Renato Willenberg Junior O PROCESSO FABRIL EM SANTA MARIA: Uma história interrompida ou uma história em aberto

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Renato Willenberg Junior

O PROCESSO FABRIL EM SANTA MARIA: Uma história interrompida ou uma história em aberto

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Renato Willenberg Junior

O PROCESSO FABRIL EM SANTA MARIA: Uma história interrompida ou uma história em aberto.

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área das Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de

Licenciado em História.

Orientadora: Janaina Souza Teixeira

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Renato Willemberg Junior

O PROCESSO FABRIL EM SANTA MARIA: Uma história interrompida ou uma história em aberto.

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área das Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de

Licenciado em História.

__________________________________________ Prof aMs. Janaina Souza Teixeira – Orientadora (Unifra)

__________________________________________ Prof. Dr. Carlos Roberto da Rosa Rangel (Unifra)

__________________________________________

Prof. Dr. Leonardo Guedes Henn (Unifra)

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RESUMO

Neste trabalho final de graduação é abordada a situação do setor fabril no município de Santa Maria do final do século XIX e início do XX, em conformidade com a economia da região. Nesse sentido, fez-se uma relação entre a política econômica do município e as variações da economia nacional e mundial. As fontes utilizadas para a investigação foram documentos contidos no Arquivo Histórico Municipal, especialmente documentos do executivo como o Fundo da Intendência Municipal. Além de outras fontes primárias foram utilizadas obras bibliográficas relacionadas ao tema, entre estes, os relatos de viajantes que passaram pela cidade. De tal modo, utilizou-se como referencial teórico os pressupostos da História Econômica. Partindo das referências sobre o processo de industrialização global, nacional e estadual, contrapomos e analisamos a produção historiográfica sobre as fábricas de Santa Maria. Nessa perspectiva, percebeu-se que o município apresentou relevante variedade de estabelecimentos fabris e de produção. A documentação trabalhada, é reveladora de uma economia local pautada, em grande parte pelas receitas geradas em fábricas de diferentes portes.

PALAVRAS-CHAVE: Economia. Produção. Fábrica. Santa Maria.

ABSTRAT

In this graduation final work will be analyzed the situation of the industry sector from the municipality of Santa Maria at the end of the XIX century and the beginning of XX century, in accordance with the region's economy. In this sense, will be done a relation among the economic politic from the municipality and the variations from the nation's and world's economy. The sources used for the investigation were documents from the Municipal Historical Archive, specially documents from the executive like the Municipal Management Fund. Besides the primary sources, been used bibliographic works related to the theme. Insomuch, have been used as a theoretical reference assumptions from the Economic History and Regional History. Beginning from the references about the process of industrialization from the world, the nation and the state, we counterpose and analyze the historiographic production about Santa Maria's industries. In this perspective, realized that the municipality has shown relevant diversity of industry establishments while the vehemence of the trade, at the end of the XIX century and beginning of XX century. Seen that through the analyzed documentation and through the consulted works we can identify this affirmative.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO... 6

I PANORAMA FABRIL NO FINAL DO SÉCULO XIX E INICIO DO XX NA REGIÃO DE SANTA MARIA... 7

II A ESPERANÇA DE UM PARQUE INDUSTRIAL PRÓSPORO... 13

III PARQUE FABRIL SANTA-MARIENSE NO SÉC. XIX E XX... 20

CONSIDERAÇÕES FINAIS... 23

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 24

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 24

REFERÊNCIAS DOCUMENTAIS... 25

ANEXOS... 26

Anexo I - Documento 1. Livro de Atos da Intendência Municipal... 27

Anexo II - Documento 2. Livro de Atos da Intendência Municipal... 28

Anexo III - Documento 3. Correspondência da Intendência Municipal... 29

Anexo IV - Documento 4. Correspondência da Intendência Municipal... 30

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INTRODUÇÃO

Santa Maria é uma das maiores cidades do Estado, no entanto em sua história não houve a predominância do setor fabril, sendo que a indústria foi, e ainda é, o ramo mais fraco da economia do município. Apesar da posição geográfica privilegiada e de haver o desenvolvimento da ferrovia a partir de 1885, a cidade não conseguiu desenvolver um parque industrial de valor considerável no Estado (BEBER, 1998), adquirindo assim uma imagem de cidade sem vocação industrial.

Nesse sentido, a presente pesquisa visou investigar como era a produção local no final do século XIX e início do século XX. A cidade passava por diversas transformações nos setores político, econômico e social. O período delimitado também foi escolhido em função das fontes que se mostraram escassas para trabalhar um período anterior.

O trabalho de investigação além de compreender a importância das fábricas na cidade, buscou identificar na medida do possível quem eram os fabricantes, quais eram os produtos fabricados e o porte destas empresas. As fontes com as quais trabalhamos, porém, não possibilitaram explorar estes aspectos para a totalidade dos estabelecimentos. Contudo pode-se perceber o início do processo fabril como elemento considerável no município de Santa Maria, entre o final do séc. XIX e início do XX, em relação ao contexto econômico nacional e estadual do mesmo período.

Em se tratando das fontes primárias cabe, porém, esclarecer que estas nos foram de grande valia. Por intermédio do Arquivo Municipal de Santa Maria utilizou-se documentações

como requerimentos para abertura e fechamento de empresas, reclamações em relação à cobrança de altos impostos e a receita de arrecadação do mesmo. A partir destes documentos pode-se visualizar a situação econômica do município por meio dos valores encontrados nestes. Igualmente foram pesquisados documentos no acervo da Casa de Memória Edmundo Cardoso onde examinou-se os anúncios de Almanaques Comemorativos aos aniversários da

cidade.

Neste contexto, a presente pesquisa dividiu-se em três capítulos, seguidos pelas considerações finais. O texto encontra-se organizado da seguinte forma: o primeiro capítulo o panorama industrial no final do século XIX e início do XX na região de Santa Maria busca

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caminham juntas, interligadas fazendo parte do sistema, ou seja, não podemos estudar as estruturas políticas, econômicas ou sociais sozinhas. Estas fazem parte de um sistema único, um conjunto onde o estudo relacionado nos permite um leque mais amplo à investigação.

Em a esperança de um parque fabril próspero, no segundo capítulo, buscamos

demonstrar a aspirações e expectativas do incipiente ramo de produção fabril na região de Santa Maria. Levando em consideração os relatos de viajantes que estiveram no local durante o período proposto na temática. Também, pesquisou-se nas obras e documentações relevantes ao cenário municipal, em que são apontadas características peculiares do município.

No último capítulo, Parque fabril santamariense no final do século XIX e início do XX, destacamos as fábricas que existiam na região durante o período estudado, com base na

bibliografia referente a cidade de Santa Maria e nas fontes primárias que tivemos acesso, A partir destes pretendeu-se discutir a importância ou irrelevância, as contribuições ou ineficiências da economia fabril para o desenvolvimento regional.

I- PANORAMA FABRIL NO FINAL DO SÉCULO XIX E INICIO DO XX NA REGIÃO DE SANTA MARIA

O foco deste estudo é a produção de manufaturados1 na cidade de Santa Maria, do final do século XIX as primeiras décadas do século XX. Atualmente, há praticamente um consenso em relação à economia da região, considerando Santa Maria como uma cidade de experiência fabril limitada, inclinada à vocação comercial indicando pouca autonomia do setor produtivo na cidade. A partir disso, é importante compreendermos o processo histórico local.

Para compreendermos o contexto econômico2 da cidade neste período é necessário, portanto, pesquisar primeiramente o cenário nacional e regional, o que será feito de maneira sucinta. Como segundo propósito, estudar a política e economia adotada pelo município, as quais, segundos os indícios, demonstram menor importância aos estabelecimentos de produção fabril.

1 A manufatura e a fábrica distinguem-se da empresa artesanal pelo número de trabalhadores que empregam. Nas

duas primeiras, o número de trabalhadores é tal que o proprietário não se ocupa mais diretamente da produção e que a sua subsistência assim como a expansão da empresa não dependem mais diretamente do seu trabalho. Elas

são todas as duas empresas capitalistas (SILVA. S.,1995, p.76).

2 Basicamente as atividades econômicas giram em torno da distribuição e do consumo, as quais dividem-se por

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Referente ao contexto nacional, Silva F. (1992) afirma que:

No final do século XIX a economia e a sociedade no Brasil passaram por um processo de profundas transformações, notadamente a partir de 1870. Os meios de transporte evoluíram com as ferrovias e a navegação a vapor. A população brasileira cresceu extraordinariamente de pouco mais de 3 milhões de pessoas no ano da Independência para 14 milhões na década 1880, foi a época da crise do sistema escravista, do incremento da imigração como solução para mão de obra, da substituição do escravo pelo trabalhador livre e assalariado. O capitalismo industrial se esboçava finalmente no Brasil, a diversificação da economia criava a perspectiva de aplicação de capitais em setores como a indústria, já que a agricultura deixava de ser o único pólo de atração de investimentos (p.176).

Nesse contexto, percebe-se que surgiu a necessidade de um novo modelo de organização da sociedade, a qual inseriu em seu cotidiano os elementos industriais do cenário capitalista. Desenvolveram-se modos de vidas voltados à cidade em que as atividades de trabalho e lazer inclinavam-se crescentemente ao novo fluxo econômico, ou seja, o setor industrial. Assim um novo cenário demográfico surgiu no Brasil com a imigração e a inserção dos trabalhadores, o país rumava para as necessidades do consumo de bens materiais, cada vez mais industrializados.

Em se tratando do contexto regional, Boeira (2007) expressa que surgiu no Rio Grande do Sul:

Em pouco mais de meio século, uma economia e uma sociedade regionais predominantemente rurais, transformam-se aceleradamente conferindo primazia ao meio urbano na ocupação e na geração do produto. A indústria gaúcha surgiu substituindo importações e também a produção artesanal preexistente, voltando-se ao mercado rural e urbano; nasceu em larga medida vinculada ao setor primário, fosse pela oferta de matérias-primas para as agroindústrias, fosse como determinante do mercado, pois a agropecuária respondia por mais de um terço da formação do produto (renda). Em 1920 a indústria3 era diversificada por uma ampla gama de bens

leves de consumo e bens intermediários; possuía basicamente um alcance de mercado regional; encontrava-se constituída predominantemente por capitais locais, embora entre as primeiras unidades fabris se registre a presença de grandes estabelecimentos com capital forâneo (nos setores têxtil, de frigoríficos e de fumo, nos quais os produtos de muitas fábricas tinham alcance de mercado nacional) (p.237).

Percebe-se que a economia do Rio Grande do Sul estava em conformidade com o contexto nacional, à medida que desenvolveu o seu aparato industrial, tanto no setor urbano

3 Uma indústria compreende várias organizações produtivas, tais como estabelecimentos ou firmas industriais,

agrupadas segundo certos critérios para fins analíticos ou de planejamento. [...] As características do produto ou produtos oferecidos pelas organizações produtoras constituem o critério tradicional para o agrupamento de indústrias. Assim, segundo A. Marshall, se um determinado número de firmas fornecia produtos que, aos olhos dos compradores potenciais, fossem sucedâneos perfeitos ou aproximados uns dos outros, todas essas unidades

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quanto no rural. Este último foi o vetor da economia gaúcha em que integrou elementos do sistema capitalista a sua estrutura socioeconômica. Assim o consumo de bens materiais estava presente também no campo, por intermédio do mercado. Igualmente, se desenvolveu relações entre o campo e a cidade, por meio do abastecimento de matérias primas. De tal modo, a economia rio-grandense desenvolveu em sua estrutura um caráter expressivo, posto que a maioria dos produtos consumidos no estado era oriunda de sua produção.

Nessa conjuntura, o Estado evidenciou sua produção industrial no cenário econômico brasileiro. Sua posição geográfica proporcionou a entrada de capitais estrangeiros pelo porto de Rio Grande e Pelotas. A distribuição dos estabelecimentos industriais foi organizada de maneira que facilitou a movimentação do mercado, proporcionando a tendência crescente do trabalho. Assim, afirma Flores (2003):

Essa relativa diversidade de origem do capital e destino principal da produção correspondia à distribuição espacial da indústria em dois pólos industriais; um constituído junto ao porto principal (Rio Grande e Pelotas) e outro espalhado a partir de Porto Alegre e outras aglomerações urbanas na zona colonial. A indústria de transformação no Rio Grande do Sul respondia por 9,3% da ocupação da indústria de transformação no país, com mais de 29,2 mil trabalhadores, representando o terceiro parque industrial regional, após São Paulo e o antigo Distrito Federal. A indústria no Rio Grande do Sul constituiu-se ao final do século XIX e expandiu-se desde então, sobretudo no início do século XX, com base num mercado de trabalho restrito e operando em condições próximas ao pleno emprego da força de trabalho de que podia dispor (p.127).

Em se tratando do âmbito municipal, a maior parte das pesquisas existentes sobre o contexto econômico e manufatureiro em Santa Maria é de autoria de memorialistas locais, os quais se embasaram em alguma documentação. Também utilizaram de fontes orais a partir dos relatos de viajantes que por aqui passaram, desde o início do século XIX. Neste sentido, João Belém afirma que Santa Maria iniciou a década de 1830 com cerca de 3000 habitantes, sendo que a metade destes residia no núcleo urbano. Segundo os estudos do autor, em 1834 o viajante francês Arsene Isabèlle passou pela região e descreveu a sede do curato como “muito agradável e arredores encantadores”, apesar da simplicidade da arquitetura. Nessa conjuntura, “observa-se muita atividade dessa população no centro da província; Santa Maria é o mercado comercial dos lugarejos e arredores, compreendidos entre Cachoeira e Caçapava, Alegrete e São Borja.” (ISABELLE. apud. WEBER, 2010, p.232).

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contrário. O fato da cidade atrair viajantes e comerciantes já revela o impulso comercial que naturalmente decorre deste trânsito de pessoas (MARCHIORI, 1997). De tal modo, compreende-se que o município desenvolveu uma vocação para as atividades comerciais ainda no século XIX.

O artesanato foi à primeira forma de produção industrial que surgiu no fim da idade média com o renascimento comercial e urbano. Definia-se pela produção independente e o produtor possuía os meios de produção, ou seja, as instalações, ferramentas e matéria-prima. Em casa, sozinho ou com a família, o artesão realizava todas as etapas da produção (HOBSBAWM, 2001). O aumento da demanda por determinados produtos fez com que a produção passasse a ocorrer em maior escala. Com o uso das mãos ou de máquinas, a produção manufatureira visava passou a atender, sobretudo os centros urbanos de maior densidade populacional, mas também mais tarde atingindo o meio rural. É este processo que pretende-se analisar no contexto santamariense. Para isto, é fundamental entendermos o contexto brasileiro e latino-americano do período em estudo.

Sobre a situação latino-americana, Cardoso (1984) aponta:

No México, Brasil, Argentina e Chile o processo de industrialização, é paralelo à expansão exportadora e se afirma entre finais do século XIX e a Primeira guerra Mundial. O mesmo pode afirmar-se nos casos da Colômbia e do Uruguai, com a ressalva que o processo só atinge o seu auge, algo mais tarde nas décadas de 1910 e 1920; porém ele também corresponde a um surto de exportações mais tardio. No restante da América Latina, a industrialização é muito mais recente. (p. 310.)

Em se tratando do âmbito municipal a maioria dos estabelecimentos seguia um modelo rudimentar de produção manufatureira no final do século XIX, apesar de já existir um movimento operário na cidade em decorrência da Viação Férrea. Sabe-se que Santa Maria, centro cosmopolita do interior do Rio Grande do Sul, teve seu desenvolvimento ligado à chegada dos trilhos que foram construídos em 13 de Outubro de 1885. Logo, no início do século XX o município comandou o tráfego de trens no Rio Grande do Sul, tanto por sua posição geográfica central e ponto de cruzamento de todas as linhas férreas, quanto por sediar a diretoria da Compagnie Auxiliaire de Chemins Fer au Brésil, arrendatária da rede

riograndense. Com a ferrovia, o município ganhou um grupo social representativo e importante, ou seja, os trabalhadores ferroviários. Segundo Ribeiro (apud PADOIN, 2010):

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Grande do Sul, aos grandes centros comerciais. Santa Maria, por sua situação geográfica, acolhendo vultos significativos, homens de negócio, estudantes com suas famílias que aqui chegavam constantemente, à procura do saber e do aprimoramento pessoal. Esta também foi sua tarefa social: permitiu a ligação de núcleos urbanos de povoamento, separados e diversos pelas distâncias, contribuindo para a integração de diversos municípios do Rio Grande do Sul num passar constantes de homem e de coisas (p.232).

Nesse sentido, identifica-se uma construção quase mítica em torno do que representou a Maria Fumaça para as aspirações e expectativas do desenvolvimento municipal. Assim, as estradas de ferro representavam uma proposta de modernidade, diretamente relacionada a idéia de progresso.

Compreende-se que as estradas de ferro contribuíram para o desenvolvimento do mercado interno e externo do município, estimularam a urbanização e isto se refletiu no setor produtivo de alguma forma. Segundo Flôres (2008) o período que vai da fundação da Viação Férrea até meados dos anos 50 do século XX, é marcado por um grande surto de desenvolvimento social, econômico, cultural e populacional.

A documentação encontrada no Arquivo Municipal de Santa Maria demonstra, no

entanto, a existência de um setor produtivo ao lado de um setor comercial. Até meados do século XX, o processo de produção local em evidência restringia-se às atividades ligadas à pecuária como o processo do couro e da fabricação de artigos do vestuário, de montaria, de transporte, de móveis de madeira, de utensílios domésticos e de tijolos e de telhas. O economista Cirilo Costa Beber chega a citar duas grandes charqueadas como estabelecimentos de grande expressão neste período. Segundo afirma o autor “[...] nas primeiras décadas do século XX as duas mais destacadas indústrias do município foram as charqueadas Santo Antão, localizada na Caturrita e Santa Maria, instalada no distrito de Boca do Monte” (BEBER,1998, p.250). O autor afirma, ainda, que antes do séc. XX já havia um aparato fabril bastante variado em vigor:

Já em 1859, um ano após a decretação da autonomia municipal, em relatório de 5 de abril, o presidente da Província Joaquim Antão Fernandez Leão, menciona a existência, no município de Santa Maria, das seguintes “indústrias”: 14 curtumes, 57 atafonas, 14 olarias, 10 marcenarias, 8 ferrarias, 6 ourivesarias, 18 alfaiatarias, 10 sapatarias, 8 lombilharias e 4 carpintarias. No fim do século XIX, com a chegada dos imigrantes italianos, houve o surgimento de novas fábricas na região, entre elas a de vinho, cachaça, cerveja, fumo e farinhas. Em fins de 1913, segundo relato do historiador Romeu Beltrão, existiam no município de Santa Maria, além de outras as seguintes industrias; 15 fábricas de bebidas, 3 de fumo, 13 fábricas de calçados e 4 de chapéus (BEBER, 1998, p.236).

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município. No entanto sabe-se que a indústria envolve uma organização complexa e volumosa em sua divisão do trabalho, ou seja, envolve “várias organizações produtivas” (SILVA. B., 1986, p. 593). Já as fábricas são estabelecimentos de menor porte, ou seja, “é a unidade de produção tipicamente capitalista” (SILVA. S., 1995, p. 76). Assim, compreende-se a partir da citação de Beber (1998) que em Santa Maria havia uma crescente iniciativa para o desenvolvimento da indústria, contudo neste período pode-se dizer que existiam fábricas e não indústrias.

De acordo com Belém (2000) a arrecadação da cidade de Santa Maria ao final do século XIX era a seguinte:

Quadro I

Receita de 1889:

Imposto de exportação 4:161$270 Comércio fixo de mascates 4:545$200 Imposto predial 1:092$800 Açougue e gado abatido 1:017$700 Renda do Cemitério 1:073$330 Pedágios de rios e estradas 945$000 Oficinas, fábricas e atafonas 1:222$000 Veículos 116$000 Joalheiros e retratistas 125$000 Foros de terrenos 507$260 Profissões liberais 180$000 Espetáculos e jogos 352$000 Marcas de animais 58$500 Multas e licenças 85$780 Terras e colônias maiores de 200.000m 188$000

Fonte: BELEM, 2000, p.166

Verificando o quadro acima, em que o autor citado demonstra a receita gerada com a arrecadação de impostos no ano de 1889. Identifica-se que o número de fábricas era expressivo em relação a todos os outros setores, verificando os valores arrecadados das fábricas, oficinas e atafonas e comparando com as demais modalidades este setor só arrecada menos que o comércio de mascates.

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indústrias. Segundo Flôres (2008) em primeiro de junho de 1913 foi fundada a primeira coligação de operários, com o nome de União Operária Santamariense. Na residência de José

Casagrande, localizada na rua Tuiuti entre a rua do Acampamento e rua Floriano Peixoto. Em 1922, com dados de 1920, a obra Rio Grande do Sul, relaciona a existência das

seguintes fábricas no município de Santa Maria: 29 fábricas de farinha de mandioca, 11 fábricas de aguardente, 28 olarias, 4 curtumes, 19 fábricas de fumo, 7 serrarias, 4 engenhos de arroz, 1 fábrica de charutos, 2 fábricas de cigarros, 31 moinhos de milho e trigo, 6 selarias, 15 fábricas de móveis de madeira e vime, 4 fábricas de vassouras e caramelos, 4 fábricas de cerveja, 3 fábricas de sabão, velas e perfumarias, 200 fábricas de vinho (Beber, 1998).

Percebe-se, a partir do exposto, uma variedade de artigos sendo produzidos nestes estabelecimentos. Dentre estes, a maior parte eram produtos de matérias-primas encontradas na região. Igualmente um número relevante de fábricas existentes no município, durante o início do séc. XX.

Identifica-se que o contexto econômico do nacional deste mesmo período rumava ao desenvolvimento industrial, conforme a assertiva de Prado Junior (1982) a economia das primeiras décadas do séc. XX:

Chegava a este ponto de desenvolvimento, a indústria passara já a ocupar um lugar de grande relevo na economia do país. Uma boa parcela dos artigos manufaturados do seu consumo era de produção interna, dispensando assim importações correspondentes de artigos estrangeiros (p.170).

Nessa perspectiva, a partir da relação entre a afirmativa de Beber (1998) e a de Prado Junior (1982) considera-se que a economia fabril de Santa Maria esteve em conformidade com o cenário nacional, bem como havia uma participação relevante das fábricas no montante da arrecadação municipal.

II- A ESPERANÇA DE UM PARQUE INDUSTRIAL PRÓSPERO

O povoamento colonial e a organização econômica social e política do Rio Grande do Sul, segundo os moldes do projeto português, foram iniciados quando a sociedade colonial brasileira já contava dois séculos.

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crescente prosperidade dos núcleos coloniais deste município vale por sólida garantia de sua admirável marcha evolutiva, marcando-lhe, no Estado, um lugar de destaque”.

Nesse sentido, Santa Maria enaltecia-se não apenas aos olhos dos santamarienses

como também dos habitantes de outras cidades estado. Desse modo, o município passou a ser lugar de parada, “como um ponto de negócios, de investimentos, de oportunidades de trabalho, de prestação de serviço e de formação humana” (FLÔRES, 2008, p.168). Fatos estes que evidenciaram a cidade como uma região produtiva.

Em relação ao Rio Grande do Sul, compreende-se que este desempenhou um papel importante no país, especialmente a partir do século XIX. Visto que sua produção não se distanciava significativamente das regiões metropolitanas do Brasil. Nas palavras de Pesavento (2002):

Com relação ao processo de industrialização, o Rio Grande do Sul apresentava determinadas condições estruturais que lhe permitiam uma arrancada inicial não muito diversa da que ocorria em São Paulo. A atividade dos comerciantes de origem imigrante permitia uma razoável acumulação de capital; formara-se um mercado regional para manufaturados na zona colonial e nos centros urbanos; a agropecuária fornecia matéria-prima e a mão-de-obra imigrante que deixava a lavoura colonial em demanda das cidades era da melhor qualidade (p.75).

Compreende-se que o processo industrial rio-grandense relacionou-se diretamente com o comércio dos imigrantes que acumularam capitais. Por intermédio dos produtos manufaturados que eram produzidos pelas fábricas locais, desenvolveu-se um mercado regional expressivo. A imigração colonial amparou a industrialização4 tanto pelo campo quanto pela cidade, tendo em vista que o primeiro fornecia matéria-prima e o segundo proporcionava a mão-de-obra para operar nas produções frente ao êxodo rural.

Nesta perspectiva, trataremos da expectativa que chegou a existir na cidade em relação ao desenvolvimento industrial. A partir dos indícios que nos comprovam a presença dos pequenos estabelecimentos que nela funcionavam, bem como dos relatos dos viajantes que passaram pelo município na primeira década do séc. XX.

Percebe-se Santa Maria no início do século XX como uma cidade situada no centro geográfico do Estado, possuindo uma posição topográfica privilegiada, apresentando linhas ferroviárias que ligavam o norte ao sul do Estado. Neste sentido, é possível afirmar que já havia neste momento alguns requisitos importantes que previam um desenvolvimento em

4 O termo industrialização expressa em sentido geral, sem referencia a qualquer revolução industrial específica, o

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termos de produção. Segundo os jornalistas italianos, Vittorio Buccelli e Alfredo Cusano que dedicaram ao Rio Grande do Sul suas obras em, Um viaggio a Rio Grande del Sud publicada

em Milão (1906) e Il Paese dell Avvenire – Rio Grande del Sud publicado em Roma (1920),

previa-se para o município um grande desenvolvimento industrial e comercial (MARCHIORI, 2008).

Sabe-se que os italianos estiveram em Santa Maria no ano 1905, e a partir das observações sobre o cenário municipal identificaram um sentido crescente ao desenvolvimento industrial da cidade. Segundo Buccelli (1920):

O progresso extraordinário de Santa Maria, de 1893 até 1905, demonstra-se pelo aumento constante das rendas municipais, que de 11 contos foi elevada a 130, pelo número de estabelecimentos que eram 496 e que hoje são triplicados e pelo aspecto de muitas pessoas nas ruas, sempre apressadas e satisfeitas com o próprio trabalho. De fato as indústrias agrícolas prosperam tanto nas colônias quanto nos campos; de um lado indústrias velhas e novas, como a de aguardente e de vinho, de outro a criação de gado em expansão e em melhoramento contínuo, através do cruzamento oportuno de raças inglesas e holandesas, com grupos de raças nativas. (BUCELLI apud MARCHIORI, 2008, p.167.)

Igualmente o italiano Alfredo Cusano, quando em passagem pela cidade, desenvolveu uma pesquisa que consegue demonstrar a relevância do setor fabril em Santa Maria no ano de 1912. O viajante afirma que:

A indústria manufatureira neste município é muito desenvolvida. Existem 243 pequenas fábricas na cidade e nos centros rurais, onde a maioria são cantinas. Na cidade, é muito importante a fábrica de perfumaria e sabonetes do nosso conacional Giuseppe Pelegrine, que fornece para todo o estado seus excelentes produtos procuradíssimos. Também é importante a fábrica de móveis dos outros conacionais Irmãos Mussoi. È também notável a fábrica (CUSANO apud

MARCHIORI, 2008, p.84) .

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Nessa perspectiva, percebe-se logo no início do séc. XX a presença expressiva de indústrias manufatureiras no município.

Paralelamente, a partir da documentação pesquisada, nota-se expectativas e incentivos sociais ao desenvolvimento industrial no município. Na análise da Revista do Centenário, a

qual foi criada para comemorar os cem anos de história de Santa Maria, percebe-se que a presença das fábricas não passou despercebida. De tal modo, pode-se entender que a publicação da reportagem fabril em uma obra de renome é um o incentivo social para com o desenvolvimento industrial do município. Segue abaixo, parte da reportagem em que nos apresenta a imagem de uma das fábricas de renome de Santa Maria:

Foto: Fábrica de Guiseppe Pellegrini em foto de V. Schleiniger (Revista do Centenário de Santa Maria, 1914 apud

MARCHIORI, 2008, p.189).

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identificou-se na Receita de Arrecadação de 1911 da Lei Orgânica do município esta

assertiva:

O Artigo 21 número 18, da Lei Orgânica, faz saber que o conselho decretou e eu promulgo a lei seguinte: A documentação referente ao orçamento municipal no ano de 1911 dá conta de uma previsão de receita proveniente de impostos de fábricas, conforme o quadro abaixo: acto número 284. Promulga a Lei Orçamentária para Receita de 1991. O Coronel Ramiro De Oliveira, intendente municipal de Santa Maria da Boca do Monte, no uso de suas atribuições que lhe confere o Artigo 21 número 18, da Lei Orgânica, faz saber que o conselho decretou e eu promulgo a lei seguinte: A documentação referente ao orçamento municipal no ano de 1911 dá conta de uma previsão de receita proveniente de impostos de fábricas, conforme o quadro abaixo:

Lei número 27 de 15 de dezembro de 1910.

Orça a Receita e fixa a despesa para o exercício de 1911.

Artigo 1º Fica orçada a receita municipal para o exercício de 1911, em 205:930$000 pelo modo seguinte:

Dívida ativa 6:000.000 Officinas ,fábricas, atafonas e etc 12:000.000 Negócios,mascates e etc 16:000.000 Hotéis, jogos 2:500.000 Escritório, consultórios e cartórios 1:500.000 Casas de jóias, farmácias 1:100.000 Veículos 15:000.000 total 54:100.000

(Fundo de Intendência Municipal. Arquivo Histórico de Santa Maria).

Fazendo uma análise dos valores encontrados para o orçamento de 1911, podemos concluir que a arrecadação proveniente do imposto relativo às fábricas e oficinas existentes no município de Santa Maria é de valor expressivo no montante do orçamento. Além dos dados numéricos, podemos perceber a existência de várias modalidades de fábricas e oficinas, que informavam a relação dos valores cobrados pelo funcionamento dos estabelecimentos neste município

As arrecadações do município entre 1909 e 1913, contida no Almanaque do Centenário de Santa Maria, informam o crescimento da receita, o que pode sinalizar para um

igualmente crescimento da produção na cidade. Evidentemente os dados contidos nesta publicação não precisam a participação do comércio e das fábricas, o que limita nossa possibilidade de conclusão. Contudo nos proporcionam a percepção de entender que a iniciativa fabril existiu em Santa Maria em presença significativa na economia municipal. Os dados apresentados são os seguintes:

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1911 74.346$264 1912 90.175$320 1913 126.760$170

Fonte: Rio Grande e Suas Riquezas

Segundo Pimentel (1944) a arrecadação desta coletoria no ano de 1913 foi de 126.760$170, a diferença para o ano anterior foi de 36.584$850 e em comparação a deste exercício com a de 1903 a diferença foi 99.710$346. Assim, podemos notar o desenvolvimento ocorrido no município na primeira década do século XX.

Em um trecho encontrado no almanaque comemorativo ao centenário de Santa Maria, o coletor de Rendas Federais o Senhor Tancredo Moraes diz:

A arrecadação do selo de consumo foi superior a arrecadação dos primeiros cinco anos, notando se neste ramo da arrecadação federal o movimento dos estabelecimentos fabris, entre os quais figuram em primeiro lugar as fábricas de bebidas com o movimento 34.205$940. Ainda mais se justifica o que venho de afirmar, porque não tem havido alteração na taxa de impostos, se não o aumento que se nota nas épocas apontadas pelo movimento comercial e industrial, além do quem sido sempre mantida a par de rigorosa fiscalização exercida pelos dignos e inteligentes agentes fiscais cidadãos João Monteiro do Vale Machado, até novembro de 1911 e daí para cá o atual Major que merecidamente eu louvo pelo zelo e exemplo no cumprimento do seu dever, harmonizando o interesses do fisco com os interesses particulares. E ainda é agradável que a bases certas para o aumento das rendas pelo desenvolvimento da classe comercial e industrial, que se iniciam, poderosos agentes do progresso da cidade de Santa Maria, quiçá destinada a grande centro (Almanaque do Centenário de Santa Maria, 1914. Casa de memória - Edmundo Cardoso).

Percebe-se que as fábricas na região de Santa Maria no início do século XX vinham aumentando consideravelmente seus empreendimentos. Por meio da documentação analisada no Arquivo Histórico Municipal, na Série de Correspondências da Intendência Municipal,

pode-se encontrar evidências que demonstram os interesses e perspectivas do desenvolvimento fabril no município. E assim, compreender a veemência das fábricas na economia municipal, conforme veremos nos próximos documentos que seguem abaixo.

Nesse sentido, por intermédio dos documentos encontrados no Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria compreendemos que a política pública não amparava, ao menos

economicamente, o desenvolvimento fabril do município. À medida que encontramos solicitações por parte dos proprietários de estabelecimentos fabris para que os impostos fossem diminuídos, conforme segue:

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intendência uma olaria com máquina a vapor mas está olaria é a força animal, venha a pedir a inzenção [sic] do referido imposto da máquina a vapor sendo lotada com a fabricação de telhas no exercício de 1909, peço a relevança [sic] no imposto porque só fabriquei telhas que prestou no princípio do corrente ano de 1910. Santa Maria 07 de abril de 1910. (Série de Correspondências da Intendência Municipal. Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria.).

Se por um lado podemos notar que existia uma expectativa, principalmente por parte do poder público, das olarias substituirem seus equipamentos de tração animal por máquinas a vapor ou talvez outro tipo de energia, vê-se que havia ainda uma dificuldade de modernizar o equipamento e o processo produtivo por parte dos proprietários.

A energia elétrica já se fazia presente no município desde 1897, ainda que em condições precárias e não sendo disponíveis em todos os lugares da cidade.

Neste mesmo período, a intendência recebia correspondências de pessoas que possuíam interesses na instalação de fábricas no município e apostavam no futuro industrial da cidade. Conforme segue abaixo:

Ao Senhor Prefeito

Encarregados de um grupo financeiros procura uma localidade apta para implantar uma nova indústria e nos tomamos à liberdade, de vos mandar o presente em vos pedindo a ter a cortesia de nos comunicar o quanto segue: nos arrebaldes de vossa cidade existem força hidráulica, se já estão esgotadas ou ainda livres, se já tem usinas elétricas, iluminação elétrica e precisando para a indústria que os amigos querem implantar, uma bastante quantidade de trabalhadores, nos vos seremos muito obrigado, se vos tivesse a cortesia, de nos indicar , em nos dando o normativo e a qualidade das indústrias das outras fábricas que existem na vossa cidade, se já existem alguma (Série de Correspondências da Intendência Municipal. Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria).

Segundo a correspondência acima destinada a Intendência de Santa Maria, enviada

pelo Sr Ditta Teodoro Koelliker, em 06 de julho de 1912. Podemos perceber que o município chamava a atenção de empreendedores, desta vez de homens de negócios, que no início do século também viam a região como um lugar de futuro para a indústria regional.

Analisando mais uma documentação encontrada no Arquivo Histórico de Santa Maria

encontramos uma correspondência de teor negativo ao desenvolvimento industrial, que relata o encerramento de uma fábrica. Conforme expressa a correspondência ao “Coronel Intendente. Levo a seu conhecimento que nesta data fechei a minha fábrica de fumos e pesso (sic) o obséquio de mandar dar baixa. Santa Maria 16 de março 1910 (Documento 5. Série de Correspondências da Intendência Municipal. Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria).

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fechamento da fábrica o que nos impede de estabelecer uma afirmação precisa. Contudo, a partir do montante da documentação analisada, em especial ao que se refere o documento anteriormente citado, pressupõe-se que os maiores impedimentos estavam relacionados com a política pública municipal. Neste sentido, a arrecadação aumentava sem que a taxa de imposto fosse reajustada. De tal modo, essa prática de não incentivo à indústria local vai ser um dos maiores motivos para o atraso industrial do município, bem como ao fracasso de várias empresas que funcionavam na cidade de Santa Maria durante este período

III PARQUE INDUSTRIAL SANTAMARIENSE NO SÉCULO XIX E XX

Além dos indícios fabris encontrados nas documentações mencionadas no capítulo anterior, encontrou-se outras evidências de fábricas e oficinas que iriam contribuir para o crescimento do parque industrial de Santa Maria. Estas estão presentes nos documentos relativos à arrecadação de impostos feita pela administração do município, no início do século XX. As conjunturas expostas neste capítulo estão embasadas nas variedades de modalidades de oficinas e fábricas que já existiam nesta época, bem com ao seu expressivo valor na economia e sociedade do município.

Compreendendo os pressupostos dos autores que escreveram e escrevem sobre o assunto, é praticamente impossível encontrar uma relação nominal completa das fábricas que estavam em atividade no século XIX e o início do século XX. Entretanto o relevante neste momento é identificar a existência das fábricas e sua representação socioeconômica para a região.

Nesse sentido, Beber (1998) destaca alguns destes estabelecimentos, em sua obra sobre a economia de Santa Maria, Conforme o autor, existiu a Ferraria Luís Vallandro

fundada em 1895 no Beco dos Vallandro, atualmente rua Serafim Vallandro, esquina com a rua Presidente Vargas. A ferraria tinha por objetivo a fabricação de carruagens, carroças, janelas e portas de ferro. Em 1910 a empresa transformou- se em sociedade visando aumentar sua produtividade, importou da Alemanha maquinaria completa para marcenaria, carpintaria e para o beneficiamento de madeira. Logo, em 1915 a fábrica foi destruída por um violento incêndio. Paralelamente, identifica-se que outra fábrica de renome da cidade foi a Cyrilla de Bebidas, fundada em 20 de setembro de 1910, pelo químico alemão Ernesto Geys e Frederico

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Também, contou-se com a presença significativa da fábrica Weissheimer, Irmão & Cia Ltda, a qual produzia biscoitos, balas e caramelos da marca Atlantic, bem como desenvolvia a

torrefação e moagem de café da marca saboroso. Sabe-se que a fábrica foi criada no início do

século XX, e logo na metade deste mesmo século, basicamente em 1950 a empresa foi transformada em sociedade anônima. Porém um violento incêndio destruiu as instalações da moderna fábrica, levando a mesma a falência. Voltando ao início do século XX, fundou-se em 1913 por Rodolfo Bidone a Olaria Bidone, que produzia a quantidade mensal de 400 mil

tijolos e 600 mil telhas francesas e portuguesas. Hoje o que sobrou desta fábrica é apenas a chaminé, que pode ser vista no final da rua Venâncio Aires. Ainda identificou-se a existência da fábrica Ernesto Ellwanger & Cia, empresa fundada no início do século XX, a qual durante

décadas foi a principal produtora de móveis em Santa Maria, sua sede estava localizada na avenida Rio Branco. Por fim, percebeu-se a presença de uma fábrica não identificada. Para esta foi mencionado apenas o nome do empresário Guilherme Sauer, ao qual foi citado como

fundador de uma das muitas fábricas de calçados que existiram em Santa Maria nas primeiras décadas do século XX, sua fábrica foi extinta nos anos 70 (BEBER, 1998).

As fábricas relacionadas acima são apenas as de maior porte e que possuíam um número expressivo de operários e maiores instalações. Visto que além destas o município possuía outras de menor porte, mas com grande valor para a economia da região. Entre as quais Beber (1998) menciona as seguintes: Fábrica Farias - Indústria de Colchões, Fábrica de Tehas Santa Maria, Fábrica De Bebida Tedesco, Fábrica de Brinquedos Santa Terezinha,

Fábrica de Lastros de Camas, Indústria de Insetisidas Lax, Irmãos Pisane- Fábricas de

Marmelada, Camisaria Lena, Bauer & Schirmer-fábrica de calçados, João Carlos

Almeida-fábrica de calçados, Denardim & Irmãos- moinho, zwetsch & irmãos - cortume, Rodolfo Fleck & Filho- cortume, Rudi Fleck-fábrica de calçados, Elias Amiel- fábrica de

refrigeradores, Heitor Martins- fábrica de sabão, João Ouriques De Meneses- fábricas de

móveis.

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ela tende a concentrar-se na região do café” (SILVA. S., 1995, p.73). De tal modo, sabendo que Santa Maria é uma região interiorana do Rio Grande do Sul, a quantidade e estrutura das fábricas instalas no municio durante o período estudado simbolizou uma cidade considerável frente ao contexto industrial do Brasil.

Nesta perspectiva Beber (1998), cita as palavras de otimismo de um articulista que escreve no ano de 1914 sobre as possibilidades da cidade transformar-se em referência no estado em termos de produção industrial, conforme segue:

[...] o progresso de Santa Maria é um efeito ligado a sua inegável situação topográfica no mapa do Estado. Ela se acha a um dia de viagem, no máximo, de qualquer extremo do Rio Grande do Sul. [...] Isso garante-lhe no futuro uma vida industrial intensa” .Por fim o articulista faz a seguinte profecias: [...] Santa Maria será a cidade mais industrial do Estado em futuro não muito remoto. Será um fenômeno econômico, digamos assim, inevitável porque, na localização de qualquer fábrica ou manufatura, duas condições se impõem: proximidades dos mercados produtores de matéria-prima e facilidade de transporte rápido para os mercados consumidores dos artefatos produzidos. [...] Centro de uma rede ferroviária que corta o estado em todas as direções, será Santa Maria fatalmente e necessariamente um grande impório industrial e centro comercial de vida econômica intensa. Por isso, já vamos notando aqui o estabelecimento de grandes fábricas que exploram com acentuado êxito, diversos ramos da indústria manufatureira, fazendo deslizar a sua produção, quotidianamente aumentada, para todos os recantos do nosso vasto Rio Grande. (DUTRA apud BEBER.1998, p.237).

Além disso, o autor citado por Beber ainda prossegue dizendo: “E, daqui a cem anos (em 2014) verão nossos pósteros Santa Maria festejar o seu segundo centenário uma apoteose deslumbrante de trabalho e progresso.” (DUTRA apud BEBER.1998, 254.) De tal modo,

percebe que no início do séc. XX ocorreu em santa Maria uma fenomenologia fabril, a qual teve como vetor determinante a localização central no Rio Grande do Sul. Assim a cidade de Santa Maria foi o ponto estratégico para o fluxo do mercado de fornecedores de matéria-prima e fabricantes de artefatos, bem como facilitadora de transporte de pessoas e produtos.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na presente pesquisa sobre o processo fabril em Santa Maria, do final do séc. XIX ao início do XX, percebeu-se valiosos conhecimentos e reflexões em relação ao contexto histórico fabril do município. Nesse sentido, entende-se que o desenvolvimento das fábricas foi delineado por uma história inacabada e interrompida pelos percalços dos acidentes graves, como os incêndios ou quem sabe pela má administração das próprias fábricas que faliram. Igualmente percebeu-se certa negligência, descaso ou interesse subentendido das políticas públicas para com o incentivo do crescimento industrial em Santa Maria. Visto que a produção fabril foi subestimada pelo desenvolvimento do comércio. Sabe-se que este fato não corresponde exclusivamente ao poder político municipal, pois relaciona-se diretamente a iniciativa dos comerciantes. Porém o governo que está em exercício tem capacidades para direcionar, incentivar e desenvolver sua economia conforme os seus interesses.

Notou-se que o cenário nacional, durante o período proposto pela pesquisa, não apresentou um desenvolvimento industrial homogêneo e expressivo frente ao contexto global. Alias praticamente todos os países da América Latina não eram sumamente desenvolvidos como potencias do sistema capitalista. A partir dessa conjuntura, pode-se considerar o processo fabril de Santa Maria como relevante ao cenário nacional, lembrando que estamos analisando uma região de interior.

Em se tratando da conjuntura estadual, percebeu-se claramente que o município santamariense destacava-se no aparato industrial do Rio Grande do Sul. Embora, ainda não existisse indústrias em Santa Maria, o município participava ativamente da economia do Estado por meio da produção fabril e fluxo das mercadorias transportadas pela ferrovia. Assim, apresentava uma perspectiva crescente para se desenvolver da industrialização no município. Visto que naturalmente estava localizado em uma região estratégica do Estado. Conquanto, demonstrou ter adquirido interesses e aspirações sociais, tanto dos estrangeiros quanto dos nativos.

Com bases nas documentações analisadas e bibliografia consultada, tanto nos relatos dos viajantes e memorialistas regionais quanto na Série de Correspondências da Intendência Municipal é possível afirmar a existência de inúmeras fábricas nas primeiras décadas do

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deste aspecto da formação econômica da cidade. Contudo, as evidências demonstraram que as fábricas produziam bens de consumo dos mais diversos setores e contribuíram para a economia municipal. De tal modo, compreendemos que Santa Maria apresentava condições e expectativas para ter se mantido em constante crescimento. Porém, por motivos que não foram esclarecidos claramente nas documentações, o desenvolvimento fabril não ocorreu conforme a sua tendência inicial e as expectativas sociais.

Nessa conjuntura, muitas das variadas fábricas que existiram no município não persistiram na sua trajetória. Não houve um incentivo e amparo político relevantes não

instalaram-se novas fábricas e possíveis indústrias. De tal modo, o que ocorreu foi o declínio fabril e determinado entrave a um próspero desenvolvimento industrial de Santa Maria. Atualmente, a cidade encontra-se carente deste setor, fato que ocasiona um cenário marcado por falta de empregos e improdutividade industrial.

REFERÊNCIAS

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BEBER, Cirilo. Santa Maria 200 anos: história da economia do município. Santa Maria: Pallotti, 1998.

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REFERÊNCIAS DOCUMENTAIS

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Anexo I - Documento 1. Livro de Atos da Intendência Municipal. Receita do orçamento da Intendência de Santa Maria, para 1911.

Fonte: Arquivo Histórico Municipal.

(28)

Anexo II - Documento 2. Livro de Atos da intendência Municipal Modalidade de fábricas e oficinas

(29)

Anexo III - Documento 3. Correspondência da Intendência Municipal. Pedido de redução de impostos.

Fonte: Arquivo Histórico Municipal.

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Anexo IV - Documento 4. Correspondência da Intendência Municipal. Pedido de informação para abertura de fábrica.

Fonte: Arquivo Histórico Municipal.

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Anexo V - Documento 5. Correspondência da Intendência de Santa Maria Pedido de fechamento de fábrica.

Fonte: Arquivo Histórico Municipal.

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