Francielle Alves Difante A MEMÓRIA CONSTRUÍDA SOBRE OS DESAPARECIDOS POLÍTICOS NA DITADURA CIVIL-MILITAR ARGENTINA

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Francielle Alves Difante

A MEMÓRIA CONSTRUÍDA SOBRE OS DESAPARECIDOS

POLÍTICOS NA DITADURA CIVIL-MILITAR ARGENTINA

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Francielle Alves Difante

A MEMÓRIA CONSTRUÍDA SOBRE OS DESAPARECIDOS

POLÍTICOS NA DITADURA CIVIL-MILITAR ARGENTINA

Trabalho Final de Graduação (TFG) apresentado ao curso de História, Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano - UNIFRA, como requisito parcial para a obtenção do título de licenciada em História.

Orientador: Carlos Roberto da Rosa Rangel

Santa Maria, RS

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Francielle Alves Difante

A MEMÓRIA CONSTRUÍDA SOBRE OS DESAPARECIDOS POLÍTICOS NA DITADURA CIVIL-MILITAR ARGENTINA

Trabalho Final de Graduação (TFG) apresentado ao curso de História, Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano - Unifra, como requisito parcial para a obtenção do título de licenciada em História.

________________________________________________________

Profº Drº Carlos Roberto da Rosa Rangel – Orientador (UNIFRA)

_________________________________________________

Profº Drº Leonardo Guedes Henn (UNIFRA)

_______________________________________________

Profº Ms. Alexandre Maccari Ferreira (UNIFRA)

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RESUMO:

Investiga-se, neste trabalho, como tem sido construída a memória sobre os desaparecidos políticos argentinos durante a Ditadura Civil-Militar desse país (1976-1983). A metodologia compõe-se de pesquisa bibliográfica e a consulta aos sites especializados da Argentina que abordam o tema. Procura-se identificar como tem ocorrido a disputa pela memória dos desaparecidos e os esforços realizados para o enquadramento da memória dos desaparecidos políticos por parte das autoridades. O referencial constitui-se de teóricos como Michel Pollak, Maurice Halwbachs, Pierre Nora e Elizabeth Jelin que serviram para interpretar as obras historiográficas, manifestos, relatórios, revistas, artigos de opinião e sites especializados sobre o assunto. Como resultados destacam-se as reminiscências sobre a repressão militar, as quais estão associadas a uma memória coletiva. Essa memória coletiva só é aceita publicamente depois de adquirir um sentido coerente ao grande grupo social que a recebe por meio de obras de história, discursos hegemônicos e lugares de memória.

Palavras–chave: Ditadura Civil-militar; Argentina; Memória; Desaparecidos Políticos.

ABSTRACT

Investigates how memory has been built on the missing Argentine politicians during the Civil-Military Dictatorship that country (1976-1983). We use the literature search and consultation with specialized sites in Argentina that address. It seeks to identify how the dispute has occurred by the memory of the missing and efforts to mentor the memory by the authorities. The theoretical are Michel Pollak, Maurice Halwbachs, Pierre Nora and Elizabeth Jelin that served to interpret the historical works, manifestos, reports, magazines, opinion articles and websites specializing in the subject. As a result, it is emphasized that the reminiscences about the military crackdown are associated with a collective memory, which is apprehended only publicly after acquiring a coherent sense of the large social group that gets through works of history, hegemonic discourses and places memory.

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Agradecimentos:

A motivação que me levou a fazer esta monografia partiu, diretamente, das aulas de História da América Contemporânea II, então, agradeço à Professora Janaína Teixeira por me apresentar o tema, que foi “amor a primeira vista”.

No entanto, até chegar nesta fase da academia passei por vários professores que transformaram o meu sonho em realidade. Agradeço à Professora Paula pelo carinho e pelo incetivo. Fico grata pela dedicação e atenção, principalmente quanto à humildade do Professor Leonardo. Sendo assim, não posso deixar de mencionar outros professores como: Professor Alexandre pelas suas discussões em torno dos filmes, Professora Roselaine pelas ótimas aulas de RS II, Professora Elisabeth pelas melhores aulas de Pré-colombiana, Professora Lenir pela infinita inteligência, Professora Nikelen por ser além de professora, ser também uma inspiração e Professor Luís Augusto por todas as aulas maravilhosas e pela “chatisse” de colorado, que foram tão importantes na minha vida acadêmica.

Nesta etapa decisiva, o grande responsável por hoje eu estar finalizando a minha tão sonhada graduação, no que se refere à academia, é o Professor Rangel, que aceitou o desafio desta pesquisa tão assustado quanto eu, mas que deu certo. Com ele aprendi muito, mas o mais importante foi à dedicação extrema e a paciência, pois não foi fácil orientar uma aluna que mudou de tema e teve que escrever seu TFG em quatro meses. A ele dedico a minha conquista. Ao Professor Rangel, meu muito obrigado por tudo.

Ainda agradecendo o meio acadêmico, muito obrigada aos meus colegas do Sindicato pela amizade e pelas risadas. Ao Matheus Butiá, Thiago Arroz, Guilherme Bortoluzzi, Conrado Silas e Eduardo Soares. Além desses amigos, fico grata pela amizade e o carinho do “trio parada dura” Antônia, Pâmela e Marjana. Também à Janaína Vargas que participou de momentos importantes comigo. Ao meu amigo de coração Ari Helfer, obrigada por tudo.

Depois de agradecer a todos do meio acadêmico, gostaria de agradecer a minha maior inspiração minha mãe Maria Geni, sem você nada disso seria possível, obrigada por me entender e me ajudar.

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pela companhia em nossas “eternas” viagens de Quevedos à Santa Maria, e por ser uma pessoa importante na minha vida. Acima de qualquer pessoa agradeço a toda minha família por sempre me incentivar a estudar e a ser uma pessoa de bom coração.

Também não posso deixar de agradecer, novamente, ao Professor Maccari e ao Professor Leonardo que aceitaram ler o meu trabalho. Espero que possam compreender meu objetivo, e que seus comentários enriquessam a pesquisa.

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Dedico a meu filho,

Frederico,

razão da minha vida,

e, especialmente,

para minha mãe Maria Geni,

que construiu em mim o amor pela vida e o poder de sempre se superar.

“Porque sabemos la verdad y tenemos memoria exigimos justicia.”

María Juana Rivas – Representante da Comisión de la Memoria.

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LISTA DE ANEXOS:

Anexo 1: Centros clandestinos de detención: buenos aires y alredores ... 59

Anexo 2: Centros clandestinos en La Plata ... 60

Anexo 3: Centros clandestinos en otras regiones de Argentina ... 61

Anexo 4: Gráficos percentuais da listagem do CLAMOR ... 62

Anexo 5: Continuação dos gráficos percentuais das vítimas registradas pelo CLAMOR ... 63

Anexo 6: Listagem das vítimas contidas no relatório – CLAMOR ... 64

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ... 10

2 OS GOVERNOS DA DITADURA CIVIL-MILITAR ARGENTINA: CONTEXTO GERAL ... 16

3 DESAPARECIDOS: A LUTA PELO NÃO ESQUECIMENTO ... 26

4 ENTRE A HISTÓRIA OFICIAL E A MEMÓRIA COLETIVA ... 43

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 54

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1 INTRODUÇÃO

Esta monografia trata sobre os desaparecidos políticos durante a Ditadura Civil-Militar Argentina (1976 – 1983), tendo como foco a problematização de como a memória sobre os desaparecimentos vem sendo construída pelos movimentos sociais e organizações que se especializaram nesse tema traumático da História argentina. Ou seja, problematiza-se nesproblematiza-se corpus investigativo: Como é lembrada, enquadrada e avaliada a memória coletiva sobre os desaparecidos políticos da Argentina, que somam mais de 30 mil.

A busca pela verdade sobre os desaparecidos dificilmente será isenta de falhas, isso porque envolve dezenas de milhares de pessoas e a disputa por recursos entre instituições que trabalham na mesma direção, ou seja, na busca pelos desaparecidos. No entanto, é possível superar algumas dificuldades valendo-se das testemunhas e documentos existentes. Enquanto as evidências testemunhais disponibilizam a memória sobre o que ocorreu, os documentos proporcionam mais comprovações de tantos desaparecimentos financiados pelo governo que utilizou o sequestro como método de detenção.

Quando falamos de memória podemos conceituá-la como coletiva ou individual segundo Michel Pollak:

Na tradição durkheimiana, que consiste em tratar fatos sociais como coisas, torna-se possível tomar esses diferentes pontos de referencia (as reminiscências individuais) como indicadores empíricos da memória coletiva de um determinado grupo, uma memória estruturada com suas hierarquias e classificações, uma memória também que, ao definir o que é comum a um grupo e o que o diferencia dos outros, fundamenta e reforça os sentimentos de pertencimentos e as fronteiras sócio-culturais (1989, p.3).

Nessa tradição, a memória coletiva é dada como instituição de um grupo, equivalendo à duração, à continuidade e à estabilidade das lembranças coletadas. Ainda, segundo o autor supracitado, longe de ver a memória coletiva como imposição, acrescenta-se que “uma forma específica de dominação ou violência simbólica acentua as funções positivas desempenhadas pela memória comum” (POLLAK, 1989, p.3).

Utilizando como referencial Maurice Halbwachs (apud POLLAK), o teórico afirma que existe um processo de “negociação” entre a memória coletiva e a memória individual:

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Outro elemento fundamental é o fato que as ditaduras de segurança nacional, no caso argentino, promoveram uma ação institucional de esquecimento, por meio da censura midiática. Conforme Soca (2001), tais ações são oriundas “dos processos de redemocratização, em que através das leis de auto-anistia, procurava-se apagar da memória coletiva os acontecimentos relacionados à repressão legal ou ilegal do momento, isentando os responsáveis de suas culpas (p. 14).

Nesse sentido, ressalta-se uma espécie de tentativa de “superar o passado”, em nome de uma suposta “conciliação nacional” (Memória Nacional). Isso remete que os que foram vítimas de experiências traumáticas da Ditadura deveriam esquecer o que vivenciaram. Por isso, se faz necessário que, a partir dessa reconstrução da memória nacional, ocorra uma cobrança de punições dos crimes contra os direitos humanos.

Ainda que não seja papel do historiador julgar os sujeitos históricos, na perspectiva da História do Tempo Presente os acontecimentos da contemporaneidade e a memória coletiva trabalhada pelo historiador estão muito próximos, gerando possíveis juízos de valor sobre o contexto tratado. Considerando essa proximidade, Henry Rousso discute a

relação do passado como o presente, afirmando que ela é inerente à história do tempo presente:

O passado não é mais algo ‘acabado’, mas uma matéria sobre a qual se pode agir, da mesma maneira como se age sobre o presente: isso explica a importância da memória e o fato de que o passado se enfraquece nesse registro muito mais do que em ‘termos de história’, já que a memória sendo a presença do passado, a

priori é possível agir sobre ela, enquanto é absurdo querer mudar o passado. (2007, p.284)

Deve-se considerar que a história dos desaparecidos políticos e dos seus hijos e nietos ainda está sendo escrita e em plena transformação. Isso porque o enquadramento de memória, realizado por uma história oficial, tem limites e exigências de justificação que tendem a se consagrar com a passagem do tempo. Entretanto, Michel Pollak lembra que nem sempre o tempo trabalha a favor das autoriades que promovem uma memória oficial e dificultam o surgimento daquelas memórias subterrâneas. Segundo as suas palavras:

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Ainda segundo as palavras de Michel Pollak (1989, p. 7), “é necessário analisar as conjunturas favoráveis e desfavoráveis para emergência das memórias marginalizadas”. As memórias clandestinas inaudíveis são descartadas pela memória oficial e o grande problema é o de sua transmissão intacta até o dia em que elas possam invadir o espaço público. Já o problema da memória oficial é o de sua credibilidade, pois precisa ser organizada e aceita por meio de uma ideologia nacional coerente.

Por isso, faz-se necessário analisar as produções historiográficas e midiáticas que trabalham com os desaparecidos da Ditadura Civil-Militar argentina. Os limites da presente monografia não permitem esse esforço de análise tão sistemática, pois demandaria um tempo superior ao disponível. Entretanto, é possível realizar um levantamento de produções acadêmicas e artísticas, disponíveis em sites especializados e em algumas publicações impressas, que discutem e informam sobre os desaparecidos políticos durante a Ditadura Civil-Militar argentina. Após esse levantamento inicial, pode-se verificar como essas produções são veiculadas, disponibilizadas para o grande público e que justificativas apresentam para sua produção.

Sabe-se que existem movimentos sociais engajados nessa temática e que ainda estão bastante ativos, como as Abuelas e Madres que buscam informações sobre os desaparecidos. Além disso, o assunto ainda está em pauta entre os argentinos, considerando que está inconclusa a condenação à prisão perpétua dos primeiros acusados na chamada Megacausa ESMA1.

Portanto, percebe-se que esta monografia tem uma abordagem que, frequentemente, é denominada de História do Tempo Presente. Esse engajamento torna-se mais nítido quando se destaca o que é a produção historiográfica dedicada ao estudo da repressão militar e as organizações em prol do “não esquecimento” dos crimes cometidos contra os Direitos Humanos, que visam romper com o “esquecimento coletivo” em relação ao assunto. Dito de outra maneira, a produção de textos investigativos ou de denúncia, bem como as mobilizações e organizações sociais engajadas no esforço de esclarecimento lutam contra a tendência natural do esquecimento, ainda que se trate de algo traumático.

Deve-se levar em conta que as lembranças traumatizantes sobre a perseguição, prisão, tortura e desaparecimento dos inimigos políticos da Ditadura Civil-Militar

1 Megacausa ESMA é o nome dado a uma série de processos judiciais relacionados aos crimes contra

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argentina estiveram por algum tempo submersas, a espera do momento oportuno para se tornarem públicas. No caso argentino, isso aconteceu parcialmente com o fim da Ditadura em 1983. Isso se deu de forma parcial, porque os militares que deixavam o governo e seus colaboradores civis forçaram a promulgação de uma Lei de Anistia Política (Obediencia Debida e Punto Final) n° 22.924, em 23 de março de 1983. Essas leis impossibilitavam as denúncias, a investigação ou a rememoração oficial e, consequentemente, a punição dos crimes de Estado praticados contra os civis. Deve-se considerar que no ano de 2003, a deputada argentina Patricia Walsh, apoiada pelo presidente da época Néstor Kirchner, enviou ao Congresso um projeto de lei para anular as leis de anistia política: Obediencia Debida e Punto Final, que somente em 2005 a Corte Suprema de Justicia argentina às declarou inconstitucionais.

Sobre essa atuação do Estado para evitar a lembrança dos eventos traumatizantes, Michel Pollak acrescenta:

A fronteira entre o dizível e o não dizível, o confessável e o inconfessável, separa, em nossos exemplos, uma memória coletiva subterrânea da sociedade civil dominada ou de grupos específicos, de uma memória coletiva organizada que resume a imagem que uma sociedade majoritária ou o Estado desejam impor. Distinguir entre conjunturas favoráveis ou desfavoráveis às memórias marginalizadas é de saída reconhecer a que ponto o presente colore o passado (POLLAK, 1989, p. 8).

Entretanto, foi a partir de 1977, ainda no período da Ditadura Argentina, que começou a busca pelas informações mais detalhadas sobre os desaparecidos. Essa busca foi dificultada pelas restrições às consultas aos arquivos desde o Proceso de Reorganización Nacional, de 1976, que após a redemocratização em 1983, os arquivos foram abertos para a consulta.

Mesmo que não haja livre acesso aos documentos oficiais, uma produção não se desqualifica ao utilizar-se de fontes não oficiais, como relatos de vítimas verbalizados por documentários, sites oficiais e artigos de opinião, assim como das denúncias publicadas tanto nos jornais da época como nos atuais. Tais instrumentos podem ser empregados pelo historiador desde que seja utilizado “filtros corretores” próprios da análise interna e externa das fontes (orais ou escritas), como salienta Padrós (2009, p. 11).

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A metodologia de pesquisa adotada para a confecção desta monografia consistiu na verificação de produções historiográficas e midiáticas acerca dos desaparecidos políticos durante a Ditadura Civil- Militar argentina. A busca centrou-se nas indicações existentes nas referências bibliográficas de livros especializados nesse assunto, como o livro de título Brasil e Argentina: Ditaduras, Desaparecimentos e Políticas de memória, escrito por Caroline Silveira Bauer (2012), que trata da prática do desaparecimento como estratégia de implantação do terror; a transição política e as estratégias de memória e esquecimento no Brasil e na Argentina. Outra publicação que merece destaque é Desaparecidos em la Argentina , desenvolvido pelo Comitê de Defensa de derechos humanos en el Cono Sur (CLAMOR) que aborda uma listagem com mais de 7 mil desaparecidos políticos argentinos, com fichamento rico em detalhes, como por exemplo, qual centro clandestino de detenção e quais eram as profisões dos detentos, dentre outras informações, também dispõe de gráficos percentuais e mapas dos centros clandestinos.

Com relação ao referencial teórico, foi importante a consulta de Memória, Esquecimento, Silêncio escrito por Michel Pollak (1989), que aborda a disputa pela memória, o que é dizível e não dizível, o enquadramento da memória e o mal do passado. Dentro dessa mesma metodologia, também foi consultado ¿De qué hablamos cuando hablamos de memórias? , escrito por Elizabeth Jelin (2001) e trata dos processos de construção de memória, diga-se memórias no plural, pois envolvem disputas sociais acerca da memória, sua legitimidade social e a pretensão para a verdade. Seguindo na mesma perspectiva teórica, Maurice Halbawachs (2006) aborda em seu livro A Memória Coletiva, a memória coletiva e a memória individual estando articuladas segundo lembranças contextualizadas e compartilhadas.

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argumentos se colocam como mediadores entre a memória coletiva e os envolvidos nos eventos de perseguição, prisão e desaparecimento dos presos políticos argentinos.

Tendo em conta essa metodologia, a presente monografia está dividida nos seguintes capítulos:

a) Capítulo 2: Trata do contexto político e social argentino, os antecedentes ao golpe e as estratégias diretas para a instalação e obtenção do terror de Estado;

b) Capítulo 3: Expõe os desaparecidos, as torturas físicas e psicológicas, e o esforço do “não esquecimento” conduzido por organizações nacionais, que buscam por seus nietos e hijos que desapareceram por condições político-ideológicas, não se obtendo informações da existência de corpo.

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2 OS GOVERNOS DA DITADURA CIVIL-MILITAR ARGENTINO: CONTEXTO GERAL

Importante destacar que a terminologia usada para definir governos latino-americanos liderados por militares varia conforme o enfoque do pesquisador. No caso brasileiro, por exemplo, autores como Octávio Ianni e Florestan Fernandes, citados por Antonio Berni (2012, p. 48-58), utilizam a expressão “Ditadura Civil-Militar” justificando que se a autoridade é aquilo que aparece frente à sociedade então se deve admitir que o poder político foi protagonizado pelos militares, mas não monopolizado por eles, pois o poder econômico exercido pela burguesia associou-se aos projetos e ações do Estado, de tal maneira que “a burguesia esteve presente no processo de aprofundamento da “democracia restritiva” que foi a existência de uma ordem civil que, na prática, restringia a participação política apenas para alguns privilegiados” (BERNI, 2012, p. 55).

No que tange à realidade argentina, também houve a estreita participação de setores econômicos nos projetos e ações do Estado conduzido por juntas militares. Efetivamente, a intervenção das Forças Armadas na política nacional Argen

tina foi recorrente no ano de 1976, durante a crise política e institucional, e acabou sendo a solução que a elite política, dividida frente à crise e à pressão social, encontrou para conciliar seus interesses.

Foi graças a essa aproximação e aos arranjos acertados anteriormente com as facções antiperonistas que os integrantes da Junta Militar - General Jorge Rafael Videla, Almirante Emilio Massera e Brigadeiro Orlando Agosti (chefes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica respectivamente) - puseram fim ao mandato constitucional da Presidente María Estela Martínez de Perón (Isabelita), instalando o golpe e assumindo o Poder Executivo argentino. Conforme Cezar Guazelli a derrubada de María Perón foi inevitável:

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Deve-se igualmente considerar que o início do governo ditatorial não despertou ampla reação civil, mas passou sem que se testemunhasse nenhuma mobilização popular de reação à queda da Presidente da República. Isso pode ser entendido quando se lembra que a política econômica do governo de Isabelita gerou inflação e especulação financeira, acarretando uma campanha de desestabilização do governo por meio da bancada de oposição e pelas corporações prejudicadas por suas medidas econômicas.

Por isso, “a impopularidade de seus ministros, envolvidos em escândalos de corrupção, e o quadro de violência política generalizada” (SOCA, 2011, p. 24) fizeram com que os militares assumissem a responsabilidade pela ordem pública e pela mediação política, intimidando a Presidente. Ao mesmo tempo, conspiravam para derrubá-la do poder. Segundo Osvaldo Coggiola, reafirmando a crise existente no governo de Isabelita:

Na Argentina, o terceiro governo peronista (1973 – 1976) foi de crise permanente. (...) Em novembro de 1974 foi declarado o estado de sítio: a JP-Montoneros passou para a clandestinidade, e o ERP já havia decidido continuar sua guerra contra o Exercito desde 1973, quando ocupou um quartel em Buenos Aires, provocando a militarização da região. Os sindicatos classistas ou combativos foram postos sob intervenção estatal. Em novembro de 1974, o governo concedeu aumentos salariais ao mesmo tempo em que Maria Estela tentava revigorar a demagogia nacionalista, “argentinizando”, mediante pagamento, a ITT, a Siemens e os postos de gasolina (só 20% eram privados e só cem estrangeiros). O humor popular batizou isto de “nacionalização das mangueiras”. A dívida externa subiu até dez bilhões de dólares (um terço do PIB). (...) Mil e quatrocentas “comissões paritárias” (composta por sindicatos e empresas) reuniram-se. O ministro da economia, Gómez Morales, tentou fixar um teto de 15% para os aumentos. A cúpula da CGT ameaçou então com a renúncia. Em 9 de Junho de 1975 o novo ministro da economia, Celestino Rodrigo, proibiu aumentos maiores que 30%, ameaçando suspender as “paritárias”. (...) Iniciou-se então uma onda de greves e, em 19 de junho de 1979, as paritárias fecharam acordos para aumentos de 90% a 130%, que afundaram o plano econômico. No dia 26 de Junho, Isabelita anulou as paritárias, decretando aumento uniforme de 45%. No dia seguinte, explodiu uma greve geral nacional, encapada dias depois pela CGT. (...) A burguesia tinha abandonado o governo, esvaziando a CGE (Confederação Geral Econômica) e criando, com uma nova central sob hegemonia dos bancos (Apege), um novo agrupamento político das classes dominantes, que constituiria a base social do futuro golpe militar (2001, p. 47 - 49).

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alusão a um compromisso com a política, economia e sociedade, que, até então, não havia no governo argentino. Essa interferência era para acabar com o “desgoverno, a corrupção e os “subversivos”.

Com a instalação do “Proceso de Reorganización Nacional”, em 24 de março de 1976, sob o comando do General Videla, deu-se início ao aspecto fundamental do funcionamento do Proceso, que era uma guerra antissubeversiva, desencadeada antes da reestruturação do “desgoverno e da corrupção”. A guerra suja foi imposta através do aniquilamento das guerrilhas, dos grupos de esquerda revolucionária, grupos sindicalistas, grupos estudantis e grupos simpatizantes do populismo peronista, por meio das práticas de terrorismo de estado. Não houve nenhuma resistência civil na instalação da Ditadura Civil-Militar e nem em defesa do governo peronista, o que, segundo Guazelli (1993, p.39), “era como se coletivamente houvesse resignação quanto à fragilidade das instituições democráticas”.

A intenção legítima da Junta Militar conforme Oscar Troncoso era:

Disolver el Congreso Nacional, las legislaturas provinciales, la sala de representantes de la ciudad de Bs. As. Y los concejos municipales de las provincias u organismos similares... Remover los miembros de la Corte Suprema de Justicia de la Nación, el Procurador General de la Nación y a los integrantes de los Tribunales Superiores Provinciales... Suspender la actividad política y de los partidos políticos a nivel nacional, provincial y municipal... Suspender las actividades gremiales de trabajadores, empresarios y profesionales... Vigencia de la seguridad nacional. Erradicando la subversión y las causas que favorecen su existência (1984, p.109 - 110).

Outra característica importante estabelecida durante o Proceso foi o desenvolvimento de um plano econômico composto de ideias neoliberais, conservadoras e desenvolvimentistas em favor da classe influente, a qual apoiava o golpe. O plano do ministro da economia José Alfredo Martínez de Hoz propunha:

a) imposição de um retrocesso histórico das condições de vida da população; b) liquidação de uma parte do ativo industrial obsoleto dos capitais que não podiam sustentar a concorrência internacional, reativando por meio das reestruturas dos setores capazes de inserir-se mais profundamente nas correntes do comércio mundial (COGGIOLA, 2001, p. 72).

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da dívida privada, além da promulgação de uma Lei de Promoção Industrial e das políticas de compra do Estado, favorecendo, dessa forma, o empresariado argentino.

Houve também um grande favorecimento das exportações primárias, com caráter pró-oligárquico e pró-imperialista, característica típica do governo militar. No entanto, segundo Guazelli, as medidas adotadas pelo governo não ajudaram a indústria nacional, pois:

A entrada de capitais estrangeiros conduziu a uma concentração, que se ampliou com uma política de juros elevados; a alta conseqüente de preços foi combatida com uma acentuada redução dos direitos aduaneiros, com uma entrada sem precedentes de manufaturados de todo o tipo, levando a um aniquilamento da indústria nacional (1993, p. 40).

A disposição para a baixa das taxas de juros havia refletido a crise e a falência da indústria a partir de 1975, causando o déficit comercial elevado o que aumentou o endividamento externo, passando de 8 milhões de dólares em 1975 para 45 milhões de dólares em 1982. Este fato acabou acentuando a insatisfação de diversos setores empresariais que, inicialmente, apoiaram a derrubada de Maria Estela Perón. Segundo Gerardo De Santis:

Las políticas que se aplican a partir de 1976 son: la devaluación de la moneda, el congelamiento de los salários y la liberalización de los precios. Los salários quedan congelados, con el agravante de que no había posibilidades de protestar, por la prohibición de los partidos políticos y de los sindicatos. Un dato importante es que la participación de los trabajadores en el ingreso en el año 1975 era del 40% y en el año 1976 cae al 25% (2011, p. 1).

A política financeira estabelecida pelo plano econômico de Martinez de Hoz estruturou-se como opção para a evasão de capitais, ocasionando, principalmente, elevada alta em investimentos em capital ocioso e, sobretudo, no recorrente risco em se investir no capital internacional. A crise econômica estabelecida pelo Plano Econômico afetou, também, os grandes latifundiários que, em 1977, prejudicados pela queda brusca dos preços agrários internacionais, criticavam os altos impostos. Em 1975, os Estados Unidos, com a eclosão da crise econômica, já havia suspendido os créditos ao governo, modificando a estrutura econômica do país que já estava abalada, aumentando ainda mais o desgosto da elite comercial e política.

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Sob o chamado “Proceso de Reorganización Nacional”, a Junta Militar, comandada pelo General Videla, dissolveu o parlamento, colocando, em seu lugar, uma comissão formada por militares, sendo eles, também, os principais agentes que tiveram a incumbência de ocupar os principais cargos nos ministérios mais importantes. Além disso, os tribunais civis foram fechados, os partidos políticos foram proibidos e a criação de novos sindicatos foi suspensa. Greves e manifestações políticas tiveram o mesmo destino, bem como líderes sindicais foram marcados como subversivos.

“O Estado virou uma máfia” (COGGIOLA, 1986, p. 50). Os grupos empresariais beneficiados pelo “Proceso” chegaram a apropriar-se de bens alheios conseguidos através da tortura e da repressão. A apropriação dos bens materiais durante a ditadura teve um forte elemento, pois, após o sequestro, acontecia a apropriação dos bens materiais das vítimas. Os roubos acontecidos nos domicílios dos sequestrados eram considerados, pelas forças da operação, como “Botins de Guerra”. Esses, por sua vez, eram executados até mesmo durante o sequestro da vítima. Os participantes de tal ato ficavam encarregados de dividir os trabalhos para que houvesse a divisão “igualitária” dos bens da família.

Os setores que demonstraram contrariedade ao “Proceso” (eletricidade e ferrovias) foram fortemente reprimdos pelos militares e líderes sindicais dessa classe como Oscar Smith e Lorenzo Miguel foram presos ou assassinados. Conforme Coggiola:

Apesar disso, os burocratas entraram nas Comissões assessoradas dos interventores militares e praticaram outras formas de colaboracionismo: foi uma forma extrema de integração ao Estado, que pôs a prova com sucesso a solidariedade de principio de burocracia com o regime capitalista (1986, p. 50).

A corrupção não deixou de existir. Alcançou patamares elevadíssimos no governo e na burguesia argentina. Além disso, o custo imposto pelos imensuráveis orçamentos dos militares que resultaram em um quarto da dívida externa, chegando a atingir 45 bilhões de dólares, agravava ainda mais a situação do país (Grupo de Estudio de Economia Nacional y popular – GEENAP, 2009). O fracasso econômico foi visível: um terço das 100 maiores empresas sumiu do mercado através de decretos de falência, fusão ou, não raro, de venda.

Torna-se relevante, neste momento, destacar que essas ações econômicas e sociais ocorreram durante o governo do General Jorge Rafael Videla, que ficou no poder boa parte da Ditadura (1976 a 1981). Por este motivo, é considerado o maior “arquiteto” da guerra suja, pois, foi dentro de seu governo que aconteceram os maiores índices de desaparecimentos e repressão armada.

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também alguém que espalha ideias que são contrárias à civilização ocidental e cristã". Além disso, seguidamente defendia que "o objetivo do processo (de Reorganização Nacional) é a transformação profunda da consciência, objetivando a busca não só pela ordem econômica, mas também pela ordem “pensante” na Argentina”. Conforme Coggiola:

O processo autojustificou-se na eliminação da “corrupção” do governo peronista e da “subversão” (armada). O conceito desta última foi ampliado até atingir toda atividade: expor opiniões, reivindicar, escrever, falar, ler, pensar (...) foi à forma ilegal e terrorista que tomou a repressão: as “desaparições” (1986, p. 49).

Em março de 1980, a crise socioeconômica era generalizada na Argentina. A falência do Banco de Intercambio Regional (BIR), a intervenção do Estado para tentar salvá-lo, relançou o processo inflacionário. Ao governo de Videla, marcado pela repressão e pelo já citado Plano econômico de Martinez de Hoz, somava-se, também, a falência de várias empresas fundamentais à economia do Estado. Com total desgaste político, os setores burgueses reuniram-se para a derrubada do ministro e do General Videla, subindo ao poder a Junta Militar do General Roberto Eduardo Viola em setembro de 1981.

Depois de passados cinco anos de Ditadura sangrenta e inflacionada, o General Viola tentou reunificar o capital argentino, tirando Martinez de Hoz de seu ministério, colocando, em seu lugar, um aliado de seu governo na administração da economia argentina. Mesmo com mudanças gerais dentro da administração, o que faltava no governo de Viola era uma unidade. As renúncias aconteceram e o governo entraria em choque com a ideologia autoritária estabelecida até então. O PIB e a indústria continuavam em queda livre (-10% em 1982). O único “avanço” durante a permanência de Viola no comando do país, foi o término das dívidas dos grupos em falência através da inflação e do endividamento público.

Conforme Osvaldo Coggiola,

Os investimentos desses grupos tinham sido em 90% financiados pelo Estado. O badalado “liberalismo” de Martinéz de Hoz e de seus sucessores constitui na passagem para o Estado das dívidas privadas, destruindo o crédito e a moeda (inflação galopante), numa operação destinada a ser paga pelos trabalhadores, submetidos a uma carestia e a uma superexploração inéditas, e cujo beneficiário fundamental foi o capital financeiro internacional, que cobrava os juros crescentes da fabulosa dívida externa (a maior do mundo “per capita”). A burguesia nacional deveu conformar-se com as migalhas desta fantástica transferência de valor em favor do imperialismo (1986, p. 54).

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Viola nomeou para o Ministério da Economia, Lorenzo Sigaut, buscando modificar a estrutura econômica estabelecida até então. Os efeitos da crise econômica afetaram vários setores da sociedade, e esses por estarem, naquele momento, em uma ditadura considerada mais “branda”, manifestaram sua insatisfação com o governo institucional. Com a intenção de conter o mal-estar social, Viola tentou formar laços com os sindicatos, associações e os partidos que faziam parte da “Multipartidária”.

Com essas atitudes de abertura do mecanismo autoritário exercido pela Ditadura, surgiu um forte descontentamento dentro das Forças Armadas e, com ele, um pedido de licença médica, solicitado por Viola no mês de novembro, acarretou na suposta renúncia do militar. Não contando com um apoio necessário para continuar no poder, foi destituído do cargo, pelas Forças Armadas que justificaram a deposição em virtude dos problemas de saúde do Presidente, impedindo-o de continuar em seu cargo presidencial. Entretanto, mais tarde, Viola declararia que não havia renunciado por problemas de saúde: “... Yo no renuncie a la presidencia de la Nación por problemas de salud. Esta perfectamente claro que yo fui removido”(LEIVA,2008, p.4).

Em dezembro de 1981, assume a Casa Rosada mais um governo militar, presidido pelo General Leopoldo Fortunato Galtieri. No início de seu governo, passou por vários obstáculos devido aos setores civis que notaram, durante a troca de presidente, que o poder dos militares estava cada vez mais fraco. Começaram, assim, as manifestações dos sindicatos e da “Multipartidária” contra o regime golpista e exigindo o cumprimento das promessas de “redemocratização” que Viola havia realizado. Além desse contexto político, deve-se destacar que a economia durante o governo de Galtieri fez com que:

Las presiones ejercidas de parte de la sociedad impulsaron a Galtieri a determinar que estos problemas eran causados por el fracaso económico que se afrontaba desde el gobierno de Viola, entonces Galtieri designó a Roberto Alemann en el Ministerio de Economía. Alemann inició su gestión con medidas que incluyeron el aumento de tarifas e impuestos, congelamiento de sueldos y anuncióo la privatización masiva de empresas públicas, medidas que recibieron el apoyo desde el exterior, especialmente de los intereses de los Estados Unidos

(LEIVA, 2008, p.4).

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Através de pronunciamento oficial, o presidente declara que as Ilhas Malvinas integram o território e o patrimônio nacional justificando assim a invasão. Esse ato militar demonstrava a crise de legitimidade que a Ditadura passava, buscando explorar o sentimento patriótico da população argentina, conforme se vê nesse pronunciamento oficial:

“Compatriotas: En nombre la de Junta Militar y en mi carácter de Presidente de la Nación debo en este crucial momento histórico a todos los habitantes de nuestro suelo, para trasmitirle los fundamentos que avalan una resolución plenamente asumida por los Comandantes en Jefes de las FF.AA. que interpretaron así el profundo sentir del pueblo argentino. Hemos recuperado salvaguardando el honor nacional, sin rencores pero con la firmeza que las circunstancias exigen las islas australes que integran por legítimo derecho el Patrimonio Nacional” (Mensaje Presidencial desde la Casa Rosada, viernes 2 de abril de 1.982, 14.30 hs., Clarín 03/04/1982 In LEIVA,2008, p.3).

Com esse discurso justificador da intervenção nas Malvinas, os militares voltaram a recuperar a razão da implantação do sistema autoritário: o patriotismo. Contudo, as manifestações de apoio dentro da Argentina eram de origem totalmente heterogêneas: os últimos setores que apoiavam a ditadura mantiveram-se a favor da iniciativa, mas também os que lutavam contra ela organizaram campanhas de apoio aos soldados que se instalaram nas Ilhas Malvinas.

Como exemplo, pode-se lembrar que para as Mães da Praça de Maio “as Malvinas são argentinas, os desaparecidos também”, além das delegações político-sindicais que percorreram o mundo, expondo a “unidade nacional” em torno das Malvinas (COGGIOLA, 2001, p. 81). Contudo, Galtieri adiou a crise da ditadura, mas perdeu o apoio internacional, principalmente dos Estados Unidos que optaram em apoiar seu aliado da OTAN (Inglaterra) e, quando isso foi comunicado aos militares, um dos setores dos partidos políticos começou a criticar a invasão nas Ilhas Malvinas.

Sem o apoio dos EUA, os argentinos não demoraram para perder a guerra para os ingleses. Segundo a interpretação de Osvaldo Coggiola:

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A população não conteve sua indignação e em 16 de junho de 1982 quase provocou a queda da Ditadura. Com a intensificação gradual das manifestações contra a Ditadura e agora também contra a Guerra nas Malvinas, fez com que ocorresse a substituição imediata de Galtieri e do alto comando, por seu sucessor General Reynaldo Bignone que teria de conduzir a convocação de eleições para 1983.

A transição democrática começou com a derrota nas Malvinas, que ocasionou o surgimento de grupos de ex-combatentes que lutavam por emprego. Aproveitando esse clima de revolta, a “Multipartidária” organizou uma enorme manifestação contra a Ditadura, contendo mais 300 mil pessoas em 16 de dezembro de 1982. Os líderes limitaram-se em depositar flores, em homenagem aos soldados mortos durante a guerra, na Praça de Maio, em frente à Casa Rosada. Com falta de estrutura política, o proletariado necessitava de presença própria nas campanhas eleitorais, os sindicatos evitaram organizar colunas eleitorais, as manifestações diminuíram e as intenções políticas também. Conforme Daniel Mazzei a transição para a democracia teve elementos fundamentais,

Precisar el momento inicial de una transición es mucho menos controvertido que establecer el final de ese proceso, o sea cuando una democracia está consolidada. Existen muy diversas posturas sobre el momento en el que finaliza la transición. Una de las más extendidas es la que plantea que la entrega exitosa del gobierno de un partido a otro perteneciente a la oposición es un indicador decisivo de que la democracia está fuerte (2011, p. 11).

Em 1983, passadas as divergências internas dentro dos partidos políticos, foi possível consagrar os esforços à campanha eleitoral. “As candidaturas dos partidos majoritários União Cívica Radical (UCR) e Partido Justicialista (PJ) se notabilizaram pela ausência de postura antiimperialista” (COGGIOLA, 2001, p. 83), em especial na questão da dívida externa. A pressão imposta pelos proletários grevistas só aumentou próximo da eleição, gerando movimentos que reuniram mais de dois milhões de trabalhadores que abalaram o “pacto social” da ditadura com as direções sindicais e a igreja. No entanto, deve-se ressaltar que a derrocada da Junta Militar golpista não teve origens na mobilização popular contra a repressão e o regime autoritário.

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Evidenciando essa postura, três dias após a posse, Raúl Alfonsín promulgou os decretos 157 e 158, que determinava os processos às cúpulas militares e as organizações de esquerda, a fim de “não deixar impune o conjunto de delitos cometidos no passado” e de “restabelecer o Estado de direito na Argentina” (BAUER, 2011, p. 209).

Em 15 de dezembro, anunciou-se o decreto n° 187, criando a CONADEP (Comisión Nacional sobre la desaparición de Personas), que contabilizaria mais de oito mil desaparecidos políticos e afirmaria que durante a ditadura de segurança nacional argentina desapareceram mais de 30 mil pessoas. No final de dezembro sancionou-se a lei n° 23. 040, que anulava por inconstitucionalidade a Lei n° 22.924, deixando de existir a lei de anistia dos militares.

Na medida em que era visível a transição político-democrático na Argentina, a população começava a se interessar mais sobre os desaparecidos políticos. No final de 1982, 20% da população considerava que “uno de los más importantes temas para el país” era saber sobre os desaparecidos políticos. Entretanto, poucos meses depois, mais da metade da população iria posicionar-se contra a busca pelos desaparecidos, alegando que “deberíamos olvidarnos de los desaparecidos para evitar nuevos conflictos con los militares”.

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3 DESAPARECIDOS: A LUTA PELO NÃO ESQUECIMENTO

As Ditaduras civil-militares de segurança nacional e o terrorismo de Estado, que se estenderam nas sociedades do cone-sul durante as décadas de 60 a 80, protagonizaram o período mais traumático da América contemporânea. Os regimes que foram instalados na América Latina tiveram métodos de repressão praticamente iguais. Os governos das Forças Armadas participaram ativamente da Doutrina de Segurança Nacional, que teve suas origens na Europa e firmou-se nos Estados Unidos.

As principais características da Doutrina de Segurança Nacional remontam à repressão aos movimentos de independência da Argélia, realizados pela França, assim como à doutrina anti-revolucionária própria da contra-insurgência dos EUA (BARBIAN, 2009, p.1). Sendo assim, uma grande parte dos oficiais das forças armadas da América Latina buscou conhecimento na Escola das Américas nos EUA, onde eram instruídos a acabar com a guerra interna. Portanto, aderiram os mecanismos do Terror de Estado (TE) aplicado contra as guerrilhas de esquerda, utilizando métodos voltados para a supressão dos indivíduos ideologicamente e politicamente contrários ao regime.

As estratégias usadas para alastrar o medo como forma de soberania política baseou-se em métodos de terror físico, psicológicos e ideológicos. As práticas que partiram destas estratégias variaram de intensidade e extensão, de acordo com cada caso. Entretanto,

todas possuem um núcleo comum, caracterizado pela produção de informações a partir da ‘lógica da suspeitação’; pelo seqüestro como método de detenção; pela realização do interrogatório e da tradição inquisitorial das práticas policiais; pela presença de torturas físicas e psicológicas; pela censura e desinformação e, principalmente, pela prática de desaparecimento forçado de pessoas, característica específica da repressão desses regimes (BAUER, 2012, p. 29).

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palavras, há uma série de itens considerados componentes fundamentais da definição da condição de desaparecido. Conforme salienta Caroline Bauer, citando Enrique Serra Padrós,

a)sequestro ou detenção ilegal; b)privação de liberdade; c)execução de ações por agentes estatais, de forma aberta (policiais e militares) ou encoberta (serviços de inteligencia); também por grupos violentos de extrema direita sem vinculação oficial com o Estado, mas agindo sob suas ordens e proteção; d) ocultamento do local de confinamento e da situação da vítima, pelas autoridades, simultâneo à negação de que aquela estivesse sob sua custódia; e) ocorrência de homicídio estando a vítima detida pelo agente da repressão; f) ocultamento do cadáver e de qualquer informação a respeito dos acontecimentos envolvendo a execução ou morte sob tortura da vítima (PADRÓS apud BAUER, 2012, p. 93).

Esse sistema adotado pode ser compreendido como “projeto”, em seu sentido consciente e racional, “pois o sequestro, como forma de dominação política e ideológica, foi uma escolha dos civis e militares responsáveis pela Ditadura e não uma fatalidade ou imposição conjuntural” (BAUER, 2012, p. 31). Na combinação desses métodos, desatacam-se os que são aplicados paralelamente: a) repressão de caráter público, configurada pelo conjunto de normas sancionadas durante esse período para a sua execução; b) repressão clandestina, conjunto de práticas ilegais fundamentadas em ordenamentos elaborados pelas Forças Armadas (BAUER, 2011, p.102). As prisões realizadas sem mandato judicial, ou seja, sem o conhecimento da Justiça, caracterizam-se como sequestro, desrespeitando os Direitos Humanos Internacionais e até mesmo os Códigos Penais estabelecidos pelos militares.

Posteriormente à detenção ilegal, as autoridades promoviam a desinformação por meio dos órgãos oficiais de justiça, que recebiam apenas os depoimentos de familiares (os quais, obviamente, pouco sabiam sobre o sequestro e/ou sobre os sequestradores). Além disso, não havia o retorno das investigações que, de fato, não ocorriam. Sendo assim, depois de algum tempo presa clandestinamente, a vítima que não desaparecia era “liberada” para a justiça, onde era julgada por delitos normalmente acrescidos pelos repressores, ou seja, crimes inventados para que a libertação não ocorresse totalmente.

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desaparecidos, além do Centro de estudios legales y sociales (CELS) que teve sua fundação em 1979, ainda durante a ditadura, o qual estudou o sequestro como método de detenção, desempenhando um forte aparato social contra os desaparecidos políticos.

Essas organizações e instituições tiveram o sentido maior de promover o não-esquecimento dos desaparecidos políticos, fundamentando seu esforço nas reminiscências dos sobreviventes, dos familiares e dos próprios agentes da Ditadura. Segundo Caroline Bauer:

Os estados responsáveis pela consecução das estratégias de implantação do terror também foram os destinatários das reivindicações, nos períodos transnacionais e administrações democráticas sobre esse passado ditatorial. Foram, também, os responsáveis pela elaboração das políticas de memória e reparação. Em razão da omissão deliberada ou não intencional, foram responsáveis pelas políticas de desmemoria e esquecimento. (...), porém é importante lembrar que a Argentina, mesmo não sendo paradigmática, é um exemplo de garantia do direito à justiça e à verdade (2012, p. 122).

Essa diferenciação do caso argentino pode ser explicada parcialmente em razão da existência das organizações e instituições dedicadas ao não esquecimento e ao esforço de encontrar o destino ou os corpos das vítimas do regime autoritário. Esse esforço provocou dentro da sociedade argentina algo muito significante que é o processo de recordar a repressão para poder julgá-la e também reparar os familiares dos perseguidos. Interessante notar que esse processo diferenciado da Argentina contrasta com o do Brasil que teve outra política de memória institucional. Na Argentina, em 1983, as memórias sobre o terrorismo de Estado e as demandas da justiça se encontravam em sintonia com a redemocratização do Estado. Segundo as palavras de Carolina Bauer:

Com a transição política no governo argentino, por meio de recursos disponibilizados pelo primeiro governo democrático vigente depois da Ditadura, a Comisión Nacional sobre la desaparción de personas foi criada com o objetivo central de transmitir à população mundial as atrocidades cometidas por civis e militares durante o Regime Argentino(2011, p. 211).

Graças a esse esforço de não esquecimento, a opinião pública mundial soube que, durante a ditadura militar, desapareceram mais de 30 mil pessoas, fundaram-se 340 centros clandestinos de detenção e 400 crianças tornaram-se vítimas da repressão política. Segundo Patricia Valdez, estas comissões

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A Comisión Nacional sobre la desaparción de personas (CONADEP) foi criada por decisão do presidente da República vigente, Raul Alfonsín, em 19 de dezembro de 1983, pelo decreto n°187, iniciando o período democrático enfatizando as arbitrariedades cometidas durante o Regime. A criação da Conadep faz parte da série de medidas tomadas por Alfonsín, durante a transição política, atendendo às demandas da população por justiça e verdade (BAUER, 2012, p.160). Seus principais objetivos direcionavam-se para a necessidade de esclarecimentos dos fatos ocorridos e também, com o auxilio do governo, buscou-se a construção de uma memória coletiva, a qual estaria ligada diretamente com os “produtores” dessa lembrança, ou seja, as vítimas e suas famílias.

Segundo Maurice Halbwachs (1925), a memória coletiva e a memória individual estão articuladas segundo lembranças contextualizadas e compartilhadas, logo trata-se de um processo histórico e social que ultrapassa a coleção de memórias individuais e existe em sentido mais profundo e permeável do que a memória oficial sobre os acontecimentos históricos. Sendo assim, a memória sobre a repressão promovida pela ditadura argentina não pode ser uma coleção de depoimentos de vítimas ou de seus familiares. Mas sim, toda uma articulação que se construiu (e ainda se constrói) entre a História existente sobre aqueles eventos, os interesses das pessoas envolvidas na rememoração, as lembranças compartilhadas e “atualizadas” pelo relato do outro e pela conjuntura social do pós-regime que, juntos, criam uma “memória coletiva” sobre a ditadura e os desaparecidos políticos.

Pode-se reivindicar como um exemplo prático do que está escrito no parágrafo anterior o sucesso editorial do livro Nunca más escrito Ernesto Sábato, que só alcançou a venda superior a meio milhão de exemplares, porque encontrou repercussão e acolhimento em uma sociedade que desejava relembrar, em organizações que tinham o interesse de não esquecer e em uma conjuntura política e social que possibilitava a circulação e a atualização de reminiscências sobre um período traumático da História argentina. Nas palavras de Luiz Alberto Romero:

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Contudo, não se trata de um processo caótico que se deixa influenciar por fatores momentâneos e imprevisíveis. A disputa pela versão mais legítima e verdadeira faz com que os “agentes da memória coletiva” assumam a responsabilidade e mesmo a prerrogativa de orientar o sentido geral de uma dispersa coleção de reminiscências. Trata-se daquilo que Pollack denominou de “ enquadramento da memória”, ou seja, a partir de uma determinada versão dos acontecimentos, dentro de um sentido desejado ou perseguido, todos os demais entendimentos tornam-se menos relevantes ou ameaças que são tratadas como hierarquicamente inferiores.

Pode-se verificar isso por meio da criação da CONADEP, quando o Decreto n° 187 deixa explícitos os critérios para a formação dos membros da comissão: “(...) personalidades caracterizadas por su celo en la defensa de los derechos humanos y por su prestigio en la vida publica del país (...)”(AGEITOS,1997, p. 158) trazendo para a sociedade o início do processo legal de construção da memória legítima trazida nos depoimentos. De acordo com o texto do artigo n° 2, as competências a serem desenvolvidas da comissão:

a) Recibir denuncias y pruebas sobre aquellos hechos y remitir las inmediatamente a la justicia, si ellas están relacionadas con la presunta comisión de delitos; b) Averiguar el destino o paradero de las personas desaparecidas, como asi también toda outra circunstacia relacionada con su localización; c) determinar la ubicación de niños sustraídos a la tutela de sus padres o guardadores a raíz de acciones emprendidas con el motivo alegado de reprimir el terrorismo y dar intervención, en su caso, a los organismos y tribunales de protección de menores; d) Denunciar a la justicia cualquier intento de ocultamiento, sustracción o destrucción de elementos probatórios relacionados con los hechos que se pretende esclarecer; e) Emitir uln informe final, con una explicación detallada de los hechos investigados, a los ciento ochenta dias a partir de la constitición (BAUER, 2012, p. 161).

A comissão elegeu como seu presidente o escritor Ernesto Sábato, juntamente com Magdalena Ruiz Guinazú, Ricardo Colombres, Hilario Long, Carlos Gattinoni, entre outros. Os secretários da Comissão foram Graciela Meijide, Daniel Salvador, Raúl Aragon, Alberto Mansur e Leopoldo Silgueira. A comissão estabelecida ficou encarregada de reproduzir o que havia acontecido durante a instalação do TE, trazendo a público através dos depoimentos recolhidos das pessoas diretamente afetadas pelo regime, as formas de repressão, tortura física e psicológica, a funcionabilidade dos centros clandestinos e como aconteceu o extermínio dos “subversivos”.

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Confirmando a autora supracitada, o próprio informe, Nunca Más, comenta em seu prefácio (1984, p.1) que:

A nossa comissão não foi instalada para julgar, pois isso é incumbência dos juízes constitucionais, e sim para indagar sob a sorte dos desaparecidos no decorrer destes anos infelizes da vida nacional. Mas, depois de ter recebido vários milhares de depoimentos e testemunhos; de haver verificado ou confirmado a existência de centenas de locais clandestinos de detenção; depois de juntar mais de cinqüenta mil páginas de documentação (...). E, muito embora devamos aguardar a palavra definitiva vinda da justiça, não podemos calar frente ao que temos ouvido, lido e registrado.

Diante desses fatores o informe foi entregue ao presidente Raul Alfonsín, no dia 20 de setembro de 1984. A comissão foi formada dentro da conjuntura da cultura do medo e das consequências do terror da ditadura. Portanto, havia uma necessidade de haver uma “despolitização da investigação”, evitando os enfrentamentos políticos do passado, uma vez que se tratava de uma comissão diretamente ligada ao novo governo argentino. Com essas questões, o deputado federal Augusto Conte, em dezembro de 1983, apresentou um projeto de resolução, onde se criaria uma comissão integrada por dez deputados federais, que teriam a função de investigar os crimes contra os direitos humanos cometidos pela Junta Militar. Porém, a iniciativa não foi avaliada pelo legislativo.

Sem o apoio das Madres da Plaza de Mayo, a Conadep reuniu-se em 22 de dezembro de 1983. A justificativa apresentada pela organização para não apoiar a comissão seria que o tratamento dado ao tema dos desaparecidos políticos seria entendido como o fechamento do problema e não a sua solução. Para elas, segundo Emilio Crenzel (2008, p.135), “el nunca más era un ‘informe testamento’, ‘con que se pretende cerrar la mayor tragédia de la historia argentina’, y la omisión de la lista de represores revelaba esa información. Es decir, condensaba la verdad y negaba la justicia”. Sendo assim, essa decisão causou um descrédito diante da população, pelo fato que a associação que estava há mais tempo na luta pelos desaparecidos não apoiava a maneira como a Conadep conduzia os trabalhos sobre a memória coletiva.

Importante destacar que ao se iniciar esse processo grande parte dos familiares das vítimas ainda acreditava no retorno dos seus entes queridos, imaginando que eles estariam em prisões em outros países ou hospitalizados em outras cidades. A dificuldade da Conadep não demorou em surgir: o acúmulo de material foi fator para que a comissão se estendesse a nove meses de pesquisas e não seis como estavam previsto no início da comissão.

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Apesar do exaustivo trabalho da Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas, que resultou no relatório Nunca Más, houve escassos resultados quanto à punição dos culpados. As câmaras julgadoras tendiam à benevolência, negando a existência de um comando unificado das atividades repressivas, aceitando em geral o discutível principio da “Obediência devida”. Além de falhar no propósito de punir os excessos dos militares, o governo enfrentou a ira de setores de ultradireita das Forças Armadas, que por diversas vezes se rebelaram, como no caso dos “caras pintadas” de Rico e Seineldin. As Forças Armadas mantinham-se articuladas e atuantes na vida do país. (1993, p. 41)

Com todos estes fatos ocorridos, a Conadep entregou o relatório no dia 20 de setembro de 1984, em ato público na Casa Rosada, ao Presidente Raul Alfonsín, quando aproximadamente 70 mil pessoas reuniram-se na Plaza de Mayo, ostentando o lema ‘Después de la verdad, ahora la justicia’. A primeira edição do informe, denominado Nunca Más, que conforme Caroline Bauer (2012, p. 164), o título além de recuperar o princípio da História como ‘mestra da vida’ (historia magistra vitae), provinha da frase final do prólogo do informe, escrito por Ernesto Sábato: ‘Únicamente así podremos estar seguros de que NUNCA MÁS en nuestra pátria se repetirán hechos que nos han hecho trágicamente famosos en el mundo civilizado’. Com a publicação do informe, em menos de dois dias, “40 mil exemplares foram vendidos” (CRENZEL, 2008, p. 131), fazendo com que a Editorial Universitaria de Buenos Aires (Eudeba) tivesse que realizar mais quatro reimpressões somente no mês de dezembro de 1984. No ano seguinte, “o informe foi traduzido para o português e publicada pela Editora L&PM” (BAUER, 2012, p. 163). Assim, incluindo as traduções feitas até 2007, foram vendidos mais de meio milhão de exemplares do relatório, que resultava da credibilidade da democracia recém recuperada e também ao prestígio da comissão que, com os depoimentos e pesquisas, legitimaram o conteúdo do relatório ‘Nunca Más’.

Sendo assim, nos últimos anos ocorreram alguns debates historiográficos e políticos sobre a relevância política e ideológica do informe da Conadep para a transição política na Argentina. Com isso, mesmo com os obstáculos que a Conadep enfrentou para a elaboração do relatório, ambos continuam sendo referência para pesquisas sobre os fatos ocorridos durante o regime militar, que desde a sua primeira publicação até os dias de hoje, a Eudeba já publicou mais de sete edições.

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foi bem-sucedido, pois publicações como Nunca Más tornaram-se referência obrigatória e fonte de discursos (oficiais e não oficiais) que pretendem obter referência de autoridade reconhecida sobre o assunto “desaparecidos políticos”.

Voltando no ano de 1977 a 1979, a existência de organizações como as Abuelas de la Plaza de Mayo e Las Madres de Plaza de Mayo, direcionadas na busca pelos desaparecidos políticos, afirmava o comprometimento das famílias na investigação sobre os sequestros e principalmente no não-esquecimento. Essas organizações foram fundadas por familiares das vítimas que no ato da privação da liberdade, além dos niños, tiveram seus nietos detenidos- desaparecidos.

O sequestro de grávidas, jovens e crianças, o funcionamento de maternidades clandestinas (Campo de Mayo, ESMA, Pozo de Banfield) e a existência de listas dos militares interessados na adoção das crianças nascidas dos “subversivos”, demonstram a existência de um plano sistemático para que houvesse o rapto das crianças nascidas ou trazidas aos centros clandestinos. Segundo Estela Carlotto, Presidente da Associação Abuelas de la Plaza de Mayo, (1997, p.6) ‘el secuestro y apoderamiento de niños formó parte de un esquema deliberado y organizadamente armado, basado en lo Doctrina de Seguridad Nacional. Por ella, el enemigo de la Nación es el propio pueblo y la metodología usada para la represión del mismo justifica cualquier medio para conseguir su sojuzgamiento’.

Nessas circunstâncias, as mães e avós dos desaparecidos uniram-se em torno do movimento público indo contra as desaparições forçadas. Segundo o site oficial das Abuelas da Plaza de Mayo,

los niños robados como "botín de guerra" fueron inscriptos como hijos propios por los miembros de las fuerzas de represión, dejados en cualquier lugar, vendidos o abandonados en institutos como seres sin nombre N.N. De esa manera los hicieron desaparecer al anular su identidad, privándolos de vivir con su legítima familia, de todos sus derechos y de su libertad (www.abuelas.org

acesso em 25 de out. 2012).

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Segundo o Instituto Intaramericano de Derechos Humanos, la Asociación agrupa alrededor de 300 abuelas no ano de 1988, esse número multiplicou nos últimos 35 anos de organização, ganhando reconhecimento nacional e internacional. A associação tem atualmente como presidente, Estela Carlotto e como vice- presidente Rosa T. de Roisinblit, disponibiliza no site oficial o contato direto com ambas e também com outros representantes da organização. Atualmente mantêm sua sede em Buenos Aires, e suas filiais nas cidades vizinhas. A importância da organização é reconhecida até mesmo pela Presidente Cristina Kirchner.

Segundo o artigo “Restituición de Niños: Abuelas de Plaza de Mayo” (1997), publicado pela Editorial Universitaria de Buenos Aires em comemoração aos 20 anos de existência da Associação, é possível notar logo na Introdución a objetividade e a centralidade da movimentação social que as Abuelas tendiam,

Se iniciaron como Institución en un intento de organización que les permitiera luchar para la recuperación de los hijos de sus hijos desaparecidos. Se trataba de afrontar, sin retroceder, un hecho inédito en la modernidad, ya que el método de desaparición forzada de personas como modo de persecución política, implantada por el Terrorismo de Estado incluyó la apropiación de menores desaparecidos junto a sus padres y la apropiación de bebés nacidos en el cautiverio de sus madres desaparecidas (1997, p.3).

Seguindo nessa linha de intenção, as Abuelas, defendiam que esse modo de extermínio resultou para essas crianças a privação do crescimento com seus familiares biológicos, para serem incluídos em outras famílias que renegavam a origem política e ideológica de sua família natural, introduzidos em famílias que diretamente ou indiretamente tinham participação no assassinato de sus padres. Em torno dessas apropriações ilegais, a necessidade que o receptor da criança tinha em recorrer a diferentes conhecimentos como, jurídico, genéticos e psicológicos, além disto, encontraram formas legais de validar a apropriação ilegal, mantendo a adoção como legítima. Conforme o artigo Restitución de Niños,

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Outra característica importante foi à intenção de não haver uma capital específica para a organização, apesar da matriz estar localizada em Buenos Aires, sendo criada filiais em Mar del Plata, Córdoba, Tucumán, Mendoza y Rosario, para que houvesse uma maior disseminação da luta das Abuelas. As principais atividades realizadas dentro e fora dos centros da organização são:

a) recopilación de todos los testimonios sobre niños desapareciso em conexión com el secuestro de sus padre; b) fotografias del niño y/o sus padres; c) documentos de identidad; d) habeas corpus presentados y certificado de embarazo de la madre si esta desapareció grávida o partida de nacimiento del niño en el caso de Haber sido secuestrado ya nacido; e) Presentación de un proyecto de ley para la creación de un Banco Nacional de Datos Genéticos de las famílias que tienen niños desaparecidos cuya finalidad seria la localización de todos los niños, a través del análisis e histo compatibilidad (1988, p.21 e 22).

A Associação Civil Avós da Praça de Maio constitui em uma organização não-governamental, as tarefas detetivescas se alternam com visitas aos Tribunais de Menores, orfanatos e casas de famílias que participaram de processos de adoções legais ou ditos legais na época. Com a intenção de localizar os netos desaparecidos, a associação trabalha em quatro níveis, conforme o site oficial das Abuelas: a) denuncias y reclamos ante las autoridades gubernamentales; b) presentaciones ante la Justicia; c) solicitudes de colaboración dirigida al pueblo en general; d) pesquisas o investigaciones personales. Através destes métodos de investigação o sucesso, depois de 35 anos, da existência da Associação foram crescendo a cada descoberta.

Dentro desse período de existência das Abuelas, já foram encontrados 107 nietos que haviam sido sequestrados durante a Ditadura. É possível encontrar no site oficial todas as informações necessárias sobre como é feita as buscas dos netos e netas que não tiveram o direito a identidade após o nascimento em cativeiro. Abaixo, passo a passo as direções que a investigação tomou para que houvesse o encontro de mais um neto desaparecido:

Cuando salió en libertad, el 7 de abril de 1979, María de las Mercedes se acercó a la Casa Cuna para recuperar a su hija y fue atendida por las monjas que estaban a cargo del lugar. "Las subversivas acá no entran", le respondieron a la vez que la amenazaban con llamar a la policía. Tampoco obtuvo respuestas ante los Juzgados de Menores.

Con posterioridad, realizó la denuncia ante la Fiscalía Federal N° 3 de Córdoba. Luego, su hija Paola, media hermana de la nueva nieta, se comunicó con la Comisión Nacional por el Derecho a la Identidad (CONADI), organismo que posibilitó la inclusión de las muestras de ADN de esta familia en el Banco Nacional de Datos Genéticos.

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