ANDRÉA BIANCA GONÇALVES FERREIRA (O)POSIÇÕES NA POLÍTICA MARANHENSE: DESEMPENHO ELEITORAL E REPRESENTAÇÕES SIMBÓLICAS

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  UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS

  PROGRAMA DE PốS-GRADUAđấO EM CIÊNCIAS SOCIAIS MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

  ANDRÉA BIANCA GONÇALVES FERREIRA

  

(O)POSIđỏES NA POLễTICA MARANHENSE:

  DESEMPENHO ELEITORAL E REPRESENTAđỏES SIMBốLICAS São Luís – MA

  2013 ANDRÉA BIANCA GONÇALVES FERREIRA

  (O)POSIđỏES NA POLễTICA MARANHENSE:

  DESEMPENHO ELEITORAL E REPRESENTAđỏES SIMBốLICAS Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão para defesa pública Orientadora: Profª. Drª. Arleth Santos Borges

  São Luís – MA 2013 Ferreira, Andréa Bianca Gonçalves (O)posições na política maranhense: desempenho eleitoral e representações simbólicas/ Andréa Bianca Gonçalves Ferreira.—2013.

  134 f. Orientadora: Arleth Santos Borges Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais)- Universidade Federal do Maranhão, 2013.

  1. Contestação política 2. Oposições 3. Grupo Sarney 4. Política maranhense I. Título CDU 32 (812.1)

  ANDRÉA BIANCA GONÇALVES FERREIRA

  

(O)POSIđỏES NA POLễTICA MARANHENSE:

  DESEMPENHO ELEITORAL E REPRESENTAđỏES SIMBốLICAS Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão para defesa pública.

  Aprovada em ____/____/_____

  

BANCA EXAMINADORA

  __________________________________________ Profª. Drª. Arleth Santos Borges (Orientadora)

  Doutora em Ciência Política Universidade Federal do Maranhão

  ____________________________________________ Prof. Dr. Igor Gastall Grill

  Doutor em Ciência Política Universidade Federal do Maranhão

  ____________________________________________ Prof. Dr. Francisco Gonçalves da Conceição

  Doutor em Comunicação e Cultura Universidade Federal do Maranhão

  A três mulheres que à sua maneira foram essenciais para essa conquista: Maria José Gonçalves, minha mãe, pelo amor incondicional e força durante essa jornada;

  Arleth Borges, minha amiga, por iluminar minhas escolhas em decisões difíceis; Patrícia Gonçalves, minha irmã, por sua dedicação, mesmo nos dias mais cansativos.

  

AGRADECIMENTOS

  Este estudo não poderia se realizar sem o apoio e colaboração de muitas pessoas, de modo que tenho muito a agradecer: A minha orientadora, Profª. Drª Arleth Santos Borges, a quem muito admiro e respeito por sua competência e profissionalismo. Obrigada, pela força e incentivo ao longo desses anos, principalmente, pela atenção dos últimos meses.

  Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (UFMA), especialmente, ao Prof. Dr. Igor Gastal Grill, que acompanhou algumas etapas deste trabalho, contribuindo com seus comentários, críticas e sugestões.

  À Profª. Drª. Madian Frazão, do Departamento de Sociologia e Antropologia (UFMA), por sua colaboração durante o exame de qualificação. Ao Prof. Dr. Francisco Gonçalves, do Departamento de Comunicação (UFMA), pelo interesse em contribuir com este trabalho e participação na banca examinadora. Aos colegas da turma de mestrado 2011, com os quais dividi as primeiras leituras, discussões e dúvidas sobre o trabalho, obrigada: Michelle Louzeiro Nazar,

  Sariza Caetano, Cristiana Cerqueira, Romário Barros, Rafael Campos, Allyson Perez, Isabel Mendonça, Paulo Melo, Josinelma Ferreira, Maria Tereza Trabulsi, Hugo Freitas e Carolina Pitanga.

  Aos amigos Luís Carlos Cintra, Deusa Barros e Ana Alice que participaram indiretamente de todas as etapas deste trabalho, cada um contribuiu à sua maneira. Às amigas Mônica Teixeira e Creusa Lopes, pela força e atenção. A duas mulheres “arretadas”, Judilita Barros e Waldinez Souza, o carinho e afeto de vocês me deram ânimo em dias de aflição. As minhas amigas-irmãs, Aline Mendes e Joseanne Gaioso, companheiras de longa data, com as quais venho compartilhando minhas conquistas pessoais e profissionais.

  A minha mãe, Maria José Gonçalves, e aos meus irmãos, Patrícia Gonçalves e Luís Miguel, o amor que sinto por vocês é um estímulo em busca de novas conquistas. A Joaquim Coutinho Neto, seu amor e companheirismo foram fundamentais nessa jornada.

  À FAPEMA pela concessão de bolsa de estudo.

  

RESUMO

  Análise da contestação política no Maranhão, considerando o desempenho eleitoral e auto-representações das chamadas oposições, aqui definidas como agentes individuais ou coletivos em disputas político-eleitorais e identitárias com o grupo Sarney, (re)conhecido como dominante na política local devido ao exitoso uso e controle de decisivos recursos de poder ao longo do período estudado, 1982 a 2010. Examina-se as disputas político-eleitorais e partidárias no estado, destacando-se o desempenho e as posições ocupadas pelos oposicionistas. Investiga-se quais elementos as oposições utilizam para construir sua identidade na política local num jogo de relações adversariais a partir de dois episódios recentes na política maranhense: a ruptura de José Reinaldo Tavares com o grupo Sarney em 2004 e o “Comitê de Defesa da Democracia no Maranhão” (“Balaiada”), criado no final de 2008, contra a cassação de Jackson Lago. Análise da dinâmica política maranhense com ênfase na polarização entre o grupo Sarney e oposições, observando os elementos que conferem identidade a estes grupos, a despeito de sua porosidade e amorfismo. Problematiza-se a dinâmica política maranhense à luz do debate sobre a democracia representativa e das estratégias de construção simbólica de identidades políticas.

  

Palavras–chave: Contestação política. Oposições. Grupo Sarney. Política maranhense.

  

RÉSUMÉ

  L'analyse de la contestation politique dans Maranhão, compte tenu de la performance électorale et de l'auto -représentations d'appels oppositions, définie ici comme agents individuels ou collectifs dans les conflits politiques et l'identité électorale avec le groupe Sarney, (re) connu comme dominant dans la politique locale en raison de la réussite utilisation et le contrôle des ressources énergétiques cruciales sur la période étudiée, de 1982 à 2010. Examine les conflits politico- électorale et dans l'État, soulignant les performances et les positions occupées par l'opposition. Enquête sur quels éléments oppositions utilisent pour construire leur identité dans la politique locale d'un jeu de relations conflictuelles de deux épisodes récents de la politique Maranhão: Rupture Reinaldo Tavares José Sarney avec le groupe en 2004 et le “Comité pour la défense de la démocratie en Maranhão"("Balaiada" ), créée au fin du 2008, contre la destitution du Jackson Lago. Analyse de la dynamique politique Maranhense mettant l'accent sur la polarisation de groupe entre Sarney et oppositions, en observant les éléments qui donnent l'identité de ces groupes, en dépit de leur porosité et amorphisme. Problématise la dynamique politique du Maranhão, à la lumière du débat sur la démocratie représentative et les stratégies de construction symbolique des identités politiques.

  Mots-clés: Politique contestée. Oppositions. Groupe Sarney. Politique de Maranhão.

  LISTA DE IMAGENS Figura 01

  

Figura 18 Concentração no acampamento “Balaiada” 01............................... 95

Figura 19

  Figura 14

  Jornal Pequeno 02........................................................................... 84

  Figura 15

  Jornal Pequeno 03........................................................................... 84

  Figura 16

  Jornal Pequeno 04........................................................................... 84

  Figura 17

  Charge 05........................................................................................ 87

  Transmissão do julgamento de Jackson Lago no acampamento “Balaiada”......................................................................................

  Figura 13

  95 Figura 20 Jackson Lago discursando para os “balaios”.................................. 95

  Figura 21

  Concentração no acampamento “Balaiada” 02............................... 95

  Figura 22

  Apresentação teatral no acampamento “Balaiada”......................... 95

  Figura 23

  Acampamento “Balaiada”............................................................... 95

  Figura 24

  Jornal Pequeno 01........................................................................... 84

  O Estado do Maranhão 07............................................................... 84

  Charge 01........................................................................................ 65

  Figura 07

  Figura 02

  Charge 02........................................................................................ 75

  

Figura 03 O Estado do Maranhão 01............................................................... 78

Figura 04

  O Estado do Maranhão 02............................................................... 78

  Figura 05

  O Estado do Maranhão 03............................................................... 78

  Figura 06

  O Estado do Maranhão 04............................................................... 78

  Charge 03........................................................................................ 79

  Figura 12

  Figura 08

  Charge 04........................................................................................ 79

  Figura 09

  O Estado do Maranhão 04............................................................... 83

  Figura 10

  O Estado do Maranhão 05............................................................... 83

  Figura 11

  O Estado do Maranhão 06.............................................................. 84

  “Marcha pela Democracia” 01........................................................ 101

  Figura 25

  Figura 34

  Figura 40

  Jackson Lago seguindo em passeata 03.......................................... 117

  Figura 39

  Jackson Lago seguindo em passeata 02.......................................... 117

  Figura 38

  Jackson Lago seguindo em passeata 01.......................................... 117

  Figura 37

  Boneco de José Sarney sendo queimado........................................ 116

  Figura 36

  Jackson Lago deixa o Palácio dos Leões junto com aliados........... 116

  Figura 35

  Ocupação do Palácio dos Leões 02................................................. 115

  Ocupação do Palácio dos Leões 01................................................. 115

  “Marcha pela Democracia” 02........................................................ 101

  Figura 33

  Ato show 03................................................................................. 113

  Figura 32

  Ato show 02................................................................................. 113

  Figura 31

  Ato show 01................................................................................. 112

  

Figura 29 Convocação para o ato show....................................................... 112

Figura 30

  Manchete do jornal Brasil de Fato.................................................. 104

  Figura 28

  Caricatura de José Sarney............................................................... 104

  Figura 27

  Panfleto distribuído durante a “Marcha pela Democracia”............ 102

  Figura 26

  Jackson Lago seguindo em passeata 04.......................................... 117

  

LISTA DE TABELAS

Tabela 1. Governadores Eleitos no Maranhão (1982-2010)................................ 47

  Composição da Assembleia Legislativa (1982-2010)- uma Tabela 2.

  52 aproximação..........................................................................................

  

Tabela 3. Composição da Câmara Federal (1982-2010)- uma aproximação....... 55

Tabela 4. Senadores Eleitos no Maranhão (1982- 2010)..................................... 57

LISTA DE SIGLAS

  DEM- Democratas PAN- Partido dos Aposentados da Nação PCB - Partido Comunista Brasileiro PCdoB - Partido Comunista do Brasil PDC- Partido Democrata Cristão PDS- Partido Democrático Social PDT- Partido Democrático Trabalhista PFL- Partido da Frente Liberal PGT- Partido Geral dos Trabalhadores PHS- Partido Humanista da Solidariedade PL- Partido Liberal

PMDB- Partido do Movimento Democrático Brasileiro

PMB- Partido Municipalista Brasileiro PMN- Partido da Mobilização Nacional PP- Partido Progressista PPB- Partido Progressista Brasileiro PPR- Partido Progressista Renovador PPS- Partido Popular Socialista PR- Partido da República PRB- Partido Republicano Brasileiro PRN- Partido da Reconstrução Nacional

PRONA- Partido de Reedificação da Ordem Nacional

PRP- Partido Republicano Progressista PRTB- Partido Renovador Trabalhista Brasileiro PSB- Partido Socialista Brasileiro PSC- Partido Social Cristão PSD- Partido Social Democrático

  

PSDB- Partido da Social Democracia Brasileiro

PSDC - Partido Social Democrata Cristão PSL- Partido Social Brasileiro PSOL - Partido Socialismo e Liberdade PST- Partido Social Trabalhista PT- Partido dos Trabalhadores PTB- Partido Trabalhista Brasileiro PTN - Partido Trabalhista Nacional PTR- Partido Trabalhista Reformador PTC- Partido Trabalhista Cristão PT do B- Partido Trabalhista do Brasil PV- Partido Verde TSE – Tribunal Superior Eleitoral

   SUMÁRIO

  

INTRODUđấO ........................................................................................................ 14

Capítulo 1 A COMPETIđấO POLễTICA ENQUANTO QUESTấO TEÓRICA...................................................................................... 22

  1.1 Competição Política e Teorias Democráticas................................. 23

  1.2 Democracia e Competição Política................................................. 28

  Capítulo 2 COMPETIđấO POLÍTICA NO MARANHÃO: PARTIDOS, GRUPOS POLÍTICOS E RESULTADOS ELEITORAIS............................................................................... 31

  2.1 A Dinâmica Política no Estado....................................................... 35

  2.2 Dinâmica Eleitoral: grupo Sarney x Oposicionistas nas Urnas...... 44

  

Capítulo 3 (RE)PRESENTAđỏES OPOSICIONISTAS............................ 60

  3.1 Lealdade, Atritos e Ruptura: José Reinaldo Tavares e o grupo Sarney ........................................................................................... 62

  3.1.1 Produzindo Crenças........................................................................ 65

  3.1.2 Jogo de Contrastes - A Culpa é do Outro!...................................... 73 3.2 “Balaiada”: Passado Enaltecido, Futuro Incerto e Presente de

  Luta Contra a Cassação Jackson Lago........................................... 90

  3.2.1 Construindo Resistências................................................................ 91

  3.2.2 Di-visões: “Ou Vence a Tirania ou Vence a Democracia”............ 103 3.3 (Re)presentações em Perspectiva: Comparação dos Casos

  Analisados...................................................................................... 118

  CONSIDERAđỏES FINAIS....................................................... 122 FONTES CONSULTADAS........................................................ 129

  

INTRODUđấO

  Neste trabalho investigamos a contestação política no Maranhão considerando o desempenho eleitoral e as auto-representações das chamadas oposições, aqui definidas como agentes individuais ou coletivos engajados em disputas político-eleitorais e identitárias contra o grupo reconhecido como dominante. Tais disputas se desenvolvem tanto no plano eleitoral como simbólico e por meio delas as oposições questionam a legitimidade do grupo dominante e as políticas por este adotadas, sendo estas últimas inferidas de indicadores sócio-econômicos do estado e dos padrões de interação política adotados.

  Nesse processo, inerentemente relacional, estão em disputa o acesso e controle de posições de poder (postos governamentais) e as representações pelas quais esses agentes pretendem ser reconhecidos e dar a conhecer os seus adversários. A questão, portanto, que orientou a presente pesquisa foi a de saber quais as posições ocupadas pelos oposicionistas em espaços decisórios e os elementos que acionam para se representar na política estadual.

  O interesse por esta temática surgiu durante a elaboração do artigo “Partidos no Maranhão 1982-2010: relevância e papéis na política local” (BORGES e FERREIRA, 2012), no qual a observação de resultados eleitorais ao longo de três décadas permitiu constatar que, a despeito de grande número de agentes e coalizões presentes nas disputas político-eleitorais, estas se concentram em dois grupos fundamentais,

  1

  (re)conhecidos como grupo Sarney e oposições. Essa polarização ganha nitidez ainda maior quando se considera, além dos números, a dinâmica das disputas, nas quais é flagrante o caráter plebiscitário de apoio ou rejeição a esse primeiro grupo, o qual tem sido dominante na política estadual.

  Desse estudo surgiu o interesse em melhor conhecer o lugar efetivamente ocupado pelas oposições em postos governamentais, quem são os agentes políticos que se definem como tal, a que partidos estão vinculados, como se posicionam em relação ao grupo dominante, que identidades constroem para si e para seus adversários e, sendo um conjunto bastante heterogêneo, como se configuram enquanto grupo. Respondendo 1 essas questões, acreditamos ser possível identificar elementos que configuram as bases As expressões grupo Sarney e grupo dominante serão utilizadas com o mesmo sentido neste trabalho. do pertencimento a essa identidade coletiva, ou seja, elementos que conferem unidade ou homogeneidade mínima ao rótulo de oposicionistas.

  Vários obstáculos foram encontrados nesse empreendimento, a começar pela dificuldade de reconhecimento desses campos políticos, grupo Sarney e oposições, como distintos, estáveis ou bem discerníveis. Não sendo a distinção fixada pela condição eventual de estar ou não no governo, a primeira dificuldade para esse reconhecimento está relacionada ao trânsito de agentes entre ambos os grupos; outra dificuldade está no fato de grande parte desses agentes acionarem discursos muito parecidos, focados em teses “modernizadoras”, as quais são também apropriadas como elemento identitário.

  Tais circunstâncias obscurecem as fronteiras entre os grupos, reduzindo seu alcance analítico devido a pouca consistência dos laços de pertencimento e da coesão interna destes coletivos. Com todos os riscos preferimos essa categoria, devido aos componentes identitários presentes em sua definição, ainda que não reivindiquemos fidelidade duradoura dos agentes a essas identidades.

  Mesmo admitindo os riscos que cercam a expressão “grupos”, optamos por adotá-la como categoria de análise pela porosidade e plasticidade que a envolve, afinal, a ausência de atributos fixos ou prévios não se apresenta para nós como algo incompatível com alguma estabilidade ou identidade, como no dizer de Becker (2007, p.18), que afirma: “[...] é um grupo porque as pessoas dentro e fora dele [enquanto estão] sabem o que é; porque tanto os que estão dentro como os que estão fora dele falam, sentem e agem como se fossem um grupo separado”.

  A observação do objeto deste estudo, a competição política, em escala mais ampla e abstrata (teórica) possibilitou mapear como essa questão vem sendo tematizada. Este desafio nos colocou diante de um conjunto de teorias filiadas ao liberalismo e à democracia nas quais a contestação ou a liberdade é admitida como legítima expressão da (incontornável) pluralidade social (MILL, 1995; BOBBIO, 2009; MOUFFE, 2005), das lutas pelo poder (MADSON, 1993; SCHMITT, 1963) e um requisito ou dimensão estruturante da democracia, seja na perspectiva dos “pais fundadores” do modelo político norte americano (MADSON et al., 1993), seja no modelo contemporâneo de poliarquia, formulado por Robert Dahl (1993).

  Nesse conjunto de autores é patente a afirmação de que sem contestação ou direito de oposição não há democracia. Dahl (1997) chega a definir um conjunto de condições formais e materiais para que a democracia possa existir, destacando entre estes processos eleitorais regulares, livres, protagonizados por cidadãos bem informados e conduzidos por instituições externas e isentas em relação à disputa.

  Olhando, porém, para especificidades do arranjo democrático em países que carrega(va)m pesadas heranças de governos autoritárias, como o Brasil, O’Donnell (1994) observa que a eficácia desse arranjo é, de certo modo, sacrificada pela delegação de poderes aos governantes e pela ausência de controles internos, acrescentando que, nessas condições a competição fica desequilibrada, havendo fortes incentivos à manutenção dos mesmos grupos à frente dos governos ou “entrincheirados no poder”, termo adotado por Couto (2010) como uma característica, não de regimes democráticos, mas oligárquicos.

  A demora e o percurso errático da assimilação de instituições e de uma cultura democrática no Brasil, no sentido dahlsiano, levou a contestação política a se desenvolver em ritmo bem mais lento que as medidas formais de inclusão ou participação, também enfatizadas por este autor, havendo ampla receptividade para concepções e práticas como “pão para os amigos e pau para os inimigos”; “para os amigos, os favores da lei, para os inimigos, os rigores da lei” ou “em eleição, o errado é perder”. Também não faltaram nesse percurso medidas como a imposição de critérios de inelegibilidade e supressão de direitos políticos, esvaziamento da igualdade política pela desigualdade econômica, entre outras limitações.

  Com a nova ordem constitucional, de 1988, diversas medidas foram adotadas para tornar a competição política mais efetiva e isonômica, persistindo, porém limites como aqueles relacionados ao abuso de poder econômico e controle privado de grandes sistemas de comunicação (jornais, rádios e televisão).

  A dinâmica política maranhense é ilustrativa do caráter não linear da construção democrática no Brasil. Nas análises da política maranhense (ROSSINI, 1993; COSTA, 1997; GONÇALVES, 2000 e 2008) existe amplo acordo em torno de duas ideias: a) a condução de Vitorino Freire ao comando da política estadual, em 1945, reestabelece a ordem oligárquica, que foi o padrão político na primeira república (1889-1930); b) o fim do domínio vitorinista, marcado pela ascensão de José Sarney ao comando da política local, não implicou em ruptura com esse padrão, embora tenham havido iniciativas de caráter modernizante, com medidas de racionalização da administração pública e implantação de “grandes projetos” econômicos focados na exportação de recursos minerais. Esses empreendimentos tiveram, porém, poucos efeitos no sentido de reverter os níveis de pobreza no estado, de engendrar novas dinâmicas sócio-culturais ou empoderamento de novos grupos ou agentes políticos.

  O fim da ditadura militar e a introdução de amplo conjunto de medidas democratizantes no plano “nacional”, não modificou de modo substantivo o comando da política estadual, entre outros motivos, por que o mesmo agente, ex-vitorinista e respaldado pelos militares para conduzir a política desse grupo no estado (José Sarney), transmutou-se em destacado defensor da “redemocratização”, alcançando nessa condição, inclusive, a presidência da república, o que lhe possibilitou atualizar e ampliar seus espaços e recursos de poder.

  Assim, no Maranhão do período de domínio Sarney, que se estende desde da primeira eleição sob o comando dos governos militares (1965) até os dias atuais, as interações políticas foram caracterizadas pelo domínio de um mesmo grupo que, com uma única exceção para o executivo e outra para o senado, elegeu todos os governadores e senadores do período, além de assegurar confortáveis maiorias no legislativo estadual e bancada federal. Às oposições tem restado no plano eleitoral, reduzidas e minoritárias bancadas legislativas, a eleição de um senador e um governador, este último, no entanto, teve seu mandato cassado após dois anos de governo. A exceção fica por conta das disputas eleitorais na capital, onde a oposição tem sido vitoriosa ao longo desse período, e, mais recentemente, em Imperatriz, segunda maior cidade do estado, e que teve papel decisivo na eleição do governador oposicionista em 2006.

  As explicações para esse prolongado e generalizado domínio político e eleitoral, apesar das eleições competitivas e frequentemente questionadas, têm sido associadas ao controle sistemático dos recursos de poder administrados pelos governantes, entre os quais destacamos: controle do aparato coercitivo; lugar privilegiado de integrantes desse grupo na mediação de recursos e influências do poder central; controle privado de amplo sistema de comunicação; controle local dos partidos de maior destaque no plano nacional; influências ou neutralização de poderes externos ou fiscalizadores, como órgãos do poder judiciário, tribunais de contas e ministério público; sedimentação de ampla rede de apoio entre lideranças políticas, corporativas ou comunitárias, mantida pela distribuição seletiva de recursos públicos; poder econômico dos integrantes desse grupo e outros trunfos, visíveis ou invisíveis.

  Outras bases de sustentação deste domínio se amparam no fato deste grupo ter se “entrincheirado no poder” desde 1965; controlar e aplicar seletivamente os recursos acima mencionados; por governar com maior atenção aos interesses particulares dos seus integrantes, principalmente seus líderes, em detrimento do que se poderia denominar “interesses públicos”, como seria a reversão dos dramáticos indicadores sociais do estado; por atuar no sentido de restringir ou enfraquecer as oposições, pela via da cooptação e batalhas judiciais, acolhemos as caracterizações desse domínio enquanto oligárquico (REIS, 2007; COSTA, 1997 e 2006), associando as definições desses autores às ideias de Couto (2007), também sobre oligarquia, e, complementarmente, o conceito de máquina política, formulado por Diniz (1982), que enfatiza a adoção de um sistema de recompensas, de vários tipos, aos apoiadores do grupo.

  Nesse cenário, as oposições têm se constituído como agentes individuais ou coletivos que se confrontam com o grupo dominante, suas prioridades e modus operandi na condução do governo demarcando, assim, um campo político interna e externamente (re)conhecido e uma identidade para o coletivo e seus integrantes. Trata-se, porém, de um grupo que, internamente, é bastante heterogêneo, aglutinando agentes que sempre militaram na oposição, outros oriundos do grupo dominante e aqueles que transitam entre um e outro. Suas manifestações são mais reativas e acusatórias ao grupo Sarney que propositivas, fato que decorre, em parte, destes posicionamentos não serem programática ou ideologicamente orientados.

  Tais oposições se confrontam com o grupo dominante e procuram distinguir-se pelo diagnóstico sobre o espaço social e político em disputa (o Maranhão), reclamando para si a condição de legítima combatente do “atraso e miséria existentes no estado”, apontado como produzido e/ou alimentado pelo grupo Sarney. Mas também se assemelha ao grupo dominante no que concerne à sua baixa coesão, ao trânsito de seus integrantes entre um campo e outro e ao discurso modernizante, que ambos os grupos reivindicam para si. Por tudo isso, entendemos que a condição de oposição se caracteriza mais como um “lugar simbólico” do que um conjunto bem definido ou específico de agentes e práticas.

  A exemplo do que se constata no plano eleitoral, que é palco de acirradas disputas, o campo do simbólico também não está imune às mesmas, pelo contrário, a classificação ou “di-visão” (BOURDIEU, 2007) dessa realidade é objeto de disputas que envolvem elementos simbólicos e identitários expressos na construção de representações (BOURDIEU, 2007; HALL, 2000; SILVA, 2000) a partir das quais os grupos em disputa estabelecem para si um terreno e um ponto de vista singular que, a um só tempo lhe distingue e (des)qualifica outros. A demarcação desse terreno e ponto de vista só pode se dar em relação a um outro ao qual é dirigida a oposição, num movimento de mão dupla onde são representados o eu/nós e o outro/eles.

  Nesse processo, as oposições têm mobilizado um conjunto de elementos simbólicos e discursivos para se diferenciar dos adversários e se apresentar como representantes legítimos das ideias e projeto de mudanças. Neste sentido, nos dois casos analisados neste estudo - o rompimento de José Reinaldo Tavares com o grupo Sarney em 2004 e o “Comitê de Defesa da Democracia no Maranhão” (“Balaiada”), formado no final de 2008, contra a cassação do governador Jackson Lago em 2009 - constatou-se a atribuição ao grupo Sarney características e rótulos depreciativos, responsabilizando-o pela realidade sócio-econômica do estado em referência à longa permanência desse grupo no governo estadual e se apresentavam como os mais qualificados para o comando político do estado.

  Na análise aqui empreendida foi valorizada uma diversidade de fontes e nos empenhamos em trabalhá-las, criticamente, zelando pelo rigor metodológico mediante cuidadosa seleção e explicitação de técnicas e estratégias e pelo esforço de objetivação. Sendo assim, concentramos nossos esforços em reconhecer e se precaver de pré-noções, sejam elas do senso comum ou do senso douto, muitas vezes, apresentadas como verdades aceitas e pouco contestáveis (BOURDIEU, 2004).

  O ponto de partida para realização deste estudo foi a definição do recorte empírico em que foram selecionadas as dimensões eleitoral e simbólica para a análise das disputas políticas no estado. Neste sentido, realizamos duas delimitações: a primeira, referente ao desempenho eleitoral dos oposicionistas na política estadual, onde examinamos as dinâmicas e resultados eleitorais referentes a oito pleitos, realizados entre 1982 e 2010; e a segunda, relativa às representações construídas pelos oposicionistas nas disputas políticas locais, onde selecionamos dois eventos da década de 2000.

  Entre as fontes mobilizadas, buscou-se continuadamente um aporte teórico que abordasse o tema da contestação pública e nos ajudasse a refletir sobre as relações adversariais na política, fornecendo elementos que dialogassem com nossas referências sobre a política brasileira; também buscamos leituras sobre a dinâmica política maranhense; e ao lado destas, referências sobre o tema das representações, identidades e dramatização na política.

  O desempenho eleitoral foi observado a partir da base de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e de dados obtidos em Diários da Assembleia Legislativa do Maranhão, estes últimos relativos ao alinhamento políticos das bancadas parlamentares.

  Essas fontes nos permitiram observar as posições institucionais (cargos eletivos) ocupadas pelos grupos políticos no estado, identificar em quais partidos esses agentes tem se apresentado às disputas eleitorais, e examinar a composição dos blocos parlamentares no legislativo estadual (MAINWARING, 2001; KINZO e CARREIRÃO, 2004; MELO, 2000; BRAGA e JR. PIMENTEL, 2011).

  Para análise das representações oposicionistas selecionamos dois episódios da

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  política estadual recente que consideramos emblemáticos : a ruptura do governador José Reinaldo Tavares com o grupo dominante em 2004 e o “Comitê de Defesa da Democracia no Maranhão” (“Balaiada”), criado no final de 2008, contra a cassação do governador Jackson Lago. Justificamos essas escolhas, por se tratar de eventos que configuram períodos de instabilidade política, através dos quais foi possível caracterizar as oposições e seus múltiplos padrões de interação, heterogêneos e, por vezes, contraditórios.

  Considerando a singularidade dos casos selecionados, mobilizamos fontes empíricas de natureza diversificada, pois o primeiro se refere a um governador com longa inserção no grupo governista e que, após o rompimento, inicia um processo de (re)invenção da própria imagem, que também passou pela afirmação de posições de poder no estado; e o segundo diz respeito a um movimento de resistência, formado em meio à tramitação de processo de cassação do governador Jackson Lago, reconhecido por sua longa participação nas oposições e que, através do movimento “Balaiada”, procurava resistir à ameaça de cassação e assegurar a continuidade de seu governo.

  Para analisar o primeiro caso, as representações construídas em torno da ruptura de José Reinaldo com o grupo Sarney, utilizamos os jornais O Estado do Maranhão e o Jornal Pequeno, espaços onde as disputas se adensaram, servindo aos agentes como um meio para construção e difusão de representações sobre si e dos acontecimentos. Ressalte-se que esses periódicos possuíam vínculos com os grupos em conflito, o 2 primeiro é de propriedade da família Sarney e o segundo mantinha estreita relação com

  

Sabendo que a caracterização de um evento como emblemático não se define a priori, mas a partir de

um exame mais detido de uma dada realidade, explicitamos que a classificação desses episódios como

emblemáticos decorre de um estudo já realizado sobre a dinâmica política maranhense recente onde foi

possível observar que estes eventos tiveram grande repercussão e introduziram novas clivagens na José Reinaldo, no entanto, ambos possuem caráter comercial e se dirigem a públicos mais amplos.

  Em relação às representações construídas pelo “Comitê de Defesa da Democracia no Maranhão (“Balaiada”)” sobre a cassação de Jackson Lago, utilizamos como fonte empírica o jornal O Estado do Maranhão e treze exemplares do informativo A Balaiada, produzido pelo próprio movimento e distribuídos gratuitamente em São Luís. Este informativo foi um meio do movimento divulgar suas atividades, notícias referentes à tramitação do processo de cassação do governador e chamadas para mobilizações, além de cumprir o papel de interpretar acontecimentos direta ou indiretamente relacionados ao processo de cassação.

  Feitas essas delimitações, organizamos os resultados deste estudo em três capítulos: O primeiro traz uma discussão teórica sobre a democracia, situando o debate em torno da competição política e problematizando nuances relativas aos governos democráticos, abordando questões referentes a processos denominados como de oligarquização; o segundo aborda a dinâmica política maranhense com ênfase nas disputas político-eleitorais entre o grupo Sarney e os oposicionistas, destacando as posições ocupadas por esses agentes na política estadual no período de 1982 a 2010; e o terceiro analisa as representações construídas pelos oposicionistas nas disputas políticas locais, como forma de se diferenciar dos adversários, a partir dos casos selecionados: o rompimento de José Reinaldo com o grupo Sarney e o “Comitê de Defesa da Democracia no Maranhão (“Balaiada”)” contra a cassação de Jackson Lago.

  3 Capắtulo 1. A COMPETIđấO POLễTICA ENQUANTO QUESTÃO TEÓRICA

  A competição política é amplamente reconhecida como um dos pilares das democracias modernas, responsável por promover um equilíbrio de forças e alternância de governantes entre os diversos grupos que postulam posições de poder e prestígio no campo político e eleitoral. Adentrar nesse debate implica em dirigir o olhar para a literatura sobre democracia, explorando a relação entre esta e a competição política, as especificidades das democracias representativas e o lugar da contestação no âmbito desses regimes.

  Ressalte-se que nem todas as democracias trilharam os mesmos caminhos ou produziram os mesmos resultados. Essas diferentes trajetórias se traduzem em diferentes modelos teóricos e experiências democráticas, nas quais a contestação adquire configurações distintas, nem sempre coerentes com as ideias de alternância e liberdade de expressão, acima mencionadas, como bem ilustrado com o caso do Brasil, onde a adoção formal de regras e instituições democráticas chegou a ser interpretada

  4 como “um lamentável mal entendido” .

  Nesse sentido, discutiremos neste capítulo como a competição política tem sido abordada por diferentes teóricos da democracia, destacando a centralidade das relações adversariais para manutenção dos governos democráticos. Em seguida, abordaremos essa discussão a partir dos conceitos de poliarquia (DAHL, 1997) e democracias delegativas (O’DONNELL, 1994), problematizando os critérios de definição e emprego do conceito de democracia. Ao lado disso, e em coerência com a afirmação de que as

  3 4 Utilizaremos as expressões oposição, contestação pública e conflito no mesmo sentido.

  

A referência à democracia brasileira como um “lamentável mal entendido”, em Raízes do Brasil, está

relacionada à ideia de um processo de instauração sempre fracassado. Para Holanda (1995) nossas

“raízes” coloniais, apoiadas em valores personalísticos e na cordialidade, teriam implicações sobre esse

“mal-entendido”. Nesta visão, a confusão entre domínio público e privado que, politicamente se

manifestaria em organizações patrimoniais, associado à noção de Estado como gestor de reformas sociais

em detrimento do protagonismo popular, impediria a formação de uma política democrática. Segundo

Holanda (1995) as revoluções ocorridas no Brasil foram protagonizadas por elites, sejam elas civis ou

militares, de modo que o povo vem se apresentando como espectador atônito das transformações sociais.

Ressalte-se, entretanto, que nos últimos anos, especialmente com a promulgação da Constituição de 1988,

observou-se avanços significativos no que se refere ao amadurecimento da democracia no Brasil,

evidenciado por vários elementos, entre eles, a estabilidade constitucional e a transmissão de cargos aos democracias são entrecortadas por diferentes relações políticas traremos questões referentes a processos de oligarquização e suas implicações para a competição política.

  5

1.1. Competição Política e Teorias Democráticas

  É no âmbito das teorias democráticas que a questão da competição política está radicada e, em que pese existirem várias e nem sempre convergentes teorias sobre esse tema, existe um amplo acordo entre os estudiosos de que falar em democracia é falar em competição.

  Entre os pensadores do governo representativo, base sobre a qual se assentam as modernas democracias, encontramos na filosofia política de Stuart Mill (1995) a afirmação de que a competição é fundamental para estes governos, pois estimula a competência e a superação dos indivíduos quando estes competem entre si, evitando a rotinização da política. Na sua visão, a competição equilibra o jogo político ao impedir que apenas um grupo tenha monopólio da representação política e possibilita que todos possam ter o direito de se expressar e/ou participar do governo.

  O autor chama a atenção para “os riscos” de que uma única classe da sociedade tenha a maioria absoluta da representação, enfatizando que mesmo a classe mais bem representada, quantitativamente, precisaria da aprovação de algumas minorias para fazer valer suas vontades. Segundo Mill (1995, p.27):

  O sistema representativo deve constituir-se de forma tal que mantenha essa situação: não deve permitir a qualquer dos diversos interesses parciais tornar- se tão poderoso que chegue a prevalecer contra a verdade e a justiça e contra os outros interesses parciais combinados.

  Ainda no sec. XVII, o tema da competição política ocupa lugar central entre os idealizadores ou “pais fundadores” da democracia na América. Madison, em um dos

  

6

  “Artigos Federalistas”, aborda as facções políticas, destacando a relevância das mesmas para a democracia e os riscos embutidos na possibilidade de uma destas vir a deter o controle exclusivo sobre os recursos de poder, concluindo com a defesa da 5 multiplicação das facções como forma de impedir que apenas uma monopolize tais

  

As teorias democráticas abordadas nesta seção, não serão consideradas exaustivamente, mas apenas no

que concerne ao tema da competição e contestação política. A seção seguinte se destina à explicitação de

6 escolhas teóricas adotadas neste trabalho.

  

Madison (1993, p.133) define facção como “Um grupo de cidadãos, representando quer a maioria quer a

minoria do conjunto, unidos e agindo sob um impulso comum de sentimentos ou de interesses contrários recursos. Para esse autor, as facções são fruto e expressão do pluralismo social, da diversidade de interesses, e como tais, não podem ser excluídas.

  O filósofo e jurista Noberto Bobbio (2009, p.30) considera a democracia como um regime em que um número maior de indivíduos está autorizado a tomar decisões vinculatórias a todo grupo social com base em determinados procedimentos, o princípio da vontade da maioria, o que pressupõe a existência de outras vontades e de minorias. Para esse autor, somente em grupos muito restritos e homogêneos pode existir unanimidade e, mesmo assim, em situações extremas ou de pouca importância.

  Sendo o antagonismo inevitável, a prova de fogo dos regimes democráticos está, segundo Bobbio (2009), no tratamento que dirigem às minorias ou oposições. Neste sentido, a liberdade de exercer oposição ao governo, o direito de emitir opiniões sem temer represálias governamentais, a liberdade de reunião e associação, a liberdade de imprensa, entre outras, seriam condições necessárias para a vigência de um regime democrático.

  Também questionando a noção de unanimidade, Schumpeter (1961) critica o conceito de bem comum ou vontade geral, argumentando que este pode representar coisas distintas para diferentes grupos e indivíduos, não havendo solução definida para os casos individuais. Para este autor, “o método democrático é um sistema institucional, para a tomada de decisões políticas, no qual o indivíduo adquire o poder de decidir [mediante apoio da maioria] numa luta competitiva pelos votos do eleitor” (SCHUMPETER, 1961, p.321). Partindo desta perspectiva, as noções de vontade geral e bem comum, mostram-se inadequadas para pensar as democracias modernas, enquanto o pluralismo e as oposições de interesses ganham maior relevo. Distante de clivagens sociais e de eleitores politicamente mobilizados, a formulação schumpeteriana apresenta a competição política orientada por elementos análogos aos do mercado, prevalecendo a lógica da propaganda e da oferta e na delegação (vantajosa) de responsabilidades do eleitor aos representantes.

  Partindo do reconhecimento do conflito, Chantal Mouffe (2003) destaca que a sociedade democrática não pode ser pensada a partir da ideia de perfeita harmonia e transparência, esse tipo de interpretação nega a dimensão do poder e do antagonismo e seu papel decisivo na formação de identidades coletivas. Segundo a autora, a prática política nessas sociedades não consiste na defesa de identidades pré-construídas, mas em sua formação num terreno precário e sempre vulnerável.

  Nesta perspectiva, Mouffe (2003) defende uma abordagem que demonstra a impossibilidade de estabelecer um consenso sem exclusão, instigando a manter sempre viva a contestação democrática. A autora elabora um conceito de política a partir de uma dimensão considerada agonística, segundo a qual a política é tomada como “conjunto de práticas, discursos e instituições que procuram estabelecer certa ordem e organizar a coexistência humana em condições que são sempre conflituais por que são sempre afetadas pela dimensão do “político” que, a seu ver, é uma dimensão própria às relações humanas, constituindo-se como um mecanismo para controlar a hostilidade e tentar conter os antagonismos inerentes a essas relações (MOUFFE, 2005, p.20).

  A política seria responsável pela busca de unidades em contextos de conflito, estaria relacionada à criação de um “nós” em oposição a “eles” e, numa perspectiva democrática não visaria superar essa oposição, que é insuperável. O principal objetivo seria, então, estabelecer uma relação “nós-eles” compatível com a democracia, onde “eles” não fossem tratados como inimigos a serem destruídos, mas como “adversários” que podem ter suas ideias combatidas, ainda que não lhes possa ser negado o direito de manifestá-las.

  Nessa visão, o adversário é um “inimigo legítimo” com o qual se compartilha um conjunto de valores e princípios ético-políticos cuja interpretação, entretanto, é objeto de disputa. O desacordo está relacionado ao sentido e à implementação desses princípios, assim como ao pluralismo de valores já mencionado.

  Mouffe (2005) destaca a necessidade da elaboração de uma definição mais complexa sobre o que representa o antagonismo e a importância de distinguir duas variantes que podem emergir dela, o antagonismo e o agonismo. O primeiro se refere à luta entre inimigos, enquanto o segundo está relacionado à disputa entre adversários. A proposta da autora é transformar o antagonismo em agonismo; não se trata, porém de estabelecer um consenso racional a partir das diferenças sociais, mas de compatibilizar esse pluralismo com os princípios democráticos, mediante submissão dos dissensos a um conjunto de regras que o tornam aceitável e legítimo.

  Mouffe (2003) defende o pluralismo agonístico como forma de subverter iniciativas que tendem a naturalizar fronteiras e essencializar identidades nas sociedades democráticas, pois a diferença torna possível constituir a unidade e a totalidade, fornecendo simultaneamente os limites essenciais. Tal abordagem reconhece que as identidades abrangem múltiplos elementos, admite a porosidade de suas fronteiras e se abre em direção ao exterior que a torna possível (MOUFFE, 2003, p. 19).

  Neste sentido, o pluralismo agonístico está ancorado no reconhecimento da multiplicidade de cada um e das posições contraditórias subjacentes a esta multiplicidade. A aceitação do outro não se baseia simplesmente em tolerar as diferenças, mas em celebrá-las positivamente, pois de acordo com Mouffe (2003, p.19), “sem alteridade e o outro, nenhuma identidade poderia se afirmar”, deste modo o pluralismo agonístico valoriza a diversidade e o dissenso, reconhecendo neles a condição real para se conquistar uma vida democrática.

  Enquanto Mouffe (2005) considera a política um meio para conter o conflito, transformando inimigos em adversários, Carl Schimitt (1963) argumenta que qualquer relação pode se tornar política desde que atinja um grau suficientemente forte para agrupar indivíduos em “amigos” e “inimigos”. O autor elabora um conceito de político autônomo, que parte de categorias especificamente políticas, fugindo a definições éticas ou morais, compreendido através do grau de associação ou dissociação entre as pessoas relacionando os atos e motivações políticas por meio da diferenciação entre amigos e inimigos. Para Schimitt (1963, p.16):

  El enemigo político no tiene por qué ser moralmente malo; no tiene por qué ser estéticamente feo; no tiene por qué actuar como un competidor económico y hasta podría quizás parecer ventajoso hacer negocios con él. Es simplemente el otro, el extraño, y le basta a su esencia el constituir algo distinto y diferente en un sentido existencial especialmente intenso de modo tal que, en un caso extremo, los conflictos con él se tornan posibles, siendo que estos conflictos no pueden ser resueltos por una normativa general establecida de antemano, ni por el arbitraje de un tercero "no-involucrado" y por lo tanto "imparcial".

  Na perspectiva de Schimitt (1963) o inimigo é sempre o outro, o estranho, o desconhecido, mas é importante destacar, que também para este autor, o inimigo é ineliminável, vez que não se poderia destruí-lo sem eliminar a si mesmo. O conceito de Schimitt (1963) é relacional, e nele a formação do “nós” se estabelece na diferença com o “eles”, não se pode substancializar ou dotar o político de uma natureza própria, ele se define a partir do grau intenso de amizade ou inimizade.

  Num olhar mais contemporâneo o tema do conflito é examinado por Robert Dahl (1997) no âmbito das suas reflexões sobre a democratização, na qual a contestação pública ou oposição, assim como a participação ou inclusão, é uma das dimensões constitutivas da democracia. O máximo incremento de ambas as dimensões (que, não necessariamente variam juntas) configuraria as poliarquias, caracterizadas como “regimes que foram substancialmente popularizados e liberalizados, isto é, fortemente inclusivos e amplamente abertos à contestação pública” (DAHL, 1997, p.31).

  Cada uma dessas dimensões é indispensável, mas não é suficiente para a configuração de um regime poliárquico. Para esse autor, há casos em que a contestação pública é extremamente desenvolvida, mas a participação política se restringe a um número pequeno de pessoas, como é o caso das oligarquias competitivas. Em outra circunstância, ele destaca que a participação política perde boa parte do seu significado quando o direito de exercer oposição é negado aos cidadãos, a exemplo das hegemonias inclusivas. Quando são baixas a contestação e a participação, o autor descreve um cenário de hegemonia fechada.

  Conforme o modelo dahlsiano, a democracia se apresenta a partir de três condições necessárias, ainda que insuficientes, através das quais todos os cidadãos teriam pleno direito e oportunidade de (DAHL, 1997, p.26): Formular suas próprias preferências.

  Expressar suas preferências a seus concidadãos e ao governo através da ação individual e da coletiva. Ter suas preferências igualmente consideradas na conduta do governo, ou seja, consideradas sem discriminação decorrente do conteúdo ou da fonte da preferência.

  Decorreriam destas condições o que Dahl (1997, p.27) denomina como oito garantias ou requisitos para democracias em larga escala, que são as seguintes:

  Liberdade de expressão; direito de voto; elegibilidade para cargos públicos; direito de líderes políticos disputarem apoio, votos; fontes alternativas de informação; eleições livres e idôneas; instituições para fazer com que as políticas governamentais dependam de eleições e de outras manifestações de preferência.

  Em obra mais recente, “Sobre a Democracia”, Dahl (2009, p.99 e 100) retoma essas condições, detalhando os arranjos institucionais necessários à democracia: “funcionários [governantes] eleitos”, para que os cidadãos possam ter controle sobre as decisões governamentais através da livre eleição de governantes;eleições livres, justas e frequentes”, com sufrágio universal e igual para todos os indivíduos; “liberdade de expressão”, que possibilita igual direito de dar e conhecer as opiniões; “fontes de informação diversificada”, que assegurem a informação e meios de comunicação independentes;autonomia para associações” oferece um espaço para discutir e deliberar sobre os assuntos políticos através da constituição de partidos, comitês e outras formas de organizações que fomentem a mobilização social; e “cidadania inclusiva”, pela qual nenhum desses direitos possa ser negado a adultos que possuam plena cidadania.

  O modelo de Dahl (1997) aponta critérios, cuja aplicação e eficácia, precisariam ser examinados em situações concretas, seguindo a advertência já sinalizada por Bobbio em “O Futuro da Democracia” (2000), relativamente às distâncias entre a democracia

  7 como modelo ideal e as democracias reais .

1.2. Democracia e Competição Política

  Na análise concreta da construção da democracia em diferentes contextos, muitos estudiosos destacam a constatação de caminhos e resultados distintos. Nesta perspectiva, Guillermo O’Donnell (1994, 1998 e 2007) observa que grande parte das teorias e tipologias sobre este regime são referentes às democracias representativas nos países capitalistas desenvolvidos.

  Na visão deste autor, alguns governos instalados na América Latina, após a queda dos regimes militares, e países pós-comunistas só são considerados democracias porque “cumplen com los criterios de Robert Dahl para la definición de poliarquía” (O’DONNEL, 1994, p. 8). No entanto, o autor destaca que a assunção desses critérios não garante o estabelecimento de democracias políticas ou poliarquias, visto que em alguns casos continuavam sob mandatos autoritários e, mesmo naqueles em que as eleições eram realizadas, não havia condições de competição livre e justa, exigidas pela classificação de Dahl.

  Nesse sentido, O’Donnel (1994) afirma que os regimes surgidos na América Latina pós-ditadura militar não são democracias representativas, nem estão a caminho de se tornarem, ele os considera uma “nova espécie” entre as democracias existentes, embora apresentem muitas semelhanças com outros tipos conhecidos, mas com variações. Sendo assim, o autor propõe uma nova terminologia para se referir a esses regimes, denominando-os democracias delegativas.

  Essas democracias não são institucionalizadas ou consolidadas, embora possam ser duradouras. A crise sócio-econômica herdada dos governos militares colaborou para 7 que muitas práticas referentes ao exercício da autoridade política não obedecessem a

  

Essa questão é tematizada por Bobbio (2000) em sua análise sobre as “promessas não cumpridas do

iluminsmo”, que seriam: Sociedade política, sem corpos intermediários, formada por indivíduos

soberanos, e não por grupos de interesse; Representação política em lugar de representação de interesses

privados; Fim do poder oligárquico e autocrático; Incapacidade de ocupar todos os espaços onde se

exerce um poder de tomar decisões vinculatórias para um grupo social; Eliminação do poder invisível

(máfia, serviços secretos incontroláveis, entre outros); e cidadão educado para prática e convívio critérios impessoais, impedindo que esses governos fossem conduzidos em direção à democracia representativa.

  Nessas democracias persistem traços autoritários herdados das ditaduras que as antecederam, sendo o presidente a personificação do país, submetido a poucas restrições políticas ou constitucionais, ou seja, tem garantido o direito de governar conforme julgar apropriado.

  Outro critério adotado por O’Donnell (1997) em sua análise sobre a democracia diz respeito à distinção entre interesses públicos e privados, e a necessidade do que denomina accountability, a qual se refere à “prestação de contas” ou transparência dos atos do governo junto a instâncias de controle interno (horizontal) e aos representados

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  (vertical) . Trata-se de um requisito próprio às democracias republicanas, pois nas democracias delegativas O’Donnell (1997) observa algumas especificidades.

  Nessas democracias a accountability vertical é assegurada mediante direito dos cidadãos exercerem o sufrágio e escolha daquele que irá governá-los por um período definido, além do direito de expressar livremente suas opiniões e reivindicações. Por outro lado, há debilidades na accountability horizontal, o quê demonstra que os

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  componentes liberais e republicanos dessas democracias são frágeis (O’DONNEL, 1998).

  Por esta via, o autor destaca que a accountability horizontal nas democracias delegativas não ocorre com a mesma intensidade que nas democracias formalmente institucionalizadas, podendo esta ser violada pela introdução de fraudes eleitorais; violação de direitos assegurados; não sujeição das autoridades à lei ou pela prioridade que elas podem conceder a interesses particulares em detrimento de interesses públicos (O’DONNEL, 1998). Pode se inferir que a ausência desses mecanismos de controle trazem desequilíbrios à competição política, ainda que estejam assegurados mecanismos de participação como eleição regulares e sufrágio universal.

  Este desequilíbrio afeta a incerteza política, própria às disputas democráticas. A este respeito, Prezworski (1984) destaca que numa democracia os resultados do 8 processo político são, de certo modo, indeterminados, ninguém pode ter certeza de que

  

A accountability horizontal corresponde ao controle dos governantes por agências estatais autônomas e

capacitadas para exercer o controle e aplicar sanções legais, enquanto a vertical se refere ao controle dos

9 representantes pelos representados (O’DONNELL, 1997).

  

Para O’Donnel (1998), as poliarquias são síntese de vários processos históricos que condensam três

correntes ou tradições: democracia, liberalismo e republicanismo. A democracia em seus impulsos de

igualação, o liberalismo com seu compromisso de proteção das liberdades privadas e o republicanismo

em sua severa visão das obrigações daqueles que governam, a começar pela distinção entre interesse seus interesses sairão vitoriosos em última instância. Sendo assim, todos os interesses devem ser submetidos à competição e a “incertezas previsíveis”, resultante de um pacto institucional que, na visão do autor, tornaria improvável as consequências resultantes de um processo político competitivo, altamente adverso aos interesses de qualquer agente específico (PREZWORSKI, 1984).

  Contudo, a realidade apresentada por O’Donnell (1997) demonstra como a fragilidade institucional das democracias delegativas possibilita o entrelaçamento entre interesses públicos e privados, afetando essa “incerteza previsível”, algo também abordado por Couto (2010) a guisa de reflexão sobre outra categoria, também importante para o presente estudo, à oligarquia, que ele associa a grupos que atuam continuamente no aparelho estatal, defendendo seus próprios interesses em detrimento do que desejaria a coletividade de modo a conservar posições de poder. Na definição desse autor, trata-se de

  [...] um regime organizacional no qual os indivíduos que detêm postos de comando conseguem agir continuamente de forma não subordinada aos princípios de legitimidade vigentes, pois não são controláveis pelos demais membros da coletividade organizada, podendo assim dirigi-la de modo a favorecer seus próprios princípios em detrimento do que desejam os demais e/ou do que são os princípios legítimos de funcionamento da organização (COUTO, 2010; p.14).

  Conforme destacamos, a competição política é um aspecto fundamental e ineliminável da democracia, na formulação dahlsiana, uma das mais prestigiadas na contemporaneidade, a concorrência política apresenta um conjunto de critérios que permitem distingui-las, mas que devem ser observados em casos concretos, como tarefa empreendida por O’Donnell (1994). O exame empírico confirma a ausência de percursos necessários ou “lineares” no processo de construção democrática. O caso do Brasil, caracterizado por Nunes (1997) enquanto “sincretismo institucional” é ilustrativo dessa situação.

  Analisando o que denomina a “gramática política brasileira”, Nunes (1997) fundamenta essa ideia destacando a presença simultânea de quatro distintos padrões de relações entre estado e sociedade, no caso, o clientelismo, corporativismo, insulamento burocrático e universalismo de procedimentos, cuja interação se dá em bases de tensão e concorrência.

  Nessa configuração é possível observar no Brasil que os processos políticos nem sempre correspondem suficientemente às exigências fixadas no modelo proposto por Dahl (1997), particularmente, no que concerne à garantia de eleições livres e justas, pois estas são afetadas pela assimetria de poderes políticos e econômicos à disposição dos competidores; o quadro de desigualdades sócio-econômicas que alimenta o clientelismo e compromete a independência dos eleitores; e o controle da mídia por agentes e grupos políticos privados. Acrescente-se a esses pontos a fragilidade dos controles democráticos por parte de instituições (tribunais, ministério público, etc.) voltadas à garantia do universalismo de direitos.

  Tais circunstâncias acentuam a pertinência da advertência de O’Donnell (1994, 1997 e 2007) quanto a não linearidade dos processos de construção democrática, incluindo aí as condições da competição política - ponto de maior interesse para o presente estudo. Também dão sentido para a consideração da categoria oligarquia nos

  10

  termos propostos por Couto (2010) , enquanto reprodução dos mesmos grupos no controle das posições de poder e, consequentemente, de limitações à competição política.

  10

  

Capắtulo 2. COMPETIđấO POLễTICA NO MARANHấO: PARTIDOS,

GRUPOS POLÍTICOS E RESULTADOS ELEITORAIS

  A competição política tem se constituído um tema clássico e presente, passando por abordagens filosóficas e normativas e teorias sociopolíticas, sendo admitida como um aspecto central das sociedades democráticas nas quais diferentes setores disputam postos institucionais de mando, autoridade e prestígio. Como apontado no capítulo 1, a coexistência de visões e interesses díspares gera situações de conflitos, perceptíveis em antinomias como: ordem/desordem; conservação/transformação; amigo/inimigo; unidade/facção; governo/oposição; maioria/minoria. Deste modo, o conflito expressa um aspecto fundamental da política e dos sistemas democráticos, em particular, sendo o reconhecimento de oposições parte essencial de sua caracterização.

  Neste sentido, a democracia moderna visa o aperfeiçoamento de suas instituições como forma de regular os conflitos sociais através de sistemas políticos competitivos, onde se observe a realização de eleições como fonte de legitimação dos representantes e a organização de partidos políticos enquanto canalizadores de demandas sociais específicas. A esse respeito as análises de Manin (1995) corroboram teses já identificadas por numerosos estudiosos segundo as quais a competição partidária tem passado por diferentes formatações ao longo do tempo, de modo que os partidos políticos perderam o estatuto de principais ordenadores de identidades e preferências do eleitorado, provocando uma mudança nas relações entre representantes e representados sendo a competição conduzida, menos pelos partidos e mais pela mídia e agentes performáticos orientados por especialistas que disputam eleitores sem partidos ou ideologias definidos. Neste contexto ocorre uma espécie de deslocamento entre agentes da competição e clivagens sociais e a competição passa a exigir um conjunto de recursos que não são igualmente acessíveis aos competidores.

  Ressalte-se, além disso, que as condições para o funcionamento de um sistema de contestação pública dependem da dinâmica interna de cada arranjo político. No Brasil, embora se observe num plano mais geral as exigências fixadas por padrões de competição que Robert Dahl (1997) associa às poliarquias, tais como representantes eleitos, eleições livres, justas e frequentes, liberdade de expressão e associação, fontes de informação diversificadas, cidadania inclusiva e instituição organizadora isenta, verifica-se, por outro lado, a persistência de um conjunto de fatores como inobservância de leis, desigualdades sociais, políticas e econômicas, que desestabilizam as disputas e introduzem elementos de parcialidade na democracia, particularmente na esfera da representação política.

  Nessa linha, faz-se compreensível a afirmação de Nicolau (2012) de que, a despeito de termos partidos e eleições desde 1824, “somente nos anos de 1980 o sistema representativo brasileiro se encontrou com a democracia”. Acrescente-se ainda que os desencontros implícitos nesta afirmação não se distribuem igualmente no espaço e tempo, podendo ser mais ou menos acentuados em determinadas épocas ou regiões.

  Acionando tais premissas para análise das disputas político-eleitorais no Maranhão, observa-se que a ocorrência de desigualdades políticas e econômicas entre os oponentes favorece o controle da política estadual por um mesmo grupo, mediante ocupação de posições estratégicas no Executivo, Legislativo e Judiciário estadual, no governo federal e na mídia. Esses elementos comprometem as disputas no estado, dificultando a alternância política, vez que este grupo age continuamente para se manter

  11 nos principais cargos eletivos do estado, utilizando-se, inclusive, de meios extralegais .

  Mesmo não se tratando de um grupo isento de tensões e rupturas, estes fatores são mitigados pela existência de um núcleo que se preserva coeso, composto por integrantes de uma mesma família, liderada por José Sarney, e que controla consideráveis recursos de poder, capazes de atrair e manter sob sua influência agentes políticos.

  Apesar deste domínio ser contestado na política local por oposições, a falta de 11 isonomia nas condições de disputa, a flagrante desproporção dos recurso de poder entre

  

Termo tomado de empréstimo da obra Coronelismo, Enxada e Voto em que Leal (1993) se refere à

autonomia dos coronéis para agirem em conformidade, ou não, com a lei. Como exemplo da utilização de

mecanismos extralegais que contribuíram para sustentação do grupo Sarney na política estadual, pode-se

citar as eleições de 1994, quando a vitória de Roseana Sarney contra o candidato Epitácio Cafeteira,

apontado como favorito pelas pesquisas de opinião, foi definida no segundo turno com um placar

apertado e forte denúncia de fraude (a urna ainda não era eletrônica). De acordo com Conceição (2000, p.

46) em pesquisa realizada pelo Instituto Vox Populi “a influência de Cafeteira superava a de Sarney no

estado [...] Roseana Sarney detinha o maior índice de rejeição (46 contra 36%), perdia no voto estimulado

(43 contra 51%), no voto espontâneo (51 a 42%) e na escolha da cédula (50 contra 43%)”. Conforme este

autor, a pesquisa revelava que Cafeteira já tinha herdado a maioria dos votos de Jackson Lago (PDT) e de

Francisco das Chagas (PSTU), mesmo assim o candidato perdeu as eleições. Outro caso que merece

destaque ocorreu nas eleições de 1998, quando Roseana Sarney casou-se novamente com Jorge Murad,

vinte dias depois de ter se divorciado, como forma de impedir seu cunhado, Ricardo Murad, que nesse período fazia oposição ao grupo Sarney, de disputar o Governo do Estado, tornando-o inelegível. os concorrentes contribui para que estas últimas venham sendo sistematicamente derrotadas nas urnas, limitando a incerteza, amplamente reconhecida como inerente a disputas que se pretendam democráticas (PREZWORSKI, 1984). A esta debilidade eleitoral deve-se acrescentar o fato de grande parte das mais destacadas lideranças oposicionistas ser oriunda do grupo dominante.

  Esses fatores permitem observar no cenário político maranhense componentes oligárquicos, próximos aqueles identificados por Michels (1982) em seu clássico estudo sobre os partidos políticos, especialmente, os referentes à estabilidade do pessoal dirigente; as relações com a imprensa, diretas e pessoais; e, a inexistência de uma renovação efetiva das elites, vez que os novos líderes são recrutados no próprio grupo dirigente.

  O estudo de Leal (1993) sobre o coronelismo também nos permitiu traçar um paralelo com a política maranhense e avaliar suas características oligárquicas, embora este não seja o foco do seu trabalho o autor oferece elementos para sua compreensão ao esboçar um panorama do governo representativo no Brasil e identificar componentes oligárquicos em seu funcionamento, o que nos possibilitou estabelecer certa correspondência com a política maranhense, apesar da distância temporal que separa os cenários pesquisados.

  Leal (1993) apresenta um quadro de intensa centralização política, no qual o processo eleitoral é conduzido por intervenção do governo estadual, que garante aos chefes políticos locais amplos poderes para agirem em conformidade, ou não, com a lei e estes, em contrapartida, garantem os votos de que os líderes estaduais necessitam. Neste cenário, as eleições são mistificações, vez que não há uma disputa efetiva, pois quem conta com apoio do governo sempre vence e, mesmo quando um grupo de oposição sai vitorioso nas disputas locais, ele adere ao governo estadual e passa a contar com os recursos do Estado nas eleições seguintes (LIMONGI, 2012). Assim, configura- se um quadro de competição restrita e forte concentração de recursos eleitorais, vez que a renovação política não passa da mera circulação de nomes entre os grupos que dominam a política local e quem possui o apoio do governo garante o êxito nas disputas eleitorais.

  Nesta perspectiva, julgamos pertinente relacionar à política maranhense aspectos relativos ao poder do governismo para manutenção de grupos políticos no comando do executivo estadual, especialmente, do grupo Sarney que, através de seus agentes, vem se sustentando nesta posição por um longo período. O controle do governo estadual tem permitido a esse grupo não apenas manter-se em importantes cargos e funções, como também contribui para neutralizar uma ação mais vigorosa das oposições nas disputas eleitorais, dada a assimetria de recursos políticos e econômicos entre os concorrentes. Ressalte-se, entretanto, que as oposições quando tiveram oportunidade também se valeram dos recursos governamentais para garantir êxito eleitoral e o comando da política estadual.

  Deste modo, apesar da cautela que a relação entre o quadro descrito por Leal (1993) e a política maranhense exige, a influência do governismo tem sido decisiva para os resultados eleitorais e a consequente estruturação da representação política em bases oligárquicas no estado, configurando um cenário onde quase não há alternância política, a “renovação” não passa da circulação de nomes pertencentes ao mesmo grupo e quando aconteceu o deslocamento desse grupo do principal espaço de poder político local (o governo estadual), foram acionadas estratégicas relações nacionais para recuperar sua posição na política estadual. Contudo, cabe destacar que o grupo dominante não chega a ter o monopólio da representação política e se verifica índices consideráveis de competição eleitoral, com vitórias sendo definidas por pequenas margens de diferenças, o que também não contraste com o cenário descrito por Leal (1993).

  Feitas essas considerações, nos dedicamos, neste capítulo, à análise empírica da competição político-eleitoral e partidária no estado do Maranhão, destacando o desempenho e as posições ocupadas pelos autodenominados oposicionistas, caracterização também assumida no presente estudo. Estas questões serão abordadas em duas seções: a primeira apresenta uma breve caracterização da dinâmica política recente no estado, destacando os agentes e suas respectivas posições e recursos de poder; e a segunda, dedicada às disputas e resultados eleitorais ao longo desse período (1982 a 2010).

2.1. A Dinâmica Política no Estado

  As disputas políticas no Maranhão vêm se estruturando em torno de grupos que, com relativa estabilidade, sustentam as posições ou lugares de governo e oposição. Desde meados da década de 1960, os grupos que configuram esta tendência são, de um lado, o grupo Sarney, representante do governismo no estado durante, praticamente, todo período analisado, no qual vem ocupando importantes posições de poder; por outro lado, os grupos que se opõem a este predomínio, autodenominados oposição. O quadro se configura, então, como uma polarização em dois grupos principais, o que não caracteriza um fenômeno novo na política estadual, nem isolado, na política nacional. Só pra ilustrar o caso em foco com episódios próximo dos dias atuais, também foi verificada no período de 1945 a 1965, quando o grupo liderado pelo senador Vitorino Freire comandou a política no estado por vinte anos e, contra o qual, formou-se uma ampla frente de contestação.

  Existe generalizada aceitação entre estudiosos, na mídia e em círculos de militantes da ideia de que em 1945 iniciou-se na política maranhense uma espécie de retorno à “república velha” (1889 a 1930), marcada pelo predomínio de oligarquias em luta pelo controle da política local. Neste cenário, o domínio do grupo liderado pelo senador Victorino Freire, sustentava-se com recursos diferenciados, entre eles, a manutenção de um grupo coeso (ainda que não homogêneo), prestígio junto ao governo federal, controle direto sobre o partido governista (PSD) e acionamento de recurso

  12

  extra-legais , como violência e fraude eleitoral. Segundo José Sarney, um domínio que se mantinha pelo controle da violência e do fisco (BUZAR, 1998).

  O domínio vitorinista foi bastante contestado por opositores agrupados no que denominavam “Oposições Coligadas”, uma aliança política bastante heterogênea, tanto socialmente quanto em nível partidário, incluindo desde setores de esquerda a políticos tradicionais alijados do poder. Esta frente alcançou destacado êxito eleitoral com a vitória de José Sarney ao governo do estado em 1965, período que inicia a perda de influência de Freire na política nacional e maranhense.

  Destaque-se que a inserção de Sarney na política estadual se deu por intermédio de Victorino Freire, mediante pedido de seu pai, que era desembargador, ao senador pessedista . Apesar desse início com Freire, com quem rompeu posteriormente, Sarney construiu sua carreira política na UDN, partido integrado às “Oposições Coligadas”, e suporte civil ao golpe militar de 1964 (BUZAR, 1998 e COSTA, 2006).

12 Expressão utilizada no sentido empregado por Victor Nunes Leal (1993), referente a uma espécie de

  

autorização tácita que o governo transmitia aos coronéis ao dotá-los de plenos poderes para chefiar a

  Segundo Costa (1997, p.05) a vitória de José Sarney para o executivo maranhense foi favorecida pela ditadura militar recém-instalada, que desencadeou forte onda repressiva a setores nacionalistas e de esquerda, atingindo as principais lideranças

  13

  14

  oposicionistas do estado (Maria Aragão e Neiva Moreira ), e credenciando José Sarney, que tinha uma postura política mais moderada, às disputas estaduais de 1965 pelas “Oposições Coligadas”. Essa situação também foi favorecida pela divisão no grupo vitorinista, resultante do desacordo na indicação do candidato para o governo do estado pelo partido governista (PSD) e pelo apoio do governo do Marechal Castelo Branco à candidatura de Sarney.

  A vitória de Sarney e o consequente deslocamento de Victorino Freire do centro da política maranhense contribuíram para que o primeiro estruturasse suas próprias bases políticas, as quais, entretanto, não consolidaram de imediato seu domínio na política estadual, o que só veio a ocorrer em fins dos anos 1970, mais precisamente nas eleições de 1978, quando conseguiu eleger indiretamente o governador, os senadores e a maioria dos deputados, contando sempre com suas relações e acesso privilegiado ao governo federal (COSTA, 1997).

  A ascensão de Sarney na política maranhense, e o consequente declínio de Freire, não caracterizou uma mudança no padrão de atuação política no estado, cujo legado vitorinista é considerado como “atrasado” política e economicamente. Por seu lado, o governo Sarney é (auto)associado a iniciativas modernizantes como a constituição de um aparato burocrático criado especificamente para essa tarefa (SUDEMA- Superintendência de Desenvolvimento do Maranhão) e mecanismos de planejamento de desenvolvimento regional (I Programa de Governo do Estado do Maranhão, SUDEMA) (CABRAL, 1997; GONÇALVES, 2000). Acrescente-se também 13 inovadores investimentos em infraestrutura, como a construção da hidroelétrica de Boa

  

Maria José Camargo Aragão (1910-1991): Natural de São Luís (MA),foi médica e professora, formada

pela Universidade do Brasil (Rio de Janeiro). Destacou-se na política maranhense por seu protagonismo

14 nas lutas sociais, fazendo história como líder do Partido Comunista do Brasil (PCB) no estado.

  

José Guimarães Neiva Moreira: Natural de Nova Iorque, interior do Maranhão, jornalista que atuou em

diversos jornais como A Pacotilha, Diário de Notícias e Diários Associados, ambos no Rio de Janeiro.

Iniciou sua carreira política em São Luís após integrar o Jornal O Povo, ligado às oposições coligadas,

grupo que combatia o PSD de Vitorino Freire. Neiva Moreira foi eleito para Assembleia Legislativa e

para Câmara Federal, tendo conquistado grande popularidade por conta de sua atuação parlamentar e de

sua carreira jornalística. Durante a ditadura militar foi exilado e perdeu seus direitos políticos. Com a

extinção do bipartidarismo em 1979 e a reforma democrática de 1980, filiou-se no PDT, partido fundado Esperança, Porto do Itaqui e Barragem do Bacanga; além de estímulos a “grandes

  15 projetos agropecuários” .

  Apesar desses incrementos “modernizantes”, expressos no projeto “Maranhão

16 Novo” , Costa (1997) qualifica essa modernização como “conservadora”, associando

  esse processo à expansão do capitalismo em escala nacional e internacional, sendo as medidas adotadas por Sarney uma adaptação cujos rumos e objetivos não se definiam no âmbito interno. Para esse autor, (1997, p. 08) o governo local

  [...] buscou se situar nesse processo, adotando uma prática e um discurso desenvolvimentistas, procurando reservar para si determinadas funções de mediação entre o Estado e os interesses privados, através da adaptação da estrutura do governo estadual e sua utilização patrimonial, ao mesmo tempo em que subordinava, de forma muito estreita, a ‘máquina’ do Estado aos interesses da acumulação de capital. (COSTA,1997, p. 08)

  No curso desta “modernização conservadora”, Sarney ampliou os recursos de

  17

  dominação patrimonial com vistas ao fortalecimento do seu poder pessoal e consolidação de um grupo político sob o seu comando. Este grupo ampliou seu domínio através de vários recursos, como: controle sistemático sobre cargos eletivos; influência

  18

  no poder judiciário; controle sobre os principais meios de comunicação do estado ; considerável poder econômico; ampla rede de aliados e dependentes que opera em bases clientelistas; domínio sobre grandes partidos e outros com potenciais chances de crescimento; bases de apoio em todo estado; controle de posições estratégicas em âmbito federal, incluindo a ocupação do cargo de presidente da república por cinco 15 anos; e outros recursos de poder (BORGES e FERREIRA, 2011).

  

Em referência aos “grandes projetos agropecuários”, Costa (1997, p.09) observa que eles foram

priorizados em prejuízo de pequenos produtores rurais que, segundo o autor, “ampliou o espaço para a

16 grilagem com apoio do governo do Estado e para a venda de terras devolutas a grupos privados”. 17 A este respeito ver Costa (1997) e Gonçalves (2000 e 2008).

  

O tema do patrimonialismo na concepção weberiana repousa sobre a ideia de confusão entre o público

e o privado, sendo considerado um modo de exercício legítimo de poder político que se baseia no tipo de

“dominação tradicional”. Para Weber (1971) a dominação é um tipo específico de poder, no qual os

18 dominadores afirmam e acreditam em sua autoridade com a aquiescência dos dominados.

  

No Maranhão, o Sistema Mirante, de propriedade da família Sarney, controla 22 veículos de

comunicação, incluindo a Rede Mirante de Televisão com três concessões de TV, afiliadas da Rede

Globo, as rádios Mirante AM e Mirante FM, com retransmissoras para todo estado, e o jornal O Estado

do Maranhão, de maior circulação no estado. O Sistema Difusora de Comunicação, propriedade da

família do senador Edison Lobão, controla duas emissoras de TV, afiliadas do SBT, e cinco rádios (AM e

FM) na capital e interior. Os irmãos, Manuel Ribeiro (PTB) e ao deputado federal, Pedro Fernandes

(PTB), são sócios do Sistema Maranhense de Rádiofusão, que possui uma concessão de TV, afiliada da

TV Bandeirante, e duas rádios no interior do estado. Por outro lado, o Grupo do deputado federal Luís

Rocha (PSDB) possui três rádios FM no estado, e uma TV, afiliada da TV Record.

  O controle desses recursos tem garantido ao grupo Sarney relativa autonomia na política maranhense, comprometendo o sistema de “prestação de contas” entre as instâncias de controle interno (accountability horizontal), isto porque além de conquistar amplas maiorias para o legislativo estadual (1982-2010), este grupo vem exercendo influência no judiciário e outros órgãos de fiscalização, através de uma ampla rede de aliados. Além destes expedientes, a propriedade privada dos principais meios de comunicação do estado potencializa o predomínio desse grupo na política estadual, apresentando os agentes vinculados ao mesmo como os principais responsáveis pelas políticas federais no Maranhão, valendo-se de prestígio, acessos e posições conquistadas nesse âmbito.

  O domínio e a distribuição seletiva desses e de outros recursos, materiais e imateriais, tem permitido ao grupo Sarney comandar a política maranhense, em bases oligárquicas, tese que justificamos pela longa permanência de “uma minoria entrincheirada no aparato governamental”, que age continuamente para se manter na posição de governante, favorecendo seus próprios interesses (COUTO, 2010). Nesse sentido, observou-se que entre 1982 e 2010 o grupo Sarney conquistou praticamente todas as vagas para o executivo estadual, elegeu quase todos os senadores e conquistou amplas maiorias para Assembleia Legislativa e Câmara Federal, conforme detalharemos na próxima seção.

  Um elemento que permanece recorrente e decisivo para sustentação desta posição de poder tem sido as relações que este grupo mantém em âmbito federal, vez que seus integrantes mais destacados atuam como mediadores privilegiados dos interesses locais nesse espaço e vice-versa. Em estudo sobre a política maranhense em fins do sec. XIX, Reis (2007) destaca o papel central dessa mediação nas relações entre os chefes locais, o empresariado comercial e o estado, estruturando um conjunto de relações políticas do tipo oligárquico.

  Em abordagem mais recente, Costa (1997) observa a importância dessas mediações no processo de modernização econômica e administrativa do estado durante o governo Sarney (1966-1971). Segundo o autor, as articulações entre estado e interesses privados e a utilização patrimonial da máquina pública constituem nesse período a base do que ele classifica como oligarquia modernizante, noção que permite associar esse processo de modernização à integração do estado na economia nacional sob a égide do capital monopolista, que em sua perspectiva “(re)constrói as relações autoritárias e aprofunda as desigualdades sociais” (COSTA, 1997, p. 03).

  Endossamos a noção de política de máquina como sendo mais um aspecto do padrão de atuação do grupo Sarney na política estadual. Conforme análise formulada por Diniz (1982), as máquinas são centralmente controladas e se apresentam como “grupos no poder”. Para esta autora, elas se caracterizam como organizações baseadas no poder de atração de recompensas materiais, tais como: acesso a empregos e cargos na administração pública, viabilizados pelo tráfico de influências; obtenção de privilégios de todos os tipos com objetivo de assegurar ampla rede de dependentes.

  Nos termos acima, admitimos a política oligárquica e de máquina como modus

  

operandi e meio de controle da política local pelo grupo Sarney. Ressalte-se, entretanto,

  que o domínio deste grupo e sua forma de conduzir as políticas públicas tem sido alvo de contestação por amplos segmentos que envolvem lideranças políticas, partidos, movimentos sociais e outros que competem com o grupo Sarney nas diversas disputas. Denominamos esses segmentos como oposições, consideradas aqui no plural, por que não se trata de um grupo coeso ou bem articulado, que segue uma orientação ideológica definida; trata-se de uma composição política heterogênea, reunindo agentes que historicamente militaram nas oposições, outros procedentes do grupo Sarney e aqueles que transitam entre um e outro.

  A contestação protagonizada por esses segmentos envolve elementos variados tanto no seu conteúdo quanto na “autenticidade” e legitimidade da oposição e seus agentes, visto haver entre estes opositores radicais e de longa data e outros mais recentes e de motivações circunstanciais. Em razão dessa variedade, a unidade interna desses segmentos é bastante frouxa, tendo as aqui chamadas oposições um perfil muito mais acusatório e reativo ao grupo Sarney do que um programa ou ideologia próprios, ainda que se observe permanente esforço de demarcação de um campo que lhe confere identidade.

  Um dos principais elementos constitutivos desse campo reside nos embates interpretativos em torno da situação socioeconômica e política do estado. A este respeito, é importante destacar, que apesar da convergência entre os discursos de oposicionistas e integrantes do grupo Sarney no que concerne à defesa da “modernização”, estes últimos chamam para si a autoria de todas as iniciativas modernizadoras do estado, enquanto os oposicionistas enfatizam o “atraso do Maranhão”, responsabilizando o grupo Sarney pela pobreza e baixos indicadores sociais

  19

  do estado . É comum nessa disputa a crítica oposicionista ao que nomeiam “40 anos de domínio da oligarquia Sarney”, enfaticamente acionada na política estadual por estes agentes, em especial, nos períodos eleitorais.

  Ilustram essas (o)posições frase do tipo :

  Foram eles [grupo Sarney] que jogaram o Maranhão na miséria ao longo de quarenta anos [...]. (A Balaiada, São Luís, 12 de dez. de 2008, nº 03). Ele [Sarney] é o coronel, o oligarca, o candidato a faraó, o mesmo que começou sua vida política por meio da fraude eleitoral. (A Balaiada, São Luís, 14/15 de dez. de 2008, nº 04). [...] Sarney e seu grupo político [responsáveis] pelo atraso e pela pobreza que submeteram o estado durante quase quatro décadas. (Jornal Pequeno, São Luís, 27 de jul. de 2004, p. 03).

  Considerando também esse embate discursivo, identificamos as oposições mais como um lugar simbólico do que um grupo coeso com agentes e práticas definidos, dado o trânsito que existe na política estadual entre os chamados governismo e oposição, e semelhanças no âmbito dos discursos e práticas. Isto reforça nossa afirmativa de que não são as lideranças individuais nem os partidos que asseguram a consistência ao campo oposicionista, embora alguns a expressem com maior força e longevidade. Essa consistência advém, antes de tudo, do fomento a espaços de contestação ao grupo Sarney.

  Destaque-se que ao longo dos anos vários nomes se sobressaíram na oposição a este grupo, entre eles, João Castelo, principal referência durante a década de 1980; Epitácio Cafeteira, polarizou duas campanhas governamentais na década de 1990, ruidosamente disputadas com Roseana Sarney; José Reinaldo Tavares, após romper 19 com esse grupo viabilizou a eleição de Jackson Lago, o qual trilhou longa trajetória 2 O Estado do Maranhão possui 217 municípios distribuídos numa área de 331. 937. 450 Km . É o

  

segundo maior estado da região nordeste e possui o quarto maior PIB da região, no entanto, o Índice de

Desenvolvimento Humano do estado é de 0, 683, semelhante ao Brasil na década de 1980, apresentando a

segunda pior expectativa de vida do país. Conforme dados do IBGE, a incidência de pobreza no

Maranhão chegava a 56, 38%, em 2003; e, apenas 35,4% da população vivia em domicílios com

segurança alimentar, em 2009. Conforme este instituto, o Maranhão possuía o maior número de crianças

entre oito e nove anos de idade analfabetos no país, em 2009, quase 40% das crianças do estado nessa

faixa etária, não sabiam ler nem escrever, enquanto que a média nacional é de 11,5%. Em outra pesquisa

realizada pelo IMESC (Instituto Maranhense de Estudos Sócio-Econômicos e Cartográficos) observou-se

que, em 2008, 742.044 famílias no Maranhão eram beneficiárias do programa do governo federal, “Bolsa como oposicionista, sendo o único que sustentou suas posições em estrutura partidária (PDT) permanente e com forte presença na capital do estado (COSTA, 1997; CONCEIđấO, 2000 e BORGES e FERREIRA, 2011).

  Interessante notar que, de um modo ou de outro, todos estes oposicionistas tem um histórico de vinculações ao grupo Sarney que vão além das adversarialidades. João Castelo entrou na política por intermédio de Sarney, de quem foi aliado por longo tempo, tendo, inclusive, exercido o cargo de governador entre 1979 e 1982; mas afastou-se de Sarney após a fracassada tentativa de indicar seu sucessor para o governo

  20

  do estado, rompendo à direita com o mesmo quando este abandonou o PDS e foi fundar o PFL em 1984 (COSTA, 1997).

  Epitácio Cafeteira marcou sua atuação na política local com idas e vindas entre situação e oposição. Foi prefeito de São Luís (1965-1969) ocasião em que se colocou na oposição a José Sarney. Em 1986 foi celebrada uma espécie de reconciliação e Cafeteira foi eleito governador com apoio do grupo Sarney. Em 1990, voltou à oposição, sendo eleito senador em ampla composição que tinha João Castelo como candidato ao governo. Em 1994 e 1998 polarizou as disputas para o governo do estado com Roseana Sarney, mas perdeu os dois pleitos, embora tenha havido graves denúncias de fraude no primeiro (CONCEIđấO, 2000). Em 2006, Cafeteira reatou com o grupo Sarney que o apoiou em eleição para o senado (COSTA, 1997; BORGES e FERREIRA, 2011).

  José Reinaldo Tavares tem sua trajetória política fortemente marcada pelos vínculos com José Sarney e seu grupo político. Entre os cargos eletivos que ele assumiu no estado, destacam-se o de vice-governador por dois mandatos consecutivos (1994 e 1998) em chapas lideradas por Roseana Sarney e o de governador, eleito em 2002 com apoio deste grupo, após acirrada disputa com o candidato oposicionista Jackson Lago. Apesar do longo vínculo que mantinham, José Reinaldo rompeu com este grupo em 2004, após desentendimentos com Roseana Sarney e seu irmão, o empresário Fernando

  21 20 Sarney .

  

Uma das conotações que os termos direita e esquerda adquiriram no Brasil refere-se ao apoio ou não à

ditadura militar (TAROUCO, 2011). Embora Sarney tenha sido destacada liderança civil no apoio a esse

regime, ante aos sinais de seu esgotamento assumiu um discurso de ruptura com esse regime e aliança

com setores que empreenderam a oposição aos governos militares à época representados na disputa

21 eleitoral através da candidatura de Paulo Maluf.

  

Estes desentendimentos estavam relacionados às matérias divulgadas pelos meios de comunicação da

  Quanto a Jackson Lago, embora seu partido tenha apoiado informalmente o candidato do grupo Sarney para o governo do estado em 1986, e da aproximação com

  22 Roseana Sarney na sua campanha a prefeito em 2000 , Lago apresenta uma longa

  trajetória de participação política na oposição, tendo sido eleito por três vezes prefeito da capital (1988, 1996 e 2000), que recebe a denominação de “Ilha Rebelde”, entre outros fatores, pelas sistemáticas derrotas de candidatos a prefeito vinculados ao grupo

23 Sarney .

  Lago participou de quatro eleições para o governo do estado (1994, 2002, 2006 e 2010), vencendo a penúltima contra Roseana Sarney e com o apoio do então governador José Reinaldo Tavares. Em abril de 2009, entretanto, teve seu mandato cassado pelo poder judiciário, sob acusação de ter sido beneficiário de abuso de poder político e

  

metropolitana, órgão administrativo do estado, que era dirigida por Ricardo Murad, cunhado de Roseana

22 Sarney (O Estado do Maranhão, São Luís, 03 de março de 2004, p.03).

  

A aproximação entre Jackson Lago e o grupo Sarney em 2000, deve-se à parceria institucional firmada

entre PDT e PFL, que combinava as eleições de 2002, quando Roseana Sarney seria candidata à

Presidência da República e Jackson ao Governo do Estado, no entanto com a polêmica em torno da

“Operação Lunus”, Roseana desistiu da sua candidatura à presidência e Jackson Lago retornou à oposição

(Blog Marrapá, ano 03. Disponível em: http://www.marrapa.com/tag/morte-de-jackson-lago/page/2/ ,

acessado em 12 de fev. de 2013). . Registre-se que a “Operação Lunus” foi realizada em março de 2002,

ocasião em que foram encontrados R$1.340.000,00 não declarados, em notas de R$ 50,00 na empresa

23 “Lunus Participações”, da qual Roseana Sarney era sócia e seu marido, Jorge Murad, administrador.

  

As oposições vêm impondo sistemáticas derrotas aos candidatos vinculados ao grupo Sarney nas

disputas para a prefeitura de São Luís, conforme demonstram os dados a seguir, que apresentam os

resultados eleitorais a partir das eleições de 1985, ano em que foram reintroduzidas as eleições diretas

para prefeitos de capitais estaduais, áreas de segurança e instâncias hidrominerai:em 1985, a principal

candidata de oposição ao grupo Sarney foi Gardênia Gonçalves (PDS), que ganhou as eleições com 36,

7%, contra 31, 87% dos votos alcançados pelo candidato vinculado a este grupo, Jaime Santa (PFL); em

1988, Jackson Lago (PDT) venceu com 43, 57% dos votos válidos, em relação ao candidato vinculado ao

grupo Sarney, Carlos Guterres (PMDB), que obteve 37, 81% dos votos; em 1992, Conceição Andrade

(PSB) venceu com 56, 93% contra 31, 92% dos votos obtidos pelo candidato sarneísta, João Alberto

(PFL); em 1996, as eleições foram polarizadas por dois oposicionistas ao grupo Sarney, Jackson Lago

(PDT) que obteve no primeiro turno a maioria dos votos 48, 1% , contra 36,7% alcançados por João

Castelo (PPB), quanto ao candidato do grupo Sarney, Pedro Fernandes (PSD), obteve apenas 7,4% dos

votos válidos; em 2000, a eleição foi definida ainda no primeiro turno com a vitória de Jackson Lago

(PDT) com 53, 2%, contra 30,5% dos votos obtidos pelo oposicionista João Castelo (PSDB), nesta

eleição o candidato sarneísta, José Raimundo Rodrigues (PTB), obteve apenas 9,5% dos votos; em 2004,

as eleições foram novamente polarizadas por oposicionistas ao grupo Sarney, sendo definida ainda no

primeiro turno com a vitória de Tadeu palácio (PDT) com 50,2% , contra 33,5% de João Castelo (PSDB),

tendo o candidato vinculado ao grupo Sarney, Ricardo Murad, recebido apenas 7,7% dos votos válidos; e,

em 2008, as oposições detiveram as maioria dos votos, com a eleição sendo definida no primeiro turno

com a vitória de João Castelo (PSDB) com 33,5% dos votos, contra 43,12% dos votos alcançados por

Flávio Dino (PCdoB) e 9,46% dos votos obtidos por Clodomir Paz (PDT), nesta eleição os candidatos

vinculados ao grupo Sarney (Raimundo Cutrim, DEM; Gastão Vieira, PMDB; e, Waldir Maranhão, PP) econômico praticado pelo governador do estado. Com a cassação de Lago, Roseana Sarney passou a ter mais da metade dos votos válidos das eleições de 2006, e foi empossada como governadora para um terceiro mandato.

  Esses casos são representativos da plasticidade do campo oposicionista, demonstrando o trânsito dos agentes entre governo e oposição, mas também destacam como esses oposicionistas são recrutados em círculos restritos.

  Sem grande expressão eleitoral, partidos de esquerda como o PT (até 2001) PCB, PPS, PSB e de extrema esquerda, PSTU e PSOL, também compõem o campo de oposição ao domínio do grupo Sarney. PCdoB tem tido posicionamentos mais oscilantes: manteve alianças eleitorais com o grupo dominante desde 1986 e, a partir da

  24

  campanha de Flávio Dino para o governo do estado, em 2006, contra Roseana Sarney, tem se colocado na oposição.

2.2. Dinâmica Eleitoral: grupo Sarney x Oposicionistas nas Urnas

  Nesta seção analisaremos a distribuição e ocupação de cargos eletivos entre agentes políticos no Maranhão no período de 1982 a 2010. Partimos do pressuposto já discutido de que existe uma polarização na política estadual entre o grupo Sarney e oposicionistas, intensificada nos períodos de disputas eleitorais. Observa-se que o grupo dominante vem controlando importantes cargos eletivos, através dos maiores partidos políticos do estado (e no âmbito nacional). Em contrapartida, as oposições têm sido sistematicamente derrotadas nas urnas e vêm se alojando em legendas de menor expressão eleitoral.

  Destaque-se que no Maranhão são os grupos políticos que estruturam as disputas eleitorais, diferente do que preconizam modelos de democracia representativa (MANIN, 24 1995; MIGUEL, 2003) onde os partidos seriam os principais agentes de organização e

  

Atualmente, Flávio Dino tem ocupado o espaço de principal nome da oposição no Maranhão. Inserido

recentemente na política estadual, como deputado federal eleito pelo PCdoB em 2006, sua ascensão à

condição de destacado oposicionista se fez nas disputas eleitorais para prefeitura de São Luís em 2008

quando obteve uma votação considerável, e na eleição para o governo estadual em 2010 da qual saiu com

o segundo lugar 29, 48% dos votos contra 50,08% de Roseana Sarney, afirmando-se, então como um

nome bastante competitivo. Nas duas disputas mencionadas, sobretudo em 2010, Dino assumiu a

condição de crítico ao grupo dominante, em parte por ser induzido a essa posição pelas estratégias dos

adversários, pois na eleição da capital a polarização sarneistas/oposicionistas tem sido constante desde

1985 e, na eleição estadual de 2010, a polarização com Roseana Sarney o colocava, forçosamente, nessa representação de interesses de sociais específicos, incluindo o recrutamento e a orientação de lideranças políticas. Neste sentido, muitos estudos têm sido enfáticos em apontar a fragilidade do sistema partidário brasileiro, destacando o personalismo (MAINWARING, 2001), a inconstância de suas bancadas (MELO, 2000) e a baixa identificação de eleitores com partidos (KINZO e CARREIRÃO, 2004; BRAGA e JR. PIMENTEL, 2011). Apesar dessa fragilidade, os partidos não perderam de todo o papel de organizadores da competição eleitoral, vez que a candidatura só pode ser viabilizada através deles; podem carrear recursos financeiros, a começar pelo fundo partidário e têm o controle do tempo de rádio e TV destinados à propaganda partidária.

  Em estudo sobre os partidos políticos no Maranhão entre 1982 e 2010, Borges e

  25 Ferreira (2011) observaram a presença de 39 partidos nas disputas eleitorais, número

  compatível e até abaixo da profusão de organizações partidárias criadas, sobretudo, nos anos 1990 (NICOLAU, 1996; FERREIRA, D. P.; BATISTA C. M.; STABILE, M, 2008). Estes partidos foram: PAN, PCB, PCdoB, PDC, PDS, PDT, PFL/DEM, PGT, PHS, PL, PMDB, PMB, PMN, PP, PPB, PPR, PPS, PR, PRB, PRN, PRP, PRTB, PSB, PSC, PSD, PSDB, PSDC, PSL, PSN, PSOL, PST, PSTU, PT, PTB, PTC, PTdoB, PTN, PTR e PV.

  Mas, assim como no restante do país e nas esferas de representação nacional, apesar da grande oferta partidária verificada nesse período, o número de partidos que realmente contam, ou seja, aqueles que se mantém nas disputas, possuem força eleitoral e conquistam postos eletivos é bem reduzido. No universo de 39 partidos, apenas 09 se

  26

  destacaram nesses quesitos: PDS/PFL/DEM , PDT, PMDB, PSD, PTB, PSB, PSDB,

27 PV e PDC/PPR/PP (BORGES e FERREIRA, 2011). Ademais, é importante considerar

  que

  O papel e influência dessas organizações na dinâmica política local são definidos, menos por fatores internos aos partidos, e mais por suas 25 vinculações com os grupos que protagonizam a cena política local, para os

Segundo Borges e Ferreira (2011), este número representa uma ocorrência considerável, pois saímos de

26 um quadro de 05 partidos, em 1982, para 29, em 1998, estabilizando-se em 26/27 na década seguinte.

  

Esses partidos foram agrupados porque apesar do PFL ter surgido a partir de uma cisão no PDS, em

1985. No Maranhão essa disputa teve pouco impacto, prevalecendo uma continuidade entre arenistas que,

em 1979 passaram para o PDS e em 1985 migraram para o PFL, sempre acompanhando José Sarney.

Embora o PDS tenha continuado existindo até 1993, participando de mais duas eleições estaduais, seus

27 resultados foram modestos. Em 2010, o PFL foi substituído pelo DEM.

  

Estes partidos foram reunidos em bloco após considerarmos as fusões e renomeações pelas quais

passaram. O PDC foi (re)fundado em 1990 e, em 1993, fundiu-se ao PDS tornando-se PPR que, em quais os partidos são mais um dos instrumentos de domínio, calculadamente acionados para favorecer determinadas posições. (BORGES e FERREIRA, 2011; p.18).

  Neste sentido, Borges e Ferreira (2011) observaram que entre 1982 e 2010 o grupo dominante controlou, seja através de membros da família Sarney ou por meio de aliados, um amplo leque de partidos, destacando-se entre estes pelo menos cinco dos nove de maior destaque (PFL, PMDB, PV, PTB e PSD). As oposições, tem se apresentado às disputas através de pequenos partidos, como PRN, PRP e partidos do bloco PDC/PPR/PP ou de médio porte como PDT e PSB.

  O alinhamento de partidos a grupos políticos também constitui um importante indício da plasticidade das fronteiras que existem entre governo e oposição na política estadual, tomando como referência os 09 partidos que se mantém nas disputas e têm peso eleitoral: 05 se mantiveram em um ou outro grupo PDS/PFL/DEM, PDT, PSB, PSD e PSDB; e, 04 se movimentaram entre os dois grupos, PMDB, PTB, PV e os partidos do bloco PDC/PPR/PP (BORGES e FERREIRA, 2011).

  Assim, considerando os posicionamentos dos grupos políticos nas disputas eleitorais, apresentamos a seguir o desempenho eleitoral do grupo Sarney e das oposições para o Governo do Estado, Assembleia Legislativa, Câmara Federal e Senado.

  Tabela 1. Governadores Eleitos no Maranhão (1982-2010) Eleições Governador/a Eleito/a % Votos Partidos Coligados Resultados da Oposição 1982 Luís Rocha (PDT) 64% Não permitida coligação. 36% Renato Archer (PMDB): 17% Reginaldo Telles (PDT): 1,2% Osvaldo Alencar (PT) 0,8% Cesário Coimbra (PTB): 0,06% (Nulos e Brancos: 17%)

  1986 Epitácio Cafeteira (PMDB) 81% PFL/PMDB/PTB/PCB/ PCdoB* 19% João Castelo (PDS): 16,5% Delta Martins (PT): 2,5%

  1990 Edison Lobão (PFL) 53,9% PFL/ PSC/ PTB João Castelo (PRN): 46% 1994 Roseana Sarney PFL 47,7% PFL/PMDB/ PSC/ PP Epitácio Cafeteira (PPR): 46,6% 1998 Roseana Sarney (PFL) 66,01% PFL/PTB/PST/PCdoB/PRP/PSD/PRTB/PSDC/PL/ 44% Epitácio Cafeteira (PPB): 26,3% PSC/PMDB/PSL Domingos Dutra (PT): 6,4% Marcos Igreja (PV): 0,69% Marcos Silva (PSTU): 0,54%

  2002 José Reinaldo Tavares 51% PFL/PST/PSDC/PSC/PMDB/PSD/PV 49% Jackson Lago (PDT): 46,5% (PFL) Raimundo Monteiro (PT): 6% Marcos Silva (PSTU): 0,3%

  2006 Jackson Lago (PDT) 51,8% PDT/PPS/PAN

  • 2010 Roseana Sarney (PMDB) 50,08% PRB/PP/PT/PTB/PMDB/PSL/PTN/PSC/PR/ 49,02%

  Flávio Dino (PCdoB): 29,49% DEM/PRTB/PMN/PV/PRP/PTdoB Jackson Lago (PDT): 19, 54% Marcos Silva (PSTU): 0,5% Saulo Arcangeli (PSOL): 0,31% Josivaldo Silva (PCB): 0,09%

  Fontes: TSE; NICOLAU, Jairo (org.) Dados Eleitorais do Brasil: 1982-1996; SANTOS, Wanderley Guilherme (org.). Votos e Partidos: Almanaque de Dados Eleitorais. Os campos destacados em cinza indicam que a eleição em segundo turno.

  • O PDT, não formalizou a participação na coligação, mas apoiou informalmente e lançou candidaturas apenas para cargos proporcionais.
    • **Nessa eleição o oposicionista Jackson Lago disputou o segundo turno com Roseana Sarney e foi vencedor com 51,8% dos votos contra 48, 2% de sua adversária. Esta não

      figura na tabela como oposição, uma vez que a opção adotada no presente estudo foi a de considerar este campo pelo critério de oposição ao grupo Sarney e, não exatamente

      ao governo, embora este grupo tenha ocupado o governo durante quase todo período analisado.

  Entre 1982 e 2010 o governo do Maranhão tem sido praticamente monopólio do grupo Sarney, o qual elegeu quase todos os governadores do período: Luís Rocha (1982); Epitácio Cafeteira (1986); Edison Lobão (1990); e, Roseana Sarney (1994/ 1998/2010) e José Reinaldo (2002). Única exceção a este controle ocorreu nas eleições 2006 com a vitória do oposicionista Jackson Lago.

  Note-se que apesar deste grupo ter vencido quase todas as disputas para o executivo estadual, mais da metade dos resultados, das décadas de 1990 e 2000, foi por uma margem de diferença pequena, demonstrando o caráter competitivo e plebiscitário que as eleições vêm assumindo no estado, colocando em questão a continuidade ou não do domínio do grupo Sarney. Por outro lado, os pleitos de 1982, 1986 e 1998, foram vencidos com uma margem de diferença maior, por razões específicas, relacionadas a cada conjuntura.

  A eleição de 1982 aconteceu no contexto da chamada transição democrática, marcada por importantes mudanças no âmbito partidário e eleitoral como o retorno do

  28

  pluripartidarismo e a introdução do “Pacote Novembro”, que fixava o voto vinculado , obrigatoriedade dos partidos lançarem chapas completas e proibição de coligações partidárias. Essas exigências demonstravam a intenção do governo militar em desequilibrar as disputas em prol do partido e candidaturas governista (PDS), surtindo efeito no Maranhão com a vitória de Luís Rocha que, apoiado pelo grupo Sarney, venceu com 64% dos votos válidos, obtendo uma vantagem de 28% em relação aos resultados das oposições, cujos votos de todos os candidatos não ultrapassaram 36%.

  Em 1986, com José Sarney na presidência da república, seu grupo venceu a eleição para o governo do Maranhão com o candidato Epitácio Cafeteira, que conquistou 81% dos votos, atingindo uma diferença de 64,5% em relação ao oposicionista João Castelo, ex-aliado do grupo Sarney, que obteve apenas 16,5% dos votos válidos. A vitória de Cafeteira deve-se a uma convergência de esforços dos governos federal e estadual para elegê-lo, possibilitando ao grupo dominante não apenas 28 a manutenção do cargo de governador como a cooptação e consequente neutralização de

  

Durante os governos militares foi comum que, às vésperas de eleições, o governo decretasse exigências

que desequilibravam a disputa em prol do partido situacionista. Entre as medidas estavam os chamados

Pacotes Eleitorais, como este de novembro de 1981, o qual estabelecia que o eleitor deveria votar em

todos os cargos para candidatos do mesmo partido (senador, deputado federal, governador, deputado

estadual e vereador); e os partidos, por sua vez, só poderiam concorrer se lançassem candidatos para todos os cargos. um adversário forte na política estadual. Ressalte-se que neste pleito Cafeteira contou com o apoio de partidos de esquerda, PCB, PCdoB e PDT, ainda que em relação a este último a aliança não tenha sido formalizada oficialmente.

  Como último caso de eleições pouco competitivas, o pleito de 1998, definido logo no primeiro turno com a reeleição da candidata Roseana Sarney por uma vantagem de 22% dos votos em relação ao segundo colocado, Epitácio Cafeteira. Nesta disputa houve uma ênfase a valores religiosos (apelo à compaixão), vez que os problemas de saúde então enfrentados por Roseana Sarney foram utilizados como estratégia de campanha, além da sua gestão à frente do governo (1994 – 1998). A candidata elegeu-se sobre o signo da “mulher forte e guerreira” em oposição à Cafeteira, desqualificado durante a disputa pelos veículos de comunicação da família Sarney, como “insensível” e “desumano” frente ao estado de saúde de Roseana (GONÇALVES, 2008).

  Entre as eleições mais competitivas, predominantemente ocorridas na década de 2000, o pleito de 1994 foi acirradamente disputado, sendo definido apenas no segundo turno com a vitória de Roseana Sarney por ínfimos 1,1% dos votos. Segundo Conceição (2000), apesar de Roseana ter alcançado mais votos no primeiro turno não chegou ao segundo como favorita ao governo do estado, posição ocupada por Cafeteira devido à expectativa criada em torno da votação dos candidatos da oposição, “Frente Ética pelo Maranhão” (PDT/PT/PPS/PMN) e PSTU que, juntos, somaram 64.734 votos a mais do que esta candidata.

  Para este autor “o favoritismo da oposição, a insatisfação do eleitorado e a filiação paterna da candidata do PFL colocaram no centro da disputa a continuidade ou não do grupo Sarney no comando do governo do EstadoỂ (CONCEIđấO 2000, p.37), dando contornos plebiscitários à disputa. O que ficou expresso no panfleto assinado por Cafeteira e Jackson Lago, candidato derrotado da “Frente Ética pelo Maranhão”- “Neste segundo turno, só existem dois caminhos. O de manter o sarneismo e o seu esquema escravizante, ou derrotá-lo e abrir novas perspectivas e esperanças para o nosso povo” (CONCEIđấO, 2000, p.37).

  A lógica plebiscitária já vinha sendo observada desde as eleições de 1990, quando o oposicionista João Castelo impôs uma derrota ao candidato Edison Lobão no primeiro turno, ameaçando a continuidade do grupo Sarney no comando do governo do Estado. Apesar da vitória do candidato sarneísta no segundo turno por 48,5%, a 41,5%, houve perceptível aumento da competitividade das oposições, como indica o próprio resultado da eleição, que também aponta crescimento dos partidos de esquerda (PDT/PT/PSB/ PC do B/PCB) mobilizados, no primeiro turno, em torno da candidatura de Conceição Andrade (PSB) pela “Frente de Oposição Popular” que obteve 15,2% (COSTA, 1997).

  O viés plebiscitário persistiu nas eleições de 2002, 2006 e 2010. O pleito de 2002 foi decido no primeiro turno com a vitória do candidato sarneísta, José Reinaldo Tavares, amplamente questionada após tumultuadas interferências jurídicas na candidatura de outro então oposicionista, Ricardo Murad, cunhado de Roseana Sarney, que após o primeiro turno desistiu da disputa levando à anulação dos seus votos e

  29 inviabilizando as oposições de disputar o segundo turno por uma diferença de 2%.

  Em 2006, o oposicionista Jackson Lago ganhou a disputa no segundo turno com 51,82% dos votos contra 48,1% de Roseana Sarney. Segundo Borges (2006, p.25) três fatores foram decisivos para esse desfecho: a ruptura do então governador José Reinaldo Tavares com o grupo Sarney; a falta de apoio do governo à candidatura do grupo dominante e seu redirecionamento para candidaturas oposicionistas; e, finalmente, os

  30

  limites às alianças partidárias decorrentes da regra de verticalização , que contribuíram para divisão das oposições em três candidaturas (Jackson Lago, PDT; Edson Vidigal,

29 A campanha de Ricardo Murad ao governo do estado em 2002 transcorreu em torno de ataques e

  

críticas à família Sarney, em especial, a Roseana que havia deixado o governo em meio a escândalos

relacionados ao caso Lunus. Não foi a primeira vez que o Ricardo Murad assumiu esse viés crítico à

Roseana Sarney e sua família em período de eleições, em 1994, quando apoiou a candidatura do então

oposicionista Epitácio Cafeteira ao governo do estado, foi ao HGPE declarar que nesse pleito estava em

jogo “de um lado os interesses da família Sarney, do seu grupo de amigos, parentes e empresas, e, do

outro lado, os interesses do povo maranhense”. Ricardo Murad fez críticas veementes à Roseana nessa

eleição, afirmando que a candidata era “[...] uma farsa, uma criação sem consistência, é uma mentira, não

sabe, não entende absolutamente nada do que a obrigam falar, ela representa apenas os interesses

econômicos de sua família, dessa minoria de privilegiados que vivem à sombra do governo se

aproveitando de maneira vergonhosa do povo maranhense. Então, não tenha dúvida, não vote em Roseana

Sarney, não vote em branco, não vote nulo, vote em Cafeteira, vote em Jackson, mas vote, não deixe de

votar” (Revista Veja, disponível em: http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/historia-em-

imagens/ricardo-murad-em-duas-versoes-ambas-improprias-para-criancas/ , acessado em 13 de fev. de

30 2013).

  

A lei de verticalização é um processo político recente no Brasil que, mantendo a decisão do Tribunal

Superior Eleitoral, de 2002, decidiu que “os partidos políticos que lançarem, isoladamente ou em

coligação, candidato à eleição de presidente da República não poderão formar coligações para eleição de

governador de estado ou do Distrito federal, senador, deputado federal e deputado estadual ou distrital

com partido político que tenha isoladamente ou em aliança diversa, lançado candidato à eleição presidencial” (Resolução n° 22.156 / Instrução n° 105, Classe 12ª - DF, de 03.03.2006) PSB, e Aderson Lago, PSDB) no primeiro turno e a (re)união das mesmas no segundo, o que possibilitou a vitória de Lago.

  Apesar da vitória oposicionista nesta eleição, em menos de dois anos o governador de oposição ao grupo Sarney teve seu mandato cassado após tramitação do processo de cassação iniciado pela coligação da candidata Roseana Sarney, que assumiu o governo do estado amparada em sentença judicial. Com Roseana novamente à frente do governo do Estado a máquina governamental volta ao domínio do grupo Sarney, garantindo-lhe vitória nas eleições de 2010, ainda no primeiro turno, embora com uma diferença reduzida em relação às oposições, apenas 1,6%.

  Em relação às eleições proporcionais, a tabela seguinte apresenta a distribuição das vagas entre grupo Sarney e oposicionistas na Assembleia Legislativa.

  Tabela 2. Composição da Assembleia Legislativa (1982-2010) – uma aproximação Eleições Bancada de Apoio ao Grupo Sarney Bancada Oposicionista Nº de vagas Composição Nº de vagas Composição 1982

  33 Eleitos pelo PDS

  08 Eleitos pelo PMDB 1986

  28 PFL, PMDB

  13 PDS, PDT 1990

  31 PDC, PFL, PTB

  11 PMDB, PDS, PSB, PDT, PRN, PTB “Bloco Parlamentar Liberal” (PSD/ PPR, PFL); 1994

  36

  06 PSB, PT e PPR “Bloco de Aliança Parlamentar” (PTB/ PFL/ PSC/ PMDB) “Bloco Liberal” (PSD/ PRTB/ PRP/ PTdoB); 1998

  33

  09 PDT, PPB e PT Bancada do PFL do PMDB.

  Integrantes da bancada do PFL, “Bloco Liberal” “Bloco Parlamentar Independente” (PSB/PT/PDT/PSDB) 2002 36 (PSD/PSC/PTdoB/PSDC) e “Bancada Popular”

  06 (PMDB/PTB/PL) Integrantes do “Bloco Oposição de Verdade” “Bloco Parlamentar de Libertação”

  2006

  12

  30 (PFL/PV/PMDB/PTB e PP) (PSDB/PL/PT/PDT/PSB/PPS/PMN) “Bloco Parlamentar Democrático” “Bloco Parlamentar de Oposição”

  2010

  27

  15 (DEM/PMDB/PP/PV/PTB/PSL/PSC/PHS) (PSDB/PDT/PSB/PT/PTC/PPS/PCdoB)

  Fonte: Montadas com dados referentes aos Diários da Assembleia Legislativa (nº22/86, 02 de maio de 1986; nº 007/90, 05 de fev. de 1990; nº 012, 02 de marc. de 1994; nº 135, 02 de dez. de 1998; nº 035, 18 de abr. de 2002).

  Os números apontam que o grupo Sarney tem governado com amplas maiorias no legislativo estadual, especialmente nos anos de 1982, 1994, 1998 e 2002, período em que sua bancada variou entre 33 e 36 das 42 vagas oferecidas. Exceção a este predomínio ocorreu na legislatura de 2006 na qual as oposições foram maioria, conquistando 30 vagas num universo de 42. Observou-se que, na média, ao longo deste período o grupo Sarney conquistou 70,6% das vagas.

  É importante considerar que a maioria obtida pelas oposições nas eleições de 2006 se explica, em parte, pela disputa para o governo do Estado na qual Roseana Sarney saiu derrotada e as oposições, apoiadas pelo governador, conseguiram eleger 30 deputados, o que confirma a centralidade da máquina governamental nos desfechos das disputas eleitorais e a força do governismo. Já no pleito de 2010 com Roseana reeleita, após cassação de Jackson Lago, o grupo Sarney voltou a ter maioria na Assembleia Legislativa com 27 vagas contra 15 das oposições, o quê, mais uma vez, corrobora a força do executivo na eleição e posteriores alinhamentos dos representantes no legislativo.

  A importância da composição de bancadas majoritárias no Legislativo está relacionada ao fato de que no Brasil predomina o presidencialismo de coalizão, onde o chefe do executivo precisa conquistar apoio no legislativo para garantir a governabilidade, e isto se dá através da formação de ampla aliança partidária e composição de uma base de apoio a partir da qual o Legislativo (que tem poder de veto sobre o Executivo) assegura apoio ao presidente e este, em troca, distribui seletivamente entre seus aliados, cargos, benesses, prestígio, etc. (FIGUEIREDO e LIMONGI, 1994).

  As esferas subnacionais não têm escapado a essa lógica, daí a conquista de maiorias no legislativo estadual tem possibilitado ao grupo Sarney ampla margem de ação na política maranhense, contribuindo para este predomínio a manutenção de seus integrantes no comando do governo do estado e o acesso privilegiado aos recursos da máquina governamental.

  Cumpre destacar que as oposições quando tiveram oportunidade também se beneficiaram deste recurso, a exemplo do processo de ruptura de José Reinaldo com o grupo Sarney que deflagrou uma série de reposicionamentos de agentes políticos que preferiram permanecer na base do governo a despeito das mudanças verificadas no seu topo. Idêntico processo pode ser observado com a eleição do pedetista Jackson Lago em 2006.

  Sobre esse ponto, vale destacar as análises de Abrúcio (1998) sobre o poder dos governadores, ainda que não se corrobore a tese do ultrapresidencialismo estadual. Para esse autor, este poder se sustenta na utilização patrimonial da máquina pública e distribuição de recursos aos aliados políticos. Segundo Abrúcio, o governador garantiria o controle do processo decisório estadual por meio de um “pacto homologatório”, formado por uma maioria situacionista, recrutada através de recursos clientelistas. Este “pacto” permitiria ao chefe do Executivo governar de modo hipercentralizado, neutralizando a ação dos órgãos fiscalizadores e controlando politicamente o Legislativo (ausência de checks and balances ou de controles internos - a acountability horizontal, conforme a já mencionada formulação de O’Donnell,1998).

  A despeito dos excessos contidos nas afirmações de Abrúcio (1998) referentes à hipercentralização dos governos, que impossibilitaria até mesmo a ação de oposições, a utilização da máquina pública tem sido decisiva para sustentação do grupo Sarney no comando da política estadual. Conforme destacamos, este grupo praticamente monopolizou o governo do estado, conquistou amplas maiorias na Assembleia Legislativa e tem obtido maioria na Câmara Federal, conforme demonstrado na tabela 3.

  05 PSB, PSDB, PTC Fontes: TSE; NICOLAU, Jairo (org.) Dados Eleitorais do Brasil: 1982-1996; SANTOS, Wanderley Guilherme (org.). Votos e Partidos: Almanaque de Dados Eleitorais.

  13 PFL, PL, PMDB, PSD, PSC

  13 DEM, PMDB, PP, PR, PRB, PT, PTB, PTdoB, PV

  11 PAN, PCdoB, PDT, PSB, PSDB, PT 2010

  07 PFL, PMDB, PTB, PV

  08 PDT, PPB, PSB, PSDB, PT 2006

  10 PFL, PL, PMDB

  05 PDT, PSB, PSDB 2002

  05 PDT, PSB, PSDB 1998

  Tabela 3. Composição da Câmara Federal (1982-2010) – uma aproximação Eleições Bancada de Apoio ao Grupo Sarney Bancada Oposicionista Nº de Vagas Composição Nº de Vagas Composição 1982

  13 PFL, PMDB, PSC

  06 PDT, PDS, PRN, PSB, PSDB 1994

  12 PFL, PMDB, PDC, PSC

  02 PDS 1990

  16 PFL, PMDB

  03 Eleitos pelo PMDB 1986

  14 Eleitos pelo PDS

  • Calculados com base no número de eleitores bruto, não considerando, votos brancos e nulos.

  Observa-se que o grupo Sarney tem sido majoritário também na Câmara Federal, exceto no pleito de 2006, quando obteve 38, 9% das vagas disponíveis. Ao longo desse período também se verificou que o grupo Sarney obteve uma vantagem muito pequena em relação à composição de sua bancada nas eleições de 2002, conquistando apenas duas vagas a mais que as oposições. Na quase totalidade dos pleitos, o grupo Sarney vem conquistando maiorias, com bancadas médias superiores a 68%.

  Em relação ao senado federal a tabela 4 traz os dados sobre a distribuição de vagas entre o grupo Sarney e oposicionistas.

  Tabela 4. Senadores Eleitos no Maranhão (1982-2010) Eleições Senador/a Eleito/a % Votos Partido Partidos Coligados Resultado das Oposições 1982 João Castelo 43,6% PDS Não permitida coligação. Não encontrado 1986 Alexandre Costa 28,5% PFL PFL/PMDB/PTB Não encontrado

  Edison Lobão 21,5% PFL 1990 Epitácio Cafeteira 28,9% PDC PDS/PMDB/PDC/PL/PRN/PSDB Não encontrado 1994 Edison Lobão 28,3% PFL PFL/PMDB/PP/PSC João Castelo (PPR): 21,1%

  Alexandre Costa 27,3% PFL Wagner Lago (PDT): 8,8% Manoel da Conceição (PT): 5,4% 1998 João Alberto 59,3% PMDB PTB/PMDB/PSL/PSC/PSDC/PSD/ Haroldo Sabóia (PT): 30,4%

  PCdoB/PFL/PRP/PRTB/PL/PST José Luís T. L. Neto (PPS): 5,3% Washington Luis C. Rio Branco (PV): 2,9% Luis Noleto (PSTU): 2,1%

  2002 Roseana Sarney 32,3% PFL PFL/PST/PSDC/PSC/PMDB/PSD/PV Epitácio Cafeteira (PDT) 21,5% Edison Lobão 27,2% PFL Haroldo Sabóia (PT) 11,6% Ildemar Gonçalves (PSDB) 3,33%

  Terezinha Rego (PSB) 2,28% Frederico Santos (PCB) 0,4% Ramon Silva Gomes (PSTU) 0,39%

  2006 Epitácio Cafeteira 39,3% PTB PP/PTB/PMDB/PTN/PSC/PL/PFL/ João Castelo (PSDB): 35.55% PRTB/PHS/PV/PRP Ubirajara do Pindaré (PT): 21,52% Luiz Soares Filho (PSB): 1,36%

  Nazaré Bezerra (PTC): 1,0% Luiz Noleto (PRONA): 0,68% Ramon Silva (PSTU): 0,18% Francisco das Chagas (PSOL): 0,12% Frederico Luiz M. dos Santos (PCB): 0,08%

  2010 Edison Lobão 32,74% PMDB PMDB/PT/DEM/PV/PP/PR/PTB/PSC/ José Reinaldo (PSB): 13,41% João Alberto 29,74% PMDB PMN/PRB/PTdoB/PSL/PRP/PTN/ Roberto Rocha (PSDB) 11,85% PSDC/PRTB

  Fontes: TSE; NICOLAU, Jairo (org.) Dados Eleitorais do Brasil: 1982-1996; SANTOS, Wanderley Guilherme (org.). Votos e Partidos: Almanaque de Dados Eleitorais.

  Os dados apresentados demonstram a ocorrência de eleições para 12 vagas no senado entre 1982 e 2010, as quais foram ocupadas por apenas seis pessoas, todas vinculadas ao grupo Sarney: João Castelo (1982), Alexandre Costa (1986 e 1994), Edison Lobão (1990, 1994, 2002 e 2010), Epitácio Cafeteira (1990 e 2006); João Alberto (1998e 2010) e Roseana Sarney (2002).

  Sobre a ocupação destas vagas é necessário algumas considerações em relação às candidaturas de João Castelo e Epitácio Cafeteira. O primeiro ainda não tinha rompido com José Sarney quando foi eleito para o senado em 1982. Quanto a Cafeteira, este rompeu com Sarney desde o fim do seu mandato para o governo do Estado (1986- 1990), elegendo-se senador, em 1990, pelas oposições na coligação “Maranhão Livre” (PDS/PMDB/PDC/PL/ PRN/PSD/PSDB), a mesma que lançou a candidatura de Castelo para o Executivo estadual. Contudo, em 2006, Cafeteira retoma as relações com Sarney e se elege com apoio de seu grupo político para o senado.

  Durante todo este período as oposições só conseguiram uma vaga para o senado federal, em 1990. Entretanto, deve-se considerar as condições em que ocorreu a disputa, vez que Cafeteira lançou sua candidatura com o apoio do PMDB, partido de José Sarney, o qual tinha saído da Presidência da República com baixos índices de popularidade e evitou um confronto direto com Cafeteira no estado, sendo levado a

  31 disputar o senado pelo Amapá, onde tinha construído bases eleitorais alternativas .

32 Desde 1990 , José Sarney vem sendo eleito senador por esse estado, o que lhe

  tem possibilitado estar no senado e lá ocupar posições de poder, destacando-se, entre estas, a presidência da Casa em quatro legislaturas que totalizam oito anos. A 31 permanência de Sarney na presidência do senado tem sido um importante elemento para

  

Esta eleição teve uma complexidade particular, decorrente do governo de Epitácio Cafeteira (1986-

1990) ter sido viabilizado em torno de uma aliança com José Sarney, de modo que sua eleição em 1990

na chapa liderada pelo oposicionista João Castelo e a eleição de Sarney pelo Amapá enseja algumas

hipóteses: 1) aliança entre Cafeteira e Sarney continuou, havendo uma espécie de acordo tácito entre

ambos, com este último indo disputar as eleições pelo Amapá e deixando o caminho para a vaga de

senador do Maranhão livre para o primeiro; 2) aliança entre ambos se esgotou na reta final do governo

e/ou na disputa pela vaga de candidato ao senado, e Sarney escapou ao enfrentamento com Cafeteira

concorrendo às eleições de 1990 pelo Amapá, onde era bem avaliado devido a políticas implantadas

durante o seu governo na presidência da república, transformando o território do Amapá em estado. A

esse respeito, o próprio Sarney declara em sua página na internet que o PMDB lhe negou legenda para

concorrer ao senado pelo Maranhão, fazendo com que ele cogitasse mudar de partido, mas terminou

optando por se candidatar pelo Amapá (Disponível em: http://josesarney.org/ , acessado em 21 de fev. de 32 2013. a constituição e fidelização de suas bases políticas no estado, mesmo tendo seu domicilio eleitoral no Amapá, pois se coloca como um intermediador dos interesses do Maranhão no governo federal, o que lhe tem garantido, além de retorno eleitoral para o seu grupo político, apresentar-se como canalizador de recursos federais para o estado, fortalecendo as bases do seu grupo na política local.

  Ao longo do período analisado observamos o controle que este grupo detém da política estadual ao eleger quase todos os governadores, conquistar amplas maiorias nos legislativos estadual e federal, e vencer quase todos os pleitos para o senado. Embora, os índices de competitividade eleitoral do estado não sejam desprezíveis ao se verificar o acirramento das disputas e a persistência de uma lógica plebiscitária, o grupo Sarney, sustentado pela máquina governamental, consegue se manter nos principais cargos eletivos do estado, enquanto as oposições vem sendo sistematicamente derrotadas nas urnas.

  Capắtulo 03. (RE)PRESENTAđỏES OPOSICIONISTAS

  Como indicado no Capítulo 2, as disputas políticas no Maranhão têm sido marcadas pela polarização entre o grupo Sarney, que por longo período tem controlado o poder decisório local, e oposições a este grupo. No período de 1982 a 2010 os oposicionistas tiveram um fraco desempenho eleitoral, conquistando apenas uma vaga para o Governo do Estado, minorias na Assembleia Legislativa e Câmara Federal e somente uma vaga para o Senado.

  A fragilidade eleitoral das oposições tem intensificado as disputas no plano simbólico, demandando uma contínua invenção/reinvenção dos agentes políticos, os quais acionam elementos identificadores que permitem relacioná-los aos representados. Estas disputas estão vinculadas a processos de “di-visão” social (BOURDIEU, 2007), nos quais os agentes estabelecem para si um terreno e ponto de vista singular, através de mecanismos de diferenciação, vez que a demarcação de fronteiras produz e é produzida nas diferenças (BOURDIEU, 2007). Deste modo, dividir o mundo social pressupõe a classificação de um “nós” em relação a “eles” e neste binarismo, apoia-se a construção de identidades, num terreno de tensão e vulnerabilidade dado o pluralismo social e antagonismos subjacentes às sociedades democráticas, de modo que é importante pensá- la como criações sociais e culturais, que não podem ser apreendidas fora do sistema de significação no qual adquirem sentido (SILVA, 2000).

  Ressalte-se que identidade e diferença são inseparáveis, elas estão estreitamente relacionadas a sistemas de representação, que segundo Silva (2000, p.91) é uma forma de atribuição de sentido, “um sistema linguístico e cultural: arbitrário, indeterminado e estreitamente ligado a relações de poder [...] quem tem o poder de representar tem o poder de definir e de determinar a identidade”.

  Considerando a questão do poder, Baczko (1985) chama atenção para o fato de qualquer poder, entre eles o político, é acompanhado de representações coletivas, sendo assim o domínio do imaginário e do simbólico é um lugar estratégico. Para esse autor, uma coletividade designa a sua identidade por meio do imaginário social, elaborando certa representação de si, estabelecendo a distribuição dos papéis e das posições sociais,

  33 exprimindo e impondo crenças comuns (BACZKO,1985) .

  Baczko (1985) destaca que o imaginário se apoia em sistemas simbólicos que se constituem através das experiências dos agentes sociais, assim como de seus desejos, aspirações e motivações, intervindo ativamente na memória coletiva. Eles “fazem parte de sistemas complexos e compósitos, tais como, nomeadamente, os mitos, as religiões, as utopias e as ideologias” (BACZKO, 1985; p.312). Tornam-se compreensíveis e comunicáveis através de discursos.

  Neste sentido, Balandier (1982) afirma que o imaginário ilumina o fenômeno político, comandando “o real”. Na visão deste autor, todo sistema de poder produz efeitos comparáveis às ilusões criadas pelo teatro, sendo mais aparente em algumas sociedades do que em outras, o que as torna desigualmente espetaculares. Balandier (1982, p.10) destaca que o poder representa “em toda acepção do termo a sociedade que governa. Ele se mostra como sua emanação, ele lhe assegura sua apresentação no exterior, ele devolve uma imagem idealizada desta sociedade e, portanto aceitável”.

  O poder é dramatizado através de um espetáculo que se mantém ao longo do tempo. A este respeito, Baczko (1985, p.299) destaca que o exercício do poder simbólico não se limita a acrescentar o ilusório a uma potência “real”, ele consiste “em duplicar e reforçar a dominação efetiva pela apropriação dos símbolos e garantir a obediência pela conjugação das relações de sentido e poderio [...]”. Conforme este autor, os bens simbólicos produzidos pela sociedade não são irrelevantes, nem existem em quantidade ilimitada, eles são objeto de lutas e conflitos. Deste modo, observa-se a importância crescente das lutas por representação cuja problemática central, segundo Chartier (1991) é o ordenamento, a hierarquização da estrutura social.

  Nesta perspectiva, o presente capítulo aborda a política maranhense considerando as representações que oposicionistas constroem para si e para seus adversários a partir de um jogo de contrastes que define sua identidade em relação ao grupo dominante. Para isso, tomaremos como referência dois episódios da política 33 estadual recente onde agentes políticos se destacaram em confrontos com o grupo

  

Baczko (1985) articula os conceitos de imaginário, simbólico e representação. Segundo o autor, o

imaginário se refere a um elemento criativo que integra diversas esferas da existência, tais como

pensamento, ações e emoções, assentando-se num simbolismo que, além de instituir uma classificação,

introduz valores que modelam os comportamentos individuais e coletivos, e que são construídos a partir

de experiências dos agentes sociais, assim como seus desejos, aspirações e motivações. O autor também

destaca que o imaginário social, torna-se inteligível por meio de representações que, de acordo com sua

visão, possuem um caráter figurativo e simbólico e uma função social semelhante aos mitos e religiões, dominante, adquirindo e/ou consolidando autoridade e (re)conhecimento para falar em nome da oposição: José Reinaldo Tavares que em 2004, na condição de governador do estado, rompeu com o grupo Sarney; e Jackson Lago, histórico oposicionista que após eleito governador enfrentou , em 2008, um processo de cassação, sendo organizado em sua defesa o “Comitê de Defesa da Democracia no Maranhão” (“Balaiada”).

3.1. Lealdade, Atritos e Ruptura: José Reinaldo Tavares e o grupo Sarney

  A entrada de José Reinaldo na política estadual se deu por intermédio de José Sarney que ao ser eleito governador, em 1965, o nomeou para importante cargo no governo. Grande parte dos cargos e funções que José Reinaldo assumiu na vida pública foi patrocinada por Sarney, incluindo-se neste rol os mandatos eletivos de vice- governador, eleito por dois mandatos consecutivos (1994 e 1998) em chapas lideradas por Roseana Sarney, e governador, eleito em 2002. Essa inserção na vida pública por intermédio de Sarney, o longo vínculo e fidelidade ao grupo político por este conduzido afirmava sua identificação e reconhecimento como integrante fiel desse grupo,

  34 confirmados pelas importantes posições que lhe foram confiadas .

  Esses elementos foram responsáveis por gerar uma ambivalência no período em que José Reinaldo anunciou seu rompimento com esse grupo. Num primeiro momento eles tornaram sua saída subjetivamente mais custosa (PIZZORNO, 1988), o que colaborou para que ele tentasse evitá-la ao máximo e, uma vez consumada essa decisão, contribuíram para que o rompimento demorasse a ter eficácia ou se tornar crível devido à longa e inquestionada fidelidade de José Reinaldo para com o grupo dominante.

  A ambivalência gerada a partir desse rompimento é ilustrativa dos múltiplos processos de socialização a que os indivíduos estão submetidos, frequentemente, heterogêneos e contraditórios. Segundo Bernard Lahire (2003), que analisa estes processos na perspectiva do “ator plural”, vivemos experiências variadas, diferentes e contraditórias, de modo que um ator plural não pode ser definido por uma única posição 34 social. Contudo, o autor adverte para as “crises de adaptação”, geradas pelo elo de

  

Além dos cargos de governador e vice, José Reinaldo assumiu os seguintes cargos de confiança: foi

diretor-geral do Departamento de Estradas de Rodagem do Maranhão (DER-MA), em 1969; foi nomeado

secretário de planejamento do estado, em 1971; assumiu a superintendência da Companhia Urbanizadora

da Nova Capital (Novacap), em 1975; foi nomeado secretário de Viação e Obras Públicas do Distrito

Federal, em 1977; foi diretor geral do Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS); assumiu cumplicidade entre o incorporado e a nova situação que caracterizam a condição humana em sociedades complexas e em transformação (LAHIRE, 2003, p. 63).

  Nesta perspectiva, apesar do longo vínculo com Sarney representar obstáculos à saída de Reinaldo o rompimento acabou acontecendo sob impulsos de fatores de ordem privada, envolvendo rivalidades entre sua esposa Alexandra Tavares e a ex-governadora

  35

  e então senadora Roseana Sarney . Esta, segundo propalado pela imprensa, trabalhava no sentido de continuar exercendo influência na administração estadual.

  Esses conflitos ganharam maior dimensão ao serem dramatizados (BALANDIER,1982) no domínio público, pelos meios de comunicação. O espaço privilegiado para essas dramatizações foram os jornais O Estado do Maranhão e o Jornal Pequeno, ambos com posicionamento político amplamente reconhecido no estado: o primeiro, representando a visão e os interesses do grupo dominante, visto ser propriedade da família Sarney; e o segundo, por se notabilizar pela oposição a esse grupo.

  Entre março e abril de 2004 as notícias referentes aos conflitos entre José Reinaldo e Roseana Sarney que culminaram em rompimento foram recorrentes na imprensa local. O jornal O Estado do Maranhão divulgava matérias criticando a administração de José Reinaldo, a princípio discretamente e minimizando os conflitos,

  36

  mas aos poucos foram se tornando mais explícitas e veementes . O Jornal Pequeno 35 Neste período foram levantados muitos rumores sobre as desavenças entre Alexandra Tavares e

  

Roseana Sarney, que teriam sido motivadas, entre outros fatores, pela crescente influência da primeira-

dama no governo do Estado. Segundo o Jornal Pequeno (26/03/2004, p. 03), Alexandra “resolveu demitir

funcionários nomeados por Roseana, suspender pagamento de contratos com empreiteiras para definir

prioridades e anunciar mudanças significativas no quadro de secretários”, de acordo com este periódico o

estopim teria ocorrido com a declaração de Alexandra, afirmando que não apoiaria o cunhado da ex-

governadora, Ricardo Murad, a prefeitura de São Luís. Além disso, Alexandra Tavares ou “A Grande”,

como ficou conhecida na cidade, era considerada “ousada” e “independente em relação aos Sarney”, fato

que, segundo este jornal, teria colaborado para que ela passasse a contar com o “apoio da oposição”.

Alexandra crescia na política local e rivalizava com Roseana Sarney, eram frequentes as representações

dessa rivalidade na imprensa local, as charges foram as mais utilizadas para demonstrar os conflitos entre

36 “A Grande” e “A Branca”, como Roseana é conhecida no estado.

  

Matérias de O Estado do Maranhão como as seguintes, ainda criticavam discretamente o governador e

sua gestão: “Sarney e José Reinaldo pregam unidade política” (28/02/2004, p.03) quando

desentendimentos ainda eram considerados “boatos” por este jornal; “Em carta a Sarney governador

contesta matéria da Revista Veja” (29/03/2004, p. 03) quando José Reinaldo ainda tentava uma

conciliação com Sarney; “Vai fazer falta” (03/04/2004) sobre a extinção da gerência metropolitana que

era dirigida pelo cunhado de Roseana Sarney, Ricardo Murad. No entanto, as críticas de O Estado do

Maranhão foram ficando mais veementes em matérias como “Roseana deixou o governo com as contas

ajustadas” (16/05/2004, p.03), referente aos problemas financeiros do estado, assim como, “Deputados chamava atenção para os desentendimentos entre José Reinaldo e Roseana Sarney, desde 2003, mas os abordava com certa distância, mesmo no início de 2004 quando o clima de tensão se tornou mais visível; sem assimilar de imediato a ideia de rompimento, esse jornal mantinha uma postura crítica ao grupo Sarney e de denúncia ao

  37 governo de José Reinaldo , visto até aquele momento como representante desse grupo.

  Quando a ruptura se apresentou como incontornável o Jornal Pequeno assumiu uma posição de apoio ao governador e crítica à Roseana Sarney, o que foi expresso

  38

  através de editoriais, matérias e charges como a que segue, onde José Reinaldo e Alexandra Tavares aparecem dando “palmadas educativas” em Roseana e seu irmão, Fernando Sarney, associados a duas crianças que não foram “bem educadas” pelos pais, José e Marly Sarney, apresentados nessa imagem com uma postura aquiescente com o “corretivo” infligido aos filhos.

  

menor” (20/05/2004, p.03), quando afirmam que os problemas financeiros do governo estariam afetando

a saúde pública. 37 Como exemplos de matérias do Jornal Pequeno mais críticas a José Reinaldo e de denúncia ao seu

governo, destacamos as seguintes: “Governo desvia dinheiro para beneficiar gerente Ricardo Murad”

(09/07/2003, p.03); “Justiça do Maranhão anula pensão vitalícia e obriga governador a defender o

38

dinheiro” (09/08/2003, p.03); e, “Subsídio do Governador Fixado de Forma ilegal” (30/01/2004, p.03).

  

A produção de charges foi outro recurso utilizado para construção simbólica da identidade

oposicionista pelos jornais O Estado do Maranhão e Jornal Pequeno. Através destas, esses periódicos

narravam a sua versão sobre esses conflitos por meio de uma linguagem gráfica cheia de ironias e

ambivalências. Os conflitos eram dramatizados e os personagens apresentados de maneira jocosa e com

traços sugestivos de infantilidade, incompetência e desonestidade. A qualificação/desqualificação dos

agentes dependia do jornal em que essas charges eram veiculadas, ou seja, jornal O Estado do Maranhão

tendia uma imagem mais favorável aos agentes do grupo Sarney, enquanto o Jornal Pequeno enaltecia

José Reinaldo e seus apoiadores. As charges são uma poderosa ferramenta para subversão de imagens,

vez que ridicularizam membros do poder e os transforma em bufões do povo, liberando uma crítica

desarmada pelo riso (BALANDIER, 1982).

  Figura 1- Charge 01 Fonte: CAJU. Jornal Pequeno (26/05/2004, p.02).

  Os desdobramentos dessas tensões conduziram ao rompimento, embalado também pelo noticiário do jornal O Estado do Maranhão sobre as atividades do governo que foi considerado por José Reinaldo como uma evidência do “ataque” de Roseana Sarney à sua gestão, Uma das reações do governador foi direcionada aos aparatos midiáticos, meios privilegiados de construção e difusão de imagens: o governador cancelou o contratato de publicidade do governo do Estado com o Sistema Mirante de Comunicação e o redirecionou para o Jornal Pequeno que se tornou a partir de então uma espécie de “porta-voz” do governo e, ao mesmo tempo, uma trincheira para José Reinaldo se defender das “acusações” feitas pelo matutino do grupo Sarney.

  Nessa nova configuração, a posição desses jornais foi readaptada e cada um passou a dramatizar a sua versão do conflito, utilizando um conjunto de acontecimentos (re)construídos através de textos e imagens que se agregam à realidade por meio de representações que podemos interpretar como “interessadas de manipulação simbólica que têm em vista determinar a representação mental que os outros podem ter destas propriedades e dos seus portadores” (BOURDIEU 2007, p.112).

  3.1.1. Produzindo Crenças Conforme indicamos, o rompimento de José Reinaldo Tavares com o grupo

  Sarney foi, num primeiro momento, motivo de desconfiança em virtude do longo e estreito vínculo que o governador mantinha com José Sarney, sua família e grupo político. Esses elementos se fixaram de tal modo à sua identidade que ele ficou conhecido e reconhecido por essas adesões.

  É razoável admitir que alguns fatores favorecem a fixação de identidades, entre eles, o longo tempo de permanência numa determinada posição, a visibilidade conferida ao agente e a condição de representante ou porta-voz dessa posição. Contudo, vale destacar que para um individuo pode haver identidades múltiplas, no entanto, essa pluralidade é fonte de tensão e contradição (CASTELLS, 1999). Neste sentido, a ruptura do governador com o grupo dominante é representativa das contradições que envolvem os processos de construção de identidade, envolvendo, não apenas a subversão de imagens já cristalizadas a seu respeito, mediante sua nova autodefinição, mas também a produção de efeitos sociais mais amplos e de reconhecimento público.

  Essas questões envolvem disputas por representação, lutas para “impor a definição legítima de divisões do mundo social” (BOURDIEU, 1997, p.113). A definição das identidades também passa por essas disputas, o que explica o fato da ruptura de José Reinaldo demorar a ter eficácia, pois não existe correspondência automática ou imediata entre a imagem projetada e a imagem recebida e, além disso, havia uma (re)significação dessa identidade pelo grupo do qual ele se afastou como demonstrado na passagem seguinte, do jornal O Estado do Maranhão:

  Primeiro, ele ganhou de presente a Direção Geral do DER. Logo em seguida, foi secretário de Viação e Obras. Deixou esse cargo para ser secretário estadual de planejamento. Não passou muito tempo e foi mandado para Brasília onde assumiu ali a superintendência da Companhia Urbanizadora da Nova Capital, a Novacap. Depois, ganhou outro presente: a Secretaria de Viação e Obras do Governo Federal. Dali, foi guindado para o plano nacional na condição de Diretor Geral do Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS). Foi puxado para o degrau de cima ao assumir a Superintendência da Sudene. E, para completar, ganhou o Ministério dos Transportes. De lá, saiu para um mandato de deputado federal, também ganhou de graça, e dois mandatos como vice-governador sem fazer o mínimo esforço, para em seguida tornar-se governador substituto e, finalmente, governador reeleito.

  Essa foi a trajetória do sr. José Reinaldo Carneiro Tavares em mais de três décadas de vida pública. Com um detalhe que todo Maranhão conhece, mas que ele agora faz questão de esquecer: todos os cargos que ocupou, sem qualquer exceção, incluindo o mandato de governador, lhe foram dados pelo senador José Sarney. Por mais absurdo que possa parecer, é exatamente contra o senador José Sarney que o Sr. José Reinaldo se volta agora, renegando uma história de benefícios e de prestígio. E o faz sem nenhuma razão [...].

  (O Estado do Maranhão, São Luís, 28 de dez. de 2004, p.03; grifo nosso).

  Os vínculos entre José Reinaldo e Sarney e a “benevolência” deste último em relação ao primeiro, expressa em sucessivos “presentes”, foram reivindicados nessa matéria do jornal O Estado do Maranhão. Ela traduz as disputas por representação e fornece dados para que esse vínculo não se perca e seja reatualizado, não para reintegrar o governador ao grupo que o senador construiu em seu entorno, mas como um dispositivo de controle a ser acionado quando o governador desqualificar José Sarney ou seu grupo, fazendo com que ele se desqualifique simultaneamente, visto seu histórico de ligação e vantagens decorrentes desse alinhamento.

  O acionamento desses vínculos e as alusões aos “presentes” oferecidos por Sarney a José Reinaldo foram um meio desse jornal demonstrar que o rompimento deste último simbolizava uma “traição” ao primeiro, o que se expressa em afirmações como: “o governador selou seu destino, coberto com a vergonha de sua conduta de traidor

  39

  [...]” . A ideia de traição era utilizada em oposição à de lealdade que, neste contexto específico, estava relacionada a uma espécie de dever de gratidão que o governador deveria ter para com Sarney e seu grupo político.

  Na versão de O Estado do Maranhão as bases ou fundamentos desses laços foram rompidos pelo maior beneficiário e, por este motivo, houve “traição”. No entanto,

  40

  em entrevista ao jornal O Globo , Alexandra Tavares se refere a esta questão como uma “defesa aos ataques” que o governador e sua gestão vinham sofrendo dos veículos de comunicação da família Sarney. A primeira-dama declarou que, “Ele [José Reinaldo] não é ingrato. Eu sei o quanto dói nele [...]”, destacando a importância dessa relação para o governador e clara percepção da força desse rótulo para a desconstrução de

  41 imagens públicas .

  Neste sentido, as informações acumuladas sobre o longo vínculo entre ambos geraram desconfiança em relação ao novo posicionamento político de José Reinaldo. Houve uma tensão entre as informações acumuladas sobre os vínculos do governador com Sarney e seu grupo político e as mudanças que se processavam na política estadual, de tal maneira que mesmo quando seu afastamento do grupo tinha se tornado público e a troca de insultos pelos jornais era frequente havia crenças de que esse distanciamento 39 não passava de estratégia política ou “uma farsa”, como preferiu chamar o deputado 40 Jornal O Estado do Maranhão (09/01/ 2005, capa). 41 Jornal Pequeno (06/03/2004, p. 05).

  

Considerando o conteúdo moral que a lealdade e a traição adquirem na sociedade, assim como a força

dos rótulos “leal” e “traidor” possuem na construção/desconstrução de imagens públicas, cabe destacar a

tese de Maquiavel sobre a sabedoria que o príncipe deve ter para agir conforme as circunstâncias, não

sendo necessário ter todas as qualidades valorizadas pelos governados, “mas é muito necessário que

42 Aderson Lago (PSDB) . Isto confirma que não há uma causalidade automática entre a identidade reivindicada e reconhecida.

  A impossibilidade dessa correspondência imediata entre dar a conhecer e fazer reconhecer (BOURDIEU, 2007) contribuiu para que esse afastamento fosse visto com desconfiança por muitos integrantes das oposições, como no depoimento seguinte em que o ex-presidente do PT no Maranhão, Roberto Lobato, em sua coluna do Jornal

43 Pequeno , reduz à simples “rebeldia” a atitude do governador:

  Não é possível sabermos com certeza os desdobramentos da rebeldia de José Reinaldo. Aliás, não é possível nem mesmo termos a certeza da perenidade dessa rebeldia. Sarney está calado. Há uma amizade de décadas entre o governador e o ‘senador amapaense’. Tudo pode acontecer inclusive nada.

  As primeiras declarações públicas de José Reinaldo sobre a ruptura com o grupo

  44 Sarney contribuíram para essa desconfiança. Em entrevista à revista Época , José

  Reinaldo afirmou que Roseana rompeu com ele, ao mesmo tempo, evitava falar em rompimento com José Sarney. Quando interrogado pela revista, ele disse que não colocaria a questão desse modo “Porque com Sarney eu tenho uma ligação muito grande um respeito muito grande. Acho que ele ajudou muito o Estado. É outra questão”.

  Este tipo de declaração demonstra as tensões e contradições que envolvem a ação e autorrepresentação dos indivíduos. A este respeito, Bernad Lahire (2003, p.40) nos fala sobre a heterogeneidade das experiências socializadoras e destaca que “[...] os atores saltam a cada instante de uma interação pra outra, de uma situação pra outra, de um universo social para o outro [...]” e, segundo o autor, “[...] essas experiências não são sistematicamente coerentes, homogêneas e mesmo totalmente compatíveis e que nós somos, todavia, o seus portadores”.

  Assim, a relutância do governador em falar de rompimento com José Sarney reforçava as desconfianças em relação à veracidade e consistência do seu afastamento, fazendo com que a possibilidade de aproximação entre o governador e setores oposicionistas fosse vista com reservas. É o caso de deputados estaduais do bloco oposicionista que temiam creditar sua confiança ao governador e se decepcionar com uma “provável reconciliação” entre ele e o grupo dominante, como pode ser observado 42 nas palavras do deputado Mauro Bezerra (PDT): “Se nós nos aliamos hoje ao 43 Jornal Pequeno (03/08/2004, p.03). 44 Jornal Pequeno (28/07/ 2004, Coluna do Lobato, p.02). governador e amanhã ele se recompor com o senador José Sarney (PMDB-AP), nós vamos ficar com cara de cachorro que corre atrás de carro e quando o veículo para fica

  45 com cara de besta” .

  Até então, José Reinaldo era tido como representante de um grupo político que havia se estabelecido na política maranhense há mais de quarenta anos e que, de acordo com a visão das oposições, era responsável pelos baixos indicadores econômicos e sociais do Estado. Isto pode ser observado no seguinte relato do deputado Rubem Brito (PDT e integrante do bloco de oposição ao governo na Assembleia Legislativa), publicado pelo Jornal Pequeno (25/01/2004, p.03):

  [...] Este primeiro ano de governo do José Reinaldo é a continuidade de um período de quarenta anos no Maranhão, de um modelo sócio-econômico que privilegia uma minoria e levou a grande maioria do nosso povo à extrema pobreza e a estagnação econômica do Estado, que de um Estado produtor na década de [sic] a um Estado que tudo que consome vem de fora. Foi um ano de aprofundamento das desigualdades e dos privilégios aos grandes grupos econômicos no campo e na cidade e da continuidade da política do ‘quero, posso e mando’ [...].

  O discurso do deputado Rubem Brito enfatizam indicadores sociais e econômicos, visando cercar-se de verdade através do discurso científico que se cruza a vários outros discursos com o objetivo de (des)qualificar as práticas do grupo Sarney. Nesse sentido, a imagem de José Reinaldo estaria imersa numa rede de representações que fazem com que sua identidade que é produto de uma cadeia simbólica e discursiva seja associada a práticas desqualificadas socialmente e pelos oposicionistas.

  Apesar da atribuição sistemática de características se integrar à identidade através de representações, esta também é marcada por indeterminações e instabilidades. Conforme observação de Silva (2000, p.84) “o processo de produção da identidade oscila entre dois movimentos: de um lado, estão aqueles processos que tendem a fixar e a estabilizar a identidade; de outro, os processos que tendem a subvertê-la e a desestabilizá-la”.

  Observa-se que apesar de haver uma tendência à fixação das identidades, elas estão sempre escapando através da possibilidade de “cruzar fronteiras” e transitar pelos territórios das diferentes identidades (SILVA, 2000). Nesse sentido, as declarações de

46 José Reinaldo à Folha de São Paulo afirmando sua ruptura com grupo Sarney

  45 46 Jornal Pequeno (03/08/2004 p.04).

  representaram essa travessia, pela qual o governador redefine publicamente sua posição e busca afirmar uma nova identidade.

  Não é sem importância que essas declarações tenham sido dadas à Folha de São Paulo que é um dos maiores jornais do país e de circulação nacional, pois por essa via o rompimento se apresenta para além da política local e se dirige ao próprio líder do grupo no estado, o senador José Sarney, cuja atuação política se desenvolve em nível nacional.

  Ao longo do processo de afirmação da sua mudança o governador reitera a sua nova posição ao mesmo tempo em que rebate críticas como as apresentadas, no estado, pelos meios de comunicação do Sistema Mirante. De acordo com José Reinaldo as “calúnias” das quais era vítima, deviam-se à sua “coragem em romper com as estruturas

  47

  que amarravam o desenvolvimento do Estado” . O governador justifica o rompimento, enaltecendo a ideia de mudança:

  Mudar sim! Porque toda minha experiência no governo que me antecedeu forneceu elementos para que eu compreendesse que não há explicação para o tamanho do atraso social deste Estado tão rico em potenciais naturais, tão privilegiado por natureza. (Jornal Pequeno, 26/06/2004, p.04).

  Mas, para que se operasse a magia social (BOURDIEU, 2007) e José Reinaldo tivesse autoridade para impor uma “di-visão” dessa realidade, fazia-se necessário que ele se reinventasse, passando a se (re)presentar através de novos símbolos e novas práticas. Nessa perspectiva, confirma-se a ideia de estreita articulação entre representações e práticas, no sentido proposto por Chartier (1991), qual seja que as representações existem à medida que comandam atos.

  Entre as ações que passaram demarcar a nova posição do governador, destaca-se a “reorganização da estrutura administrativa do executivo”, que retomou a antiga denominação de “Secretarias de Estado”, extinguindo as “Gerências” instituídas pela ex-governadora Roseana Sarney sob intensa propaganda na mídia local e nacional de

  48

  que estaria implantando um novo modelo administrativo, símbolo da sua gestão . Outra manifestação da ruptura de José Reinaldo com seu antigo grupo político foi a sua saída do PFL, o mesmo de Roseana Sarney, para se filiar ao PTB. Essa migração partidária redefiniu várias posições no espaço político maranhense, visto que o governador foi

  49 47 seguido por um grupo de integrantes tanto do PFL quanto de outros partidos . 48 Jornal Pequeno (26/06/2004, p.04). 49 Jornal Pequeno (09/06/2004, p.03). A saída de várias lideranças dos quadros do PFL foi o estopim dos conflitos que vinham se delineando no interior do grupo Sarney e, por consequência, na Assembleia Legislativa. Mesmo antes de estar consumada a ruptura de José Reinaldo com o grupo Sarney e posteriormente com o PFL, esse conflito já havia chegado ao Legislativo Estadual com parlamentares vinculados ao governador sendo despojados de importantes

  50

  funções nessa Casa , ainda controlada por uma maioria fiel ao grupo Sarney que identificava nesse grupo o caminho de acesso aos benefícios da máquina governamental.

  Esse fato demonstra que já havia uma movimentação dos agentes nesse espaço e que o rompimento do governador com o grupo dominante, assim como sua saída do PFL, precipitaram novas tomadas de posição e alianças, ocasionando reconfigurações na política estadual, bem exemplificadas no processo de eleição do presidente da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa.

  O governador deu inicio a uma fase de negociações no Legislativo Estadual com o objetivo de conquistar a presidência da Casa e assegurar a formação de uma maioria e, consequentemente, a governabilidade. Nesse processo buscou uma aproximação com parlamentares que até então estavam na oposição ao seu governo e que a essa altura já sinalizavam possibilidade de aliança. A esse respeito, ele faz a seguinte afirmação:

  Eu acho que chegou a hora de somarmos as forças. A oposição tem uma bancada bastante numerosa na Assembleia Legislativa, de forma que eu fico muito satisfeito de contar com o apoio dela, pois vivemos um novo momento no Maranhão e vemos com muita simpatia esse aceno da oposição para o governo. (Jornal Pequeno, 10/09/2004, p.03).

  Essa aproximação entre o governador e seus antigos opositores no legislativo é uma expressão literal de negociações e reposicionamentos que os agentes realizam no curso de sua trajetória e que ajudam a construir suas identidades, inclusive no que esta tem de contingente. Demonstra também, como os indivíduos são produtos de múltiplas experiências de socialização e que participam de variados universos sociais, ocupando 50 posições diferentes neles (LAHIRE, 2003). José Reinaldo e seus aliados não assumiam

  

Desentendimentos entre parlamentares na Assembleia Legislativa provocaram uma dissidência no

bloco que dava apoio ao governo, “Bloco Parlamentar Democrático”, originando o “Bloco Popular”. As

tensões ocorreram depois que parlamentares vinculados a José Reinaldo foram despojados de importantes

funções no Legislativo Estadual. De acordo com informações do Jornal Pequeno, o deputado Wilson

Carvalho foi forçado a deixar a presidência do “Bloco Parlamentar Democrático” e perdeu a presidência

da Comissão de Saúde que ficou com o deputado Humberto Coutinho. Outro que não conseguiu integrar

comissões na Assembleia Legislativa foi o deputado Stênio Resende que perdeu a presidência da

comissão mais importante da Casa, Comissão de Constituição e Justiça, para Teresa Murad que é casada apenas uma “nova” posição na política maranhense, mas reconstruíam suas identidades ao mesmo tempo em que reconfiguravam o próprio espaço em disputa.

  A adesão de vários deputados à base de apoio ao governo alcançou até os oposicionistas mais contundentes Aderson Lago (PSDB) e Domingo Dutra (PT), o

  51

  primeiro declarou reconhecer “uma nova postura do governo em relação à oposição” , enquanto o petista afirmava: “nós estamos vendo um governador que nasceu na chamada oligarquia Sarney se libertando do grupo e tomando atitudes que indicam que

  52 essa rachadura não tem soldador que dê jeito” .

  Por esta via o governador começava a ser reconhecido na política estadual como oposicionista ao grupo Sarney. A produção dessa crença (LEVI-STRAUSS, 1975), associada ao governismo tradicional na política brasileira (FIGUEIREDO e LIMONGI,

  53

  1998; MELO, 2001; BEZERRA, 1999) pode ser percebida nas mudanças de posição e de discursos vários deputados, inicialmente, críticos ou receosos quanto a esta aliança.

  Com o propósito de tornar crível e legítimo seu novo posicionamento político, José Reinaldo lançou mão de várias estratégias, incluindo uma (re)leitura do seu próprio passado desvinculando-se da visão que tradicionalmente lhe era imputada, sem críticas, de apadrinhado do senador Sarney. Nessa nova fase, José Reinaldo ressignificava a sua trajetória, associando seu histórico de ocupação de cargos públicos à sua condição de técnico e procurando se diferenciar da visão tradicional atribuída aos políticos, centrada na busca de poder. Diz ele através do Jornal Pequeno (29/07/2004, p.03):

  Tive uma trajetória muito grande no funcionalismo federal e em outros Estados. Entrei na política com 51 anos, portanto não sou de fazer essas jogadas que os políticos costumam fazer, gosto dos políticos, mas me considero um técnico, no sentido de querer realizar alguma coisa do que propriamente um sonho de poder. Eu não tenho esse sonho de poder, o que eu quis foi ter uma participação se ser governador para resolver os problemas do Estado, e eu estou mostrando em dois anos que é possível [...].

  A utilização desses elementos para construção de uma nova imagem do governador demonstra que as identidades não são fixas, muitos menos estaques, mas estão relacionadas a uma ideia de movimento e transformação, remetendo a um “tornar- 51 se”, como na proposta de Butler (2003). Deste modo, a identidade se afasta de uma 52 Jornal Pequeno (05/09/2004, p.03). 53 Ibid.

  

Nossa referência ao governismo na política brasileira, associada à posição que o governador José

Reinaldo assumiu na política estadual, está relacionada ao peso que os recursos governamentais e seu

poder de barganha exercem sobre os alinhamentos e realinhamentos políticos, tanto na esfera eleitoral concepção essencialista, aproximando-se de uma visão mais estratégica e posicional e, nesse sentido, a ruptura de José Reinaldo e a forma como ele se re(a)presentou a partir desse momento refletem as negociações e os posicionamentos que ele assumiu.

  3.1.2. Jogo de Contrastes - A culpa é do Outro! Vários eventos concorreram para construção de representações que disputavam o estatuto de interpretação legítima dos acontecimentos que sucederam o rompimento de

  José Reinaldo com o grupo Sarney, provocando uma verdadeira guerra polissêmica entre os jornais O Estado do Maranhão e o Jornal Pequeno, que assumiram funções de porta-vozes dos agentes e interesses em conflito.

  Muitas imagens e símbolos foram apropriados e/ou rejeitados com o objetivo de dar a conhecer uma realidade marcada por “di-visões”, sustentada por estratégias simbólicas que mascaram a realidade utilizando meios espetaculares como forma de “esconder o essencial e exibir o acessório” (BALANDIER, 1982).

  As instabilidades políticas e financeiras do Estado, ocasionadas tanto pelos realinhamentos políticos das elites locais, como pelo endividamento do Estado, forneceram elementos significativos para essa espetacularização. Os problemas daí decorrentes foram dramatizados pelos jornais que, diariamente, trocavam acusações reconhecendo esses problemas tanto na administração da ex-governadora Roseana Sarney como na gestão de José Reinaldo Tavares, a depender do jornal.

  Nessas disputas, um recurso bastante acionado foi a estigmatização social (ELIAS, 2000), ou seja, atribuição de características e rótulos depreciativos como meio de desqualificação do rotulado e, por via indireta, de qualificação de quem rotula, sendo estes rótulos parte constutiva da(s) própria(s) imagen(s) desses agentes.

  Na agenda em torno da qual se desenvolveu a estigmatização e a troca de acusações, destacavam-se as seguintes questões: problemas financeiros do Estado; greve de professores da rede estadual de ensino; escândalo envolvendo a construção de estradas e a eleição da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa. Os debates em torno desses acontecimentos transformaram a política maranhense, durante certo tempo, numa espécie de teatro trágico (BALANDIER, 1982), com o objetivo de causar a “morte moral” dos acusados por esses problemas. Tendo em vista que as qualificações/desqualificações se corporificam a partir de situações objetivas, vejamos em detalhes como os agentes em foco acionaram essas estratégias considerando a agenda acima mencionada.

  As “dificuldades financeiras do Maranhão” deram margem à constante troca de acusações através dos jornais O Estado do Maranhão e Jornal Pequeno, configurando-se como base para qualificação/desqualificação dos agentes em disputa enquanto gestores públicos. Nesse embate José Reinaldo e Roseana Sarney buscavam construir identidades embasadas em competência técnica, compromisso com a melhoria dos indicadores sociais do estado e probidade administrativa, numa espécie de jogo de soma zero onde o domínio desses atributos por um dos agentes excluiria o acesso do outro aos mesmos.

  Mediante contínuas acusações feitas pelo Sistema Mirante ao governador em torno da questão financeira do estado, José Reinaldo acionou outros veículos da mídia local, especialmente o Jornal Pequeno, para “colocar as contas na mesa”, difundindo a sua versão sobre os problemas financeiros do estado e exibindo documentos que lhe interessavam divulgar. Em entrevista à TV Difusora, reproduzida pelo Jornal Pequeno, ele afirmou que esses problemas foram causados pelo aumento da dívida na gestão da ex-governadora Roseana Sarney e pela queda no repasse dos recursos federais. Acrescentou ainda que o Maranhão tinha perdido mais de R$ 400 milhões no ano de 2003 em relação ao ano de 2002 e que 80% dessa redução decorria da baixa nas

  54 transferências do governo federal para o estado .

  Em relação ao endividamento do estado, José Reinaldo destacou aumento significativo decorrente de empréstimos feitos pela ex-governadora. Um deles, no valor de R$ 320 milhões, em 1.999, para sanear o Banco do Estado do Maranhão (BEM), o

  55

  qual foi logo, em seguida, vendido ao Bradesco por R$ 78 milhões , numa operação que, segundo o governador, “é como, por exemplo, se você tivesse um carro antigo que

  56

  custasse 3 mil e tomasse um empréstimo de 12 a 15 mil para guaribar o carro” . Além disso, as condições do empréstimo fizeram com que a dívida que era de R$ 333 milhões 57 saltasse para R$ 629 milhões em 2004 .

  Também mencionou outro empréstimo feito durante o governo de Roseana 54 Sarney, na ordem de US$ 620 milhões fazendo com que, em 2004, a dívida do estado já 55 Jornal Pequeno (18/06/2004, p. 03). 56 Jornal Pequeno (03/08/2004, p.04). 57 Jornal Pequeno (29/07/04, p.03). somasse US$ 2 bilhões, o que ultrapassava a sua capacidade legal de endividamento. Segundo José Reinaldo Tavares,

  Tomaram 30 por cento da capacidade de endividamento do Estado. Isso implica dizer que além de pagar muito dinheiro pela dívida, não pode tomar um tostão emprestado para ajudar nenhum setor. Foram vendidos o Banco do Estado, a CEMAR, as ações da TELMA e isso resultou em qual benefício para o Estado? Resultou apenas no Estado mais pobre da federação, com a maior parcela da população na mais completa pobreza e os piores índices nas áreas de educação, saúde e renda. (Jornal Pequeno, 29/07/2004, p.03).

  Com essas informações o governador construía a sua versão sobre a dívida, responsabilizando sua antecessora pelos problemas financeiros do estado e eximindo-se de qualquer responsabilidade. O montante da dívida, por si só, estimula a dramatização desse acontecimento em alto grau de intensidade e sua espetacularização nos meios de comunicação resulta em proporções ainda maiores, porque também a interpretação desses acontecimentos foi objeto de intensa disputa, como percebido pelo chargista do Jornal Pequeno, que retrata a situação do estado naquele contexto como uma espécie de herança maldita deixada pela governadora.

  Figura 2- Charge 02 Fonte: CAJU. Jornal Pequeno (15/05/2004, p.02).

  A versão da ex-governadora Roseana Sarney foi bastante divulgada pelos meios de comunicação de sua família e, segundo o jornal O Estado do Maranhão, José Reinaldo tentava atribuir ao governo antecessor os problemas da sua administração, responsável por “submeter o Maranhão a uma crise financeira sem precedentes na história recente do estado”. Na interpretação desse periódico o governador tomou como “bode expiatório” o governo do qual fez parte durante sete anos e três meses como vice- governador, atribuindo-lhe toda responsabilidade pela situação financeira em que se

  58 encontrava o estado .

  Em defesa do governo de Roseana Sarney, esse jornal divulgou que a ex- governadora teria deixado “um estado ajustado financeira e administrativamente por seu governo bem sucedido, que deixou todos os compromissos em dia [...] e dinheiro em

  59

  60

  caixa” , no caso, R$ 471 milhões . Segundo esse jornal, as atuais dificuldades financeiras do estado teriam sido agravadas por gastos que o governador José Reinaldo fez com o “aluguel de aviões e a compra de passagens aéreas para ele, o vice- governador e membros do alto escalão do governo [...], que atingiram cerca de R$ 6

  61 milhões” .

  Registre-se que Roseana Sarney também apresenta números para dar legitimidade científica aos seus argumentos como forma de sustentar sua versão sobre os problemas financeiros do estado. Ambos se utilizavam de dados estatísticos para se eximir de culpas e responsabilizar seu adversário. José Reinaldo rebatia as críticas da ex-governadora sobre o aluguel de aviões, afirmando que esse não era o grande problema do Maranhão, e se utilizava dos indicadores sociais do estado para recolocar situação em seu benefício e acusar a gestão de Roseana por esses índices, desviando a atenção da dívida, em si, para situação sócio-econômica do estado de forma mais ampla:

  O que merece discussão é sermos um estado que não possui a CEMAR, o BEM, e TELMA e outros bens, e continuarmos sendo o que possui a menor renda por habitante, dono do pior IDH- Índice de Desenvolvimento Humano- o maior número de municípios mais pobres do Brasil, com a maior faixa relativa da população vivendo abaixo da linha da pobreza, com os piores níveis de educação do Nordeste tanto na faixa do analfabetismo como no ensino médio e no ensino superior. No setor da saúde, de tão ruins os dados chegam a ser vergonhosos e inacreditáveis. E sabem de quem são esses dados? Do IPEA, do governo federal. Pois foi assim que saímos dos oito anos de governo de quem agora me ataca. (Jornal Pequeno, São Luís, 05 de jul. de 2004, p.03; grifo nosso).

  Note-se que em sua resposta, o agente também mobiliza o discurso científico para dar legitimidade à sua posição. Não se tratava apenas da fala de José Reinaldo, mas do discurso do governador – de quem ocupa uma posição de poder e tem acesso a recursos, inclusive informacionais, privilegiados. Acionava, por esta via, um discurso 58 com pretensões de verdade e, por conseguinte, de aceitação. 59 O Estado do Maranhão (29/07/2004, p.03). 60 O Estado do Maranhão (29/07/2004, p.03). 61 O Estado do Maranhão (16/05/2004, p.03).

  Como forma de neutralizar as críticas que o governador vinha fazendo à gestão de Roseana Sarney, o jornal O Estado do Maranhão passou a divulgar passagens do discurso de posse de José Reinaldo ao assumir o governo em 2002, nessas passagens ele se referia à administração da ex-governadora como um “grande governo”, segue abaixo algumas delas:

  Minha responsabilidade torna-se maior pela circunstância de estar sucedendo a governadora Roseana Sarney, que entra para a História do Maranhão como uma das maiores entre todos os que exerceram o cargo de Governador do Estado [...] Vou continuar o Governo Roseana [...] Todos nós reconhecemos e aplaudimos os avanços no esforço pela modernização do Estado, pela melhoria dos nossos indicadores sociais, colocando o Maranhão no caminho certo; pelo grande trabalho realizado na implantação de moderno sistema de estradas, o êxito que obteve no objetivo de alcançar o equilíbrio econômico e financeiro do setor público; pelo grande trabalho em benefício do turismo e da cultura popular maranhense; pelo trabalho fundamental no serviço de segurança em benefício da população; pela mais importante reforma no setor público, jamais realizada no país; pelo trabalho no Centro Histórico; pela luta pessoal da Governadora em favor do reconhecimento de São Luís como Patrimônio Cultural da Humanidade; pelo grande programa social realizado; pelo aumento da produção do setor primário; pelos avanços perseguidos na educação e saúde; pela seriedade que deu às licitações e pela correta condução das obras públicas [...] Parabéns, Governadora, pelo governo exemplar que conta com a aprovação de mais de 80% dos maranhenses. (O Estado do Maranhão, 29/07/ 2004, p.03; grifo nosso).

  Operando com temporalidades diversas, o jornal O Estado do Maranhão acionou falas de José Reinaldo pronunciadas em outro contexto, num momento em que este assumia outras posições na política estadual. Com isto, procurava demonstrar suas contradições e desacreditar as acusações então apresentadas à administração de Roseana Sarney. Recorreu também a símbolos de “modernidade” e “desenvolvimento”, que cumpriam a dupla função de enaltecer a imagem da ex-governadora e isentá-la de responsabilidades em face aos problemas do estado.

  O debate em torno da situação financeira do Maranhão se constituiu, portanto, num meio pelo qual imagens e reputações de lideranças políticas eram edificadas ou desestruturadas através dos jornais. Da mesma forma, a greve dos professores da rede estadual de ensino, por reajuste salarial e mudanças no Estatuto do Magistério, foi outro terreno de qualificação/desqualificação política desses agentes.

  O jornal O Estado do Maranhão que, tradicionalmente, oferece pouco destaque às lutas dos servidores públicos estaduais foi, nessa nova conjuntura, a principal vitrine das manifestações e protestos deste segmento, particularmente dos professores em greve. As manchetes desse periódico cumpriam o papel de mais do que prestar pela intensidade da dramatização das notícias, conforme pode ser observado nas ilustrações seguintes.

  Figura 3- O Estado do Maranhão 01 Figura 4- O Estado do Maranhão 02

Fonte: O Estado do Maranhão (31/08/2004, capa). Fonte: O Estado do Maranhão (04/09/2004, capa).

  Figura 5- O Estado do Maranhão 03 Figura 6- O Estado do Maranhão 04

Fonte: O Estado do Maranhão (14/09/2004, capa). Fonte: O Estado do Maranhão (23/09/2004, capa).

  Idêntico recurso (ainda que, com sinal trocado) pode ser visto na abertura de espaço nesse jornal para um dos mais conhecidos oposicionistas à família Sarney e seu grupo político, o petista Domingos Dutra, demonstrando como essas posições são negociadas em contextos específicos e servem às representações que os grupos em conflito visam instituir, as quais não são fixas ou imutáveis. Mesmo sem elogiar os grevistas ou criticar diretamente o governo do estado a declaração de Dutra afirmando que “é preciso que os professores entendam a situação econômica pela qual passa o

  62

  governo [...]” , corrobora a tese desse jornal de que o estado estava imerso numa crise financeira a qual o governador “não estaria sabendo administrar”.

  As charges seguintes, publicadas pelo jornal O Estado do Maranhão, abordam problemas relacionados à educação no estado retratando, no primeiro caso, a greve dos professores da rede estadual onde o governador é representado por um leão numa churrascaria prestes a comer o professor vivo e várias pessoas com vontade de tirar um pedaço, como demonstram as mãos levantadas com talheres à mostra, enquanto o professor aparece de pés e mãos atadas e de “juízo quente” por conta da situação em que se encontrava essa categoria. A segunda charge denuncia a ausência de escolas, sugerindo que as prometidas melhorias na rede estadual de ensino encaminham-se para um frustrante fundo de poço.

  Figura 7- Charge 03 Figura 8 – Charge 04 Fonte: CABALAU. O Estado do Maranhão (14/09/2004, Fonte: CABALAU. O Estado do Maranhão p.02).

  (29/09/2004, p.02).

  A politização da greve dos professores vai adquirindo nitidez cada vez maior em episódios como a resposta do governador às acusações que lhe eram dirigidas, seja pelo sindicato, seja pelos opositores. Em entrevista ao Jornal Pequeno (10/09/2004, p.04) José Reinaldo Tavares afirma que a greve de professores “tem componentes políticos”, vez que “suas reivindicações salariais já haviam sido atendidas e mesmo assim continuavam paralisados”. Esse comentário surtia um duplo efeito: apresentar a greve 62 dos professores como ilegítima e colocar o governador na posição de vítima de ataques de adversários empenhados em enfraquecer o seu governo e que tinham no jornal O Estado do Maranhão uma espécie de trincheira para a defesa de suas (o)posições.

  Ressalte-se que José Reinaldo fez essa declaração através de uma coletiva de imprensa realizada no palácio do governo, o que reforça a ideia de espetacularização e disputas pela interpretação legítima dos acontecimentos; disputas pela afirmação de determinadas lideranças e modos de conduzir o governo ganharam nesse período. Não se tratava apenas de noticiar, mas de causar efeitos através de imagens e de todo um aparato midiático que servisse de suporte para os seus argumentos.

  A intensidade com que esses eventos eram dramatizados corrobora a ideia de “crise” àquela altura amplamente difundida, reverberando, inclusive, no Legislativo Estadual. Visando realizar alianças que fortalecessem o Executivo, deputados que eram “oposicionistas históricos” (BORGES, 2006), mas no momento, aliados ao governador deploravam o “clima de guerra” entre José Reinaldo e o grupo Sarney, acionando um discurso em defesa da “governabilidade”. As palavras do deputado Luiz Pedro (PDT) ao

63 Jornal Pequeno são representativas do apelo à minimização das diferenças em prol de

  “interesses maiores” relacionados à “salvação do estado” e associados à figura do governador, comumente representado como a personificação do estado.

  Sabemos que a crise existe, que é grave e que tende a se agravar mais ainda. Tudo isso fez com que a oposição se abra a um espírito de conciliação para que se tenha um governo de salvação estadual, passando por cima de diferenças dentro de um espírito maior voltado para o interesse público.

  

(Jornal Pequeno, 04/08/2004, p.03; grifo nosso).

  A declaração acima realça a tragicidade e dramatização (BALANDIER, 1982) daquele momento através da hiperbolização dos problemas (a crise existe, é grave e tende a se agravar) e das alternativas (salvação estadual). Essa forma de apresentar a situação, independentemente da existência de elementos fáticos que a confirmassem, o discurso sobre a “crise” é, em si mesmo, um elemento de sustentação da dramatização política e da própria “crise”, reafirmando-se por essa via a eficácia dos discursos para além do plano retórico.

  A “crise” também apareceu no debate político como sinônimo de “desgoverno”. O Estado do Maranhão se utilizava dessa ideia, representando o período em que José Reinaldo esteve à frente do governo do estado como “1.460 dias de desgoverno”, 63 reforçando, deste modo, a (des)qualificação do governador e de sua gestão, diz o jornal:

  Quatro anos depois de assumir o governo do Estado, período em que foi reeleito pela força e prestígio do grupo a que pertencia o governador José Reinaldo é a imagem acabada do fracasso, fracassou como gestor público e fracassou no papel político que pretendeu desempenhar. Ninguém no Maranhão atual faz outra leitura da imagem de Sua Excelência, mesmo entre aqueles que lhe fazem corte e se matem na órbita do seu governo.

  O fracasso retumbante do Sr. José Reinaldo tem explicações fáceis e estão na crônica do seu desempenho medíocre como chefe do poder Executivo, quebrou o governo, traiu seu grupo político, apunhalou os servidores públicos, negociou sustentação com segmentos políticos descomprometidos, quase se afogou no lamaçal da corrupção em que mergulhou seu governo, desrespeitou os maranhenses com promessas não cumpridas [...] O que mais choca com toda essa situação é que o Sr. José Reinaldo parece fingir que tudo é maravilha à sua volta. Sua aparência é a de quem foi convencido de que está liderando um grande governo, quando a realidade revela o que pode ser rigorosamente definido como uma tragédia administrativa. Seus marketeiros, pagos a peso de ouro, divulgam conquistas inexistentes, exibem indicadores que não resistem a um simples questionamento, numa clara, ostensiva, desesperada e infrutífera tentativa de ludibriar a opinião pública com alquimia fajuta da propaganda enganosa [...]. (O Estado do Maranhão, 05/04/2005, p. 03; grifo nosso).

  Essa foi a linha editorial do jornal O Estado do Maranhão ao longo do governo de José Reinaldo, desqualificando sistematicamente o governador e sua administração, mediante “di-visões” que demarcariam as fronteiras entre a gestão de José Reinaldo e a da ex-governadora Roseana Sarney, deixando entrever que esta última seria a mais qualificada para o exercício dessa função. Isto aparece numa espécie de balanço dessa administração, apresentada pelo jornal na edição do dia 25 de maio de 2004, p. 03, onde se constata afirmações como:

  a) durante os quatro anos em que José Reinaldo esteve no governo houve o repasse de mais dinheiro do que no período de Roseana Sarney, no entanto ele fez menos do que ela;

  b) os serviços públicos foram sucateados; c) os indicadores sociais pioraram.

  Esse discurso coloca em questão uma leitura da própria história do Maranhão que tem sido objeto de disputa e diferenciação entre os grupos políticos. A alusão aos indicadores sociais e ao sucateamento dos serviços públicos acionam um ponto que as oposições sempre se utilizaram para (des)qualificar o grupo Sarney, (re)apresentado sob o signo do “velho”, “patrimonial” e do descompromisso para com a superação dos graves indicadores sociais do estado. O acionamento dessas questões serve à (des)construção da imagem historicamente atribuída ao grupo Sarney por seus opositores, mediante imputação desses atributos às próprias oposições.

  As disputas em torno dos problemas sócio-econômicos do Maranhão, suas causas e a postura dos grupos políticos em relação às mesmas, transcorrem em meio a tensões entre agentes dotados de autoridade para defini-los. Tal autoridade decorre de posições ocupadas, cargos eletivos, experiência administrativa, conhecimento técnico, histórico de iniciativas em prol do estado, entre outros. Tais posições ou atributos são elementos sempre acionados para reforçar posições e construção de identidades.

  Ressoando o discurso do governador José Reinaldo, o Jornal Pequeno, sugerindo incapacidade e descompromisso com o estado por parte da ex-governadora, afirmava que este teria herdado “índices vergonhosos da administração de Roseana Sarney”, além de problemas como a não liberação de verbas federais e negligência na apresentação de

  64

  projetos no Senado , relacionando-os a “boicotes” que teriam sido arquitetados por ela e seus aliados em esfera federal. Diversas falas do governador atestam essa percepção:

  Há uma perseguição política violenta contra o governo, eu estou sendo atacado e ainda me jogam contra a população. (Jornal Pequeno, São Luís, 05/08/2004, p.03). Estão boicotando um projeto de interesse do Maranhão. (Jornal Pequeno, 08/10/2004, p.03). A ex-governadora tem tentado prejudicar o Maranhão. Ouvi de alguns ministros que a reclamação de que a senadora ligava pedindo pra estes não virem ao Maranhão. Ela demonstrou ser inimiga do Maranhão. A senadora não é obrigada a gostar do governador, mas é obrigada a gostar do povo do Maranhão. (Jornal Pequeno, 23/10/2004, p.03).

  Outro episódio dessa disputa de grande destaque na imprensa local foi um conjunto de denúncias sobre a construção de “estradas fantasmas” durante a gestão de José Reinaldo cuja repercussão foi ampliada pela divulgação em mídia nacional (Revista Veja e Rede Globo). Segundo o jornal O Estado do Maranhão foi “desviado” do tesouro estadual cerca de R$3,5 milhões para a construção de 19 estradas que nunca

  65 existiram, estando envolvido nessas acusações um cunhado de José Reinaldo .

  Durante dois meses, essas denúncias foram recorrentes nas manchetes desse

  66

  jornal. Em defesa do governador José Reinaldo, o Jornal Pequeno respondia às acusações noticiando que a matéria da Revista Veja não passava de um “golpe da 64 dinastia Sarney” que continha uma “série de inverdades” e “ataques ao governador e sua

  

A este respeito, vale destacar que senadores eleitos pelo Maranhão nas eleições de 2002, foram 65 Roseana Sarney e Edison Lobão, ambos pelo PFL. 66 O Estado do Maranhão (07/02/2005, p.03). esposa”. José Reinaldo redigiu uma carta para a revista informando que mandaria apurar toda e qualquer denúncia sobre o seu governo e o que fosse relacionado aos dez anos que antecederam sua administração, incluindo “a mais escandalosa das estradas fantasmas, a Paulo Ramos- Arame, paga no valor de 33 milhões de dólares e não

  67

  executada pelo governo Roseana Murad” . Não mencionava, entretanto, que ele era o vice-governador da gestão que ora denuncia.

  Observa-se nessas trocas de acusações como os sujeitos envolvidos nos casos citados tentam se diferenciar e, a um só tempo, (re)definirem-se. Isso ocorre porque as relações de identidade e diferença são mutuamente determinadas e se organizam em torno de oposições binárias que dividem o mundo social entre “nós” e “eles” (SILVA, 2000).

  Nesse sentido, tentar isentar-se de responsabilidades em relação aos problemas do estado se apresenta como mecanismo de diferenciação e de produção de uma imagem vinculada a elementos mais valorizados. Sendo assim, o modo como os jornais O Estado do Maranhão e o Jornal Pequeno apresentaram suas versões dos acontecimentos teve um peso nesse processo de diferenciação. As manchetes abaixo demonstram como esses jornais diferenciavam tanto o governador José Reinaldo quanto a ex-governadora Roseana Sarney, através de acusações e rótulos depreciativos com o objetivo de (des)qualificar o adversário e qualificar a si próprio.

  Figura 9 – O Estado do Maranhão 04 Fonte: O Estado do Maranhão (02/01/2005, capa).

  Figura 10- O Estado do Maranhão 05 67 Fonte: O Estado do Maranhão (09/01/2005, capa).

  

O escândalo da “estrada fantasma” Paulo Ramos – Arame (MA – 008) ocorreu entre 1995 e 1996,

durante a gestão de Roseana Sarney, quando a governadora pagou à construtora EIT (Empresa Industrial

Técnica S/A) R$ 33 milhões por uma estrada de 128 km de extensão que nunca foi efetivamente

construída, interligando os dois municípios mencionados (Jornal Pequeno, São Luís, 27 de maio de 2012,

Disponível em: http://www.jornalpequeno.com.br/2012/5/27/empresa-investigada-pela-pf-pode-emperrar-

  Figura 11- O Estado do Maranhão 06 Fonte: O Estado do Maranhão (05/03/2005, capa).

  Figura 12- O Estado do Maranhão 07 Fonte: O Estado do Maranhão (28/03/2005, capa).

  Figura 13- Jornal Pequeno 01 Fonte: Jornal Pequeno (25/07/2004, capa).

  Figura 14 – Jornal Pequeno 02 Fonte: Jornal Pequeno (10/10/2004, capa).

  Figura 15 – Jornal Pequeno 03 Fonte: Jornal Pequeno (22/12/2004, p. 03).

  Figura 16 – Jornal Pequeno 04 Fonte: Jornal Pequeno (01/01/2005, capa).

  Tomando por referência essas manchetes observamos como os processos de produção de identidade e a demarcação de diferenças, entre “nós” e “eles”, não podem ser compreendidos fora do sistema de significação no qual adquirem sentido (SILVA, 2000, p.78). Note-se que os processos de diferenciação em contextos de acirrada disputa política envolvem, simultaneamente, uma visão positiva de si e negativa do outro, como na expressão “corrupto é o outro”. Nesse sentido, muitas representações desse período alcançam uma dimensão moral, reforçada pelas chamadas “pesquisas de opinião” contratadas pelo jornal O Estado do Maranhão e onde apareciam a condenação ao

  68 governador e sua administração .

  Outro evento em que podemos observar mecanismos de diferenciação entre o governador e o grupo dominante, representado pela ex- governadora Roseana Sarney, foi o processo de eleição da diretoria da Assembleia Legislativa, em janeiro de 2005. As disputas por posições institucionais nesse espaço também envolveram elementos simbólicos, sendo a troca de acusações uma estratégia utilizada por ambos os jornais.

  O Jornal Pequeno acusava José Sarney de ser o responsável pela transferência da data da eleição da mesa diretora. De acordo com esse periódico, a mudança foi uma estratégia política do senador que temia perder influência no Legislativo Estadual:

  [...] Sarney usou todos os trunfos que lhe são peculiares para mudar o quadro de sucessão de Milhomem [presidente em exercício da Assembleia Legislativa]. Primeiro, instruindo o presidente da Assembleia a transferir a eleição de 15 de dezembro para 31 de janeiro, numa manobra casuística que rasgou de cima a baixo o Regimento Interno da Casa. Depois se lançou ao ataque de peito aberto [...] Reuniu-se em sua mansão no Calhau com deputados, a quem ofereceu benesses, posou de vítima, ameaçou, chantageou. (Jornal Pequeno, 30/01/2005, p.03).

  Em contrapartida, O Estado do Maranhão tratava o mesmo evento como uma luta contra as interferências do governador na Assembleia Legislativa:

  Vários deputados defenderam a transferência da data alegando como necessário porque o governo tem interferido acintosamente no processo de escolha dos novos dirigentes do Legislativo, distribuindo cargos e favores, o que mudou a correlação de forças na disputa pela presidência da Assembleia. Segundo Carlos Braide: ‘Nós tínhamos um grupo de 23 deputados (para a disputa pela presidência), mas esse grupo foi desfeito por causa de cargos e 68 favores do governo. O governador tem loteado a administração para derrotar

Como exemplo de “pesquisas de opinião”, divulgadas pelo jornal O Estado do Maranhão, que

condenavam José Reinaldo e sua administração, destaca-se à realizada pelo Instituto Econométrica de 21

a 23 de janeiro de 2005, na qual 63% da pessoas ouvidas achavam José Reinaldo um “administrador

corrupto, incompetente e mentiroso” e 79,4% não gostavam do governador (O Estado do Maranhão, São

Luís, 30/01/2005, capa). Em outra pesquisa realizada pela Econométrica, 63% das pessoas ouvidas

responderam que o governador” não tinha compromisso com a educação” e para 84, 4% o governador a Assembleia. Por isso, a necessidade de se adiar a eleição. Adiar para que o Legislativo encontre seu caminho de independência’. (O Estado do Maranhão, 14/12/2004, p.03).

  Esses discursos reiteram uma permanente realidade conflitiva de qualificação/ desqualificação que cerca as disputas por recursos simbólicos e materiais, afinal os embates entre grupos assimetricamente situados no espaço social traduzem o desejo de garantir acesso privilegiado a esses bens (SILVA, 2000). Sendo assim, a eleição para o comando da Assembleia Legislativa representava a garantia de acesso aos recursos que este cargo poderia viabilizar tanto no âmbito do legislativo como em espaços mais amplos.

  Na versão do Jornal Pequeno a eleição na Assembleia Legislativa reproduzia a cisão no grupo Sarney, estabelecendo os campos “reinaldistas” e “roseanistas”, ainda que nenhum parlamentar assumidamente apoiador do grupo Sarney tivesse lançado candidatura e que o candidato associado a este grupo fosse de um partido historicamente reconhecido como de oposição (PDT). O contexto de bipolaridade, estabelecido de fora para dentro e atropelando as próprias definições partidárias, não dava margens para outros posicionamentos, sendo que a não adesão ao candidato do governador era automaticamente interpretada como apoio ao grupo Sarney.

  Dois candidatos disputaram a presidência da Mesa Diretora: João Evangelista (PTB), líder do governo na Assembleia Legislativa, e Mauro Bezerra (PDT), integrante

  

69

  de um dos blocos de oposição ao governo . João Evangelista recebeu apoio declarado do governador José Reinaldo, empenhado na montagem de um bloco de sustentação ao seu governo, mediante conquista da presidência da mesa diretora. Mauro Bezerra se lançou à disputa por meio de candidatura avulsa que não reuniu em seu entorno sequer a totalidade dos parlamentares do seu partido; mas foi associado, pelo Jornal Pequeno à “ala roseanista” em virtude de sua oposição à eleição de Evangelista e por ter recebido

  70 apoio de deputados vinculados à ex-governadora na Assembleia Legislativa .

69 Destaque-se que nesse contexto a denominada oposição congregava agentes de perfil diferenciado em

  

temos políticos e ideológicos, abrangendo desde agentes, reconhecidos por sua longa militância nas

oposições, até parlamentares que sempre foram alinhados ao grupo Sarney, mas que acompanharam o

governador em sua ruptura com esse grupo, preservando assim a condição estratégica de aliados do

70 governo do estado.

  

Representantes da “ala roseanista”: Tatá Milhomem, César Pires, Carlos Filho, Francisco Gomes,

Cristina Archer, Max Barros, Joaquim Haickel, Teresa Murad, Antônio Pereira, Carlos Braide, Mauro

  O desfecho do processo eleitoral foi de vitória para João Evangelista que, na condição de presidente da Casa, conseguiu articular uma maioria de apoio ao governador. Como retratado em charge do Jornal Pequeno, a eleição da nova mesa diretora foi simbolizada com uma “detonação” literal do grupo Sarney que lutou para não perder sua influência no Legislativo Estadual, a exemplo do que já havia acontecido em relação ao executivo. A charge sugere que esse grupo foi literalmente para “o espaço” junto com os “pedaços” de Roseana Sarney, José Sarney, Jorge Murad e Ricardo Murad, passando para o leitor a mensagem de que a influência dessas pessoas na Assembleia Legislativa teria sido aniquilada.

  Figura 17 – Charge 05 Fonte: CAJU. Jornal Pequeno (01/02/2005, p.02).

  As divisões que ocorreram no legislativo, resultantes de mudanças mais amplas decorrentes da ruptura de José Reinaldo com o grupo dominante, redefiniram a posição dos deputados relativamente ao governo do estado. A movimentação desses agentes entre as duas candidaturas demonstrou a fluidez das posições nesse espaço e destacou a centralidade das negociações com o Executivo. Foram representativas das tensões que cercaram essas reacomodações, orientadas por lógica mais individualista que partidária, as críticas de veementes opositores ao grupo Sarney, como os deputados Aderson Lago (PSDB) e Domingos Dutra (PT) contra a adesão de deputados do PDT (Graça Paz e Julião Amin) à candidatura de João Evangelista. Para Lago, esses deputados “foram assumir um compromisso de voto não com um deputado, mas com um governador. Nós da oposição nunca fizemos isso”; enquanto Dutra se referiu a essa adesão como um equívoco desses deputados.

  Nesse contexto, a própria classificação “governo” e “oposição” se tornou ainda mais complexa e disputada, ensejando posicionamentos de apropriação ou rejeição desses rótulos pelos deputados. Ser “governo” ou “governista” estava associado ao pertencimento ou apoio ao grupo Sarney no estado, em virtude do longo período em que se manteve a frente dos principais postos governamentais.

  Essa associação torna a classificação “governo” um rótulo pejorativo para os agentes historicamente vinculados à oposição a esse grupo. Nesse sentido, a reação do deputado Julião Amin (PDT) à matéria atribuída pelo Jornal Pequeno (15/09/2004, p.03) ao jornal O Estado do Maranhão em que esse parlamentar era apresentado como “governista” por ter apoiado o candidato do governador no Legislativo Estadual é representativa do repúdio que esse rótulo provocava. Segundo Amin, “o grupo Sarney tenta passar para o povo que nós somos governistas porque criticamos eles e eles querem hoje ocupar o espaço da oposição. Agora eu pergunto: oposição a quê?”. A apropriação do rótulo de “oposicionista” por agentes historicamente vinculados ao grupo Sarney também gerava reações adversas, como se vê na fala do deputado oposicionista Luiz Pedro (PDT), classificando Roseana Sarney como “ridícula” por se

  71 intitular “de oposição” .

  Esses argumentos demonstram a ocorrência de percepções diferenciadas acerca das categorias, governo e oposição- governista e oposicionista. Entre aqueles vinculados ao grupo dominante, percebe-se um viés mais situacional, decorrente apenas de quem perdeu ou ganhou a eleição, de quem está ou não à frente do governo. Já entre os oposicionistas históricos (BORGES, 2006), essas categorias são revestidas de componentes ideológicos ou programáticos associados a determinados modos de fazer política; nessa visão o governismo é automaticamente associado ao grupo Sarney, cujas práticas são apresentadas como “oligárquicas”, “patrimoniais” e descomprometidas com a resolução dos problemas sócio-econômicos do estado. Daí advém a relutância desses oposicionistas em se reconhecerem como governistas, ainda que o governo já não esteja sob o comando do grupo Sarney.

  Este período foi bastante significativo para compreendermos a fluidez dessas classificações, especialmente a oposição e os sentidos que elas assumem no estado, dirigindo-se não especificamente a um governo, mas à política praticada pelos 71 principais agrupamentos. O governador José Reinaldo, embora fosse o representante do governo por sua posição, após a ruptura com o grupo Sarney passou a se apresentar enquanto oposição. As lideranças políticas que integravam o grupo, mas que acompanharam o governador em sua mudança de grupo político também passaram a reivindicar essa posição.

  Considerando que “cada homem está mergulhado ao mesmo tempo ou sucessivamente em vários grupos”, os quais “não são, eles próprios nem homogêneos, nem imutáveis” (HALBWACHS, 1968 apud LAHIRE, 2003, p.40) as apropriações das categorias governo-oposição, neste contexto, estavam sujeitas aos movimentos dos agentes na política estadual. Deste modo, essas classificações foram apropriadas com significados, por vezes, distintos daqueles que convencionalmente lhes são atribuídos, estar dentro ou fora do governo.

  Neste cenário, os usos da oposição foram alvo de disputas e reivindicações, como demonstra a fala do deputado Mauro Bezerra (PDT), antes de ser definido quem seria o candidato apoiado pelo governador para disputar a presidência da mesa diretora, “se ele [o governador] está dizendo que vai apoiar um candidato sem vínculo com o passado [grupo Sarney] é por que vai apoiar um nome da oposição verdadeira” (Jornal Pequeno, 01/09/2004, p.03).

  Para distinguir os agentes políticos recentemente saídos do grupo Sarney dos oposicionistas históricos (BORGES, 2006), que ocupavam essa posição desde antes do rompimento de José Reinaldo, foram acionados vários adjetivos demarcadores de fronteiras e indicativos de quão heterogêneo se tornou o campo relacionado aos oposicionistas no qual se distinguiam três segmentos: os oposicionistas históricos à época (auto)denominados “oposição tradicional” ou “oposição verdadeira”; os oposicionistas vinculados ao governador José Reinaldo chamados de “neo oposicionistas”; e os integrantes do grupo Sarney que, nessa conjuntura, faziam oposição ao governador do estado.

  As disputas por esta classificação demonstram o movimento que há nesse espaço e confirmam que os lugares de pertencimento não são fixos, mas negociados. Os agentes vão se definindo de acordo com as posições que assumem as quais são construídas ao longo de divisões. Essas divisões refletem o processo de diferenciação social que permite aos agentes distinguirem-se uns dos outros através da utilização de

  72 72 rótulos com a função de qualificar/desqualificar a si e aos adversários .

  

A produção de charges foi outro recurso utilizado para construção simbólica da identidade oposicionista

  

3.2. “Balaiada”: Passado Enaltecido, Futuro Incerto e Presente de Luta Contra a

Cassação Jackson Lago

  O rompimento do governador José Reinaldo Tavares com o grupo Sarney, em 2004, provocou mudanças no padrão de ocupação das posições de poder no estado que refletiu nas disputas para o executivo estadual, em 2006. Nessa eleição o oposicionista Jackson Lago saiu vitorioso após acirrada disputa com a candidata do grupo dominante, Roseana Sarney.

  A despeito de ter se repetido a regra de que o governador elege seu sucessor, essa vitória mexeu com o imaginário social, pois durante todo processo eleitoral foi mobilizado um poderoso arsenal simbólico que associava a vitória de Lago ao “fim do domínio do grupo Sarney no estado”, como sugere o próprio nome da coligação do

  73

  candidato, “Frente de Libertação do Maranhão” . Ademais, a trajetória política de Lago contribuiu para que sua vitória ganhasse dimensões espetaculares em que o candidato

  74

  encarnava algo semelhante ao “mito do herói” , citado por Balandier (1982), e as representações construídas em seu entorno acentuavam essa característica.

  Lago construiu sua trajetória política vinculada às oposições, foi um dos fundadores do PDT no Maranhão, partido pelo qual foi eleito prefeito de São Luís em três pleitos (1988, 1996 e 2000). Candidatou-se em três ocasiões ao governo do estado: em 1994, obteve o terceiro lugar, atrás de Epitácio Cafeteira e de Roseana Sarney; em 2002, quando perdeu a eleição para José Reinaldo Tavares; e em 2006, quando saiu vitorioso, derrotando a candidata Roseana Sarney.

  

versão sobre esses conflitos por meio de uma linguagem gráfica cheia de ironias e ambivalências. Os

conflitos eram dramatizados e os personagens apresentados de maneira jocosa e com traços sugestivos de

infantilidade, incompetência e desonestidade. A qualificação/desqualificação dos agentes dependia do

jornal em que essas charges eram veiculadas, ou seja, jornal O Estado do Maranhão tendia uma imagem

mais favorável aos agentes do grupo Sarney, enquanto o Jornal Pequeno enaltecia José Reinaldo e seus

apoiadores. As charges são uma poderosa ferramenta para subversão de imagens, vez que ridicularizam

membros do poder e os transforma em bufões do povo, liberando uma crítica desarmada pelo riso

(BALANDIER, 1982). 73 Segundo o Jornal Pequeno, a “Frente de Libertação do Maranhão” reuniu, inicialmente, dez partidos

(PDT, PSDB, PSB, PPS, PT, PCdoB, PL, PAN, PMN e PCB), num esforço de construir uma alternativa

política ao grupo Sarney nas eleições de 2006, através da candidatura de Jackson Lago (PDT) para o

governo do estado e de João Castelo (PSDB) para o senado. No entanto, a regra de verticalização

inviabilizou este projeto, vez que PT, PSDB e PDT lançaram candidatos próprios, além disso, em âmbito

74 nacional o PSDB coligou-se com o PFL que, no Maranhão, era o partido da candidata Roseana Sarney.

  

Na visão de Balandier (1982, p.07) o herói acentua com maior frequência a teatralidade política, “ele

não é desde logo considerado como tal porque seria notadamente ‘o mais capaz’ [...] ele é reconhecido em

  A vitória de Jackson Lago, entretanto, tornou-se objeto de novas disputas, agora no âmbito do judiciário (denominadas pelo jornalismo oposicionista como “terceiro turno” das eleições) com o pedido de cassação dele e de seu vice pela candidata

  75

  derrotada . Lago foi acusado de ter sido beneficiário de abuso de poder político e econômico que teria sido praticado pelo então governador, José Reinaldo Tavares. O Tribunal Superior Eleitoral aceitou o pedido de cassação, decidindo pela anulação dos votos de Lago e posse de Roseana Sarney.

  Durante a tramitação do processo de cassação foi criado o “Comitê de Defesa da Democracia no Maranhão”, reunindo diferentes movimentos sociais e lideranças políticas, além de um “acampamento de resistência à cassação do governador”, instalado em frente à sede do governo (Palácio dos Leões) e que foi chamado de “Balaiada”, nome que também foi dado ao informativo produzido por este movimento, que passou a circular na cidade conclamando a população a resistir à cassação do governador.

  3.2.1. Construindo Resistências O “Comitê de Defesa da Democracia no Maranhão” e o “acampamento

  Balaiada” demarcaram fronteiras para além do espaço físico em que se situavam, estabeleceram “di-visões” como meio de construir e afirmar uma interpretação legítima sobre a realidade em questão. Foram espaços de criação e difusão de representações que recorriam ao imaginário oposicionista para construir sua versão dos acontecimentos, defendendo a permanência do governador no cargo e acionando um “passado de luta” que “deveria ser revivido no presente”.

  Em coerência com essa visão de que se tratava de uma resistência popular empreendida por movimentos sociais e progressistas, grande destaque foi dado à composição do “Comitê de Defesa da Democracia no Maranhão” que contava efetivamente com a adesão de vários desses movimentos, no caso: o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); Federação dos Sindicatos e Trabalhadores Rurais (Fetaema); Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar (Fetrafe); Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombola do Maranhão 75 (Aconeruq);Via Campesina Brasileira; integrantes de Pastorais Sociais da Igreja Católica, dos movimentos por moradia, do movimento negro e de alguns movimentos comunitários ligados aos bairros populares de São Luís, entre eles, Associação Comunitária do Itaqui-Bacanga (ACIB) e o grupo do Jornal Folha do Mangue (Comunidade do Rio das Bicas); além de integrantes de sindicatos urbanos, pessoas

  76

  ligadas à Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, integrantes do grupo Gayvota

  77 e do Vale Protestar (Jornal A Balaiada, 14 e 15/12/2008; nº 04).

  O recurso a um passado legitimador foi estratégia bastante utilizada pelo Comitê, que operava com um conjunto de símbolos e representações constitutivas do

  78

  imaginário social no Maranhão . Entretanto, é importante considerar que esse recurso ao passado, assim como nos fala Halbwachs (apud LAHIRE, 2003, P.40) sobre a memória ocorre a partir de dados ou noções comuns aos indivíduos, o que só é possível quando eles fizeram ou continuam a fazer parte de uma mesma sociedade, pois somente desta forma, a memória pode ser reconhecida e reconstruída.

  Neste sentido, o nome do acampamento e do informativo, “Balaiada”, é sugestivo desse recurso, pois se trata de uma referência à revolta popular que ocorreu nesse estado entre 1838 e 1841, protagonizada por escravos e homens livres de baixa renda contra os grandes proprietários agrários da região, sendo motivada por disputas políticas e pelas condições de miséria a que estava submetida grande parte da população.

  Semelhante artifício pode ser observado no emprego de recursos simbólicos e discursivos por A Balaiada para se referir à Ilha de São Luís como “Ilha Rebelde” numa alusão à “Greve de 51”, movimento também relacionado a eleições que ocorreu em 1951 contra a posse de um candidato apoiado por influente liderança política local, mas “eleito” sob fortes denúncias de fraude. A Greve paralisou a cidade por vários dias em duas ocasiões, com intensa mobilização de ruas e muita agitação popular (COSTA, 2006).

  A associação desses eventos históricos de forte componente simbólico ao 76 movimento contra a cassação de Lago pode ser percebida através da seguinte citação, “e 77 Gayvota, movimento que reúne o segmento LGBTT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). 78 Vale protestar, movimento popular que junta arte e política.

  

Sobre o recurso ao passado como forma de legitimar ações presentes, Almeida (1983) destaca que a

noção de decadência do presente em oposição à prosperidade do passado, transformou-se numa ideologia

com ampla difusão na literatura oficial do sec. XIX e XX, naturalizando as explicações sobre as

condições socioeconômicas do estado com base em interpretações sobre a decadência da lavoura, tida

  79

  já que somos rebeldes e bravos” , além de várias outras referências à cidade de São Luís como “Ilha Rebelde” em edições do informativo. Essas representações podem ser observadas até mesmo na estrutura do jornal que possui uma seção chamada “Bota pra

80 Moer” , referência a um personagem oposicionista que se destacou durante a “Greve de 51”.

  O recurso a símbolos e eventos históricos como a “Balaiada” e a “Greve de 51” foram se conformando a um processo mais amplo de fabricação da imagem do movimento, formado pela ação conjunta do Comitê e do acampamento, o qual incorporava símbolos de lutas e resistências, articulando-os a outros dispositivos simbólicos e discursivos que, além de lhe representar, justificava sua atuação.

  Destaque-se que os militantes do “Comitê de Defesa da Democracia no Maranhão” justificava a atuação do movimento como um ato “contra a oligarquia Sarney” e a “favor da democracia”, o que pode ser identificado na afirmação: “Queremos deixar bem claro que nossa luta é contra a oligarquia Sarney. É a favor da

  81

  democracia” . Essa forma de enquadrar os eventos sugere uma simbiose entre a sustentação do sistema democrático e a queda do grupo Sarney, fortalecendo o propósito de afirmar o “acampamento Balaiada” como uma espécie de trincheira democrática, um meio de “resistência à cassação do governador” e da “vontade soberana do povo” e, por este motivo, “só seria desmontado quando a ameaça de cassação não existisse mais”.

82 Conforme narrativa de A Balaiada , o acampamento foi formado no dia 09 de

  dezembro de 2008, reunindo pessoas do interior do estado e da capital que foram chegando “sem que ninguém esperasse” e se instalando em frente ao Palácio dos Leões.

  83 Entretanto, segundo a versão apresentada por O Estado do Maranhão , o acampamento 79 não teria se constituído de forma “inusitada”, pois contava com uma ampla estrutura 80 A Balaiada (18/12/2008, n°06).

  

Segundo Costa (2006) “Bota pra moer” foi um militante oposicionista, considerado “meio doido”, que

se destacou de forma “burlesca” durante a “Greve de 51” por empunhar a bandeira do Maranhão e tentar

ultrapassar o “Paralelo 38”, formado a partir da ocupação das tropas do 24º Batalhão de Caçadores nos

principais pontos da cidade, especialmente nas imediações do Palácio dos Leões, com o propósito de

garantir a posse de Eugênio de Barros. Segundo este autor, assim que “Bota pra moer” se deparou “com

soldados bem armados, metralhadoras engatilhadas [...] parou, refletiu, e disse a seus companheiros de

aventura [...] ‘pronto, eu trouxe até aqui, agora apareça um mais doido que eu pra levar adiante’” 81 (COSTA, 2006, p. 132). 82 A Balaiada (11/12/2008, nº 02). 83 A Balaiada, Belém (PA), jan./fev. de 2009, nº 08. com “banheiros químicos, tendas, colchões, carros de som e fiação elétrica”, havia todo um suporte para atender os acampados. Além disso, foi montada “uma grande estrutura

  84

  de áudio (quatro grandes caixas de som) e vídeo (um telão de aproximadamente 4m²)” para que os “balaios”, como eram chamados os integrantes do movimento, pudessem acompanhar o julgamento do processo do governador, transmitido ao vivo por um canal fechado de televisão, a TV Justiça. Numa dessas ocasiões, dia 16 de dezembro, foram

  85 observados “seis carros de som e um trio elétrico” .

  Não deve passar despercebido o fato de que essas informações sobre o montante de equipamentos e serviços disponibilizados aos participantes do acampamento foram divulgadas pelo jornal O Estado do Maranhão, plausivelmente orientado por interesse de denunciar os gastos que estavam por trás dessa infraestrutura e por em cheque a tese de que se trataria de uma mobilização espontânea.

  86 Conforme se pode ler em A Balaiada , o acampamento foi um espaço de

  “vigília cívica” que durou dez dias no mês de dezembro, período em que seria julgado o processo de Jackson Lago. No entanto, houve duas interrupções neste julgamento, que acabou transferido para fevereiro de 2009, ocasião em que o acampamento voltou a ser organizado e permaneceu até o mês de abril, quando a cassação foi dada como definitiva depois de estarem esgotados todos os recursos do governador junto ao TSE.

  (Re)presentado como oriundo de uma adesão voluntária e espontânea das pessoas à “causa oposicionista”, o “acampamento Balaiada” serviu de palco para as teatralizações do movimento, representava o inesperado e inusitado, sendo um espaço onde códigos e convenções foram ressignificados. Portanto, esse acampamento foi o espaço onde se adensaram as manifestações e protestos como agitação de bandeiras, discursos do governador e manifestações artísticas, conforme ilustrado abaixo.

  84 85 Jornal O Estado do Maranhão (18/12/2008, p.03). 86 Jornal O Estado do Maranhão (18/12/2008, p.03).

  Figura 18 – Concentração no acampamento “Balaiada” 01. Fonte: A Balaiada (jan./fev. de 2009, nº09).

  Figura 19 – Transmissão do julgamento de Jackson Lago no acampamento “Balaiada”. Fonte: A Balaiada (18/12/2008, nº 06).

  Figura 20 – Jackson Lago discursando para os “balaios”. Fonte: A Balaiada (18/12/2008, nº 06).

  Figura 21 – Concentração no acampamento “Balaiada” 02. Fonte: A Balaiada (16/12/2008, nº 05).

  Figura 22 – Apresentação teatral no acampamento “Balaiada”. Fonte: A Balaiada (12/12/2008, nº03).

  Figura 23- Acampamento “Balaiada”. Fonte: A Balaiada (11/12/2008, nº02). Estas representações estão sujeitas a vetores de força, ou, em termos mais precisos, a relações de poder. Deste modo, o jornal O Estado do Maranhão, “porta-voz” do grupo derrotado nas eleições de 2006, contrapunha-se a estas construções, apresentando o “acampamento Balaiada” como um “atentado à ordem” e uma “afronta à

  87

  segurança pública” . O periódico também buscava desconstruir a ideia de que o acampamento teria sido resultado de uma adesão voluntária de populares à “causa oposicionista”, afirmando que este era composto basicamente por integrantes de entidades vinculadas ao governador e que não eram “segmentos mais representativos” da sociedade, vez que “os índices de rejeição do governo de Jackson Lago chegavam a

  88 70%” .

  O jornal O Estado do Maranhão utilizava recorrentemente como estratégia discursiva a ideia de “fraca participação popular” para descaracterizar o constructo de “ampla adesão”, difundida pelo Comitê. Neste sentido, a divulgação da denúncia do deputado Ricardo Murad, cunhado de Roseana Sarney, afirmando que os “servidores públicos estaduais foram coagidos a participar da campanha em defesa do mandato de

89 Jackson Lago” demonstra essa posição ao afirmar que esta adesão, além de limitada, não era voluntária.

  Em outra ocasião, dia 18 de dezembro de 2008, uma das datas em que foi marcado o julgamento do processo do governador, O Estado do Maranhão divulgou, que, mesmo com a convocação do informativo A Balaiada, “apenas 300 pessoas compareceram para assistir ao julgamento, contrariando as expectativas dos organizadores que esperavam, no mínimo, 900 pessoas”. Este periódico reafirmava sua tese de “fraca participação popular”, destacando que a mobilização deste segmento foi pequena em relação ao “grande número de assessores, secretários e funcionários do primeiro escalão, tanto do Governo do Estado quanto da prefeitura de São Luís” que

  90 participaram da concentração em frente ao Palácio dos Leões .

  Na versão dos defensores de Lago, estas mobilizações tiveram ampla adesão popular, demonstrando que o “acampamento Balaiada” foi fundamental para “denunciar

  91

  ao Brasil o golpe que Sarney queria dar no Estado” . A alusão ao Brasil ganha sentido

  92 87 quando se considera o destaque que esta mobilização recebeu na imprensa brasileira . 88 Jornal O Estado do Maranhão (12/12/2008, p. 03). 89 Jornal O Estado do Maranhão (12/12/2008, p. 03). 90 Jornal O Estado do Maranhão (08/12/2008, p. 03). 91 Jornal O Estado do Maranhão (19/12/2008, p. 03). A visibilidade do acampamento Balaiada e suas mobilizações foram ampliadas com a adesão de várias lideranças políticas, artistas e outras personalidades de renome nacional que declararam apoio ao governador Jackson Lago, como Frei Betto, escritor e religioso dominicano; Jaques Wagner, governador da Bahia; João Pedro Stedile, coordenação nacional do MST; Wellington Dias, governador do Piauí; dos cantores,

  93 Beth Carvalho e Zeca Baleiro; e do arquiteto Oscar Niemayer .

  Essas adesões reforçavam a “causa oposicionista” e ajudavam a projetar a imagem do movimento, da mesma forma, que a referência a destacadas lideranças políticas, locais e nacionais, como Maria Aragão e Leonel Brizola. A estratégia de associação dessas lideranças políticas ao movimento de resistência contra a cassação aparece em falas como a seguinte, “se ela fosse viva [Maria Aragão], estaria acampada

  94

  em frente ao Palácio. Ela não media sacrifícios e sempre fez oposição ao Sarney” . A referência ao fundador do PDT, Leonel Brizola, é feita a partir da exibição de um documentário sobre sua vida, “Brizola tempos de luta”, como forma de associar a trajetória de “luta” desse agente com a “luta” empreendida pelos “balaios”, o que pode ser observado através de frases como “O PDT do Maranhão garante que honrará a memória de Brizola” (A Balaiada, 26/03/2009, nº10).

  Essas e outras estratégias foram utilizadas pelos acampados como forma destes se representarem na cena política estadual. Nesse sentido, o recurso a dispositivos simbólicos e discursivos que conformassem a imagem que esse Movimento projetava de si a estratégias que permitissem diferenciá-los dos adversários foi bastante explorada. O

95 Manifesto lançado pelo Comitê permite algumas dessas articulações ao associar, por

  exemplo, o grupo Sarney ao “lixo da história” e, em contrapartida, associar o Comitê à “defesa da democracia”, além de outras associações que podem ser observadas. Ressalte-se que a força desses símbolos, assim como suas representações, é determinada pela intensidade desigual das influências que cada um deles exerce sobre um conjunto de pessoas. Eis o manifesto:

  Em 2006, através de eleições diretas, o povo do Maranhão prestou um grande 92 serviço ao Brasil. Derrotamos Roseana Sarney Murad. Derrotamos a mais

O movimento “Balaiada” foi destaque nos jornais O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, O

93 Globo, Brasil de Fato (semanário de circulação nacional), nas revistas Isto É e Veja. 94 A Balaiada (16/12/2008, nº 05). 95 A referência à Maria Aragão foi feita pelo sindicalista Wagner Baldez (A Balaiada, 12/12/2008, nº 03).

  

Segundo o informativo A Balaiada, esse manifestou circulou em versão impressa e em carros de com atrasada oligarquia do país. A derrota do grupo de José Sarney foi uma vitória dos homens e mulheres livres de nosso Estado. Através do voto popular elegemos Jackson Lago e começamos a varrer para o lixo da história, um dos piores grupos do país, criado a partir da ditadura militar.

  Mas hoje, a democracia brasileira está ameaçada. O grupo Sarney, quer cassar o mandato de um governador eleito pelo voto livre e soberano. Eleito pela maioria dos homens e mulheres do Maranhão. Por conta desta ameaça, foi criado o Comitê de Defesa da Democracia no Maranhão, que reúne diferentes movimentos e organizações populares. Nos reunimos em São Luís, na Histórica Ilha Rebelde, para nas suas ruas e ladeiras, sair em defesa da decisão que a maioria do povo maranhense tomou em 2006.

  Estamos nos colocando publicamente em defesa da democracia. Em

defesa do mandato do governador Jackson Lago.

O bravo povo do Maranhão, o mesmo que fez a Balaiada e outras ações que marcaram a História do Brasil, não poderá se curvar diante da vontade de Sarney, um homem atrasado e prepotente. Não podemos assistir, passivamente, em pleno século vinte e um, um político truculento, promover um golpe para atender aos interesses mesquinhos de sua família. Hoje, Sarney quer, porque quer, que sua filha volte a governar o Maranhão. Quer tomar o governo na marra. Para isso, mente e, como sempre, falsifica provas e pressiona autoridades. O homem que grilou as terras as terras dos lavradores, que fez do Maranhão o Estado com a população mais pobres do país, montou o Sistema Mirante de Comunicação com nosso dinheiro. Este mesmo homem, hoje, quer passar por cima da vontade da maioria do nosso povo. A sorte está lançada. E a nossa mobilização, já começou! Agora, ou vence a democracia, ou vence a tirania. Ou vence a vontade soberana do povo ou vence as tramas de um grupo que passou quarenta anos explorando nosso Estado. Ou Sarney humilha o Maranhão ou povo volta a vencer e mostrar para todo Brasil, que tem dignidade e honra as lutas da brava gente brasileira. Nós acreditamos no povo maranhense, na resistência popular, na vontade de cada cidadão e cidadã deste Estado. Por isso estamos na rua, convidando você a participar desta luta que será vitoriosa. (A Balaiada, 14/15 de dez. de 2008, n°04, grifo nosso).

  A partir desses símbolos, o movimento se apresentava como um “ato de cidadania” em prol da “libertação do Maranhão da influência sarneísta” e, nesse processo, várias estratégias narrativas foram adotadas como forma de representar o movimento e atribuir significados à “causa” defendida. Esta, na versão “balaia”, não se limitava à “defesa do governo, ou do governador”, pois enfatizava a defesa da liberdade,

  96

  da democracia e do direito de escolha dos cidadãos . Essa narrativa foi difundida também em verso que invoca emoções e virtudes cívicas como o seguinte, publicado em “A Balaiada” (20/12/2008, nº02):

  Liberdade para o Mar(anhão) A liberdade não pode ser um sonho de poucos Tem de ser a verdade de todos.

  Juntos faremos o amanhã... Tecendo com fios da coragem O destino que eles nos negam! 96 Não desistiremos de lutar

  Enquanto houver o grito de indignação Contra os quereres deles, Saqueadores do pão e dos sonhos.

  O azul que cobre esse mar e céu Ainda testemunhará a nossa vitória... E os nossos dias serão de paz e harmonia. Enquanto eles tentam nos calar Nossa voz fica cada vez mais forte. (Kastrowiski o poeta)

  Seguindo essa mesma linha, músicas foram incorporadas aos dispositivos simbólicos que ajudaram a construir a imagem e o “clima” do movimento articulando, como na poesia, palavras, figuras de linguagem e símbolos de luta e resistência que remetiam essa disputa também para o campo do imaginário e do simbólico, visando fomentar sentimentos de indignação e de luta. Destaca-se entre as músicas que se tornaram uma espécie de “hinos do movimento” a “Oração Latina” e “Revolta Oludum”. A primeira é consagrada como uma espécie de hinos dos movimentos sociais no Maranhão, ela remete à mobilização popular e dialoga com elementos que

  97 transmitem ideias de resistência e combate a opressões .

  Oração Latina (César Teixeira) Esta nova oração, É uma canção de vida Pelo sangue da ferida no chão. Que não cicatrizará Nem tampouco deixará de abrir A rosa em nosso coração... E diga sim... A quem nos quer abraçar, Mas se for pra enganar Diga não... Com as bandeiras na rua Ninguém pode nos calar. E quem nos ajudará A não ser a própria gente Pois hoje não se consente esperar.

  Somente a rosa e o punhal. Somente o punhal e a rosa Poderão fazer a luz do sol brilhar. 97 E diga sim... A quem nos quer acolher,

Essa qualificação também decorre do fato do seu compositor, César Teixeira, ser um artista local

reconhecido como “popular”, visão que, a nosso ver, não se justifica por uma difusão massiva ou

simplicidade melódica e poética de suas músicas, pois isso não se verifica. Esse artista tem público

reduzido e seu trabalho é tecnicamente sofisticado, daí cogitamos que essa visão se deva mais ao seu

comprometimento com as lutas sociais e independência face aos esquemas de poder políticos e culturais

instaurados no estado, onde parte muito significativa dos artistas não raramente colocam sua arte a

serviços ao grupo Sarney. Registre-se que, em alguns momentos, o próprio César Teixeira participou do

acampamento e, em clima de forte emoção, declamou trechos de versos e cantou a Oração Latina

  Mas se for pra nos prender Diga não... Ninguém vai ser torturado Com vontade de lutar. E diga sim... A quem nos quer acolher... Mas se for pra nos prender... Diga não...

  A “Revolta do Oludum”, música do grupo baiano Olodum, conhecido como símbolo de resistência política e cultural dos negros. Essa composição, a exemplo de “Oração Latina”, também alude a mobilizações populares invocando lutas e personagens libertários muito conhecidos no nordeste.

  Revolta Olodum Retirante ruralista, lavrador Nordestino lampião, salvador Pátria sertaneja, independente Antônio conselheiro em canudos presidente Zumbi em alagoas, comandou Exercito de ideais Libertador , eu Sou majin kabalaiada Sou malê Sou búzios sou revolta, arerê Ohh corisco, maria bonita mandou te chamar Ohh corisco, maria bonita mandou te chamar È o vingador de lampião È o vingador de lampião Êta cabra da peste Pelourinho olodum somos do nordeste (Composição: José Olissan/Domingos Sérgio)

  Outra importante atividade simultaneamente política e simbólica empreendida pelo movimento “Balaiada” foi a “marcha pela democracia e contra o golpe de Sarney” que, durante oito dias, trilhou cerca de 150 km partindo da cidade de Itapecuru no dia 24 de março com destino a São Luís. A marcha contou com participação de militantes de

  98

  vários movimentos que chegaram a São Luís no dia 31 de março de 2009, quando foi realizado um “grande ato público” na Praça Deodoro “contra o golpe” e em apoio ao governador.

  A realização dessa marcha envolvendo outros municípios que não a capital, especialmente a cidade de Itapecuru expressa, por um lado, uma estratégia de 98 estadualização, ainda que restrita da “resistência ao golpe”; por outro, reforça os nexos

  

Participaram da “marcha pela democracia”, trabalhadores rurais, representantes de pastorais sociais,

sindicatos, o MST, além de movimentos que lutam pelos direitos humanos e moradia (A Balaiada,

  com o universo da Balaiada, vez que nessa região foi assassinado um dos maiores ícones dessa revolta, ocorrida no sec. XIX, o Negro Cosme.

  Segundo o informativo A Balaiada (26/03/2009, nº 10), os manifestantes eram conduzidos pela “vontade de lutar e de resistir a um possível retorno de Roseana Sarney ao governo”, o que pode ser percebido em passagens como, “eles não aceitam a volta de Roseana Sarney Murad. Lembram as mazelas que os maranhenses do campo, sofreram ao longo de 40 anos, sob o domínio do grupo Sarney”. As imagens a seguir mostram a marcha que também simbolizava “a democracia pedindo passagem”.

  Figura 24 – “Marcha pela Democracia” 01 Figura 25 - “Marcha pela Democracia” 02 Fonte: A Balaiada (29/03/2009, nº 10). Fonte: A Balaiada (29/03/2009, nº 10).

  Figura 26- Panfleto distribuído durante a “Marcha pela Democracia”. Fonte: Ecos da Luta. Disponível em: http://ecosdaslutas.blogspot.com.br/

  As figuras confirmam amplo acionamento de elementos simbólicos voltados à afirmação de identidades, como as bandeiras do Maranhão e do Brasil, sugerindo que estavam em questão não interesses particularísticos do governador e do seu partido, mas do estado e do país. As bandeiras do MST sinalizam a presença e o apoio popular e dos movimentos sociais à luta contra a cassação, enquanto a distribuição de panfletos informativos e de denúncia ao longo da marcha indica um esforço de difusão da versão “balaia” sobre os acontecimentos e a busca de novas adesões.

  Enquanto o movimento representava a marcha como um “levante popular”,

  99

  seguido por centenas de pessoas , o jornal O Estado do Maranhão (31/03/2009, p.03) desconstruía essa imagem, divulgando que seus “entusiastas evitavam mencionar a quantidade de funcionários públicos e comissionados do Estado” envolvidos nessa mobilização. Este periódico também afirmava que a ação dos “balaios” era uma estratégia para tentar convencer a população de que a cassação do governador pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) era um “golpe contra a democracia”, evitando reconhecer que este tribunal havia decidido pela cassação de Jackson Lago “por constatar” que na sua campanha houve “abuso de poder político e econômico, além de 99 captação ilícita de votos”.

  3.2.2. Di-visões: “Ou Vence a Tirania ou Vence a Democracia” O processo de cassação do governador Jackson Lago foi objeto de intensas disputas entre os grupos envolvidos nesse conflito que o interpretavam de maneiras diversas. Para os aliados do governador, tanto as causas que moveram o processo quanto os embasamentos jurídicos da acusação e do tribunal que o condenou foram artificialmente produzidos pelos adversários. Para os seus oponentes, Lago só ganhou a eleição porque foi beneficiário da máquina governamental, comandada pelo então

  100

  governador José Reinaldo Tavares , como se isto constituísse novidade ou escândalo na política local.

  101

  Constam na denúncia as acusações de abuso de poder político e econômico, observado através de convênios firmados entre o governo do estado e algumas prefeituras e associações, a exemplo do convênio que teria sido celebrado com a prefeitura de Codó durante a realização de um comício nessa cidade em pleno palanque, no qual estavam presentes o então governador José Reinaldo Tavares e o candidato ao governo Jackson Lago. Foi denunciado também um convênio firmado entre a Associação de Moradores do Povoado Tanque de Grajaú e a Secretaria de Saúde do Estado no valor de R$ 714.000,00 cuja finalidade seria o “desvio de dinheiro para compra de votos”; seguiria “o mesmo fim eleitoreiro” um convênio entre o Governo do Estado e a União dos Moradores de Santa Helena no valor de R$ 236.500,00.

  Além dos convênios, a peça acusatória menciona: “compra de votos em São José de Ribamar” mediante doação de cestas básicas e kits salva vidas; apreensão de R$ 17.000,00 pela polícia federal em Imperatriz que estariam sendo utilizados para a compra de votos; distribuição de combustível e a entrega de materiais de construção na periferia da cidade de Caxias; denúncias de “uso da Secretaria de Comunicação Social para a captação ilegal de sufrágio” mediante “cooptação de órgãos de imprensa para que veiculassem matérias desfavoráveis sobre Roseana Sarney”.

  As representações implícitas nessas acusações fomentavam visões depreciativas sobre a eleição de Jackson Lago que, para se defender, contra-representava esse discurso através do “Comitê de Defesa da Democracia no Maranhão”, cujo jornal “A 100 Balaiada” apresentava o processo de cassação como um “golpe contra a democracia”, 101 Jornal O Estado do Maranhão (05/03/2008, p. 03). arquitetado por José Sarney como forma de reconduzir, “na marra”, sua filha ao

  102 governo do estado e colocar novamente seu grupo político “no poder” .

  O Jornal acionava estratégia de desqualificação dos adversários de Lago trazendo elementos que estavam além ou apenas indiretamente relacionados à batalha judicial do momento, atingindo seus adversários também no plano moral e da probidade administrativa. Nesta perspectiva, acionaram um suposto inquérito aberto pela polícia federal em 2007 onde membros da família Sarney, destacando-se Roseana e seu irmão, Fernando eram caracterizados como “organização criminosa”, acusada de “formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica, sonegação tributária, manipulação de licitações, superfaturamento de obras públicas e crimes de instituição financeira

  103 irregular” .

  Essas acusações serviam às representações oposicionistas, articulando agentes e práticas, como forma de caracterizar o grupo e suas ações na política estadual por meio de rótulos depreciativos. Em A Balaiada essas representações aparecem algumas vezes de forma jocosa, como se vê nas ilustrações seguintes: a primeira, que traz uma caricatura de José Sarney usando vestes de presidiário e uma bola de aço presa ao pé; a segunda, que reproduz a matéria do jornal Brasil de Fato, semanário de circulação nacional produzido por jornalistas e colaboradores de esquerda, que traz Sarney na capa com as mãos para cima, acompanhando a seguinte manchete, “Organização criminosa articula golpe contra a democracia no MA”.

  Figura 27 – Caricatura de José Sarney Figura 28 – Manchete do jornal Brasil de Fato 102 Fonte: A Balaiada (jan./fev. de 2009, n°08). Fonte: A Balaiada (08/03/2009, nº09). 103 A Balaiada (jan./ fev. de 2009, nº 08).

  Para que sua versão fosse crível pelo maior número de pessoas, diante das “provas” apresentadas pela coligação de Roseana Sarney ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Movimento “Balaiada” tentava reverter a situação contra-atacando. Acusava os adversários de “manipular e falsificar as provas que constavam nos autos do processo”, em passagens do tipo: “como é do feitio de Sarney, ele falsifica provas, mente e distorce

  104

  fatos. Tudo para tentar consumar o seu objetivo espúrio” ; em outro momento destaca que “para favorecer sua filha, José Sarney, mentiu em Brasília e forjou provas no Maranhão, aliciou e subornou pessoas para servir aos seus interesses e montar um processo de cassação contra um governador legitimamente eleito. Trata-se de um golpe

  105 contra a democracia” .

  As estratégias simbólicas adotadas pelos adversários de Jackson Lago também seguiam esta lógica maniqueísta com objetivo de desqualificá-lo. Conforme divulgado em O Estado do Maranhão as causas que motivaram o processo de cassação do governador, basearam-se em “farta prova documental a comprovar os fatos”, sugerindo que a “candidata Roseana Sarney só não venceu a eleição por causa da distribuição

  106 despudorada de recursos públicos em favor de Jackson Lago” .

  Em contrapartida, os elementos que utilizava para descaracterizar estas denúncias e revertê-las aos seus acusadores dialogavam com recursos semelhantes aos mobilizados por esses últimos para acusar Jackson Lago. Na edição nº13 de A Balaiada (14/04/2009) o movimento buscava desconstruir a versão do grupo dominante, acusando Roseana Sarney pela compra de votos na mesma eleição em que Lago respondia às acusações na Justiça (2006). Segundo o jornal, Roseana Sarney teria doado R$168 mil a partidos e candidatos de uma coligação adversária (PTC, PT do B, PSL), o que seria proibido por lei e, apesar da candidata negar, o Jornal afirma que na prestação de contas “ela confessa o crime”.

  Seguindo essa lógica, O Estado do Maranhão utilizava elementos que questionavam a integridade do governador, associando-o a esquemas de corrupção

  107

  104 como a “Operação Navalha” , na qual ele foi acusado de receber propina pelo 105 A Balaiada (jan./ fev. de 2009, nº 08). 106 A Balaiada (14/15 de dez. de 2008, nº 04). 107 Jornal O Estado do Maranhão (04/12/2008, p. 03).

  

Nos termos da Revista Isto É, a “Operação Navalha” foi uma investigação da Polícia Federal, realizada

em maio de 2007, que teve como objetivo desbaratar esquemas de corrupção relacionados ao

superfaturamento de obras previstas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo

federal, onde empresas privadas foram contratadas sem licitação nem contratos. A participação do superfaturamento de obras federais no estado. Segundo este jornal, além da participação nesse “esquema criminoso”, Jackson Lago ainda teria “usado a estrutura do governo a seu favor, gastando cerca de R$300 mil com a publicação de duas notas nos jornais

  108 Estado de São Paulo e Folha de São Paulo para explicar seu envolvimento no caso” .

  Com o propósito reforçar e ampliar a sua versão sobre os acontecimentos, desvencilhando a imagem do governador destas denúncias, o Comitê lançou mão da estratégia de acionar personalidades de grande prestígio e reconhecimento nacional, ainda que de outro campo, para fortalecer a credibilidade do discurso oposicionista. Exemplo disso foi a utilização de artigo do cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro, publicado pela revista Isto É, no qual aborda o processo de cassação de Lago com argumentos que se harmonizam com a interpretação “balaia”, reiterando a ideia de “golpe arquitetado por José Sarney”. Diz ele:

  Mas eis que volta [José Sarney], por meio de manobras politicamente engenhosas e juridicamente questionáveis, para não dizer suspeitas, orquestrando a cassação do governador eleito, sob a acusação de crime eleitoral, conduzindo a filha outra vez ao trono de seu império. Suprema ironia, uma vez que paira sobre seus triunfos políticos a eterna desconfiança de manipulações eleitoreiras (a propósito, entre os muitos significados da palavra maranhão no dicionário há este: “mentira engenhosa”). (Revista Isto É, nº 2035, 1º de abr. de 2009; grifo nosso).

  A utilização de elementos que associavam as “práticas do grupo Sarney” à ideia de “golpe”, “fraude eleitoral”, “opressão” e “sucateamento do estado” foi uma estratégia recorrente em A Balaiada. Este informativo investia na construção de representações onde esses elementos funcionavam como estigmas que, além de (des)qualificar o grupo dominante e “suas práticas”, eram acionados pelo movimento apresentando os agentes desse grupo como os que deveriam ser combatidos e não o governador. O texto seguinte é representativo dessa estratégia:

  Eles querem dar um golpe, derrubar um governador eleito com nosso voto [...] Foram eles que jogaram o Maranhão na miséria ao longo de quarenta anos de desmandos e opressão. Eles que sempre se beneficiaram da fraude eleitoral. Que saquearam o estado e transformaram nosso povo, no mais pobre de todo país. Agora querem dar um golpe, tomando na marra um poder que lhes foi negado pelo povo (A Balaiada, 12/12/2008, n° 03; grifo nosso).

  

Veras, com base em medições de obras públicas falsas, que chegaram a ser superfaturadas em 416%.

Também foram indiciados dois sobrinhos de Lago, Alexandre Maia Lago e Francisco Paula Lima Júnior,

segundo a Polícia Federal houve “pagamento de propina a Alexandre, Francisco e Jackson Lago,

correspondente a 8% da liberação de R$ 2,9 milhões para a Gautama em março do ano passado”. Jackson

Lago só não foi preso por decisão do Supremo Tribunal de Justiça (Revista Isto É, 05/03/08, Edição:

108 2000).

  O grupo dominante contestava estas acusações, especialmente, as referentes ao “golpe contra a democracia”, contra-argumentando que a condução do governo de Jackson Lago “foi marcada por vários vícios, ferindo o sistema democrático”. Conforme divulgado em O Estado do Maranhão (07/12/08, p.03), os próprios advogados que atuaram no caso (Eduardo Alckmin, Flávio Dino e Daniel Leite) admitiram em parte “a utilização de recursos oriundos de convênios durante a campanha de Lago”, confirmando a “existência do montante de R$ 280,045 milhões”, que seriam provenientes de “convênios celebrados em 156 municípios”.

  Ressalte-se que nesse período as notícias sobre o andamento do processo de cassação, assim como os possíveis resultados, foram bastante explorados pelos grupos em conflito. Muitas dessas notícias tinham um caráter especulativo, o que estimula a associação das mesmas a fofocas, como na abordagem de Elias (2003) que considera o interesse coletivo o principal aspecto desta forma de relato. Segundo este autor, a fofoca não é um fenômeno independente, ela está relacionada às normas e crenças coletivas, assim como às relações comunitárias. Nessa perspectiva, os trechos seguintes de A Balaiada são representativos de como as especulações equivaliam a fofocas, servindo aos dois lados em disputa.

  O grupo Sarney quer espalhar o pânico no Maranhão. Ontem à tarde, no Sistema Mirante, eles diziam que, em caso de cassação de Jackson Lago, o povo poderia queimar o Convento das Mercês, prédio público que Sarney conseguiu a posse de maneira ilegal. Hoje há quem acredite, que o comando da oligarquia pode até forjar um atentado para passar por

vítima. (A Balaiada, 16/12/2008, nº05; grifo nosso).

O que pode acontecer no Maranhão em caso de golpe, isso ninguém pode prever. O clima de indignação é real e extrapola a classe política e as organizações sociais. Caso haja algum distúrbio (ou vários) a responsabilidade é toda de Sarney. (A Balaiada, 16/12/2008, nº 05; grifo nosso) Há dois meses atrás o Império de Comunicação do grupo Sarney (Sistema Mirante) seus satélites e outros prestadores de serviço, espalharam que o governador Jackson Lago seria cassado até o final do ano. Deram a coisa como um fato consumado. Era mais uma das inúmeras mentiras. (A Balaiada, 20/12/2008, nº07; grifo nosso).

  A vontade [...] do povo maranhense sempre assustou José Sarney. Por isso, hoje, por conta do golpe que está sendo colocado em prática, a direção do Sistema Mirante tomou todas as normas de segurança, temendo uma reação popular. Eles têm medo de invasão. Falam até em bombas. Tem medo do povo, revoltado com a tentativa de golpe, ponha fogo nas empresas de comunicação da família Sarney [sic], empresas que foram montadas com o dinheiro público durante a ditadura militar. (A Balaiada, 18/12/2008, nº 06; grifo nosso) Especulações/fofocas desse tipo foram utilizadas como um meio de difundir ideias que sugeriam o caos, a desordem, espalhavam a desconfiança e o clima de instabilidade política, servindo ao movimento para se desviar das acusações que lhe eram imputadas e revertê-las para seus adversários. Elas tinham um alcance político contundente, dado seu caráter contestatório e, ao mesmo tempo, tinham um componente regulador, pois quando A Balaiada divulga que o clima de “desordem” no estado teria sido gerado pelo grupo dominante essa notícia funcionava como um dispositivo que apontava a necessidade do reestabelecimento da “ordem”, o quê só seria possível quando a “ameaça de golpe” cessasse.

  Os adversários do governador também utilizaram as especulações/ fofocas como estratégia de contestação política, conforme observado em matéria de O Estado do Maranhão (12/12/2008, p.03) o Governo do Estado teria sido acusado de “promover um clima de insurgência e incitamento à baderna”, caso Jackson Lago fosse cassado. Embora essa matéria destacasse a inversão da ordem (BALANDIER, 1982), vez que o Estado estaria “incitando à desobediência”, ela também traz um conteúdo regulador ao divulgar que os aliados de Roseana Sarney na Assembleia Legislativa “não iriam permitir que o Maranhão se transformasse numa anarquia”, afirmando que através deles a “ordem” seria mantida.

  Estratégias como esta servem à cristalização de ideias que legitimam tanto os argumentos sustentados pelo “Comitê de Defesa da Democracia do Maranhão” como aqueles defendidos pelo grupo dominante. Função semelhante cumpriu o artigo de Jackson Lago sobre o processo de cassação intitulado “Maranhão, a galápagos política”, onde o governador empregou elementos simbólicos e discursivos que remetem ao imaginário social com um forte apelo dramático, dada eficácia simbólica desses componentes que dialogavam com as representações sociais construídas sobre o grupo dominante.

  Arma-se um golpe no Maranhão. Trama-se, nos bastidores, um golpe contra a democracia. O objetivo é a reintegração de posse de um feudo político, o usucapião vitalício e hereditário do Maranhão. Melhor seria decretar o território maranhense a nossa galápagos política. Lá, fica revogada a alternância de poder.

  Proíba-se a imprensa nacional de perscrutar nossa história. Na galápagos só entram os cientistas políticos, curiosos para estudar algumas espécies raras, extintas no território nacional e que ainda vicejam no Maranhão. O velho oligarca, a filha do oligarca, onde mais no país, senão na nossa galápagos, podemos estudar com darwiniana curiosidade tão raros exemplares da evolução política brasileira.

  Arma-se um golpe no Maranhão, como se houvesse juízes em Brasília. Alega-se desequilíbrio na disputa, por conta de convênios legalmente

  candidato sem mandato, sem cargo público, sem tempo no horário eleitoral, imputa-se a mim esse desequilíbrio. Mas na nossa galápagos, não é desequilíbrio que o grupo familiar de uma candidata seja proprietária de 90% de toda mídia do Estado. Não desequilibra o pleito que o Fórum da capital tenha o nome do pai, e o Tribunal de Contas do Estado ostente o nome da filha. Em nome do pai e da filha e do santo espírito da democracia, nada perturba nossa galápagos.

  [...] Dediquei quarenta anos de lutas enfrentando a mais formidável máquina de desinformação. Fundei um partido, o PDT, no qual estou até hoje. Estive no seu nascedouro, signatário da Carta de Lisboa, juntamente com Lionel Brizola, Darcy Ribeiro, Francisco Julião e Neiva Moreira.

  Combati o golpe militar em defesa das liberdades democráticas. [...] No entanto, sou acusado, no tribunal Superior Eleitoral, de abuso de poder econômico e de mídia. Pasmem, sou acusado, pelo grupo Sarney, de abuso de poder econômico e de mídia! Fabricam provas, corrompem testemunhas, pregam verdadeiro terrorismo no Estado, jactando prestígios, antecipando decisões judiciais. Quousque tandem? Tenho um olho na Justiça, na qual confio, e outro no povo maranhense, fiador do meu destino. Em contrição, soletro os versos gonçalvinos ‘a vida é combate, que aos fracos abate, aos fortes, aos bravos, só pode exaltar’. (A Balaiada, 16/12/2008, nº 05; grifo nosso).

  Nesse artigo o governador (re)presenta sua situação política, a partir de estratégias simbólicas e discursivas que tendem a diferenciá-lo dos seus adversários e “suas práticas” daquelas empregadas por estes últimos. Esse processo de diferenciação se dá numa perspectiva relacional, onde quem é denunciável é o outro.

  A crise deflagrada pelo processo de cassação do governador Jackson Lago era apresentado por ambos os contendores como uma desordem, instabilidade, provocando um “desarranjo dos aparelhos de poder e autoridade”, como na formulação de Balandier (1982, p.48). A incerteza quanto à permanência de Lago no governo criou um suspense dramático, re(a)presentado pelo “Comitê de Defesa da Democracia no Maranhão” como uma tentativa de golpe “ao regime” e não exatamente a um governo. A dramatização política em torno da ameaça de golpe envolvia as crenças nos valores democráticos, instigando receios de cerceamento de direitos civis e políticos.

  Vários textos de A Balaiada demonstram a estratégia do Comitê de associar a “defesa da democracia” a “resistência contra a cassação de Jackson Lago”, os depoimentos e trechos do informativo que seguem foram difundidos conforme essa lógica:

  Não se trata de defender um governo, ou um governador. A situação vai muito mais além. Estou me integrando ao comitê, pois se trata de uma luta em defesa da democracia.

  César Teixeira, músico maranhense (A Balaiada, 10/12/2008, nº; grifo nosso). Não se trata aqui de um alinhamento automático com o atual governo. Trata- se de um confronto real e histórico envolvendo a democracia contra a tirania. (A Balaiada, 20/12/2008, nº 07; grifo nosso).

  (...) O caso absurdo coloca a democracia brasileira em risco. (A Balaiada, 16/12/2008, nº05; grifo nosso). Os bravos maranhenses e brasileiros não poderão entregar de mãos beijada o governo. Os sem terra do Brasil inteiro irão participar dessa luta de braços dados com vocês. Daremos uma aula de democracia para América Latina e para o mundo. João Pedro Stedile, coordenação nacional do MST. (A Balaiada, 03/03/2009, nº 09; grifo nosso). Uno-me ao esforço de todos vocês em defesa do mandato do governador Jackson Lago. O aperfeiçoamento da democracia brasileira não admite que práticas caudilhescas de divisão política e eleitoral do país continuem a

persistir. Jackson Lago foi eleito democraticamente.

Frei Betto, escritor e religioso dominicano. (A Balaiada, 03/03/2009. nº 09; grifo nosso).

  Nessa perspectiva, o Comitê construía a sua versão sobre o processo de cassação e produzia representações que se definiam por meio de disputas a interpretação legítima sobre os acontecimentos em curso. Por um lado o movimento “balaio” sustentava a ideia de “golpe arquitetado por José Sarney” e, por outro, o grupo dominante afirmava que o processo contra Lago era uma “ação séria, com provas consistentes de que a máquina pública estadual foi usada na cooptação de políticos, principalmente de

  109 prefeitos, para derrotar Roseana Sarney” .

  Por estas vias, ambos os grupos tentavam desconstruir as representações oponentes. Agentes do grupo Sarney insistiam na ideia de “golpe”, adotando uma lógica maniqueísta que vitimizava o núcleo deste grupo, a família Sarney. Neste sentido, O Estado do Maranhão (05/12/08, p.03), divulgou que “José Reinaldo foi à convenção do PSDB [em 2006] e disse que a família Sarney ia ver o quanto pesa, o quanto vale o Governo do Maranhão. E afirmou até que a Prefeitura de São Luís e a Assembleia Legislativa iriam participar desse mutirão contra Roseana”.

  Independentemente da veracidade, ou não, tanto das afirmações atribuídas a Tavares como da realização, ou não, das ações relacionadas essa frase abre muitas possibilidades de reflexão sobre as concepções e práticas de democracia adotadas por esses agentes. Admitir “o peso do governo” numa decisão eleitoral e apresentar isso como um discurso de alguém que de oposição ao grupo dominante, mas com longo histórico de participação nos governos daqueles que agora o acusam, coloca em cheque 109 a aparentemente inquestionável competitividade dos processos eleitorais no Maranhão.

  Jornal O Estado do Maranhão ( 05/12/2008, p. 03). Nesses discursos é nítido o reconhecimento de que o aparato governamental desequilibra as disputas e sacrifica a incerteza eleitoral que, em tese, é inerente às democracias.

  Algo familiar a Sarney que apoiou o golpe militar (1964 - 1985) e teve destacada participação nos governos ditatoriais favorecidos por este golpe, relação bastante explorada pelo “Comitê de Defesa da Democracia” numa tentativa de criação de laços imaginários (POLLAK, 1992) que permitam ligar pessoas a um passado com o qual sejam identificadas (SILVA, 2000). Neste sentido, a associação do processo de cassação a uma “tentativa de golpe” era pretensamente validada pela menção ao vínculo que José Sarney manteve com os militares durante a ditadura, quando foi comum a perseguição aos opositores do regime, a cassação de direitos políticos, censura, violência e outras imposições.

  O tempo da ditadura no Brasil já acabou! O coronelismo também! E não será o Maranhão que aceitará, passivamente, um retrocesso [...] Hoje, ou vence a democracia, ou vence a tirania (A Balaiada, 12/12/2008, nº03; grifo nosso).

  Em pleno sec. xx vários estados brasileiros ainda eram conduzidos politicamente como capitanias hereditárias, tocadas por coronéis e representantes de oligarquias [...] ao derrotar eleitoralmente José Sarney o povo prestou um grande serviço ao país, pois o grupo representa a herança do golpe militar, a política do latifúndio, do grileiro, da corrupção dos meios de comunicação [...] Sarney entulho da ditadura (Jornal Brasil in A Balaiada, 14/15/ de dez. de 2008, nº 04; grifo nosso).

  [...] Sarney é o retrocesso. É o que há de pior na política brasileira. É um produto do vitorinismo e da ditadura militar (A Balaiada, 20/12/2008, n°07; grifo nosso).

  As piores e mais conhecidas oligarquias montadas a partir do golpe de 64, foram as da Bahia e a do Maranhão, comandadas respectivamente por Antônio Carlos Magalhães e José Sarney (A Balaiada, 14/04/2009, nº13; grifo nosso).

  Essa associação com o “golpe militar” foi recorrente, sendo apresentada em várias edições de A Balaiada, no entanto, os rótulos imputados a José Sarney não se limitavam à sua relação com a ditadura militar, várias classificações tomadas do senso

  

douto e qualificadas negativamente foram utilizadas para rotular as práticas desse

  agente, como se vê em adjetivações do tipo “coronelístico” e “oligárquico”. Também eram associadas às “práticas” desse agente expressões relativas à violência no campo como “grileiro” e “representante da política do latifúndio”

  110 . 110

A vinculação de José Sarney à grilagem de terras no Maranhão é uma referência a sua proposta de O Movimento contra a cassação investia pesadamente na utilização de estereótipos contra o senador Sarney e ao grupo que este construiu em seu entorno, de maneira que ao serem acionados datas e fatos históricos reconhecidos como contrários a uma cultura democrática e de direitos como o golpe militar de 1964 e a violência no campo havia uma correspondência imediata entre estes e as “práticas” empregadas por esse agente político. Tal estratégia se refletia, por exemplo, na produção de eventos

  111 como o “show contra o golpe da máfia do Sarney (...) no povo do Maranhão” . 112

  Esse evento, denominado por A Balaiada de “ato show”, foi realizado no dia 31 de março, mesma data em que foi instaurada a ditadura militar no país, como forma de chamar atenção para “terrível ameaça de um novo golpe” que estaria sendo planejado pelo grupo Sarney no Maranhão. Segundo o informativo esse “ato show” contou com a participação de artistas e lideranças políticas reconhecidas nacionalmente, além da presença de “milhares de pessoas” na Praça Deodoro, local onde o evento foi realizado e que tem sido “palco” de protestos na cidade. As fotos seguintes são desse jornal chamando a população para participar do evento e imagens do dia em que ele aconteceu.

  Figura 29 – Convocação para o “ato show” Figura 30 – “Ato show” 01 Fonte: A Balaiada (29/30 de março de 2009, nº 11). Fonte: A Balaiada (14/04/2009, nº13).

que foram priorizados “os grandes projetos agropecuários” em prejuízo de pequenos produtores rurais,

que, segundo o Costa (1997, p. 09) “ampliou o espaço para a grilagem com apoio do governo do Estado e

para a venda de terras devolutas a grupos privados”. Outra associação entre Sarney e grilagem de terras

está relacionada ao caso da Fazenda Maguari, ocorrido na década de 70, quando Sarney foi acusado de

tentar se apossar de 4.283 hectares de terras no município de Santa Luzia (Jornal Pequeno, São Luís, 31

de ago. de 2006, Disponível em: http://www.jornalpequeno.com.br/2006/8/31/Pagina41306.htm , acessado

111 em 12 de fev. de 2013). 112 A Balaiada ( 29/30 de março de 2009, nº11).

  Figura 31 – “Ato show” 02 Figura 32 – “Ato show” 03 Fonte: A Balaiada (14/03/2009, nº13). Fonte: A Balaiada (14/03/2009, nº13).

  Em nota sobre este evento, O Estado do Maranhão (31/03/2009, p.03), divulgou que “foi armado um palco de apresentações, equipado com infra-estrutura própria para comícios e shows artísticos incluindo potente aparelhagem de som e jogo de luzes”. Esse jornal questionava a procedência do dinheiro gasto neste ato, destacando que “não era de conhecimento público assim como o custo dos carros de som que percorrem bairros convidando para o ato”. O periódico também ressaltava que todo esse investimento foi um “esforço que encontrou pouco eco entre transeuntes e trabalhadores ludovicenses nas paradas de ônibus”, chamando atenção para a falta de interesse da população pela “causa oposicionista”.

  Registre-se que além desse “ato show” foram produzidas no espaço do

  113

  “acampamento Balaiada” frequentes apresentações musicais com cantores maranhenses, exibições teatrais, rodas de capoeiras, entre outras manifestações artísticas. Todo esse mise en scène se desenvolvia por meio de dispositivos simbólicos e de dramatizações que articulavam ilustração e contestação política.

  Convém reiterar que, segundo a visão de Balandier (1982, p.63), “qualquer universo político é um cenário ou mais genericamente um lugar dramático em que são produzidos efeitos”. Nesta perspectiva, os shows e apresentações tinham um apelo visual muito forte, considerando os efeitos pirotécnicos e toda parafernália técnica que

  113 foi utilizada como forma de prender a atenção do espectador, conduzindo o protesto político à arte do espetáculo, mas sem perder o conteúdo crítico que pretendia afirmar.

  Neste sentido, o “ato show” do dia 31 de março conduziu a uma espécie de dramaturgia democrática (BALANDIER, 1982) como forma de criar efeitos que favorecessem a identificação da população com a “causa oposicionista”, considerando que nesse período Jackson Lago já havia sido cassado, tinha entrado com um recurso

  114 junto ao TSE e estava aguardando nova decisão judicial .

  Apesar dessa mobilização, o desfecho foi “trágico” com a confirmação da cassação do governador, seguido da posse imediata de Roseana Sarney. Ressalte-se, entretanto, que este resultado engendrou novas dramatizações com a resistência de Lago à decisão do TSE. Segundo o oposicionista, este resultado era um “desrespeite à vontade do povo do Maranhão” e por este motivo não cederia, “se nós sairmos de

  115 mansinho, o povo perderá a esperança” .

  A resistência do ex-governador à decisão judicial foi o clímax deste espetáculo, que articulou o movimento “Balaiada” a símbolos de luta e mobilização popular. Neste sentido, a permanência de Jackson Lago no Palácio dos Leões foi mais um ato deste drama que chegava ao fim, segundo O Estado do Maranhão (18/03/2004, p.03) os jardins da sede do governo foram ocupados por “cerca de 500 militantes do PDT

  116

  ligados ao Movimento Sem Terra (MST) e a Via Campesina” . Conforme o jornal, este “ato extremo” representava, na visão do ex-governador, uma “prova de resistência do povo” e sua saída poderia ser considerada um sinal de que a luta havia acabado, era “preciso resistir”. As imagens seguintes mostram os “balaios” em seus últimos dias de resistência na sede do governo.

  114

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu pela cassação do mandato do governador Jackson Lago

(PDT) e de seu vice, Luiz Carlos Porto (PPS) no dia 04 de março de 2009 por abuso de poder econômico

nas eleições de 2006. A partir desse julgamento, Lago teve um prazo de cinco dias para recorrer da

decisão judicial, entrando com recursos que foram julgados no dia 16 de abril de 2009, confirmando sua

115 cassação. 116 O Estado do Maranhão (17/04/2009, p. 03).

  

Ressalte-se, que esta não era a primeira vez que os “balaios” ocupavam a sede do governo, em

dezembro de 2008, quando o ministro Felix Fischer suspendeu o julgamento do processo de cassação, o

então governador comemorou o adiamento e “liberou a entrada a entrada de todos no Palácio dos Leões”.

De acordo com O Estado do Maranhão, “a algazarra foi geral” (O Estado do Maranhão, 20/12/2008, p.

  Figura 34 – Ocupação do Palácio dos Leões 02 Figura 33 – Ocupação do Palácio dos Leões 01 Fonte: O Estado de São Paulo (18/04/2009, disponível Fonte: O Estado de São Paulo (18/04/2009, disponível em: em: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,cassado- http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,cassado- jackson-lago-deixa-a-sede-do-governo-do- jackson-lago-deixa-a-sede-do-governo-do- maranhao,356940,0.htm maranhao,356940,0.htm

  Segundo o Jornal O Estado do Maranhão, Jackson Lago ocupou “ilegalmente” o Palácio dos Leões por 36 horas, durante este tempo “foram montadas barracas e um

  117

  palco usado por aliados do ex-governador” . Além desta estrutura, os manifestantes “estenderam faixas com frases contra a posse de Roseana Sarney”, de acordo com esse jornal:

  Nos demais cômodos da residência oficial, foi montado um forte esquema de segurança. Apenas políticos e pessoas ligadas ao ex-governador tiveram acesso aos demais cômodos. Apesar da invasão [...] não houve depredação do patrimônio. Do outro lado, em frente ao Palácio dos Leões, houve apenas um segurança na porta. Além disso, equipes de TV e jornais não ligados ao governo foram impedidos de entrar no Palácio dos Leões (O Estado do Maranhão, 18/03/2009, p.03).

  Apesar da resistência, Lago desocupou o Palácio dos Leões na manhã do dia 18 de abril de 2009 “com assessores e ex-secretários, além de cerca de 500 manifestantes pedetistas, ligados a entidades como Via Campesina e Movimento Sem-Terra

  118

  (MST)” . Em discurso de despedida o oposicionista declarou: “quem sabe isso tudo que está acontecendo não é para nos prepararmos melhor para chegarmos ao governo e

  117 118 O Estado do Maranhão (18/04/2009, p.03). ao poder com o compromisso de um grande governo popular. Vamos continuar

  119 resistindo em outros locais" .

  Vários aliados se manifestaram durante a saída de Lago, entre eles os deputados petistas, Domingos Dutra e Valdinar Barros, integrantes da base de apoio ao ex- governador. Ambos fizeram críticas incisivas à posse de Roseana Sarney, o primeiro acionando símbolos religiosos e acusando o Legislativo Estadual pela posse da ex- governadora ao afirmar que "essa cidadã, filha do anti-Cristo, não seria governadora se nossos aliados na Assembleia Legislativa tivessem reivindicado o direito de eleger o novo governador depois da decisão da Justiça Eleitoral". Por sua vez, Barros se referiu em tom de protesto à aliança entre Lula e Sarney, "vamos dizer para o Brasil, para o mundo, até para o Lula que o Maranhão não aceita a volta da oligarquia dos Sarney".

  Depois dos discursos, Jackson Lago deixou o Palácio dos Leões e percorreu as ruas do centro de São Luís até a sede do PDT, acompanhado da esposa Clay Lago, do

  120

  filho Igor e pelos “balaios”. Entretanto, segundo o jornal O Estado de São Paulo , “a passeata de meia hora não empolgou a população que preferiu não aderir à caminhada”. As imagens seguintes são do dia em que o ex-governador deixou a sede do governo.

  Figura 35 – Jackson Lago deixando o Palácio dos Leões Figura 36 – Boneco de José Sarney sendo queimado Fonte: Jornal Pequeno (19/04/2009, disponível em: Fonte: Ecos da Luta. Disponível em: http://www.jornalpequeno.com.br/2009/4/18/Pagina1053 http://ecosdaslutas.blogspot.com.br/ 119 75.htm

  O Estado de São Paulo (18/04/ 2009, disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,cassado-jackson-lago-deixa-a-sede-do-governo-do- 120 maranhao,356940,0.htm Ibid. Figura 37 – Jackson Lago seguindo em passeata 01 Figura 38 - Jackson Lago seguindo em passeata 02

Fonte: Fábio Campana. Disponível em: Fonte: Fábio Campana. Disponível em:

www.fabiocampana.com.br www.fabiocampana.com.br Figura 39 – Jackson Lago seguindo em passeata 03 Figura 40 – Jackson Lago seguindo em passeata 04 Fonte: Jornal Pequeno (19/04/2009, disponível em: Fonte: Jornal Pequeno (19/04/2009, disponível em:

http://www.jornalpequeno.com.br/2009/4/18/Pagina1053 http://www.jornalpequeno.com.br/2009/4/18/Pagina1053

75.htm 75.htm

  Balandier (1982, p.66) destaca que “a mudança gera imagens que desempenham um papel decisivo nas estratégias de poder”, neste sentido Jackson Lago encerrou este ato declarando que se sentia “violentado” com a decisão do TSE, mas afirmou que “continuaria lutando” e concorreria as eleições de 2010. A tensão dramática deste episódio, provocada pelas incertezas futuras, foi responsável pela incorporação de técnicas tranquilizadoras por este agente, que traçou o horizonte das próximas disputas na seguinte declaração: “Não deixaremos de lutar. Vamos sair desse episódio mais fortes. Com essa decisão, eles estão nos convidando para sermos politicamente mais profundos, para sermos politicamente mais responsáveis, para sermos politicamente

  121 mais capazes” .

  3.3. (Re)presentações em Perspectiva: Comparação dos Casos Analisados

  As (re)presentações em torno do rompimento de José Reinaldo Tavares com o grupo Sarney e do movimento “Balaiada”, apesar de conter singularidades, possuem pontos de interseção, especialmente no que concerne ao emprego de estratégias de qualificação/desqualificação como forma de estabelecer fronteiras entre os agentes em disputa; a dramatização pelos meios de comunição, promovendo a espetacularização política; esforço contínuo de invenção/reinvenção de identidades; a utilização de discursos em comum e a recorrente alusão a elementos antidemocráticos na política maranhense.

  A qualificação/ desqualificação foi recorrentemente acionada por José Reinaldo Tavares e pelo movimento “Balaiada” como mecanismo de diferenciação social, permitindo a estes agentes desqualificarem seus adversários, atribuindo-lhes características e rótulos depreciativos e, em contrapartida, reivindicarem para si atributos socialmente valorizados.

  No caso de José Reinaldo Tavares esse processo de diferenciação social esteve intrinsecamente relacionado aos problemas de endividamento do Estado; a greve de professores da rede estadual de ensino; ao escândalo envolvendo a construção de estradas fantasmas; e, a mudança da data da eleição da mesa diretora da Assembleia Legislativa. Como forma de se eximir de responsabilidades José Reinaldo desqualificava a ex-governadora Roseana Sarney, atribuindo-lhe a responsabilidade

  122

  pelos problemas financeiros do Estado . Na interpretação que dava às questões em

  123

  disputa, a greve de professores tinha componentes políticos ; o escândalo das “estradas fantasmas” publicado na revista Veja era um “golpe da dinastia Sarney” que

  124

  continha uma série de inverdades e se desviava das acusações referentes à sua

  121 122 O Estado do Maranhão (19/04/2009, p. 03). 123 Jornal Pequeno (27/07/2004, p.03). 124 Jornal Pequeno (10/09/2004, p. 04). interferência na eleição do presidente da mesa diretora, afirmando “tudo que vejo contra

  125 mim tem as pegadas da senadora [Roseana Sarney]” .

  Em relação ao movimento “Balaiada” esta estratégia foi expressa, mais enfaticamente, nas afirmações sobre o processo de cassação do governador Jackson Lago que, segundo o movimento, tratava-se de “um golpe” arquitetado por José

  126

  Sarney . Nesta perspectiva, vários elementos foram acionados para desqualificar este

  127

  agente e seu grupo político como “atrasado”, “oligarca” , “representante da política do

  128 129

  latifúndio” , “máfia do Sarney” , recorrendo, inclusive, a fatos históricos como a ditadura militar, símbolo de autoritarismo e opressão política, para desqualificar Sarney

  130 como “entulho da ditadura” , além da utilização de outros rótulos depreciativos.

  O alcance político dessa qualificação/desqualificação foi muito amplo, em razão de sua espetacularização nos meios de comunicação. O rompimento de José Reinaldo com o grupo Sarney foi dramatizado pelo Sistema Mirante de Comunicação, de propriedade da família Sarney, e pelo Jornal Pequeno que se tornou uma espécie de porta-voz do governador. As disputas políticas provocadas por esta ruptura ganharam, inclusive, projeções nacionais, sendo destaque na revista Veja e na Rede Globo.

  Semelhante dramatização foi protagonizada pelo movimento “Balaiada” que investiu na publicação de informativos como forma de aproximar a população da “causa oposicionista”, justificando a existência do movimento e divulgando seus atos públicos e mobilizações. Houve também repercussão na internet, ampliando a publicidade do movimento, vez que os maiores meios de comunicação do estado são de propriedade da família Sarney. Além disso, a mobilização no acampamento “Balaiada” repercutiu na mídia nacional, em jornais como “Brasil de Fato” e a revista “Isto é”, que divulgaram matérias apresentando o ponto de vista dos “balaios”.

  A intensa publicização das disputas políticas em torno desses eventos, nestes e em outros meios de comunicação, contribuiu para sua espetacularização, considerando que os meios de comunicação impõem uma dramatização permanente (BALANDIER, 1982). Contudo, cumpre ressaltar que estas disputas não se limitam ao espetáculo produzido pelos meios de comunicação, que são apenas mais um mecanismo de 125 126 Jornal Pequeno (15/12/2004, p.03). 127 A Balaiada (11/12/2008, nº 02). 128 A Balaiada (16/12/2008, nº 05). 129 A Balaiada (14/15 de dez. de 2008, nº 04). 130 A Balaiada (29/30 de março de 2009, nº 11). dramatização, elas se fundamentam no acionamento de dispositivos simbólicos, em práticas codificadas pelos agentes políticos, no recurso ao imaginário, nas suas projeções dramatizadas e no conjunto de recursos de poder disponíveis aos agentes em disputa para produzir e sustentar determinadas (com)posições.

  Importante aspecto a considerar nestes processos de construção de identidades se refere à trajetória ou antecedentes históricos desses agentes. Os dois casos analisados evidenciam importantes distinções a este respeito. Jackson Lago que teve sua história de participação política vinculada às oposições não precisava “provar” essa condição, seus desafios foram de outra ordem: afirmar-se diferente do grupo dominante, elaborar e difundir sentidos para a defesa de sua permanência no governo e combate à tentativa de cassação. Com histórico político distinto, José Reinaldo Tavares precisou se reinventar continuamente, tentando se desvincular do seu passado de participação política no grupo Sarney, que foi acionado enfaticamente por seus adversários no período de seu rompimento. O governador precisou recorrer a novos elementos simbólicos e discursivos como forma de se (re)presentar na política maranhense, mas num constante enfrentamento com outros agentes que tendiam e teimavam em relacioná-lo a Sarney e seu grupo político.

  No processo de invenção/reinvenção desses agentes, muitos discursos foram evocados para reforçar sua identidade oposicionista através de mecanismos de diferenciação social que (des)qualificavam seus adversários. Assim como ocorre nas disputas eleitorais (Capítulo 2), também nestes processos ora analisados foram observados pontos de interseção nas condutas desses agentes sempre empenhados em se credenciarem como os mais legítimos para governar e em deslegitimar seus oponentes, sendo comuns as estratégias adotadas por uns e outros, ainda que na medida dos recursos de poder e da posição que cada grupo ocupa na configuração política estabelecida.

  Nesse jogo, destacam as estratégias dos oposicionistas de todas as matizes em enfatizar o “o atraso social do estado”, mencionado por José Reinaldo Tavares para se referir aos baixos índices de desenvolvimento humano do Maranhão, “herdados do

  131

  governo de Roseana Sarney” ; e, a afirmação “balaia” segundo a qual “foram eles [o grupo Sarney] que jogaram o Maranhão na miséria ao longo de quarenta anos de 131 desmandos e opressão”, responsabilizando este grupo pelos problemas econômicos e sociais do estado. Nessa perspectiva, a utilização de adjetivos como “oligarquia Sarney”, “dinastia Sarney” e expressões como “40 anos de oligarquia Sarney” são referências comuns entre esses agentes.

  Assim, tal como nas disputas eleitorais onde a condição de oposicionista é muito circunstancial e frequentemente referida ao simples cálculo eleitoral dos agentes, também no caso destes episódios as diferenças internas entre oposicionistas de maior ou menor pertencimento a esse campo soam irrelevantes (embora existam) e o grupo dominante, mesmo quando deslocado do comando da máquina governamental (que tem importância decisiva, como bem o demonstra a eleição de Jackson Lago), retém notáveis recursos de poder que lhe conferem especiais condições para desequilibrar o jogo democrático em seu benefício.

  

CONSIDERAđỏES FINAIS

  O presente estudo reúne três tradições de pesquisa que comumente andam separadas: teoria política, estudos eleitorais e simbolismo na política. Observando vasta tradição de pensamento político (da filosofia a elaborações teóricas mais contemporâneas) notamos que as posições de poder, sobretudo as “legítimas”, são constituídas a partir de substratos materiais e crenças ou construções simbólicas que as sustentam e justificam. Assim, empreendemos um esforço de juntar essas três dimensões na perspectiva de um olhar mais abrangente sobre as interações políticas. Constatamos que os riscos que este desafio comporta não são poucos, mas se minimamente bem sucedido, acreditamos ser uma contribuição relevante à análise política e da política maranhense, em particular.

  Nesta perspectiva, investigamos a contestação política no Maranhão a partir do desempenho eleitoral e das auto-representações das oposições, definidas como agentes individuais ou coletivos em disputas políticas com o grupo Sarney, reconhecido como dominante devido aos incontrastáveis recursos de poder com que opera, os quais vêm sustentando na política estadual ao longo do período analisado (1982-2010). Buscou-se conhecer quais as posições institucionais (no caso, cargos eletivos) ocupadas pelos oposicionistas e que elementos eles acionam para se representar na política maranhense num jogo de afirmações identitárias e relações adversariais.

  A reflexão foi conduzida pelo pressuposto de que existem nexos entre as posições acessadas, ou não, pela participação eleitoral e as condições de se apresentar e se reproduzir enquanto oposicionista, condição aqui considerada não exatamente em contraposição ao grupo no governo (embora isto se aplique a 24 dos 28 anos contemplados na análise), mas ao grupo Sarney que desde meados dos anos 1960 vem sendo dominante na política local.

  Inicialmente, realizamos uma discussão teórica situando o tema da contestação política no âmbito das teorias democráticas, embora existam várias e nem sempre convergentes teorias a esse respeito. Identificamos na literatura uma grande aceitação da ideia de que sem contestação ou direito de oposição não existe democracia, sendo as relações adversariais consideradas imprescindíveis para manutenção de regimes e governos democráticos, sobretudo nas perspectivas que situam o pluralismo entre as causas e finalidades da política.

  Contudo, ressaltamos que nem todas as democracias trilha(r)am os mesmos caminhos, sendo possível observar diferentes trajetórias. No Brasil, as rupturas da construção democrática, entrecortada por enraizado legado de poder privado e regimes ditatoriais resultaram em fragilidade das instituições democráticas vis-a-vis requisitos consagrados em modelos teóricos e experiências igualmente consagradas. Estas circunstâncias comprometem a contestação política, possibilitando a determinados grupos controlar o aparato governamental e se beneficiarem privada e continuadamente dos recursos disponíveis aos ocupantes dessas posições, ocasionando o desequilíbrio das disputas, dificultando a alternância política e escasseando a incerteza quanto aos resultados eleitorais.

  A partir destas referências nos voltamos para análise da contestação política no Maranhão com ênfase nas disputas político-eleitorais, considerando essas e outras características do arranjo democrático brasileiro e auto-representações oposicionistas, ou seja, di-visões que organizam as identidades e adversarialidades no plano do simbólico, onde também se desenrolam acirradas disputas, em parte orientadas pelas posições conquistadas ou a conquistar nas urnas.

  O desempenho eleitoral foi observado a partir da análise das dinâmicas e resultados eleitorais referentes a oito pleitos, realizados entre 1982 e 2010, através dos quais reunimos elementos que confirmam a polarização da política estadual entre o grupo Sarney e oposicionistas.

  Verificou-se que, ao longo deste período, as oposições têm se apresentado às disputas através de partidos pequenos (PRN, PRP, PDC/PPR/PP) e de médio porte (PDT e PSB) tendo obtido resultados pouco expressivos, comparados aos do grupo Sarney e elegeu apenas um senador, Epitácio Cafeteira, em 1990; um governador, o pedetista Jackson Lago, em 2006, cujo mandato foi cassado pela Justiça Eleitoral; têm sido minoritária em todas as composições legislativas, exceto em 2006, quando o governador estando rompido com o grupo Sarney viabilizou a eleição de candidato oposicionista a esse grupo, elegendo a maioria dos deputados estaduais (30 das 42 vagas) e federais (11 das 18 vagas).

  A contraface do desempenho eleitoral das oposições é que o grupo Sarney vem ocupando os principais cargos eletivos do Maranhão através dos partidos de maior expressão eleitoral no estado e em âmbito nacional, como PFL e PMDB. Ao longo do período analisado esse grupo elegeu quase todos os governadores: Luís Rocha (1982), Epitácio Cafeteira (1986), Edson Lobão (1990), Roseana Sarney (1994, 1998, 2010) e José Reinaldo Tavares (2002). Conquistou 11 das 12 vagas ofertadas para o senado: João Castelo (1982), Alexandre Costa (1986 e 1994), Edison Lobão (1990, 1994, 2002 e 2010), Epitácio Cafeteira (2006); João Alberto (1998e 2010) e Roseana Sarney (2002).

  Obteve 70,6% das vagas para a Assembleia Legislativa e amplas maiorias na Câmara Federal, com bancadas médias superiores a 68%.

  Entendemos que essas circunstâncias sustentam três afirmações recorrentes e centrais no presente estudo: a polarização entre dois campos políticos; a posição dominante exercida pelo grupo Sarney na política local e a centralidade do controle da máquina governamental como decisiva na definição dos embates eleitorais.

  Argumentamos que a manutenção desse grupo no controle dessas posições de poder, assim como o sistemático domínio que vem exercendo sobre a política local, tem sido garantido e ampliado por vários recursos que começa com o já mencionado controle majoritário dos cargos eletivos e avança com a influência sobre o poder judiciário; controle dos principais meios de comunicação do estado; considerável poder econômico; ampla rede de aliados e dependentes que opera em bases clientelistas; domínio sobre grandes partidos e outros com potenciais chances de crescimento; bases de apoio em todo estado; controle de posições estratégicas em âmbito federal, incluindo a ocupação do cargo de presidente da república por cinco anos, presidente do Congresso nacional por oito anos; controle de importantes pastas ministeriais e outros recursos de poder. O acesso e/ou controle destes recursos desestabiliza as condições de disputa em prejuízo dos oposicionistas.

  O controle desses e de outros recursos, nem sempre tão visíveis, por lideranças do grupo Sarney, assim como a sistemática derrota das oposições nas disputas político- eleitorais, escasseiam o potencial (ou a efetividade) da competição entre os agentes políticos, o que tem sido decisivo para a manutenção deste grupo na posição de dominante na política estadual. Estes elementos chamaram nossa atenção para a complexidade da política maranhense no que concerne ao seu enquadramento em definições teóricas, parecendo-nos improcedente a sua caracterização como simples democracia ou como oligarquia, geralmente admitidas como formas distintas e antagônicas no nível dos modelos teóricos, mas nem sempre tão estranhas ou excludentes no plano das interações empíricas, como já sinalizado em outros estudos sobre a política brasileira.

  Observou-se que no caso em estudo existe uma convivência entre práticas e lógicas democráticas e oligárquicas, apesar de formalmente serem fixadas as condições descritas pelo modelo dahlsiano para configuração de uma poliarquia (a democracia possível na contemporaneidade), como representantes eleitos, eleições frequentes, liberdade de expressão e associação, fontes de informação diversificadas, cidadania inclusiva e instituição organizadora isenta; verifica-se, por outro lado, a persistência de um conjunto de fatores que desestabilizam as disputas políticas e comprometem a postulação dahlsiana de que as eleições também precisam ser livres e justas. É o caso dos desproporcionais recursos de que dispõe o grupo Sarney, tanto no plano econômico como político-jurídico e midiático.

  Estes fatores nos permitiram questionar a tese de plena democracia e completo afastamento de componentes oligárquicos nestas disputas, tendo em vista a regularidade e, num sentido bem específico, alta competitividade de eleições que são decididas por pequeníssimas diferenças, quando as teorias comumente associam a oligarquia à ausência ou escassez de competição. Nossa interpretação considera que apesar destes índices de competição eleitoral um único grupo praticamente monopoliza os recursos econômicos e políticos à disposição do Estado, assim como incontrastáveis recursos particulares construídos ao longo desse mesmo período em que o grupo Sarney comanda a política local, tudo isto na perspectiva exitosa de se manter e reproduzir enquanto grupo dominante. O comando dos postos governamentais em circunstâncias de fracos mecanismos de controles ou accountability, é um dos elementos de enfraquecimento da competição como bem o demonstra a vitória oposicionista, quando em uma única circunstância teve o apoio do governador.

  Assim, mais do que escolher entre democracia e oligarquia, o presente estudo nos estimula a identificar na política maranhense uma situação híbrida em que elementos de uma e outra se mesclam, se revezam e se complementam. A plasticidade dos agentes políticos, quase todos ou quase sempre transitando em um grupo e outro, também desencoraja enquadramentos mais rígidos.

  A propósito de algumas indiferenciações na composição e/ou modus operandi do grupo dominante e dos oposicionistas há de se explicitar a grande dificuldade de se proceder uma adequada caracterização das oposições, ainda que este lugar exista, tenha eficácia simbólica e seja sustentado por seus integrantes do momento. A dificuldade advém da constatação de que há um trânsito contínuo destes agentes entre um grupo e outro, tornando complexa a diferenciação dada a pouca consistência dos laços de pertencimento e da escassa coesão interna de ambos os grupos, sobretudo das oposições, cujos recursos para atrair e fidelizar integrantes são comparativamente muito menores que os disponíveis ao grupo no governo como bem o ilustram os lapsos de tempo em que o grupo Sarney foi despojado desses postos, quando o crescimento das oposições foi notável.

  A porosidade das oposições lhe confere um perfil muito mais acusatório e reativo ao grupo Sarney do que um programa ou ideologia próprios. Apesar disso, observamos componentes identitários em sua definição, ainda que não haja uma fidelidade duradoura a essa identidade. Assim, verificamos que a contestação protagonizada por estes agentes tem como um dos principais elementos constitutivos os discursos sobre a situação socioeconômica e política do estado, por meio dos quais as oposições enfatizam o “atraso do Maranhão”, responsabilizando o grupo Sarney pela pobreza e baixos indicadores sociais do estado, sendo comum nesses embates a crítica oposicionista ao que nomeiam “40 anos de domínio da oligarquia Sarney”. Na crítica ao “prolongado domínio” e ao “atraso” imputado a esse grupo é que os oposicionistas sustentam a sua identidade e busca de legitimidade.

  A partir de elementos que conferem identidade ao campo oposicionista, buscamos também analisar como estes agentes se representam na política estadual e quais estratégias eles mobilizaram nesse processo. Neste intuito, selecionamos dois eventos da década de 2000, o rompimento de José Reinaldo Tavares com o grupo Sarney, em 2004, e o “Comitê de Defesa da Democracia no Maranhão” (“Balaiada”), criado no final de 2008, contra a cassação do governador Jackson Lago.

  No caso do governador José Reinaldo a sua afirmação como oposicionista ensejou um esforço demorado e contínuo de invenção/reinvenção de sua identidade, dado o longo vínculo que manteve com Sarney e da fidelidade inquestionada para com seu grupo político, de modo que o governo de Tavares era associado à “continuidade de um período de quarenta anos no Maranhão” e mesmo quando o rompimento já havia se tornado público foi comum a sua associação a uma “farsa”.

  Desconfianças à parte, a imagem de José Reinaldo foi sendo ressignificada na política estadual à medida que a crise se tornava mais aberta e incontornável e suas decisões administrativas à frente do governo desfaziam ou descaracterizavam medidas reconhecidas como símbolo do governo de Roseana Sarney; por ter deixado o PFL, partido comandado por Roseana Sarney, para se filiar ao PTB; e, pela montagem de um novo bloco político na Assembleia Legislativa, excluindo agentes ou setores fiéis à ex- governadora, entre outros enfrentamentos.

  Diferentemente de José Reinaldo, que precisou “provar” sua condição de oposicionista, Jackson Lago não foi submetido a essa exigência, nem sempre tácita, dada sua longa trajetória de participação nas oposições. Seus desafios foram de outra ordem: afirmar-se diferente do grupo dominante, criar e disseminar sentidos para a defesa e sustentação de seu governo, além de combater a tentativa de cassação do seu mandato. Neste sentido, a criação do “Comitê de Defesa da Democracia no Maranhão” e o acampamento “Balaiada” foram os símbolos da resistência do governador e um mecanismo de mobilização popular.

  A principal estratégia deste Movimento para desvincular a imagem de Lago da acusação de abuso de poder político e econômico que lhe estava sendo imputada foi relacionar o processo de cassação a um “golpe contra a democracia, arquitetado por Sarney”. Na versão “balaia”, Sarney era acusado de manipular e falsificar as provas que constavam no processo, negando assim requisitos elementares de qualquer democracia como a soberania do voto popular e a aceitação de regras em que perdedores aceitam sua derrota. Assim, o movimento tentava desviar as acusações do governador e associá- las a “artimanhas de Sarney e de seu grupo político para continuar no comando do estado”, acionando um discurso que juntava violação de direitos, vitimização e desqualificação política e moral do acusador ou adversário.

  Na análise destes episódios observamos vários pontos de intersecção entre ambos, notadamente as estratégias referentes à qualificação/desqualificação dos adversários, ambos utilizaram este recurso como mecanismo diferenciação social, atribuindo características e rótulos depreciativos aos oponentes e chamando para si atributos socialmente valorizados como forma de se credenciarem como os mais legítimos para governar. Além disso, a forma como esses eventos foram dramatizados e o destaque que ganharam nos meios de comunicação deu contornos espetaculares a estes embates. Tais dispositivos também são acionados nas disputas eleitorais, onde expressões como “moderno”, “novo” e “oligárquico” servem bem a esse propósito de qualificar/desqualificar os agentes em disputa.

  Assim, considerando os casos em foco, observamos que embora seja difícil uma classificação mais concisa das oposições, dada plasticidade do campo oposicionista, alguns agentes se apresentam e são reconhecidos por esta posição, de modo que afirmamos se tratar de um lugar fundamentalmente simbólico, ainda que amparado em resultados eleitorais e posições de poder (minoritárias) que estes lhes conferem. Um lugar dotado de efetividade material e simbólica, um lugar em que os agentes se reconhecem e se dão a conhecer, entre si e por um público mais amplo, ainda que não por muito tempo e com escassa fidelidade.

  

FONTES CONSULTADAS

JORNAIS Jornal Pequeno

  Julho a Dezembro de 2003 Janeiro a Dezembro de 2004 Janeiro a Julho de 2005

  Jornal O Estado do Maranhão

  Julho a Dezembro de 2003 Janeiro a Dezembro de 2004 Janeiro a Julho de 2005 Dezembro de 2008 Janeiro a Abril de 2009

  A Balaiada

  Dezembro de 2008 Janeiro a Abril de 2009

  DOCUMENTOS OFICIAIS Tribunal Superior Eleitoral

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