FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO

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DEPOIMENTOS

FRANK SVENSSON

UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

  

FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO

DEPARTAMENTO DE PROJETO, EXPRESSấO E REPRESENTAđấO EM ARQUITETURA E URBANISMO

  

PROFESSOR FREDERICO FLÓSCULO PINHEIRO BARRETO

BRASÍLIA (1997)

  PARTE 5

DEPOIMENTOS DOS

PROFISSIONAIS

DEPOIMENTO FRANK SVENSSON - 25.02.1997.

  

A DISCIPLINA RESPEITOSAMENTE SOLICITOU E PRONTAMENTE OBTEVE O

N

IMPORTANTE DEPOIMENTO DO PROFESSOR TITULAR DESTA FAUU B, PROF.

  

FRANK ENGEN ALGOT SVENSSON, ACERCA DE SEUS CONCEITOS E PRÁTICA

PROFISSIONAIS.

CABE DIZER QUE O PROF. FRANK É UM ARQUITETO RARO, QUE ASSOCIA A

EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL À REFLEXÃO MADURA E ARTICULADA SOBRE

ÁREAS DO CONHECIMENTO PROFISSIONAL, DE UM MODO QUE TEM POUCOS

PARALELOS NA ATUALIDADE.

A DISCIPLINA HOMENAGEIA O PROFESSOR E ESPERA-SE - EM ESPECIAL -

QUE OS ESTUDANTES REFLITAM SOBRE O MODO DIRETO, SIMPLES E

CONSISTENTE COM QUE RESPONDEU A ALGUMAS PERGUNTAS DE NOSSO

INTERESSE.

  1. PERGUNTA: Porquê o jovem Frank Svensson decidiu seguir Arquitetura ? O que pesou na decisão de juventude ? RESPOSTA: Na minha família e em seu convívio não havia ninguém de formação universitária que me orientasse quanto à escolha de uma carreira de nível superior. Meus pais eram de origem operária e foram operários até que meu pai se tornou pastor evangélico. Dentro dessa visão de vida vieram para o Brasil e atuaram num contexto social extremamente pobre e distante do mundo dos “doutores”. Foi o meu primeiro emprego, numa pequena firma construtora, que me despertou para o mundo das construções, mas eu tinha um certo receio de enfrentar o aprendizado de disciplinas por mim consideradas difíceis, tais como física, química, e cálculos complexos de mecânica e resistência dos materiais. Alguém me informou que o curso de arquitetura também tinha a haver com construções mas que era bem mais “fácil”. Formava engenheiros arquitetos. Tentei o vestibular para o mesmo mas fui reprovado em desenho à mão livre. Em função disso me inscrevi num curso de desenho de uma escola particular de Belas Artes e no ano seguinte consegui ser aprovado no vestibular de arqui-tetura.

  Foi já dentro desse curso que comecei a perceber do que se tratava. Mas nem tanto. Fiz meu curso no auge do período funcionalista, com todo um código implícito de como configurar os lugares da vida. O livro do Neufert era a nossa bíblia para os exercícios de projeto. Afora isso devorei todos os livros e revistas possíveis sobre a arquitetura dita moderna. Tornei-me conhecido como rato de biblioteca. A nossa escola, a de Belo Horizonte, possuía então, entre as análise funcional aplicada a projetos, nem o referencial de projetos já elaborados por expoentes da arquitetura moderna me deu uma com-preensão mais clara do que era arquitetura. Isso veio depois, já na vida como profissional diplomado.

  Devo mencionar aqui dois fatores externos à vida propriamente escolar que enormemente influíram para a minha formação profissional:

  • A minha grande curiosidade, como filho de estrangeiros, em melhor conhecer os valores de brasilidade que a minha família não me proporcionara.
  • O fato dos principais arquitetos e defensores da arquitetura moderna serem pessoas politicamente engajadas.

  Em função disso participei intensamente de todos os eventos político-profissionais havidos no país durante meu curso de graduação e antes de terminá-lo já era membro militante do principal partido político de esquerda da época, o PCB. Passei, assim, a vivenciar ativamente um problema fundamental que se impõe ao arquiteto na sociedade de classes: como fazer arquitetura para toda a sociedade.

2. PERGUNTA: Como foi o início da carreira ? Quais as decisões desses primeiros tempos

  que se refletem até hoje, em sua vida ? RESPOSTA: Já no fim de meu curso de graduação recebi dois convites de tra-balho. Eu havia acompanhado a construção de Brasília e o inicio da implan-tação do projeto da UnB, tendo passado alguns períodos de férias escolares nessa cidade, entre 1958 e 1962. O professor Edgar Graeff e o amigo Fernan-do Burmeister insistiram para que integrasse o corpo de pós- graduandos dessa universidade. Preferi, no entanto, um outro convite para trabalhar no nordeste do país. Assim iniciei a minha carreira profissional como arquiteto funcionário da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste - SUDENE, na cidade de Recife, em 29.12.1962, só voltando para Brasília no início de 1970.

  A SUDENE foi não só a maior como a mais importante experiência de planejamento do Brasil. Constituímos, sob a direção de Celso Furtado, um cor-po interdisciplinar de 1.200 técnicos de nível superior e outro tanto de funcio-nários administrativos. Ali aprendi a importância de esclarecer a especificidade da profissão escolhida por meio do esclarecimento das diferenças.

  Até hoje sou um defensor convicto da importância da interdisciplinaridade a todos os níveis da ação humana, bem como da produção de conhecimento, mesmo se hoje o meu grito a favor muita vezes me soa como uma voz que clama no deserto.

  As mesmas forças retrógradas, nacionais e estrangeiras, que conseguiram esvaziar a SUDENE e toda a política de regionalização do Brasil continuam ativas e de muitas formas. Parafraseando Darci Ribeiro quero confessar que, como esse, a vida me trouxe muitos fracassos, mas tenho a meu favor não haver me bandeado para o lado dos vitoriosos em questão.

  Em 1964 foi instaurado o regime militar no país. Na SUDENE muito mudou. Durante um período de expectativa e marasmo uni-me a três colegas de profissão também funcionários públicos de distintos órgãos. Juntos adquiri-mos uma casa para ali, à noitinha, desenvolver diferentes projetos. Alguns respondendo solicitações do serviço público local e outros como modestas incursões no mundo da profissão liberal.

  Quero aqui citar dois nomes que à partir desse contexto ainda marcam enormente a minha maneira de ver a arquitetura: Marcos Domingues e Evaldo Coutinho. Com eles aprendi o que a universidade não me dera em termos de conhecimento de arquitetura.

  O primeiro me fez reconhecer a importância de descobrir o típico do contexto cultural em que se atua. Marcos Domingues é muito “culpado” de eu haver assumido uma atitude

  

Belabartokiana para com a arquitetura em Pernam-buco; de procurar documentar a arquitetura

vernacular local a distintos níveis para depois reinterpretá-la modestamente em meus projetos.

  Marcos me fez conhecer Evaldo Coutinho, um gigante do pensamento, injustamente esquecido e desconhecido da grande maioria. Evaldo Coutinho é a maior expressão do pensamento existencialista no Brasil. Descobri que a minha confiança no corpo teórico oriundo de Karl Marx no essencial não entra-va em choque com a dimensão existenciadora do conhecimento anunciada por Evaldo Coutinho. Pelo contrário, hoje sinto-me mais marxista ainda, em ter-mos de conhecimento arquitetônico, graças à contribuição encontrada em O

  ; O lugar de todos os lugares ; A visão existenciadora e A ordem

  espaço da arquitetura

fisionômica. Com o que esse livros me revelaram é que voltei ao Capital de Marx para

  procurar o que de essencial poderia esclarecer quanto a arquitetura e arte em geral. Quem se der ao trabalho de ler meu livro Arquitetura - criação e necessidade poderá constatar com mais precisão o que aqui afirmo.

  Outras referências e influências a vida me trouxe mas esses foram, sem dúvida, entre as primeiras, os posicionamentos que mais continuam marcando minha visão da arquitetura.

  3. PERGUNTA: O que recomendaria a um(a) jovem arquiteto(a)?

  • RESPOSTA: Seja simples, no sentido mais pleno da palavra! (Mesmo saben-do que isso é tremendamente difícil numa sociedade como a nossa).

  

4. PERGUNTA: Qual a sua avaliação da prática profissional na atualidade? Que mudanças

  identifica, e que permanências, na prática profissional da Arquitetura ?

  • RESPOSTA: O meu mundo estritamente profissional é muito limitado. Sou professor, em fim de carreira, da Faculdade de Arquitetura da UnB. A acentuada regressão histórica pela qual passa a minha instituição me traz a mais profunda tristeza. A atividade prática que aí sobrevive é a letiva. As outras praticamente foram abolidas. Porque?

  Respondê-lo franca e diretamente implicaria problemas de convivência mas vou tentar dar meu ponto de vista de forma a menos pessoal possível: Nós os comunistas tivemos um papel preponderante na criação da UnB e do Instituto

  Central de Artes com sua Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. O fato de nossa atuação ser pouco lembrada deve-se, naturalmente à debilidade da nossa condição de opositores aos interesse das classes dominantes e assim também a todos os esforços em contrário para que não tivéssemos êxito. Primeiro a repressão com apoio nas armas. Os nossos camaradas foram os primeiros a serem presos e cassados. Eu mesmo fui um deles. Depois todo um trabalho sutil e pensado visando a mudança de ideário e de visão de mundo do projeto original da UnB. À pujante curiosidade pelo conhecimento da transfor-mação deram lugar o pseudo-científico pensamento lógico-formal, o enfoque fenomenológico e distintas formas de neofreudismo.

  No campo da arquitetura a possibilidade de ligar a condição de professor à de arquiteto prático foi avassalada pela auto-mitificação de uns poucos. A interdisciplinariedade foi posta de lado. Hoje somos uma escola “tecnico-profissionalizante” isolada do resto da universidade e sem nenhum interesse pelas disciplinas críticas. O que de “esquerda” sobreviveu esteve muito mais ligado ao humanismo católico do que a Marx e Engels. O enfoque materialista foi substituído na melhor das hipóteses por um atitude “amiga do povo”. A gestão acadêmica com pretensões de atender princípios de democracia popular e de orçamento participativo foi substituída pelo desinteresse à experiência e a titulação acadêmica. A administração é hoje desenvolvida por meio de desig-nações e de medidas provisórias no melhor espírito neoliberal e neojesuíta.

  Na UnB a “queda do muro” se deu muito antes de Berlim. A experiên-cia no que teve de inovador entrou cedo para o rol das tentativas de mudança. Hoje o seu projeto encontra-se empoeirado na mesma prateleira da História em que jazem a Comuna de Paris, a República de Weimar, a Revoluções Populares do chamado Terceiro Mundo e tantas outras.

  Apesar de tudo isso continuo convencido de que profissão e política têm que ser profundamente interligadas. Só sobre tal base as questões de ordem técnica podem ser resolvidas de forma frutífera. A ideologia da não ideologia é a pior delas, também no caso da arquitetura.

  

5. PERGUNTA: Como deve ser definida e tratada a questão do ensino da Arquitetura nas

  universidades públicas e privadas ?

  • RESPOSTA: Deve seguir três regras áureas: 1 - A primeira condição necessária é a de ser impregnado de curiosidade histó-rica.. De curiosidade crítica, não apologética 2 - A segunda é a de estar visceralmente atrelado aos problemas candentes do país, numa deliberada atitude de produção de novo conhecimento por meio da solução de problemas (formação de profissionais, ou seja, atividades letivas, é uma atividade consecutiva). Defendo intransigentemente a universidade pública e pesquisadora, e entendo como tal aquela que fundamenta a sua produ-ção de conhecimento na solução dos problemas públicos. 3 - A terceira é a de ser internacionalista e não simplesmente cosmopolita e como tal dependente somente de alguns poucos centros mundiais do saber.

  

6. PERGUNTA: Qual a tarefa do arquiteto, na atual conjuntura e, prospectiva-mente, nos

  próximos anos ?

  • RESPOSTA: Questionar a sua herança romântico-burguêsa. Aceitar como positiva a sua proletarização como trabalhador da arquitetura. Por os seus serviços à serviço de seus irmãos proletários de outras áreas da divisão social do trabalho em favor de uma sociedade mais justa e fraterna. Profissionalmente isso implica em lutar por uma melhor adequação entre o povoamento e a realidade territorial de seu país; implica dar a mesma atenção aos locais do trabalho e os da habitação que os do comércio e do lazer, e implica desmistificar o conceito capitalista de urbanidade baseada no consumo e não no trabalho, no valor de troca e não no valor de uso dos lugares da vida humana e social.

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