Eduardo Martins Pereira POR UMA HISTÓRIA SOCIAL DO TRABALHO: SINDICALISMO E CONSCIÊNCIA DE CLASSE DOS TRABALHADORES DA CONSTRUÇÃO CIVIL DE SANTA MARIA (1930-1935)

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Eduardo Martins Pereira

POR UMA HISTÓRIA SOCIAL DO TRABALHO: SINDICALISMO E

CONSCIÊNCIA DE CLASSE DOS TRABALHADORES DA

CONSTRUÇÃO CIVIL DE SANTA MARIA (1930-1935)

Santa Maria, RS

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Eduardo Martins Pereira

POR UMA HISTÓRIA SOCIAL DO TRABALHO: SINDICALISMO E

CONSCIÊNCIA DE CLASSE DOS TRABALHADORES DA

CONSTRUÇÃO CIVIL DE SANTA MARIA (1930-1935)

Trabalho Final de Graduação (TFG) apresentado ao curso de História, Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano - UNIFRA, como requisito parcial para a obtenção do título de licenciado em História.

Orientador: Leonardo Guedes Henn

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Eduardo Martins Pereira

POR UMA HISTÓRIA SOCIAL DO TRABALHO: SINDICALISMO E

CONSCIÊNCIA DE CLASSE DOS TRABALHADORES DA

CONSTRUÇÃO CIVIL DE SANTA MARIA (1930-1935)

Trabalho Final de Graduação (TFG) apresentado ao curso de História, Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano - UNIFRA, como requisito parcial para a obtenção do título de licenciado em História.

_______________________________________________ Profº Drº Diorge Alceno Konrad (UFSM)

___________________________________________ Profª Me. Roselâine Casanova Corrêa (UNIFRA)

___________________________________________ Profº Drº Leonardo Guedes Henn (UNIFRA)

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RESUMO:

A presente monografia trata sobre sindicalismo e consciência de classe dos trabalhadores da construção civil de Santa Maria – RS (1930-1935). Para tanto serão discutidas questões envolvendo o conceito de classe, considerando aspectos teóricos acerca a história vista de baixo. Neste ponto, autores como Edward Palmer Thompson, Jim Sharpe e Eric J. Hobsbawm constituem-se no principal referencial teórico desta pesquisa. Desta forma, discutiremos o papel do Estado, dos sindicatos e da sociedade civil como um todo, destacando as peculiaridades do movimento operário, através de uma abordagem metodológica da história comparativa, com enfoque regionalista no intuito de se compreender as especificidades do caso particular da greve que aqueles trabalhadores protagonizaram no ano de 1935.

Palavras-chave: Classe operária; Consciência de classe; Sindicalismo; Santa Maria; Greve.

ABSTRACT

This monograph deals with unions and class consciousness of the construction workers of Santa Maria - RS (1930-1935). To do so will be discussed issues surrounding the concept of class, considering theoretical aspects concerning the history from below. At this point, authors like Edward Palmer Thompson, Jim Sharpe and Eric J. Hobsbawm constitute the main theoretical framework of this research. Thus, we discuss the role of the state, trade unions and civil society as a whole, highlighting the peculiarities of the labor movement, through a methodological approach of comparative history, with regionalist approach in order to understand the specifics of the particular case of strike those workers staged in 1935.

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Agradecimentos:

A inspiração para a realização desta pesquisa nasceu durante a disciplina de História de Santa Maria ministrada pela Profª Roselâine Casanova Corrêa onde a mesma incentivou-nos a uma pesquisa no acervo do Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria. Por este fato, meu primeiro agradecimento dirigiu-se a sua pessoa.

Não posso deixar de mencionar o apoio familiar tão fundamental para que pudesse continuar meus estudos e terminar minha graduação. Mãe, pai, irmãos, meu muito obrigado por cada palavra, cada incentivo, cada gesto, enfim, por toda educação que fez com que me tornasse uma pessoa que acreditasse em seus sonhos. Meu especial agradecimento a Francielle Alves Difante, minha companheira, amiga e mulher. Sem você, sem seu brilho, sem seu apoio e sem sua força de vontade, nenhuma linha deste trabalho teria sido escrita.

Quero agradecer também a paciência, a gentileza e, principalmente, o carinho reservado a minha pessoa pelo meu orientador, sem o qual, também, nada teria acontecido. De fato, uma grande pessoa. Um grande amigo.

Grande importância reservo aos meus amigos queridos que, por conta de não pecar em esquecer ninguém, apenas limitar-me-ei a agradecer, um por um, pessoalmente. Não poderia esquecer de agradecer meu ex-professor Luís Augusto Farinatti por me despertar ao mundo do trabalho e a leitura de seus autores essenciais. Agradecer a instituição de ensino pela minha formação acadêmica tão fundamental para minha vida.

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Dedico ao meu filho,

Frederico

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SUMÁRIO:

1 INTRODUÇÃO... 8

2 SOBRE CLASSE E CONSCIÊNCIA DE CLASSE: POR UMA HISTÓRIA DE BAIXO PRA CIMA ... 13

3 A GRANDE DÉCADA DE 1930: SINDICALISMO E A QUESTÃO DO TRABALHO... 26

3.1 A POLÍTICA DO GOVERNO VARGAS PARA OS TRABALHADORES: NOTAS SOBRE LEGISLAÇÃO SOCIAL, REPRESSÃO OPERÁRIA E O NOVO SINDICALISMO ... 33

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1 INTRODUÇÃO

A presente pesquisa tem como eixos centrais, sindicalismo e consciência de classe – oriundos, essencialmente, da tradição de uma historiografia social do trabalho – dos trabalhadores da construção civil da cidade de Santa Maria, dentro do recorte temporal iniciado no ano de 1930 até as proximidades dos meados desta década ou, mais precisamente, em torno do ano 1935, ano este onde eclodiu a greve destes trabalhadores, objeto fundamental deste trabalho.

Tendo em vista que esta área da História – História Social do Trabalho – encontra-se em ascensão na pesquisa histórica a partir, principalmente, da década de 80 e, de fato, motivando constantes pesquisas no decorrer dos últimos anos, este estudo encaixa-se como mais uma contribuição a este campo da História ainda em expansão.

Nesse sentido, é importante salientar que à luz de alguns trabalhos1 já publicados, esta

pesquisa irá ao encontro destes, justamente no que tange ao resgate das experiências vividas por pessoas comuns – maioria delas trabalhadoras formais ou informais – que buscaram, em suas relações sociais do passado, melhorar suas condições de vida, de trabalho e, sobretudo, o seu enquadramento para com uma sociedade (local e nacional) com profundas desigualdades sociais.

Esta pesquisa surge, com certeza, das inquietações do presente e, o que este, nos dias atuais, nos diz. Referimo-nos, fundamentalmente, a luta dos professores gaúchos por melhores condições de salário e trabalho (basicamente) no seu exercício profissional. A partir desta realidade, buscam-se no passado – sobretudo na década de 30 – processos históricos análogos

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aquele supracitado. E, de lá – aqui o principal objetivo da pesquisa – verificar se os trabalhadores da construção civil daquele período adquiriram, também, uma consciência de pertencimento a uma classe e, se isto se confirmar, quais foram às formas pelas quais se organizaram de modo a reivindicar o que julgavam não estar de acordo com suas prerrogativas. Pretendemos com esta pesquisa o esclarecimento da seguinte hipótese: Se é verdade que a década de 30, na cidade de Santa Maria, caracterizou-se por um significativo aumento populacional e, conseqüentemente, do seu meio urbano a um modo capitalista de produção tardio, será que isto não acarretou uma constante exploração do trabalho, sobretudo aos trabalhadores da construção civil? Será que não foram estes através do suor de seus ofícios e, em longas e mal remuneradas jornadas de trabalho, que impulsionaram tal crescimento, em conjunto com outras classes de trabalhadores?

Demonstrar quais eram os principais ofícios destes trabalhadores, averiguar se havia significativas diferenças salariais entre tais ofícios e, principalmente, verificar se a prática de greve e o sindicalismo eram práticas comuns destes e, se possível – a título de comparação – de outros trabalhadores. Esclarecer o que reivindicavam e pelo que lutavam, bem como os motivos pelos quais se organizavam, também são objetivos desta pesquisa.

Em torno destes objetivos, ressaltamos, inicialmente, algumas concepções teóricas deste trabalho. Em texto intitulado “Notas sobre o Estado, a sociedade civil e os sindicatos”, Victor Manuel Durand Pontes aponta as melhores características acerca o cidadão2 e seu protagonismo

frente às questões relativas ao Estado e ao sindicato de forma geral. Para o nosso caso, além da questão do cidadão e de sua cidadania, é de grande relevância sublinhar o tipo de Estado - que será dito por nós como pós-30 em outras passagens do texto – e, principalmente, o contexto

2Esta questão nos parece ser bastante adequada a nossa concepção, pois, ao longo do texto a seguir a questão fundamental será o destaque de diversas particularidades oriundas de uma greve específica, localista e, ao mesmo tempo, regional. Por isso entendemos serem necessárias as palavras de Pontes (1981) esclarecendo que “Ao invés do cidadão isolado, que era dono de sua vontade, possuidor individual de mercadorias (embora não fosse mais que sua força de trabalho) dono de suas aspirações e valores, de seu desejo de triunfo e de riqueza – que aparecia frente ao Estado Liberal – aparecem agora, frente ao Estado intervencionista, as massas portadoras de interesses em comum (grifo nosso), particulares, constituído por homens e mulheres unificados voluntariamente – o que indica

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histórico a ele associado. Logo, no que tange ao Estado, o autor acima mencionado, referindo-se ao assédio das massas àquele explica que

[...] Face ao assédio das massas, o Estado tenta fazer frente à emergência da sociedade civil (nem sempre organizada, muitas vezes espontânea, sem projetos globais, ou seja, sem constituir-se numa posição hegemônica e, portanto, sem a possibilidade de alcançar ainda a dualidade de poder entre uma eventual posição hegemônica e o poder institucional do Estado) mediante o que Gramsci chamou de revolução passiva da burguesia, que implica numa maior expansão da atividade estatal, trata de intervir com maior ou menor êxito nas novas organizações ou movimentos, cooptar líderes, arrebatar bandeiras, corromper os movimentos, desprestigiá-los, dividi-los, enfrentá-los ou, no extremo, reprimi-enfrentá-los. Porém, ainda que triunfe ou consiga anular, desarticular ou cooptar estes movimentos ou organizações, não pode o Estado, por si só, impedir a difusão ampliada da política e conseqüentemente a politização das massas dentro da sociedade civil ainda atomizada – cujas manifestações vão se tornando cada vez mais imprevisíveis, tanto para o Estado como para o observador atento e, inclusive, para os próprios atores (PONTES, 1981, p. 164).

Em outras palavras, esta explicação sugere uma dicotomia que envolvia de um lado a lei e, do outro, a ação operária. Nesse sentido, outro importante texto (“Historiografia, trabalho

e cidadania no Brasil”) que embasa esta pesquisa, de autoria conjunta dos historiadores

Alexandre Fortes e Antonio Luigi Negro, considera que

Lei e ação operária apontavam para diferentes interpretações da idéia de direitos, mas a experiência histórica as integrava de maneira tensa e contraditória. Se a cultura de direitos estruturava a própria identidade operária, imaginar a “resistência” dissociada do plano institucional dos sindicatos, da lei e da “Grande Política” implicava isolar a “autonomia operária” no local de trabalho, o que, num certo sentido, reproduzia a exclusão dos trabalhadores como sujeitos, aspecto que marca as macronarrativas da história brasileira (FORTES; NEGRO; in FERREIRA; DELGADO, 2010, p. 184)

Portanto, este trabalho fará uma incursão no mundo do trabalho visto dentro de uma dinâmica de continuidades, compreendendo, dentre outras questões, a concepção de classe e consciência de classeem diferentes contextos e lugares, adequando-as aos nossos objetivos. Bem como a discussão referente ao Estado, aos sindicatos e a sociedade civil como um todo, na tentativa de se compreender, ao máximo, as principais questões que envolviam estes atores, desde o início do século XX, com seus movimentos e lutas, até precisamente o ano de 1935, ano este considerado chave para esta pesquisa.

Para tanto, adotamos como modelo metodológico a história comparativa, no que concerne ao destaque das peculiaridades regionais que emergirão, com maiores detalhes, ao longo desta pesquisa. Nesse sentido, Vera Alice Cardoso Silva no texto denominado

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a questão do “regionalismo como método de investigação e como concepção interpretativa” (SILVA in SILVA, 1990, p. 43). Uma das questões centrais dos estudos regionais, conforme

destaca a autora, envolve o seguinte aspecto: “O enfoque regionalista não pode limitar-se à

coleta de dados e a observação da dinâmica dos processos internos à região delimitada para o estudo. A interpretação compreensiva desta dinâmica depende da análise de sua inserção do

movimento global do sistema” (SILVA in SILVA, 1990, p. 44). Desta forma, aliado a uma

revisão bibliográfica sobre assuntos envolvendo o mundo do trabalho (Estado, sindicatos, trabalhadores, greves, etc.), bem como a análise da Constituição do Rio Grande do Sul de 1935 e do periódico jornal A Razão e da greve dos trabalhadores em construção por ele divulgada, pretendemos compreender as dinâmicas internas e as peculiaridades oriundas deste processo. Desta forma,

A história regional não substitui a história dos processos estruturais ou a história de mudanças sociais e políticas. Nem deve ser vista como fornecedora de subsídios que, somados, resultariam naturalmente em uma “História nacional” ou numa “História geral”. Mas, a História regional oferece elementos insubstituíveis para estudos comparativos e esta contribuição apenas a justifica e a torna necessária (SILVA in SILVA, 1990, p. 46).

Para tanto, a presente pesquisa foi organizada da seguinte forma: em primeiro lugar, o

capítulo intitulado “Sobre Classe e Consciência de classe: Por uma história de baixopra cima”

trata, sobretudo, de discutir e contrapor nossos principais referenciais teóricos com o objetivo de definir o tipo de consciência de classe que os trabalhadores da construção civil desenvolveram, durante a greve de 1935. No entanto, não será apresentada a greve em si neste capítulo, pois, além do objetivo acima apontado, terá um capítulo específico para tanto. Neste capítulo temos a intenção de dialogar sobre a importância de se considerar estes sujeitos – pedreiros, pintores, ajudantes, etc. –, dotados de um sentimento de pertencimento a uma classe, como agentes ativos da História, não vê-los somente como meras alegorias frente a um contexto específico.

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década. Também analisa algumas questões envolvendo a legislação social e, sobretudo, a constante luta dos trabalhadores por melhores condições de trabalho.

No capítulo final (“História e Região: Greves e seus contextos”) além de trabalharmos

detalhadamente a greve dos trabalhadores da Construção Civil de Santa Maria, também trataremos das peculiaridades deste movimento, considerando algumas características bastante específicas de Santa Maria no início da década de 1930, comparando, a greve, com outras movimentações ocorridas em diferentes regiões. Com isso busca-se ressaltar seus aspectos particulares em relação a outros casos de ocorrência semelhante. Para encerrar, serão tecidas algumas considerações tendo em vista alguns itens da Constituição do Estado do Rio Grande do Sul de 1935.

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2 SOBRE CLASSE E CONSCIÊNCIA DE CLASSE: POR UMA HISTÓRIA DE BAIXO PRA CIMA

Não seria nenhum exagero associar esta pesquisa como uma tentativa marxista de se compreender um período extremamente relevante à historiografia. Porém, desde a década de 1970, relevantes contribuições acerca o movimento operário vem sendo construídas. Tal fenômeno historiográfico se justificou – e, até hoje, se justifica – pelo fato de que, a teoria marxista, de um modo geral, não deu conta de diversos outros aspectos da História – aspectos estes que vão muito além de uma história somente econômica e política – e, por isso, muito

mais do que simples revisionismos foram produzidos: De fato, o marxismo ortodoxo ruíra justamente porque se julgava completo e totalizante. Por sua vez, em virtude de uma corrente historiográfica inglesa, caracterizada por uns como neomarxista - tendo em E. P. Thompson um

de seus principais representantes - consideramos o presente estudo nesta mesma perspectiva. Sendo assim, o que se viu de novo foi justamente isto. Ora, se a teoria social de Marx não conseguiu abarcar certas especificidades captadas por seus seguidores, por que, então, eles próprios não iriam dar novos significados para sua teoria? Porém, sejamos francos: há de se ressaltar o seguinte, “os marxistas (e não só eles) encaram de maneira muito variada a obra de Marx. As interpretações são numerosas, às vezes conflitantes, às vezes complementares” (NETTO, 1986, p. 27). Para o que compete ao presente estudo, salientamos que o que se seguirá no texto a seguir propõe discutir e contrapor autores que, de uma forma ou de outra, procuraram estabelecer um diálogo com a obra de Marx. Contudo, enfatizamos, novamente, que tal proposta se concentrará na discussão referente à classe e a consciência de classe.

Antes disso, no entanto, entendemos serem pertinentes algumas colocações acerca a História Vista de Baixo, como aquela denominada por Jim Sharpe3dentro da obra “A Escrita

da História” de Peter Burke. Em primeiro lugar, ressaltamos que esta pesquisa procura dar significado aos anseios e objetivos de um grupo de trabalhadores que, em um determinado período da História do Brasil – durante a década de 1930 – se colocaram em confronto com

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aquilo que julgavam estar em desacordo com suas prerrogativas. Estamos falando de pedreiros, pintores, carpinteiros, serventes, mestres de obras, enfim, que mesmo sendo pessoas comuns, lutaram de alguma forma para mudar suas condições de vida e de trabalho. É de comum acordo que, durante muito tempo, somente pessoas ditas como importantes ou com algum tipo de influência política ou econômica, ganhavam destaque na escrita da história. Ou seja, há bastante

tempo “a história tem sido encarada [...] como um relato dos feitos dos grandes. O interesse na

história social e econômica mais ampla desenvolveu-se no século dezenove, mas o principal tema da história continuou sendo a revelação das opiniões políticas de elite” (SHARPE in BURKE, 1992, p. 40).

No ensaio “A história de baixo pra cima”, escrito pelo historiador Eric J. Hobsbawm, publicado no livro “Sobre História”, o autor corrobora com Sharpe ao afirmar que “A maior parte da história no passado era escrita para a glorificação e talvez para o uso prático dos governantes”. Vai ainda mais além ao comentar que “o ramo prático da política da classe dominante, durante maior parte da história até o final do século XIX e na maioria dos países, poderia normalmente prosseguir sem muita coisa além de uma ocasional referência à massa da

população dominada” (HOBSBAWM, 1998, p. 216-217). Ainda de acordo com o pensamento

de Hobsbawm, “Para os marxistas, ou para os socialistas em geral, o interesse pela história dos

movimentos populares se desenvolveu com o crescimento do movimento operário” (HOBSBAWM, 1998, p. 218). É importante destacar que, consoante as palavras do autor, a seguinte generalização de que “a história dos movimentos e organizações que lideravam a luta dos trabalhadores e que, portanto, em um sentido real, “representavam” os trabalhadores

podiam substituir a história das próprias pessoas comuns” (HOBSBAWM, 1998, p. 219) deve

ser compreendida em parte, isto é, dentro das especificidades de cada contexto histórico que se pretende analisar. Tal preocupação parece-nos bastante significativa, tendo em vista que em muitos casos, “O historiador dos movimentos populares descobre apenas o que está procurando não o que já está esperando por ele” (HOBSBAWM, 1998, p.220).

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que significou a sua atuação no pós – 30, porque não colocar em destaque os indivíduos que, no suor de suas lutas, almejavam tantas outras coisas além de, por exemplo, um simples atendimento aos seus anseios por parte dos direitos trabalhistas que lhes foram concedidos?

Frente a esta problemática, cabe sublinhar a importância dos escritos de Edward Palmer Thompson, comentado por Josep Fontana, principalmente no que concerne ao aparato teórico desta pesquisa. Assim, conforme Fontana

Edward P. Thompson (1924 – 1993) tornar-se-ia famoso através de um livro que, inicialmente, fora pensado como uma síntese da história do movimento operário britânico, The making of the English working class4, e que acabou despertando o

entusiasmo de jovens historiadores inconformistas do mundo inteiro. O livro apresentou-se como profundamente inovador ao estabelecer a noção de classe como uma relação e ao interessar-se pelos mecanismos de formação da consciência coletiva; mas o era, principalmente, pela negação explícita de entender o marxismo como “um corpo auto-suficiente de doutrina completo, internamente consciente e plenamente realizado em um conjunto de textos escritos”. (FONTANA, 2004, p.334)

Esta colocação, no momento, caracteriza-se como uma questão introdutória a cerca das definições e questionamentos, que em virtude das peculiaridades e dos limites deste trabalho serão tratadas, ao longo do texto, mais detalhadamente.

Assim, para uma melhor compreensão desta pesquisa no que tange aos seus termos teóricos é necessário ressaltar, também, antes mesmo da própria teoria de uma consciência dita de classe, o que, por ventura, adotamos como conceito de classe. Assim, “Classe, na minha

prática, é uma categoria histórica, ou seja, deriva de processos sociais através do tempo. Conhecemos as classes porque, repetidamente, as pessoas se comportam de um modo classista” (THOMPSON, 1998, p.96). De todo modo, tal definição foi aprimorada durante o prefácio de sua obra clássica, publicada durante a década de 1960, tendo, como título original em inglês: The Making of the English Working Class. Logo, segundo Thompson

Por classe, entendo um fenômeno histórico, que unifica uma série de acontecimentos díspares e aparentemente desconectados, tanto na matéria-prima da experiência como na consciência. Ressalto que é um fenômeno histórico. Não vejo a classecomo uma “estrutura”, nem mesmo como uma “categoria”, mas como algo que ocorre efetivamente (e cuja ocorrência pode ser demonstrada) nas relações humanas (THOMPSON, 1987, p. 9).

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Ainda complementa tal definição acrescentando que a “classe acontece quando alguns homens, como resultado de experiências comuns (herdadas ou partilhadas), sentem e articulam a identidade de seus interesses entre em si, e contra outros homens cujos interesses diferem (e geralmente se opõem) dos seus” (THOMPSON, 1987, p. 10).

Nesse sentido, a título de complementação: “[...] a classe e o problema da consciência

de classe (grifo meu) são inseparáveis. Uma classe, em sua acepção plena, só vem a existir no

momento histórico em que as classes começam a adquirir consciência de si próprias como tal” (HOBSBAWM, 1987, p. 36). Esta visão apresentada pelo historiador Eric Hobsbawm no artigo “Notas sobre a consciência de classe” presente no livro “Mundos do Trabalho. Novos estudos

sobre História Operária”, embora aparentemente semelhante ao pensamento de Thompson,

diferencia-se em relação a ele em, pelo menos, um quesito: Conforme destaca o Professor Sergio Silva no texto “Thompson, Marx, os marxistas e os outros”, publicado em “As peculiaridades dos ingleses e outros artigos”, com organização de Antonio Luigi Negro e do próprio Silva,

Para Thompson, o proletariado não seria um resultado da industrialização, como aparece no jamais suficientemente estudado “Em busca da mais-valia relativa. E esta é certamente uma idéia central no seu pensamento, uma chave mestra para a compreensão das suas relações com o pensamento de Marx e da sua oposição radical às correntes dominantes do pensamento marxista (SILVA in NEGRO; SILVA, 1998, p. 61)

Desta forma, conforme observa o historiador Silva

[...] a classe operária de Thompson cometerá um verdadeiro sacrilégio para o pensamento marxista dominante: ela não será mais a herdeira social da burguesia, mas a herdeira das classes dominadas dos modos de produção anteriores, cujas lutas ela continuará, sob novas formas, nas condições de dominação do capital (SILVA in NEGRO; SILVA, 1998, p. 65-66)

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Operária” autoria de Michel Thiollent (doutor em sociologia pela Universidade de Paris).

Assim, conforme Trentin

Não há classe “pura” que exprima de modo unívoco sua vocação histórica. Na realidade, a classe operária está em formação continuada; trata-se de um dado “em construção em sua estrutura interna, em seus aspectos subjetivos, as tradições culturais diferentes e contraditórias que aí se desenvolvem, nas ideologias impregnadas de contaminações recíprocas agindo em seu interior. [...] Trata-se, pois, de redescobrir coletivamente (em uma relação estreita e nova entre pesquisadores profissionais, grupos organizados e trabalhadores e militantes sindicais), evitando os esquemas pré-constituídos pelos “especialistas”, o laço existente no calor do afrontamento de classe, entre os impulsos objetivos movendo-se de uma experiência coletiva e organizada de trabalhadores com o condicionamento da cultura e das tradições se gravando sobre esta experiência, e, enfim, a influência das diferentes ideologias agindo no seio da classe operária por inumeráveis combinações, por vezes até misturadas entre si (TRENTIN in THIOLLENT, s/a, p. 260-261)

Esta definição foi concebida tendo em vista a experiência de lutas operárias na Itália e, mais particularmente, no coração da estrutura industrial do país, em Turim e no Piemonte. Em outras palavras, a classe de trabalhadores que naquele contexto específico foi se conhecendo e, ao mesmo tempo, constituindo, desenvolveu – conforme o autor em um processo constante – uma consciência de classe plena. Neste ponto, a dita consciência oriunda deste processo, converge com o problema da discussão sobre o conceito de classe que Hobsbawm defende. Segundo o historiador, “a consciência de classe é um fenômeno da era industrial moderna” (HOBSBAWM, 1987, p. 38). Ou seja,

[...] no capitalismo a classe é uma realidade histórica imediata e em certo sentido

vivenciada diretamente, enquanto nas épocas pré-capitalistas ela pode ser meramente

um conceito analítico que dá sentido a um complexo de fatos que de outro modo seriam inexplicáveis. [...] Para determinados propósitos, não precisamos nos preocupar com a heterogeneidade interna de cada classe, como, por exemplo, quando definimos determinadas relações cruciais entre classes tais como as que se dão entre patrões e trabalhadores (HOBSBAWM, 1987, p.39).

Logo, a diferença substancial no interior da historiografia inglesa discutida anteriormente encontra-se no fato de Thompson conceber a consciência de classe em sociedades pré-capitalistas o que, por sua vez, para Hobsbawm – até mesmo pela sua especificidade em estudos de ordem econômica – não se caracterizaria uma plena consciência destes trabalhadores, embora reconhecendo que, segundo suas palavras, “Se tentarmos olhar para a consciência das camadas sociais nos períodos pré-capitalistas, iremos, portanto, nos deparar

com uma situação de certa complexidade” (HOBSBAWM, 1987, p. 39). No entanto, é bastante

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baixas” ou “classes subalternas” será fragmentada em segmentos sociais ou outros, mesmo quando sua realidade social for de cooperação econômica e social, e de ajuda mútua, como no caso de inúmeros tipos de comunidades de aldeia” (HOBSBAWM, 1987, p.41).

Neste caso, esta preocupação com as comunidades de aldeia, típicas de um ambiente rural europeu, ainda pouco ou nada influenciado pela indústria moderna (urbanização, concentração do trabalho em fábricas, etc.) levanta outra questão fundamental de seu pensamento: a diferenciação entre proletariado e camponeses. A nosso ver é essencial sublinhar tal distinção, proposta por Hobsbawm, destes grupos, pois se trata de um recorrente erro em pensar tais camadas sociais como equivalentes dentro do processo histórico considerado. Assim, conforme o renomado historiador

Os camponeses, que também são uma classe historicamente subalterna, exigem que mesmo a mais elementar consciência de classe ou organização em escala nacional (isto é, politicamente eficaz) lhes seja importados de fora, enquanto as formas mais elementares de consciência de classe, ação de classe e organização tendem a desenvolver-se espontaneamente dentro da classe operária (HOBSBAWM, 1987, p. 49).

Nesse sentido, Hobsbawm acrescenta que “Os movimentos proletários [...] se basearam

na explícita consciência e coesão de classe” (HOBSBAWM, 1987, p. 46). Por outro lado,

[...] a classe operária, como o campesinato, é constituída quase que por definição por pessoas que não podem fazer coisas acontecerem exceto coletivamente, embora, ao contrário dos camponeses, sua experiência de trabalho demonstre todos os dias que eles devem agir coletivamente ou não agir de forma alguma (HOBSBAWM, 1987, p. 47).

Contudo, conforme explica Eric Hobsbawm, “Cada classe possui dois níveis de aspirações, ao menos até que se torne politicamente vitoriosa: as exigências específicas, imediatas, do dia-a-dia, e as exigências mais gerais pelo tipo de sociedade que lhe convém” (HOBSBAWM, 1987, p. 47). De todo modo, conforme distingue o autor, “a consciência de classe operária em ambos os níveis implica organização formal; e uma organização que seja ela mesma a portadora da ideologia de classe, que sem ela seria um pouco mais que um complexo de hábitos e práticas informais”. Complementa acrescentando que “A organização (o

“sindicato”, o “partido”, ou “movimento”) torna-se assim uma extensão da personalidade do

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como objeto de pesquisa alguns trabalhadores de origem, sobretudo, camponesa como objeto de seus estudos. Assim, conforme Eric Hobsbawm

Os camponeses são mais realistas que muitos rebeldes de ultra-esquerda. Sabem perfeitamente quem irá matar quem, no caso de decorrência de um confronto. E, o que é mais importante, sabem quem não pode fugir. Sabem que as revoluções podem acontecer, mas também sabem que seu sucesso não depende deles em sua aldeia específica (HOBSBAWM, 1998, p. 227).

Após algumas reflexões acerca das possibilidades de apreensão de uma consciência de classe, por parte de diferentes tipos de trabalhadores, apresentada pelo pensamento de Hobsbawm, ao menos uma observação pode ser feita. É extremamente importante considerar que os escritos deste autor centram-se em aspectos econômicos e sociais que se caracterizam, de alguma forma, pela crescente necessidade de dar mais valor as relações econômicas de produção, considerando-a como central para a formulação de seus escritos. Por sua vez, não deixa de lado aspectos culturais, também bastante perceptíveis nas organizações destes trabalhadores. Contudo, não nos interessa tais feitios culturais nesta pesquisa. Mesmo assim, consideramos a questão da cultura como determinante no pensamento de Thompson e o que, sobretudo, o diferencia dos estudos de Eric Hobsbawm.

Ao considerarmos tais colocações como uma crítica implícita aos escritos de Thompson, devemos, no entanto, demonstrar de que forma tal autor contempla suas discussões, tendo em vista a recente referida diferença entre o pensamento de ambos os pesquisadores.

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consciência dita de classe, surge, dentro do radicalismo popular, através de uma “cultura intelectual” (THOMPSON, 1987, p. 303). Complementa, acrescentando que, na Inglaterra, “a primeira metade do século 19, quando a educação formal de grande parte do povo se resumia a ler, escrever e contar, não foi absolutamente um período de atrofia intelectual” (THOMPSON, 1987, p. 303 – 304). Pelo contrário,

As vilas, e até as aldeias, ressoavam com a energia dos autodidatas. Dadas as técnicas elementares de alfabetização, os diaristas, artesãos, lojistas, escreventes, e mestres-escolas punham-se a aprender por conta própria, individualmente ou em grupo [...] aqui e ali, líderes radicais locais, tecelões, livreiros, alfaiates reuniriam pilhas de periódicos radicais e aprenderiam a usar as publicações oficiais do Parlamento; [...] Assim, a partir de sua experiência própria e com o recurso à instrução errante e arduamente obtida, os trabalhadores formaram um quadro fundamentalmente político da organização da sociedade. (THOMPSON, 1987, p. 304)

Enfim, encerra afirmando que “De forma nenhuma o analfabetismo (devemos lembrar)

excluía os indivíduos do discurso político.” (THOMPSON, 1987, p. 304). Desta forma, cabe

sublinhar a preocupação do autor em evidenciar uma classe preocupada com questões políticas, de um engajamento em ações voltadas para além de meras melhorias sociais. Em outras palavras, o conceituado historiador britânico defende uma consciência, sobretudo política daqueles trabalhadores, tendo em vista a formação intelectual (mesmo sendo na maioria autodidatas) de grande parte daqueles indivíduos, em uma sociedade industrial ainda em formação.

De todo modo, algumas questões referentes à classe e a consciência de classe, se colocadas à luz do pensamento marxista, podem sugerir uma relação direta tanto de Thompson como de Hobsbawm, com um conceito fundamental da obra de Marx: a noção de “luta de

classes”. Como salienta J. Luiz Marques “a categoria de “luta de classes” é a chave da teoria

da história proposta pelo marxismo” (MARQUES, 1992, p.28). Portanto, como atesta Thompson,

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descobrem a si mesmas como uma classe, vindo, pois, a fazer a descoberta da sua consciência de classe. Classe e consciência de classe são sempre o último e não o primeiro degrau de um processo histórico real (THOMPSON in NEGRO; SILVA, p. 274)

Thompson acrescenta ainda que “A questão é que não podemos falar de classes sem que as pessoas, diante de outros grupos, por meio de um processo de luta [..] entrem em relação e oposição sob uma forma classista, ou ainda sem que modifiquem as relações de classe herdadas,

já existentes” (THOMPSON in NEGRO; SILVA; p. 274). Esta concepção de classe nos parece

adequada ao relacionarmo-la com o objeto desta pesquisa: os grevistas trabalhadores da construção civil de Santa Maria – RS durante os primeiros anos da “Nova República”, sobretudo, o período entre 1930 e 1935. A análise de tal objeto será feita no terceiro capítulo, no entanto, neste momento é interessante destacar que a principal fonte utilizada para tanto será o periódico A Razão, que vincula a greve a partir de janeiro de 1935.

Até agora o que pôde ser colocado em discussão demonstrou, de alguma forma, que uma tradição historiográfica deste porte sustenta uma variedade de visões que buscam complementarem - se entre si, destacando suas verdades e apontando suas deficiências. De todo modo, a leitura que é apresentada aqui não é inédita. De fato, como já enunciado neste texto em suas primeiras linhas, pelo menos, desde os anos 19705, importantes publicações se preocupam

em abordar a questão da consciência de classe de diferentes grupos e contextos de trabalhadores.

Assim, em uma delas, o psicólogo e psicanalista alemão, Wilhelm Reich, ao tratar das duas espécies de consciência de classe, explica que “A aquisição da consciência de classe pelas camadas oprimidas da população é a primeira condição para uma transformação revolucionária do sistema social em vigor” (REICH, 1976, p. 12). Logo, ao considerarmos este pensamento introdutório do autor, não demoraremos a perceber que suas visões – esta e as que demais virão no decorrer do texto – apresentam um modo bastante peculiar de interpretação do pensamento

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marxista: a organização revolucionária (tanto de partido políticos como os trabalhadores). Assim, explana que

[...] a necessidade de um “partido revolucionário”, de uma direção revolucionária no pleno sentido da palavra, está muito bem colocada, mas é negada a existência de uma consciência de classe do proletariado [...] Se o proletariado, por si próprio, isto é, pelo jogo das forças sociais naturais, não fosse de modo nenhum à “luta final”. Incapazes de pensar para além de seus dogmas e de suas teses crêem, com um fervor quase religioso, nas forças revolucionárias espontâneas (REICH, 1976, p. 13).

Não obstante, completa:

A classe operária cria, pois, a partir da sua situação uma “consciência”, insuficiente é certa, para abalar a dominação do capital (para isso é preciso um partido solidamente organizado), mas que comporta talvez formas embrionárias ou elementos do que se chama consciência de classe ou consciência revolucionária (REICH, 1976, p. 14).

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Em outra parte deste mesmo texto, o conceituado estudioso compara “[...] Se sempre se afirmar que [a consciência de classe] tem de se apoiar nas “necessidades cotidianas” nós

perguntamos então: será “desenvolver a consciência de classe” exigir a instalação de

ventiladores numa empresa? (REICH, 1976, p. 16). Através desta colocação percebemos que o psicanalista, mesmo que implicitamente, não considera importante ou – mais correto – decisivo as necessidades cotidianas dos trabalhadores para se atingir um nível, mesmo que bastante preliminar, de uma consciência de classe. Tal entendimento parte de sua convicção em destacar, o que entendemos não passar de um conceito em seus estudos, a questão da revolução. Assim,

conforme o autor “A política marxista revolucionária tem até agora partido do princípio de que

existe uma consciência de classe perfeita no proletariado, pronta a manifestar-se, sem ser capaz de analisar em pormenor e concretamente” (REICH, 1976, p.17). Assim, defende ainda que “A consciência de classe das massas [...] apresenta-se antes sob a forma de elementos concretos que em si próprios ainda não são consciência de classe (a fome por exemplo) mas que poderiam produzi-la ao reunirem-se” (REICH, 1976, p.18).

Se, conforme o Reich, aspectos da vida cotidiana dos trabalhadores pouco ou nada contribuem para a formação de uma consciência, por que, então o mesmo afirma que “a consciência de classe das mais vastas massas é inteiramente de tipo pessoal. [...] é feita do

pequeno, do quotidiano, do banal” (REICH, 1976, p.19). Essa indagação é, a nosso ver, uma

questão bastante complexa, pois, como será demonstrado ao longo da pesquisa, os trabalhadores da construção civil, através do mecanismo de uma paralisação (greve) defendiam melhorias em suas condições de trabalho que envolvia aspectos de seu cotidiano. Ao defenderem uma melhor remuneração, por exemplo, fica implícito que, com o que ganhavam, não conseguiam satisfazer, por completo, suas necessidades cotidianas como alimentação, moradia, medicação, dentre outras coisas.

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que, de uma forma ou de outra, lutaram para que o contexto no qual se encontravam inseridos pudessem lhes favorecer de alguma forma.

Logo, Wilhelm Reich, referindo-se aos trabalhadores adultos, afirma que

O trabalho coletivo na empresa é incontestavelmente a fonte mais importante do sentimento de classe. Mas ser proletário, trabalhar numa empresa e estar sindicalizado não significa ter consciência de classe, embora as duas coisas sejam condições necessárias (REICH, 1976, p. 39-40).

Para este mesmo autor, a consciência de classe só será plena se a mesma se relacionar, direta ou indiretamente, com uma “revolução social”. Segundo Reich

A revolução social propõe, entre outras coisas, socializar as grandes empresas, quer dizer, confiá-las ao controle dos trabalhadores. É necessário que cada um deles tome consciência que a empresa e sua direção lhe pertencem exclusivamente, baseando-se no seu trabalho. [...] só assim os empregados podem sentir interesse pela revolução social [...] É isto e só isto que se chama “despertar a consciência de classe”. [...] Assim comprometido com o trabalho concreto, cada trabalhador sentir-se-á verdadeiramente dono da empresa; já não considerará o empresário como u distribuidor de salários, mas como um explorador da sua força de trabalho; [...] É isto a consciência de classe: se ele (o trabalhador) se puser em greve será não só por solidariedade sentimental, não só por fidelidade aos chefes sindicais, mas pelos seus próprios interesses, e doravante nenhum dirigente poderá traí-lo (REICH, 1976, p. 91-92)

Esta conclusão apresentada pelo autor deve ser relativizada. Em primeiro lugar, não acreditamos que os trabalhadores da construção civil de Santa Maria na década de trinta pretendessem realizar uma revolução social, muito menos tinham a intenção de se apropriarem das edificações que estariam construindo para algum empresário da construção civil. Contudo, tinham plena consciência que sua forçade trabalho vinha sendo constantemente explorada e era justamente contra isso que lutavam. Eis aí outro aspecto singular do nosso objeto de pesquisa: Em síntese, os trabalhadores imersos nestas obras de construção realizaram uma greve tendo em vista suas necessidades, não uma revolução que pudesse, inclusive, dar fim aos problemas oriundos da relação capital/trabalho. Assim, para encerrar, retomamos o pensamento do historiador Diorge Konrad que define:

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Em síntese, o conceito mais apropriado de consciência de classe, para o nosso caso específico, encontrou no pensamento de Konrad uma profunda semelhança. De todo modo, relaciona-se com a visão de classe que, então, adotamos como definitiva para esta pesquisa. Assim, conforme Thompson

A classe se delineia segundo o modo como homens e mulheres vivem suas relações

de produção e segundo a experiência de suas situações determinadas, no interior do

conjunto de suas relações sociais”, com a cultura e as expectativas a eles transmitidas

e com base no modo pelo qual se valeram dessas experiências em nível cultural. [...] Na história, nenhuma formação de classe específica é mais autêntica ou mais real que outras. As classes se definem de acordo com o modo como tal formação acontece definitivamente (THOMPSON in NEGRO; SILVA, 1998, p. 277).

Em suma, os interesses de classe dos trabalhadores da construção civil de Santa Maria no pós- 30 se encontram intimamente relacionados com a consciência de classe determinada por uma sociedade capitalista de produção. Isto é, Thompson nos definiu o melhor caminho para a compreensão de classe. Mas a experiência e a consciência de classe, em seus termos mais definitivos e adequados a esta pesquisa, aproxima-se, em maior ou menor grau, ao pensamento de Hobsbawm e Konrad, conforme já demonstrado por esta pesquisa.

De todo modo, toda a discussão deste capítulo foi necessária, pois, além deste conceito ser central, como será demonstrado ao longo da pesquisa, ela contribui para esclarecer que cada processo histórico pode ser específico mesmo que, ao mesmo tempo, ele aconteça em diversos lugares, sobre diferentes e, às vezes, semelhantes aspectos em comum. Os anos 1930 foram importantes para uma mudança no que compete ao Estado em si, aos sindicatos e, principalmente, aos trabalhadores em questão. E, por isso, pensar a classe como linear, antagônica e pouco representativa, é um erro crescente que estamos tentando esclarecer. Além disso, as lutas, as reivindicações e as organizações, com seus movimentos específicos, aconteceram desde pelo menos o início do século XX, por isso mesmo sabendo da importância deste fator, vemos diversas classes, nem sempre com interesses em comum, dividida por indústria ou profissões, lutando cada uma por resolver os problemas que lhe atingiam dentro de uma sociedade marcada pela exploração do trabalho.

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Os virtuosos anos 30 por sua magnitude e complexidade e, também – como subentende o subtítulo acima – por sua grandiosidade e variedades de temas oriundos deste importante marco temporal na historiografia brasileira, obriga-nos a limitarmos, neste segundo capítulo, nossa discussão em duas questões centrais: o processo de formação dos sindicatos atrelados ao Estado brasileiro que emerge neste período, bem como um processo de movimentação operária iniciado durante as décadas anteriores, isto é, ainda no início do século 20.

Desta forma, nos interessa, sobretudo, discutir a questão do trabalho e a movimentação dos trabalhadores em termos de ações organizacionais (sindicatos e greves principalmente), tendo em vista que isso implica o reconhecimento de que, para tanto, o movimento operário na Primeira República, foi de vital importância para a construção de uma política trabalhista voltada à consolidação dos direitos dos trabalhadores. Também, caracterizou-se por uma atitude combativa frente às questões sociais que julgavam ser encaradas frente ao Estado ou aos patrões.

Em “O que está vivo no Marxismo” publicado em 1992, em seu estudo “O marxismo. Passado e Presente”, J. Luiz Marques afirma que “pensar o contexto “trabalho”, historicamente, é localizar o trabalho e o trabalhador numa época específica” (MARQUES, 1992, p. 48). Assim, utilizando esta convicção, partimos do pressuposto que o sindicalismo dos anos 30 é fruto de uma herança de lutas e anseios dos trabalhadores, em parte, do início do século XX e, principalmente, de meados da década de 1910 até fins da década seguinte. Por sua vez, muito do que aconteceu durante os anos iniciais do século 20 assemelhou-se com um movimento ainda mais amplo, de dimensões internacionais. Nesse sentido, consoante ao pensamento de Carone

A partir de sua origem, principalmente após 1890, a ação do operário brasileiro reflete boa parte da complexidade ideológica e organizatória de seu congênere europeu. Falamos aqui em influência de qualidade, não de quantidade: da existência de várias ideologias e organizações sindicais e partidárias, não que o movimento operário brasileiro seja extenso e importante como o do velho continente. [...] Se quisermos usar de uma metáfora, podemos dizer que o movimento operário vem ao Brasil “empacotado”: nada é original, nada é sui-generis. Formas de organização e

teoria, tudo, tudo, nos vem como herança de fora. (CARONE, 1984, p. 05)

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diferenciam os tipos de ações sindicais, definindo mais adequadamente, suas características e funções. Assim, conforme o historiador Claudio Batalha, “O Brasil do final do século XIX assistiu ao surgimento de uma série de grupos socialistas, a começar pelo círculo socialista fundado em Santos (SP) em 1889, seguido pelo Partido Operário criado na capital federal no ano seguinte” (BATALHA, 2000, p. 21). Mesmo assim, até os anos 1930 proliferou uma sucessão de partidos socialistas de duração efêmera, conclui o autor.

Em termos de reivindicações, a maioria desses partidos

Defendia um programa de reformas (voto secreto, ampliação do direito de voto, revogabilidade dos mandatos, jornada de oito horas, criação de tribunais arbitrais entre patrões e empregados, proibição do trabalho de menores de 14 anos, restrição ao trabalho noturno, direito de greve etc.) e pretendia concretizá-lo por meio de pressões e da eleição de seus representantes. (BATALHA, 2000, p. 22)

Contudo, tal projeto inviabilizava-se, na medida em que o sistema eleitoral da Primeira República – voto aberto e eleições controladas pelos partidos situacionistas – dificultava enormemente esse projeto. Para agravar ainda mais tal situação, os socialistas jamais alcançaram uma unidade duradoura em uma organização nacional única.

Em um segundo plano – talvez até mais engajado e combativo – destacaram-se, neste contexto dos primeiros anos da República, os anarquistas. Segundo o professor Claudio Batalha, “o anarquismo no Brasil começou a se difundir, sobretudo a partir dos anos 1890, através de grupos de propaganda e periódicos, que atingiam um público mais amplo” (BATALHA, 2000, p. 23). A participação ativa dos anarquistas envolvia, quase sempre, grupos de propaganda bastante informais, publicando periódicos, atuando na educação dos trabalhadores e participando de associações diversas no meio operário, inclusive nos sindicatos. De acordo com Hobsbawm “[...] o anarquismo foi mais que um mero movimento político, e tendeu a ter algumas características de uma conversão ativa, uma mudança por inteiro no modo

de vida de seus militantes” (HOBSBAWM, 1998, p. 224).

Logo, o ideário comum dos anarquistas “passava, entre outros aspectos, pelo antiestatismo, pelo federalismo, pela recusa da luta político-parlamentar, pelo anticlericalismo

e pela rejeição de qualquer forma de opressão sobre o indivíduo.” (BATALHA, 2000, p. 24).

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já foi explicada melhor, mesmo que em uma linguagem mais metafórica, em um artigo publicado pelo italiano Pedro Gori em 1911 – intitulado “O anarquismo evolucionista” – tal texto foi compilado por Edgard Carone no livro “Movimento Operário No Brasil (1877 –

1944)” de Edgar Carone (1984). Nesse sentido, acreditamos serem relevantes as seguintes

observações sobre propriedade individual, trabalho e educação, vista por uma ótica anarquista, apresentada por Gori:

A propriedade individual, como afirmou Elleró, é a funesta geradora de todos os crimes. Mas se hoje, sendo privilégio exclusivo de poucos e a causa de misérias morais e materiais, amanhã, quando a sociedade a possuir em comum, ela se transformará, naturalmente, em base econômica da solidariedade universal. Em poucas palavras, se a propriedade privada é a base da ordem natural (ou seja, uma verdadeira desordem) a propriedade social será a base da nova ordem, de íntegra ordem [...] O trabalho será dividido segundo as aptidões, a capacidade e a inteligência de cada um, sendo respeitado tanto o trabalho do médico, do engenheiro, do maestro, como do o operário. [...] Cada homem é filho da educação e instrução que recebeu quando criança. A educação do coração formará bos homens; a do cérebro iluminá-los-á fazendo desaparecer as trevas da ignorância que são a primeira inimiga da liberdade. Deste modo poderá se desenvolver mais nos homens o sentimento da fraternidade e do amor que unirá todos os trabalhadores numa só família feliz e tranqüila, e o brutal egoísmo cederá o lugar à solidariedade para o bem-estar comum. (GORE in CARONE, 1984, p. 345-346)

Tais questões, vistas por um ângulo, poderiam parecer desconexas para esta monografia se não fossem colocadas, a título de comparação, no campo da luta sindical promovidas entre os primeiros anos do século XX e se estendendo, pelo menos, até 1935 (ano em que a Greve dos Trabalhadores da Construção Civil de Santa Maria é deflagrada). Tal prática sindical foi dividida, conforme Batalha, em duas concepções essenciais: o sindicalismo de ação direta e o sindicalismo reformista. O primeiro tipo de prática sindical, de acordo com o autor

[...] fundava-se na rejeição de intermediários no conflito entre trabalhadores e patrões; na condenação da organização partidária parlamentar; na proibição da existência de funcionários pagos nos sindicatos; na adoção de direções colegiadas e não hierárquicas; na reprovação dos serviços de assistência nos sindicatos; na recusa da luta por conquistas parciais; na defesa da greve como principal forma de luta, apontando para a greve geral (BATALHA, 2000, p. 29).

Quanto ao segundo modelo (sindicalismo reformista) o autor tece as seguintes considerações:

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mesmo que parciais, em qualquer movimento. [...] Mas a idéia de que toda conquista obtida era provisória, podendo ser revertida em um momento menos favorável, conduziu esse sindicalismo à defesa da consolidação dos ganhos do movimento operário através de leis. Além disso, ao contrário do sindicalismo de ação direta, o sindicalismo reformista não condenou a participação política e em diferentes momentos apresentou candidatos operários às eleições legislativas (BATALHA, 2000, p. 33).

Estas concepções são de extrema importância porque nos ajudam a compreender melhor a própria função de um sindicato. Assim, depois de feita as devidas diferenciações existentes entre estes termos recentemente referidos, temos que ter em vista que “o sindicato [...] pode ser definido como uma associação voluntária de caráter permanente destinada a defender, frente aos empregados ou ao Estado, os interesses de trabalhadores assalariados de uma mesma

profissão ou de uma mesma indústria.” (RODRIGUES in FAUSTO, 2004, p. 509). Além disso,

é de extrema importância sublinhar que a consolidação do sindicato em território nacional, no pós – 30 caracterizou-se por algumas diferenciações estruturais dentro do âmago do sindicalismo do início do século XX. Vejamos o que o cientista político e sociólogo, Leôncio Martins Rodrigues, sustenta acerca das peculiaridades do caso brasileiro frente ao sindicalismo do qual estamos falando:

No caso brasileiro, o reconhecimento do sindicato, sua implantação e a formação de um sindicalismo de massa resultaram antes da ação de outros grupos políticos os quais, ao mesmo tempo em que passavam a controlar a organização sindical, a impuseram ao patronato como os únicos representantes legais dos trabalhadores. Com isso, o Estado, ao contrário dos países da velha industrialização, passou a ser o principal interlocutor das camadas assalariadas. O sindicato, por sua vez, transformou-se numa associação cuja existência e desenvolvimento independem, em larga medida, do apoio a ela prestado pelos trabalhadores. (RODRIGUES in FAUSTO, 2004, p. 510)

Eis, aí, um aspecto muito singular destas associações de socorros mútuos: trata-se, essencialmente, de uma prática sindical voltada para a emancipação, em longo prazo, de uma legislação trabalhista que lhes assegurassem os direitos e, também, os deveres básicos destas classes trabalhadoras. Isto é, durante a década de 30, período onde a questão trabalhista começa a entrar nas discussões dos governantes de forma mais acentuada, tal tendência torna-se muito relevante nos limites desta pesquisa. Nas palavras de Petersen, confirmam-se tais preceitos:

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Assim, o atrelamento dos trabalhadores ao Estado aconteceu muito em virtude – e isso já vinha sendo a algum tempo – do atendimento e priorização das conquistas de direitos civis e sociais. Conforme a historiadora Schneider, “os primeiros anos da república marcaram também

o início das lutas por direitos sociais” (SCHNEIDER, 2011, p. 11). Visão compartilhada pelo

Historiador e Professor Diorge Alceno Konrad

A separação entre direitos sociais e direitos civis, priorizando e evidenciando aqueles, foi uma constante nos discursos governamentais entre 1930 a 1937, o que levava o governo a ampliar a sua base de apoio junto aos trabalhadores. Por sua vez, boa parte dos trabalhadores e movimentos sindicais foi compreendendo que, numa realidade destituída de direitos sociais, as novas conquistas oriundas da legislação trabalhista, reivindicação de tantos anos, representavam conquistas históricas substanciais (KONRAD in MILDER, 2008, p. 147)

Aparentemente, um olhar desprovido de crítica, sugeriria, então, que a década de 30 se caracterizaria, principalmente, por uma conduta, por parte do governo Vargas, de solidariedade frente às melhorias na condição de vida e trabalho dos trabalhadores de um modo geral e, principalmente, aqueles que se sindicalizavam. Contudo, esta visão não é hegemônica. Assim, antes de qualquer coisa, serão necessárias algumas reflexões sobre tal contexto histórico do país. Não é nosso intento – afinal romperia com os limites desta pesquisa – analisar o movimento de 1930 e suas bases sociais. Desta forma, como salienta Rodrigues

Para nossos fins, basta assinalar que, com Vargas, ocorre uma mudança radical no comportamento do governo frente à “questão social”. O fato fundamental, que determinaria os rumos futuros do sindicalismo brasileiro e do padrão de relacionamento entre as classes, é o abandono de uma posição liberal em favor de outra intervencionista (grifo nosso). [...] A interferência governamental na esfera das

relações do trabalho e da vida associativa profissional efetuou-se paulatinamente no transcorrer da década de 1930, mediante a adoção de um conjunto de medidas referentes à organização sindical de um lado, e às leis de proteção ao trabalhador, de outro. (RODRIGUES in FAUSTO, 2004, p. 511)

Enganam-se, porém, aqueles que por ventura pensam que tal período histórico não correspondeu a um cenário de constantes lutas, do lado dos trabalhadores, e repressão, por parte do Estado brasileiro da década de 1930. Até porque, o sindicalismo que emerge pós – 30 carregava consigo desde o período conhecido como Primeira República (1889 – 1930), este espírito de lutas e mudanças sociais. Nas palavras de Schneider

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importância para a formação de um movimento operário (SCHNEIDER, 2011, p. 12)

O panorama proposto de lutas de classes estava, desde pelo menos o início do século XX, sendo construído a cada reivindicação, a cada greve, a cada movimento organizado de trabalhadores que almejavam não somente melhorias sociais, mas, sobretudo, no que tange a uma participação mais afetiva nas questões que envolvessem a organização deste Estado, pois, afinal

Os primeiros anos do século XX reuniram algumas condições favoráveis à eclosão de movimentos reivindicativos dos trabalhadores: por um lado, uma conjuntura econômica propícia à obtenção de ganhos, [...] por outro, a proliferação de organizações operárias voltadas para a resistência, isto é, para a luta sindical. Em alguns casos essas organizações surgiram em decorrência de movimentos grevistas, em outros precederam as greves; em todo o caso, nasceram em momentos de mobilização das categorias que as criaram (BATALHA, 2000, p. 39).

Desta forma, o que ocorreu durante este período e se acentuando nos anos 30 foram motivos de, no mínimo, preocupação e alerta para a real força da classe operária no que concerne a efetivação de um projeto alternativo de poder político e social, diferente daquele que até então vinha sendo proposto pelo Estado brasileiro naquela conjuntura. Por isso que, conforme Konrad,

No cenário da luta de classes, foi preciso construir uma hegemonia na qual a correlação de forças deveria impedir que os trabalhadores tivessem um projeto alternativo de poder político e social que passava, intrinsecamente, por novas conquistas de direitos políticos. Qualquer reivindicação nesse sentido, sempre foi tratada pelos que dominavam o aparelho de Estado como “subversão da ordem”. Assim, a vigilância, a repressão e a criminalização dos movimentos sociais e políticos de oposição se tornava intensa, inclusive para limitar o alcance dos próprios direitos sociais reivindicados (KONRAD in MILDER, 2008, p. 147).

Visão compartilhada por Leôncio Rodrigues no estudo “Sindicalismo e Classe Operária (1930 – 1964), publicado no livro “História Geral da Civilização Brasileira. O Brasil

Republicano. Sociedade e Política (Vol. 3)”, sob direção de Boris Fausto. Nesta publicação, o

renomado autor esclarece que

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tratava-se não apenas de reprimir mas de atender algumas das reivindicações básicas dos grupos de trabalhadores (jornada de oito horas; lei de férias, etc.); em segundo lugar, o governo não se propôs simplesmente a proibir a atividade sindical mas a controlá-la (RODRIGUES in FAUSTO, 2004, p. 520).

Em suma, “com o desenvolvimento do modo de produção capitalista no país e a

formação da classe operária brasileira, a “questão social” tornou-se um problema concreto,

colocando a luta de classes em níveis diferenciados entre as diversas regiões” (KONRAD in MILDER, 2008, p. 151), caracterizando-se, completa o autor, pela radicalização crescente entre o capital e o trabalho. Tal relação será explorada logo a seguir, no subtítulo subseqüente.

3.1 A POLÍTICA DO GOVERNO VARGAS PARA OS TRABALHADORES: NOTAS SOBRE LEGISLAÇÃO SOCIAL, REPRESSÃO OPERÁRIA E O NOVO SINDICALISMO

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operário brasileiro no decorrer do tempo têm constituído diversas interpretações para os

pesquisadores do tema. Assim, “durante longo tempo acreditou-se que o perfil do trabalhador

mantinha certa dualidade: estrangeiro e politizado na República Velha e rural e conformado no período pós Revolução de 30” (SCHNEIDER, 2011, p. 07).

Desta forma, pretendemos discutir – dentre outras coisas – se este conformismo do trabalhador brasileiro verificou-se, de fato, durante o recorte histórico desta pesquisa, tendo em vista a preocupação deste trabalho que, também, se caracteriza na discussão do sindicalismo e – como veremos no próximo capítulo – na atuação dos sindicatos de trabalhadores durante os anos 30, em especial, aquele que representava os trabalhadores da Construção Civil de Santa Maria – RS. Além disso, alguns contrapontos serão construídos na tentativa de – já adiantando – (re) construir esta visão de passividade dos trabalhadores, bem como destacar o papel do Estado frente à questão trabalhista: repressivo? Conciliador? Ou ambos? Tais perguntas serão discutidas na tentativa de se observar como foram se constituindo as relações entre Estado, sindicatos e trabalhadores até, aproximadamente, 1935.

Antes disso, porém, acreditamos serem necessários alguns apontamentos sobre o Estado brasileiro que emerge no pós 30, no intuito de se compreender melhor o contexto ao qual estamos nos referindo. Segundo a historiadora Kate Mariana Schneider, “a partir da chamada “Revolução de 1930” foi instalado um governo que tratou de dar uma nova orientação – desenvolvimentista – ao país, bem como criar uma nova estrutura administrativa para o mesmo” (SCHNEIDER, 2011, p. 12). No texto “As bases do desenvolvimento capitalista dependente: Da industrialização restringida a internacionalização” presente no livro “História Geral do Brasil”, organizado por Maria Yedda Linhares, a também historiadora Sônia Regina de Mendonça afirma que

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Em outras palavras, “A Revolução de 1930 marcou o início da intervenção direta do

Estado nas questões vinculadas ao mundo do trabalho”, segundo as palavras da pesquisadora

Maria D’Araujo. Ela conclui afirmando que “Marcou também o fim da autonomia do movimento sindical e o início da vinculação sistemática dos sindicatos ao governo através do Ministério do Trabalho [...] criado, ainda, em novembro de 1930, com essa preocupação”

(D’ARAUJO in FERREIRA; DELGADO (Orgs.), 2010, p. 223).

Em síntese, utilizando as mesmas palavras da Professora Maria Celina D’Araujo, compreenderemos que até certo ponto – mais específico até 1930 – a atuação do Estado frente à questão sindical possuía traços mais “liberais”. Vejamos,

até 1930 o Estado brasileiro atuou de forma liberal na relação com o sindicato. Não o regulava e estava livre para reprimi-lo. A partir desta data as coisas mudam substancialmente nesse campo. Na medida em que o sindicato passa a ser uma figura jurídica de colaboração com o Estado, a repressão não se faz mais via polícia. O que passa a ser feito é um intenso controle, devidamente regulado em uma série de leis. Redefinem-se as funções do sindicato, adequando-o ao novo formato do Estado corporativo6 emergente e ao processo de mudança econômica que o país atravessava

(D’ARAUJO in FERREIRA; DELGADO (Orgs.), 2010, p. 228)

Pelo menos duas observações podem ser feitas referente à citação acima: a primeira se refere a repressão policial que, segundo a autora supracitada, não se faz mais via polícia no pós – 30 mas, sobretudo, via política, com atuação mais centrada no sindicato. Contudo, a visão de Konrad (2008) demonstrada no texto “A questão social continua um caso de polícia entre 1930 e 1937: Problematizando discursos políticos e historiográficos”, publicado no livro “Recortes

da História Brasileira”, organizado por Saul Eduardo Seiguer Milder, aponta que, durante este

período, era recorrente se denominar “como “subversivos”, “estrangeiros” ou “perigosos” quaisquer movimentos – greves, movimentos ou partidos de esquerda etc. – que questionassem a lógica de dominação social e política do período” fazendo com que se impedissem, completa o autor, “os conflitos de classe [...] legitimamente” (KONRAD in MILDER, 2008, p. 148). Ainda, conforme D’Arauju (2010) “Os sindicatos passavam a ser órgãos de colaboração com o

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Estado e qualquer manifestação política ou ideológica ficava proibida” (in FERREIRA;

DELGADO (Orgs), p. 223).

Justamente nesta primeira observação podemos inferir, então, que na tentativa de se unificar estudos regionais como padrões de casos, homogêneos, considerando-os suficientemente explicativos para a movimentação operária da década de 30, esquecemos da importância deste mesmo estudo para a confecção de uma História Operária nas suas características singulares e em seus pormenores. Esta preocupação têm sentido, pois, consoante as palavras do Professor Leôncio Martins Rodrigues,

Geralmente, para se explicar o que se passou com o sindicalismo brasileiro na década de trinta se enfatiza a repressão desencadeada contra as associações que se recusavam a aceitar as determinações governamentais. Esquece-se, porém, que a repressão ao sindicalismo e às atividades operárias, especialmente nas fases inicias da industrialização, é uma constante no Brasil e em toda parte. No período anterior a década de 1930, o movimento associativo operário não encontrava de parte das autoridades, maiores facilidades para funcionamento. Com Vargas, ocorreu um dado novo nas atitudes dos poderes públicos face à “questão operária”. Em primeiro lugar, tratava-se não apenas de reprimir mas de atender algumas das reivindicações básicas dos grupos de trabalhadores (jornada de oito horas; lei de férias, etc.); em segundo lugar, o governo não se propôs simplesmente a proibir a atividade sindical mas a controlá-la (RODRIGUES in FAUSTO, 2004, p. 520).

Estas tendências explicativas dos estudos de caso nos permitem dizer que são ora preocupados em se compreender a repressão sobre o movimento operário, ora associá-lo com ganhos significativos nas leis trabalhistas. Sugere, então, uma dicotomia de análise, dentro do recorte histórico proposto, que negligencia certas especificidades de organização e atuação dos sindicatos e dos trabalhadores. Em primeiro lugar, por exemplo, ao analisar a movimentação paulista dos operários, Rodrigues (2004) observou algumas transformações internas na composição do proletariado urbano paulista do início do século 20 o que, por si só, se considera uma peculiaridade. O referido autor, citado anteriormente, defendeu, neste caso, que “O governo, através de seus representantes, não atuava como expressão dos interesses da indústria. A maior parte da Legislação aprovada encontrou oposição por parte do patronato representado principalmente pelo Centro Industrial do Brasil7” (RODRIGUES in FAUSTO, 2004, p. 514). É

inegável que, de fato, as leis sociais criadas ou aprimoradas durante a década de 1930 causaram

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