Fabiane Koltermann OS CONFLITOS ESTUDANTIS NO BRASIL AUTORITÁRIO: RIO GRANDE DO SUL – 1964 A 1968

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Fabiane Koltermann

OS CONFLITOS ESTUDANTIS NO BRASIL AUTORITÁRIO: RIO GRANDE DO SUL – 1964 A 1968

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Fabiane Koltermann

OS CONFLITOS ESTUDANTIS NO BRASIL AUTORITÁRIO: RIO GRANDE DO SUL - 1964 A 1968

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Áreas de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado em História.

Orientadora: Lenir Cassel Agostini

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Fabiane Koltermann

OS CONFLITOS ESTUDANTIS NO BRASIL AUTORITÁRIO: RIO GRANDE DO SUL – 1964 A 1968

Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História – Áreas de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado em História.

________________________________________________________________ Lenir Cassel Agostini – Orientadora (Unifra)

________________________________________________________________ Roselâine Casanova Corrêa (Unifra)

_______________________________________________________________ Elisabeth Weber Medeiros (Unifra)

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AGRADECIMENTO

Agradeço à Mestra Lenir Cassel Agostini, por toda paciência e bom humor, pois sem suas orientações não teria conseguido desenvolver este trabalho;

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RESUMO

Esta pesquisa possui como temática a reação dos estudantes ao projeto autoritário brasileiro, entre 1964-1968 e fundamenta-se em fontes bibliográficas, documentais e oral. Nestas fontes, procurou-se identificar e estabelecer as aspirações manifestadas pelos estudantes quer no âmbito nacional, quer no contexto regional. Nesse sentido, o estudo engloba a queda do Presidente João Goulart (1961-1964) e ascensão dos militares ao Governo, que a partir de 1964, legitimaram-se no poder através de uma base de forças heterogêneas, consolidando-se por meio de Atos Institucionais, que objetivavam cumprir metas do novo sistema político, que se instaurava no Brasil. Nesse universo, o Rio Grande do Sul demonstrou simetria com o cenário nacional na luta contra o autoritarismo, por esse motivo, configurou-se como um espaço de observação para tal temática. Assim, percebe-se os propósitos estudantis em torno das manifestações desencadeadas em setores da sociedade brasileira, assim como os resultados dos seus atos perante o estado autoritário. Enfim, buscou-se com este trabalho, enfatizar que o movimento estudantil foi um símbolo de enfrentamento á Ditadura civil militar, e ainda, ressaltou questões relevantes para as reflexões referentes à construção de uma nova sociedade. Desse modo, entende-se que os estudantes representaram uma importante oposição social no Governo autoritário.

Palavras Chaves: Movimento estudantil. Resistência. Autoritarismo.

ABSTRACT

The main subject of this research consists of the students' reaction to the Brazilian authoritary project, from 1964 to 1968, based on bibliographic, documental and oral sources. Our aim is to identify and establish the students' aspirations expressed either on national and regional contexts. Accordingly, this study encompasses the fall of President João Goulart (1961-1964) and the rise of military power, which was legitimized in 1964 by a diverse power base, builded up through the establishment of "Atos Institucionais" (Institutional Acts), that intended to accomplish new goals to this new political system in Brazil. In this context, the whole country and specifically the Rio Grande do Sul state decided to fight against authoritarism, which is our main focus on this research. Therefore, it is perceived the purpose of student riots against military power and its influence towards the Rio Grande do Sul society, as well as the results of those actions, through the search for improvements in educational system emphasizing nationalism and the purpose of a fair society. Thus, it is understood that students represented a major opposition in the power autohoritary.

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SUMÁRIO

INTRODUCÃO... 7

1REFERENCIAL TEÓRICO... 9

2 METODOLOGIA... ... 12

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES... 13

3.1 Prenúncios para a instituição do autoritarismo brasileiro... 13

3.2 Os estudantes o autoritarismo no contexto nacional-1964-1968... 22

3.3. Rio Grande do Sul e os estudantes no regime autoritário-1964-1968... 31

3.4 Considerações Finais... 44

Referências bibliográficas... 47

Fontes Documentais... 49

Anexo A – Autorização de depoimento... 50

INTRODUÇÃO

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a inserção estudantil dentro desse contexto. Portanto, para a consecução do trabalho, fez-se necessário recompor a trajetória dos movimentos estudantis, inserindo os estudantes na história política, sem desvinculá-los do meio econômico e social em que atuaram.

Em um primeiro momento, traça-se os principais pressupostos do cenário político nacional, que culminaram com a realização do dito golpe civil-militar, bem como os principais responsáveis pelos projetos políticos que permeavam a atuação daquele movimento no cenário nacional.

Em seguida, buscou-se caracterizar as motivações que levaram os estudantes a engajar-se no contexto nacional de lutas, assim como os principais objetivos na luta contra o regime autoritário militar, em especial, a atuação do movimento estudantil no Rio Grande do Sul e a relação que seus membros mantinham com o contexto político e econômico nacional. Nesta perspectiva, a partir de 1964, as bases estudantis se reestruturam para poder articular-se contra o novo Governo. Assim, ocorrem manifestações dos estudantes no âmbito nacional, que são rapidamente reprimidas pela polícia, e que repercutem em todo Brasil. Em virtude desta nova postura, foi entre 1964 e 1968 que os estudantes fizeram-se ainda mais politizados. Dessa forma, estudantes resolvem lutar pela reforma universitária, em prol de mudanças na educação, que incluíam mais verbas, a modernização do ensino e a superação do arcaísmo das instituições universitárias.

Dá-se ênfase ao Rio Grande do Sul, através de fontes documentais, para identificar a presença dos estudantes no Estado, sua atuação, os valores que os moviam, sua consonância com os desejos nacionais e, para tal, muitas vezes, se estabelece as semelhanças deste grupo com o macro universo nacional.

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Diante destas premissas, este trabalho teve como base demonstrar o clima de tensão, que se decodificou em vários episódios, em que cada disputa e embate direto com o autoritarismo faziam fortificar o movimento estudantil.

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A pesquisa em pauta, isto é, a reação dos estudantes e o contexto do autoritarismo brasileiro entre os anos 1964 e 1968, demandou a consulta a autores como René Rémond (1996), Norberto Bobbio (2003), Francisco Falcon (1997), Paulo Bonavides (1997) e Vera Alice C. Silva (1990). As ponderações destes autores a respeito do tema serviram como base para o desenvolvimento da pesquisa, assim como pautarão a interpretação das fontes documentais.

Desta forma, a pesquisa prioriza a história política vista de baixo para cima, ou seja, ela enfatiza os acontecimentos que não estão relacionados a figuras ilustres e nenhum fato vinculado às grandes personalidades, mas, sim, priorizará o estudo de relações sociais e políticas entre o movimento estudantil e o Governo autoritário sob a ótica dos estudantes, cujos nomes provavelmente não integram o rol daqueles elencados nos compêndios escolares.

De acordo com Rémond (1996), a política como estudo tem uma dinâmica própria e não tem limites, refere-se a uma relação direta com o Estado e a sociedade num todo, podendo abordar as relações de poder desenvolvidas por determinados grupos sociais, como o movimento estudantil, os sindicalistas e os operários. Portanto, sob tal perspectiva, a política está constantemente sendo discutida e renovada. Assim, não se deve estudar política isoladamente, mas se deve inseri-la em um contexto que contemple várias áreas do conhecimento, pois a Nova História política não é estática e nem linear, mas plena em mudanças e rupturas dentro da sociedade.

Conforme expõe Falcon (1997), a abordagem do aspecto político vai muito além do tradicional e se volta a novos temas de estudo, entre os quais estão: os “imaginários sociais”, as “memórias coletivas”, bem como outras “práticas de poder” (p.76). Assim, para construir uma Nova História política, alguns historiadores aliam-se a outras disciplinas, como a Sociologia, por exemplo, que é capaz de oferecer visão diferenciada para o leitor. Dessa forma, para a realização deste trabalho, foram consultados autores com visões, políticas e sociais, diferentes para, deste modo, estabelecer-se uma relação mais precisa entre o Estado autoritário e o movimento estudantil.

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Ainda em consonância com as considerações de Bobbio (2003), propõe-se definir o conceito de esquerda e direita para contextualizar o processo revolucionário do golpe civil-militar. O conceito de esquerda define como uma reunião de grupos que buscavam mobilizar as massas, tornarem o povo politicamente ativo e consciente do seu papel como agente transformador da sociedade. Esses grupos recebiam o nome de “Partidos de Organização de Massas’’ (p. 902). Já a direita era formada por um grupo que desconfiava de tudo que fosse contrário ao sistema tradicional, conservador e preocupava-se com qualquer tipo de movimento, seja ele social ou político, colocando-se de maneira contrária a qualquer programa que visasse mudanças profundas na sociedade. O mesmo autor afirma que conflitos tornam-se evidentes, quando uma sociedade está passando por inúmeras transformações, ainda mais se influenciarem a ordem tradicional desta sociedade.

Por seu turno, Bonavides (1997) acrescenta que a direita se define como um partido de opinião e a esquerda como um partido de massa, enfatizando que entre estes dois surge o conflito, pois enquanto a direita defende que a estrutura deve manter-se da maneira que se encontra, não importando se for social, econômica ou política, por outro lado, o partido de esquerda coloca que deve haver mudanças nessas mesmas estruturas.

Nessa ótica é viável buscar conceitos de esquerda e de direita de Bobbio (2003) e Bonavides (1997) para poder contextualizarem-se os acontecimentos do movimento estudantil, conflitos desencadeados entre o Governo autoritário e os estudantes, (direita e esquerda, respectivamente,) no regime militar que propiciaram não somente um delineamento do contexto político, mas entender também os aspectos econômico e o social.

Buscou-se também, Bobbio (2003), para perceber o significado do uso das palavras “autoritarismo,” e “Ditadura”. Na avaliação do autor o termo autoritário, significa o regime que privilegia a autoridade governamental e diminui de forma mais radical o consenso, concentrando o poder político nas mãos de uma pessoa ou de um só órgão, colocando em posição secundária as instituições representativas. Já o termo Ditadura, representa para Bobbio (2003), uma ruptura da tradição, instalando-se através da “mobilização política de uma grande parte da sociedade, ao mesmo tempo em que subjuga com violência a outra parte” (p.371).

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engajado, comprometido com a crítica contínua à sociedade, ou seja, é fugir das regras impostas e criar alternativas.

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2 METODOLOGIA

Para pesquisa da temática “A reação dos estudantes ao projeto autoritário brasileiro” (1964-1968) buscam-se inicialmente, fontes bibliográficas relacionadas ao tema desenvolvido, as quais forneceram informações necessárias à produção da pesquisa em fontes primárias. O manuseio das fontes bibliográficas, por sua vez, disponibilizou a composição do contexto brasileiro no período de 1964-1968, assim como a identificação dos estudantes neste cenário. Para a efetivação deste trabalho, houve a abordagem de vários autores, entre os quais estão: Moniz Bandeira (1978), Jorge Ferreira (2007), Jacob Gorender (1998), Thomas Skidmore (1969), Arthur Poerner (1968), Marcelo Ridenti (1993), Ernesto Soto (2008), Maria Helena Paes (1993), Carrion Junior (1989), Marco A.Villa (2004), aliados a documentos dos jornais Correio da Manhã e Jornal do Brasil, disponíveis no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, localizado na Praia de Botafogo, 480 – bairro Botafogo.

Para identificar o movimento estudantil no Rio Grande do Sul, relacionando-o ao nacional, as fontes bibliográficas foram: Silvia Simões (2006), Bruna Sirtori (2003), Arthur F. Filho (1974), M.Poppe de Figueiredo (1970), Cláudio A. Gutiérrez (1999), além processos políticos da Delegacia de Ordem Política e Social do Rio Grande do Sul (DOPS/RS), referentes ao acervo de luta contra a ditadura Militar, disponibilizados no sistema de arquivos do Estado, na Praça da Alfândega, em Porto Alegre, localizado no Museu da Comunicação Hipólito da Costa, e também disponíveis nos jornais Correio do Povo, existentes no arquivo do jornal, na Rua Caldas Junior, em Porto Alegre, e A Razão de Santa Maria, que os mantém em seu arquivo interno. Ademais, deve-se registrar o depoimento do Professor Teófilo Otoni Vasconcelos Torronteguy1.

1 Foi um dos representantes do movimento estudantil em 1964, da cidade de Santa Maria. Atualmente é Professor

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3 RESULTADOS E DISCUSSÕES

3.1 Prenúncios para a instituição do Autoritarismo Brasileiro.

O sistema eleitoral de 1960 possibilitou que, nas eleições presidenciais, fossem escolhidos candidatos de partidos políticos opositores. Assim, naquelas eleições, saíram vitoriosos Janio Quadros como Presidente, representado o Partido Trabalhista Nacional (PTN), contando com o apoio da União Democrática Nacional (UDN) e, para Vice-Presidente, João Goulart, o Jango, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).

Janio Quadros enfrentou uma grave crise econômica durante seu governo, a qual resultou da inflação ascendente, da dívida externa a pagar e da balança comercial deficitária, aliadas às grandes dificuldades para importar bens essenciais ao país (SKIDMORE, 1969).

Neste contexto, Janio Quadros adotou algumas medidas como meio de enfrentar os problemas em seu regime político. Uma delas foi o plano que incluía a diminuição dos incentivos concedidos ao petróleo e ao trigo juntamente com o aumento das importações. Estas medidas desencadeadas pelo Presidente trouxeram conseqüências negativas para seu Governo, diante da população brasileira, pois ocasionaram o aumento de preços, da inflação e uma recessão salarial (SKIDMORE, 1969).

Desta forma, o resultado dessa política econômica trouxe a elevação do custo de vida e o desgaste da popularidade do regime político. Diante disto, o Presidente percebeu que não conseguiria alcançar seus objetivos em termos democráticos. Neste aspecto, faz-se pertinente referir que o primeiro passo de Janio Quadros foi governar o país sem compromissos partidários, distanciando-se da UDN, que o ajudou a vencer as eleições de 1960. Carlos Lacerda2 percebeu que estava sendo preterido e iniciou uma escalada de acusações contra o Presidente. Mal completados sete meses de governo, Janio Quadros renunciou, em 25 de agosto de 1961 (BANDEIRA, 1978). Entende-se que sem apoio político, e ainda com o descrédito da população, Janio buscou como solução a renúncia ao cargo de Presidente da Republica, acreditando que este ato geraria uma mobilização popular em favor de seu retorno. Porém, o Congresso Nacional aceitou a renúncia de Janio Quadros com tranqüilidade, como um ato unilateral, em que não foi discutida a possibilidade de seu retorno ao Governo. Os Ministros militares, do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, se posicionaram contra a posse de Goulart, que, naquele momento, estava em missão oficial na República Popular da

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China. Atribuíam-se, então, a João Goulart, vinculações com o comunismo (BANDEIRA, 1978).

Ademais, diversos setores da sociedade brasileira não queriam a posse do Vice-Presidente João Goulart como Vice-Presidente, pois este tinha uma grande aproximação com a Classe Operária. Verifica-se, pois, que surgiu um impasse quanto à posse de Jango ao cargo de Presidente da República e a conseqüência destes fatos foi uma grave crise política para o país.

Resistências de setores militares colocaram-se em grande mobilização pró e contra a posse de Goulart na Presidência da República. De acordo com a Constituição, no caso de vacância do cargo de presidente, o substituto imediato seria o Vice-Presidente e, na impossibilidade deste, o Presidente da Câmara dos Deputados. Assim, dada a ausência do Vice-Presidente, Pascoal Ranieri Mazzilli assumiu interinamente o poder (FERREIRA, 2007). A crise, propriamente dita, começou a se definir no momento em que Leonel Brizola, Governador do Rio Grande do Sul, mobilizou parte do Exército e da população de Porto Alegre em defesa da Legalidade. Nesse cenário, o movimento da legalidade foi um movimento organizado por Brizola que, com o uso diário do rádio, movimentando grande parte da sociedade gaúcha, entre os quais estavam os estudantes, tinha por meta a posse de João Goulart, pois defendia o cumprimento da Constituição Federal (1946) que estipulava que, por direito, o Vice-Presidente deveria assumir o cargo do Presidente da República (COSTA, 2007).

Parece ser consenso que o movimento da Legalidade foi de grande importância nacional, pois despertou, em algumas pessoas, uma maior conscientização política, influenciando até mesmo os militares que dela participaram, dando intensidade política e influência a outros companheiros de armas.

Para conter a crise política e militar, porém, o Congresso Nacional, através de negociações políticas, instituiu o sistema de político chamado Parlamentarismo, em que o chefe de Governo seria o Primeiro Ministro e o Chefe de Estado, o Presidente, deste modo, as funções governamentais ficariam divididas.

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grupos de esquerda, entre eles incluindo-se os estudantes, com grande influência de Leonel Brizola.

Nessa arena política, Jango tinha consigo uma larga experiência na política Federal, o que lhe dava uma diferente visão dos problemas brasileiros3. Nesta perspectiva, a política governamental janguista resultou na elevação dos preços, como conseqüência às emissões destinadas aos créditos das empresas privadas e à cobertura do déficit do Tesouro Nacional. O Governo do Primeiro-Ministro Tancredo Neves não conseguiu conter essas necessidades e a inflação acelerou de forma extraordinária, junto com o aumento dos conflitos sociais e a inquietação política. O sistema político de Jango sofreu, então, pressões políticas exercidas por dirigentes da União Democrática Nacional (UDN) e do Partido Social Democrata (PSD) de alguns estados4 para a derrubada do Gabinete de Tancredo Neves. Enquanto isso, as primeiras medidas do regime Parlamentarista foram tomadas, e entre elas, o cancelamento da autorização do truste Hanna Corporation, dos Estados Unidos, para exploração de jazidas em

Minas Gerais, mantendo assim a política externa independente. Em pouco tempo, o Ministro das Relações Exteriores, Francisco de San Tiago Dantas restabeleceu as relações diplomáticas com a União Soviética, assim como continuou a repelir as sanções contra Cuba propostas pelos Estados Unidos. Além disso, a reforma agrária se tornou uma das mais fortes reivindicações, de parte da sociedade brasileira, representada, na maioria das vezes, por grupos de esquerda (BANDEIRA, 1978).

Além de tudo Goulart deveria resolver o problema da questão agrária, pois esta deixa de ser retórica urbana e se concretiza em lutas armadas. Em 1961, ocorrera o Primeiro Congresso Nacional de Lavradores e Trabalhadores Agrícolas, em Belo Horizonte, onde foi aprovada a Declaração sobre a reforma agrária. Firmou-se o teto para propriedade rural, recomendou-se a reforma constitucional para realização das desapropriações e estabeleceu-se a distribuição das terras desapropriadas, como forma de propriedade camponesa, individual ou associada. E, como conseqüência desta discussão, a reforma agrária passou a ser adotada por diversos partidos em diferentes projetos de reforma agrária (GORENDER, 1998). Nessa discussão, os posicionamentos dos autores pesquisados divergem em alguns aspectos. Enquanto Skidmore (1969) afirma que o projeto da Reforma agrária, desenvolvido por Goulart, tinha objetivo de produzir mudanças de ordem política econômica e social no Brasil,

3 João Goulart na sua vida pública, foi Secretário de Justiça do Rio Grande Do Sul ( Governo Ernesto Dorneles),

Deputado Estadual e Federal, participou do Ministério do Trabalho por duas vezes, foi Vice-Presidente e Presidente do Senado ao mesmo tempo (BANDEIRA, 1978, p. 45).

4 Cid Sampaio (Pernambuco), Magalhães Pinto (Minas Gerais), Juraci Magalhães (Bahia) e Carvalho Pinto (São

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Villa (2004) considera que o objetivo de Jango, com o projeto da reforma agrária, era apenas político, uma vez que o Presidente era um grande proprietário de terras e nunca havia prometido fazer efetivamente a reforma agrária no país. Para Villa (2004), o único projeto desenvolvido em seu Governo seria utilizado para que Jango adquirisse notoriedade política junto à população.

Compreende-se assim, que a reforma agrária estava entre os pontos de maior importância do Governo de Jango, pois gerava divergências, alguns grupos defendiam-na com uma base mais moderada e legal e outros apoiavam de forma mais radical, através da luta armada, e ainda havia muitos grupos conservadores que não queriam a reforma agrária.

No ano de 1962, outro acontecimento modificaria o contexto político do Governo de Jango. O Gabinete de Tancredo Neves renunciou, afirmando que seus membros necessitavam se preparar para novas eleições (em outubro), julgando o momento certo de reconquistar poderes, Jango busca apoio no movimento operário e em correntes nacionalistas, reaquecendo o populismo5.

Nesta ocasião, foi aprovado pelo Congresso para Primeiro-Ministro o pessedista Auro de Moura Andrade e não o indicado San Tiago Dantas. Por este motivo, proclamou-se uma greve6 com o objetivo de obter um gabinete e um Primeiro-Ministro favoráveis ao programa de reformas. Houve saques, conflitos com mortos e feridos, em razão disso, o Congresso aprovou a indicação de Brochado da Rocha, que representava o Partido Trabalhista do Rio Grande do Sul e não era muito conhecido nacionalmente. O resultado foi uma crise parlamentar que determinou o movimento pela antecipação da consulta plebiscitária a respeito do regime vigente, que era prevista para 1965. Como conseqüência, aconteceu uma greve nacional, com menos intensidade, mesmo assim o Congresso aprovou o Ato Adicional e antecipou o plebiscito para seis de janeiro de 1963, juntamente com a substituição do Primeiro-Ministro Brochado da Rocha por Hermes de Lima (GORENDER, 1998).

Deve-se registrar, neste ponto, que grande parte dos políticos se posicionou a favor da volta ao presidencialismo, defendendo a mesma postura dos trabalhadores, que queriam dar um voto de confiança ao Presidente da República, que vinha defendendo publicamente a modificação estrutural na sociedade brasileira.

5 O populismo é uma maneira de exercitar o poder, onde um Governante carismático e autoritário procura o

contato direto com as classes sociais de menor poder aquisitivo, normalmente, mas não necessariamente, sem a intermediação de partidos políticos. O objetivo é conquistar a confiança e a simpatia das massas e indiretamente canalizar para seus interesses, votos, prestigio e poder, exercendo uma dominação que não é percebida por quem é dominado(IANNI, 1998, p. 55).

6 A greve foi praticamente completa nos serviços públicos, nas empresas estatais, no setor bancário, mas parcial,

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Contudo, Jango buscava o presidencialismo sem deixar de lado as reformas de base7, e não esquecendo que os candidatos de 1965 também queriam as eleições presidenciais. Com uma proporção significante, o plebiscito de janeiro de 1963 assinalou não ao regime parlamentar e Jango interpretou como sua própria vitória.

O novo regime político de Goulart foi formado com o intuito de buscar ajuda dos Estados Unidos para poder negociar novos empréstimos e renegociar a dívida brasileira (GORENDER, 1998). Outra medida adotada por Jango foi o combate da inflação, com o projeto de Governo conhecido como Plano Trienal, formulado por Celso Furtado, Ministro Extraordinário do Planejamento. Logo após, buscaria os programas de reformas de base e, em particular, a agrária. Alguns setores da sociedade, considerados mais radicais, não aceitaram o plano, pois através dele, conforme estes setores, o Brasil deveria se submeter aos Estados Unidos (FERREIRA, 2007).

O Plano Trienal buscava a continuidade do desenvolvimento do País, através do controle da inflação. O então Ministro da Fazenda, San Tiago Dantas, também pautou-se pela determinação de meios para estabilizar a moeda, isto tudo visando à possível colaboração dos Estados Unidos.

O sistema político governamental, porém, não conseguiu ir às últimas conseqüências e seguir combatendo a inflação, pois, apesar de existir um acordo para não permitir a expansão dos salários, era muito difícil, naquele momento, controlar movimentos sociais que se organizavam cada vez mais, como o operário, por exemplo, que conquistava independência a cada dia, e ainda possuía bases em pactos sindicais (BANDEIRA, 1978).

Evidencia-se, desta forma, que o movimento operário foi um obstáculo para colocar em prática o Plano Trienal, pois Goulart não podia concordar com qualquer tipo de medida, especialmente, se essa medida fosse contra os direitos dos trabalhadores. Na verdade, o Governo possuía metas de incentivo à sindicalização e sempre defendera, em discursos, a não compressão dos salários, logo o Plano Trienal era um contra senso não aceito pelos trabalhadores.

Nesta perspectiva, em março de 1963, San Tiago Dantas viajou a Washington para discutir um plano de ajuda do Governo norte-americano ao Brasil, bem como a renegociação das dívidas do país. Os Estados Unidos, embora demonstrassem algum empenho em

7No período de 1961-1964, verifica-se a emergência de um Executivo, que se distinguiu fundamentalmente pela

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colaborar, condicionaram sua ajuda à execução de um programa de estabilização econômica e de combate à inflação que seria analisado por uma comissão do Fundo Monetário Internacional (FMI), encarregada de visitar o Brasil em maio. Além disso, os norte-americanos exigiam a solução do problema das desapropriações das empresas concessionárias de serviços públicos, American & Foreign Power Company (Amforp) e as subsidiárias da

International Telephone Telegraph (ITT) (FERREIRA, 2007).

Neste cenário, as medidas adotadas por San Tiago Dantas fizeram com que muitos políticos passassem a combater o Plano Trienal, principalmente Leonel Brizola, que ainda incluiu acusações de submissão ao plano, devido às exigências norte-americanas, deixando claro que se o aparelho governamental de João Goulart as efetivasse, criaria uma situação que não poderia ser revertida no país.

A par das questões econômicas e políticas externas, o quadro interno foi ainda mais agravado a partir de maio de 1963, quando Brizola se fortaleceu dentro de seu partido, denunciou um acordo entre o governo brasileiro e a Amforp, que estipularia a compra de bens da empresa norte-americana no Brasil por preço muito abaixo do seu valor real. Em pronunciamento transmitido pelo rádio e pela televisão, Brizola não perdeu tempo e acusou alguns Ministros, todos os membros da comissão que estavam encarregados de negociar a compra da Amforp, censurando-lhes por não ter lealdade aos interesses do país, e então procurou demonstrar que todas as empresas da Amforp já tinham recuperado o valor de seus investimentos (GORENDER, 1978).

Compreende-se que o motivo que liquidou com a política econômica e, de certa forma, com o regime democrático do sistema político de Jango foi a grande contradição entre a busca pela acumulação capitalista e a tentativa de restabelecer a economia sem penalizar os trabalhadores.

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Em uma retrospectiva do sistema Janguista, deve-se considerar que ele também atuou na educação brasileira com a elaboração do Programa de Emergência8, em 1962, vindo, mais tarde, compor o Plano Nacional da Educação9 que obteve recursos de entidades públicas e privadas. Além disso, Jango ofereceu incentivo para a formação de sindicatos rurais, assim como reconheceu a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura e ainda determinou a regulamentação do Estatuto do Trabalhador Rural, além de outros investimentos em diversas áreas (BANDEIRA, 1978).

Observa-se, desta forma, uma dualidade no aparelho político, visto que Jango, em muitos momentos, contrariou os interesses internacionais, principalmente os norte-americanos, obtendo, como conseqüência, o afastamento da possibilidade de conciliação entre os dois países.

Sob tal perspectiva, o Governo dos Estados Unidos da América já estava convencido que deveria tirar Goulart do Governo Brasileiro, como meio para conter o avanço das massas, criando condições para o Golpe de Estado no Brasil. Entretanto, destaca-se que a crise brasileira estava evoluindo, tanto por meio interno, como pelo confronto com os EUA, até mesmo dentro do exército, havia manifestações contra qualquer tipo de greve, os superiores hierárquicos mostrando-se dispostos a qualquer coisa para reprimi-las. Enfim, estava cada vez mais evidente que qualquer tipo de preconceito em relação às lutas de classes se desnudava e que todas as entidades governamentais podiam se expressar livremente, inclusive revelar sem constrangimento a vontade de guerra civil e deposição do Governo (BANDEIRA, 1978).

Entretanto, as confrontações se sucediam com maior freqüência e dureza. No dia 30 de dezembro de 1963, Carlos Lacerda faria um discurso no encerramento na Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro. Porém, dois mil estudantes impediram o ingresso do Governador, ameaçando entrar a força, com o apoio da Policia Militar e tropas do Exército, eles obtiveram êxito, pois Lacerda não discursou, mas publicou uma carta indignada ao comandante do I Exército, General Moraes Ancora dizendo:

Começou ontem, sob a proteção abusiva e violenta de Tropas do Exército, sujeitas ao seu comando, a revolução bolchevique brasileira.[...] Não existe mais nesta hora

8 Programa de Emergência do Ministério da Educação e Cultura referia-se aos ensinos primários e médios, ao

Conselho de Ministros. Foi aprovado por decreto do Conselho, o Programa permitiu a aplicação de recursos significativos em convênios assinados entre o governo federal e os governos estaduais visando à ampliação de matrículas e à intensificação da escolaridade (POERNER, 1968).

9Em outubro de 1962 foi homologado o 1º Plano Nacional de Educação, elaborado pelo Conselho Federal de

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no País nem lei, nem autoridade pública, nem classes armadas, no sentido que define a constituição (GORENDER,1998, p. 66).

É nesse universo que, no dia 13 de março, sexta-feira, ocorreu o comício na Central do Brasil, Jango aproveitou a oportunidade, junto de Brizola, e falou na reforma da Constituição e, se preciso, no fechamento do Congresso Nacional. Logo após, ao invés de ameaças, tentou impressionar com o Decreto de encampação de refinarias particulares e declarou sujeitas à desapropriação as propriedades rurais superiores a quinhentos hectares, nas vias federais, e maiores que trinta hectares, as que estivessem próximo a açudes e obras de irrigação financiadas pelo Governo, (decreto da Superintendência de Política Agrária, SUPRA) 10. No dia 15 de março, Goulart encaminhou ao Congresso um amplo projeto de reformas, que incluía a constitucional (desapropriação de terras) e a elegibilidade dos subalternos das Forças Armadas. Em 19 de março do mesmo ano, ocorreu, em São Paulo, a chamada “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, tendo um número significativo de participantes (GORENDER, 1998).

Contudo, o incidente que culminou com o Golpe civil-militar, e que seria decisivo, perante os novos rumos as serem seguido no país, foi a assembléia dos Marinheiros do dia 25 de março de 1964. Acontecia uma comemoração de aniversário da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais no Rio de Janeiro, naquele espaço, deu-se o discurso do presidente da associação José Anselmo dos Santos, para uma grande platéia. O ambiente estava tenso, pois membros da diretoria e outros marinheiros tinham sofrido punições que resultariam em expulsão, até mesmo do presidente Anselmo, e, por este motivo, no final da solenidade, todos se voltaram para o Ministério da Marinha, exigindo que o Almirante Silvio Mota anulasse as punições. Porém, Silvio Mota mandou que cem fuzileiros navais invadissem a assembléia e prendessem os manifestantes insubordinados, grande parte deles, os fuzileiros, abandonou as armas e aderiu à rebelião.

Jango nomeou outro ministro da Marinha (Paulo Mário Rodrigues) que anulou as ordens de prisão e se entendeu com os rebeldes. Alguns marinheiros concordaram em sair do sindicato e, depois de identificados pela polícia, foram anistiados, mas os oficiais não permitiram que eles retornassem a bordo de navios das Forças Armadas. O resultado destas

10 O decreto da SUPRA, que o presidente João Goulart assinou declara de interesse social, para fins de

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medidas configurou-se como o estopim da crise política e o clube naval se colocou em assembléia permanente (GORENDER, 1998).

Nesse universo, o início do ano de 1964 mostrava-se preocupante para a manutenção da ordem democrática, as posições políticas acirravam-se, o cenário enfrentado pelo Presidente Jango era muito complicado, devido às bandeiras de ameaça comunista e da quebra da legalidade constitucional por parte do Governo. Assim, o tamanho da crise enfrentada pelo Governo de Jango, envolvendo agora questões de hierarquia e disciplina militar, aumentara. Ciente desse cenário, João Goulart, no entanto, não deixou de comparecer à solenidade de posse da nova diretoria da Associação dos Sargentos no Automóvel Clube, no dia 30 de março de 1964.

Contudo, prestigiar uma festa de subalternos das Forças Armadas, e ainda mais sob cinzas de um motim de marinheiros, era no mínimo um atrevimento de Jango, especialmente sob a ótica dos oficiais das Forças Armadas.11

Diante destes fatos, no dia 31 de março, o Presidente encontrou, nos jornais, um texto pregando sua deposição, o título de um dos jornais era “Fora” e, para completar, o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, declarara o rompimento daquela casa com o Governo, pedindo que as Forças Armadas interviessem no processo político e restabelecessem a ordem. Jango, por meio de telefonemas, estabeleceu contato com os generais para que eles mantivessem fidelidade ao seu Governo, porém não logrou êxito, pois a maioria aderiu ao movimento civil-militar (FERREIRA, 2007).

Em primeiro de abril de 1964, a regime político de João Goulart estava com as horas contadas. No Palácio das Laranjeiras, ele recebeu um ultimato de seus generais. Não tendo muitas opções, Jango viajou para Brasília, depois para Porto Alegre e, lá, analisou a situação, concluindo que havia alto risco de guerra civil, além de existir a informação de apoio e interesse norte-americano no movimento civil-militar. Neste contexto, o presidente renunciou, exilando-se, em seguida, no Uruguai (FERREIRA, 2007).

Na verdade, conforme os estudiosos do período, durante o regime político de João Goulart, houve a falta de um rumo coerente a ser seguido, pois Jango ora sinalizava com uma guinada à direita, ora buscava a esquerda. De acordo com Bonavides (2007), à direita, estão inclusos todos os grupos que defendem a manutenção das bases sociais, enquanto aqueles que

11 A ameaça de desequilíbrio disciplinar e hierárquico nas Forças Armadas demonstrou ser um fator decisivo

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se consideravam de esquerda pretendem promover mudanças profundas nessas mesmas bases sociais.

Entretanto, não é correto atribuir o cenário do golpe civil-militar12 apenas a João Goulart, mas, sim, deve-se considerar que existiu um grande crescimento de contradições políticas, sociais e econômicas e que parte da elite defendeu o rompimento da legalidade Constitucional como solução (VILLA, 2004).

Enfim, durante os primeiros meses de 1964, esboçou-se uma situação de caos, definindo o golpe direitista, sendo que a classe dominante, aliada aos EUA, possuía razões para agir e defender seus interesses. Neste sentido, Gorender assinala:

O que fez com que a esquerda fracassasse foi à falta de união entre as várias correntes, a competição entre pessoas que detinham o comando, as insuficiências organizativas, sem esquecer os erros desastrosos acumulados, junto da ilusão reboquistas e as incontinências retóricas, portanto houve a possibilidade de vencer, mas ela foi perdida, e ainda de maneira desmoralizante (1998, p. 73)

Nota-se que o autor destaca como causa da nova política governamental, a grande desestruturação da sociedade brasileira, pois não havia, nela, força necessária para combater o autoritarismo militar. Assim entendido, apesar do golpe ter sido efetivado nos comícios de março de 1964, a intervenção das Forças Armadas vinha sendo preparada desde os primeiros dias da posse de Jango no regime parlamentarista.

Como conseqüência da nova ordem instituída no país e ainda como correlato dos fatos ocorridos no período janguista, o movimento estudantil adquiriu significação no contexto nacional, inicialmente, manifestando-se a favor da reforma universitária e, mais tarde, combatendo abertamente o Governo civil-militar. Em razão disso, o capítulo seguinte desta pesquisa abre-se para as manifestações estudantis durante o Estado autoritário no Brasil e mais especificamente no Rio Grande do Sul.

3.2 Os estudantes e o autoritarismo no contexto nacional - 1964-1968.

No dia 15 de abril de 1964, Castelo Branco assumiu a Presidência da República, porém as primeiras cassações de mandatos, suspensões de direitos políticos e transferência de militares para a reserva foram feitas sob o Comando Supremo da Revolução, antes de sua

12 O relacionamento civil-militar corresponde à legitimidade dos militares, sob certas circunstâncias, para agirem

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posse. Os primeiros Atos Institucionais13 foram aplicados a partir do dia nove de abril com o objetivo de “limpar” tudo e todos que estivessem contra os interesses do novo regime político, que se pautou por um discurso anticomunista e anticorrupção (SILVA, 1975).

Mais tarde, o sistema partidário foi reorganizado pelo Ato Institucional número dois, (AI-2), em dois partidos, a Aliança Renovadora Nacional (Arena), governista, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), de oposição. O governo exercia-se, então, na prática, por meio dos Atos Institucionais, que foram sendo editados de acordo com as necessidades do momento e do regime civil-militar (SILVA, 1975).

A política econômica do Governo de Castelo Branco foi instaurar a recessão salarial como meio de controlar a inflação. Como resultado desta ação, o regime político propiciou falências, concordatas e desemprego, juntamente com a política de controle dos salários, com intervenções diretas nas relações de trabalho, com o direito de eliminar negociações entre trabalhadores e patrões, estabelecendo índices de reajustes salariais, com base no cálculo das inflações anteriores, fato que determinava que os salários se mantivessem muito abaixo da inflação real. Pela forma como a economia foi conduzida, a redução dos salários deveria financiar o crescimento econômico. Nesse contexto, havia um total controle sobre os sindicatos e as greves eram extremamente proibidas, o Ministério do Trabalho passou a estar diretamente ligado a essas repressões (PAES, 1993).

Do ponto de vista da organização estudantil, a UNE14 e o próprio movimento estudantil brasileiro se confundem inteiramente, a partir de 1964, com a história da repressão às liberdades. Desde aquela época, os estudantes passaram automaticamente a condição de elementos de alta periculosidade para a segurança nacional, aos olhares atentos das novas autoridades. Em razão disso, ser estudante representava ser alheio às normas e ao sistema político ditatorial. Assim, a repressão policial militar sofrida pelos estudantes, sob o Governo do Marechal Castelo Branco, produziu um estado de perplexidade numa geração que somente conhecera ditadura através dos relatos dos mais velhos ou pela leitura de livros (POERNER, 1968).

Os depoimentos dos estudantes Antônio Noronha Filho e Pedro Meira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, evidenciam o cenário enfrentado:

13 Foram decretos emitidos após o Golpe civil-militar de 1964 no Brasil. Serviram como mecanismos de

legitimação e legalização das ações políticas dos militares, estabelecendo para eles próprios diversos poderes extra-constitucionais (SILVA, 1975).

14 - A União Nacional dos Estudantes (UNE), nasceu em 13 de agosto de 1937, na Casa do Estudante do Brasil,

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No dia 1 de abril de 1964, o golpe militar mostrou, instantaneamente, a sua disposição com os Estudantes. Destituído o governo legal, a UNE foi invadida, saqueada e queimada num paroxismo de ódio que escapa ao terreno puramente político para cair na esfera psiquiátrica. A ditadura, impondo ao país um curso de desenvolvimento em que todos os aspectos da vida nacional se subordinam ao interesses de outra nação (Jornal do Brasil, 6 de novembro de 19, p.06)

Entende-se que os estudantes foram, de imediato, o principal alvo dos militares, pois representavam, para o autoritarismo, uma ameaça à nova ordem e, assim, deviam ser eliminados de qualquer forma e a qualquer custo. Neste sentido, considera-se que o objetivo da Ditadura quanto à universidade e aos estudantes era basicamente um só, o tratamento de choque, “como se fosse expulsar o demônio da rebelião patriótica daqueles corpos jovens, dando-lhes o anjo da subordinação aos interesses antinacionais” (POERNER, 1968, p. 230).

Diante desta posição, evidencia-se que o regime civil-militar estava disposto a agir de forma repressiva para manter a ordem social, política e econômica e alcançar êxito na sua proposta para as pretendidas mudanças no âmbito nacional. No entanto, valia qualquer coisa para o Estado autoritário, até mesmo prender e torturar os estudantes, demitir professores, invadir faculdades, intervir nas entidades estudantis, proibir qualquer reunião com a participação de estudantes e professores e decretar a ilegalidade da UNE, das uniões dos estudantes nos Estados e Diretórios acadêmicos, enfim, acabar com qualquer tipo de representação e manifestação estudantil (POERNER, 1968).

Considerando-se que os estudantes, no universo político nacional, representaram uma parcela significativa, pode-se definir que grande parte destes jovens não se dedicava somente ao estudo em tempo integral, pois eles trabalhavam para dar continuidade à formação, muitos estudantes eram, ao mesmo tempo, operários, bancários, professores e que, em virtude disso, inseriam-se em outros ambientes, podendo, inclusive, atuar em sindicatos profissionais, disseminando suas idéias. Destaque-se ainda que os estudantes processados durante a ditadura eram, em sua maioria, universitários, com faixa etária de até 35 anos, ou seja, a maior quantidade dos componentes de esquerda eram estudantes ou pertencia a camadas intelectualizadas. Por outro lado, neste estudo, faz-se relevante conceder espaço à origem do estudante, que, em geral, não estava entre os mais desfavorecidos da sociedade, mas integrado à classe média ascendente (RIDENTI, 1993).

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vez mais, Bobbio (2003) esclarece que a esquerda seria formada por pessoas que integravam o Partido de Organizações de Massas contrapondo-se àqueles que representavam o Partido dos Notáveis, considerados de Direita. Enquanto à esquerda se mobilizava para implantar mudanças na sociedade, a direita lutava para que nenhuma modificação ocorresse.

A análise do período em questão demonstra, que quanto ao ensino superior os recursos financeiros foram diminuindo, as verbas do Ministério da Educação caíram no decorrer do Governo ditatorial, como conseqüência houve um congelamento de vagas nas universidades enquanto, a procura aumentava drasticamente.

Dessa forma, o que preocupava, naquela época, eram os excedentes aprovados no vestibular, representando uma grande insatisfação estudantil aliada à falta de verbas, à modernização autoritária do ensino, ao arcaísmo das instituições universitárias, à crise econômica, ao estreitamento das oportunidades de trabalho, sem desconsiderar-se que, logo após o golpe civil-militar, um grande número de entidades estudantis sofreu intervenção do Governo (RIDENTI, 1993).

Apesar da censura, a criação cultural no Brasil estava em ebulição, o movimento cultural tornava-se cada vez mais criativo, refletindo a conscientização política e o desejo de transformação dos jovens. Mas, o clima geral era de tensão e, no meio estudantil, secundaristas começavam a protestar por mais vagas nas universidades, reclamavam do mau funcionamento de restaurantes que serviam a estudantes carentes e entidades estudantis. Diante desse quadro, quanto mais aumentava a inquietação entre os estudantes e o sentimento de revolta, mais o aparelho político se preparava para a repressão. Nesse contexto, a mobilização estudantil sugere que havia uma grande crise no aparelho universitário brasileiro, devido à carência de vagas nas escolas públicas, ao arcaísmo dos currículos, que não eram adaptados às novas necessidades do desenvolvimento econômico. Mas, à ditadura não interessava investir nas universidades, ainda mais se considerar a política de redução de despesas, nas áreas não produtivas, adotada pelo Governo a partir de 1964 (SOTO, 2008).

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Associada às manifestações estudantis e a repressão governamental, insere-se a influência norte-americana na educação brasileira. O Brasil não vivia sob um sistema político que respeitasse vontades coletivas, por isso os interesses antinacionais precisavam, com a máxima urgência, de uma estrutura legal que preparasse o terreno para a institucionalização da dependência do sistema universitário brasileiro no exterior. Assim, a Lei Suplicy de Lacerda preparou a implantação de acordos com o Ministério da Educação e Cultura (MEC) e

a United States For International Development (USAID) (POERNER, 1968).

O acordo MEC-USAID, foi uma proposta da Usaid, uma instituição norte-americana voltada para o ensino, uma agência de desenvolvimento que propunha uma reforma no âmbito da educação dos países do Terceiro Mundo, abrangendo desde o primário até o nível universitário, com o discurso de que era para fazer o país se voltar mais para o desenvolvimento tecnológico (SOTO, 2008).

Desta forma, os acordos entre o MEC e USAID, institucionalizaram a intervenção norte-americana no ensino brasileiro, seguindo orientação prescrita no Relatório Atcon (Anteprojeto de Concentração da Política Norte-Americana na América Latina), objetivando, desenvolver uma filosofia educacional para o continente, juntamente com níveis educacionais e os meios financeiros para levar à prática tal política, da mesma forma que, transformar a Universidade estatal numa Fundação privada, eliminando assim, a interferência estudantil na administração, tanto de colegiado quanto gremial (POERNER, 1968).

Nesse sentido, vale destacar que, a proposta elaborada através do convênio MEC-USAID para reformar a universidade, excluía, ou no mínimo, deixava em segundo plano toda produção científica nacional e valorizava a reprodução de conhecimentos técnicos importados dos países desenvolvidos, pois, os países subdesenvolvidos, tinham escassez de recursos para investir na educação, deveriam priorizar o ensino fundamental. Assim, propostas como a cobrança de anuidades de estudantes e o sistema de seleção de estudantes para ingressar na universidade aumentavam os antagonismos entre a proposta do MEC-USAID e os estudantes.

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contra anuidade em alguns pontos do país, mas em outros, o medo de perder o ano pelo não pagamento levou muitos estudantes a pagarem o valor estipulado. As derrotas localizadas, no entanto, não foram encaradas, pelos estudantes, como o fim do embate com o Estado autoritário (POERNER, 1968).

Contudo, os dirigentes estudantis e militantes que acompanhavam de perto os pagamentos das anuidades, sabiam que a estratégia do regime político, era aumentar ano a ano os valores, até que elas alcançassem metade do custo de um universitário/ano. Por seu lado, o Governo sabia que haveria resistência estudantil ao pagamento, por isso apelou para as famílias dos universitários. Enfatizando, desta forma, que o sistema político, era justo e que elas participassem do custeio dos estudos de seus filhos, prometendo que o dinheiro arrecadado seria investido na formação de jovens que não podiam pagar por seus estudos (POERNER, 1968).

Observou-se, que todo o processo de redução de verbas para a educação superior, cobrança de anuidades e combate à participação estudantil nas esferas decisórias da universidade, fazia parte do projeto para reformulação da universidade que foi preparado a partir dos acordos MEC-USAID. Do ponto de vista do movimento estudantil, haviam três propostas que deveriam ser seguidas pelo regime político, ou seja, a manutenção da universidade como pública, com influência estudantil no processo da reforma universitária, participando dos colegiados das instituições.

No entanto, deve-se considerar que o mundo passava pelo período de Guerra Fria,15existia assim, uma crescente influência norte-americana em grande parte da sociedade brasileira. Essa influência podia ser sentida de diversas formas e em diferentes áreas, “na música, no cinema, na alimentação, no estilo de vida,” (p.51) mas, foi na educação que a interferência americana acabou provocando os maiores protestos estudantis. Para o movimento estudantil, a discordância com os acordos MEC-USAID se tornaria também, uma das principais lutas dos estudantes no sistema civil-militar (SOTO, 2008).

É importante, mencionar a influência de Cuba, sobre as atitudes norte-americanas, pois, Cuba não apenas concretizou as aspirações socialistas, como também interferiu na supremacia dos Estados Unidos no continente. Assim, como conseqüência, os Estados Unidos, deveria combater o estímulo cubano aos movimentos de esquerda latino-americanos, se voltando para esses países de forma estratégica (DOCKHORN, 2002).

15 A Guerra Fria é a designação atribuída ao período histórico de disputas de influência, estratégicas e conflitos

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Assim, o acordo MEC-USAID, e, principalmente a atuação da USAID, não somente no Brasil, mas em todos os países periféricos, podem ser percebidos como uma ação dos EUA para garantir a vigência do sistema capitalista nesses países e transferir para estes as concepções e a organização social, política e econômica que prevalecia nos Estados Unidos.

Desta forma, para os estudantes os acordos MEC-USAID representavam um plano de infiltração imperialista do ponto de vista de uma filosofia política que se assimilada, viria a proporcionar a manutenção do sistema capitalista, para as bases estudantis, os objetivos dos convênios MEC-USAID levariam a universidade a uma estrutura arcaica e empresarial. No entanto, os estudantes queriam uma universidade crítica, autônoma, queriam a democratização do ensino, a gratuidade de todos os níveis, vestibulares de habilitação e não de seleção e a expansão dos cursos noturnos, como era proposto no acordo (GORENDER, 1998).

Nesse universo, é importante ressaltar que o movimento estudantil pautava-se pelo ideal de educação que era formar indivíduos críticos e preocupados com a realidade nacional e não apenas como meio de formar técnicos e mão-de-obra qualificada que era o projeto de desenvolvimento proposto pela Ditadura. Assim, a luta dos estudantes tornou-se uma luta contra a ditadura, representando, pois, uma resistência à política repressiva do Estado. Assim posto, a agitação dos estudantes era justificada também pelas condições precárias em que se encontrava o ensino superior.

Nesse sentido, a industrialização da década de 50, proporcionou uma maior procura pelas profissões universitárias, uma vez que a classe média tinha uma maior expectativa nos cursos superiores, ao passo que estes não conseguiam atender às suas necessidades, devido à carência de vagas aliada à hierarquia docente que implicava a manutenção do status quo

vigente. Em razão destas questões, deu-se o agrupamento estudantil que procurava canalizar o descontentamento dos jovens de classe média para a luta contra a ditadura (SOTO,2008).

Na verdade, a insatisfação do ensino foi envolvida por um fenômeno de escala mundial, que ficou conhecido, no mundo todo, como “cultura da juventude”, ou seja, os anos 60 foram marcados por uma juventude que buscava, através de diversos meios (música, roupas), uma ruptura com o tradicional e, como objetivo final, desafiar os limites que estavam sendo impostos pela sociedade. Tais movimentos deram-se de forma exemplar na França e dali se expandiram pelos demais países, incluindo os Estados Unidos (GORENDER, 1998).

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de Janeiro, estudantes estavam reunidos no restaurante que atendia secundaristas, debatendo a organização da passeata, que deveria se realizar no dia seguinte, em protesto contra as precárias condições de higiene e o mau funcionamento do restaurante da universidade. Enquanto eles discutiam, viaturas policiais, de surpresa, cercaram o local e soldados do batalhão motorizado da Policia Militar invadiram o lugar, não poupando cacetadas e tiros, alguns estudantes tentaram reagir com pedras, mas foi inútil, várias rajadas de metralhadoras foram disparadas. Como conseqüência deste fato, além de muitas prisões, registrou-se a morte do estudante Edson Luis de Lima Souto de apenas 16 anos. A revolta tomou conta dos estudantes, muitos gritavam como protesto e vingança, o clima era extremamente tenso, as organizações estudantis decretaram greve geral para o dia seguinte e todos os alunos foram convocados para o enterro do jovem, os teatros suspenderam seus espetáculos e os artistas leram um comunicado explicando os motivos, manifestando solidariedade aos estudantes (SOTO, 2008):

Atirando contra Jovens desarmados, ensandecida pelo desejo de oferecer à cidade apenas mais um festival de sangue e morte, a Polícia Militar conseguiu coroar, com esse assassinato coletivo, a sua ação, inspirada na violência. Barbárie e covardia foram a tonica bestial de sua ação. O ato de depredação do restaurante pelos oficiais, após a fuzilaria e a chacina, é o atestado que Polícia Militar passou a si própria, de que sua intervenção não obedeceu a outro propósito senão o de implantar o terror na Guanabara.Diante de tudo isso, é possível discutir alguma coisa?(JORNAL CORREIO DA MANHÃ, 30 Mar 1968, p.12)

Compreende-se que a morte de Edson Luís foi um marco para a passagem do movimento estudantil ao enfrentamento. O protesto contra a violência policial, que mata um secundarista, assume dimensão nacional. Aos olhos do Movimento Estudantil, a população que, ao sensibilizar-se, vai às ruas, revela a sua disposição de luta “contra a Ditadura”. Para o Governo a “agitação”, coloca em risco a manutenção da ordem e a tranqüilidade nacional, por isso requer a tomada de medidas repressivas.

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outro, estudantes reagindo a brutal agressão policial. Este dia ficou conhecido como “sexta-feira sangrenta” (SOTO, 2008).

Poucos dias depois, organizou-se a “passeata dos 100 mil”, foi uma manifestação de protesto, em conseqüência da morte do estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto, liderada por estudantes, com gritos de “Abaixo a ditadura” ou então “O povo unido jamais será vencido”, (PAES, 1993, p.68) contando com o apoio das mais diversas áreas sociais (artistas, intelectuais, parlamentares, padres da Igreja Católica e setores das classes médias).

Percebe-se que os estudantes não estavam sozinhos na sua luta contra o autoritarismo, o movimento englobou outros setores da sociedade, como grupos ligados as produções artísticas, porque a repressão atingia, de forma violenta, aqueles que não concordavam com as disposições governamentais. Em virtude destas sanções, estes grupos também participaram das principais manifestações que os estudantes encaminhavam pelas ruas do Brasil.

Nessa arena política, foi assinado o Ato Institucional número cinco (AI-5), colocando o Congresso Nacional definitivamente em recesso e, junto disso, desenrolou-se a censura de vários órgãos da imprensa, “jornalistas, artistas, intelectuais, estudantes, padres, operários e políticos” (PAES, 1993, p.70) eram detidos. Tal política inviabilizou qualquer mobilização de massa por parte da esquerda, restando apenas a clandestinidade e a luta armada. Logo após a instituição do AI-5, o Executivo modificou tanto o Supremo Tribunal Federal como o Superior Tribunal Militar, redobrando a censura à imprensa, que, agora, ficaria submetida a Tribunais Militares, enquadrando professores e estudantes que desafiassem o Governo (PAES, 1993).

Apesar do recrudescimento das ações governamentais, as manifestações intensificaram-se e tornaram-se mais freqüentes em todos os estados brasileiros, ou seja, a situação se agravava a cada dia, especialmente no que diz respeito à repressão policial. As cenas das prisões e dos maus tratos aos estudantes, que sofreram “espancamentos, agressões sexuais, xingamentos e ameaças de fuzilamento” (SOTO, 2008, p.57).

A revolta estudantil no Brasil crescia na clandestinidade, as organizações se multiplicavam e intensificavam suas ações. A Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) invadiu o Hospital Militar, por sua vez, a Ação Popular (AP) 16, a Política Operária (POLOP) e dissidências do PCB (Partido Comunista Brasileiro) eram grupos clandestinos que atuavam

16 Ação Popular exerceu trabalho de conscientização política e formação de lideranças junto a trabalhadores

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dentro do movimento estudantil, buscavam aprofundar sua influência entre os alunos e assim contribuíam para uma maior radicalização das ações (SOTO, 2008).

É de significância ressaltar que o movimento estudantil se orientava e agia politicamente, sendo que, no próprio meio acadêmico, eram dadas as condições de proliferação do movimento e os grêmios estudantis passavam a ter relevância política. Assim, após o AI-5, a luta armada era um desdobramento natural de quem já possuía militância mais efetiva no movimento estudantil, pois havia uma grande insatisfação pelo regime civil-militar, tendo sido quase espontâneo o engajamento dos jovens politizados nos movimentos contra a ditadura militar. Nessa situação, o movimento estudantil lutava pela defesa das liberdades democráticas, das reformas de base, no sentido de conquista de um ensino público e gratuito, o que era contrário ao regime vigente (RIDENTI, 1993).

No final de 1968, o autoritarismo controlava a situação, pois a repressão crescia, o sistema político alcançou o ápice da repressão, fechando todo o tipo de instituição contrário ao Estado autoritário. A censura passou a controlar a imprensa, as publicações de oposição deixaram de circular, artistas foram presos e asfixiou-se a vida cultural, professores universitários foram obrigados a aposentar-se ou ensinar no exterior. Os líderes estudantis passaram a ser controlados, não podendo nem mesmo circular livremente, sob pena de sofrerem atentados (GORENDER, 1998).

Desta forma o trabalho em um segundo momento irá remeter-se para cenário sul- rio-grandense, com o objetivo de perceber as manifestações estudantis nesse contexto.

3.3 Rio Grande do Sul e os estudantes no regime autoritário 1964-1968.

As manifestações nacionais, evidentemente, repercutiam no Rio Grande do Sul, registrando-se uma regionalização do movimento estudantil. No estado, através de suas singularidades e especificidades, pode-se traçar um panorama a respeito dos estudantes, que se manifestavam dentro do sistema autoritário. Para tal, faz-se necessária a contextualização do golpe civil-militar no espaço sul-rio-grandense.

Neste sentido, são esclarecedoras as ponderações de Silva (1990), segundo a qual, a história regional refere-se a um recorte específico do estudo, permitindo que os dados coletados em tempos e espaços determinados ofereçam elementos para o estudo, a análise das relações políticas, econômicas e sociais.

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O centro de Porto Alegre estava lotado por uma multidão de pessoas que se aglomeravam em frente à Prefeitura, as rádios noticiavam a fuga do Governador Ildo Meneghetti para Passo Fundo, juntamente com as tentativas de Leonel Brizola17 de organizar a resistência que era favorável a permanência de João Goulart no poder nacional. Porém, a vitória do golpe, sem uma efetiva resistência, foi uma grande decepção para muitos gaúchos, mesmo assim, no centro da cidade de Porto Alegre, um grupo de pessoas se manifestava contra as tropas que tomavam as ruas. Da mesma forma, se sucederam os dias seguintes, sob muita tensão, as prisões e as torturas foram freqüentemente utilizadas pelo autoritarismo, atingindo todo o Estado, era difícil calcular o número de pessoas presas e vítimas de maus-tratos, e ainda, centenas de gaúchos tiveram que abandonar suas cidades com seus filhos e tentar a vida em outros lugares ou mesmo buscar o exílio (GUTIÉRREZ, 1999).

Observou-se, que essas manifestações contra o regime autoritário no Rio Grande do Sul, estiveram diretamente vinculadas aos acontecimentos nacionais. Assim, em apoio às Reformas de Base, (proposta do Governo João Goulart), ocorreram mobilizações dos estudantes. Nesse sentido, os estudantes universitários sul-rio-grandenses reuniram-se em Porto Alegre, no Conselho Nacional dos Estudantes, para decidir se iriam aderir ou não à ordem da UNE de suspender a greve, que estava sendo realizada por estudantes universitários em defesa da liberdade constitucional em todo o país.18

Contudo, por alguns anos, todos que representassem oposição política ao regime político eram amplamente combatidos; no Rio Grande do Sul, somente em 1970, um estudante de engenharia metalúrgica conseguiu vencer as eleições para presidência do Conselho Deliberativo do Diretório Central dos Estudantes (DCE) (SIRTORI, 2003).

É importante salientar que o movimento estudantil, no Rio Grande do Sul, manteve alguns focos de rebeldia na cidade de Porto Alegre, representados por mobilizações difundidas por secundaristas e universitários. Dessa maneira, na capital do Estado, constata-se o mesmo clima tenso das principais cidades brasileiras. Os porto-alegrenses, por sua vez, também se posicionavam em defesa de questões referentes à educação, de tal forma que, em 1967, secundaristas e universitários ocuparam o restaurante Universitário da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) como meio de protestar contra o estado autoritário (SIMÕES, 2006).

17 Leonel Brizola era ex-governador do Rio Grande do Sul e, em 1964, era deputado federal eleito pelo estado da

Guanabara.

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Deve-se ainda registrar que, em algumas cidades do Brasil, existiram locais que se tornaram referências para os jovens e, no Rio Grande do Sul, não foi diferente, havia entre o povo gaúcho entidades que se transformam em verdadeiros símbolos de luta e manifestação contra o regime autoritário. Nesse universo, o Colégio Estadual Júlio de Castilhos (Julinho) foi, para os porto-alegrenses, sinônimo de “rebeldia e inconformidade”. A rebeldia dos estudantes encontrava meios de expressão através de grupos organizados e, nesta escola, os grupos mais ativos eram o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e a Ação Popular (AP), através deles, o movimento estudantil retomava suas mobilizações. Em Porto Alegre, “o tradicional desfile dos bixos” (GUTIÉRREZ, 1999, p. 29) que acontecia uma vez por ano no Julinho, para receber os novos alunos, passou a assumir cada vez mais um caráter de contestação e, por este motivo, futuramente foi proibido pelo sistema político. Já no ano de 1966, foram realizadas eleições para o Grêmio Estudantil do Colégio Julio de Castilhos, tendo sido eleita a diretoria ligada ao PCB, de modo que as assembléias passaram a ser marcadas por discursos contra a Ditadura. No decorrer do ano, as atividades do Grêmio estudantil da escola se intensificaram, houve protestos contra os acordos MEC-USAID, juntamente com a luta por mais verbas para a educação (GUTIÉRREZ, 1999).

Percebe-se que tanto no contexto brasileiro como no sul-rio-grandense, as principais manifestações estudantis eram por uma melhor qualidade educacional, seja por meio de mais verbas ou pela não influência dos Estados Unidos na educação, pois a ditadura havia reduzido drasticamente os recursos para o ensino médio e universitário.

Nota-se, no cenário sul-rio-grandense a presença do movimento estudantil, através do inquérito de Antonio da Costa Coelho, que era presidente da União Rio-Grandense dos Estudantes Secundários (URES), e foi acusado de utilizar a sede da entidade para organizar movimentos que perturbam a ordem vigente.19

Merece destaque, ainda, o caso do Centro dos Estudantes Universitários de Engenharia (CEUE) de Porto Alegre, cujo presidente, o estudante Izaltino Comozato, foi deposto em agosto de 1964, por ter elaborado uma nota em que se referia ao golpe civil-militar como uma “quartelada” em que os “ratos” 20 estavam em qualquer parte. Assim, por um longo período, contestar a Ditadura em Universidades era perigoso e o referido estudante não escaparia das sanções, juntamente com uma dezena de estudantes.

19 DOPS/RG- 1.2.469.4.2. Antonio da Costa Coelho, 06 Jul 1964. 7º região (1952-1980)

20 Denominação utilizada pelos estudantes para designar os elementos infiltrados na Escola para policiar suas

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