência a construção pelos atores de sua própria identidade e acabam reequacionando as relações entre passado e presente.

  Assim, a história do tempo presente constitui um lugar privilegiado para uma reflexão sobre os mecanismos de incorporação do social dos indivíduos, pois tem a possibilidade de trabalhar com documentação oficial e relatos sobre os casos de indivíduos participantes do mesmo. Acerca disto Chartier (in AMADO & FERREIRA, 1998) enxerga que a pesquisa de história do tempo presente causa inveja, pois argumenta,

  [...] não é uma busca desesperada de almas mortas, mas um encontro com seres de carne e osso que são contemporâneos daquele que lhes narras as vidas. Inveja também de recursos documentais que parecem inesgotáveis [...]. O historiador do tempo presente, por sua capacidade de construir observatórios ajustados às suas preocupações, parece estar em condições de superar os entraves que classicamente limitam a investigação histórica (p. 215-216).

  A história do tempo presente pode permitir com mais facilidade as necessárias articulações que tecem os laços sociais. Segundo Frank (in CHAUVEAU; TÉTART, 1999),

  depois de ter passado a memória no crivo da crítica e ter assinalado suas fraquezas, o historiador deve analisar os erros e os mitos que ela veicula, tomá-los tais como são, colocá-los em perspectiva histórica, em poucas palavras, fazer sua historia. É uma grande sorte para o historiador do presente, graças às testemunhas que interroga poder fazer a arqueologia da memória coletiva (p.112).

  É função de o historiador trabalhar também as temáticas mais atuais, auxiliando assim as novas gerações a entender o que se passa ao redor delas, dotando- as de capacidade de fazer o “recuo” histórico. Rioux (in CHAUVEAU; TÉTART, 1999) afirma que,

  essa história, de fato, por ser feita com testemunhas vivas e (...) levada a desconstruir o fato histórico sob a pressão dos meios de comunicação, porque globaliza e unifica sob o fogo das representações tanto quanto as ações podem ajudar a distinguir talvez de forma mais útil do que nunca o verdadeiro do falso (p.49-50).

  Por isso, é imprescindível que haja um posicionamento firme e ético durante a pesquisa, desvinculando ao máximo as inclinações pessoais sobre o tema escolhido, pois, além de testemunha, o historiador é narrador e formador de opinião. Rioux (in CHAUVEAU, 1999), menciona que essas dificuldades metodológicas e não podem ser levadas em conta, já que,

  a desistência não resolveria nada. É, pois, a própria sociedade que impulsiona o historiador a não desistir, que lhe sugere não tropeçar diante do obstáculo da proximidade e até mesmo utilizá-lo para melhor saltar (p. 42).

  Um dos parceiros da história do presente é a história oral, já que esta é um dos meios o qual pode reconstituir os processos e revelar informações que de outra forma se perderiam. Segundo François (in AMADO & FERREIRA, 1998),

  a história oral seria inovadora primeiramente por seus objetos, pois dá atenção especial aos “dominados”, aos silenciosos e aos excluídos da história (mulheres, proletários, marginais, etc.), à história do cotidiano e da vida privada (numa ótica que é o oposto da tradição francesa da história da vida cotidiana), à história local e enraizada. Em segundo lugar, seria inovadora por suas abordagens, que dão preferência a uma “história vista de baixo” [...] atenta às maneiras de ver e de sentir, e que às estruturas “objetivas” e às determinações coletivas prefere as visões subjetivas e os percursos individuais, numa perspectiva decididamente “micro-histórica” (p. 04).

  Além das entrevistas, várias leituras sobre o tema, seguido da elaboração de pareceres, fichamentos e de entrevista com o método indutivo, com questionários pré-estabelecidos com personagens envolvidos no processo.

  Em suma, o trabalho trata da evolução do comércio informal na cidade de Santa Maria, entre 1991 e 2011, levando em conta também os acontecimentos anteriores à fundação do Camelódromo, além da ocupação do comércio informal na o Shopping Independência (Praça Saldanha Marinho) em 2011, em Santa Maria (RS).

  O estudo é relevante, além do sentido historiográfico, para compreender os estereótipos que são criados entre os agentes participantes. Vale ressaltar que o estudo em questão não pretende o juízo de valores acerca do tema. Este trabalho pretendeu apresentar e compreender a dinâmica dos vendedores informais, as relações com os lojistas formais, as práticas informais de comércio e como tudo isso é tratado pela sociedade, no período mencionado.

  O primeiro subtítulo

  ‘Nem Macondo, nem Pasárgada: a evolução Urbana de

Santa Maria’, traz uma breve explanação sobre a história da cidade de Santa Maria

  e de momentos importantes da história do Brasil. O texto está dividido em quatro momentos: o surgimento da cidade (comissão demarcadora, conflitos e acampamento), a chegada da ferrovia (transformações com o advento do trem e a sua importância da cidade no setor econômico-social do estado), a fundação da Universidade Federal de Santa Maria (e a demanda de serviços daí advindas) na cidade até o início da década de 1990.

  O segundo subtítulo, intitulado ‘O pesquisador como Flaneur: um passeio

  

bibliográfico’, procurou estabelecer um marco/aporte teórico apropriado aos objetivos

  do trabalho, abordando os posicionamentos sobre os temas desenvolvidos na pesquisa. Entre os pontos debatidos estão a história urbana (urbanização, expansão, demografia, organização) com ênfase nos estudos de Roncayolo (1986), Lefebvre (1970), Romero (2006), Pesavento (1992), Losnack (2004), Pechman (2002). Sobre a História do Tempo Presente: Rioux (1999), Frank (1999), Chauveau & Tétart (1999). Na sequência, considerações sobre consumismo, modernidade e individualismo na era do capital, temas embasados nos estudos de Canclini (1996), Lipovetisck (2005) e Baumann (2001-2008). E, por fim, Kraychete (2000), Singer (2000), Cacciamali (2000), Santos (2004), Silva e Yazbek (2006) e Pochmann (2000) sobre a questão do trabalho informal no Brasil.

  O terceiro subtítulo, chamado

  ‘Nem Baudelaire, nem Lima Barreto: onde

acaba o passeio e inicia o conflito’, explicita como seu deu o surgimento do trabalho

  informal na cidade, levando em conta o contexto socioeconômico do país na época estudada. Além disso, percebe-se como se deu a expansão do trabalho informal, sua organização, suas áreas funcionais, qual a situação atual e as perspectivas

1. NEM MACONDO, NEM PASÁRGADA: A EVOLUđấO URBANA DE SANTA MARIA

  A cidade de Santa Maria, com o passar dos anos, conviveu com distintas alcunhas e títulos. Entre os mais saudosistas, ela ainda é reconhecida por ter sido um dos principais entroncamentos ferroviário do país. Mais tarde (1960), passou a ser a primeira cidade a receber uma Universidade Federal, sem ser a capital do Estado. Acolheu um grande contingente militar desde sua fundação até os dias atuais. As atribuições são diferentes, contudo, podemos notar em todas elas que o prestígio e relevância acompanham a cidade desde sua fundação, em 1797.

  O surgimento do centro urbano santa-mariense está diretamente vinculado

  2

  ao início das atividades empreendidas pelas comissões demarcadoras dos reinos Ibéricos, após a assinatura do Tratado de Santo Idelfonso, em 1777. O trabalho destas comissões objetivava a demarcação das fronteiras dos domínios ibéricos na

  3 região e o fim das disputas entre os envolvidos.

  Os regimentos da comissão demarcadora eram formados principalmente por militares, os quais transmitiam a ideia de que a região, por ser um centro militarizado, seria um local seguro para residir e desenvolver práticas comerciais. Foi então que, pensando nesta segurança, diversos grupos populacionais migraram para a região, buscando melhores condições de vida, em um ambiente organizado e próspero. A multiplicação do trânsito de pessoas foi intensa e em pouco tempo o pequeno acampamento acabou tomando ares de vilarejo e, como menciona Belém 2 (1989), a presença do acampamento militar,

  

Segundo Machado (in WEBER & RIBEIRO, 2012) “Apesar da passagem e dos relatos da primeira

Comissão Demarcadora de Limites por Santa Maria, em 1787, este fato não provocou a sua origem

ou fundação [...], é definitivamente, com a chegada da Segunda Comissão Demarcadora que Santa

Maria começa a se destacar no mapa, estabelecendo-se aqui o acampamento militar da mesma [...]

no topo de uma coxilha onde hoje está assentado o centro urbano de Santa Maria, bem como a

primeira rua que originou a cidade e deu início a evolução espacial do sítio urbano, a rua do

Acampamento 3 ” (p. 39).

  Segundo Rhoeder (in BOEIRA, GOLIN) “a divisão territorial entre as duas potências separava as

bacias hidrográficas do rio Uruguai e do rio Jacuí, o que significava a perda do território das Missões,

e sendo estabelecida uma zona de exclusão, denominada de “campos neutrais” entre os territórios de

Portugal e Espanha, ao sul. Somente em 1801, com a invasão das missões e dos campos neutrais

pelos luso-brasileiros, ficaram definidos os limites do Rio Grande do Sul junto ao rio Uruguai, a oeste, e ao rio Jaguarão, no sul” (2006, p.264). contribuiu para o surgimento do município, atraindo habitantes e abrindo caminhos e estradas. Assim, surgiram as primeiras ruas, a São Paulo que depois passou a ser do Acampamento como lembrança do antigo acampamento militar, e a Rua Pacífica, depois Rua do Comércio (hoje rua Dr. Bozzano), a qual seguia em direção ao Passo dos Ferreiros para a

guarda portuguesa (hoje bairro Passo da Areia).

  Em 1801, a subdivisão demarcatória deixou a região rumo a capital da província, atitude esta que, diferente do imaginado, não fez com que houvesse um retrocesso no desenvolvimento do povoado, já que mesmo após a volta da comissão demarcadora as migrações permaneceram em ritmo contínuo. Sobre isto, Belém (1989) afirma que,

  o povoado continuou [...] recebendo elementos vindos não só da vastíssima comarca de S. Paulo, mas também de Rio Pardo, Cachoeira, Taquari, Triunfo, Viamão e de outras localidades do Rio Grande (p. 40).

  No início da década de 1820, o povoado já contava com prestígio regional, sendo visto como um importante ponto de passagem de pessoas e de produtos, contando com algumas vias bem definidas e comércio em fase de ascensão. Ainda na década de 1820, iniciou-se um dos processos que auxiliaria consideravelmente o crescimento regional. Isto é, começaram as migrações provenientes do continente europeu para a região.

  O governo imperial decidiu designar regimentos de soldados mercenários de

  4

  origem alemã , com a missão de proteger os domínios territoriais brasileiros durante

  5

  a Guerra Cisplatina (1825-1828). A vinda dos soldados para Santa Maria beneficiou o setor da segurança, evitando que os ataques dos inimigos do império chegassem as suas fronteiras; o setor econômico-comercial, pois se tornavam consumidores do que a cidadela oferecia e, por fim, após o término da querela,

4 Segundo Machado (in WEBER & RIBEIRO, 2012) “O 28º Batalhão de Caçadores alemães (28º BC)

  

teve sua origem com a criação do Regimento de Estrangeiros durante o Império, por decreto de 8 de

5 Janeiro de 1823 (...) Este acampou e m Santa Maria por volta de 1828” (p.36).

  “Quatro anos após a sua incorporação oficial ao Brasil, iniciou esta província, em 1825, uma

rebelião, de que se aproveitou Buenos Aires para anexá-la, em 25 de outubro do mesmo ano, às

Províncias Unidas do Prata. Diante disto, em dezembro o Brasil declarou guerra à Argentina, a qual

se estendeu até 1828, trazendo consigo uma série de perturbações: em primeiro lugar, constituiu

mais uma alta cargas aos cofres públicos já exauridos do país; em segundo lugar, praticamente

interrompeu o abastecimento (...) de gado bovino e muar do Rio Grande do Sul ao Rio de Janeiro,

São Paulo e Minas Gerais; em terceiro lugar, exigiu um grande aumento do recrutamento militar, alguns antigos combatentes decidiram manter-se na região, auxiliando assim, no aumento da população e no desenvolvimento local.

  O vilarejo não parava de crescer. No início da década de 1830, a população da cidade já chegava aos 3.000 habitantes, convivendo com práticas comerciais a pleno vapor, ganhando corpo e alcance, transformando a cidade em um entreposto comercial que abastecia cidades como Caçapava do Sul, Cachoeira, Alegrete, São Borja (Ribeiro in WEBER & RIBEIRO, 2011, p. 232).

  6 Nem mesmo durante a Revolução Farroupilha a freguesia decaiu.

  Sobretudo por não ter ocorrido nenhum conflito armado de grande proporção, mesmo que a região tivesse sido ocupada por tropas farrapas até o ano de 1840. O

  

7

  início das atividades ferroviárias no Brasil , no entanto, influenciou na trajetória do pequeno vilarejo.

  8 O ano de 1885 não marcou apenas a chegada da ferrovia à Santa Maria ,

  mas também da modernidade a cercania. Além da economia, as estradas de ferro

  9

  transformaram as cidades por onde passavam, no sentido urbano e cultural. Sobre estas mudanças, Grunewaldt (in WEBER & RIBEIRO, 2011) afirma que,

  A imagem de vilarejo foi deixada para trás. A Avenida Progresso (atual Rio Branco) tornou-se o eixo comercial da cidade. No final norte dessa avenida encontrava-se a Estação, a gare e as oficinas de manutenção. No outro 6 extremo, a Praça Saldanha Marinho que dava acesso à Rua do

Título Alcançado atravé s da “Lei Provincial n.6, de 17 de novembro de 1837, foi criada a Freguesia

de Santa Maria da Boca do Monte, passando, por isso, o Curato à Paróquia, o que quer dizer que

deixava de ser Capela Curada filial da Matriz de Cachoeira para também Matriz ” (BELÉM, 1989, p.

7 95).

  

Sobre isto, Corrêa (2005) acena que, “a ferrovia no século XIX, nos países em estágio de

desenvolvimento capitalista, auxiliou a promover a industrialização e a urbanização. No caso do

Brasil, ela não fomentou a industrialização, mas sim o comércio, já que, no período do seu

surgimento (Século XIX) a economia brasileira era predominantemente agrária. Seu foco era a

produção e exportação de café. Vale salientar que, as peças para montagem e manutenção dos trens

e vias férreas era proveniente de outros centros - principalmente da Europa. Mesmo assim, não

podemos ignorar que a presença da malha ferroviária trouxe mudanças em vários setores (economia,

política, social)” (p.30). 8 A inauguração da via férrea, trecho Cachoeira

  “

  • – Santa Maria, em 1885 foi um marco fundamental

    no desenvolvimento da cidade. A facilidade do transporte de pessoas e produtos para a capital e

    outras cidades do interior trouxe um afluxo muito grande de pessoas à Santa Maria. Com isso, foi

    incentivada a criação de novos hotéis, restaurantes e casas de comércio, que se tornavam atrativos

  • 9 para os novos visitantes” (CORRÊA, 2005, p. 04).

      Aos poucos, prédios foram se tornando mais presentes na paisagem e o comércio se fortalecendo.

      “

    Entre 1883 e 1891 o município passou de 3.224 habitantes para 25.207, número que em 1900 subiu

    para 33.524” (BELTRÃO, 1958).

      Acampamento e à Rua do Comércio (atual Dr. Bozzano). Nesses espaços, imigrantes, especialmente judeus, libaneses e alemães, instalaram casas de comércio, hotéis, restaurantes, cervejarias, jornal, entre outros, fazendo de Santa Maria cada vez mais um polo comercial na região (p. 337).

      Modernidade nos meios de produção, nos costumes, nas expectativas, tudo em alcance graças aos avanços tecnológicos e da expansão do pensamento capitalista. Santa Maria passou de cidade interiorana para o posto de centro cosmopolita. A respeito da modernidade e das transformações sentidas na

      10

      sociedade , Rangel (1998) afirma que Santa Maria,

      experimentou no período compreendido entre 1885 e 1905 o maior desenvolvimento de sua história. Em 20 anos o número de prédios cresceu de 400 para 1.500 e a população urbana de 3.000 para 15.000 habitantes. Com apenas 48 anos de emancipação política e administrativa, em 1905, a cidade já contava com quase todos os requisitos de um pólo urbano regional da época: um jornal, a Gazeta (desde 1883), a iluminação elétrica (1898), um hospital (1898), dois estabelecimentos de ensino secundário, o Colégio Santa Maria e o Colégio Santana (1905), o serviços de telefone e

    uma intensa vida comercial, cultural e política (p. 04).

      Além da ferrovia, Grunewaldt (in WEBER & RIBEIRO) diz que “a criação do primeiro regimento da cavalaria da Brigada Militar, em 1892 [...] trouxe um grande contingente de pessoas para residirem na cidade

      ” (2010, p. 337), iniciando assim a tradição que perdura até os dias atuais: a cidade como um grande centro militarizado do país.

      Em 1898, a diretoria da Compagnie Auxiliare des Chemis de Fèr du Brésil, decidiu transferir seus escritórios e oficinas para a cidade, transformando esta na ‘cidade ferroviária’.

      Assim, Santa Maria passou de coadjuvante para o papel de protagonista no estado. As escolas, o setor comerciário e as oportunidades de emprego na ferrovia, fizeram com que o centro continuasse sendo o destino de grupos sociais do interior e de outras cidades. Belém (2000) apresenta números sobre o crescimento dos prédios na cidade, que, segundo ele, “no ano de 1893, a cidade possuía registrados 496; em 1900 era 1.251; em 1912 o número chegara a 2.409 e em 1920 atingira a 10 2.956 prédios” (p. 184).

      

    Grunewaldt (in WEBER & RIBEIRO, 2011) acena que durante a década de dez, do século XX, que

    ocorreram as mais importantes remodelações na paisagem urbana, contribuindo para isso a chegada,

    em 1910, dos primeiros estabelecimentos bancários: a Agência do Banco Nacional do Comércio e do

    Banco da Província. Nesse período tiveram início os trabalhos de prolongamento e alargamento da

      O quadro de crescimento acaba por ser interrompido em 1917, quando a organização da ferrovia passa a apresentar seus primeiros sinais de fragilidade. Neste ínterim, os funcionários passaram a questionar os contratantes no que dizia

      11

      respeito às condições de trabalho, acarretando assim, em movimentos grevistas , desgaste na relação das partes envolvidas e, além do mais, os serviços não mantinham o alto nível do passado. Muito disto era causada por problemas financeiros que a Compagnie enfrentava. Percebendo este quadro, o governo

      12

      decidiu interferir e, em 1920, sob o governo estadual de Borges de Medeiros , rescindiu o contrato com os belgas.

      A estatização era uma nova realidade que trouxe a ferrovia momentos de estabilidade, com o aumento e o melhoramento das linhas, compra de novos equipamentos e ‘paz’ nas relações com os funcionários. Todavia, com a crise de 1929, a situação da VFRGS complicou-se tanto que nem o auxílio federal e corte de gastos mudaram o quadro. Nos anos que se seguiram, o transporte ferroviário foi entrando em declínio e, como diz Ribeiro (1979), “este não tendo mais o apoio necessário dos governantes, e sendo vítima de uma má administração, começa a enfrentar um longo processo de decadência” (p. 24).

      O golpe final nas atividades da ferrovia se deu nos anos do governo

    13 Juscelino Kubitschek (1956-1961), o qual privilegiou algumas áreas da economia, como o setor automobilístico e rodoviário, deixando de lado o transporte férreo.

      Sobre o governo, Singer (in LOSNAK, 2004, p.121) acena que,

      houve investimentos em várias áreas (produção siderúrgica, de eletricidade, alumínio, de cimento, de celulose, refino de petróleo, crescimentos nas 11 áreas de material de transporte e transporte propriamente dito, de material “Os ferroviários [...] estavam descontentes com as condições de trabalho e com os baixos salários,

    cujos valores eram insufici entes para suprir as necessidades [...] de habitação, alimentação e saúde”

    12 (FLÔRES, 2007, p.117).

      “Borges de Medeiros governou o Rio Grande do Sul durante praticamente um quarto de século

    (entre 1898 e 1908 e entre 1913 e 1928) consolidando definitivamente o poder do PRR (Partido

    Republicano Rio-grandense). Um [...] aspecto fundamental do governo borgista foi sua política de

    transportes, entendido como o principal problema para o desenvolvimento econômico do estado. As

    condições precárias das ferrovias e do único porto marítimo (Rio Grande) passaram a ser objeto da

    atenção governamental, o que acabou culminando na nacionalização (encampação) [...]. Essas

    medidas tinham caráter intervencionista e foram tomadas em um conjuntura de crise econômica, pós-

    Pri 13 meira Guerra” (KUHN, 2002, p. 117).

      “Resumia seu governo com as ideias de movimento, ação e desenvolvimento. Seu maior

    compromisso foi acelerar as transformações e o crescimento econômico do “gigante adormecido” elétrico, de química, de mecânica, metalúrgica e borracha, dentre outros) articulados ao boom do pós-guerra e à difusão do capital internacional por alguns países pobres.

      O quadro de desilusão e desconfiança em que se inicia a década de 1960 assustava aqueles acostumados com os áureos tempos da ferrovia em Santa Maria. As mudanças eram constantes e o centro urbano era seu principal alvo. Contudo, a população continuou a crescer com a chegada de novos empreendimentos no município. Dentre eles, podemos destacar a UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) na década de 1960 e a Base Área, na década de 1970.

      Neste contexto, a fundação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) pode ser entendida como uma maneira de manter o destaque/força da cidade no contexto político- econômico. Solidificando a ideia de “Metrópole Educacional do

      14

      pressuposto este que se encaixa no que entende Carlos (2011) sobre as Estado”, ‘cidades vendidas’. O autor acena que,

      as cidades que passam a ser “vendidas” dentro das políticas do Estado, que, no atual estágio do regime de acumulação capitalista, procura cumprir com uma agenda estratégica de transformações exigidas para a inserção econômica das cidades nos fluxos globais. Nesse contexto, não basta renovar as cidades, é preciso vendê-las e, ao fazê-lo, vende-se a imagem da cidade renovada (p. 51).

      Com a fundação da Universidade Federal, a cidade de Santa Maria encontrou, neste novo agente, um mecanismo para a manutenção do status quo alcançado nos anos da estrada de ferro. Em suma, o entroncamento ferroviário era passado, a realidade era de um pólo educacional em desenvolvimento e a cidade deveria moldar- se para compor este novo ‘cliente’. O comércio, as habitações, os meios de comunicação, lazer, o setor de saneamento, vias e acessos, tudo passou a girar em torno da Universidade. O eixo principal da cidade não era mais a Avenida Rio Branco. O centro passou a ser a Rua do Acampamento e seus arrabaldes, sobretudo na Rua do Comércio (atual Rua Dr. Bozano), onde as lojas se empilhavam cada vez mais.

      Durante o governo civil-militar (1964-1985), as políticas econômicas visaram

      

    15 14 à diminuição dos processos inflacionários que o país convivia constantemente e o Segundo BEBER (1998) A cidade de Santa Maria, desde meados da década de 1920, conviveu

    com a prerrogativa de ser um importante polo educacional da região central, tendo um número 15 considerável de escola e, na época da fundação da UFSM, quatro instituições de Ensino Superior. desenvolvimento econômico. Para tal, o governo institui ‘achatamento salarial’, alcançando a diminuição do poder aquisitivo da grande parcela da população. Como Santa Maria consistia em um centro urbano, cuja estrutura se firmava no setor terciário, a diminuição dos rendimentos e dos empregos também refletiu na cidade.

      Para piorar a situação, o êxodo rural-urbano ganhava cada vez mais força e os contingentes que se destinaram para cá passaram a conviver com um grave problema: a habitação. Botega (in

      RIBEIRO & WEBER, 2012) afirma que, “entre 1950 e 1990, a população urbana da ci dade cresceu impressionantes 410%” (p. 75). A primeira metade dos anos 90 marca a posse do primeiro presidente eleito pelo voto direto, Fernando Collor de Mello. As reformas propostas por Collor, introduziram uma ruptura com o modelo brasileiro de crescimento com elevada participação do Estado e proteção tarifária, ainda que, na prática, a abertura comercial e financeira, bem como o processo de privatização, apenas deram seus primeiros passos no período de 1990-94.

      Os problemas causados pelas crises da economia nacional fizeram com que o mercado de trabalho se tornasse um ambiente de insegurança e tensão. Influenciado pela ótica capitalista, algumas parcelas da sociedade, geralmente as com menor grau de instrução e poder aquisitivo, passaram a buscar saídas para permanecerem nos centros urbanos e desenvolverem suas atividades. Todavia, nem todos encontraram possibilidades para ascender na sociedade, procurando assim, formas de burlar estas dificuldades. Neste quadro a atividade de comerciante informal se apresenta como uma das possibilidades.

    2. O PESQUISADOR COMO FLÂNEUR: UM PASSEIO BIBLIOGRÁFICO

      Para o perfeito Flâneur (...), é um imenso júbilo fixar residência no numeroso, no ondulante, no movimento, no fugidio e no infinito.

      (BAUDELLAIRE, 1988, p.170).

      Pode-se compreender a modernização como um resultado da busca incessante por melhores qualidades de vida, vinculada com desapego ao já consagrado, ao antigo, que passa a ser entendido como ultrapassado, obsoleto.

      

    Em Agosto foi divulgado o principal documento de estratégia econômica do governo Castelo Branco:

    O Plano de Ação Econômica do Governo (Paeg)” (Prado & Earp in FEREIRA E DELGADO, 2007, p.

      A cidade de Santa Maria se encaixa como ‘centro atrativo’ na ótica do capitalismo, já que, levando em conta sua localização geográfica, processo de fundação e trajetória socioeconômica, se encaixa perfeitamente em um exemplo de cidade burguesa, que sofreu seu boom de crescimento na mesma época dos câmbios econômicos no final do século XIX, início do XX.

      O pequeno vilarejo passou então por um considerável crescimento em seu

      16

      contingente populacional , comportando indivíduos extenuados das atividades que pareciam não lhe permitir o salto qualitativo almejado para sua vida e que entendiam a cidade como uma espécie de trampolim para alcançar os objetivos. Esse era o mote do modernismo, ou seja, as melhorias de vida.

      A chegada destes novos moradores, como era de se esperar, iniciou imensas transformações na organização da cidade, dentre as quais merecem

      17

      destaque: uma maior movimentação de recursos financeiros , a expansão das

      18

      19 atividades econômicas e mudanças na paisagem urbana .

      A cidade passou a ser um ambiente de heterogeneidade crescente, comportando diferentes costumes e aspirações. Com essa explosão urbana o perfil da cidade muda e, com isso, crescem os descontentamentos daqueles que desfrutaram dela em épocas anteriores, as quais eram mais aprazíveis e tranquilas, sem diferenciação e correria.

      Romero (2006) destaca que,

    16 Acerca disto, Grunewaldt (in WEBER & RIBEIRO, 2010) afirma que “Entre 1883 e 1891 o município

      

    passou de 3.224 habitantes para 25.207, número que em 1900 subiu para 33.524. E o número de

    17 edificações subiu de 486 em 1894 para 1323 em 1900 e para 1904, em 1904 ”.

      Padoin (in WEBER & RIBEIRO, 2010) “exemplifica a influência das ferrovias em Santa Maria,

    dividindo em dois períodos: o que se estende de 1858 (instalação do município) a inauguração dos

    trilhos em Santa Maria, em 1885 e, o período posterior, até 1958. A média de arrecadação de 1858 a

    1884, no período de vinte e seis anos foi de 4.769$847 e de 1885 a 1889, a média de arrecadação é

    de 43. 312$ 666, no período de quatro anos. Verifica-se que, a partir de 1885, com a instalação dos

    trilhos em Santa Maria, a rede municipal no período de quinze anos aumentou em 523% em relação

    aos anos anteriores. Santa Maria em 1910 possuía uma renda superior em 102,62% de Cruz Alta, de

    18 151,13% em relação a Passo Fundo e de 179,40% em relação a Rosário do Sul” (p.329).

      Como afirma Belém (1989), “o comércio era um ‘milagre germânico’ [...] foram os alemães os

    grandes animadores do comércio da região central da província, com lojas de fazendo, armazéns e

    secos e molhados, tamancaria, ferraria, etc. 19 ” (p.106).

      Segundo Marchiori & Noal (1997) “no final do século XIX, já existiam na localidade 33 ruas, 7

    praças, 5 fontes públicas, 1 hipódromo, um olaria a vapor, uma fábrica de café, 4 fábricas de cerveja, as velhas sociedades começaram a transformar-se (...) Não demorou a perceber-se o resultado, e o sistema tradicional das relações sociais começou a modificar-se. Onde havia um local preestabelecido para cada um, começou a aparecer uma onda de aspirantes a cada lugar (p. 295).

      A presença da estrada de ferro contribuiu para o desenvolvimento do setor terciário e do transporte de produtos para outras cidades, vilas menores, e regiões litorâneas. Com isso, novas fontes de trabalho apareciam aos montes nesta época . Segundo Romero, “a passagem dos serviços subsidiários da vida urbana para o pequeno comércio foi um dos esquemas típicos da ascensão social nas classes populares das cidades que cresciam” (2006, p.306).

      Acerca disto, Losnak (2004) salienta que,

      graças às ferrovias, a cidade sofreu um direcionamento mais acentuado de seu perfil econômico, com a predominância do setor terciário da economia. Mudanças aceleradas tiveram início: chegada dos trabalhadores da construção da linha e das instalações e depois de funcionários das ferrovias, ampliando o mercado local com a intensificação e a diversificação de comércio e serviços (armazéns, restaurantes, pensões, hotéis, prostituição, bares, casas de aluguel, materiais de construção, fornecimento de alimentos, serviços manuais especializados e não especializados, serviços burocráticos, depósitos).

      Com esse crescimento espacial e demográfico, as cidades perderam o antigo sentido. Sobre isto, Bresciani (1997) entende que “a cidade é produto da arte humana, simboliza o poder criador do homem, a modificação/transformação do meio ambiente, a imagem de algo artificial, um artefato enfim” (p.14). Sobre as mesmas mudanças, Romero (2006) afirma que,

      em todos os segmentos da sociedade houve uma expansão que criou novas possibilidades e expectativas. A cidade era, basicamente, um centro intermediário, e as necessidades dessa função multiplicavam as da própria produção (2006, p.308).

      A modernidade que tomava conta da urbe trouxe inovações, mas também destruiu. O novo veio com a destruição do velho. Sobre o assunto Marx (in Berman, 1987) acena que,

      todas as relações fixas, enrijecidas, com seu travo de antiguidade e veneráveis preconceitos e opiniões, foram banidas; todas as novas relações se tornam antiquadas antes que cheguem a se ossificar (p. 20).

      Seguindo este preceito, tudo parece obsoleto, ultrapassado e/ou desnecessário. Pesavento (1992) explana que “a modernidade atrai-repudia, elemento de destruição, que ameaça valores” (p. 9). Ou seja, a modernidade gera sentimentos dúbios no homem.

      20 Em seus objetivos, a modernidade visa à libertação do homem, sem

      distinção de sexo, cor, raça, credo ou opinião, que a razão devia emancipar a humanidade, que a sociedade civil devia ser livre a atuar sobre uma sólida opinião pública que geraria tanto o dissenso como o consenso. Entretanto, o que ocorreu na maioria dos casos foi o oposto do pregado. Ou seja, o progresso material/econômico dos indivíduos/sociedade não foi acompanhado de maior liberdade, nem da emancipação almejada. Houve sim, intensas fragmentações, dependências e desigualdades.

      O crescimento fez com que a cidade tradicional fosse vista agora como a ‘cidade velha’, tornando-se insuficiente na nova realidade. Isso estava diretamente vinculado com os problemas de ordem organizacional na urbe, pois os mesmos a aumentaram em grande escala. O antigo centro urbano não estava conseguindo comportar as necessidades desta crescente demanda e mudanças nas organizações se fizeram necessárias, tudo almejando maior dinamismo e progresso. Segundo Giovanaz,

      a relação estabelecida entre o homem e a urbanidade é uma relação em constante tensão, pois a cidade é algo sempre inacabado, sempre demandando outras ações de controle, de construção. [...] ela configura-se, cada vez mais, como algo inacabado ou defeituoso (1996, p.41).

      A cidade deveria se organizar de maneira que comportasse, sem problemas, o contingente populacional que nela habitava. Para isso, bairros novos foram organizados, escolas foram sendo construídas, serviços de infraestrutura reorganizados. Sobre isto Souza (in PESAVENTO, 1992) diz que os,

      conceitos de ruas e praças foram sendo reformuladas, assimilando novas formas, explicitadas através de suas morfologias e tipologias arquitetônicas. Novas ideias, novas tecnologias e mão de obra mais qualificada foram responsáveis pelas mudanças na produção do espaço urbano (p.11).

      Dentre os principais reorganizadores urbanos da virada do século XIX, 20 estava o ex-prefeito de Paris, o Barão Georges-Eugène Hausmann (1853 e 1870), o

      

    Sobre o termo ‘modernidade’ será utilizada a divisão feita do Peter Burke (2008, p. 27) que entende

    a modernidade passando por três momentos “a primeira, que vai aproximadamente 1650 a 1850; a qual, segundo Fabris (2011, p. 137) pregava que a cidade deveria seguir algumas premissas básicas, como: isolar-se dos grandes edifícios (quartéis, palácios), pensando tanto na parte estética quanto no celebrativo-defensivo; melhoramento do estado de saúde da cidade por meio da destruição sistemática de becos infectos e outros focos de epidemias; criação de amplos bulevares, que auxiliariam na circulação do ar, da luz e acesso; estabelecimento de um sistema de ligação entre as estações ferroviárias e os centros comerciais e de lazer, visando acabar com os congestionamentos e os atrasos.

      Vale destacar que em Santa Maria e na maioria de outros centros, esses ensinamentos não foram seguidos à risca. Mesmo assim, as mudanças instituídas fizeram com que os ‘novos’ centros urbanos passassem/potencializassem a formação de estilos de vida caracterizados pela constante diferenciação social e perda dos vínculos pessoais. Pechman (2002) entende que o desenvolvimento de “novos padrões de sociabilidade” levou a uma percepção de que o mundo dividia-se entre aqueles tocados pela Politesse (civilizados) e aqueles à parte de qualquer vínculo social (bárbaros) (p.136). Sobre estes processos, Lefebvre (1970) diz que,

      a realidade urbana, ao mesmo tempo em que amplifica e estilhaça, perde os traços que a época anterior lhe atribuía [...] perde-se a antes presente totalidade orgânica, sentido de pertencer, imagem enaltecedora (p. 26).

      Vários mecanismos passam a serem desenvolvidos visando tal controle, entre eles, no caso de Santa Maria, os códigos de postura que, segundo Grunewaldt (in WEBER & RIBEIRO, 2011. p.

      342) serviram “para ordenar a cidade segundo valores burgueses, controlar o espaço público impondo regras à rua, as diversões, ao comércio, a higiene domiciliar e a moral”. Em suma, tais códigos consistiam em formas de modelação social, maneiras de conter a sociedade que passava por um processo de ebulição, designando, a cada indivíduo, um local específico e maneiras recomendáveis de agir neste local.

      Losnak, afirma que,

      a noção de “limpeza” articulava-se com concepções da cidade higiênica da sociedade moderna. A higienização conjugava saneamento e embe lezamento do espaço urbano com a expulsão dos “tipos sociais” considerados perigosos, visando à homogeneização do social (2004, p.237). Para os segmentos sociais que destoavam

    • – marginalizados - cresceram os mecanismos cerceadores dentro da cidade. Além dos códigos de conduta, a polícia e a imprensa aparecem como observadores e delatores dos vistos como ‘diferentes’. Sobre a imprensa, Angel Rama (1985) a entende como sendo “a maior invenção da modernidade e ferramenta mais forte dos grupos dominantes”. Acerca da participação da polícia Pechman (2002) vê que,

      dentre as instituições criadas, se destaca a polícia como articuladora de uma ordem que se impunha diante do quadro de transformações econômicas, políticas, institucionais e culturais pelo qual passava o país (p.107).

      Mesmo com esses mecanismos de controle das massas, ninguém queria renunciar o seu direito à cidade, pois era lá que tudo acontecia. Sendo assim, o crescimento demográfico era gradual e a importância do centro urbano também

      21

      crescia . Sobre isto, Romero (2006) vê que,

      assim como no caso da explosão social do final do século XVIII, a que ocorreu depois da crise de 1930 consistiu, sobretudo em uma ofensiva do campo sobre a cidade, de modo que se manifestou sob a forma de uma explosão urbana que transformaria as perspectiva da América Latina. (...) As migrações e o alto índice de aumento vegetativo contribuíram para provocar o crescimento quantitativo das cidades. Outras circunstâncias concorreram para que houvesse, na nova estrutura social das cidades que cresciam uma transformação qualitativa que influiria sobre as características da explosão urbana (p. 355-361).

      Os grupos eram outros, mas as expectativas eram as mesmas

    • – melhores condições de vida e oportunidades de ascensão. Todos queriam viver na cidade e aproveitar a proximidade com os centros financeiros, administrativos e políticos. Ali o imigrante poderia encontrar ‘trabalho urbano’ nos serviços, no comércio ou na indústria, e talvez, com altos salários, alcançasse as melhorias desejadas.

      Entretanto, a realidade era diferente, já que as políticas públicas não iam ao encontro às necessidades da grande massa populacional que habitava os centros urbanos e, por essa postura do Estado, o que ocorreu gradualmente é o ‘sucateamento’ das cidades. Acerca disto, Castells (1980) entende que,

      21 “A partir da década de 1920, a cidade de Santa Maria passou a ser conhecida como um centro

    progressista, importante politicamente, comercialmente e no setor de prestação de serviços, situação

    que continuou atraindo habitantes de outras localidades. Estes procuravam oportunidades de a crise urbana conhecida por experiência própria pelos habitantes das grandes cidades provém da crescente incapacidade da organização capitalista para assegurar a produção, distribuição e gestão dos meios de consumo coletivo necessários à vida cotidiana, da moradia às escolas, passando pelos transportes, saúde, áreas verdes, etc. (p.20).

      A cidade estava mudando novamente. Sobre isto Romero disse que,

      no início, foi o número de habitantes que alterou o perfil da cidade, e que chamou a atenção para algo que estava mudando. Mais pessoas foram vistas nas ruas; começou a ser difícil encontrar casa ou apartamento; começaram a surgir moradias precárias em terrenos baldios, que de modo rápido formaram bairros; tornou-se difícil pegar um bonde ou um ônibus (2006, p. 382).

      O surgimento de moradias precárias em terrenos baldios está relacionado à progressiva disputa pelos territórios nas cidades. A localização perto dos locais mais rentáveis da cidade trazia implícita a posição daqueles que a habitavam. Neste pensamento, morar no centro da cidade denotava importância pessoal, e os mais afastados ficariam inseridos no grupo menos abastado. Carlos (2011) vê que,

      o espaço produzido se torna mercadoria, assentado na expansão da propriedade privada do solo urbano no conjunto da riqueza. [...] O resultado é a cidade como mercadoria a ser consumida e, nessa direção, seus fragmentos são comprados e vendidos no mercado imobiliário, sendo que a moradia é uma mercadoria essencial à reprodução da vida (p.120).

      A partir da década de 1940, a cidade de Santa Maria passou a conviver com o declínio dos trabalhos ferroviários, causando certa apreensão sobre o futuro da cidade, pois seu principal meio de destaque e lucratividade demonstrava sinais de fraqueza. A ferrovia estava com problemas

      22

      e seu processo de declínio apenas aumentou com os anos, chegando ao seu ápice com sua substituição gradativa pela novidade dos anos Juscelino Kubitschek: o transporte rodoviário

      23 .

      O Brasil passava pelo surto de industrialização, o qual é compreendido por Santos (1993) como um,

      22 “A associação Comercial, representando o pensamento do comércio e da indústria, promoveu

    diversas campanhas pedindo maior eficiência e rapidez no transporte de cargas e encomendas. Além

    das deficiências administrativas e materiais, os serviços da ferrovia eram prejudicados pelas longas greves e reivindicações dos ferrovi ários” (BEBER, 1998, p.76-77). 23 Que tinha como principal objetivo “a interiorização, com a eliminação das grandes distâncias do

    país- continente, fator considerável indispensável ao desenvolvimento do Brasil.”. Tratava-se de iniciar processo social complexo, que tanto influi na formação de um mercado nacional, quanto nos esforços de equipamento do território para torná-lo integrado, como a expansão do consumo em formas diversas, o que impulsiona a vida de relações (leia-se terceirização) e ativa o processo de urbanização (p.27).

      Paralelo a isso, o setor da agricultura nacional passava por consideráveis mudanças, a maioria girando em torno da introdução de novas tecnologias, especialmente na região Centro-Sul, modificando sua estrutura e fomentando a

      

    24

      desigualdade social. O modelo político passa a dar preferência aos grandes proprietários de terra em detrimento aos pequenos produtores rurais.

      A mecanização do campo acarretou a diminuição da necessidade de mão de obr a drasticamente, provocando, com isso, forte êxodo rural em direção aos ‘centros atrativos’ – leia-se centro urbano. Segundo Muller & Martine “durante as décadas de

      1960 e 1970 quase 30 milhões de pessoas deixaram o campo, rumo às cidades” (1997, p. 86).

      Muitas das pessoas vivendo no campo migraram para a cidade e incorporaram-se à intensificação da produção e das relações capitalistas. Com relativo sucesso, envolveram-se com atividades sociais, movimentos de bairro e partidos políticos, criando novas identidades sociais. Lefebvre (1970) entende que, a partir disto, a cidade entra na sua fase de implosão-explosão, consistindo em uma enorme concentração de pessoas, atividades, riquezas, coisas, objetos, instrumentos, meios e pensamentos. Abordando o mesmo fato, Romero nota que,

      o número de habitantes mudou a maneira de locomover-se dentro da cidade. As estreitas ruas do velho centro urbano tornaram-se insuficientes para a crescente concentração de pessoas. [...] Aos poucos se notava que ninguém conhecia ninguém. O número de habitantes ultrapassou a capacidade de transporte urbano. Aumentou o número de automóveis. [...] Alargamentos, pavimentações e severos controles de trânsito procuraram aliviar a gravidade dos problemas criados, sobretudo, pelo número incontrolavelmente crescente de automóveis. [...] A fisionomia tradicional das cidades, um tanto achatada, foi substituída pela crescente quantidade de edifícios de apartamentos: primeiro no centro, e pouco a pouco nos 24 bairros (2006, p.383).

      Durante a Ditadura Militar, a opção da política econômica era atender ao consumo dos setores “

    médios e às classes dominantes. Com o aumento da produção de bens duráveis, semiduráveis e de

    manufaturados, as classes médias passaram a ter maior possibilidade de consumo, principalmente a

    part ir do período do “milagre”, com novas e melhores opções de emprego, reajustes salariais,

    mantendo o poder de compra facilitado pelo crédito financiado pelo Estado. [...] Enquanto as

    camadas sociais mais pobres sentiram fisicamente o aumento da exploração, outros grupos sociais

    detinham um padrão de consumo próximo ao dos países ricos, adquirindo carros, equipamentos

    eletrodomésticos e sofisticadas casas próprias, realizando viagens de férias ao exterior, formando os

    filhos na universidade pública. Contradiç

      ões da modernidade brasileira” (LOSNAK, 200, p.142). O processo de globalização iniciado na década de 1960 chega forte aos

      25

      centros periféricos após a crise dos anos 1970-80 , trazendo modificações em todos os segmentos da sociedade. O conceito de globalização pode ser compreendido de inúmeras formas

    • – complexo, ambíguo e ideológico. Dá-se destaque ao conceito elaborado por Vieira que associa a globalização,

      a processos econômicos, como a circulação de capitais, a ampliação dos mercados ou a integração produtiva em escala mundial. Mas também fenômenos da esfera social, como a criação e expansão de instituições supranacionais, a universalização de padrões culturais e o equacionamento de questões concernentes à totalidade do planeta (1997, p.73).

      Além de todas as mudanças no âmbito econômico, a globalização mexeu forte na comunidade, nos desejos, objetivos e sonhos. Os valores antes estabelecidos deixaram de ser plausíveis e a identidade nacional perde espaço para uma constante

    • – e utópica - busca por homogeneização pelos setores menos abastados.

      A igualdade tão sonhada desde os primórdios do modernismo voltou novamente ao palco.

      A ostentação de ‘poder’ moldou as relações e neste ínterim a cultura das massas teve papel importante, já que, através de um dos seus mecanismos primordiais, este pensamento foi potencializado e, gradativamente, encorajado. Estamos falando dos meios de comunicação

    • – as mídias – e seu poder na formação de opinião.

      A ideia de igualdade e ascensão social são temas constantes nos meios de comunicação

    • – filmes, revistas, desenhos, telejornais, programas esportivos, novelas -, pregam que tudo é possível, desconsiderando o contexto de cada indivíduo. Entretanto, sabemos que a grande parcela da sociedade ainda sofre com o abismo existente entre ‘o querer ter e o poder ter’, ou seja, entre o sonho e o real.

      26 25 Neste contexto, ganha corpo a ideia de que através do consumo tais distâncias

    “Tendo em vista os dados macroeconômicos, se nos anos 70 o crescimento econômico flutuou

    entre 6% e 8%, a década de 80 foi considerada perdida para a maioria dos países da América Latina

    e Caribe. A dívida externa atingiu níveis alarmantes. A inflação era crescente e parecia incontrolável.

      

    Os países da região – com exceção de Chile, Cuba e Colônia – tiveram perdas expressivas na renda

    per capita. Em face de essa situação, programaram-se políticas neoliberais com os programas

    26 especiais de ajuste econômico ” (WANDERLEY, 2000, p. 126-127).

      Featherstone “identifica três perspectivas fundamentais sobre a cultura do consumo. A primeira é a serão diminuídas e quem lucra com isso é a economia

    • – representada pelas grandes empresas (marcas).

      Sobre o consumismo, Zygmunt Bauman (2002) diz que,

      O “consumismo” é um tipo de arranjo social resultante da reciclagem de vontades, desejos e anseios humanos rotineiros, permanentes e, por assim dizer, “neutros quanto ao regime”, transformando-os na principal força propulsora e operativa da sociedade, uma força que coordena a reprodução sistêmica, a integração e a estratificação sociais, além da formação de indivíduos humanos, desempenhando ao mesmo tempo um papel importante nos processos de auto-identificação individual e de grupo, assim como na seleção e execução de políticas de vida individuais (p. 41).

      Com isso, nota-se que a preocupação da população gira em torno da aceitação dos outros. A ostentação forja as identidades, constrói uma

      27

      imagem/personalidade para a sociedade: a sociedade da não satisfação perpétua como superficial, individualista e competitiva.

      Canclini (1996) salienta que vivemos em um tempo de fraturas e heterogeneidades, de segmentações e comunicações fluídas dentro de cada nação. A globalização não trouxe a homogeneidade, muito pelo contrário, ajudou no crescente sentimento de heterogeneidade, o ser/estar diferente. Sennett (1988) diz que,

      por causa desse deslocamento, as pessoas procuraram encontrar significações pessoais em situações impessoais, em objetos e nas próprias condições objetivas da sociedade (p. 318).

      Mesmo assim, em meio a essa heterogeneidade crescente, os seres humanos encontram códigos que os “assemelham” aos demais. Esta preocupação com a homogeneização não está ligado ao conceito de igualdade, mas sim à capacidade de inserção em certo nicho. A elaboração de tais códigos leve cada vez menos em conta questões étnicas, de classistas, ou nacionais, já que, atualmente o

      

    de compra e consumo (...) que são considerados por outros como alimentadores da capacidade de

    manipulação ideológica e controle “sedutor” da população, prevenindo qualquer alternativa “melhor”

    de organização das relações sociais. Em segundo lugar, há a concepção mais estritamente

    sociológica de que a relação entre a satisfação proporcionada pelos bens e seu acesso socialmente

    estruturado é um jogo de soma zero, no qual a satisfação e o status dependem da exibição e da

    conservação das diferenças em condições de inflação. Nesse caso, focaliza-se o fato de que as

    pessoas usam as mercadorias de forma a criar vínculos ou estabelecer distinções sociais. Em terceiro

    lugar, há a questão dos prazeres emocionais do consumo, os sonhos e desejos celebrados no

    imaginário cultural consumista e em locais específicos de consumo que produzem diversos tipos de

    27 excitação física e prazeres estéticos” (1995, p.31).

      

    Bauman (2008) “O método explícito de atingir tal efeito é depreciar e desvalorizar os produtos de

      que pauta as relações e, em certo grau difere os indivíduos, é a sua capacidade de consumir. Consumir não apenas no sentido de compra de produtos industrializados, mas em costumes, ideologias e formas de agir. As pessoas não estão incorporadas à esfera pública como cidadãos, agora são vistas como clientes, consumidores condicionados a comprar incessantemente.

      Contudo, as desigualdades sociais e de rendimentos dificultam este processo de inserção. Somado a isso, o contexto econômico-trabalhista da década de 1990, torna mais nítido o fenômeno do desassalariamento, influenciado, principalmente, pela redução dos empregos assalariados com registro.

      Sobre isto, Cardoso Junior (1999) acena que a,

      [...] recessão doméstica no início dos anos 90, por sua vez, agiram no sentido de aprofundar as inserções ligadas aos serviços prestados às empresas (serviços produtivos), comércio e transportes (serviços distributivos), serviços prestados às famílias (serviços pessoas) e serviços não mercantis (serviços diversos). Ao mesmo tempo, acentuaram-se as inserções ocupacionais consideradas informais [...], assalariados sem carteira e trabalhadores autônomos por conta própria (p. 28).

      Entre 1994 e 1999, embora a economia tenha apresentado evolução positiva do PIB, o volume de emprego assalariado com carteira profissional em todo o país foi reduzido em 1,5 milhão. Nos anos 1990, portanto, há uma forte ampliação das ocupações por conta própria, visando fugir da crise do desemprego

      28

      . Pochmann (in SILVA & YAZBEK, 2006)

      Desde 1990, com a opção pela abertura da economia brasileira, as principais fontes geradoras de novas ocupações foram fortemente comprimidas. O setor industrial, por exemplo, terminou sendo emblemático desta situação. Somente na década de 1990, cerca de 1,2 milhão de postos de trabalho do setor secundário foram destruídos pela nova situação de abertura da economia brasileira. Além disso, o setor privado terminou adotando novas práticas de gestão de mão de obra, como uso recorrente da terceirização [...]. Todas essas modalidades [...] foram favoráveis tanto ao corte de pessoal como à intensificação do tempo de trabalho entre os ocupados, mesmo que recebessem salários decrescentes em termos reais (p.30-31).

      28 “

      Segundo levantamento do IBGE (in KRAYCHETE; LAR A; COSTA, 2000), “Na década de 1990,

    mais do que duplica o tempo médio em que um trabalhador desempregado demora para encontrar

    um emprego. Em 1990 [...], o tempo de procura era de 15 semanas. Em abril de 1999, este tempo

    aumentou para 42 semanas. [...] O crescimento do desemprego foi acompanhado por uma

    modificação na composição da estrutura ocupacional, com uma diminuição gradativa, desde os ano

    de 1980, da mão de obra empregada na indústria e no setor primário, e um aumento do terciário, que

    cresce deteriorando- se, absorvendo ocupações instáveis e mal remuneradas” (p.18).

      Essa conjuntura, que combina ao mesmo tempo a elevação da taxa do

      29

      desemprego e da precarização, amplia o espaço da informalidade na década de 1990, agravando ainda mais a heterogeneidade presente na estrutura ocupacional

      30

      no país. A partir e motivado por isso, o comércio informal toma forma em Santa Maria, acarretando no aumento do número e força destes vendedores, o que traz consigo descontentamentos dos setores formais, algo recorrente na história, pois, como nos assinala Braudel (1985) “a venda ambulante é sempre uma maneira de contornar a ordem estabelecida do sacrossanto mercado, de zombar das autoridades” (p. 65).

      A relação entre informalidade e a pobreza é algo cuja compreensão não se dá mecanicamente ou de maneira simplista, mas requer que se entendam as interfaces que unem as desigualdades, a pobreza e o trabalho na conjuntura do capital. Além de motivações econômicas, com o modelo econômico voltado e subordinado ao exterior, também auxilia na reprodução da desigualdade. Também se devem levar em conta outros pontos estruturais da sociedade contemporânea que influenciam no crescimento das práticas informais. Entre ela estão: o desordenado crescimento das cidades, a precarização dos setores públicos, saneamento, escolas, saúde, segurança.

      Com este contexto, os indivíduos procuram maneiras mais ‘factíveis’ de alcançar o tão sonhado ‘sucesso’. Seguindo este raciocínio, a seguir abordam-se os processos que ajudam a explicar o porquê do boom dos ambulantes em Santa Maria

      (RS).

    3. NEM BRAUDELAIRE, NEM LIMA BARRETO: ONDE ACABA O PASSEIO E INICIA O CONFLITO.

      29 “No Brasil, a informalidade apresenta-se heterogênea, envolvendo grupos de trabalhadores com

    qualificação diferenciada e variadas formas de organização da produção. Está articulada de forma

    subordinada aos movimentos de expansão e reprodução do capital. Seu espaço é ampliado ou

    reduzido de acordo com esses movimentos, já que, em seu interior, estão atividades criadas para

    suprir necessidades geradas pelo capital” (Lira in SILVA & YAZBEK, 2006, p. 140).

    3.1 Dos artesãos aos primeiros anos do Camelódromo: considerações sobre a ascensão do trabalho informal em Santa Maria (1980-1995)

    31 O trabalho informal em Santa Maria, nos moldes que conhecemos hoje,

      tem seu início na década de 1980. Durante os primeiros anos, estas atividades foram desenvolvidas por pequenos grupos de artesãos locais que ficavam expondo seus trabalhos manufaturados pelas principais ruas da região central de Santa Maria. Dentre os motivos que acarretaram na formação e, posteriormente, na proliferação deste tipo de atividade, o comerciante João Mafalda (antigo artesão que atualmente tem um Box no Shopping Independência) menciona que,

      o trabalho na rua se iniciou, por necessidade, pois sendo novo na cidade, não tinha conhecidos. O que prejudicava para conseguir trabalho e lugar pra ficar. Eu cheguei aqui em Santa Maria com uma mochilinha nas costas e na época eu me tornei um artesão, era o hippie, né?! [sic]. E na época, comecei a expor o meu trabalho, com uma mesinha pequena, um paninho, uns aramezinhos, foi o jeito honesto que eu achei pra viver (2012).

      Neste momento, os principais produtos comercializados eram brincos, colares, acessórios para casa. Muitos quesitos auxiliaram na solidificação das atividades informais em Santa Maria não

      . Segundo Franchi (2012) “inicialmente havia muita concorrência no setor, fato que auxiliou os trabalhadores na formação de uma clientela fiel e recorrente, alcançando assim maiores lucros ”.

      Segundo o entrevistado Miguel Antônio Montano Franchi (antigo artesão e atual comerciante do Shopping Independência), a localização dos artesãos variava pouco. A escolha das ruas centrais ia ao encontro com a percepção de que o centro da cidade se caracterizava por seu o local de maior fluxo de indivíduos, sendo mais rentável do que regiões de menor trânsito. Para Franchi,

      [...] os artesãos ficavam circulando pela Praça Saldanha Marinho e em volta do Banrisul. Bem antes, nos colocamos perto do Museu Gama d’ Eça ali na entrada nós fazíamos uma exposição. Naquele momento, permitiam e a gente trabalhava só com artesanato (2012).

    31 O termo informal é usado para designar práticas diferentes. Grosso modo, refere-se a atividade

      

    econômica caracterizadas por: a) unidades produtivas baseadas no descumprimento de normas e

    legislação concernente a contratos, impostos, regulações e benefícios sociais; b) ocupações sem

    proteção social, garantias legais e estabilidade, sendo recorrente ainda, o fato de serem atividades de

      Outro ponto relevante no desenvolvimento do comércio informal foi a crescente inflação que assolava o país. Com isso, mais pessoas acabaram por perder seus empregos devido ao enxugamento de alguns setores e passaram a ver o comércio como uma forma honesta de alcançar os rendimentos necessários para alimentação e moradia. Não tardou e esse novo setor informal passou a crescer desordenadamente, sem controle e dotado de parca fiscalização. Esta falta de organização fez com que essas mudanças, em muitos casos, não fossem encaradas como algo benéfico. Segundo o empresário

      Mário Gaiger “a fiscalização era muito deficiente, pois naquela época os fiscais da prefeitura eram mínimos [...] e acontecia de a fiscalização bater e ser aquela correria” (2012).

      Algum tempo depois a situação era de tensão progressiva. Os trabalhos não permaneceram ligados apenas ao artesanato, passando a serem comercializados também artigos eletrônicos, bijuterias, óculos, relógios e brinquedos. Os manufaturados deram espaço aos industrializados e, na sequência, o comércio de objetos falsificados. Neste ínterim, havia segmentações dentro do trabalho informal, levando a formação de grupos distintos dentro do comércio. Acerca disto, Posebon (2011), vê entre os trabalhadores informais de Santa Maria, cisões e segmentações, pois estes,

      eram [...] subdivididos em três grupos: camelôs (que trabalhavam em bancas, na Praça Saldanha Marinho e ao longo do canteiro central da Avenida Rio Branco), ambulantes (que tinham bancas em calçadas em locais fixos ou não) e artesãos (que apesar de dividir o espaço de trabalho com ambos os grupos anteriores tem um diferencial: são regularizados) (p.37).

      Cabe destacar que apenas os artesãos eram regularizados e tinham uma associação, com estatuto e registro. Os outros dois grupos (ambulantes e camelôs), inicialmente não dispunham da mesma organização, mas mesmo assim, para exercer suas atividades de comércio, todos eram obrigados a pagar um alvará de licença e um piso à Prefeitura Municipal de Santa Maria. Isso para ter o direito de “permanecer à beira das calçadas, vendendo, como forma de adquirir o seu sustento” (Jornal O Expresso, 1990, p.09).

      A partir de então, a fiscalização se tornou mais recorrente e a tensão entre vendedores formais, órgãos do governo municipal, parcelas da população e trabalhadores informais, passou a aumentar gradativamente. Demonstrando isso, lê- se que o vereador Rejane Flôres (PDS) solicitando à Secretaria Municipal da Indústria Comércio e Turismo maior fiscalização do comércio ambulante nas ruas centrais da cidade. Na opinião do pedessista, o Centro “está numa verdadeira baderna, com um festival de lixo e contrabandistas” (O Expresso, 1990, p. 09).

      O conflito entre comerciantes formais e informais pode ser sintetizado pelas reclamações feitas por alguns lojistas da cidade, que, em suma, não achavam justa a disputa entre os envolvidos no processo, pois, em muitos casos, os vendedores ambulantes postavam-se nos arredores de grandes lojas da cidade desenvolvendo lá suas atividades comerciais. Não pagavam impostos sobre as mercadorias e que, na maioria das vezes, eram falsificações com menor preço e qualidade do produto vendido pelo comerciante formal.

      O contexto nacional também não era dos mais animadores. A década de 1980 havia acabado e os problemas de ordem econômica no Brasil ainda perduravam. O presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992) tinha no seu discurso as promessas de caçar os corruptos, ajudar os necessitados e desenvolver o país como há muito tempo se sonhava. Para tal, adotou um método de governo

      32

      com alicerces no neoliberalismo e desenvolveu planos econômicos desastrosos, que juntamente com outros acontecimentos levariam a sua cassação em 1992.

      Os informais, no entanto, eram um dos poucos setores que estavam reagindo bem aos planos do Presidente Fernando Collor de Mello:

      Os camelôs fazem parte do setor da economia informal da cidade de Santa Maria que está conseguindo sobreviver a recessão causada pela política. Os vendedores ambulantes pagam o alvará de licença e um piso à prefeitura, para permaneceram à beira das calçadas, vendendo, como forma de adquirir o seu sustento (O Expresso, 1990, p.12).

    32 Silva & Silva (2005) afirmam q ue “sociólogos do fim do século XX distinguiram numerosas

      

    correntes liberais e neoliberais: dentre essas, aquela que mais tem crescido no mundo,

    principalmente na América Latina desde o final do século XX, é a corrente neoliberal, que defende

    uma concepção mínima do Estado, ou seja, que o Estado deveria encarregar exclusivamente das

    atividades que só ele pode cumprir, como a defesa e a segurança pública, não intervinda em

    aspectos como a saúde e a educação, considerados campos para o investimento privado. [...] O

    liberalismo, em sua forma atual rebatizada como neoliberalismo, é a ideologia política do mundo

    globalizado. É ele que advoga a abertura de mercados, o livre fluxo de capitais e os investimentos

    privados, a redução das responsabilidades sociais do Estado e a própria diminuição deste como

    mecanismo administrativo (tido em geral como dispendioso e antieconômico), em nome da

    privatização. O neoliberalismo é a reafirmação dos valores liberais originados do liberalismo

    econômico do século XIX” (p.261).

      As poucas barraquinhas de antes aumentaram de número, os produtos comercializados também mudaram e os conflitos não paravam de potencializarem- se. As pressões de alguns setores da sociedade santa-mariense (vendedores formais, informais e pedestres) no governo municipal eram cada vez mais fortes e recorrentes e, neste contexto, foi decidido que seria fundado um mercado público na região central da cidade o mais rápido possível.

      Os jornais reproduziam a querela de um comerciante da Rua do Acampamento:

      “As lojas tomam todo um cuidado em manter uma fachada atraente, enquanto os camelôs não tomam cuidados sequer com a higiene” (O Expresso, 1990, p. 12). E em outra ocasião, afirma:

      os camelôs tiveram um sério atrito com os comerciantes da Rua do Acampamento, que alegando prejuízo em suas vendas insistiam em que a Prefeitura Municipal transferisse os vendedores ambulantes para outro local. Em outra época foi até cogitado de que os camelôs seriam transferidos para a rua Alberto Pasqualini. Com a finalidade de resolver esses impasses os camelôs decidiram se reunir e fundar uma Associação com a finalidade de discutir os problemas da categoria. [...] A grande esperança foi a criação de um camelódromo, à exemplo das grandes cidades (O Expresso, 1990, p. 14).

      Entretanto, não se pode imputar aos comerciantes formais a responsabilidade pelos ambulantes terem sido relocados para o camelódromo. Mas havia pontos destoantes dentro do grupo de comerciantes formais, acerca do trabalho ambulante, pois,

      de acordo com o funcionário do comércio, os camelôs não dificultam em nada as suas vendas. Segundo o comerciário Vicente Alaor, os ambulantes não representam perdas às lojas, já que as mercadorias são diferentes. Esta também é a opinião do vendedor Ângelo que acrescenta que prejuízo só haveria se eles vendessem as mesmas mercadorias, porque os camelôs adquirem as mercadorias por um custo muito baixo (O Expresso, 1990, p. 09).

      Para Mário Gaiger

      33

      , empresário local há 55 anos, a conclusão é outra: “eu não posso dizer que isso me afetou, eu acho que o nosso público é outro, o do comércio estabelecido é outro público” (2012).

      Sobre os fatores que levaram o poder público a criar um centro comercial destinado às práticas informais, levantam questões de urbanismo, turísticas e de interesse dos próprios camelôs. Pelo viés estético, a presença de barracas pelas 33 calçadas e nas ruas da região central acabava por prejudicar o trânsito de pedestre e as atividades turísticas:

      a Secretaria espera melhorar a aparência estética da cidade, desafogando o trânsito para os pedestres, que não terão mais o espaço das calçadas reduzidos no Centro, devido a ocupação pelas bancas dos camelôs. É intenção da Prefeitura, também trazer melhores condições para os próprios vendedores que hoje não dispõe, segundo o Secretário Interino, de mínimos recursos como um banheiro e abrigo para os dias de chuva, pois quando chove não pode trabalhar e seus artigos ficam molhados (O Expresso, 1991, p.11).

      As pressões ao governo municipal continuavam e ficou decidido que seria fundado um mercado público na região central da cidade. Ou seja, assim como Porto Alegre e outros grandes centros do país, Santa Maria também teria o seu “camelódromo”. Assim,

      O primeiro local planejado para o camelódromo municipal foi entre a Praça Saldanha Marinho e a Rua dos Andradas, na Avenida Rio Branco. Com este projeto, os camelôs que se dispunham na Avenida apenas trocariam de lado e os da Rua do Acampamento seguiriam num local central, sendo que, o modelo de construção era pensado em módulos (POSEBON, 2011, p. 44).

      Entretanto, não seria tão fácil o processo de mudança dos ambulantes. O projeto foi elaborado rapidamente, com os recursos levantados e a maioria dos ambulantes concordando com a mudança, pois acreditavam nos benefícios alcançados, seja financeiramente, na organização ou segurança. Todavia, não se pode pensar que esta era a opinião geral dos ambulantes. Alguns vendedores não achavam que a mudança seria benéfica, pois era muito presente a ideia de que perderiam sua liberdade. Sobre tal, o vendedor Miguel Antônio Montano Franchi afirma que, em certos momentos, os vendedores foram coagidos, pois “cada prefeito mudava as regras e [...] nos tiravam espaço [...], houve muita pressão para nos tirar da rua. Começa ram a nos pressionar e a diminuir a liberdade de comercializar”. O empresário Mário Gaiger tem relato semelhante acerca disto, pois, afirma, “houve certa resistência [...], pois eles [os camelôs] preferiam buscar o seu pontinho, ter liberdade de saírem, de mudar de esquina quando bem entendessem, buscando sempre o melhor fluxo”.

      Além disso,

      para os camelôs ou vendedores ambulantes o Camelódromo não é uma boa solução. Volmar Chagas, proprietário de banca na Rua do Acampamento, diz que o movimento já está reduzido e, com a transferência para a Avenida Rio Branco, os rendimentos deverão cair mais ainda, pois o Após a decisão da criação do Camelódromo, a Prefeitura Municipal de Santa Maria deixou de expedir alvarás de liberação para o comércio nas ruas da cidade, buscando assim um controle e o impedimento do aumento do número de camelôs.

      Sendo assim, apenas aqueles que estivessem legalmente cadastrados seriam transferidos para o Camelódromo e, após sua construção, a prefeitura prometia fiscalizar e punir com severidade aqueles que tentassem desenvolver as atividades

      ( fora do camelódromo. O Expresso, 1991, p.11) Contudo, após a decisão, surgiu outro empecilho além da vontade de alguns vendedores: a disponibilidade do local, pois onde ficou decidido que seria construído o camelódromo, a prefeitura da cidade já tinha programado uma série de reformas urbanas visando revitalizar a Avenida Rio Branco. Tal afirmação é tratada pela mídia local, como mais uma dificuldade para uma melhor organização do comércio informal na cidade de Santa Maria:

      O local cogitado, ou seja, a Avenida Rio Branco entre a Praça Saldanha Marinho e a Rua dos Andradas, possivelmente sofrerá modificações, o que não mais possibilita a construção do camelódromo naquela artéria. [...] Em resumo, o camelódromo não vai ser construído na área que inicialmente lhe foi destinado e, como a Secretaria do Planejamento ainda está realizando esse estudo, não vai ser muito breve que os camelôs terão o ‘cantinho’ para [...] trabalhar (O Expresso, 1990, p. 14).

      Após um debate entre o governo municipal e os vendedores ambulantes, foi

      

    34

      tomada a decisão de que o camelódromo seria construído na mesma Avenida Rio Branco e que caberia a Associação dos Ambulantes de Santa Maria (ACASM) a divisão e instalação dos vendedores dentro do mesmo. O projeto tinha como

      35

      objetivo realocar os vendedores que ficavam comercializando pelas ruas do centro de Santa Maria, terminar com os conflitos entre comerciantes formais e informais e

      36 34 ter maior controle das atividades desenvolvidas pelos ambulantes.

      Segundo o Jornal O Expresso “Serão construídos vinte e nove módulos em formato de quiosques,

    sendo a obra, de inteira responsabilidade da Prefeitura Municipal juntamente com a Secretaria de

    Indústria, Comércio e Turismo. O custo total da mesma está sendo orçado em cerca de oito milhões

    35 de cruzeiros” (01/02 jun. de 1991, p. 07).

      Segundo o Jornal O Expresso “O objetivo, de acordo com o Secretário Interino, é que com o tempo

    estes vendedores se transformem em microempresários, alugando uma garagem ou pela para

    colocarem seu negócio. E que o Camelódromo seria uma oportunidade deles adquirirem experiência

    36 no ramo” (26/27 jan. de 1991) Segundo o Jor

      As obras do camelódromo municipal de Santa Maria foram concluídas em meados de 1991, tendo atrasado alguns meses do que havia sido previsto no início do projeto. Sobre o mesmo, o secretário interino informa que,

      o Camelódromo atenderá cerca de 60 camelôs, que atualmente se encontram distribuídos na Rua do Acampamento, na Avenida Rio Branco, Alberto Pasqualini e imediações da Rodoviária. Todos os Box ou casinha abrigará dois vendedores, haverá também um Box no Camelódromo para a administração e outro para segurança e banheiro (O Expresso, 1991, p. 11).

      Quando tudo parecia ter um final feliz, a situação problemática pouco mudou com a nova localização, pois nos primeiros tempos, a transferência não foi encarada de forma benéfica pelos vendedores.

      37 Com a fundação do Camelódromo Municipal , 57 trabalhadores informais

      tiveram que se adaptar a novas condições de trabalho. A antiga liberdade de localização deixou de existir e deu espaço ao trabalho estático, no qual a impossibilidade de mudança de lugar quando se demonstrasse interessante, surgiu como a nova realidade. As regras impostas pela Prefeitura Municipal eram claras e

      38

      faziam parte de um posicionamento mais rígido . A ideia era erradicar o comércio desordenado pelas ruas de Santa Maria e possibilitar melhores condições aos trabalhadores informais.

      Até o ano de 1995, as regras destinadas ao Comércio Informal, estabelecida pela Câmara de Vereadores, foram a do Código de Posturas Lei Municipal n. 2237/81 de 30-12-1981, disponível no acervo do Arquivo da Câmara Municipal dos Vereadores de Santa Maria. O código em questão menciona o seguinte:

      Art. 204

    • – O exercício do comércio dependerá sempre da licença especial, que será concedida de conformidade com as prescrições da legislação fiscal do município e do que preceitua este código.

      Art. 205

    • – Da licença concedida deverão constar os seguintes elementos essenciais, além de outros que forem estabelecidos:

      I

    • – Número da inscrição;

      

    constrangimentos aos lojistas. Depois do Camelódromo pronto, a Prefeitura, de acordo com

    Bianchini, atuará de forma rigorosa não permitindo qualquer ocupação de outro ponto de venda”

    37 (30/31 mar. de 1991). 38 Estabelecido na Avenida Rio Branco, entre a Rua Venâncio Aires e Rua das Andradas.

      Segundo o jornal O Expresso , “Depois do Camelódromo pronto, a Prefeitura, de acordo com II

    • – Residência do comerciante responsável;

      III

    • – Nome, razão social ou denominação sob cuja responsabilidade funciona o comércio ambulante;

      IV – Ramo do negócio.

      Parágrafo único

    • – O vendedor ambulante não licenciado para o exercício ou período, em que esteja exercendo a atividade ficará sujeito a apreensão da mercadoria em seu poder.

      Art. 206

    • – É proibido ao vendedor ambulante sob pena de multa:

      I

    • – Estacionar nas vias públicas e outros logradouros, fora dos locais previamente determinados pela Prefeitura;

      II

    • – Impedir ou dificultar o trânsito nas vias públicas, bem como depositar ou expor a venda mercadorias sobre o passeio, ou utilizando as paredes ou vãos, ou sob marquises ou toldos; .

      III

    • – Transitar pelo passeio conduzindo cestos ou outros volumes grandes

      Art. 207

    • – Na infração de qualquer artigo desta seção será imposta a multa correspondente ao valor de quatro (4) a sete (7) Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional (ORTN’s) 31 do dia de lavratura de auto, além das penalidades fiscais cabíveis.

      Sobre o trecho acima vale destacar o total descumprimento do estabelecido pela lei, pois o documento remete ao ano de 1981 e a maioria dos artigos mencionados foi desrespeitada durante a trajetória do comércio informal na cidade. A maleabilidade do passado acompanhou os ambulantes até o Camelódromo e, desta forma, o acordado na época da instalação na Avenida Rio Branco não tardou a ser modificado para ir de acordo com os desejos dos vendedores.

      Os primeiros anos de Avenida Rio Branco se apresentam de forma distinta, já que não existiam críticas no sentido de infraestrutura. Como o comerciante João Mafalda - um dos afetados por esta mudança -

      , “na Avenida Rio Branco, na época da fundação, foi feito tudo muito bem estruturado”. A ideia de dois comerciantes por quiosque era seguida a risca durante os primeiros tempos. Contudo, no sentido de lucratividade e organização interna dos camelôs, os primeiros momentos não foram de sucesso. Mafalda afirma que

      , “no início foi terrível. Porque tu tava [sic] acostumado com um espaço bem maior e com uma clientela já estabelecida. Foi bem difícil nos primeiros tempos” (2012). Para sanar tais fragilidades, a Prefeitura Municipal aconselhou os comerciantes a procurarem soluções rápidas para aumentar a procura e, consequentemente, terminar com a queda nos lucros. Segundo Posebon (2011),

      Para que o fluxo de vendas não diminuísse, a Prefeitura aconselhou [...] que os camelôs criassem suas próprias mídias de propaganda, como por exemplo, festivais, os quais a Prefeitura se colocava disposta a auxiliar (p. 48).

      Outro ponto que atrapalhou nos primeiros tempos de Camelódromo foi a permanência de vendedores pelas ruas de Santa Maria. Ou seja, houve apenas uma substituição de agentes. No lugar daqueles 57 ambulantes que foram para o centro comercial, outros ocuparam o antigo espaço. Este fato vai ao encontro com o contexto econômico e trabalhista do país:

      Nos anos de 1990, todas as regiões brasileiras apresentaram taxas de desemprego que são, no mínimo, o dobro das verificadas no final da década de 1980 [...] O crescimento do desemprego foi acompanhado por uma modificação na composição da estrutura ocupacional, com uma diminuição gradativa, desde os anos de 1980, da mão de obra empregada na indústria e no setor primário, e um aumento do terciário, que cresce deteriorando-se, absorvendo ocupações instáveis e mal remuneradas (KRAYCHETE, 2000, p.17-18).

      A crescente crise causou um gradual alargamento das atividades informais,

      39

      tanto em Santa Maria, como no país inteiro . A organização inicial para cerca de 60

      40

      vendedores demonstrou-se insuficiente com o passar dos anos . A fiscalização também não conseguiu dar conta da demanda e nem mesmo a organização interna 39 dos vendedores mantinha níveis recomendáveis.

      Nestes termos, conforme os critérios utilizados pelo IBGE, o Brasil possuía, em 1997, cerca de 9,5

    milhões de empresas informais, ocupando cerca de 13 milhões de pessoas (trabalhadores por conta

    própria, pequenos empregadores, trabalhadores assalariados com e sem carteira assinada e

    40 trabalhadores não remunerados).

      Segundo o comerciante José Mafalda, um dos motivos para os problemas organizacionais do

    Camelódromo foi a vinda de trabalhadores de outras regiões e um baixo controle na expedição dos

    alvarás. Sobre isto ele menciona que, “começou chegar gente de fora, o que atrapalhou na

    organização. Tinha muita gente de fora e eu acho que essas pessoas tinham que ficar nas cidades

    delas. Havia uma crise de emprego e começou a ser dado alvará pra todo mundo e daí veio essa

    pressão. Daí todo mundo dizia que vamos pra Santa Maria, lá nós conseguimos pontos

      ” (2012).

    Durante a reunião foi pedido aos representantes dos vendedores (no Camelódromo) uma maior

    consciência da necessidade de todos. Isso porque, conta Giovani Mânica, estão sabendo da situação

    da existência da formação de cartéis dentro do camelódromo, e que algumas pessoas são donas de

    mais de um espaço (banca), sendo considerado injusto, porque se é de caráter social o próprio

    proprietário é que deve esta lá vendendo e não ter funcionários. Poderá ter um sócio, mas não funcionário. Após o ano de 1997, não foram encontradas mais referências jornalísticas sobre os acontecimentos ligados ao comércio informal em Santa Maria. O que se pode mencionar com o levantamento das entrevistas, é que houve um crescente processo de desorganização. Quanto a organização do comércio informal no período,

      Franchi afirma que, “antigamente não existia. Era completamente caótico [...] os camelôs não se entendiam com ninguém. Então era caótico” (2012). Essa situação causou problemas no desenvolvimento das práticas comerciais deste setor na sociedade santa-mariense, bem como no distanciamento dos seus preceitos iniciais que entendiam o Camelódromo como uma solução provisória para a crise econômica e dos empregos no país.

    3.2 Quando a solução se torna problema: do Camelódromo ao Shopping Popular (2005-2011)

      Quando o ano de 2005 se iniciou, a situação dos vendedores informais já era tida como algo prejudicial para a cidade. Não havia controle do que se comercializava no Camelódromo, tão pouco os comerciantes achavam que aquela situação era correta. A antiga localização havia sido alargada para mais uma quadra abaixo. Ou seja, não somente o trecho entre a Rua Venâncio Aires e a Rua dos Andradas comportava o centro comercial informal, a quadra da Rua Silva Jardim também era tomada por aquelas barracas e suas lonas de cor laranja.

      Além disso, o comércio pelas esquinas do centro da cidade permanecia a todo vapor. Os CDs e DVDs eram facilmente encontrados e a fiscalização nada fazia para impedir tal comércio, pois a participação da mesma no Camelódromo também era quase inexistente:

      Olha, a fiscalização, havia, havia a fiscalização, mas havia uma fiscalização para poucos. Aqueles que obedeciam sempre estavam sendo fiscalizados, aqueles que não obedeciam nunca eram fiscalizados (MAFALDA, 2012).

      O quadro não permitia demora na tomada de atitudes. O Poder Executivo Municipal estava sob o comando do Prefeito Valdeci de Oliveira (PT

    • – Partido dos Trabalhadores) e este passou a ser o alvo de cobranças pela situação do Camelódromo e do centro da cidade. Sendo assim, segundo Mafalda (2012),

      um projeto visando a retirada dos vendedores informais da Avenida Rio seria proposta e todas as partes envolvidas esperavam que não somente o local fosse mudado, mas também a realidade do comércio informal de Santa Maria.

      A partir de meados de 2005, as notícias sobre o Shopping Popular tornaram- se recorrentes na mídia eletrônica. Todavia, os jornais da época pareciam ignorar a temática, fazendo com que as fontes dos acontecimentos fossem basicamente advindas da internet. Cabe destacar que nem as pesquisas feitas no Arquivo Histórico Municipal, nem na Casa de Memória Edmundo Cardoso (CMEC) puderam sanar tais fragilidades. Muito disto pode estar relacionado à ideia de que História do Tempo Presente não é o campo dos historiadores, mas de jornalistas.

      A primeira notícia da qual se teve acesso trata de um encontro do Prefeito Municipal Valdeci de Oliveira (PT) com os vendedores informais de Santa Maria para discutir a implementação do Shopping Independência:

      Valdeci conversou com os camelôs e ambulantes. As duas audiências duraram cerca de uma hora e trinta minutos. Nas reuniões, Valdeci esclareceu que o projeto apresentado é um esboço e que há possibilidade de sugestões e modificações. O prefeito afirmou que o projeto inicial prevê a existência de 194 estandes no Shopping Popular distribuídos em três pavimentos, sendo que cada categoria atuaria em um andar determinado,

      41 conforme reivindicação feita pelos trabalhadores ao Executivo .

      Claro está o sentimento de diferenciação entre os vendedores ambulantes da cidade. O afastamento proposto, se sugere, aponta uma fragilidade de consciência de classe, pois ainda com as mesmas reivindicações, as relações não se demonstravam amistosas.

      Ainda no ano de 2005, o prédio onde funcionava o antigo Cine Independência foi escolhido como o local do Shopping Popular na cidade e a compra foi concluída pelo Poder Executivo Municipal no mesmo ano. Os valores giraram em torno de 1,2 milhões de reais que seriam pagos em 22 parcelas, sendo

      42 21 parcelas de 55 mil reais e a última de 45 mil .

      A transferência dos vendedores informais da Avenida Rio Branco para o 41 Shopping Popular não resultava somente de motivações econômicas e de

      

    Segundo reportagem produzida por MACHADO, Thiago (2005), disponível em:

    http:www.santamaria.rs.gov.br/índex.php?secao=noticias&id=5656&arq_db=1&pchave=ambulantes.

    42 Acesso em: 13 mar 2012.

      

    Segundo reportagem produzida por PREVEDELLO, Carine (2005), disponível em:

    http://www.santamaria.rs.gov.br/index.php?secao=noticias&id=6769&arq_db=1&pchave=ambulantes. segurança. A (re) organização urbana também estava em pauta. Tendo sido um dos cartões postais de Santa Maria, imponente e majestosa em tempos de ferrovia, a Avenida Rio Branco - anteriormente Avenida Progresso - convivia com dias nebulosos. A proliferação das bancas com suas lonas chamativas deixavam aquele espaço de passeio urbano cinzento e ‘mal habitado’.

      Sobre este pensamento, o Secretário do Turismo e Eventos da época, Paulo

    43 Abelin Ceccim acena que ,

      O espaço público tem de ser da população, e não de poucas pessoas [...] Começamos a discussão oferecendo aos ambulantes uma alternativa de muita qualidade, que vai dar condições de que eles possam fazer o seu trabalho com dignidade [...]. Estamos discutindo o espaço público como um todo, como a localização de trailers e feiras. Eu defendo e sempre vou defender, estando na condição de secretário ou de cidadão, que o Município nunca pode abrir mão de devolver o espaço público ao cidadão. Uma praça tem de ser uma área verde, de lazer, de descanso, em que pode haver no máximo intervenções culturais, tendo sempre como eixo central o cidadão, e nada mais do que isso. Tudo o que acontecer fora disso é deturpação.

      A situação de tensão entre os vendedores informais e o poder público passava a ser constante. O discurso do Prefeito Municipal era o de erradicar os problemas enfrentados por estas práticas. Para tal, tornou-se recorrente a

      44

      apreensão de artigos comercializados nas ruas da cidade . Contudo, os primeiros anos de governo do prefeito municipal Valdeci de Oliveira, pautou-se por um considerável alargamento do setor informal da cidade.

      Sobre tal assertiva, ouviu-se que

      tinha muita gente de fora e eu acho que essas pessoas tinham que ficar nas cidades delas. Havia uma crise de emprego e o Valdeci de Oliveira começou a dar alvará pra todo mundo e daí veio essa pressão (MAFALDA, 2012).

      Com este crescimento desordenado, claro estava que o controle do espaço não seria fácil, tão pouco rápido. A liberação de alvarás para mais vendedores 43 Segundo reportagem produzida por PREVEDELLO, Carine (2005), disponível em:

    http://www.santamaria.rs.gov.br/index.php?secao=noticias&id=7907&arq_db=1&pchave=ambulantes.

    44 Acesso em: 13 de mar. 2012.

      Segundo MACHADO, Fabiane (2006), em reportagem disponível em:

    http://www.santamaria.rs.gov.br/index.php?secao=noticias&id=7907&arq_db=1&pchave=ambulantes.

    Acesso em: 13 mar de 2012. “Na manhã desta sexta (17), cinco fiscais da Prefeitura de Santa Maria e

    quatro fiscais da Receita Federal apreenderam mercadorias vendidas por comerciantes ambulantes.

    O foco da operação foram os CD's e DVD's piratas. Foram recolhidos materiais de três bancas: duas

    instaladas na esquina da Rua Floriano Peixoto com a Rua Doutor Bozzano e outra, que estava resultou no recrudescimento da situação, já que os mecanismos que deveriam controlar estas atividades não passaram pelas melhorias necessárias.

      A fiscalização “era muito deficiente, pois naquela época os fiscais da Prefeitur a eram mínimos” (GAIGER, 2012). Esperava-se que em 2007 as obras do Shopping Popular estivessem prontas

      45

      :

      Já em agosto de 2007, os santa-marienses serão contemplados com mais um importante projeto, o Shopping Popular, que vai destinar espaços de comercialização para artesãos, camelôs e vendedores ambulantes. O [...] Shopping Popular terá outros atrativos, como um espaço destinado à realização de eventos culturais no andar térreo e uma praça de alimentação no segundo andar. No último pavimento, junto com o restante dos estandes, deverá ficar a administração do shopping. O empreendimento terá ainda elevador para acesso dos portadores de necessidades especiais ao segundo e terceiro pavimentos, assim como banheiros adaptados. Em junho deste ano, o município conseguiu junto ao Governo Federal um recurso no valor de R$ 290 mil para o projeto.

      Além do interesse político e de reordenação urbana, há o viés econômico da empreitada, não apenas se referindo aos ambulantes, mas também da parceria firmada entre a Prefeitura Municipal e a Rede de hipermercados francesa Carrefour, a ser fixada próxima aos vendedores ambulantes. Tal empresa firmou um acordo que ajudaria no levantamento das obras do Shopping Popular com a quantia de um milhão de reais.

      O total de investimentos para a implantação do Shopping será de cerca de R$ 1,3 milhão. A obra de restauração do prédio, na Praça Saldanha Marinho, que deve iniciar em 15 dias, será realizada pela BK Construções, mesma empresa que está trabalhando para a instalação do Carrefour. O Hipermercado firmou a parceria através da destinação de R$ 1 milhão, a fundo perdido, como contrapartida pelos investimentos no município. O valor restante é proveniente de uma emenda parlamentar do Deputado Federal Paulo Pimenta, através do Projeto de Inclusão Produtiva do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS).

      46 O Shopping Popular seria a solução para as fragilidades no centro da cidade (segurança, emprego formal, iluminação, revitalização da Avenida Rio Branco).

      Também maior controle na fiscalização do comércio informal. Além disso, a ideia de

    45 Segundo reportagem produzida por ROSA, Francielli (2006), disponível em

      

    :http://www.santamaria.rs.gov.br/index.php?secao=noticias&id=11202&arq_db=1&pchave=ambulante s. Acesso em 16 de mar. 2012. 46 O restante da verba, R$ 290 mil, seria proveniente de uma emenda parlamentar do deputado

    federal Paulo Pimenta (PT), através do Projeto de Inclusão Produtiva do Ministério do que todos os vendedores fossem contribuintes tributários, como os outros setores do comércio local.

      Obras do Shopping Popular (ainda sem nome na época), o qual seria instalado no antigo Cine Independência (na Praça Central) e contaria com uma área de 1050 metros quadrados, abrigando 194 bancas. O projeto prometia “tirar os profissionais das ruas, além de dar melhores condições de atuação, com a qualificação das alternativas de geração de trabalho e renda”. Anunciava-se que poderiam ir para o local todos os trabalhadores informais que já fossem cadastrados no município, fossem eles camelôs, artesãos ou ambulantes (eram cerca de 100 camelôs, 56 ambulantes e 50

    artesãos cadastrados) (POSEBON, 2011, p. 61).

      Contudo, nem todas as expectativas estavam sendo cumpridas. Nem na organização dos vendedores informais, que permanecia caótica e em expansão pelas ruas da cidade, tão pouco nas obras do Shopping Popular, as quais não estavam sendo prosseguidas como era esperado:

      Preocupado em dar andamento ao projeto de revitalização do Centro de Santa Maria, o prefeito Cezar Schirmer constituiu nesta terça-feira (20), um grupo de trabalho para tratar da ocupação do espaço do shopping popular, no antigo Cine Independência. O grupo é integrado por três ex-secretários de Desenvolvimento Econômico do município, de governos anteriores, Walter Bianchini, Renan Kurtz e Zoé Dalmora, além do chefe de Gabinete da prefeitura, Giovani Manica

      47 .

      Além desta preocupação com as obras do Shopping Popular, o prefeito Cezar Schirmer (2008-2012) demonstrava a intenção de legalizar os vendedores informais da cidade, por meio de uma lei ou de um decreto relacionado ao artigo 200 do Código de Posturas. Isso permitiria o comércio de ambulantes em vias públicas do município, ou através de Lei Ordinária, com aprovação de projeto pela Câmara de Vereadores, tal qual como ocorrera com a transferência dos ambulantes da Rua do Acampamento para a Avenida Rio Branco, no início da década de 1990. A “transferência é legal e como pode ser regulamentado o funcionamento [...], afinal, é uma área pública que será ocupada por atividade privada”, afirmava o Chefe de Gabinete da Prefeitura, Giovanni Mânica (A Razão, 2009).

      A reportagem ainda trata das dificuldades enfrentadas para o levantamento da verba para a conclusão das obras do Shopping Popular:

    47 Segundo reportagem produzida por ROSA, Francielli (2009), disponível em

      

    :http://www.santamaria.rs.gov.br/index.php?secao=noticias&id=18138&arq_db=1&pchave=ambulante

      O Escritório das cidades já apurou o custo para a conclusão do prédio onde funcionava o antigo Cine Independência, na Praça Saldanha Marinho. A colocação dos 194 estandes vai custar cerca R$ 600 mil. Dinheiro, que segundo o presidente do Escritório, Júlio Rasquin, a Prefeitura não tem. Os recursos serão buscados junto a Ministérios, emendas parlamentares e iniciativa privada. Enquanto a verba não chega, o processo de licitação para definir a empresa que dará andamento a obra não sai.

      Os impasses perduraram até o mês de outubro de 2009, quando foi firmada uma parceria entre o poder público e o poder privado, para tirar o projeto do papel:

      Em uma coletiva de imprensa no Gabinete do Prefeito, será lançado o edital de licitação da empresa que realizará as obras necessárias no prédio e que administrará o empreendimento por um prazo de cerca de dez nos. De acordo com o prefeito Cezar Schirmer (PMDB), o Executivo não tem recursos para o projeto que cus taria em torno de R$ 1 milhão. ‘A empresa que vencer a licitação realizará a obra em troca da administração do local ’, explica. Os responsáveis terão a livre utilização do local e a fonte de lucro poderia vir da utilização de uma praça de alimentação e de terminais bancários que devem ser instalados (Jornal A Razão, 2009).

      Em novembro de 2009, a Prefeitura publicou o edital para a abertura de licitação para a contratação da empresa, que concluiria as obras internas do Shopping Popular. A empresa vencedora estaria obrigada a cumprir, no prazo de três meses, as reformas planejadas e, com seus recursos, deixar o espaço apto para as práticas comerciárias o mais rápido possível. A vencedora da licitação foi a empresa CPC, de Santa Maria, a única que decidiu participar da disputa e conseguiu o direito de administrar o local durante dez anos, com a possibilidade de prorrogação de mais dez anos. Em pronunciamento

      48

      , o prefeito Cezar Schirmer fez questão de destacar a coragem da empresa e de parabenizar a mesma pela iniciativa:

      Após a conclusão da obra, que prevê a construção de 224 estandes internos em dois pavimentos. [...] A construtora terá que fornecer os equipamentos necessários à empreitada, serviços de engenharia e de manutenção e administração. No primeiro pavimento serão disponibilizados espaços para livre adequação de 100 estandes na edificação já existente, cuja área é de 832,19m². Já no segundo pavimento serão instalados 105 estandes, em uma área de 733,37m². No terceiro piso haverá praça de 48 Segundo a publicação “Após a assinatura do contrato e da Ordem de Serviço, em um ato

    simbólico o prefeito entregou as chaves do local para o empresário Rafaelle Barbosa, diretor da

    empresa. Schirmer elogiou a coragem do empresário que foi o único que se interessou e apresentou

    proposta no processo de licitação. Em seu pronunciamento, o prefeito ressaltou que aquele é um

    espaço nobre, que dará dignidade as pessoas que estão na rua. Além disso, segundo o prefeito, os

    comerciantes estarão ao abrigo do tempo, com segurança e condições de higiene: “este ato se

    reveste de um simbolismo dos novos tempos”, salientou o prefeito se referindo à recuperação e

    revitalização do centro “que está tão pouco a altura de uma cidade que se ama e se respeita”.

    Disponível em: <www.santamaria.rs.gov.br/index.php?secao=noticias&id=19425&arq_db=1>. Acesso em 12 de abril 2012. alimentação, lotérica, correios, caixa eletrônico, farmácia e espaço cultural. No total, a empresa vencedora da licitação deverá fornecer e implantar, conforme o projeto arquitetônico, no mínimo 205 estandes em estrutura metálica removível, com iluminação individual, cortina metálica frontal

      49

    conforme especificações técnicas (A Razão, 2010).

      Um dos focos que seria fortemente combatido após a transferência para o

    50 Shopping Independência , era a pirataria. Era de conhecimento público que um dos

      51

      principais meios de obtenção do lucro dos camelôs era com os produtos ilegais (óculos, brinquedos, eletroeletrônicos, roupas, calçados, relógios, bonés) que vinham, principalmente, de grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro, bem como de outros países, como o Paraguai.

      Nota-se que naquele momento já havia se tornado difícil qualquer forma de questionamento acerca da mudança programada para os vendedores informais da cidade. Era apenas uma questão de tempo para que todos os artesãos, ambulantes e camelôs de Santa Maria fossem realocados. Contudo, não havia como deixar de ouvir os próprios vendedores informais nesse processo de mudança física de seus estabelecimentos. Como eles entendiam essas mudanças? Eles aceitavam trocar de lugar novamente? O governo pediu sua participação na elaboração do projeto e levou em conta as necessidades dos mesmos?

      Uma das maiores reclamações dos camelôs foi a total falta de diálogo entre o governo municipal e os maiores interessados. Nem o nome do Shopping foi escolhido por eles, o que denuncia o quão unilateral foram as decisões sobre o 49 futuro do comércio informal em Santa Maria.

      

    Disponível em: http://arazao.com.br/economia/centro-sera-desocupado-em-noventa-dias. Acesso

    50 em: 15 de abril de 2012.

      Segundo Posebon (2011) “Em 10 de maio de 2010, noticia-se que foi escolhido o nome do novo

    Shopping Popular de Santa Maria: “Shopping Independência”, localizado no antigo espaço onde

    funcionou tradicional cinema com o mesmo nome. A escolha foi realizada através de uma campanha,

    chamada “Escolha o Nome”, promovida pela empresa CPC, responsável pela administração do local,

    e com apoio da Prefeitura Municipal. Durante cerca de um mês, a campanha disponibilizou cupons

    51 em pontos de informações turísticas de Santa Maria” (p. 64).

      

    Segundo a reportagem do jornal A Razão, do dia 22 de mar 2010, disponível em:

    www.arazão.com.br/geral/na-mira-dos-produtos- piratas/. “O Ministério Público, com a finalidade de

    intensificar o combate à pirataria e a concorrência desleal, vem promovendo reuniões entre

    promotores, membros do Comitê Interinstitucional de Combate à Pirataria e com representantes de

    diferentes setores afetados por esses problemas. O promotor João Marcos Adede y Castro, afirma

    que ações de combate devem ser feitas de forma permanente, pois a venda destes produtos implica

    em prejuízos aos cofres públicos e ao consumidor por serem confeccionados a partir de materiais

      Muitos comerciantes não queriam sair da Avenida Rio Branco, mesmo sabendo que a situação do Camelódromo fosse insustentável. “Eu fui um dos que lutou até o fim pra não vim pra cá [sic]. Lutei para que ficássemos lá ou que fossemos para outro lugar na Avenida Rio Branco [...] O ponto de partida do discurso das autoridades era sempre o mesmo: a organização, a questão do abrigo e da segurança, problemas enfrentados pelos comerciantes ”. (MAFALDA, 2012).

      Nós viemos pra cá porque foi uma ordem. Se nós pudéssemos escolher, nós gostaríamos de um lugar com mais espaço, mais digno. Sobre o espaço, até hoje é terrível mesmo. Agora, a avaliação, eu acho que a mudança, no fundo, no fundo foi necessária. E todos aprendem com isso. Como ser um comerciante melhor. O nosso grande problema são os impostos, a burocracia. Não é que nós não queremos pagar os impostos, nós queremos um imposto justo. Tem que haver uma revisão nos impostos para os microempresários (FRANCHI, 2012).

      As críticas não cessavam para ambos os lados dessa querela. A postura tomada pela prefeitura afinal, não foi democrática, nem respeitosa. Os vereadores Sérgio Cechim (PP) e João Carlos Maciel (PMDB) expuseram suas opiniões:

      “Faltou diálogo, faltou bom senso, [...] Faltou que uma comissão se apresente e convença os camelôs que vai ser ótimo aqui”. Por seu turno, a empresa responsável pelas obras do Shopping (CPC), afirmava:

      “a empresa é responsável somente pela conclusão da obra e pela administração. A negociação com os camelôs e com os

      52 .

      artesãos é com a prefeitura”(Jornal A Razão, 2010) Contudo, a categoria dos vendedores informais não agia de maneira coesa e homogênea, havendo lideranças que fizessem pressões aos outros. Na mudança para o Shopping Independência não foi diferente

      : “Prefeitura não volta atrás” (A RAZÃO, 2010). Após uma reunião com a presença do Prefeito Cezar Schirmer, ficou

      53

      claro que mais da metade dos comerciantes do Camelódromo queriam mudar para o novo local: 52

      “Já o representante dos Camelôs, Paulão, garante que os informais não querem sair de onde

    estão. Não é bem assim. Eles vão ter de conversar, comenta Paulão. Segundo o representante, as

    informações que os Camelôs têm sobre o local é que os estandes são muito pequenos. A metragem

    de um metro e meio por um metro e oitenta, não seria a ideal. Nós não vamos aceitar ir para lá,

    porque não tem as mínimas condições. O espaço é mínimo, é impossível trabalhar num local desses”.

    Disponível em: www.arazao.com.br/economia/prefeitura-e-camelos-deveram-conversar/. Acesso em:

    53 25 mar 2012.

      

    “Na manhã de ontem houve o cadastramento dos ambulantes no auditório da Prefeitura. No total

    foram 67 pessoas cadastradas como ambulantes, segundo o vereador Cláudio Rosa. A Prefeitura

    havia feito um pré-cadastro que listava 45 ambulantes no centro da cidade”. Disponível em:

      Na reunião, alguns representantes resolveram arregaçar as mangas e colocar as cartas na mesa denunciando as irregularidades praticadas por um grupo de comerciantes. A informal Luiza Halmo de Fraga revela a pressão da associação para que os camelôs não aceitem a mudança de local. “Tenho medo de represália, até me sinto ameaçada”, comenta. Segundo ela, a venda de mercadorias ilegais e o aluguel de bancas são práticas comuns. O cabo de guerra parece estar ganhando força para o lado da Prefeitura. Alguns comerciantes estão gostando da ideia de novos

      54 investimentos e de um novo local com melhores condições .

      Além desta reunião, outra realizada com o Prefeito e seus assessores sacramentaram a transferência para o Shopping Independência. Alguns vendedores alegaram que o prefeito os realocasse mais abaixo, na Avenida Rio Branco, mas o

    55 Prefeito manteve o que estava previsto .

      A transferência da Avenida Rio Branco não transcorreu de forma tranquila e

      56

      harmoniosa , porém não se pretende apontar vilões ou mártires. Como foi explicitada com as notícias, a maioria dos vendedores informais queriam ir para o Shopping Independência, mesmo que este não apresentasse as condições recomendáveis como o espaço e a liberdade que conviviam no Camelódromo. A prefeitura prometia que as fragilidades seriam sanadas o mais rápido possível e a mudança de ares era inevitável.

      Os meses que seguiram foram de últimos retoques na estrutura do Shopping e nas tentativas de alguns poucos vendedores de permanecer comercializando na rua. Contudo, a realidade parecia ser diferente e a Prefeitura Municipal deixava clara sua ideia de erradicar por completo o comércio pelas ruas de Santa Maria. Ou seja, ou os vendedores facilitavam e se transferiam para o novo centro comercial ou corriam o risco de ficar sem rendimentos. Então foi o momento da distribuição dos 54 estandes, por meio de sorteios para a ocupação das bancas ocorreram em 16 e 17 55 Disponível em: www.arazao.com.br/economia/prefeitura-nao-volta-atras/. Acesso em 19 mar 2012.

      

    Com mais uma reunião a portas fechadas - a imprensa não pôde acompanhar - o prefeito Cezar

    Schirmer fechou o ciclo de audiências com os informais que trabalham no centro de Santa Maria. Os

    camelôs são os mais resistentes entre as três categorias - que incluem ambulante e artesãos - à

    transferência para o Shopping Independência, na Praça Saldanha Marinho. O representante da

    categoria manteve a proposta de construir um novo camelódromo nas duas quadras abaixo de onde

    ficam localizadas as bancas, na Avenida Rio Branco, liberando a atual quadra para o projeto de

    revitalização do Centro. A prefeitura estendeu aos camelôs o mesmo benefício ofertado aos

    ambulantes - o perdão das dívidas - e ofereceu uma linha de crédito para financiar a compra de

    mercadorias e um curso de gerenciamento de microempresas. O prefeito foi taxativo: a permanência

    56 dos vendedores no Centro está descartada.

      

    Segundo Posebon (2011) “podemos ver que, mesmo sendo contrários à transferência, alguns de junho de 2010. Os boxes foram divididos em cinco setores: Setor A, com seis boxes no valor de R$ 490,00; B, com sessenta e seis boxes no valor de R$ 300,00; C, com três boxes no valor de R$ 250,00; D com trinta e sete boxes no valor de R$ 150,00 e dez no valor de R$ 160,00 e; Setor E com trinta e seis boxes no valor de R$ 105,00 e dezenove boxes no valor de R$ 145,00. Os preços variavam conforme o tamanho e localização, enquanto a venda das mesmas por parte dos comerciantes

      57 sorteados foi proibida .

      Era questão de tempo para que o novo lugar de trabalho dos camelôs estivesse a pleno vapor. A esperança de dias melhores e de mais organização era o mote principal dos trabalhadores. A Avenida Rio Branco deixaria de comportar aquela imensidão de lonas e penduricalhos na sua extensão. O lugar onde seria estabelecido o comércio informal seria de melhor localização e acesso para a população santa-mariense, os problemas de ordem legal seriam sanados e as perspectivas eram as melhores. Sabemos, porém, que nem sempre a realidade acompanha os desejos.

      No dia 25 de junho de 2011, foi inaugurado o Shopping Independência, o primeiro mercado público da cidade de Santa Maria, semelhante aos que existem em outros grandes centros do país, com trabalho em ritmo acelerado. A demanda da população foi satisfatória, mas não o suficiente para por fim ao sentimento nostálgico da Avenida Rio Branco:

      O trabalho de remoção dos camelôs da Avenida Rio Branco, em Santa Maria, foi interrompido no final da tarde desta sexta-feira, em função da chuva. O caminhão da prefeitura, que ajuda no processo de retirada das bancas, deve retomar o trabalho na manhã deste sábado. Os informais têm até a meia-noite para sair das ruas centrais da cidade e para vender os seus produtos no local, mas, quem não conseguir retirar todo o material poderá fazê-lo na manhã de sábado, desde que não efetue nenhuma 58 venda (Diário de Santa Maria, 2011)

      Os primeiros meses de comércio no Shopping Independência trouxeram 57 grandes esperanças para aqueles que se utilizavam dele, boa organização, apesar

      

    JACQUES, Vera. Justiça confirma decisão da prefeitura sobre transferência de comerciantes para

    o Independência até dia 24. Imprensa da Prefeitura de Santa Maria, 21 jun. de 2010. , 21 jun. de

    2010. Disponível em: <www.santamaria.rs.gov.br/index.php?secao=noticias&id=20027&arq_db=1>.

    58 Acesso em: 19 jun. 2012.

      

    Disponível em: http://www.clicrbs.com.br/especial/rs/dsm/19,18,2950154,Camelos-deixam-as-ruas-

      59

      do micro espaço destinado a cada banca , horário flexível, segurança, produtos bem apresentados e os preços acessíveis.

      Mas, “apesar do público intenso no local, para muitos, o movimento não se refletiu em vendas” (Diário de Santa Maria, 2011) O quadro se repetiu pelos primeiros meses e depois se estabilizou.

      Uma das fragilidades é percebida na procura desigual nos andares do prédio. Enquanto o primeiro andar concentra fluxo intenso e vendas satisfatórias, o segundo andar (mesmo com acesso por elevador) é menos procurado pela população. Sobretudo porque a maioria dos produtos vendidos no segundo andar está disponíveis também no primeiro piso. Mas o público estava mais variado:

      A maioria dos entrevistados declarou que os integrantes das classes média e alta, que não iriam ao camelódromo ou às bancas no Centro, agora frequentam o shopping. E o antigo público? Esses continuam procurando pelos produtos como antes (Diário de Santa Maria, 2011).

      A mudança para o Shopping Independência deve ser entendida como uma evolução no comércio informal em Santa Maria, após os tempos conturbados do Camelódromo na Avenida Rio Branco (melhor localização, organização e segurança para os trabalhos desenvolvidos).

      Um ano após a transferência dos vendedores informais, vários problemas ainda podem ser observados (os vendedores ainda convivem com o espaço reduzido, agravado pelo grande número de produtos vendidos pelos mesmos); Quanto a segurança, até hoje não existe mecanismos contra-incêndio; na organização, a venda ainda se apresenta desigual no andares do Centro Comercial). De maneira geral, a mudança foi entendida como benéfica, pois as oportunidades de empregos continuam surgindo, os serviços prestados atenuam o abismo criado pelo capitalismo predatório, as reivindicações estão sendo alcançadas com sucesso e o trabalho tende a melhorar.

      O comércio informal perdurará por muito tempo ainda. Esta forma de trabalho que passou por preconceitos e descaso públicos agora vive uma fase de expansão e fortalecimento. Aos poucos, a ideia que vinculava o comércio informal com produtos de baixa qualidade está sendo ultrapassada. Os vendedores que a 59 princípio sofreram dificuldades estão colhendo bons frutos com a mudança. Sobre o

      Segundo o comerciante João Mafalda “o grande problema enfrentado era o pequeno espaço de

    cada Box, pois o tamanho era de 1,75m por 1,75 m, o que atrapalhava na organização e, de certa futuro e a superação das deficiências oriundas desse tipo de trabalho? Bem, isso já seria outra pesquisa, sob um novo olhar e novas perspectivas. Para qual andar você está indo?

      CONSIDERAđỏES FINAIS

      A cidade de Santa Maria sempre foi considerada um pólo no setor comerciário. Desde a sua fundação, passando pela vinda dos imigrantes europeus e, posteriormente, dos asiáticos, crescendo a níveis impressionantes com a chegada da estrada de ferro, convivendo com o prestígio e o crescimento dos grandes centros capitalistas e, mesmo com o fim da ferrovia, não parou de crescer, seja motivada pelo setor educacional ou militar atual. O que sabemos é que essa importância, vista durante diferentes períodos da sua breve história, não a abandonou.

      Mesmo com as crises nacionais, a cidade nunca perdeu seu papel de destaque. No final da década 1970, o Brasil convivia com uma Ditadura Civil-Militar oscilante, demonstrando que seus dias estavam chegando ao fim. O discreto charme da burguesia estava sendo afetado por uma economia que tinha vivido seu ‘milagre’ e agora permanecia imersa em um breu sem fim. O povo não tinha voz, apenas assistia e sofria. Sofria na política, sofria no bolso, sofria nos esportes. Acompanhou uma Laranja Mecânica acabar com o sonho do tetra. Os irmãos não tinham mais coragem. A época era de Dancing Days. Eram dias de dança que, como Gabriel o “Pensador” cantaria posteriormente: “era a dança do desempregado”. Neste tempo, os empregos se tornaram artigos de luxo, as disputas aumentaram e o país mergulhou em uma crise sem perspectiva de retorno.

      As cidades cresciam sem parar e, seguindo este pensamento, a cidade de Santa Maria era vista como um local de possibilidades inesgotáveis, com suas iniciativas no Ensino Superior, um setor comerciário visto como referência regional e forte presença de regimentos militares. Todavia, a crise econômica internacional dos anos de 1970 deixou fortes marcas no Brasil e, por meio disso, o número de oportunidades de emprego passou a diminuir, indo em direção contrária da procura. Ou seja, era muita gente e pouca oportunidade de emprego, formando grandes bolsões de desemprego.

      Sendo assim, a geração de ocupações de baixa qualidade surge como possibilidade de incorporação econômica dos indivíduos prejudicados por essa nova realidade. Contudo, tal inclusão através de trabalhos (irregulares e informais) acaba sendo insuficiente para sanar os problemas enfrentados, pois as mesmas se apresentam como ‘inseguras’, no sentido de continuidade, no nível de rendimentos e no acesso aos programas de segurança social (saúde, previdência, seguro- desemprego). Com isso, os problemas perdurariam, sendo apenas atenuados e mascarados.

      Neste contexto, a década de 1980 se inicia com grandes modificações em gestação - novas condições de padrões produtivos, tecnológicos (salienta-se que as inovações tecnológicas se fazem acompanhar de um cenário de baixas taxas de crescimento econômico, com desregulado concorrência e profundas incertezas na economia mundial). Por consequência, tende a se ampliar o grau de heterogeneidade social, identificando por meio da instabilidade do mundo do trabalho, da precarização das condições e relações de trabalho e da permanência de elevadas taxas de desemprego e reorganização do mercado de trabalho. Uma das principais características deste momento foi a crescente preocupação com a agilidade do processo produtivo. Essa agilidade acaba por formar segmentações dentro do mercado de trabalho e um enxugamento de oportunidades em detrimento à tecnologia em expansão.

      No Brasil, a política econômica da época impôs uma impressionante queda do número de postos de trabalho e parte dos empregados que perderam suas posições foram obrigados a buscar novas formas de obter o seu sustento. A partir do momento em questão, a desigualdade social potencializa seu papel na disputa pelas melhores posições no mercado de trabalho, pois, com os diferentes graus de especialização que os indivíduos detêm, a divisão privilegiaria os mais especializados. Instituindo uma gradativa polarização dos melhores postos de trabalho e aumento na diferença de rendimentos.

      Com o intenso trânsito de indivíduos de diferentes procedências, as cidades passaram por grandes transformações, tornando-se natural o surgimento de problemas no seu setor organizacional, sejam eles no quesito da segurança (crimes), na economia (falta de oportunidades de emprego, má divisão de renda, no âmbito social (questões de cidadania) ou espacial (infraestrutura - saneamento básico, ruas, serviço público)). Fatores estes que ocorreram em uma velocidade assustadora.

      Sendo assim, no interior deste processo surgem segmentos marginalizados e estereotipados, fator que acabou por estimular preconceitos e discriminações, dificultando as relações entre os diferentes grupos, construindo um abismo entre cidadãos que dividem o mesmo espaço.

      Para piorar, a cidade de Santa Maria passa a conviver com dois processos que agravariam o quadro da época: um enxugamento de alguns setores do mercado de trabalho e do processo migratório que aumenta durante a década de 1970-80, fazendo com que a cidade aumente no sentido quantitativo, não no qualitativo. A partir disto, ocorre uma rápida proliferação dos trabalhos feitos por conta própria, os quais não possuem contrato de trabalho com garantias de direitos trabalhistas e sociais. A informalidade ganha espaço e seus efeitos não tardariam a serem sentidos.

      A partir de meados da década de 1990, a situação da informalidade em Santa Maria se torna incontrolável, já que, as atividades sem vínculo duradouro e sem a perseguição tributária se apresentaram como a saída para os momentos de crise. Todavia, a cidade de Santa Maria, mesmo que tendo passado por grandes mudanças durante sua história, ainda sofria com uma organização não mais que mediana. Somado a isso, as políticas públicas insuficientes que só faziam aumentar as parcelas desprotegidas dentro da sociedade.

      A fundação do Came lódromo não foi mais do que um ‘tapa-furo’. Ou seja, uma solução de momento, já que a situação econômica/trabalhista vivida era nada mais do que caótica e apenas potencializou os problemas. Com uma fiscalização praticamente inexistente e a organização muito aquém do necessário, o crescimento se tornou incontrolável. A antes solução se apresentou como um problema que novamente daria dores de cabeça para a população da cidade. No sentido urbano, a construção do Camelódromo na Avenida Rio Branco poderia ser facilmente chamada de crime ou atentado pelo simples fato de deixar com aquela aparência desorganizada o principal cartão postal da cidade.

      Mas a culpa não é do povo

    • – leiam-se trabalhadores informais, uma vez que muitos daqueles que foram tentar a sorte no comércio informal, se pensassem diferente poderiam estar dentro das parcelas marginalizadas, pendendo para a
    pode ser colocada nas costas dos vendedores da pequena banca, pois estes indivíduos apenas estão reproduzindo o que lhe foi ensinado desde sempre. Ou seja, o mundo é dos ‘espertos’.

      E notando que a situação estava fora de controle, o governo municipal decidiu realocar novamente aqueles vendedores, que há 20 anos haviam sido levados ao Camelódromo, para o Shopping Independência. Mas o que está diferente do Camelódromo? Muitos vão dizer que a organização, a segurança, a estética, o público. Partilha-se com alguns pontos, mas há dúvidas de que a solução final é o Shopping Independência ou, como é conhecido por grande parcela da sociedade santa- mariense, o Shopping “Popular”, já que, quando fundado, o Camelódromo também gozava das mesmas prerrogativas. Isso, porém, não temos como saber agora.

      O que se pode notar é que as condições do Shopping Independência não são totalmente recomendáveis, ainda que, atualmente faltem alguns elementos que possibilitem boas instalações para os vendedores e consumidores, pois o espaço é mínimo, as instalações de segurança não são as exigidas e a divisão por andar permanece atrapalhando no desenvolvimento das atividades.

      Mesmo assim, o chamado comércio informal não terá fim, pelo menos não tão cedo. No lugar daqueles que estão hoje no Shopping Independência, chegarão outros e mais outros, fazendo com que seja necessária a construção ou a remodelação do atual local destinado a esses trabalhadores.

      Ainda assim, nem tudo pode ser visto de forma negativa, é facilmente perceptível que os antigos camelôs, antes vinculados a produtos ilícitos ou de baixa qualidade, estão se tornando microempresários que trabalham com nota fiscal, com produtos de procedência garantida e de qualidade. Deseja-se crer que os preconceitos e desconfianças sobre este segmento do trabalho/economia do país desapareçam, fazendo com que aumentem os investimentos no setor que, por vezes, é apenas trocado de lugar. Qual produto você deseja adquirir?

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      ANEXOS

    Roteiro de entrevista

    Acadêmico: Matheus Rosa Pinto

      

    História Oral

      1. Nome:

      2. Idade:

      3. Escolaridade:

      4. Endereço:

      5. Há quantos anos trabalha no comércio informal?

      6. Onde o senhor ficava nesta época?

      7. Como se dava a fiscalização das atividades?

      8. O senhor sempre trabalhou no comércio?

      9. O senhor é natural de Santa Maria?

      10. O senhor é proprietário da banca?

      

    11. Todos os vendedores que estavam na Avenida Rio Branco conseguiram

    Box?

      12. Que tipo de produtos o senhor comercializa?

      13. A procura da população tem sido satisfatória, ou antes, era melhor?

      

    14. Na sua opinião, o que motivou esse crescimento do comércio informal em

    Santa Maria?

      

    15. O senhor acha que muitas pessoas que estão trabalhando no comércio

    informal, e que são oriundas de cidades do interior, vieram pra cá com a expectativa de melhorias na qualidade de vida, mas não acharam os locais para desenvolver suas atividades?

      

    16. O senhor entende que há uma boa organização do setor informal hoje em

    dia?

      

    17. Em muitos momentos, os jornais da cidade apresentaram reportagens

    dizendo que existiam muitos casos de venda de produtos ilícitos na época da Avenida Rio Branco. O senhor acha que isso acabou?

      18. O senhor entende isso como uma coisa benéfica então?

      19. Em sua opinião, o que diferencia o trabalho formal do informal?

      

    20. O senhor acha que os comerciantes informais que estão no Shopping

    Independência se tornaram pequenos e microempresários?

      

    21. O senhor já sofreu algum tipo de preconceito, por desenvolver atividade

    tida como informal?

      22. O Senhor já se sentiu vítima de algum tipo de coerção?

      

    23. Você pensa sua atividade profissional como um fator positivo entre o

    comércio e o consumidor? Por quê?

      

    24. O senhor acha que se o Shopping Independência fosse em outra região da

    cidade, afastado do centro, a procura seria menor?

      25. A diferença do aluguel é muito grande?

      26. O que o senhor acha que poderia melhorar no Shopping Independência?

      

    27. Como o senhor entende que as atividades desenvolvidas aqui no Shopping

    Popular são vistas pela sociedade santa-mariense?

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