Fabiane Koltermann OS CONFLITOS ESTUDANTIS NO BRASIL AUTORITÁRIO: RIO GRANDE DO SUL – 1964 A 1968

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Fabiane Koltermann

OS CONFLITOS ESTUDANTIS NO BRASIL AUTORITÁRIO: RIO GRANDE DO

SUL – 1964 A 1968

  Santa Maria, RS 2009

  

Fabiane Koltermann

OS CONFLITOS ESTUDANTIS NO BRASIL AUTORITÁRIO: RIO GRANDE DO

SUL - 1964 A 1968

  Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Áreas de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado em História.

  Orientadora: Lenir Cassel Agostini Santa Maria, RS

  

Fabiane Koltermann

OS CONFLITOS ESTUDANTIS NO BRASIL AUTORITÁRIO: RIO GRANDE DO

SUL – 1964 A 1968

  Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Áreas de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado em História.

  ________________________________________________________________ Lenir Cassel Agostini – Orientadora (Unifra)

  ________________________________________________________________ Roselâine Casanova Corrêa (Unifra)

  _______________________________________________________________ Elisabeth Weber Medeiros (Unifra)

Aprovado em 10 de julho de 2009.

  AGRADECIMENTO

Agradeço à Mestra Lenir Cassel

Agostini, por toda paciência e

bom humor, pois sem suas

orientações não teria

conseguido desenvolver este

trabalho;

Agradeço também a Fernando

S. de Menezes, por toda

dedicação, apoio e ajuda na

elaboração desta pesquisa.

  RESUMO

  Esta pesquisa possui como temática a reação dos estudantes ao projeto autoritário brasileiro, entre 1964-1968 e fundamenta-se em fontes bibliográficas, documentais e oral. Nestas fontes, procurou-se identificar e estabelecer as aspirações manifestadas pelos estudantes quer no âmbito nacional, quer no contexto regional. Nesse sentido, o estudo engloba a queda do Presidente João Goulart (1961-1964) e ascensão dos militares ao Governo, que a partir de 1964, legitimaram-se no poder através de uma base de forças heterogêneas, consolidando-se por meio de Atos Institucionais, que objetivavam cumprir metas do novo sistema político, que se instaurava no Brasil. Nesse universo, o Rio Grande do Sul demonstrou simetria com o cenário nacional na luta contra o autoritarismo, por esse motivo, configurou-se como um espaço de observação para tal temática. Assim, percebe-se os propósitos estudantis em torno das manifestações desencadeadas em setores da sociedade brasileira, assim como os resultados dos seus atos perante o estado autoritário. Enfim, buscou-se com este trabalho, enfatizar que o movimento estudantil foi um símbolo de enfrentamento á Ditadura civil militar, e ainda, ressaltou questões relevantes para as reflexões referentes à construção de uma nova sociedade. Desse modo, entende-se que os estudantes representaram uma importante oposição social no Governo autoritário.

  Palavras Chaves: Movimento estudantil. Resistência. Autoritarismo.

  ABSTRACT

  The main subject of this research consists of the students' reaction to the Brazilian authoritary project, from 1964 to 1968, based on bibliographic, documental and oral sources. Our aim is to identify and establish the students' aspirations expressed either on national and regional contexts. Accordingly, this study encompasses the fall of President João Goulart (1961-1964) and the rise of military power, which was legitimized in 1964 by a diverse power base, builded up through the establishment of "Atos Institucionais" (Institutional Acts), that intended to accomplish new goals to this new political system in Brazil. In this context, the whole country and specifically the Rio Grande do Sul state decided to fight against authoritarism, which is our main focus on this research. Therefore, it is perceived the purpose of student riots against military power and its influence towards the Rio Grande do Sul society, as well as the results of those actions, through the search for improvements in educational system emphasizing nationalism and the purpose of a fair society. Thus, it is understood that students represented a major opposition in the power autohoritary.

  Keywords: The Student Movement. Resistance. Authoritarian Regime.

  

SUMÁRIO

  INTRODUCÃO.................................................................................................................... 7

  1REFERENCIAL TEÓRICO............................................................................................... 9

  2 METODOLOGIA......................................... ..................................................................... 12

  3 RESULTADOS E DISCUSSÕES...................................................................................... 13

  3.1 Prenúncios para a instituição do autoritarismo brasileiro................................................ 13

  3.2 Os estudantes o autoritarismo no contexto nacional-1964-1968..................................... 22

  3.3. Rio Grande do Sul e os estudantes no regime autoritário-1964-1968............................ 31

  3.4 Considerações Finais......................................................................................................... 44 Referências bibliográficas....................................................................................................... 47 Fontes Documentais................................................................................................................ 49 Anexo A – Autorização de depoimento.................................................................................. 50

  INTRODUđấO

  Neste trabalho de pesquisa, busca-se averiguar e identificar o movimento estudantil no contexto nacional e sul-rio-grandense no período de 1964-1968. Além disso, pretende-se demonstrar os acontecimentos históricos que antecederam o golpe civil-militar, assim como

  a inserção estudantil dentro desse contexto. Portanto, para a consecução do trabalho, fez-se necessário recompor a trajetória dos movimentos estudantis, inserindo os estudantes na história política, sem desvinculá-los do meio econômico e social em que atuaram.

  Em um primeiro momento, traça-se os principais pressupostos do cenário político nacional, que culminaram com a realização do dito golpe civil-militar, bem como os principais responsáveis pelos projetos políticos que permeavam a atuação daquele movimento no cenário nacional.

  Em seguida, buscou-se caracterizar as motivações que levaram os estudantes a engajar-se no contexto nacional de lutas, assim como os principais objetivos na luta contra o regime autoritário militar, em especial, a atuação do movimento estudantil no Rio Grande do Sul e a relação que seus membros mantinham com o contexto político e econômico nacional.

  Nesta perspectiva, a partir de 1964, as bases estudantis se reestruturam para poder articular-se contra o novo Governo. Assim, ocorrem manifestações dos estudantes no âmbito nacional, que são rapidamente reprimidas pela polícia, e que repercutem em todo Brasil. Em virtude desta nova postura, foi entre 1964 e 1968 que os estudantes fizeram-se ainda mais politizados. Dessa forma, estudantes resolvem lutar pela reforma universitária, em prol de mudanças na educação, que incluíam mais verbas, a modernização do ensino e a superação do arcaísmo das instituições universitárias.

  Dá-se ênfase ao Rio Grande do Sul, através de fontes documentais, para identificar a presença dos estudantes no Estado, sua atuação, os valores que os moviam, sua consonância com os desejos nacionais e, para tal, muitas vezes, se estabelece as semelhanças deste grupo com o macro universo nacional.

  Entretanto, é de importância, neste trabalho, perceber que, durante o Governo civil- militar, houve um marco para a explosão estudantil em todo o Brasil, no ano de 1968. Assim posto, as manifestações estudantis se dividem em antes e depois da morte do estudante Edson Luís de Lima Souto, que provocou mobilizações e agitações de repúdio em todo território nacional. A partir deste momento, a luta tornou-se também contra o autoritarismo militar, não mais apenas por reformas universitárias, mas, sim, contra qualquer tipo de violência usada contra estudantes, que se tornaram o maior grupo de esquerda na luta contra a ditadura. Desse modo, os estudantes apresentaram-se como um dos principais setores responsáveis pelo clima de efervescência política daquele período e, por essa razão, foram duramente perseguidos e reprimidos durante o estado autoritário.

  Diante destas premissas, este trabalho teve como base demonstrar o clima de tensão, que se decodificou em vários episódios, em que cada disputa e embate direto com o autoritarismo faziam fortificar o movimento estudantil.

1 REFERÊNCIAL TEÓRICO

  A pesquisa em pauta, isto é, a reação dos estudantes e o contexto do autoritarismo brasileiro entre os anos 1964 e 1968, demandou a consulta a autores como René Rémond (1996), Norberto Bobbio (2003), Francisco Falcon (1997), Paulo Bonavides (1997) e Vera Alice C. Silva (1990). As ponderações destes autores a respeito do tema serviram como base para o desenvolvimento da pesquisa, assim como pautarão a interpretação das fontes documentais.

  Desta forma, a pesquisa prioriza a história política vista de baixo para cima, ou seja, ela enfatiza os acontecimentos que não estão relacionados a figuras ilustres e nenhum fato vinculado às grandes personalidades, mas, sim, priorizará o estudo de relações sociais e políticas entre o movimento estudantil e o Governo autoritário sob a ótica dos estudantes, cujos nomes provavelmente não integram o rol daqueles elencados nos compêndios escolares.

  De acordo com Rémond (1996), a política como estudo tem uma dinâmica própria e não tem limites, refere-se a uma relação direta com o Estado e a sociedade num todo, podendo abordar as relações de poder desenvolvidas por determinados grupos sociais, como o movimento estudantil, os sindicalistas e os operários. Portanto, sob tal perspectiva, a política está constantemente sendo discutida e renovada. Assim, não se deve estudar política isoladamente, mas se deve inseri-la em um contexto que contemple várias áreas do conhecimento, pois a Nova História política não é estática e nem linear, mas plena em mudanças e rupturas dentro da sociedade.

  Conforme expõe Falcon (1997), a abordagem do aspecto político vai muito além do tradicional e se volta a novos temas de estudo, entre os quais estão: os “imaginários sociais”, as “memórias coletivas”, bem como outras “práticas de poder” (p.76). Assim, para construir uma Nova História política, alguns historiadores aliam-se a outras disciplinas, como a Sociologia, por exemplo, que é capaz de oferecer visão diferenciada para o leitor. Dessa forma, para a realização deste trabalho, foram consultados autores com visões, políticas e sociais, diferentes para, deste modo, estabelecer-se uma relação mais precisa entre o Estado autoritário e o movimento estudantil.

  Para entender as relações de poder, optou-se pelos estudos de Bobbio (2003), ressaltando-se que existem duas formas de aplicação de poder. Uma refere-se à relação do homem com a natureza, e a outra é do homem com o outro homem. Assim, o que se enraizou como entendimento de política, é a ligação entre poder e política, cuja forma de comportamento é adequada à vontade imposta de uma das partes, ou seja, uma vontade mais forte suplanta a mais fraca.

  Ainda em consonância com as considerações de Bobbio (2003), propõe-se definir o conceito de esquerda e direita para contextualizar o processo revolucionário do golpe civil- militar. O conceito de esquerda define como uma reunião de grupos que buscavam mobilizar as massas, tornarem o povo politicamente ativo e consciente do seu papel como agente transformador da sociedade. Esses grupos recebiam o nome de “Partidos de Organização de Massas’’ (p. 902). Já a direita era formada por um grupo que desconfiava de tudo que fosse contrário ao sistema tradicional, conservador e preocupava-se com qualquer tipo de movimento, seja ele social ou político, colocando-se de maneira contrária a qualquer programa que visasse mudanças profundas na sociedade. O mesmo autor afirma que conflitos tornam-se evidentes, quando uma sociedade está passando por inúmeras transformações, ainda mais se influenciarem a ordem tradicional desta sociedade.

  Por seu turno, Bonavides (1997) acrescenta que a direita se define como um partido de opinião e a esquerda como um partido de massa, enfatizando que entre estes dois surge o conflito, pois enquanto a direita defende que a estrutura deve manter-se da maneira que se encontra, não importando se for social, econômica ou política, por outro lado, o partido de esquerda coloca que deve haver mudanças nessas mesmas estruturas.

  Nessa ótica é viável buscar conceitos de esquerda e de direita de Bobbio (2003) e Bonavides (1997) para poder contextualizarem-se os acontecimentos do movimento estudantil, conflitos desencadeados entre o Governo autoritário e os estudantes, (direita e esquerda, respectivamente,) no regime militar que propiciaram não somente um delineamento do contexto político, mas entender também os aspectos econômico e o social.

  Buscou-se também, Bobbio (2003), para perceber o significado do uso das palavras “autoritarismo,” e “Ditadura”. Na avaliação do autor o termo autoritário, significa o regime que privilegia a autoridade governamental e diminui de forma mais radical o consenso, concentrando o poder político nas mãos de uma pessoa ou de um só órgão, colocando em posição secundária as instituições representativas. Já o termo Ditadura, representa para Bobbio (2003), uma ruptura da tradição, instalando-se através da “mobilização política de uma grande parte da sociedade, ao mesmo tempo em que subjuga com violência a outra parte” (p.371).

  Para entender o termo “subversão”, recorreu-se a Bonavides (1997). O autor sugere que pensar subversivamente é lidar o tempo todo com o novo, angustiando-se com o marasmo e agindo com criatividade, é a ação do pensamento limpo, sem corrupções e/ou alienações. Assim, subverter-se também pode ser a tomada de consciência a partir do pensamento engajado, comprometido com a crítica contínua à sociedade, ou seja, é fugir das regras impostas e criar alternativas.

  É também pertinente perceber os significados da história regional, para a construção da temática proposta. Nesse sentido, faz-se esclarecedora a leitura de Silva (1990) sobre a região, destacando que existem elementos essenciais dentro de um espaço regional, a saber, um território delimitado, sujeito a subdivisões e um conjunto de valores e interesses capazes de criarem identidade e conscientização coletiva. A autora também salienta a importância do regionalismo como método de estudo de processos econômicos, sociais e políticos que ocorram em determinados locais. Sendo assim, a política regional pode englobar um relacionamento entre o todo e as partes, por isso, usa-se o regionalismo como objetivo da história regional e apresentam-se elementos que podem explicar alguns contextos e conjunturas.

2 METODOLOGIA

  Para pesquisa da temática “A reação dos estudantes ao projeto autoritário brasileiro” (1964-1968) buscam-se inicialmente, fontes bibliográficas relacionadas ao tema desenvolvido, as quais forneceram informações necessárias à produção da pesquisa em fontes primárias. O manuseio das fontes bibliográficas, por sua vez, disponibilizou a composição do contexto brasileiro no período de 1964-1968, assim como a identificação dos estudantes neste cenário. Para a efetivação deste trabalho, houve a abordagem de vários autores, entre os quais estão: Moniz Bandeira (1978), Jorge Ferreira (2007), Jacob Gorender (1998), Thomas Skidmore (1969), Arthur Poerner (1968), Marcelo Ridenti (1993), Ernesto Soto (2008), Maria Helena Paes (1993), Carrion Junior (1989), Marco A.Villa (2004), aliados a documentos dos jornais Correio da Manhã e Jornal do Brasil, disponíveis no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, localizado na Praia de Botafogo, 480 – bairro Botafogo.

  Para identificar o movimento estudantil no Rio Grande do Sul, relacionando-o ao nacional, as fontes bibliográficas foram: Silvia Simões (2006), Bruna Sirtori (2003), Arthur F. Filho (1974), M.Poppe de Figueiredo (1970), Cláudio A. Gutiérrez (1999), além processos políticos da Delegacia de Ordem Política e Social do Rio Grande do Sul (DOPS/RS), referentes ao acervo de luta contra a ditadura Militar, disponibilizados no sistema de arquivos do Estado, na Praça da Alfândega, em Porto Alegre, localizado no Museu da Comunicação Hipólito da Costa, e também disponíveis nos jornais Correio do Povo, existentes no arquivo do jornal, na Rua Caldas Junior, em Porto Alegre, e A Razão de Santa Maria, que os mantém em seu arquivo interno. Ademais, deve-se registrar o depoimento do Professor Teófilo Otoni

  1 Vasconcelos Torronteguy .

  1 Foi um dos representantes do movimento estudantil em 1964, da cidade de Santa Maria. Atualmente é Professor

Aposentado da Universidade Federal de Santa Maria, Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e

Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Maria.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES 3.1 Prenúncios para a instituição do Autoritarismo Brasileiro.

  O sistema eleitoral de 1960 possibilitou que, nas eleições presidenciais, fossem escolhidos candidatos de partidos políticos opositores. Assim, naquelas eleições, saíram vitoriosos Janio Quadros como Presidente, representado o Partido Trabalhista Nacional (PTN), contando com o apoio da União Democrática Nacional (UDN) e, para Vice- Presidente, João Goulart, o Jango, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).

  Janio Quadros enfrentou uma grave crise econômica durante seu governo, a qual resultou da inflação ascendente, da dívida externa a pagar e da balança comercial deficitária, aliadas às grandes dificuldades para importar bens essenciais ao país (SKIDMORE, 1969).

  Neste contexto, Janio Quadros adotou algumas medidas como meio de enfrentar os problemas em seu regime político. Uma delas foi o plano que incluía a diminuição dos incentivos concedidos ao petróleo e ao trigo juntamente com o aumento das importações. Estas medidas desencadeadas pelo Presidente trouxeram conseqüências negativas para seu Governo, diante da população brasileira, pois ocasionaram o aumento de preços, da inflação e uma recessão salarial (SKIDMORE, 1969).

  Desta forma, o resultado dessa política econômica trouxe a elevação do custo de vida e o desgaste da popularidade do regime político. Diante disto, o Presidente percebeu que não conseguiria alcançar seus objetivos em termos democráticos. Neste aspecto, faz-se pertinente referir que o primeiro passo de Janio Quadros foi governar o país sem compromissos partidários, distanciando-se da UDN, que o ajudou a vencer as eleições de 1960. Carlos

2 Lacerda percebeu que estava sendo preterido e iniciou uma escalada de acusações contra o

  Presidente. Mal completados sete meses de governo, Janio Quadros renunciou, em 25 de agosto de 1961 (BANDEIRA, 1978). Entende-se que sem apoio político, e ainda com o descrédito da população, Janio buscou como solução a renúncia ao cargo de Presidente da Republica, acreditando que este ato geraria uma mobilização popular em favor de seu retorno.

  Porém, o Congresso Nacional aceitou a renúncia de Janio Quadros com tranqüilidade, como um ato unilateral, em que não foi discutida a possibilidade de seu retorno ao Governo. Os Ministros militares, do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, se posicionaram contra a posse de Goulart, que, naquele momento, estava em missão oficial na República Popular da

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  China. Atribuíam-se, então, a João Goulart, vinculações com o comunismo (BANDEIRA, 1978).

  Ademais, diversos setores da sociedade brasileira não queriam a posse do Vice- Presidente João Goulart como Presidente, pois este tinha uma grande aproximação com a Classe Operária. Verifica-se, pois, que surgiu um impasse quanto à posse de Jango ao cargo de Presidente da República e a conseqüência destes fatos foi uma grave crise política para o país.

  Resistências de setores militares colocaram-se em grande mobilização pró e contra a posse de Goulart na Presidência da República. De acordo com a Constituição, no caso de vacância do cargo de presidente, o substituto imediato seria o Vice-Presidente e, na impossibilidade deste, o Presidente da Câmara dos Deputados. Assim, dada a ausência do Vice-Presidente, Pascoal Ranieri Mazzilli assumiu interinamente o poder (FERREIRA, 2007).

  A crise, propriamente dita, começou a se definir no momento em que Leonel Brizola, Governador do Rio Grande do Sul, mobilizou parte do Exército e da população de Porto Alegre em defesa da Legalidade. Nesse cenário, o movimento da legalidade foi um movimento organizado por Brizola que, com o uso diário do rádio, movimentando grande parte da sociedade gaúcha, entre os quais estavam os estudantes, tinha por meta a posse de João Goulart, pois defendia o cumprimento da Constituição Federal (1946) que estipulava que, por direito, o Vice-Presidente deveria assumir o cargo do Presidente da República (COSTA, 2007).

  Parece ser consenso que o movimento da Legalidade foi de grande importância nacional, pois despertou, em algumas pessoas, uma maior conscientização política, influenciando até mesmo os militares que dela participaram, dando intensidade política e influência a outros companheiros de armas.

  Para conter a crise política e militar, porém, o Congresso Nacional, através de negociações políticas, instituiu o sistema de político chamado Parlamentarismo, em que o chefe de Governo seria o Primeiro Ministro e o Chefe de Estado, o Presidente, deste modo, as funções governamentais ficariam divididas.

  Contudo, o povo foi às ruas pela posse do Vice-Presidente João Goulart, o resultado foram negociações que culminaram na emenda constitucional à Carta Magna de 1946, instaurando-se o Parlamentarismo e, junto dele, a reorganização das forças conservadoras e antidemocráticas, que tiveram a oportunidade de recompor-se e organizar-se com mais intensidade para engendrar e deflagrar o golpe de 1964 (JÚNIOR, 1989). Do mesmo modo, grupos de esquerda, entre eles incluindo-se os estudantes, com grande influência de Leonel Brizola.

  Nessa arena política, Jango tinha consigo uma larga experiência na política Federal, o

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  que lhe dava uma diferente visão dos problemas brasileiros . Nesta perspectiva, a política governamental janguista resultou na elevação dos preços, como conseqüência às emissões destinadas aos créditos das empresas privadas e à cobertura do déficit do Tesouro Nacional. O Governo do Primeiro-Ministro Tancredo Neves não conseguiu conter essas necessidades e a inflação acelerou de forma extraordinária, junto com o aumento dos conflitos sociais e a inquietação política. O sistema político de Jango sofreu, então, pressões políticas exercidas por dirigentes da União Democrática Nacional (UDN) e do Partido Social Democrata (PSD)

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  de alguns estados para a derrubada do Gabinete de Tancredo Neves. Enquanto isso, as primeiras medidas do regime Parlamentarista foram tomadas, e entre elas, o cancelamento da autorização do truste Hanna Corporation, dos Estados Unidos, para exploração de jazidas em Minas Gerais, mantendo assim a política externa independente. Em pouco tempo, o Ministro das Relações Exteriores, Francisco de San Tiago Dantas restabeleceu as relações diplomáticas com a União Soviética, assim como continuou a repelir as sanções contra Cuba propostas pelos Estados Unidos. Além disso, a reforma agrária se tornou uma das mais fortes reivindicações, de parte da sociedade brasileira, representada, na maioria das vezes, por grupos de esquerda (BANDEIRA, 1978).

  Além de tudo Goulart deveria resolver o problema da questão agrária, pois esta deixa de ser retórica urbana e se concretiza em lutas armadas. Em 1961, ocorrera o Primeiro Congresso Nacional de Lavradores e Trabalhadores Agrícolas, em Belo Horizonte, onde foi aprovada a Declaração sobre a reforma agrária. Firmou-se o teto para propriedade rural, recomendou-se a reforma constitucional para realização das desapropriações e estabeleceu-se a distribuição das terras desapropriadas, como forma de propriedade camponesa, individual ou associada. E, como conseqüência desta discussão, a reforma agrária passou a ser adotada por diversos partidos em diferentes projetos de reforma agrária (GORENDER, 1998). Nessa discussão, os posicionamentos dos autores pesquisados divergem em alguns aspectos. Enquanto Skidmore (1969) afirma que o projeto da Reforma agrária, desenvolvido por 3 Goulart, tinha objetivo de produzir mudanças de ordem política econômica e social no Brasil,

  

João Goulart na sua vida pública, foi Secretário de Justiça do Rio Grande Do Sul ( Governo Ernesto Dorneles),

Deputado Estadual e Federal, participou do Ministério do Trabalho por duas vezes, foi Vice-Presidente e

4 Presidente do Senado ao mesmo tempo (BANDEIRA, 1978, p. 45).

  

Cid Sampaio (Pernambuco), Magalhães Pinto (Minas Gerais), Juraci Magalhães (Bahia) e Carvalho Pinto (São Villa (2004) considera que o objetivo de Jango, com o projeto da reforma agrária, era apenas político, uma vez que o Presidente era um grande proprietário de terras e nunca havia prometido fazer efetivamente a reforma agrária no país. Para Villa (2004), o único projeto desenvolvido em seu Governo seria utilizado para que Jango adquirisse notoriedade política junto à população.

  Compreende-se assim, que a reforma agrária estava entre os pontos de maior importância do Governo de Jango, pois gerava divergências, alguns grupos defendiam-na com uma base mais moderada e legal e outros apoiavam de forma mais radical, através da luta armada, e ainda havia muitos grupos conservadores que não queriam a reforma agrária.

  No ano de 1962, outro acontecimento modificaria o contexto político do Governo de Jango. O Gabinete de Tancredo Neves renunciou, afirmando que seus membros necessitavam se preparar para novas eleições (em outubro), julgando o momento certo de reconquistar poderes, Jango busca apoio no movimento operário e em correntes nacionalistas, reaquecendo

  5 o populismo .

  Nesta ocasião, foi aprovado pelo Congresso para Primeiro-Ministro o pessedista Auro de Moura Andrade e não o indicado San Tiago Dantas. Por este motivo, proclamou-se uma

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  greve com o objetivo de obter um gabinete e um Primeiro-Ministro favoráveis ao programa de reformas. Houve saques, conflitos com mortos e feridos, em razão disso, o Congresso aprovou a indicação de Brochado da Rocha, que representava o Partido Trabalhista do Rio Grande do Sul e não era muito conhecido nacionalmente. O resultado foi uma crise parlamentar que determinou o movimento pela antecipação da consulta plebiscitária a respeito do regime vigente, que era prevista para 1965. Como conseqüência, aconteceu uma greve nacional, com menos intensidade, mesmo assim o Congresso aprovou o Ato Adicional e antecipou o plebiscito para seis de janeiro de 1963, juntamente com a substituição do Primeiro-Ministro Brochado da Rocha por Hermes de Lima (GORENDER, 1998).

  Deve-se registrar, neste ponto, que grande parte dos políticos se posicionou a favor da volta ao presidencialismo, defendendo a mesma postura dos trabalhadores, que queriam dar um voto de confiança ao Presidente da República, que vinha defendendo publicamente a 5 modificação estrutural na sociedade brasileira.

  

O populismo é uma maneira de exercitar o poder, onde um Governante carismático e autoritário procura o

contato direto com as classes sociais de menor poder aquisitivo, normalmente, mas não necessariamente, sem a

intermediação de partidos políticos. O objetivo é conquistar a confiança e a simpatia das massas e indiretamente

canalizar para seus interesses, votos, prestigio e poder, exercendo uma dominação que não é percebida por quem

6 é dominado(IANNI, 1998, p. 55).

  

A greve foi praticamente completa nos serviços públicos, nas empresas estatais, no setor bancário, mas parcial,

  7 Contudo, Jango buscava o presidencialismo sem deixar de lado as reformas de base , e

  não esquecendo que os candidatos de 1965 também queriam as eleições presidenciais. Com uma proporção significante, o plebiscito de janeiro de 1963 assinalou não ao regime parlamentar e Jango interpretou como sua própria vitória.

  O novo regime político de Goulart foi formado com o intuito de buscar ajuda dos Estados Unidos para poder negociar novos empréstimos e renegociar a dívida brasileira (GORENDER, 1998). Outra medida adotada por Jango foi o combate da inflação, com o projeto de Governo conhecido como Plano Trienal, formulado por Celso Furtado, Ministro Extraordinário do Planejamento. Logo após, buscaria os programas de reformas de base e, em particular, a agrária. Alguns setores da sociedade, considerados mais radicais, não aceitaram o plano, pois através dele, conforme estes setores, o Brasil deveria se submeter aos Estados Unidos (FERREIRA, 2007).

  O Plano Trienal buscava a continuidade do desenvolvimento do País, através do controle da inflação. O então Ministro da Fazenda, San Tiago Dantas, também pautou-se pela determinação de meios para estabilizar a moeda, isto tudo visando à possível colaboração dos Estados Unidos.

  O sistema político governamental, porém, não conseguiu ir às últimas conseqüências e seguir combatendo a inflação, pois, apesar de existir um acordo para não permitir a expansão dos salários, era muito difícil, naquele momento, controlar movimentos sociais que se organizavam cada vez mais, como o operário, por exemplo, que conquistava independência a cada dia, e ainda possuía bases em pactos sindicais (BANDEIRA, 1978).

  Evidencia-se, desta forma, que o movimento operário foi um obstáculo para colocar em prática o Plano Trienal, pois Goulart não podia concordar com qualquer tipo de medida, especialmente, se essa medida fosse contra os direitos dos trabalhadores. Na verdade, o Governo possuía metas de incentivo à sindicalização e sempre defendera, em discursos, a não compressão dos salários, logo o Plano Trienal era um contra senso não aceito pelos trabalhadores.

  Nesta perspectiva, em março de 1963, San Tiago Dantas viajou a Washington para discutir um plano de ajuda do Governo norte-americano ao Brasil, bem como a renegociação 7 das dívidas do país. Os Estados Unidos, embora demonstrassem algum empenho em

  

No período de 1961-1964, verifica-se a emergência de um Executivo, que se distinguiu fundamentalmente pela

tentativa de realizar o programa de Reformas de Base (econômicas, sociais e políticas). Tais reformas, no

entanto, constituíram em simples consignas políticas, pois nunca conseguiram ser implantadas, seja pela negativa

do Congresso Nacional, ou pela incapacidade política do Governo (parlamentar ou presidencialismo) (TOLEDO, colaborar, condicionaram sua ajuda à execução de um programa de estabilização econômica e de combate à inflação que seria analisado por uma comissão do Fundo Monetário Internacional (FMI), encarregada de visitar o Brasil em maio. Além disso, os norte- americanos exigiam a solução do problema das desapropriações das empresas concessionárias de serviços públicos, American & Foreign Power Company (Amforp) e as subsidiárias da International Telephone Telegraph (ITT) (FERREIRA, 2007).

  Neste cenário, as medidas adotadas por San Tiago Dantas fizeram com que muitos políticos passassem a combater o Plano Trienal, principalmente Leonel Brizola, que ainda incluiu acusações de submissão ao plano, devido às exigências norte-americanas, deixando claro que se o aparelho governamental de João Goulart as efetivasse, criaria uma situação que não poderia ser revertida no país.

  A par das questões econômicas e políticas externas, o quadro interno foi ainda mais agravado a partir de maio de 1963, quando Brizola se fortaleceu dentro de seu partido, denunciou um acordo entre o governo brasileiro e a Amforp, que estipularia a compra de bens da empresa norte-americana no Brasil por preço muito abaixo do seu valor real. Em pronunciamento transmitido pelo rádio e pela televisão, Brizola não perdeu tempo e acusou alguns Ministros, todos os membros da comissão que estavam encarregados de negociar a compra da Amforp, censurando-lhes por não ter lealdade aos interesses do país, e então procurou demonstrar que todas as empresas da Amforp já tinham recuperado o valor de seus investimentos (GORENDER, 1978).

  Compreende-se que o motivo que liquidou com a política econômica e, de certa forma, com o regime democrático do sistema político de Jango foi a grande contradição entre a busca pela acumulação capitalista e a tentativa de restabelecer a economia sem penalizar os trabalhadores.

  De fato, as medidas adotadas pelo regime político, em nenhum momento, combateram a inflação e ainda aceleraram a alta do custo de vida. Em virtude disso, a crise social se agravou e corroeu o prestígio do Governo, que era pressionado tanto pela direita como pela esquerda. De um lado, as associações rurais e comerciais não queriam o projeto de reforma agrária que estava no Congresso, que levaria o estímulo de fazendeiros para uma guerra civil, junto de líderes reacionários, e, de outro lado, os sindicatos, como a União Nacional dos Estudantes (UNE), a Frente Parlamentar Nacionalista (FPN), aliados ao sistema político (BANDEIRA, 1978).

  Em uma retrospectiva do sistema Janguista, deve-se considerar que ele também atuou

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  na educação brasileira com a elaboração do Programa de Emergência , em 1962, vindo, mais

  

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  tarde, compor o Plano Nacional da Educação que obteve recursos de entidades públicas e privadas. Além disso, Jango ofereceu incentivo para a formação de sindicatos rurais, assim como reconheceu a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura e ainda determinou a regulamentação do Estatuto do Trabalhador Rural, além de outros investimentos em diversas áreas (BANDEIRA, 1978).

  Observa-se, desta forma, uma dualidade no aparelho político, visto que Jango, em muitos momentos, contrariou os interesses internacionais, principalmente os norte- americanos, obtendo, como conseqüência, o afastamento da possibilidade de conciliação entre os dois países.

  Sob tal perspectiva, o Governo dos Estados Unidos da América já estava convencido que deveria tirar Goulart do Governo Brasileiro, como meio para conter o avanço das massas, criando condições para o Golpe de Estado no Brasil. Entretanto, destaca-se que a crise brasileira estava evoluindo, tanto por meio interno, como pelo confronto com os EUA, até mesmo dentro do exército, havia manifestações contra qualquer tipo de greve, os superiores hierárquicos mostrando-se dispostos a qualquer coisa para reprimi-las. Enfim, estava cada vez mais evidente que qualquer tipo de preconceito em relação às lutas de classes se desnudava e que todas as entidades governamentais podiam se expressar livremente, inclusive revelar sem constrangimento a vontade de guerra civil e deposição do Governo (BANDEIRA, 1978).

  Entretanto, as confrontações se sucediam com maior freqüência e dureza. No dia 30 de dezembro de 1963, Carlos Lacerda faria um discurso no encerramento na Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro. Porém, dois mil estudantes impediram o ingresso do Governador, ameaçando entrar a força, com o apoio da Policia Militar e tropas do Exército, eles obtiveram êxito, pois Lacerda não discursou, mas publicou uma carta indignada ao comandante do I Exército, General Moraes Ancora dizendo:

  Começou ontem, sob a proteção abusiva e violenta de Tropas do Exército, sujeitas 8 ao seu comando, a revolução bolchevique brasileira.[...] Não existe mais nesta hora

Programa de Emergência do Ministério da Educação e Cultura referia-se aos ensinos primários e médios, ao

Conselho de Ministros. Foi aprovado por decreto do Conselho, o Programa permitiu a aplicação de recursos

significativos em convênios assinados entre o governo federal e os governos estaduais visando à ampliação de

9 º matrículas e à intensificação da escolaridade (POERNER, 1968).

  

Em outubro de 1962 foi homologado o 1 Plano Nacional de Educação, elaborado pelo Conselho Federal de

Educação e tendo como relator o professor Anísio Teixeira. O Plano criou o Fundo Nacional de Educação e

previu a aplicação de uma porcentagem da receita de impostos da União à constituição desse Fundo, cujos recursos seriam destinados, em iguais proporções, aos ensinos primário, médio e superior (POERNER, 1968). no País nem lei, nem autoridade pública, nem classes armadas, no sentido que define a constituição (GORENDER,1998, p. 66).

  É nesse universo que, no dia 13 de março, sexta-feira, ocorreu o comício na Central do Brasil, Jango aproveitou a oportunidade, junto de Brizola, e falou na reforma da Constituição e, se preciso, no fechamento do Congresso Nacional. Logo após, ao invés de ameaças, tentou impressionar com o Decreto de encampação de refinarias particulares e declarou sujeitas à desapropriação as propriedades rurais superiores a quinhentos hectares, nas vias federais, e maiores que trinta hectares, as que estivessem próximo a açudes e obras de irrigação financiadas pelo Governo, (decreto da Superintendência de Política Agrária,

10 SUPRA) . No dia 15 de março, Goulart encaminhou ao Congresso um amplo projeto de

  reformas, que incluía a constitucional (desapropriação de terras) e a elegibilidade dos subalternos das Forças Armadas. Em 19 de março do mesmo ano, ocorreu, em São Paulo, a chamada “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, tendo um número significativo de participantes (GORENDER, 1998).

  Contudo, o incidente que culminou com o Golpe civil-militar, e que seria decisivo, perante os novos rumos as serem seguido no país, foi a assembléia dos Marinheiros do dia 25 de março de 1964. Acontecia uma comemoração de aniversário da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais no Rio de Janeiro, naquele espaço, deu-se o discurso do presidente da associação José Anselmo dos Santos, para uma grande platéia. O ambiente estava tenso, pois membros da diretoria e outros marinheiros tinham sofrido punições que resultariam em expulsão, até mesmo do presidente Anselmo, e, por este motivo, no final da solenidade, todos se voltaram para o Ministério da Marinha, exigindo que o Almirante Silvio Mota anulasse as punições. Porém, Silvio Mota mandou que cem fuzileiros navais invadissem a assembléia e prendessem os manifestantes insubordinados, grande parte deles, os fuzileiros, abandonou as armas e aderiu à rebelião.

  Jango nomeou outro ministro da Marinha (Paulo Mário Rodrigues) que anulou as ordens de prisão e se entendeu com os rebeldes. Alguns marinheiros concordaram em sair do sindicato e, depois de identificados pela polícia, foram anistiados, mas os oficiais não 10 permitiram que eles retornassem a bordo de navios das Forças Armadas. O resultado destas

  

O decreto da SUPRA, que o presidente João Goulart assinou declara de interesse social, para fins de

desapropriação, as áreas rurais que ladeiam os eixos rodoviários federais, os leitos das ferrovias nacionais e as

terras beneficiadas ou recuperadas por investimentos exclusivos da União, em obras de irrigação, drenagem e

açudagem, atualmente inexploradas ou exploradas contrariamente à função social da propriedade. Pelo decreto, a

SUPRA fica autorizada a baixar os atos necessários à complementação das disposições nele contidas. As medidas configurou-se como o estopim da crise política e o clube naval se colocou em assembléia permanente (GORENDER, 1998).

  Nesse universo, o início do ano de 1964 mostrava-se preocupante para a manutenção da ordem democrática, as posições políticas acirravam-se, o cenário enfrentado pelo Presidente Jango era muito complicado, devido às bandeiras de ameaça comunista e da quebra da legalidade constitucional por parte do Governo. Assim, o tamanho da crise enfrentada pelo Governo de Jango, envolvendo agora questões de hierarquia e disciplina militar, aumentara. Ciente desse cenário, João Goulart, no entanto, não deixou de comparecer à solenidade de posse da nova diretoria da Associação dos Sargentos no Automóvel Clube, no dia 30 de março de 1964.

  Contudo, prestigiar uma festa de subalternos das Forças Armadas, e ainda mais sob cinzas de um motim de marinheiros, era no mínimo um atrevimento de Jango, especialmente

  11 sob a ótica dos oficiais das Forças Armadas.

  Diante destes fatos, no dia 31 de março, o Presidente encontrou, nos jornais, um texto pregando sua deposição, o título de um dos jornais era “Fora” e, para completar, o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, declarara o rompimento daquela casa com o Governo, pedindo que as Forças Armadas interviessem no processo político e restabelecessem a ordem. Jango, por meio de telefonemas, estabeleceu contato com os generais para que eles mantivessem fidelidade ao seu Governo, porém não logrou êxito, pois a maioria aderiu ao movimento civil-militar (FERREIRA, 2007).

  Em primeiro de abril de 1964, a regime político de João Goulart estava com as horas contadas. No Palácio das Laranjeiras, ele recebeu um ultimato de seus generais. Não tendo muitas opções, Jango viajou para Brasília, depois para Porto Alegre e, lá, analisou a situação, concluindo que havia alto risco de guerra civil, além de existir a informação de apoio e interesse norte-americano no movimento civil-militar. Neste contexto, o presidente renunciou, exilando-se, em seguida, no Uruguai (FERREIRA, 2007).

  Na verdade, conforme os estudiosos do período, durante o regime político de João Goulart, houve a falta de um rumo coerente a ser seguido, pois Jango ora sinalizava com uma guinada à direita, ora buscava a esquerda. De acordo com Bonavides (2007), à direita, estão inclusos todos os grupos que defendem a manutenção das bases sociais, enquanto aqueles que

11 A ameaça de desequilíbrio disciplinar e hierárquico nas Forças Armadas demonstrou ser um fator decisivo

  

para a execução da tomada de poder, fortalecendo as posições que defendiam a transposição das relações não- se consideravam de esquerda pretendem promover mudanças profundas nessas mesmas bases sociais.

  12 Entretanto, não é correto atribuir o cenário do golpe civil-militar apenas a João

  Goulart, mas, sim, deve-se considerar que existiu um grande crescimento de contradições políticas, sociais e econômicas e que parte da elite defendeu o rompimento da legalidade Constitucional como solução (VILLA, 2004).

  Enfim, durante os primeiros meses de 1964, esboçou-se uma situação de caos, definindo o golpe direitista, sendo que a classe dominante, aliada aos EUA, possuía razões para agir e defender seus interesses. Neste sentido, Gorender assinala:

  O que fez com que a esquerda fracassasse foi à falta de união entre as várias correntes, a competição entre pessoas que detinham o comando, as insuficiências organizativas, sem esquecer os erros desastrosos acumulados, junto da ilusão reboquistas e as incontinências retóricas, portanto houve a possibilidade de vencer, mas ela foi perdida, e ainda de maneira desmoralizante (1998, p. 73)

  Nota-se que o autor destaca como causa da nova política governamental, a grande desestruturação da sociedade brasileira, pois não havia, nela, força necessária para combater o autoritarismo militar. Assim entendido, apesar do golpe ter sido efetivado nos comícios de março de 1964, a intervenção das Forças Armadas vinha sendo preparada desde os primeiros dias da posse de Jango no regime parlamentarista.

  Como conseqüência da nova ordem instituída no país e ainda como correlato dos fatos ocorridos no período janguista, o movimento estudantil adquiriu significação no contexto nacional, inicialmente, manifestando-se a favor da reforma universitária e, mais tarde, combatendo abertamente o Governo civil-militar. Em razão disso, o capítulo seguinte desta pesquisa abre-se para as manifestações estudantis durante o Estado autoritário no Brasil e mais especificamente no Rio Grande do Sul.

3.2 Os estudantes e o autoritarismo no contexto nacional - 1964-1968.

  No dia 15 de abril de 1964, Castelo Branco assumiu a Presidência da República, porém as primeiras cassações de mandatos, suspensões de direitos políticos e transferência de militares para a reserva foram feitas sob o Comando Supremo da Revolução, antes de sua

12 O relacionamento civil-militar corresponde à legitimidade dos militares, sob certas circunstâncias, para agirem

  

como moderadores do processo político, controlando ou depondo o executivo, ou até mesmo evitando a ruptura

do próprio sistema, especialmente quando isto envolve uma mobilização maciça de novos grupos anteriormente

excluídos da participação no processo político (DOCKHORN, 2002, p.74).

  13

  posse. Os primeiros Atos Institucionais foram aplicados a partir do dia nove de abril com o objetivo de “limpar” tudo e todos que estivessem contra os interesses do novo regime político, que se pautou por um discurso anticomunista e anticorrupção (SILVA, 1975).

  Mais tarde, o sistema partidário foi reorganizado pelo Ato Institucional número dois, (AI-2), em dois partidos, a Aliança Renovadora Nacional (Arena), governista, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), de oposição. O governo exercia-se, então, na prática, por meio dos Atos Institucionais, que foram sendo editados de acordo com as necessidades do momento e do regime civil-militar (SILVA, 1975).

  A política econômica do Governo de Castelo Branco foi instaurar a recessão salarial como meio de controlar a inflação. Como resultado desta ação, o regime político propiciou falências, concordatas e desemprego, juntamente com a política de controle dos salários, com intervenções diretas nas relações de trabalho, com o direito de eliminar negociações entre trabalhadores e patrões, estabelecendo índices de reajustes salariais, com base no cálculo das inflações anteriores, fato que determinava que os salários se mantivessem muito abaixo da inflação real. Pela forma como a economia foi conduzida, a redução dos salários deveria financiar o crescimento econômico. Nesse contexto, havia um total controle sobre os sindicatos e as greves eram extremamente proibidas, o Ministério do Trabalho passou a estar diretamente ligado a essas repressões (PAES, 1993).

  14 Do ponto de vista da organização estudantil, a UNE e o próprio movimento

  estudantil brasileiro se confundem inteiramente, a partir de 1964, com a história da repressão às liberdades. Desde aquela época, os estudantes passaram automaticamente a condição de elementos de alta periculosidade para a segurança nacional, aos olhares atentos das novas autoridades. Em razão disso, ser estudante representava ser alheio às normas e ao sistema político ditatorial. Assim, a repressão policial militar sofrida pelos estudantes, sob o Governo do Marechal Castelo Branco, produziu um estado de perplexidade numa geração que somente conhecera ditadura através dos relatos dos mais velhos ou pela leitura de livros (POERNER, 1968).

  Os depoimentos dos estudantes Antônio Noronha Filho e Pedro Meira, da 13 Universidade Federal do Rio de Janeiro, evidenciam o cenário enfrentado:

  

Foram decretos emitidos após o Golpe civil-militar de 1964 no Brasil. Serviram como mecanismos de

legitimação e legalização das ações políticas dos militares, estabelecendo para eles próprios diversos poderes

14 extra-constitucionais (SILVA, 1975).

  • - A União Nacional dos Estudantes (UNE), nasceu em 13 de agosto de 1937, na Casa do Estudante do Brasil,

    porém só entrou em ação durante o Estado Novo, fruto de uma tomada de consciência, quanto à necessidade de

  No dia 1 de abril de 1964, o golpe militar mostrou, instantaneamente, a sua disposição com os Estudantes. Destituído o governo legal, a UNE foi invadida, saqueada e queimada num paroxismo de ódio que escapa ao terreno puramente político para cair na esfera psiquiátrica. A ditadura, impondo ao país um curso de desenvolvimento em que todos os aspectos da vida nacional se subordinam ao interesses de outra nação (Jornal do Brasil, 6 de novembro de 19, p.06)

  Entende-se que os estudantes foram, de imediato, o principal alvo dos militares, pois representavam, para o autoritarismo, uma ameaça à nova ordem e, assim, deviam ser eliminados de qualquer forma e a qualquer custo. Neste sentido, considera-se que o objetivo da Ditadura quanto à universidade e aos estudantes era basicamente um só, o tratamento de choque, “como se fosse expulsar o demônio da rebelião patriótica daqueles corpos jovens, dando-lhes o anjo da subordinação aos interesses antinacionais” (POERNER, 1968, p. 230).

  Diante desta posição, evidencia-se que o regime civil-militar estava disposto a agir de forma repressiva para manter a ordem social, política e econômica e alcançar êxito na sua proposta para as pretendidas mudanças no âmbito nacional. No entanto, valia qualquer coisa para o Estado autoritário, até mesmo prender e torturar os estudantes, demitir professores, invadir faculdades, intervir nas entidades estudantis, proibir qualquer reunião com a participação de estudantes e professores e decretar a ilegalidade da UNE, das uniões dos estudantes nos Estados e Diretórios acadêmicos, enfim, acabar com qualquer tipo de representação e manifestação estudantil (POERNER, 1968).

  Considerando-se que os estudantes, no universo político nacional, representaram uma parcela significativa, pode-se definir que grande parte destes jovens não se dedicava somente ao estudo em tempo integral, pois eles trabalhavam para dar continuidade à formação, muitos estudantes eram, ao mesmo tempo, operários, bancários, professores e que, em virtude disso, inseriam-se em outros ambientes, podendo, inclusive, atuar em sindicatos profissionais, disseminando suas idéias. Destaque-se ainda que os estudantes processados durante a ditadura eram, em sua maioria, universitários, com faixa etária de até 35 anos, ou seja, a maior quantidade dos componentes de esquerda eram estudantes ou pertencia a camadas intelectualizadas. Por outro lado, neste estudo, faz-se relevante conceder espaço à origem do estudante, que, em geral, não estava entre os mais desfavorecidos da sociedade, mas integrado à classe média ascendente (RIDENTI, 1993).

  Na medida em que se compara a faixa etária e a escolaridade deste grupo, verifica-se que cerca da metade dos militantes de esquerda era composta por estudantes universitários, ex-estudantes ou então recém-egressos. Assim sendo, a participação dos estudantes no processo contestatório, frente às medidas autoritárias do Governo civil-militar, deve ser vez mais, Bobbio (2003) esclarece que a esquerda seria formada por pessoas que integravam o Partido de Organizações de Massas contrapondo-se àqueles que representavam o Partido dos Notáveis, considerados de Direita. Enquanto à esquerda se mobilizava para implantar mudanças na sociedade, a direita lutava para que nenhuma modificação ocorresse.

  A análise do período em questão demonstra, que quanto ao ensino superior os recursos financeiros foram diminuindo, as verbas do Ministério da Educação caíram no decorrer do Governo ditatorial, como conseqüência houve um congelamento de vagas nas universidades enquanto, a procura aumentava drasticamente.

  Dessa forma, o que preocupava, naquela época, eram os excedentes aprovados no vestibular, representando uma grande insatisfação estudantil aliada à falta de verbas, à modernização autoritária do ensino, ao arcaísmo das instituições universitárias, à crise econômica, ao estreitamento das oportunidades de trabalho, sem desconsiderar-se que, logo após o golpe civil-militar, um grande número de entidades estudantis sofreu intervenção do Governo (RIDENTI, 1993).

  Apesar da censura, a criação cultural no Brasil estava em ebulição, o movimento cultural tornava-se cada vez mais criativo, refletindo a conscientização política e o desejo de transformação dos jovens. Mas, o clima geral era de tensão e, no meio estudantil, secundaristas começavam a protestar por mais vagas nas universidades, reclamavam do mau funcionamento de restaurantes que serviam a estudantes carentes e entidades estudantis. Diante desse quadro, quanto mais aumentava a inquietação entre os estudantes e o sentimento de revolta, mais o aparelho político se preparava para a repressão. Nesse contexto, a mobilização estudantil sugere que havia uma grande crise no aparelho universitário brasileiro, devido à carência de vagas nas escolas públicas, ao arcaísmo dos currículos, que não eram adaptados às novas necessidades do desenvolvimento econômico. Mas, à ditadura não interessava investir nas universidades, ainda mais se considerar a política de redução de despesas, nas áreas não produtivas, adotada pelo Governo a partir de 1964 (SOTO, 2008).

  Durante o Governo do Marechal Castelo Branco, estruturou-se e instituiu-se a Lei Suplicy de Lacerda. A Lei visou, especialmente, à extinção do movimento estudantil brasileiro e procurou destruir a autonomia e a representatividade do movimento, deformando as entidades estudantis, transformando-as em mero apêndice do Ministério da Educação e, com isso, dependentes de verbas e orientação. A UNE, por exemplo, foi substituída pelo Diretório Nacional de Estudantes e as Uniões estaduais pelos Diretórios Estaduais (DEEs). Somam-se mais restrições, como o livre curso do diálogo entre os Diretórios Acadêmicos e os

  Associada às manifestações estudantis e a repressão governamental, insere-se a influência norte-americana na educação brasileira. O Brasil não vivia sob um sistema político que respeitasse vontades coletivas, por isso os interesses antinacionais precisavam, com a máxima urgência, de uma estrutura legal que preparasse o terreno para a institucionalização da dependência do sistema universitário brasileiro no exterior. Assim, a Lei Suplicy de Lacerda preparou a implantação de acordos com o Ministério da Educação e Cultura (MEC) e a United States For International Development (USAID) (POERNER, 1968).

  O acordo MEC-USAID, foi uma proposta da Usaid, uma instituição norte-americana voltada para o ensino, uma agência de desenvolvimento que propunha uma reforma no âmbito da educação dos países do Terceiro Mundo, abrangendo desde o primário até o nível universitário, com o discurso de que era para fazer o país se voltar mais para o desenvolvimento tecnológico (SOTO, 2008).

  Desta forma, os acordos entre o MEC e USAID, institucionalizaram a intervenção norte-americana no ensino brasileiro, seguindo orientação prescrita no Relatório Atcon (Anteprojeto de Concentração da Política Norte-Americana na América Latina), objetivando, desenvolver uma filosofia educacional para o continente, juntamente com níveis educacionais e os meios financeiros para levar à prática tal política, da mesma forma que, transformar a Universidade estatal numa Fundação privada, eliminando assim, a interferência estudantil na administração, tanto de colegiado quanto gremial (POERNER, 1968).

  Nesse sentido, vale destacar que, a proposta elaborada através do convênio MEC- USAID para reformar a universidade, excluía, ou no mínimo, deixava em segundo plano toda produção científica nacional e valorizava a reprodução de conhecimentos técnicos importados dos países desenvolvidos, pois, os países subdesenvolvidos, tinham escassez de recursos para investir na educação, deveriam priorizar o ensino fundamental. Assim, propostas como a cobrança de anuidades de estudantes e o sistema de seleção de estudantes para ingressar na universidade aumentavam os antagonismos entre a proposta do MEC-USAID e os estudantes.

  Nessa perspectiva, a primeira medida instituída pelo regime político, foi a cobrança de anuidades, que veio acompanhada de uma forte propaganda de que o custo do universitário no Brasil era inviável. O Movimento Estudantil não aceitou os argumentos do regime político e para rebater as argumentações governamentais, afirmavam que “num país subdesenvolvido, eliminar a gratuidade do ensino superior é tornar a Universidade privilégio ainda maior, fechando suas portas para a classe pobre e média” (POERNER, 1968, p.249). Entretanto, quando o estado autoritário, resolveu fazer as cobranças, o movimento estudantil, organizou contra anuidade em alguns pontos do país, mas em outros, o medo de perder o ano pelo não pagamento levou muitos estudantes a pagarem o valor estipulado. As derrotas localizadas, no entanto, não foram encaradas, pelos estudantes, como o fim do embate com o Estado autoritário (POERNER, 1968).

  Contudo, os dirigentes estudantis e militantes que acompanhavam de perto os pagamentos das anuidades, sabiam que a estratégia do regime político, era aumentar ano a ano os valores, até que elas alcançassem metade do custo de um universitário/ano. Por seu lado, o Governo sabia que haveria resistência estudantil ao pagamento, por isso apelou para as famílias dos universitários. Enfatizando, desta forma, que o sistema político, era justo e que elas participassem do custeio dos estudos de seus filhos, prometendo que o dinheiro arrecadado seria investido na formação de jovens que não podiam pagar por seus estudos (POERNER, 1968).

  Observou-se, que todo o processo de redução de verbas para a educação superior, cobrança de anuidades e combate à participação estudantil nas esferas decisórias da universidade, fazia parte do projeto para reformulação da universidade que foi preparado a partir dos acordos MEC-USAID. Do ponto de vista do movimento estudantil, haviam três propostas que deveriam ser seguidas pelo regime político, ou seja, a manutenção da universidade como pública, com influência estudantil no processo da reforma universitária, participando dos colegiados das instituições.

  No entanto, deve-se considerar que o mundo passava pelo período de Guerra

15 Fria, existia assim, uma crescente influência norte-americana em grande parte da sociedade

  brasileira. Essa influência podia ser sentida de diversas formas e em diferentes áreas, “na música, no cinema, na alimentação, no estilo de vida,” (p.51) mas, foi na educação que a interferência americana acabou provocando os maiores protestos estudantis. Para o movimento estudantil, a discordância com os acordos MEC-USAID se tornaria também, uma das principais lutas dos estudantes no sistema civil-militar (SOTO, 2008).

  É importante, mencionar a influência de Cuba, sobre as atitudes norte-americanas, pois, Cuba não apenas concretizou as aspirações socialistas, como também interferiu na supremacia dos Estados Unidos no continente. Assim, como conseqüência, os Estados Unidos, deveria combater o estímulo cubano aos movimentos de esquerda latino-americanos, 15 se voltando para esses países de forma estratégica (DOCKHORN, 2002).

  

A Guerra Fria é a designação atribuída ao período histórico de disputas de influência, estratégicas e conflitos

  Assim, o acordo MEC-USAID, e, principalmente a atuação da USAID, não somente no Brasil, mas em todos os países periféricos, podem ser percebidos como uma ação dos EUA para garantir a vigência do sistema capitalista nesses países e transferir para estes as concepções e a organização social, política e econômica que prevalecia nos Estados Unidos.

  Desta forma, para os estudantes os acordos MEC-USAID representavam um plano de infiltração imperialista do ponto de vista de uma filosofia política que se assimilada, viria a proporcionar a manutenção do sistema capitalista, para as bases estudantis, os objetivos dos convênios MEC-USAID levariam a universidade a uma estrutura arcaica e empresarial. No entanto, os estudantes queriam uma universidade crítica, autônoma, queriam a democratização do ensino, a gratuidade de todos os níveis, vestibulares de habilitação e não de seleção e a expansão dos cursos noturnos, como era proposto no acordo (GORENDER, 1998).

  Nesse universo, é importante ressaltar que o movimento estudantil pautava-se pelo ideal de educação que era formar indivíduos críticos e preocupados com a realidade nacional e não apenas como meio de formar técnicos e mão-de-obra qualificada que era o projeto de desenvolvimento proposto pela Ditadura. Assim, a luta dos estudantes tornou-se uma luta contra a ditadura, representando, pois, uma resistência à política repressiva do Estado. Assim posto, a agitação dos estudantes era justificada também pelas condições precárias em que se encontrava o ensino superior.

  Nesse sentido, a industrialização da década de 50, proporcionou uma maior procura pelas profissões universitárias, uma vez que a classe média tinha uma maior expectativa nos cursos superiores, ao passo que estes não conseguiam atender às suas necessidades, devido à carência de vagas aliada à hierarquia docente que implicava a manutenção do status quo vigente. Em razão destas questões, deu-se o agrupamento estudantil que procurava canalizar o descontentamento dos jovens de classe média para a luta contra a ditadura (SOTO,2008).

  Na verdade, a insatisfação do ensino foi envolvida por um fenômeno de escala mundial, que ficou conhecido, no mundo todo, como “cultura da juventude”, ou seja, os anos 60 foram marcados por uma juventude que buscava, através de diversos meios (música, roupas), uma ruptura com o tradicional e, como objetivo final, desafiar os limites que estavam sendo impostos pela sociedade. Tais movimentos deram-se de forma exemplar na França e dali se expandiram pelos demais países, incluindo os Estados Unidos (GORENDER, 1998).

  Nesse cenário, evidenciam-se alguns incidentes relacionados aos estudantes brasileiros e o aparelho civil-militar. No dia 21 de março de 1968, estudantes invadiram e ocuparam a reitoria da Universidade de São Paulo (USP), no dia seguinte, saíram em passeata pelas ruas de Janeiro, estudantes estavam reunidos no restaurante que atendia secundaristas, debatendo a organização da passeata, que deveria se realizar no dia seguinte, em protesto contra as precárias condições de higiene e o mau funcionamento do restaurante da universidade. Enquanto eles discutiam, viaturas policiais, de surpresa, cercaram o local e soldados do batalhão motorizado da Policia Militar invadiram o lugar, não poupando cacetadas e tiros, alguns estudantes tentaram reagir com pedras, mas foi inútil, várias rajadas de metralhadoras foram disparadas. Como conseqüência deste fato, além de muitas prisões, registrou-se a morte do estudante Edson Luis de Lima Souto de apenas 16 anos. A revolta tomou conta dos estudantes, muitos gritavam como protesto e vingança, o clima era extremamente tenso, as organizações estudantis decretaram greve geral para o dia seguinte e todos os alunos foram convocados para o enterro do jovem, os teatros suspenderam seus espetáculos e os artistas leram um comunicado explicando os motivos, manifestando solidariedade aos estudantes (SOTO, 2008):

  Atirando contra Jovens desarmados, ensandecida pelo desejo de oferecer à cidade apenas mais um festival de sangue e morte, a Polícia Militar conseguiu coroar, com esse assassinato coletivo, a sua ação, inspirada na violência. Barbárie e covardia foram a tonica bestial de sua ação. O ato de depredação do restaurante pelos oficiais, após a fuzilaria e a chacina, é o atestado que Polícia Militar passou a si própria, de que sua intervenção não obedeceu a outro propósito senão o de implantar o terror na Guanabara.Diante de tudo isso, é possível discutir alguma coisa?(JORNAL CORREIO DA MANHÃ, 30 Mar 1968, p.12)

  Compreende-se que a morte de Edson Luís foi um marco para a passagem do movimento estudantil ao enfrentamento. O protesto contra a violência policial, que mata um secundarista, assume dimensão nacional. Aos olhos do Movimento Estudantil, a população que, ao sensibilizar-se, vai às ruas, revela a sua disposição de luta “contra a Ditadura”. Para o Governo a “agitação”, coloca em risco a manutenção da ordem e a tranqüilidade nacional, por isso requer a tomada de medidas repressivas.

  Desta forma, o ano de 1968 ficou marcado, no âmbito nacional, pelo movimento estudantil, suas manifestações de protesto ao serem violentamente reprimidas, provocavam reações de outros setores sociais contra a agressão policial. Assim, no decorrer do ano, em grande parte das universidades, os estudantes se organizavam e reivindicavam mais vagas, mais verbas, analisavam e criticavam os currículos, a relação professor-aluno e usavam a palavra “Diálogo” com as autoridades universitárias como forma de manifestação. Sucediam- se greves, ocupações e passeatas, que eram sempre reprimidas pela polícia. No dia 20 de junho, estudantes foram espancados ao saírem de uma assembléia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por isso, marcaram um protesto para o dia seguinte no centro da outro, estudantes reagindo a brutal agressão policial. Este dia ficou conhecido como “sexta- feira sangrenta” (SOTO, 2008).

  Poucos dias depois, organizou-se a “passeata dos 100 mil”, foi uma manifestação de protesto, em conseqüência da morte do estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto, liderada por estudantes, com gritos de “Abaixo a ditadura” ou então “O povo unido jamais será vencido”, (PAES, 1993, p.68) contando com o apoio das mais diversas áreas sociais (artistas, intelectuais, parlamentares, padres da Igreja Católica e setores das classes médias).

  Percebe-se que os estudantes não estavam sozinhos na sua luta contra o autoritarismo, o movimento englobou outros setores da sociedade, como grupos ligados as produções artísticas, porque a repressão atingia, de forma violenta, aqueles que não concordavam com as disposições governamentais. Em virtude destas sanções, estes grupos também participaram das principais manifestações que os estudantes encaminhavam pelas ruas do Brasil.

  Nessa arena política, foi assinado o Ato Institucional número cinco (AI-5), colocando o Congresso Nacional definitivamente em recesso e, junto disso, desenrolou-se a censura de vários órgãos da imprensa, “jornalistas, artistas, intelectuais, estudantes, padres, operários e políticos” (PAES, 1993, p.70) eram detidos. Tal política inviabilizou qualquer mobilização de massa por parte da esquerda, restando apenas a clandestinidade e a luta armada. Logo após a instituição do AI-5, o Executivo modificou tanto o Supremo Tribunal Federal como o Superior Tribunal Militar, redobrando a censura à imprensa, que, agora, ficaria submetida a Tribunais Militares, enquadrando professores e estudantes que desafiassem o Governo (PAES, 1993).

  Apesar do recrudescimento das ações governamentais, as manifestações intensificaram-se e tornaram-se mais freqüentes em todos os estados brasileiros, ou seja, a situação se agravava a cada dia, especialmente no que diz respeito à repressão policial. As cenas das prisões e dos maus tratos aos estudantes, que sofreram “espancamentos, agressões sexuais, xingamentos e ameaças de fuzilamento” (SOTO, 2008, p.57).

  A revolta estudantil no Brasil crescia na clandestinidade, as organizações se multiplicavam e intensificavam suas ações. A Vanguarda Popular Revolucionária (VPR)

  16

  invadiu o Hospital Militar, por sua vez, a Ação Popular (AP) , a Política Operária (POLOP) 16 e dissidências do PCB (Partido Comunista Brasileiro) eram grupos clandestinos que atuavam

  

Ação Popular exerceu trabalho de conscientização política e formação de lideranças junto a trabalhadores

brasileiros do meio urbano e rural, se integrando ao movimento estudantil de forma muito coesa, pois ocupou por dentro do movimento estudantil, buscavam aprofundar sua influência entre os alunos e assim contribuíam para uma maior radicalização das ações (SOTO, 2008).

  É de significância ressaltar que o movimento estudantil se orientava e agia politicamente, sendo que, no próprio meio acadêmico, eram dadas as condições de proliferação do movimento e os grêmios estudantis passavam a ter relevância política. Assim, após o AI-5, a luta armada era um desdobramento natural de quem já possuía militância mais efetiva no movimento estudantil, pois havia uma grande insatisfação pelo regime civil-militar, tendo sido quase espontâneo o engajamento dos jovens politizados nos movimentos contra a ditadura militar. Nessa situação, o movimento estudantil lutava pela defesa das liberdades democráticas, das reformas de base, no sentido de conquista de um ensino público e gratuito, o que era contrário ao regime vigente (RIDENTI, 1993).

  No final de 1968, o autoritarismo controlava a situação, pois a repressão crescia, o sistema político alcançou o ápice da repressão, fechando todo o tipo de instituição contrário ao Estado autoritário. A censura passou a controlar a imprensa, as publicações de oposição deixaram de circular, artistas foram presos e asfixiou-se a vida cultural, professores universitários foram obrigados a aposentar-se ou ensinar no exterior. Os líderes estudantis passaram a ser controlados, não podendo nem mesmo circular livremente, sob pena de sofrerem atentados (GORENDER, 1998).

  Desta forma o trabalho em um segundo momento irá remeter-se para cenário sul- rio- grandense, com o objetivo de perceber as manifestações estudantis nesse contexto.

3.3 Rio Grande do Sul e os estudantes no regime autoritário 1964-1968.

  As manifestações nacionais, evidentemente, repercutiam no Rio Grande do Sul, registrando-se uma regionalização do movimento estudantil. No estado, através de suas singularidades e especificidades, pode-se traçar um panorama a respeito dos estudantes, que se manifestavam dentro do sistema autoritário. Para tal, faz-se necessária a contextualização do golpe civil-militar no espaço sul-rio-grandense.

  Neste sentido, são esclarecedoras as ponderações de Silva (1990), segundo a qual, a história regional refere-se a um recorte específico do estudo, permitindo que os dados coletados em tempos e espaços determinados ofereçam elementos para o estudo, a análise das relações políticas, econômicas e sociais.

  Desta forma, é de significância relembrar o Rio Grande do Sul, no dia primeiro de abril de 1964, pois, foi marcado pela notícia da deposição do Governo de João Goulart e do Golpe civil- militar.

  O centro de Porto Alegre estava lotado por uma multidão de pessoas que se aglomeravam em frente à Prefeitura, as rádios noticiavam a fuga do Governador Ildo

  17 Meneghetti para Passo Fundo, juntamente com as tentativas de Leonel Brizola de organizar

  a resistência que era favorável a permanência de João Goulart no poder nacional. Porém, a vitória do golpe, sem uma efetiva resistência, foi uma grande decepção para muitos gaúchos, mesmo assim, no centro da cidade de Porto Alegre, um grupo de pessoas se manifestava contra as tropas que tomavam as ruas. Da mesma forma, se sucederam os dias seguintes, sob muita tensão, as prisões e as torturas foram freqüentemente utilizadas pelo autoritarismo, atingindo todo o Estado, era difícil calcular o número de pessoas presas e vítimas de maus- tratos, e ainda, centenas de gaúchos tiveram que abandonar suas cidades com seus filhos e tentar a vida em outros lugares ou mesmo buscar o exílio (GUTIÉRREZ, 1999).

  Observou-se, que essas manifestações contra o regime autoritário no Rio Grande do Sul, estiveram diretamente vinculadas aos acontecimentos nacionais. Assim, em apoio às Reformas de Base, (proposta do Governo João Goulart), ocorreram mobilizações dos estudantes. Nesse sentido, os estudantes universitários sul-rio-grandenses reuniram-se em Porto Alegre, no Conselho Nacional dos Estudantes, para decidir se iriam aderir ou não à ordem da UNE de suspender a greve, que estava sendo realizada por estudantes universitários

  18 em defesa da liberdade constitucional em todo o país.

  Contudo, por alguns anos, todos que representassem oposição política ao regime político eram amplamente combatidos; no Rio Grande do Sul, somente em 1970, um estudante de engenharia metalúrgica conseguiu vencer as eleições para presidência do Conselho Deliberativo do Diretório Central dos Estudantes (DCE) (SIRTORI, 2003).

  É importante salientar que o movimento estudantil, no Rio Grande do Sul, manteve alguns focos de rebeldia na cidade de Porto Alegre, representados por mobilizações difundidas por secundaristas e universitários. Dessa maneira, na capital do Estado, constata-se o mesmo clima tenso das principais cidades brasileiras. Os porto-alegrenses, por sua vez, também se posicionavam em defesa de questões referentes à educação, de tal forma que, em 1967, secundaristas e universitários ocuparam o restaurante Universitário da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) como meio de protestar contra o estado autoritário (SIMÕES, 2006).

  17 Leonel Brizola era ex-governador do Rio Grande do Sul e, em 1964, era deputado federal eleito pelo estado da 18 Guanabara.

  Deve-se ainda registrar que, em algumas cidades do Brasil, existiram locais que se tornaram referências para os jovens e, no Rio Grande do Sul, não foi diferente, havia entre o povo gaúcho entidades que se transformam em verdadeiros símbolos de luta e manifestação contra o regime autoritário. Nesse universo, o Colégio Estadual Júlio de Castilhos (Julinho) foi, para os porto-alegrenses, sinônimo de “rebeldia e inconformidade”. A rebeldia dos estudantes encontrava meios de expressão através de grupos organizados e, nesta escola, os grupos mais ativos eram o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e a Ação Popular (AP), através deles, o movimento estudantil retomava suas mobilizações. Em Porto Alegre, “o tradicional desfile dos bixos” (GUTIÉRREZ, 1999, p. 29) que acontecia uma vez por ano no Julinho, para receber os novos alunos, passou a assumir cada vez mais um caráter de contestação e, por este motivo, futuramente foi proibido pelo sistema político. Já no ano de 1966, foram realizadas eleições para o Grêmio Estudantil do Colégio Julio de Castilhos, tendo sido eleita a diretoria ligada ao PCB, de modo que as assembléias passaram a ser marcadas por discursos contra a Ditadura. No decorrer do ano, as atividades do Grêmio estudantil da escola se intensificaram, houve protestos contra os acordos MEC-USAID, juntamente com a luta por mais verbas para a educação (GUTIÉRREZ, 1999).

  Percebe-se que tanto no contexto brasileiro como no sul-rio-grandense, as principais manifestações estudantis eram por uma melhor qualidade educacional, seja por meio de mais verbas ou pela não influência dos Estados Unidos na educação, pois a ditadura havia reduzido drasticamente os recursos para o ensino médio e universitário.

  Nota-se, no cenário sul-rio-grandense a presença do movimento estudantil, através do inquérito de Antonio da Costa Coelho, que era presidente da União Rio-Grandense dos Estudantes Secundários (URES), e foi acusado de utilizar a sede da entidade para organizar

  19 movimentos que perturbam a ordem vigente.

  Merece destaque, ainda, o caso do Centro dos Estudantes Universitários de Engenharia (CEUE) de Porto Alegre, cujo presidente, o estudante Izaltino Comozato, foi deposto em agosto de 1964, por ter elaborado uma nota em que se referia ao golpe civil-militar como uma

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  “quartelada” em que os “ratos” estavam em qualquer parte. Assim, por um longo período, contestar a Ditadura em Universidades era perigoso e o referido estudante não escaparia das sanções, juntamente com uma dezena de estudantes.

  19 20 DOPS/RG- 1.2.469.4.2. Antonio da Costa Coelho, 06 Jul 1964. 7º região (1952-1980)

Denominação utilizada pelos estudantes para designar os elementos infiltrados na Escola para policiar suas

  Foram chamados para depor pela CEUE todos os estudantes acusados de cometer atos tidos como subversivos, como presidir uma reunião do Conselho Deliberativo do DCE em que se decidiu pela divulgação de uma nota intitulada “Morre um estudante”, (SIRTORI, 2003, p.73) referindo-se ao falecimento, por morte natural, do ex-estudante de Engenharia Química, preso na Base Aérea de Canoas, Ary Abreu Lima da Rosa. Além disso, o DCE organiza um abaixo-assinado, reivindicando o aumento do número de vagas para os vestibulandos, em uma reunião em que supostamente questionaria o papel da representação discente nas Comissões de Carreira. Esses são motivos suficientes para o enquadramento de muitos estudantes que faziam parte do Centro dos Estudantes Universitários de Engenharia (SIRTORI, 2003).

  Verifica-se, que, dentro das principais Universidades do Rio Grande do Sul, encontravam-se as mais diversas formas de violência e repressão governamental, tudo com o objetivo de manter o mais absoluto controle sobre os estudantes e sobre a sociedade de um modo geral.

  Nessa perspectiva, a União Estadual de Estudantes (UEE) se fez presente em várias ações e atos estudantis no Rio Grande do Sul, com o objetivo de centralizar a luta dos estudantes no Estado e, para isso, buscou-se a sua viabilização como instrumento central dos estudantes, apoiando-se a ampla participação deles. Entretanto, esta busca imediata da entidade aconteceu dentro de um cenário nacional de reconstrução dos órgãos estudantis proibidos pelos governos pós-64, aliados a existência da Cooperativa de Estudantes de Porto Alegre, CEPAL, denominada a maior de todas as cooperativas da América Latina, bastava pagar uma taxa e o estudante se tornaria sócio para toda a vida, tendo a sua disposição livros,

  21 material escolar, discos e fitas.

  Neste quadro, percebe-se a união entre os estudantes e a existência de diversos grupos estudantis representativos, com o intuito de juntar forças contra o autoritarismo que se reestruturava em virtude das eleições para Presidente da República e governadores. No Rio Grande do Sul, o Deputado Walter Peracchi Barcelos, foi candidato por eleições indiretas, e empossado no dia 31 de janeiro de 1967, como novo Governador do Rio Grande do Sul.

  Neste contexto, Tarso Dutra assumiu o Ministério da Educação (MEC) em 67, implementou o Movimento Brasileiro de Alfabetização, (Mobral) que visava diminuir os níveis de analfabetismo no país, deve ser relembrado que ele também realizou o acordo entre 21 o MEC-USAID. Como ministro da Educação, teve atritos com o movimento estudantil, que demonstrou descontentamento com as propostas de reforma da educação no país. Para os estudantes, a base da educação não deveria modificar-se, por este motivo a luta contra os acordos com os Estados Unidos mobilizavam grande parte dos estudantes do sul do País (GUTIÉRREZ, 1999).

  Em Bagé, em 27 de dezembro de 1967, na Faculdade de Ciências, Letras e Filosofia, o Ministro Tarso Dutra, por sua vez, afirmava em uma palestra, que o “problema do Estado era

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  eminentemente um problema da Educação”. Desta forma, evidenciava o desejo do Governo em colocar-se, disposto a resolver questões educacionais.

  Contrapondo-se as colocações do Ministro, aconteceu, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), um protesto contra o estado autoritário, demonstrando que as reivindicações estudantis não estavam sendo atendidas. Assim, os estudantes do curso de Jornalismo não fizeram formatura, por unanimidade, os alunos decidiram que o curso de

  23

  jornalismo não merecia uma formatura solene, enfatizando a grande insatisfação dos estudantes com o sistema político.

  Devido as divergências, entre o regime implantado e o movimento estudantil, os estudantes foram considerados subversivos pelas autoridades militares. Busca-se Bonavides (2003), para esclarecer que ser subversivo representa uma atitude nova, diferente, através de uma tomada de consciência de um pensamento ideológico e a fuga das regras impostas.

  Atitudes tidas como subversivas despontavam em vários pontos do Estado como a prisão de Sergio Mendonça da Costa, em Cachoeira do Sul. O estudante foi detido no dia 11 de outubro de 1968, por ter colado recortes de revista nas paredes do prédio da União Cachoeirense de Estudantes. Costa argumentava que a maioria dos estudantes não possuía recursos financeiros para comprar as revistas e, por iniciativa própria, resolvera colocar os

  24

  cartazes no local, tendo apenas o objetivo de deixar os estudantes informados. Contudo, logo após o registro da ocorrência, Sérgio M. da Costa foi levado, ao comandante da 3ª Região Policial, para fazer declarações, sugere-se que, o objetivo era reprimir tal ato, assim

  25 como qualquer outra atitude subversiva que pudesse vir acontecer.

  Verifica-se que as manifestações estudantis se tornam diversificadas e as formas de luta redefinidas ao longo do ano, emergindo como papel central o da violência. Deve-se 22 considerar que muitas lideranças estudantis estão na cadeia, a grande imprensa (aliada ao 23 Jornal Correio do povo, Porto Alegre, [p.10] e 27 Dez. 1967. 24 Jornal Correio do povo, Porto Alegre, [p.12] e 10 Dez. 1967. 25 Documento do Departamento da Policia Civil, Termo de Declaração do dia 11 Nov. 1968. sistema político) transmite uma imagem cada vez mais desfavorável dos “perigosos” estudantes ao vinculá-los aos “subversivos”.

  O encontro da União Gaúcha dos Estudantes Secundários (UGES), no ano de 1968, aconteceu em Santana do Livramento e para lá se deslocou um grande número de estudantes de Porto Alegre. Mas deve-se enfatizar que o Rio Grande do Sul pode ter sido um dos poucos Estados do Brasil, em que existiram entidades estudantis, tanto secundaristas como universitários, sob influência da direita, pois alguns encontros da UGES no interior contavam com os alojamentos e alimentação fornecido pelos quartéis militares, assim os estudantes que eram de esquerda, contavam com ajuda dos militares que representavam a direita.

  Desta forma, no encontro estudantil, estavam presentes o Prefeito da cidade, o Presidente da Câmara e o Comandante Militar da Região, representantes conservadores da sociedade, e os estudantes fizeram o discurso exigindo a melhoria nas condições do ensino brasileiro e atacando os acordos MEC-USAID, que acabariam por “ferir a dignidade nacional” (GUTIÉRREZ, 1999, p.65), logo após houve a solicitação de homenagens para todos que tinham sido assassinados por lutarem por seus ideais, onde todos posicionados fizeram um minuto de silêncio. O que causou espanto em muitos estudantes foi assistir o Coronel e outros representantes do autoritarismo local prestando homenagens a homens que

  26

  27

  dedicaram sua vida a lutar contra o Governo como, por exemplo, Che Guevara e Gandhi (GUTIÉRREZ, 1999).

  Verifica-se, que muitos setores de direita e conservadores, preocupavam-se em manter a aparência, em acontecimentos sociais, queriam demonstrar que tudo corria no mais absoluto controle, perante a sociedade, isso com objetivo de coibir e manter a população a favor do estado autoritário.

  Ainda em 1968, os estudantes gaúchos receberam, com grande comoção, a notícia da morte do estudante Édson Luís, e, de imediato, grande parte dos estudantes de Porto Alegre se

  28

  dirigiu para a sede da UGES , para produzir panfletos, com a denúncia do assassinato, chamando os estudantes e a população para irem as ruas lutar contra o regime civil-militar. Os ideais difundidos pela panfletagem podem ser observados no segmento a seguir:

  A ditadura militar, na sua escalada contra o povo e as liberdades democráticas, 26 desconhece limites e assassina estudantes. De norte a sul do Brasil se rebela contra o

Foi um revolucionário socialista do século XX. Argentino, nasceu na cidade de Rosário em 14 de junho de

27 1928. Faleceu em 9 de outubro de 1967, na aldeia de La Higuera (Bolívia).

  

Gandhi foi um dos idealizadores e fundadores do moderno estado indiano e um influente defensor do princípio

28 da não-agressão, forma não-violenta de protesto, como um meio de revolução.

  

Seria muito difícil calcular o número de estudantes da capital que participavam da UGES, moças, rapazes dos

colégios: Julio de Castilho, Parobé, Aplicação, Inácio Montanha e até mesmo colégios particulares como o autoritarismo e, em memoráveis jornadas pelas liberdades, enfrenta a sanha criminosa, usando contra a violência do poder armado a indignação e a violência dos oprimidos. Os estudantes gaúchos e o povo em geral estão chamados a se fazerem presentes nas ruas, pondo fim ao regime de terror com os meios ao seu alcance. (GUTIÉRREZ, 1999, p.66)

  Evidencia-se, pois, que os estudantes do Rio Grande do Sul estavam dispostos a lutar contra a violência do Estado autoritário e, para isso, usaram os meios que dispunham, para mobilizar escolas, universidades e até mesmo a população em favor de uma redemocratização nacional.

  É pertinente, neste ponto, demonstrar que a ligação entre os estudantes e o população, muitas vezes, se limitou apenas a campanhas de alfabetização ou de assistências social, pois a maioria da população carecia de infra-estrutura e precisava de todo tipo de ajuda, e uma política estudantil assistencialista, deveria apressar a integração entre estudantes e o resto do povo que, por muito tempo, se limitou apenas a torcer por eles, de longe. Dessa forma, “devido à busca de melhor qualidade educacional e luta contra o regime autoritário os estudantes dispõem, melhor que qualquer outro grupo social, condições de promover o progresso social” (POERNER, 1968, p. 293).

  Convém, ademais, mencionar que, na União Gaúcha dos Estudantes (UGES), houve diversas irregularidades financeiras e administrativas na Gestão 1966-67. Os antigos responsáveis pela direção da entidade tiveram seus direitos políticos estudantis cassados no âmbito secundarista do Rio Grande do Sul, tal acontecimento trouxe como conseqüência o afastamento dos estudantes: Máximo Ernesto Antunes, Otacílio de Almeida e Paulo Costa Leite, resultado de decisão do Conselho Extraordinário da UGES, reunido na cidade de Soledade. Após o conselho extraordinário, foi instalado um conselho Ordinário, que, entre outros assuntos, apresentou a palestra do Deputado Federal Nadir Rossetti, com o objetivo de situar o estudante diante dos problemas nacionais vigentes e também a descentralização do ensino médio e superior no Rio Grande do Sul. Encontros desta ordem serviram para mostrar a nova linha de ação da UGES, que procurava inserir o estudante no efetivo contexto da

  29 realidade nacional.

  Conforme já mencionado, em 1968, o movimento estudantil tomou novas diretrizes na sua luta contra o regime civil-militar, acontecendo uma retomada do ritmo das mobilizações. No Rio Grande do Sul, diversas faculdades registravam movimentos grevistas e as escolas apresentavam um alto grau de mobilização. Grupos estudantis realizavam encontros com certa 29 freqüência no Estado; nestes encontros, criou-se a declaração de Princípios na luta contra a Ditadura, que chamava a Juventude para a “Segunda Guerra de Independência Americana” (GUTIÉRREZ, 1999, p.71). Os princípios designados pelos estudantes estavam relacionados a denúncias pela violência do autoritarismo, conclamando aos jovens para que nunca deixassem de lutar contra o autoritarismo (GUTIÉRREZ, 1999).

  Merece destaque ainda, no que tange à realidade vivida pelos estudantes, a Certidão da Delegacia de Polícia do Rio Grande do Sul, na qual o Delegado de Polícia de Porto Alegre, a pedido do Serviço Social da Indústria (SESI), investigou e pediu a ilegalidade da União Riograndense de Estudantes Secundários (URES), sob acusação que o grupo agia subversivamente, diante dos últimos acontecimentos políticos do país. A subversão, conforme o documento, configurava-se no uso de um alto falante em que os estudantes convocavam a população a se apresentar voluntariamente em defesa dos interesses político, dos que foram

  30 afastados do poder pelo estado autoritário.

  Além disso, observou-se que o regime civil-militar preocupava-se também com o conteúdo distribuído em escolas, universidade ou faculdades, pois não havia lugares mais propícios à formação de opinião, contra ou pró-governo. Todos os conteúdos distribuídos nestes lugares deviam ser analisados pelo Estado autoritário e verificando-se neles apenas uma palavra que sugerisse algo contrário ao sistema, seriam estritamente proibidos.

  Orientado por esta premissa, em 17 de setembro de 1968, circulou um ofício da Inspetoria Seccional de Porto Alegre destinado a todos os diretores de escolas estaduais do Rio Grande do Sul, com intuito de informar que as publicações distribuídas nas escolas, cujos títulos eram “Crescei” e “Viver”, introduzidas no nível ginasial, foram consideradas subversivas e, por isso, ficava proibido, nos estabelecimentos de ensino, o uso das duas

  31

  publicações. Tal procedimento evidencia um comportamento adotado pelo Governo, segundo o qual, a educação deveria ser usada como aliada do sistema político e nunca com palavras ou textos que possibilitassem a reflexão que, eventualmente, poderia levar a uma tomada de posição contrária ao modelo governamental vigente.

  Neste sentido, mais uma vez, é importante reforçar o papel fundamental exercido pelos estudantes na sociedade nacional, sugerindo-se que as bases estudantis marcaram, no Brasil, o enfrentamento à Ditadura e foram capazes de expor questões relevantes dentro e fora das instituições de ensino. Ainda que aparentemente derrotados, lutaram por uma sociedade democrática, adquirindo experiência em manifestações estudantis e, em conseqüência, em 30 manifestações políticas. 31 Documento da Delegacia Regional da Polícia, 14 Jul 1968.

  Faz-se pertinente ainda referir a grande habilidade dos estudantes da cidade de Porto Alegre para promoverem mobilizações contra o sistema civil-militar, principalmente após o Ato Institucional número cinco, (AI5), que aumentou ainda mais a repressão policial. Nas passeatas, por exemplo, tomavam algumas providências práticas, “os mastros das bandeiras deviam ser robustos e facilmente manejados” (p.66). Além disso, contra a Brigada Militar, eram utilizadas bolinhas de gude, que serviam para serem arremessadas com bodoque (estilingue), tornando-se importante instrumento de defesa, ou seja, impedindo o avanço da cavalaria (GUTIÉRREZ, 1999).

  Nos dias 21, 22 e 23 de junho de 1968, aconteceu “o primeiro encontro Estadual de Grêmios Estudantis” (p.70) no Auditório Araújo Viana em Porto Alegre, para o qual foram preparadas teses e resoluções. O objetivo final desta reunião era chamar a juventude para lutar contra o autoritarismo, em uma de suas teses, os estudantes afirmavam: “É tarefa desta geração, construir dos Andes ao Atlântico, da Patagônia às águas ensangüentadas do Rio Grande, uma América Livre, unida e do povo” (GUTIÉRREZ, 1999, p.72).

  No cenário sul-rio-grandense, a cidade de Santa Maria foi de grande importância no contexto nacional, destacando-se por ser posição-chave, era o centro controlador dos transportes ferroviários entre as áreas de guarnição do Estado e deste para o Norte do país e vice-versa. Assim, todos os acontecimentos do Rio Grande do Sul também dependiam de Santa Maria, que era a controladora estratégica do nó ferroviário (FIGUEIREDO, 1970).

  Também, a cidade de Santa Maria registrou incidentes relacionados a esse momento político. Um dos principais jornais da cidade divulgava a mensagem, “Ajudemos a Reerguer o Brasil” (p. 2), escrita pelo estudante Carlos Eduardo, que era presidente do Grêmio Estudantil Manoel Ribas, demonstrando também que, a partir daquele momento, começaria uma

  32 campanha na cidade para amenizar os problemas com o novo Governo.

  Entretanto, a atuação do regime autoritário no Estado, através de sua atuação firme em busca da adesão e do convencimento da população, manifestando o perigo àqueles que não seguissem suas ordens. Foi através de publicações da imprensa que os militares visavam a legitimar o golpe. Em um comunicado no jornal A Razão, da cidade de Santa Maria o Coronel Menna Barreto assim se refere:

  Os elementos ordeiros podem ficar perfeitamente tranqüilos, uma vez que a ação das forças armadas como já é tradicionalmente conhecida, será executada em alto nível

  33 32 de imparcialidade, justiça e elevado respeito á dignidade humana. 33 Jornal A Razão, Santa Maria, [p. 2] e 29 Abr 1964.

  Depreende-se do comunicado expedido pelo Coronel Menna Barreto que todos os indivíduos que estivessem à favor do regime civil-militar estavam com sua segurança garantida, não havendo, portanto, a necessidade de preocupação, mas aqueles que ultrapassassem as regras impostas sofreriam as conseqüências, ou seja, seria usada a ação repressiva para manter a ordem.

  No contexto em que se desenvolveram as ações pós-golpe militar, a atuação da Igreja Católica na sociedade, em especial a sul-rio-grandense, foi marcante. Na cidade de Santa Maria, o Bispo Dom Victor Sartori deixava clara a sua posição perante o novo Governo:

  A revolução Militar, ainda em curso, teve um objetivo imediato, urgente e inadiável que precisa ser consolidado, após a vitória incruenta das forças armadas, o objetivo de anular o iminente golpe marxista, comunista que ameaça o regime democrático brasileiro com uma ditadura totalitária. Importava demonstrar a máquina infernal marxista prestes a desfechar seu traiçoeiro golpe, como importa agora neutralizar a ação dos agentes da subversão da ordem e dos que com eles por motivos vários,

  

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estavam em franco conluio.

  Nota-se, com as palavras do Bispo, que houve consentimento e apoio ao novo regime político, pois, dentro dos setores católicos, existiu uma tendência em manter a ordem social, política e não deixar que qualquer tipo de ameaça desestruturasse o estado autoritário. Da mesma forma, o imaginário comunista envolveu setores da sociedade, bem como parte da Igreja, criando bases para a legitimação da instauração da nova proposta que permearia os âmbitos da estrutura política e sócio-econômica brasileira.

  Paralelamente, deve-se considerar que este posicionamento não foi unânime, pois a Igreja foi uma das instituições legais que esteve muitas vezes ao lado dos estudantes na luta contra a ditadura, considerando que a melhor gestão da UNE foi de inspiração Católica, de Aldo Arantes, cuja orientação nasceu o Centro Popular da Cultura (POERNER, 1968).

  Nesse universo, deve-se considerar que, dentro do movimento estudantil, se desenvolviam ações em conjunto com a Ação Popular (AP), fundada em 1962, por estudantes ligados à Juventude Operária Católica (JOC) e à Juventude Universitária Católica (JUC), que se desvincularam da Igreja Católica, pois não aceitavam a crescente politização dos seus membros (GORENDER, 1998).

  A atuação da Ação Popular (AP) no Rio Grande do Sul representava, de fato, um grande mote político, visto que os membros do grupo desenvolviam trabalhos de alfabetização e de conscientização junto aos trabalhadores rurais e urbanos e, por este motivo, sua atuação foi investigada a pedido do III Exército, que desejava entender as atividades do movimento político-estudantil. Nessa perspectiva, alguns integrantes da AP, como o professor da

  34

  Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Ernani Maria Fiori e mais alguns estudantes universitários foram investigados, além de serem analisados também

  35 os objetivos do grupo em nível Federal.

  De fato, qualquer grupo, que representasse ameaça ao Governo civil-militar, era investigado, por um longo período, até que fosse comprovada alguma ligação a grupos de esquerda, para assim tomarem as precauções necessárias e manter-se a ordem tão almejada pelo estado autoritário.

  Para a melhor compreensão do cenário vivido pelos estudantes na cidade de Santa Maria, antes mesmo do golpe civil-militar ser consolidado, foi realizada entrevista com o Professor Teófilo Torronteguy (2009). O primeiro contato de Torronteguy com o movimento estudantil foi em 1962 e, no ano seguinte, ele assumia uma posição de liderança dentro da União Santa-mariense de Estudantes (USE) que tinha sua sede na Rua do Acampamento.

  Segundo o professor, desde o ano de 1962, havia duas grandes bandeiras de trabalho dentro do movimento estudantil santa-mariense, a primeira delas era a alfabetização, pois os índices de analfabetismo no Brasil estavam, naquele período, muito elevados e os estudantes acreditavam que a educação era um dos pilares para o desenvolvimento do país. A segunda bandeira levantada pelos estudantes era contra a influência norte-americana no Brasil, os estudantes não aceitavam nenhum produto, filme ou música que viesse dos Estados Unidos, mas, sim, acreditavam que deviam valorizar o que era nacional. Nessa perspectiva, Teófilo explica que até mesmo o idioma norte-americano (inglês) não era aceito por muitos estudantes de Santa Maria, mas o Francês tinha prioridade. Assim, a USE tinha como princípio também valorizar tudo que era brasileiro e sul-rio-grandense para conservar as tradições, dando ênfase ao nacionalismo e ao progresso nacional.

  Conforme explica Torronteguy, existia entre os estudantes um forte apoio ao aparelho político de Jango. Pretende-se, no entanto, considerar que, dentro do movimento estudantil, havia várias tendências, vários grupos que divergiam apenas na maneira de expor seus ideais, mas que lutavam pelos mesmos objetivos. No ano de 1964, os estudantes de Santa Maria já esperavam que o golpe civil-militar fosse efetivado e mantiveram uma vigília por uma semana, na sede da USE, acompanhando o desenrolar dos fatos, através do rádio amador e só descansaram quando Jango, sem correr perigo, foi levado para o Uruguai (TORRONTEGUY, 2009).

  35

  Com a ditadura instaurada, já nos primeiros dias de abril, o exército ocupou a sede da USE, prendeu pessoas e destruiu grande parte dos objetos encontrados, a partir deste momento, aconteceu uma união ainda maior dos estudantes, que passaram a manifestar grande aversão aos militares na cidade de Santa Maria. É pertinente salientar que, dentro do movimento estudantil, havia pessoas que defendiam João Goulart, quando este estava no Governo, porém, quando os militares assumiram o poder, estas pessoas se afastaram do movimento estudantil e continuaram ao lado do Governo, aparentemente, abrindo mão de seus ideais.

  Para o professor entrevistado (2009), é importante descrever que, no período ditatorial, os estudantes foram torturados, sem ao menos saber o motivo de tal ato, em geral, a única acusação feita sobre eles era de serem comunistas. O entrevistado registra que entre os grupos estudantis na cidade de Santa Maria, os comunistas eram uma minoria, acreditando que era apenas um meio de justificar as atitudes repressivas do Governo autoritário. O professor Teófilo sofreu também as conseqüências da liderança estudantil da cidade, foi torturado, confinado e, como na época era menor de idade, os repressores tiveram o cuidado de “surrar com toalha molhada” para não deixar marcas no corpo (TORRONTEGUY, 2009).

  Através das palavras do professor Teófilo, foi possível perceber que o sistema político implantado agiu de forma violenta, com aqueles que não concordavam com suas propostas políticas, sendo que os estudantes entendiam que o plano educacional não atendia aos interesses dos estudantes no propósito de desenvolvimento nacional.

  E ainda, o professor afirma que, o ano de 1968 foi marcado por momentos “terríveis” em Santa Maria, pois todos sabiam sobre a sua participação em movimentos contra a ditadura, tornando-o um dos alvos principais do Governo civil-militar. O professor afirma que, quando o Ato Institucional foi assinado, uma grande quantidade de estudantes estava assistindo a um filme no cinema de Santa Maria e, em certo momento, entrou um rapaz gritando muito alto, “agora é ditadura, assinaram o AI5”. No mesmo momento, esvaziou-se o cinema, mas os estudantes, ao saírem à rua, depararam-se com a cavalaria militar, todos apanharam muito, e ele foi preso na Rua Astrogildo de Azevedo, quando tentava fugir. O professor permaneceu preso durante alguns dias, saindo irreconhecível, sem cabelo e com aparência bastante debilitada, teve sua casa invadida, várias vezes, livros foram saqueados e até mesmo objetos que não possuíam ligações com a política governamental desapareceram (TORRONNTEGUY, 2009).

  Independente da repressão imposta aos estudantes, é possível perceber a união entre força do movimento estudantil, ou seja, quanto mais a violência militar intensificava-se, mais os jovens organizavam-se, acelerando a luta de um movimento que sacudiu e marcou o país com suas atitudes ousadas e rebeldes.

  Percebe-se, que os estudantes, nessa época, sintetizaram uma geração que encaminhou conflitos, nas escolas, nas universidades e em muitos outros espaços da sociedade, sendo que seus questionamentos, suas atitudes e suas propostas continuam vivas e necessárias para os desafios pertinentes a contemporaneidade.

3.4 CONSIDERAđỏES FINAIS:

  Nesta pesquisa, identificou-se a reação dos estudantes, no período de 1964-1968, contra o estado autoritário e a busca das modificações estruturais, através de ações políticas e sociais, para a redemocratização do país.

  Entretanto, o quadro político brasileiro, em que se inseriram tais manifestações estudantis, foi em sua maioria, de crises governamentais. Desde a renúncia de Janio Quadros, até João Goulart assumir a Presidência da República, foram deflagrados diversos impasses políticos. Além disso, os estudantes tomaram para si o enfrentamento do regime instituído em março de 1964, associado a diferentes classes sociais, posicionaram-se frontalmente contra a nova ordem.

  Entende-se que o movimento estudantil representou para o Brasil, uma importante forma de oposição ao Estado autoritário, por este motivo, muitas vezes conseguiram atrair o apoio de setores da sociedade brasileira, pois se posicionavam também em defesa das estruturas administrativas das instituições de ensino.

  Nesse sentido, compreende-se que os representantes das classes estudantis brasileiras foram os que sofreram uma maior vigilância ou controle do sistema político, pois foram os que mais se manifestaram e lutaram contra o Estado autoritário. Observou-se que a morte do estudante Edson Luís, representou um marco durante o período estudado, pois, a partir de então, as manifestações estudantis canalizaram suas forças para lutar contra todo tipo de violência imposta à sociedade. Desta forma, o assassinato do estudante foi o estopim para a radicalização do movimento estudantil tanto no Brasil como no Rio Grande do Sul, entendendo que, quanto mais a polícia usava a violência e a repressão, mais os estudantes se uniam na luta contra o sistema político em vigor. Nesta ótica, percebeu- se que os conflitos entre o sistema civil-militar e os estudantes não foram poucos, houve diversas formas de enfrentamento em todo o país.

  Verificou-se também, a grande influência da ideologia norte-americana no projeto privatista da educação brasileira, que envolveu os acordos entre o MEC-USAID, na qual, defendiam o modelo de educação, direcionado para formação educacional dos jovens, diretamente ligado ao atendimento dos interesses dos Estados Unidos. Nesse sentido, o movimento estudantil demonstrou os mais expressivos meios de denúncia e reação contra a subordinação norte-americana.

  Quanto ao cenário político sul rio-grandense, com relação ao movimento estudantil, (1964-1968), sugere-se que houve uma simetria na luta e na mobilização estudantil empreendida em outras regiões do país, ao mesmo tempo em que os sul-rio-grandenses manifestavam-se sobre os mesmos acontecimentos estudantis no Brasil.

  Nesta perspectiva, constatou-se que tanto no Rio Grande do Sul, quanto no Brasil, existiu um índice muito alto de manifestações contra o regime autoritário. Assim, conclui-se que a grande parte dos estudantes buscava a redemocratização do país, pois através as inúmeras organizações estudantis, tinham como base mobilizações contra a Ditadura.

  Porém deve-se considerar que, no Rio Grande do Sul, havia não somente, estudantes que divergiam do sistema político, mas também existiam aqueles que apoiavam suas diretrizes. De uma maneira geral, os estudantes, possuíam grande interesse pela situação política nacional, da mesma forma que alguns militares tentavam conduzir a população através de seus preceitos, divulgando até mesmo notas em jornais, manifestando defesa dos postulados do Governo autoritário.

  Nessa ótica, percebe-se, de forma ampla, que as mobilizações estudantis, vinham sendo gestadas durante o período estudado, explodiram com força e intensidade no ano de 1968, que se caracterizou como o ano das passeatas, das greves e ainda foi o ano que uma parte considerável da população abraçou as reivindicações dos estudantes. Assim, 1968 foi um ano manchado de sangue, resultante de conflitos ocorridos em diferentes espaços da sociedade (escolas, universidades, faculdades) que presenciaram a defesa do processo democrático.

  Desta maneira, verificou-se que a sociedade brasileira e sul-rio-grandense teve seu cotidiano alterado significativamente entre os anos de 1964 e 1968, ao mesmo em tempo que os conflitos entre os estudantes e os aparelhos repressivos do Estado transformavam-se em algo que expunha a essência de um governo autoritário: a violência.

  Contudo, foi possível observar que, proporcionalmente ao aumento da violência policial, cresceu o descontentamento dos estudantes e de grande parte da sociedade com o estado autoritário. Porém, nem todos pensavam da mesma forma, houve aqueles que estavam dispostos a lutar até o último momento por uma sociedade mais justa, mas também haviam muitas pessoas que estavam interessadas apenas nos benefícios trazidos pelo movimento estudantil, como a assistência social prestada e a alfabetização, por exemplo.

  Desta forma, através do depoimento do professor TORRONTEGUY (2009), foi possível notar que muitos estudantes estavam realmente dispostos a mudar o país através da educação, para eles este era o meio encontrado e mais próximo, de mudar a as estruturas sociais do país nem que para isso, fosse pago um preço alto, através da repressão e da

  Assim, buscou-se demonstrar, com este trabalho, que o movimento estudantil foi um símbolo de enfrentamento da ditadura e conseguiu expor questões relevantes para as reflexões referentes à construção de uma nova sociedade.

  Conclui-se, através desta pesquisa, que jovens estudantes representaram um exército de heróis anônimos, que não estavam em busca de medalhas nem mesmo acomodações, mas sacrificaram a própria vida para que, no futuro, não carregassem o peso do imobilismo e do tolhimento das liberdades individuais.

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