Francielle Alves Difante A MEMÓRIA CONSTRUÍDA SOBRE OS DESAPARECIDOS POLÍTICOS NA DITADURA CIVIL-MILITAR ARGENTINA

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Francielle Alves Difante

A MEMÓRIA CONSTRUÍDA SOBRE OS DESAPARECIDOS

POLÍTICOS NA DITADURA CIVIL-MILITAR ARGENTINA

  

Santa Maria, RS

2012

  

Francielle Alves Difante

A MEMÓRIA CONSTRUÍDA SOBRE OS DESAPARECIDOS POLÍTICOS NA DITADURA CIVIL-MILITAR ARGENTINA

  Trabalho Final de Graduação (TFG) apresentado ao curso de História, Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano - UNIFRA, como requisito parcial para a obtenção do título de licenciada em História.

  Orientador: Carlos Roberto da Rosa Rangel Santa Maria, RS

  2012

  

Francielle Alves Difante

A MEMÓRIA CONSTRUÍDA SOBRE OS DESAPARECIDOS POLÍTICOS NA DITADURA CIVIL-MILITAR ARGENTINA

  Trabalho Final de Graduação (TFG) apresentado ao curso de História, Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano - Unifra, como requisito parcial para a obtenção do título de licenciada em História.

  ________________________________________________________ Profº Drº Carlos Roberto da Rosa Rangel – Orientador (UNIFRA)

  _________________________________________________ Profº Drº Leonardo Guedes Henn (UNIFRA)

  _______________________________________________ Profº Ms. Alexandre Maccari Ferreira (UNIFRA) Aprovado em ......... de ................................. de 2012.

RESUMO:

  Investiga-se, neste trabalho, como tem sido construída a memória sobre os desaparecidos políticos argentinos durante a Ditadura Civil-Militar desse país (1976-1983). A metodologia compõe-se de pesquisa bibliográfica e a consulta aos sites especializados da Argentina que abordam o tema. Procura-se identificar como tem ocorrido a disputa pela memória dos desaparecidos e os esforços realizados para o enquadramento da memória dos desaparecidos políticos por parte das autoridades. O referencial constitui-se de teóricos como Michel Pollak, Maurice Halwbachs, Pierre Nora e Elizabeth Jelin que serviram para interpretar as obras historiográficas, manifestos, relatórios, revistas, artigos de opinião e sites especializados sobre o assunto. Como resultados destacam-se as reminiscências sobre a repressão militar, as quais estão associadas a uma memória coletiva. Essa memória coletiva só é aceita publicamente depois de adquirir um sentido coerente ao grande grupo social que a recebe por meio de obras de história, discursos hegemônicos e lugares de memória.

  

Palavras–chave: Ditadura Civil-militar; Argentina; Memória; Desaparecidos Políticos.

ABSTRACT

  Investigates how memory has been built on the missing Argentine politicians during the Civil-Military Dictatorship that country (1976-1983). We use the literature search and consultation with specialized sites in Argentina that address. It seeks to identify how the dispute has occurred by the memory of the missing and efforts to mentor the memory by the authorities. The theoretical are Michel Pollak, Maurice Halwbachs, Pierre Nora and Elizabeth Jelin that served to interpret the historical works, manifestos, reports, magazines, opinion articles and websites specializing in the subject. As a result, it is emphasized that the reminiscences about the military crackdown are associated with a collective memory, which is apprehended only publicly after acquiring a coherent sense of the large social group that gets through works of history, hegemonic discourses and places memory.

  Keywords: Civil-military Dictatorship, Argentina, Memory; Politically Disappeared.

Agradecimentos:

  A motivação que me levou a fazer esta monografia partiu, diretamente, das aulas de História da América Contemporânea II, então, agradeço à Professora Janaína Teixeira por me apresentar o tema, que foi “amor a primeira vista”.

  No entanto, até chegar nesta fase da academia passei por vários professores que transformaram o meu sonho em realidade. Agradeço à Professora Paula pelo carinho e pelo incetivo. Fico grata pela dedicação e atenção, principalmente quanto à humildade do Professor Leonardo. Sendo assim, não posso deixar de mencionar outros professores como: Professor Alexandre pelas suas discussões em torno dos filmes, Professora Roselaine pelas ótimas aulas de RS II, Professora Elisabeth pelas melhores aulas de Pré-colombiana, Professora Lenir pela infinita inteligência, Professora Nikelen por ser além de professora, ser também uma inspiração e Professor Luís Augusto por todas as aulas maravilhosas e pela “chatisse” de colorado, que foram tão importantes na minha vida acadêmica.

  Nesta etapa decisiva, o grande responsável por hoje eu estar finalizando a minha tão sonhada graduação, no que se refere à academia, é o Professor Rangel, que aceitou o desafio desta pesquisa tão assustado quanto eu, mas que deu certo. Com ele aprendi muito, mas o mais importante foi à dedicação extrema e a paciência, pois não foi fácil orientar uma aluna que mudou de tema e teve que escrever seu TFG em quatro meses. A ele dedico a minha conquista. Ao Professor Rangel, meu muito obrigado por tudo.

  Ainda agradecendo o meio acadêmico, muito obrigada aos meus colegas do Sindicato pela amizade e pelas risadas. Ao Matheus Butiá, Thiago Arroz, Guilherme Bortoluzzi, Conrado Silas e Eduardo Soares. Além desses amigos, fico grata pela amizade e o carinho do “trio parada dura” Antônia, Pâmela e Marjana. Também à Janaína Vargas que participou de momentos importantes comigo. Ao meu amigo de coração Ari Helfer, obrigada por tudo.

  Depois de agradecer a todos do meio acadêmico, gostaria de agradecer a minha maior inspiração minha mãe Maria Geni, sem você nada disso seria possível, obrigada por me entender e me ajudar.

  As minhas “malinhas” manas Luisa e Juju e a minha irmã fantástica Lauren. Ao Eduardo por estar sempre disposto a me ajudar, por mais que a gente brigasse. Fico feliz em ter você na minha vida, desde o segundo semestre de 2008, por ter me abençoado com o meu maior presente, meu amado Frederico. Meu muito obrigado a minha prima Silvana pela companhia em nossas “eternas” viagens de Quevedos à Santa Maria, e por ser uma pessoa importante na minha vida. Acima de qualquer pessoa agradeço a toda minha família por sempre me incentivar a estudar e a ser uma pessoa de bom coração.

  Também não posso deixar de agradecer, novamente, ao Professor Maccari e ao Professor Leonardo que aceitaram ler o meu trabalho. Espero que possam compreender meu objetivo, e que seus comentários enriquessam a pesquisa.

  Por fim, agradeço a algo onipotente, que não sei bem o que é, mas que nunca me deixou perder o foco e me concedeu sabedoria para continuar a minha graduação. Sendo assim, agradeço a minha vida, que, por mais obstáculos tenha, sempre me leva para o caminho certo.

  Dedico a meu filho, Frederico, razão da minha vida,

   e, especialmente, para minha mãe Maria Geni,

que construiu em mim o amor pela vida e o poder de sempre se superar.

  “Porque sabemos la verdad y tenemos memoria exigimos justicia.” María Juana Rivas – Representante da Comisión de la Memoria.

  Pela disseminação da luta!

LISTA DE ANEXOS:

  Anexo 1: Centros clandestinos de detención: buenos aires y alredores ............................. 59 Anexo 2: Centros clandestinos en La Plata ........................................................................ 60 Anexo 3: Centros clandestinos en otras regiones de Argentina ......................................... 61 Anexo 4: Gráficos percentuais da listagem do CLAMOR ................................................. 62 Anexo 5: Continuação dos gráficos percentuais das vítimas registradas pelo CLAMOR ............................................................................................................................................. 63 Anexo 6: Listagem das vítimas contidas no relatório – CLAMOR ................................... 64 Anexo 7: Listagem contida no relatório – CLAMOR ........................................................ 65

SUMÁRIO

  1 INTRODUđấO ............................................................................................................... 10

  2 OS GOVERNOS DA DITADURA CIVIL-MILITAR ARGENTINA: CONTEXTO GERAL ............................................................................................................................... 16

  3 DESAPARECIDOS: A LUTA PELO NÃO ESQUECIMENTO ................................... 26

  4 ENTRE A HISTÓRIA OFICIAL E A MEMÓRIA COLETIVA ................................... 43

  5 CONSIDERAđỏES FINAIS .......................................................................................... 54

  6 REFERÊNCIAS .............................................................................................................. 56

  Esta monografia trata sobre os desaparecidos políticos durante a Ditadura Civil- Militar Argentina (1976 – 1983), tendo como foco a problematização de como a memória sobre os desaparecimentos vem sendo construída pelos movimentos sociais e organizações que se especializaram nesse tema traumático da História argentina. Ou seja, problematiza- se nesse corpus investigativo: Como é lembrada, enquadrada e avaliada a memória coletiva sobre os desaparecidos políticos da Argentina, que somam mais de 30 mil.

  A busca pela verdade sobre os desaparecidos dificilmente será isenta de falhas, isso porque envolve dezenas de milhares de pessoas e a disputa por recursos entre instituições que trabalham na mesma direção, ou seja, na busca pelos desaparecidos. No entanto, é possível superar algumas dificuldades valendo-se das testemunhas e documentos existentes. Enquanto as evidências testemunhais disponibilizam a memória sobre o que ocorreu, os documentos proporcionam mais comprovações de tantos desaparecimentos financiados pelo governo que utilizou o sequestro como método de detenção.

  Quando falamos de memória podemos conceituá-la como coletiva ou individual segundo Michel Pollak:

  Na tradição durkheimiana, que consiste em tratar fatos sociais como coisas, torna-se possível tomar esses diferentes pontos de referencia (as reminiscências individuais) como indicadores empíricos da memória coletiva de um determinado grupo, uma memória estruturada com suas hierarquias e classificações, uma memória também que, ao definir o que é comum a um grupo e o que o diferencia dos outros, fundamenta e reforça os sentimentos de pertencimentos e as fronteiras sócio-culturais (1989, p.3).

  Nessa tradição, a memória coletiva é dada como instituição de um grupo, equivalendo à duração, à continuidade e à estabilidade das lembranças coletadas. Ainda, segundo o autor supracitado, longe de ver a memória coletiva como imposição, acrescenta- se que “uma forma específica de dominação ou violência simbólica acentua as funções positivas desempenhadas pela memória comum” (POLLAK, 1989, p.3).

  Utilizando como referencial Maurice Halbwachs (apud POLLAK), o teórico afirma que existe um processo de “negociação” entre a memória coletiva e a memória individual:

  Para que nossa memória se beneficie da dos outros, não basta que eles nos tragam seus testemunhos: é preciso também que ela não tenha deixado de concordar com suas memórias e que haja suficientes pontos de contato entre ela e as outras para que a lembrança que os outros trazem possa ser reconstruída

sobre uma base comum. (HALBWACHS, 1989, p.4) Outro elemento fundamental é o fato que as ditaduras de segurança nacional, no caso argentino, promoveram uma ação institucional de esquecimento, por meio da censura midiática. Conforme Soca (2001), tais ações são oriundas “dos processos de redemocratização, em que através das leis de auto-anistia, procurava-se apagar da memória coletiva os acontecimentos relacionados à repressão legal ou ilegal do momento, isentando os responsáveis de suas culpas (p. 14).

  Nesse sentido, ressalta-se uma espécie de tentativa de “superar o passado”, em nome de uma suposta “conciliação nacional” (Memória Nacional). Isso remete que os que foram vítimas de experiências traumáticas da Ditadura deveriam esquecer o que vivenciaram. Por isso, se faz necessário que, a partir dessa reconstrução da memória nacional, ocorra uma cobrança de punições dos crimes contra os direitos humanos.

  Ainda que não seja papel do historiador julgar os sujeitos históricos, na perspectiva da História do Tempo Presente os acontecimentos da contemporaneidade e a memória coletiva trabalhada pelo historiador estão muito próximos, gerando possíveis juízos de valor sobre o contexto tratado . Considerando essa proximidade, Henry Rousso discute a relação do passado como o presente, afirmando que ela é inerente à história do tempo presente:

  O passado não é mais algo ‘acabado’, mas uma matéria sobre a qual se pode agir, da mesma maneira como se age sobre o presente: isso explica a importância da memória e o fato de que o passado se enfraquece nesse registro muito mais do que em ‘termos de história’, já que a memória sendo a presença do passado, a priori é possível agir sobre ela, enquanto é absurdo querer mudar o passado.

  (2007, p.284)

  Deve-se considerar que a história dos desaparecidos políticos e dos seus hijos e

  

nietos ainda está sendo escrita e em plena transformação. Isso porque o enquadramento de

  memória, realizado por uma história oficial, tem limites e exigências de justificação que tendem a se consagrar com a passagem do tempo. Entretanto, Michel Pollak lembra que nem sempre o tempo trabalha a favor das autoriades que promovem uma memória oficial e dificultam o surgimento daquelas memórias subterrâneas. Segundo as suas palavras:

  Ainda que quase sempre acreditem que ‘o tempo trabalha a seu favor’ e que o ‘esquecimento e o perdão se instalam com o tempo’, os dominantes frequentemente são levados a reconhecer, demasiado tarde e com pesar, que o intervalo pode contribuir para reforçar a amargura, o ressentimento e o ódio dos dominados, que se exprimem então com os gritos da contraviolência (POLLAK, 1989, p. 8). Ainda segundo as palavras de Michel Pollak (1989, p. 7), “é necessário analisar as conjunturas favoráveis e desfavoráveis para emergência das memórias marginalizadas”. As memórias clandestinas inaudíveis são descartadas pela memória oficial e o grande problema é o de sua transmissão intacta até o dia em que elas possam invadir o espaço público. Já o problema da memória oficial é o de sua credibilidade, pois precisa ser organizada e aceita por meio de uma ideologia nacional coerente.

  Por isso, faz-se necessário analisar as produções historiográficas e midiáticas que trabalham com os desaparecidos da Ditadura Civil-Militar argentina. Os limites da presente monografia não permitem esse esforço de análise tão sistemática, pois demandaria um tempo superior ao disponível. Entretanto, é possível realizar um levantamento de produções acadêmicas e artísticas, disponíveis em sites especializados e em algumas publicações impressas, que discutem e informam sobre os desaparecidos políticos durante a Ditadura Civil-Militar argentina. Após esse levantamento inicial, pode-se verificar como essas produções são veiculadas, disponibilizadas para o grande público e que justificativas apresentam para sua produção.

  Sabe-se que existem movimentos sociais engajados nessa temática e que ainda estão bastante ativos, como as Abuelas e Madres que buscam informações sobre os desaparecidos. Além disso, o assunto ainda está em pauta entre os argentinos, considerando que está inconclusa a condenação à prisão perpétua dos primeiros acusados

  1 na chamada Megacausa ESMA .

  Portanto, percebe-se que esta monografia tem uma abordagem que, frequentemente, é denominada de História do Tempo Presente. Esse engajamento torna-se mais nítido quando se destaca o que é a produção historiográfica dedicada ao estudo da repressão militar e as organizações em prol do “não esquecimento” dos crimes cometidos contra os Direitos Humanos, que visam romper com o “esquecimento coletivo” em relação ao assunto. Dito de outra maneira, a produção de textos investigativos ou de denúncia, bem como as mobilizações e organizações sociais engajadas no esforço de esclarecimento lutam contra a tendência natural do esquecimento, ainda que se trate de algo traumático.

  Deve-se levar em conta que as lembranças traumatizantes sobre a perseguição, 1 prisão, tortura e desaparecimento dos inimigos políticos da Ditadura Civil-Militar

  Megacausa ESMA é o nome dado a uma série de processos judiciais relacionados aos crimes contra

a humanidade cometidos na Argentina durante a ditadura militar, instalada entre 1976 e 1983. Nele são

investigados e processados os crimes cometidos no centro de detenção clandestina ESMA (Escola de Mecânica da Armada), onde ocorreu o maior número de pessoas detidas. argentina estiveram por algum tempo submersas, a espera do momento oportuno para se tornarem públicas. No caso argentino, isso aconteceu parcialmente com o fim da Ditadura em 1983. Isso se deu de forma parcial, porque os militares que deixavam o governo e seus colaboradores civis forçaram a promulgação de uma Lei de Anistia Política (Obediencia

  

Debida e Punto Final ) n° 22.924, em 23 de março de 1983. Essas leis impossibilitavam as

  denúncias, a investigação ou a rememoração oficial e, consequentemente, a punição dos crimes de Estado praticados contra os civis. Deve-se considerar que no ano de 2003, a deputada argentina Patricia Walsh, apoiada pelo presidente da época Néstor Kirchner, enviou ao Congresso um projeto de lei para anular as leis de anistia política: Obediencia

  

Debida e Punto Final , que somente em 2005 a Corte Suprema de Justicia argentina às

declarou inconstitucionais.

  Sobre essa atuação do Estado para evitar a lembrança dos eventos traumatizantes, Michel Pollak acrescenta:

  A fronteira entre o dizível e o não dizível, o confessável e o inconfessável, separa, em nossos exemplos, uma memória coletiva subterrânea da sociedade civil dominada ou de grupos específicos, de uma memória coletiva organizada que resume a imagem que uma sociedade majoritária ou o Estado desejam impor. Distinguir entre conjunturas favoráveis ou desfavoráveis às memórias marginalizadas é de saída reconhecer a que ponto o presente colore o passado (POLLAK, 1989, p. 8).

  Entretanto, foi a partir de 1977, ainda no período da Ditadura Argentina, que começou a busca pelas informações mais detalhadas sobre os desaparecidos. Essa busca foi dificultada pelas restrições às consultas aos arquivos desde o Proceso de Reorganización

  

Nacional, de 1976, que após a redemocratização em 1983, os arquivos foram abertos para

a consulta.

  Mesmo que não haja livre acesso aos documentos oficiais, uma produção não se desqualifica ao utilizar-se de fontes não oficiais, como relatos de vítimas verbalizados por documentários, sites oficiais e artigos de opinião, assim como das denúncias publicadas tanto nos jornais da época como nos atuais. Tais instrumentos podem ser empregados pelo historiador desde que seja utilizado “filtros corretores” próprios da análise interna e externa das fontes (orais ou escritas), como salienta Padrós (2009, p. 11).

  Quanto ao objeto da pesquisa, este se centra na memória construída sobre os desaparecidos políticos. Avaliar como acontece a busca por informações, qual é o valor da memória coletiva encontrada, como as organizações reconhecidas internacionalmente vem encontrando seus familiares e ganhando reconhecimento dia-a-dia na luta contra crimes cometidos contra os direitos humanos.

  A metodologia de pesquisa adotada para a confecção desta monografia consistiu na verificação de produções historiográficas e midiáticas acerca dos desaparecidos políticos durante a Ditadura Civil- Militar argentina. A busca centrou-se nas indicações existentes nas referências bibliográficas de livros especializados nesse assunto, como o livro de título

  

Brasil e Argentina: Ditaduras, Desaparecimentos e Políticas de memória , escrito por

  Caroline Silveira Bauer (2012), que trata da prática do desaparecimento como estratégia de implantação do terror; a transição política e as estratégias de memória e esquecimento no Brasil e na Argentina. Outra publicação que merece destaque é Desaparecidos em la

  

Argentina , desenvolvido pelo Comitê de Defensa de derechos humanos en el Cono Sur

  (CLAMOR) que aborda uma listagem com mais de 7 mil desaparecidos políticos argentinos, com fichamento rico em detalhes, como por exemplo, qual centro clandestino de detenção e quais eram as profisões dos detentos, dentre outras informações, também dispõe de gráficos percentuais e mapas dos centros clandestinos.

  Com relação ao referencial teórico, foi importante a consulta de Memória,

  

Esquecimento, Silêncio escrito por Michel Pollak (1989), que aborda a disputa pela

memória, o que é dizível e não dizível, o enquadramento da memória e o mal do passado.

  Dentro dessa mesma metodologia, também foi consultado ¿De qué hablamos cuando , escrito por Elizabeth Jelin (2001) e trata dos processos de

  hablamos de memórias?

  construção de memória, diga-se memórias no plural, pois envolvem disputas sociais acerca da memória, sua legitimidade social e a pretensão para a verdade. Seguindo na mesma perspectiva teórica, Maurice Halbawachs (2006) aborda em seu livro A Memória Coletiva, a memória coletiva e a memória individual estando articuladas segundo lembranças contextualizadas e compartilhadas.

  Depois de feito o levantamento das referências destacadas anteriormente, buscou-se os documentos digitais, disponibilizados pela internet, os quais também foram importantes como fontes e como referência de novas fontes. Entre os documentos digitais mais relevantes para essa pesquisa destaca-se Restitucion de niños: abuelas de Plaza de Mayo escrito pelos participantes ativos na Organização. Nele, encontra-se a trajetória de 20 anos (1997) das “Abuelas da Plaza de Mayo”. Há ainda o artigo El secuestro como método de

  

detención , escrito por Augusto Conte Mac Donell, Noemí Labrume e Emilio Fermín

  Mignone (2007), e publicado pelo Centro de Estudios Legales e Sociales. Nesse artigo pode-se conhecer a opinião pública e alguns aspectos do sistema repressivo aplicado pelo governo das Forças Armadas desde 1976 a 1983. Uma vez concluído o levantamento das argumentos se colocam como mediadores entre a memória coletiva e os envolvidos nos eventos de perseguição, prisão e desaparecimento dos presos políticos argentinos.

  Tendo em conta essa metodologia, a presente monografia está dividida nos seguintes capítulos: a) Capítulo 2: Trata do contexto político e social argentino, os antecedentes ao golpe e as estratégias diretas para a instalação e obtenção do terror de Estado; b) Capítulo 3: Expõe os desaparecidos, as torturas físicas e psicológicas, e o esforço do “não esquecimento” conduzido por organizações nacionais, que buscam por seus nietos e hijos que desapareceram por condições político-ideológicas, não se obtendo informações da existência de corpo.

  c) Capítulo 4: Discute a questão da História e da memória sobre a repressão. O papel da história como ciência engajada em manter uma memória viva sobre os crimes cometidos pelo Estado contra os Direitos Humanos.

  

2 OS GOVERNOS DA DITADURA CIVIL-MILITAR ARGENTINO: CONTEXTO

GERAL

  Importante destacar que a terminologia usada para definir governos latino- americanos liderados por militares varia conforme o enfoque do pesquisador. No caso brasileiro, por exemplo, autores como Octávio Ianni e Florestan Fernandes, citados por Antonio Berni (2012, p. 48-58), utilizam a expressão “Ditadura Civil-Militar” justificando que se a autoridade é aquilo que aparece frente à sociedade então se deve admitir que o poder político foi protagonizado pelos militares, mas não monopolizado por eles, pois o poder econômico exercido pela burguesia associou-se aos projetos e ações do Estado, de tal maneira que “a burguesia esteve presente no processo de aprofundamento da “democracia restritiva” que foi a existência de uma ordem civil que, na prática, restringia a participação política apenas para alguns privilegiados” (BERNI, 2012, p. 55).

  No que tange à realidade argentina, também houve a estreita participação de setores econômicos nos projetos e ações do Estado conduzido por juntas militares. Efetivamente, a intervenção das Forças Armadas na política nacional Argen tina foi recorrente no ano de 1976, durante a crise política e institucional, e acabou sendo a solução que a elite política, dividida frente à crise e à pressão social, encontrou para conciliar seus interesses.

  Foi graças a essa aproximação e aos arranjos acertados anteriormente com as facções antiperonistas que os integrantes da Junta Militar - General Jorge Rafael Videla, Almirante Emilio Massera e Brigadeiro Orlando Agosti (chefes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica respectivamente) - puseram fim ao mandato constitucional da Presidente María Estela Martínez de Perón (Isabelita), instalando o golpe e assumindo o Poder Executivo argentino. Conforme Cezar Guazelli a derrubada de María Perón foi inevitável:

  Lentamente reaparece a repressão, que se acentua após a subida de Isabelita ao poder. Além disso, as Forças Armadas haviam permanecido praticamente intocadas, prontas para atuar em favor dos interesses da direita. Com a volta de parte da esquerda para a guerrilha – tanto peronistas (Montoneros) como não- peronistas (Exército Revolucionário do Povo) - as Forças Armadas foram encarregadas de combater a subversão. Crescem também os grupos paramilitares da direita, como a famigerada “tripla A” (Associação Anticomunista Argentina). Finalmente, apesar de uma relutância inicial, os militares novamente apelaram para o golpe de Estado, derrubando Isabelita, em março de 1976. Inaugurava-se uma Ditadura Militar sem precedentes em termos de violência, totalmente voltada para a defesa do capital monopólico (1993, p. 38 - 39). Deve-se igualmente considerar que o início do governo ditatorial não despertou ampla reação civil, mas passou sem que se testemunhasse nenhuma mobilização popular de reação à queda da Presidente da República. Isso pode ser entendido quando se lembra que a política econômica do governo de Isabelita gerou inflação e especulação financeira, acarretando uma campanha de desestabilização do governo por meio da bancada de oposição e pelas corporações prejudicadas por suas medidas econômicas.

  Por isso, “a impopularidade de seus ministros, envolvidos em escândalos de corrupção, e o quadro de violência política generalizada” (SOCA, 2011, p. 24) fizeram com que os militares assumissem a responsabilidade pela ordem pública e pela mediação política, intimidando a Presidente. Ao mesmo tempo, conspiravam para derrubá-la do poder. Segundo Osvaldo Coggiola, reafirmando a crise existente no governo de Isabelita:

  Na Argentina, o terceiro governo peronista (1973 – 1976) foi de crise permanente. (...) Em novembro de 1974 foi declarado o estado de sítio: a JP- Montoneros passou para a clandestinidade, e o ERP já havia decidido continuar sua guerra contra o Exercito desde 1973, quando ocupou um quartel em Buenos Aires, provocando a militarização da região. Os sindicatos classistas ou combativos foram postos sob intervenção estatal. Em novembro de 1974, o governo concedeu aumentos salariais ao mesmo tempo em que Maria Estela tentava revigorar a demagogia nacionalista, “argentinizando”, mediante pagamento, a ITT, a Siemens e os postos de gasolina (só 20% eram privados e só cem estrangeiros). O humor popular batizou isto de “nacionalização das mangueiras”. A dívida externa subiu até dez bilhões de dólares (um terço do PIB). (...) Mil e quatrocentas “comissões paritárias” (composta por sindicatos e empresas) reuniram-se. O ministro da economia, Gómez Morales, tentou fixar um teto de 15% para os aumentos. A cúpula da CGT ameaçou então com a renúncia. Em 9 de Junho de 1975 o novo ministro da economia, Celestino Rodrigo, proibiu aumentos maiores que 30%, ameaçando suspender as “paritárias”. (...) Iniciou-se então uma onda de greves e, em 19 de junho de 1979, as paritárias fecharam acordos para aumentos de 90% a 130%, que afundaram o plano econômico. No dia 26 de Junho, Isabelita anulou as paritárias, decretando aumento uniforme de 45%. No dia seguinte, explodiu uma greve geral nacional, encapada dias depois pela CGT. (...) A burguesia tinha abandonado o governo, esvaziando a CGE (Confederação Geral Econômica) e criando, com uma nova central sob hegemonia dos bancos (Apege), um novo agrupamento político das classes dominantes, que constituiria a base social do futuro golpe militar (2001, p. 47 - 49).

  Sendo assim, Isabelita não pode mais contornar a situação, abrindo o caminho para o golpe. Com a deposição de Maria Estela, ascendeu ao poder o General Jorge Rafael Videla. Com ele no comando do país, começou aquilo que os militares denominaram de “Guerra Suja” contra a guerrilha de esquerda. A fase de terror institucionalizado durou de 1976 a 1983, sob o comando dos generais Videla, Massera, Bignone e Galtieri. As Forças Armadas, em discurso ostentoso, lido em rede nacional no dia 24 de Março de 1976, fazia alusão a um compromisso com a política, economia e sociedade, que, até então, não havia no governo argentino. Essa interferência era para acabar com o “desgoverno, a corrupção e os “subversivos”.

  Com a instalação do “Proceso de Reorganización Nacional”, em 24 de março de 1976, sob o comando do General Videla, deu-se início ao aspecto fundamental do funcionamento do Proceso, que era uma guerra antissubeversiva, desencadeada antes da reestruturação do “desgoverno e da corrupção”. A guerra suja foi imposta através do aniquilamento das guerrilhas, dos grupos de esquerda revolucionária, grupos sindicalistas, grupos estudantis e grupos simpatizantes do populismo peronista, por meio das práticas de terrorismo de estado. Não houve nenhuma resistência civil na instalação da Ditadura Civil- Militar e nem em defesa do governo peronista, o que, segundo Guazelli (1993, p.39), “era como se coletivamente houvesse resignação quanto à fragilidade das instituições democráticas”.

  A intenção legítima da Junta Militar conforme Oscar Troncoso era:

  Disolver el Congreso Nacional, las legislaturas provinciales, la sala de representantes de la ciudad de Bs. As. Y los concejos municipales de las provincias u organismos similares... Remover los miembros de la Corte Suprema de Justicia de la Nación, el Procurador General de la Nación y a los integrantes de los Tribunales Superiores Provinciales... Suspender la actividad política y de los partidos políticos a nivel nacional, provincial y municipal... Suspender las actividades gremiales de trabajadores, empresarios y profesionales... Vigencia de la seguridad nacional. Erradicando la subversión y las causas que favorecen su existência (1984, p.109 - 110).

  Outra característica importante estabelecida durante o Proceso foi o desenvolvimento de um plano econômico composto de ideias neoliberais, conservadoras e desenvolvimentistas em favor da classe influente, a qual apoiava o golpe. O plano do ministro da economia José Alfredo Martínez de Hoz propunha:

  a) imposição de um retrocesso histórico das condições de vida da população;

  b) liquidação de uma parte do ativo industrial obsoleto dos capitais que não podiam sustentar a concorrência internacional, reativando por meio das reestruturas dos setores capazes de inserir-se mais profundamente nas correntes do comércio mundial (COGGIOLA, 2001, p. 72).

  Também havia outras propostas, dentro do plano de governo, como a reestruturação do setor empresarial e as reformas nas leis trabalhistas, como, por exemplo, a eliminação das convenções coletivas. Concomitante a tais ações, foi criada uma política de estatização da dívida privada, além da promulgação de uma Lei de Promoção Industrial e das políticas de compra do Estado, favorecendo, dessa forma, o empresariado argentino.

  Houve também um grande favorecimento das exportações primárias, com caráter pró-oligárquico e pró-imperialista, característica típica do governo militar. No entanto, segundo Guazelli, as medidas adotadas pelo governo não ajudaram a indústria nacional, pois:

  A entrada de capitais estrangeiros conduziu a uma concentração, que se ampliou com uma política de juros elevados; a alta conseqüente de preços foi combatida com uma acentuada redução dos direitos aduaneiros, com uma entrada sem precedentes de manufaturados de todo o tipo, levando a um aniquilamento da indústria nacional (1993, p. 40).

  A disposição para a baixa das taxas de juros havia refletido a crise e a falência da indústria a partir de 1975, causando o déficit comercial elevado o que aumentou o endividamento externo, passando de 8 milhões de dólares em 1975 para 45 milhões de dólares em 1982. Este fato acabou acentuando a insatisfação de diversos setores empresariais que, inicialmente, apoiaram a derrubada de Maria Estela Perón. Segundo Gerardo De Santis:

  Las políticas que se aplican a partir de 1976 son: la devaluación de la moneda, el congelamiento de los salários y la liberalización de los precios. Los salários quedan congelados, con el agravante de que no había posibilidades de protestar, por la prohibición de los partidos políticos y de los sindicatos. Un dato importante es que la participación de los trabajadores en el ingreso en el año 1975 era del 40% y en el año 1976 cae al 25% (2011, p. 1).

  A política financeira estabelecida pelo plano econômico de Martinez de Hoz estruturou-se como opção para a evasão de capitais, ocasionando, principalmente, elevada alta em investimentos em capital ocioso e, sobretudo, no recorrente risco em se investir no capital internacional. A crise econômica estabelecida pelo Plano Econômico afetou, também, os grandes latifundiários que, em 1977, prejudicados pela queda brusca dos preços agrários internacionais, criticavam os altos impostos. Em 1975, os Estados Unidos, com a eclosão da crise econômica, já havia suspendido os créditos ao governo, modificando a estrutura econômica do país que já estava abalada, aumentando ainda mais o desgosto da elite comercial e política.

  Entretanto, depois de instalada a Ditadura, os EUA, por meio do Congresso Nacional, resolveu ajudar a Junta Militar com $50 milhões de dólares, para que fosse possível a reestruturação econômica do país (Grupo de Estudio de Economia Nacional y popular – GEENAP, 2009).

  Sob o chamado “Proceso de Reorganización Nacional”, a Junta Militar, comandada pelo General Videla, dissolveu o parlamento, colocando, em seu lugar, uma comissão formada por militares, sendo eles, também, os principais agentes que tiveram a incumbência de ocupar os principais cargos nos ministérios mais importantes. Além disso, os tribunais civis foram fechados, os partidos políticos foram proibidos e a criação de novos sindicatos foi suspensa. Greves e manifestações políticas tiveram o mesmo destino, bem como líderes sindicais foram marcados como subversivos.

  “O Estado virou uma máfia” (COGGIOLA, 1986, p. 50). Os grupos empresariais beneficiados pelo “Proceso” chegaram a apropriar-se de bens alheios conseguidos através da tortura e da repressão. A apropriação dos bens materiais durante a ditadura teve um forte elemento, pois, após o sequestro, acontecia a apropriação dos bens materiais das vítimas. Os roubos acontecidos nos domicílios dos sequestrados eram considerados, pelas forças da operação, como “Botins de Guerra”. Esses, por sua vez, eram executados até mesmo durante o sequestro da vítima. Os participantes de tal ato ficavam encarregados de dividir os trabalhos para que houvesse a divisão “igualitária” dos bens da família.

  Os setores que demonstraram contrariedade ao “Proceso” (eletricidade e ferrovias) foram fortemente reprimdos pelos militares e líderes sindicais dessa classe como Oscar Smith e Lorenzo Miguel foram presos ou assassinados. Conforme Coggiola:

  Apesar disso, os burocratas entraram nas Comissões assessoradas dos interventores militares e praticaram outras formas de colaboracionismo: foi uma forma extrema de integração ao Estado, que pôs a prova com sucesso a solidariedade de principio de burocracia com o regime capitalista (1986, p. 50).

  A corrupção não deixou de existir. Alcançou patamares elevadíssimos no governo e na burguesia argentina. Além disso, o custo imposto pelos imensuráveis orçamentos dos militares que resultaram em um quarto da dívida externa, chegando a atingir 45 bilhões de dólares, agravava ainda mais a situação do país (Grupo de Estudio de Economia Nacional y popular – GEENAP, 2009). O fracasso econômico foi visível: um terço das 100 maiores empresas sumiu do mercado através de decretos de falência, fusão ou, não raro, de venda.

  Torna-se relevante, neste momento, destacar que essas ações econômicas e sociais ocorreram durante o governo do General Jorge Rafael Videla, que ficou no poder boa parte da Ditadura (1976 a 1981). Por este motivo, é considerado o maior “arquiteto” da guerra suja, pois, foi dentro de seu governo que aconteceram os maiores índices de desaparecimentos e repressão armada.

  De acordo com alguns de seus pronunciamentos, Videla, durante a Ditadura, afirmava que, "Um terrorista não é apenas alguém com uma arma ou uma bomba, mas também alguém que espalha ideias que são contrárias à civilização ocidental e cristã". Além disso, seguidamente defendia que "o objetivo do processo (de Reorganização Nacional) é a transformação profunda da consciência, objetivando a busca não só pela ordem econômica, mas também pela ordem “pensante” na Argentina”. Conforme Coggiola:

  O processo autojustificou-se na eliminação da “corrupção” do governo peronista e da “subversão” (armada). O conceito desta última foi ampliado até atingir toda atividade: expor opiniões, reivindicar, escrever, falar, ler, pensar (...) foi à forma ilegal e terrorista que tomou a repressão: as “desaparições” (1986, p. 49).

  Em março de 1980, a crise socioeconômica era generalizada na Argentina. A falência do Banco de Intercambio Regional (BIR), a intervenção do Estado para tentar salvá-lo, relançou o processo inflacionário. Ao governo de Videla, marcado pela repressão e pelo já citado Plano econômico de Martinez de Hoz, somava-se, também, a falência de várias empresas fundamentais à economia do Estado. Com total desgaste político, os setores burgueses reuniram-se para a derrubada do ministro e do General Videla, subindo ao poder a Junta Militar do General Roberto Eduardo Viola em setembro de 1981.

  Depois de passados cinco anos de Ditadura sangrenta e inflacionada, o General Viola tentou reunificar o capital argentino, tirando Martinez de Hoz de seu ministério, colocando, em seu lugar, um aliado de seu governo na administração da economia argentina. Mesmo com mudanças gerais dentro da administração, o que faltava no governo de Viola era uma unidade. As renúncias aconteceram e o governo entraria em choque com a ideologia autoritária estabelecida até então. O PIB e a indústria continuavam em queda livre (-10% em 1982). O único “avanço” durante a permanência de Viola no comando do país, foi o término das dívidas dos grupos em falência através da inflação e do endividamento público.

  Conforme Osvaldo Coggiola,

  Os investimentos desses grupos tinham sido em 90% financiados pelo Estado. O badalado “liberalismo” de Martinéz de Hoz e de seus sucessores constitui na passagem para o Estado das dívidas privadas, destruindo o crédito e a moeda (inflação galopante), numa operação destinada a ser paga pelos trabalhadores, submetidos a uma carestia e a uma superexploração inéditas, e cujo beneficiário fundamental foi o capital financeiro internacional, que cobrava os juros crescentes da fabulosa dívida externa (a maior do mundo “per capita”). A burguesia nacional deveu conformar-se com as migalhas desta fantástica transferência de valor em favor do imperialismo (1986, p. 54).

  Com a economia interna e externa comprometida, os partidos políticos burgueses construíram uma frente opositora, chamada “Multipartidária”, com a intenção de dividir e capitalizar a burguesia. Para que houvesse uma mudança maior no governo e na economia, Viola nomeou para o Ministério da Economia, Lorenzo Sigaut, buscando modificar a estrutura econômica estabelecida até então. Os efeitos da crise econômica afetaram vários setores da sociedade, e esses por estarem, naquele momento, em uma ditadura considerada mais “branda”, manifestaram sua insatisfação com o governo institucional. Com a intenção de conter o mal-estar social, Viola tentou formar laços com os sindicatos, associações e os partidos que faziam parte da “Multipartidária”.

  Com essas atitudes de abertura do mecanismo autoritário exercido pela Ditadura, surgiu um forte descontentamento dentro das Forças Armadas e, com ele, um pedido de licença médica, solicitado por Viola no mês de novembro, acarretou na suposta renúncia do militar. Não contando com um apoio necessário para continuar no poder, foi destituído do cargo, pelas Forças Armadas que justificaram a deposição em virtude dos problemas de saúde do Presidente, impedindo-o de continuar em seu cargo presidencial. Entretanto, mais tarde, Viola declararia que não havia renunciado por problemas de saúde: “... Yo no

  

renuncie a la presidencia de la Nación por problemas de salud. Esta perfectamente claro

que yo fui removido” ( LEIVA,2008, p.4).

  Em dezembro de 1981, assume a Casa Rosada mais um governo militar, presidido pelo General Leopoldo Fortunato Galtieri. No início de seu governo, passou por vários obstáculos devido aos setores civis que notaram, durante a troca de presidente, que o poder dos militares estava cada vez mais fraco. Começaram, assim, as manifestações dos sindicatos e da “Multipartidária” contra o regime golpista e exigindo o cumprimento das promessas de “redemocratização” que Viola havia realizado. Além desse contexto político, deve-se destacar que a economia durante o governo de Galtieri fez com que:

  Las presiones ejercidas de parte de la sociedad impulsaron a Galtieri a determinar que estos problemas eran causados por el fracaso económico que se afrontaba desde el gobierno de Viola, entonces Galtieri designó a Roberto Alemann en el Ministerio de Economía. Alemann inició su gestión con medidas que incluyeron el aumento de tarifas e impuestos, congelamiento de sueldos y anuncióo la privatización masiva de empresas públicas, medidas que recibieron el apoyo desde el exterior, especialmente de los intereses de los Estados Unidos (LEIVA, 2008, p.4).

  Perante a sociedade o descontentamento aumentou. Em fevereiro, as manifestações começaram partindo dos sindicatos estatais, que iam contra a política econômica, especialmente depois das privatizações anunciadas. Com toda a pressão social e com a quebra dos planos políticos, o governo militar do General Leopoldo Fortunato Galtieri pensou em desviar as atenções da oposição renovada e da crise econômica para a intervenção nas Ilhas Malvinas, dominada por ingleses desde 1833.

  Através de pronunciamento oficial, o presidente declara que as Ilhas Malvinas integram o território e o patrimônio nacional justificando assim a invasão. Esse ato militar demonstrava a crise de legitimidade que a Ditadura passava, buscando explorar o sentimento patriótico da população argentina, conforme se vê nesse pronunciamento oficial:

  “Compatriotas: En nombre la de Junta Militar y en mi carácter de Presidente de la Nación debo en este crucial momento histórico a todos los habitantes de nuestro suelo, para trasmitirle los fundamentos que avalan una resolución plenamente asumida por los Comandantes en Jefes de las FF.AA. que interpretaron así el profundo sentir del pueblo argentino. Hemos recuperado salvaguardando el honor nacional, sin rencores pero con la firmeza que las circunstancias exigen las islas australes que integran por legítimo derecho el Patrimonio Nacional” (Mensaje Presidencial desde la Casa Rosada, viernes 2 de abril de 1.982, 14.30 hs., Clarín 03/04/1982 In LEIVA,2008, p.3).

  Com esse discurso justificador da intervenção nas Malvinas, os militares voltaram a recuperar a razão da implantação do sistema autoritário: o patriotismo. Contudo, as manifestações de apoio dentro da Argentina eram de origem totalmente heterogêneas: os últimos setores que apoiavam a ditadura mantiveram-se a favor da iniciativa, mas também os que lutavam contra ela organizaram campanhas de apoio aos soldados que se instalaram nas Ilhas Malvinas.

  Como exemplo, pode-se lembrar que para as Mães da Praça de Maio “as Malvinas são argentinas, os desaparecidos também”, além das delegações político-sindicais que percorreram o mundo, expondo a “unidade nacional” em torno das Malvinas (COGGIOLA, 2001, p. 81). Contudo, Galtieri adiou a crise da ditadura, mas perdeu o apoio internacional, principalmente dos Estados Unidos que optaram em apoiar seu aliado da OTAN (Inglaterra) e, quando isso foi comunicado aos militares, um dos setores dos partidos políticos começou a criticar a invasão nas Ilhas Malvinas.

  Sem o apoio dos EUA, os argentinos não demoraram para perder a guerra para os ingleses. Segundo a interpretação de Osvaldo Coggiola:

  Outro fator foi o apoio logístico (espionagem via satélite incluída) que a Inglaterra recebeu dos Estados Unidos e da OTAN, o que lhe conferiu boa vantagem militar. Sem esquecer a excepcional covardia dos oficiais argentinos: o capitão Astiz, que tinha se ilustrado torturando e matando adolescentes e freiras, entregou as Ilhas Georgias sem disparar um tiro; o general Menéndez, no comando geral da operação, depois das fanfarronices iniciais, entregou as Malvinas ao primeiro indicio de ameaça ao seu bunker. Os oficiais tinham gastado mais tempo protegendo-se a si mesmos (e vendendo aos soldados as doações da população) do que na preparação da defesa militar. Milhares de soldados argentinos foram mortos, enquanto seus chefes procuravam uma saída em acordos com os Estados Unidos e a Inglaterra (2001, p. 82). A população não conteve sua indignação e em 16 de junho de 1982 quase provocou a queda da Ditadura. Com a intensificação gradual das manifestações contra a Ditadura e agora também contra a Guerra nas Malvinas, fez com que ocorresse a substituição imediata de Galtieri e do alto comando, por seu sucessor General Reynaldo Bignone que teria de conduzir a convocação de eleições para 1983.

  A transição democrática começou com a derrota nas Malvinas, que ocasionou o surgimento de grupos de ex-combatentes que lutavam por emprego. Aproveitando esse clima de revolta, a “Multipartidária” organizou uma enorme manifestação contra a Ditadura, contendo mais 300 mil pessoas em 16 de dezembro de 1982. Os líderes limitaram-se em depositar flores, em homenagem aos soldados mortos durante a guerra, na Praça de Maio, em frente à Casa Rosada. Com falta de estrutura política, o proletariado necessitava de presença própria nas campanhas eleitorais, os sindicatos evitaram organizar colunas eleitorais, as manifestações diminuíram e as intenções políticas também. Conforme Daniel Mazzei a transição para a democracia teve elementos fundamentais,

  Precisar el momento inicial de una transición es mucho menos controvertido que establecer el final de ese proceso, o sea cuando una democracia está consolidada. Existen muy diversas posturas sobre el momento en el que finaliza la transición. Una de las más extendidas es la que plantea que la entrega exitosa del gobierno de un partido a otro perteneciente a la oposición es un indicador

decisivo de que la democracia está fuerte (2011, p. 11).

  Em 1983, passadas as divergências internas dentro dos partidos políticos, foi possível consagrar os esforços à campanha eleitoral. “As candidaturas dos partidos majoritários União Cívica Radical (UCR) e Partido Justicialista (PJ) se notabilizaram pela ausência de postura antiimperialista” (COGGIOLA, 2001, p. 83), em especial na questão da dívida externa. A pressão imposta pelos proletários grevistas só aumentou próximo da eleição, gerando movimentos que reuniram mais de dois milhões de trabalhadores que abalaram o “pacto social” da ditadura com as direções sindicais e a igreja. No entanto, deve-se ressaltar que a derrocada da Junta Militar golpista não teve origens na mobilização popular contra a repressão e o regime autoritário.

  Convocada as eleições em 30 outubro de 1983, o Dr. Raúl Alfonsín, dos setores renovadores da Unión Cívica Radical (UCR) foi eleito presidente depois de sete anos de Ditadura Civil-Militar, que já iniciou com as movimentações populares. Nos primeiros dias de dezembro, milhares de pessoas saíram às ruas para comemorar o retorno da democracia e o fim da Junta Militar. No dia 10 de dezembro de 1983, Raúl Alfonsín assumiu o mandato de Presidente da República Argentina, eleito com 52% dos votos válidos. Dois

  Evidenciando essa postura, três dias após a posse, Raúl Alfonsín promulgou os decretos 157 e 158, que determinava os processos às cúpulas militares e as organizações de esquerda, a fim de “não deixar impune o conjunto de delitos cometidos no passado” e de “restabelecer o Estado de direito na Argentina” (BAUER, 2011, p. 209).

  Em 15 de dezembro, anunciou-se o decreto n° 187, criando a CONADEP (Comisión

  

Nacional sobre la desaparición de Personas ), que contabilizaria mais de oito mil

  desaparecidos políticos e afirmaria que durante a ditadura de segurança nacional argentina desapareceram mais de 30 mil pessoas. No final de dezembro sancionou-se a lei n° 23. 040, que anulava por inconstitucionalidade a Lei n° 22.924, deixando de existir a lei de anistia dos militares.

  Na medida em que era visível a transição político-democrático na Argentina, a população começava a se interessar mais sobre os desaparecidos políticos. No final de 1982, 20% da população considerava que “uno de los más importantes temas para el país” era saber sobre os desaparecidos políticos. Entretanto, poucos meses depois, mais da metade da população iria posicionar-se contra a busca pelos desaparecidos, alegando que “deberíamos olvidarnos de los desaparecidos para evitar nuevos conflictos con los militares ”.

  Dessa divisão de opiniões percebe-se que o esforço pelo “não-esquecimento” não foi um empreendimento respaldado, inicialmente, pela maior parte da população argentina. Ao contrário disso, foi uma intensa luta de interesses que pautou o processo de redemocratização pelo retorno ao passado recente e pelo ajuste de contas entre os inimigos que protagonizaram a política argentina nos anos 1960 e 1970. Nesse sentido, o próximo capítulo busca mostrar como esse esforço de construção de uma memória coletiva passou pela organização e pelo enquadramento das memórias individuais, criando uma história oficial da repressão pela voz de parte dos vencidos em 1976 e vencedores em 1983

  As Ditaduras civil-militares de segurança nacional e o terrorismo de Estado, que se estenderam nas sociedades do cone-sul durante as décadas de 60 a 80, protagonizaram o período mais traumático da América contemporânea. Os regimes que foram instalados na América Latina tiveram métodos de repressão praticamente iguais. Os governos das Forças Armadas participaram ativamente da Doutrina de Segurança Nacional, que teve suas origens na Europa e firmou-se nos Estados Unidos.

  As principais características da Doutrina de Segurança Nacional remontam à repressão aos movimentos de independência da Argélia, realizados pela França, assim como à doutrina anti-revolucionária própria da contra-insurgência dos EUA (BARBIAN, 2009, p.1). Sendo assim, uma grande parte dos oficiais das forças armadas da América Latina buscou conhecimento na Escola das Américas nos EUA, onde eram instruídos a acabar com a guerra interna. Portanto, aderiram os mecanismos do Terror de Estado (TE) aplicado contra as guerrilhas de esquerda, utilizando métodos voltados para a supressão dos indivíduos ideologicamente e politicamente contrários ao regime.

  As estratégias usadas para alastrar o medo como forma de soberania política baseou- se em métodos de terror físico, psicológicos e ideológicos. As práticas que partiram destas estratégias variaram de intensidade e extensão, de acordo com cada caso. Entretanto,

  todas possuem um núcleo comum, caracterizado pela produção de informações a partir da ‘lógica da suspeitação’; pelo seqüestro como método de detenção; pela realização do interrogatório e da tradição inquisitorial das práticas policiais; pela presença de torturas físicas e psicológicas; pela censura e desinformação e, principalmente, pela prática de desaparecimento forçado de pessoas, característica específica da repressão desses regimes (BAUER, 2012, p. 29).

  O desaparecimento configurou a característica crucial da Ditadura Civil-Militar Argentina. Suas consequências são individuais e coletivas, de forma que não deixam de existir mesmo não havendo mais o regime. O que difere de outras estratégias de terror implantadas pelo Estado, constitui na combinação de métodos legais e a clandestinidade: não se sabe para onde foi levado e a desinformação é a centralidade do sequestro. Não haverá informações contundentes e nem lugares para que haja a procura pela vítima. Na Argentina, quando se pronuncia “desaparecido”, liga-se diretamente a prática do desaparecimento político, que ficou conhecido como “morte argentina”. Em outras palavras, há uma série de itens considerados componentes fundamentais da definição da condição de desaparecido. Conforme salienta Caroline Bauer, citando Enrique Serra Padrós,

  a)sequestro ou detenção ilegal; b)privação de liberdade; c)execução de ações por agentes estatais, de forma aberta (policiais e militares) ou encoberta (serviços de inteligencia); também por grupos violentos de extrema direita sem vinculação oficial com o Estado, mas agindo sob suas ordens e proteção; d) ocultamento do local de confinamento e da situação da vítima, pelas autoridades, simultâneo à negação de que aquela estivesse sob sua custódia; e) ocorrência de homicídio estando a vítima detida pelo agente da repressão; f) ocultamento do cadáver e de qualquer informação a respeito dos acontecimentos envolvendo a execução ou morte sob tortura da vítima (PADRÓS apud BAUER, 2012, p. 93).

  Esse sistema adotado pode ser compreendido como “projeto”, em seu sentido consciente e racional, “pois o sequestro, como forma de dominação política e ideológica, foi uma escolha dos civis e militares responsáveis pela Ditadura e não uma fatalidade ou imposição conjuntural” (BAUER, 2012, p. 31). Na combinação desses métodos, desatacam-se os que são aplicados paralelamente: a) repressão de caráter público, configurada pelo conjunto de normas sancionadas durante esse período para a sua execução; b) repressão clandestina, conjunto de práticas ilegais fundamentadas em ordenamentos elaborados pelas Forças Armadas (BAUER, 2011, p.102). As prisões realizadas sem mandato judicial, ou seja, sem o conhecimento da Justiça, caracterizam-se como sequestro, desrespeitando os Direitos Humanos Internacionais e até mesmo os Códigos Penais estabelecidos pelos militares.

  Posteriormente à detenção ilegal, as autoridades promoviam a desinformação por meio dos órgãos oficiais de justiça, que recebiam apenas os depoimentos de familiares (os quais, obviamente, pouco sabiam sobre o sequestro e/ou sobre os sequestradores). Além disso, não havia o retorno das investigações que, de fato, não ocorriam. Sendo assim, depois de algum tempo presa clandestinamente, a vítima que não desaparecia era “liberada” para a justiça, onde era julgada por delitos normalmente acrescidos pelos repressores, ou seja, crimes inventados para que a libertação não ocorresse totalmente.

  Com a transição política ocorrida em outubro de 1983, organizações nacionais e internacionais começaram a ter maior reconhecimento pela procura dos desaparecidos políticos, entre as quais se pode destacar as Abuelas (1977) e Madres da Plaza de Mayo

  

(1979). Além delas, também houve a criação de organizações como a Comisión Nacional

sobre la desaparción de personas (CONADEP) em 1984, que deu origem aos relatórios

  da Comissão Nacional da Verdade Argentina e o Comitê de Defensa de derechos humanos (CLAMOR) criado em 1982, em São Paulo, que contabilizou mais de 7 mil

  en el Cono Sur desaparecidos, além do Centro de estudios legales y sociales (CELS) que teve sua fundação em 1979, ainda durante a ditadura, o qual estudou o sequestro como método de detenção, desempenhando um forte aparato social contra os desaparecidos políticos.

  Essas organizações e instituições tiveram o sentido maior de promover o não- esquecimento dos desaparecidos políticos, fundamentando seu esforço nas reminiscências dos sobreviventes, dos familiares e dos próprios agentes da Ditadura. Segundo Caroline Bauer:

  Os estados responsáveis pela consecução das estratégias de implantação do terror também foram os destinatários das reivindicações, nos períodos transnacionais e administrações democráticas sobre esse passado ditatorial. Foram, também, os responsáveis pela elaboração das políticas de memória e reparação. Em razão da omissão deliberada ou não intencional, foram responsáveis pelas políticas de desmemoria e esquecimento. (...), porém é importante lembrar que a Argentina, mesmo não sendo paradigmática, é um exemplo de garantia do direito à justiça e à verdade (2012, p. 122).

  Essa diferenciação do caso argentino pode ser explicada parcialmente em razão da existência das organizações e instituições dedicadas ao não esquecimento e ao esforço de encontrar o destino ou os corpos das vítimas do regime autoritário. Esse esforço provocou dentro da sociedade argentina algo muito significante que é o processo de recordar a repressão para poder julgá-la e também reparar os familiares dos perseguidos. Interessante notar que esse processo diferenciado da Argentina contrasta com o do Brasil que teve outra política de memória institucional. Na Argentina, em 1983, as memórias sobre o terrorismo de Estado e as demandas da justiça se encontravam em sintonia com a redemocratização do Estado. Segundo as palavras de Carolina Bauer:

  Com a transição política no governo argentino, por meio de recursos disponibilizados pelo primeiro governo democrático vigente depois da Ditadura, a Comisión Nacional sobre la desaparción de personas foi criada com o objetivo central de transmitir à população mundial as atrocidades cometidas por civis e

militares durante o Regime Argentino (2011, p. 211).

  Graças a esse esforço de não esquecimento, a opinião pública mundial soube que, durante a ditadura militar, desapareceram mais de 30 mil pessoas, fundaram-se 340 centros clandestinos de detenção e 400 crianças tornaram-se vítimas da repressão política. Segundo Patricia Valdez, estas comissões

  cuyo mandato es investigar sucesos específicos ocurridos durante graves conflictos internos en los países, se crean en momentos históricos de recuperación del estado de derecho, con el advenimiento de un régimen democrático o al producirse intervenciones internacionales que tienen como misión apoyar procesos de paz y establecer premisas básicas para la convivencia. Su creación tiene el objetivo de investigar los hechos, conocer las causas que los motivaron y establecer responsabilidades de los diversos sectores involucrados (2003, p. 1). A Comisión Nacional sobre la desaparción de personas (CONADEP) foi criada por decisão do presidente da República vigente, Raul Alfonsín, em 19 de dezembro de 1983, pelo decreto n°187, iniciando o período democrático enfatizando as arbitrariedades cometidas durante o Regime. A criação da Conadep faz parte da série de medidas tomadas por Alfonsín, durante a transição política, atendendo às demandas da população por justiça e verdade (BAUER, 2012, p.160). Seus principais objetivos direcionavam-se para a necessidade de esclarecimentos dos fatos ocorridos e também, com o auxilio do governo, buscou-se a construção de uma memória coletiva, a qual estaria ligada diretamente com os “produtores” dessa lembrança, ou seja, as vítimas e suas famílias.

  Segundo Maurice Halbwachs (1925), a memória coletiva e a memória individual estão articuladas segundo lembranças contextualizadas e compartilhadas, logo trata-se de um processo histórico e social que ultrapassa a coleção de memórias individuais e existe em sentido mais profundo e permeável do que a memória oficial sobre os acontecimentos históricos. Sendo assim, a memória sobre a repressão promovida pela ditadura argentina não pode ser uma coleção de depoimentos de vítimas ou de seus familiares. Mas sim, toda uma articulação que se construiu (e ainda se constrói) entre a História existente sobre aqueles eventos, os interesses das pessoas envolvidas na rememoração, as lembranças compartilhadas e “atualizadas” pelo relato do outro e pela conjuntura social do pós-regime que, juntos, criam uma “memória coletiva” sobre a ditadura e os desaparecidos políticos.

  Pode-se reivindicar como um exemplo prático do que está escrito no parágrafo anterior o sucesso editorial do livro Nunca más escrito Ernesto Sábato, que só alcançou a venda superior a meio milhão de exemplares, porque encontrou repercussão e acolhimento em uma sociedade que desejava relembrar, em organizações que tinham o interesse de não esquecer e em uma conjuntura política e social que possibilitava a circulação e a atualização de reminiscências sobre um período traumático da História argentina. Nas palavras de Luiz Alberto Romero:

  El libro de ese nombre, que contiene las partes públicas del informe, resultó un notable êxito editorial: desde su aparición se han vendido más de medio millón de ejemplares. El informe fue la base de un acto político excepcional: la condena judicial de los máximo responsables militares, sólido fundamento del estado de derecho. El libro, por su parte, construyó una imagen contundente y arraigada de lo ocurrido en esos años. Así, Nunca Más está en el centro de la memoria y de la política de la democracia, y aunque las opiniones acerca de esa interpretación del pasado se han modificado con el paso del tiempo, su carácter fundacional, tanto ético como político, han subsistido. Se trata de uno de esos objetos complicados para el análisis del historiador: interrogarse sobre ellos, tomar distancia, tratar de comprenderlos, parece cuestionar el meollo mismo de

los valores políticos de la comunidad (2008, p.106). Contudo, não se trata de um processo caótico que se deixa influenciar por fatores momentâneos e imprevisíveis. A disputa pela versão mais legítima e verdadeira faz com que os “agentes da memória coletiva” assumam a responsabilidade e mesmo a prerrogativa de orientar o sentido geral de uma dispersa coleção de reminiscências. Trata-se daquilo que Pollack denominou de “ enquadramento da memória”, ou seja, a partir de uma determinada versão dos acontecimentos, dentro de um sentido desejado ou perseguido, todos os demais entendimentos tornam-se menos relevantes ou ameaças que são tratadas como hierarquicamente inferiores.

  Pode-se verificar isso por meio da criação da CONADEP, quando o Decreto n° 187 deixa explícitos os critérios para a formação dos membros da comissão: “(...)

  

personalidades caracterizadas por su celo en la defensa de los derechos humanos y por su

prestigio en la vida publica del país (...)” (AGEITOS,1997, p. 158) trazendo para a

  sociedade o início do processo legal de construção da memória legítima trazida nos depoimentos. De acordo com o texto do artigo n° 2, as competências a serem desenvolvidas da comissão:

  a) Recibir denuncias y pruebas sobre aquellos hechos y remitir las inmediatamente a la justicia, si ellas están relacionadas con la presunta comisión de delitos; b) Averiguar el destino o paradero de las personas desaparecidas, como asi también toda outra circunstacia relacionada con su localización; c) determinar la ubicación de niños sustraídos a la tutela de sus padres o guardadores a raíz de acciones emprendidas con el motivo alegado de reprimir el terrorismo y dar intervención, en su caso, a los organismos y tribunales de protección de menores;

  d) Denunciar a la justicia cualquier intento de ocultamiento, sustracción o destrucción de elementos probatórios relacionados con los hechos que se pretende esclarecer; e) Emitir uln informe final, con una explicación detallada de los hechos investigados, a los ciento ochenta dias a partir de la constitición (BAUER, 2012, p. 161).

  A comissão elegeu como seu presidente o escritor Ernesto Sábato, juntamente com Magdalena Ruiz Guinazú, Ricardo Colombres, Hilario Long, Carlos Gattinoni, entre outros. Os secretários da Comissão foram Graciela Meijide, Daniel Salvador, Raúl Aragon, Alberto Mansur e Leopoldo Silgueira. A comissão estabelecida ficou encarregada de reproduzir o que havia acontecido durante a instalação do TE, trazendo a público através dos depoimentos recolhidos das pessoas diretamente afetadas pelo regime, as formas de repressão, tortura física e psicológica, a funcionabilidade dos centros clandestinos e como aconteceu o extermínio dos “subversivos”.

  A Conadep, segundo Caroline Bauer (2012, p.161), não teria qualquer prerrogativa judicial, como constava no preâmbulo do Decreto n° 187, no qual se afirmava que a Confirmando a autora supracitada, o próprio informe, Nunca Más, comenta em seu prefácio (1984, p.1) que:

  A nossa comissão não foi instalada para julgar, pois isso é incumbência dos juízes constitucionais, e sim para indagar sob a sorte dos desaparecidos no decorrer destes anos infelizes da vida nacional. Mas, depois de ter recebido vários milhares de depoimentos e testemunhos; de haver verificado ou confirmado a existência de centenas de locais clandestinos de detenção; depois de juntar mais de cinqüenta mil páginas de documentação (...). E, muito embora devamos aguardar a palavra definitiva vinda da justiça, não podemos calar frente ao que temos ouvido, lido e registrado.

  Diante desses fatores o informe foi entregue ao presidente Raul Alfonsín, no dia 20 de setembro de 1984. A comissão foi formada dentro da conjuntura da cultura do medo e das consequências do terror da ditadura. Portanto, havia uma necessidade de haver uma “despolitização da investigação”, evitando os enfrentamentos políticos do passado, uma vez que se tratava de uma comissão diretamente ligada ao novo governo argentino. Com essas questões, o deputado federal Augusto Conte, em dezembro de 1983, apresentou um projeto de resolução, onde se criaria uma comissão integrada por dez deputados federais, que teriam a função de investigar os crimes contra os direitos humanos cometidos pela Junta Militar. Porém, a iniciativa não foi avaliada pelo legislativo.

  Sem o apoio das Madres da Plaza de Mayo, a Conadep reuniu-se em 22 de dezembro de 1983. A justificativa apresentada pela organização para não apoiar a comissão seria que o tratamento dado ao tema dos desaparecidos políticos seria entendido como o fechamento do problema e não a sua solução. Para elas, segundo Emilio Crenzel (2008, p.135), “el

  

nunca más era un ‘informe testamento’, ‘con que se pretende cerrar la mayor tragédia de

la historia argentina’, y la omisión de la lista de represores revelaba esa información. Es

decir, condensaba la verdad y negaba la justicia”. Sendo assim, essa decisão causou um

  descrédito diante da população, pelo fato que a associação que estava há mais tempo na luta pelos desaparecidos não apoiava a maneira como a Conadep conduzia os trabalhos sobre a memória coletiva.

  Importante destacar que ao se iniciar esse processo grande parte dos familiares das vítimas ainda acreditava no retorno dos seus entes queridos, imaginando que eles estariam em prisões em outros países ou hospitalizados em outras cidades. A dificuldade da Conadep não demorou em surgir: o acúmulo de material foi fator para que a comissão se estendesse a nove meses de pesquisas e não seis como estavam previsto no início da comissão.

  Conforme Cezar Guazzeli:

  Apesar do exaustivo trabalho da Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas, que resultou no relatório Nunca Más, houve escassos resultados quanto à punição dos culpados. As câmaras julgadoras tendiam à benevolência, negando a existência de um comando unificado das atividades repressivas, aceitando em geral o discutível principio da “Obediência devida”. Além de falhar no propósito de punir os excessos dos militares, o governo enfrentou a ira de setores de ultradireita das Forças Armadas, que por diversas vezes se rebelaram, como no caso dos “caras pintadas” de Rico e Seineldin. As Forças Armadas mantinham-se

articuladas e atuantes na vida do país. (1993, p. 41)

  Com todos estes fatos ocorridos, a Conadep entregou o relatório no dia 20 de setembro de 1984, em ato público na Casa Rosada, ao Presidente Raul Alfonsín, quando aproximadamente 70 mil pessoas reuniram-se na Plaza de Mayo, ostentando o lema ‘Después de la verdad, ahora la justicia’. A primeira edição do informe, denominado

  , que conforme Caroline Bauer (2012, p. 164), o título além de recuperar o

  Nunca Más

  princípio da História como ‘mestra da vida’ (historia magistra vitae), provinha da frase final do prólogo do informe, escrito por Ernesto Sábato: ‘Únicamente así podremos estar

  

seguros de que NUNCA MÁS en nuestra pátria se repetirán hechos que nos han hecho

trágicamente famosos en el mundo civilizado’. Com a publicação do informe, em menos de

  dois dias, “40 mil exemplares foram vendidos” (CRENZEL, 2008, p. 131), fazendo com que a Editorial Universitaria de Buenos Aires (Eudeba) tivesse que realizar mais quatro reimpressões somente no mês de dezembro de 1984. No ano seguinte, “o informe foi traduzido para o português e publicada pela Editora L&PM” (BAUER, 2012, p. 163). Assim, incluindo as traduções feitas até 2007, foram vendidos mais de meio milhão de exemplares do relatório, que resultava da credibilidade da democracia recém recuperada e também ao prestígio da comissão que, com os depoimentos e pesquisas, legitimaram o conteúdo do relatório ‘Nunca Más’.

  Sendo assim, nos últimos anos ocorreram alguns debates historiográficos e políticos sobre a relevância política e ideológica do informe da Conadep para a transição política na Argentina. Com isso, mesmo com os obstáculos que a Conadep enfrentou para a elaboração do relatório, ambos continuam sendo referência para pesquisas sobre os fatos ocorridos durante o regime militar, que desde a sua primeira publicação até os dias de hoje, a Eudeba já publicou mais de sete edições.

  O Nunca Más contribui para a ideia de “rompimento institucional com o passado, instituindo um marco nas representações dos eventos da história recente da Argentina”. (BAUER, 2012, p.159). Ainda segunda a autora supracitada, a produção desse material esteve condicionada a esse processo de afastamento com uma história oficial patrocinada pelo governo autoritário, visando compartilhar memórias sobre a repressão. Esse esforço foi bem-sucedido, pois publicações como Nunca Más tornaram-se referência obrigatória e fonte de discursos (oficiais e não oficiais) que pretendem obter referência de autoridade reconhecida sobre o assunto “desaparecidos políticos”.

  Voltando no ano de 1977 a 1979, a existência de organizações como as Abuelas de la

  

Plaza de Mayo e Las Madres de Plaza de Mayo, direcionadas na busca pelos

  desaparecidos políticos, afirmava o comprometimento das famílias na investigação sobre os sequestros e principalmente no não-esquecimento. Essas organizações foram fundadas por familiares das vítimas que no ato da privação da liberdade, além dos niños, tiveram seus nietos detenidos- desaparecidos.

  O sequestro de grávidas, jovens e crianças, o funcionamento de maternidades clandestinas (Campo de Mayo, ESMA, Pozo de Banfield) e a existência de listas dos militares interessados na adoção das crianças nascidas dos “subversivos”, demonstram a existência de um plano sistemático para que houvesse o rapto das crianças nascidas ou trazidas aos centros clandestinos. Segundo Estela Carlotto, Presidente da Associação

  

Abuelas de la Plaza de Mayo , (1997, p.6) ‘el secuestro y apoderamiento de niños formó

parte de un esquema deliberado y organizadamente armado, basado en lo Doctrina de

Seguridad Nacional. Por ella, el enemigo de la Nación es el propio pueblo y la

metodología usada para la represión del mismo justifica cualquier medio para conseguir

su sojuzgamiento’.

  Nessas circunstâncias, as mães e avós dos desaparecidos uniram-se em torno do movimento público indo contra as desaparições forçadas. Segundo o site oficial das

  Abuelas da Plaza de Mayo , los niños robados como "botín de guerra" fueron inscriptos como hijos propios por los miembros de las fuerzas de represión, dejados en cualquier lugar, vendidos o abandonados en institutos como seres sin nombre N.N. De esa manera los hicieron desaparecer al anular su identidad, privándolos de vivir con su legítima familia, de todos sus derechos y de su libertad ( www.abuelas.org acesso em 25 de out. 2012).

  Com o intuito de que houvesse a restituição dos filhos e netos, foi criada a organização denominada Abuelas de Plaza de Mayo (1977). O objetivo central desta instituição era, e ainda é, reivindicar o paradeiro dos familiares desaparecidos, e levar a público as centenas de crianças que foram sequestradas ao longo do regime militar argentino. Sendo assim, esta organização obteve dentro da sociedade um reconhecimento muito forte, alcançando o apoio de partes relevantes da sociedade, como advogados, psicólogos e médicos geneticistas, que acabaram se interessando pela temática, para que Segundo o Instituto Intaramericano de Derechos Humanos, la Asociación agrupa

  

alrededor de 300 abuelas no ano de 1988, esse número multiplicou nos últimos 35 anos de

  organização, ganhando reconhecimento nacional e internacional. A associação tem atualmente como presidente, Estela Carlotto e como vice- presidente Rosa T. de Roisinblit, disponibiliza no site oficial o contato direto com ambas e também com outros representantes da organização. Atualmente mantêm sua sede em Buenos Aires, e suas filiais nas cidades vizinhas. A importância da organização é reconhecida até mesmo pela Presidente Cristina Kirchner.

  Segundo o artigo “Restituición de Niños: Abuelas de Plaza de Mayo” (1997), publicado pela Editorial Universitaria de Buenos Aires em comemoração aos 20 anos de existência da Associação, é possível notar logo na Introdución a objetividade e a centralidade da movimentação social que as Abuelas tendiam,

  Se iniciaron como Institución en un intento de organización que les permitiera luchar para la recuperación de los hijos de sus hijos desaparecidos. Se trataba de afrontar, sin retroceder, un hecho inédito en la modernidad, ya que el método de desaparición forzada de personas como modo de persecución política, implantada por el Terrorismo de Estado incluyó la apropiación de menores desaparecidos junto a sus padres y la apropiación de bebés nacidos en el

cautiverio de sus madres desaparecidas (1997, p.3).

  Seguindo nessa linha de intenção, as Abuelas, defendiam que esse modo de extermínio resultou para essas crianças a privação do crescimento com seus familiares biológicos, para serem incluídos em outras famílias que renegavam a origem política e ideológica de sua família natural, introduzidos em famílias que diretamente ou indiretamente tinham participação no assassinato de sus padres. Em torno dessas apropriações ilegais, a necessidade que o receptor da criança tinha em recorrer a diferentes conhecimentos como, jurídico, genéticos e psicológicos, além disto, encontraram formas legais de validar a apropriação ilegal, mantendo a adoção como legítima. Conforme o artigo Restitución de Niños,

  Nuestros niños y bebés secuestrados y nacidos en cautiverio, fueron criminal y violentamente arrancados de los brazos de sus madres, padres, hermanos, abuelas y abuelos y la mayoría continúa padeciendo el secues- tro y la desaparición. Están ilegalmente anotados o como propios o por medio de adopciones fraudulentas, falseando sus padres, sus nombres, sus edades, la forma y el lugar en que vinieron al mundo, quiénes asistieron su nacimiento; es decir, apropiados, privados de su verdadera identidad, pri- vados de su origen, de su historia y de la historia de sus padres, privados del lugar que ocupan en el deseo y en el afecto de los suyos, privados de las palabras, las costumbres y los valores familiares, sustraídos de la posi- bilidad de desenvolver sus vínculos identificatorios originarios y de la posi- bilidad de autorreconocimiento y de reconocimiento de todo lo propio, tratados como cosas de las que se dispone a voluntad, parte del saqueo y despojo de sus hogares (1997, p.14). Outra característica importante foi à intenção de não haver uma capital específica para a organização, apesar da matriz estar localizada em Buenos Aires, sendo criada filiais em Mar del Plata, Córdoba, Tucumán, Mendoza y Rosario, para que houvesse uma maior disseminação da luta das Abuelas. As principais atividades realizadas dentro e fora dos centros da organização são:

  a) recopilación de todos los testimonios sobre niños desapareciso em conexión com el secuestro de sus padre;

  b) fotografias del niño y/o sus padres; c) documentos de identidad; d) habeas corpus presentados y certificado de embarazo de la madre si esta desapareció grávida o partida de nacimiento del niño en el caso de Haber sido secuestrado ya nacido; e) Presentación de un proyecto de ley para la creación de un Banco Nacional de Datos Genéticos de las famílias que tienen niños desaparecidos cuya finalidad seria la localización de todos los niños, a través del análisis e histo compatibilidad (1988, p.21 e 22).

  A Associação Civil Avós da Praça de Maio constitui em uma organização não- governamental, as tarefas detetivescas se alternam com visitas aos Tribunais de Menores, orfanatos e casas de famílias que participaram de processos de adoções legais ou ditos legais na época. Com a intenção de localizar os netos desaparecidos, a associação trabalha em quatro níveis, conforme o site oficial das Abuelas: a) denuncias y reclamos ante las

  autoridades gubernamentales;

  b) presentaciones ante la Justicia; c) solicitudes de

  colaboración dirigida al pueblo en general; d) pesquisas o investigaciones personales.

  Através destes métodos de investigação o sucesso, depois de 35 anos, da existência da Associação foram crescendo a cada descoberta.

  Dentro desse período de existência das Abuelas, já foram encontrados 107 nietos que haviam sido sequestrados durante a Ditadura. É possível encontrar no site oficial todas as informações necessárias sobre como é feita as buscas dos netos e netas que não tiveram o direito a identidade após o nascimento em cativeiro. Abaixo, passo a passo as direções que a investigação tomou para que houvesse o encontro de mais um neto desaparecido:

  Cuando salió en libertad, el 7 de abril de 1979, María de las Mercedes se acercó a la Casa Cuna para recuperar a su hija y fue atendida por las monjas que estaban a cargo del lugar. "Las subversivas acá no entran", le respondieron a la vez que la amenazaban con llamar a la policía. Tampoco obtuvo respuestas ante los Juzgados de Menores. Con posterioridad, realizó la denuncia ante la Fiscalía Federal N° 3 de Córdoba. Luego, su hija Paola, media hermana de la nueva nieta, se comunicó con la Comisión Nacional por el Derecho a la Identidad (CONADI), organismo que posibilitó la inclusión de las muestras de ADN de esta familia en el Banco Nacional de Datos Genéticos. En 2011, María de las Mercedes también realizó la denuncia de la sustracción de su hija ante la filial Córdoba de Abuelas de Plaza de Mayo y con el asesoramiento de nuestras abogadas, se constituyó como querellante ante el

  Freytes. El 7 de mayo de 2012, insólitamente este juez se declaró incompetente por considerar que no se trataba de un delito de lesa humanidad, pero la resolución fue apelada. La Cámara Federal de Apelaciones de Córdoba ordenó el entrecruzamiento de las muestras de sangre de María de las Mercedes con las de su presunta hija. La joven fue citada y accedió voluntariamente a efectuarse el análisis de ADN, que se realizó el 5 de septiembre de 2012. La joven, inscripta durante la dictadura como hija propia por una encargada del Servicio Social de la Casa Cuna en Córdoba y por su esposo, supo entonces que era la hija biológica de María de las Mercedes ( www.abuelas.org acesso em 25 out. 2012.

  Em suma, não poderia deixar de citar as palavras que as Abuelas de Plaza de Mayo, discursaram no encontro da nieta 107, em 9 de outubro de 2012:

  “Las Abuelas queremos abrazar a nuestros nietos y nietas, ser la memoria viva de la historia de sus padres. Transmitirles sus vivencias, sus gustos, defectos y virtudes. Todos y todas podemos ser parte, acompañar a alguien con dudas a acercarse, aportar algún dato que abra una esperanza. A los casi 400 nietos y nietas que aún nos falta encontrar les decimos que el tiempo corre y que es momento de animarse a dar el paso hacia la verdad. En estos 35 años llevamos 107 abrazos. Cada uno nos conmueve y nos inspira para seguir luchando” ( www.abuelas.com.org acesso em 25 out. 2012).

  As mães de desaparecidos por razões políticas e ideológicas também sentiram, a exemplo das avós que iniciaram suas atividades anteriormente, a necessidade de juntar-se para reivindicar o paradeiro de seus filhos. A partir de 30 de abril de 1977, 14 mulheres presididas por Hebe de Bonafini, uniram-se todas as quintas-feiras na Plaza de Mayo em protesto as repressões e sequestros contra seus familiares. A partir destas 14 mulheres, mais pessoas aderiram o movimento, que em agosto de 1979 foi oficializado como mais uma associação em busca dos detenidos-desaparecidos políticos, conhecida mundialmente como Las Madres de Plaza de Mayo. Em 1979, as Madres realizam a ata de fundação considerada a Declaración de Principios da associação,

  (...) Estamos contra la violência y contra todo tipo de terrorismo, privado e estatal. Queremos la paz, la fraternidad y la justiça. Anhelamos para a Argentina la vigência de un sistema democrático, respetuoso de los derechos fundamentales de la persona humana.(...) Rechazamos la injusticia, la opresión, la tortura, el asesinato, los secuestros, los arrestos sin proceso, las detenciones seguidas de desapareciones, la persecución por motivos religiosos, raciales, ideológicos o políticos. No juzgamos a nuestros hijos detenidos y desaparecidos. Ni Siqueira pedimos su libertad. Solo pretendemos que se nos diga donde se encuentran, de qué se los acusa y que se los juzgue de acuerdo con las normas legales y con el legítimo derecho de defensa, si se considera que han cometido cometido algún delito. Que no se los torture. Que se los mantenga en condiciones decorosas. Que podamos verlos y asistirlos.(...) (disponível em www.madres.org acesso em 26 out.2012).

  Sua finalidade foi em primeiro lugar, obter a liberdade de seus familiares. Logo após a redemocratização, constatou-se que houve a prática de assassinatos dos considerados subversivos pelos seus repressores, a Associação buscou o esclarecimento dos crimes buscaram a restituição dos hijos de sus hijos que foram entregues para a adoção. Durante a Ditadura, as Madres, sofreram com a repressão imposta pelos governos militares, onde algumas dirigentes da associação foram presas, sendo consideradas subversivas pelo governo, foram submetidas a interrogatório, não consta na historiografia pesquisada fontes que compravem torturas.

  As atividades realizadas pela associação, além do encontro semanal todas as quintas- feiras na Plaza de Mayo, com a finalidade de chamar a atenção pública e pressionar as autoridades sobre o problema dos desaparecidos, recolheu os arquivos dos dados dos desaparecidos auxiliando a CONADEP na realização dos relatórios. Até mesmo na apresentação de habeas corpus na medida em que iam procedendo às desaparições. Em 1984, já durante o período democrático, a associação realizou uma coletiva de imprensa nominando 970 desaparições forçadas em Buenos Aires, com a intenção de divulgar as atrocidades cometidas pelo Terror de Estado. As Madres buscaram apoio internacional, segundo consta no relatório do Instituto Interamericano de Derechos Humanos que publicou o artigo Organizaciones de Derechos Humanos de America, escrito por Gloria Alberti, Felipe Portales e Hugo Fruhling:

  Sensibilización de la comunidad internacional. Durante la dictadura las dirigentes de la Asociación fueron al extrangero para interceder por su causa ante los organismos internacionales (NN, UU e OEA), governos, Organizações de derechos humanos, Iglesia, partidos políticos, medios de comunicación, etc. provocando una toma de conciencia en la opinión publica mundial sobre la gravedad de la represión que tuvo lugar en Argentina (1988, p. 47).

  Através desta sensibilização internacional todas as organizações que lutavam pelos desaparecidos políticos obtiveram um maior reconhecimento e ajuda internacional. Como método de informar a população sobre os alcances da associação, eram publicados mensalmente folhetos e periódicos (revistas e boletins). A revista de maior reconhecimento era “Madres de Plaza de Mayo”, que informava sobre as atividades realizadas durante o mês, a crítica sobre a evolução dos juízos aos responsáveis das violações dos direitos humanos, também informava a situação dos direitos humanos dentro Argentina e principalmente analisava os casos latino-americanos das violações dos direitos humanos nos casos ditatoriais que aconteceram ou estavam acontecendo na América Latina.

  Contudo, o crescimento da associação foi inevitável. O site oficial das Madres evidência passo a passo da história e da luta da associação, assim como traz notícias atualizadas, eventos relacionados com direitos humanos e ditaduras. No que tange às histórias das Madres, o histórico publicado demonstra que além de uma associação de mulheres, elas são mães sem os seus filhos, lutam pela vida que lhes foi tirada e pela necessidade de justiça, amor e reparação. Segundo o histórico publicado no site, descrito por Jorge Quiroga:

  Las madres piensan, bordan, reclaman, ordenan, limpian,no desfallecen a pesar de todo, ayunan, resisten, escriben poemas, se mantienen firmes. (...)Su trabajo es para para el futuro. No quieren olvido. Sus hijos están en el pueblo, en cada piquete, en cada manifestción. Ellos tienen su próprio vinculo de complicidades. Las Madres son outro fervor, con un accionar distinto, una practica compartida, con un aire de inconformidad y de desparpajo que desorienta y que no es vulnerable. (...) Ellas no desena un balance, prefieren la consecuencia de la lucha. Repelen listas infames y no quieren sentarse a la mesa del verdugo, porque saben que esos cuerpos quemados vuelven, asonam en cada movimiento, en silencio, pero perentoriamente, como diciendo “ no nos hemos ido, estamos aqui para quedarmos”. La vida no tiene precio para ellas, en la lucha colectiva depositan sus ânsias, quien esta se une con sus hijos, así ellos son todos los chicos, todas las Banderas, todos los presagios. Inquietas, Las Madres marcham cada jueves, se reúnen todos los martes y el tiempo no lês alcanza ( www.madres.com acesso em 28 out. 2012).

  Assim como as avós da Praça de Maio, as mães contam com profissionais da área do direito e da medicina, para que possam ter um teor científico nas investigações. O reconhecimento nacional e internacional baseou-se na principal questão levantada: o direito à verdade e à justiça. Baseando-se na necessidade de reparação e restituição das vítimas da repressão militar, conta com filiais espalhadas pelas cidades próximas a Buenos Aires com a mesma pretensão das Abuelas. O intuito dessas associações foi baseado em quatro elementos fundamentais: memória, verdade, justiça e reparação. A função histórica destas associações dentro da Argentina demonstra a necessidade incansável da busca pela memória coletiva e de um vasto movimento de defesa aos Direitos Humanos. Esse que se desenrolou principalmente durante as décadas de 70 e 80, obtendo por suas singulares características, uma ampla transcendência a nível regional e internacional e que ainda continua influenciando de maneira predominante na realidade político-institucional do país.

  O Centro de Estudios Legales y Sociales montou seu trabalho, assim como as

  

Madres e Abuelas, dentro de elementos fundamentais: verdade, justiça e memória. A

  fundação dos CELS em 1979 (dados retirados do site oficial da organização), durante o último governo militar, situou-se nesse contexto particular. Sua criação respondeu a necessidade de encarar ações rápidas e decisivas para deter as graves e sistemáticas violações dos Direitos Humanos, documentar o terrorismo de Estado e proporcionar ajuda legal e social aos famílias das vitimas, especialmente no caso dos desaparecidos. De acordo com os registros dessa organização, até agosto de 2010, 1.576 pessoas, entre civis e implementação da estratégia da prática do Terror de Estado na Argentina. Desde a anulação das leis de anistia Obediencia Debida e Punto Final, em 2005, 89 casos foram condenados e oito, absolvidos. Informações relevantes para a História Argentina, como esta citada, é possível encontrar no site oficial da organização em pauta.

  A partir da restauração democrática, o CELS foi uma referência iniludível para o trabalho da CONADEP e da justiça nos julgamentos. Seu rol de representantes legais de numerosas vítimas e familiares o converteu em um centro de recepção de denúncias e testemunhos, cujo cuidadoso registro foi fundamental para permitir sua utilização como material comprobatório nos julgamentos. Com o trabalho histórico e persistente sobre a justiça, verdade e a memória, os CELS adiou, para o final dos anos 80, a investigação e as denúncias das violações dos Direitos Humanos vinculados e associados com as Forças Armadas e as condições desumanas de detenção das pessoas que eram privadas de sua liberdade.

  O Centro de Estudios legales y Sociales publicou o artigo “El secuestro como

  

método de detención”, em 1982, “con el objeto de dar a conocer a la opinión pública

algunos de los aspectos del sistema represivo aplicado por el gobierno de las Fuerzas

Armadas desde el 24 de marzo de 1976”. Promovendo uma discussão sobre o método

  utilizado repressivamente durante o período militar, ele destaca e

  analiza las modalidades de un procedimiento aplicado, con asombrosa similitud, em varias decenas de miles de casos: anonimato de los ejecutores, violencia incontrastable, encapuchamiento de las victimas, zonas francas, apoderamiento de los bienes, etc. De la lectura de los testimonios resulta evidente que estos operativos responden a un modelo y están sujetos a normas trasmitidas al personal con toda mminuciosidad. Los datos aportados en este trabajo confirman la tesis de la responsabilidad del Gobierno de las Fuerzas Armadas en la desaparición de muchos miles de ciudadanos argentinos y la existencia de un sistema jerarquizado de represión que, aunque clandestino y paralelo al regular, no es menos oficial que este y se encuentra subordinado a las máximas autoridades castrenses(1982, p. 1).

  O Centro de Estudios Legales y Sociales (CELS) é uma organização não- governamental, que trabalha em prol da proteção dos Direitos Humanos e o fortalecimento do sistema democrático argentino. Os principais objetivos da organização são: denunciar as violações contra os Direitos Humanos; influenciar a formulação de políticas públicas baseadas no respeito dos direitos fundamentais; promover reformas legais e institucionais que visam melhorar a qualidade das instituições democráticas; promover maior exercício desses direitos para os setores mais vulneráveis da sociedade. Através destes objetivos que os CELS adquiriu reconhecimento nacional, conseguindo alianças com organizações importantes como as Abuelas, Madres, Memoria Abierta, Foro Ciudadano de

  

Participación por la Justicia y los Derechos Humanos (FOCO), etc. que também

direcionam seus trabalhos para que exista a memória, justiça e a reparação.

  A estratégia de intervenção nos casos pesquisados pela CELS, como descrito pelo

  site oficial: El reclamo en los tribunales de justicia, que es un rasgo de origen del trabajo institucional, se fortaleció en los últimos años con la exploración del litigio como herramienta de incidencia en políticas públicas. En la actualidad, el CELS litiga más de 100 casos en los tribunales argentinos y más de 30 ante organismos internacionales de derechos humanos.

  El tratamiento legal de estos casos permite trabajar sobre patrones estructurales de violaciones de derechos humanos, cuestionando el contenido, orientación o implementación de políticas públicas que afectan a amplios sectores sociales. De esta manera, los procesos judiciales no se agotan en sí mismos sino que integran una estrategia más amplia de promoción y protección de derechos (disponível em www.cels.org.ar acesso em 04 nov. 2012).

  Algo muito importante e interessante que o Centro realiza, desde 1995, é uma clínica Jurídica com foco em defesa dos direitos humanos, que proporciona uma alternativa para os alunos da Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires (UBA), para que realizem um estágio obrigatório durante a graduação. Os estudantes assistem as consultas jurídicas da comunidade e participam ativamente das ações tomadas pelo CELS, são supervisionados por dois professores da UBA, que são advogados da associação.

  O CELS, desenvolveu uma parte importante de suas atividades e estratégias, em coordenação com outras instituições nacionais e internacionais. Nos últimos anos, o CELS construiu amplas alianças com outras organizações nacionais para tirar propostas para que houvesse a reforma do sistema judicial e também nas questões ambientais. A organização também realiza trabalhos com perspectiva regional e global, em questões como segurança pública e violência policial, economia global, Direitos Humanos e Clínicas Legais. Além disso, o CELS realiza a mais de uma década tarefas para a formação de organizações sociais em diferentes cidades da Argentina, trazendo fortes experiências dentro destas organizações construídas na região.

  Do mesmo modo que todas as Organizações Argentinas em defesa dos Direitos Humanos, organizações brasileiras também auxiliaram na luta pela justiça, verdade e memória. Dentre estas organizações a que se destacou como relevante para a monografia foi o Comite de Defensa de Derechos Humanos para los países del Cono Sur (CLAMOR), que surgiu em 1977, com a chefia do Arcebispo de São Paulo Cardeal Paulo Evaristo Arns.

  Os objetivos básicos do CLAMOR, foram de ajudar os exilados das Ditaduras da Argentina, Uruguai e Chile que chegavam em grande quantidade ao Brasil, os auxiliando nas denúncias contra os crimes cometidos contra os Direitos Humanos.

  A equipe do CLAMOR foi formada por cerca de 10 componentes, dos quais somente a secretária trabalhava tempo integral, os outros integrantes se reuniam uma vez por semana para as atribuições das tarefas. Através de uma das edições especiais que o CLAMOR produziu direcionando suas pesquisas para a Argentina, podemos ter em mãos, nomeados e fichados mais de 7 mil desaparecidos por razões políticas. Assim como podemos encontrar no Prefacio da edição n º 1, publicado em 1982:

  En esta edición especial sobre desaparecidos en Argentina, fruto de testimonios orales y escritos recibidos hace años por el Arzobispado de São Paulo, Brasil, rendimos homenaje a las ocho entidades argentinas de derechos humanos que

colaboraron con CLAMOR en elaboraión de los datos.

Nos debemos repetir el pasado. Se torna necesario, por consiguiente, dar público conocimiento a la realidad, no necesariamente para que nos horrorizemos con la constatación de la vileza a que se rebajaron los hombres que abandonaron princípios, sino para que reforzemos nuestra firme disposición de hacer todo lo posible para que esa ignomínia no se repita jamás en los tan sufridos países de nuestro cono sur (1982, p.6).

  A publicação sobre os desaparecidos na Argentina teve um grande impacto no exterior. Diretamente das Abuelas, Estela Carlotto, veio até o Comité e graças aos arquivos da organização, deu resolução ao primeiro caso de recuperação dos netos desaparecidos. Em outras palavras, as Abuelas afirmam a participação do CLAMOR da seguinte forma,

  Uno de los primeros destinos fue Brasil. Allí se contactaron con el Comité de Defensa de los Derechos Humanos en el Cono Sur (CLAMOR), dependiente del Arzobispado de San Pablo, y recogieron testimonios de sobrevivientes que confirmaban los nacimientos en cautiverio. “Algunos tenían la memoria bloqueada, pero otros se acordaban de todo –detalla Estela Carlotto–. Fuimos acumulando información, y nietitos que eran apenas una sombra empezaron a tener sexo y fecha de nacimiento” (2007, p.33).

  Com reconhecimento internacional bastante expressivo, a comissão publicou mais edições sobre desaparecidos, em países como Chile, Uruguai e Paraguai. O CLAMOR na publicação direcionada para a Argentina destacou de várias formas a expressividade que foi os resultados da Ditadura. Acrescenta-se também a listagem dos mais de 7 mil desaparecidos, gráficos referentes aos índices revelados pelo CLAMOR e mapas dos centros clandestinos espalhados pela Argentina.

  Para obter melhor conhecimento, estão em anexos todos os meios quantitativos relacionados acima. No anexo I, centros clandestinos de detención: buenos aires y

  alredores,

  consta o mapeamento de todos os centros clandestinos espalhados por Buenos Aires, contando com a localização e como podemos observar o centro clandestino número 10 ficou conhecido como Garage Olimpo, considerado um dos centros clandestinos mais violentos durante a Ditadura. No anexo II, pode-se observar onde se localizaram os centros clandestinos na Cidade de La Plata. No anexo III, é possível notar as outras regiões da Argentina que possuíam Centros Clandestinos de Detenção. No anexo IV e V, podemos verificar os percentuais dos desaparecimentos contidos na listagem feita pelo Comitê. Por fim, os anexos VI e VII registram uma pequena parte dos mais de 7 mil desaparecidos listados pelo CLAMOR, nos dois anexos aparecem desde crianças até idosos banidos de sua liberdade pela intolerância da repressão, os motivos para estas ações: ainda para muitas vítimas, principalmente nos casos de crianças, são desconhecidos.

  Portanto, todas as organizações citadas lutaram ou ainda lutam pela mesma causa, sendo possível observar cada uma por uma ótica diferente. Esta causa define-se no não-

  

esquecimento (grifo meu), na necessidade de haver memória, justiça, verdade e reparação,

  busca-se isso através destas organizações. A História e a Memória unem-se através de teorias e vivências. Por fim, essa união será possível analisar através do próximo capítulo, em que serão abordadas as entrelinhas, as definições de memória e o papel da história como ciência engajada em manter uma memória viva sobre os crimes cometidos pelo Estado contra os Direitos Humanos.

  Nos subtítulos anteriores já foi destacado como uma história oficial sobre a Ditadura Civil-Militar argentina foi imposta por meio das ações repressivas e da censura. Contudo, conflitando com essa versão dos acontecimentos, havia uma grande variedade de reminiscências individuais de todos aqueles que direta ou indiretamente sofreram os crimes contra os direitos humanos. Essas memórias individuais tinham um referente externo comum e baseavam-se nas experiências que se acumularam diante das medidas repressoras do governo argentino. A questão que se coloca nesse capítulo é como essa coleção de reminiscências pode ser articulada em uma memória coletiva que acabou ganhando o status de “a verdade sobre os crimes de estado” patrocinados pelo governo ditatorial argentino.

  Para esse entendimento é importante destacar as contribuições de Maurice Halbwachs sobre as articulações possíveis entre a memória individual e coletiva, bem como a abordagem de Michel Pollak sobre o enquadramento da memória coletiva.

  Igualmente importante é a contribuição de Pierre Nora quando fala dos lugares de memória e de Elisabeth Jelin quando discute as tensões que existem quando se pergunta sobre a construção da memória, os processos de construção de memória e entre outras, sua legitimidade social e a sua pretensão sobre a verdade.

  Para Maurice Halbwachs a memória coletiva é o processo social de reconstrução do passado vivido e experimentado por um determinado grupo (compartilhamento da memória), comunidade ou sociedade. Esse passado vivido é distinto da história, a qual se refere mais aos fatos e eventos registrados, como dados e feitos, independentemente destes terem sido sentidos e experimentados por alguém. Nas palavras de Maurice:

  Admitamos, contudo, que as lembranças pudessem se organizar de duas maneiras: tanto se agrupando em torno de uma determinada pessoa, que se vê de seu ponto de vista, como se distribuindo dentro de uma sociedade grande ou pequena, da qual são imagens parciais. Portanto, existiriam memórias individuais e, por assim dizer, memórias coletivas. Em outras palavras, o individuo

participaria de dois tipos de memórias (2006, p. 71).

  O indivíduo que participa tanto da memória coletiva quanto da individual, adotaria duas atitudes diferentes ou até opostas. Sendo que, de um lado apareceriam suas lembranças em contexto da sua personalidade ou de sua vida pessoal (as mesmas que lhes são comuns com outras só seriam vistas por ele apenas no aspecto que o interessa enquanto se distingue dos outros) (HALBWACHS, 2006, p. 71). Seguindo a perspectiva da memória coletiva, o indivíduo se comportaria como membro de um determinado grupo, evocando e contribuindo para manter somente as reminiscências pessoais que interessassem para o grupo. Sendo assim, a memória individual é utilizada para confirmar algumas lembranças (para torná-las mais exatas), e para preencher lacunas existentes na memória coletiva. Pode-se, então, apoiar-se na memória coletiva, mesmo havendo algumas confusões psíquicas, não deixa de seguir no seu próprio sentido: compartilhamento de reminiscências. Conclui-se que, segundo Halbwachs:

  Por outro lado, a memória coletiva contém as memórias individuais, mas não se confunde com elas – evolui segundo suas leis e, se às vezes determinadas lembranças individuais também as invadem, estas mudam de aparência a partir do momento em que são substituídas em um conjunto que não é mais uma consciência pessoal (2006, p. 72).

  As memórias compartilhadas que Halbwachs menciona podem ser exemplificada nas comemorações e rememorações históricas que acontecem anualmente na Argentina, em 24 de março (data do golpe militar de 1976), chamadas de “datas redondas” consideradas momentos condensadores da memória. Neste sentido, essas comemorações ativam os diversos sentido sobre o passado traumático recente, “tornando público um enfrentamento deslocado, nos dias de hoje, para o âmbito discursivo”. (BAUER, 2012, p. 231) Sendo assim, a ânsia em não esquecer é traduzida no “dever de memória”, essas ações da luta contra o não esquecimento são encaixadas em conotações públicas.

  “As datas comemorativas e rememorativas tornam-se temáticas de estudo privilegiadas para analisar a memória a partir de uma perspectiva que a entenda como um território de conflitos”. (BAUER, 2012, p.232) Nesse sentido, as datas rememorativas, em relação às experiências das ditaduras de segurança nacional no cone sul, em específico na Argentina, acabaram se tornando um ambiente privilegiado para “desprivatizar” a memória sobre o terrorismo de Estado. Segundo Helenice Silva citada por Caroline Bauer,

  Nesse sentido, comemorar significa reviver de forma coletiva a memória de um acontecimento, ressignificando o passado com objetivos do presente (...) no processo comemorativo, um duplo movimento parece configurar-se. Ele consiste em retirar o acontecimento do passado para penetrá-lo nas realidades e nas questãos do presente, criando a contemporaneidade e abolindo o tempo e a distância. Essas datas nos condicionam ao vinculo com a memória de modo positivo, público e intersubjetivo. (BAUER apud SILVA, 2012, p.232 – 233)

  Segundo Halbwachs, a memória pode ser compartilhada nesses eventos acontecendo transferências de reminiscências bastante significativas, pois convergem em uma arena de disputas pelo sentido do passado. A arena está marcada pela dialética da lembrança e do esquecimento. Seguindo nessa mesma perspectiva, Halbwachs considera que a definição sobre a memória individual, ressalta que ela não está inteiramente “isolada e fechada” ( 2006, p.72). Dentro da memória individual, para o indivíduo evocar o seu próprio passado, ele necessita recorrer às lembranças de outras pessoas. Sendo assim, ele se transporta aos pontos de referência que existem fora de si, sendo determinados pela sociedade. No que se refere ao funcionamento da memória individual, ela não existirá sem esses instrumentos importantes, sendo as palavras e as ideias, que o indivíduo não inventou, mas tomou emprestado de seu ambiente. Desse modo, as projetando para um novo grupo, que após a verificação de sua importância, os relacionará com a memória já produzida. Através disso podemos concluir que,

  não é menos verdade que não conseguimos lembrar senão do que vimos, fizemos, sentimos, pensamos num momento do tempo, ou seja, nossa memória não se confunde com a dos outros. Ela está muito estreitamente limitada no espaço e no tempo (HALBWACHS, 2006, p. 72).

  Portanto, as comemorações e rememorações sobre a ditadura argentina, visando o não-esquecimento dos acontecimentos individuais e coletivos, demonstram que a memória dos outros, que geralmente participam do mesmo grupo, ou seja, da mesma “comunidade afetiva”, vem reforçar ou complementar a memória individual. Sendo assim, segundo Halbwachs (2006, p. 98) “é preciso que as lembranças desses grupos não deixem de ter alguma relação com os acontecimentos que constituem o passado do indivíduo”, para que haja um compartilhamento legítimo de reminiscências. As recordações são coletivas, sendo impossível a memória ser totalmente individual, pois a lembrança se reconstrói socialmente e é desta maneira que ocorre a “desprivatização” da memória.

Além das contribuições do sociólogo francês Maurice Halbwachs, outros autores

  como Michel Pollak evidenciam a importância da memória coletiva para reconstrução dos fatos históricos dentro da memória oficial. Pollak põe em evidência a importância que a memória subterrânea tem na construção da Memória Nacional (oficial). Segundo Pollak, a memória oficial e a memória coletiva entram em disputa quando a última surge em momentos de crise. É possível de exemplificar através da criação da CONADEP logo após a transição política na Argentina, causando a competição entre os que vivenciaram o terror da ditadura e os que a promoveram.

  A análise de Michel Pollak para entender a memória coletiva, individual e oficial parte da necessidade de haver uma negociação entre as três. Dessa forma, elas acabarão se tornando uma lembrança disseminada, resultando em uma única interpretação. Neste sentido, o autor cita que uma memória considerada “proibida”, e no momento em que ela toma o espaço público, promove-se uma série de reivindicações para que aconteça uma revisão crítica do passado. São essas disputas por estas reminiscências que acabam trazendo modificações dentro da história oficial. Conforme Pollak:

  Remete-se igualmente aos riscos inerentes a essa revisão, na medida em que os dominantes não podem jamais controlar perfeitamente até onde levarão as reivindicações que se formam ao mesmo tempo em que caem os tabus conservados pela memória oficial (1989, p. 3).

  São nessas disputas pela memória que associações como Las Madres e Abuelas de

  

Plaza de Mayo se encaixam perfeitamente, pois trazem para o público a reivindicação

  sobre o destino de seus familiares desaparecidos durante a ditadura. Existe o fato histórico e a consequência dele. Logo, a ligação de ambos está diretamente visível. Nessas conjunturas, surge a necessidade de acabar com o “silêncio” sobre o passado, pois o mesmo está diretamente ligado com o fim da resistência civil que foi, por muito tempo, prejudicada pelas ações do Estado.

  O enquadramento da memória “se alimenta do material fornecido pela história” (POLLAK, 1989, p.7). Nesse sentido, a história já escrita sobre o que aconteceu interage com os relatos obtidos, não apenas no sentido de manter as fronteiras sociais existentes, mas, sobretudo, para modificá-los, reinterpretando o passado em função das “crises” provenientes dele. Segundo as interpretações de Pollak:

  (...)assim como a exigência de justificação, a falsificação pura e simples do passado na sua reconstrução política, o trabalho permanente de reinterpretação do passado é contido por uma exigência de credibilidade que depende da coerência dos discursos sucessivos. Toda organização política, por exemplo – sindicato, partido, etc. – veicula seu próprio passado e a imagem que ela forjou para si mesma (1989, p. 7).

  No caso argentino, não houve um esforço para criar uma história oficial coerente com os interesses dos militares. O que se viu foram discursos e posicionamentos oficiais do governo sobre supostos atos de tortura e desaparecimento de inimigos políticos. Isso porque a História precisa de um tempo para organizar as informações e difundir discursos que guardam alguma relação com o que aconteceu.

  Os governos militares argentinos, entre 1976 e 1983, estiveram envolvidos em constantes conflitos com forças opositoras e não tiveram a necessária estabilidade para organizar uma memória oficial sobre si mesmos. Ao contrário disso, quando foram depostos, o governo de Raúl Alfonsin tratou de difundir relatórios por meio da CONADEP que incriminavam os agentes do estado do regime anterior.

  Portanto, pode-se dizer que na Argentina a “história oficial” privilegiou a versão das vítimas do regime autoritário e não os agentes do estado que lideraram ou conduziram o governo ditatorial. Nisso reside o que Pollak definiu como o enquadramento da memória, ou seja, a memória reprimida no regime civil-militar foi atualizada através das comissões nacionais da verdade e das organizações nacionais que enquadraram a memória dos vencidos em 1976. O contexto histórico de organizações como Abuelas de Plaza de Mayo,

  

Madres de Plaza de Mayo, Comisión Nacional sobre la desaparción de persona, Centro de

Estudios Legales y Sociales e Comitê de defesa dos Direitos Humanos no Cone-Sul já foi

  analisado no capítulo anterior, foi possível verificar a integridade e o comprometimento com os Direitos Humanos, essas associações realizaram movimentações populares em torno da “memória”, desde o primeiro ano de Ditadura, e trinta anos depois ainda continuam a movimentar a população argentina em torno da memória e da justiça. Dentro dessas movimentações o objetivo central que se procura obter está diretamente ligada ao processo do não-esquecimento.

  Mesmo pelo pouco tempo de existência, a CONADEP teve um papel fundamental nos primeiros meses de redemocratização. Com um índice elevado de depoimentos recolhidos, a produção do“Nunca Más” tomou grandes proporções dentro da sociedade argentina. Esses depoimentos “enquadraram” a memória coletiva dos “vencidos” perante os “vencedores”, trazendo ao público as memórias subterrâneas e individuais dos que foram submetidos à repressão militar. Nesses depoimentos constam as formas aterrorizantes de tortura e descaso com a vida humana. Dentre tantos casos denunciados pela comissão, destaca-se o caso de Carlos Alberto Campero (Pasta nº 1806 – arquivo do relatório Nunca Más), que nos parece ser um exemplo de cerceamento dos direitos humanos:

  Minha mãe foi levada à loja e, sob ameaças de morte, a agrediram, usando métodos que não se aplicam nem mesmo aos animais selvagens. Na loja tínhamos um ventilador de pé, do qual cortaram o cabo que, ligado á tomada, utilizaram como ‘picana’; porém, para que isto tivesse mais eficiência, abriam garrafas de água mineral para molhar minha mãe, a qual havia sido amarrada a uma cadeira; enquanto realizavam este ato de selvageria, outro batia-lhe com um cinto até ensanguentar-lhe o corpo e desfigurar-lhe seu rosto. Após haver transcorrido um período bastante prolongado, decidiram levar-nos todos, menos Viviana, de seis meses de idade, que junto com Griselda, minha irmã de 13 anos, ficaram na casa (CONADEP, 1984, p.14).

  Através do depoimento supracitado, de uma das vítimas da repressão militar argentina, podemos notar o enquadramento da memória. O relato acima caracteriza as formas de torturas e os métodos de detenção durante a ditadura, causando no leitor um sentimento de repulsa contra a violência praticada. A partir disso, cria-se uma atmosfera de identificação entre o torturado (perseguido) e todos os que, até então, ou não sabiam ou não tinham o perfeito entendimento de como funcionava o exercício do poder durante a ditadura civil-militar argentina.

  Por isso, a credibilidade existente nos depoimentos recolhidos pela CONADEP ou por qualquer outra associação engajada na luta pelo não-esquecimento, depende da memória coletada e da verossimilhança possível entre o que foi relatado e o contexto vivenciado pelos que tomam conhecimento do relato. Essa convergência, quando ocorre, introduz na memória de um grupo maior de pessoas aquilo que, de fato, só existia na memória de uns poucos. O passo seguinte é “cristalizar” essa identificação por meio de recursos como: historiografia, monumentos, museus, rituais rememorativos, instituição de datas festivas, ênfase de certas informações nos currículos escolares, etc. Uma vez que isso ocorre, têm-se o enquadramento da memória coletiva que passa a se chamar simplesmente “História”.

  Desta forma, se as lembranças são úteis para a memória oficial, sua coexistência não levanta grandes problemas. Essa afirmação pode ser percebida nos relatos orais sobre as desaparições forçadas, pois neles constam as memórias que se mantiveram subterrâneas por conta da repressão, mas que foram trazidas a público pelo novo governo que desejava desvincular-se do regime decaído. Não por acaso o total de depoimento levantados por iniciativas governamentais ou privadas chegou próximo dos cinquenta mil, conforme se percebe no relatório da CONADEP.

  Portanto, no caso específico da Argentina, a memória oficial alimentou-se da memória subterrânea dos indivíduos que “desprivatizaram” suas próprias reminiscências sobre os eventos que vivenciaram, por mais traumatizantes que fossem. Assim, pode-se idealizar, para o indivíduo cuja vida foi marcada por múltiplas “rupturas e traumatismos, a dificuldade colocada por esse trabalho de construção de uma coerência e de uma continuidade de sua própria história”(POLLAK, 1989, p.14).

  Contudo, ainda existem vítimas que preferem manter-se em silêncio, deixando o “mal do passado” não interferir em sua vida reconstruída após o período traumático, não sendo por negação, mas por simples decisão em não reviver a situação limite da própria experiência humana.

  Destaca-se, que, para haver essas disposições em relatar e relembrar devem existir acontecimentos regionais que traumatizaram tanto os “personagens” do evento bem como aqueles que continuam a viver em um contexto no qual o conflito passado ainda faz sentido, ou seja, nessa situação, a memória coletada pode ser transmitida por gerações com política, ou da socialização histórica, ocorra um “fenômeno de projeção ou de identificação com determinado passado, tão forte que podemos falar numa memória quase que herdada” (POLLAK, 1992, p. 201).

  Mas não se deve desprezar o efeito do tempo sobre a lembrança. Quando há o interesse de setores suficientemente poderosos em manter viva certa memória sobre o que aconteceu, cria-se todo um repertório de “lugares de memória”. Ou seja, no caso argentino, buscando “congelar” o passado recente, lugares que serviram de centros clandestinos durante a ditadura acabaram virando museus e a famosa Praça de Maio tornou-se palco de manifestações contra a repressão de tal maneira que se tornaram referência histórica na Argentina. Por isso, a importância dos estudos de Pierre Nora (1985) sobre os lugares de memória. Tais lugares são determinantes para que se perpetue o não-esquecimento dos horrores e das atrocidades ocorridas durante o período de repressão em que a Argentina esteve imersa.

  Os lugares de memória, segundo Pierre Nora (1985, p. 21), pertencem a dois domínios, quais sejam: “simples e ambíguos ou naturais e artificiais”. Essa dualidade existe porque partem de coisas aparentemente elementares, mas com grande ambiguidade de sentido; são do mundo natural e sensível, mas que assumem uma natureza artificial porque foi ressemantizado segundo a compreensão das experiências do grupo social.

  Através desses domínios, o autor considera que somente se configuram como lugares de memória aqueles que são investidos de grande significação, por meio de elementos que o caracterizem como tal. Esses elementos são de diversas ordens: material, simbólico e funcional (NORA, 1985, p. 21). O lugar de memória somente é qualificado como “material” por seu conteúdo imediato, como algo que tem um primeiro significado perfeitamente visível. Mas na medida em que recebe novas significações com relação ao passado que representa, então passa a ser um lugar distinto da sua natureza original.

  Cita-se o exemplo do relatório produzido pela CONADEP. Em um primeiro momento, trata-se de uma publicação financiada pelo governo argentino, cujo propósito era levantar os dados objetivos sobre a tortura, sequestros, botins e os desaparecimentos ocorridos no regime civil-militar decaído. Entretanto, sua repercussão o tornou em uma referência obrigatória quando se pretende conhecer ou investigar tais acontecimentos. Essa exemplaridade o tornou em uma espécie de monumento sobre o passado e lugar revisitado constantemente por todos aqueles que desejam entrar em contato com os crimes de estado cometidos entre 1976 e 1983.

  Desta forma, como se percebe no exemplo apresentado, para se tornar um lugar de memória, também carece ser funcional, para garantir ao mesmo tempo a cristalização da reminiscência e a legitimidade de sua transmissão. Desse modo, outra característica importante do relatório Nunca Más é o “congelamento” dos relatos, garantindo a legitimidade dos fatos e transmitindo a memória angariada para o leitor através de um texto que teve ampla recpção- mais de 500 mil publicações.

  Por fim, para se concretizar como um lugar de memória necessita ser simbólico, pois tem de simbolizar a experiência de alguns como a experiência de todos. Esse é o caso do centro clandestino de detenção ESMA, o mais “famoso” da Argentina, que se configurou como um lugar de memória. A sede do CCD Escuela de Mecánica de la Armada (ESMA) foi doado, em 2005, aos organismos de Direitos Humanos pelo ex-presidente da República Néstor Kirchner e juntamente com Aníbal Ibarra, prefeito de Buenos Aires, para que ocorresse a construção do Museo de la Memoria. Através do convenio nº 8, proferido em 2004, ficava definido que o Estado argentino e a cidade de Buenos Aires se comprometeriam a construir um espaço para a memória e para a promoção e a defesa dos Direitos Humanos, localizando-o na Esma. Segundo o acordo, citado por Caroline Bauer:

  Que en ese contexto, en las dependências donde se hallaba en aquel período la Escuela Mecánica de la Armada (Esma) funcionó el más grande centro clandestino de detención y extermínio, asiento del grupo de tareas GT 3.3.2 en donde sufrió el calvario previo a su muerte un numero estimado de cinco mil hombres y mujeres de toda edad, constituyendo un trágico símbolo del asiento del horror;(...) Que es responsabilidad de las instituciones constitucionales de la Republica el recuerdo permanente de esta cruel etapa de la historia argentina como ejercicio colectivo de la memória con el fin de enseñar a las actuales y futuras generaciones las consecuencias irré parales que trae aparejada la sustitución del Estado de Derecho por la aplicación de la violência ilegal por quienes ejercem el poder del Estado, para evitar que el olvido sea caldo de cultivo de su futura repetición (BAUER, 2012, p.237 – 238).

  Néstor Kirchner ainda justifica, a partir deste convênio com a prefeitura de Buenos Aires, os motivos para que houvesse a construção do Museo:

  Que la enseñanza de la historia no encuentra sustento en el odio o en la división em bandos enfrentados del pueblo argentino, sino que por el contrario busca unir la sociedad tras las Banderas de la justicia, la verdad y la memoria em defensa de los derechos humanos, la democracia y el orden republicano (...) Que de tal manera, el destino que se asigne al predio y los eduficios de la ESMA formara parte del procesos de restituición simbolica de los nombres y las tumbas que lês fueron negados a las victimas, contribuyendo a la reconstrución de la memoria histórica de los argentinos, para que el compromiso con la vida y el respeto irrestricto de los derechos humanos Sean valores fundantes de una nueva sociedad justa y solidaria. (...) (BAUER, 2012, p. 238). A criação de um museu nas dependências do antigo CCD ESMA representou um “marco nas ações institucionais e na ação política oficial em relação à memória do passado recente na região” (BAUER, 2012, p.238). Além desse fator, o Centro Clandestino de Detenção ESMA não foi qualquer centro de detenção, mas sim aquele de onde partiram a maioria dos voos da morte, por meio dos quais se acredita que tenham desaparecido aproximadamente 5 mil pessoas. Portanto, com essas ações de reconstrução da memória através de lugares que diretamente participaram da ditadura, o “congelamento” da lembrança direciona para as características principais das definições aplicadas por Nora, para se tornar um lugar de memória.

  Nessas condições, um espaço público para se tornar um lugar de memória necessita ter marcado a história local, tendo sido palco de algum evento (ou de vários eventos). É nessa condição que a famosa Plaza de Mayo encaixa-se perfeitamente nas definições acerca da construção dos lugares de memória. O fato é que a praça que estamos falando é a Praça de Maio, não somente palco de protestos das Abuelas y Madres, mas também palco para manifestações políticas, desde a história colonial argentina até os discursos populistas de Juan Domingo Perón em 1945. A Praça de Maio é considerada um “passeio” político, um marco na história nacional, através de seu espaço público, existem várias interpretações de poder em função das estátuas e monumentos existentes nela, e nesse sentido, que a Praça por mais “artificial” que possa parecer, reconstrói reminiscências importantes na História argentina. Criou-se em torno da Praça de Maio um refúgio direto para manifestações políticas e sociais relevantes para a História, configurando-se assim em um lugar rico em memória. Segundo Pierre Nora:

  Lugares, portanto, mas lugares mistos, híbridos e mutantes, intimamente enlaçados de vida e de morte, de tempo e de eternidade, numa espiral do coletivo e do individual, do prosaico e do sagrado, do imóvel e do móvel. (...) Por que, se é verdade que a razão fundamental de ser de um lugar de memória é parar o tempo, é bloquear o trabalho do esquecimento, fixar um estado de coisas, imortalizar a morte, materializar o imaterial, para prender o máximo de sentido num mínimo de sinais, é claro, e é isso que os torna apaixonantes, que os lugares de memória só vivem de sua aptidão para a metamorfose, no incessante ressaltar de seus significados e no silvado imprevisível de suas ramificações (NORA, 1985, p.22).

  Nesse sentido, a Praça de Maio se enquadra perfeitamente nos parâmetros citados acima por Nora, pois apesar de ser um lugar “mutante”, mantêm a história e a memória viva, e imortalizada por gerações. Por fim, como Eduardo Galeano cita, “Mais do que museus, onde o pobre se entendia, a memória está no ar que respiramos; e ela, no ar, nos respira” (GALEANO, 1999, p. 216).

  Partindo desses lugares que implicam tanta memória e História recente, que Elisabeth Jelin questiona a necessidade de se criar a distinção entre memória e história. Ressaltam-se as leituras que os historiadores fazem da memória coletiva, mesmo sabendo que ela está intimamente ligada ao individual, projetando-se um vínculo entre a História e a Memória. “Pode parecer que exista certa ambiguidade na relação entre a história e a memória, resultante do fato que as duas vinculam-se, por sua vez, com o passado” (PADRÓS, 2002, p. 3). Porém, as diferenças são pertinentes, e devem estar presentes para o historiador. Contudo, Pádros tem uma visão um pouco diferentes:

  A história se distingue da memória pela forma de aquisição, transmissão, conservação, alteração e validação do conhecimento que ela produz sobre o passado. Enquanto a História conta com o crivo das fontes empíricas para aferir, mensurar e avaliar a sua análise sobre o passado, a memória não tem como realizar esse caminho. A história, ao objetivar a compreensão de situações de natureza coletiva e ao explicar racionalmente o que o senso comum apresenta de superficial e emotivo, afasta-se da memória. Mas, entanto, não nega pois, como já foi visto, ela constitui uma matéria-prima básica sobre a qual se debruça na sua operação de análise e reflexão (PÁDROS, 2002, p. 3).

  Jelin proporciona um questionamento: ¿Qué importa todo esto para pensar sobre la

  

memoria? Primeiro, é importante ter ou não ter palavras para expressar o vivenciado, para

  construir experiência e subjetividade dos eventos e acontecimentos que nos chocam. Uma característica de experiência traumática é a enorme causa do impacto, criando uma lacuna na capacidade de "ser falado" ou contado. Isso faz com que ocorra “um furo” na capacidade de representação psíquica. A memória permanece desarticulada e só aparecem pequenos traços dolorosos e silenciados. “Lo traumático altera la temporalidad de otros

  

procesos psíquicos y la memoria no los puede tomar, no puede recuperar, transmitir o

comunicar lo vivido” (JELIN, 2001, p.16).

  Dando sequência em suas interpretações, Jelin sugestiona que se toda a experiência é mediada e não é “pura” ou direta, é necessário repensar a suposta distância entre os processos de memória autobiográfica e os processos de esquecimento socioculturais, “compartidos por la mediación de mecanismos de tranmisión y apropriación

  

simbólica” (JELIN, 2001, p.16). Mesmo aqueles que vivenciaram o evento devem, a fim de

  transformá-lo em experiência, encontrar as palavras e colocá-las em um quadro cultural que possibilita a comunicação e a transmissão dos fatos. Isso nos leva a conceituar que o senso comum define como “transferência”, ou seja, o processo pelo qual o conhecimento cultural é construído e ligado a uma visão compartilhada do passado.

  A última interpretação mencionada por Elisabeth Jelin, no que se refere a pensar sobre a memória:

  En tercer lugar, permite articular los niveles individual y colectivo o social de la memoria y la experiencia. Las memórias son simultânea individuales y sociales, ya que en la medida en que las palabras y la comunidad de discurso son colectivas, la experiencia también lo es. Las vivencias individuales no se transforman en experiencias con sentido sin la presencia de discursos culturales, y éstos son siempre colectivos. A su vez, la experiencia y la memoria individuales no existen em si, sino que se manifiestan y se tornan colectivas en el acto de compartir. O sea, la experiencia individual constuye comunidad en el acto narrativo compartido, en el narrar y el escuchar (JELIN, 2001, p.16 – 17).

  Por fim, não se pode esperar uma relação linear entre a memória individual e a coletiva. Sendo assim, as experiências subjetivas nunca são reflexos legítimos dos eventos públicos, de modo que não se pode esperar integração ou encontrar um ajuste entre as memórias individuais e as memórias coletivas. Jelin diz que “aun cuando lógicamente no

  

haya contradicción, hay una tensión entre preguntarse sobre lo que la memoria es y

proponer pensar en procesos de construcción de memorias, de memorias en plural, y de

disputas sociales acerca de las memorias, su legitimidad social y su pretensión de

  (JELIN, 2001, p. 1) verdad”. Portanto, a discussão entre história e memória ainda pode render muitas interpretações. Todos os autores supracitados trabalham de forma diferenciada o conceito

  “memória”, porém se entrelaçam em suas definições. Dessa forma, escrever sobre memória e pensá-la como um processo do não esquecimento, no caso argentino, trata-se de absorver as reminiscências traumáticas produzida pelos processos históricos de terrorismo de estado e publicá-las como fonte de indignação desses períodos quando se desrespeitaram os direitos humanos. Sendo assim, Maurice Halbwachs, Michel Pollak, Pierre Nora e Elisabeth Jelin transformam os conceitos sobre memória em conceitos essenciais para entender etapas históricas que sobrevivem através de lembranças individuais, dos lugares de memória e do enquadramento da memória coletiva em “História”.

  O processo de redemocratização na Argentina considera que a plena cidadania só seria alcançada com o julgamento e a condenação dos crimes cometidos pelo Estado e por isso na Argentina todos os arquivos da Ditadura Civil- Militar estão disponíveis para consulta, o que difere e muito dos arquivos brasileiros.

  Com a finalização dessa pesquisa, espera-se ter resolvido o objetivo central. Tendo compreendido e verificado a existência de organizações nacionais que buscaram através de uma mesma causa, o não-esquecimento sobre os desaparecidos políticos argentinos e a construção da memória sobre o passado recente que questionou a verdadeira face dos direitos humanos.

  Essas organizações centralizaram seus trabalhos em torno da justiça, da memória, da verdade e da reparação. Com esses lemas enfretaram as intolerâncias do período ditatorial, cresceram em importância na redemocratização e, atualmente, fazem parte da História Argentina. Acrescenta-se a esta constatação a legitimidade dos fatos históricos recorrentes no período ditatorial, os momentos de estagnação econômica e política que o país enfrentou que abalaram as estruturas da sociedade argentina.

  O período da Ditadura Civil-Militar Argentina não teve um momento de extrema tranquilidade para os ditadores. Foram 7 anos, que desapareceram mais de 30 mil pessoas, a economia foi destruída pelo plano econômico de Martinez de Hoz e, além de todas essas questões, a incessante luta das Abuelas e Madres enfretando o governo para que não houvesse um silêncio sólido sobre o paradeiro de seus familiares. Verificando a autencidade dessas organizações e considerando que possuem um reconhecimento nacional e internacional, o objetivo principal não deixou de perpetuar em cada pessoa que pesquisa e compreende a luta dessas mulheres. Além de marcar como vítimas indiretas, são as mães e avós de um corpo que ainda não existe (grifo meu).

  Dentro de todas estas interpretações sobre o valor da memória em casos que traumatizaram uma parcela considerável da população, destacou-se a importância em saber sobre as reminisciências construídas, sejam elas individuais ou coletivas, durante o período pesquisado. Desta forma, ressiginificar o papel dessas organizações que tendem a lutar pela memória e pelos Direitos Humanos também foi parte integrante desta pesquisa. Todas as definições sobre memória legitimam o sentido de cada organização. Os lugares de memória, por sua vez, comprovam a existência dos períodos históricos que chocaram a população. A propósito, com as ilustrações do CLAMOR foi possível verificar a dimensão que a repressão se proferiu.

  Portanto, na Argentina, hoje em dia, qualquer interferência sobre a memória transforma-se em uma questão de poder e política, em parte pela extensão da repressão e dos efeitos residuais das estratégias do terrorismo de Estado. Sendo assim, pesquisar sobre os sentidos da memória em sociedades que lutam para mantê-la viva, principalmente para que não ocorram essas atrocidades novamente, é de fundamental relevância, pois, torna-se possível refletir sobre o peso que a memória e suas definições causam dentro da construção da própria e legítima História.

  Por fim, passados 30 anos do golpe, os relatos e representações da violência política na Argentina convivem gerando discursos plurais. Redundantes e elusivos, todos se referem às memórias encontradas, recordações contrárias em função de um presente que trama diversas perspectivas sobre o passado e de políticas que induzem a tensões entre a vontade e as possibilidades de recordar, encerrar e esquecer. É através desses parâmetros que foi possível analisar o processo de memória construída e o que ainda está sendo construído sobre os seres humanos desaparecidos na Argentina.

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ANEXO I: CENTROS CLANDESTINOS DE DETENCÃO: BUENOS AIRES E

ARREDORES.

  

FONTE: COMITÉ DE DEFENSA DE DERECHOS HUMANOS EN EL CONO SUR. Desaparecidos en la

Argentina. São Paulo, 1982. Pág. 17.

  

FONTE: COMITÉ DE DEFENSA DE DERECHOS HUMANOS EN EL CONO SUR. Desaparecidos en la

Argentina. São Paulo, 1982. Pág. 18.

  

ANEXO III: CENTROS CLANDESTINOS EM OUTRAS REGIÕES DA

ARGENTINA.

  

FONTE: COMITÉ DE DEFENSA DE DERECHOS HUMANOS EN EL CONO SUR. Desaparecidos en la

Argentina. São Paulo, 1982. Pág. 19

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