Dérico Dutra Berlese Junior FUTEBOL, “GÊNERO BRASILEIRO”: O CASO SIRLEI DALLA LANA NO ESPORTE CLUBE INTERNACIONAL EM SANTA MARIA (1985)

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Dérico Dutra Berlese Junior

FUTEBOL, “GÊNERO BRASILEIRO”: O CASO SIRLEI DALLA LANA NO

ESPORTE CLUBE INTERNACIONAL EM SANTA MARIA (1985)

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Dérico Dutra Berlese Júnior

FUTEBOL, “GÊNERO BRASILEIRO”: O CASO SIRLEI DALLA LANA NO

ESPORTE CLUBE INTERNACIONAL EM SANTA MARIA (1985)

Trabalho Final de Graduação TFG apresentado ao Curso de História, Área de Ciências Sociais e Humanas, do Centro Universitário Franciscano - UNIFRA, como requisito parcial para aprovação na disciplina TFG II.

Orientador: Alexandre Maccari Ferreira

Santa Maria, RS 2010

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Dérico Dutra Berlese Júnior

FUTEBOL, “GÊNERO BRASILEIRO”: O CASO SIRLEI DALLA LANA NO

ESPORTE CLUBE INTERNACIONAL EM SANTA MARIA (1985)

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Sociais e Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau

de Licenciado em História

______________________________________________________________________ Prof. Ms. Alexandre Maccari Ferreira – Orientador (UNIFRA)

_____________________________________________________________________ Profª Msª Roselâine Casanova Corrêa (UNIFRA)

______________________________________________________________________ Profª Msª Paula Simone Bolzan Jardim (UNIFRA)

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AGRADECIMENTOS

Agradecimentos muitas vezes são injustos, pois muitos participam do processo de elaboração de um trabalho final de graduação e poucos são os lembrados. Mesmo assim, não poderia deixar de agradecer a algumas pessoas especiais.

Aos meus familiares pelo carinho, compreensão e incentivo. Em especial aos meus pais Mari Izabel e Dérico Berlese pela presença constante, pelo carinho, pelas palavras de entusiasmo e otimismo e pelo exemplo de luta e conquista.

À minha irmã Daiane e meu cunhado Gustavo, pelo apoio financeiro e pelos conselhos sempre solidários e construtivos.

À minha irmã Denise, pelo apoio, pelas idéias, pela colaboração para que este trabalho fosse concluído.

A minha namorada Greice Estefânia pela paciência e compreensão durante os momentos difíceis de minha formação profissional.

Aos professores que ensinaram muito mais que conteúdos, pois compartilharam conhecimentos acadêmicos e valores humanos que jamais serão esquecidos.

Ao meu professor e orientador Alexandre Maccari Ferreira que aceitou o desafio de me orientar sobre uma temática ainda pouco explorada dentro do Curso de História da UNIFRA.

Aos professores que participaram da banca de avaliação Roselâine Casanova Corrêa e Paula Simone Bolzan Jardim por estarem envolvidos ativamente neste momento especial.

A Sirlei Dalla Lana pela gentileza de colaborar com informações relevantes para que este trabalho fosse desenvolvido.

Aos meus colegas, pela convivência e pela troca de conhecimento durante o período de graduação.

Àqueles que, não acreditaram no meu potencial, meu muito obrigado, pois vocês, certamente, foram meus grandes incentivadores durante todo esse processo para que eu vencesse este desafio.

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“... A verdadeira ciência social, [...], é a que responde às indagações coletivas; para ela não há temas nobres ou cafonas – e suponho que para entender um pouco a nossa sociedade chegou a hora de fazermos a história do seu futebol, da sua música popular, etc, ao passo que se inicia a revisão da história convencional,aquela em que se movem, exclusivamente, as classes privilegiadas”.

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RESUMO

A presente pesquisa tem como objetivo analisar a atuação feminina no cenário futebolístico desde os primórdios do futebol no Brasil até as primeiras manifestações influentes de sua participação na década de 1980. Nesta monografia buscou-se compreender como os debates de gênero influenciam na inserção da mulher no cenário futebolístico. Para esta pesquisa utilizou-se fontes orais relacionadas com fontes bibliográficas e demais obras bibliográficas. A abordagem histórica e antropológica enfatizou as relações de gênero como resistência da atuação e inserção feminina no Brasil no futebol. Nessa perspectiva, observaram-se as transformações ocorridas no futebol brasileiro, sobretudo na década de 1980, em que se caracteriza a atuação de maneira mais sistemática da participação feminina no futebol.

Palavras chaves: Futebol, gênero e mulher

ABSTRACT

The present research aimed to examine the role of women in the soccer scene since the early days of soccer in Brazil until the summit of their participation in the 1980s. We also studied how discussions of gender influence the inclusion of women in the soccer scene. For this study we used oral sources related to literature sources and other works from literature. The historical and anthropological approach emphasized the relationships of gender, such as performance and endurance of female inclusion in Brazil in the soccer. Under this perspective, we observed the changes occurred in the Brazilian soccer especially in the 1980s, the summit of the female participation in Soccer.

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SUMÁRIO

PRELIMINARES DE UM ESTUDO: UMA INTRODUÇÃO...8

I-PONTA PÉ INICIAL - AS ORIGENS DO FUTEBOL FEMININO NO BRASIL ...12

II-A MULHER ENTRA EM CAMPO - GÊNERO EM CONTEXTO...18

III-UMA CARTOLA NO FUTEBOL DO BRASIL – O CASO SIRLEI DALLA LANA..24

PÓS-JOGO OU O JOGO ESTÁ APENAS COMEÇANDO: A PESQUISA E ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS ...30

REFERÊNCIAS ...33

FONTE ORAL ...36

BIBLIOGRAFIA DE APOIO ...36

APÊNDICE ...37

APÊNDICE I...38

ANEXOS ...44

ANEXO 1 - Imagem do início do século XX...45

ANEXO 2 - Imagens da Revista Veja, na edição de 887 de 17/04/1985...46

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PRELIMINARES DE UM ESTUDO: UMA INTRODUÇÃO

O universo do futebol é caracterizado desde sua origem como um espaço eminentemente masculino. Esse espaço não é apenas esportivo, mas também sociocultural. Os valores nele embutidos e dele derivados estabelecem limites que, embora nem sempre tão claros, devem ser observados para a perfeita manutenção da ”ordem” ou da “lógica” que se atribui ao jogo e que nele se espera ver confirmada (FRANZINI, 2005). A entrada das mulheres em campo subverteria essa ordem, e as reações daí decorrentes expressam muito bem as relações de gênero presentes em cada sociedade: quanto mais machista ou sexista ela for, mais acentuadas as suas contestações.

Um aspecto que pode sinalizar essa questão que relaciona o gênero masculino à prática do futebol, vai além das quatro linhas do campo. Pode ser vista nas publicações que dão suporte científico à análise desse esporte. Em geral, as abordagens se centram no campo antropológico tecendo paralelos entre a sociedade e a prática futebolística, ou no espaço ficcional de fundo histórico em que podemos salientar as obras do escritor Eduardo Galeano Futebol ao sol e à sombra em que estabelece um histórico do jogo e do futebol e do autor gaúcho Adyr Garcia Schlee Contos de Futebol, que fica mais estrito ao universo ficcional, mas que, em um dos contos, apresenta uma personagem feminina fanática por futebol.

Isso nos faz pensar, por sermos consumidores e entusiastas do futebol, que a reflexão sobre esse esporte em nossa sociedade se faz necessária dentro da universidade, permitindo uma melhor capacitação e tratamento de temas culturais (que se relacionam com a política, a economia, a tradição, a questão étnica, de gênero entre outras abordagens) e que a história

também acaba por deixar à margem dos estudos centrais1.

O gênero, neste caso como categoria de análise histórica, busca investigar o processo de construção das desigualdades entre os sexos no campo esportivo brasileiro, assim como trata a participação das mulheres através de valores que elas precisavam para sobreviver na sociedade do esporte e de seu processo de ajustamento através dos tempos e nos diferentes espaços.

Por certo, são os preconceitos historicamente construídos pela nossa cultura que fazem com que os elementos em questão, vez por outra, apareçam na atualidade.

1 Por exemplo os estudos bem desenvolvidos acerca dos mundos do trabalho, da escravidão e da política

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A masculinidade do esporte é ressaltada pela sentença "futebol é coisa para macho" (ou, em uma versão pouco menos forte, "coisa para homem"), o que já aponta o visível preconceito. O jornalista Sérgio Cabral relata que o comentarista esportivo e ex-técnico João Saldanha, quando perguntado certa vez sobre o que achava do futebol feminino, disse ser contra — justificando, com sua linguagem afiada: "Imagina, o cara tem um filho, aí o filho arranja uma namorada, apresenta a namorada ao sogro e o sogro pergunta a ela: 'O que você faz, minha filha?' E a mocinha responde: 'Sou zagueiro do Bangu'. Quer dizer, não pega bem, não é?" (MOREIRA, 2008, p.18).

Frente a tais posturas e práticas, não se surpreende que as mulheres não sejam vistas como um sujeito da história do futebol brasileiro e que o futebol feminino, em particular, seja um tema praticamente inexistente quando se fala sobre a trajetória do chamado "esporte bretão" em nosso país.

Assim, em uma pátria que se autodenomina ‘país do futebol’ e que tem esse esporte como elemento identitário, estabelecido a partir da década de 1930, é notório que, para o senso comum, o futebol seja um assunto hegemonicamente masculino. Com isso, a participação feminina vem sendo deixada às margens da história desse esporte. Mas o universo futebolístico não é apenas esportivo, é também sociocultural, com valores nele embutidos e dele derivados que resultam em ações que vão refletir diretamente em nossa sociedade. Esses fenômenos que, além de transformadores, moldam e definem opiniões, são objetos de estudos que nos ajudam a compreender o comportamento do ser humano em diferentes tempos e espaços e por isso merecem ser estudados.

Ao ter em vista que o futebol pode ser considerado como uma fonte de construção de nossa identidade nacional e que serve de referência para debates do estereótipo de gênero, buscar-se-á analisar e compreender as relações dentro desta esfera e torná-las relevantes para estudo histórico.

Deste modo, ao longo da pesquisa, pode-se observar que, tanto na historiografia quanto na literatura esportiva sobre o futebol, existe uma ausência de registro histórico que mostre a participação feminina dentro deste esporte no país. As anotações sobre a presença da mulher, por autores clássicos, são quase inexistentes. As referências que se encontram são feitas por chamada curta ou notas de rodapé, o que se deve, por ser muito recente o tratamento da historiografia nacional sobre futebol2.

2 O futebol aparece mais tratado na literatura crítica em estudos sociológicos como SOUZA, Denaldo Alchorne

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Nesse contexto, destacamos os trabalhos de Hilário Franco Júnior, A dança dos Deuses: Futebol, Sociedade, Cultura (2007), e José Miguel Wisnik, Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil (2008) que dão ênfase às questões político-sociais e históricas, mas não centram na participação das mulheres, por isso, neste trabalho, procuraremos contribuir buscando dados, sem a pretensão de esgotar a abordagem.

As condições em que nos deparamos hoje são frutos de muitos conflitos e mudanças que agregadas resultaram na questão: qual o espaço da mulher no futebol do Brasil? E é exatamente sobre isso que trataremos a seguir, ou seja, a conquista de um espaço que coloca a mulher em quase todos os esportes em igualdade com o homem, apenas respeitando as diferenças físicas que existem entre os gêneros.

Nesta perspectiva, cabe ressaltar a importância de se analisar a atuação feminina desde os primórdios do futebol no Brasil até os primeiros anos de atuação mais sistemática na década de 1980, considerando a importância, tanto do ponto de vista competitivo quanto administrativo, como é o caso da atuação de Sirlei Dalla Lana, que foi a primeira mulher a presidir um clube de futebol profissional no Brasil3, e as questões sobre o gênero que permeiam o debate sobre o futebol.

Desse modo, procuraremos refletir sobre futebol e gênero a partir de um problema centrado no seguinte questionamento: a mulher, no futebol brasileiro, possui importância histórica?

Assim, além de evidenciar as relações entre futebol e mulher a partir de uma perspectiva de gênero, procuraremos refletir sobre a relevância da participação feminina no futebol brasileiro, verificando como a mulher se manifesta frente ao futebol desde os primórdios do esporte no Brasil.

Também será analisado como as relações de gênero se manifestam dentro do esporte bretão e, por fim, como foi enfatizada anteriormente, a representatividade de Sirlei Dalla Lana na administração do Internacional de Santa Maria no ano de 1985, momento em que presidiu o clube.

livros A bola corre mais que homem e em Universo do futebol que organiza conjuntamente como Luiz Felipe

Baeta Neves. É importante citar também os trabalhos de estudiosos e jornalistas santa-marienses acerca do

futebol tais como: LOPES SOBRINHO, Hermito. Futebol e reminiscências: relembrando o futebol do passado.

Santa Maria: Grafos, 1989 e os registros feitos por Candido Otto da Luz sobre o jogador Oreco e os times de futebol da cidade cuja referências inserimos na bibliografia consultada.

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Esta pesquisa apresenta caráter qualitativo, com design bibliográfico utilizando, como referencial teórico central, a teoria de gênero com foco nas mulheres (SCOTT, 1995; KNIJNIK, 2003; GOELLNER, 2004). A teoria de gênero justifica-se neste trabalho por investigar a presença das mulheres num contexto esportivo de reserva masculina, culturalmente construída.

Assim, como a prática do futebol feminino é uma conquista recente, os estudos voltados para a participação e visibilidade das mulheres no desporto são escassos no país (KNIJNIK, 2003).

Também se caracteriza como um estudo de caso que, segundo Antônio Carlos Gil (2007), busca investigar o fenômeno observado no seu ambiente natural e os dados recolhidos, utilizando diversos meios como, entrevistas, questionários, registros de áudio e vídeo, diários, cartas, entre outros.

Os estudos de gênero no Brasil começaram a se desenvolver na década de 1980, incentivados pelo movimento feminista, focando a mulher no seu papel social e as relações de poder entre o feminino e o masculino (GOELLNER, 2001).

Para melhor compreensão das transformações ocorridas no cenário futebolístico, mais especificamente na década de 1980, foi realizada uma revisão bibliográfica da historiografia brasileira a fim de analisar a participação feminina inserida nesse esporte.

Ao analisar a inserção feminina nesse contexto realizou-se um estudo de caso utilizando como instrumento para avaliação uma entrevista aberta com Sirlei Dalla Lana.

Na entrevista foram realizadas vinte perguntas sobre a sua percepção em relação à própria representação enquanto pioneira como presidente de um clube de futebol profissional. (Ver no Apêndice 1 entrevista na íntegra com Sirlei Dalla Lana).

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I- PONTA PÉ INICIAL - AS ORIGENS DO FUTEBOL FEMININO NO BRASIL

Para a grande maioria do povo brasileiro o futebol não é apenas uma modalidade esportiva com regras próprias, técnicas determinadas e táticas específicas; também não é apenas manifestação lúdica do povo, é muito mais: é a forma que a sociedade brasileira encontrou para se expressar e extravasar características emocionais profundas, tais como paixão, ódio, felicidade, tristeza, prazer, dor; além de ser uma maneira de demonstrar relações sociais intrigantes plausíveis de debate.

O futebol é, portanto, dinâmico, por refletir a própria sociedade brasileira. A manifestação dentro de um estádio de futebol, quer as da torcida, quer as dos jogadores, ou as dos dirigentes e da imprensa, remontam um universo que torna o Brasil conhecido como o país do futebol, simbolizando uma ideia de identidade nacional exclusivamente brasileira.

Um dos aspectos menos conhecidos da história do futebol no Brasil diz respeito à inserção da mulher nesse universo predominantemente masculino. Diante de tal lacuna, este estudo se propõe apresentar e analisar as leituras sobre a presença do sexo feminino dentro e fora dos gramados durante a primeira metade do século XX. Momento, esse, decisivo para a construção da ideia e da identidade do "país do futebol". Pretende-se, assim, discutir as formas de integração ao jogo, "permitidas" às mulheres, suas manifestações proibidas e, sobretudo, os significados encerrados nessas permissões e proibições.

Apesar da influência significativa que o futebol tem na cultura brasileira, sendo o Brasil considerado o país do futebol, reforçando o caráter de identidade nacional, a figura da mulher se apresenta de forma tímida e oprimida como comprova o Decreto-Lei n. 3199 de 14 de abril de 1941, imposto pelo autoritarismo do Estado Novo, que vigorou até 1975 e proibia às mulheres a formalização e legitimação da prática esportiva em diversas modalidades, principalmente no atletismo, nas lutas e no futebol. (FRANZINI, 2005, p.02)

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A história do futebol feminino mostra-se inversa à do masculino. Quando implantado, o futebol masculino pertenceu exclusivamente à elite (Revista Nossa História, 2006, p.50), devido aos recursos financeiros que eram requisitados para a sua prática. Entretanto, com as mulheres ocorreu o oposto: o grupo feminino sempre pertenceu às classes desfavorecidas e sofriam pela ausência de materiais específicos, pela falta de incentivo e preconceito. Como

ressalta Bruhns (apud CAPRARO e CHAVES 2007, p.01) “[...] razão pela qual as atletas

apresentarem comportamentos bastante parecidos com os de seus colegas homens, recebendo julgamentos como ‘falta de classe’, ‘mal cheiro’, ‘povo grosseiro’ e outras denominações atribuídas àquela camada da população duplamente marginalizada [...]”

As relações com os praticantes masculinos eram estabelecidas de forma tensa, pois as meninas apresentavam comportamentos repudiados pela elite que os consideravam comportamentos marginalizados.

Como se não bastasse o fato de serem "pobres" eram, antes disso, mulheres. Por isso, os atos grosseiros que apresentavam como o de cuspir no chão, dar pontapés, brigar, cheirar mal, entre outros, eram vistos como comportamentos de uma camada social que morava na periferia, tanto do ponto de vista social quanto político. Até mesmo pelas pessoas da mesma classe social, as atletas eram desqualificadas, vistas como marginais pertencentes a um mundo perigoso. Logo também foram adjetivadas de "machorras", "paraíbas". Entretanto, é importante ressaltar que só agiam dessa forma para se sentirem aceitas dentro desse esporte (BRUHNS, 2000).

Em uma análise comparativa com a obra "Mulher e Trabalho" de Luiz Pereira (1971), outra teoria explica que o grupo feminino, que praticava futebol, trabalhava em serviços categorizados como de classe inferior, pois precisavam ajudar no sustento da família atuando fora de casa. As mulheres de classe média não necessitavam trabalhar, e quando "trabalhavam", era basicamente fazendo os serviços domésticos em suas residências ou supervisionando os serviçais. Desse modo, esta ideia elucida a dificuldade das mulheres a praticarem o futebol, já que as atletas desta categoria esportiva eram oriundas da classe inferior tendo indisponibilidade para a prática do esporte. Além do preconceito, as mulheres tinham que conciliar as atividades serviçais, domésticas e a falta de incentivo para a prática do futebol.

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Como o status da mulher dependia muito disso - se ela trabalhava fora ou não - a mesma regra se aplicava à prática do futebol: se praticava, não era "madame"; se não era "madame", era pobre (BRUSCHINI, 2002).

Frente a tais posturas e práticas, não surpreende que as mulheres não sejam vistas como mais um sujeito da história do futebol brasileiro, e que o futebol feminino, em particular, seja um tema praticamente inexistente quando se fala sobre sua trajetória em nosso país. Dentre as poucas referências encontradas em nossa historiografia futebolística, podemos destacar duas rápidas passagens, separadas por uma diferença de quase meio século.

Em 1950, a obra pioneira História do Futebol no Brasil, do jornalista Thomaz

Mazzoni, é taxativa ao mencionar que: “No jogo entre São Paulo F. C. e as cariocas do América F. C. em 1940 no Pacaembu, foi lançado o futebol feminino cujo interesse se limitou a essa única partida. Morreu logo o futebol de moças".

Mais recentemente, na década de 1990, o historiador José Sebastião Witter (apud

FÁBIO FRANZINI 2005) afirma, em nota de rodapé, no texto de sua Breve História do

Futebol Brasileiro, que "no Brasil, o primeiro jogo de futebol feminino de que se tem notícia foi disputado em 1913, entre times dos bairros da Cantareira e do Tremembé, de São Paulo”.

De fato, o "futebol de moças" não chegou a conhecer entre nós o sucesso que alcançara na Europa entre o final da década de 1910 e o início da nova década. Na Inglaterra, por exemplo, ele atingiu grande popularidade durante a Primeira Guerra Mundial, quando os homens viram-se obrigados a trocar os campos de jogo pelos de batalha.

Forçadas pela necessidade de assumir funções predominantemente masculinas, as mulheres acabaram também por formar equipes e promover jogos beneficentes para levantar fundos para os soldados no front. Com o fim da guerra e a restauração dos papéis sociais tradicionais, esses times femininos entraram em choque com os interesses dos supostos donos do jogo, e logo as mulheres viram-se, mais uma vez, segregadas às arquibancadas. Na França, nesse mesmo momento, as futebolistas procuraram não entrar em confronto com os homens e criaram regras particulares para o jogo, o que lhes garantiu fôlego até por volta de 1926, porém não conseguiram evitar o mesmo destino de suas colegas inglesas (MURRAY, 2000).

No Brasil, o processo seguiu uma trajetória diferente, mas nem por isso menos representativa e significativa, ao contrário do que a historiografia parece indicar. Se considerarmos as manifestações e não só a prática do futebol, veremos como se deu o desenvolvimento do esporte no país desde seus primeiros anos. Tudo de acordo com a

etiqueta social da belle-époque, como descreveu o jornalista Mario Rodrigues Filho em seu

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O futebol prolongava aquele momento delicioso de depois da missa. As moças, mais bonitas ainda. Tinham ido em casa, demorando-se diante do espelho, ajeitando o cabelo penteado para cima, encacheado [...] No intervalo, o campo e a arquibancada tornavam-se uma coisa só. [...] Os jogadores gostavam de aparecer um instante, suados, cansados, na arquibancada, para cumprimentar as moças. Os filhos no campo, as filhas nas arquibancadas. Pais, filhos, a família toda. Podia-se dizer: as famílias todas. O que havia ali, no campo, na arquibancada, havia nos bailes do Clube das Laranjeiras, mais do Fluminense e Paissandu, havia nas festas e festinhas da casa do Barão de Werneck, da casa de dona Chiquitota, da casa dos Hime, mais do Botafogo. (FILHO, 1964, p.61)

Na citação de Mario Filho fica evidente um padrão de comportamento da elite no

período da belle-époque, típico de valores impostos como regra de etiqueta desta parcela da

sociedade. Nas arquibancadas, famílias se divertindo e as moças bem arrumadas, enquanto, os rapazes travavam um combate esportivo exibindo a força e disciplina masculina.

À medida que o futebol tornava-se cada vez mais popular, a elite aristocrática deixava de frequentar os estádios, afastando consigo suas filhas e filhos. Os jogadores, que antes entravam em campo devido aos seus sobrenomes, então passaram a atuar graças a seus talentos. Nessa perspectiva, o público também sofreu transformações, pois passou a frequentar mais os galpões das fábricas que os seletos salões de baile dos clubes.

Anos depois, no Brasil, as mulheres já se levantavam de seus lugares na assistência

para adentrar os gramados. Em 1940, a edição de abril da revista Educação Física informava

a realização de uma "interessante partida de futebol entre senhoritas" no Rio de Janeiro, que "constituiu um espetáculo de grande sucesso, causando sensação em nosso mundo desportivo" (FRANZINI, 2005- ANEXO 1).

Na medida em que o futebol no Brasil passava por um processo de transformação, as instituições esportivas também buscavam adaptação em meio a este processo. Com isso, podemos perceber que a nova visão sobre a prática do futebol passa inicialmente por instituições menos expressivas, onde as instituições esportivas mais tradicionais mostravam uma certa resistência elitista frente a estas mudanças.

Segundo a matéria do jornal paulistano Folha da Manhã (1940, pág. 11) descrita por

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que queiram ingressar no footboll, com consentimento dos seus maiores, queiram apresentar-se à rua Silva Gomes, 131, em Cascadura, das 17 em diante".

De imediato, a novidade representada pela aparição e desenvolvimento dessas equipes

despertou admiradores e depreciadores nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. A Folha

da Manhã (1940), por exemplo, manifestou entusiasmo, destacando os jogos das "filhas de Eva", vendo neles "um movimento sério e respeitável, uma vez que o mesmo proporcionaria a criação de mais uma possibilidade de atuação para as mulheres". Porém, alguns desportistas recebiam com estranheza as notícias que chegavam dos subúrbios cariocas.

A partir de documentos históricos, encontram-se indícios de resistência por parte da elite vigente e do próprio governo frente às transformações que se desenvolviam em meio ao cenário futebolístico do período. A prática do esporte tinha domínio masculino, como comprova o Decreto-Lei 3.199, de 1941, vigente até 1975, que, em seu artigo 54, estabelece que "às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza". Em 1965, o Conselho Nacional de Desportos delibera que as entidades desportivas devem seguir a seguinte norma em relação à prática esportiva das mulheres: "Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, pólo, halterofilismo e beisebol".

O argumento que sustentava as diretrizes políticas do esporte frente a esse contexto, baseava-se na teoria de que o futebol prejudicava os órgãos de reprodução e que era grande a possibilidade de trauma causado por uma bolada ou trombada. Entretanto, esses argumentos se contradizem, uma vez que os homens também possuem órgãos reprodutores que devem ser protegidos de impactos.

Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo para esse efeito o CNDB (Conselho Nacional de Desportos Brasileiro) baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país... (CASTELLANI, 1997, p. 94).

Diante desses fatos, fica evidente e possível imaginar os obstáculos enfrentados para a inserção e permanência das mulheres no esporte. Para legislar tais normas, muitos argumentos foram levantados e defendidos por autoridades no assunto. Sob bases biológicas e fisiológicas, alegavam quais seriam as atividades adequadas para o corpo e a saúde das mulheres, futuras mães (KNIJNIK, 2006).

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esse comprovado com uma carta do cidadão brasileiro chamado José Fuzeira, que não relutou em escrever ao presidente Getúlio Vargas para "solicitar a clarividente atenção de V. Ex. para que fosse conjurada uma calamidade que está prestes a desabar em cima da juventude feminina do Brasil". E explicava:

Carta de um cidadão a Getúlio Vargas

[Venho] Solicitar a clarividente atenção de V. Ex. para que seja conjurada uma calamidade que está prestes a desabar em cima da juventude feminina do Brasil. [...]Refiro-me, Sr. Presidente, ao movimento entusiasta que está empolgando centenas de moças, atraindo-as para se transformarem em jogadoras de futebol sem se levar em conta que a mulher não poderá praticar esse esporte violento, sem afetar, seriamente, o equilíbrio fisiológico das suas funções orgânicas, devido à natureza que dispôs a ser mãe [...] (José Fuzeira, carta datada de 25/04/1940 In -

SUGIMOTO, Luiz, 2003, apud CAPRARO e CHAVES, 2007 p.1).

Em meio a tantas ameaças e restrições, as mulheres mostraram-se resistentes, não deixando de exercer a prática do esporte mesmo não sendo considerada regular e institucionalizada. Contudo, nos fins da década de 1970 revoga-se o decreto de lei e como uma "premonição", no início dos anos 1980, 200 times que aguardavam a liberação e oficialização do esporte no Brasil, pela CND, garantiu a pretendida oficialização, pois a prática já havia se tornado popular pelas mulheres (BRUHNS, 2000). Esses fenômenos marcam a década de 1980 como um período de esplendor da participação feminina no contexto futebolístico.

Sugimoto observa que, “Cercado de preconceitos, o esporte não chegou a se firmar entre as mulheres, mas a partir de 1981, formaram-se várias equipes femininas em clubes como São Paulo, Guarani, América e outros”. (2007, p.01) Pouco tempo depois o futebol feminino chegou a ser exibido em circos, como atrações de curiosidades.

A institucionalização do futebol feminino começou, portanto, em meados da década de 1980. Salles afirma que no Rio de Janeiro constam informações que a primeira liga de futebol feminino do Estado do Rio de Janeiro foi fundada em 1981 e que muitos campeonatos que se

seguiram eram patrocinados por diferentes empresas. Segundo o jornal Folha da Manhã, São

Paulo (1996), foi a partir de 1980 que o futebol feminino começou a se popularizar mundialmente (2008 p.01).

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algumas mulheres, bem como a democratização do país ocorrida a partir da década de 1980, que proporcionou uma maior atuação feminina dentro e fora dos gramados.

E para tanto, questões de gênero ligadas à prática do futebol necessitam ser interpretadas, como pretendemos desenvolver no capítulo seguinte em que refletimos sobre a discussão que envolve gênero, percebendo que este debate elucida barreiras de resistência para que as mulheres se insiram no contexto futebolístico.

II- A MULHER ENTRA EM CAMPO - GÊNERO EM CONTEXTO

Ao procurar uma melhor compreensão do processo em que se desenvolve a atuação feminina no futebol brasileiro, deve-se refletir sobre alguns conceitos que fazem parte das discussões teóricas acerca de gênero. A partir dessa perspectiva, percebe-se que este debate elucida barreiras de resistência para que as mulheres se insiram no contexto futebolístico.

Neste subtítulo, buscou-se incorporar o gênero como categoria de análise histórica e examinar como se processou a construção, a partilha e os deslocamentos da desigualdade entre os sexos no campo esportivo brasileiro, bem como buscou-se compreender a participação das mulheres traduzida na cultura esportiva, focalizada através de valores, bens que precisam para sobreviver na sociedade do esporte e de seu processo de ajustamento múltiplo através dos tempos e nos diferentes espaços. Com isso, surge uma discussão sobre a mulher como instrumento de poder, objetivando atingir a realidade participativa no contexto do esporte.

No que se refere aos estudos sobre gênero realizados pela historiografia brasileira, percebe-se que a investigação envolvendo mulheres, esporte e gênero é recente e, por isso, concebem o esporte como uma construção histórica e social nas quais as relações de poder em que diferentes sujeitos disputam posições se impõem momentaneamente (LOURO, 2000).

As relações de poder exercidas entre homens e mulheres, tanto no campo esportivo quanto no administrativo, têm se configurado em posições e acessos extremamente desiguais. Para aprofundar a discussão, é fundamental esclarecer os dois conceitos que estão sobrepostos parcialmente nessas relações, isto é, sexo e gênero.

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comportamentos sexuais. Segundo Yara Sayão e Silvio Duarte Bock (2002), Betty Friedan, uma das primeiras lideranças internacionais do movimento, defende o papel do trabalho criador para que a mulher, assim como o homem, possa encontrar-se e reconhecer-se como ser humano. A antropóloga americana Margareth Mead destaca o peso da cultura na determinação dos papéis sexuais e das condutas e comportamentos de homens e mulheres.

A expressão "gênero" começou a ser utilizada justamente para marcar que as diferenças entre homens e mulheres não são apenas de ordem física, biológica. Como não existe natureza humana fora da cultura, a diferença sexual anatômica não pode mais ser pensada isolada da perspectiva cultural no qual sempre está imersa, ou seja, falar de relações de gênero é falar das características atribuídas a cada sexo pela sociedade e sua cultura. A diferença biológica é apenas o ponto de partida para a construção social do que é ser homem ou ser mulher (SILVA, 2002)

Maria Jesus Izquierdo (1999) relata que a produção social da existência em todas as sociedades conhecidas, implica, por sua vez, a intervenção conjunta dos dois gêneros, o masculino e o feminino. Cada um representa uma particular contribuição na produção e reprodução da existência. Para a autora, poderíamos nos referir aos gêneros como obras culturais, modelos de comportamento mutuamente excludentes cuja aplicação supõe o hiper desenvolvimento de um número de potencialidades comuns aos humanos em detrimento de outras.

A autora chama a atenção para as palavras de Marx quando ele diz que:

Na produção social de sua existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; estas relações de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças produtivos materiais. O conjunto destas relações de produção constituem a estrutura econômica da sociedade, a base real, sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e a qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. Não é a consciência dos homens o que determina a realidade; ao contrário, a realidade social é a que

determina sua consciência (Marx apud IZQUIERDO, 1990).

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Entretanto, entende-se que o termo “sexo” é atribuído às características biológicas, enquanto gênero é uma construção social e histórica. A noção de gênero, portanto, aponta para a dimensão das relações sociais do feminino e do masculino.

Argumentos apoiados em justificativas biologicistas foram e são empregados para respaldar o domínio masculino não só no esporte, mas também em outras instâncias sociais. Ao classificar homens e mulheres a partir das suas diferenças sexuais, busca-se também distinguir a feminilidade da masculinidade, naturalizando desigualdades.

No que se refere ao esporte especificamente, o sexo tem sido um território em que se busca fixar as demarcações identitárias que foram usadas para impedir a participação feminina em diferentes modalidades esportivas. Logo, o esporte vem se transformando e observam-se momentos de rupturas e descontinuidades, momentos em que frestas foram ampliadas e possibilitaram expandir o horizonte de práticas corporais femininas e masculinas (JAEGER, 2006), porém, não podemos ser ingênuos e pensar que essas mudanças aconteceram de maneira tranquila e sem conflitos. Em diferentes momentos, mais mulheres do que homens ousaram romper fronteiras e foram questionadas e ainda hoje são no que diz respeito à sua identidade, em especial à sua sexualidade. No transcorrer dos séculos, as mulheres cresceram ouvindo que não poderiam se envolver com atividades que estivessem além das suas capacidades físicas e atléticas.

Para Joan Scott (1995), os valores patriarcais serviram de arma ideológica para mantê-las submissas ao espaço doméstico, determinando os papéis sexuais dessas mulheres em sociedade. Além disso, poderiam desestabilizar a estruturação de um espaço de sociabilidade criado e mantido sob domínio masculino, cuja justificativa para sua consolidação, assentada na biologia do corpo e do sexo, deveria atestar a superioridade deles em relação a elas. Sobre o assunto, a historiadora Helen Lenskyj assim se refere :

A habilidade esportiva dificilmente se compatibiliza com a subordinação feminina tradicional da sociedade patriarcal; de fato, o esporte oferecia a possibilidade de tornar igualitárias as relações entre os sexos. O esporte, ao minimizar as diferenças socialmente construídas entre os sexos, revelava o caráter tênue das bases biológicas de tais diferenças; portanto, constituía uma ameaça séria ao mito da fragilidade feminina. (Lenskyj apud ADELMAN, 2004).

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Tais papéis passam a se inscrever na “natureza feminina”, dessa forma, a ideologia cumpre uma de suas mais importantes finalidades, ou seja, a de massacrar a realidade. Como falar da natureza “masculina” se a sociedade condiciona, inclusive, o metabolismo das pessoas? Diferentemente dos outros animais, os seres humanos fazem história. Além disso, as gerações mais velhas transmitem isso para as gerações mais jovens, que partem de um acervo acumulado de conhecimento (SAFIOTTI, 1987).

Ao buscar fundamentação na abordagem teórico-metodológica da história cultural e dos estudos de gênero, Sandra Pesavento (2004) buscou investigar a participação da mulher brasileira no futebol, modalidade esportiva considerada, pelo imaginário social, como integrante da identidade nacional e concluiu que elas, enquanto desportistas, foram se ajustando à modalidade para se inserirem no contexto desportivo nos quais os homens estavam assentados desde o princípio.

Mesmo que as mulheres participassem de alguns eventos esportivos, o temor à desmoralização feminina frente à exibição do corpo traduzia-se num fantasma a rondar as famílias, em especial, as da elite. A prática esportiva, o cuidado com a aparência, o desnudamento do corpo e o uso de artifícios estéticos, por exemplo, eram identificados como impulsionadores da modernização da mulher e da sua autoafirmação na sociedade.

Nicolau Sevcenko (1992) aponta para a influência do esporte no processo de modernização das sociedades urbanas brasileiras, fornecendo alguns exemplos para pensarmos no impacto que as modificações no comportamento feminino causaram neste tempo em que o esporte tornava-se moda e a moda adquiria contornos esportivos. Assim escreve o historiador:

O grande espanto e o escândalo galopante, porém, iria ocorrer, como se podia esperar, com a mudança dos hábitos e trajes femininos [...] Os tecidos leves, transparentes e colantes; a renúncia aos adereços, enchimentos, agregados de roupas brancas, perucas, armações e anquinhas; o rosto ao natural, a cabeça descoberta e os cabelos cortados extremamente curtos, quase raspados na nuca davam às meninas uma intolerável feição masculina, agressiva, aventureira, selvagem (SEVCENKO, 1992, p.49-50).

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Se por um lado, havia a crítica à indolência, à falta de exercícios físicos, ao excesso de roupas, ao confinamento no lar, por outro, ampliavam-se as restrições a uma efetiva inserção feminina em diferentes espaços públicos o que, de certa maneira, limitava alguns possíveis atrevimentos, e a prática do futebol era considerada um deles.

O mundo esportivo fascinava e impressionava homens e mulheres, tanto porque contestava os discursos legitimadores dos limites e condutas próprias de cada sexo, como porque fazia vibrar a tensão entre a liberação e o controle de emoções e, também, de representações de masculinidade e feminilidade.

Além do medo de que a participação das mulheres em atividades esportivas pudesse desonrá-las, havia, ainda, outra preocupação: seu sucesso nestas práticas poderia infringir as leis da natureza, pois, ao se mostrarem mais fortes do que se supunha, seria fissurado o discurso das diferenças naturais cuja base estava assentada na sobreposição física de um sexo sobre outro.

Mesmo assim, a participação feminina como sujeito maior na política, nos movimentos sociais, nas redefinições dos papéis de gênero, na família e nas conquistas esportivas emergiram a partir da segunda metade do século XX, tendo em vista as mudanças ocorridas na distribuição do poder na pós-modernidade (GOMES, 2010). Foi a partir desse contexto de mudanças, acompanhado pelo processo de pós-modernidade e pelas transformações na vida cotidiana das sociedades ocidentais que surgiram os valores rumo a igualdades de direitos, a oportunidades e responsabilidades das mulheres líderes do esporte brasileiro que passam a ganhar maior visibilidade neste período.

Deste modo, as mulheres ousaram ingressar no mundo esportivo, aprenderam com ele e, atualmente, participam de todos os tipos de modalidades esportivas. Uma dessas manifestações é a vontade das mulheres de superar as dificuldades não apenas no plano social e cultural, mas também na projeção de suas imagens e da construção da cidadania esportiva. Por essa razão, a trajetória feminina com exigências do esporte nos leva a inúmeras reflexões. Um delas é que a paixão das mulheres por diferentes tipos de participações esportivas transformou-as em mulheres guerreiras. Há quem diga que as mulheres desportistas e atletas cultivam condutas conservadoras, fechadas, no intuito de proteger seus princípios morais e éticos frente aos valores implementados pela sociedade contemporânea. O fato é que as mulheres, além de praticarem diferentes modalidades esportivas, assumem administração de grandes instituições esportivas com personalidade e liderança.

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mulheres na sociedade do esporte produtivo, associado ao papel de mãe e doméstica no âmbito familiar. As mulheres atletas tendem a assegurar a igualdade de gênero nas atividades físicas e esportivas competitivas. A própria sociedade contemporânea faz com que as mulheres atletas recebam, ainda hoje, atenção insuficiente no meio esportivo.

No entanto, as diferenças não se verificam unicamente entre a categoria sexo/gênero, mas também intracategoria. A diferença e a discriminação motivada pela diferença ganha outras subordinações que cruzam o sistema sexo/gênero com outros fatores de identidade, tais como, raça, etnia, cor, classe, nível de instrução, distintos tipos de deficiência ou idade. Isso significa que a possibilidade de mapear identidades e discriminações é multivariada e dependente do número de eixos em intersecção (CRENSHAW, 2002).

Ao analisar o cenário esportivo brasileiro, constatamos que a presença da mulher na administração esportiva não é coerente com a participação feminina no esporte. As Instituições esportivas no Brasil são territórios fortemente marcados pela presença masculina, porém, as trasnformações que ocorreram no futebol durante a década de 1980 proporciou uma maior abertura para a atuação feminina na prática do futebol no Brasil.

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III- UMA CARTOLA NO FUTEBOL DO BRASIL – O CASO SIRLEI DALLA LANA

Neste subtítulo, busca-se fazer um estudo de caso no que se refere à inserção administrativa da mulher no cenário futebolístico brasileiro, tendo como objeto analisar a participação de Sirlei Dalla Lana - primeira mulher a presidir um clube de futebol profissional representativo no Brasil, no ano de 1985. Além disso, busca-se evidenciar o que a levou ligar-se a essa prática esportiva e o que sua gestão repreligar-sentou para a inligar-serção no cenário futebolístico quanto à participação feminina neste esporte no Brasil.

Conforme já nos referimos no subtítulo I, a década de 1980 é marcada por diversos elementos que proporcionaram a popularização do futebol feminino no Brasil, como, por exemplo, a revogação do decreto de lei no início dos anos 1980, que oficializou e liberou o esporte no Brasil, pelo Conselho Nacional Desportivo Brasileiro (CNDB).

A partir de 1981, formaram-se várias equipes femininas em clubes, iniciando-se, assim, a institucionalização do futebol feminino. Apesar das dificuldades e preconceitos encontrados, o futebol feminino começou a se popularizar mundialmente. Nesse sentido, o cenário futebolístico estava se preparando para uma maior participação feminina dentro e fora dos gramados. Assim, as mulheres passaram cada vez mais a participar do mundo do futebol na arquibancada, no gramado, como também na administração de grandes instituições esportivas.

Porém, mesmo que tenha havido um grande aumento de mulheres envolvidas com a prática do esporte, o mercado de trabalho no contexto esportivo, para elas, é mais restrito do que para os homens. Os cargos administrativos são, na sua grande maioria, ocupados por homens (GOELLNER, 2004). Vale lembrar, que atualmente Patrícia Amorin preside o Clube de Regatas Flamengo, do Rio de Janeiro, além de, anteriormente, existirem outras presidentes como Marlene Matheus do Esporte Clube Corinthians Paulista, de São Paulo, entre os anos de 1991 e 1993 e outro caso em Santa Maria de Norma Rolin que presidiu o Rio-grandense Futebol Clube, no ano de 2008, assumindo cargo máximo dentro destas entidades esportivas.

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partir de competições internacionais promovidas pela FIFA4, intensificado no cenário nacional, é claro, com a Copa do Brasil de futebol feminino promovida pela CBF5, cujas competições ainda não eram evidenciadas na década 1980.

Dentro do contexto nacional, observa-se que o município de Santa Maria, localizado no interior do Rio Grande do Sul e que tem sua economia baseada na agropecuária, na prestação de serviços e constituindo-se em um centro militar e universitário (IBGE, 2009) apresentava um certo descaso com questões de âmbito esportivo. A carência da maioria dos clubes do interior do Rio Grande do Sul proporcionou a criação de alternativas para o seu desenvolvimento. Nessa perspectiva, em 1985, em Santa Maria - RS, um fenômeno marcou a participação feminina no futebol brasileiro: uma mulher assume a administração de uma entidade futebolística.

O pioneirismo de Sirlei Dalla Lana na administração de uma entidade esportiva profissional, ganha destaque na historiografia, uma vez que ela promoveu a abertura de postos de trabalho para outras profissionais atuarem nessa área até então ocupada apenas por homens.

O processo de inserção de Dalla Lana no contexto futebolístico ocorre antes mesmo de sua gestão como presidente do Clube Internacional de Santa Maria. Torcedora e frequentadora assídua do Estádio Presidente Vargas, até ser incluída na lista de conselheiros e, como tal, começou a participar de todas as reuniões. (LUZ, 2008; p. 370).

Pelo fato de o atual presidente do clube, na época, concorrer para a vice- presidência da Federação Gaúcha de Futebol, ele teve que abdicar ao cargo, deixando uma brecha para que o cargo de presidente do Inter de Santa Maria fosse ocupado. Desse modo, conforme determinação estatutária, o presidente do Conselho Deliberativo deveria assumir a presidência. Logo, Dalla Lana passa a presidir o Esporte Clube Internacional de Santa Maria.

[...] quando estava na presidência do conselho deliberativo, o então presidente do clube, na época era o doutor Eugênio Streliaev, teve que se licenciar para concorrer a vice- presidência da Federação Gaúcha. Quando ele foi eleito vice – presidente eu acabei assumindo a presidência na época. (DALLA LANA, 2010, Entrevista cedida a BERLESE).

O clube não vivia uma situação diferente dos outros clubes do interior do Rio Grande do Sul. A falta de investimentos e a pouca infraestrutura fazia com que seus integrantes, amantes do futebol, participassem de forma efetiva para a manutenção dos clubes. Foi pela

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sua participação e demasiado empenho em favor do clube que Sirlei Dalla Lana foi incluída na lista de conselheiro, participando ativamente nas decisões a serem tomadas no Inter de Santa Maria, tornando-se mais tarde presidente do Conselho Deliberativo.

Em uma dessas reuniões, em que se pretendia eleger o presidente do conselho deliberativo, enquanto a matéria estava em pauta, fui chamada ao telefone, na secretaria do clube, e ao retornar, parei na porta percebendo que todos estavam em pé, aplaudiam (LUZ, 2008, p. 370).

A partir do fato inusitado de uma mulher presidir um clube de futebol profissional, cargo até então exclusivamente ocupado pelo sexo masculino, a repercussão nacional foi imediata. A rotina de Sirlei Dalla Lana mudou totalmente, passando a ser notada por grandes revistas do país, sendo alvo de entrevistas constantes em qualquer hora do dia e da noite (LUZ, 2008, p. 370-371).

Ao completar seu primeiro mês na condição de presidenta de clube de futebol profissional no Brasil, no dia 26 de março de 1985 , a advogada e professora Sirlei, quarenta e quatro anos, casada, mãe de três filhas, ainda hesitava diante de alguns mistérios deste esporte. (Revista Placar, 1985, p. 50).

Imagem 1 – Sirlei em primeiro plano e o Inter SM de 1985.

Em entrevista concedida a esta pesquisa, Sirlei comenta sobre como a mídia repercutiu o fato dela ser a primeira represente feminina a administrar um clube de futebol profissional.

Bom, o que eu me lembro é que minha vida mudou totalmente, eu não tive mais nenhum minuto de privacidade, recebia telefonemas do Brasil inteiro, da meia noite ao meio dia. Eu fui entrevistada pela maioria das revistas brasileiras. A Placar

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programa do J. Silvestre que se chamava Essas mulheres maravilhosas, enfim, a

mídia foi intensa e por ser uma coisa inusitada e por ser a primeira mulher a presidir um time de futebol profissional no país. (DALLA LANA, 2010), Entrevista cedida a BERLESE.

Devido à repercussão frente à novidade no cenário futebolístico, Sirlei Dalla Lana foi ganhando credibilidade também longe dos holofotes. Com uma administração transparente e criteriosa, é possível observar feitos peculiares de sua gestão, coforme menciona à revista Placar. “A advogada assumiu o cargo com a dura tarefa de driblar a crise e vai impondo seu suave estilo de jogo” (Revista Placar, 1985, p.50). Com isso, observa-se a dificuldade em que se encontrava grande parte dos times do interior do Rio Grande do Sul, entre eles, o time de Santa Maria cujas dificuldades exigiu de Dalla Lana técnicas administrativas de acordo com a realidade vivenciada pelo Esporte Clube Internacional de Santa Maria naquele momento.

O fato de ser uma mulher na administração chamou a atenção da sociedade a ponto de Sirlei conseguir criar recursos que colaboraram para estabilizar as finanças do clube.

[...] pelo inusitado da situação a gente recebeu muitos convites para jogos fora de Santa Maria e se ganhava um cachê nesses jogos, e os cachês eram muito bons e com isso pude manter durante grande parte do tempo a situação financeira do clube em dia, (DALLA LANA, 2010).

Desse modo, percebe-se que o inusitado da ocasião, isto é, uma mulher presidir um time de futebol, proporcionou um aumento de convites para partidas amistosas pelas quais recebia-se um bom dinheiro que contribuía para o melhoramento financeiro do clube. É interessante salientar que a presença da administradora nas partidas era indispensável.

Sirlei também comenta algumas contribuições de sua gestão para que fosse revertida a realidade do clube.

Bem, na parte administrativa eu tive um cuidado imenso de não fazer dívidas e cumprir integralmente com todas as obrigações em relação aos jogadores [...] recolhi, inclusive, o fundo de garantia que era uma coisa que a maior parte dos presidentes não recolhia. (DALLA LANA, 2010).

A Revista Veja publicou uma nota a respeito de sua administração em que um dos jogadores do time se manifesta com relação à sua administração: “É ótimo negociar contratos com ela”, garante o goleiro Vladimir, 24 anos. “e o pagamento já começa a sair em dia” (Revista Veja, 1985, p.73 - Anexo 2 e 3).

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uma vez que as informações ultrapassaram a mídia esportiva, alcançando uma revista de generalidades que destaca também notícias de ordem administrativa, social e política.

Mesmo com uma administração íntegra e com o prestígio alcançado devido suas realizações no clube, elementos enraizados na cultura afloram durante a gestão de Dalla Lana. Algumas manifestações antiéticas estavam presentes durante sua administração como afirma em entrevista cedida a este estudo.

Não posso dizer que não tivesse havido preconceito. O que eu posso dizer que eu sinto que a grande maioria dos homens que normalmente andavam por lá na administração se afastaram. Foram poucos aqueles que tiveram colaborando com nosso trabalho, até posso destacar duas pessoas que foram fundamentais, o técnico Tadeu Menezes e um dirigente chamado Cézar Dalla Corte, foram as pessoas que mais me auxiliaram durante todo o tempo do meu trabalho. (DALLA LANA, 2010).

Mesmo que tenha assumido a presidência, muitos dos dirigentes não apoiaram a posição administrativa que Sirlei havia conquistado. Observa-se que ainda apresenta-se enraizado o descrédito quanto ao gênero na mentalidade dos homens deste ambiente. Entende-se, pois, que o prestígio alcançou por Dalla Lana contempla muito mais os ambientes fora dos muros da “baixada” do que propriamente dentro do clube.

Outro fator relevante refere-se a uma maior participação feminina nos campo de futebol do interior do Estado como afirma:

[...] a gente sabe que houve decretos legislativos proibindo a mulher da prática de determinados esportes, ao mesmo tempo inúmeros cargos públicos eram vedados à mulher e no futebol nem se fala, a mulher nem se quer ia a campo, coisa mais rara era ver uma mulher assistir a um jogo de futebol. E a minha presidência no Inter-SM realmente abriu esse espaço. Depois de eu assumir a presidência, muitas e muitas mulheres passaram a frequentar o estádio do Inter SM. Eu acho que as mulheres têm seu espaço, poderiam ir ao campo normalmente com sua família, com seus esposos, com seus filhos como também podem administrar. Aqui em Santa Maria nós tivemos [mais recentemente, como apontamos anteriormente] na administração do Riograndense a professora Norma Rolin, que é mulher, então eu acho que realmente a mulher conquistou um espaço e está inserida no futebol tanto como esportiva como administrativamente falando. (DALLA LANA, 2010).

Entende-se que o pioneirismo de Sirlei Dalla Lana na administração de clube de futebol profissional representa um marco na inserção da mulher no cenário futebolístico, tornando-as atuantes e efetivas nos gramados, nas arquibancadas e nas reuniões dos clubes de futebol.

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ao certo desde quando as mulheres começaram a atuar como árbitras assistentes, mas recentemente a FIFA autorizou-as a apitar jogos das eliminatórias da Copa do Mundo de 2006. No Brasil, um trio totalmente feminino só foi permitido atuar no Campeonato Brasileiro masculino - série A pela CBF, em junho de 2003, quando a paulista Silvia Regina de Oliveira foi a árbitra designada para dirigir a partida, sendo as árbitras Ana Paula de Oliveira e Aline Lambert designadas como suas assistentes. (SILVA, 2008).

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PÓS-JOGO OU O JOGO ESTÁ APENAS COMEÇANDO: A PESQUISA E ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS

Futebol, “gênero brasileiro”. Nossa ideia nesse título era provocar uma reflexão sobre se de fato a ideia desse esporte se ampliaria não apenas a ser uma questão masculina, mas também feminina, marcando o campo futebolístico brasileiro como um espaço de identidade que vai além de uma problemática de gênero, mas que está inserido num processo de formação histórica do Brasil.

Ao longo desta pesquisa, observou-se que a mulher conseguiu participar do processo histórico no futebol brasileiro. Apesar de muitas barreiras impostas pela sociedade, elas conseguiram seu espaço a ponto de promover transformações no cenário esportivo.

Ao analisar a participação da mulher no contexto futebolístico, verificou-se que a história do futebol feminino foi o oposto do masculino. Esta distinção ocorreu porque o grupo feminino que buscava a inserção no futebol quase sempre pertenceu às classes desfavorecidas e sofria pela falta de incentivo e pelo preconceito, pois para a elite as mulheres apresentavam comportamentos repudiados e considerados como marginalizados, enquanto que o futebol masculino brasileiro surge no Brasil como um esporte de elite, envolvido por padrões de

comportamento no período da belle-époque cujos valores impostos correspondiam às regras

de etiqueta dessa parcela da sociedade.

Também, observou-se que, além dessa distinção sexista no futebol, outras barreiras inibiam a inserção da mulher nesse contexto. Além do preconceito e da discriminação

proporcionada pelas concepções da belle-époque, diretrizes políticas também foram criadas

para retardar o processo de participação feminina no futebol, conforme aponta o decreto de lei 3.199, de 1941, vigente até 1975, imposto no período do Estado Novo.

Felizmente, nos fins da década de 1970, o decreto de lei que impossibilitava a prática feminina do futebol é revogado. E, no início dos anos 1980, duzentos times de futebol feminino garantiam a oficialização e começava o futebol feminino a ser popular entre as mulheres.

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futebol no Brasil e começa a ganhar importância no futebol brasileiro por conquistas dentro e fora dos gramados a ponto de merecer a atenção de teóricos e estudiosos.

Porém, ainda hoje as mulheres lutam contra uma barreira ainda não totalmente superada, que é o preconceito. Para compreender esse fenômeno verificou-se nos estudos de gênero um elemento determinante da dificuldade encontrada pelas mulheres neste ambiente. As relações de poder exercidas entre homens e mulheres tanto no campo esportivo quanto administrativo configuram-se em posições e acessos extremamente desiguais, pois a sociedade estabelece uma distribuição de responsabilidades que são alheias às vontades das pessoas, sendo que os critérios dessa distribuição são sexistas, classistas e racistas. Até mesmo os valores patriarcais serviam para manter as mulheres submissas ao espaço doméstico, determinando o seu papel sexual na sociedade.

O sexo apresenta-se, pois, como um território em que se busca fixar as demarcações identitárias que são usadas para impedir a participação feminina em diferentes modalidades esportivas e por isso devem ser estudados como fenômenos sociais.

A participação da mulher brasileira no futebol foi se ajustando à modalidade para que ela pudesse se inserir no contexto desportivo, onde os homens estavam assentados desde o princípio. Logo, a prática esportiva, o cuidado com a aparência, o desnudamento do corpo e o uso de artifícios estéticos são identificados como impulsionadores da modernização da mulher e da sua autoafirmação na sociedade.

Nesse sentido, notou-se mudanças de valores rumo a igualdades de direitos, de oportunidades e responsabilidades das mulheres líderes no esporte brasileiro e elas passam a ganhar maior visibilidade. Elas ousaram ingressar no mundo esportivo, aprenderam com ele e, atualmente, participam de todos os tipos de modalidades esportivas. Conseguiram, pois, superar muitas das dificuldades, não apenas no plano social e cultural, mas também no plano esportivo.

Nessa trajetória, a mulher passa a adquirir um papel relevante também no setor administrativo, chegando a assumir altos cargos dentro das instituiçoes esportivas como foi o caso de Sirlei Dalla Lana, que assumiu a direção do Esporte Clube Internacional, no ano de 1985, na cidade de Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul.

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Embora a participação feminina só tenha tido representatividade de alto nível competitivo recentemente, isto é, nas últimas décadas, as conquistas das mulheres, ao longo da história do futebol brasileiro, contribuíram para que o futebol feminino se popularizasse no Brasil e no mundo.

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WITTER, J. S. Breve História do Futebol Brasileiro. Folha de S. Paulo, p.D5. São Paulo: FTD, 1996.

FONTE ORAL

DALLA LANA, Sirlei. Santa Maria. 01 de abril de 2010. Entrevista concedida à Dérico Dutra Berlese Júnior.

BIBLIOGRAFIA DE APOIO

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LUZ, Cândido Otto. Registros do Futebol Santa-Mariense. 3 volumes. Santa Maria: Editora

do Autor, 1994.

SHIMIDT, Benito Bisso. O biográfico perspectiva interdisciplinares. Santa Cruz do Sul:

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