Arioli Domingos dos Reis Helfer “1964: O GOLPE CIVIL-MILITAR PELAS PÁGINAS DO JORNAL A RAZÃO (SANTA MARIA, RS)”

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Arioli Domingos dos Reis Helfer

“1964: O GOLPE CIVIL-MILITAR PELAS PÁGINAS DO JORNAL A RAZÃO (SANTA MARIA, RS)”

Santa Maria, RS

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Arioli Domingos dos Reis Helfer

“1964: O GOLPE CIVIL-MILITAR PELAS PÁGINAS DO JORNAL A RAZÃO

(SANTA MARIA, RS)”

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Sociais e Humanas, do Centro Universitário Franciscano – UNIFRA, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado em História – Licenciatura Plena em História.

Orientadora: Profª. Drª. Nikelen Acosta Witter

Santa Maria, RS

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Arioli Domingos dos Reis Helfer

“1964: O GOLPE CIVIL-MILITAR PELAS PÁGINAS DO JORNAL A RAZÃO

(SANTA MARIA, RS)”

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Sociais e Humanas, do Centro Universitário Franciscano – UNIFRA, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado em História – Licenciatura Plena em História.

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Profª. Drª. Nikelen Acosta Witter – Orientadora (UNIFRA)

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Prof. Dr. Carlos Roberto Rangel (UNIFRA)

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Prof. Dr. Leonardo Guedes Henn (UNIFRA)

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RESUMO

A mídia escrita teve um importante papel durante o golpe civil-militar de 1964. Interessa nesta monografia, problematizar as maneiras pelas quais este foi apresentado à população de Santa Maria nos editoriais do jornal A Razão. A análise buscará compreender a posição dos editores do periódico frente à tensa situação política do Brasil, que precedeu e sucedeu ao golpe. Para isso serão utilizados exemplares do jornal existentes no Arquivo Histórico de Santa Maria, lidos e compreendidos à luz da historiografia do tema e através da análise dos seus discursos. Esta investigação intenciona sobrepor-se a propalada imparcialidade jornalística, a qual tende ser regida por interesses financeiros e políticos, em função da manutenção ou reforço de um dado quadro sociopolítico.

Palavras-chave: Golpe civil-militar. Posição editorial. Imparcialidade jornalística.

ABSTRACT

The writing media had an important role during the civil-military coup of 1964. Interest in this monograph, problematize the ways by which such design was applied to the population of Santa Maria in the editorials of the newspaper A Razão. The analysis will seek to understand the position of the editors of the periodical front of the tense political situation of Brazil, which preceded and succeeded the coup. For will be utilized copies of the newspaper existing in the Santa Maria Historical Archives, read and understood in the light of the historiography of the theme and through the analysis of their speeches. This investigation intends to overlap the vaunted journalistic impartiality, which tends to be guided by financial and political interests, due to the maintenance or reinforcement of a given sociopolitical context.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...6

1. O DESAFIO À PALAVRA FALADA...10

1.1. O CENÁRIO HISTORIOGRÁFICO DA IMPRENSA BRASILEIRA...11

1.2. NOTAS SOBRE A IMPRENSA EM SANTA MARIA - RS...13

1.3. PANORAMA POLÍTICO BRASILEIRO (1961 - 1964)...18

2. DA EXPECTATIVA AO FATO...24

2.1. SITUAÇÃO POLÍTICA DE SANTA MARIA EM 1964...24

2.2. O JORNAL A RAZÃO...26

2.3. ANÁLISE DOS EDITORIAIS COLETADOS...27

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS...38

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...40

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INTRODUÇÃO

No Brasil, a imprensa surgiu oficialmente apenas no século XIX. Este nascimento tardio deveu-se ao fato de que, foi somente com a chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro que se deu a instalação da Imprensa Régia, com prelos vindos na frota real (ABREU, 2010). A atividade tipográfica – embora já existisse em território colonial de forma improvisada – foi, por muito tempo, controlada por leis como a Carta Régia de 1706, a qual proibia formalmente a impressão de quaisquer textos no Brasil e mantinha rigorosa vigília sobre os rebeldes que não a seguissem. (SODRÉ, 1999).

Neste período, os livros e materiais impressos existentes no Brasil eram produzidos na Europa, principalmente em Portugal e trazidos para a colônia. Contudo, todas as obras que aportavam no país, fruto de encomenda ou trazidas por livreiros para o comércio, haviam de passar pela censura da coroa. Levando os interessados em leituras consideradas impróprias, ou seja, aqueles textos acusados de ponderar sobre a autoridade da monarquia, da Igreja ou dos costumes, a recorrerem ao contrabando, via de regra, o meio comum de entrada de obras literárias no país (DEAECTO, 2010). A informação por ser de acesso restrito a elite, gerava o monopólio desta classe sobre a erudição, reforçando a consciência, do perigo que significava uma sociedade em que o saber fosse acessível a todos. (VILLALTA, 1999).

Do século XIX para o século XX, a imprensa foi paulatinamente ganhando mais importância na vida brasileira, chegando a pautar costumes e sendo usada, especialmente, no controle da opinião pública.

Esta monografia procura, no âmbito da mídia local, conhecer o posicionamento político da imprensa santa-mariense, num período fundamental da recente história do Brasil. Trata-se do golpe civil-militar ocorrido em março-abril de 1964. Para muitos brasileiros, o principal acesso aos desdobramentos deste evento veio através da imprensa. Dessa forma, compreender o processo destes acontecimentos políticos, a partir do que os jornais veiculavam para a sociedade, é de grande valia para a história local, regional e nacional. Sabendo da situação política da época, procurou-se entender a vida pública de Santa Maria, fazendo uso dos editoriais do jornal A Razão. O qual foi “várias vezes citado por expressar de forma jornalística o tema proposto, em nível local e regional” (NASCIMENTO, 2009, p. 7), uma vez que a ameaça golpista se fazia assídua, nas suas manchetes.

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componente da imprensa de Santa Maria. Para tanto, foi escolhido o espaço editorial do já referido periódico e optou-se pelo recorte temporal do 1º semestre de 1964.

O estudo dos meios de comunicação, com poder de influenciar a opinião pública, está de acordo com a ideia de Nelson Werneck Sodré sobre a importância em pesquisar as particularidades da história da imprensa brasileira. (SODRÉ, 1999). A preocupação em entender a relação da mídia impressa com a sociedade está presente também no trabalho de Marialva Barbosa, uma das inspiradoras desta pesquisa. Seguindo as propostas desta autora, ao analisar os editoriais, se buscará compreender a ação da imprensa em seu potencial de controladora social, na medida em que sua opinião era (e ainda é, muitas vezes) vista como

fonte “objetiva” de informação. (BARBOSA, 2007). Para analisar o discurso editorial do jornal A Razão, utilizar-se-á do estudo de Roselyne Ringoot (2006), em que o conceito de discurso é percebido nas seguintes partes: enunciado, enunciação e enunciatário. Também se partirá das premissas de Dominique Meingueneau (2002), para o qual: quem diz, o que é dito, o modo como é dito e a quem é dito obedecem a regras, que mesmo não obrigatórias, são convenções implícitas, presentes no discurso.

O discurso a ser estudado, é percebido em um conjunto de normas as quais Maingueneau (1998), organiza nas Leis do Discurso. De acordo com sua ideia, no momento em que o enunciador se pronuncia sobre um tema, o faz de forma consciente de que o indivíduo a quem a notícia é dirigida, consegue compreendê-la em função do seu saber enciclopédico, podendo ainda, (re) significá-la de acordo com sua leitura de mundo e capacidade de contextualização. Do mesmo modo, o enunciatário ao buscar uma notícia, parte do pressuposto de que esta existe, por ser relevante ao contexto em que foi produzida. Melhor expresso na seguinte citação:

Para construir uma interpretação, o destinatário deve supor que o produtor do

enunciado respeita certas “regras do jogo”: por exemplo, que o enunciado é “sério”,

que foi produzido com a intenção de comunicar algo que diz respeito àqueles a quem é dirigido. [...] O simples fato de entrar num processo de comunicação verbal implica que se respeitem as regras do jogo. Isso não se faz por intermédio de um contrato explícito, mas por um acordo tácito, inseparável da atividade verbal. Entra em ação um saber mutuamente conhecido: cada um postula que seu parceiro aceita as regras e espera que o outro as respeite. Essas regras não são obrigatórias e inconscientes como as da sintaxe e da morfologia, são convenções tácitas. (MAINGUENEAU, 2002, p. 31).

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enunciar, por sua vez, envolve um enunciador e um enunciatário. (RINGOOT, 2006). Logo, ao se analisar um texto jornalístico, se faz necessário considerar o que é divulgado por este texto, o modo como foi publicado, o sentimento em relação ao que é dito e, se possível, a maneira como é recebido.

Por fim, esta pesquisa se dedica a compreender o papel dos meios de comunicação na formação da opinião pública dentro de um contexto específico, ou seja, o da percepção do golpe civil-militar na imprensa da cidade de Santa Maria, aqui representada pelo jornal A Razão. Entender as estratégias e os usos da influência midiática junto ao público é parte fundamental no debate do presente e do futuro das comunicações de massa.

No primeiro capítulo, buscou-se estabelecer a trajetória da imprensa desde a invenção da prensa por Johannes Gutenberg. A adaptação e utilização da tecnologia tipográfica na Europa foram responsáveis por revolucionar a produção e difusão de informações. No Brasil, tratou-se da atividade gráfica iniciada com improvisos e adaptações até a instalação oficial da Imprensa Régia em território brasileiro.

Neste mesmo tópico, abordar-se-á a historiografia da imprensa brasileira, pela ótica marxista de Nelson Werneck Sodré e também pela visão de Marialva Barbosa, cuja linha de pesquisa considera a relação social estabelecida entre o fazer jornalístico e a população. Igualmente, se demonstrará o que já foi escrito acerca da imprensa em Santa Maria. Considerando para isto, livros, monografias e dissertações, que buscaram estudar a mídia na cidade e contribuíram para a compreensão do cenário social e político do município.

Finalizando o capítulo, o foco será o contexto político brasileiro, a partir da renúncia do Presidente Jânio Quadros, no ano de 1961, passando pela conturbada ascensão do Vice João Goulart ao cargo e a sua deposição pelo golpe em 1964. O estudo desta conjuntura é indispensável para entender os aspectos políticos municipais, pois sabe-se que as decisões políticas tomadas pelos partidos abrangem todos os seus seguimentos no país. Diante deste cenário, o problema da presente dissertação foi identificar o posicionamento do jornal A Razão frente a estes desdobramentos.

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jornal A Razão. Escolhido por ser um periódico de ampla circulação e com potencial de se fazer ouvir pela população, quando assim o desejassem seus editores.

Na situação política municipal, as decisões nacionais foram ponderadas durante a análise do que foi publicado na cidade, lembrando-se que estas deliberações puderam conduzir o posicionamento dos editores. Para tanto, valeu-se da dissertação de Maria do Nascimento (2009) cujo estudo do Legislativo Municipal, por meio dos registros das Atas das sessões da Câmara Municipal de Vereadores de Santa Maria, nos anos de 1964 a 1968, revelou as tensões geradas pela conjuntura política do período.

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1. O DESAFIO À PALAVRA FALADA

A imprensa desde sua gênese está intrinsecamente ligada à política, haja vista sua criação ser fruto da necessidade de maximizar a divulgação de notícias e informações, em sua maioria de caráter regulador, ao tornar públicas ordens governamentais. Ou mesmo, no uso da imprensa para a difusão de pensamentos, boletins sobre as condições de mercado, relato de eventos políticos, econômicos e sociais. (BELO, 2002).

No advento da tecnologia de impressão – cuja técnica no continente europeu foi aperfeiçoada por Johannes Gutenberg – o papel e a tinta já eram conhecidos na Europa. Os métodos de fabricação da tinta e do papel, desenvolvidos primeiramente na China, no Japão e na Coréia, já diminuíam o custo e dinamizavam a produção de livros, por substituírem o couro dos pergaminhos. Os tipos móveis, também criados no Oriente – assim como o papel, a pólvora e a tinta – passaram pela notável capacidade de aperfeiçoamento e readequação das novidades tecnológicas às necessidades europeias. Assim:

A técnica de impressão sobre papel foi uma revolução social. A Europa estava pronta para ela e ansiosa por usá-la e melhorá-la, pois o fim do século 15 foi a época de seu despertar intelectual. A imprensa acelerou esse despertar. (BLAINEY, 2009, p. 157-158).

Investigar o desenvolvimento da imprensa através do tempo inclui reconhecer a existência da palavra escrita, como exigência à comunicação por um meio que assegure a mensagem/teor que compõem um determinado assunto, ao longo dos anos. A organização e o acúmulo de informações passaram a ser mais efetivos e contaram com maior fluidez por meio da palavra impressa. Esta passou a desafiar a palavra falada, na medida em que a superou na permanência do conteúdo e passou não só a somar-se à memória, mas a ser sua maior depositária. (MELO, 2005).

A maior produção de textos escritos, gerada pela tipografia, proporcionou o surgimento de boletins informativos que logo se converteram em periódicos. Primeiro, na Europa Ocidental, no início do século XVII, em países como Alemanha, França, Bélgica e Inglaterra. A tipografia, de fato, foi de grande importância para a difusão das inovações tanto tecnológicas, quanto culturais e intelectuais, na sociedade ocidental. A comunicação impressa maximizou a difusão de textos, permitindo que estes estivessem ao alcance de mais leitores e, que cada leitor acessasse mais obras. (BELO, 2002).

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período em que o Brasil foi colônia portuguesa, a tecnologia tipográfica foi controlada desde o momento em que poderia ser utilizada em território brasileiro, até o conteúdo que produziria. O que foi escrito sobre esta parcela da história do Brasil será abordado a seguir.

1.1. O CENÁRIO HISTORIOGRÁFICO DA IMPRENSA BRASILEIRA

O panorama jornalístico do Brasil já serviu de fonte para variados estudos que buscavam investigar questões nas áreas cultural, política, econômica, social, religiosa, etc. Nesse sentido, a imprensa figura como um tema amplamente explorado, capaz de contemplar pesquisas em diferentes áreas. Compõe um cabedal para representar a imagem social do

presente, principalmente em estudo para as “ciências históricas”. (DALMOLIN, 2010).

Nelson Werneck Sodré – um dos mais importantes estudiosos do panorama jornalístico brasileiro – criou uma aura de polêmica em torno de sua obra intitulada História da imprensa no Brasil (1966). O lançamento deste livro – com base teórica marxista – chocou os historiadores seus contemporâneos, ainda mais por se tratar da alvorada de um novo regime político no país, fruto do golpe de 1964. (BARBOSA, 2007). Nesta obra, produto da dedicação de três décadas de pesquisa, o autor analisou a evolução da imprensa brasileira, desde seu delineamento, no período pré-imprensa Régia, à contemporaneidade. Sendo a 4ª e última edição, contemplada com um capítulo inédito dedicado às impressões de Sodré sobre a atualidade da imprensa nacional. Logo na introdução de seu trabalho, o autor destaca que sua pesquisa, embora ampla, procurou sintetizar o processo histórico da imprensa no país, deixando de explorar muitos detalhes, em função do tamanho físico necessário a uma abordagem num sentido mais abrangente. (SODRÉ, 1999). Em suas palavras:

Não nos foi possível, por outro lado, detalhar alguns aspectos importantes na história da imprensa brasileira, talvez mais apropriados para trabalhos monográficos: as grandes campanhas políticas nela desenvolvidas, como a da Abolição, a da República, a do Civilismo e tantas outras; (...) as alterações na distribuição, desde a venda nas livrarias, as assinaturas, até à venda na via pública; (...) as transformações na crítica ilustrada, das caricaturas à charge moderna; as relações entre Governo e imprensa e a legislação sobre censura; (...) o interessantíssimo estudo da imprensa clandestina; (...) Certo, todos esses aspectos são interessantes ou importantes, mas dificilmente caberiam numa síntese como esta. (SODRÉ, 1999, p. 7-8)

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Pois, inclusive eventos de cunho nacional são formados ou podem ser contrapostos por frentes regionais.

Em sua extensa pesquisa sobre jornais e bibliografias do tema, Sodré comparou o desenvolvimento da imprensa brasileira com as características que o capitalismo apresentou em sua evolução no Brasil. Identificando, no processo histórico do jornalismo, características inerentes ao modelo de fábricas capitalistas. Para tanto, a própria estrutura e funcionamento dos grandes jornais foram explicados em paralelo ao das grandes empresas, com sua organização e força de produção. (ROMANCINI, 2005). Sodré defende que a imprensa em sua formação, se caracterizou de acordo com o modo de sua própria fabricação, ou seja, em uma oficina de pequena proporção e limitados recursos técnicos, a produção e conteúdo dos periódicos tendiam a refletir este padrão. Na medida em que os aparatos tecnológicos e a gerência das tipografias passaram por remodelações, o mesmo ocorreu com seu produto final. De maneira que, na atualidade, a grande imprensa define-se pela dimensão de grandes empresas, nas quais se tornaram hoje, os jornais de ampla circulação. (SODRÉ, 1999).

A ideia apresentada acima propõe a reflexão sobre a amplitude de atuação da imprensa em nosso país, pois, se um jornal de grande conceito é produto de vultoso aporte de capital, a opinião pública será dominada (ou no mínimo correrá este risco) pela categoria dotada de maior condição financeira. Desta suposição de Sodré infere-se que as informações veiculadas com maior eficácia serão as provindas de órgãos comunicacionais controladas por uma elite que além de letrada é necessariamente rica.

Não se menospreza de forma alguma a pertinência dos periódicos de pequena circulação, porque se reconhece o papel fundamental das publicações que, em reduzida escala, veiculam ideais na defesa dos interesses não amparados na grande mídia. Entretanto, de acordo com a argumentação de Nelson Werneck Sodré (1999), os jornais de pequeno porte não competem em igual escala, em função dos altos investimentos necessários à criação de um jornal com parque de máquinas e equipe técnica, que possibilite a conquista do espaço entre os grandes veículos de comunicação.

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estruturação dos jornais. O terceiro conjunto analisa os periódicos enquanto difusores ideológicos. No quarto grupo, os limites da análise seriam a conjuntura histórica em que as atividades jornalísticas se produziam. Por último:

Há ainda um quinto grupo de estudos que considera a história como um processo e, sobretudo, a imprensa na sua relação com o social. Ao mesmo tempo, visualiza-a como integrante de um processo comunicacional, no qual ganha importância o conteúdo, o produtor da mensagem e forma como o leitor entende os sinais emitidos pelos impressos. (BARBOSA, 2007, p. 12-13).

A intenção deste estudo se identifica com o quinto e último conjunto, pois busca perceber na imprensa santa-mariense, representada pelo editorial do jornal “A Razão”, os

posicionamentos acerca dos eventos do ano de 1964. Trabalhando com questionamentos do presente que, direcionados ao passado, podem permitir novas conclusões sobre o jornalismo e sua relação com a sociedade.

Mesmo a imprensa na atualidade recebendo atenção de diversos estudos e pesquisas, a obra nacional de maior amplitude permanece a de autoria de Nelson Werneck Sodré, que já conta com mais de 40 anos desde sua primeira publicação. (BARBOSA, 2007). A base de desenvolvimento deste capítulo foi o livro A história da imprensa no Brasil, escrito em 1966, reeditado em 1999 e ainda hoje, obra de maior influência na historiografia do Brasil. (ROMANCINI, 2005). Deste ponto, segue-se ao próximo tópico, onde serão tratados alguns apontamentos sobre a imprensa em Santa Maria, trabalhando basicamente com autores da região.

1.2. NOTAS SOBRE A IMPRENSA EM SANTA MARIA – RS

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Assim, a inauguração da imprensa em Santa Maria se deu em 1883 com A Gazeta do Norte. No primeiro momento, a vida jornalística da cidade girou em torno de notícias variadas, com anúncios e propagandas. Porém, logo após o pontapé inicial do periodismo santa-mariense, foram inaugurados muitos boletins. Na sugestão de Nely Ribeiro, como que para compensar o atraso da instalação da empresa jornalística na cidade. (RIBEIRO, 1992).

É perceptível, neste momento, a forte tendência aos anseios federalistas na imprensa santa-mariense. Dos quatro periódicos que existiam na cidade, dois eram de apoio ao republicanismo. (RIBEIRO, 1992). O conceito de federalismo, conforme Maria Medianeira Padoin (2010), no entanto, comporta variadas concepções. O que torna difícil precisar que estes periódicos partilhassem de ideias idênticas.

Especialmente após a criação da Constituição dos Estados Unidos, tem-se “a criação do Estado Federal, em que o termo ‘autonomia’ terá a conotação de soberania relativa e não

mais, como na maioria dos discursos anteriores, de independência”. (PADOIN, 2010, p. 50). Juntamente a este modelo de organização e relação interna entre os estados membros da união, esteve o republicanismo como modelo de governo, assim, o representante chegaria ao cargo por escolha do povo, não mais por hereditariedade. (PADOIN, 2010). Para Nely Ribeiro (1992, p. 104), o “ideal republicano esteve enraizado no povo santa-mariense, tanto que, a partir de 30 de setembro de 1887, realizou-se o Congresso do Partido Republicano em Santa Maria, fato que teve profundas consequências para o jornalismo local e regional”. De fato, longe de ser uma característica própria do povo de Santa Maria, tal quadro pode ser compreendido pelas características da história brasileira em fins do século XIX, quando a República era tida como a opção irrevogável para reger a nação.

A existência de forte base federalista na cidade, no entanto, esteve ligada a aproximação entre Gaspar Silveira Martins e o Legislativo Municipal. Por meio desta relação, a Câmara de Vereadores de Santa Maria buscou a mediação de Silveira Martins – principal representante do Partido Federal (PF) no Rio Grande do Sul e fundador do jornal federalista,

A Reforma – para a criação da Quarta Colônia Imperial de Imigrantes Italianos, no ano de 1878. A instalação desta colônia de imigração europeia, próximo ao município, tinha como finalidade promover o desenvolvimento da região (PADOIN, 2010), e selou uma ligação entre a cidade e o federalismo.

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Alfredo Rodrigues da Costa, acabou por tornar-se o real iniciador da imprensa diária de Santa Maria.(RIBEIRO, 1992, p. 111). Com este jornal, a situação da cidade se inverte em relação à existente há menos de duas décadas. De dependente das notícias externas, Santa Maria passou a exportar informações às cidades próximas, com muita eficiência, haja vista localizar-se em um entroncamento ferroviário. (RIBEIRO, 1992).

A Viação Férrea foi responsável também pelo despontar das esferas sociais, culturais e populacionais, das cidades às margens dos trilhos. (PADOIN, 2010). Santa Maria, com a chegada da estrada de ferro, além de progredir economicamente, estabeleceu uma imprensa que, por meio dos trilhos, acessava os fatos que iria publicar e, atendia as localidades próximas, como fonte de informações.

O período compreendido pelas décadas de 1920/30, em Santa Maria, foi assinalado por contendas políticas, em que a pessoalidade tomava lugar das ideias partidárias. Embora grande parte dos jornais inaugurados tenham tido vida efêmera e tratado de temas gerais, os que representavam tendências políticas, tendiam a conflitar, sendo que o limite das disputas podia ser o assassinato de seus adeptos. Também marcou o período, não apenas no âmbito de Santa Maria, mas da imprensa gaúcha, o apoio à candidatura de Getúlio Vargas que, depois de efetivada, se mostrou contrária à liberdade daquela que o defendeu. (RIBEIRO, 1992).

A partir de 1934, Santa Maria viu surgir o jornal diário A Razão, que se empenhou em instalar modernidades tecnológicas, buscando sempre se valer de novos métodos para a eficácia na obtenção e difusão das notícias. (RIBEIRO, 1992). Este periódico obteve sucesso de atuação, por acessar as notícias internacionais em primeira mão, ao fazer parte de uma rede de radiotelegrafia que recebia transmissões de várias partes do mundo. (PAVANI, 1980).

Os primeiros proprietários do jornal A Razão foram Gelio Brinckmann, Flodoardo Martins da Silva e Clarimundo Flores. Mas, pouco tempo após a inauguração, a propriedade passa a ser unicamente deste último, que junto a Flores Sobrinho na gerência, permanecem à frente do jornal até sua venda aos Diários Associados, na década de 1940. Sob diferentes direções, o jornal A Razão se mantém em atividade até hoje. (RIBEIRO, 1992).

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“a bibliografia disponível sobre o percurso dos principais veículos do município é bastante incipiente, mostrando que muito ainda precisa ser feio para que se tenha uma noção de como a imprensa se desenvolveu na região central do Rio Grande do Sul.” (DALMOLIN, 2010, p. 514).

Aline Roes Dalmolin (2010) destaca que a distância do município, dos centros de pesquisa e a ainda recente instalação dos programas de pós-graduação na Universidade Federal de Santa Maria, não justifica a pouca abordagem acadêmica sobre os veículos de informação da cidade. A autora defende que as pesquisas de caráter monográfico, podem acolher os interesses locais, estabelecendo uma relação facilitadora da investigação, considerando, a proximidade entre fontes e estudiosos. O mesmo problema já era apontado na década de 1980, por Leiza Pavani (1980), que relata em seu trabalho que “deparou-se com grandes dificuldades em encontrar livros sobre a história da imprensa escrita em Santa Maria

devido a deficiência de bibliografia específica” (PAVANI, 1980, p. 2), destacando João Belém, Romeu Beltrão e Nely Ribeiro, como autores que constituíram suas referências na pesquisa.

Infelizmente, ainda é frágil a produção acadêmica sobre a imprensa santa-mariense. Para situar-se o ano de 1964 – período de estudo desta pesquisa – na história da imprensa de Santa Maria, foram encontradas informações de interesse ao recorte desta monografia no livro de Nely Ribeiro, Jornais gráficos RS 1837-1900: O jornal em Santa Maria 1883-1992. Neste, obteve-se um levantamento do aparecimento e desaparecimento de periódicos em uma narrativa factual. Permanecendo a importância desta obra, na quantificação e datação de inúmeros folhetins, cuja catalogação é importante para serem utilizados como fontes a futuros estudos.

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Já no banco de dados do Centro Universitário Franciscano, foi localizada a monografia de Leiza Orcelli Pavani, apresentada ao Curso de Especialização em História Administrativa e Social do Brasil, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras “Imaculada Conceição” (FIC).

Sob o título A imprensa escrita em Santa Maria a partir da década de 1960, esta pesquisa constituiu grande auxílio ao estudo aqui proposto, pois o recorte temporal coincide com o pesquisado. Em seu estudo, Pavani (1980) percebe com otimismo a função do jornal no

tocante à sua ação na sociedade. “O jornal é a informação de fatos correntes, que devem ser

interpretados, com o objetivo de difundir conhecimentos e orientar a opinião pública, no sentido de promover o bem comum.” (PAVANI, 1980, p. 2). No entanto, mesmo pontuando sobre a importância e valor da ação dos jornais em uma comunidade, a pesquisadora não os analisa ingenuamente, pois, entende que as narrativas jornalísticas podem ser flexionadas de acordo com o pensamento daqueles que os escrevem. Podendo não compartilhar ou compreender a perspectiva dos indivíduos que protagonizaram a ação transcrita. A ideia da historiadora está claramente expressa na passagem a seguir:

Em comentários jornalísticos, entra em grande dose a parcialidade do redator. Eis porque os jornais não são tidos como fonte única e fidedigna para a pesquisa histórica. Mas não se pode deixar de reconhecer sua importância como o complemento das fontes primárias. (PAVANI, 1980, p. 2).

Refletindo a publicação da autora, pode-se complementar sua ideia, porque os jornais em função de seu potencial de difundir informações, publicar os costumes de um determinado local e orientar o pensamento público, podem sim constituir fonte histórica autêntica. Deve-se adotar para isto, adequado respaldo teórico e metodológico, que capacite o pesquisador a trabalhar com êxito os jornais como fonte.

Em sua abordagem, Pavani (1980) objetivou sintetizar a história da imprensa em Santa Maria e compreender sua participação na sociedade. Obtendo êxito ao enumerar os periódicos, construindo uma síntese quantitativa da imprensa na cidade. No tocante a participação social, concluiu que os jornais atuam ativamente na medida em que operam diariamente na delineação social de informar e orientar a população.

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dados políticos brasileiros no período de 1961 a 1964, possibilitando atingir os objetivos propostos nesta pesquisa.

1.3. PANORAMA POLÍTICO BRASILEIRO (1961 - 1964)

Em 1961, no contexto internacional, a situação era a da Guerra Fria e a tônica do período era a polaridade político-econômica entre os blocos capitalista e o comunista. No Brasil, as décadas de 1950/60 foram de forte aceitação do uso de capitais estrangeiros (KÜHN, 2011). Marcadamente, o governo brasileiro anterior à eleição de Jânio Quadros, alinhava-se ao grupo capitalista liderado pelos Estados Unidos. Porém, a partir de 1961, o novo presidente rompeu com a tradicional postura política brasileira causando mal estar e despertando a atenção, nos setores empresariais e políticos, ao buscar relações com a República Popular da China, pertencente ao bloco denominado socialista, que entre os vários países da Europa Oriental integrantes, teve na União Soviética o seu expoente. Não significava um rompimento com o bloco capitalista, mas esta postura nova, colocou em tensão as relações políticas internas e externas do país. (NASCIMENTO, 2009).

Somaram-se aos descontentamentos políticos, algumas ações excêntricas e moralistas adotadas por Jânio Quadros. (KÜHN, 2011). As mais polêmicas foram: a proibição de rinhas de galo, a regulamentação do uso de biquínis, bem como a proibição do uso de lança-perfume no carnaval e das corridas de cavalo durante os dias da semana. (NASCIMENTO, 2009).

Jânio – diante da crise desencadeada por sua postura política – tenta a estratégia da renúncia para reverter o quadro de insatisfação e obter apoio. No entanto, a tática de retornar com os poderes reforçados não obtém êxito, quando o Congresso Nacional aceita o pedido de renúncia e o Legislativo decreta vacância do cargo da presidência da República. (NASCIMENTO, 2009).

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do governo brasileiro ao comunismo.1 “A política autônoma frente ao bloco ocidental, de

estabelecer comércio com Estado do bloco socialista fazia crescer a oposição a João Goulart como legítimo sucessor de Jânio Quadros.” (NASCIMENTO, 2009, p. 9).

O grupo político-militar, em seu âmago, defendia a exclusão do Vice-Presidente Goulart da Presidência da República. A intenção era afastá-lo do cargo, para proteger a democracia no Brasil, contra a irrupção do mal comunista, perceptível nas atitudes políticas independentes do futuro chefe da nação. Porém, tendo sido este eleito democraticamente de acordo com os processos legais previstos da Constituição de 1946, lhe era legítimo o direito de assumir a presidência. (KÜHN, 2011). Houve então, uma divisão das lideranças políticas entre, apoiadores de uma medida enérgica contra o possível golpe comunista, que desvirtuaria a ordem democrática e àqueles que alegavam que a legalidade do preenchimento do cargo presidencial por Jango estava ameaçado por uma ação golpista da direita. Foi este o caso do governo sul-rio-grandense.

Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, ciente da intenção golpista que se configurava, convocou a população a apoiá-lo em uma campanha pela legalidade da posse de João Goulart. Este movimento amparado pelo povo conseguiu também a adesão da IIIª Divisão do Exército e contou com a transmissão de discursos do governador gaúcho por 150 rádios do estado, alcançando todo o país. Tal evento ficou conhecido por Campanha da Legalidade e, juntamente a várias manifestações em outras partes do Brasil, adiaram a ação golpista que se pretendia executar, já em 1961. A ação legalista possibilitou a João Goulart assumir a presidência da República (KÜHN, 2011), embora três anos depois, em função de vários fatores, entre eles a melhor organização dos militares, o desfecho não pudesse ser mudado.

João Goulart enfrentou forte oposição para assumir a Presidência, apenas chegando ao cargo respaldado pelo apoio da Campanha da Legalidade e por haver um acordo. Deste acerto, resultou a emenda na constituição de 1946, que estabeleceu a mudança do sistema de governo para o Parlamentarismo, limitando o poder de ação do novo Presidente. Este ajuste foi parte das condições estabelecidas no pacto político entre os ministros que pretendiam impedir a posse do Vice-Presidente, mas que, diante da repercussão nacional pela legalidade, reconheceram o direito à posse de Jango. (NASCIMENTO, 2009).

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No ano de 1963, foi convocado o plebiscito, no qual foi votada a volta ao sistema presidencialista (KÜHN, 2001) e o Presidente Goulart pôde dar início a seus projetos. Estes,

tachados de “socialistas”, punham medo nos grandes proprietários e empresários que se defendiam contra qualquer atitude social do governo como se fosse um ataque iminente à propriedade privada. A elite nacional considerava-se a mercê da política de massas representada pelas Reformas de Base. Através destas medidas, o presidente Goulart pretendia diminuir o fluxo de capital ao exterior, tornar nacionais as empresas de comunicação, reformar o sistema político (onde se expandiria o sufrágio aos analfabetos) e implantar a medida mais temida: a reforma agrária. (NASCIMENTO, 2009). Estas iniciativas, na medida em que lograssem êxito, poderiam diminuir a verticalização da distribuição de renda e sociabilizar as riquezas do país, visto que a reforma agrária é condição primeira para o desenvolvimento social, caso contrário toda reforma empregada seria conservadora ao manter as mesmas estruturas socioeconômicas.

Depois do planejamento e início das Reformas de Base, a reforma agrária se mostrou mais provável de ser realizada, acarretando o afastamento da elite conservadora do presidente. Este, como saída mais viável, voltou-se para o apoio das camadas populares, sindicatos e grupos de esquerda. Ainda assim, era delicada a situação da gestão Goulart, pois tanto pressões motivadas pela esquerda organizada quanto da direita, reivindicavam mudanças. (NASCIMENTO, 2009).

A postura política de caráter nacionalista adotada, ao passo que limitou a remessa de capitais ao exterior, ocasionou a intervenção norte-americana. “Tal panorama repercutiu

internacionalmente, principalmente nos Estados Unidos, possibilitando a ajuda econômica

americana a grupos de intelectuais contrários ao governo de Goulart.” (NASCIMENTO,

2009, p 13). Surgiram, a partir disto, órgãos formados por intelectuais e militares, financiados pelos EUA, dentre eles o IPES (Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais), cuja função era defender os interesses das indústrias, que precisavam de boas relações no mercado internacional, para manter seus altos lucros. (NASCIMENTO, 2009).

Para pressionar o governo e motivar o golpe, contribuiu além do motivo econômico, o aspecto de que a imagem atribuída às ações reformistas era a de um golpe comunista. O medo

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brasileira, estando a opinião pública condicionada a uma única fonte, que neste período basicamente foi composta pela imprensa. (SILVA, 2011). Como exemplo, destacaram-se as ações de Carlos Lacerda, Governador da Guanabara e dono do jornal A Tribuna. Pois, este, em 1961, diante da renúncia de Jânio Quadros, apreendeu 60 mil exemplares do Jornal do Brasil, cuja matéria não era lhe era conveniente e, em seu periódico publicou manchetes que sugeriram o impasse entre comunismo e/ou democracia. Conforme apresenta Juremir Machado da Silva (p. 67-68, 2011), “Lacerda usaria seus velhos métodos jornalísticos para acirrar o golpe. As suas manchetes insuflariam os medos mais rasteiros: ‘Forças armadas dizem que Jango é a Guerra Civil’”. Assim, diante deste tipo de manipulação das informações, a visão dos projetos do Governo Goulart, era construída mais em função da vontade da mídia impressa, do que pelo que realmente representavam.

A apresentação planejada do plano das Reformas de Base, por João Goulart, ocorreria de forma ordenada em comícios pelo o Brasil. No entanto, logo no primeiro comício:

Em 13 de março de 1964, em razão da realização do grande comício em frente à Estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro, através de maciça mobilização popular, que tinha como objetivo pressionar o Congresso Nacional para aprovar as Reformas de Base, Jango anunciou a nacionalização das refinarias privadas de petróleo e a desapropriação de terras, e a crise política governamental precipitou-se. Ao avançar nas propostas das Reformas de Base, o governo satisfazia a esquerda, por outro lado, crescia na direita a ideia de que o país caminhava para a subversão, para o socialismo. (NASCIMENTO, 2009, p. 14).

Neste contexto, a classe operária, grande parte da classe média, a Igreja e as Forças Armadas, juntamente com interesses estrangeiros, formaram uma base com poder para derrubar o governo. Organizou-se a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, como contraponto às medidas declaradas pelo presidente. (NASCIMENTO, 2009). As referências a esta passeata projetadas pela mídia televisiva repercutiram a tal ponto, que grande parte da população interiorizou que em defesa da ordem haveria somente a adoção de medidas enérgicas contra o comunismo, caso contrário, ocorreria deturpação da ordem, os direitos tradicionais das famílias e o progresso do povo trabalhador seriam amputados pelo espectro da revolução socialista, tamanho foi o medo comunista.

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militar, não encontrando, partiu para Porto Alegre. Enquanto isso, o Congresso declarou vacância da Presidência da República, abrindo uma nova era política, isto em 1º de abril de 1964. No dia 4 do mesmo mês, sem apoio e em condição desfavorável, o Presidente deposto, ruma ao Uruguai em exílio. (NASCIMENTO, 2009).

Com a partida do Presidente para o exílio, motivado pela coação política de que vinha sendo vítima, inicia-se o longo período de governo autoritário. Primeiramente, a Presidência da República foi ocupada por Ranieri Mazilli, então Presidente da Câmara dos Deputados. Enquanto as “três forças militares brasileiras (Exército, Aeronáutica e Marinha), respectivamente representadas pelos ministros Artur da Costa e Silva, Francisco de Assis

Correia de Melo e Augusto Radmaker” (NASCIMENTO, 2009, P 15), decretavam o Ato Institucional nº 1, por meio do qual os golpistas deram um caráter jurídico legal às ações que adotaram e as que ainda pretendiam tomar para manter o governo sob seu comando. O AI-1 fortaleceu o poder Executivo, funcionando como ferramenta de remoção daqueles com posicionamento contrário ao novo modelo de governo. No entanto, uma eleição indireta também era prevista por este Ato Institucional.

No período posterior ao golpe, os partidos foram sistematicamente vigiados, controlados e, quando necessário fosse, extintos. De maneira que o regime pudesse ser consolidado, sem a oposição trabalhando contra suas atividades. Os integrantes de partidos e grupos em desalinho com o sistema implantado foram cassados e perderam seus cargos. Os partidos perderam pouco a pouco sua força política, deixando margem de ação aos militares. Fazia parte desta dinâmica, a identificação e posterior resgate dos partidos que, por sua vez, possuíssem bases nos moldes conservadores e que pudessem ser somados à estrutura do governo autoritário o qual se preparava. Os militantes partidários, estudantes, civis e militares que se opunham ao regime, acabam sofrendo perseguições e retaliações, estando perdoados os apoiadores, simpatizantes da situação política nacional. Nasce, dentro deste contexto, a estrutura bipartidária no Brasil, apoiado no AI-2 de 1965, instituindo a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). (NASCIMENTO, 2009).

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Presidente suspender os direitos políticos e anular mandatos de qualquer pessoa que o possuísse, foi o ocorrido com João Goulart, Leonel Brizola, Jânio Quadros, etc.

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2. DA EXPECTATIVA AO FATO

Do estabelecimento da problemática à busca por um método, referências teóricas e fontes que viabilizassem a execução desta monografia, foram precisos dois semestres, até visualizar-se uma resposta ao questionamento proposto. Para atingir os objetivos eleitos partiu-se do estudo geral do tema, neste caso, a Imprensa. Desta busca distinguiu-se o processo pelo qual os simples boletins informativos e reguladores passaram até tornarem-se os veículos de informação de massa da atualidade. Chegando, por fim, ao parâmetro adotado: a mídia impressa santa-mariense na década de 1960.

De acordo com a ótica de Nelson Werneck Sodré (1999), consideram-se como meios de massa, os grandes veículos de informação. Porém, o autor defende que no Brasil os jornais e revistas de grande circulação não constituíram um meio de massa, pois vasta parcela da população não desfrutava destes difusores de notícias, em função da baixa condição financeira e intelectual. (SODRÉ, 1999). Mas, neste estudo, considerou-se que mesmo os indivíduos analfabetos, das classes menos abastadas, obtinham acesso aos conteúdos publicados a partir das leituras de terceiros que, por serem letrados, difundiam dos assuntos discutidos na sociedade, nas rodas e encontros informais.

No capítulo anterior, discorreu-se sobre a gênese da imprensa na Europa, sua revolução com a tipografia e, logo, a chegada e implantação desta tecnologia em nosso país. Sobre o Brasil, além de abordar a trajetória da imprensa e sua historiografia, tratou-se da política no período relacionado à pesquisa, do ano de 1961 a 1964. No presente capítulo, primeiro será visto a cena política local, em seguida, a apresentação mais detalhada da nossa fonte documental, o jornal A Razão. Por fim, se dará a análise em busca da reflexão possível sobre as expectativas deste periódico, transmitidas para a população santa-mariense.

2.1. SITUAÇÃO POLÍTICA DE SANTA MARIA EM 1964

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Houve em Santa Maria duas fortes correntes políticas. Uma delas foi representada pela presença do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), demonstrando que a ala trabalhista teve grande representatividade, o que era explicado pela importância dos ferroviários. Existiu também, presença significativa do PSD (Partido Social Democrata), o qual fazia sentir a força conservadora na cidade. (NASCIMENTO, 2009).

No imaginário nacional, foi criado o temor do inimigo interno, à sombra das propostas nacionalistas de João Goulart. O medo comunista foi utilizado como recurso pelos conservadores, para atrair o apoio da população, pois era forte o receio de um regime que, uma vez instalado, subverteria os padrões da sociedade tradicional, corrompendo os direitos individuais e extinguindo a propriedade privada a partir do nivelamento social que poderia ser implantado. (NASCIMENTO, 2009).

O panorama político santa-mariense, assim como o nacional, refletia as tensões em torno das medidas que estavam por serem adotadas, dividindo opiniões entre opositores e apoiadores do golpe. Este, cada vez mais, se configurava como uma defesa da manutenção da ordem e da moral, significando constante perigo para aqueles não alinhados ao sistema ditatorial. Neste ínterim, em Santa Maria,

O Prefeito Paulo Lauda e o Vice Adelmo Simas Genro, legitimamente eleitos, foram cassados. Na sessão da Câmara de Vereadores, em 6 de abril, os vereadores do PTB, Homero Behr Braga, Renan Kurtz e Eduardo Rolim criticavam as últimas ocorrências e entendiam que o Estado brasileiro havia sofrido um Golpe. (NASCIMENTO, 2009, p 43).

A partir do recorte acima, é perceptível como o alcance do governo, e sua ação controladora, agiu em Santa Maria. Deixando claro que, todo e qualquer posicionamento de esquerda ou anti-golpista seria visto como ameaça subversiva e por isto devia ser debelado. Mesmo enquanto simples pensamento de oposição estava-se a mercê da ação repressora empreendida pelas forças armadas para coagir e, se preciso fosse, eliminar as atitudes e críticas em favor da democracia plena, com liberdade de pensar e se pronunciar sobre a situação social, política e econômica brasileira.

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2.2 O JORNAL A RAZÃO

A imprensa em Santa Maria surgiu tardiamente, no final do século XIX, contando com diversos periódicos, folhetins, revistas, etc. alguns de curta duração e atuação singela, outros com maior atividade e engajamento.

Em 1934, foi criado o jornal A Razão por Gelio Brinckmann, Flodoardo Martins da Silva e Clarimundo Flores. Foi Flores que, apenas três meses depois, assumiu totalmente o comando do periódico ao lado de Flores Sobrinho. Em 1943, o jornal foi vendido para a rede de Diários e Emissoras Associados. (RIBEIRO, 1992).

A fim de divulgar sua fundação, as publicações dos primeiros cinco dias foram distribuídas gratuitamente. Seu exemplar era composto por oito páginas, tinha circulação matinal e podia ser comprado avulso ou por assinaturas semestrais e anuais, tanto no interior quanto na cidade. Na publicação de estreia, em 09 de outubro de 1934, o Editorial abordou sua inauguração, ressaltando que todos os segmentos sociais haviam comparecido para prestigiar tamanho ocorrido na vida santa-mariense. Tratava-se de anunciar o prestígio de seu evento ao contar que “verdadeira multidão desfilou pelos nossos diversos departamentos. (...)

vinha gente das mais variadas instituições, de todos os setores da sociedade, da religião de escolas. Vieram trazer-nos seu abraço cordial e oferecer-nos as galas do seu estímulo.” Da mesma maneira, divulgou-se a satisfação e requinte da equipe jornalística frente à tamanha

consideração, tanto que a “todos ‘A Razão’ obsequiou fidalgamente, servindo suculento churrasco, no decorrer do qual foram consumidos mais de quatrocentos litros de ‘chopp’, (...)”

(A RAZÃO, 09-10-1934, apud, PAVANI, 1980).

Desde o início, o jornal contou com publicações sobre a região, o país e o mundo, noticiando eventos das áreas políticas e econômicas. A partir de 1941, as notícias passaram a ser obtidas por meio da radiotelegrafia, tal recurso permitiu o contato com a United Press, órgão presente em grandes centros urbanos e capitais abastecendo as agências de notícias com informações. No período, foram acessados, sobretudo transmissões sobre a 2ª Grande Guerra. No ano seguinte, foi Santa Maria tornou-se sede da União Sul Brasileira de Imprensa, em 1942. A presidência desta ficou a cargo de Clarimundo Flores, então dono do jornal A Razão. (PAVANI, 1980).

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Candiota, Feliciano Prunez Queiróz, Felipe Monair e Robson Flores. Após esta data, o jornal contou em sua direção com nomes como Edmundo Cardoso, Ney Vasconcelos Carro Zene, Victor Moraes, Luizinho de Grandi, Antônio Carlos Freitas Vale Lemos. Na monografia de Leiza Pavani (1980), foram apresentados dados sobre o jornal A Razão até 1979, ano em que a direção foi assumida por Luizinho de Grandi. (PAVANI, 1980).

Quanto a sua tiragem, a autora apontou que oscilava em torno de um milhão e trezentos mil exemplares por ano, esta variação era em função das publicações especiais direcionadas a municípios e localidades próximas. Fizeram parte da cobertura do jornal, as cidades de São Sepé, São Vicente do Sul, São Gabriel, Rosário do Sul, São Pedro do Sul, São Francisco de Assis, Restinga Seca, Tupanciretã, Júlio de Castilhos, Cacequi, Santiago, Faxinal do Soturno, Dona Francisca, entre outros. (PAVANI, 1980).

Ao finalizar sua abordagem, Pavani (1980) apresentou o pensamento da direção do jornal A Razão, na qual foi expressa a preocupação em somar para os interesses da sociedade santa-mariense, participando com responsabilidade, do processo de abertura política brasileira ocorrida nos anos de 1980. (PAVANI, 1980). Estava em andamento, lento e gradual, o fim do governo autoritário vigente há duas décadas. Assim sendo, conclui-se este tópico no momento do recesso do regime militar brasileiro, o qual terá no próximo capítulo, sua gênese analisada a partir do editorial acima referido.

2.3. ANÁLISE DOS EDITORIAIS COLETADOS

Considerando que os discursos são políticos (no sentido de que são posicionados e não neutros), procura-se a repercussão provável dos editoriais do jornal A Razão, sobre seu público leitor. Assim, percebe-se o jornalista como um agente na investigação, pois este possui opiniões, inclinações e preferências que o influenciam no defrontar-se com as ocorrências sociais as quais compreendem seu objeto de trabalho, ou seja, um repórter diante de uma notícia está sujeito a trabalhá-la sob a influência de sua bagagem pessoal. Sobre este fato, Patrícia Melo (2005) expressa que:

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somente uma parte de seu todo, a parte escolhida pelo repórter como de interesse público, vem a tona no texto jornalístico. (MELO, 2005, p. 7).

A partir do exposto acima, percebe-se que a neutralidade torna-se ilusória e, para não incorrer em simples leitura das publicações, a análise deve ser amparada em sólido referencial teórico e metodológico. Afinal, a base de uma pesquisa histórica enquanto ciência reside na metodologia e apoio teórico adotados. (PIRIS, 2010).

Consciente de que a análise do discurso permite ampla gama de enfoques sobre um determinado enunciado, se iniciará o exame dos editoriais propriamente ditos. E, para não incorrer na fuga do plano inicial, se balizará atentamente no estudo do enunciado e da enunciação, de cada editorial atentando também para o enunciador e o enunciatário, partes intrínsecas do discurso.

O jornal A Razão, publicado na cidade de Santa Maria, no ano de 1964, possuiu edições diárias e, em sua direção contava com Nelson Dimas e Robinson Flores. O corpo de análise foi delimitado nos seis primeiros meses do ano acima citado e nas publicações de cada sexta-feira, quatro por mês, totalizando vinte e quatro exemplares. A opção por este dia da semana, foi em função da necessidade de restringir o número de edições a uma quantidade passível de ser trabalhada em tempo viável e também porque em geral, continha o resumo das principais manchetes da semana. Mas, estando esta pesquisa sujeita as fontes encontradas no Arquivo Histórico de Santa Maria, deparou-se com a ausência de alguns exemplares, reduzindo o parâmetro definido.

Durante a busca dos editoriais percebeu-se que o próprio layout do periódico é digno de estudo, pois, sua estrutura está disposta de modo peculiar, ou seja, a composição das páginas foi definida em função do espaço disponível e do destaque desejado à determinada notícia. No entanto, esta abordagem não faz parte da pesquisa atual, ficando em aberto a futuras propostas. Quanto à opinião dos editores, este espaço foi localizado (havendo variação apenas em duas edições) na contracapa, logo abaixo da ficha editorial com informações técnicas das publicações.

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posicionamento do periódico, enfim, toda referência ao jornal A Razão, estará sendo dirigida ao espaço editorial.

A primeira constatação foi a regularidade do tema debatido pelo editorial. Dos vinte editoriais localizados, dezoito apresentavam diretamente a política como ponto discutido e, nos dois restantes, embora os textos inicializassem discorrendo sobre religiosidade, o assunto serviu para introduzir a discussão sobre acontecimentos políticos. Portanto, a nossa proposta inicial de identificar a posição política do jornal, está segura, considerando que o tema foi recorrente e que todo discurso é construído com uma função no meio em que está inserido. (MAINGUENEAU, 2002).

Nas edições de 03 e 10 de janeiro de 1964, intituladas respectivamente A FLAMA DE 1964 e PAÍS DO FUTURO, a abordagem recaiu sobre a política nacional, apresentando variações apenas na perspectiva de observação, primeiro partindo diretamente do ponto de vista do jornal, como no caso da publicação do dia 03 de janeiro, no qual foi apontada a difícil situação econômica enfrentada pelo país e apresenta o ano de 64 como o ápice do flagelo inflacionário iniciado havia três décadas. Em segundo, a partir da opinião externa, comentada pelo jornal, a exemplo do dia 10 do mesmo mês, em que o A Razão desaprova a opinião de uma publicação espanhola, sobre a situação política nacional.

Nos dois casos, a opinião do A Razão se evidencia na forma inflamada como expôs a situação, fazendo uso de termos que conotam sentimento. É o caso de “anos sombrios”, usado para definir o temor do momento vivenciado; no uso de “tremendas dificuldades” recorreu ao emprego do grau superlativo para, através do exagero, reforçar os problemas enfrentados pelo país; em “impressionante unanimidade”, fez de sua opinião, a voz de todos os brasileiros; na

passagem “chegamos à conclusão”, o uso da 3ª pessoa cria um campo comum em que a conclusão obtida pelo jornal é a mesma do leitor. A opção pelo emprego das pessoas obedece à intenção daquele que produz o enunciado, neste caso, conforme apresenta Maingueneau

(2002), a escolha do “nós”, buscou inserir o leitor no texto.

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Nas citações acima, o uso da interrogação, no primeiro exemplo, constitui um recurso para produzir através da dúvida comum, uma aproximação entre as partes do discurso. A influência do enunciado, sobre o leitor, ocorre pela atitude do enunciador de responder a própria pergunta, suprimindo a reflexão daquele que o lê. No segundo recorte, utilizou-se a estratégia de pôr em descrédito as ações dos líderes do governo, que embora indeterminados, na oração, permaneceu a mensagem de que houve uma má atuação destes.

No dia 17 de janeiro, cujo editorial intitulou-se, POVO ESCARMENTADO2, o foco continuou na esfera política. Neste texto permaneceu o menosprezo da atuação do Presidente da República João Goulart, ao considerá-la insensata. Conforme os seguintes fragmentos:

“Imaginem que o Sr. João Goulart, mostrando-se cego e insensível à realidade política, insista em assinar o decreto elaborado pelo meninão da SUPRA: (...)” (A RAZÃO, 17/01/64). “para enganar o povo já bastante escarmentado” (A RAZÃO, 17/01/64). “figura ainda a própria existência calamitosa do governo atual.” (A RAZÃO, 17/01/64).

Concorda-se neste ponto, com Dominique Maingueneau (2006), segundo o qual o a modalização do discurso, revela a relação e a atitude do enunciador, em ralação ao enunciado e também ao público. Nos recortes acima, a enunciação agiu diretamente sobre o leitor com a

ordem: “imaginem”; ainda, apresentou o estado dos acontecimentos, como algo estabelecido

na palavra “mostrando-se”, fazendo entender que Jango já revelava-se insensato, podendo ainda insistir. (MAINGUENEAU, 2002).

Outra vez se divisou a opinião do editorial contra as atitudes do Governo. Agora, além de citá-lo abertamente, o fez lançando mão de adjetivos depreciativos como “insensível” e

“calamitoso”. Ainda, questionou seu discernimento político, por seguir projeto elaborado por um “meninão”. Toda a excessiva adjetivação expõe o grau do sentimento, neste caso negativo, que a direção jornalística nutriu pela postura do Presidente.

No artigo do dia 24 de janeiro, foi tratada a suposta afinidade entre João Goulart e a Frente de Mobilização Popular. Logo no título, PETULÂNCIA VERMELHA, foi expresso como era visto a ação da esquerda política, nada menos do que petulante. O assunto girou em torno do manifesto apresentado a Jango, com exigências que este deveria cumprir, caso desejasse continuar sua gestão com tranquilidade. O jornal defendeu que as esquerdas do

2 Palavra pouco usada atualmente. Adj. Que, por experiência própria, conheceu os danos de alguma

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Brasil eram todas iguais e regidas pelo “mesmo maestro, que aciona sua batuta do Kremlin”

(A RAZÃO, 24/01/64). Aqui, nota-se o uso de um agente coletivo no caso, “Kremlin”, com

tratamento no singular, este recurso permitiu compactar uma coletividade – onde pode haver variada forma de pensamento – e dotá-la de uma característica, conveniente ao pensamento do autor. (MAINGUENEAU, 2002).

Na passagem a seguir, destaca-se o tratamento pejorativo que o enunciado dedicou ao presidente: “Sua não repulsa ao atrevido ultimato justificará a convicção de quantos lhe atribuem a condição de inspirador ou instrumento da matula de masorqueiros3 e serviçais do Comunismo Internacional, que vem encontrando em nosso País as condições mais favoráveis possíveis a sua ação nefasta.” (A RAZÃO, 24/01/64). Conforme a definição de modalidade apresentada por Maingueneau (2006) pode-se identificá-la no modo de apresentação do sujeito, no caso acima, o uso de adjetivos negativos e advérbios pelo editorial revelam o posicionamento de contrariedade a Jango.

Neste editorial foi atribuída às esquerdas brasileiras uma subordinação ao partido comunista internacional, o que levaria, consequentemente, a um alinhamento do Governo com o mesmo. Esta interpretação advinha da não recusa em acatar os pedidos da Frente de Mobilização Popular, única maneira de evitar (no entendimento da mesma) que a ação nefasta do comunismo continuasse a rondar o país. Deste modo, através da leitura das publicações do mês de janeiro de 1964, perceberam-se nitidamente as fortes críticas direcionadas à situação política e econômica do Brasil, atribuindo suas causas ao comportamento de João Goulart.

Os editoriais dos dias 07, 14, 21 e 28 do mês de fevereiro intituladas respectivamente,

BALUARTE DA REVOLUÇÃO VERMELHA; QUANTO CUIDAR, SERÁ TARDE; O APRENDIZ E O MESTRE e SERVIÇO À DEMOCRACIA, abordaram exclusivamente a situação política brasileira. Sempre a apresentando de maneira negativa, associando-a ou comparando-a a termos depreciativos. É o caso do primeiro texto, em que o governo foi acusado de tentar abafar o escândalo da Petrobrás, ao indicar para a presidência da empresa um indivíduo que, “não passa de uma figura de ‘proa’ do nacionalismo, feito com os

sindicatos vermelhos e com os sargentos suboficiais insubordinados, como é público notório, não podendo, portanto, merecer mínima confiança, para o exercício de um cargo de tamanha responsabilidade,” (A RAZÃO, 07/02/64). Ainda considerando que: “Não faltam no Brasil

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homens de alta dignidade pessoal, capazes de assumir a presidência da Petrobrás, para expungi-la4, dos maus elementos que a transformaram num valhacouto de comunistas e num ninho de ratos” (A RAZÃO, 07/02/64).

A linguagem utilizada, como se percebe, qualifica o indivíduo escolhido pelo Governo, como indigno de confiança e incapaz de assumir responsabilidades, ao mesmo tempo, subentende-se que aqueles que o indicaram também não gozam de boas faculdades, pois o preferiam, em detrimento de “homens de alta dignidade pessoal”. Fica nítida a indicação, feita pelo jornal, de que o Presidente agiu e aliou-se a pessoas comunistas comparadas a ratos. A retórica carregada de termos que apelam ao rebaixamento daqueles a que são dirigidas, idênticos aos citados acima, continuam nos exemplares de todas as semanas deste mês, revelando a disposição do jornal A Razão, em defender uma visão, que na prática, poderia não ter correspondência. Na perspectiva de Maingueneau (2006, p. 305), essa recorrência “designa uma linguagem estereotipada, própria da propaganda política, uma maneira rígida de se exprimir que usa clichês, fórmulas e slogans, e reflete uma posição

dogmática, sem relação com a realidade vivida”.

Na edição do dia 14, destacou-se que os partidos, frente à política externa independente adotada por João Goulart, agiram com a ingenuidade de uma Chapeuzinho Vermelho que corre descuidada em direção a Vovozinha, enquanto o Lobo a espreita afia as garras. A crítica dirigia-se as lideranças dos partidos, que não percebiam o perigo iminente das relações políticas externas que rumavam para perto do perigo comunista. Neste caso, o texto não se limitou a transmitir a mensagem anunciada no título: QUANDO CUIDAR, SERÁ TARDE. Ele o fez, por meio de um conceito já existente, que legitimou seu ponto de vista, ou seja, os partidos que não se atentaram foram representados por um fiador, que simboliza a própria imagem da inocência. (MAINGUENEAU, 2002).

Passando ao dia 21 do mesmo mês, o jornal referiu-se ao porta-voz do Presidente, nas

seguintes palavras: “Faltam-lhe as condições mínimas de apresentação pessoal, de voz e de

capacidade de coordenação de raciocínios políticos” (A RAZÃO, 21/02/64), lembrando que o título deste editorial foi O APRENDIZ E O MESTRE, deduz-se que a intenção do jornal, foi relacionar o desconserto do porta-voz, com o do Presidente, que por simbolizar o “mestre”,

encarna a própria falta de trato.

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Por fim, o último texto pesquisado em fevereiro foi publicado no dia 28 e apontou que

diante “das condições deterioradas e perigosas da existência brasileira o lançamento das

candidaturas e o início efetivo da campanha presidencial, constituem um serviço ao regime”,

caso contrário a democracia iria sucumbir aos “planos golpistas em marcha” (A RAZÃO,

28/02/64). Compreende-se desta leitura, que o jornal posicionou-se contra o governo vigente

no período, porque qualifica as condições do país como “deterioradas e perigosas” e que,

apenas a campanha para a escolha de novo presidente, salvaria o regime democrático. Pode-se verificar o grau de adesão dos editores, nas suas afirmações de que o país estava em

“condições deterioradas” e na qualificação das ações envolvendo o Governo como “planos

golpistas em marcha.” (MAINGUENEAU, 2002).

Iniciando a leitura das edições escolhidas no mês de março, percebe-se a inserção do aspecto religioso no discurso do jornal. No exemplar do dia 06, foi usado o pronunciamento do Papa Paulo VI, em que este manifesta sua preocupação com a Igreja Católica na América

Latina, frente a “fenômenos anti-religiosos, ou não religiosos, ou não católicos” que só

poderiam ser superados por autêntico “heroísmo pastoral”. Mesmo o Papa, não mencionando o comunismo diretamente, os redatores afirmam que suas palavras, foram em alusão ao regime comunista. Utilizando-se assim, do forte apelo religioso para reforçar a sua posição em defesa do que tratou por “nosso continente” contra as tentações o espreitam. Concluindo que as orientações do sumo sacerdote e a fé são as únicas defesas para “centenas de milhões de criaturas”, que estavam à mercê da “capitulação total”, sob a ação comunismo. Nesta ocasião,

o emprego do termo “comunismo”, representou toda uma doutrina política, de modo que, mesmo um leitor sem instrução para distinguir a abrangência do termo, subjetivamente associa a toda esta corrente política, um aspecto negativo. (MAINGUENEAU, 2006).

No dia 20 de março, não por acaso os últimos dias em que a presidência esteve a cargo de João Goulart, o editorial empregou a 3ª pessoa para trazer o leitor para junto de si, como se vê na frase: “Vejamos até onde pretende chegar o Presidente da República,” assim criou-se a impressão que ambos, jornalista e espectador não concordam com os feitos do Presidente e impacientes, esperam ver até onde ele vai. A pergunta implícita neste enunciado denota que o autor ignora a resposta, mas tem interesse em sabê-la e acredita que o leitor possa participar de sua expectativa e busca da informação. (MAINGUENEAU, 2002).

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2006), assim percebe-se na passagem: “Tão grave quanto as propostas precedentes é esta contida na mensagem presidencial.” O que se percebe, é que não houve apenas a intenção de divulgar o ocorrido, pois o uso do grau superlativo, demonstra a preocupação em explicitar que a situação era “grave”.

Chegando ao primeiro mês após a ocorrência da ação militar, o próximo editorial referente à sexta-feira encontrado, foi o do dia 10 de abril, em que o título já anuncia: SALVA A DEMOCRACIA NA AMÉRICA LATINA. Neste recorte do discurso jornalístico, a ação das Forças Armadas foi tratada com exaltação, e a “limpeza” executada, acolhida como uma

verdadeira “revolução brasileira”, que agiu contra a ação comunizante, que se acaso lograsse êxito, resultaria em uma “super-Cuba” cujo modelo original foi fruto da “traição de Fidel e seu bando sinistro”, ora, se o Brasil caísse sob a esfera de influência da “maliciosa Moscou”,

todos os demais países latinos estariam a mercê da ameaça vermelha (A RAZÃO, 10/04/64). Nesta situação, foi usado o nome próprio “Moscou”, para evocar um referencial, dotado de determinada propriedade, ou seja, a coletividade russa, definida como comunista e maliciosa. (MAINGUENEAU, 2002).

Desde a análise do primeiro exemplar do jornal A Razão, este foi primeiro em que a atuação dos governantes foi vista como ação positiva. Lembrando que neste período, a administração da nação estava nas mãos do então Presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli. E as medidas adotadas partiram dos militares que arquitetaram e executaram o golpe. Estes são apontados no editorial como “forças de libertação”, com clara indicação de

que a ação militar libertou o Brasil da ação dos “vermelhos” (A RAZÃO, 10/04/64).

Em função da frágil condição física dos materiais consultados no Arquivo Histórico de Santa Maria, causada tanto pelo desgaste natural do papel, quanto pelos inúmeros manuseios, muitos editoriais não foram encontrados. Por isto, o próximo mês a ser considerado constou de apenas três sextas-feiras, com datas de 08, 15 e 22 de maio de 1964. No primeiro editorial, intitulado DISTORÇÃO DA REALIDADE, se tratou da opinião mundial, a qual criticava a deposição do Presidente que tentou melhorar a condição social do povo. Mas, conforme o jornal A Razão, a imprensa internacional estava enganada ao criticar a “revolução democrática

de 31 de março” que na verdade havia salvo o país da revolução comunista. Na segunda data dia 15, cuja matéria apresentou o título JUSTA INTERPRETAÇÃO, os editores anunciam que

“começa-se, felizmente, a interpretar com justeza e justiça no exterior a Revolução brasileira.”

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