Tese_Doutoramento 27dez.pdf

1
6
422
7 months ago
Preview
Full text
Tese apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Doutor em Relações Internacionais, na especialidade de Globalização e Ambiente, realizada sob a orientação científica da Professora Doutora Teresa Maria Ferreira Rodrigues, Professora Associada com Agregação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e do Doutor José Manuel Félix Ribeiro. À memória dos meus pais AGRADECIMENTOS Esta secção é dedicada a todas as pessoas e entidades que contribuíram para a concretização deste estudo. Começo por agradecer à Senhora Professora Doutora Teresa Ferreira Rodrigues, pela forma como orientou o meu trabalho, em especial, nos planos metodológico e conceptual e ainda pela grande disponibilidade e cordialidade que sempre evidenciou. Quero também expressar uma palavra de grande apreço ao Doutor José Félix Ribeiro, por me ter estimulado a aceitar este desafio e por ter acompanhado este meu percurso, apresentando sugestões e observações de suma relevância para o desenvolvimento do trabalho. Agradeço igualmente à minha filha e à minha esposa, pelo apoio logístico e, sobretudo, pela paciência de que deram provas durante este longo período. Endereço uma palavra de agradecimento aos meus colegas, em especial à Mestre Ana Maria Dias e ao Dr. Filinto Teixeira, pela disponibilidade e colaboração, respetivamente, nos domínios da análise quantitativa e no apoio informático. O GOLFO DA GUINÉ E A SEGURANÇA ENERGÉTICA DOS EUA E DA CHINA CARLOS MANUEL DA COSTA NUNES RESUMO ABSTRACT PALAVRAS-CHAVE: Segurança Energética; Petróleo; Golfo da Guiné; EUA; China. KEYWORDS: Energy Security; Crude Oil; Gulf of Guinea; U.S.A., China O objetivo deste estudo centra-se na análise e na comparação do contributo do petróleo do golfo da Guiné para a segurança energética dos EUA e da China no período 19902000, tendo presente a afirmação recente da região africana num quadro de escassez da matéria-prima. Foram elaborados três case studies visando caracterizar as potencialidades e riscos associados à região produtora e analisar o crescente envolvimento dos EUA e da China, através da implementação de políticas públicas conducentes à obtenção dos resultados visados e mediante o reforço da exposição da vertente empresarial. Os resultados obtidos traduziram-se no reforço do abastecimento dos EUA, mantendo uma posição ímpar perante o maior fornecedor regional, a Nigéria, enquanto a China assumiu posição de crescente relevância na região e sedimentou uma relação de grande preponderância face ao outro grande produtor, Angola. A existência de nexos de causalidade entre níveis de segurança energética e o recurso a instrumentos de políticas públicas é um domínio complexo, sendo de referir que o recurso ao economic statecraft pelos EUA, não afigura hipótese fundamentada enquanto fator explicativo das performances alcançadas por este país na região. Esta análise de base quantitativa não foi replicada quanto à exposição da China, dadas as limitações estatísticas existentes. Em todo o caso, os bons resultados registados por estes dois potentados económicos, respetivamente, na Nigéria e em Angola, parecem remeter para bases explicativas distintas, evidenciado no primeiro caso, a importância da componente securitária, enquanto o segundo evidencia a vertente económica. *** This study’s main goal is focused on the analysis and comparison of the contribution of gulf of Guinea’s oil to the energy security of the USA and China between 1990 and 2010 keeping in mind the recent affirmation of the African region on a prevailing framework of the raw material scarcity. In this perspective, three case studies were elaborated aiming the characterization of the potentialities and risks associated to the mentioned producing region and to analyze the increasing engagement of the USA and China, through the implementation of public policies leading to the obtaining of the targeted outcomes and by strengthening the exposition of the business sides. The contribution of the gulf of Guinea’s to the reinforcement of oil supply, in a critical period experimented by the crude market, shows the USA have achieved increasing provisioning, maintaining an unparalleled position before Nigeria, the biggest regional producer, while China assumed a position of growing relevance while affirming a relation of notorious preponderance compared with another big supplier, Angola. The existence of causality effects between levels of energy security and the use of public policies instruments is a complex domain, and it should be noted that the hypothesis of the recourse to economic statecraft by the USA as an explanatory factor of the performances of this country in the region does not appear to be founded; the lack of statistical data has not allowed to expand this method to the study of China’s relations in this quadrant. In any case, the good results recorded in Nigeria and Angola (respectively) seem to refer to distinct explanatory basis, highlighting, in the first case, the importance of the security component, while the second refers to the economic strand. ÍNDICE INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 1 CAPÍTULO 1. - OS REFERENCIAIS TEÓRICOS DA ABORDAGEM DA SEGURANÇA ENERGÉTICA ............................................................................... 10 1.1. A segurança energética nas RI no período anterior à década de 90 ............. 11 1.2. A reconfiguração do contexto global pós década de 80 e as suas consequências no domínio das formulações teóricas de enquadramento .................................... 17 1.3. A evolução do contexto e o sector energético .............................................. 24 1.4 Os reflexos na EPI, e as formulações relacionadas com a região-alvo ......... 34 1.5. Consequências no domínio da segurança energética .................................... 39 CAPÍTULO 2 – O GOLFO DA GUINÉ E O PETRÓLEO .................................. 47 2.1. Caracterização e enquadramento dos principais países produtores de petróleo do golfo da Guiné ................................................................................................ 47 2.1.1. A base geográfica da opção retida e respetiva fundamentação ................. 47 2.1.2. A evolução recente da vertente político-institucional face a um passado comum ................................................................................................................. 49 2.1.3. Evolução e perspetivas no domínio económico ........................................ 53 2.1.4. Desenvolvimentos relativos ao domínio social ......................................... 65 2.2. Dimensão e mobilização dos recursos em petróleo e sua desigual repartição entre os países do golfo da Guiné ........................................................................ 69 2.2.1. A ótica das reservas ................................................................................... 69 2.2.2. A vertente produção................................................................................... 73 2.2.3. As exportações de crude ............................................................................ 78 2.3. Fatores explicativos do sucesso relativo da indústria petrolífera na região . 80 2.3.1. Fatores relacionados com o contexto global da indústria .......................... 81 2.3.2. O papel das condições naturais (adequação de recursos e localização) .... 87 2.3.3. Fatores do domínio organizacional ........................................................... 91 2.3.4. As exigências no plano ambiental ........................................................... 104 2.4. Riscos associados ao petróleo do golfo da Guiné....................................... 108 2.4.1. A perspetiva empírica dos riscos ............................................................. 108 2.4.2. Da descrição empírica à explicação dos fenómenos: pistas teóricas disponíveis ......................................................................................................... 112 2.5. Conclusões .................................................................................................. 119 CAPÍTULO 3 - O GOLFO DA GUINÉ E A SEGURANÇA ENERGÉTICA DOS EUA .......................................................................................................................... 121 3.1. A segurança energética dos EUA e o papel do golfo da Guiné .................. 122 3.1.1. A centralidade do petróleo no abastecimento de fontes de energia primária nos EUA ............................................................................................................ 123 3.1.2. A evolução das reservas e da produção domésticas de petróleo ............. 130 3.1.3. O recurso acrescido às importações de crude e as alterações de contexto ........................................................................................................................... 136 3.1.4. Os reflexos no domínio da segurança energética .................................... 143 3.1.5. As respostas introduzidas e a relevância do petróleo do golfo da Guiné 149 3.2. Implementação de políticas, instrumentos utilizados e desenvolvimentos recentes .............................................................................................................. 156 3.2.1. A política comercial, ou o AGOA como instrumento específico ............ 159 3.2.2. A ajuda ao desenvolvimento ................................................................... 162 3.2.3. A política seguida no respeitante ao IDE nos países do golfo da Guiné . 167 3.2.4. A utilização de instrumentos relativos à esfera financeira ...................... 171 3.3. Presença e dinâmicas das empresas petrolíferas americanas no upstream dos países do golfo da Guiné ................................................................................... 177 3.3.1. Uma perspetiva de conjunto referente à evolução da dimensão dos interesses norte-americanos no petróleo da região............................................................. 178 3.3.2. As majors norte-americanas e o petróleo do golfo da Guiné .................. 183 3.3.3. A evolução da presença dos outros segmentos empresariais no upstream do petróleo do golfo da Guiné ................................................................................ 190 3.3.4. As empresas fornecedoras e prestadoras de serviços ao upstream dos hidrocarbonetos (oil service and supply sector) ................................................ 197 3.4. A evolução das importações de petróleo com origem nos países do golfo da Guiné e o seu significado em termos de segurança energética.......................... 203 3.4.1. Evolução das importações da matéria-prima e interpretação dos resultados atendendo à existência de grupos específicos de fornecedores ......................... 203 3.4.2. O contributo do petróleo oriundo dos países do golfo da Guiné para a segurança energética dos EUA .......................................................................... 209 3.4.3. Algumas formulações teóricas relativas ao contributo do petróleo do golfo da Guiné na segurança energética dos EUA ...................................................... 213 3.5. Conclusões .................................................................................................. 217 CAPÍTULO 4 – O GOLFO DA GUINÉ E A SEGURANÇA ENERGÉTICA DA CHINA ..................................................................................................................... 223 4. 1. O quadro de análise ................................................................................... 223 4.1.1. O processo de desenvolvimento económico-social e a crescente articulação da China à economia mundial ........................................................................... 224 4.1.2. A relevância da energia e a afirmação de problemas estruturais, com ênfase no petróleo ......................................................................................................... 228 4.1.3. A crescente incapacidade da oferta interna no respeitante a recursos energéticos ......................................................................................................... 237 4.1.4. As grandes linhas de resposta da política energética no domínio interno 242 4.1.5. Implicações na vertente externa .............................................................. 251 4.1.6. A relevância do golfo da Guiné no quadro das respostas introduzidas ... 258 4.2. Implementação de políticas, instrumentos utilizados e desenvolvimentos recentes .............................................................................................................. 261 4.2.1. As trocas de mercadorias entre a China e os países do golfo da Guiné .. 263 4.2.2. A ajuda pública chinesa ao desenvolvimento dos países do golfo da Guiné ........................................................................................................................... 268 4.2.3. A política seguida no respeitante ao IDE ................................................ 272 4.2.4. A utilização de instrumentos da esfera financeira ................................... 278 4.3. Presença e dinâmica da esfera empresarial no upstream dos países do golfo da Guiné ................................................................................................................. 285 4.3.1. As NOC enquanto operadores externos ................................................... 286 4.3.2. As NOC no upstream do petróleo dos países do golfo da Guiné ............ 298 4.4. Os contributos dos países do golfo da Guiné para a segurança energética da China.................................................................................................................. 307 4.4.1. O contributo das trocas externas de petróleo e seus produtos ................. 308 4.4.2. O contributo do equity oil ........................................................................ 316 4.4.3. Algumas formulações teóricas, relativas ao contributo do petróleo do golfo da Guiné para a segurança energética da China ................................................ 320 4. 5. Conclusões ................................................................................................. 324 CAPÍTULO 5 - ANÁLISE COMPARATIVA DOS RESULTADOS OBTIDOS PELOS EUA E PELA CHINA, NOS PAÍSES DO GOLFO DA GUINÉ, NA PROSSECUÇÃO DOS SEUS OBJETIVOS DE SEGURANÇA ENERGÉTICA .................................................................................................................................. 330 5.1. Comparações no respeitante à introdução de novos meios e medidas ....... 330 5.1.1. A evolução referente à esfera diplomática .............................................. 331 5.1.2. O recurso ao economic statecraft ............................................................ 333 5.1.3. A evolução no domínio securitário-militar.............................................. 339 5.2. Análise comparativa dos resultados alcançados pelos EUA e pela China, no golfo da Guiné, visando a melhoria dos respetivos níveis de segurança energética ........................................................................................................................... 341 5.2.1. Enquadramento e limitações da abordagem ............................................ 341 5.2.2. A prossecução de objetivos de segurança energética na ótica estrita, ou o contributo da região-alvo para o reforço do abastecimento de crude e para a diversificação das fontes geográficas ................................................................ 343 5.3. A existência de relações de causalidade entre o uso de instrumentos de política e a obtenção de efeitos no domínio da segurança energética ............................ 351 5.3.1. O enfoque quantitativo centrado nos contributos do economic statecraft para a melhoria dos níveis de segurança energética dos dois países ......................... 351 5.3.2. O recurso a algumas pistas de explicação baseadas em análises qualitativas ........................................................................................................................... 356 CAPÍTULO 6 - CONCLUSÕES GERAIS RELATIVAS AO CONTRIBUTO DO GOLFO DA GUINÉ PARA A SEGURANÇA ENERGÉTICA DOS EUA E DA CHINA ..................................................................................................................... 365 BIBLIOGRAFIA/ REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................ 372 Lista de figuras .................................................................................................. 396 Lista de gráficos................................................................................................. 397 Lista de tabelas .................................................................................................. 398 Caixas de texto .................................................................................................. 401 ANEXOS ........................................................................................................... 402 LISTA DE ACRÓNIMOS ACOTA - Africa Contingency Operations Training and Assistance ACRI - Africa Crisis Response Initiative AFRICOM - United States Africa Command AGOA - Africa Growth and Opportunity Act ANWR - Artic National Wildlife Refugee AOPIG - Africa Oil Policy Initiative Group API - American Petroleum Institute AQMI - Al Qaida au Magreb Islamique BC - Balança comercial BEA - United States Bureau of Economic Analysis BIT - Bilateral Investment Treaty BM/WB - Banco Mundial BPC - Bipartisan Policy Center BRIC - Brasil, Rússia, Índia e China BTC – Balança de transações correntes CAEMC – Central African Economic and Monetary Community CAFE - Corporate Average Fuel Economy CCCGN - Centrais de Ciclo Combinado a Gás Natural CEDEAO/ECOWAS - Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental CENTCOM - United States Central Command CEO - Chief Executive Officer CFR - Council on Foreign Relations C.G.G. - Comissão do Golfo da Guiné CO2 -Dióxido de carbono CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa CSR – Corporate Social Responsibility DoE - United States Department of Energy DRC/RDC - República Democrática do Congo dwt - deadweight tonnage ECA - Excess Crude Account ECCAS - Economic Community of Central African States EIA - Energy Information Administration EITI - The Extractive Industries Transparency Iniatiative ESLC-SAFE –Energy Security Leadership Council – Securing America’s Future EUA – Estados Unidos da América E&Y – Ernst & Young FMI/IMF - Fundo Monetário International FMS - Foreign Military Sales FNLA – Frente Nacional para a Libertação de Angola FPA - Foreign Policy Analysis FRS - Financial Reporting System GAO - U.S. Government Accountability Office GEEs - Gases com Efeito de Estufa GPOI - Global Peace Operations Initiative GTL - Gas to Liquids H/C Ratio - Relação Hidrogénio/ Carbono HIPC - High Indebtned Poor Countries HDI – Human Development Indicators HHD – High Human Development HIC – High-Income Countries IDE/FDI - Investimento Direto Externo IDH - Índice de Desenvolvimento Humano IEA - International Energy Agency IEP Agreement – Agreement on an International Energy Program IOC - International Oil Company IPAA - Independent Petroleum Association of America ISC - Integrated Service and Supply Company ISES - Instituto Superior de Estudos de Segurança JCET - Joint Combined Exchange Training JV – Joint Ventures KWh - Kilowatt-hora LHD - Low Human Development LIC – Lower-Income Countries LMIC - Lower-Middle-Income Countries LOGIC- Linking the Oil and Gas Industries to Improve Cyber Security (Project) MASSOB – Movement for the Actualization of Sovereign State of Biafra MCA - Millennium Challenge Account MDGs - Millennium Development Goals MENA - Médio Oriente e Norte de África MDRI - Multilateral Debt Relief Initiative MEND – Movement for the Emancipation of Niger Delta MGGRA - Midwest Green Gas Reduction Accord MHD –Medium Human Development MPLA – Movimento Popular para a Libertação de Angola NEPAD - The New Partnership for Africa’s Development NEPDG - National Energy Policy Development Group NETL - National Energy Technology Laboratory NGL - Natural Gas Liquids NIEO - New International Economic Order NOAA – National Oceanic and Atmospheric Administration NOC - National Oil Company NOSDRA – National Oil Spill Detection and Response Agency NPC - National Petroleum Council OCDE/OECD - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico OECD-DAC - Development Assistance Committee OECD-ODA - Official Development Assistance OCS - Organização de Cooperação de Shangai ONU - Organização das Nações Unidas Opc - Oodua People’s Congress OPEP/OPEC - Organização dos Países Produtores de Petróleo OPIC - Overseas Private Investment Corporation PCC - Partido Comunista Chinês PEPFAR - President’s Emergency Plan for AIDS Relief PIB - Produto Interno Bruto PMEs/SMEs - Pequenas e Médias Empresas PPIAF - Public-Private Infrastructure Advisory Facility ppm - Partes por milhão (medida em volume) PRC/RPC - People’s Republic of China PSCs – Production Sharing Contracts RGGI - Regional Green Gas Initiative RI - Relações Internacionais SADC – Southern African Development Community SAFE - Securing America’s Future Energy SCADA – Supervisory Control and Data Acquisition Systems SEC - United States Security and Exchange Commission SLOC - Sea Lanes of Communication SPDC – State Plan and Development Commission SPR - Special Petroleum Reserves SSA - África Subsaariana TICs - Tecnologias da Informação e Comunicação TIFA - Trade and Investment Framework Agreement TSCTP - Trans Sahara Counter Terrorism Partnership UEMAO/WAEMU - União Económica e Monetária da África Ocidental UMIC – Under-Middle-Income Countries UNCLOS – United Nations Convention on the Law of the Sea UN Comtrade - United Nations Commodity Trade (Statistics) UNCTAD - United Nations Conference on Trade and Development UNDP - United Nations Development Program UNEP – United Nations Environment Program UNFCCC - United Nations Framework Convention on Climate Change UNITA – União Nacional para a Independência Total de Angola USAID – United States Agency for International Development USD – United States Dolars USGS – United Stated Geologic Survey USTIC – United States International Trade Commission VAB – Valor Acrescentado Bruto VHHD – Very High Human Development WCI – Western Climate Initiative WEO – World Energy Outlook WIR - World Investment Report WTI – West Texas Intermediate INTRODUÇÃO O tema a tratar no âmbito deste trabalho de investigação, centra-se no contributo da região do golfo da Guiné para a melhoria dos níveis de segurança energética das duas principais potências presentes na cena mundial, os EUA e a China. Trata-se de uma matéria que será balizada pelas conceções prevalecentes no domínio teórico referido, historicamente focalizadas no petróleo e reportadas à ótica do consumo, assentando ainda, de acordo com os mesmos referenciais, num universo mental em que, no essencial, não estavam presentes as preocupações correspondentes à aceção do desenvolvimento sustentável, que remonta a 1987 e à Conferência de Brundtland. Os players ativos considerados, os EUA e a China, serão tomados, sobretudo, na ótica convencional, de Estados-nação, perspetiva que, no entanto, não esgota a abordagem prosseguida, dadas as profundas interligações existente com outros agentes domésticos, nomeadamente, os mais diretamente presentes nas distintas vertentes englobadas no sector do petróleo. A escolha da região-alvo, decorreu do facto do golfo da Guiné corresponder a uma oportunidade, então, quase rara no que respeita às possibilidades quer de expandir os níveis da capacidade produtiva global quer, também, no que concerne ao acesso de interesses forâneos às atividades englobadas no upstream desta indústria, situação de que alguns mercados de oferta localizados na Ásia Central, como resultado do desmantelamento do Império Soviético. No plano formal, o desenvolvimento do tema proposto assenta numa estrutura que compreende quatro partes sequenciais, que são o enquadramento metodológico e teórico, a caracterização da região-alvo, as políticas implementadas e os resultados obtidos por cada um dos players nacionais ativos, visando, a introdução da última vertente, estabelecer comparações entre essas performances e, em simultâneo, explorar algumas pistas explicativas para o fenómeno em estudo. Assim, no plano metodológico o trabalho assentará no desenvolvimento de case studies, ou seja, na caracterização da região-alvo e de cada um dos dois atores nacionais ativos, os EUA e a China, recorrendo, em função dos objetivos prosseguidos, à utilização do método comparativo, tendo como substrato teórico comum, em função da natureza da matéria centralmente analisada, a segurança energética, domínio que, no entanto, está longe da consolidação. 1 No que respeita à segunda parte, está em causa a caracterização da região-alvo, considerar-se-ão os contributos, efetivo e potencial, do golfo da Guiné no que respeita à produção de petróleo, atendendo-se às especificidades inerentes a esta atividade, bem como aos condicionalismos relativos ao seu desenvolvimento nesta geografia produtiva, nomeadamente, no referente aos quadros sociopolíticos relativos aos principais produtores, enquanto elemento essencial para a apreciação dos riscos em presença, desde logo, a instabilidade política e social; Passando à terceira parte, que compreende a apresentação dos dois case studies referentes a cada um dos agentes nacionais ativos (EUA e China), é de salientar que eles visam estabelecer um balanço global da evolução da presença e do significado de interesses de cada um destes potentados na região-alvo, tendo em conta o foco da análise. Deste modo, esta abordagem comporta, em simultâneo, escopo alargado, ao analisar instrumentos de política que visam atingir outros objetivos, e específico, ao considerar, por outro lado, as performances obtidas no domínio centralmente em consideração (o reforço dos abastecimentos oriundos da região quer as suas perspetivas de evolução), matéria que não pode ser dissociada da dinâmica das esferas empresariais de cada um destes países que, aliás, revestem especificidades marcantes quaisquer que seja o enfoque assumido. A fase final abarca duas vertentes de natureza distinta, visando a primeira, estabelecer paralelos entre as performances alcançadas pelos dois países na região africana, para o que se recorrerá, sobretudo, a indicadores empíricos relacionados com a matéria centralmente em apreciação, ainda que este quadro circunscrito de análise seja alargado por forma a compreender o papel das empresas petrolíferas e as opções assumidas pelos decisores políticos no referente a domínios de enquadramento, conforme acima aludido. Quanto à segunda componente, pretende introduzir pistas explicativas referentes ao fenómeno analisado, começando por recorrer a metodologias quantitativas para averiguar da eventual existência de relações de causalidade entre variáveis relacionadas com a segurança energética e outras reportadas ao economic statecraft. Esta abordagem é complementada mediante o recurso a metodologias qualitativas, tendo como reporte as relações privilegiadas alimentadas quer pelos EUA quer pela China que, na região, dispõem de um abastecedor preferencial, respetivamente, a Nigéria e Angola. 2 De acrescentar que, à data da elaboração da proposta que deu origem a esta tese (2010/2011), o tema revestia grande atualidade, sendo muito debatido nos media, em resultado, sobretudo, da permanência da perspetiva de escassez da matéria-prima surgindo, normalmente, associado a óticas de apreciação muito enviesadas, ditadas pela natural prevalência de preocupações primárias, que pontificavam perante um quadro marcado pela ausência quase total de trabalhos teóricos. Tendo presente que o enquadramento deste estudo compreende a abordagem das disciplinas relevantes para a análise da segurança energética (a desenvolver no capítulo 1), passaremos a focalizarmo-nos no balizamento conceptual que norteará a nossa pesquisa, i. é., a definição do objeto e a especificação de objetivos correspondentes, perspetiva que será complementada com a explicitação dos métodos científicos a que recorremos para alcançar e fundamentar os resultados obtidos. Atendendo ao enunciado no parágrafo inicial da introdução e, uma vez, analisados os constrangimentos e as potencialidades da região-alvo, abordar-se-ão os respetivos contributos para a segurança do abastecimento, de crude, quer dos EUA quer da China, tendo presentes as especificidades de cada um destes países, nomeadamente, quanto à posição relativa que ocupa na cena internacional, à relevância do consumo e dotação nestes recursos energéticos, ao papel na organização do negócio do petróleo e, last but not least, as idiossincrasias evidenciadas aos atores empresariais presentes nesta área de atividade, sobretudo, quanto a exposição no golfo da Guiné. Deste modo, o objeto da análise, focalizar-se-á nas relações que se estabelecem entre os países produtores do golfo da Guiné e cada um dos dois grandes potentados económicos referidos, compreendendo dois níveis distintos de abordagem, começando pelo estudo da utilização de instrumentos utilizados pelos dois players nacionais ativos para alcançar os objetivos visados e compreendendo, numa fase subsequente, a tentativa de estabelecer um quadro comparativo e explicativo dos resultados, assim, alcançados. No que respeita ao primeiro dos domínios acima referidos, iremos analisar o recurso ao uso, contextualizado, de um leque alargado de mecanismos que privilegiarão a vertente bilateral dos relacionamentos, que ao longo do período em referência se estabeleceram entre cada agente nacional ativo e os países produtores compreendidos na região-alvo considerando para o efeito instrumentos relevantes relativos aos foros económico (que enfatizaremos), diplomático e securitário-militar, e atendendo ainda às 3 especificidades indissociáveis da presença e da ação da vertente empresarial em cada caso nacional. Quanto ao domínio complementar é de salientar que a análise do primeiro destes tópicos, que abarca os distintos domínios mencionados no parágrafo anterior e incide sobretudo na aceção estrita da segurança nacional, está algo condicionada por fatores de ordem conceptual decorrentes, nomeadamente, da existência de um quadro de valores específicos inerentes a cada um dos dois universos de partida, a que se adicionam disparidades de natureza empírica, com tradução, p. e., nas fontes de documentação, aos níveis nacional e da atividade específica. Para a elaboração de um esboço de avaliação de resultados das ações implementadas por cada um daqueles dois grandes players nacionais, que corresponde à tentativa de isolar nexos de causalidade em contextos que envolvem interações múltiplas e, em simultâneo, níveis diferenciados de explicação, recorreremos a métodos quantitativos e qualitativos visando procurar a possível correlação entre evoluções registadas na variável-objetivo face à utilização de instrumentos relativos ao economic statecraft, e procurar explicações para a existência de relações bilaterais-âncora no domínio analisado. Num plano complementar, impõe-se referir os seguintes elementos enquadrantes presentes de forma reiterada nas abordagens subsequentes: a) A opção pela região do golfo da Guiné (cuja área e respetiva justificação constitui razão de ser da subsecção 2.1.1.), radica na relevância que esta geografia produtiva assumiu, sobretudo cerca da transição do milénio, surgindo, então, como uma das raras novas áreas, que disporiam de algum potencial produtivo à escala global; b) A escolha do período a analisar (1990-2010), justifica-se pelo facto de, nesta fase de profundas mudanças na cena internacional, o petróleo ter revestido grande protagonismo e evidenciado num espaço de tempo relativamente curto as facetas antagónicas da superabundância e da escassez aguda. Veja-se p. e., que as cotações que, nos dias 10.12.1998 e 03.07.2008 atingiram respetivamente 10.86 e 143.51 dólares (cf. EIA, WTI Spot Price, FOB, daily); c) E esta última opção não está dissociada da escolha dos dois players nacionais ativos (EUA e China), que correspondem aos dois países mais poderosos à escala global sendo nesta perspetiva de referir que o processo acelerado da emergência 4 do país asiático dispensa abordagens de escopo retrospetivo mais lato, sobretudo, no que respeita a matérias relacionados com o crude. No que respeita aos objetivos deste trabalho está em causa estudar a evolução da contribuição dos países do golfo da Guiné para a segurança do abastecimento de petróleo das duas principais potências presentes atualmente na cena mundial, os EUA e a China. Deste modo, formulando o problema nos termos clássicos da explicitação da questãochave que se colocou aquando da elaboração do projeto de investigação, e a que procuraremos responder de seguida, é o seguinte: Nas duas últimas décadas, que alterações de estratégia e, sobretudo, que novos meios e medidas introduziram, respetivamente, os EUA e a China em relação aos países produtores de petróleo da grande região acima referida? No desenvolvimento da resposta a esta questão, que começaremos por associar à implementação de políticas públicas tidas como relevantes, não deixaremos de analisar os contributos das vertentes empresariais de cada um dos países acima mencionados, dadas as interações necessariamente existentes entre estas duas esferas de ação que, aliás e em função de particularidades nacionais, revestem especificidades que serão atempadamente analisadas. Por outro lado, a interrogação nuclear acima referida não corresponde a uma questão isolada no quadro do presente processo de investigação, sendo complementada por duas outras duas perguntas derivadas, a que também procuraremos dar resposta. Assim: 1. Dos resultados empíricos alcançados, pelos EUA e pela China, na região produtora e no período analisados, na prossecução da melhoria dos respetivos níveis de segurança energética, que padrões de relacionamentos estruturados se parecem evidenciar relativamente a cada um destes players ativos? 2. Que pistas teóricas explicativas se poderão formular para explicar os contributos dos países produtores de petróleo do golfo da Guiné para a melhoria dos níveis de segurança energética dos EUA e da China? No primeiro caso a análise irá focalizar-se na evolução de indicadores reportados de forma direta às importações da matéria-prima, assumindo que esta é a ótica mais relevante para analisar o quadro de dependência petrolífera que se colocava aos dois países grandes consumidores. Assim, procurou-se estabelecer padrões de estabilidade no padrão das aquisições, tomando grupos de fornecedores de amplitude distinta. 5 A resposta à segunda é obrigatoriamente mais complexa. Procurámos dilucidar a eventual existência de causa-efeito entre o recurso a instrumentos de política (na realidade circunscritos ao economic statecraft),e a produção de efeitos no domínio da melhoria da segurança energética, tomada na aceção do reforço das importações de crude, proveniente do golfo da Guiné, análise que foi implementada, através de metodologias de natureza quantitativa e qualitativa. Por outro lado, atendendo ao âmbito, objeto e objetivos de trabalho já explicitados, que condicionam a estratégia de investigação (M. Dogan, 1990), no plano metodológico, o desenvolvimento da tese assentará no recurso à elaboração de case studies e ao método comparativo. Começando por considerar a relevância que assume o recurso a case studies, lembramos a definição de R. Yin: “…investiga um fenómeno contemporâneo dentro do seu contexto de vida real, especialmente quando os limites entre o fenómeno e o contexto não estão claramente definidos; enfrenta uma situação tecnicamente única em que haverá muito mais variáveis de interesse do que pontos de dados e, como resultado, baseia-se em várias fontes de evidência (…), e beneficia-se do desenvolvimento prévio de proposições teóricas para conduzir a coleta e análise de dados” (citado em A. M. Cesar, p. 6, s/ data). Com efeito, a metodologia acima referida, cuja utilização está muito difundida no âmbito dos estudos em Relações Internacionais, adequa-se às exigências do trabalho que nos propomos implementar, que envolve a escolha de um referencial teórico, a condução do estudo e a análise de dados à luz de uma teoria selecionada (cf., respetivamente, D. Sprinz et al., pp, 5-6, 2002, e A. M. Cesar, op. cit., p. 8). Em consonância com o plano da tese elaboraremos três estudos de caso reportando-se o primeiro às potencialidades e condicionalismos da exploração petrolífera vigentes na região do golfo da Guiné que na transição do milénio emergiu como uma das raras novas províncias petrolíferas, enquanto os dois últimos, de natureza e âmbito formalmente idênticos, abordarão o crescente envolvimento dos dois maiores players nacionais (os EUA e a China), comportamentos, em boa medida, ditados pelas crescentes preocupações com os abastecimentos de crude. Na perspetiva teórica é, aliás, de salientar que esta metodologia é utilizada quer na análise do caso isolado quer na comparação entre um número limitado de casos, apresentando um escopo alargado de vantagens e limitações, sendo de referir, entre as primeiras, a capacidade de estabelecer comparações contextualizadas, de identificar 6 novas variáveis e hipóteses de explicar mecanismos de causalidade, de fornecer explicações históricas de casos e ainda de lidar com relações causais complexas (cf., A. Benett et C. Elman, 2007). No que respeita às limitações são de referir a ocorrência de enviesamentos (erros sistemáticos no estabelecimento de causalidade entre variáveis), de situações de potencial indeterminação explicativa e a falta de representatividade, estando limitada a um trade off entre generalização e especificidade (cf., D. Sprinz et al. 2002). Neste último domínio impõe-se precisar dois aspetos de crucial importância relacionados com a sobredeterminação de variáveis independentes e com o significado teórico do estudo. O primeiro é especialmente aplicável a pesquisas que procuram explicações gerais e em que em simultâneo ocorra sobredeterminação, i. e., em que várias variáveis independentes explicam uma parte da variação de um fenómeno ou variável dependente, o que significa que o investigador está colocado perante uma situação de grande complexidade (cf., J. J. Lopez), contexto em que também se enquadra o presente trabalho. Atendendo à existência de várias sobreposições entre a metodologia case study e o método comparativo (cf. A. Lijphart, pp. 691-693), é de salientar as referências que J. J. Lopez faz às soluções que C. Ragin ou T. Skocpol vieram propor para minimizar o problema da sobredeterminação, focando-se o primeiro numa perspetiva mais geral e o segundo numa mais específica. Passando à segunda ordem de limitações acima mencionadas, é de reconhecer, em função da natureza do trabalho, e dos considerandos apresentados no respeitante à metodologia a seguir, que o significado do estudo está condicionado na perspetiva da teorização ou generalização. Quanto à utilização do método comparativo, que adquirirá especial relevância na parte final do estudo, reportar-se-á a uma situação que S. Lipset designa por análise binária explícita envolvendo dois casos nacionais muito distintos (vide, M. Dogan et al., 1994, pp. 5-6). Estão em causa matérias com diferentes níveis de agregação e planos distintos de análise, de natureza qualitativa (por vezes, assumindo natureza globalizante), e quantitativa, aos domínios económico-financeiro, incluindo a vertente empresarial, diplomático e securitário-militar, concluindo pela comparação de resultados ao nível da própria segurança energética. Acresce que a condução de um trabalho focalizado na segurança energética enfrenta dificuldades específicas, que decorrem do estado de desenvolvimento teórico limitado e do âmbito desta última, sendo a última das vertentes referidas, definida por S. V. Valentine como a fuzzy nature subject (vide, 2011, pp. 56-63). Assim, mesmo uma 7 abordagem preliminar aponta para a existência de conceções e praxis específicas por parte de cada um dos países, moldadas por distintas formas de organização socioeconómica, estruturantes da vida coletiva de cada um deles. Está em causa comparar dois países relativamente aos quais é flagrante a existência de disparidades, no que respeita a histórias, valores, quadros político-institucionais, níveis de desenvolvimento económico e posicionamentos na cena internacional (cf. capítulos 3 e 4).1 Num plano interpretativo comum, ambos os casos tendem a ser tomados como reflexos da dicotomia mercado vs. Estado; porém, numa perspetiva mais elaborada, esta conclusão revela-se reducionista, dada a presença de referenciais muito díspares, uma vertente explorada na ótica da segurança energética, por autores como S. Randall (2005) e C. Constantin (2007). No entanto, nas presentes circunstâncias a comparação que S. Rokkam classifica como de 2ª ordem continua a fazer sentido, sendo de acrescentar que a ótica integracionista de A. Benett, reportada ao quadro alargado que corresponde ao case study, permite dar resposta a este tipo de preocupações (cf., respetivamente, M. Dogan et al., 1990, e A. Benett et C. Elman, 2007). Mas as dificuldades encontradas ao longo do desenvolvimento do trabalho não permitiram completar o ciclo de investigação previsto pelos autores supracitados (cabal identificação das categorias de análise e elaboração de uma estrutura explicativa integrada ou modelo), pelo que no essencial, ficámos circunscritos a um quadro empíricodescritivo, conforme ressalta da leitura do capítulo 5, chave neste processo de investigação e que, em simultâneo, se focalizou nesta vertente comparativa. Retomando o plano operacional, é de referir a disponibilidade diferenciada de elementos de trabalho, situação visível no respeitante às fontes primárias, em resultado de conceções distintas que vigoram nos dois países e afetam os meios e os conteúdos. Nomeadamente no que respeita a relatórios oficiais relevantes para os nossos propósitos, onde se incluem conteúdos ideológicos em documentos, como o China African Policy (IOSCPRC, 2006). Esta questão coloca-se igualmente no domínio das fontes secundárias, em especial no que respeita à vertente quantitativa, fazendo-se sentir na limitada informação disponibilizada pelas petrolíferas chinesas, ainda que também afete outros domínios sensíveis, como a 1 As situações acima aludidas traduzem-se em ruturas ou ausência de termo comparativo, podendo ser exemplificadas, no respeitante ao cerne deste estudo, pelo recurso da China ao que se designa por equity oil, mecanismo que não parece fazer sentido no ordenamento norte-americano, enquanto a introdução da vertente empresarial faz sobressair a existência de dois players (as NOC e as IOC), com objetivos e estratégias também muito díspares (acerca das figuras e entidades referidas vide, capítulos 3 e 4). 8 ajuda externa (vide, pela mesma ordem, pontos 4.3. e 4.2.2.). Já no relativo às fontes secundárias de natureza qualitativa é de reconhecer a manifesta densificação de materiais disponibilizados, sejam documentos de natureza teórica, de enquadramento geral, ou trabalhos de fundamentação empírica centrados no sector específico a analisar ou em domínios complementares. De salientar, no respeitante à aplicação desta metodologia à reflexão em domínios afins da ciência política, a escassez de informações sobre a China, que decorre de complexidades intrínsecas como a língua e do facto de muitos analistas se deixarem influenciar pelo que M.-E. Reny (cf., 2011) designou por democratic prism. Neste quadro alargado de reflexão é de registar, nos anos mais recentes o aparecimento de trabalhos elaborados por autores de origem/ou ligados a universidades chinesas, de que nos limitaremos a referir Bo Kong (2010), e Chen Shaofeng (2006) os quais vieram enriquecer as reflexões dos autores ocidentais, ainda que a um nível mais analítico pareça permanecer o enquistamento desta reflexão numa perspetiva limitada da reflexão das RI. Como quer que seja impõe-se voltar a enfatizar que as limitações acima mencionadas não só condicionaram a possibilidade de estabelecer paralelos no âmbito desta análise, como contribuíram para limitar o estatuto teórico deste trabalho a um quadro explicativo de carácter empírico-descritivo. 9 PARTE I CAPÍTULO 1. - OS REFERENCIAIS TEÓRICOS DA ABORDAGEM DA SEGURANÇA ENERGÉTICA A presente secção aborda a evolução do tratamento teórico da segurança energética no quadro das RI, incluindo uma referência ao quadro histórico-empírico de partida presente nesta análise, bem como desenvolvimentos recentes e menos elaborados sobre a evolução registada pelo contexto global e suscetíveis de produzir impacto nesta quadro de reflexão. As preocupações de ordem prática, leia-se política, com a segurança energética não são novas como o atesta S. J. Randall, que alude à permanência deste problema ao longo de toda a história da política petrolífera externa dos EUA, ainda que o fenómeno tenha conhecido distintos níveis de premência no decurso do longo período estudado por este autor, que se inicia com a primeira Guerra Mundial (cf. 2005, em especial, pp. 1-11). Neste mesmo sentido deve ser entendida a apreciação de D. Yergin, que salienta que determinados fatores ou situações vêm enfatizar a relevância daquela matéria, tendo presente que a focalização no petróleo remonta à decisão de Churchill relativamente à adoção pela armada britânica desta forma de energia primária como novo meio de propulsão (cf. 2006, p. 69). Na realidade, o termo segurança energética reportou-se originalmente a uma conjuntura precisa, a crise petrolífera de 1973/74, correspondendo-lhe a seguinte definição: Secure oil supplies on reasonable and equitable terms (cf. R. Scott, 1994, Vol. 2, p. 35, de acordo com o IEP Agreement, de Novembro de 1974). Neste período, o hemisfério ocidental defrontava um problema grave, dada a eclosão em Outubro do 1972 da 1ª grande crise petrolífera devido ao embargo decretado pela OPEP aos fornecimentos aos EUA e demais países que apoiaram Israel, no diferendo que opunha este país aos árabes. Num curto espaço de tempo os preços do crude quadruplicaram (cf. idem, pp. 2533 e P. Stevens, 2010. pp. 10-12). Este choque petrolífero, bem como o seguinte (originado pelo desencadear da guerra entre o Irão e o Iraque, iniciada em 1978), representaram verdadeiros cataclismos económicos, tendo sido sucessivamente estudados, em particular pelos norte-americanos, no relativo aos respetivos impactos no plano quantitativo (vide síntese apresentada pelo NPC Topic Paper #30, sobretudo, o capítulo 3, Impact of Historical Price Shocks, pp. 6310 74). Os desenvolvimentos negativos acima aludidos só puderam ocorrer devido à existência de crescentes níveis de dependência da matéria-prima (a relação entre as importações líquidas e a oferta da matéria-prima, no caso concreto no espaço económico constituído pelos países da OCDE). Assim, este indicador, cujo valor agregado em 1950 se cifrava em cerca de 27.5% alcançava, em 1973, 66.6%, embora com disparidades significativas entre os países membros desta organização (vide. R. Scott, 1994, quadro da p. 379). O caso extremo acima invocado corresponde a um meio não só adequado para compreender a relevância da segurança energética, como para abrir pistas para os distintos planos teóricos necessários para clarificar esta matéria num domínio que comporta um conjunto de aceções que não são estanques nem estáticas ao longo do tempo, pelo que a complexidade é um dado incontornável. 1.1. A segurança energética nas RI no período anterior à década de 90 Na abordagem da presente secção iremos considerar três vertentes teóricas essenciais, a Segurança, a Economia Política Internacional e a Geopolítica, isto sem prejuízo de ulteriores menções a outros domínios especializados do conhecimento. A primeira vertente corresponde a uma inerência, dado o objeto central do nosso estudo ser uma das suas áreas específicas, sendo apenas de acrescentar que o foco da nossa análise corresponde à dimensão nacional e só subsidiariamente à internacional da Segurança. Assim iremos privilegiar o enfoque clássico desta matéri

Novo documento