Eduardo Martins Pereira POR UMA HISTÓRIA SOCIAL DO TRABALHO: SINDICALISMO E CONSCIÊNCIA DE CLASSE DOS TRABALHADORES DA CONSTRUÇÃO CIVIL DE SANTA MARIA (1930-1935)

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Eduardo Martins Pereira

POR UMA HISTÓRIA SOCIAL DO TRABALHO: SINDICALISMO E

CONSCIÊNCIA DE CLASSE DOS TRABALHADORES DA

  

CONSTRUđấO CIVIL DE SANTA MARIA (1930-1935)

Santa Maria, RS

  

Eduardo Martins Pereira

POR UMA HISTÓRIA SOCIAL DO TRABALHO: SINDICALISMO E

CONSCIÊNCIA DE CLASSE DOS TRABALHADORES DA

  

CONSTRUđấO CIVIL DE SANTA MARIA (1930-1935)

  Trabalho Final de Graduação (TFG) apresentado ao curso de História, Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano - UNIFRA, como requisito parcial para a obtenção do título de licenciado em História.

  Orientador: Leonardo Guedes Henn Santa Maria, RS

  2013

  

Eduardo Martins Pereira

POR UMA HISTÓRIA SOCIAL DO TRABALHO: SINDICALISMO E

CONSCIÊNCIA DE CLASSE DOS TRABALHADORES DA

  

CONSTRUđấO CIVIL DE SANTA MARIA (1930-1935)

  Trabalho Final de Graduação (TFG) apresentado ao curso de História, Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano - UNIFRA, como requisito parcial para a obtenção do título de licenciado em História.

  _______________________________________________ Profº Drº Diorge Alceno Konrad (UFSM)

  ___________________________________________ Profª Me. Roselâine Casanova Corrêa (UNIFRA)

  ___________________________________________ Profº Drº Leonardo Guedes Henn (UNIFRA)

  Aprovado em ......... de ........... de 2013

  RESUMO:

  A presente monografia trata sobre sindicalismo e consciência de classe dos trabalhadores da construção civil de Santa Maria

  • – RS (1930-1935). Para tanto serão discutidas questões envolvendo o conceito de classe, considerando aspectos teóricos acerca a história vista de baixo. Neste ponto, autores como Edward Palmer Thompson, Jim Sharpe e Eric J. Hobsbawm constituem-se no principal referencial teórico desta pesquisa. Desta forma, discutiremos o papel do Estado, dos sindicatos e da sociedade civil como um todo, destacando as peculiaridades do movimento operário, através de uma abordagem metodológica da história comparativa, com enfoque regionalista no intuito de se compreender as especificidades do caso particular da greve que aqueles trabalhadores protagonizaram no ano de 1935.

  

Palavras-chave: Classe operária; Consciência de classe; Sindicalismo; Santa Maria; Greve.

  ABSTRACT

  This monograph deals with unions and class consciousness of the construction workers of Santa Maria - RS (1930-1935). To do so will be discussed issues surrounding the concept of class, considering theoretical aspects concerning the history from below. At this point, authors like Edward Palmer Thompson, Jim Sharpe and Eric J. Hobsbawm constitute the main theoretical framework of this research. Thus, we discuss the role of the state, trade unions and civil society as a whole, highlighting the peculiarities of the labor movement, through a methodological approach of comparative history, with regionalist approach in order to understand the specifics of the particular case of strike those workers staged in 1935.

  Keywords: Working class; Consciousness class; Unionism; Santa Maria; Strike.

  

Agradecimentos:

  A inspiração para a realização desta pesquisa nasceu durante a disciplina de História de Santa Maria ministrada pela Profª Roselâine Casanova Corrêa onde a mesma incentivou-nos a uma pesquisa no acervo do Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria. Por este fato, meu primeiro agradecimento dirigiu-se a sua pessoa.

  Não posso deixar de mencionar o apoio familiar tão fundamental para que pudesse continuar meus estudos e terminar minha graduação. Mãe, pai, irmãos, meu muito obrigado por cada palavra, cada incentivo, cada gesto, enfim, por toda educação que fez com que me tornasse uma pessoa que acreditasse em seus sonhos. Meu especial agradecimento a Francielle Alves Difante, minha companheira, amiga e mulher. Sem você, sem seu brilho, sem seu apoio e sem sua força de vontade, nenhuma linha deste trabalho teria sido escrita.

  Quero agradecer também a paciência, a gentileza e, principalmente, o carinho reservado a minha pessoa pelo meu orientador, sem o qual, também, nada teria acontecido. De fato, uma grande pessoa. Um grande amigo.

  Grande importância reservo aos meus amigos queridos que, por conta de não pecar em esquecer ninguém, apenas limitar-me-ei a agradecer, um por um, pessoalmente. Não poderia esquecer de agradecer meu ex-professor Luís Augusto Farinatti por me despertar ao mundo do trabalho e a leitura de seus autores essenciais. Agradecer a instituição de ensino pela minha formação acadêmica tão fundamental para minha vida.

  Por fim agradecer a todos que, de alguma forma, contribuíram para a plena realização desta monografia.

  Dedico ao meu filho, Frederico O grande homem é, pois, aquele que

reconhece quando e em que é pequeno. O homem pequeno é aquele

que não reconhece a sua pequenez e teme reconhecê-la; que

procura mascarar a sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões

de força e grandeza, força e grandeza alheias. Que se orgulha dos

seus grandes generais, mas não de si próprio. Que admira as idéias

que não teve, mas nunca as que teve. Que acredita mais

arraigadamente nas coisas que menos entende, e que não acredita

no que quer que lhe pareça fácil de assimilar.

  

SUMÁRIO:

  1 INTRODUđấO........................................................................................................ 8

  2 SOBRE CLASSE E CONSCIÊNCIA DE CLASSE: POR UMA HISTÓRIA DE BAIXO PRA CIMA .................................................................................................................. 13

  3 A GRANDE DÉCADA DE 1930: SINDICALISMO E A QUESTÃO DO TRABALHO.............................................................................................................. 26

  3.1 A POLÍTICA DO GOVERNO VARGAS PARA OS TRABALHADORES: NOTAS SOBRE LEGISLAđấO SOCIAL, REPRESSấO OPERÁRIA E O NOVO SINDICALISMO ...................................................................................................... 33

  4 HISTÓRIA E REGIÃO: GREVES E SEUS CONTEXTOS ........................................ 42

  4.1 AS PECULIARIEDADES DO CASO PARTICULAR DA GREVE DOS TRABALHADORES DA CONSTRUđấO CIVIL DE 1935 ......................................... 47

  5 CONSIDERAđỏES FINAIS .................................................................................... 59

  6 FONTES CONSULTADAS ..................................................................................... 61

1 INTRODUđấO

  • – A presente pesquisa tem como eixos centrais, sindicalismo e consciência de classe oriundos, essencialmente, da tradição de uma historiografia social do trabalho
  • – dos trabalhadores da construção civil da cidade de Santa Maria, dentro do recorte temporal iniciado no ano de 1930 até as proximidades dos meados desta década ou, mais precisamente, em torno do ano 1935, ano este onde eclodiu a greve destes trabalhadores, objeto fundamental deste trabalho.

  Tendo em vista que esta área da História

  • – História Social do Trabalho – encontra-se em ascensão na pesquisa histórica a partir, principalmente, da década de 80 e, de fato, motivando constantes pesquisas no decorrer dos últimos anos, este estudo encaixa-se como mais uma contribuição a este campo da História ainda em expansão.

  1 Nesse sentido, é importante salientar que à luz de alguns trabalhos já publicados, esta

  pesquisa irá ao encontro destes, justamente no que tange ao resgate das experiências vividas por pessoas comuns

  • – maioria delas trabalhadoras formais ou informais – que buscaram, em suas relações sociais do passado, melhorar suas condições de vida, de trabalho e, sobretudo, o seu enquadramento para com uma sociedade (local e nacional) com profundas desigualdades sociais.

  Esta pesquisa surge, com certeza, das inquietações do presente e, o que este, nos dias atuais, nos diz. Referimo-nos, fundamentalmente, a luta dos professores gaúchos por melhores condições de salário e trabalho (basicamente) no seu exercício profissional. A partir desta realidade, buscam-se no passado 1 – sobretudo na década de 30 – processos históricos análogos

  

A título de um melhor direcionamento à esta pesquisa e, sobretudo, de onde suas raízes floresceram, menciono,

desde já, tais leituras: PETERSEN, Silvia Regina Ferraz.

  “Que a união operária seja nossa pátria!” História

das lutas dos operários gaúchos para construir suas organizações. Santa Maria: editoraufsm; Porto Alegre:

Ed. Universidade/UFRGS, 2001; FLÔRES, João Rodolpho do Amaral. Fragmentos da História Ferroviária

brasileira. Santa Maria: Pallotti, 2007; KONRAD, Diorge Alceno. A questão social continua um caso de polícia

entre 1930 e 1937. In. MILDER, Saul Eduardo Seiguer (Org.). Recortes da História Brasileira. Porto Alegre:

Martins Livreiro-Editor, 2008; KONRAD, Diorge Alceno. Fragmentos de construções e lutas de classes na

década de 1930: Santa Maria no contexto nacional. In. WEBER, Beatriz Teixeira; RIBEIRO, José iran (Orgs.).

  Santa Maria: [s.n.], 2010. aquele supracitado. E, de lá

  • – aqui o principal objetivo da pesquisa – verificar se os trabalhadores da construção civil daquele período adquiriram, também, uma consciência de pertencimento a uma classe e, se isto se confirmar, quais foram às formas pelas quais se organizaram de modo a reivindicar o que julgavam não estar de acordo com suas prerrogativas.

  Pretendemos com esta pesquisa o esclarecimento da seguinte hipótese: Se é verdade que a década de 30, na cidade de Santa Maria, caracterizou-se por um significativo aumento populacional e, conseqüentemente, do seu meio urbano a um modo capitalista de produção tardio, será que isto não acarretou uma constante exploração do trabalho, sobretudo aos trabalhadores da construção civil? Será que não foram estes através do suor de seus ofícios e, em longas e mal remuneradas jornadas de trabalho, que impulsionaram tal crescimento, em conjunto com outras classes de trabalhadores?

  Demonstrar quais eram os principais ofícios destes trabalhadores, averiguar se havia significativas diferenças salariais entre tais ofícios e, principalmente, verificar se a prática de greve e o sindicalismo eram práticas comuns destes e, se possível

  • – a título de comparação – de outros trabalhadores. Esclarecer o que reivindicavam e pelo que lutavam, bem como os motivos pelos quais se organizavam, também são objetivos desta pesquisa.

  Em torno destes objetivos, ressaltamos, inicialmente, algumas concepções teóricas deste trabalho. Em texto intitulado “Notas sobre o Estado, a sociedade civil e os sindicatos”, Victor

  2 Manuel Durand Pontes aponta as melhores características acerca o cidadão e seu protagonismo

  frente às questões relativas ao Estado e ao sindicato de forma geral. Para o nosso caso, além da questão do cidadão e de sua cidadania, é de grande relevância sublinhar o tipo de Estado - que será dito por nós como pós-30 em outras passagens do texto

  • – e, principalmente, o contexto

2 Esta questão nos parece ser bastante adequada a nossa concepção, pois, ao longo do texto a seguir a questão

  

fundamental será o destaque de diversas particularidades oriundas de uma greve específica, localista e, ao mesmo

tempo, regional. Por isso entendemos serem necessárias as palavras de Pontes (1981) esclarecendo que “Ao invés

do cidadão isolado, que era dono de sua vontade, possuidor individual de mercadorias (embora não fosse mais que

sua força de trabalho) dono de suas aspirações e valores, de seu desejo de triunfo e de riqueza – que aparecia frente

ao Estado Liberal – aparecem agora, frente ao Estado intervencionista, as massas portadoras de interesses em

comum (grifo nosso), particulares, constituído por homens e mulheres unificados voluntariamente

  • – o que indica
histórico a ele associado. Logo, no que tange ao Estado, o autor acima mencionado, referindo- se ao assédio das massas àquele explica que

  [...] Face ao assédio das massas, o Estado tenta fazer frente à emergência da sociedade civil (nem sempre organizada, muitas vezes espontânea, sem projetos globais, ou seja, sem constituir-se numa posição hegemônica e, portanto, sem a possibilidade de alcançar ainda a dualidade de poder entre uma eventual posição hegemônica e o poder institucional do Estado) mediante o que Gramsci chamou de revolução passiva da burguesia, que implica numa maior expansão da atividade estatal, trata de intervir com maior ou menor êxito nas novas organizações ou movimentos, cooptar líderes, arrebatar bandeiras, corromper os movimentos, desprestigiá-los, dividi-los, enfrentá- los ou, no extremo, reprimi-los. Porém, ainda que triunfe ou consiga anular, desarticular ou cooptar estes movimentos ou organizações, não pode o Estado, por si só, impedir a difusão ampliada da política e conseqüentemente a politização das massas dentro da sociedade civil ainda atomizada

  • – cujas manifestações vão se tornando cada vez mais imprevisíveis, tanto para o Estado como para o observador atento e, inclusive, para os próprios atores (PONTES, 1981, p. 164).

  Em outras palavras, esta explicação sugere uma dicotomia que envolvia de um lado a lei e, do outro, a ação operária. Nesse sentido, outro importante texto (“Historiografia, trabalho e cidadania no Brasil”) que embasa esta pesquisa, de autoria conjunta dos historiadores

  Alexandre Fortes e Antonio Luigi Negro, considera que

  Lei e ação operária apontavam para diferentes interpretações da idéia de direitos, mas a experiência histórica as integrava de maneira tensa e contraditória. Se a cultura de direitos estruturava a própria identidade operária, imaginar a “resistência” dissociada do plano institucional dos sindicatos, da lei e da “Grande Política” implicava isolar a “autonomia operária” no local de trabalho, o que, num certo sentido, reproduzia a exclusão dos trabalhadores como sujeitos, aspecto que marca as macronarrativas da história brasileira (FORTES; NEGRO; in FERREIRA; DELGADO, 2010, p. 184)

  Portanto, este trabalho fará uma incursão no mundo do trabalho visto dentro de uma dinâmica de continuidades, compreendendo, dentre outras questões, a concepção de classe e consciência de classe em diferentes contextos e lugares, adequando-as aos nossos objetivos. Bem como a discussão referente ao Estado, aos sindicatos e a sociedade civil como um todo, na tentativa de se compreender, ao máximo, as principais questões que envolviam estes atores, desde o início do século XX, com seus movimentos e lutas, até precisamente o ano de 1935, ano este considerado chave para esta pesquisa.

  Para tanto, adotamos como modelo metodológico a história comparativa, no que concerne ao destaque das peculiaridades regionais que emergirão, com maiores detalhes, ao longo desta pesquisa. Nesse sentido, Vera Alice Cardoso Silva no texto denominado a questão do “regionalismo como método de investigação e como concepção interpretativa” (SILVA in SILVA, 1990, p. 43). Uma das questões centrais dos estudos regionais, conforme destaca a autora, envolve o seguinte aspecto: “O enfoque regionalista não pode limitar-se à coleta de dados e a observação da dinâmica dos processos internos à região delimitada para o estudo. A interpretação compreensiva desta dinâmica depende da análise de sua inserção do movimento global do sistema” (SILVA in SILVA, 1990, p. 44). Desta forma, aliado a uma revisão bibliográfica sobre assuntos envolvendo o mundo do trabalho (Estado, sindicatos, trabalhadores, greves, etc.), bem como a análise da Constituição do Rio Grande do Sul de 1935 e do periódico jornal A Razão e da greve dos trabalhadores em construção por ele divulgada, pretendemos compreender as dinâmicas internas e as peculiaridades oriundas deste processo. Desta forma,

  A história regional não substitui a história dos processos estruturais ou a história de mudanças sociais e políticas. Nem deve ser vista como fornecedora de subsídios que, somados, resultariam naturalmente em uma “História nacional” ou numa “História geral”. Mas, a História regional oferece elementos insubstituíveis para estudos comparativos e esta contribuição apenas a justifica e a torna necessária (SILVA in SILVA, 1990, p. 46).

  Para tanto, a presente pesquisa foi organizada da seguinte forma: em primeiro lugar, o capítulo intitulado “Sobre Classe e Consciência de classe: Por uma história de baixo pra cima” trata, sobretudo, de discutir e contrapor nossos principais referenciais teóricos com o objetivo de definir o tipo de consciência de classe que os trabalhadores da construção civil desenvolveram, durante a greve de 1935. No entanto, não será apresentada a greve em si neste capítulo, pois, além do objetivo acima apontado, terá um capítulo específico para tanto. Neste

  • – capítulo temos a intenção de dialogar sobre a importância de se considerar estes sujeitos pedreiros, pintores, ajudantes, etc.
  • –, dotados de um sentimento de pertencimento a uma classe, como agentes ativos da História, não vê-los somente como meras alegorias frente a um contexto específico.

  O capítulo seguinte intitulado “A Grande década de 1930: Sindicalismo e a Questão do Trabalho

  ” aborda, dentre outros aspectos, questões envolvendo direitos dos trabalhadores, organizações operárias, repressão e a questão do novo sindicalismo. Além disso, discute sobre o movimento operário anterior a década de 30, bem como o papel do Estado antes e após esta década. Também analisa algumas questões envolvendo a legislação social e, sobretudo, a constante luta dos trabalhadores por melhores condições de trabalho.

  No capítulo final (“História e Região: Greves e seus contextos”) além de trabalharmos detalhadamente a greve dos trabalhadores da Construção Civil de Santa Maria, também trataremos das peculiaridades deste movimento, considerando algumas características bastante específicas de Santa Maria no início da década de 1930, comparando, a greve, com outras movimentações ocorridas em diferentes regiões. Com isso busca-se ressaltar seus aspectos particulares em relação a outros casos de ocorrência semelhante. Para encerrar, serão tecidas algumas considerações tendo em vista alguns itens da Constituição do Estado do Rio Grande do Sul de 1935.

  

2 SOBRE CLASSE E CONSCIÊNCIA DE CLASSE: POR UMA HISTÓRIA DE BAIXO

PRA CIMA

  Não seria nenhum exagero associar esta pesquisa como uma tentativa marxista de se compreender um período extremamente relevante à historiografia. Porém, desde a década de 1970, relevantes contribuições acerca o movimento operário vem sendo construídas. Tal fenômeno historiográfico se justificou

  • – e, até hoje, se justifica – pelo fato de que, a teoria marxista, de um modo geral, não deu conta de diversos outros aspectos da História
  • – aspectos estes que vão muito além de uma história somente econômica e polí
  • – e, por isso, muito mais do que simples revisionismos foram produzidos: De fato, o marxismo ortodoxo ruíra justamente porque se julgava completo e totalizante. Por sua vez, em virtude de uma corrente historiográfica inglesa, caracterizada por uns como neomarxista - tendo em E. P. Thompson um de seus principais representantes - consideramos o presente estudo nesta mesma perspectiva.

  Sendo assim, o que se viu de novo foi justamente isto. Ora, se a teoria social de Marx não conseguiu abarcar certas especificidades captadas por seus seguidores, por que, então, eles próprios não iriam dar novos significados para sua teoria? Porém, sejamos francos: há de se ressaltar o seguinte, “os marxistas (e não só eles) encaram de maneira muito variada a obra de Marx. As interpretações são numerosas, às vezes conflitantes, às vezes complementares” (NETTO, 1986, p. 27). Para o que compete ao presente estudo, salientamos que o que se seguirá no texto a seguir propõe discutir e contrapor autores que, de uma forma ou de outra, procuraram estabelecer um diálogo com a obra de Marx. Contudo, enfatizamos, novamente, que tal proposta se concentrará na discussão referente à classe e a consciência de classe.

  Antes disso, no entanto, entendemos serem pertinentes algumas colocações acerca a

  3 História Vista de Baixo, como aquela denominada por Jim Sharpe

  dentro da obra “A Escrita da História” de Peter Burke. Em primeiro lugar, ressaltamos que esta pesquisa procura dar significado aos anseios e objetivos de um grupo de trabalhadores que, em um determinado período da História do Brasil 3 – durante a década de 1930 – se colocaram em confronto com

  C onforme o pensamento de Sharpe, “a história vista de baixo abre a possibilidade de uma síntese mais rica da

compreensão histórica, de uma fusão da história da experiência do cotidiano das pessoas com a temática dos tipos aquilo que julgavam estar em desacordo com suas prerrogativas. Estamos falando de pedreiros, pintores, carpinteiros, serventes, mestres de obras, enfim, que mesmo sendo pessoas comuns, lutaram de alguma forma para mudar suas condições de vida e de trabalho. É de comum acordo que, durante muito tempo, somente pessoas ditas como importantes ou com algum tipo de influência política ou econômica, ganhavam destaque na escrita da história. Ou seja, há bastante tempo “a história tem sido encarada [...] como um relato dos feitos dos grandes. O interesse na história social e econômica mais ampla desenvolveu-se no século dezenove, mas o principal tema da história continuou sendo a revelação das opiniões políticas de elite” (SHARPE in BURKE, 1992, p. 40).

  No ensaio “A história de baixo pra cima”, escrito pelo historiador Eric J. Hobsbawm, publicado no livro “Sobre História”, o autor corrobora com Sharpe ao afirmar que “A maior parte da história no passado era escrita para a glorificação e talvez para o uso prático dos governantes”. Vai ainda mais além ao comentar que “o ramo prático da política da classe dominante, durante maior parte da história até o final do século XIX e na maioria dos países, poderia normalmente prosseguir sem muita coisa além de uma ocasional referência à massa da população dominada” (HOBSBAWM, 1998, p. 216-217). Ainda de acordo com o pensamento de

  Hobsbawm, “Para os marxistas, ou para os socialistas em geral, o interesse pela história dos movimentos populares se desenvolveu com o crescimento do movimento operário”

  (HOBSBAWM, 1998, p. 218). É importante destacar que, consoante as palavras do autor, a seguinte generalização de que “a história dos movimentos e organizações que lideravam a luta dos trabalhadores e qu e, portanto, em um sentido real, “representavam” os trabalhadores podiam substituir a história das próprias pessoas comuns” (HOBSBAWM, 1998, p. 219) deve ser compreendida em parte, isto é, dentro das especificidades de cada contexto histórico que se pretende analisar. Tal preocupação parece-nos bastante significativa, tendo em vista que em muitos casos, “O historiador dos movimentos populares descobre apenas o que está procurando não o que já está esperando por ele” (HOBSBAWM, 1998, p.220).

  Em outras palavras, esse modelo analítico de se compreender a história, para os limites desta pesquisa, nos possibilita entender o papel de protagonistas de diferentes sujeitos que outrora eram vistos como meras alegorias dentro do recorte temporal proposto. Ora, por exemplo, se é importante estudar o Governo Vargas do ponto de vista político e de tudo mais que significou a sua atuação no pós

  • – 30, porque não colocar em destaque os indivíduos que, no suor de suas lutas, almejavam tantas outras coisas além de, por exemplo, um simples atendimento aos seus anseios por parte dos direitos trabalhistas que lhes foram concedidos?

  Frente a esta problemática, cabe sublinhar a importância dos escritos de Edward Palmer Thompson, comentado por Josep Fontana, principalmente no que concerne ao aparato teórico desta pesquisa. Assim, conforme Fontana

  Edward P. Thompson (1924 – 1993) tornar-se-ia famoso através de um livro que, inicialmente, fora pensado como uma síntese da história do movimento operário 4 britânico, The making of the English working class , e que acabou despertando o entusiasmo de jovens historiadores inconformistas do mundo inteiro. O livro apresentou-se como profundamente inovador ao estabelecer a noção de classe como uma relação e ao interessar-se pelos mecanismos de formação da consciência coletiva; mas o era, principalmente, pela negação explícita de entender o marxismo como “um corpo auto-suficiente de doutrina completo, internamente consciente e plenamente realizado em um conjunto de textos escritos”. (FONTANA, 2004, p.334)

  Esta colocação, no momento, caracteriza-se como uma questão introdutória a cerca das definições e questionamentos, que em virtude das peculiaridades e dos limites deste trabalho serão tratadas, ao longo do texto, mais detalhadamente.

  Assim, para uma melhor compreensão desta pesquisa no que tange aos seus termos teóricos é necessário ressaltar, também, antes mesmo da própria teoria de uma consciência dita de classe, o que, por ventura, adotamos como conceito de classe.

  Assim, “Classe, na minha prática, é uma categoria histórica, ou seja, deriva de processos sociais através do tempo. Conhecemos as classes porque, repetidamente, as pessoas se comportam de um modo classista” (THOMPSON, 1998, p.96). De todo modo, tal definição foi aprimorada durante o prefácio de sua obra clássica, publicada durante a década de 1960, tendo, como título original em inglês: The Making of the English Working Class. Logo, segundo Thompson

  Por classe, entendo um fenômeno histórico, que unifica uma série de acontecimentos díspares e aparentemente desconectados, tanto na matéria-prima da experiência como na consciência. Ressalto que é um fenômeno histórico. Não vejo a classe como uma “estrutura”, nem mesmo como uma “categoria”, mas como algo que ocorre efetivamente (e cuja ocorrência pode ser demonstrada) nas relações humanas (THOMPSON, 1987, p. 9).

  4

  Ainda complementa tal definição acrescentando que a “classe acontece quando alguns homens, como resultado de experiências comuns (herdadas ou partilhadas), sentem e articulam a identidade de seus interesses entre em si, e contra outros homens cujos interesses diferem (e geralmente se opõem) dos seus” (THOMPSON, 1987, p. 10).

  Nesse sentido, a título de complementação: “[...] a classe e o problema da consciência

  de classe

  (grifo meu) são inseparáveis. Uma classe, em sua acepção plena, só vem a existir no momento histórico em que as classes começam a adquirir consciência de si próprias como tal” (HOBSBAWM, 1987, p. 36). Esta visão apresentada pelo historiador Eric Hobsbawm no artigo “Notas sobre a consciência de classe” presente no livro “Mundos do Trabalho. Novos estudos sobre História Operária”, embora aparentemente semelhante ao pensamento de Thompson, diferencia-se em relação a ele em, pelo menos, um quesito: Conforme destaca o Professor Sergio Silva no texto “Thompson, Marx, os marxistas e os outros”, publicado em “As peculiaridades dos ingleses e outros artigos”, com organização de Antonio Luigi Negro e do próprio Silva,

  Para Thompson, o proletariado não seria um resultado da industrialização, como aparece no jamais suficientemente estudado “Em busca da mais-valia relativa. E esta é certamente uma idéia central no seu pensamento, uma chave mestra para a compreensão das suas relações com o pensamento de Marx e da sua oposição radical às correntes dominantes do pensamento marxista (SILVA in NEGRO; SILVA, 1998, p. 61)

  Desta forma, conforme observa o historiador Silva

  [...] a classe operária de Thompson cometerá um verdadeiro sacrilégio para o pensamento marxista dominante: ela não será mais a herdeira social da burguesia, mas a herdeira das classes dominadas dos modos de produção anteriores, cujas lutas ela continuará, sob novas formas, nas condições de dominação do capital (SILVA in NEGRO; SILVA, 1998, p. 65-66)

  Tal observação pode ser facilmente compreendida se retornarmos novamente ao pensamento de Thompson, pois, segundo ele “não podemos entender a classe a menos que a vejamos como uma formação social e cultural, surgindo de processos que só podem ser estudad os quando eles mesmos operam durante um considerável período histórico”

  (THOMPSON, 1987, p. 12). Esta visão

  • – oriunda de uma tradição historiográfica inglesa – foi semelhantemente partilhada pelo sindicalista e secretário da FLM (Federação dos Trabalhadore s da Metalurgia), Bruno Trentin, no anexo de número 2, intitulado “Pesquisa sobre
Operária” autoria de Michel Thiollent (doutor em sociologia pela Universidade de Paris). Assim, conforme Trentin

  Não há classe “pura” que exprima de modo unívoco sua vocação histórica. Na realidade, a classe operária está em formação continuada; trata- se de um dado “em construção em sua estrutura interna, em seus aspectos subjetivos, as tradições culturais diferentes e contraditórias que aí se desenvolvem, nas ideologias impregnadas de contaminações recíprocas agindo em seu interior. [...] Trata-se, pois, de redescobrir coletivamente (em uma relação estreita e nova entre pesquisadores profissionais, grupos organizados e trabalhadores e militantes sindicais), evitando os esquemas pré- constituídos pelos “especialistas”, o laço existente no calor do afrontamento de classe, entre os impulsos objetivos movendo-se de uma experiência coletiva e organizada de trabalhadores com o condicionamento da cultura e das tradições se gravando sobre esta experiência, e, enfim, a influência das diferentes ideologias agindo no seio da classe operária por inumeráveis combinações, por vezes até misturadas entre si (TRENTIN in THIOLLENT, s/a, p. 260-261)

  Esta definição foi concebida tendo em vista a experiência de lutas operárias na Itália e, mais particularmente, no coração da estrutura industrial do país, em Turim e no Piemonte. Em outras palavras, a classe de trabalhadores que naquele contexto específico foi se conhecendo e, ao mesmo tempo, constituindo, desenvolveu

  • – conforme o autor em um processo constante – uma consciência de classe plena. Neste ponto, a dita consciência oriunda deste processo, converge com o problema da discussão sobre o conceito de classe que Hobsbawm defende. Segundo o historiador, “a consciência de classe é um fenômeno da era industrial moderna” (HOBSBAWM, 1987, p. 38). Ou seja,

  [...] no capitalismo a classe é uma realidade histórica imediata e em certo sentido vivenciada diretamente, enquanto nas épocas pré-capitalistas ela pode ser meramente um conceito analítico que dá sentido a um complexo de fatos que de outro modo seriam inexplicáveis. [...] Para determinados propósitos, não precisamos nos preocupar com a heterogeneidade interna de cada classe, como, por exemplo, quando definimos determinadas relações cruciais entre classes tais como as que se dão entre patrões e trabalhadores (HOBSBAWM, 1987, p.39).

  Logo, a diferença substancial no interior da historiografia inglesa discutida anteriormente encontra-se no fato de Thompson conceber a consciência de classe em sociedades pré-capitalistas o que, por sua vez, para Hobsbawm

  • – até mesmo pela sua especificidade em estudos de ordem econômica
  • – não se caracterizaria uma plena consciência destes trabalh adores, embora reconhecendo que, segundo suas palavras, “Se tentarmos olhar para a consciência das camadas sociais nos períodos pré-capitalistas, iremos, portanto, nos deparar com uma situação de certa complexidade” (HOBSBAWM, 1987, p. 39). No entanto, é bastante
baixas” ou “classes subalternas” será fragmentada em segmentos sociais ou outros, mesmo quando sua realidade social for de cooperação econômica e social, e de ajuda mútua, como no caso de inúmeros tipos de comunidades de aldeia” (HOBSBAWM, 1987, p.41).

  Neste caso, esta preocupação com as comunidades de aldeia, típicas de um ambiente rural europeu, ainda pouco ou nada influenciado pela indústria moderna (urbanização, concentração do trabalho em fábricas, etc.) levanta outra questão fundamental de seu pensamento: a diferenciação entre proletariado e camponeses. A nosso ver é essencial sublinhar tal distinção, proposta por Hobsbawm, destes grupos, pois se trata de um recorrente erro em pensar tais camadas sociais como equivalentes dentro do processo histórico considerado. Assim, conforme o renomado historiador

  Os camponeses, que também são uma classe historicamente subalterna, exigem que mesmo a mais elementar consciência de classe ou organização em escala nacional (isto é, politicamente eficaz) lhes seja importados de fora, enquanto as formas mais elementares de consciência de classe, ação de classe e organização tendem a desenvolver-se espontaneamente dentro da classe operária (HOBSBAWM, 1987, p. 49).

  Nesse sentido, Hobsbawm acrescenta que “Os movimentos proletários [...] se basearam na explícita consciência e coesão de classe” (HOBSBAWM, 1987, p. 46). Por outro lado,

  [...] a classe operária, como o campesinato, é constituída quase que por definição por pessoas que não podem fazer coisas acontecerem exceto coletivamente, embora, ao contrário dos camponeses, sua experiência de trabalho demonstre todos os dias que eles devem agir coletivamente ou não agir de forma alguma (HOBSBAWM, 1987, p. 47).

  Contudo, conforme explica Eric Hobsbawm, “Cada classe possui dois níveis de aspirações, ao menos até que se torne politicamente vitoriosa: as exigências específicas, imediatas, do dia-a-dia, e as exigências mais gerais pelo tipo de sociedade que lhe convém” (HOBSBAWM, 1987, p. 47). De todo modo, conforme distingue o autor, “a consciência de classe operária em ambos os níveis implica organização formal; e uma organização que seja ela mesma a portadora da ideologia de classe, que sem ela seria um pouco mais que um complexo de hábitos e práticas informais”. Complementa acrescentando que “A organização (o “sindicato”, o “partido”, ou “movimento”) torna-se assim uma extensão da personalidade do trabalhador individual, que ela contempla e completa” (HOBSBAWM, 1987, p.48). Por fim – contudo não encerrando a discussão pela qual estamos centrados

  • – cabe destacar a crítica
como objeto de pesquisa alguns trabalhadores de origem, sobretudo, camponesa como objeto de seus estudos. Assim, conforme Eric Hobsbawm

  Os camponeses são mais realistas que muitos rebeldes de ultra-esquerda. Sabem perfeitamente quem irá matar quem, no caso de decorrência de um confronto. E, o que é mais importante, sabem quem não pode fugir. Sabem que as revoluções podem acontecer, mas também sabem que seu sucesso não depende deles em sua aldeia específica (HOBSBAWM, 1998, p. 227).

  Após algumas reflexões acerca das possibilidades de apreensão de uma consciência de classe, por parte de diferentes tipos de trabalhadores, apresentada pelo pensamento de Hobsbawm, ao menos uma observação pode ser feita. É extremamente importante considerar que os escritos deste autor centram-se em aspectos econômicos e sociais que se caracterizam, de alguma forma, pela crescente necessidade de dar mais valor as relações econômicas de produção, considerando-a como central para a formulação de seus escritos. Por sua vez, não deixa de lado aspectos culturais, também bastante perceptíveis nas organizações destes trabalhadores. Contudo, não nos interessa tais feitios culturais nesta pesquisa. Mesmo assim, consideramos a questão da cultura como determinante no pensamento de Thompson e o que, sobretudo, o diferencia dos estudos de Eric Hobsbawm.

  Ao considerarmos tais colocações como uma crítica implícita aos escritos de Thompson, devemos, no entanto, demonstrar de que forma tal autor contempla suas discussões, tendo em vista a recente referida diferença entre o pensamento de ambos os pesquisadores.

  Desta forma, Thompson discute, dentre outras coisas, temas mais abrangentes que de certa forma também são necessários para se compreender a relação de um grupo de trabalhadores para com o meio específico pelos quais se encontram inseridos. Ao estudar os trabalhadores do início do século XIX na Inglaterra, considera a questão da educação, por exemplo, como algo fundamental que ajudou de alguma forma, posteriormente, para que diferentes tipos de trabalhadores (tecelões, meeiros, artesãos, etc.) adquirissem a consciência necessária para lutar em favor de suas reivindicações e anseios. Esta preocupação com a educação dos trabalhadores foi brilhantemente explanada pelo Professor e Historiador E. P. Thompson, durante as idéias iniciais do capítulo 4

  • – intitulado “Consciência de classe” – de sua obra clássica “A Formação da Classe Operária Inglesa. A forças dos trabalhadores”. Neste estudo, o autor supracitado defende que um importante mecanismo para se suscitar uma
consciência dita de classe, surge, dentro do radicalismo popul ar, através de uma “cultura intelectual” (THOMPSON, 1987, p. 303). Complementa, acrescentando que, na Inglaterra, “a primeira metade do século 19, quando a educação formal de grande parte do povo se resumia a ler, escrever e contar, não foi absolutamente u m período de atrofia intelectual” (THOMPSON, 1987, p. 303

  • – 304). Pelo contrário,

  As vilas, e até as aldeias, ressoavam com a energia dos autodidatas. Dadas as técnicas elementares de alfabetização, os diaristas, artesãos, lojistas, escreventes, e mestres- escolas punham-se a aprender por conta própria, individualmente ou em grupo [...] aqui e ali, líderes radicais locais, tecelões, livreiros, alfaiates reuniriam pilhas de periódicos radicais e aprenderiam a usar as publicações oficiais do Parlamento; [...] Assim, a partir de sua experiência própria e com o recurso à instrução errante e arduamente obtida, os trabalhadores formaram um quadro fundamentalmente político da organização da sociedade. (THOMPSON, 1987, p. 304)

  Enfim, encerra afirmando que “De forma nenhuma o analfabetismo (devemos lembrar) excluía os indivíduos do discurso político.” (THOMPSON, 1987, p. 304). Desta forma, cabe sublinhar a preocupação do autor em evidenciar uma classe preocupada com questões políticas, de um engajamento em ações voltadas para além de meras melhorias sociais. Em outras palavras, o conceituado historiador britânico defende uma consciência, sobretudo política daqueles trabalhadores, tendo em vista a formação intelectual (mesmo sendo na maioria autodidatas) de grande parte daqueles indivíduos, em uma sociedade industrial ainda em formação.

  De todo modo, algumas questões referentes à classe e a consciência de classe, se colocadas à luz do pensamento marxista, podem sugerir uma relação direta tanto de Thompson como de Hobs bawm, com um conceito fundamental da obra de Marx: a noção de “luta de

  

classes”. Como salienta J. Luiz Marques “a categoria de “luta de classes” é a chave da teoria

  da história proposta pelo marxismo” (MARQUES, 1992, p.28). Portanto, como atesta Thompson,

  Isso sublinha, [...], o fato de a classe, no seu sentido heurístico, ser inseparável da noção de “luta de classes”. [...] Talvez diga isso porque a luta de classes é evidentemente um conceito histórico, pois implica um processo, e, portanto, seja o filósofo, o sociólogo ou o criador de teorias, todos têm dificuldade em utilizá-lo. Para dizê-lo com todas as letras: as classes não existem como entidades separadas que olham ao redor, acham um inimigo de classe e partem para a batalha. Ao contrário, para mim, as pessoas vivem numa sociedade estruturada de um certo modo (por meio de relações de produção fundamentalmente) suportam a exploração (ou buscam manter poder sobre os explorados) identificam os nós dos interesses antagônicos, descobrem a si mesmas como uma classe, vindo, pois, a fazer a descoberta da sua consciência de classe. Classe e consciência de classe são sempre o último e não o primeiro degrau de um processo histórico real (THOMPSON in NEGRO; SILVA, p. 274)

  Thompson acrescenta ainda que “A questão é que não podemos falar de classes sem que as pessoas, diante de outros grupos, por meio de um processo de luta [..] entrem em relação e oposição sob uma forma classista, ou ainda sem que modifiquem as relações de classe herdadas, já existentes” (THOMPSON in NEGRO; SILVA; p. 274). Esta concepção de classe nos parece adequada ao relacionarmo-la com o objeto desta pesquisa: os grevistas trabalhadores da construção civil de Santa Maria

  • – RS durante os primeiros anos da “Nova República”, sobretudo, o período entre 1930 e 1935. A análise de tal objeto será feita no terceiro capítulo, no entanto, neste momento é interessante destacar que a principal fonte utilizada para tanto será o periódico A Razão, que vincula a greve a partir de janeiro de 1935.

  Até agora o que pôde ser colocado em discussão demonstrou, de alguma forma, que uma tradição historiográfica deste porte sustenta uma variedade de visões que buscam complementarem - se entre si, destacando suas verdades e apontando suas deficiências. De todo modo, a leitura que é apresentada aqui não é inédita. De fato, como já enunciado neste texto em

  5

  suas primeiras linhas, pelo menos, desde os anos 1970 , importantes publicações se preocupam em abordar a questão da consciência de classe de diferentes grupos e contextos de trabalhadores.

  Assim, em uma delas, o psicólogo e psicanalista alemão, Wilhelm Reich, ao tratar das duas espécies de consciência de classe, explica que “A aquisição da consciência de classe pelas camadas oprimidas da população é a primeira condição para uma transformação revolucionária do sistema social em vigor” (REICH, 1976, p. 12). Logo, ao considerarmos este pensamento introdutório do autor, não demoraremos a perceber que suas visões

  • – esta e as que demais virão no decorrer do texto
  • 5 – apresentam um modo bastante peculiar de interpretação do pensamento

      

    Em obra bastante erudita representativa da literatura marxista alemã, datada de meados da década de setenta,

    Reich (1976) apresenta e discute diferentes concepções da consciência de classe entre os trabalhadores alemães,

    sobretudo, no período pós Primeira Guerra Mundial. Desta forma, destaca o papel de diferentes grupos que

    compunham estes trabalhadores, como, por exemplo, a juventude, os adultos e as mulheres, relacionando tais

    agentes com outro segmento de grande importância no período em questão: o Partido Socialista Alemão. REICH, marxista: a organização revolucionária (tanto de partido políticos como os trabalhadores). Assim, explana que

      [. ..] a necessidade de um “partido revolucionário”, de uma direção revolucionária no pleno sentido da palavra, está muito bem colocada, mas é negada a existência de uma consciência de classe do proletariado [...] Se o proletariado, por si próprio, isto é, pelo jogo das forças sociais naturais, não fosse de modo nenhum à “luta final”. Incapazes de pensar para além de seus dogmas e de suas teses crêem, com um fervor quase religioso, nas forças revolucionárias espontâneas (REICH, 1976, p. 13).

      Não obstante, completa:

      A classe operária cria, pois, a partir da sua situação uma “consciência”, insuficiente é certa, para abalar a dominação do capital (para isso é preciso um partido solidamente organizado), mas que comporta talvez formas embrionárias ou elementos do que se chama consciência de classe ou consciência revolucionária (REICH, 1976, p. 14).

      Em primeiro lugar, discordamos, em parte, das abordagens do autor acima. Ora, como podemos conceber um grupo de trabalhadores, percebendo-se em situação que não lhes agrada, acreditar em uma mudança “espontânea” da sociedade? De todo modo, a afirmação que um partido político, com reivindicações operárias, por exemplo, possa contribuir de alguma maneira para uma mudança substancial em favor dos trabalhadores frente à opressão de seus direitos, parece-nos adequada. Embora saibamos do poder de uma paralisação geral (greve) para, pelo menos, o início de uma luta mais direta frente aqueles que os trabalhadores julgam serem os culpados por sua situação, não podemos negar que, se tratando de um período bastante específico do país (1930-35), um partido político, em tese, poderia trazer conquistas reais e mais significativas para os trabalhadores. Contudo, retomando o pensamento do autor, podemos observar que

      “a concepção segundo a qual a classe oprimida pode por si própria, sem direção, através duma vontade revolucionária espontânea, assegurar a vitória da revolução, é tão falsa como a idéia contrária segundo a qual esta vitória dependerá unicamente da direção” a qual – completa Reich

    • – “teria apenas que criar a consciência de classe” (REICH, 1976, p. 16). Até este ponto verificamos certa semelhança de opiniões acerca de uma possível mudança estrutural na sociedade. Embora defendermos que a idéia marxista de revolução, para o objeto específico desta pesquisa
    • – greve dos trabalhadores da construção civil de Santa Maria na década de 30 – não combinasse com os objetivos reais das reivindicações insurgidas por estes mesmos trabalhadores em tal situação.
    Em outra parte deste mesmo texto, o conceituado estudioso compara “[...] Se sempre se afirmar que [a consciência de classe] tem de se apoiar nas “necessidades cotidianas” nós perguntamos então: será “desenvolver a consciência de classe” exigir a instalação de ventiladores numa empresa? (REICH, 1976, p. 16). Através desta colocação percebemos que o psicanalista, mesmo que implicitamente, não considera importante ou

    • – mais correto – decisivo as necessidades cotidianas dos trabalhadores para se atingir um nível, mesmo que bastante preliminar, de uma consciência de classe. Tal entendimento parte de sua convicção em destacar, o que entendemos não passar de um conceito em seus estudos, a questão da revolução. Assim, conforme o autor “A política marxista revolucionária tem até agora partido do princípio de que existe uma consciência de classe perfeita no proletariado, pronta a manifestar-se, sem ser capaz de analisar em pormenor e concretamente” (REICH, 1976, p.17). Assim, defende ainda que “A consciência de classe das massas [...] apresenta-se antes sob a forma de elementos concretos que em si próprios ainda não são consciência de classe (a fome por exemplo) mas que poderiam produzi-la ao reunirem- se” (REICH, 1976, p.18).

      Se, conforme o Reich, aspectos da vida cotidiana dos trabalhadores pouco ou nada contribuem para a formação de uma consciência , por que, então o mesmo afirma que “a consciência de classe das mais vastas massas é inteiramente de tipo pessoal. [...] é feita do pequeno, do quotidiano, do banal” (REICH, 1976, p.19). Essa indagação é, a nosso ver, uma questão bastante complexa, pois, como será demonstrado ao longo da pesquisa, os trabalhadores da construção civil, através do mecanismo de uma paralisação (greve) defendiam melhorias em suas condições de trabalho que envolvia aspectos de seu cotidiano. Ao defenderem uma melhor remuneração, por exemplo, fica implícito que, com o que ganhavam, não conseguiam satisfazer, por completo, suas necessidades cotidianas como alimentação, moradia, medicação, dentre outras coisas.

      Para encerrar a discussão, levantaremos algumas questões que consideramos necessárias para uma melhor compreensão desta pesquisa. Antes de qualquer coisa, lembramos que o autor supracitado, constrói seu raciocínio considerando a sociedade alemã das primeiras décadas do século XX. Por isso entendemos que as comparações feitas até o momento são pertinentes a esta pesquisa, pois, estamos nos referindo a trabalhadores que estão imersos dentro da ótica capitalista de produção. Ou seja, estamos nos referindo, essencialmente, a trabalhadores adultos que, de uma forma ou de outra, lutaram para que o contexto no qual se encontravam inseridos pudessem lhes favorecer de alguma forma.

      Logo, Wilhelm Reich, referindo-se aos trabalhadores adultos, afirma que

      O trabalho coletivo na empresa é incontestavelmente a fonte mais importante do sentimento de classe. Mas ser proletário, trabalhar numa empresa e estar sindicalizado não significa ter consciência de classe, embora as duas coisas sejam condições necessárias (REICH, 1976, p. 39-40).

      Para este mesmo autor, a consciência de classe só será plena se a mesma se relacionar, direta ou indiretamente, com u ma “revolução social”. Segundo Reich

      A revolução social propõe, entre outras coisas, socializar as grandes empresas, quer dizer, confiá-las ao controle dos trabalhadores. É necessário que cada um deles tome consciência que a empresa e sua direção lhe pertencem exclusivamente, baseando-se no seu trabalho. [...] só assim os empregados podem sentir interesse pela revolução social [...] É isto e só isto que se chama “despertar a consciência de classe”. [...] Assim comprometido com o trabalho concreto, cada trabalhador sentir-se-á verdadeiramente dono da empresa; já não considerará o empresário como u distribuidor de salários, mas como um explorador da sua força de trabalho; [...] É isto a consciência de classe: se ele (o trabalhador) se puser em greve será não só por solidariedade sentimental, não só por fidelidade aos chefes sindicais, mas pelos seus próprios interesses, e doravante

    nenhum dirigente poderá traí-lo (REICH, 1976, p. 91-92)

      Esta conclusão apresentada pelo autor deve ser relativizada. Em primeiro lugar, não acreditamos que os trabalhadores da construção civil de Santa Maria na década de trinta pretendessem realizar uma revolução social, muito menos tinham a intenção de se apropriarem das edificações que estariam construindo para algum empresário da construção civil. Contudo, tinham plena consciência que sua força de trabalho vinha sendo constantemente explorada e era justamente contra isso que lutavam. Eis aí outro aspecto singular do nosso objeto de pesquisa: Em síntese, os trabalhadores imersos nestas obras de construção realizaram uma greve tendo em vista suas necessidades, não uma revolução que pudesse, inclusive, dar fim aos problemas oriundos da relação capital/trabalho. Assim, para encerrar, retomamos o pensamento do historiador Diorge Konrad que define:

      Definitivamente, o fantasma do pré- 1930 assolava os trabalhadores da “República Nova”. Os trabalhadores continuavam submetidos, simultaneamente, a duas formas intoleráveis de relação: a exploração econômica e a opressão política. Por outro lado, isso não significaria que, diante da exploração e da opressão, não ocorresse o crescimento do auto-respeito e da consciência política dos trabalhadores. Mesmo que fosse uma consciência possível, para a realização de suas ações políticas na luta por direitos (KONRAD in MILDER, 2008, p. 158). Em síntese, o conceito mais apropriado de consciência de classe, para o nosso caso específico, encontrou no pensamento de Konrad uma profunda semelhança. De todo modo, relaciona-se com a visão de classe que, então, adotamos como definitiva para esta pesquisa. Assim, conforme Thompson

      A classe se delineia segundo o modo como homens e mulheres vivem suas relações de produção e segundo a experiência de suas situações determinadas, no interior do “conjunto de suas relações sociais”, com a cultura e as expectativas a eles transmitidas e com base no modo pelo qual se valeram dessas experiências em nível cultural. [...] Na história, nenhuma formação de classe específica é mais autêntica ou mais real que outras. As classes se definem de acordo com o modo como tal formação acontece definitivamente (THOMPSON in NEGRO; SILVA, 1998, p. 277).

      Em suma, os interesses de classe dos trabalhadores da construção civil de Santa Maria no pós- 30 se encontram intimamente relacionados com a consciência de classe determinada por uma sociedade capitalista de produção. Isto é, Thompson nos definiu o melhor caminho para a compreensão de classe. Mas a experiência e a consciência de classe, em seus termos mais definitivos e adequados a esta pesquisa, aproxima-se, em maior ou menor grau, ao pensamento de Hobsbawm e Konrad, conforme já demonstrado por esta pesquisa.

      De todo modo, toda a discussão deste capítulo foi necessária, pois, além deste conceito ser central, como será demonstrado ao longo da pesquisa, ela contribui para esclarecer que cada processo histórico pode ser específico mesmo que, ao mesmo tempo, ele aconteça em diversos lugares, sobre diferentes e, às vezes, semelhantes aspectos em comum. Os anos 1930 foram importantes para uma mudança no que compete ao Estado em si, aos sindicatos e, principalmente, aos trabalhadores em questão. E, por isso, pensar a classe como linear, antagônica e pouco representativa, é um erro crescente que estamos tentando esclarecer. Além disso, as lutas, as reivindicações e as organizações, com seus movimentos específicos, aconteceram desde pelo menos o início do século XX, por isso mesmo sabendo da importância deste fator, vemos diversas classes, nem sempre com interesses em comum, dividida por indústria ou profissões, lutando cada uma por resolver os problemas que lhe atingiam dentro de uma sociedade marcada pela exploração do trabalho.

      Os virtuosos anos 30 por sua magnitude e complexidade e, também

    • – como subentende o subtítulo acima
    • – por sua grandiosidade e variedades de temas oriundos deste importante marco temporal na historiografia brasileira, obriga-nos a limitarmos, neste segundo capítulo, nossa discussão em duas questões centrais: o processo de formação dos sindicatos atrelados ao Estado brasileiro que emerge neste período, bem como um processo de movimentação operária iniciado durante as décadas anteriores, isto é, ainda no início do século 20.

      Desta forma, nos interessa, sobretudo, discutir a questão do trabalho e a movimentação dos trabalhadores em termos de ações organizacionais (sindicatos e greves principalmente), tendo em vista que isso implica o reconhecimento de que, para tanto, o movimento operário na Primeira República, foi de vital importância para a construção de uma política trabalhista voltada à consolidação dos direitos dos trabalhadores. Também, caracterizou-se por uma atitude combativa frente às questões sociais que julgavam ser encaradas frente ao Estado ou aos patrões.

      Em “O que está vivo no Marxismo” publicado em 1992, em seu estudo “O marxismo. Passado e Presente

      ”, J. Luiz Marques afirma que “pensar o contexto “trabalho”, historicamente, é localizar o trabalho e o trabalhador numa época específica” (MARQUES, 1992, p. 48). Assim, utilizando esta convicção, partimos do pressuposto que o sindicalismo dos anos 30 é fruto de uma herança de lutas e anseios dos trabalhadores, em parte, do início do século XX e, principalmente, de meados da década de 1910 até fins da década seguinte. Por sua vez, muito do que aconteceu durante os anos iniciais do século 20 assemelhou-se com um movimento ainda mais amplo, de dimensões internacionais. Nesse sentido, consoante ao pensamento de Carone

      A partir de sua origem, principalmente após 1890, a ação do operário brasileiro reflete boa parte da complexidade ideológica e organizatória de seu congênere europeu. Falamos aqui em influência de qualidade, não de quantidade: da existência de várias ideologias e organizações sindicais e partidárias, não que o movimento operário brasileiro seja extenso e importante como o do velho continente. [...] Se quisermos usar de uma metáfora, podemos dizer que o movimento operário vem ao Brasil “empacotado”: nada é original, nada é sui-generis. Formas de organização e teoria, tudo, tudo, nos vem como herança de fora. (CARONE, 1984, p. 05)

      Dentre tais ideologias vindas de fora

    • – no caso, oriundas da Europa essencialmente – destacamos duas, as quais julgamos serem mais adequadas a esta pesquisa: a corrente socialista
    diferenciam os tipos de ações sindicais, definindo mais adequadamente, suas características e funções.

      Assim, conforme o historiador Claudio Batalha, “O Brasil do final do século XIX assistiu ao surgimento de uma série de grupos socialistas, a começar pelo círculo socialista fundado em Santos (SP) em 1889, seguido pelo Partido Operário criado na capital federal no ano seguinte” (BATALHA, 2000, p. 21). Mesmo assim, até os anos 1930 proliferou uma sucessão de partidos socialistas de duração efêmera, conclui o autor.

      Em termos de reivindicações, a maioria desses partidos

      Defendia um programa de reformas (voto secreto, ampliação do direito de voto, revogabilidade dos mandatos, jornada de oito horas, criação de tribunais arbitrais entre patrões e empregados, proibição do trabalho de menores de 14 anos, restrição ao trabalho noturno, direito de greve etc.) e pretendia concretizá-lo por meio de pressões e da eleição de seus representantes. (BATALHA, 2000, p. 22)

      Contudo, tal projeto inviabilizava-se, na medida em que o sistema eleitoral da Primeira República

    • – voto aberto e eleições controladas pelos partidos situacionistas – dificultava enormemente esse projeto. Para agravar ainda mais tal situação, os socialistas jamais alcançaram uma unidade duradoura em uma organização nacional única.

      Em um segundo plano

    • – talvez até mais engajado e combativo – destacaram-se, neste contexto dos primeiros anos da República, os anarquistas. Segundo o professor Claudio Batalha, “o anarquismo no Brasil começou a se difundir, sobretudo a partir dos anos 1890, através de grupos de propaganda e periódicos, que atingiam um público mais a mplo”

      (BATALHA, 2000, p. 23). A participação ativa dos anarquistas envolvia, quase sempre, grupos de propaganda bastante informais, publicando periódicos, atuando na educação dos trabalhadores e participando de associações diversas no meio operário, inclusive nos sindicatos. De acordo com Hobsbawm “[...] o anarquismo foi mais que um mero movimento político, e tendeu a ter algumas características de uma conversão ativa, uma mudança por inteiro no modo de vida de seus militantes” (HOBSBAWM, 1998, p. 224).

      Logo, o ideário comum dos anarquistas “passava, entre outros aspectos, pelo antiestatismo, pelo federalismo, pela recusa da luta político-parlamentar, pelo anticlericalismo e pela rejeição de qualquer forma de opressão sobre o indivíduo.” (BATALHA, 2000, p. 24).

      Esta definição, porém, não contempla a totalidade de pensamentos e reflexões dos sujeitos ditos já foi explicada melhor, mesmo que em uma linguagem mais metafórica, em um artigo publicado pelo italiano Pedro Gori em 1911

    • – intitulado “O anarquismo evolucionista” – tal texto foi compilado por Edgard Carone no livro “Movimento Operário No Brasil (1877 –

      1944)” de Edgar Carone (1984). Nesse sentido, acreditamos serem relevantes as seguintes observações sobre propriedade individual, trabalho e educação, vista por uma ótica anarquista, apresentada por Gori:

      A propriedade individual, como afirmou Elleró, é a funesta geradora de todos os crimes. Mas se hoje, sendo privilégio exclusivo de poucos e a causa de misérias morais e materiais, amanhã, quando a sociedade a possuir em comum, ela se transformará, naturalmente, em base econômica da solidariedade universal. Em poucas palavras, se a propriedade privada é a base da ordem natural (ou seja, uma verdadeira desordem) a propriedade social será a base da nova ordem, de íntegra ordem [...] O trabalho será dividido segundo as aptidões, a capacidade e a inteligência de cada um, sendo respeitado tanto o trabalho do médico, do engenheiro, do maestro, como do o operário. [...] Cada homem é filho da educação e instrução que recebeu quando criança. A educação do coração formará bos homens; a do cérebro iluminá-los-á fazendo desaparecer as trevas da ignorância que são a primeira inimiga da liberdade. Deste modo poderá se desenvolver mais nos homens o sentimento da fraternidade e do amor que unirá todos os trabalhadores numa só família feliz e tranqüila, e o brutal egoísmo cederá o lugar à solidariedade para o bem-estar comum. (GORE in CARONE, 1984, p. 345-346)

      Tais questões, vistas por um ângulo, poderiam parecer desconexas para esta monografia se não fossem colocadas, a título de comparação, no campo da luta sindical promovidas entre os primeiros anos do século XX e se estendendo, pelo menos, até 1935 (ano em que a Greve dos Trabalhadores da Construção Civil de Santa Maria é deflagrada). Tal prática sindical foi dividida, conforme Batalha, em duas concepções essenciais: o sindicalismo de ação direta e o sindicalismo reformista. O primeiro tipo de prática sindical, de acordo com o autor

      [...] fundava-se na rejeição de intermediários no conflito entre trabalhadores e patrões; na condenação da organização partidária parlamentar; na proibição da existência de funcionários pagos nos sindicatos; na adoção de direções colegiadas e não hierárquicas; na reprovação dos serviços de assistência nos sindicatos; na recusa da luta por conquistas parciais; na defesa da greve como principal forma de luta,

    apontando para a greve geral (BATALHA, 2000, p. 29).

      Quanto ao segundo modelo (sindicalismo reformista) o autor tece as seguintes considerações:

      Era um sindicalismo que via a necessidade de organizações duradouras, fortes e financeiramente sólidas para alcançar seus objetivos, não hesitando em manter funções mutualistas para garantir a permanência dos associados pagando suas mensalidades. Para esse sindicalismo a greve era o último recurso, e nada mais que mesmo que parciais, em qualquer movimento. [...] Mas a idéia de que toda conquista obtida era provisória, podendo ser revertida em um momento menos favorável, conduziu esse sindicalismo à defesa da consolidação dos ganhos do movimento operário através de leis. Além disso, ao contrário do sindicalismo de ação direta, o sindicalismo reformista não condenou a participação política e em diferentes momentos apresentou candidatos operários às eleições legislativas (BATALHA, 2000, p. 33).

      Estas concepções são de extrema importância porque nos ajudam a compreender melhor a própria função de um sindicato. Assim, depois de feita as devidas diferenciações existentes entre estes termos recentemente referidos

      , temos que ter em vista que “o sindicato [...] pode ser definido como uma associação voluntária de caráter permanente destinada a defender, frente aos empregados ou ao Estado, os interesses de trabalhadores assalariados de uma mesma profissão ou de uma mesma indústria.” (RODRIGUES in FAUSTO, 2004, p. 509). Além disso, é de extrema importância sublinhar que a consolidação do sindicato em território nacional, no pós

    • – 30 caracterizou-se por algumas diferenciações estruturais dentro do âmago do sindicalismo do início do século XX. Vejamos o que o cientista político e sociólogo, Leôncio Martins Rodrigues, sustenta acerca das peculiaridades do caso brasileiro frente ao sindicalismo do qual estamos falando:

      No caso brasileiro, o reconhecimento do sindicato, sua implantação e a formação de um sindicalismo de massa resultaram antes da ação de outros grupos políticos os quais, ao mesmo tempo em que passavam a controlar a organização sindical, a impuseram ao patronato como os únicos representantes legais dos trabalhadores. Com isso, o Estado, ao contrário dos países da velha industrialização, passou a ser o principal interlocutor das camadas assalariadas. O sindicato, por sua vez, transformou-se numa associação cuja existência e desenvolvimento independem, em larga medida, do apoio a ela prestado pelos trabalhadores. (RODRIGUES in FAUSTO, 2004, p. 510)

      Eis, aí, um aspecto muito singular destas associações de socorros mútuos: trata-se, essencialmente, de uma prática sindical voltada para a emancipação, em longo prazo, de uma legislação trabalhista que lhes assegurassem os direitos e, também, os deveres básicos destas classes trabalhadoras. Isto é, durante a década de 30, período onde a questão trabalhista começa a entrar nas discussões dos governantes de forma mais acentuada, tal tendência torna-se muito relevante nos limites desta pesquisa. Nas palavras de Petersen, confirmam-se tais preceitos:

      Como se sabe, a condição operária é caracterizada na sociedade capitalista em formação pela instabilidade e ausência de direitos (grifo meu), e isto se torna visível quando o acidente, a enfermidade, a incapacidade, a greve, a velhice e, por último, a morte impedem que o trabalhador prossiga sua labuta, ganhando a remuneração. Ele enfrentava estas situações sem nenhum respaldo (PETERSEN, 2001, p.35). Assim, o atrelamento dos trabalhadores ao Estado aconteceu muito em virtude

    • – e isso já vinha sendo a algum tempo
    • – do atendimento e priorização das conquistas de direitos civis e sociais.

      Conforme a historiadora Schneider, “os primeiros anos da república marcaram também o início das lutas por direitos sociais” (SCHNEIDER, 2011, p. 11). Visão compartilhada pelo Historiador e Professor Diorge Alceno Konrad

      A separação entre direitos sociais e direitos civis, priorizando e evidenciando aqueles, foi uma constante nos discursos governamentais entre 1930 a 1937, o que levava o governo a ampliar a sua base de apoio junto aos trabalhadores. Por sua vez, boa parte dos trabalhadores e movimentos sindicais foi compreendendo que, numa realidade destituída de direitos sociais, as novas conquistas oriundas da legislação trabalhista, reivindicação de tantos anos, representavam conquistas históricas

    substanciais (KONRAD in MILDER, 2008, p. 147)

      Aparentemente, um olhar desprovido de crítica, sugeriria, então, que a década de 30 se caracterizaria, principalmente, por uma conduta, por parte do governo Vargas, de solidariedade frente às melhorias na condição de vida e trabalho dos trabalhadores de um modo geral e, principalmente, aqueles que se sindicalizavam. Contudo, esta visão não é hegemônica. Assim, antes de qualquer coisa, serão necessárias algumas reflexões sobre tal contexto histórico do país. Não é nosso intento

    • – afinal romperia com os limites desta pesquisa – analisar o movimento de 1930 e suas bases sociais. Desta forma, como salienta Rodrigues

      Para nossos fins, basta assinalar que, com Vargas, ocorre uma mudança radical no comportamento do governo frente à “questão social”. O fato fundamental, que determinaria os rumos futuros do sindicalismo brasileiro e do padrão de relacionamento entre as classes, é o abandono de uma posição liberal em favor de outra intervencionista (grifo nosso). [...] A interferência governamental na esfera das relações do trabalho e da vida associativa profissional efetuou-se paulatinamente no transcorrer da década de 1930, mediante a adoção de um conjunto de medidas referentes à organização sindical de um lado, e às leis de proteção ao trabalhador, de outro. (RODRIGUES in FAUSTO, 2004, p. 511)

      Enganam-se, porém, aqueles que por ventura pensam que tal período histórico não correspondeu a um cenário de constantes lutas, do lado dos trabalhadores, e repressão, por parte do Estado brasileiro da década de 1930. Até porque, o sindicalismo que emerge pós

    • – 30 carregava consigo desde o período conhecido como Primeira República (1889
    • – 1930), este espírito de lutas e mudanças sociais. Nas palavras de Schneider

      Vale lembrar que o período correspondente a Primeira República não pode ser visto como um momento de inexistência organizacional por parte dos trabalhadores. Uma luta sistemática já vinha sendo travada através da ação cotidiana nos locais de trabalho e nos lugares criados pelos trabalhadores como espaços de organização e importância para a formação de um movimento operário (SCHNEIDER, 2011, p. 12)

      O panorama proposto de lutas de classes estava, desde pelo menos o início do século

      XX, sendo construído a cada reivindicação, a cada greve, a cada movimento organizado de trabalhadores que almejavam não somente melhorias sociais, mas, sobretudo, no que tange a uma participação mais afetiva nas questões que envolvessem a organização deste Estado, pois, afinal

      Os primeiros anos do século XX reuniram algumas condições favoráveis à eclosão de movimentos reivindicativos dos trabalhadores: por um lado, uma conjuntura econômica propícia à obtenção de ganhos, [...] por outro, a proliferação de organizações operárias voltadas para a resistência, isto é, para a luta sindical. Em alguns casos essas organizações surgiram em decorrência de movimentos grevistas, em outros precederam as greves; em todo o caso, nasceram em momentos de mobilização das categorias que as criaram (BATALHA, 2000, p. 39).

      Desta forma, o que ocorreu durante este período e se acentuando nos anos 30 foram motivos de, no mínimo, preocupação e alerta para a real força da classe operária no que concerne a efetivação de um projeto alternativo de poder político e social, diferente daquele que até então vinha sendo proposto pelo Estado brasileiro naquela conjuntura. Por isso que, conforme Konrad,

      No cenário da luta de classes, foi preciso construir uma hegemonia na qual a correlação de forças deveria impedir que os trabalhadores tivessem um projeto alternativo de poder político e social que passava, intrinsecamente, por novas conquistas de direitos políticos. Qualquer reivindicação nesse sentido, sempre foi tratada pelos que dominavam o aparelho de Estado como “subversão da ordem”. Assim, a vigilância, a repressão e a criminalização dos movimentos sociais e políticos de oposição se tornava intensa, inclusive para limitar o alcance dos próprios direitos sociais reivindicados (KONRAD in MILDER, 2008, p. 147).

      Visão compartilhada por Leôncio Rodrigues no estudo “Sindicalismo e Classe Operária (1930

    • – 1964), publicado no livro “História Geral da Civilização Brasileira. O Brasil Republicano. Sociedade e Política (Vol. 3)”, sob direção de Boris Fausto. Nesta publicação, o renomado autor esclarece que

      Geralmente, para se explicar o que se passou com o sindicalismo brasileiro na década de trinta se enfatiza a repressão desencadeada contra as associações operárias que se recusavam a aceitar as determinações governamentais. Esquece-se, porém, que a repressão ao sindicalismo a as atividades operárias, especialmente nas fases iniciais da industrialização, é uma constante, no Brasil e em toda parte. No período anterior a década de 1930, o movimento associativo operário não encontrava de parte das autoridades, maiores facilidades para funcionamento. Com Vargas, ocorreu um dado tratava-se não apenas de reprimir mas de atender algumas das reivindicações básicas dos grupos de trabalhadores (jornada de oito horas; lei de férias, etc.); em segundo lugar, o governo não se propôs simplesmente a proibir a atividade sindical mas a

    controlá-la (RODRIGUES in FAUSTO, 2004, p. 520).

      Em suma, “com o desenvolvimento do modo de produção capitalista no país e a formação da classe operária brasileira, a “questão social” tornou-se um problema concreto, colocando a luta de classes em níveis diferenciados entre as diversas reg iões” (KONRAD in MILDER, 2008, p. 151), caracterizando-se, completa o autor, pela radicalização crescente entre o capital e o trabalho. Tal relação será explorada logo a seguir, no subtítulo subseqüente.

    3.1 A POLÍTICA DO GOVERNO VARGAS PARA OS TRABALHADORES:

      

    NOTAS SOBRE LEGISLAđấO SOCIAL, REPRESSấO OPERÁRIA E O NOVO

    SINDICALISMO

      Inicialmente gostaríamos de fazer a seguinte observação: Embora à historiografia sobre a questão do trabalho e dos trabalhadores se caracterizarem por sua amplitude, abrangendo inclusive o período de 1930 a 1945 com operário brasileiro no decorrer do tempo têm constituído diversas interpretações para os pesquisadores do tema. Assim, “durante longo tempo acreditou-se que o perfil do trabalhador mantinha certa dualidade: estrangeiro e politizado na República Velha e rural e conformado no período pós Revolução de 30” (SCHNEIDER, 2011, p. 07).

      Desta forma, pretendemos discutir

    • – dentre outras coisas – se este conformismo do trabalhador brasileiro verificou-se, de fato, durante o recorte histórico desta pesquisa, tendo em vista a preocupação deste trabalho que, também, se caracteriza na discussão do sindicalismo e
    • – como veremos no próximo capítulo – na atuação dos sindicatos de trabalhadores durante os anos 30, em especial, aquele que representava os trabalhadores da Construção Civil de Santa Maria – RS. Além disso, alguns contrapontos serão construídos na tentativa de – já adiantando
    • – (re) construir esta visão de passividade dos trabalhadores, bem como destacar o papel do Estado frente à questão trabalhista: repressivo? Conciliador? Ou ambos? Tais perguntas serão discutidas na tentativa de se observar como foram se constituindo as relações entre Estado, sindicatos e trabalhadores até, aproximadamente, 1935.

      Antes disso, porém, acreditamos serem necessários alguns apontamentos sobre o Estado brasileiro que emerge no pós 30, no intuito de se compreender melhor o contexto ao qual estamos nos referindo. Segundo a historiadora Kate Mariana Schneider, “a partir da chamada “Revolução de 1930” foi instalado um governo que tratou de dar uma nova orientação – desenvolvimentista

    • – ao país, bem como criar uma nova estrutura administrativa para o mesmo” (SCHNEIDER, 2011, p. 12). No texto “As bases do desenvolvimento capitalista dependente: Da industrialização restringida a internacionalização” presente no livro “História Geral do

      Brasil”, organizado por Maria Yedda Linhares, a também historiadora Sônia Regina de Mendonça afirma que

      A “revolução de 30” inaugurou uma etapa decisiva no processo de constituição do Estado brasileiro enquanto Estado nacional, capitalista e burguês. A quebra das autonomias estaduais

    • – suporte das tradicionais oligarquias regionalizadas – resultou na crescente centralização do poder que alocava no Executivo federal os comandos sobre as políticas econômica e social e os aparelhos coercitivo-repressivo. Constituía- se, por essa via, o poder do Estado como poder unificado e genérico, representativo do “interesse geral” em sua concretude. Apesar de iniciado no imediato pós – 30, o marco na aceleração desse processo foi a instauração do Estado Novo em 1937 (MENDONÇA in LINHARES (Org), 1990, p. 338)
    Em outras palavras, “A Revolução de 1930 marcou o início da intervenção direta do Estado nas questões vinculadas ao mundo do trabalho”, segundo as palavras da pesquisadora Maria D’Araujo. Ela conclui afirmando que “Marcou também o fim da autonomia do movimento sindical e o início da vinculação sistemática dos sindicatos ao governo através do Ministério do Trabalho [...] criado, ainda, em novembro de 1930, com essa preocupação” ( p. 223 ).

      D’ARAUJO in FERREIRA; DELGADO (Orgs.), 2010, Em síntese, utilizando as mesmas palavras da Professora Maria Celina D’Araujo, compreenderemos que até certo ponto

    • – mais específico até 1930 – a atuação do Estado frente à questão sindical possuía traços mais “liberais”. Vejamos,

      até 1930 o Estado brasileiro atuou de forma liberal na relação com o sindicato. Não o regulava e estava livre para reprimi-lo. A partir desta data as coisas mudam substancialmente nesse campo. Na medida em que o sindicato passa a ser uma figura jurídica de colaboração com o Estado, a repressão não se faz mais via polícia. O que passa a ser feito é um intenso controle, devidamente regulado em uma série de leis. Redefinem-se as funções do sindicato, adequando-o ao novo formato do Estado 6 corporativo emergente e ao processo de mudança econômica que o país atravessava

      (D’ARAUJO in FERREIRA; DELGADO (Orgs.), 2010, p. 228)

      Pelo menos duas observações podem ser feitas referente à citação acima: a primeira se refere a repressão policial que, segundo a autora supracitada, não se faz mais via polícia no pós

    • – 30 mas, sobretudo, via política, com atuação mais centrada no sindicato. Contudo, a visão de Konrad (2008) demonstrada no text o “A questão social continua um caso de polícia entre 1930 e 1937: Problematizando discursos políticos e historiográficos”, publicado no livro “Recortes da História Brasileira”, organizado por Saul Eduardo Seiguer Milder, aponta que, durante este período, era recorrente se denominar “como “subversivos”, “estrangeiros” ou “perigosos” quaisquer movimentos
    • – greves, movimentos ou partidos de esquerda etc. – que questionassem a lógica de dominação soc ial e política do período” fazendo com que se impedissem, completa o autor, “os conflitos de classe [...] legitimamente” (KONRAD in MILDER, 2008, p. 148).
    • 6 Ainda, conforme D’Arauju (2010) “Os sindicatos passavam a ser órgãos de colaboração com o

        

      A proposta corporativa de governo foi uma saída encontrada, por parte do governo Vargas, durante quase toda a

      primeira fase de seu governo (1930 – 1945) de, conforme ao pensamento de D’Araujo (2010), “manter as

      hierarquias, mas diminuir as desigualdades sociais; evitar o conflito e banir a luta de classes; gerar harmonia social,

      progresso, desenvolvimento e paz. Para tanto, o Estado precisaria ser investido de mais poder. Os partidos e as

      organizações políticas típicas da política liberal, concebidas como responsáveis pelos conflitos, deveriam ser Estado e qualquer manifestação política ou ideológica ficava proibida” (in FERREIRA; DELGADO (Orgs), p. 223).

        Justamente nesta primeira observação podemos inferir, então, que na tentativa de se unificar estudos regionais como padrões de casos, homogêneos, considerando-os suficientemente explicativos para a movimentação operária da década de 30, esquecemos da importância deste mesmo estudo para a confecção de uma História Operária nas suas características singulares e em seus pormenores. Esta preocupação têm sentido, pois, consoante as palavras do Professor Leôncio Martins Rodrigues,

        Geralmente, para se explicar o que se passou com o sindicalismo brasileiro na década de trinta se enfatiza a repressão desencadeada contra as associações que se recusavam a aceitar as determinações governamentais. Esquece-se, porém, que a repressão ao sindicalismo e às atividades operárias, especialmente nas fases inicias da industrialização, é uma constante no Brasil e em toda parte. No período anterior a década de 1930, o movimento associativo operário não encontrava de parte das autoridades, maiores facilidades para funcionamento. Com Vargas, ocorreu um dado novo nas atitudes dos poderes públicos face à “questão operária”. Em primeiro lugar, tratava-se não apenas de reprimir mas de atender algumas das reivindicações básicas dos grupos de trabalhadores (jornada de oito horas; lei de férias, etc.); em segundo lugar, o governo não se propôs simplesmente a proibir a atividade sindical mas a

      controlá-la (RODRIGUES in FAUSTO, 2004, p. 520).

        Estas tendências explicativas dos estudos de caso nos permitem dizer que são ora preocupados em se compreender a repressão sobre o movimento operário, ora associá-lo com ganhos significativos nas leis trabalhistas. Sugere, então, uma dicotomia de análise, dentro do recorte histórico proposto, que negligencia certas especificidades de organização e atuação dos sindicatos e dos trabalhadores. Em primeiro lugar, por exemplo, ao analisar a movimentação paulista dos operários, Rodrigues (2004) observou algumas transformações internas na composição do proletariado urbano paulista do início do século 20 o que, por si só, se considera uma peculiaridade. O referido autor, citado anteriormente, defendeu, neste caso, que “O governo, através de seus representantes, não atuava como expressão dos interesses da indústria. A maior parte da Legislação aprovada encontrou oposição por parte do patronato representado principalmente pelo Centro Industrial do Brasil

        

      7

        ” (RODRIGUES in FAUSTO, 2004, p. 514). É inegável que, de fato, as leis sociais criadas ou aprimoradas durante a década de 1930 causaram 7 A título de

        complementação, segundo Rodrigues (2004) o “Centro Industrial (mais tarde Federação Industrial do Rio de Janeiro) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo foram os principais agentes jurídicos de mais aborrecimentos aos patrões do que à classe trabalhadora. Contudo se é preciso fazer, ao menos, uma consideração acerca disso: quais seriam, por exemplo, as justificativas dos grevistas

      • – de um modo geral – para praticarem greves? Justificativas reclamadas aos patrões ou ao Estado? Tal preocupação insere-se nesta pesquisa, pois, será uma das preocupações centrais do próximo capítulo.

        No entanto, retomando a questão das duas observações que seriam feitas, a segunda observação, de imediato, corresponde, justamente, a alguns significados das leis trabalhistas

      • – isto é, com uma preocupação geral com o trabalhismo
      • – para a organização sindical dos trabalhadores e dos empregadores ou patrões, como uns preferem. Como veremos, por um lado, as leis, de um modo geral, garantiriam pelo menos em tese, algumas das reivindicações básicas dos trabalhadores. Por outro lado, não teriam a garantia que, tais leis, seriam respeitadas por seus empregadores.

        Conforme Rodrigues, “No tocante à legislação social, a classe empresarial procurou pressionar o governo no sentido de eliminar alguns dos aspectos que considerava mais danosos para os interesses industriais” (RODRIGUES in FAUSTO, 2004, p. 514).

        Nesse sentido, no que tange à legislação social voltada a esta pesquisa cabe sublinhar, principalmente, dois elementos: a carteira de trabalho e algumas leis trabalhistas básicas sancionadas durante os anos 30. Logo, em primeiro lugar ressaltamos que, segundo Schneider

        Dentre as medidas tomadas pelo governo Vargas, ainda no início de seu governo, merece destaque a carteira profissional, criada em 1932 com o objetivo explicito de identificar o trabalhador urbano e sua trajetória dentro de cada empresa, através de anotações a serem feitas pelo empregador. Ao mesmo tempo, a carteira lhe dava alguns direitos desde que ele fosse filiado a um dos sindicatos legalizados pelo governo. Dessa forma, conseguiu-se que, em poucos anos, todos os trabalhadores e até os candidatos a empregos, buscassem fazer o documento, ao inicio de sua vida profissional. Mais tarde, ela veio a tornar-se um documento básico para todo trabalhador, como uma espécie de condição para a reivindicação de direitos trabalhistas e, inclusive, previdenciários (SCHNEIDER, 2011, p. 13).

        Em segundo lugar, de stacamos, também, conforme o pensamento de D’Araujo,

        A partir de 1930, com a criação do Ministério do Trabalho [...], o país andou rápido na confecção de leis sociais e na vigilância para que fossem cumpridas. E, além da Justiça do Trabalho, podemos mencionar outras iniciativas que deram maior eficácia à política trabalhista de Vargas 8 . Em 1932, quando foi criada a carteira de trabalho, 8 Seria pertinente esclarecer que a política trabalhista, segundo Fausto (2002), seria “Um dos aspectos mais

        foi também proibido o trabalho para menores de 14 anos, estabelecida uma carga horária de 8 horas para os trabalhadores da indústria e do comércio, e proibido o trabalho noturno. Foi ainda regulado o trabalho feminino, garantida a igualdade salarial e alguma proteção a gestante. Nesse mesmo ano houve ainda o reconhecimento das profissões, isto é, o governo passava a reconhecer quais profissões podiam existir. Em decorrência dessa legislação, apenas os trabalhadores que pertencessem a essas categorias reconhecidas e legalizadas pelo governo teriam direitos trabalhistas. Foram estabelecidas ainda regras para as convenções coletivas de trabalho (D’ARAUJO in FERREIRA; DELGADO (Orgs.), 2010, p. 234).

        Nesse sentido, enfatizamos que para os empregadores de um modo geral, para se adequarem as novas propostas de leis organizadas pelo Estado, esta situação não poderia ser abolida em curto prazo; teriam que, também, assegurar algumas das demandas que o patronato julgava ser importante à sua classe. Estas “demandas”, em especial o que, depois foi chamado

        9

        de “peleguismo” – embora concordamos que este fenômeno não foi criado como um atenuante à legislação social tendo em vista que era parte da própria política de Vargas promover a conciliação de classes e, ao mesmo tempo, tentar contemplar algumas das reivindicações dos trabalhadores

      • – geraram algumas acomodações por parte e, em parte, dos dirigentes dos sindicatos patronais, por exemplo.

        Segundo D’Araujo “o papel do dirigente era o de amenizar o conflito e negociar soluções conciliatórias. Por isso mesmo, um dos aspectos mais importantes derivados da estrutura sindical montada nos anos 1930 foi a figura do pelego e a prática do peleguismo” (D’ARAUJO in FERREIRA; DELGADO, 2010, p. 230).

        Isto é, “Na prática, o pelego não lesava materialmente o trabalhador, mas evitava que se expressasse de forma espontânea e direta” (idem, 2010, p.230). De outro modo, as leis criadas na Era Vargas “[...] enquanto concedia benefícios e direitos aos sindicalizados, também estipulava que os sindicatos só poderiam servir aos trabalhadores desde que seus interesses fossem coincidentes c om os do governo em vigor” (D’ARAUJO in FERREIRA; DELGADO, 2010, p. 231).

        Eis aí um aspecto bastante peculiar. Ao mesmo tempo em que o Estado concede aos trabalhadores, em termos de leis inclusive, alguns benefícios à sua classe, também cria

        

      esforços organizatórios da classe trabalhadora urbana fora do controle do Estado e atraí-la para o apoio difuso ao

      9 governo” (FAUSTO, 2002, p.187).

        

      Conforme D’Araujo (2010), “Peleguismo tornou-se um termo de cunho depreciativo, que designa uma ação

      conciliatória de representantes sindicais tendo em vista amenizar os atritos entre capital e trabalho” (D’ARAUJO, mecanismos de controle da mesma cedendo, mesmo que indiretamente, alguns privilégios aos dirigentes sindicais.

        Conforme a Professora Maria D’Araujo

        Para dar sustentação material e financeiramente a essa vasta rede sindical que foi sendo gerada na era Vargas, foi criado o Imposto Sindical, também chamado de Contribuição Sindical. Uma vez por ano, cada brasileiro empregado, sindicalizado ou não, era obrigado a dar um dia de seu salário, descontado na folha de pagamento. Esse dinheiro era recolhido pelo Ministério do Trabalho que o repassava para os sindicatos locais, as federações estaduais e as confederações nacionais, para que pagassem as despesas com aluguel, funcionários, assistência etc. [...] O ministério usava parte desses impostos para atender a gastos especiais do governo, nem sempre bem especificados. [...] Com as despesas básicas asseguradas através desse imposto, os dirigentes sindicais não precisavam fazer campanhas de mobilização junto aos trabalhadores, como ocorre em vários outros países, onde são apenas os trabalhadores sindicalizados que, através de contribuições voluntárias, garantem a sobrevivência

      financeira dos sindicatos. (D’ARAUJO, 2010, p. 232).

        Em suma, para termos desta pesquisa, esta pequena discussão será retomada no próximo capítulo, tendo em vista alguns questionamentos. Dentre eles, por exemplo, se a legislação surgida na década de 30 no Estado do Rio Grande do Sul favoreceu de alguma forma para o surgimento de um sentimento de participação política na classe patronal gaúcha. Para tanto, utilizaremos, em específico, uma documentação original, datada de 1º de Julho de 1935, da Constituição daquele Estado. Dentre nossos objetivos, destacamos o que consideramos ser o mais adequado à esta pesquisa: se as reivindicações dos diversos movimentos grevistas no Rio Grande do Sul (que vinham acontecendo desde pelo menos os primeiros anos do século XX) e, também, em particular, a greve de Janeiro de 1935 em Santa Maria, em especial as dos trabalhadores da construção civil, de alguma forma foram abarcadas nesta Constituição.

        Por fim, entendemos serem necessárias algumas observações sobre o então “Novo Sindicalismo” que emerge durante este processo de consolidação do Estado corporativista, de leis trabalhistas e, sobretudo, de uma preocupação por parte dos trabalhadores de se sindicalizarem para, então, poderem questionar alguns direitos que, por aquele motivo, lhes foram garantidos. Em outra s palavras, pretendemos averiguar em que medida este “novo sindicalismo” se desenvolveu como uma continuação das problemáticas já sugeridas nesta pesquisa.

        Logo, em primeiro lugar, ressaltamos a seguinte advertência do historiador Eric Hobsbawm:

        O marxismo internacional da década de 1880 não tocava no assunto sindical, exceto para exigir organização abrangente de classe e prevenir contra a exclusividade do ofício, mas aproximadamente a partir de 1906, o objetivo britânico de racionalizar a estrutura sindic al segundo as linhas do “sindicalismo por ramo de atividades” foi com certeza derivado de idéias e experiências vividas, ou adquiridas, de fora do país (HOBSBAWM, 1987, p. 224)

        Contudo, o renomado historiador alerta para o seguinte fato: “se os sindicatos pretendem serem efetivos, eles devem mobilizar e, portanto, recrutar, não número de indivíduos, mas grupos de operários suficientemente amplos para a negociação coletiva. Eles precisam recrutar em massa” (HOBSBAWM, 1987, p. 225). Conforme sustenta o autor, “Na medida em que o “novo sindicalismo” era a organização de sindicatos em atividades e ocupações novas, tinha um papel em grande parte simbólico. Simbolizava o futuro, a forma do que viria” (HOBSBAWM, 1987, p. 229).

        Desta forma, quando o assunto em pauta é a evolução do novo sindicalismo algumas considerações podem ser feitas, desde que, estas, não acabem esgotando o assunto. Afinal, neste caso, não teríamos como proceder senão à uma breve história comparativa mesmo admitindo se tratar de diferentes contextos históricos, em termos de temporalidade. Nesse sentido, Hobsbawm define que muitos problemas oriundos do estudo do movimento sindical podem ser enfrentados se o pesquisador considerar a estrutura sindical, através de uma história comparativa. Conforme o historiador, “Na medida em que todo o movimento sindical anterior a 1890 era considerado “velho sindicalismo”, os problemas enfrentados por todos os países eram semelhantes, embora soluções pudessem ser altamente específicas” (HOBSBAWM, 1987, p. 237).

        Outra questão bastante singular deste novo sindicalismo, segundo orienta Hobsbawm, “estava inseparavelmente ligados a esforços conscientes e bem amadurecidos no sentido de racionalizar e reformar a estrutura e a estratégia dos sindicatos, a primeira principalmente através da fusão e federação sob o ideal de um único sindicato para cada ramo industr ial” (HOBSBAWM, 1987, p. 235). Esta percepção estava bem viva nas organizações sindicais dos anos 30 e, como demonstrado por José Álvaro Moisés, em texto publicado ainda na década de oitenta, tendeu a se perdurar durante as décadas seguintes. O que o autor destaca é que este sindicalismo vai se fortificando e se fortalecendo com o passar das décadas, sobretudo em regiões, onde o fator industrial seja extremamente relevante a este tipo de organização. Logo, a título de comparação, Moisés, a partir de um estudo de uma greve que durou 31 dias e reuniu mais de 125 mil trabalhadores na região do ABC paulista no ano de 1980 teceu algumas considerações que consideramos bastante pertinentes a título de comparação com o sindicalismo praticado logo após 1930. Entendido como “novo sindicalismo”, o estudo deste autor nos permitem entender a importância evolutiva de tal prática.

        Desta forma, José Álvaro Moisés, destaca que o novo sindicalismo dos anos 80 apresentou diferentes características, se comparado com àquelas oriundas do sindicalismo “corporativista” dos anos 30. Conforme o autor,

        Em primeiro lugar, é preciso observar que se trata de protagonistas novos: não são mais os contingentes de certas empresas controladas pelo Estado, como os ferroviários e os portuários, no passado. A espinha dorsal do “novo sindicalismo” são os trabalhadores do setor de ponta do capitalismo brasileiro; e eles têm plena consciência de pertencerem a um setor estratégico da economia do país. Em segundo lugar, é preciso olhar para a evolução das reivindicações desse “novo sindicalismo”: tendo emergido no bojo de uma série de lutas por incrementos salariais que eram superiores aos índices oficiais, negando o arrocho salarial, os sindicatos dos metalúrgicos do ABC introduziram um critério de “igualitarismo” na luta sindical brasileira, reivindicando salários maiores para os que ganhavam menos e menores para os que ganhavam mais; em seguida, voltou-se para o problema do salário profissional e para a regulação das horas de trabalho, fator decisivo de poupança de mão-de-obra no país; finalmente, mais recentemente, introduziu demandas de caráter nitidamente social e político como a estabilidade no emprego; o direito de greve; a autonomia sindical e o delegado sindical na empresa. [...] Em anos recentes, entretanto, o que mais chama a atenção no “novo sindicalismo” é, precisamente, a integração das demandas econômicas, sociais e políticas: desde a sua emergência, esse movimento voltou-se para os novos conflitos que se desenvolveram no interior das grandes unidades de produção. Foi a partir da recuperação do sindicato nesse plano que se generalizou o modelo do “novo sindicalismo” no ABC. Além disso, o tema dos direitos sociais específicos (estabilidade, limitação das horas de trabalho, critérios pra dispensas, etc.) tem aparecido integradamente com a luta por aumento salarial e pelo próprio direito dos trabalhadores lutarem por melhores condições de vida (direito de greve e autonomia sindical).

        Não pretendemos entrar no mérito de apresentar o cenário pelo qual as colocações acima se encaixam, isto é, em um contexto de repressão e Ditadura Militar. O que importa, contudo, é salientar que durante o período de ditadura militar o próprio direito de se manifestar, na maioria das vezes, era negado ao trabalhador, inclusive em forma de lei. De todo modo, este “novo sindicalismo” tendo evoluído a partir de lutas e ações operárias desde, pelo menos, a década de 1930, apresentou de “novo”, de fato, uma integração maior de reivindicações. Em outras palavras, os movimentos grevistas de outras épocas (como veremos a seguir) apresentavam queixas, muitas vezes, limitadas e, em grande parte, exigiam somente a resolução do problema da questão salarial, abdicando de demandas e causas de maiores significados aos trabalhadores. Claro que existiram exceções. Para o nosso caso, no entanto, veremos que este fator foi determinante para o não êxito da Greve dos Trabalhadores da Construção Civil de Santa Maria – RS de 1935.

      4 HISTÓRIA E REGIÃO: GREVES E SEUS CONTEXTOS.

        Quando o assunto em questão encontra-se pautado na discussão de eventos de greve, logo ele sucinta diversificadas interpretações acerca a situação do panorama onde cada ocasião como esta foi executada, previamente planejada ou não e, ainda, circunstanciada de fatores que, via de regra, apresentou-se como um modelo explicativo.

        Por isso, trataremos logo a seguir sobre comparações de contextos e conjunturas, onde diferentes greves ocorreram, desde o início do século XX em distintas regiões do país. Nosso intuito é verificar uma série de indagações a respeito da ocorrência de greve nos primeiros meses de 1935 na cidade de Santa Maria - RS. Desta forma, averiguaremos se a mesma aconteceu de uma forma isolada ou, então, se acompanhou algum processo regional; Investigaremos sua ocorrência com a intenção de verificar se o pouco desenvolvido setor industrial do município daquele período foi um fator determinante para sua ocorrência; bem como examinaremos o decorrer e o desfecho desta paralisação, tendo em vista o seguinte aspecto: o processo tardio de industrialização da cidade na época das greves acarretou numa também tardia organização dos trabalhadores da construção civil, considerando o aspecto corporativista do Estado daquele período? Esta questão e as demais serão muito importantes para o encerramento desta pesquisa a título de suas conclusões definitivas e preliminares.

        Antes disso, porém, algumas considerações serão feitas com a finalidade de proporcionar um modelo metodológico de pesquisa mais adequado para nossos fins, mesmo ele já tendo sido explicado durante a introdução desta pesquisa. Logo, em primeiro lugar, apresentamos a visão de Janaína Amado acerca das possibilidades de construção de uma história regional que seja capaz de, por si só, explicar-se ou, até mesmo, diferenciarem-se dos modelos explicativos predominantes e homogêneos, que muitas vezes mascaram algumas variáveis não presentes, ou não consideradas, pela historiografia. Segundo a autora

        A noção de uma história regional possibilita novas óticas de análise ao estudo de cunho nacional, podendo apresentar todas as questões fundamentais da História (como movimentos sociais, a ação do Estado, as atividades econômicas, a identidade cultural, etc.) a partir de um ângulo de visão que faz aflorar o específico, o próprio, o particular. A historiografia nacional ressalta as semelhanças, a regional lida com as diferenças, à multiplicidade (AMADO in SILVA, 1990, p. 12-13).

        Além disso, a historiografia regional, dentre outras coisas, tem ainda, conforme Amado

        A capacidade de apresentar o concreto e o cotidiano, o ser humano historicamente determinado, de fazer a ponte entre o individual e o social. Por isso, quando emerge das regiões economicamente mais pobres, muitas vezes elas consegue também retratar a História dos marginalizados, identificando- se com a chamada “História popular” ou “História dos vencidos” (AMADO in SILVA, 1990, p. 13). Desta forma, podemos relacionar tal definição com o significado de região adotado pela Profª Janaína Amado. Ao explicar que o conceito de região, pelo menos desde a década de 1990, passa por profundas transformações, a autora esclarece que

        A partir da chamada “geografia crítica” (que incorpora as premissas do materialismo dialético e histórico), alguns geógrafos têm proposto um novo conceito de região, capaz de apreender as diferenças e contradições geradas pelas ações dos homens, ao longo da História, em um determinado espaço. Para estes geógrafos, a organização espacial sempre se constitui em uma categoria social, fruto do trabalho humano e da forma dos homens se relacionarem entre si e com a natureza. Partindo desse quadro teórico, definem “região” como a categoria espacial que expressa uma especificidade, uma singularidade, dentro de uma totalidade: assim, a região configura um espaço particular dentro de uma determinada organização social mais ampla, com a qual se articula (AMADO in SILVA, 1990, p. 8).

        Ao considerarmos adequado o conceito de região apresentado pela autora, iremos, também, admitir o seguinte ponto de vista da Profª Rosa Maria Godoy Silveira, presente no texto “Região e História: Questão de Método”. Consoante seu pensamento, “Assim conceituada a região, permitir-se-á caracterizar o sentido comum que a unifica, dado pelo sentido do Modo de Produção que domina a organização de seu espaço, ainda que não esteja plenamente implantado naquele determinado espaço” (SILVEIRA in SILVA, 1990, p. 35).

        Tendo em vista todas as postulações recentemente referidas, analisaremos o contexto nacional, neste primeiro momento, com intuito de compreendermos algumas questões oriundas de determinados estudos regionais que, por diferentes formas, podem nos levar a uma interpretação que não seja condizente ao panorama proposto pela historiografia nacional, bem como suas aproximações em termos de análise.

        Um importante texto intitulado “Da República Velha ao Estado Novo. O aprofundamento do regionalismo e a crise do modelo liberal”, publicado no livro “História geral do Brasil”, organizado por Maria Yedda Linhares, de autoria de Hamilton de Mattos Monteiro, nos fornecem uma relevante questão: Conforme o autor, durante a primeira metade do século

        XX, o “processo de urbanização refletia um processo paralelo de crescimento industrial. O Sudeste apresenta-se como lócus privilegiado para a expansão de um parque industrial, caracterizando, assim, fortemente as desigualdades regionais” (MONTEIRO in LINHARES, 1990, p. 311). O autor acrescenta ainda que, na primeira metade do século XX,

        Conjugam-se fatores excepcionais para o processo: capital, mão-de-obra, mercado energia e um sistema de transportes ligado aos portos. Essa concentração de fatores tem no Sudeste – São Paulo, sobretudo – sua melhor conjugação e, na medida em que cresce e melhor se integra, a região vai receber os maiores investimentos, liderando a corrida industrial frente às demais regiões do país (MONTEIRO in LINHARES, 1990, p. 312).

        No que concerne a questão do trabalho, o historiador sintetiza que

        Aproveitando-se da ausência de leis que protejam o trabalhador e do seu fraco poder de organização, os operários das indústrias são super explorados pela burguesia industrial em uma situação adiante, particularmente na década de 1920 e a partir da década de 1930 com alguma melhoria devido à legislação trabalhista que lhes foi concedida. De qualquer forma, baixos salários, precárias condições de vida, grande freqüência de doenças, fruto da desnutrição e insalubridade, elevada taxa de mortalidade, péssimas condições de moradia, são o retrato da condição do trabalhador e dão uma idéia sobre a base da acumulação de capital no país, que repousa menos na elevação da produtividade do que na exploração absoluta da mão-de-obra (MONTEIRO in LINHARES, 1990, p.314)

        Tais colocações do autor encontram

      • – se na “Parte A” do texto. Pois, a segunda parte, a “B” é assinada por Sônia Regina de Mendonça, com o título de “Estado e Sociedade: A consolidação da República Oligárquica . Nesta parte do texto, a historiadora defende que

        Nas marchas e contramarchas condicionadas pela própria dinâmica do processo de industrialização brasileira como, por exemplo, o alto índice de ocupação do trabalho feminino e infantil, o movimento operário teve sua fase de maior ascensão entre 1917 e 1920, acompanhando a onda de agitação sociais do imediato pós - guerra, caracterizando-se por elevado número de greves (grifo nosso), bem como pelo afluxo, em certos casos, às organizações sindicais. A década de 1920 viria a corresponder o reflexo do movimento, seja pela predominância da corrente que enfatizava os movimentos espontâneos de classe, seja pelo papel desempenhado pelas forças repressivas do Estado, bem como pela disputa movida aos anarquistas pelo recém fundado Partido Comunista (MENDONÇA in LINHARES, 1990, p. 321).

        Apesar do destaque da autora, sublinhando o período entre 1917 e 1920, como um momento da história do país - especialmente o estado de São Paulo - bastante significativo em termos de uma maior e constante participação social no que concerne ao envolvimento em greves reivindicativas, cabe fazer, no entanto, a seguinte ressalva: se tratando de movimentos reivindicativos, não podemos ignorar o fato de que, também, desde pelo menos o início do século XX existiam indícios bem importantes de movimentos operários em diversas regiões. Assim, em termos sintéticos, podemos adotar o pensamento de Batalha (2000) para demonstrar esta questão. Segundo Batalha,

        Os primeiros anos do século XX reuniram algumas condições favoráveis à eclosão de movimentos reivindicativos dos trabalhadores: por um lado, uma conjuntura econômica propícia a obtenção de ganhos, com uma fase de expansão da economia resistência, isto é, para a luta sindical. Em alguns casos essas organizações surgiram em decorrência de movimentos grevistas, em outros precederam as greves; em todo o caso, nasceram em momentos de mobilização das categorias que as criaram (BATALHA, 2000, p. 39)

        É importante considerar que grande parte das greves possuía caráter bastante circunscrito, muitas vezes limitado a uma única empresa. Contudo, a partir do período apontado pelo autor supracitado, “começaram a ocorrer movimentos de maior vulto, envolvendo categorias inteiras e, por vezes, diversa s categorias” (BATALHA, 2000, p. 39). Nesse sentido, também é necessário lembrar, por exemplo, da greve geral de Porto Alegre (RS) em 1906. A grande questão que envolvia tal movimento não privilegiava a questão salarial em primeiro lugar, mas, sobretudo, o que ficou conhecido como “movimento pelas oito horas”. O peculiar deste movimento foi o fato de ele ter acontecido em diversas regiões. De acordo com Batalha,

        Ainda em 1906, no mês de outubro, o movimento pelas oito horas desembocou numa greve geral em Porto Alegre (RS), terminando em conquistas parciais e na fundação

      da Federação Operária do Rio Grande do Sul (FORGS)

      • – que, ao contrário de suas congêneres, era dominada por socialistas. Seguiram-se greves pela obtenção da jornada de oito horas ou, pelo menos, pela redução da jornada de trabalho em várias partes do país. Mas particularmente no estado de São Paulo, em Maio de 1907, o movimento ganhou dimensões significativas, com trabalhadores de várias empresas e categorias (construção civil (grifo nosso), metalurgia, indústria alimentícia, gráficos, têxteis) iniciando paralisações [...] em torno dessa reivindicação (BATALHA, 2000, p. 41-42).

        Estes movimentos devem, também, serem contextualizados. Para tanto, julgamos serem adequadas às seguintes postulações da Profª Silvia Regina Ferraz Petersen,

        O modo capitalista de produzir implica mesmo na sua etapa inicial, que o processo de trabalho se desenvolva em condições de progressiva exploração e alienação dos assalariados, as quais não se esgotam no fim da jornada de trabalho, mas vão se estendendo como uma rede que captura a totalidade da vida social. A reprodução do capitalismo tem como requisitos a desigualdade e a exclusão. O fato de a classe constituir-se na luta contra essa exploração, na carência de direitos ou da proteção que no Brasil a ordem eminentemente urbana, faz com que sua história seja principalmente de experiências de lutas comuns e coletivas. Associações, partidos, greves, formas mais ou menos institucionalizadas da organização e ação destes trabalhadores são, pois, elementos constitutivos da classe (PETERSEN, 2001, p. 30).

        Nesse sentido, no que tange a ação operária, cabe destacar o seguinte aspecto apontado por Edgar Carone. Consoante o seu pensamento,

        A ação operária é dirigida também contra a injustiça do trabalho: os baixos salários; o excessivo número de horas de trabalho, que vão de 12 a 16 horas diárias; as péssimas condições de trabalho das mulheres e dos menores; etc. são questões combatidas desde o início do movimento operário. A maior parte das greves se dá por estes motivos e as reivindicações levantadas fazem parte do programa dos partidos e dos sindicatos (CARONE, 1987, p. 13).

        No entanto, a partir de 1920, “inicia-se um novo ciclo de crise no movimento operário” (BATALHA, 2000, p. 57). Ainda conforme o autor, “Se nos anos posteriores a 1920

        10

        continuaram a eclodir greves , elas não voltaram a ter a dimensão e a repercussão daquelas do período precedente” (BATALHA, 2000, p. 59).

        Como estamos vendo, desde os primeiros anos do século XX uma onda crescente de organizações e paralisações vem ocorrendo. Algumas acontecem em ambientes onde o contexto urbano encontra-se já solidamente consolidado; outras surgem em locais mais estratégicos da economia do país como, por exemplo, em regiões portuárias (Greve dos portuários de Santos, em Agosto de 1906) bem como em lugares onde a questão do transporte de mercadorias caracteriza o contexto onde estas greves ocorrem. Logo, antes de pensarmos a Greve dos trabalhadores da Construção Civil de Santa Maria, não devemos nos precipitar em entendê-la de forma isolada, como um mero produto de uma sociedade capitalista ainda em formação, como defendemos serem os anos 1930 naquele município. Como veremos a seguir, Santa Maria possui algumas peculiaridades em sua formação histórica, que nos obrigam a conjecturar algumas situações que, de alguma forma, expliquem melhor o contexto mais adequado quando do aparecimento da Greve dos trabalhadores em Construção de 1935.

      4.1 AS PECULIARIEDADES DO CASO PARTICULAR DA GREVE DOS TRABALHADORES DA CONSTRUđấO CIVIL DE 1935

        Em se tratando de particularidades, Santa Maria não fica de fora quando o assunto em questão sugere o destaque de algumas características bastante significativas de sua formação 10 histórica durante os primeiros anos do século XX. Dentre alguns aspectos fundamentais não

        De fato, como destaca Petersen (2001), sobre o período pós 1920, “Talvez os fatos mais recorrentes no movimento operário neste ano

      • – 1920 – sejam as numerosas greves na capital e no interior do Estado. Sem a

        mesma importância das do ciclo 1917-1919, elas demonstram, no entanto, que permanecia o caráter reivindicatório

      podemos desconsiderar, de forma alguma, que a sua localização geográfica foi um facilitador em termos de um constante movimento de pessoas, com diferentes tipos de interesses e, sobretudo, com diferentes perspectivas de vida. A maioria delas, com certeza, vieram em busca de prosperidade e, principalmente, trabalho. Nesse sentido, conforme destaca o historiador João Rodolpho Amaral Flôres,

        “A evolução histórica de Santa Maria, especialmente durante o século

        XX, decorreu da movimentação gerada pelos trens, com suas mercadorias e passageiros, e a manutenção da principal estrutura operacional da rede ferroviária concent rada na cidade” (FLÔRES, 2007, p. 139).

        Esta típica explicação, entendida por nós como peculiar, não é a única. De fato, uma visão economicista da História do município, apresentada por Cirilo Costa Beber, em seu capítulo sobre a história da indústria de Santa Maria, considera este tipo de setor da economia atrasado ou bem pouco desenvolvido na cidade durante o período em questão. Conforme o autor: “Em Santa Maria, no século XIX, predominou a produção primária e, no século XX, a terciária (comércio e prestação de serviços). Em nossa história nunca houve a predominância da produção industrial

        ” (BEBER, 1998, p. 235). Logo, para o momento, estas visões possuem, obviamente, seu valor histórico. Porém, algumas reflexões são necessárias no intuito de compreender algumas outras questões que consideramos serem interpretações mais adequadas em virtude de um novo olhar sobre algumas mesmas fontes utilizadas pelos autores recentemente destacados.

        Em primeiro lugar cabe destacar que desde o fim do século XIX existem atividades relacionadas, direta ou indiretamente, com a construção civil no município de Santa Maria. Segundo Costa Beber, “Em 1859, um ano após a decretação da autonomia municipal, em relatório de 05 de abril [...], menciona a existência, no município de Santa Maria, das seguintes indústrias: [...] olarias, 14

      • – mercenárias, 10 – ferrarias, 8 [...] carpintarias, 4” (BEBER, 1998, p. 236). O mesmo autor, logo em seguida, destaca que “Inegavelmente, graças ao trabalho das etnias italianas e alemãs e do transporte ferroviário, no início do século XX houve um florescente incremento industrial no município” (BEBER, 1998, p. 236). Nesse sentido, João Rodolpho Amaral Flôres, demonstra que

        “Pelos dados apostos nas previsões orçamentárias do município, do período entre 1910 e 1920, percebe-se a quantidade expressiva de atividades comerciais, industriais e de serviços existentes em Santa Maria” (FLÔRES, 2007, p. 199). Conforme o autor

        Eram oficinas que trabalhavam com ferraria, caldeiraria, selaria, ourivesaria, sapataria, marmoraria, chapelaria, funilaria, alfaiataria e costuraria, padarias, mercenárias, tipografias, fábricas de doces, massas, sabão, velas, cervejas, vinho, gasosa, gelo, licores, charutos e cigarros, telas e tijolos, mosaicos, de embutidos, alambiques, de café, curtumes e selarias, etc. (FLÔRES, 2007, p. 199).

        Enfatizamos, até o momento, que a cidade de Santa Maria atingiu progressivamente um status desenvolvimentista bastante significativo, sobretudo a partir dos primeiros anos do século

        XX. Tal contexto foi possível, muito em virtude da instalação de uma rede ferroviária estratégica para o desenvolvimento do Estado como um todo, mas, principalmente, da região centro. Desta sua peculiaridade surgiram outras como, por exemplo, o significativo aumento nos negócios envolvendo o comércio e a prestação de serviços. De fato, como vimos pelos dados citados, o desenvolvimento industrial do município demonstrou-se atrasado e, muitas vezes, limitado ao atendimento das necessidades do comércio e da própria prestação de serviços.

        No entanto, um setor, em particular, demonstrou estar sempre em constante atividade no interior da cidade, principalmente na parte urbana do município: a construção civil. Uma cidade em desenvolvimento é constantemente associada com um relativo “parque de obras” estruturais que são, sem sombra de dúvida, essenciais para o progresso do município e a manutenção de sua prosperidade. Defendemos que, mesmo tardiamente, a indústria da construção civil envolvia a produção de telhas, tijolos, ferros, funilarias, madeireiras, enfim, uma gama de atividades que agregava um número bastante significativo de trabalhadores. Embasamos-nos no próprio João Rodolpho, citando Belém (2000, p. 184) quando o mesmo enaltece o progresso do município em razão do número de prédios existentes na cidade no decorrer dos anos. “No ano de 1893, a cidade possuía registrado 496; em 1900 eram 1.251; em 1912 o número chegara a 2.409 e em 1920 atingira a 2.956 prédios. Por esses números, pode- se ter uma idéia do crescimento populacional, estimado em 18.000 pessoas vivendo somente na zona urbana no início da década de 1920” (FLÔRES, 2007, p. 198-199).

        De fato, o universo urbano de Santa Maria possibilitava diferentes formas de acesso ao mercado de trabalho daqueles anos. Infelizmente, não dispomos de dados específicos para a década de 1930. Contudo, podemos fazer algumas generalizações perfeitamente cabíveis, tendo em vista tudo que já foi explorado por esta pesquisa. O que de imediato podemos colocar é que, constantemente, a exploração do trabalho também se demonstrou progressiva aliada ao desenvolvimento da cidade. Especialmente no ano de 1935. Particularmente, por ocasião da greve dos trabalhadores em Construção Civil daquele ano.

        No mês de Janeiro de 1935 eclodiu um importante movimento grevista no município de Santa Maria dos trabalhadores em Construção Civil, conforme atesta o jornal A Razão de

        11

        1935 . Em primeiro lugar, tal greve, não aconteceu de maneira isolada ou, como alguns preferem, fora de contexto. Ela acompanhava um surto de greves desencadeadas, também, na capital gaúcha durante o mesmo mês e ano do movimento em Santa Maria. Segundo o professor Diorge Alceno Konrad

        Pouco tempo depois, em janeiro de 1935, estourava novo surto de greves em Porto Alegre: no início do mês, dia primeiro, os marítimos de cabotagem; no dia 12, os tecelões; no dia 15, os metalúrgicos; dia 21, os operários em fábricas de mosaicos. Em todas elas, a vigilância, a repressão policial e as prisões dos grevistas, sempre acompanhadas por Ernani de Oliveira, inspetor regional do trabalho, e as ameaças de demissões pelos patrões para os que não voltassem ao trabalho (KONRAD in MILDER, 2008, p. 160).

        Este, então, é o primeiro fato a ser destacado: uma greve não isolada, realizada por trabalhadores da área da construção, em um contexto onde as obras são fundamentais para o progresso do município.

        Em segundo lugar cabe destacar pelo o que lutavam e como faziam para tanto. Assim, conforme destaca o jornal,

        Com surpresa geral, declararam-se, ontem, em greve, os trabalhadores em construção civil desta cidade, paralisando todas as obras em andamento. Em nossa edição de 22 de Dezembro do ano findo, noticiamos amplamente que a Liga Sindical Santamariense, que congrega elevado número de trabalhadores de todas as classes e profissões, entrava em ativa campanha no sentido de melhorar a situação econômica de seus associados, especialmente dos trabalhadores em construção civil

      • – pedreiros, carpinteiros, serventes, ajudantes e pintores. Naquela data publicamos, então, na íntegra, uma cópia
      • 11 da circular que foi distribuída pelos interessados a todos os construtores e empreiteiros, Em greve os trabalhadores da construção civil. Não obtendo O jornal, em manchetes alarmantes, noticiava: “

        solução satisfatória as suas pretensões, paralisaram, ontem, todas as obras em andamento na cidade. O movimento

        alastrou-se rapidamente, a ele aderindo todos os componentes da classe

          ”. Fonte: A Razão, Santa Maria, Terça- bem como um ofício dirigido ao major João A. Edler, prefeito municipal, expondo as razões que os levou a tal atitude assim como as reivindicações pleiteadas, as quais se resumem no aumento de salários, assim especificado: “Pedreiros de 1ª Classe, como administrador

        • – 20$000; idem de 2ª Classe – 18$000; pedreiro de 2ª Classe – 15$000; idem de 3ª Classe – 13$000; serventes – 8$000. Quanto aos carpinteiros e pintores obedece a mesma classificação. Feito isso, foram nomeados comissões que desde logo passaram a entrar em conversações com os construtores e empreiteiros locais, encontrando, em alguns, o máximo apoio e, em outros, certa relutância. Na circular distribuída fora dado o prazo até o dia 24, uma segunda
        • – feira, para a resposta. Ontem, com surpresa geral, todas as construções nesta cidade foram paralisadas, declarando os trabalhadores da classe em greve pacífica, visto não terem sido satisfeitos nas suas aspirações. Diversas comissões de operários percorreram, pela manhã de ontem todas as obras expondo os motivos da atitude tomada aos operários que, em algumas delas, se prontificavam a iniciar os trabalhos do dia e os quais aderiram o movimento. Ontem, à noite, soubemos de fonte segura, que o construtor Olimpio Lazza, julgando justas as aspirações dos trabalhadores em construção civil, concordou com a tabela pelos mesmos organizados. Contudo, os operários daquele construtor paralisaram os trabalhos durante 24 horas como demonstração de solidariedade a atitude dos demais
        • 12 componentes da classe .

            Algumas considerações são necessárias neste momento, no intuito de observar algumas peculiaridades deste movimento. Em primeiro lugar, fica claro uma incipiente, consciência de classe destes trabalhadores. Percebe-se que a questão central desta organização grevista gira em torno do aspecto salarial, resumindo-se a ela inclusive. Questões fundamentais como a adoção da jornada de 8 horas de trabalho, a questão da insalubridade do serviço e dos acidentes de trabalho, horas extras, abolição do trabalho dos menores de 14 anos, entre outras coisas, não foram colocadas em pauta por esta greve. Isto mostra, também, certo desconhecimento de outras lutas já travadas entre operários e patrões em outras regiões e períodos históricos. O caso carioca torna-se relevante no momento a título de comparação. Segundo Edgar Carone

            Aos 18 de março de 1917 na sede da então Federação Operária e a convite da mesma, reuniram-se os companheiros militantes da organização operária abaixo discriminada, com o fim de trocar idéias sobre a possibilidade de reorganizar a então extinta União Geral da Construção Civil, sendo depois de pequena discussão, assentado dar uma reunião no dia 21 de março, às 8 horas da noite, tratando desde logo de se fazer os boletins convocatórios a expensas do então Sindicato Operário de Ofícios Vários e contando-se para primeiros sócios com os elementos da construção filiados ao mesmo sindicato. [...] Em 7 de Junho deste mesmo ano um horrível desastre veio quebrar a normalidade da vida da associação: tinha ruído por completo o edifício em construção para o New York Hotel, de direção do construtor Antonio Januzzi, sepultando nos seus escombros todos os operários que ali trabalhavam, dos quais 43 pereceram. [...] Ainda não refeitos da grande catástrofe que a todos apiedou, os trabalhadores de São 12 Paulo são forçados a se declarar em greve geral na defesa do direito à vida sonegado

            pela ganância do patronato paulista, tendo este movimento repercutido imediatamente nesta Capital, e assim é que tendo algumas co-irmãs se declarado em greve, a 22 de Julho numa assembléia geral memorável a Construção Civil declarava-se em greve geral para todas as classes suas componentes, reclamando o seguinte dos industriais de construção: 1.º - Adoção da jornada de 8 horas de trabalho normal principiando às 7 horas e terminando às 16 com 1 hora para almoço, sendo que aos sábados e feriados terminarem às 15, e domingos às 14. Na mesma reunião ficou também deliberado que o prazo máximo do pagamento das férias aos operários seja de 15 dias, não excedendo do dia 17 e 2 de cada mês; 2.º - Fixação do salário mínimo em 8$000, para todos os oficiais dos diversos ofícios de que se compõe esta associação, e 5$000 para os serventes, e 4$000 para os aprendizes menores de 18 anos, e maiores de 14 anos; 3.º

          • Em caso de acidentes no trabalho, o operário terá direito ao salário integral durante o tratamento, assim como as despesas resultante do mesmo; 4.º - As horas extraordinárias serão pagas pelo dobro; 5.º - Abolição completa do trabalho dos menores de 14 anos e analfabetos, nas fábricas, obras e oficinas; 6.º - Melhoramentos nas condições higiênicas nas oficinas e habitações coletivas; 7.º Exclusão completa, no que concerne ao mister de outro ofício ou profissão; 8.º - Em caso de falta de operários de que se compõe esta associação, só podem admitir os que a esta união sejam filiados; 9.º - Proibição terminante de trabalhos executados em máquinas, por operários estranhos ao serviço das mesmas; 10.º - Readmissão completa de todos os operários em greve sem exclusão de nenhum. Cientes como estais das nossas justas reclamações, compete-nos declarar-vos que não retomaremos o trabalho, enquanto não forem as mesmas atendidas. Esperamos, portanto, com brevidade as vossas ordens. Rio, 23 de Julho de 1917 (CARONE, 1984, p. 64-67)

            Nesta citação, fica evidenciado em termos comparativos, o nível de consciência classe destes trabalhadores: embora possuíssem certa semelhança no que se refere a um tom impositivo de suas reivindicações, como aquela pleiteada pela greve de Santa Maria, parece- nos adequado observar que, inclusive, a preocupação em se discutir a (re) estruturação da União Geral da Construção Civil, para garantir uma representação mais adequada e, principalmente, capaz de fornecer os subsídios de amparo aos trabalhadores em construção, evidencia uma consciência de classe mais homogênea e melhor articulada aos anseios da classe dos trabalhadores daquele contexto. Estamos sublinhando tal fato, pois, como já demonstrado pela documentação referente à greve dos trabalhadores da Construção Civil de Santa Maria, a Liga Sindical Santamariense, embora esforçada na tentativa de amparar os trabalhadores grevistas, possuía, também, diversas outras categorias de trabalhadores que dependiam de sua força tarefa. Ou seja, os trabalhadores grevistas de Santa Maria, não cogitaram a formatação de um sindicato por categoria ou indústria, que lhes representassem de um modo mais coeso e preocupado com questões trabalhistas como, por exemplo, aplicações de leis de amparo ao trabalhador. Mesmo sabendo, por exemplo, que - como defendiam os comunistas -, o sindicato organizado por

            13

            indústria poderia garantir mais benefícios aos seus membros, no entanto, nem mesmo este modelo foi adotado pelos trabalhadores da construção na época de sua greve.

            De todo modo, após as observações acima, retornamos a greve de Santa Maria. Assim,

            14

            15

            com a mesma manchete da edição que divulgou a greve, o jornal A Razão continua empenhado em noticiar o movimento e seus desdobramentos. Segundo o periódico,

            A greve dos trabalhadores em construção civil, que teve inicio segunda

          • –feira pela manhã, paralisando todas as obras em andamento nesta cidade, continua, ainda, sem solução. Os trabalhadores em parede, cerca de trezentos, têm se mantido em reunião permanente, na sede da Liga Sindical Santamariense. Ontem os grevistas foram cientificados de que o construtor Patrocinio e o empreiteiro do Edifício do Pão dos Pobres concordaram com a tabela de reivindicação dos operários em construção civil, devendo, por isso, serem reiniciados, hoje, os trabalhos em mais duas obras. Segundo fomos informados, na reunião de ontem, com a presença da quase totalidade dos paredistas, ficou deliberado que a greve prosseguirá, dentro do terreno pacífico, até verem as suas aspirações satisfeitas, a exceção das obras cujos patrões já concordaram com os operários, passando a pagar-lhes os ordenados constantes na tabela de reivindicações, que deu margem ao movimento. Também ontem estiveram reunidos quase todos os construtores e empreiteiros, fazendo rigoroso estudo na situação provocada pelo movimento, ficando assentado, afinal, que só passarão a pagar os

            13 Consoante ao pensa mento de Batalha (2000), “Os sindicatos por ofício constituem a base da organização

          operária na Primeira República, sendo o tipo de organização predominante e tendendo a ser a forma priorizada

          pelo movimento operário, pelo menos até a segunda metade dos anos 1910. [...] os sindicatos por ofício

          representavam, sobretudo, os ofícios mais qualificados e/ou com maior tradição organizacional. No caso da

          construção civil, por exemplo, ofícios como os de pedreiro, carpinteiro e estucador tinham seus sindicatos,

          enquanto os serventes de obra – mão de obra pouco qualificada – dependiam da criação de um sindicato geral da

          construção civil, isto é, um sindicato de indústria, para contar com uma organização que os aceitasse e os

          14 representasse” (p. 17).

            A GREVE DOS TRABALHADORES EM CONSTRUđấO CIVIL. Continuam em parede pacắfica os “

          operários que abandonaram o trabalho na segunda-feira última. Fonte: A Razão, Santa Maria, Quinta-feira, 3 de

          15 Janeiro de 1935, p. 5, AHMSM.

            

          Fundado em 9 de Outubro de 1933 pelo jornalista Clarimundo Flores, A Razão trouxe como primeira manchete

          o enfrentamento de forças integralistas e comunistas. Tal fato não parece estranho, visto que seu fundador,

          conforme Konrad (2010), Clarimundo Flores foi um dentre tantos jornalistas enviado a Casa de Correção de Porto

          Alegre como preso político. “Os livros de registro da entrada de presos na Casa de Correção de Porto Alegre demonstram que, após 1932, elevou-se razoavelmente a entrada de presos políticos , assim como de “elementos

          prejudiciais à ordem pública”. Outros eram identificados simplesmente como comunistas. Entre eles, estavam

          operários, caldeireiros, mecânicos, ferroviários, pedreiros (grifo nosso), marceneiros, serralheiros, fundidores,

          carpinteiros, barbeiros, alfaiates, funcionários públicos, estudantes, choferes, trabalhadores do comércio,

          agricultores, criadores, jornalistas, médicos, advogados e dentistas” (KONRAD in RIBEIRO; WEBER, 2010, p. salários exigidos pelos trabalhadores a partir do mês de maio, em virtude dos contratos 16 das construções ora em andamento não lhes permitir satisfazer os grevistas .

            Outra questão peculiar do movimento: Quando alguns construtores aceitam as reivindicações impostas pelos trabalhadores correlatamente a greve se enfraquece. Na medida

            17

            retomam seus postos de trabalho com seus ofícios específicos, em que os “fura-greves” acabam gerando no movimento, mesmo que alguns indiretamente, um conflito e, até mesmo, rivalidades.

            Na edição de sexta-feira, a notícia de capa continua sendo a Greve dos Trabalhadores em Construção. Este é um fato novo. Vincular informações na capa de um jornal significa estimular, aos olhos de quem lê a importância de tal acontecimento (greve) e as proporções dimensionadas pelo seu movimento. De fato, o movimento, até então, já perdura por quase uma semana. Conforme o circular,

            Prosseguem os grevistas em reunião permanente. Os trabalhadores em construção civil continuam, ainda, em greve, mantendo-se na sede da Liga Sindical Santamariense, em reunião permanente. Do movimento que segue dentro do terreno pacífico, não havendo nada de anormal a registrar, espera-se, a todo o momento, uma solução que ponha termo à situação. Os paredistas, contudo, em sua assembléia de ontem, segundo fomos informados, assentaram, mais uma vez, que deveriam prosseguir no movimento, sem esmorecimento, para que os trabalhadores que já se encontram em atividade nas diversas obras, cujos construtores concordaram com a tabela de preços que motivou a greve, se cotizarão, com parte de seus salários, a fim de auxiliar aqueles que continuaram em parede. Também, ficou deliberado que, uma comissão de operários percorrerá o comércio a fim de angariar auxílios que serão 18 (grifo nosso) . destinados aos operários mais necessitados

            A primeira colocação a ser feita

          • – e não poderia ser diferente – refere-se ao destaque dado na citação anterior. Em resenha intitulada: Rivalidades e Solidariedades no Movimento

            16 17 A Razão, Santa Maria, Quinta-feira, 3 de Janeiro de 1935, p. 5, AHMSM.

            

          Segundo Carone, “O fura-greve, denominado na época de amarelo ou krumira, não é só o que não aceita a

          decretação da greve e volta ao trabalho, e nem o que está sem emprego e se aproveita da situação para substituir

          os grevistas: há toda uma problemática e até ideológica que transcende a questão e são estes valores morais e

          ideológicos que os grevistas lançam contra os “fura-greves”, o que dá um aspecto mais profundo a questão

          18 (CARONE, 1987, p. 15).

          19 Operário (Porto Alegre 1906-1911) , o professor Benito Bisso Schmidt, do Departamento de

            História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, considera que os principais méritos da pesquisa da autora são, segundo o seu ponto de vista, dois, os quais nos interessa somente um: “O destaque dado ao papel das rivalidades e solidariedades na história da organização operária, mostrando que esta não se constituiu apenas a partir das ideologias e das instituições formalizadas, mas também das querelas e dos afetos cotidianos

            ” (SCHMIDT in ANOS 90, 2000, p. 135). Complementa afirmando que o mérito da autora, em relação às solidariedades, vincula-se com a importância dada aos laços familiares, de amizade e cooperação que muitas vezes são fundamentais para o trabalho de militância. Segundo a Professora Isabel Bilhão, “essas ligações afetivas e essas ações solidárias, por muito tempo esquecidas pela lógica [individualista] da modernidade, que impulsionam as utopias presentes no movimento operário” (BILHÃO apud SCHMIDT in ANOS 90, 2000, p. 135-136). Logo, levantamos a hipótese de que muitos daqueles trabalhadores eram pais de família; dependiam, muitas vezes, de um familiar para a indicação de um trabalho. Além disso, procuravam manter relações interpessoais por uma causa mais justa, mesmo que, neste caso, girasse em torno somente da questão salarial. Como atestou o jornal, percorriam diversos lugares no intuito de arrecadar fundos de amparo aos colegas mais necessitados, em virtude da greve. Esta peculiar situação, bem como aquela de

            “ir obra em obra” divulgando os motivos da paralisação, não deixa de sublinhar, outra vez, o caráter sui-generis deste movimento.

            De todo modo, a greve não teve um fim satisfatório que pudesse assegurar, de alguma forma, alguma garantia concreta aos trabalhadores. De fato, o que se viu foi ao contrário. E, inclusive, um desfecho que foi abordado muito

          • – para dizer o mínimo – estranhamente pelo jornal. O assunto da greve, antes noticiad a com a manchete de “Greve dos trabalhadores em construção” foi, divulgada, na semana seguinte, com o título de “Movimentos Impensados” assinado pelo editorial do periódico. Conforme o jornal A Razão,

            Com a infiltração, em seu seio, de elementos estranhos, os trabalhadores brasileiros entraram a entregar-se movimentos impensados e que só os têm prejudicado, Ingressam numa greve sem primeiro analisar os sentimentos de quem os aconselha. E os resultados têm sido sempre os mesmos: o prejuízo dos próprios operários que, 19 vencidos nas suas pretensões, são jogados à miséria e as agruras de uma vida sem BILHÃO, Isabel. Rivalidades e solidariedades no movimento operário (Porto Alegre 1906-1911). Porto trabalho. Um movimento grevista orientado por elementos estranhos aos meios operários só tem esta finalidade: lançar o ódio no espírito do trabalhador contra aqueles que por um fenômeno social ficaram na posse dos meios de produção. E não teve outra finalidade a recente greve dos pedreiros santamarienses. Iludidos pela pregação subversiva de elementos alheios as suas necessidades, os trabalhadores conterrâneos entregaram-se a um movimento que não poderia dar outro resultado e cujas conseqüências estavam previstas. O que aconteceu? Que falem por nós os inúmeros operários que ficaram sem trabalho e as inúmeras famílias que hoje estão sofrendo as conseqüências da boa fé de seus chefes. A legislação social brasileira é das mais perfeitas e adiantadas da América do Sul e facilita, sempre, um entendimento harmônico entre o capital e o trabalho. Portanto, não há necessidades desses movimentos violentos e que provocam, sempre, uma quebra de dignidade para qualquer das partes. É justamente esse o objetivo visado pelos elementos estranhos que se infiltram nos meios operários. Provocar a irritação das classes para que estas inaugurem uma fase de malquerença entre si. O operário não deve servir de instrumento para agitações prejudiciais e nem pode deixar-se orientar por elementos que fracassaram no manejo dos meios de produção e agora culpam de sua incompetência aqueles que triunfaram na vida. Esta que é a verdade. As greves devem ser orientadas por verdadeiros trabalhadores, que conheçam de fonte própria as suas necessidades e saibam até onde suas pretensões poderão ser atendidas 20 .

            Algumas considerações merecem serem tecidas a respeito do modo como foi vinculado, ou melhor, opinado o fim da “greve dos pedreiros” de Santa Maria de Janeiro de 1935.

            Justamente este é o primeiro aspecto: os trabalhadores em construção foram taxados, homogeneamente, de pedreiros. E isso é só o começo. Em segundo lugar, os elementos estranhos apontados pelo jornal, não foram suficientemente descritos e apresentados. Em outras palavras e, como sugere a linguagem popular, não foram dados “nomes aos bois”. Em terceiro lugar, preocupou-se em exaltar a legislação social do país, no que tange a legislação trabalhista, mas, em nenhum momento, foram comentados os excessos policiais, as prisões por motivos torpes, típicas daquela época e contexto. Ainda, justificam a desigualdade social existente entre as classes trabalhadoras e aquelas que detêm os meios de produção

            , por conta de um “fenômeno social”. Vinculou a figura de um operário corrompido, taxando- os de instrumentos, não de indivíduos ou sujeitos.

            Ao mesmo tempo - e isto também julgamos uma peculiaridade

          • – não associou a organização da greve que, conforme demonstrado, diversas vezes os grevistas (paredistas) estavam em reunião constante. Em outras palavras, este típico movimento associativo de se reunir para discutir os rumos da greve, geralmente provoca um conflito ideológico, muitas vezes

            20 acusado de socialista ou de comunista, que interfere diretamente no movimento. Acreditamos que isto também foi o caso.

            Não devemos desconsiderar, contudo, que esta greve não lutava, por exemplo, em favor de se cumprir, por parte dos patrões ou Estado, algum direito trabalhista. Este fato pode ser considerado outra peculiaridade do movimento tendo em vista que

            Investigando-se o processo de implantação da estrutura sindical corporativa entre 1933 e 1935 avista-se, na relação entre trabalhadores e Estado, a primeira crise em torno da intervenção normatizadora do primeiro governo Vargas. As greves adquirem característica inusitada: lutam pela aplicação da lei (FORTES; NEGRO in FERREIRA; DELGADO, 2010, p. 199).

            Enfim, a maneira como todo o movimento foi divulgado e, por toda a sua repercussão, é no mínimo estranho perceber tais consideração no seio deste periódico. Estariam sofrendo algum tipo de pressão? Se a resposta for sim, por parte de quem? Patrões, construtores, empreiteiros? Estado? A polícia?

            Tais indagações nos sugerem outros caminhos para serem investigados. Em outras palavras, jamais almejamos esgotar as possibilidades desta pesquisa, que poderão ser trabalhadas, em outra oportunidade, tendo em vista este campo tão vasto que é a História do Trabalho. De todo modo, as questões envolvendo a greve de Santa Maria não se encerram por

            21

            aqui. Interessa-nos, agora, analisar a Constituição do Estado do Rio Grande do Sul destacando pelo menos duas questões que podemos comparar com o movimento operário como um todo discutido até aqui: se grande parte deste movimento, desde pelo menos os primeiros anos do século XX, conseguiu com suas lutas e pleitos, que alguma garantia em termos de lei estadual lhes fossem garantidas.

          21 Este documento, embora caracterizado pelo seu teor político, nos parece bastante adequado para a seguinte

            

          questão: Como vimos ao longo desta pesquisa, o processo de formação, associação e, sobretudo, de adequação por

          parte de diferentes grupos de trabalhadores ao “Estado corporativo” da década de 1930, exigiu, do movimento

          operário como um todo, diversificadas formas de organização, conforme o contexto e época onde cada um deles

          surgiu. Agora, cabe a nós investigar esta Constituição na intenção de perceber o que ela trouxe de garantia aos

          trabalhadores (Ou, então, se não trouxe garantia alguma) tendo em vista todo o processo de luta já apresentado por

            Isto posto, em primeiro lugar ressaltamos o seguinte: O artigo de número 15 da

            22 Constituição do Estado do Rio Grande do Sul , localizado na página 28 deste documento,

            estabelece que são elegíveis para a Assembléia Legislativa os brasileiros natos, alistados eleitores, maiores de 25 anos; os representantes das profissões deverão, ainda, pertencer a uma associação compreendida na classe e grupo que os elegerem. Chamamos a atenção para este último aspecto: nossa intenção é provar, em outra oportunidade, que este artigo favoreceu o fortalecimento da classe patronal gaúcha em se lançar as eleições ao Legislativo. Ao criarem, por exemplo, um Sindicato dos Empregadores da Indústria, tais atores discutem interesses em comum, participam ativamente do jogo político corporativista do Estado, considerando, ainda, que possuem meios para isso, sejam eles financeiros ou, também, de troca de favores ou fidelidade ao governo ou a algum partido político em específico. Reconhecemos que isto carece de fontes e, nossa intenção, é trabalhar esta questão em outra oportunidade, com o objetivo de possibilitar a esta pesquisa uma continuidade.

            Para encerrar, gostaríamos de destacar o capítulo XVI desta mesma Constituição, quando a mesma trata sobre Política social e economia. Dentro deste importante item, encontramos algumas definições, em termos de lei, que, em virtude do longo processo de luta e mobilização por parte dos trabalhadores

          • – neste caso, especialmente do Rio Grande do Sul – merecem serem apresentadas no tocante a legislação referente à questão do Trabalho e dos trabalhadores. Optamos por não corrigir a gramática, apresentando o documento originalmente.

            23 Assim, conforme o artigo 113 da Constituição do Estado do Rio Grande do Sul percebemos

            22 CONSTITUIđấO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL (Diario official, 1.ử de Julho de 1935), Annotada 23 por M.C, Edição da Livraria do Globo. Porto Alegre. Acervo do MMQ (Museu Municipal de Quevedos – RS).

            

          Art. 113 – Dentro da competência assegurada ao Estado pela Constituição Federal, a respectiva legislação

          promoverá: a) organização e fomento do lar gratuito, em benefício da família monogâmica e indissolúvel, com

          especial atenção as necessidades primarias das classes menos favorecidas; b) pensões, aposentadorias, seguros e

          assistência médica aos funcionários públicos e suas famílias; c) seguros sociais contra as moléstias e acidentes de

          trabalho, invalidez, desocupação ocasional e não procurada, e sobre a vida; d) regime de oito horas, para trabalho

          machinofactureiro, commercial e mineiro, sua gradual redução a medida da efficiencia maior dos processos de

          producção; salário mínim; restricção dos trabalhos nocturnos; limitação dos turnos para as mulheres grávidas e

          para as lactantes, com adopção obrigatória de medidas de protecção a sua saúde; interrupção dos turnos para

          menores de 14 a 18 annos; prohibição de trabalho machinofactureiro e mineiro aos menores de 14 annos; (grifo

          nosso) e) fomento e reconhecimento de institutos ou corporações de finalidade econômica, cooperativas de

          consumo e produção e das associações profissionaes, regulares e estáveis, inclusive as de profissões liberaes; f) algumas importantes conquistas em favor dos trabalhadores, em virtude do seu longo processo de lutas e reivindicações que, como vimos, se estendem, pelo menos, desde o início do século

            XX. Por fim, cabe ressaltar que pretendemos analisar, futuramente se, de fato, esta legislação vingou; quais foram os mecanismos para a execução destas leis; se os trabalhadores sentiram- se satisfeitos com estas resoluções, dentre outras coisas. Desta forma, não esgotamos as possibilidades de pesquisa deste trabalho, contudo, por hora, salientamos que esta monografia insere-se entre aqueles trabalhos que adotam a uma perspectiva de uma

            “história social do trabalho” e, acreditamos que ela foi escrita muito em virtude de suas possibilidades de continuação do que por esgotar este tema.

          5 CONSIDERAđỏES FINAIS

            

          por M.C, Edição da Livraria do Globo. Porto Alegre, p. 105-108. Acervo do MMQ (Museu Municipal de Quevedos

          – RS).

            Após o encerramento desta pesquisa, torna-se de extrema importância tecer algumas considerações sobre o desdobramento da mesma, no que diz respeito aos seus desafios, a seus limites e, sobretudo, da importância deste tema no que concerne a um aprofundamento de alguns assuntos abordados por este texto.

            Em primeiro lugar, decidimos trabalhar a greve dos trabalhadores em construção civil de Santa Maria de 1935 na última parte do texto, pois, defendemos que para a sua compreensão teríamos que trabalhar outras questões fundamentais, tais como: o próprio conceito de classe que, muitas vezes, aparece nos estudos de História do Trabalho como homogêneo, desconectado de suas particularidades temporais e, sobretudo, do contexto social que se encontra inserido. A classe como uma categoria histórica, deve ser estudada em seus pormenores, enfatizando, sempre, as suas particularidades. Nem todas as pessoas do mundo têm noção de pertencimento a uma classe e, muitas vezes, por este motivo, não desenvolvem uma consciência classista.

            De todo modo, neste trabalho, além destas questões fundamentais, outras também teriam que ser esclarecidas para, então, após estes esclarecimentos, compreendermos a greve de Santa Maria. Por exemplo: A luta dos trabalhadores de diversos ofícios e em diferentes contextos. Suas organizações e reivindicações. Sua história de lutas caracterizadas, pelo menos, desde o início do século XX de forma ativa. O papel do Estado e dos sindicatos. A questão do “novo sindicalismo”, as ideologias envolvidas e, também, as diferenças e semelhanças entres os movimentos operários que aconteceram em diferentes épocas, locais e contextos.

            Tratamos de uma greve que, como vimos, não aconteceu de forma isolada. Tal movimento foi protagonizado por indivíduos que, no trato diário de seus ofícios, lutavam por uma condição de vida melhor, mesmo sabendo que

          • – como vimos – pleiteavam apenas um reconhecimento de seus serviços, através de um abono salarial. Em outras palavras, vimos outras greves
          • – a titulo de comparação – que tinham um plano de ação voltado à legislação trabalhista e o cumprimento de suas prerrogativas.

            No entanto, o aspecto salutar que deve ser sublinhado, gira em torno de questões de representatividade, de conversações, de uma tentativa de se tornar o movimento forte e coeso. Nesse sentido, acreditamos que a greve de Santa Maria e seus sujeitos tiveram estas intenções, embora fracassasse em termos de objetivos. Carece ainda de estudos comprobatórios, mas como não pensar que esta greve não foi um “carro chefe” no sentido de motivar outras mobilizações? De outro modo, vimos à importância de se estudar as particularidades e as peculiaridades de certos movimentos, pois, muitas vezes, a historiografia sobre o trabalho demonstrou algumas falhas em afirmações do tipo “aconteceu aqui, também aconteceu lá e do mesmo modo”. Por este aspecto, acreditamos que nossa pesquisa contribuiu para desmistificar um pouco esta questão, que tende a homogeneizar os estudos de caso.

            Em síntese, este trabalho procurou em sua dinâmica metodológica apontar as especificidades da Greve dos Trabalhadores em Construção Civil de Santa Maria de uma forma comparada, tirando em proveito desta concepção, algumas considerações definitivas e, outras, preliminares, pois, também temos a intenção de não encerrar nossas discussões no presente texto.

            Por fim, “Por uma História Social do Trabalho: Sindicalismo e Consciência de Classe dos Trabalhadores da Construção Civil de Santa Maria (1930- 1935)” vêm para contribuir como mais um estudo neste campo tão magnífico e, ao mesmo tempo complexo, que tentamos provar ser a História Social do Trabalho.

          6. FONTES CONSULTADAS

            AMADO, Janaína. História e região: reconhecendo e construindo espaços in SILVA, Marcos A. da (coordenação). República em Migalhas. História Regional e Local. São Paulo: Marco Zero, 1990. p. 7-15.

            BATALHA, Claudio. O movimento operário na Primeira República. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000. BEBER, Cirilo Costa. Santa Maria 200 anos: história da economia do município. Santa Maria: Pallotti, 1998.

            

          BILHÃO, Isabel. Rivalidades e solidariedades no movimento operário (Porto Alegre 1906-1911).

          Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999.

            CARONE, Edgar. Movimento Operário no Brasil (1877-1944). São Paulo: Difel, 1984. D’ARAÚJO, Maria Celina. Estado, Classe trabalhadora e políticas sociais in FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves (orgs.). O Brasil Republicano. O tempo do nacional-estatismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. p. 213-239.

            FAUSTO, Boris. História Concisa do Brasil. São Paulo: Editora da USP, 2002. FLÔRES, João Rodolpho do Amaral. Fragmentos da história ferroviária brasileira e rio-

            

          grandense: fontes documentais, principais ferrovias, Viação Férrea do Rio Grande do Sul

          (VFRGS), Santa Maria, a “Cidade Ferroviária”. Santa Maria: Pallotti, 2007.

            FONTANA, Josep. A história dos homens. Bauru, SP: EDUSC, 2004. FORTES, Alexandre; NEGRO, Antonio Luigi. Historiografia, trabalho e cidadania no

            

          Brasil in FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves (orgs.). O Brasil

          Republicano. O tempo do nacional-estatismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

            p. 181-211. HOBSBAWM, Eric J. A história de baixo pra cima in HOBSBAWM, Eric J. Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 216-231. _________. Notas sobre Consciência de Classe in HOBSBAWM, Eric J. Mundos do

            

          Trabalho. Novos estudos sobre história operária. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. p. 35-

          56.

            _________.

            O “novo sindicalismo” em perspectiva in HOBSBAWM, Eric J. Mundos do Trabalho. Novos estudos sobre história operária. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

            KONRAD, Diorge Alceno. A questão social continua um caso de polícia entre 1930 e 1937:

            

          Problematizando discursos políticos e historiográficos in MILDER, Saul Eduardo Seiguer

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            p. 145-165. _________. Fragmentos de construções e lutas de classes na década de 1930: Santa Maria

            

          no contexto nacional in RIBEIRO, José Iran; WEBER, Beatriz Teixeira (organizadores). Nova

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            “Que a união operária seja nossa pátria!”: história das lutas dos operários gaúchos

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            ___________.

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            Luigi; SILVA, Sergio (organizadores). As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. São Paulo: Editora da UNICAMP, 1998. p. 269-281. TRENTIN, Bruno. Pesquisa sobre a Consciência de Classe in THIOLLENT, Michel. Crítica

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            FONTES PRIMÁRIAS – JORNAIS Jornal A Razão, Santa Maria, p. 05, Terça-feira, 1 de Janeiro de 1935. Jornal A Razão, Santa Maria, p. 05, Quinta-feira, 3 de Janeiro de 1935. Jornal A Razão, Santa Maria, p. 01, Sexta-feira, 4 de Janeiro de 1935. Jornal A Razão. Santa Maria, p. 03, Terça-feira, 8 de Janeiro de 1935.

          FONTE DOCUMENTAL

            CONSTITUIđấO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL (Diario official, 1.ử de Julho de 1935), Annotada por M.C, Edição da Livraria do Globo. Porto Alegre. Acervo do MMQ (Museu Municipal de Quevedos – RS).

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