UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS RAFAEL RAMOS CAMPOS

Livre

0
0
136
1 year ago
Preview
Full text

  UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS

  PROGRAMA DE PốS-GRADUAđấO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

RAFAEL RAMOS CAMPOS

  

ELITES EM GUARDA: composição e atuação político-militar dos agentes da Guarda

Nacional do Maranhão (1839-1855).

  São Luís 2013 UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS

  PROGRAMA DE PốS-GRADUAđấO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

RAFAEL RAMOS CAMPOS

  ELITES EM GUARDA: composição e atuação político-militar dos agentes da Guarda Nacional do Maranhão (1839-1855).

  Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão para obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais.

  Orientador: Prof. Dr. Igor Gastal Grill São Luís

  2013 Campos, Rafael Ramos

ELITES EM GUARDA: composição e atuação político-militar dos agentes

  da Guarda Nacional do Maranhão (1839-1855). 2013

  137 f.

  Impresso por computador (fotocópia) Orientador: Igor Gastal Grill Dissertação (mestrado)

  • – Universidade Federal do Maranhão, Programa de pós graduação em Ciências Sociais. 2013.

1. Maranhão – História - Província 2. Guarda Nacional 3. Itapecuru 4. Alcântara 5.

  Século XIX

  I. Título CDU 351.743 (812.1).052/.06

RAFAEL RAMOS CAMPOS

  ELITES EM GUARDA: composição e atuação político-militar dos agentes da Guarda Nacional do Maranhão (1839-1855).

  Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão para obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais.

BANCA EXAMINADORA

  ______________________________________________

  Prof. Igor Gastal Grill

  Doutor em Ciência Política ______________________________________________

  Profª. Regina Helena Martins Faria

  Doutora em História _______________________________________

  Prof. Sérgio Eduardo Martins Pereira

  Doutor em Sociologia

  

Dedico este trabalho aos meus pais,

Ulysses e Vera, ao meu irmão Igor e a Natale Carvalho. AGRADECIMENTOS Ao Prof. Dr. Igor Gastal Grill, por ter sido altamente competente, profissional e amigo. O meu muito obrigado.

  A Profª. Drª. Regina Helena Martins de Faria, por ter me mostrado os caminhos históricos que me levariam à atual configuração da pesquisa. Ao Prof. Dr. Sérgio Eduardo Martins Pereira, por ter participado da banca de qualificação. Aos servidores e estagiários do programa de pós-graduação em Ciências Sociais, por nos terem sido bastante solícitos e céleres nos tramites burocráticos da academia. Aos professores pela dedicação e esforço em transmitir suas experiências teóricas e práticas de pesquisa, nos quais muito contribuíram para a construção desse trabalho. E uma atenção especial ao Prof. e botafoguense ferrenho Marcelo Carneiro.

  Aos meus amigos de longa data: Adriano, Alberto, Aurélio, Jander, Samuel, Saulo e Raoni, por tornarem a minha vida um pouco menos entediante. Aos meus amigos e aos funcionários do APEM: a Helena Spindola, Lourdes, Rosilda e Vilma. Aos funcionários da Biblioteca Benedito Leite, pela presteza e solicitude. Aos meus amigos da turma 08, pela amizade pelos corredores da UFMA e discussões instigantes. Um agradecimento em especial para Hugo Freitas e Romário Barros por terem compartilhado da mesma labuta e lutas intelectuais com o senhor "Bourdieu", preocupações das mais diversas e das conversas bastante animadas sobre política, livros, etc.

  A CAPES, pela concessão da bolsa durante os dois anos em que estive no programa. A UFMA pelo apoio.

  “O valor de uma coisa não esta às vezes naquilo que se consegue com ela, mas naquilo que por ela se paga, no que ela nos custa.” Friedrich Nietzche.

  

RESUMO

  O presente estudo aborda a institucionalização da Guarda Nacional no Maranhão à luz do processo de formação do Estado brasileiro no século XIX, assim como das dinâmicas de disputas políticas que ligavam e separavam elites situadas em distintos níveis da hierarquia política (paroquial, provincial e nacional) no período. Para tanto, foram examinados os perfis, as trajetórias e as modalidades de atuação dos oficiais da Guarda Nacional nas cidades de Alcântara e Itapecuru, entre os anos de 1839 a 1855. Com efeito, a partir das propriedades sociais de agentes que ocuparam postos na guarda nacional, assim como da participação desses protagonistas em jogos de disputa por poder, foram evidenciados os condicionantes históricos e as estratégias diversas ativadas para reprodução de determinadas famílias e notáveis em posições de dominação.

  Palavras-chaves: Guarda Nacional; Maranhão; Alcântara; Itapecuru; Século XIX.

  

ABSTRACT

  This paper approaches the institucionalization of the National Guard in Maranhão in light of the formation process of the Brazilian state in the nineteenth century, as well as the dynamics of political disputes linking and separating elites situated at different levels of the political hierarchy (parochial, provincial and national) the period. Thus, we examined the profiles, the trajectories and the modalities of operation of the National Guard officersin the towns of Alcântara and Itapecuru, between the years 1839-1855. Indeed, from the properties of social agents who occupied positions in the National Guard, as well as the participation of these actors in games of power struggle, were shown the historical conditions and different strategiesenabled for playback of certain families . and notable positions of domination Keywords: National Guard; Maranhão; Alcântara; Itapecuru; nineteenth century.

  

LISTA DE QUADROS E TABELAS

QUADRO 1: Ocupação profissional, formação educacional e origem familiar dos senadores

  (1826-1889)...............................................................................................................................70

  QUADRO 2: Ocupação profissional, formação educacional, origem familiar e região de

  atuação política dos deputados gerais eleitos no Maranhão (1830-1860)................................72

  QUADRO 3: Chefes de legião e Comandantes Superiores da Guarda Nacional de Alcântara

  (1838-1852).............................................................................................................................98

  

QUADRO 4: Oficiais da Guarda Nacional de Alcântara (1838-1852)..................................99

QUADRO 5: Chefes de legião e comandantes superiores da Guarda Nacional de Itapecuru

  (1838-1852)............................................................................................................................122

  

QUADRO 6: Oficiais da Guarda Nacional de Itapecuru (1838-1855)..................................123

TABELA 1: Perfil ocupacional de vereadores de Alcântara entre 1838 à 1855.....................97

TABELA 2: Ocupação dos oficiais de baixa patente da Guarda Nacional de Alcântara entre

  1838 à 1855..............................................................................................................................97

  

TABELA 3: Perfil ocupacional dos cidadãos que disputaram os pleitos de vereadores e juízes

  de paz em Itapecuru (1845 à 1853)........................................................................................121

  

TABELA 4: Ocupação dos vereadores de Itapecuru de 1834 à 1855...................................121

  

SUMÁRIO

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  

  INTRODUđấO

  O presente trabalho analisa os perfis, as múltiplas inserções sociais e as estratégias sociais de agentes da Guarda Nacional, nas cidades de Alcântara e Itapecuru, pertencentes ao Maranhão, entre os anos de 1839 e 1855. Perscruta, ainda, por meio da atuação de tais

  1

  agentes, as relações de interdependências que constituíram e estiveram imersos em uma configuração histórica específica de formação do Estado brasileiro, marcada por tensões e trocas entre ocupantes de postos de poder político em distintos níveis e jurisdições. Desse modo, ponto importante dessa pesquisa foi objetivar as condições sociais e políticas da Guarda Nacional como aparelho institucional do Estado Nacional brasileiro, e, a sua consolidação no contexto da sociedade maranhense no século XIX, através da análise processual dos contextos sociais e políticos nacionais que possibilitaram o surgimento de tal órgão governamental, tanto no âmbito do império quanto no que se refere à província do Maranhão.

  Ainda quanto a definição temporal e espacial da atual pesquisa, algumas considerações deveram ser feitas.

  O recorte temporal feito deveu-se primeiramente quanto a data inicial devido a ausência de documentos que mostrasse a efetiva institucionalização da Guarda Nacional nos dois municípios em foco em período anteriores, sobretudo no que se refere a data de constituição dessa força militar em 1831. Quanto a data limite final do trabalho, deveu-se a necessidade da observação dos rearranjos e consequências administrativas e políticas que a milícia viria a sofrer em Alcântara e Itapecuru a partir de uma das principais reformas institucionais que viria sofrer, em 1850.

  Já em relação a definição dos municípios que iriam ser estudados ao longo deste trabalho, a escolha justifica-se pela possibilidade da efetivação da pesquisa sobre os agentes políticos, sobretudo pelo acervo documental existente sobre os dois municípios, que serviram

1 Tal noção muito cara a Norbert Elias foi cunhada na tentativa de superar tanto a falsa dialética entre indivíduos

  

e sociedade quanto aprofundar a análise das relações de poder, que, conforme o sociólogo, a partir das mútuas como sustentáculo para o avanço e consolidação da pesquisa sobre os atores que estiveram presentes na Guarda Nacional naquelas localidades.

  A escolha Alcântara foi motivada, além dos colocados acima, pela importância política que tivera ao longo do Oitocentos, o que por consequências, foi que ao longo da história recente, alguns escritos memorialísticos foram feitos sobre os principais atores políticos e as famílias destacadas daquela municipalidade que viveram ao longo dos séculos

  XIX e XX, fornecendo assim, subsídios importantes para construção da pesquisa em foco quanto alguns agentes políticos que também se destacaram no comando da Guarda Nacional daquele lugar.

  Quanto a ter se optado a trabalhar com a paróquia de Itapecuru, deveu-se também pela relevo político e econômico no período em foco do atual estudo. Sobre essa região, tem-

  2

  se alguns trabalhos acadêmicos de peso, que apontaram para alguns aspectos da dinâmica social e política daquela municipalidade capazes de fornecer bases de apoio bibliográfico para a manutenção da pesquisa.

  Desta forma, com as reias possibilidades de se construir as trajetórias políticas de membros das elites políticas (locais e provinciais) que ocuparam postos na guarda nacional, a partir das propriedades sociais, e mediante também os condicionantes históricos e os investimentos diversos efetuados para reprodução de determinadas famílias e notáveis em posições de dominação.

  Uma primeira linha de abordagem reside, então, em discutir os aspectos de formação do Estado Nacional brasileiro, levando em consideração os vários aspectos sociais que estiveram presentes durante o processo de importação dos elementos institucionais desse Estado. Isto é, a observação do transplante para o universo social brasileiro de elementos ideológicos e modelos políticos europeus, através da inserção de agentes que - devido às suas características sociais, econômicas, políticas e educacionais bastante específicas - constituíram (ainda que não necessariamente de maneira intencional) grupos sociais que estiveram, por um lado, em contato com aquelas referências culturais importadas, e, por outro, diretamente ligados à constituição do Estado Nacional brasileiro.

2 Os autores que trabalharam especificamente sobre Itapecuru serão expostos na seção que se falara

  A inspiração provocada pela sociologia da importação política se deve aos seguintes aspectos:

  A manifestação desses processos de imitação tem levado o comparatista a conceber uma sociologia do fluxo entre sistemas políticos que permita analisar tanto as diversas modalidades de importação de modelos e práticas políticas, como seu efeito de hibridação. Essa orientação constitui uma séria crítica ao desenvolvimentismo e ao culturalismo. [...]. Entre estas duas perspectivas radicais, a sociologia da importação se esforça por demonstrar que esta corresponde à diversidade de estratégias, interesses e necessidades que impedem que se considere [a importação] frágil e conjuntural, ao mesmo tempo que postula que é causa de disfunções e fracassos 3 .

  A circulação de modelos de governo e de bens políticos em direção a contextos periféricos, como o brasileiro, deu lugar a disfunções, perda de legitimidade e carência de meios materiais e simbólicos para a capilarização do centro político (oficial) nos âmbitos sociais e para concorrer com rivais (poderes periféricos tradicionais, notáveis, senhores de terra, guardiões de sentidos comunitários, etc)

  4

  . Como decorrência, a hibridação entre elementos exógenos e endógenos, propiciou, em um sentido, o enraizamento do domínio patrimonial no âmbito do estado, caracterizando-se, então, como:

  [...] um sistema político estruturado em torno da pessoa do governante e que tende a reproduzir um modelo de domínio personalizado, orientado em direção à proteção da elite no poder e que pretende controlar o acesso da periferia aos recursos do centro 5 .

  Por outro lado, edificou um regime representativo, o parlamentarismo como simulacro, mediante o qual as relações clientelistas, manejadas por uma elite civil resistente à lógica centralizadora do Estado, reforçaram-se e auxiliaram a evitar o surgimento de uma soberania popular efetiva. Assim, o clientelismo se alimenta tanto de componentes sociais e culturais (servidão, pobreza, isolamento, analfabetismo, códigos de reciprocidade entre patrão e cliente), quanto de uma dinâmica política mais ampla em que as oligarquias controlam eleitoralmente redes de dependentes e a estrutura estatal não dispõe de meios suficientes para penetrar no conjunto do território.

  Nesta perspectiva, a manipulação clientelista desde cima parece o ingrediente natural e inevitável de uma combinação providencial aplicável nas sociedades cobertas por um verniz ocidental, onde o Estado, apesar de tudo, não proporciona a salvação. A referência artificial ao modelo parlamentar combinado não deve ocultar 3 . BADIE, B.; HERMET, Guy.

  “Dinámicas huérfanas”. In: BADIE, Bertrand; HERMET, Guy. Política Comparada . México: Fondo de Cultura Económica. 1993 p. 189 4 a originalidade do sistema de patrocínio microsocial, fundada na articulação piramidal em escala nacional

6

.

  O cenário sintetizado acima auxilia a pensar sobre as estratégias de reprodução dos agentes analisados nesta dissertação e de seus grupos familiares, tomando-os como pertencentes aos segmentos das elites políticas locais no período em tela. Em um sentido bastante amplo, a noção de “elite” assume o sentido dado por Heinz, seguindo o sociólogo suíço Giovanni Busino, como sendo:

  [...] a minoria que dispõe, em uma sociedade determinada, em um dado momento, de privilégios decorrentes de qualidades naturais valorizadas socialmente (por exemplo, a raça, o sangue, etc.) ou de qualidades adquiridas (cultura, mérito, aptidões, etc.). O termo pode designar tanto o conjunto , o meio onde se origina a elite (por exemplo, a elite operária, a elite da nação), quanto os indivíduos que a compõe, ou ainda a área na qual ela manifesta sua preeminência. No plural, a palavra 'elites' qualifica todos aqueles que compõem o grupo minoritário que ocupa a parte superior da hierarquia social e que se arrogam, em virtude de sua origem, de seus méritos, de sua cultura ou de sua riqueza, o direito de dirigir e negociar questões de interesse da coletividade 7 .

  Cumpre, porém, ir além e romper com o pensamento substancialista que visa “dar uma resposta empírica à questão de quem governa” e captar, ao invés disso, “os espaços definidos por relações objetivas entre indivíduos e entre propriedades que se aproximam ou se opõem (...) como campo de força, cuja estrutura se define pelo estado das relações de força entre espécies de capital e onde estão em pauta as lutas pela imposição dos princípios legítimos de dominação

  ”

  8 .

  Logo, a questão passa a ser, em uma segunda linha de abordagem, a apreensão das estruturas de poder e dominação, observando o volume e a composição de recursos diversos mobilizados pelos agentes. Tal exercício deve levar em conta igualmente o grau de objetivação (institucionalização e autonomização) dos chamados campos de forças. Uma vez que, segundo Grill, a partir de Bourdieu:

  As modalidades de estratégias de reprodução (estratégias de fecundidade, profiláticas, educativas, econômicas, de acúmulo de relações sociais, matrimoniais, simbólicas e de sociodicéias) acionadas pelos agentes para acumular recursos de luta e o sistema de compensações e funções cronologicamente articuladas que formam, possuem pesos e composições variados de acordo: 1) com os mecanismos de reprodução disponíveis; 2) grau de objetivação dos capitais. Ou seja, dois modos de dominação podem ser caracterizados de forma típico-ideal. O primeiro modo de 6 BADIE, Bertrand; HERMET, Guy. 1993. p. 199. 7 HEINZ, Flávio. História social das elites. São Leopoldo. Oikos. 2011. p.7. 8 dominação, tido como mais “tradicional”, se exerce de maneira direta e pessoal a partir de relações sociais que se fazem, se desfazem e se refazem na e pela interação entre as pessoas. A dominação se funda sobre dois componentes complementares: a dívida e a dádiva. Isto é, a violência aberta da exploração econômica que pode estar acompanhada da violência física ou da ameaça de exercê-la. E, invariavelmente, é complementada pela violência eufemizada e não-reconhecida que se esconde sob obrigações morais de lealdade e sob laços afetivos criados e mantidos pelas trocas desiguais entre os parceiros das relações. O segundo modo de dominação conta com mecanismos objetivos (regras impessoais, agentes especializados e instituições) que configuram os campos sociais (econômico, cultural, político, etc.) que independem das relações pessoais. O primeiro é mais custoso em bens materiais privados necessários para favores, agrados, etc. e em tempo gasto para alimentar a relação (visitas, convivência, atenções, etc.). O segundo mediatizado por mecanismos objetivos e institucionalizados (mercado econômico, sistema escolar e sistema político) garante a distribuição desigual dos ganhos (lucro econômico, diplomas e cargos políticos)

  9 .

  O fulcro da análise aqui empreendida reside, assim, na observação das estratégias de reprodução de agentes e grupos familiares ligados a uma instituição, como a Guarda Nacional, que: integram um processo mais amplo de construção e importação de um modelo de organização política, o Estado; participam de lutas político-partidárias; e que ostentam recursos personificados e associados à dominação familiar. Sendo assim, os recursos econômicos são utilizados para criação de laços de dependência e para o reconhecimento da posição social ocupada. Do mesmo modo, a competência cultural está diretamente ligada à demonstração pessoal do saber incorporado e do status social adquirido. O capital político, nestas condições, é resultante do: “investimento do patrimônio pessoal, do tempo e das habilidades de liderança [com vistas] a transformar uma atividade interessada em desinteressada (doação, vocação, espírito público, etc.)

  10

  ”. Além disso, nestas circunstâncias: “os dominantes são responsáveis (...) pela reputação ou notoriedade da ‘família’ ou ‘linhagem’ e exercem poder de acordo com a sua contribuição para acumulação do capital simbólico do grupo”. Sem deixar de mencionar que: “Devem se submeter aos modelos de virtude da ‘comunidade’ e demonstrar possuir pessoalmente as qualidades exigidas”

  11 .

  E sintetizando nas palavras de Bourdieu, a questão mais geral sobre as estratégias de reprodução dos agentes em contextos político brasileiro, que:

  As sociedades pré-capitalistas ou proto-capitalistas se distinguem das sociedades capitalistas porque nelas o capital está muito menos objetivado (e codificado) que nas sociedades capitalistas, e muito menos inscrito nas instituições capazes de 9 GRILL, Igor Gastal. “Especialização política: bases sociais, profissionalização e configurações de apoios”.

  

In: SEIDL, Ernesto; GRILL, Igor Gastal. As Ciências Sociais e os espaços da Política no Brasil. Rio de Janeiro: Editora da FGV. 2013. p. 230-231. 10 assegurar sua própria perpetuação e de contribuir, por seu funcionamento, para a reprodução das relações de ordem que são constitutivas da ordem social mais ampla. (...). Deriva dessa afirmação que a perpetuação das relações sociais descansa quase exclusivamente sobre o habitus, quer dizer, sobre as disposições socialmente instituídas por estratégias metódicas de investimento educativo, que inclinam os agentes a produzir o trabalho contínuo de manutenção de relações sociais (especificamente o trabalho simbólico de construção e reconstrução genealógica), em consequência do capital social, e também do capital simbólico de reconhecimento que buscam as trocas regradas, especialmente, as trocas

  12 matrimoniais .

  Breve síntese do debate

  A formação de um Estado Nacional brasileiro organizado a partir de um regime político que combinou o caráter monárquico, constitucional, de estrutura bicameral, dividido em quatro instâncias governamentais, liberal, etc, amalgamou estruturas institucionais e ideológicas importadas e lógicas sociais próprias à dinâmica brasileira. Assim, Sérgio Buarque de Holanda sintetizaria tal condição ao afirmar que "trazendo de países distantes nossas formas de vida, nossas instituições e nossa visão do mundo e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos uns desterrados em nossa

  13 terra" .

  Portanto, demonstrar alguns aspectos das condições de emergência de agentes ligados ao mundo da política nos marcos do período imperial brasileiro, é evidenciar a complexidade das relações de interdependência que existiram entre um centro político nacional e as dinâmicas sociais que ocorreram nas províncias que constituíram o império brasileiro, seguindo a trilha de alguns historiadores e/ou sociólogos, como Raymundo Faoro, José Murilo de Carvalho, Maria Sylvia de Carvalho Franco, Vitor Nunes Leal, etc, que se preocuparam em expor os múltiplos aspectos daquelas ligações interpessoais.

  No estudo clássico de Raymundo Faoro, intitulado “Os Donos do Poder”, o autor

  14

  tece uma análise sobre o processo de construção do Estado Nacional brasileiro , a partir de uma abordagem sociológica e historiográfica, indo da colônia à republica, tratando não 12 somente dos aspectos institucionais que emergiram concomitante à formação desse Estado,

  BOURDIEU, Pierre. “Estratégias de reproducion y modos de dominación”. Colección Pedagógica 13 Universitaria, 37-38, enero-junio/julio-diciembra. 2002. p. 11-12.

  

HOLANDA, Sérgio Buarque de. [sem informações do texto]. In. Ao vencedor as batatas: forma literária e 14 processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Roberto Schwarz: Editora 34. 2000. p.13. mas aprofundando a análise com a observação da emergência e da constituição social, cultural, educacional de um segmento privilegiado da política nacional que se constituiu juntamente com a estruturação da máquina estatal brasileira.

  Para Faoro, pois, um dos principais pontos de consolidação do Estado Nacional brasileiro foi a estruturação de um grupo dirigente nacional, conceituado como estamento

  15

  burocrático . Noção esse que advém de uma interlocução com algumas categorias weberianas, ressignificadas pelo autor brasileiro para dar conta das condições e processos sociais que estiveram em tela no Brasil, do século XVI ao inicio do XX. Logo, a formação, consolidação e a transformação do estamento constituiu-se, assim, foco central de seu estudo, em que a identificação das posições de relativa dominância social, encontravam-se resguardadas pela proximidade desfrutada com um centro governamental que ditava as regras do regime monárquico.

  Ou, ainda, nas palavras do próprio Faoro, estamento burocrático:

  Não se trata de uma classe, grupo ou camada que se apropria do Estado, do seu mecanismo burocrático, para o exercício do governo. Uma categoria fechada sobre si mesma, manipula lealdades com o cargo publico, ela própria, sem outros meios, assentada sobre as posições políticas. Entre a carreira política e a dos empregos há uma conexão íntima e necessária, servindo o Estado como despenseiro de recursos, para o jogo interno da troca de vantagens. [...] [E no qual] a influência oficial, sedimentada de tradições e vinculada à uma ordem econômica patrimonial, mercantilista nos processos, favorece certas atividades e estrutura no Estado os 16 imperativos de sua sobrevivência .

  Tal lógica estamental, para Faoro, baseou-se ainda em uma sociedade constituída por critérios sociais altamente hierarquizantes, oriundos de um sistema socioeconômico dominado

  

17

pelo mercantilismo agroexportador e escravista .

  Para outros historiadores que se debruçaram sobre o Estado Nacional brasileiro no período imperial, e que realizara m críticas ao “modelo faoriano”, suas análises fizeram atualizações significativas das estruturas conceituais e metodológicas de pesquisa diante das múltiplas abordagens possíveis sobre aquela temática, sobretudo quanto à apreensão da complexidade social em pauta e dos processos históricos inerentes à constituição das

  15 16 CAMPANTE. 2003. p.162.

  

FAORO. Raymundo. Os donos do poder: a formação do patronato político brasileiro. São Paulo. Editora estruturas sociais, econômicas e culturais que estiveram imiscuídas no contexto social brasileiro do século XIX.

  José Murilo de Carvalho apresentou uma discussão robusta quanto à composição de uma elite política nacional no período do Brasil imperial. Partindo de uma análise sobre a formação educacional, carreira política e a origem social dos membros do grupo dirigente em foco, o autor traz à tona elementos interveniente para seleção, a entrada de agentes nesse segmento do espaço social e o fosso que existia entre esse grupo político de influência nacional e outras categorias sociais, responsáveis por conduzirem as principais questões

  18 políticas nacionais no império .

  19 Já nas obras clássicas de Maria Isaura Pereira de Queiroz e de Vitor Nunes Leal , a

  atenção se volta para questões como a atuação política dos mandões locais no processo histórico brasileiro, principalmente atendo-se às relações de interdependência entre o Estado e aqueles poderes locais. Assim, os aspectos que cercaram os diversos interesses, conflitos e rivalidades políticos nos âmbitos regional e local, nos períodos imperial e colonial, ganharam importância na análise dos autores citados acima.

  Maria Isaura Pereira de Queiroz inicia sua investigação com uma discussão de cunho sociológico e histórico sobre a emergência das noções de "coronelismo" e "mandonismo local", expondo uma perspectiva interpretativa, ímpar e pioneira, do sistema político brasileiro. Segundo ela, desde o período colonial até a Primeira República, esse sistema foi marcado pela influência dos potentados locais na configuração política do governo central. Domínio esse que se caracterizou, para a autora, sobretudo nas municipalidades, por se tratarem de redutos eleitorais privados e importantes bases eleitorais dos grupos políticos voltados para as disputas políticas nas instâncias regional e nacional.

  Vitor Nunes Leal direciona a sua pesquisa para as múltiplas tensões e bricolagens que cercaram o movimento de interiorização do Estado brasileiro no território nacional, desde o período colonial até a república. Conjuntura essa que, para além da interiorização das estruturas estatais, seria marcada também pelo controle dos potentados locais sobre a máquina 18 pública nas cidades. Essa modalidade de dominação não diferenciava os aspectos do público e

  

CARVALHO. José Murilo de. Construção da Ordem e Teatro das Sombras. Rio de janeiro. Civilização

19 brasileira. 2006.

  

QUEIROZ. Maria Isaura Pereira de. O mandonismo local na vida política brasileira e outros ensaios. São do privado, combinando-se ainda com a violência nas disputas entre as forças políticas rivais. Esse cenário refletiu ainda a perda paulatina do peso do poder eco nômico dos “mandões” locais e a formatação de um complexo sistema de trocas entre o poder central e facções que controlavam as clientelas (redutos eleitorais) nos municípios.

  20 Na obra de Maria Sylvia de Carvalho Franco , o estudo se concentra no

  entendimento das sociedades paroquiais e rurais brasileiras, durante o século XIX. Partindo da análise da complexa relação entre os livres pobres e os chefões locais, em um período em que o sistema escravista ainda era a mola propulsora da economia agroexportadora nacional, a autora buscou demonstrar como, diante de uma sociedade que desfrutava de uma baixa presença do Estado e cujas relações sociais entre as camadas populares e os chefões paroquiais eram pautadas ainda pelo servilismo e lealdade, tais elementos sociais estiveram presentes e imbricados de maneira estruturante nas instituições burocráticas e políticas do império. Durante boa parte do século XIX, esses aspectos se mostravam, de acordo com a autora, de forma contundente, em especial nas comunidades.

  Tendo em vista a complexidade social e política que existia nas comunidades no período imperial, demonstrada pelos autores acima mencionados, outro ponto importante a ser esclarecido é o caráter multifacetado da (des)organização política local e as tensões entre as elites políticas provinciais e nacionais, tendo como pano de fundo as condições materiais e simbólicas para o funcionamento efetivo desse Estado no cotidiano político das paróquias no império. E será visitando as obras de Richard Graham, Fernando Uricoechea, Maria Fernanda Martins e Jonas Moreira Vargas que se observará alguns aspectos relevantes para desvendar essa conjuntura política e social existente nas paróquias e as suas ligações e influências sobre o universo político nacional.

  Todos esses autores comungam a ideia básica de que, no período imperial brasileiro, a força política exercida pelos potentados locais sobre o governo nacional constituiu as diretrizes basilares da forma de se fazer política. Logo, quer seja por meio de vitória nas urnas em eleições para os cargos dos legislativos provinciais e nacionais ou através de nomeações de aliados ou familiares na administração burocrática municipal e regional, essas elites locais se faziam conhecidas e reconhecidas como forças que estabeleciam, direta ou indiretamente, a 20 ligação entre as demandas das paróquias e as necessidades políticas do governo central.

  

FRANCO. Maria Sylvia de Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. São Paulo. Editora Unesp.

21 Na obra de Richard Graham , um dos principais brasilianistas dedicado aos estudos

  da política nacional do século XIX, o foco de pesquisa concentrou-se em vários documentos administrativos da época (de várias cidades do interior da Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul), lançando outro olhar sob os espaços e as estratégias de se fazer política nas paróquias no Brasil oitocentista, e, sobretudo, suas ressonâncias efetivas na política imperial.

  A partir da análise das múltiplas formas que constituíram os arranjos políticos nas paróquias, Graham mostrou as filigranas de um cotidiano de tensões políticas e sociais no qual estavam imersos grupos políticos municipais, marcadas pelas atuações dos mandões locais, caracterizadas, principalmente, pela constituição e mobilização de redes de lealdade e dependência verticais e horizontais na estruturação de um elo que os ligassem aos grupos políticos regionais e nacionais.

  E no que tange à ligação que existia entre as paróquias e a corte, Graham utilizou a para explicar as modalidades prevalecentes de ligação que se

  noção de clientelismo

  estabelecia entre o centro político imperial com as províncias e as comunidades, aprofundando a compreensão das relações de mútua dependência dos agentes que estavam situados nessas várias esferas do governo nacional, por um lado, e por outro reforçando os instrumentos de hierarquização social e política desde as paróquias até a Corte, como equaciona Graham:

  [...] alcançar fins inteiramente congruentes com as necessidades e desejos dos senhores de terras, e imperceptivelmente emaranhavam-se com a estrutura social. Em parte, o que tornava as eleições tão importantes, para a maioria dos participantes, fossem patrões ou clientes, era a preocupação permanente com a hierarquia social. Satisfazendo uma necessidade quase que inconsciente, as eleições funcionavam para consolidar, entre uma população móvel, a ordem hierárquica 22 nitidamente estratificada .

  23 Com a obra de Maria Fernanda Martins , o debate é enriquecido com o estudo do

  Conselho de Estado do Império (instância executiva máxima do governo imperial). Partindo de uma ampla e detalhada pesquisa, fundamentada nas perspectivas analíticas tanto da micro- 21 história italiana quanto de estudos prosopográficos, a autora desvela alguns aspectos do 22 GRAHAM, Richard. Clientelismo e política no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro. Editora UFRJ. 1997. 23 Ibidem. p. 139. nesse universo, assim como dos critérios de entrada, seleção e ascensão dos

  modus operandi

  agentes que penetraram naquela esfera de poder político nacional, domínio esse altamente restrito e exigente aos pretendentes.

  Desta forma, Martins analisa os aspectos da formação de uma complexa rede de relações familiares, de amizades, de alianças políticas, de interesses econômicos em que os indivíduos pertencentes à alta cúpula do governo estavam imersos, demarcando pois a atuação dos mesmos, principalmente quanto aos fatores sociais e políticos imbricados nas estruturas de mediação que se estabelecia entre, de um lado, as demandas das províncias, e, do outro, as incumbências do governo nacional.

  Assim, enquanto Martins se detém nas características sociais desses agentes que alcançaram o prestigio máximo dentro do governo central, a pesquisa feita por Jonas Moreira

24 Vargas sobre a província do Rio Grande do Sul, durante o século XIX, lança um olhar

  bastante minucioso sobre as complexas relações que contribuem para a afirmação de protagonistas das lutas por poder político naquele contexto e principalmente para a "escalada" de agentes paroquiais às posições políticas centrais.

  Vargas, que fez uso da metodologia prosopográfica sobre as trajetórias dos agentes importantes no cenário político do Rio Grande do Sul no período, focou seu estudo nas origens sociais, inserções profissionais e investimentos educacionais desses líderes políticos regionais que ascenderam às altas esferas da política nacional, como a Câmara dos Deputados e o Senado, mas, sobretudo, ao ponto máximo de ascensão política naquele momento, que era a entrada no Conselho de Estado do Império. Assim a constituição, manutenção e ativação de redes de clientelas nas municipalidades, bem como as conexões familiares (nos planos provincial e nacional), a formação de uma carreira política regional e o controle político paroquial foram alguns pontos basilares das estratégias de construção de trajetórias políticas desses agentes que ocuparam posições nas altas esferas da política imperial.

  De um modo geral, nesses estudos realizados em torno da temática do processo de edificação tanto social quanto política do Estado brasileiro, um ponto em comum nessas analises foi complexidade das relações de interdependência, caracterizadas pelos múltiplos 24 laços de compromisso pessoal, as redes de proteção (favoritismo) e as complexas trocas de benefícios e fidelidades (fundadas no código de reciprocidade), que perpassam distintos domínios sociais e lógicas sociais que enredavam os agentes que direta e indiretamente estiveram imersos em uma conjuntura mais ampla de emergência desse Estado, pois participavam da dinâmica social brasileira então vigente.

  Outros estudos também colaboram significativamente para o avanço de uma análise histórica sobre características, funcionamento e organização das instituições nacionais e provinciais diante das lutas políticas das elites regionais e locais. Dentre esses trabalhos, há aqueles que se dedicaram particularmente a um elemento burocrático, que foi a Guarda Nacional, objeto de discussão do atual trabalho.

  Várias pesquisas dedicadas à Guarda Nacional centraram seus esforços na reconstituição dos espaços de poder e das estratégias de afirmação das elites políticas locais efetuadas por intermédio dessa instituição militar. A partir da correlação entre a organização da milícia e a caracterização de alguns aspectos da composição social, política e econômica dos oficiais e praças envolvidos nessa força coercitiva, tais estudos evidenciaram as peculiaridades de diferentes configurações locais e provinciais formadas durante o século

  XIX.

  No bojo dessas investigações, deve-se salientar o trabalho empreendido por Fernando

25 Uricoechea que avançou significativamente na compreensão da institucionalização da

  Guarda Nacional no Brasil, durante o período imperial, a partir da emergência do Estado Nacional brasileiro e a centralização política ocorrida na segunda metade do século XIX. Para executar tal tarefa, o autor estudou os múltiplos aspectos sociais e políticos envolvidos no processo de organização da Guarda Nacional no Rio Grande do Sul, enfatizando, a atuação dos notáveis locais na milícia, e, por conseguinte, os impactos disso sobre as questões sociais, culturais e políticas nas municipalidades.

  26 Já no estudo sobre a Guarda Nacional brasileira promovido por Jeanne Castro ,

  analisou-se a constituição e os processos de mudanças institucionais dessa força militar, a partir da primeira metade do século XIX. De acordo com a autora, o investimento na força 25 militar pelo governo nacional deveu-se, por um lado, às necessidades de criar um órgão

  

URICOECHEA, Fernando. O minotauro imperial: a burocratização do estado patrimonial brasileiro no 26 século XIX. São Paulo, Difel, 1978. coercitivo que suplantasse as imensas fragilidades de outras instituições militares, inclusive do Exército, e, por outro lado, ao atrelamento dos interesses políticos e econômicos de notáveis locais e das elites regionais.

  Desse modo, a análise de Castro demarca dois crivos cronológicos importantes no processo de institucionalização da Guarda Nacional. O primeiro momento teria início com a criação da Guarda Nacional, em 1831. Conforme a autora, nesta fase a guarda Nacional tinha características mais “democráticas”, sobretudo por conta da possibilidade da presença de pobres livres nos quadros administrativos e em patentes importantes nas milícias locais. O que possibilitou a denominação, inclusive, de "milícia cidadã". O segundo momento que data da década de cinquenta do século XIX, com a lei da reforma da Guarda Nacional, fase em que a instituição ganharia um viés de normalização de cunho mais "aristocrático", devido, entre outras coisas, às mudanças de critérios de entrada e de obtenção de patentes importantes na estrutura administrativa da força militar, restringindo, dessa maneira, a participação efetiva dos livres pobres nos círculos de oficiais da milícia local.

  27 A análise da Guarda Nacional, presente na obra de Flávio Saldanha , realça, por seu

  turno, o diálogo que este autor travou com a obra de Jeanne Castro acima citada. Ele aprofunda o escopo do estudo por meio do levantamento de vários conjuntos documentais das administrações tanto provincial quanto municipais de várias cidades do interior de Minas Gerais, conseguindo, pois, desenhar um quadro sobre a morfologia dos indivíduos (suas bases sociais e econômicas) que ocuparam os cargos superiores da milícia. Agentes esses que, através do sistema de eleições para oficiais, encontravam-se em posições destacadas dentro da Guarda Nacional, mas que muitas vezes pertenciam a segmentos sociais, políticos e economicamente menos favorecidos. O que chama a atenção é que eles ocuparam e/ou consolidaram suas posições de liderança dentro da milícia em um momento em que tal processo de edilidade dos postos de oficias possibilitou uma relativa horizontalização social, isto é, a valorização dos aspectos socioeconômicos das classes sociais mais desfavorecidas diante das forças e lideranças políticas locais que buscavam controlar os espaços institucionais nas comunidades, sobretudo a Guarda Nacional.

  No trabalho de André Fertig, o objeto principal da pesquisa foi reconstituir a 27 emergência da Guarda Nacional no Rio Grande do Sul (século XIX), a partir das especificidades de funcionamento e organização dessa força militar em uma região de

  28

  fronteira . O foco da pesquisa se fundamentou na ideia de apresentar a constituição da Guarda Nacional na província sul-rio-grandense, a partir do exame da instrumentalização política dessa milícia no cenário de disputas clientelistas, notadamente identificando os embates que ocorriam no interior das milícias, assim como a estruturação de redes políticas e um sistema de compromissos que atravessam os planos regional e local do domínio político.

  Desta forma, os trabalhos historiográficos que se debruçaram sobre a Guarda Nacional demonstraram as complexas relações marcadas por conflitos, alianças e trocas nas municipalidades do Brasil, no século XIX. Por conseguinte, assinala-se, a partir do acúmulo de pesquisas arrolado anteriormente, a pertinência de efetuar estudos sobre configurações de poder, origens sociais e trajetórias dos agentes ligados à Guarda Nacional, aqui enfocando as relações sociais de interdependência estabelecidas nas paróquias no Maranhão.

  Realça-se, pois, a importância de realizar a investigação sobre a Guarda Nacional a partir da atuação política dos agentes que ocuparam os postos de oficiais e comandantes dessa força militar nas comunidades. Atuação essa que permitiu a tais agentes não somente ocupar espaços de liderança na instituição militar, mas igualmente múltiplas posições de comando político nas instâncias locais. Nesse quadro complexo, do ponto de vista social e político, existente nas paróquias, a Guarda Nacional, como apontou Wilma Peres, tornava-se "uma

  29

  , em que seus agentes, em última instância, controlavam não espécie de 'partido armado'” somente a milícia, mas as eleições, os poderes legislativo, executivo e judiciário nos municípios, delineando a força política dos potentados locais diante de suas comunidades.

  É importante reter que as perspectivas metodológicas e conceituais utilizadas nesse trabalho foram desenvolvidas a partir de modelos de pesquisas e estudos específicos sobre elites e grupos dirigentes, constituídos, por sua vez, de maneira interdisciplinar, acionando saberes disciplinares diversos, como os da história, da sociologia política e da antropologia política.

  28 FERTIG. André Atila. Clientelismo político em tempos belicosos: a Guarda Nacional da Província de São 29 Pedro do Rio Grande do Sul na defesa do Império do Brasil. Santa Maria: Editora da UFSM, 2010.

  Sobre essas novas formas de se trabalhar sobre distintos segmentos das elites, Flavio

30 Heinz frisa que tais pesquisas ganharam fôlego, na história e nas ciências sociais, a partir da

  incorporação de novas ferramentas, especialmente as análises prosopográficas, que, voltando- se para as trajetórias de agentes, possibilitaram, ainda, a caracterização dos espaços sociais, categorias culturais e contextos econômicos nos quais aqueles indivíduos estavam imersos. Conforme a perspectiva desse autor, essa nova agenda de pesquisa visa dar conta:

  [...] através da microanálise dos grupos sociais, da diversidade, das relações e das trajetórias do mundo social, [...] e , através de uma análise mais "fina" dos atores situados no topo da hierarquia social, a complexidade de suas relações e de seus 31 laços objetivos com o conjunto ou com setores da sociedade .

  O expediente por ele utilizado para descrever a topografia das elites, a prosopografia ou biografia coletiva, foi redefinido recentemente por outro historiador, Christophe Charle, que sintetiza os passos a serem seguidos: “(...) definir uma população a partir de um ou vários critérios e estabelecer, a partir dela, um questionário biográfico cujos diferentes critérios e variáveis servirão à descrição de sua dinâmica social, privada, pública, ou mesmo cultural,

  32

  ideológica ou política” . Sem, contudo, confundir, assevera: “o método com o seu fim”, isto é, lembra ele: “o objetivo de toda prosopografia é apreender, através das biografias coletivas,

  33 .

  o funcionamento real das instituições ou dos meios onde agem os indivíduos estudados” A apreensão do volume e da estrutura de capitais dos agentes pertencentes à Guarda

  Nacional implica em descortinar as diferentes estratégias de reprodução de determinadas “famílias” que constituem forças de fusão (“corpo”) e fissão (“campo”). Seguindo Bourdieu, essas unidades sociais, as famílias, são os sujeitos de condensação de papeis e de divisão social do trabalho de dominação. Segundo ele:

  É necessário que a família exista para que as estratégias de reprodução sejam possíveis; e as estratégias de reprodução são a condição de perpetuação da família, em sua criação continuada. A família, na forma que reveste em cada sociedade, é uma ficção social que se institui na realidade a custa de um trabalho que busca instituir duradouramente em cada um dos seus membros os sentimentos apropriados

  34 30 para assegurar a integração e a crença no valor dessa unidade (grifos nossos) . 31 HEINZ. Flávio M. Por uma outra história das elites. Rio de Janeiro. Editora FGV. 2006. 32 Ibidem. p.8.

  

CHARLE. Christophe. “A prosopografia ou biografia coletivo: balanço e perspectivas”. In: HEINZ. Flávio

33 M. Por uma outra história das elites. Rio de Janeiro. Editora FGV. 2006. p. 41. 34 Ibidem. p. 47-48.

  Ao pensá-las no contexto brasileiro e especificamente do Maranhão, no século XIX, talvez seja útil recorrer à uma definição mais alargada de “família”. A propósito, Graham definiu

  “famílias” como sendo "unidades domésticas que constituíram os fundamentos de uma estrutura de poder socialmente articulada onde o líder local e seus seguidores

  35

  trabalhavam para ampliar essa rede de dependência" . Portanto, a noção de “família” do século XIX está intimamente ligada à figura de um patriarca que, ao mesmo tempo em que mantém laços de mútua dependência com os seus aliados, familiares e amigos, também mantém uma constante relação de forças com "[...] seus dependentes, no julgamento discricionário da justiça e na monopolização 'absoluta da violência'; no régime d'exception da

  36 educação de seus filhos, no autoritarismo e paternalismo que marcaram sua vida cotidiana" .

  Estruturando, assim, as bases de cooperação e de alianças dentro âmbito político nos vários estratos governamentais, ao longo do século XIX, as famílias dentro desse contexto foram fundamentais como:

  [...] bases grupais de afiliação, o sistema de parentesco determinava o pertencimento e prestígio dentro da rede familiar. As famílias tinham suas bases no grupo nuclear, em que o casal e seus filhos dominavam a estrutura, mas que, ao se tornar extensa, 37 ampliava suas redes de controle para além dos parentes mais próximos .

  Além das famílias, existiram outras unidades sociais, que fizeram parte, direta ou indiretamente, de uma conjuntura política mais diversificada nas esferas local, provincial e nacional, marcada pela complexificação das relações de interdependência de agentes que ocuparam esses vários estratos da estrutura governamental do Império no século XIX.

  Constata-se a importância das coalizões interpessoais, pautadas: por objetivos concretos e diferentes que possuem os indivíduos; por relações com forte componente de reciprocidade; por instabilidades nas ligações; pelo caráter efêmero dos “grupos”; por não contarem com coesão social ou ideológica, além de serem delimitadas por lealdades, alianças, conflitos e hostilidades. Principalmente facções e conjuntos de ação são aportes conceituais capazes de auxiliar na apreensão dos múltiplos papeis exercidos e das teias sociais que os agentes atuantes na Guarda Nacional constituíram. Tais conceitos remetem à existência de 35 redes egocentradas (há centralidade de um líder ou núcleo), cadeia de líderes-seguidores, 36 GRAHAM. 1997. p.17.

  

URICOECHEA. Fernando. O minotauro imperial: a burocratização do estado patrimonial brasileiro no

século XIX. São Paulo, Difel, 1978. p. 65.

  37 LIMA. Edyene Moraes dos Santos. Honradas famílias: poder e política no Maranhão do século XIX (1821- interesses compartilhados e compensatórios entre os membros, divisão interna do trabalho, hierarquização de papeis. A diferença entre conjuntos de ação e facções assenta-se na presença de unidades rivais para esta última, enquanto a primeira se define pela coordenação

  38 das ações por um conjunto de pessoas para um objetivo determinado .

  Nesse sentido, baseado nos conceitos abordados acima e mediante o recorte e análise documental da pesquisa, optou-se por dividir a noção de elites em dois campos distintos, mas interdependentes, isto é, um conceito de elite política provincial e outro de elites locais ou paroquiais.

  Por elite política provincial entende-se, na conjuntura política do Brasil do século

  XIX, como sendo o grupo que concentrava "os conselheiros e ministros de estado, os

  39

  senadores e os deputados gerais e provinciais" , ou seja, eram agentes que possuíam, na maioria dos casos, vastos recursos econômicos e uma posição social e política destacada no círculo regional e nas esferas sociais extremamente restritas da Corte. Em suma, eram agentes que, por possuírem esse cabedal de recursos materiais e simbólicos, se faziam

  40

  conhecer e reconhecer como capazes de realizar essa "mediação" entre mundos tão distantes como as paróquias e o centro governamental do império . E, de acordo com Vargas, esse trabalho de mediação caracterizava-se por:

  [...]estabelecer uma conexão entre um sistema local e outro nacional, [que] [...] reúne em si (portanto atributos exclusivamente pessoais e não transmissíveis a habilidade de interagir tanto com o sistema local quanto com o nacional. Além disso, o seu poder na comunidade local está sustentado exatamente na sua exclusiva capacidade de atingir o mundo exterior e dele trazer recursos e informações 41 necessárias para a segurança e o desenvolvimento do sistema local.

  Ainda na visão de Vargas, a posição de mediação era atribuída em virtude do reconhecimento desfrutado por essa elite provincial, tanto na sua região quanto no plano nacional. Função restrita a agentes que ascendiam e compunham tal segmento social dominante, que, para o autor, era composto de protagonistas que provinham ou tinham o

  38 Para uma discussão sobre os conceitos elencados acima, ver: MAYER. Adrian C. A importância dos quase

grupos no estudo das sociedades complexas. In: Bela Feldman-Bianco (org.). Antropologia das sociedades

contemporâneas. Métodos. São Paulo: Editora Unesp, 2010. p.139-170; BOISSEVAIN, J eremy. “Coaliciones”.

  

In: FÉLIX. Requena Santos. Análisis de redes sociales. CIS-Siglo XXI, España, 2003; LANDÉ. Carl.

“Introduction: the dyadic basis of clientelism”. In: SCHMIDT, S.W.; alli.(Orgs.). Friends, followers and 39 factions. A Reader in political clientelism. Berkeley: University of California Press, 1977. 40 VARGAS. 2010. p.44. início de suas carreiras nas esferas administrativas, legislativas e judiciárias nas municipalidades de origem, e, deste modo, reconhecidos pela posse de:

  [...] [um] capital relacional e [...] conhecimentos [que] lhe conferiam uma capacidade de ação e de consecução de objetos notáveis, que fazia dele um homem necessário e buscado pelos membros da comunidade para mover seus assuntos. [E onde] pessoas de fora o procuravam para intervir dentro da comunidade e pessoas da comunidade procuravam-no para intervir fora dela. Isto reforçava sua posição ante as outras famílias de notáveis, que podiam necessitar sua mediação para ascender a 42

certas instâncias elevadas e obter determinados favores .

  Na esteira de Eric Wolf, é possível grifar a centralidade e a relevância da noção de mediação:

  Inicialmente, a mediação pode ser conceituada pela capacidade que certos indivíduos possuem em estabelecer elos entre “comunidade” e “nação”. Esses [os mediadores] se constituem em ‘grupos orientados para a Nação’ nos quais os componentes se diferenciam dos demais membros das comunidades que orientam suas práticas e expectativas para a própria comunidade. Por outro lado, engloba os agentes das grandes instituições centrais encarregados de capilarizar a presença das mesmas nas comunidades e passam a ser vistos como “terminais locais de uma rede de relações de grupos que se estende, por meio de níveis de intermediários, do nível da comunidade ao da nação” [...]. Os intermediários controlariam os links que ligam o sistema local ao todo mais amplo e atendem, em uma direção, às expectativas dos indivíduos da comunidade desejosos de estabilizar ou melhorar suas condições de vida, mas que são destituídos das condições materiais e de conexões políticas próprias para tanto. Em outra direção, eles aproximam as instituições centrais, que necessitam se espraiar ao longo território, com as comunidades. Para levar a cabo essa tarefa, o tamanho, a força e o alcance dos séqüitos de seguidores controlados pelos mediadores se mostram decisivos. Os mediadores, portanto, são indivíduos selecionados para a mobilidade entre os níveis local e nacional e que retiram recompensas (recursos e influência) da realização dessa função de intermediação 43 entre a parte e todo .

  Noção essa que foi aprimorada por Sydel Silverman, como destaca ainda Grill:

  Inspirada nessas formulações (de Wolf), uma definição ainda mais precisa da noção de mediação [realizada por Silverman] se apoia em dois elementos básicos: na sua função crítica e na exclusividade. Ou seja, os mediadores seriam responsáveis pela comunicação entre o sistema local e o sistema nacional, desempenhando papéis de interpretação e de composição de questões de importância direta para a estrutura das duas ordenações (local e nacional). Eles constituem, ainda, um número reduzido de atores que controlam de forma quase exclusiva essas funções sociais. Assim, mantém-se o componente de mobilidade, contudo acrescentando outras variáveis que traçam limites entre os mediadores e os intermediários em geral (por exemplo, agentes econômicos que transacionam mercadorias nas comunidades). Por 44 42 conseguinte, o potencial político da função de mediação se torna mais claro . 43 VARGAS. 2012. p.41 - 42.

  

GRILL, Igor Gastal. “Especialização política: bases sociais, profissionalização e configurações de apoios”. In:

SEIDL, Ernesto; GRILL, Igor Gastal. As Ciências Sociais e os espaços da Política no Brasil. Rio de Janeiro:

Editora da FGV. 2013. p. 249-250.

  Já as elites locais são compostas por agentes que, devido ao menor volume de recursos, tinham poucas chances de ascensão a uma carreira política no cenário nacional, restando-lhes uma atuação nas instâncias regionais e locais. Portanto, essa carreira local se caracterizaria pelas ligações e imbricações familiares, além da formação de uma ampla rede de interdependência de aliados e adversários nos planos local e provincial.

  Sendo assim, a exposição dos autores, trabalhos e conceitos feita acima, indica a potencialidade de uma ampla pesquisa e discussão histórica e sociológica voltada para balizar um estudo sobre o ethos da vida política nas paróquias, pautada por concepções de família, relações clientelistas e as disposições culturais e políticas que configuram as relações de interdependência nos diferentes âmbitos da sociedade no Brasil do século XIX, mormente o político. E foi, partindo desses pressupostos, que se direcionou o atual estudo sobre a Guarda Nacional no Maranhão oitocentista.

  Pesquisa em arquivo e seus processos metodológicos

  Para a realização da pesquisa sobre a Guarda Nacional, foi mobilizada uma minuciosa análise documental, cuja objetivação da posição do pesquisador e o tratamento da dimensão social da memória presente nos artefatos históricos revelaram-se procedimentos fundamentais para construção do objeto.

  A observação crítica dos deslocamentos de sentido e das ressignificações próprios dos grupos sociais que produzem, reproduzem e preservam uma memória coletiva, que esta presente nos mais diversos tipos de artefatos históricos, e que incidem direta e indiretamente no desenvolvimento da pesquisa científica. Assim, a necessidade de uma análise mais refinada sobre aqueles objetos do passado requer, por parte do pesquisador, a apreensão dos múltiplos desvios de sentidos e intencionalidades (do passado e do presente) que o mundo social e o próprio investigador lhes impõem, como coloca Celso Castro, que:

  O que ‘resta’ em um arquivo resulta, diretamente, de pessoas que definem certos materiais - e não outros - como aqueles ‘que vale a pena guardar’. O documento, portanto, não preexiste ao arquivo: um determinado artefato se constitui em documento na medida em que é associado, por diferentes pessoas, a uma série de documento consultado é, portanto, resultante de um conjunto de intencionalidades: de quem o produziu, de quem o guardou, de quem organizou e permitiu que fosse 45 consultado .

  Diante dos obstáculos epistemológicos e metodológicos inerentes a este tipo de pesquisa, foram adotados procedimentos, operações e instrumentos de estudo, orientados por um olhar comparativo (entre diferentes configurações históricas situadas no tempo e no espaço) e pelo diálogo entre disciplinas das ciências humanas. Isso ajudou a revelar um campo bastante profícuo de possibilidades de produção do presente trabalho, particularmente quanto às formas de se pensar a complexidade do mundo social que emerge dos artefatos

  46

  históricos , em especial relativas às diferentes maneiras de transitar sobre inúmeras fontes documentais ativadas.

  O modus operandi analítico da pesquisa voltou-se para uma tentativa de recompor, a partir do trabalho crítico e metodológico das fontes documentais, os espaços sociais, as forma de composição de grupos sociais e:

  [...] as propriedades sociais mais requisitadas em cada grupo, sua valorização ou desvalorização através do tempo; conhecer a composição dos capitais ou atributos cultural, econômico ou social, e sua inscrição nas trajetórias dos indivíduos; enfim, conhecer os modelos e/ou estratégias empregados pelos diferentes membros de uma elite para alicerçar uma carreira exitosa e socialmente ascendente ou, em [...] 47 declínio .

  Assim, o tratamento do material obtido nas fontes utilizadas resultou de dois tipos de abordagens. A primeira consistiu em captar a distribuição de propriedades sociais entre os indivíduos por meio da construção de quadros sinópticos que permitem identificar e quantificar características (dados de origem familiar, ocupações, carreiras e formação) pertinentes às populações examinadas. Já a segunda baseou-se na coleta de informações referentes às lutas políticas e sociais em que atuaram os agentes em pauta.

  Cabe, pois, uma exposição sucinta dos acervos documentais mobilizados. Esses cobrem de ofícios das Câmaras Municipais a outras correspondências e missivas da 45 administração local dirigidas ao governo provincial, passando ainda pelas instruções do 46 CASTRO, Celso. Pesquisando em Arquivo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2008. p. 29-35.

  

BOURDIEU, Pierre. “Introdução a uma sociologia reflexiva”. In. O poder simbólico. Lisboa-Rio de Janeiro. Ministério da Justiça e documentos administrativos paroquiais presentes no Arquivo Público do Estado do Maranhão (APEM). Realizou-se também levantamento de dados em jornais do século XIX, existentes na Biblioteca Pública Benedito Leite. Todos esses documentos contribuiriam para a organização de um quadro mais amplo relativo ao objeto da pesquisa, assim como serviu de instrumentos de captação da configuração política e social do Maranhão naquele momento.

  Com relação especificamente ao acervo documental do APEM, objetivou-se detectar alguns aspectos relativos às tensões que existiam entre os agentes políticos presentes nas comunidades, sobretudo aqueles que ocuparam os principais cargos da hierarquia da Guarda Nacional. E, através do cruzamento de dados gerados pela administração da milícia nas paróquias (como a relação de distribuição de patentes, ordens e requisições aos batalhões ordenadas e organizadas pelos chefes de legião) com outros documentos gerados, principalmente, pelas Câmaras Municipais, buscou-se traçar as imbricações que existiam entre a organização militar e a política local.

  Outras séries documentais sobre a Guarda Nacional dos municípios de Alcântara e Itapecuru contempladas durante a pesquisa foram: Carta de Patentes; Comandantes dos Batalhões; Comandante Superior da Guarda Nacional de diversas vilas; e Chefe de Legião da Guarda Nacional.

  Já as documentações referentes às Delegacias de Policia e às Câmaras Municipais permitiram complementar as análises quantitativas e qualitativas sobre os agentes da Guarda Nacional, no que diz respeito aos cargos e funções daqueles que ocuparam as ditas esferas institucionais na província. Enquanto nas esferas policial e judicial das cidades de Alcântara e Itapecuru, o interessante foi perceber os agentes que ocuparam os cargos oficiais superiores e as formas de consecução desses órgãos coercitivos e normativos nos diferentes estratos sociais locais.

  Nos documentos relativos às Câmaras Municipais foi possível captar os debates acerca de alguns aspectos referentes à complexidade do cotidiano do mundo da política local e regional.

  Analisando os jornais provinciais, a pesquisa direcionou-se ainda para a apreensão de informações complementares sobre as trajetórias políticas de alguns agentes da Guarda deputados provinciais empossados, nomeações para os cargos policiais e judiciários, as reclamações e reivindicações de aliados e adversários no âmbito provincial.

  E, por fim, as correspondências da presidência da província às diversas autoridades locais; as falas de abertura das sessões da Assembleia Legislativa Provincial, feitas pelos presidentes de província; os Avisos dos Ministérios da Guerra e da Justiça à presidência da província; as Leis Imperiais e Provinciais; serviram como contributos para a demonstração das formas como se estruturava a administração provincial, sobretudo com relação ao panorama dos debates que ocorreram nas decisões concernentes aos planos regional e local.

  Economia geral do trabalho e os níveis de organização de análise

  A exposição do trabalho de pesquisa, bibliográfico e documental, adotou a seguinte lógica. O primeiro capítulo descreve as condições de emergência dos Estados Nacionais na Europa e no Brasil. Em seguida, abordou-se as dinâmicas sociais, políticas e econômicas da província do Maranhão no século XIX. E, por fim, trata-se da organização e funcionamento da Guarda Nacional no Brasil e no Maranhão.

  O segundo e o terceiro capítulos estiveram voltados para caracterizações específicas dos condicionantes sociais, demográficos, políticos e econômicos intervenientes nos municípios de Alcântara e Itapecuru, no período de 1839 à 1855. Na sequência, foram verificadas as configurações sociais que cercaram a institucionalização da Guarda Nacional naquelas paróquias. E, por último, procedeu-se a análise mais detalhada sobre os principais agentes que ocuparam a hierarquia máxima da força miliciana, a partir do estudo das bases sociais e da atuação política desses agentes nas esferas locais e provincial.

  CAPÍTULO I : BRASIL, MARANHÃO E A GUARDA NACIONAL: longo

caminho entre as paróquias e a Corte.

  Neste capítulo serão discutidos alguns aspectos relativos à formação do Estado Moderno, abordando as especificidades de construção de um centro político na periferia do sistema internacional. Para tanto, serão evidenciadas as estratégias das elites políticas situadas em distintos níveis da hierarquia política e o uso que elas fizeram de instituições políticas para a afirmação da autoridade e/ou para unidade nacional, no Brasil do Oitocentos.

1.1 Discussões preliminares sobre a gênese dos Estados Nacionais no ocidente.

  Várias pesquisas sociológicas, históricas e antropológicas produzidas ao longo dos séculos XIX e XX debruçaram-se em analisar os processos históricos complexos de transformações das instituições sociais e das sociedades como um todo. Mas seria sobre uma instituição que surgiu paulatinamente no início do século XIV que ensejou maiores debates entre aqueles estudiosos, qual seja, a emergência do Estado Nacional.

  Max Weber, autor clássico da sociologia clássica e base para alguns modelos de estudos sobre o surgimento do Estado Nacional, aponta a dinâmica social e histórica que possibilitou o surgimento do Estado Moderno, definido-o:

  [...] como uma comunidade humana, que dentro dos limites de determinado território - a noção de território corresponde a um dos elementos essenciais do Estado - reivindica o monopólio do uso legitimo da violência física.[...] o Estado se 48 transforma, portanto, na única fonte do direito à violência .

  No foco ainda do trabalho de Weber aparece também a conjuntura social e a estrutura de dominação inerente à estrutura governamental, que conforme caracteriza o autor, o grau de legitimidade das suas instituições e dos seus agentes perante todo o universo social envolvido esta diretamente ligado a aquiescência dos súditos ou cidadãos à existência tanto normativa quanto coercitiva de um Estado.

  Assim, os estudos sobre os processos de formação dos Estados Modernos no ocidente tomam como ponto de partida a descrição da lenta passagem dos regimes feudais

  49

  para os governos absolutistas , entre os séculos XIV e XVI, com a supressão de uma ordem política fragmentada para um sistema de centralização das instituições sociais e políticas.

  Tais mudanças decorrem do gradual processo de monopolização e profissionalização de instituições administrativas e militares como instrumentos de regulação estatal sobre o

  50

  mundo social , resultando, assim, num amplo processo de concentração política, social, econômica, tributária e militar, em torno, inicialmente, do símbolo mais importante deste movimento, a figura do rei.

  Diante desse quadro de centralização política e governamental, mais complexo e extenso e que cada vez mais legitimava a figura central de um soberano, como detentor do monopólio simbólico de prestígio, novos equilíbrios de forças surgiram entre os agentes envolvidos nas disputas por status, prestígio e recursos econômicos provenientes dessa nova estrutura de poder, como no caso francês, em que:

  Ele (Luís XIV) ocupou a posição de rei em uma fase do desenvolvimento social da França que lhe permitiu expressar, num grau extraordinário, sua demanda pessoal por réputation e glorie. Por conseguinte, aqueles súditos que mais importavam no jogo de forças, as pessoas que faziam parte da elite da sociedade, da camada superior, que eram movidas com muita intensidade por suas demandas de prestígio, encontravam magnificada no rei a mesma coisa que os impelia numa escala mais 51 reduzida .

  Mas com o advento das revoluções burguesas norte-americana, inglesa e francesa, nos séculos XVIII e XIX, houve outro período de transformações sociais, econômicas e políticas no mundo europeu. O que em termos de formatação de Estado significou a passagem de uma estrutura de Estado de modelo dinástico (de caráter patrimonial) para uma organização estatal cuja administração gradativamente se burocratizava, a partir da 49 rearticulação e redefinição em torno de um campo burocrático, cada vez mais extenso,

  

ELIAS, Norbert. O processo civilizador: formação do Estado e Civilização. Rio de janeiro. Jorge Zahar

50 editora. 1993. 51 DÉLOYE. Yves. Sociologia histórica do político. São Paulo. Edusc. 1999. p. 50.

  complexo e autônomo em relação às emanações e interesses particularistas do poder régio ou das forças centrífugas, remanescentes da estrutura organizacional dos Estados Absolutistas que ainda se mantinha, ou seja:

  A passagem do Estado dinástico ao burocrático é inseparável do movimento pelo qual a nova nobreza, nobreza de Estado (togada), desaloja a velha nobreza, a nobreza de sangue. Vê-se de passagem que os meios dirigentes foram os primeiros a conhecer um processo que se estendeu, muito mais tarde, ao conjunto da sociedade: a passagem de um modo de reprodução familiar (que ignora o corte entre público e privado) e um modo de reprodução burocrático baseado no sistema escolar, fundado 52 sobre a intervenção da escola nos processos de reprodução .

  Portanto, o que ocorreu foi a gradual e progressiva substituição do "centro" de emanação do poder dinástico na pessoa do rei para uma ideologia em torno de uma "razão de

53 Estado" ou "lógica de Estado ", ou seja, a supressão de uma indiferenciação entre as esferas

  pública e privada, por um modus operandi burocrático e político que giraria agora em torno de instituições, que:

  [...] se deverá construir o Estado burocrático, que supõe a dissociação da posição e de seu ocupante, da função e do funcionário, do interesse público e dos interesses privados, particulares 54 – ainda com a virtude da negação de interesses atribuídos ao funcionário .

  Logo, o processo de desvinculação de um arranjo administrativo que indiferenciava os aspectos do imperium (o poder público) e dominium (o poder privado), a partir de novas concepções ideológicas, traria às instituições governamentais absolutistas as consequências e as modificações das novas realocações de forças nas relações de poder em torno de um Estado cada vez mais burocratizado. Isto é, transformações que ocorreram nesse tipo de organização estatal, por um lado, distanciaram-se relativamente do caráter arbitrário dos agentes políticos sobre a organização e gestão das instituições governamentais, e, por outro, ampliou a atuação de agentes sociais ligados ao corpo burocrático sob as principais decisões daquele corpo 52 institucional, o que significou, por fim, uma relativa autonomia no que se refere a atuação

WACQUANT. Loïc. O Mistério do Ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Rio de Janeiro.

53 Revan. 2005. p.55.

  

Numa explicação sintética, mas bastante feliz a respeito da gênese do Estado moderno e da lógica que se

impõe, ao mesmo tempo, numa relação de interdependência às instituições e à sociedade, em longo processo

histórico, Yves Déloye aponta que: [...] o Estado moderno dá uma reviravolta na estrutura social da sociedade

que pretende governar e impõe, a cada um, uma nova lógica de comportamento e obediência. Na base desta

'lógica de Estado" reside uma mutação sem precedentes das estruturas financeiras e militares da sociedade discricionária dos agentes políticos, que resultou no âmbito mais geral, tanto a nivel administrativo quanto social, um Estado com:

  [...]o monopólio do uso legitimo da violência física e simbólica em um território determinado e sobre o conjunto da população correspondente. Se o Estado pode exercer uma violência simbólica é porque ele se encarna tanto na objetividade, sob a forma de estruturas e de mecanismos específicos, quanto na “subjetividade” ou, se quisermos, nas mentes sob a forma de estruturas mentais, de esquemas de percepção e de pensamento. Dado que ela é resultado de um processo que a institui, ao mesmo tempo, nas estruturas sociais e nas estruturas mentais adaptadas a essas estruturas, a instituição instituída faz com que se esqueça que resulta de uma longa série de atos 55 de instituição e apresenta-se com toda a aparência do natural .

  Com o surgimento de outras configurações sociais vinculadas no espaço do Estado burocrático, a reestruturação administrativa das instituições e expansão do campo de atuação

  56

  sobre a sociedade , caracterizam-se pela atuação nessa "nova" estrutura estatal, e, consequentemente, a partir das “novas” lutas ao acesso tanto de forma direta quanto indireta a essas instituições estatais que surgiam nesse momento, ocasionando redimensionamentos nas múltiplas relações de interdependências e interpenetrações de conflitos de interesses entre os diversos grupos sociais, as instituições e os agentes desse Estado Nacional.

  Quanto aos processos históricos e sociais de emergência dos Estados Nacionais fora do eixo do mundo europeu, como nos países americanos que surgiram do movimento de colonização ibérica, constituíram-se diversamente ao processo que ocorreu no mundo europeu. Foi mediante o movimento de importação e adoção de pressupostos ideológicos, normativos e burocráticos provenientes dos Estados ocidentais, bem como via os processos de ressignificação entre as culturas importadoras (americana) e as importadas (europeia e norte- americana) que edificaram-se esses novos Estados, como no caso brasileiro. Assim, "as

  

estratégias de importação " e os "efeitos de hibridação" implica igualmente na configuração

  57 de estruturas políticas institucionais e normativas diversas .

  Tais Estados periféricos constituídos a partir de modelos institucionais importados, seriam organizados em torno de uma configuração política em que grupos sociais ligados ao centro dessa organização estatal apropriaram-se dos recursos de diversas ordens provenientes 55 do Estado, com o fim de reproduzir-se nesse núcleo político estatal, e reforçaram um tipo de 56 BOURDIEU, Pierre. Razões Práticas: sobre a teoria da ação. São Paulo. Papirus Editora. 1996. p. 97-98.

  ordem política que "cumpre a função de reforçar as estruturas políticas mais deficitárias e

  58 substituir as organizações tradicionais que tenham se tornado obsoletas" .

  Com efeito, criou-se um sistema estatal, cuja distribuição desigual dos meios estatais em benefício de um grupo social minoritário, justamente aquela que controlaria os escassos

  59

  recursos econômicos e políticos, além do poder político e do capital social , garantindo àqueles uma posição de dominância em relação aos demais grupos sociais, pautada pelas relações de influências e interdependência entre as forças distantes do centro político e os grupos de dirigentes da nação. Isto é, o monopólio de mediação entre centro e periferia política, que acaba por fortalecer as concepções culturais e sociais que servem de

  60 instrumentos de reprodução das desigualdades sociais no espaço social mais amplo .

  No entanto, as relações de mediação entre os agentes voltados para a nação (instituições e grupos dirigentes nacionais) e os outros grupos políticos periféricos

  61 (comunidades e grupos políticos regionais e locais) sempre foram marcadas por tensões.

  Quer dizer, disputas que giravam em torno do acesso e divisão dos recursos econômicos, políticos e simbólicos provenientes do Estado, entre aqueles voltados para nação e os outros que se situam nas comunidades. Os primeiros situavam-se como controladores do acesso aos recursos de diversas ordens provenientes das instituições estatais e mediadores políticos para as comunidades afastadas dos centros políticos regionais e central. Os demais constituíam a base política local daquelas elites nacionais, vinculando-os justamente pela incapacidade de mobilização e representação às instâncias superiores da esfera política, reproduzindo assim uma ordem política e de consolidação das instituições políticas nacionais nas periferias do Estado.

  Assim, a emergência do Estado Nacional, principalmente em um contexto de países periféricos, como o observado no caso brasileiro, foi tributária desse movimento bastante complexo de importação de modelos institucionais de governo e de tradução dessas instituições. Processo esse perpassado por conflitos presentes nas disputas entre os membros dos grupos dirigentes locais, regionais e nacionais em torno dos arranjos institucionais e

  58 59 Ibidem (tradução nossa). 60 Ibidem. p.181-182. 61 Ibidem. p.189-195. políticos de um Estado que detém o monopólio legítimo das violências física e simbólica

  62 sobre na sociedade mais ampla .

1.2 Os espaços na política no Segundo Reinado.

  Nesta seção se trabalhará com alguns aspectos da genealogia e dos processos históricos de emergência do governo imperial brasileiro no século XIX, que se confundem com a própria estruturação mais geral do Estado Nacional brasileiro. Do mesmo modo, deter- se-á sobre algumas características dos múltiplos interesses e canais de acessos ao sistema político e administrativo monárquico, que segundo José Murilo de Carvalho:

  Dividia-se tanto verticalmente, por funções, como horizontalmente, por estratificação salarial, hierárquica e social. Seus vários setores distinguiam-se pelas respectivas histórias; pelo maior ou menor grau de profissionalização, de estruturação e de coesão; pelo recrutamento e treinamento de seus membros; pela localização no organograma do Estado; pela natureza mais ou menos política de suas tarefas. As divisões eram importantes porque redundavam em conflitos, quase 63 sempre com consequências de políticas .

  Quando se fala de burocracia e governo no universo do Estado Nacional brasileiro, é necessário referir-se aos agentes que efetivamente lhes deram "vida" e que a partir dos conflitos e ajustes inerentes aos seus interesses constituíram a dinâmica política do regime monárquico durante, todo século XIX. Nessa parte do trabalho se verificará especificamente os indivíduos que ingressaram nas altas esferas do governo imperial, pertencentes a uma elite política imperial. Indivíduos esses que, conforme Jose Murilo de Carvalho, partilhavam de uma relativa homogeneidade ideológica e cultural, devido, entre outras coisas, ao pertencimento aos setores sociais dominantes nas diferentes províncias de origem e à

  64 formação comum .

  Durante o Primeiro Reinado, com a outorga da primeira Constituição brasileira em 1824, instituíram-se as bases da organização do Estado Nacional da ex-colônia portuguesa, 62 isto é, uma forma de governo monárquico-hereditário, constitucional, representativo, 63 BOURDIEU. 1996. p. 99-100.

  composto por quatro poderes centrais: o Executivo (onde o Imperador é o chefe, auxiliado pelos ministros e Conselho de Estado); o Legislativo (composto de duas seções; a dos Deputados Gerais e a do Senado); o Judiciário (constituído pelo Supremo Tribunal de Justiça estruturado em 1828); e o Moderador, que conforme a Constituição de 1824, tinha por objetivo ser "a chave de toda a organização política, e é delegado privativamente ao imperador, como chefe supremo da nação e seu primeiro representante, para que incessantemente, vele sobre a manutenção da independência, equilíbrio e harmonia dos

  65 demais poderes políticos" .

  Dentre as instâncias governamentais centrais acima citadas, o Poder Moderador, de privilégio exclusivo do monarca, tinha a força coativa sobre os demais poderes. Sua diferenciação distintiva frente às demais formas de poderes constitucionais, segundo os seus defensores, tinha como finalidade garantir a unidade nacional e a manutenção do sistema político monárquico. Estruturado ideológica e normativamente a partir da teoria liberal de Benjamin Constant, o Poder Moderador, era definido, seguindo esse autor, como uma:

  [...] instituição de um poder neutro ou moderador exercido pelo rei, [...] [portanto] inviolável aos compromissos particulares de quem esta no exercício cotidiano do governo, [...] e um elemento conciliador dos conflitos entre os demais poderes e, 66 portanto, um importante recurso para os momentos de crise .

  Nos marcos da monarquia constitucional brasileira tal instituição moderadora importada e adaptada com prerrogativa prática no cenário político nacional brasileiro para ser 67 um "mecanismo de E, em seu . absorção dos atritos entre os poderes legislativo e executivo” papel de "fiel da balança", permitindo ao soberano "aquela situação de primazia que ele

  68

  exerceu com tanto prazer e paz" , ou seja, equacionando as demandas e pressões das elites políticas regionais sobre o centro político imperial. Por fim, o "rei reina e também governa", ainda que houvesse inúmeras ambiguidades quanto ao exercício desse poder exclusivo e dos seus impactos políticos diante das outras instâncias administrativas e políticas nacionais.

65 CONSTITUICÃO POLITICA DO IMPERIO DO BRAZIL (DE 25 DE MARÇO DE 1824). Fonte:

  66 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao24.htm. Acessado em: 20/12/2012.

  

GRINBERG. Keila. Verbete: Poder moderador. In. VAINFAS. Ronaldo (dir). Dicionário do Brasil Imperial

67 (1822-1889). Editora Objetiva. Rio de Janeiro. 2002. p. 580-581.

  Entre as várias prerrogativas do Poder Moderador pode-se elencar: a nomeação e demissão de ministros de Estado; a suspensão de magistrados; a nomeação e demissão de membros que compunham o Conselho de Estado (órgão conselheiro responsável por auxiliar o Imperador no uso do poder Moderador); a escolha de ministros; a aprovação ou suspensão das resoluções dos conselhos provinciais (como eram chamadas as Câmaras de Deputados Estaduais, antes do ato adicional de 1834); e a nomeação dos senadores através de uma lista

  69 com os três candidatos mais votados nas respectivas províncias .

  Diante da complexidade do jogo político que se desenrolava no Império, o Poder Moderador foi um dos vários instrumentos políticos utilizados na tentativa de manutenção de um equilíbrio de poderes diante das forças centrifugas regionais que pressionavam e que se faziam presentes nas outras esferas institucionais do regime monárquico.

  Para além da figura política central do imperador, outras instituições tiveram um peso essencial no governo imperial, a saber: o Conselho de Estado e os Ministérios. Esses eram, de fato, estágios máximos da ascensão política para qualquer figura política que emergisse de sua paróquia, e, por conseguinte, conferiam prestigio e força política tanto na Corte quanto no reduto político de origem.

  Denominado como "cérebro do regime monárquico", o Conselho de Estado, depois da figura do imperador, era a principal instância política do regime imperial brasileiro e concentrava os membros mais destacados da elite política nacional. Criado em 1823, o Conselho foi responsável pela elaboração da primeira Constituição Nacional. Após a abdicação de D. Pedro I, foi suprimido (ato adicional de 1834) no período regencial "a título de garantia das liberdades públicas, já que então havia um Poder Moderador que necessitasse

  70

  ser aconselhado" . Com a subida de D. Pedro II ao trono, reconstituiu-se a figura do Conselho, que a partir de então tinha funções bastante definidas que era:

  [...] aconselhar o imperador, sempre que este devesse exercitar algumas de suas atribuições privadas, como debater quedas de ministério, reformas legislativas e tratados de paz; elaborar regulamentos e fornecer pareceres a respeito de questões técnicas, sobre as quais o governo devia decidir; e atuar como tribunal 71 69 administrativo .

  

Fonte de consulta sobre o poder moderador: http://pt.wikipedia.org/wiki/Poder_moderador#cite_ref-2.

70 Acessado em 01/11/2012.

  

GRINBERG. Keila. Verbete: Conselho de Estado. In.VAINFAS (dir). Dicionário do Brasil Imperial (1822-

  O Conselho foi composto, desde sua consecução, de 12 membros ordinários e mais 12 extraordinários, que, quando escolhidos pelo imperador, exerciam tal cargo de maneira vitalícia. Esse órgão consultivo era composto e reservado aos políticos mais destacados e experientes do império. Isto é, além de uma formação cultural bastante exigente, a passagem por diversas esferas burocráticas, eletivas, militares, judiciária e eclesiástica nas províncias e paróquias do império, bem como a influência política, econômica e social de seus membros tanto na Corte quanto em seus redutos eleitorais, eram requisitos fundamentais para fazerem parte da elite política imperial. Assim, a composição do Conselho se dava entre "[os] principais líderes dos dois partidos e servidores públicos de grande destaque que, no auge de suas carreiras, tivessem passado por vários postos de administração e representação política e,

  72 de preferência, pertencessem à magistratura" .

  Muitas vezes, na prática, além do Conselho deliberar sobre as questões de organização política de competência nacional, em várias oportunidades discussões sobre

  73 conflitos de caráter provinciais e locais acabavam emergindo na pauta das reuniões .

  Já com relação às pastas ministeriais, desde a outorga da Constituição Federal, foram criadas as pastas da Guerra, Marinha, Império, Justiça, Fazenda e Negócios Estrangeiros.

  74 Após 1861, foram criadas a da Agricultura, Comércio, e Obras Públicas . Os ministros eram

  escolhidos, inicialmente, por meio da nomeação direta do imperador, mas, depois de 1847, com o restabelecimento do Conselho de Estado, as escolhas daqueles que ocupariam as pastas ministeriais eram colocadas nas pautas de reunião do dito Conselho, e decidida ulteriormente por D. Pedro II, seguiam a mesma lógica de indicação dos conselheiros de Estado.

  O Legislativo, no plano nacional, encontrava-se dividido em duas câmaras, Senado e Deputados Gerais, criadas conjuntamente, em 1824, para a promulgação da primeira Constituição no mesmo ano. De modo geral, as duas casas legislativas seriam, durante o período imperial, os principais espaços de atuação das elites políticas provinciais brasileiras.

72 GRINBERG. Keila. Verbete: Conselho de Estado. In.VAINFAS (dir). Dicionário do Brasil Imperial (1822-

  73 1889). Editora Objetiva. Rio de Janeiro. 2002. p.166.

  

VARGAS. Jonas Moreira. "Um negócio entre famílias". A elite política do rio Grande do Sul (1868 - 1889).

  O Senado foi uma das instituições do regime monárquico mais conservadoras e

  75

  elitistas . Seus agentes eram escolhidos via lista tríplice, constituída a partir de um escrutínio provincial, a partir do qual o imperador escolhia um, que ocuparia o cargo de forma vitalícia, mas não hereditária. E assim como para entrar nos espaços de comando do alto escalão do Executivo Nacional, a entrada na câmara senatorial era altamente exigente e sua fronteiras bem guardadas pela elite, deste modo, altamente cobiçados pelas elites regionais.

  Na Câmara dos Deputados, os agentes que a compunham eram escolhidos a partir de eleições provinciais, que se davam "depois de meses de negociações nos seus distritos

  76

  eleitorais e [eram] [consagrados] após uma vitória em pleitos bastante disputados ", para comporem à Câmara Federal durante quatro anos. Assim, além da entrada na Câmara dos Deputados ser altamente exigente, a efetiva consolidação dos seus participantes como mediadores políticos exigia influência e capacidade de negociação com as elites políticas paroquiais e provinciais através de suas redes clientelísticas em seus redutos de origem, reproduzindo assim "[...] a desigualdade socioeconômica da própria província e [garantia da]

  77 permanência da sua posição de elite" .

  Na esfera judicial nacional, sobretudo quando se fala da criação do Supremo Tribunal de Justiça, em 1829, que veio a substituir o antigo Tribunal da Relação, foi também um espaço de atuação para poucos. O Tribunal era compostos por 17 membros, denominados de conselheiros. Nele, todos deveriam possuir uma formação superior em Direito. Ademais, o estabelecimento na Corte de Justiça do império se dava por intermédio da nomeação imperial, segundo a qual seriam encarregados de "conceder ou denegar revistas nas causas julgadas

  78 pelos tribunais da Relação nos casos de manifesta nulidade ou de injustiça notória" .

  Mas o mais relevante, quando se fala do sistema judiciário brasileiro no século XIX, foi que seu funcionamento efetivo não se deu no centro, mas sim nas periferias do império, ou seja, nas províncias e paróquias, por meio das figuras dos juízes de direito, municipal, de paz, promotores. Segundo Graham eles contribuíam

  “substancialmente para ampliar o poder de

  79 75 apadrinhamento do governo central " em relação aos potentados regionais e locais. 76 VARGAS. 2010. p.30. 77 Ibidem. p.30. 78 Ibidem. p.31.

  

GRINBERG. Keila. Verbete: Justiça. In. VAINFAS (dir). Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889).

  Os agentes que compunham a alta corte de justiça brasileira precisavam contar com experiências no campo da justiça, atuando em suas províncias e municipalidades como

  80

  magistrados , associando essas experiências com alianças na política regional. Tal estratégia de investimento em capital social e redes de reciprocidade era importante para carreiras exitosas na justiça, assim como para entrada das disputas políticas provinciais, como descreve Jose Murilo de Carvalho:

  Uma carreira típica para o político cuja família não possuía influência bastante para levá- lo diretamente à Câmara começava pela magistratura. [...] Logo após a formatura, o candidato à carreira política tentava conseguir uma nomeação de promotor ou juiz municipal em localidade eleitoralmente ou pelo menos num município rico. Na impossibilidade de conseguir boa localização, a solução era aguardar a oportunidade de ser transferido. A oportunidade vinha em geral graças ao auxílio de amigos ou de correligionários políticos já bem colocados. As mudanças de ministérios, que eram constantes, constituíam ocasiões propícias para grandes remanejamentos de funcionários, inclusive magistrados, tanto para garantir resultados eleitorais favoráveis, nos caso em que as mudanças fossem também de partido, como para premiar amigos pessoais e 81 políticos, e para cooptar aliados promissores .

  Ainda que esses arranjos burocráticos de ligação entre o centro e as perifeiras políticas, o governo imperial brasileiro ainda enfrentaria fortes desafios quanto à consolidação e à legitimação efetivas frente aos movimentos centrífugos das elites políticas e econômicas provinciais.

  Como foi o caso da crise política que desmobilizou o governo de D. Pedro I, marcada pelo descontentamento dos grupos dirigentes regionais com o governo imperial, ocorrido, sobretudo, pela forte centralização política em torno do governo central em detrimento da autonomia das províncias e pela exclusão quase que total das elites regionais quanto nas decisões políticas no plano nacional.

  Diante do quadro de "desajuste político" instalado e que ameaçava à legitimidade do regime monárquico frente a essas forças centrifugas, uma corrente de políticos ligados à esfera do governo central ganhou força no cenário nacional defendendo uma reorganização de cunho liberal. Eles: 1) representavam uma parcela significativa das elites nacionais e 80 provinciais; 2) estavam reunidos no recente partido dos chimangos (de cunho político liberal

  

Segundo José Murilo de Carvalho, a definição de magistrado só cabia aos agentes que conseguiam chegar a

função de juiz de direito, através da entrada formal no espaço da administração judiciária, sobretudo, e na moderado); 3) mostravam-se descontentes com o rumo da política dos país, mais radical; 4) instauraram um governo de ligação entre o interregno dos governos de D. Pedro I e de seu filho, denominado período regencial.

  No governo regencial, várias reformas normativas, assim como as criações de instâncias burocráticas voltadas para a autonomia das provinciais, como as de “Juiz de Paz

  82

  eletivo, o sistema do júri, a Guarda Nacional, e, em 1834, as assembleias provinciais" , foram instrumentos fundamentais de cooptação das instâncias regionais e locais. Diante dessa postura governamental de caráter "federalista", o reforço de uma posição de mediação das elites regionais diante dos "novos" rumos nas relações entre o centro e as províncias quanto à organização do Estado Nacional, constituiria o perfil desse período entre reinados.

  Sendo assim, a concessão de autonomia política às elites provinciais, inerente a estrutura dos governos regenciais, marcaria as normas e a organização das instituições governamentais nacionais nesse momento. Essas se concretizaram a partir do Código de Processo Criminal, de 1832, do Ato Adicional, de 1834, e com a criação da Guarda Nacional, em 1831, tornando-se instrumentos capazes de manter a unidade da nação e tentativas de 83 apaziguar as forças centrífugas espalhadas políticas por todo império .

  A lei do Ato Adicional de 1834, redigido pelo deputado Bernardo Pereira de

84 Vasconcelos , teve como eixo principal a tentativa de federalização do governo imperial.

  Promover-se-ia a extinção do Conselho de Estado, a restrição do Poder Moderador e a ampliação da autonomia dos governos provinciais, principalmente nas áreas administrativa, financeira, com a criação das Assembleias Legislativas provinciais (que viriam a substituir os antigos Conselhos Gerais) foram órgãos que centralizaram as decisões de cunho

  82 DIAS. Maria Odila Leite da Silva. A interiorização da metrópole e outros estudos. São Paulo. Alameda, 83 2005. p.141.

  

DOLHNIKOFF. Miriam. O pacto imperial: origens do federalismo no Brasil do século XIX. São Paulo.

84 Editora Globo. 2005.

  

Bernardo Pereira de Vasconcelos foi um dos políticos mais importantes do período imperial brasileiro. Nasceu

em Minas Gerais em 1795, formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. No seu regresso para Brasil,

em 1820, atuaria de forma fundamental na consolidação, já no período do governo de D. Pedro I, de uma política

liberal. Vasconcelos, paradoxalmente, também representaria um segmento político, que durante o período

regencial, pregaria a restrição da política liberal empregado naquele momento, desta forma, foi um dos principais

agentes ligados ao movimento do Regresso conservador. Foi o autor do Código Criminal de 1832. Ao longo da

vida, Vasconcelos ocupara vários cargos no governo nacional, dentre eles alguns ministérios do governo

regencial e no segundo reinado, assim como, conseguiu ser indicado para senado em 1838. ENGEL. Magali administrativo, orçamentário, de fiscalização e normativo das províncias, em detrimentos de

  85 algumas instituições paroquiais, como as câmaras municipais .

  Outro instituição que viria a reforçar o poder político às instâncias paroquiais e regionais, a Guarda Nacional foi criada como uma alternativa de força coercitiva capaz de superar as desconfianças daquelas elites, sobretudo, quanto ao principal instrumento legítimo do Estado, que era Exército. A Guarda Nacional, portanto, nasceria a partir da necessidade de se criar novos espaços de inserção dos estratos mais conservadores e aristocráticos das elites, bem como de satisfazer aos anseios das camadas hegemônicas quanto à possibilidade de controle efetivo e iniciativa de organização e estruturação de corpo coercitivo nas mãos das forças políticas locais e provinciais. Ou seja, a Guarda Nacional pode ser entendida como uma "[...] força para-miltar criada para preservar a ordem político-econômica fundada no latifúndio

  86 e no escravismo ".

  Assim, no governo regencial, a arquitetura institucional e a organização política tinham como foco a manutenção do governo imperial, que só foi possível através da manutenção de uma política de equilíbrio entre as tensões sempre cambiantes com os grupos políticos regionais e locais, como foi o caso da criação do Código de Processo Criminal, que dentre outras coisas, legislou sobre as atribuições do cargo de Juiz de Paz. Segundo Wilma Peres, o Código de Processo Criminal só se tornou mais um instrumento de fortalecimento das forças políticas locais, que valiam-se desses dispositivos legais como "instrumentos do

  87 mandonismo local (que controlava as eleições e o júri) e da luta das facções ".

  Embora tivesse havido uma relativa acomodação nos diversos meios institucionais das elites regionais e locais, em muitas províncias, como no Maranhão, Pará, Rio Grande do Sul e na Bahia, o acirramento das disputas intraelitistas acabou em deflagrações de lutas armadas, ora de caráter popular, ora elitista, demonstrou as ambiguidades na busca pela coesão e unidade nacional, e o relativo "fracasso" do programa liberal de governo regencial, sobretudo quanto à cooptação das elites regionais. Outro arcabouço administrativo estatal já 85 se desenhava nesse momento, a partir de uma radicalização da centralização política e

  

Lembrando que as Câmaras Municipais forma instâncias deliberativas que existiam desde o período colonial

no Brasil. E como recorda Vitor Nunes Leal, as câmaras foram extremamente importantes, pois atuavam como

86 tanto na esfera legislativa local como instância administrativa nas localidades. In. LEAL. 2012. p. 113.

  

FARIA. Maria Auxiliadora. A Guarda Nacional em Minas Gerais (1831-1873). Dissertação de Mestrado do burocrática em torno do centro do regime monárquico, em 1840, com a ascensão de D. Pedro II ao trono.

  Assim, novas propostas de centralização política e administrativa do Império ganharam força e adesão das elites nacionais e regionais, com o objetivo maior de se garantir o apaziguamento das tensões sociais que pululavam em toda a nação e a estabilidade do sistema monárquico.

  Foi a partir desse movimento de centralização política que se desenharia também uma estrutura partidária nacional, ou seja, um bipartidarismo nacional, entre liberais e

  88

  conservadores , que "não constituíam, a rigor, partidos políticos, pois careciam de programas definidos, de documento públicos sujeitos à verificação e registro, nem eram dotados de

  89 disciplina partidária" .

  Muito embora apresentassem muitas semelhanças, em debates conjunturais referentes a aspectos institucionais, principalmente quanto à figura do Poder Moderador, os dois partidos constituíram opiniões e discursos distintos, em que:

  [...] os liberais apegavam-se ao mote de que o rei reina, mas não governa, ao passo que os conservadores argumentavam que o exercício do poder moderador impedia o monarca de se manter alheio aos negócios públicos - premissa que deu origem ao principio de que o rei reina, governa e administra, sustentado pelo visconde de Uruguai; os liberais defendiam uma certa descentralização administrativa e alguma autonomia provincial, enquanto os conservadores julgavam a centralização política fundamental para manter a integridade territorial do Império; os liberais desejavam reduzir ao mínimo a ação da polícia e pleiteavam a eleição popular de magistrados e agentes judiciais, a exemplo do que ocorria nos Estados Unidos, ao passo que os conservadores entendiam que a manutenção das prerrogativas do Poder Judiciário, sobretudo a independência a inamovibilidade, era a condição sine qua non para 90 administração da justiça .

  Logo, com a coroação de D. Pedro II, a vitória do argumento de centralização política e o surgimento dos partidos políticos, à "suspensão" temporária das divergências intra-oligárquicas nas províncias, concentrado-se sobretudo dentro das disputas partidárias, conseguiu-se garantir fatores políticos de legitimação da soberania do novo imperador, e por 88 conseguinte, a manutenção da unidade nacional.

  

A aglutinação de "liberais moderados intensificou-se com o movimento do regresso, liderado por Bernardo

Pereira de Vasconcelos, que agregou manobristas, restauradores de outrora e antigos chefes moderados, como

Honório Hermeto Carneiro Leão". In. GRINBERG. Keila. Verbete: Partidos. In. VAINFAS (dir). Dicionário do

89 Brasil Imperial (1822-1889). Editora Objetiva. Rio de Janeiro. 2002. p.563-566.

  Desse modo, com as perspectivas liberais e a incorporação de outras ideologias e modelos institucionais aos moldes dos liberalismos europeu e norte-americano na estrutura burocrática nacional, que começou a se desenhar de D. Pedro II, as práticas de cooptação das elites políticas regionais para o âmbito do governo nacional

  91

  se manteriam como um dos focos principais da política imperial. E dentre tais instituições importadas, pode-se dizer que, durante o segundo reinado, os processos eleitorais foram uma das mais importantes. Dispositivo eletivo esse utilizado desde a escolha de juiz de paz até deputados gerais, foi o principal elemento de cristalização das relações políticas das municipalidades até a Corte. E isso fica mais claro quando Faoro descreve todo o teatro que se desenrola durante o dia das eleições nas paroquiais:

  No dia das eleições - reunida a assembleia paroquial, constitucionalmente criada - o seu presidente, o juiz de fora ou ordinário, ou quem estivesse em seu lugar na freguesia, em combinação com o pároco, propunha dois cidadãos para secretários e dois escrutinadores, que, "aprovados ou rejeitados por aclamação do povo", com o presidente e o pároco constituíam a mesa eleitoral. Não havia qualificação prévia de votantes, aceitando a mesa os votos de quem queria e recusando os de outros, a pretexto de julgar as exclusões constitucionais à participação do sufrágio [...]. A eleição começava e terminava quando ela queria, sem formalidade da chamada dos votantes. Se os circunstanciantes denunciassem suborno ou conluio "para que as eleições recaíssem em pessoas determinadas" os votos não eram recebidos, negados também os caluniadores. O número dos eleitores da paróquia era arbítrio da mesa, havendo casos em que uma freguesia suplantava todos os votos da província. [...]. A turbulência, o alarido a violência a pancadaria decidiam o conflito [durante as eleições]. Findo ele, o partido expelido da conquista da mesa nada mais tinha a fazer ali, estava irremissivelmente perdido. Era praxe constante: declarava-se coato e retirava-se da igreja, onde, com as formalidades legais, fazia-se a eleição conforme queria a mesa 92 .

  Segundo Graham, as eleições tinham um impacto tão grande para a estabilização do regime, que era um dos elementos vitais de legitimação da ordem social e do governo, ainda que com todas as contradições que cercavam a estruturação desse dispositivo, a imagem de lisura, justiça e respeito à liberdade das pessoas que exerciam tal direito nas urnas era de fundamental importância

  93

  . Consequentemente, eram as relações clientelistas e patrimonialistas que ditavam em todos os espaços da política, ganhando visibilidade, principalmente, durante os processos eleitorais, reproduzindo de forma autoritária e violenta a dominação das elites regionais.

91 DIAS. 2005. p.144.

  92

  Portanto, eram nas urnas que as elites locais, regionais e nacional estabeleciam seu alicerce para constituição e reprodução dentro das esferas de comando do regime imperial. O que, por consequência, também garantia efetivamente a atuação do governo em toda a extensão do império, sobretudo através do controle de uma maioria na Câmara dos Deputados e no Senado.

  Assim, o movimento de consolidação política do regime monárquico de D. Pedro II revelou um complexo jogo de articulações de interesses dos mais diversos grupos sociais dominantes, e as múltiplas lógicas de organização de forças e distribuição de recursos políticos entre redes de interdependência que iam da Corte às paroquiais de praticamente todo império. Dinâmica essa marcada pela

  “contínua tradução local pelos notáveis”, sempre sujeita

  94

  da estrutura política nacional nas “à flutuação circunstancial, barganha, e traição” paroquiais, marcaria as ações políticas e sociais dos agentes inseridos no Estado Nacional brasileiro no século XIX, que ao lado das profundas desigualdades sociais e culturais, que constituíram elementos fundamentais para o entendimento da consolidação do Estado nas

  

95

dinâmicas sociais regionais daquele momento .

1.3 Breves noções sobre as elites políticas do Maranhão no século XIX.

  Diante dos aspectos colocados na seção anterior, esta constituirá uma espécie de exposição mais genérica sobre a topografia e a dinâmica da elite política provincial maranhense em seus aspectos sociais, políticos e econômicos.

  A sociedade maranhense, no século XIX, assim como a economia e a política regional, tinha como epicentro a capital da província, São Luís. Essa cidade foi, além de um centro difusor cultural de uma ideologia civilizadora europeia na província, local de concentração dos principais órgãos administrativos, centro financeiro e a instância de regulação da produção agrícola regional voltado ao mercado internacional. Abrigando em 94 seus casarões e sobrados as principais elites econômica e política regional, compostas de

  

MENDES, Fábio Faria. Recrutamento militar e construção do estado no Brasil imperial. Belo horizonte,

  96

  lavradores e comerciantes abastados, que detinham a maior parcela do capital financeiro regional, além das principais terras agricultáveis da província, voltadas para a produção e

  97

  comercialização de artigos agrícolas para o mercado internacional , São Luís foi, sem dúvida, a cidade mais importante do Maranhão no Oitocentos.

  E como principal centro urbano da província, São Luis serviu como espaço para a reprodução social e política dos grupos dirigentes provinciais, que, muitas vezes, provinham das principais famílias e forças políticas das cidades no interior, por meio de intricadas e complexas negociações no mercado matrimonial, ou estabelecendo laços de amizades e parentescos entre agentes posicionados estrategicamente na política regional e nacional.

  Com suas bases sociais e econômicas no interior da província, além de São Luís, sobretudo assentada sobre a lógica social da grande lavoura (plantation). Pode-se dizer que a base social dessa elite e a estrutura da grande lavoura maranhense estiveram intimamente ligadas também às frentes de expansão ao interior da província, que se iniciaram no período colonial, como penetração pelas áreas próximas ao litoral (principal corrente de colonização na província), percorrendo os rios que desaguavam nas baías de São Marcos e São José, e que

  98 circundam a ilha de São Luís, entre eles o Itapecuru, Munim e Mearim .

  Com tal movimento de interiorização na parte continental da província, originou-se alguns dos principais centros populacionais do Maranhão, como Rosário, Itapecuru, Alcântara e Caxias, consolidando-os ainda como carros chefes da produção de agroexportação da província, o algodão, o arroz e o açúcar, mas sobretudo a cotonicultura, que foi organizada, ainda no período colonial, em torno da:

  [...] industrialização na Europa, com sua demanda por algodão aumentando de maneira exponencial, garantiu, a partir de 1780, um mercado em expansão constante para o principal produto de exportação maranhense e ajudou a consolidar o crescimento do setor de exportação. O algodão passou a representar 75% das exportações brasileiras com 24,4%, logo depois do açúcar, com 34,7%. O Maranhão era então a segunda região exportadora do produto - depois de Pernambuco - e São 99 96 Luis chegou a ser o quarto porto exportador do Brasil .

  

A palavra lavrador aqui empregada refere-se aos produtores agrícolas que, na maioria dos casos, organizavam

sua estrutura produtiva a partir da lógica do plantation (latifúndio, mão-de-obra cativa e monocultura). Em

contraposição a categoria anterior, a noção de roceiro ou camponês definia os pequenos produtores cuja

97 produção voltava-se para subsistência familiar e organizada em torno de um núcleo familiar.

  

REIS. Flavio Antonio Moura. Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão (1850-1930). São

98 Luis. Litograf. 2007. p.27-36 99 Ibidem. p.82

  Como principal motor da economia maranhense, a produção agrícola, segundo Matthias Assunção, só começaria a se desenvolver na província a partir da segunda metade do século XVIII, através de uma política de incentivo à produção das culturas do arroz e algodão.

  Política econômica que se intensificaria na metade do século XIX com o incentivo ao açúcar, substituindo gradativamente algumas áreas voltadas à cotonicultura. Sendo assim, essa área de produção voltada para o mercado internacional constituiria uma espécie de uma "geografia da agricultura" da província na década de cinquenta do século XIX, como descreve Mesquita:

  [...] a) Círculo de Itapecuru e Alto-Mearim, que produzia 20 mil sacas de algodão por ano e 200 mil alqueires de arroz. Dizia-se, ainda, que havia diminuído o número de fazendas, em virtude da falta de braços, cansaço das terras ou transferências para terras mais distantes. Ressalta-se nessas comarcas, como boas terras para a lavoura do algodão, as vilas de Codó e Coroatá. b) Círculo de Caxias, onde se encontravam fazendas de algodão, arroz, outros cereais, poucos engenhos e pequena criação de gado. c) Círculo do Mearim, baixo e alto Mearim. Havia pequenas culturas de arroz, mandioca e outras, sendo grande parte do Círculo composto de fazendas de gado. Sua população era, na maior parte, constituída de pessoas livres. d) Círculo do Pindaré, alto e baixo Pindaré. Detentor de ricos campos para a atividade criatória de gado, sua agricultura era, no entanto, basicamente a cana. e) Círculo de Viana, formado de vastos campos de criação de gado, sua lavoura consistia no cultivo do arroz, da cana, cacau, café e fumo. f) Círculo de Alcântara e São Bento, onde havia inúmeras fazendas de gado. Contudo, depois de 1850, começou-se a substituir o cultivo do algodão pela cana. g) Círculo de Guimarães, lugar onde mais se produzia mandioca. Cultivavam-se, ainda, o algodão e a cana. h) Círculo do Turi, lugar de muitos mocambos, estando ainda nessa época por ser "colonizado". i) Círculo do Munim, Icatu, Vargem Grande e Miritiba, onde se produziam mandioca, arroz, óleo de andiroba, além de inúmeras soltas de gado. Havia também fazendas de algodão que foram abaladas pelas rebeliões, em 1839. j) Círculo de Tutoia, formado em grande parte de terras estéreis, onde se cultivava a cana e o arroz, tendo sido destruídas suas fazendas de gado. l) Círculo da Ilha de São Luis, produzindo fumo e mandioca. m) Círculo de Brejo, produzia-se arroz e aguardente e criava-se o gado. n) Círculo de Pastos Bons e da Chapada, com uma agricultura 100

quase nula e algumas significantes fazendas de gado .

  Assim sendo, a formação dessas zonas agrícolas, isto é, das áreas responsáveis pela produção voltada para o exterior, liderada pela cultura do algodão, revela também a base econômica das principais fortunas do Maranhão, e também um dos principais focos de surgimento de agentes que comporia à elite política provincial ao longo do século XIX (como se observa nos quadros 1 e 2).

  Além do capital econômico, base dos patrimônios das elites políticas maranhenses, 100 outros recursos tiveram relevância, dentre eles os capitais escolar e de relações sociais, que serviram de subsidio para esses agentes alçarem cargos políticos importantes na esfera nacional (ministros, senadores, deputados gerais), e de fonte de acesso e de estabelecimento de vínculos sociais com outras elites políticas regionais.

  No que tange ao capital escolar, José Murilo de Carvalho identifica e apresenta vários indícios da presença de estudantes provenientes da elite política da província do Maranhão, em vários centros universitários nacionais e internacionais, como foi o caso da Universidade de Coimbra. Em comparação com o número de estudantes de outras províncias enviados àquela instituição de ensino portuguesa (do total de 1242 estudantes brasileiros matriculados nos centros de ensino superior), entre os anos de 1772 à 1872, o Maranhão contaria com 8,78% do total, e só ficaria atrás dos principais centros administrativos e econômicos do período, como Rio de Janeiro (26,81%), Bahia (25,93%), Minas Gerais

  101

  (13,61%) e Pernambuco (11,52%) . Portanto, foram muitos os membros das elites políticas regionais, em âmbito de Brasil, que iniciaram e concluíram os estudos universitários nos principais centros e cursos ensino da Europa, como em Portugal, Inglaterra e França.

  Apesar do prestígio das escolas europeias, houve o deslocamento gradual desse eixo de formação intelectual e educacional internacional, que, a partir da primeira metade do século XIX, já se voltava para as faculdades nacionais e escolas de níveis superior e técnico no Brasil, como as faculdades de Direito de Olinda (que depois migrou para Recife) e São Paulo, que também tornar-se-iam os principais destinos das elites políticas maranhense, e que tinham como modelo de estruturação a:

  [...] imagem do predecessor coimbrão. Os primeiros professores eram ex-alunos de Coimbra e alguns dos primeiros alunos vieram de lá transferidos. Mas houve importante adaptação no que se refere ao conteúdo das disciplinas. O direito romano foi abandonado em beneficio de matérias mais diretamente relacionados com as necessidades do novo país, tais como os direitos mercantil e marítimo e a economia política. A ideia dos legisladores brasileiros era a de formar não apenas juristas mas também advogados, deputados, senadores, diplomatas e os mais altos empregados 102 do Estado [...] .

  No caso da elite política maranhense, em termos de acesso ao ensino, alguns dados são ilustrativos da sua importância. Conforme os quadros 1 e 2, dos senadores maranhenses escolhidos entre os anos de 1826 a 1889, num total de 13, somente dois não possuíam

  101

  103

  diploma de ensino superior , sendo que daquele número total, seis deles ou se formaram ou deram inicio às suas carreiras acadêmicas na Europa, sobretudo em Portugal, e os demais cursaram as academias de Olinda-Recife ou de São Paulo.

  Já com relação àqueles que se tornaram deputados gerais, eleitos entre 1830 a 1860, no total de 40, 24 (60% dos eleitos e com informações disponíveis) possuíam algum diploma de ensino superior, na universidade portuguesa e nas nacionais, a de Olinda-Recife, São

  104

  Paulo, também a da Bahia . Sendo que tanto para senadores quanto para deputados gerais, a formação superior majoritária escolhidas por tais agentes seria a de Direito.

  E quanto aos agentes que somente conseguiram chegar à Assembleia Provincial, ou seja, aqueles que ficaram restritos à política regional e local, o número de agentes formados no ensino superior tende apresentar uma baixa importante. No caso dos eleitos para Assembleia, entre os anos de 1839 a 1855, que corresponde ao total de 125 eleitos, 17 (14,4% dos eleitos com informações disponíveis) apresentaram algum diploma de nível superior,

  105

  distribuído entre Direito, Teologia e Medicina , e proviam, sobretudo, dos centros econômicos da província, do total 125, 64 agentes com informações disponíveis apresentaram os seguintes dados quanto às paróquias e cidades de atuação política e de origem familiar: São Luis (33); Alcântara(7); Caxias(7); Itapecuru(6); Viana(5); Guimarães(2); Brejo(1); Pastos

  106

  bons(1); Cururupu (1) . E embora a maioria não tenham investido na posse de capital educacional para ascender as esferas políticas nacionais, o acesso as instancias políticas no plano provincial, dava-se, na maioria das vezes, através de laços de amizades ou matrimoniais.

  Assim, além de concentrar suas atividades ocupacionais e profissionais nos principais centros urbanos das províncias, os agentes que galgaram uma posição na elite política maranhense diferenciavam-se de outros rivais menores, sobretudo, pela busca de inserir-se na máquina administrativa provincial e nacional, para a qual a formação cultural e 103 técnica que detinham, contava decisivamente na lógica de reprodução de sua posição de 104 COUTINHO. Milson. O Maranhão no Senado: notas bibliográficas. São Luis. Sioge. 1986. p.31-57.

  

FONTES: MARQUES. Cesar Augusto. Dicionário histórico-geográfico da província do Maranhão. São

Luís. Edições AML. 2008; COUTINHO. 1986; COUTINHO, Milson. O poder legislativo no Maranhão:

(1830-1930). São Luis. Edição da Assembleia Legislativa do Maranhão. 1981; COUTINHO, Milson. Fidalgos e 105 barões: uma história da nobiliarquia luso-maranhense. São Luis. Instituto GEIA. 2005. 106 FONTES: COUTINHO. 1981; MARQUES. 2008. hegemônica tanto em seus redutos políticos paroquiais quanto na disposição favorável nas disputas partidárias a nível regional, e como lembra Viveiros:

  [..] tal situação assegura a permanência de uma elitização cultural, dentro do qual, só teriam oportunidades de se fazer doutores os filhos das famílias abastadas que tivessem condições de mandar educá-los fora da Província e só eles, 107 consequentemente, estariam destinados os altos cargos da Administração pública .

  Situados entre grandes potentados familiares provinciais, os dois grandes partidos políticos, os liberais (luzias, bentivis) e conservadores (cabanos), foram constituídos mediante

  108

  as acirradas disputas de famílias pertencentes à elite política , com outras redes familiares de pequenos grupos dominantes nos planos regionais e paroquiais, revelando a complexa relação entre Estado e as estratégias particularistas partidário-familiares nas provinciais:

  No Maranhão, como em outras províncias, a luta entre as facções políticas confundiu-se, nesse plano, com as estratégias das famílias da elite para conseguir o controle dos recursos naturais e das novas instituições para seus membros e sua clientela. O estabelecimento de novas vilas e cidades e a criação de novos cargos multiplicaram as oportunidades para os membros das classes altas locais, permitindo que conseguissem influência e reestruturassem as relações de poder de âmbito municipal. Muitos conflitos entre as famílias da elite resultaram da competição para adquirir postos públicos e levaram à afiliação das famílias rivais a partidos políticos antagônicos, ainda que em âmbito local as diferenças ideológicas entre elas fossem 109 insignificantes .

  Com efeito, a relativa influência dessa elite política, tanto na esfera política regional quanto nas disputas locais, se manifestava através do monopólio sobre as distribuições e as concessões de cargos e exploração de serviços públicos, que, além de implicar em formas ambíguas de gestão imbricando coisas públicas e os interesses privados, também significava uma fonte decisiva de força política para ascensão nacional dos agentes daquela elite.

  Ascensão política essa que, além da conquista das eleições, tanto para cargos a nível regional quanto nacional, tinha como elemento básico e essencial a hegemonia nas disputas 107 paroquiais em seus redutos eleitorais e por uma intensa e árdua movimentação de escalada .

  

NERIS. Wheriston Silva As bases sociais de recrutamento da elite eclisiástica no bispado do Maranhão

(1850-1900). 2009. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) - Universidade Federal do Maranhão. 2009. p. 108 119.

ASSUNđấO. Matthias Rohrig. Miguel Bruce e os "horrores da anarquia" no Maranhão. In. István Jancsó. 109 Independência: história e historiografia. São Paulo. Editora Hucitec. 2005.p. 357. política e burocrática dos agentes dessa elite política entre cargos na província à Corte, como as do Senado, na Câmara Geral, até escolha para liderar um ministério, que era a coroação de uma carreira política neste momento.

  Grande parte da elite provincial do Maranhão que conseguiu alcançar cargos tão relevantes na política nacional, conforme se apresenta no quadro 1, muitas vezes, iniciava suas carreiras em cargos administrativos no governo provincial, a partir de alianças familiares ou amizades já estabelecidas politicamente no governo. Dessa forma, alguns avançavam paulatinamente na política regional, ocupando funções na assembleia provincial ou na presidência da província. Na sequência, com ascensão ao âmbito provincial, que em vários casos rendiam-lhes vagas na Câmara dos Deputados Gerais, acessavam ou constituíam redes de amizades na Corte, pleiteando cargos importantes em âmbito nacional, como nos ministérios, no Senado e no Conselho de Estado.

  Mas em todo caso, tanto senadores quanto deputados gerais maranhenses, tinham e mantinham suas próprias redes de influência a nível regional, mas também nas municipalidades. Como pontes e mediadores de negociações entre os potentados locais e o próprio arranjo administrativo e burocrático nas estâncias provincial e nacional, aqueles agentes voltados para a nação foram fundamentais tanto no equilíbrio de forças nas localidades, quanto no controle e monopólio, juntamente com os aliados, das instituições e órgãos das esferas executivas, judiciais e policial nas paróquias.

  De acordo com Graham, a autoridade desses mediadores era algo tão institucionalizado na política imperial, que caracterizava-se justamente:

  [...] [pelo controle dos] canais de passagem, na medida que ia passando, como que por uma série de cascatas, do primeiro doador - o imperador - ao ultimo recebedor - o ocupante do cargo. Considerava-se que o poder de controlar a distribuição de favores ficava atrás em importância somente do poder de doá-los. Ser capaz de distribuir colocações fazia automaticamente de alguém um protetor, e facilitava 110 enormemente o trabalho de formas grupo de seguidores .

  E, assim, a capacidade de fazer essa ponte entre as paróquias e a Corte, foi, de fato, parte essencial da força de qualquer agente que se lançasse a ascender à esfera da política nacional. Nos percursos percorridos mostram-se decisivos a composição das clientelas e as redes de relações sociais, plasmadas muitas vezes nos redutos de origem familiar ou onde se concentrava sua base de recursos econômicos e ou em instituições burocráticas nas paróquias.

  Muitas carreiras políticas começavam nas municipalidades espalhadas pela província maranhense, e, nesse sentido, as Câmaras Municipais foram espaços por excelência de início de muitas delas. Instituições essas existentes no período colonial e imperial, como principal instituição administrativa local, foi, com efeito, também, um dos principais espaços (social e político) onde se aglutinavam as disputas políticas locais.

  Mas a força política dessas Câmaras Municipais viria a diminuir já na passagem do primeiro quarto do século XIX, com a perda da autonomia de gerenciamento orçamentário e burocrático. Situação que se agravou com a promulgação do Ato Adicional de 1834, que retirava o poder institucional tanto de polícia e instância jurídica quanto o de controle das finanças (impostos) municipais das Câmaras, subordinando-as diretamente às Assembleias

  111 Provinciais , no plano regional.

  Apesar do enfraquecimento institucional que as Câmaras Municipais vieram a sofrer no Oitocentos, sobretudo no segundo reinado, ainda assim, essas foram um dos principais canais de acesso daqueles que pretendiam participar das disputas nas municipalidades, ou para intervir na política entre os que pretendiam ascender ao plano regional ou nacional.

  Cargo que teve importante peso político nas disputas paroquiais foi o de juiz de paz. Criado a partir de uma lei em 1827, o cargo de juiz de paz, além de ser escolhido através das eleições municipais concomitantemente a dos membros da Câmaras Municipais, possuía amplos poderes judiciais e de polícia nas paróquias. Ou seja, os juízes de paz, em tese eram "[...] magistrados sem formação específica e sem salário, eleito pela população para exercer nas paróquias a função de juiz em casos menores, visando, sobretudo, a conciliar os

  112 litigantes" .

  Embora devido à precedência política que a posição institucional que os juízes de paz 111 tinham nas municipalidades, com o avanço da política conservadora a nível nacional, várias

  

As Assembleias Legislativas com o Ato adicional de 1834, período caracterizado como o "avanço liberal",

ganharam uma nova roupagem organizacional e política, como a prerrogativa de nomear todos os agentes

burocráticos municipais, escolha dos vice-presidentes de província, etc. Tal instituição só viria a perder parte de

sua força institucional com o que ficou denominado historicamente como "regresso conservador", com a 112 promulgação da reinterpretação do Ato Adicional, em 1840. In. DOLHNIKOFF. 2005. p.153. de suas atribuições, assim como as das Câmaras Municipais seriam transferidas a um novo elemento burocrático de ligação entre as paróquias e o governo central, que viria a ser constituída em várias províncias do império (São Paulo, Pernambuco, Sergipe, Alagoas,

  113 Ceará e Paraíba) , que fora as prefeituras de comarca.

  114

  O sistema de prefeituras criadas no Maranhão em 1838 , no governo presidente Vicente Figueiredo Camargo, teve relevância política fundamental nesse momento de

  115

  centralização política. Com as funções policiais e judiciais , os prefeitos foram essenciais por serem instrumentos institucionais de ligação dessas comunidades com os presidentes da

  116

  província (representantes do governo imperial e símbolos de centralização política central), o que acabou tendo, na prática, paradoxalmente, um caráter muito mais descentralizador, em vista da atuação dos seus agentes. Esses tinham uma postura altamente discricionária e personalística, inerente às ambiguidades das disputas faccionais locais, como ressalta Assunção:

  Os prefeitos, responsáveis apenas ao executivo provincial, eram pouco inclinados a respeitar as susceptibilidades e os interesses locais. Muitos agiam de acordo com seus interesses pessoais, favorecendo as suas clientelas e reservando aos demais os rigores da lei. Foi exatamente contra o despotismo destes prefeitos, que os pobres livres e a classe média rural se insurgiam em dezembro de 1838, deflagrando um movimento que resultaria na guerra civil mais devastadora da história do 117 Maranhão .

  Com a extinção do cargo de prefeito, em 1841, tentou-se mais uma vez reestabelecer a unidade nacional, diante das revoltas e disputas locais que pululavam no final do período regencial, e nesse sentido, o governo imperial, na busca de instrumentos burocráticos capazes 113 de garantir uma centralização política, criou-se o cargo de delegado de polícia, em 1842. 114 LEAL. 2012. p. 185.

  

ENGEL. Magali Gouveia. Verbete: Balaiada. In.VAINFAS (dir). Dicionário do Brasil Imperial (1822-

1889). Editora Objetiva. Rio de Janeiro. 2002. p.72.

  115

" As principais funções dos cargos de prefeito e subprefeito previstas pela lei provincial 79 de 1838 (que em

várias localidades eram acumulados pelos prefeitos) no Maranhão eram de coordenar a força policial e da

Guarda Nacional nas comarcas, competência [de] organizar as listas de cidadãos que deveriam preencher que

deveriam ser remetidas aos juízes de paz, encarrega-se de fazer corpos de delito, inquirições, vistorias, nomear

subprefeito para cada paróquia, que deveriam atuar sob as ordens do prefeito, conceder passaporte, fiscalizar as

rendas provinciais arrecadas na comarca, dissolver ajuntamentos ilícitos utilizando-se de algumas prerrogativas

do cargo de juiz de paz, proceder recrutamento e destruir quilombos. Além dessas inúmeras atribuições, os

prefeitos e subprefeitos eram revestidos respectivamente de honras militares de coronel e tenente-coronel da

116 Guarda Nacional". In. Jornal O Publicador Oficial de 18 de agosto de 1838. 117 LEAL. 2012. p.186

ASSUNđấO. Matthias Rohrig. Cabanos contra bem-te-vis: a construção da ordem pós-colonial no Maranhão

  Nomeados pelo governo provincial, os delegados de polícia, e o seu imediato local, os subdelegados, assumiram as atribuições dos prefeitos (nos locais que possuíam esse cargo) e juízes de paz, que legalmente concentraram em suas atribuições as funções de polícia e a instância judiciária local. Embora, mais uma vez, como havia ocorrido no sistema de prefeituras, os delegados, em sua atuação nas paróquias, estiveram imersos nos conflitos e conchavos políticos paroquiais. Como pontua Queiroz, mesmo com as tentativas de enfraquecimento dos poderes locais através da centralização burocrática:

  Estes pobres delegados e subdelegados, perdidos no fundo do sertão, não dispondo de forças para efetuar prisões, isolados pela distância dos centros provinciais e muito mais ainda na capital do Império, só puderam viver acolhendo-se à sombra do mandão local, auxiliando-lhe e partilhando-lhe a sorte. Assim é que mudando uma situação local, vencendo o adversário de um chefe que estava no poder, dava-se a "derrubada" geral, juízes de paz, delegados, tudo mudava, ocupando os postos os 118 asseclas do vencedor .

  Diante deste quadro institucional, foram incontroláveis as imbricações das esferas econômica, social, cultural administrativa e política entre o interior do Império e a Corte. Esse entrelaçamento ocorreu no bojo de jogos complexos de cooptação das lideranças e de disputas/alianças entre mediadores locais e regionais, que respondiam à necessidade de se construir uma base política sólida ao Estado Nacional brasileiro.

1.4 A Guarda Nacional no Brasil e Maranhão.

  A Guarda Nacional criada na França, em 1789, e transformada em milícia em março de 1831 durante a revolução francesa, tendo esta, por fim, o propósito de combater

  119

  movimentos monarquistas , tivera no caso brasileiro, que fora constituída em agosto do mesmo ano, viria a ter a função político-instrumental de consolidação do regime monarquista, visando "defender a constituição, a integridade, a liberdade e a independência do 120 Império Brasileiro ".

  A Guarda Nacional, durante o período imperial brasileiro, foi direcionada, 118 especialmente, para e pelas autoridades e elites das municipalidades. Como tropas auxiliares à 119 QUEIROZ. 1976. p. 70.

  

FARIA. Maria Auxiliadora. A guarda nacional em Minas (1831-1853). Dissertação apresentada ao

Departamento de História, setor de Ciências Humanas e Artes na Universidade Federal do Paraná. Curitiba. a

  de 1 linha, a Guarda Nacional contava para compor suas fileiras com "cidadãos" em condições de votantes, ou seja, parte da população de livres pobres prestando serviços de forma litúrgica nas fileiras. Atividades essas que eram de caráter ordinário, de policiamento local e vigília em cadeias, e também em destacamentos, para aprisionamento de índios e desordeiros, destruição de quilombos. Funções que constituíram um elemento coercitivo fundamental do Estado Nacional brasileiro, conforme aponta Dolhnikoff:

  A importância da Guarda Nacional estava no fato de que se tornaria a principal força coercitiva do Império sobrepujando o Exército, deslocando para um segundo plano. [...]. A Guarda Nacional surgiu, [...] para garantir a manutenção da unidade nacional, então sob ameaça das turbulências que marcaram a abdicação de d. Pedro. Um papel que não poderia ser desempenhado pelo Exército, 'de reduzido efetivo, num clima de insubordinação quase geral [...]. Assim surgiu a Guarda Nacional - resposta civil dos liberais ao grave problema - como uma tropa econômica e eficiente para agir nesta 121 emergência' .

  Portanto, a Guarda Nacional estava inserida em um contexto de inflexão estrutural da política institucional baseada e inserida em uma lógica de instrumentalização política dos órgãos burocráticos, isto é, a utilização da máquina governamental no cenário de disputas políticas das lideranças locais e regionais, como instrumento fundamental de formação e mobilização de uma ampla rede de clientela e de inserção daquelas elites na estrutura administrativa nacional.

  A estruturação da Guarda Nacional na província do Maranhão deu-se de forma bastante lenta. A partir de 1832, foram criados os primeiros comandos dessa força militar na capital maranhense. Situação essa que não passara incólume ao governo central, como se

  122

  apresentou na circular do Ministério da Justiça , em 1835, que discutia sobre a necessidade da instalação de tais forças milicianas nas municipalidades e da ampliação do número de comandos da milícia na capital e no interior da província.

  A organização e funcionalidade da Guarda Nacional, conforme a legislação imperial de 1831, estabeleceria que tal milícia deveria ser:

  Organizada por municípios, concebida para ter, prioritariamente, atuação local, competia-lhe o serviço ordinário no município onde estava situada, mas podia prestar serviço de destacamentos, dentro e fora do município, e serviço de corpos ou 121 companhias destacadas , para auxiliar o Exército em casos de guerra. O vínculo dos 122 DOLHNIKOFF. 2005. p. 91 guardas era permanente, mas só podiam ser reunidos, tomar das armas e assumir um posto , um destacamento ou corpo, se convocados por seus chefes. Estes só deviam dar início a uma ação mediante solicitação feita por uma das autoridades civis que tinham o direito de requisitar força pública - os juízes de paz, os juízes criminais, os presidentes das províncias e o ministério da justiça -, aos quais a Guarda Nacional se subordinava. Era dever dos chefes ler a requisição diante dos guardas, para torná-la pública. Excepcionalmente, apenas nos casos previstos por lei, os comandantes podiam iniciar uma ação sem a necessária requisição, respondendo posteriormente por esses atos perante a instância superior. E, só com ordem de uma daquelas autoridades civis, os guardas nacionais exerciam serviço militar ativo, situação em que ficavam subordinados a uma autoridade militar. Na letra da lei, todo cuidado era tomado para que a milícia não se tornasse um instrumento de força a serviço de 123 interesses particulares .

  E como ainda destaca Dolhnikoff, a organização da Guarda era baseada e:

  Inspirada em sua congênere francesa, seu princípio básico era o de que todos os cidadãos deveriam pegar em armas para defender o seu país. Eram alistados obrigatoriamente todos os cidadãos brasileiros de 21 a 60 anos, desde que com renda para serem eleitores, nas cidades litorâneas, e para serem votantes nas cidades do interior. O alistamento era de competência do juiz de paz, a quem os guardas nacionais eram subordinados em primeira instância, e, em segunda, aos juízes criminais, presidentes de província e ao ministro da Justiça. Dado o caráter cívico da Arma, deveriam aqueles cidadãos servir sem o recebimento de nenhum soldo. O governo oferecia-lhes apenas o instrumental bélico, sendo cada guarda responsável pela compra e conservação do seu uniforme. Dado ainda aquele caráter, bem como sua inspiração francesa, os postos de oficiais eram eletivos: em cada paróquia, os 124 guardas votavam nos seus oficiais de comando .

  Ainda sobre a legislação da Guarda Nacional, tinha-se outros elementos necessários para legalização dessa força, como as implementações dos Conselhos de Qualificação, do Júri de Revista e de Disciplina. Toda essa estrutura administrativa era responsável pela seleção daqueles que deveriam compor o serviço ativo e o de reserva da milícia, e assegurar que aqueles que deveriam servir na Guarda Nacional possuíssem a idoneidade e a disciplina necessárias para o preenchimento das exigências de servir como praça naquela instituição militar.

  No que tange à divisão entre ativos e reservas, definida pelo Conselho de Qualificação, é importante ressaltar que se formava um conjunto de listas daqueles designados a fazer o serviço ordinário cotidiano e os outros, que isentos do serviço diário como praça,

  123

FARIA. Regina Helena Martins de. Em nome da ordem: a constituição de aparatos policiais no universo

luso-brasileiro (séculos XVII e XIX). Tese (Doutorado em História) - Centro de Filosofia e Ciências Humanas, eram alocados em uma lista de indivíduos que poderiam ser convocados em casos específicos de guerras ou conflitos civis de grandes proporções.

  As traduções locais que a legislação da milícia vira a sofrer, daria margens às várias interpretações e usos, que, na prática, serviria de espaço para negociações políticas locais. Exemplo disso são as listas de isenção do serviço militar na seção do serviço de reserva, que, em muitos casos, foram resultantes de negociações políticas, que extrapolando a legislação, definiria também a organização paramilitar, que tinha como pauta de escolha de agentes os que eram:

  [...] maiores de 50 anos; senadores, deputados, conselheiros ou ministros de estado, membros dos Conselhos Presidial ou da Província e chefes de repartições públicas; autoridades administrativas e judiciárias que tinham direito de requisitar a força pública; os demais magistrados; oficiais dos extintos corpos de Milícias, Ordenanças e da Guarda de Honra que não tivessem perdido suas patentes; empregados nas administrações dos correios; advogados, médicos, cirurgiões ou boticários estabelecidos e no exercício da profissão; professores ou estudantes matriculados nos cursos jurídicos, em escolas de medicina, seminários episcopais e outras academias ou escolas públicas; empregados em hospitais e outros estabelecimentos de caridade; administradores de fábricas e fazendas rurais (onde não residissem os donos e existissem mais de 50 escravos), vaqueiros ou feitores (de fazendas de gado 125 que dessem mais de 50 crias anuais) .

  Embora com toda a complexidade de negociações que existia dentro da administração da Guarda Nacional nas paróquias, havia a necessidade nessas localidades de uma estrutura de segurança pública, o que na prática, foi fundamental para a legitimação dessa milícia no interior da província do Maranhão. Devido à redução progressiva das tropas de primeira linha em toda extensão imperial, as paróquias viriam a sofrer com uma grande deficiência de uma força militar e policial para os serviços de vigilância sobre escravos, e de destacamento para destruição de quilombos, sobretudo nas principais zonas de produção agrícola de cana-de-açúcar e algodão da província, que conforme a legislação da Guarda Nacional, cabia também a ela:

  [...] fornecer destacamento dentro e fora dos respectivos Municípios nos seguintes o casos: §1 Quando faltar à tropa de Linha e de Polícia para o serviço ordinário da guarnição, para escoltar de um lugar para outro as remessas de dinheiro ou de quaisquer efeitos pertencentes à Nação ou à Província, ou para conduzir os o pronunciados, condenados e quaisquer outros presos.§ 2 Para socorrer algum

  Município da mesma ou de diversa Província, no caso de ser perturbado, ou ameaçado de sedição, insurreição, rebelião ou qualquer outra comoção, ou de incursão de ladrões, ou malfeitores [...]. Art. 91. Quando a Guarda Nacional for empregada, na forma do Art. 87, em virtude de ordem ou autorização do Governo ou dos Presidentes, abonar-se-á aos Oficiais e praças desde o primeiro dia da reunião, ou daquele em que cada um sair de sua casa, feita a conta dos que forem necessários para a marcha, os mesmos soldos, etapes e mais conforme a natureza do serviço a que se destinar a força. [...]. Art. 118. Os Corpos destacados não poderão ser tirados da Guarda Nacional senão em virtude de Lei especial. Dado, porém, em caso de rebelião ou de invasão repentina de inimigos no intervalo das Sessões da Assembleia Geral, o poderão ser, por Decreto do Governo no Município da Corte e por ordem dos Presidentes nas Províncias, dando-se conta à Assembleia Geral, logo que reunida 126 .

  Os praças da Guarda Nacional poderiam ser organizados em corpos de infantaria e

  

cavalaria . A atribuição de organização e criação desses corpos eram de exclusividade do

  governo central, mas recorrentemente eram delegadas aos presidentes de província. Os corpos de infantaria eram subdivididos em companhias, que compunham os batalhões, e, por fim, integravam as legiões (formadas, teoricamente, quando se possuía mais de mil praças), as quais eram subordinadas ao chefe da milícia, que detinha a patente de coronel

  127 .

  Quanto aos oficias que estariam na frente do comando da Guarda Nacional, pela legislação de 1831, esses deveriam ser escolhidos através de um pleito entre os praças das companhias e batalhões aos quais pertenciam. Depois de escolhidos, eram remetidos os nomes à presidência de província, que sancionava ou vetava os resultados de tal eleição. De toda forma, tal componente democrático conferia a esta camada popular perspectivas de ascensão e conquista de prestígio social. O caráter honorífico que englobava as eleições de oficiais e a ocupação do posto pleiteado era reforçado, ainda, através de outros elementos simbólicos que circundavam o próprio escrutínio dos oficiais dessa milícia, que ocorriam:

  [...] mediante a formação de uma mesa eleitoral presidida pelo juiz de paz, auxiliado ainda por mais dois guardas nacionais que, aprovados por aclamação pelos demais guardas presentes, exerciam a função de escrutinadores. As eleições realizavam-se no interior das igrejas, locais públicos por excelência, e os milicianos, notificados por editais e pelos seus respectivos comandantes, deviam comparecer desarmados para a nomeação dos oficiais

128

.

  Em muitos lugares do Império, os milicianos viveram essa experiência dita "democrática". Porém, no caso da província do Maranhão, foi justamente a existência desse instrumento eletivo um dos principais problemas que levaram à morosidade na implantação 126 da milícia no interior da província, devido ao tenso jogo de negociação/intervenção entre FARIA. 2007. p. 156. 127 governo e os notáveis locais, em que esses últimos também controlavam as instituições que

  129 130

  organizavam a milícia nas paróquias , isto é, a Câmara Municipal e o juizado de paz , que foi resumida no seguinte quadro apresentado por João Lisboa, em que:

  Segundo nossos presidentes (os dois últimos) o official há de ser bom, porque não depende dos sufrágios dos subalternos; e ainda há de ser melhor, porque depois de nomeado, continua a depender do governo, que o pode suspender sem lhe declarar os motivos, por certo espaço de tempo. Assim, o povo vem a ser a fonte de todo o mal, e o governo, a fonte de todo o bem? Infelizmente a experiência tem mostrado que se as nomeações do povo são más, as do governo são um pouco piores. Ao menos, quanto à guarda nacional, nunca o povo andou criando batalhões a torto e direito, só para o fim de nomear oficiais. [...]. Sentimos sinceramente que o senhor Manuel Felisardo prestasse a sua firma para iludir o público sobre os verdadeiros fins que teve em vista o partido dominante, quando alterou a lei da guarda nacional, usurpando atribuições da assembleia geral; mas felizmente já hoje ninguém ignora 131 que o que se quis foi dilatar a clientela, para subjugar as eleições .

  Deste modo, foram incontáveis os impedimentos da instalação dos corpos milicianos na província do Maranhão. Como o caso registrado em relatório de Presidente da Província, em 1837, informando a ausência de tomadas de decisões administrativas por parte das Câmaras Municipais, sobretudo as do interior maranhense, quanto à repartição das Guardas Nacionais em sessões de companhias e batalhões, assim como a omissão dos oficiais da guarda na organização dos documentos e, sobretudo, na não convocação dos conselhos de qualificação, devido ao descumprimento daquelas autoridades às ordens do governo provincial. Situação que se manteria até o final da década de 1850.

  E diante do "desajuste" das eleições de oficiais verificado na Guarda Nacional, tal

  132

  impasse seria gradualmente resolvido através de uma lei provincial promulgada em 1838 (que posteriormente seria referendada nacionalmente pela Lei 602 de 19 de setembro de 1850 reformula alguns parâmetros da Guarda Nacional), em que se extinguiria tal eletividade e que, a partir de então, dava-se ao presidente da província a responsabilidade de escolher os 129 principais membros da Guarda Nacional nos municípios, conforme a determinação da lei:

  

Na presente pesquisa, não foi constada nas documentações referentes as Câmaras Municipais, juizados de

paz, em jornais, nos relatórios de presidentes de província e muito menos na documentação da própria Guarda

Nacional das municipalidades estudas, algum tipo de procedimento eleitoral de escolha de oficiais. O que faz

130 entender e reforçar o argumento de não ter havido, no Maranhão, essa instituição eleitoral na Guarda Nacional.

  

No caso das atribuições da Câmara municipal, esta instituição seria responsável por parte do serviço de

alistamento e classificação daqueles que seriam ativos e reservas na atividade ordinária da Guarda Nacional(art

13), e também na formação e repartição dos corpos da milícia nas municipalidades (art. 31). Já os juízes de paz

possuíam prerrogativas maiores, dentre elas, ajudar também no alistamento de milicianos(art. 31), mas

principalmente, atuar como presidente da mesa eleitoral responsável pelo processo eleitoral de escolha de 131 oficiais da Guarda Nacional local. In. BRASIL. Coleção de Leis do Império. Lei s/n de 18 de agosto de 1831. a [extinção] [da] eletividade dos oficiais determinou que os postos se tornaram vitalícios, providos com pessoas residentes nos próprios municípios que tivessem 400 mil réis de rendimento líquido anual por bens de raiz, agricultura, comércio ou emprego. Os postos mais altos passaram a ser de nomeação do presidente da província, sendo os mais baixos nomeados pelos comandantes dos próprios corpos. Para assumi-los, os oficiais precisavam pagar o imposto do selo ao Tesouro Provincial, cujo valor variava com a posição da patente na hierarquia dos postos. Simbolizando o status da nova oficialidade, quem fosse nomeado pelos novos critérios passava a gozar das 'mesmas honras, privilégios e isenções' que gozavam os oficiais da extinta milícia dos tempos coloniais, não sendo privados de suas patentes senão por sentença. Completando o assenhoreamento das elites sobre o comando da corporação, foram abolidos o conselho de Qualificação e o Júri de Revista. Suas atribuições passaram para os comandantes dos corpos da Guarda Nacional, com recurso para o presidente da província (na capital) ou para juiz de direito chefe de 133 polícia (nos municípios) .

  E para suprimir de uma vez por todas as possibilidades de indivíduos não pertencentes ao grupo de notáveis locais de preencherem postos importantes dentro da Guarda Nacional, a partir da reforma de 1850, foi exigido que todos os oficiais pagassem por suas

  134 patentes para ocupação de uma posição destacada no quadro administrativo da milícia .

  Como sublinha Faria, sobre a questão das patentes para os oficiais:

  [...] Por elas, pagam quantia correspondente a um mês de soldo que compete aos oficiais de 1ª Linha de igual posto, pagam ainda o selo correspondente e as taxas de emolumentos. (Art. 57 - Lei 602, de 19 de setembro de 1850). A patente de oficial é pois, um bem adquirível, através do qual, consegue-se poder e autoridade e se auto- 135 atribui e/ou ratifica prestígio social e político .

  Por fim, a interferência dos notáveis locais seria de fundamental importância para garantir a participação no serviço policial pelos milicianos, bem como para a própria possibilidade de efetivação dessa força policial:

  [...] o papel residual do estado central não deixa qualquer dúvida de que ele considerava o custeio e despesas administrativas da Guarda Nacional como um compromisso litúrgico coletivo a ser impostos aos membros livres e independente das comunidade. Sob tais circunstâncias, somente um estrato de notáveis economicamente dominante estava em situação de arcar com as necessidades e 136 exigências materiais e administrativas da milícia .

  Assim, com as reformulações da legislação da Guarda Nacional, em 1838 e 1850, 133 constituiu-se a figura do Comandante Superior, a autoridade máxima sobre os praças nas 134 FARIA. 2007. p.147-148. 135 BRASIL. Coleção de Leis do Império. Lei n. 602 de 19 de janeiro de 1850. Capitulo II. municipalidades, que viria a substituir a extinta figura do chefe de legião (embora no

  137

  Maranhão essa figura tenha persistido até metade da década de 50) . Escolhidos através de nomeação do presidente de província e sancionados pelo Ministério da Justiça, os comandantes superiores, com graduação e honras de coronel, eram responsáveis e tinham por funções "comandar, inspecionar, instruir os comandados e dar todas as ordens necessárias

  138

  para a regularidade do serviço" , bem como reportar periodicamente ao governo provincial mapas sobre o número de praças e de oficiais e a situação dos armamentos dos batalhões. Ou como colocaria Faria:

  Se uma Lei de reforma [1850] impõe-se, pois, à estrutura organizacional da Guarda, impõe-se também, e sobretudo, uma reforma do espírito da Lei que a criara. É que os princípios liberais, eletivos e municipalistas, contidos na organização inicial não são mais compatíveis com os propósitos das elites civis que pretendem uma força estabilizadora do sistema. Abandonados bem cedo esses princípios, a nomeação do oficialato passa a ser atribuição dos governos regionais o que significa dizer que, gradativamente, vai se transformando em força mantenedora da política oficial. É neste sentido que a reforma de 1850 vem apenas legitimar uma situação já existente, e pode ser considerada como a consolidação legal da Milícia como força política útil ao sistema. Submiss, a partir de então, diretamente ao Ministro da Justiça e aos 139 Presidentes das Províncias, reflete a vitória da política centralizadora do Império .

  Com efeito, a nomeação desse oficial maior através daquele novo dispositivo reformador, viria reafirmar a posição de liderança política dos potentados locais. Assim, os "novos" comandantes atuavam como instrumento de reprodução de uma mudança de uma ordem institucional no interior da hierarquia militar, mas que matinha a hierarquia e desigualdade social nas localidades patentes diante da organização da milícia. Efetivamente "os cidadãos mais ricos e influentes do município tendiam a ocupar os oficialatos, deixando

  140 os postos subalternos aos trabalhadores sem posses" .

  Apesar dessas medidas reformadoras provinciais de 1838, a força coercitiva da Guarda Nacional pouco se alteraria nos anos subsequentes. Durante a revolta da Balaiada, e na tentativa de se contornar todas as adversidades de infraestrutura administrativa, principalmente de falta de braços armados legais para combater naquela insurreição, o

  141

  Presidente da Província, em 1839 , convocou ainda os lavradores e negociantes de

  137 138 BRASIL. Coleção de Leis do Império. Lei n. 602 de 19 de janeiro de 1850. Capitulo II. art. 41. 139 FERTIG. 2010. p.22-23. 140 FARIA. 1977.p. 35.

  Alcântara, Itapecuru e da Capital para se colocarem em "favor da legalidade", e auxiliarem com pessoal na luta contra a insurreição de escravos que se espalhava por toda a província.

  De modo geral, em todo o império, assim como no Maranhão, o desinteresse da população pelo serviço militar e uma "total falta de disciplina e interesse das massas em prestar serviços pessoais gratuitos às instituições militares, por prejudicarem suas ocupações "ordinárias"

  142 , foi um dos obstáculos para implementação da Guarda Nacional no interior.

  Ainda que, no cotidiano político local, houvesse um processo de militarização na sociedade, mas esse não era perpetrado, mantido e instrumentalizado pelo Estado, e sim controlado e organizado pelos potentados locais, pois:

  [...] [abarcava] em seus quadros a população trabalhadora livre sob o comando dos potentados locais. A raiz do fenômeno deve ser buscada, portanto, no fato de que a força armada que coadunava com o privatismo escravista era a Guarda Nacional. O sentido que a alimentava não era a eficiência militar, que ela evidentemente não possuía, mas a sua eficácia como instrumento de resistência ao armamento do Estado 143 .

  Se, por um lado, o serviços administrativos e os principais postos pertenciam aos mandões locais, por outro, o serviço ordinário da milícia recaía em grande parte sobre parcela significativa da população livre pobre. Segmento social que viria a pagar o preço de ser "cidadãos" servindo à força legal do Estado. Esses agentes que compunham a força política e militar simbólica dos chefes políticos locais eram essenciais em tal conjuntura, uma vez que seus serviços:

  [...] constituíam um pesado encargo para os cidadãos eleitores guardas nacionais, uma vez que eram alistados e qualificados entre a população modesta, produtiva e livre. O trabalho que realizaram foi árduo, oneroso e, em geral, anônimo. O que representou de penoso para a gente simples do interior das províncias ter de largar os afazeres profissionais, para servir gratuitamente à comunidade, fala-nos do esforço, desprendimento e mesmo do heroísmo dos cidadãos-soldados [...]. Deve-se, sobretudo, dizer que cobrou a Guarda Nacional pesado tributo aos cidadãos- soldados que pagaram o seu tempo com o seu dinheiro e quantas vezes com sangue 144 .

  Apesar da relutância da população mais pobre em prestar serviços militares, foi justamente este estrato social numericamente significativo que iria fornecer o substrato de 142

  

MARANHÃO. Correspondências do Presidente de Província para o Ministério da Justiça (1831-1849). Setor

de Documentos de Códices. Arquivo Público do Estado do Maranhão. Oficio de 25 de outubro de 1841. 143

  145

  funcionamento da força miliciana em todo o Maranhão , sobretudo quanto ao suprimento das necessidades de repressão e policiamento no interior da província, aquele grupo social que comporia as fileiras da Guarda Nacional teria um papel relevante.

  a

  Ainda quanto aos serviços militares, o recrutamento militar para as tropas de 1 linha também foi outro instrumento sempre passível de filtragem e de utilização política local na organização e estruturação disciplinar e coercitiva da Guarda Nacional. Desde o período colonial até o Império, o recrutamento militar foi um instrumento estatal bastante temido, principalmente pelos grupos sociais marginalizados, pois como aponta Sodré, o recrutamento era uma verdadeira “caçada humana”, causando repúdio do livre pobre à instituição militar e à inoperância administrativa da mesma:

  O recrutamento, por isso mesmo, se estiolava nas condições mais lamentáveis: tratava-se mais de um processo policial do que de norma militar, as crônicas da época estão cheias de lamentações e de protestos contra os desmandos dos recrutadores. A caserna continuava a ser refúgio de desocupados, de desqualificados, 146 de malfeitores .

  • – uma espécie de castigo

  As deserções foram muito comuns na Guarda Nacional, sobretudo nos momentos em que, por motivos de perseguição política, a não intervenção de redes de proteção de notáveis locais não conseguisse garantir a proteção de seus aliados milicianos.

  Embora houvesse falhas estruturais de organização e disciplina entre os guardas nacionais, que eram quase que sistematicamente apontadas pelos presidentes de província, chefes de legião e comandantes superiores, desde a década de 40 até fins da Guerra do Paraguai em 1870, foram aqueles praças "desqualificados" os responsáveis pelos serviços de destacamento nos municípios do interior da província, principalmente o de policiamento, em atendimento aos pedidos quase que diários dos delegados e subdelegados de polícia à presidência da província.

  145

Quanto a junção do sentido de alistamento e recrutamento para a composição da força coercitiva da Guarda

Nacional, vale ressaltar que, conforme as leis de 1831 e 1850, não se fala em recrutamento de praças, mas sim de

alistamento. Só que, na prática, por um conjunto de fatores sociais, sobretudo, no que diz respeito as formações

de grupos político rivais nas municipalidades, o reforço de praças por parte do grupo político hegemônico (que

também comanda a Guarda Nacional local) garante parcialmente a supressão de possíveis opositores, o que

consequentemente, requeria por parte dos livres pobres alinhavados a esses chefes locais a prestação quase que

  No fim da década de 1840 e apesar da carência de recursos humanos para a força militar de um modo geral na província, ainda assim o governo provincial aumentaria sistematicamente o número de batalhões e comandos superiores da Guarda Nacional. Ou seja, a partir de 1850, o Maranhão já contava com 13 comandos superiores e 34 batalhões, que

  147 totalizavam 28.923 praças, tanto no serviço ativo quanto na reserva .

  O que pode ser observado nas municipalidades de Itapecuru e Alcântara, que, em 1855, já contavam comandos superiores. Na primeira havia dois batalhões do serviço ativo e uma companhia de reserva. Na segunda existiram 3 batalhões e uma companhia de reserva.

  148

  Alcântara, em 1849, contava com uma força de 1.738 praças e oficiais. Itapecuru, em 1843,

  149 tinha dois batalhões de aproximadamente 740 praças e oficiais .

  A Guarda Nacional no Maranhão, como em todo o império, obedecia às vicissitudes das mudanças políticas e das disputas intraoligárquicas nas municipalidades. O que demonstra, portanto, que a pessoalização da atuação política e o controle do acesso aos recursos políticos provenientes do Estado ampliavam a influência de grupos dirigentes locais sobre a ocupação dos postos de comando da milícia, constituindo e legitimando suas posições de liderança diante de seus clientes e aliados, que por sua vez eram reconhecidos no âmbito governamental.

  Dessa forma, tal instituição, para além de suas funções institucionais coercitivas, servia como um dos vários elos entre o governo central e as paróquias e, acima de tudo, assegurava o compromisso dos notáveis locais à ordem imperial. A Guarda Nacional, para Uricoechea, foi uma das experiências mais complexas desenvolvidas durante todo o período imperial, visto as extensas e tensas redes de "compromissos recíprocos tão característicos do

  150 pacto político entre os senhores de terra e o príncipe" .

  A instrumentalização política da Guarda Nacional esteve intimamente ligada ao modo pelo qual foi instituída e mobilizadas pelos agentes nas municipalidades, ou seja, 147 transformando-se em um braço armado, assegurado institucionalmente pelo estado. Ao 148 FARIA. 2007. p.153.

  

MARANHấO. Secretaria do Governo. GUARDA NACIONAL. SEđấO DO COMANDO SUPERIOR.

1847

  • – 1855. Setor de Documentos Avulsos Manuscritos. Arquivo Público do Estado do Maranhão. Oficio de 20 149 de outubro de 1849.
  • MARANHấO. Secretaria do Governo. GUARDA NACIONAL. SEđấO DE CHEFE DE LEGIấO. 1838

    1848. Setor de Documentos Avulsos Manuscritos. Arquivo Público do Estado do Maranhão. Oficio de 20 de

mesmo tempo, era dotada de modus operandi muito ligado aos anseios, preocupações e ambições políticas dos chefes locais e de seus aliados, o que podia variar desde uma incursão a quilombos até a um "ajuntamento" para atuar durante as eleições e garantir uma vitória nas urnas. Assim, Fertig pensa que a Guarda Nacional:

  [...] contribuiu decisivamente como para reforçar o exercício do poder pessoal [privado] nos municípios do Império. Exercendo uma prática política clientelística, que perseguia seus inimigos e favorecia seus aliados através da concessão de cargos e favores, os oficiais, em muitas ocasiões, estavam mais propensos a utilizar seus cargos em proveito próprio, ou seja, patrimonialmente, do que em beneficio do 151 governo Imperial .

  Por conseguinte, as complexas trocas de favores e compromissos que favoreciam os clientes, e patrões os enredava em uma teia de lealdades e hostilidades bastante complexa e que atendia igualmente aos interesses dos mediadores melhor alocados no espaço político, compondo ainda parte de uma intrincada rede que instituía canais de circulação de indivíduos entre postos e fluxos de recursos políticos e econômicos entre lideranças (como veremos adiante).

  QUADRO 1: Ocupação profissional, formação educacional e origem familiar dos senadores (1826-1889). NOME ORIGEM FAMILIAR OCUPAđấO FORMAđấO EDUCACIONAL/INSTITUIđấO

  1. PORTUGUES Advogado; Juiz na Corte; Ministro do Bacharel em Direito - Universidade de Coimbra João Inácio da Cunha Império (1830-31)

  2. MARANHENSE Advogado; Pres. de Prov. do MA; Dep. Prov. S/I - Universidade de Coimbra Patrício Jose de Almeida e Silva (ALCÂNTARA)

  3. MARANHENSE Pres. de Prov. do MA; Dep. nas Cortes de S/I - Universidade de Coimbra Antônio Pedro da Costa Ferreira (ALCÂNTARA) Lisboa; Dep. Geral

  4. MARANHENSE Magistrado; Jornalista ; Pres. de Prov. (MA e Bacharel em Direito - Faculdade de Direto de Joaquim Franco de Sá

(ALCÂNTARA) PB); Dep. Geral; Magistrado na Prov. Olinda/ Recife

5. MARANHENSE (SÃO LUIS) Dep. Prov.; Lavrador

  S/I Ângelo Carlos Muniz

  6. MARANHENSE Lavrador; Comandante Superior da Guarda Não Possui Formação Jerônimo Jose de Viveiros (ALCÂNTARA) Nacional; Dep. Prov.

  7. MARANHENSE (ROSÁRIO) Lavrador; Pres. de Prov. (RN); Magistrado Bacharel em Direito - Universidade de Coimbra Joaquim Vieira da Silva e Sousa

  Na Corte; Ministro da Justiça - Marinha - Império - Guerra

  8. MARANHENSE Advogado; Magistrado; Funcionário Publico; Bacharel em Direito - Faculdade de Direito São João Pedro Dias Vieira (GUIMARÃES) Pres. de Prov. (MA; AM;) Ministro da Paulo

Marinha - Estr.; Cons. do Império

  9. MARANHENSE (ROSÁRIO) Advogado; Dep. Prov.; Magistratura da Bacharel em Direito - Faculdade de Direito de Antônio Marcelino Nunes Gonçalves

  Prov.; Presidente da Prov.( MA; CE; RN; Olinda/ Recife AL); Cons. De Estado

  10. PIAUIENSE (OEIRAS); Magistratura na Prov.; Dep. Prov. (MA) e Bacharel em Direito - Faculdade de Direito de Francisco Jose Furtado

(CAXIAS) Geral; Ministro da Justiça; Conselheiro e São Paulo

Presid. do Cons. de Ministros

  11. Mendes de MARANHENSE (BREJO E Promotor; Sec. do Gov. Prov.; Dep. Prov.; Bacharel em Direito - Faculdade de Direito Candido Almeida CAXIAS) Professor; Jornalista Olinda/ Recife

  12. MARANHENSE Advogado; Jornalista; Poeta; Sec. do Gov. S/I - Universidade de Heldenberg (Alemanha) Luiz Antonio Vieira da Silva

  Prov.; Dep. Prov. e Geral; Pres. de Prov. (PI e MA); Ministro da Marinha

  13. MARANHENSE Promotor Público; Advogado; Jornalista; Bacharel em Direito - Faculdades de Direito de Felipe Franco de Sá (ALCÂNTARA) Ministro de Estr., Guerra e Império; Recife e em São Paulo Conselheiro de Estado

  Fonte: COUTINHO. Milson. 1986.

  

QUADRO 2: Ocupação profissional, formação educacional, origem familiar e região de atuação política dos deputados gerais eleitos no

Maranhão (1830-1860).

  VIANA MA Jornalista e empregado publico (inspetor do tesouro provincial); professor do Liceu; membro do

  11. Venacio José Lisboa S/I RJ/SP/ MA Magistrado (juiz de direito em MT, MG e RJ; juiz de órfão da corte); presidente das províncias de SP e

  MA (SÃO LUIS) MA Magistrado Bacharel em Matemática em Coimbra

  Bacharel em Teologia - S/I 10. Leocadio Ferreira de Gouveia Pimentel Beleza

  (VIANA) MA Governador do bispado; catedrático do liceu; Deputado provincial; conselheiro; membro do IHGB.

  9. Antonio Bernardo da Encarnação e Silva MA

  Luis Carlos Cardoso Cajueiro MA (SÃO LUÍS) MA Empregado publico e jornalista S/I

  IHGB; Deputado provincial S/I - Bacharel em Matemática em Coimbra 8.

  MA Magistrado Bacharel em Leis Coimbra 7. Estevão Rafael de Carvalho

  NOME ORIGEM FAMILIAR REGIÃO DE ATUAđấO POLÍTICA OCUPAđấO PROFISSIONAL FORMAđấO EDUCACIONAL/

  6. Vital Raimundo da Costa Pinheiro CE (SOBRAL)

  5. Frederico Magno de Abranches MA (SÃO LUÍS) MA Cônsul em Cayenna e no peru; professor; jornalista secretário do governo do MA. Deputado provincial S/I

  4. Manuel Dos Santos Martins BA MA/RJ Magistrado Bacharel Em Leis em Coimbra

  3. Manuel Inacio Cavalcanti Lacerda PE MA/RJ Magistrado Doutor em Ciências Sociais e Jurídicas em Coimbra

  MA/RJ Advogado e jornalista Bacharel em Direito em Olinda/ Recife

  Coimbra 2. João Braulio Muniz MA

  Manuel Odorico Mendes MA (SÃO LUÍS) MA/RJ/MG Empregado público e jornalista Bacharel em Filosofia Natural Em

  INSTITUIđấO 1.

  Bacharel em Direito Pela Universidade de Paris MA

  12. MA MA Deputado provincial S/I Manuel Jansen Pereira

  13. RJ MA/RJ/CE/ PA Senador S/I João Antonio de Miranda

  14. José de Moura BA MA Advogado; desembargador; poeta; S/I João Magalhães presidente das províncias PB; MA e BA.

  15. MA MA S/I S/I José Jansen do Paço

  16. S/I MA S/I S/I José Tomás dos Santos e Almeida

  17. S/I S/I Presidente das províncias do MA e S/I João Duarte Lisboa Serra BA

  18. MA MA Coronel da Guarda Nacional de São S/I Isidoro Jansen Pereira (SÃO LUÍS) Luís

  19. Alexandrino de MA (ITAPECURU) MA/ Político e empregado publico Bacharel em Direito em Olinda Fabio Carvalho Reis

  RJ/CE/PA/BA/RS/PE (coletor de rendas provincial; inspetor de alfandega do Pará; advogado; jornalista; Deputado provincial; presidente de província (PA; PE); oficialato da imperial das rosas

  20. MA MA Deputado provincial S/I Antonio Jansen do Paço (SÃO LUÍS)

  21. MG MA/RJ/ES/PA/ Jornalista; Professor; empregado S/I Herculano Ferreira Pena

BA/AM/PE/ publico

MT/MG

  22. de Barros e MA MA Senhor de terras; militar; empregado Colégio dos Nobres em Lisboa Antonio Vasconcelos (Barão de (SÃO LUÍS) publico; Deputado provincial Penalva)

  23. RJ MA/RJ Magistrado (desembargador do Bacharel em Direito Pela Gregório de Tavares Osório Maciel da Costa tribunal de relação do MA); Faculdade de São Paulo Deputado provincial; juiz de direito (Caxias)

  24. MA MA/RJ Lavrador S/I Antonio Raimundo Teixeira Viera Belfort (Barão de (ROSÁRIO) Gurupi)

  25. José Ascenço da Costa Ferreira MA (ALCANTARA) MA Juiz de direito das comarcas de Chapada; Sobral; da capital da

  Paraíba e São Luis; ministro do supremo Tribunal de Justiça; desembargador da relação do MA e GO; Deputado provincial; vice- presidente do Ceará.

  Bacharel em Direito em Olinda 26.

  Francisco Mariano de Viveiros (Barão de São Bento) MA (ALCANTARA) MA Senhor de engenho; jornalista;

  Deputado provincial Bacharel em Matemática Em Coimbra 27.

  José Martins Ferreira S/I MA S/I S/I

  28. João Paulo de Miranda S/I MA S/I S/I

  29. Viriato Bandeira Duarte MA (SÃO LUÍS) MA/MG/RJ Juiz municipal (SLZ); auditor geral da marinha; desembargador ma e ouro preto; ministro adjunto do Cons. Sup. Militar; ministro do Supremo Tribunal de justiça; chefe de policia de MT e Deputado geral do MT e Ma; juiz de direito de Cuiabá; Coroatá Itapecuru; Deputado provincial

  Bacharel em Direito Em Olinda 30.

  José Mendes de Almeida S/I MA S/I S/I

  31. Francisco Baltasar da Silveira BA MA/RJ Magistrado; Deputado provincial Bacharel em Direito em São Paulo (Passagem por Coimbra) 32. Joaquim Mariano Franco de Sá

  MA (ALCANTARA) MA Tenente; Coronel da Guarda Nacional

S/I 33.

  José Joaquim Ferreira Vale (Visconde do Desterro) MA (ITAPECURU) MA/RJ Jornalista; Deputado geral Bacharel em Direito em São Paulo

FONTE: MARQUES. 2008; COUTINHO.1986; COUTINHO.1981; COUTINHO. 2005.

  CAPÍTULO II: ALCÂNTARA - A cidade de grandes políticos.

2.1 Aspectos sociais, políticos e econômicos da cidade de Alcântara no século XIX

  Alcântara, antiga aldeia de Tapuitapera, localizada às margens continental da baía de São Marcos, a mais ou menos quatro léguas da sede da província, foi fundada em 22 de

  152

  dezembro de 1648 . Foi elevada à categoria de cidade, através da lei provincial de 24 de julho de 1836, e dividida internamente pelas freguesias de Apostolo São Mathias, São João de Cortes e Santo Antonio e Almas.

  Quanto à densidade populacional de Alcântara, ao longo do século XIX, tinha no ano de 1820, segundo alguns dados contidos no Dicionário de Cesar Marques, em torno 8.000

  153

  habitantes , e, em 1861 (Anexo IV), aproximadamente 16.600 habitantes (9.300 livres e 7.300 cativos). Portanto, uma das cidades mais populosas e povoadas da província neste

  154 período .

  Tal flutuação populacional também revela o peso econômico de Alcântara no Maranhão. A economia despontou, a partir da segunda metade do século XVIII, com os investimentos da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, e com intensa entrada de cativos (que no ano de 1818 atingiria aproximadamente a marca de 2.000 escravos

  155

  entrando na província do Maranhão ) na produção agrícola local. Uma das principais culturas foi o algodão, atingindo, em 1818, o volume de exportação de "402.000 arrobas na importância de 3.150 contos", com a produção de outros gêneros "20.000 sacos de açúcar, 152 60.000 paneiros de farinha, 7.000 alqueires de arroz, 20.000 arrobas de peixe seco e 200.000 153 MARQUES. 2008. p. 92. 154 Ibidem. p. 103.

  

Com relação às estatísticas populacionais no Maranhão, como alerta Faria, "[...] que durante todo período

colonial e grande parte do Império as estatísticas populacionais eram feitas por viajantes que estimavam a

população dos lugares por onde passavam, baseados nas informações de pessoas desses lugares; ou por

funcionários públicos[...]. Assim, é comum encontrar-se aumentos ou diminuições abruptas de população, sem

que tenha havido surtos de migração ou epidemias devastadoras". In. FARIA. Regina Helena Martins. Trabalho

escravo e trabalho livre na crise da agroexportação escravista no Maranhão.(Monografia de especialização

em História Econômica Regional pelo Departamento de Historia da Universidade Federal do Maranhão). São

155 Luis. UFMA. 1998. p.35-36.

  

VIVEIROS. Jerônimo de. Alcântara no seu passado econômico, social e político. In: Revista de Geografia e História. IBGE. 1950. p. 186. alqueires de sal

  156

  ". E, assim, como ocorrera em boa parte da província, ainda que produzindo uma série de outros gêneros agrícolas, os produtores agrícolas de Alcântara se voltaram para o cultivo do algodão, devido aos preços vantajosos para a produção regional no mercado internacional.

  Mas a produção agrícola em Alcântara não se restringiu somente ao cultivo das culturas voltadas para exportação. Nos anos de 1850 e 1860, havia aproximadamente "81 fazendas de cereais, 22 engenhos de açúcar, 24 fazendas de gado e para mais de 100 salinas

  157

  ". Ainda nesse período, na cidade "trabalhavam uns sete a oito mil escravos, que moviam 15 engenhos, 120 fazendas de lavoura de mandioca, arroz, fumo, algodão, e outros gêneros e umas 20 fazendas de gado

  158

  ". Portanto, segundo Viveiros, até meados de 1860, mesmo com a dispersão da agricultura provincial por outras ribeiras e regiões mais férteis, como a paróquia de Viana, ainda assim, aquela cidade, com suas fazendas de gados, açúcar e algodão, engenhos e casas comerciais, foi uma das mais importantes zonas agrícolas da província, comparando-se com as demais:

  Algodão - 2.500 sacas [Alcântara], 3º lugar, com Itapecuru em 1º com 60.00 e Mearim e Viana em 2º com 20.000 cada. Açúcar - 1800 barrica [Alcântara], 2º lugar, com Pindaré em 1º com 3.000 barricas. Aguardente - 300 pipas [Alcântara], 2º lugar, ficando em 1º Pindaré em 1º com 1.000. Couro - 5.000 [Alcântara], 2º lugar, estando Caxias em 1º, com 10.000. Farinha - 15.00 alqueires [Alcântara], 3º lugar, Guimarães em 1º com 32.000 e Cururupu em 2º com 30.459. Milho - 1.800 alqueires [Alcântara], 3º lugar, Itapecuru em 1º com 4.000 e Turiassu em 2º com 30.000. Tapioca - 200 paneiros [Alcântara], 4º lugar, estando em 1º Guimarães com uma produção de 3.000, em 2º Cururupu, com 2.900 e em 3º lugar Itapecuru com 300. Carne - 1.000 arrobas [Alcântara], 2º lugar, ficando em 1º Pindaré com 2.000. Peixe seco - 500 arrobas [Alcântara], 4º lugar, estando acima Cururupu com 3.500, Guimarães com 3.000 e Pindaré com 500. Sal - 120.000 alqueires [Alcântara], 1º lugar 159 .

  Logo, uma economia que, além de possuir uma parcela significativa voltado ao mercado interprovincial, conseguia manter uma produção de gêneros de subsistência, que sendo escassa na província, era necessária para a manutenção da população local. Uma das 156 Ibidem. 157 Ibidem. 158 MARQUES. 2008. p. 103. 159 VIVEIROS.1950.p.188. consequências também dessa força na área da produção tanto regional quanto internacional foi a consolidação do comércio de Alcântara. Desde o período colonial e durante boa parte do século XIX, sendo controlado pelas principais famílias da localidade, as casas comerciais, além servirem como ponto de abastecimento para população local com os principais itens de alimentação, como farinha e arroz, faziam a intermediação dos produtos voltados aos diversos mercados.

  A opulência decorrente dessa fase de grande prosperidade comercial e do "apogeu" da época de lucros da produção do algodão logo transpareceu, gerando uma espécie de aristocracia em Alcântara, cuja pujança econômica percebe-se pela própria arquitetura das moradas das ilustres famílias de Alcântara, como descrito por Viveiros:

  Ao entrar na praça da Matriz, pela rua das Mercês, logo no canto - os três sobrados da família Viveiros; na mesma direção que estes - o prédio de azulejo de Inácio Mendes; no angulo da praça, esquina da rua de Baixo - o solar dos Andrades (antepassados do poeta Souzandrade); junto - o palacete de Antonio Pedro Ribeiro; em frente a este - a Casa da Câmara, - vasta, confortável, de elegantes linhas arquitetônicas; logo em seguida, no terceiro angulo da praça - o palácio de Antonio Onofre Ribeiro, que, diz a tradição, tinha fechaduras de prata e em cujas ruínas ainda se nota a suntuosidade do vestíbulo; desse mesmo lado - a casa de Severo; à rua Grande, o sobrado de Joaquim Sousa; à mesma rua, em frente à igreja do Carmo outro palácio, o do senador Antonio Pedro da Costa Ferreira, o qual consta não ter sido concluído; mais adiante, esquina com a rua Direita - o palacete do senador Joaquim Franco de Sá; na referida rua Direita - o sobrado de azulejo do doutor Alexandre José de Viveiros; em frente - a casa do Coronel Manoel João Ribeiro, cognominado Ribeiró; mais acima - a casa de azulejo do Major costa; na rua de Baixo - o sobrado do senador Jerônimo José de Viveiros; e, finalmente, essa rua da Amargura, cujo nome lhe profetizou o destino, hoje ruínas de ponta a ponta, onde outrora se erguiam as principescas residências dos Mendes, dos Sousas, dos Guterres, dos Vales e tantos outros potentados 160 .

  Deste modo, a correspondência entre o poderio econômico e as formas de se fazer política, tanto na cidade quanto na capital da província, consolidaram uma posição de destaque desfrutada pelos agentes políticos de Alcântara, como um dos principais núcleos oligárquicos do Maranhão e da elite política provincial, durante boa parte do século XIX. Ainda no século XVIII, entre as famílias locais mais importantes encontravam-se os Cerveira, Mendes e Azevedo Coutinho. E, no século XIX, ter-se-ia "[...] na estruturação desta

  160 Ibidem. p.182.

  sociedade, requintadamente fidalga [...]: Serrão, Ribeiro, Ponsadilha, Guterres, Franco de Sá,

  161 Costa Ferreira, Viveiros, Sousa, Duarte, Morais, Gomes de Castro, Araujo, etc ".

  Ainda no dicionário de Cesar Marques identificam-se alguns dos "chefes das mais poderosas forças políticas da Província no regime monárquico" como "os barões de São Bento e Grajaú, o cons. Gomes de Castro e Dr. Silva Maia [...] [e os senadores] Patrício Jose de Almeida, Jerônimo Jose de Viveiros, Joaquim Franco de Sá, Jose Francisco de Viveiros e

  162

  Filipe Franco de Sá ". E, para além de suas posições econômica e política destacadas, e como parte da elite política provincial, tais agentes também afirmavam-se como lideranças locais, tanto pelo capital simbólico do nome de suas famílias quanto pelo forte investimento educacional:

  Com os elementos de fortunas, [...] as famílias alcantarenses, no tocante à educação dos filhos, elevaram as suas aspirações, a que não mais satisfaziam [...] [e] quiseram [...] que eles fossem educados na culta Europa, e para lá fizeram-nos seguir. Durante mais de um quarto de século, estabeleceu-se intenso inter-cambio mental entre Alcântara e Coimbra. [...]. Custodio Alves da Pureza Serrão estuda ciências naturais e astronomia em Coimbra e torna-se um sábio. Nesta mesma Universidade forma-se em matemática e filosofia, Jose Constantino Gomes de Castro, José Ascenço da costa Ferreira Ribeiro Lima, Basílio da costa Leite Dourado, José Mariano Franco de Sá; em direito, Antonio Pedro da Costa Ferreira, Inácio Gabriel de Almeida, Vital Raimundo da Costa Pinheiro, Raimundo Felipe Lobato, Jose Mariano Correia de Azevedo Coutinho, Gentil Augusto de Carvalho, Frederico Jose de Novais e Alexandre Jose de Viveiros; em matemática, Feliciano Xavier Fernandes Nogueira, Estevam Rafael Carvalho, José Roberto Ferreira de Sá, Francisco Mariano de Viveiros Sobrinho e Francisco Leandro Mendes; em medicina, José Tomaz Ferreira Amaral. Também em Coimbra cursa o Colégio das Artes Fernando Antonio Ferreira do Amaral. Em França, estudam medicina, Gonçalves Sá e o grande Silva Mota. Quando se funda o curso jurídico no Brasil, Coimbra é substituída por Olinda. Aí diploma-se em direito Joaquim Franco de Sá, que viria a ser depois o incomparável polemista do jornal 'o Americano'. Na escola de Recife, formam-se Carlos Fernando Ribeiro, Augusto Olimpio Gomes de Castro, Jose Francisco de Viveiros, Felipe Franco de Sá, Carlos Viana Ribeiro e tantos outros. Nesta educação, erro grave cometiam as famílias alcantarenses. Preparavam os filhos parra carreiras que eles não seguiam, quando regressavam à terra natal. Formados em filosofia, matemática, direito e medicina, vinham ser fazendeiros em Alcântara. Raras as exceções. Contam-se a dedos os que as constituíram: Joaquim Franco de Sá, que seguiu a magistratura; Silva Maia, que foi, de fato, médico de fama quase lendária; Carlos Fernando Ribeiro, que, depois de formado em direito e medicina, fez o curso de agronomia no Yale College, e montou o Girijó - o mais importante engenho de açúcar da Província; Gomes de Castro e Felipe Franco de Sá, que forma advogados 163 de vasta clientela .

  161 162 VIVEIROS.1950. p.176. 163 MARQUES.2008.p. 103.

  VIVEIROS. 1950. p. 188-190.

  Além do investimento em capital escolar, tais agentes constituíam alianças importantes ao longo dos estudos nas faculdades, que, na maioria dos casos, também aglutinavam grande parte de membros de famílias e indivíduos pertencentes à esfera política nacional. Portanto, a composição desses vínculos familiares, de amizade, parentesco, etc, que extrapolava os limites geográficos (regional e local), reforçava e potencializava, cultural e socialmente, tal grupo político alcantarense, tanto enquanto agentes da elite política e econômica da província do século XIX, quanto importantes membros de ligação com uma rede social altamente seletiva que dirigia-se diretamente à Corte.

  Assim, a formação social e cultural da elite política paroquial da cidade de Alcântara desvelaria, mesmo que de forma sintética, o tipo de carreira política modelar, não voltada somente para redutos locais, mas que se constituiu a partir de uma forte inserção nas disputas políticas da província. Carreiras que, diferenciando-se de alguns grupos dirigentes paroquiais, constituíam-se sobre uma de alto volume de capitais (cultural, econômico e social) que possibilitaram aos agentes o monopólio regional do acesso a outras elites locais da província e às instâncias burocráticas nacionais.

  Desta maneira, agentes que participaram diretamente da topografia política, tanto local quanto regional, durante boa parte do século XIX, tinham relativo trânsito e acesso aos principais cargos legislativos e burocráticos na província como também na Corte. Conforme

  

os quadros 1 e 2, dos 33 deputados gerais eleitos pela província, entre os anos de 1830 à

  1860, 8 deputados eleitos tinham ligações familiares e políticas diretas na cidade de Alcântara. Já em relação aos 13 senadores tratados, entre os anos de 1826 a 1889, 4 (30,76% do total) tinham vínculos sociais, políticos e econômicos na paróquia de Alcântara.

  Desde o início do período regencial até o fim da década de 1850, famílias como Costa Ferreira, Viveiros, Ribeiro e Franco de Sá, naturais de Alcântara, dominaram os principais partidos no Maranhão e o cenário político regional, constituindo, portanto, facções política que possuíam características oligárquicas e familiar, serviram de instrumentos essenciais de articulação e monopólio dos principais redutos políticos espalhados por toda a província.

  Entre os membros das famílias de Alcântara que dominaram as esferas partidárias regional, destacaram-se Antonio Pedro da Costa Ferreira (Barão de Pindaré), Joaquim Mariano Franco de Sá, os irmãos Antonio Onofre Ribeiro e Carlos Fernando Ribeiro (Barão

  164

  de Grajaú) que constituíram uma das alas mais importantes do Partido Liberal no Maranhão, e José Jerônimo Viveiros e seu filhos, tendo como o mais destacado Francisco Mariano de Viveiros (Barão de São Bento), foram líderes de uma das facções hegemônicas do Partido Conservador na província.

  Sendo assim, trata-se de famílias, a exemplo da união entre os Costa Ferreira e os Franco de Sá - Ribeiro, que, além de aglutinarem grandes fortunas, extensas redes de relações pessoais e familiares e capital cultural, tiveram as possibilidades e os recursos, de toda ordem, suficientes para se estabelecerem como protagonistas no cenário político regional.

  Com isso, as relações existentes entre a posição (social e econômica) dominante na cidade e as disposições dos agentes que exerciam o monopólio da política paroquial apontam para os aspectos importantes que auxiliam a pensar o modo de se fazer política nos espaços sociais afastados dos grandes centros políticos, nos quais os laços de interdependência com a política tanto no plano regional quanto nacional eram fundamentais.

  A partir da década de 1840, com o estabelecimento, no plano nacional, dos dois principais partidos políticos do império, saquaremas (conservadores) e os luzias (liberais), a paróquia de Alcântara foi dividida politicamente por esse bipartidarismo, que não só

  165 influenciavam a paróquia, mas toda a configuração política do Maranhão .

  Neste sentido, como a política local se encontrava dividida entre famílias-partidos, tal estrutura partidária, consequentemente, também afetaria a dinâmica das disputas e a organização administrativa paroquial, como nos casos da Câmara Municipal e da Guarda Nacional.

  164

No final do período regencial, inicio da década de 1840, houve no Maranhão grandes rupturas entre nomes

importantes, alinhados no partido liberal, segmentando-se em três linhas: a primeira e dominante liderada pela

família Jansen; a segunda sob a direção de Ângelo Carlos Muniz; e a última, constituída por liberais de Alcântara

e Caxias. Embora com tal cisão, em 1842, ainda formou-se a Liga Liberal sob a liderança de "Joaquim Franco de

Sá, que agregava Jansenistas, João Lisboa, e os antigos cabanos [conservadores] Sotero dos Reis e a família

Belfort [...]", com a hegemonia do comando da liga dos bentivi nas mãos de Franco de Sá e dos Jansens, em que

finalmente o primeiro com o apoio do então Vice-presidente da província, Carlos Fernando Ribeiro, consegue ao

mesmo tempo se eleger ao Senado e enfraquecer definitivamente a força política da família Jansen.

165 BORRALHO.2010. p. 157- 163.

  BORRALHO. 2010. p.143-144.

  Os liberais da comarca de Alcântara eram liderados por três famílias locais importantes, unidas por estratégias matrimoniais, a saber: os Costa Ferreira, os Francos de Sá e os Ribeiros.

  Um dos patriarcas da família Costa Ferreira-Franco de Sá, Antonio Pedro da Costa Ferreira (Barão de Pindaré), filho de Ascenço José Costa Ferreira (lavrador de grande fortuna

  166

  e tenente-coronel pela coroa portuguesa ) foi um dos primeiros senadores da província com origem familiar em Alcântara. Antes também ocupou um cargo no Conselho Presidial da Província, momento esse que seria o ponto de inflexão de sua carreira política, voltando-se

  167

  para o plano regional. Depois disso, foi presidente da província e deputado geral . Os descendentes diretos também herdariam essa posição importante na política regional, como no caso de seu filho, José Ascenso da Costa, bacharel em Direito em Olinda, um grande político de renome nacional, ocupou várias vezes o cargo de presidente de província no Império, além de deputado-geral e de procurador-presidente da Coroa, bem como cargos importantes na

  168 esfera do judiciário regional e nacional .

  Já Joaquim Franco de Sá, depois de seus estudos em Direito em Olinda, a partir da influência política de seu sogro e tio, o Barão de Pindaré, ocupou, em 1834, um cargo na administração provincial, e com a tomada da liderança dentro de uma seção importante do partido liberal regional, assumiu uma vaga na Câmara dos Deputados, bem como as presidências das províncias do Maranhão e Paraíba, e, por último, um cargo vitalício no Senado. De sua descendência, o membro que teve maior destaque na política foi Felipe Franco de Sá, promotor público, ministro da Guerra, ministro dos Estrangeiros, ministro do Império, deputado geral e senador do Império do Brasil de 1882 a 1889.

  Outra família importante da ala liberal é a dos Ribeiro, representada por Antonio Onofre Ribeiro e Carlos Fernando Ribeiro. Embora irmãos, Antonio e Carlos, sendo os mais destacados da família, principalmente pelas suas carreiras políticas, tiveram nesse mesmo espaço de concorrência partidária e política rumos políticos bastante diferenciados.

  Antonio Onofre Ribeiro, dono, juntamente com a sua família, de uma fortuna 166 formidável, e um dos patriarcas, era irmão mais velho do futuro Barão de Grajaú, e rival 167 COUTINHO. 2005. p. 274. 168 Ibidem. p.274 -282.

  BORRALHO. 2010. p.146. político da família Viveiros, por um lado, mas aliado dos Franco de Sá, por outro. Nunca tivera sua carreira estendida para além de Alcântara, ocupando somente cargos locais, sendo que o mais importante deles foi o de chefe de legião da Guarda Nacional local.

  Carlos Fernando Ribeiro conseguiu alcançar cargos políticos mais altos que o irmão

  169

  mais velho. Casado com Ana Rosa Lamagnère Viana Ribeiro , investiu em três cursos superiores (Direito em Olinda, Medicina na Filadélfia e Agronomia no Yale College). Iniciou a sua carreira política na secretaria do governo, em 1846, no mandato de Joaquim Franco de Sá, e, no ano seguinte, foi escolhido vice-presidente. Foi ainda deputado provincial de 1863 a 1865, posto que lhe rendeu enorme reputação política no cenário regional, fato reconhecido

  170 pelo Império quando lhe concedeu o título de Barão de Grajaú .

  Entre os conservadores, os maiores representantes seriam da família Viveiros. Entre esses, como membros destacados, pode-se elencar: o patriarca José Jerônimo de Viveiros (descendente de portugueses), e os seus filhos, Francisco Mariano Viveiros Sobrinho, o Barão de São Bento, e Alexandre José de Viveiros. Ambos investiram em uma formação superior em Coimbra, mas somente o primeiro conseguiu projeção nacional, com a eleição para a Câmara dos Deputados; o segundo teve sua carreira política restrita à província do Maranhão.

  O Barão de São Bento, apesar de sua participação política nacional muito efêmera, devido, por um lado, à falta de apoio de uma base de aliados políticos regionais, e, por outro, à forte rivalidade que sofria tanto na paróquias quanto no plano regional, como a família Ribeiro, sem deixar de mencionar os adversários políticos na capital da província que pertenciam a outros segmentos do próprio partido a que ele pertencia toldaram-lhe todas as possibilidades de ascensão política a nível nacional.

  Já o irmão do Barão, Alexandre de Viveiros, no final da década de 1850, aliou-se à família Ribeiro e a políticos locais ligados a essa família, chegando, no início da segunda metade do século XIX, à Câmara Municipal de Alcântara. Posteriormente, na década seguinte, inseriu-se na Guarda Nacional, e, por fim, conseguiu uma cadeira na Assembleia Legislativa Provincial.

  169

Segundo Coutinho (2005, p. 294-297), era filha de Raimundo Gabriel Viana e Francisca Isabel Lamagnère

170 (ascendência francesa), e irmã de mais seis filhos do casal, onde possuíam terras e fortuna na região de Codó.

  COUTINHO. 2005. p. 292-299.

  Deste modo, os perfis políticos de alguns agentes da cidade de Alcântara demonstraram alguns aspectos das relações políticas, como: 1) uma lógica de reprodução da hierarquização de uma elite em âmbito regional; 2) o monopólio e instrumentalização da burocracia (local e regional) para fins próprios; 3) e um conjunto de laços sociais, pessoalizados, entre notáveis locais e clientes, marcado por tensões e lutas entre facções paroquiais rivais.

2.2. A Guarda Nacional em Alcântara no século XIX

  Assim como ocorreu na maior parte da província do Maranhão neste período, a estruturação da Guarda Nacional na cidade de Alcântara só se tornou efetiva a partir de 1838, no governo provincial de Vicente Figueiredo Camargo, às vésperas da revolta da Balaiada (1838 à 1841). E, como já apontado anteriormente, uma das causas da explosão dessa revolta popular foi a arbitrariedade das disputas políticas e o acirramento das disputas clientelísticas locais. Tal situação grassou em boa parte dos municípios da província, como foi o caso da cidade de Alcântara, como lembra Viveiros:

  É sabido que o Presidente Vicente Tomaz Pires de Figueiredo Camargo fez a Assembleia Legislativa Maranhense votar a famigerada lei dos prefeitos com o fim de aniquilar o partido bentevi. Pois bem, em Alcântara não conseguiu o seu objetivo: os chefes dos dois partidos que ali se degladiavam - o cabano e o bentevi - não aceitaram o cargo de prefeito, que Camargo lhes ofereceu, ao primeiro para liquidar com o segundo e a este para vingá-lo da recusa daquele. E recusando, disseram por que o faziam: um por causa do despotismo com que a lei o armava, o outro para não ter sorte diferente da destinada aos seus correligionários. Desta maneira, Alcântara não ofereceu ambiente propício à fermentação que deu lugar à revolta dos balaios 171 [...] .

  Logo, tanto a violência física e simbólica quanto o domínio discricionário, arbitrário, por parte dos notáveis locais, espalhados pelo interior do império durante quase todo século

  XIX, e ocupando cargos importantes na administração paroquial, constituíram um cenário político no qual, conforme Graham, "a violência - de um lado ou de outro, real ou apenas

  172 171 como ameaça - não ia contra o processo eleitoral, mas constituía parte essencial dele" , que 172 VIVEIROS. 1950. p.206.

  GRAHAM. 1997. p. 166. converter-se-ia, então, em fonte de legitimidade social e política fundamental para aqueles agentes.

  E, no fim da década de 1830, apesar das as disputas acirradas tanto entre as elites locais quanto entre os livres pobres diante das arbitrariedades daquelas, no município de Alcântara o cenário de revoltas foi menos contundente do que no caso das regiões de Itapecuru e Caxias, palcos principais da revolta dos balaios. Muito embora a comarca de Alcântara não tenha passado ilesa, pois vários relatórios oficiais e jornais de época apontam requisições constantes de tropas de 1ª linha e de forças policiais para o controle e destruição de quilombos nas proximidades, na tentativa de prevenir possíveis focos de revoltas em torno da municipalidade de Alcântara.

  Tais crises sociais tiveram repercussões em Alcântara, sobretudo no aspecto da influencia política em âmbito regional e local das principais famílias alcantarense. O impacto se daria principalmente sobre a política e administração local (apesar das disputas e intrigas pontuais existentes entre essas organizações patriarcais), o controle de toda a estrutura burocrática e a supressão de todas as formas de uma pretensa oposição local foram sempre marcas fundamentais da atuação política desse segmento, mas também representa um quadro exemplar de todo um contexto político, que, em maior ou menor grau, grassava por toda a província.

  Esse trânsito político na comunidade e junto ao governo provincial, e a capacidade tanto de mediação quanto de reprodução das lideranças locais, definem, pois, o perfil social, ocupacional e político desses agentes de Alcântara que, além ocuparem os cargos e postos de liderança no legislativo-executivo e judiciário nas paroquiais, também exerceram forte influência nos comandos da Guarda Nacional na cidade.

  Portanto, a posição socioeconômica e política dos agentes pertencentes à oficialidade militar da Guarda Nacional foi fator condicionante para alocação dos praças na corporação e para a configuração do universo político paroquial.

  Conforme a quadro 4, dos 07 oficiais que se conseguiu alguma informação, 5 (71,4% do total) ocuparam os cargos de vereança antes de conseguirem algum cargo ou patente na Guarda Nacional. Do total ainda de oficiais, 3 (42,8% da totalidade) com informações disponíveis exerceram a legislatura provincial, e somente 1 (14,2% do grupo de oficiais) viria a tomar posse de um cargo na Câmara Geral dos deputados do Império. E fazendo-se um paralelo entre os quadros 3 e 4, torna-se evidente, então, o perfil comum de agentes que conseguiram uma posição de mediador político entre a província e as paróquias com a Corte, e nota-se outro perfil entre aqueles que somente estavam vinculados à política local. E para esses ultimo, pois, a vereança significou uma das poucas possibilidades de entrada no espaço político nas municipalidades.

  Mas não só da vereança se constitui a entrada na carreira política daqueles oficiais. No quadro 4, ainda, constata-se a passagem daqueles agentes por outros cargos administrativos. Dos 7 oficiais, 2 (28,5%) ocuparam o juizado de paz, e 1 (14,2% dos oficiais elencados) exerceu o posto de juiz municipal. Já com relação ao serviço de polícia local, 4 (57,14% do total) atuaram como delegados, e 3 (42,8%) como subdelegados. Obviamente, como se pontuou acima, apesar de se falar de cargos e postos administrativos que, em sua maioria, eram somente serviços litúrgicos, significando, portanto, nenhum ganho econômico ou provento direto do governo, não eram quaisquer agentes escolhidos a ocuparem tais cargos. Como de praxe, o exercício e o controle desses funções administrativas eram atribuídos a agentes dotados de uma maior evidência e notabilidade no campo da política provincial.

  No que tange aos aspectos profissionais dos oficiais pertencentes à Guarda Nacional, conforme a quadro 4, identifica-se o maior número desses ligados as grandes lavouras e engenhos. Já como aponta a tabela 2, os oficiais de baixa patente provinham, na maioria das vezes, de um estrato social de pequenos comerciantes, como sitiantes e roceiros, ligados, por um lado, à produção de subsistência que gravitavam em torno das grandes lavouras, por outro, aos laços de interdependência tecidos nas esferas política e econômica e junto aos lideres paroquiais.

  Portanto, a inserção e aumento da participação dos estratos sociais mais populares, que passaram a se autodenominar "militares" (ou seja, pertencentes a guardas nacionais), em relação a outras categorias ocupacionais, significou uma mudança relativa na autoapresentação desses agentes no universo social em que estavam imersos, refletindo, sobretudo, a importância de se deter o título militar, apontando para o peso das relações

  

173

pessoais entre esses e os lideres políticos locais .

  Outros grupos profissionais que também estiveram presentes, conforme a tabela 2, a categoria dos empregados públicos, correspondente à agentes, que em boa parte dos casos, possuíam vínculos sociais (locais e regionais) importantes que lhes serviram de base para manutenção e ascensão de sua posição social e profissional, que, de modo geral, tiveram como uma das formas de entrada no serviço publico, as alianças e laços de amizades

  174 instrumentais ou de parentescos .

  Comparando-se as tabelas 1 e 2, percebe-se uma diversificação de perfis ocupacionais dos agentes que adentraram na carreira miliciana, ou seja, pela as diversas patentes e oficialidades na Guarda Nacional, apresentaram estrutura e volume de capitais sociais sensivelmente diferenciados, mesmo em se tratando de universo tão restrito quanto uma cidade. Ou seja, enquanto na milícia o acesso e a ocupação de tais cargos de baixa patente se davam exclusivamente pelo acionamento de redes clientelistas, a construção de uma carreira política requeria dos agentes, além do acionamento daquelas redes de relações, outros recursos materiais e simbólicos que lhe disponibilizassem meios (recursos econômicos, de tempo e até de patentes militares) para o êxito nesta seara das paróquias.

  Com efeito, diante da caracterização das condições sociais e políticas de emergência dos agentes da Guarda Nacional - quer sejam os oficiais, quer sejam os praças -, no espaço da política paroquial, nota-se as realocações, reconversões e captação de capital social, reflexo importante nas carreiras políticas no mundo paroquial que estiveram imersos nas complexas relações de afetividade e interesses.

  O quadro 3 comparado ao quadro 4, os perfis de alguns comandantes da Guarda Nacional, percebe-se também que as flutuações e reconfigurações nas instâncias administrativas milicianas corresponderam diretamente às mudanças e às reestruturações do cenário político local, como ficará mais claro com a exposição da trajetória de alguns daqueles comandantes.

  173 174 LANDE. 1977. p.xii- xxxviii.

  WOLF. 2003. p.93-117.

  Alguns exemplos do dinamismo e complexidade com que se dava as relações entre a política local e as ressonâncias sobre os agentes que ocuparam posições de liderança na Guarda Nacional. Os casos de Francisco Mariano Ribeiro (irmão de Onofre Ribeiro) e Manoel Gonçalves de Sá, são exemplares, que devido a queda do comandante superior Antonio Onofre Ribeiro da corporação (bem como de sua posição de liderança política local), foram gradualmente afastados das atividades políticas e militar da Guarda Nacional em Alcântara. Alguns outros, como os Cerveiras e do Ascenso Costa Ferreira que, apesar de pertencerem aos estratos econômicos mais importantes da região, só conseguiram alçar uma posição de destaque na milícia a partir do principal membro do grupo conservador e chefe da facção aos quais pertenciam, José Jerônimo de Viveiros, mediante sua ascensão à posição de liderança política em Alcântara.

  Já outros agentes conseguiram, a partir das ambiguidades e amalgamas dos interesses em jogo dos lideres e das facções rivais, transitar de uma parcialidade para outra, mantendo-se na administração local e na Guarda Nacional. É o caso de João José Rodrigues Bitencourt, que, em 1850, com a relativa mudança na conjuntura política local, que tiveram consequências na organização da milícia local, conseguindo manter-se na corporação, bem como ascender dentro dos quadros da oficialidade.

  Assim, os perfis mais detalhados dos dois principais comandantes da Guarda Nacional de 1838 até 1855, Antonio Onofre Ribeiro e José Jerônimo de Viveiros, percebe-se a instrumentalização política da Guarda Nacional, com diferentes gradações. A ativação e a mobilização de um conjunto mais amplo de recursos (econômicos e de relações sociais), como estratégia de afirmação na esfera política e também na instituição militar lhes permitiram não somente ocuparem tais posições de destaque na Guarda Nacional, mas tornarem-se agentes com perfis para ocupar também postos e atribuições de mediadores na burocracia local e regional.

  2.3 Perfis políticos dos comandantes e chefes da Guarda Nacional de 1838 à 1855 em Alcântara.

  2.3.1 Antonio Onofre Ribeiro 175

  Antonio Onofre Ribeiro é filho do lavrador Carlos Pedro Ribeiro (residente de longa data na cidade e alferes das fileiras da milícia de Alcântara no século XVIII) com Ana Rosa Diniz Pereira de Castro:

  [...] neto paterno de Antonio Pedro Ribeiro, [...] por via de sua mãe [...] é neto do piauiense João Paulo Diniz [com] a maranhense Rosa Maria Pereira de Castro. [...] Eram irmãos [...]: [Carlos Fernando Ribeiro], [Manoel Ribeiro], [João Ribeiro], Estela Rosa Ribeiro, Mariana Estela Ribeiro, [Francisco Mariano Ribeiro] e Rosa 176 Mariana Ribeiro .

  177

  Onofre Ribeiro era dono de um palacete em Alcântara , com fazendas de criação de gado em Santa Helena (nas fazendas Sorocaba, com 2.300 cabeças de gado, e Santo Antonio,

  178 179 180

  com 300 cabeças ), fábrica de cal em Miritituba e dono de engenho em Miritituba , sendo partícipe juntamente com algumas das principais famílias de Alcântara (Costa Ferreira, Franco de Sá e Serrão) do partido liberal (ou bentivi, ou luzia, etc), em oposição ao partido conservador ou saquarema, que contava com outras famílias importantes locais. Com a morte do principal chefe do partido liberal da província, o senador Joaquim Franco de Sá, em 1851, Antonio Onofre Ribeiro e Carlos Fernando Ribeiro (seu irmão, e futuro barão de Grajaú)

  181 175 passaram a comandar o partido bentivi no Maranhão durante a década de 1860 .

  

Tem-se notícia que Onofre Ribeiro teve 6 filhos, e um deles, Antonio Carlos de Sá casou-se com D. Rosa,

filha do primeiro casamento de Joaquim Mariano Franco de Sá com Lucrecia Rosa Costa Ferreira. LEAL.

Antonio Henriques. Pantheon Maranhense: Ensaios biographicos dos maranhenses illustres já fallecidos. Tomo

176 II. Imprensa Nacional. Lisboa. 1874. p. 40. 177 COUTINHO. 2005. p. 291. (inserções nossa). 178 VIVEIROS. 1850. p. 182.

  

Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial. Belarmino de Matos (org.). Typografia do Progresso. Ano

179 1859. p. 108. 180 Ibidem. Ano 1860. p.124. 181 Ibidem. Ano 1865. p.83. Ibidem. 209.

  As primeiras notícias a respeito de Onofre Ribeiro datam de 1832, com a sua participação na Câmara Municipal de Alcântara, e de 1834, como presidente da casa, embora com pouca participação nesse momento. E até o final da década de 1840, a assembleia municipal seria um espaço dominado politicamente pelos Ribeiro-Franco de Sá, suprimidas quase que completamente as outras parcialidades políticas locais.

  Cenário que se modificou no final da década de 1840, quando Joaquim Franco de Sá, principal liderança política na província e na região de Alcântara, entra em conflito com os

  182

  Ribeiro , dando espaço para ascensão, pela própria indicação de Franco de Sá ao governo imperial, do chefe do partido de oposição local, Jerônimo Jose de Viveiros, principal rival da família de Onofre Ribeiro na região, que além de tornar-se comandante da Guarda Nacional,

  183

  em 1847, chega a senador em 1850, como fica demonstrado na passagem abaixo :

  Sucedeu-lhe [a Joaquim Franco de Sá] na chefia do partido [liberal], Carlos Fernando Ribeiro (mais tarde barão de Grajaú) a quem o irmão, Antonio Onofre Ribeiro, havia educado para desempenhar este papel na política da Província. Tal sucessão, porém, desgostou a Joaquim Mariano Franco de Sá, na ocasião, o mais graduado representante da família Sá e que era deputado à Assembleia Geral. Desse ressentimento tiraram proveito os Viveiros, que foram atraindo o chefe desgostoso à 184 sua grei, e, desta maneira, preparam uma cisão no partido adversário .

  Mas antes dessa fissura política importante em Alcântara, Antonio Onofre Ribeiro

  185

  viria a ocupar o comando da legião da Guarda Nacional , em 1841, nomeando seus principais aliados para os postos da oficialidade da milícia local.

  Embora em outros espaços institucionais a hegemonia dos Ribeiro e Franco de Sá fosse visível e pouco contestada, na milícia, as rivalidades se mostraram bastante aparentes, principalmente com os Viveiros. Como no episódio em que o ten. cel. Viveiros constituiu uma representação contra o comando de Franco de Sá, devido esse batalhão estar prejudicando-lhe na "conservação do serviço", principalmente quanto ao alistamento de

  a

  182 praças para o 1 comando, o qual contava anteriormente com uma força de 200 milicianos que 183

  VIVEIROS. Jerônimo. Uma luta política no segundo reinado. IHGM. São Luis. 1952. p.14 184 Ibidem. p. 20. 185 a a Ibidem. p. 14.

A criação da legião e do 2 batalhão, e por conseguinte, a anexação do 1 batalhão à Legião, foi em

decorrência da dissolução dos Corpos Provisórios, criado em diversas cidades da província, inclusive em

  

Alcântara, para combater na revolta da Balaiada. Documentos da Guarda Nacional. Seção de Chefe de Legião.

Oficio de 26 de maio de 1841.

  186

  "reforçavam as fileiras da legalidade contra anarchia ", e que agora "estavam sendo recrutados de forma ilegal", ou seja, alocação de praças de forma não negociada entre os

  a

  chefes do 1ª ao 2 batalhão, o que para o chefe do 1ª batalhão, Jerônimo de Viveiros, era necessária à demarcação dos distritos para alistamentos de milicianos para os dois batalhões da legião de Alcântara. E indo mais longe, Viveiros enviou outra representação contra o cel. Onofre Ribeiro e o ten. cel. Franco de Sá, por estarem exercendo os cargos de oficiais de forma "ilegal", por não terem suas certidões de juramento para os referidos serviços de

  187 comando .

  Ainda empossado no cargo de comandante superior, em 1847, o cel. Onofre Ribeiro

  a

  requereria ao governo provincial que se nomeasse outro oficial comandante do 2 batalhão, justificada por ter estado o oficial anterior, o ten. cel. Joaquim Mariano Franco de Sá, "[..] na corte do império por três anos", e "sem que me apprezentasse licença d'essa Presidência, me

  a

  parece que o mesmo tenente coronel tem perdido o posto, por se achar comprehendido na 1

  a o 188

  parte do artigo 8 da Lei Provincial n 61 de 1838" , nomeando, portanto, para tenente

  189

  coronel e comandante do batalhão, o seu irmão Francisco Mariano Ribeiro . Caso parecido com o que ocorreu no ano de 1848, quando já havia estourado outro embate no comando de Onofre Ribeiro com João José Rodrigues Bitencourt, quando o primeiro tentou transferir o

  a

  segundo do cargo de capitão do 1 batalhão para o de promotor de legião, em que o próprio Bitencourt, referendado pelo governo provincial, afirma ser ilegítima, por se tratar o cargo de

  

190

promotor menos "importante" que o de capitão .

  Em 1849, com a perda de prestígio político do cel. Onofre Ribeiro junto às elites locais e ao governo provincial, uma outra representação contra ele foi feita pelo coronel chefe de legião, Jerônimo de Viveiros, acabou custando-lhe, em abril do mesmo ano, a deposição do

  186 MARANHÃO. 1838 187 – 1848. Ofícios de 26 de maio e de 14 de junho de 1841.

  • MARANHấO. Secretaria do Governo. GUARDA NACIONAL. SEđấO DE CHEFE DE LEGIấO. 1838

    1848. Setor de Documentos Avulsos Manuscritos. Arquivo Público do Estado do Maranhão. Ofícios de 08 de

    188 junho de 1841.

  

MARANHấO. Secretaria do Governo. GUARDA NACIONAL. SEđấO DO COMANDO SUPERIOR.

1847

  • – 1855. Setor de Documentos Avulsos Manuscritos. Arquivo Público do Estado do Maranhão. Oficio de 24 189 de dezembro de 1847. 190 Ibidem. Ofício de 15 de novembro de 1848. Ibidem. Ofícios de 11 de novembro de 1848 e de 01 de janeiro de 1849.

  191

  cargo de comandante superior , que viria a ser ocupado pelo cel. Jerônimo de Viveiros,

  192 comandante da legião da cidade de Alcântara .

  Ainda naquele ano de 1849, por ordem do cel. Viveiros, seria reposto ao comando do

  a

  2 batalhão o ten. cel. Joaquim Mariano Franco de Sá, comandado anteriormente desde 1848 pelo ten. cel. Francisco Mariano Ribeiro (irmão de Onofre Ribeiro). Segundo o próprio Franco de Sá, o posto era "vitalício", e que não poderia ter sido, pelo vice-presidente Carlos Fernando Ribeiro "a seu arbítrio e sem proceder a formalidade alguma", demitido da

  193 milícia .

  E, somente depois da morte do cel. Jerônimo de Viveiros em 1857, e do seu filho, o barão de São Bento, Francisco Mariano de Viveiros Sobrinho (um dos principais rivais

  

194 195

  políticos de Carlos Ribeiro , irmão de Onofre Ribeiro), em 1860 , foi que Onofre Ribeiro reapareceu nas documentações oficiais ocupando os cargos de delegado de polícia, em 1864, posteriormente o de juiz de paz em 1866, concomitantemente ao de suplente de juiz municipal.

2.3.2 Jerônimo José de Viveiros

  Nasceu em 30 de setembro de 1796, filho de Alexandre José de Viveiros (abastado negociante, proprietário e agricultor português) com a maranhense Francisca Xavier de Jesus Sousa. Viveiros casou-se com a sua primeira esposa Ana Rosa Mendes (pertencente à abastada família Mendes de Alcântara), posteriormente iria se casar com a viúva do senador Joaquim Franco de Sá, Belmira Cândida Ferreira (filha de Rodrigo Jose Ferreira), o qual:

  Muito moço ainda, casou-se numa família abastada e numerosa, radicada em Alcântara desde o ultimo quartel do século XVII, - os Mendes, talvez de origem espanhola. Com este casamento tornou-se cunhado de João, Inácio e Alexandre Mendes e concunhado dos coronéis Manuel João ribeiro e Joaquim Sousa, grandes

  191 192 Ibidem. Oficio de 20 de maio de 1849. 193 Ibidem. Oficio de 25 de maio de 1849.

  MARANHÃO. 1847 194 – 1855. Oficio de 30 de maio de 1849.

Tendo Carlos Fernando Ribeiro durante o inicio da década de 60, em uma coalizão formada contra os

Viveiros, uniu forças tanto com o irmão do Barão de São Bento, Alexandre José de Viveiros, como também com

195 outro tradicional opositor dos Viveiros, o médico Silva Maia. In. REIS. 2007. p. 60.

  COUTINHO. 2005. p. 318. fazendeiros em Santo Antonio e Almas [freguesia de Alcântara], Viana, São Bento e 196 Maracaçumé .

  Gerou, no primeiro consórcio, dois herdeiros, Francisco Mariano de Viveiros Sobrinho (futuro barão de São Bento) e Alexandre José de Viveiros. O primeiro, após o curso de Direito em Coimbra, regressou:

  [...] à Pátria, começou tomar parte nas lutas políticas, aparecendo o seu nome, pela primeira vez, na lista dos representantes da Província, na legislatura de 1848. E, entretanto, era ele quem elegia a muitos dos que sempre nela figuraram, sendo o primeiro a se apresentar na hora do perigo, e o ultimo a gosar do triunfo. Dai, a imensa popularidade que gosou o seu nome. Não podia o Governo Imperial deixar sem recompensa tão extremo defensor da monarquia e da ordem. Assim, a 13 de julho de 1853, foi, por S.M. o Imperador, agraciado com título de Barão de São Bento, e com o foro de fidalgo cavalheiro da Casa Imperial, a 4 de maio de 1855, tendo permissão do augusto soberano para usar d'armas próprias, em 30 de junho de 197 1857 .

  Já de Alexandre de Viveiros, também após o retorno da Universidade de Coimbra, escreveu-se :

  Regressando ao Maranhão, foi residir em Alcântara, e, ali, pela doçura do seu trato, honestidade de caráter, lealdade, franqueza e filantropia, soube se fazer respeitar e estimar, até dos seus próprios adversários, numa época em que tão extremados se achavam os ódios e paixões políticas. Na localidade, onde foi um dos chefes do partido "Constitucional", ocupou posições elevadas, nas quais sua modéstia e moderação inda mais o realçaram. Na legislatura de 1861-1863, o seu partido elegeu-o deputado à Assembleia Província, de que foi presidente por eleição de seus 198 pares .

  Jerônimo de Viveiros faleceu no Rio de Janeiro, capital da corte Imperial, no dia 13

  199

  de dezembro de 1857 . Viveiros fora descrito, em uma homenagem póstuma feita por seu amigo Joaquim Mariano de Souza, como um homem:

  [...] dotado de eminentes qualidades moraes, dedicado amigo, disvelado pai de familia, exemplar filho da santa religião, compadecido da pobreza, e d'ella constante protector, excellente cidadão, e amigo estremoso da monarchia constitucional representativa. Era a muitos annos o chefe proeminente do partido conservador na

  196 197 VIVEIROS. 1950. p. 228. 198 VIVEIROS. 1950. p. 238. 199 Ibid. p. 236.

  COUTINHO. 1986. p. 38-39. comarca de Alcantara, onde geralmente gosava de completa popularidade, e 200

estimado de grandissimo numero de amigos verdadeiros .

  Com relação à vida pública daquele personagem, a necrologia acima citada apontou algumas outras características da atuação política tanto na província quanto no plano nacional:

  [...] foi nomeado sucessivamente alferes, tenente, e capitão do regimento das extinctas milicias, em 1838, despachado pelo governo provincial, tenente coronel, o chefe do 1 batalhão da guarda nacional da cidade d'Alcantara, em 1842 agraciado pelo ministerio da maioridade com o habito da ordem de Christo, e nesse mesmo anno despachado commendador da mesma ordem, 1847 nomeado pelo presidente Joaquim Franco de Sá, coronel chefe de legião do municipio d'Alcantara, em 16 de junho de 1853, foi escolhido por sua Majestade o Imperador, senador do Império, em 1854, foi reformado no posto de coronel, e nesse mesmo anno despachado fidalgo cavalheiro da casa Imperial. Foi membro da Assembleia Legislativa 201 Provincial em varias legislaturas.

  Viveiros foi ainda nomeado a outros cargos ao longo de sua carreira política como os de vereador, delegado de polícia e juiz municipal. Concorreu a uma vaga ao Senado, decorrente da vacância deixada pela morte do até então senador Joaquim Franco de Sá, em 1850, com outras destacadas figuras na política regional, como o desembargador José Mariani e o doutor João Caetano Lisboa, que apresentaram mais votos que Viveiros, muito embora

  202 este tivesse sido escolhido e nomeado pelo Imperador para ocupar a vaga em julho de 1852 .

  E, já como senador, em 1856, e com ascensão e força política no plano regional, conseguiu barrar a eleição para deputado geral de seu principal rival, Carlos Fernando Ribeiro, conforme narrou Coutinho:

  Os Viveiros, que contavam com a presença no Maranhão do velho senador Jerônimo José de Viveiros, pai do barão de São Bento, político sem láureas acadêmicas, mas esperto coronel a quem sobrava habilidade política, bateram Carlos Ribeiro completamente. Foi então que se elegeu João Pedro Dias Vieira, filiado à ala liberal, mas sem ligações com Carlos Ribeiro. Para vencer o inimigo no seu próprio território (Guimarães-Viana), os Viveiros despejaram seus votos em Dias Vieira, 203 fazendo o barão de Grajaú [Carlos Ribeiro] amargar dura derrota .

  200

Diário do Maranhão, 25 de janeiro de 1858. (Disponível no site: http://memoria.bn.br/hdb/uf.aspx, acesso 24

201 de agosto de 2012.)

Diário do Maranhão, 25 de janeiro de 1858. (Disponível no site: http://memoria.bn.br/hdb/uf.aspx, acesso 24

202 de agosto de 2012.). 203 COUTINHO. 1986. p. 39.

  COUTINHO. 2005. p. 291

  E ainda quanto à sua consagração com a vaga no Senado, José Jerônimo de Viveiros, "[...] não esqueceu aos seus correligionários de Alcântara. Veio visitá-los, 1856, e enche-os,

  204 como diziam os jornais do partido "Luzia", de condecorações e empregos" .

  Quanto aos cargos provinciais, Viveiros foi ainda, "quando instituída a lei dos prefeitos", indicado para ocupar tal cargo na prefeitura de Alcântara, "comissão que não

  205

  aceitou por motivos muito honrosos" , como afirma o jornal de Estevão Rafael Carvalho:

  [...] não aceitou a prefeitura de Alcantara, não só por não servir para refugo, como por que não podia aceitar huma nomeação assignada por aquellas sacrilegas mãos [presidente Camargo] que romperão a toalha que a sua Mana tinha dado para usos 206 do altar de S. Jozé .

  207

  Segundo o autor da obra "Alcântara no seu passado econômico, social e político" , a recusa por parte de José Jerônimo de Viveiros do cargo de prefeito teve como pano de fundo as disputas políticos-familiares locais, exercendo também efeitos nas lutas partidárias, em que " o cabano e o bentivi - não aceitaram o cargo de prefeito, que Camargo [presidente de província] lhes ofereceu, ao primeiro para liquidar com o segundo e a este para vingá-lo da

  208 recusa daquele" .

  Mas entre os vários cargos paroquiais e provinciais ocupados por Viveiros, o que lhe garantiu as possibilidades de se tornar uma liderança na municipalidade foi o cargo de comandante superior da Guarda Nacional, em 1849. Carreira militar essa que se iniciou ainda

  a

  no ano de 1838, quando foi nomeado para ocupar o comando do 1 batalhão (criado neste

  209

  mesmo ano) em Alcântara, com seis companhias . Em 1841, essa seção da milícia foi

  a

  anexada ao comando do corpo da legião, juntamente com o também recém-criado 2 batalhão, que se formou na cidade sob o comando do coronel Antonio Onofre Ribeiro.

  Com a institucionalização da Guarda Nacional em Alcântara, mediante a lei provincial de 1838, assim como em boa parte da província, os conflitos entre Viveiros e o 204 líder da legião, Onofre Ribeiro, ou seja, entre as principais facções políticas locais, acirraram- 205 VIVEIROS. 1850. p.230. 206 COUTINHO. 1986. p.39 207 Jornal Bentevi, 19 de setembro de 1838. 208 VIVEIROS. 1850. 209 Ibid. p.206.

  MARANHÃO. 1838 – 1848. Oficio de 22 de dezembro de 1838 e anexos. se ainda mais o caso exemplificativo desse contexto litigante que ocorreu em 1841, em que o capitão e chefe interino da legião, Pedro José da Silva Guimarães, interpôs uma representação

  210

  contra Onofre, e em favor de Viveiros , ou ainda nos casos do capitão Bitencourt e o da readmissão no cargo de tenente coronel de Joaquim Mariano Franco de Sá, os dois ocorridos em 1849, em que lograram êxito graças ao enfraquecimento político do grupo da família Ribeiro como chefes partidários locais estabelecidos, e ascensão gradual de Viveiros como liderança paroquial.

  A situação de conflito político-partidária local veio a se confirmar em 1849, quando Jerônimo de Viveiros foi nomeado comandante superior da guarda em Alcântara, em decorrência da demissão do coronel Onofre Ribeiro, que tivera como pano de fundo a retomada pelo partido conservador do comando da política imperial (partido do qual Viveiros era líder regional), e principalmente com a indicação de Viveiros ao comando superior feita por Joaquim Franco de Sá ao governo imperial:

  O meu governo, disse ele [Joaquim Franco de Sá] depois que deixou a administração da Provincia em 1847, “nunca perseguiu os saquaremas de Alcântara, e a prova é que propuz ao Ministério a promoção do seu chefe ao posto de Coronel da Guarda 211 . Nacional”

  Com o comando da Guarda Nacional de Alcântara, Viveiros reorganizou os oficiais dos batalhões do seu comando, o que acarretou nas demissões do ten. cel. Manoel Gonçalves de Sá (um dos principais aliados de Onofre nessa instituição militar) e do major José Bento

  212

  Caldas em 1852 . Anteriormente, em 1849, houve as demissões de Isidoro Francisco Meireles e Thomas Ferreira Guterres, sendo substituídos respectivamente por João Batista

  213 Falcão e Inácio Antonio Mendes nos postos de secretário e ajudante no comando superior .

  E, por último, cabe frisar a exoneração do capitão Francisco Diogo Ribeiro, e o

  a

  reposicionamento do ten. cel. Francisco Mariano Ribeiro no 2 batalhão, que foram modificações em toda jurisdição da comarca de Alcântara, que segundo Viveiros:

  [...] tem concorrido muito para o socego desta Comarca, que não me consta athe o presente que em parte alguma tenha sido alterada, e que avia sido tão ameaçada pela 210 oppozição que agora conhecemos que não passavão de hum pequenos grupos que 211 Ver perfil de Antonio Onofre Ribeiro. 212 VIVEIROS, 1952. p. 20.

  MARANHÃO. 1847 213 – 1855. Oficio de 27 de junho de 1852. Ibidem. Oficio de 05 de setembro de 1849. julgavão encontrarem as Auctoridades dezapercebidas para coagirem a maioria dos 214 cidadões na ocazião da votação .

  Portanto, Viveiros foi um dos raros agentes aqui analisados que por um espaço de possibilidades políticas conseguiu tamanho êxito e se destacar na política regional, ocupando o cargo de senador, a partir da sua posição de liderança política local, consolidada pelo reconhecimento de seus pares, quer sejam aliados ou adversários, e pela sobrevalorização de sua posição de chefe da Guarda Nacional como recurso simbólico importante na estruturação de uma base política na região de Alcântara.

  214 MARANHÃO. 1847 – 1855. Oficio de 7 de setembro de 1849.

  TABELA 1: Perfil ocupacional de vereadores de Alcântara entre 1838 à 1855.

  PERFIL OCUPACIONAL NÚMERO DE AGENTES TOTAL DE AGENTES

  46 ADVOGADOS

  2 EMPREGADOS PÚBLICOS

  7 MÉDICOS

  1 LAVRADORES

  11 MILITARES (guarda nacional)

  2 NEGOCIANTES

  2 SENHORES DE ENGENHO

  6 SEM INFORMAđỏES

  20 FONTE: MARANHÃO. Secretaria do Governo. SEđấO DAS CÂMARAS MUNICIPAIS . 18

  22 – 1855.

  

TABELA 2: Ocupação dos oficiais de baixa patente da Guarda Nacional de Alcântara entre

1838 à 1855.

  PERFIL NÚMERO DE AGENTES OCUPACIONAL TOTAL DE AGENTES

  68 EMPREGADOS PÚBLICOS

  5 LAVRADORES, PROPRIETÁRIOS RURAIS

  29 E CRIADORES SENHORES DE ENGENHO

  3 NEGOCIANTES

  11 SEM INFORMAđỏES

  25 FONTES: MARANHấO. Secretaria do Governo. GUARDA NACIONAL. SEđấO DE CHEFE DE LEGIấO.

  1838 Ố 1848. Setor de Documentos Avulsos Manuscritos. Arquivo Público do Estado do Maranhão; SEđấO DO

COMANDO SUPERIOR. 1847

  • – 1855. Setor de Documentos Avulsos Manuscritos. Arquivo Público do Estado do Maranhão.

  QUADRO 3: Chefes de legião e Comandantes Superiores da Guarda Nacional de Alcântara (1838-1852).

  1. Deputado Provincial (1838; 1840);

  4. Reformado na Guarda Nacional no posto de Coronel (1853)

  3. Titulo de Comendador (1850)

  2. Alferes, Capitão, Tenente do Regimento de Milícias.

  1. Formador do part. conservador

  3.Delegado de policia (1840- 1843)

  2.Suplente de Juiz Municipal

  1. Juiz de Direito

  3. Senador (1852)

  2. Vereador (1838)

  Batalhão de infantaria (1838- 49) Chefe de Legião (1847; 1849- 1850). Comandante Superior(1850- 52) Reformado do posto de Cel. (1854) S/I

  NOME OCUPAđấO ESTADO CIVIL PATENTES NA G. N. FUNđỏES NA G.N FUNđỏES NO PODER EXECUTIVO/ POLICIAL FUNđỏES NO PODER LEGISLATIVO/ EXECUTIVO FUNđỏES NO PODER JUDICIÁRIO E POLICIAL OBSERVAđỏES Antonio Onofre Ribeiro

  Coronel (1838) Coronel (1849)

  Viveiros Senhor de engenho Casado Tenente

  1. Lideres do partido liberal em Alcântara (1850) Jerônimo Jose de

  3.Suplente de Juiz Municipal (1865- 66)

  2. Juiz de paz (1866-1868)

  1. Delegado de Policia (1864- 1866)

  2. Eleitor de paróquia (1865)

  1. Vereador (1832; 1835- 1839; 1848).

  (1838) Chefe de Legião (1841-1849) Comandante superior (1849) 1. 6 a suplente de Vice- Presidente da Província (1865-1866)

  Senhor de engenho e criador de Gado Casado Coronel

  FONTES: Os dados referidos encontram-se principalmente nos documentos da Guarda Nacional (1838-1848; 1847-1855), mas complementadas por informações esparsas como nos documentos da Câmara Municipal, de juiz de paz e em jornais compreendidos no lapso temporal da pesquisa.

  QUADRO 4: Oficiais da Guarda Nacional de Alcântara.

  NOME OCUPAđấO PATENTES NA FUNđỏES NA FUNđỏES NO FUNđỏES FUNđỏES NO OBSERVAđỏES

G. N. G.N PODER LEGISLATIVA/ PODER EXECUTIVO/ EXECUTIVA JUDICIÁRIO E POLICIAL POLICIAL

  Manoel Gonçalves Lavrador Major (1841) Membro do S/I

  1. Vereador

  1. Delegado de de Sá (fazendeiro de Tenente. Coronel. Estado Maior da (1839; 1846- 49) Policia Algodão, arroz em (1848) Legião (1841)

  (1846;1848) S. João) e Senhor Chefe de Legião

  2. Juiz de Paz de Engenho (Mititi Interino(1844; (1843-1844)

  • 1859) 1847; 1848) a

  3. 5 Suplente de

Criação de gado Comandante do 1 Juiz Municipal

em Frexal (1862) batalhão (1849) (1862) a Francisco Mariano Lavrador Major (1841) Comandante do 2 S/I

  1. Vereador (1834;

  1. Juiz de Paz Ribeiro Tenente. Coronel batalhão (1848- 1837; 1841) (1837; 1846-1850) (1848) 49)

  2. Deputado

  2. Juiz Municipal Provincial (1842). (1847)

  1. Delegado de Policia (1849). 4. 3 Suplente de a Delegado (1855) Gastão Ascenso da Criador na fazenda Major (1849) Comandante do 2 S/I S/I S/I

  Costa Ferreira Tubarão (1866) batalhão (1854) Tenente Coronel a (1854) Comandante do 5 batalhão (1855- 1866)

  João José Fazenda de Capitão (1848)

  1. Comandante da S/I a a

  1. Vereador (1834-

  1. Suplente de Rodrigues Algodão, arroz na Tenente Coronel

1 Cia do 1 1836) delegado

  Bitencourt fazenda Buenos- (1854) batalhão

  2. Deputado (1862-64) Ayres (1862) (1848) Provincial (1859)

  2. Subdelegado

  2. Comandante do (1865-66) a 3 batalhão (1853- 54)

  3. Comandante do a 6 batalhão (1862- 66) a Joaquim Mariano Senhor de Tenente Coronel Promotor do 1 S/I

  1. Vereador (1838-

  1. Delegado Franco de Sá Engenho batalhão (1835) 41) (1856) (1841) a Criador de gado Comandante do 2

  2. Deputado Geral a batalhão (1841) 8 legislatura a (1849-1850) Severo Antonio de Senhor de Tenente Coronel Comandante do 1 S/I

  1. Deputado S/I Araujo Cerveira Engenho e Criador (1854) batalhão (1853- provincial (1862- (filho) (fazenda Roma - Coronel 1854) 63) 1862) (1860)

  Comandante superior interino (1856; 1860) Comandante superior (1864-66) Comandante do 4 batalhão (1860) a Jose Jerônimo de Lavrador Capitão (1844)

1. Capitão do 2

  1. Vereador (1834-

  1. Delegado de Araujo Cerveira Coronel (1855) batalhão 1835) policia (1849) (1844)

  2. Subdelegado

  2. Comandante (1860-62) superior (1855)

FONTES: Os dados referidos encontram-se principalmente nos documentos da Guarda Nacional (1838-1848; 1847-1855), mas complementadas por informações esparsas

como nos documentos da Câmara Municipal, de juiz de paz e em jornais compreendidos no lapso temporal da pesquisa.

  

CAPITULO III: ITAPECURU - Retrato da política paroquial no interior do Maranhão

do século XIX.

3.1 Aspectos sociais, políticos e econômicos da cidade de Itapecuru no século XIX

  Segundo o dicionário de Cesar Marques, a vila de Itapecuru-mirim foi fundada às

  215

  margens do rio Itapecuru , em 1818, onde:

  [...] existia uma povoação, composta de 138 fogos e 767 almas na praça da Cruz, onde se achava o dr. desembargador, ouvidor, e corregedor da Comarca de São Luis do Maranhão, Francisco de Paula Pereira Duarte,e presente o dito alcaide-mor, por seu procurador Antonio Gonçalves Machado, e o clero. nobreza e povo, que forma convocados, leu-se em voz alta e inteligível a Provisão de 27.nov.1817, expedida em consequência do Dec. de 14.jun. e 24.nov. do mesmo ano, determinado a criação 216 dessa vila .

  Depois daquele evento, através da lei provincial de 1835, a vila tornou-se sede da

  217 comarca de mesmo nome, composto pelos termos de Rosário, Iguará e Icatu .

  Quanto aos dados populacionais da vila de Itapecuru durante o século XIX, a informação mais precisa encontrada advém da análise do mapa de 1861(Anexo IV). O Maranhão contava com aproximadamente 312 mil habitantes, e a comarca de Itapecuru já apresentava uma população de mais de 21.000 habitantes, compondo um quadro demográfico de uma das regiões mais populosas da província.

  No período colonial, a região composta por Itapecuru e outras vilas localizadas às margens de um dos maiores rios da província, o rio Itapecuru, constituiu uma das principais zonas de produção agrícola da província em boa parte dos séculos XVIII e XIX. Isso fica comprovado com o depoimento do governador do Maranhão, Joaquim de Melo e Póvoas, em 1767, em que descreve as potencialidades econômicas dessa ribeira, que se encontrava "cheia de lavradores por serem as terras próprias para o algodão, que é o melhor ramo de comércio

  215

Durante boa parte do período colonial, o rio Itapecuru fora umas das principais vias de acesso para o interior

da província e por conseguinte, foi em suas margens onde foram assentadas algumas cidades importantes como a 216 de Caxias, vilas como Codó, etc. desta capitania. É uma ribeira agradável e no seu principio tem uns perises com muitas

  218 fazendas de gado" .

  E, até meados de 1820, a região de Itapecuru respondia por boa parte da produção total de algodão (principal produto da região) exportada pela província. Segundo Mesquita, em média, a produção da comarca de Itapecuru correspondia, entre os anos de 1853 a 1858, a

  219

  30% das exportações de algodão do Maranhão , e, no mesmo período, o Maranhão

  220 contribuiu com cerca de 30% da exportação nacional do gênero .

  Assim como os artigos voltados para exportação tiveram fundamental importância para configuração econômica e produtiva da região, outros como a pecuária, farinha e arroz eram voltados para o mercado interno. Esses tiveram também uma relevância econômica significativa na região, sobretudo ao longo do século XIX.

  Notadamente o algodão na segunda metade do século XIX, com o comércio inter e intraprovincial e devido ao definhamento do mercado internacional de tráfico de escravos e às constantes oscilações e crises no mercado internacional relativo aos principais produtos

  221

  produzidos na região . Com efeito, a produção interna, que se encontrava espraiada tanto nas mãos de pequenos lavradores quanto nas dos grandes lavradores, constituiu-se como carro

  222 da economia local de boa parte da ribeira do Itapecuru .

  Neste sentido, foi que a comarca de Itapecuru, um dos motores da economia provincial voltadas para o mercado externo, passou, ao longo do século XIX, a ser coadjuvante no cenário regional. Situação essa de precarização econômica local se agravaria com a migração do centro da produção regional, que se deslocou via o movimento de expansão agrícola da produção canavieira, juntamente com todo o aparato dos engenhos, para a parte ocidental litoral da província.

  Embora o contexto econômico na região em que estava inserida a vila de Itapecuru estivesse marcado pela desarticulação da produção exportadora, foi nessa parte da província que emergiram alguns dos grupos familiares da elite política regional no século XIX. Cesar 218 219 Ibid. p.669. 220 MESQUITA. 1987. p.86-89. 221 REIS. 2007. p.31. 222 FARIA. 1998. p. 55.

  

MOTA. Antonia Mota. A dinâmica colonial portuguesa e as redes de poder local na capitania do Marques arrola membros destacados e "filhos ilustres da região" de Itapecuru, pertencentes às principais famílias e às elites paroquiais que se destacaram com suas atuações políticas, nos planos regional ou nacional:

  Em diversas fazendas nas margens deste rio têm nascido cidadãos muito notáveis por sua posição social, talento e importantes serviços prestados ao país. Entre eles avultam os seguintes: Dr. Joaquim Vieira da Silva e Sousa, que nasceu 12 de janeiro de 1800 na fazenda Conceição, pertencente ao seu avo materno o mestre-de-campo José Antonio Gomes de Sousa, [...] [sendo] presidente do Rio Grande do norte e Maranhão, ministro do Supremo Tribunal de Justiça, deputado e depois senador pelo Maranhão (1859), comendador da Ordem de Cristo, e fidalgo da cavaleiro da casa Imperial [...]. Senador Antonio Marcelino Nunes [Belfort] Gonçalves, nasceu aos 6 de agosto de 1823 no sitio denominado Santana [...]. Foi presidente do Rio Grande do Norte, do Ceará e de Pernambuco [ e participou do conselho de Estado do Império em 1889]. Finalmente, o ten.cel. José Felix Pereira de Burgos, em virtude de seus serviços prestados à causa da Independência do Império, foi nomeado barão de Itapecuru.[...] foi presidente e comandante de Armas do Pará, e até ministro da 223 Guerra .

  Assim como foi uma importante zona agrícola, voltada tanto para o mercado internacional quanto produtora para o abastecimento do mercado interno da província, a região de Itapecuru, devido às circunstâncias econômicas descritas acima, também seria um dos principais centros de várias fortunas no Maranhão dos séculos XVIII e XIX. Por conseguinte, de agentes políticos pertencentes à elite provincial e que participaram diretamente das disputas com as outras elites paroquiais existente no interior do Maranhão.

  Entre os agentes que ganharam renome social e prestígio político em Itapecuru e na província, tiveram: Joaquim Vieira da Silva e Sousa, Antonio Marcelino Nunes Gonçalves, Antonio Raimundo Vieira Teixeira Belfort, Jose Joaquim Ferreira Vale, José Felix Pereira de Burgos, Joaquim Raimundo Nunes Belfort, Fabio Alexandrino de Carvalho Reis e alguns outros que comporiam um grupo de agentes de força política que emergiria da região de Itapecuru e ocuparia cargos importantes na esfera legislativa e executiva provincial, e em

  224 alguns casos até no plano nacional .

  O acesso desses agentes acima citados às posições de dominância política decorre das estratégias econômicas e de investimentos em formação cultural e educacional. As estratégias educativas segue o padrão hegemônico no Brasil do século XIX. Conforme os

  223

  

225

  (quadros 1 e 2) e outros dados biográficos , entre os citados, somente dois não tiveram acesso ao ensino superior. E dentre os que conseguiram obter diploma universitário, todos investiram no curso de direito e o reconverteram em trunfo importante para os primeiros passos rumo à entrada na disputa política regional. Os títulos foram conquistados em Coimbra ou nas faculdades brasileiras.

  Quanto aos agentes que tiveram suas carreiras voltadas ao plano nacional, elas se estruturam gradativamente, seja via esse importante e raro capital cultural (o capital escolar, forma objetivada do capital cultural), como também através de um patrimônio familiar, ou seja, a acumulação coletiva de meios materiais e simbólicos imprescindíveis para os primeiros passos de agentes como Antônio Marcelino Nunes Gonçalves e Joaquim Vieira da Silva e Sousa, que buscavam a constituição e consolidação de carreiras políticas com possibilidades de ascensão da política das disputas provinciais para as principais esferas administrativas e

  226 políticas no plano nacional .

  Antônio Marcelino Nunes Gonçalves, futuro Visconde de São Luis, era filho de Joaquim José Gonçalves e Isabel Marcelina Nunes Belfort Gonçalves, casado primeiramente com Lucrécia Augusta Belfort Serra e depois com Evarinta Belfort Serra de Burgos. Formou- se em Direito na Faculdade de Olinda. Com a posse desse título, regressou para o Maranhão, onde exerceu a advocacia e ocupou vários cargos na esfera judiciária local e regional e no ensino público em Codó, Coroatá, Itapecuru e São Luis. No mandato do presidente de província Joaquim Teixeira Vieira Belfort (parente por parte de mãe do futuro Visconde) foi nomeado chefe de polícia da província. Com o apoio do grupo familiar materno, ou seja, os Belfort, e dos aliados do Partido Conservador, Gonçalves lançou-se na disputa de cargos eletivos no plano regional, elegendo-se deputado provincial. Posteriormente, em 1862, também logrou êxito nas eleições para deputado geral. A partir daí, ocupou presidências das província do Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Alagoas, e, depois de uma longa disputa com Isidoro Jansen Pereira e Fabio Alexandrino Carvalho Reis, foi escolhido como

  227 senador do império em 1865 .

  Já Joaquim Vieira da Silva e Sousa, futuro conselheiro de Estado e ministro da 225 Guerra, Justiça, Império e Marinha, era filho de Luis Antonio Vieira da Silva e Maria Clara 226 MARQUES. 2008; COUTINHO. 2005.

  

Da região de Itapecuru 2 (no tal de 13 maranhenses) conquistariam uma cadeira no Senado, e 3 (no total de Gomes de Sousa. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Regressou ao Maranhão portando o diploma e logo envolver-se-ia nas disputas regionais, elegendo-se vereador da Câmara Municipal de São Luis. Depois, foi nomeado juiz de direito de São Luis, mas devido ao acirramento da política regional, sobretudo durante mais uma intervenção do

  228

  Lord Cochrane no Maranhão em 1824 , Vieira da Silva seria afastado da província, passando a ocupar cargos em outras partes do império, dentre eles o de presidente de província no Ceará, e também do Rio Grande do Norte. Elegeu-se ainda deputado geral em duas oportunidades. Ocupou, ao longo das décadas de 1850 e 1860, vários ministérios do executivo nacional. E, em 1854, foi escolhido como Presidente do Conselho de Estado, posto mais importante do império. Em 1870, foi eleito senador, numa acirrada disputa com José Joaquim Vieira Belfort e Francisco Mariano de Viveiros Sobrinho, quer dizer, outras figuras

  229 importantes da política maranhense .

  Nos dois casos acima, observam-se exemplos de modelos de ascensão de carreiras políticas que iniciaram na paróquia e gradualmente dirigiram-se à Corte. Nelas, o peso e o entrelaçamento de uma série de fatores sociais e familiares indicam a importância desses trunfos nos trajetos políticos de agentes que ascenderam a posições destacadas no cenário político local e regional para o nacional, a partir de complexos laços de interdependência com as lideranças paroquiais, não só de seus redutos familiares, mas entre os centros políticos locais no interior do Maranhão.

  E apesar dessas relações de interdependência terem sido fundamentais àqueles agentes políticos regionais, oriundos de Itapecuru, muitas vezes suas atuações diante dos embates paroquiais não foram decisivas a ponto de desequilibrar a balança de força entre as partes envolvidas nas disputas locais, como ocorreria, comparativamente, no caso de Alcântara, onde a atuação das lideranças políticas fundiam as disputas locais com as regionais.

  Sendo assim, em Itapecuru, as disputas paroquiais, além de não contarem com a mediação direta dessas figuras de renome regional entre a comunidade e o governo provincial, desenharam um arranjo político marcado pela menor força política no plano regional, estabelecendo assim uma ponte mais frágil entre a comunidade e outros agentes políticos no 228 plano regional, através de outras figuras de mediação local.

  Dessa maneira, o surgimento dessas figuras que exerceram o papel da mediação política local, decorreu de suas inserções nas instituições governamentais no plano local, como a Guarda Nacional, assim como mediante as disputas políticas na comunidade, como meio de aquisição de capital de notoriedade e reconhecimento na província. Daí, portanto, o intenso grau de acirramento nas disputas entre facções políticas rivais para controlar esses canais de comunicação política e burocrática em Itapecuru, uma vez que não contavam com agentes políticos regionais em suas disputas domésticas, como elementos de desequilíbrio nas disputas locais.

  Embora tenham tido uma importante inserção nas altas esferas da política nacional, percebe-se, em comparação a outros polos políticos provincial, que a região de Itapecuru deixou de ser uma das bases de emergência dos agentes que compunham a elite política regional, ao longo do século XIX. Fator realçado pela parca participação de mandões locais da região no seleto grupo políticos que saíram do Maranhão em direção a Corte.

  Neste cenário, a sobrevalorização do monopólio sobre algumas instituições que garantiam projeção política regional, como a Câmara Municipal, o Juizado de Paz, a Delegacia de Polícia e a Guarda Nacional, ganhou relevo com o investimento em capital de relações sociais e redes de reciprocidade. Tais recursos foram acumulados, geridos e ampliados no plano local, mostrando-se os trunfos contundentes aos agentes políticos, da comunidade de Itapecuru, como instrumentos de estruturação das alianças políticas para cima e para tecer cadeias de interdependências que ligavam níveis da hierarquia política.

3.2 A Guarda Nacional na cidade de Itapecuru no século XIX

  De modo semelhante ao que se observou na maior parte do Maranhão no século XIX, a efetiva estruturação da Guarda Nacional na paróquia de Itapecuru, com a divisão dos batalhões e definição de oficiais da milícia, só se tornou possível a partir de 1838, no governo provincial de Vicente Figueiredo Camargo. Mormente às vésperas da revolta da Balaiada (1838 à 1841), momento em que boa parte da região banhada pelo rio Itapecuru constituíra-se em uma das principais áreas afetadas por essa insurreição popular.

  E isso se torna mais evidente quando se detecta a concentração dessa revolta popular naquela região, que, além de ser uma grande zona de lavouras de algodão sustentadas por uma mão-obra cativa, foi palco de grandes arbitrariedades nas disputas políticas locais, que recaiam principalmente sobre a população de pobres livres.

  De modo geral, a composição social da Guarda Nacional obedecia ao contexto político local. É possível perceber os efeitos de correspondência entre as posições no espaço social e a posição destacada que alguns agentes adquiriram na milícia, quer fossem da oficialidade quer pertencessem ao corpo de praças. Lembrando que a diferença econômica entre praças e os oficiais era tênue, contudo, a definição daqueles que comandariam e os que obedeceriam foi um critério importante de diferenciação social.

  As tabelas 3 e 4 e o quadro 5 demonstram alguns dados sobre a composição social do espaço político, isto é, daqueles que disputaram o pleito da vereança e aqueles que efetivamente ocuparam a função e os agentes da Guarda Nacional. Trazendo ainda informações quanto às diferenças em termo de ocupações entre agentes que exerceram a administração e agentes que pertenceram à oficialidade da Guarda Nacional.

  Entre as principais ocupações identificadas naquelas tabelas, destacam-se a de militar e lavrador. Conforme as tabelas 3 e 4, no primeiro momento havia uma relativa proporcionalidade quantitativa entre o número de lavradores e aqueles que se denominavam militares (oficiais da Guarda Nacional). Em 1853, justamente três anos após a reforma da Guarda Nacional, a sobrevalorização social e simbólica de se ocupar posições e patentes destacadas na milícia influenciou diretamente para que a diferença entre o número de militares e lavradores tenha aumentado significadamente, caracterizando, dessa maneira, a importância da Guarda Nacional nos arranjos sociais e políticos na paróquia de Itapecuru.

  Outra informação importante que pode ser extraída desse cruzamento de dados é o livre trânsito desses agentes políticos nas várias esferas administrativas e judiciárias paroquiais. Com pouco capital educacionais exigido na consecução das atividades ordinárias naquelas instâncias, as indefinições das fronteiras formais entre tais esferas institucionais, traria a existência de vários outros critérios de definição de entrada nas esferas administrativas locais, como as relações familiares, por exemplo.

  Conforme os dados apresentados no quadro 6, vários oficiais da Guarda Nacional, pelo administração local. Esse trânsito dos indivíduos apresentou-se efetivamente como um instrumento bastante eficaz de afirmação política.

  O pertencimento aos quadros da administração da Guarda Nacional em uma configuração social que dificultava a ascensão política ao plano regional, conferia reconhecimento e distinção social para agentes que dispunham de insuficientes meios políticos, intelectuais e econômicos.

  Traçando um paralelo entre os quadros 5 e 6, isto é, entre os dados referentes aos comandantes e oficiais de Itapecuru e Alcântara, percebe-se que, em Itapecuru, as carreiras daqueles agentes foram eminentemente locais. Por mais que tais oficiais atuassem de forma intensiva nas disputas locais, para muito daqueles, a liderança política eminentemente local lhe distanciava das possibilidades de inserção, como protagonistas, nas disputas no plano regional.

  Neste caso, a instrumentalização política da Guarda Nacional, associada à mobilização de recursos diversos (econômicos, simbólicos e de relações sociais) por meio de elos e alianças locais (pessoais e familiares), foi instrumento primordial de construção de hegemonias na política de Itapecuru.

3.3 Perfis políticos dos comandantes e che fes da Guarda Nacional de 1838 a 1855 em Itapecuru

3.3.1 Joaquim Jose Gonçalves

  Joaquim José Gonçalves nasceu a partir do consórcio entre o Capitão Manoel

  230

  Gonçalves e de Rosa Clara Reis . Casou-se com Isabel Marcelina Nunes Belfort Gonçalves, 231 membro de uma das mais importantes famílias de Itapecuru .

  Muito da força política de Joaquim José Gonçalves esteve ligada à aliança 230 matrimonial, isto é, aos recursos de sua esposa e de sua família. Isabel Gonçalves, esposa 231 COUTINHO. 2005. p.180. daquele, filha de um oficial português, radicado no Maranhão, o coronel Jose Marcelino Nunes com Isabel Maria Belfort Freire Nunes, nasceria, além daquela, o coronel Antonio

  232

  Sales Nunes Belfort, "figura de destaque na lavoura, nas forças armadas e na política " (presidente das províncias do Maranhão, em 1824, e do Ceará, de 1826 a 1829, e deputado geral, de 1830 a 1833, pela província do Ceará) e Jose Marcelino Nunes Belfort (vereador e major da Guarda Nacional). Destaca-se, ainda, outro membro importante dessa família: Joaquim Raimundo Nunes Belfort, o futuro barão de Santa Rosa.

  Já do casamento de Joaquim Gonçalves com Isabel Belfort nasceria Antonio Marcelino Nunes Belfort Gonçalves, futuro visconde de São Luís, e um dos principais políticos provinciais nesse período, e Luiza de Assunção Nunes Gonçalves, que casou-se, em 1850, com Joaquim Francisco Guilhon, outro sobrenome importante na política do interior da província.

  Antes da constituição da Guarda Nacional de Itapecuru, em 1838, Joaquim Jose Gonçalves, portador da patente de capitão de milícia, foi nomeado, pelo Presidente da

  233

  Província, ocupou a chefia da prefeitura da Comarca de Itapecuru . Infelizmente, a documentação sobre a prefeitura de Itapecuru só existe a partir de 1841, apontando a passagem do cargo de Joaquim Jose Gonçalves para Altino Lellis de Moraes Rego, suplente daquele.

  Outras fontes de pesquisa, como o jornal Chronica Maranhense, de 1839, apresentou duras críticas à Joaquim Gonçalves, que, nesse momento, ocupava os cargos de Prefeito de Itapecuru e a chefia de legião da Guarda Nacional, por ter uma relação de "séquito dominado

  234

  do partido conservador" e aliado político do presidente Camargo. Aliança essa que garantira a Gonçalves outra participação no cenário da política regional, com sua eleição

  a 235 como 2 vice-presidente (do presidente Camargo) da província do Maranhão .

  Enquanto chefe da Guarda Nacional da cidade de Itapecuru, entre os anos 1838 e 1844, Gonçalves esteve intimamente ligado à estruturação daquela milícia na comarca de

  236 232 Itapecuru , quando estabelecida pelo presidente Camargo, em 1838. Juntamente com 233 COUTINHO. 2005. p.180. 234 Jornal o Publicado Oficial de 8 de agosto de 1838. 235 Jornal Chronica Maranhense de 9 de março de 1839. 236 Ibidem. 9 de maio de 1839. Gonçalves, o Capitão Jose Marcelino Nunes Belfort dirigiu a milícia. Ambos organizaram dois batalhões de infantaria da Guarda Nacional, respectivamente em Itapecuru e Rosário, e uma companhia de cavalaria em Itapecuru. Para os oficiais do corpo de praças, Gonçalves

  º

  nomeou para os comandos do 1 batalhão de Itapecuru o tenente coronel Claudio Candido

  a

  Rosa Serra; para o 2 batalhão de Rosário o tenente Coronel Silvino Pereira da Silva

  237 Coqueiro; e para companhia de cavalaria, o capitão Altino Lellis de Moraes Rego .

  Nesse sentido, a atuação de Joaquim Gonçalves na Guarda Nacional, principalmente quanto à organização e à nomeação de oficiais da milícia, esteve vinculada à sua posição no arranjo na dinâmica política local.

  Vários exemplos poderiam ser citados relativos às negociações e às alocações de pessoas em uma rede de proteção constituída e comandada por Gonçalves. Como ocorreu em

  º

  1841, quando o comandante do 1 batalhão de Rosário reclamou ao chefe de legião, Gonçalves, sobre a importância de se definir os distritos de alistamento para o seu batalhão

  º

  em relação ao 2 corpo de milícia daquela vila, com "risco de o segundo batalhão ficar completa e o primeiro com o resto", isto é, favorecendo o comandante do 2º batalhão em detrimento do 1º.

  Caso parecido ao elencado acima também ocorreria em 1842, quando Gonçalves, atuando na mediação entre paróquia e governo provincial, pediu o aumento do número

  º 238

  oficiais no 1 comando. Demanda feita pelo major Antonio Joaquim Launé . Nomeou-se ainda os oficiais Jose Henriques Viana, João Alípio Galvão e Raimundo Jansen Serra Lima, e promoveu a capitão Thomas Jansen de Figueiredo Lima. Todos aliados políticos diretos do

  239 º

  chefe de legião , como foi também o caso do 2 batalhão de Itapecuru, que se nomeou para o

  240

  chefe do comando o tenente coronel Antonio Raimundo Teixeira Viera Belfort , uma liderança política no município de Rosário e aparentado de Gonçalves.

  A mediação entre o governo provincial e a vila de Itapecuru, mesmo que limitada e dependente dos canais de comunicação oficiais das instituições, como no caso da Guarda Nacional, constituíra-se como importante canal de promoção e reconhecimento o poder 237 político local, visto o complicado jogo de interesses entre facções antagônicas na paróquia de 238 Jornal o Publicador Oficial, de 10 de novembro de 1838.

  MARANHÃO. 1838 239 – 1848. Oficio de 31 de janeiro de 1842. 240 Ibidem. Ofícios de 05 e 24 de março de 1842. a

  Itapecuru. Como ocorreu em 1842, na tentativa frustrada do tenente coronel, chefe do 1

  241

  batalhão, João Antonio Martins , que se dirigiu ao presidente da província pedindo tanto a nomeação de oficiais quanto a reorganização do espaço de alistamento de sua milícia, sendo ambas descartadas pelo presidente Francisco Duarte, por justamente não terem sido respaldadas pelo coronel Gonçalves.

  Mas não só de alianças e estabilidade política conviveu o chefe de legião Gonçalves. Em 1842, enfrentou fortes crises na Guarda Nacional local, quando o Ten. Cel. João Antonio Martins viria a questionar a existência, em Itapecuru, de um esquadrão de cavalaria,

  242

  comandada pelo capitão Altino . Contenda que se iniciou devido ao pedido de Gonçalves

  º

  para realocar todos os oficiais e praças da cavalaria para o 2 batalhão, criado em 1841, o que

  º

  corresponderia, na prática, ao esvaziamento do número de praças a serem recrutados para o 1

  243 batalhão, comandado pelo tenente coronel Martins, adversário político de Gonçalves .

  Outro conflito envolvendo Martins, o coronel Gonçalves e o major Altino apareceu em uma representação ao presidente da província feita pelo primeiro, reclamando dos abusos cometidos por Joaquim Gonçalves, quando este transferiu, ou melhor, fez a passagem do

  a

  capitão Francisco Jose Teixeira Pinto do comando de Martins para o 2 batalhão de Altino

  º

  Moraes Rego e por estar a "seduzir parte do 1º batalhão para se alistarem no 2 batalhão". O resultado daquela disputa foi a prisão do capitão Pinto. Este, representando ao governo, também apontou o motivo que lhe levou à prisão, a saber, ter posto alguns dos protegidos do tenente coronel Martins a serviço de recrutamento do Exército.

  Ainda no caso acima, alguns outros depoimentos foram proferidos pelo comandante Altino Rego, pelo major e juiz de paz Francisco Maximo de Sousa e pelo vereador Joaquim Jose Nunes Paes, que atestaram a idoneidade e conduta positiva do Capitão Pinto, ressaltando

  244

  ainda a sua participação na guerra de 1838. No dia 9 de julho do mesmo ano , o governo acabou liberando-o da prisão, apesar de não ter permitido a passagem do referido capitão para o batalhão pretendido. Embora tal decisão tenha sido favorável para o tenente coronel Martins, este acabou perdendo o posto de comando, tendo sido ocupado interinamente por

  241

Líder do partido de oposição ao governo, ver doc. da Câmara Municipal em 1842, juntamente com Venceslau

242 Bernardino Freire, Inácio Francisco de Oliveira e Jose Joaquim Guimarães.

  MARANHÃO. 1838 243 – 1848. Oficio de 14 de maio de 1842. Francisco Maximo de Sousa, e efetivamente pelo tenente coronel Altino Lellis de Moraes Rego, principal aliado de Joaquim Jose Gonçalves.

  Em 1843, Joaquim Jose Gonçalves conseguiu constituir uma facção hegemônica na

  º º

  Guarda Nacional, com o comando do 1 batalhão exercido por Altino, e do 2 por Antonio Raimundo Teixeira Vieira Belfort e Francisco Maximo de Sousa.

  Com a progressiva conquista de liderança política local por Altino de Moraes Rego, que também se confirmaria na ocupação do posto de chefe de legião da Guarda Nacional da vila de Itapecuru no lugar do coronel Gonçalves, em 1844, ele desfrutaria ainda da posição de lideraça em outras esferas políticas locais nos anos posteriores, exemplificada pelo controle da Câmara Municipal e do juizado de paz por seus aliados.

3.3.2 Altino Lellis de Moraes Rego.

  Apesar de ter o sobrenome de uma das famílias mais influentes na administração da

  245

  província durante o século XIX , foram obtidas poucas informações consistentes sobre a origem familiar de Altino Lellis de Moraes Rego, isto é, sobre esse grupo familiar na cidade de Itapecuru. Sabe-se que foi negociante e lavrador no município de Itapecuru. E, até onde se conseguiu localizar na documentação, que tinha um irmão, Joaquim Jose de Moraes Rego. Outro dado disponível é o nome de um dos seus sogros, Raimundo Francisco de Sousa. Altino se casou três vezes. Apenas os nomes das duas últimas esposas foram obtidos: Maria Joaquina de Almeida Rego e Rosa Laura de Moraes Rego. Dessas três relações matrimoniais, Altino teve vários filhos, dentre eles, Altino Lellis de Moraes Rego Jr. (advogado e deputado provincial em 1858), Luis Henrique de Moraes Rego, Jose Joaquim de Moraes Rego Sobrinho (depositário geral, no qual anteriormente foi exercido pelo pai).

  As primeiras notícias que se teve de Altino no cenário político de Itapecuru foi durante a década de 1830, em que apareceu ocupando uma cadeira na Câmara Municipal desse município, ao lado de outros vereadores como Raimundo Jose Launé, Joaquim Antonio Cardoso, Raimundo Jansen de Castro Lima, Joaquim Antonio Cardoso e Antonio Marques Coimbra, aliados políticos e primeiros oficiais comandantes da legião liderada pelo coronel

  246 Joaquim Jose Gonçalves .

  Ainda nas atribuições de membro da Câmara Municipal, em 1836, Altino e os seus aliados na Câmara dirigiram uma representação ao Presidente de Província pedindo auxílio para o destacamento da companhia da polícia rural, devido principalmente à "falta de força policial na vila [...] destacamento que conta com 14 soldados[...] força mui limitada para

  247 defesa da vila" .

  Altino também ocupou outras as funções nas esferas burocráticas em Itapecuru, como o de juiz municipal, de direito interino e de paz. Atuaria ainda na prefeitura da comarca nos anos de 1839 a 1841. Tal trânsito por esses espaços administrativos não passou incólume aos seus adversários, que, em 1840, o acusaria de acúmulo de cargos. Altino se defendeu afirmando que saiu do cargo de prefeito suplente da comarca de Itapecuru tão logo assumiu o

  º 248 cargo de 1 juiz de paz, no lugar do falecido juiz, José Lucio Climaco Bandeira de Mello .

  Durante a primeira metade da década de 1840, a hegemonia da rede de aliados ligado a Altino, herdada de seu aliado político, o Coronel Joaquim José Gonçalves, só teria um único abalo, provocado por facções rivais nas paróquias, em 1841, quando Altino foi questionado por Joaquim Antonio Cardoso sobre a sua legitimidade no posto de juiz de paz durante o

  249

  processo eleitoral , e no qual responderia que:

  ate hoje tem esta vila gozado de plena tranquilidade que nem no acto da formação da Mesa Paroquial foi interrompida com um so grito sequer de desaprovação a escolha o que, de acordo com Rd Parocho, fiz [Altino] das pessoas que devião compor a Mesa; e apesar dos boatos que grassavão, de que uma facção desordeira tramava contra este socego e ordem que reinava, querendo começar seus attentados por afixar edictos de que o quarto supplente desta magistratura da Paz era legitimo juiz 250 [Venceslau Freire], que não era eu, que fui solenne e devidamente empossado[...] .

  Nos anos de 1842 e 1843, Altino Lelis de Moraes Rego acumularia outros cargos 246 municipais, de forma inconteste, como os de: presidência da câmara municipal; comando de

  MARANHÃO. 1838 247

– 1858: Ofícios de 24 de novembro e 22 de dezembro de 1838.

MARANHấO. Secretaria do Governo. SEđấO DAS CÂMARAS MUNICIPAIS. 1822

  • – 1855. Setor de 248 Documentos Avulsos Manuscritos. Oficio de 25 de maio de 1836.

  MARANHấO. Secretaria do Governo. SEđấO DE JUIZ DE PAZ. 1832

  • – 1850. Setor de Documentos 249 Avulsos Manuscritos. Oficio de 18 de dezembro de 1840.

  MARANHấO. Secretaria do Governo. SEđấO DE JUIZ DE PAZ. 1832

  • – 1850. Setor de Documentos
a

  cavalaria da Guarda Nacional; o comando do 2 batalhão; posto de tenente coronel

  a 251

  comandante do 1 batalhão (no lugar do ten. cel. João Antonio Martins) ; e interinamente o cargo de juiz municipal.

  Assim, a primeira metade da década de 1840 marcou também uma hegemonia da facção da qual Altino era líder em alguns dos postos chaves da administração local. Entre

  a

  eles: a magistratura de paz, ocupada pelo major comandante do 2 batalhão, Francisco Maximo de Sousa; a presidência da mesa eleitoral em 1842, ocupada pelo próprio Moraes

  252 Rego durante as eleições municipais, entre outros .

  Mas a facção concorrente, liderada por Venceslau Freire, Inácio Oliveira e João Antonio Martins, também atuava nos mesmos espaços institucionais locais, ainda que fortemente dominados pela facção situacionista liderada por Altino. Gradualmente aquele grupo oposicionista aumentaria sua inserção na arena governamental no plano local, ocupando alguns os cargos, como de delegado de polícia e postos na Guarda Nacional.

  Em 1841, Venceslau Bernardino Freire, ocupando o cargo de juiz de paz, juntamente com Inácio Francisco de Oliveira, presidente da Câmara Municipal, iniciaram uma disputa mais incisiva pela liderança no espaço político local. No sentido de conter tal ameaça, Altino, ainda com influência naquela instituição municipal, perpetrou um abaixo-assinado popular sobre os diversos "abusos" cometidos pelo presidente Inácio no exercício da presidência da

  253 ª

  casa , dentre elas, a nomeação "ilegal" de Venceslau Freire, que como 4 escolhido para o

  254 cargo , acabou ocupando o cargo eletivo de juiz de paz, no lugar de Antonio Joaquim Pinto.

  Em novembro de 1841, ocupando o cargo de prefeito de comarca de Itapecuru, Altino remeteu um ofício ao presidente de província relatando as atitudes "conflituosas" do chefe da câmara municipal, Inácio de Oliveira, durante as eleições municipais, onde ambos

  255

  lançaram editais com nomes diferentes de juízes de paz responsáveis por presidir o pleito , o

  251 MARANHÃO. 1838 252 – 1848. Oficio de 09 de dezembro de 1842.

  MARANHÃO. 1822 253 – 1855. Ata das eleições de vereadores e juízes de paz de Itapecuru de 1841. MARANHÃO. 1822 254

– 1855. Oficio de 7 de setembro de 1841. Anexo: abaixo-assinado.

Conforme o ofício de 07 de setembro, foi Altino, como o vereador mais bem votado, quem nomeou a partir

255 do posto de presidente da câmara, o magistrado de paz e os seus respectivos suplentes.

  

MARANHấO. Secretaria do Governo. SEđấO DAS PREFEITURAS DE COMARCA. 1841. Setor de que, segundo Altino, ocorreu em decorrência do "espírito de partido que continuava com

  

256

maior exaltação do que nas eleições passadas" .

  Essa confusão durante as eleições se agravaria ainda mais com a proximidade e preparativos das eleições municipais em 1841. Antonio Pinto tentando retomar o cargo de juiz de paz, afirmava ter sido eleito, e que acabou sendo barrado por Venceslau, que também afirmava ser o juiz titular, "por estar em condições legais de exercer tais funções na

  257

  magistratura de paz" , atitude respaldada pelo juiz de direito, Ezequiel Franco de Sá, afirmando ainda que Antonio Joaquim Pinto pertencia à oficialidade da polícia e não ao

  258 juizado de paz .

  Durante o pleito de 1841, as disputas se intensificaram ainda mais. Com Altino ocupando os cargos de prefeito e chefe do esquadrão de cavalaria da Guarda Nacional, e aparecendo no local de votação com uma força armada, que, segundo ele, objetivava legitimar Antonio Pinto como juiz de paz e prover a "manutenção da ordem". Por outro lado, um grupo de homens armados também acompanhou Venceslau Freire, que se auto-intitulava juiz de paz,

  259 e que, por fim, acabou presidindo as eleições municipais nesse ano .

  Altino recorreu à Câmara Municipal na tentativa deslegitimar a posição oficial de magistrado de Venceslau Freire, mas sem sucesso. Porém, um fato curioso ocorreria nessas eleições. Apesar de ter organizado e dirigido o pleito, Venceslau e seu grupo de aliados não conseguiriam impor-se frente à facção situacionista nas eleições aos cargos de vereança e

  260 magistratura de paz .

  Já na Guarda Nacional, a oposição desferiu outro golpe contra Moraes Rego. A prisão de um praça do batalhão de Moraes Rego, Cosme Antonio da Silva, pelo subdelegado Manoel Rodrigues Nunes (subordinado do delegado suplente Inácio Francisco de Oliveira), durante a apresentação do destacamento na vila de Itapecuru, em que Moraes Rego afirmaria ser "escandaloso abuso do poder, o qual reclamo serias providencias da parte de V. Ex. [Presidente da Província], afim de que não seja reproduzido", pois "sofreu violência [...] e de

  256 257 Ibidem. 258 MARANHÃO. 1841. Oficio de 06 de setembro de 1841.

  MARANHÃO. 1832 259 – 1850. Anexo de 07 de setembro de 1841. o fazer passar assim maltratado e humilhado pela frente do meu quartel, como para ludibriar-

  261 me com a violência praticada na pessoa de um subordinado meu" .

  Em retaliação a esse comportamento da oposição, Altino dirigiu à Câmara Municipal, no mesmo mês de dezembro, uma longa representação sobre "os abusos e

  262

  prevaricações do subdelegado Manoel Rodrigues Nunes , em que "[...] ademais um vil proletário da facção terrorista que tantos males tem derramado nesta desditosa província

  263

  desde a calamitosa época de 1839 ". Tendo ainda nesse relatório a descrição de outras prisões ditas "abusivas" conduzidas pelo dito subdelegado, como a do guarda nacional, capitão Francisco Maximo Cardoso, e com o recrutamento e prisão "escandalosa" feita contra

  a

  o 2 sargento Francisco Jose Raiol, filho do lavrador e ten. Francisco Antonio Raiol e

  264 protegido do advogado e alferes Joaquim Antonio Cardoso .

  O grupo oposicionista a Moraes Rego também viria a agir através das missivas oficias para responder às acusações de Moraes Rego. Um abaixo-assinado foi feito por alguns

  

265

  vereadores (Inácio Francisco de Oliveira e Joaquim Jose Guimarães) devido ao "escandaloso abuso" de substituir alguns vereadores durante as convocações por suplentes afeitos ao presidente da Câmara Moraes Rego, para poder dirigir uma "sessão clandestina [...] cuja não foi avisados, nem convidados os representantes para mais salvo poderem rechaça-la (a representação) de caluniais e falsidades" relativa à discussão sobre a atuação do

  266 subdelegado de polícia, o tenente Manoel Rodrigues Nunes .

  Em 1844, Altino faria outra representação ao presidente de província contra o delegado da comarca, Inácio Francisco de Oliveira, por estar nomeando vários praças do

  ª

  serviço ativo da Guarda Nacional do 1 batalhão para os cargos de inspetores de quarteirão, o que, segundo Moraes Rego, "excede das atribuições que lhes estão marcadas pelas atribuições para tais nomeações [delegado]" e ainda "insinua desobediência das guardas que se querem furtar ao serviço nacional". Constava ainda o pedido de Oliveira para que lançasse mão da 261 lista de reserva, assim como a resposta desse, afirmando que: 262 Ibidem. Oficio de 18 de dezembro de 1843 e anexos.

  

Este subdelegado fora demitido em 13 de fevereiro de 1844 (Oficio de 11 de dezembro de 1843), e ainda em

1843, havia uma outra longa representação contra o subdelegado constituída pelo major Jose Fortunato Madail (

263 oficio de 23 de novembro de 1843).

  MARANHÃO. 1822 264 – 1855. Oficio de 9 de dezembro de 1843. MARANHÃO. 1838 265 – 1848. Oficio de 02 de abril de 1843. ce não sendo VM o competente para conhecer da idoneidade dos cidadãos que devem exercer o cargo de Inspetor de Quarteirão, que é da confiança da policia [...][excedendo] não pouco de seus deveres ferindo a reputação dos cidadãos que servem aquele cargo; [...]portanto qualquer duvida que se lhe oferecer a este respeito ce mo mo

  VM podera recorre a sabia decisão do Ill e Ex Senr. Vice Presidente da 267 Provincia[...] .

  Em 1845, Moraes Rego e sua facção, não teriam o mesmo êxito de 1841 nas eleições municipais de vereadores e de juízes de paz. Com o resultado foi uma votação inexpressiva para o cargo de magistrado de paz (muito diferente da votação majoritária de Wenceslau e sua

  268

  facção ) e pouco significativa para a Câmara Municipal, demarcaria, então, a mudança e saída da posição de liderança de Moraes Rego, tanto da Guarda Nacional quanto da política local.

  Embora tal situação na paróquia tenha definitivamente mudado, desfavorecendo a força política de Altino em Itapecuru, através do acionamento de redes familiares espalhadas por toda a província, e sobretudo de aliados que tinham uma forte influência na capital, conseguiu, em 1849, ser eleito suplente da Assembleia Legislativa Provincial, e, posteriormente, ocupar uma cadeira na Assembleia, no cargo de titular, participando ativamente de alguns debates juntamente com outras figuras importantes da política regional:

  Em 1849, o deputado liberal Altino Lélis de Morais Rego apresentou um requerimento, acompanhado de representação dirigida ao imperador Pedro II, pedindo anistia geral para os revolucionários pernambucanos de 1848. A maioria conservadora, dentre eles, o deputado Nunes Gonçalves, fiel ao imperador, votou 269 contra a proposta, derrubando-a .

  Depois do cargo legislativo provincial, Moraes Rego viria a ocupar os cargos de depositário geral da comarca de São Luís, em 1854, e, em 1859, foi empossado no cargo de diretor da Colônia Militar de São Pedro de Alcântara do Gurupi, onde viria a falecer em dezembro de 1866. Sendo condecorado, "em 1841, com a Cruz de Cavaleiro de Cristo e em

  270 1846 com o Oficialato da Rosa" .

  267 MARANHÃO. 1838 268 – 1848. Oficio de 22 de maio de 1844 e anexos.

  MARANHÃO. 1822 269

– 1850. Ata das eleições municipais de 08 de setembro de 1845.

3.3.3 Venceslau Bernardino Freire

  Deste agente não foi possível reunir informações biográficas para compor um perfil social e político detalhado. Por isso, a descrição sobre ele se restringirá apenas aos aspectos da sua atuação institucional entre os anos de 1841 á 1855.

  Diferentemente do caso de Altino de Moraes Rego que ocupou vários cargos paroquiais e postos burocráticos e legislativos no plano regional, Venceslau só viria a ocupar cargos na administração local, dentre eles o de juiz de paz, delegado de polícia e comandante superior da Guarda Nacional.

  Sua participação efetiva na política local só foi registrada na pesquisa a partir de 1841. Ocupando a função de juiz de paz, Freire vira a receber uma reclamação do governo provincial sobre o impedimento de Joaquim Jose Nunes Paes exercer a magistratura de paz, por aquele não ter enviando a insígnia do cargo e por estar ocupando de maneira indevida o

  271 cargo de juiz de paz .

  Apesar daquele dissídio, os diálogos entre Freire e o governo provincial, a partir de então, se tornaram mais frequentes. Em outro caso, Freire oficiou ao presidente de província, relatando que estava sofrendo "ameaças" da oposição e "insinuações de homens partidarios

  272

  que aparecem nas epocas de eleições" , por estar exercendo as funções de juiz de paz, principalmente por ter despedido o escrivão de paz Amaro Antonio Serra do cartório municipal, alegando que o mesmo estaria acumulando outras funções na administração local.

  Outro caso de disputa política local envolvendo Freire ocorreu em 1841, durante as

  a

  eleições para vereador e juiz de paz. Ele postou em frente à Matriz vinte e cinco praças de 1 linha comandados por Lourenço Justiniano da Serra Freire (reunidas as ordens do prefeito suplente Altino Lellis de Moraes Rego), e mais algumas outras pessoas armadas, acompanhando o capitão da Guarda Nacional, Antonio Joaquim Pinto, que afirmava ser o

  273

  autêntico juiz de paz e de ter o presidente da província lhe empossado . Endossando o posicionamento de Venceslau Freire, tanto o juiz de direito, Ezequiel Franco de Sá, quanto o 271 governo provincial confirmaram sua posição de juiz de paz.

  MARANHÃO. 1832 272 – 1850. Oficio de 25 de agosto de 1841.

  A articulação de Freire com o governo provincial e com aliados importantes no plano local, vira a lhe garantir possibilidades efetivas de afirmação política em Itapecuru. Em 1842, Freire, no posto de delegado da comarca de Itapecuru, consultou o governo e o juiz de direito, Ezequiel Franco de Sá, sobre a possibilidade de acumular os cargos de juiz de paz e de delegado. Mais uma vez foi apoiado por aqueles, referendando que o acúmulo desses cargos seria possível para Freire.

  Apesar de conquistas significativas no espaço da política paroquial, Freire ainda experimentou uma forte pressão e oposição da facção hegemônica local, liderada por Altino Lellis de Moraes Rego. Como ocorreu em 1843, no oficio dirigido por Jose Fortunato Madail, juiz de paz suplente, ao governo provincial, no qual relatava a arbitrariedade de Freire ter acumulado os cargos de juiz de paz e delegado de polícia, e também por esse ter agido "criminosamente" durante as eleições municipais. Desta vez, Freire não teria respaldo do juiz de direito Ezequiel Franco de Sá que lhe garantisse o cargo na magistratura de paz, acabando por perdê-lo.

  No ano de 1845, na disputa pela magistratura de paz, Vencelau conseguiu uma vitória significativa sobre a facção local até então hegemônica, ao ser o mais votado, com 231 votos, em que o seu principal "concorrente", o tenente coronel Altino Lellis de Moraes Rego, teve apenas 5 votos. Tal declínio também atingiu de forma susbstancial a legitmação política da facção situacionista, demonstrando a gradual inversão das forças políticas na cidade Itapecuru a favor de Freire e aliados.

  No ano de 1845, Venceslau Freire, exercendo a magistratura de paz, foi informado que as eleições paroquiais seriam feitas na própria câmara municipal. De imediato, reportou ao governo, afirmando a "insuficiência do edificio [a câmara municipal] para um ato em que deve respirar plena liberdade]", pedindo, pois, que o pleito fosse "[...] na Igreja Matriz onde sempre foi costume afim de que os cidadões que nellas tem votto não sejão encomodado e

  274

  privadas da liberdade de seus sufragio ". Tal situação seria sintomática com relação as diversas estratégias perpetradas pelas facções rivais nas lutas políticas paroquiais. Como também ocorreria em 1847, em que grupo de Altino conseguiu a eliminação da lista de juízes de paz, os seguintes cidadãos: o comandante superior da guarda nacional, Venceslau Freire, o tenente coronel Raimundo Jansen de Castro Lima e o advogado Jose Guimarães, alegando que os dois primeiros eram suplentes de juiz municipal e o ultimo ocupava o cargo de

  275 vereança, ou seja, aliados de Freire expulsos da Guarda Nacional .

  A posição de liderança de Freire se consolidaria em 1846, quando foi escolhido para ocupar o posto de comandante da Guarda Nacional de Itapecuru, acumulando e controlando

  276

  os cargos locais, como o de juiz de paz e de delegado de policia da comarca de Itapecuru , instâncias anteriormente monopolizadas pela facção situacionista liderada por Altino Lellis de Moraes Rego.

  Mas ocupar um posto de comando não significou, para Freire, a ausência de contestação de sua hegemonia pelos adversários. No ano de 1847, alguns rivais que ainda gozavam de força política local tentaram boicotar o funcionamento da Guarda Nacional da legião de Itapecuru, situação que só viria a se amenizar com a consolidação efetiva de Venceslau Freire como comandante superior da milícia, organizando os comandos dos batalhões e substituindo os efetivos por membros de sua facção local.

  Embora Venceslau Freire tenha conquistado uma relativa hegemonia na esfera da política e na Guarda Nacional, a oposição política atuava ainda de forma continua contra a facção de Freire. Isso pode ser demonstrado por representações da facção rival denunciando uso de homens armados em eleições paroquiais, sonegação de informações, irregularidade em nomeações, arbitrariedades, etc.

  275 276 Ibid. Oficio de 30 de março de 1847 e anexos.

  

TABELA 3: Perfil ocupacional dos cidadãos que disputaram os pleitos de vereadores e juízes

de paz em Itapecuru (1845 à 1853).

  

PERFIL PERÍODOS

OCUPACIONAL 1845 1853

  ADVOGADOS 2 -

  1 - BOTICÁRIOS EMPREGADOS PÚBLICOS

  6

  2 LAVRADORES E PROPRIETÁRIOS

  16

  3 RURAIS MILITARES (GUARDA NACIONAL)

  13

  20 NEGOCIANTES

  6

  1

  1 - SEM INFORMAđỏES

  TOTAL

  45

  26 FONTE: MARANHÃO. Secretaria do Governo. SEđấO DAS CÂMARAS MUNICIPAIS . 18 22 – 1855.

  Setor de Documentos Avulsos Manuscritos.

  TABELA 4: Ocupação dos vereadores de Itapecuru de 1834 à 1855.

  PERFIL NÚMERO DE AGENTES OCUPACIONAL TOTAL DE VEREADORES

  34 ADVOGADOS

  2 EMPREGADOS PÚBLICOS

  6 LAVRADORES E PROPRIETÁRIOS

  7 RURAIS MILITARES (GUARDA NACIONAL)

  9 NEGOCIANTES

  5 SEM INFORMAđỏES

  6 FONTE: MARANHÃO. Secretaria do Governo. SEđấO DAS CÂMARAS MUNICIPAIS . 18

  22 – 1855.

  Setor de Documentos Avulsos Manuscritos.

  QUADRO 5: Chefes de legião e comandantes superiores da Guarda Nacional de Itapecuru (1838-1852) NOME OCUPAđấO ESTADO CIVIL PATENTES NA G. N. FUNđỏES NA G.N FUNđỏES NO PODER EXECUTIVO/ POLICIAL FUNđỏES LEGISLATIVA/ EXECUTIVA FUNđỏES NO PODER JUDICIÁRIO E POLICIAL OBSERVAđỏES

  2. Deputado provincial (1849)

  FONTES: Os dados referidos encontram-se principalmente nos documentos da Guarda Nacional (1838-1848; 1847-1855), mas complementadas por informações esparsas como nos documentos da Câmara Municipal, de juiz de paz e em jornais compreendidos no lapso temporal da pesquisa.

  1. Primeiro eleitor da paróquia de Itapecuru (1855)

  3. Suplente de Juiz municipal(1846)

  2. Delegado de Policia (1842-43-44 e 1846).

  1. Juiz de Paz (1841; 1843; 1845-46)

  1. Presidente da Câmara Municipal (1850-57)

  Comandante Superior do município de Itapecuru (1846- 53) Comandante Superior dos municípios de Itapecuru e Iguará (1853-54; 1859)

  Bernardino Freire Lavrador S/I Capitão (1842) Coronel (1847)

  3. Eleitor da freguesia de n. senhora da conceição em São Luis (1849) Venceslau

  2. Titulo de Cavaleiro da Ordem de Cristo.

  1. Participação da Guarda Rural em 1837

  3. Juiz municipal de Direito interino (1836)

  2. Juiz municipal (1836; 1841-42; 59)

  1. Juiz de paz (38; 40-41; 44;46)

  1. Vereador (1834; 1836-1839; 1842- 43)

  Joaquim José Gonçalves Lavrador Casado Coronel (1838) Chefe de Legião (1838-44)

  3. Diretor da Colônia Militar do Gurupi (1859- 66)

  2. Depositário geral na cidade de São Luis (1849;1854.)

  1. Prefeito Suplente em 1839 e 1841).

  3. Chefe de Legião (1844-46)

  1 a batalhão (1842- 43)

  2. Chefe do

  1. Batalhão de Cavalaria (1838- 42)

  2. Major (1842) 3. Ten. Cel.(1843).

  1. Capitão de Cavalaria (1838)

  Casado

  Altino Lellis de M. Rego Lavrador/ Negociante

  1.Capitão do Regimento de Milícia (1830) 2. Comendador.

  Juiz Municipal (1830) Suplente de Juiz municipal de Itapecuru (1842) S/I

  Prefeito da comarca de Itapecuru (1838- 1839; 1840; 1842)

S/I

  QUADRO 6: Oficiais da Guarda Nacional de Itapecuru (1838-1855) NOME OCUPAđấO PATENTES NA FUNđỏES NA FUNđỏES NO FUNđỏES FUNđỏES NO OBSERVAđỏES

G. N. G.N PODER LEGISLATIVA/ PODER EXECUTIVO/ EXECUTIVA JUDICIÁRIO E POLICIAL POLICIAL

  Jose Fortunato Lavrador

  1. Capitão Major

  1. S/I

  1. Vereador

  1. Suplente de

  1. Oficial Comandante de a Madail 1 batalhão (1842- 45) Delegado (1848) reformado da (1851-53)

  Guarda Nacional no

  2. Juiz de Paz (1843- posto de Major

  2.

  1844) Chefe de Legião (1853) (1847-48 )

  Jose Henriques Lavrador 1.

  1. S/I

  1. Vereador (1842-

  1. Juiz de paz (38; Ten. Cel.(1844) Comandante do a 1 batalhão Viana

  49) 40-41; 44;46) 2. Cel.(1847) (1844)

  2. Juiz municipal 2. (1836; 1841-42) Chefe de Legião

  (1846; 1850)

  3. Juiz de Direito a 3. interino (1836) e 4 Comandante

  Superior interino suplente (1849) (1847)

  4. Suplente de Juiz municipal(1846)

  5.Suplente de delegado (1850) Raimundo Jansen Lavrador 1.

  1. S/I

  1. Vereador (1833- 1 . Juiz Municipal

  1. Oficial Capitão (1846) Comandante do a de Castro Lima 2 batalhão 35; 1845-1849) (1838; 1842) reformado da 2.

  Major (1847) Guarda Nacional no (1850)

  2.Suplente de Juiz 3. Tenente a posto Coronel

  2. municipal(1846) e 3 Chefe de Legião

  Coronel (1847) (1853) (1850; 1852) suplente (1849) 4.

  Coronel (1850)

  2. Recebeu a

  2. Juiz de Paz (1864) comenda dos

  3. Delegado de Policia (1860) cavaleiros da ordem da Rosa (1864)

  1. Vereador (1850-1855; 1860; 1864)

  1. Vereador (1846- 1849)

FONTES: Os dados referidos encontram-se principalmente nos documentos da Guarda Nacional (1838-1848; 1847-1855), mas complementadas por informações esparsas

como nos documentos da Câmara Municipal, de juiz de paz e em jornais compreendidos no lapso temporal da pesquisa.

  Chefe do 1 a batalhão (1848- 1850) S/I

  Figueiredo Lima Lavrador

  Diretor da Casa de Educando Artífices (1867- 1870-74- 78; 83-84) Thomas Jansen de

  1. Juiz de Paz (1850) 1.

  2. Deputado provincial (1855;1858- 1859- 1864-1865)

  1. Escriturário do Tesouro Publico Provincial (1881- 82)

  Raimundo Jansen de Serra Lima Lavrador

  1 a batalhão (1859; 1864)

  2. Comandante do

  Chefe de Legião (1851- 53)

  2. Ten. Cel (1852) 1.

  2. Major (1849)

  1. Capitão (1849)

1. Ten. Cel.(1848) 1.

  CONSIDERAđỏES FINAIS

  De forma bastante sintética, o que se pode compreender com este trabalho sobre a Guarda Nacional no Maranhão, entre os anos de 1839 a 1855, nas paróquias de Alcântara e Itapecuru, foi que a instrumentalização política que essa instituição governamental possibilitou, mediante a inserção nas disputas políticas paroquiais, teve fundamental importância para a sua consolidação enquanto um braço institucional efetivo no interior do império, e relevância fundamental para a participação das elites políticas paroquiais na dinâmica política e nos espaços de poder no Estado brasileiro no Oitocentos.

  A Guarda Nacional também viria a representar um ponto de inflexão estrutural de uma política institucional nacional, baseando-se em lógicas e práticas clientelistas vigentes na gestão dos órgãos burocráticos, isto é, caracterizada por processos de lutas faccionais que perpassavam distintos níveis do arcabouço dos poderes políticos que configuravam o Estado brasileiro.

  Estudar a Guarda Nacional no Maranhão, portanto, constituiu uma oportunidade ímpar de observação das diferentes estratégias de reprodução de agentes e famílias no espaço de poder, assim como das formas que adquiriram as lutas políticas (faccionais) e os códigos (mediação, patronagem e patrimonialismo) operados pelas elites nas suas disputas pelo controle das paróquias no interior do império. Conflitos esses que exigiraam dos agentes envolvidos um diversificado rol de propriedades sociais (laços de parentescos, amizades, recursos econômicos, investimentos escolares, etc) que eram ativados na tentativa de garantir, por um lado, a hegemonia política nas comunidades, e, por outro, a possibilidade de construção de uma carreira política na esfera provincial, e, em alguns raros casos, em âmbito nacional.

  Evidenciou-se, deste modo, que a atuação na máquina burocrática local, viria a constituir, direta ou indiretamente, uma das principais estratégias de consolidação das lideranças políticas nas paroquiais. Ou seja, a afirmação da condição de liderança por intermédio de ocupação de postos de comando na Guarda Nacional, com a prerrogativa de distribuição de patentes, assim como a ingerência nas eleições para os cargos de vereança e juízes de paz e em possíveis indicações de nomes para a ocupação de cargos de delegados, foram alguns dos instrumentos de consolidação de notabilidade política tanto local quanto

  Para alguns outros agentes tratados na pesquisa aqui apresentada, a ocupação de cargos na Guarda Nacional e em outros postos políticos e burocráticos paroquiais representaram somente passos iniciais no avanço de uma carreira política que se estendeu ao plano provincial, e, excepcionalmente, até o âmbito nacional. Isso foi demonstrado na exposição do caso de José Jerônimo de Viveiros. Nesse, a ocupação de postos na Guarda Nacional foi uma etapa importante de carreira política, no que se refere às possibilidades efetivas de alcançar cargos e funções burocráticas e políticas de destaque em outras esferas governamentais, que se mostravam mais exigentes.

  Outro aspecto importante do presente trabalho foi perceber os variados interesses em jogo pelos grupos políticos locais, cujas realizações eram facilitadas ou possibilitadas via posto/posições de liderança na Guarda Nacional, uma vez que ela funcionava como meio para negociações e retribuições próprias das relações de interdependências políticas que os agentes estabeleciam no plano local. Como foi sublinhado anteriormente, o mecanismo de distribuição dos postos, patentes e funções da milícia era regido por uma lógica altamente discricionária e pessoalizada, e pautado pela necessidade de estruturação de uma complexa rede de alianças e reciprocidades, elemento essencial na política paroquial. A constituição, a administração e a ampliação dessas teias de laços, bem como a reconversão em facções políticas, permitiram aos notáveis locais, não somente ocuparem posições de destaque na instituição militar, mas também postos e atribuições na burocracia local e regional.

  Ainda que as atribuições primordiais de funcionamento da Guarda Nacional estivessem efetivamente nas mãos das elites paroquiais, outros aspectos políticos que estiveram presentes no bojo da organização daquela milícia era de foro exclusivo do governo provincial, e, nesse aspecto, foram também instrumentos de consolidação dos notáveis locais. O peso e a influência do governo provincial nas disputas políticas locais, conforme foi apontado no primeiro capitulo do trabalho, tornar-se-ia efetiva a partir da consolidação do governo imperial de D. Pedro II e o movimento de centralização política. Tal mudança da estrutura burocrática nacional afetaria diretamente a Guarda Nacional, sobretudo a partir de 1850, em que o modus operadi da milícia funcionava como elemento político nas paróquias. Isso se deu por duas razões: 1) a ratificação do governo central da posição de liderança de grupos paroquiais; 2) a importância para os notáveis da investidura do governo central, servindo como elemento simbólico fundamental de distinção e reafirmação de alguns protagonistas e suas facções sobre adversários e facções rivais.

  Consequentemente, os agentes escolhidos para ocuparem os postos de comando da Guarda Nacional nas paróquias de Alcântara e Itapecuru que pertenciam a facções políticas (locais e regionais), atuaram de diferentes formas como mediadores das demandas das paróquias junto à capital da província. Atuação essa marcada profundamente pelo amálgama de um princípio paternalista de ordenação do mundo social e de regras de conduta fundadas em códigos de honra que sedimentavam lealdades e hostilidades, comandando as relações de interdependências entre os notáveis locais e os outros grupos sociais, e a forma clientelística de ação daqueles agentes na esfera da política local.

  E o engajamento de forma diletante dos notáveis locais na organização da milícia nas cidades foi importante para arregimentação de uma força coercitiva, constituiu um dos principais braços de coação do Estado capaz de garantir " a manutenção da ordem e paz das províncias". Neste sentido, a análise da instrumentalização política da Guarda Nacional, no cenário de jogos e disputas por clientelas e redes políticas regionais e locais, assim como no empreendimento de coerção exercido pelo governo central sobre forças periféricas, abriu espaço para novas discussões, tanto na história quanto nas ciências sociais, sobre as complexas formas de organização e atuação de agentes políticos durante a formação do Estado Nacional brasileiro.

  ANEXOS

ANEXO I: Mapa do Maranhão

  

FONTE: MARANHÃO. Revista do Instituto histórico e geográfico brasileiro. 1922. Setor de Documentos de

códices. Arquivo Público do Estado do Maranhão

  

ANEXO II: Legiões e Corpos da Guarda Nacional no Maranhão em 1844

FONTE: MARANHÃO. Relatório do Presidente de Província do Maranhão de 1844. Setor de Documentos de códices.

  

Arquivo Público do Estado do Maranhão .

  

ANEXO III: Quadro de oficiais e comandantes da Guarda Nacional em Alcântara e

Itapecuru

  CAVALARIA 1.

  8. Tambor-mor ou corneta-

  7. Cabo

  Capitão 2. Tenente 3. Alferes 4. 1ª Sargento 5. 2ª Sargento 6. Forriel

  COMPANHIAS 1.

  Capitão 2. Tenente 3. Alferes 4. 1ª Sargento 5. 2ª Sargento 6. Forriel 7. Cabo 8. Tambor-mor ou corneta- mor

  COMPANHIAS 1.

  Sargento Ajudante 3. Sargento Quartel-mestre 4. Alferes Porta-Estandarte 5. Cirurgião -mor

   Major Comandante 2.

  ESTADO-MAIOR DE ESQUADRÃO DE

  INFANTARIA CAVALARIA ESTADO-MAIOR DE

  Tenente Coronel Chefe de Batalhão 2. Major 3. Ajudante 4. Alferes Porta-bandeira 5. Cirurgião Ajudante 6. Sargento Ajudante 7. Sargento Quartel-mestre 8. Tambor-mor ou corneta- mor

  ESTADO-MAIOR DE BATALHÃO 1.

  Major 3. Ajudante 4. Quartel-mestre 5. Cirurgião-mor

   Tenente Coronel Comandante 2.

  ESTADO-MAIOR DO CORPO DA CAVALARIA 1.

  Major 3. Quartel-mestre 4. Cirurgião-mor 5. Tambor-mor

  Coronel Chefe de Legião (em 1850, seria substituído pelo Coronel Comandante Superior) 2.

  LEGIÃO E/OU COMANDO SUPERIOR 1.

  mor

FONTES: BRASIL. Leis e Decretos. Lei s/n de 18 de agosto de 1831. Rio de Janeiro. Typographia Nacional. 1875. p.8-12;

Lei n.602 de 19 de setembro de 1850. Colleções de Leis do Império. Rio de Janeiro. Impressa Nacional. 1909. p.8-12.

  

ANEXO IV: População da província do Maranhão em 1861.

  

FONTE: MARANHÃO. Relatório do Presidente de Província do Maranhão de 1861. Setor de Documentos de códices.

  

Arquivo Público do Estado do Maranhão.

  REFERÊNCIAS

  a) Documentais BRASIL. Leis e Decretos. Lei s/n de 18 de agosto de 1831. Rio de Janeiro. Typographia Nacional. 1875.

  

BRASIL. Lei n.602 de 19 de setembro de 1850. Colleções de Leis do Império. Rio de Janeiro. Impressa

Nacional. 1909. MARANHấO. Secretaria do Governo. SEđấO D E JUÍZES DE PAZ . 18 32 . Setor de Documentos

  • – 185 Avulsos Manuscritos . Arquivo Público do Estado do Maranhão.

  MARANHÃO. Secretaria do Governo . SEđấO D E DELEGADO DE POLICIA . 184 2 – 18 48 . Setor de Documentos Avulsos Manuscritos. Arquivo Público do Estado do Maranhão.

  MARANHÃO. Secretaria do Governo. SEđấO D AS PREFEITURAS DE COMARCA . 184 1 . Setor de Documentos Avulsos Manuscritos. Arquivo Público do Estado do Maranhão. MARANHÃO. Secretaria do Governo. SEđấO DAS CÂMARAS MUNICIPAIS . 18

  22

  • – 1855. Setor de Documentos Avulsos Manuscritos.
  • MARANHấO. Secretaria do Governo. GUARDA NACIONAL. SEđấO DE CHEFE DE LEGIấO. 1838

    1848. Setor de Documentos Avulsos Manuscritos. Arquivo Público do Estado do Maranhão
  • MARANHấO. Secretaria do Governo. GUARDA NACIONAL. SEđấO DO COMANDO SUPERIOR. 1847

    1855. Setor de Documentos Avulsos Manuscritos. Arquivo Público do Estado do Maranhão.

  

MARANHÃO. Correspondências do Presidente de Província para o Ministério da Justiça. 1831-1842.

Setor de Documentos de códices. Arquivo Público do Estado do Maranhão.

  

MARANHÃO. Correspondências do Presidente de Província para os comandantes superiores. 1831-

1842. Setor de Documentos de códices. Arquivo Público do Estado do Maranhão. MARANHÃO. Coleção de leis da província do Maranhão (1838).

MARANHÃO. Livro de correspondência dos presidentes de província com o Ministério da Justiça.

1835-1841.

  

MARANHÃO. Relatório do Presidente de Província do Maranhão de 1861. Setor de Documentos de códices.

  Arquivo Público do Estado do Maranhão.

  

MARANHÃO. Relatório do Presidente de Província do Maranhão de 1844. Setor de Documentos de códices.

  Arquivo Público do Estado do Maranhão.

  

MARANHÃO. Revista do Instituto histórico e geográfico brasileiro. 1922. Setor de Documentos de códices.

  Arquivo Público do Estado do Maranhão

  b) Jornais

  

Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial. Belarmino de Matos (org.). Typografia do Progresso

(1839; 1850-1860). O Bentevi (1838).

  O Investigador Constitucional (1836).

Jornal Diário do Maranhão. (Disponível no site: http://memoria.bn.br/hdb/uf.aspx). Acesso 24 de

agosto de 2012.).

  O Publicador Maranhense (1841-1855). O Publicador Oficial (1831-1842).

  c) Bibliográficas ASSUNđấO. Matthias Rohrig. Exportação, mercado interno e crises de subsistência numa província brasileira: o caso do Maranhão, 1800-1860. Revista de Estudos, Sociedade e

  Agricultura. 2000. p.35.

  ________________________. Cabanos contra bem-te-vis: a construção da ordem pós- colonial no Maranhão (1820-1841). In. GOMES. Flavio dos Santos; PRIORE. Mary Del.

  Senhores dos rios. Rio de Janeiro. Elsevier. 2003.

  ________________________. Miguel Bruce e os "horrores da anarquia" no Maranhão. In. István Jancsó. Independência: história e historiografia. São Paulo. Editora Hucitec. 2005.

  BADIE, B.; HERMET, Guy.

  “Dinámicas huérfanas”. In: BADIE, Bertrand; HERMET, Guy.

  Política Comparada. México: Fondo de Cultura Económica. 1993.

  BOISSEVAIN, Jeremy. “Coaliciones”. In: FÉLIX, Requena Santos. Análisis de redes sociales. CIS-Siglo XXI, España, 2003. BOURDIEU, Pierre. “Introdução a uma sociologia reflexiva”. In. O poder simbólico. Lisboa-Rio de Janeiro. Difel-Bertrand Brasil, 1989. ________________. Razões Práticas: sobre a teoria da ação. São Paulo. Papirus Editora. 1996. BOURDIEU, Pierre. “Estratégias de reproducion y modos de dominación”. Colección Pedagógica Universitaria. 2002. BORRALHO. José Henrique de Paula. Uma Athenas equinocial: a literatura e a fundação de um Maranhão no Império brasileiro. São Luis. Edfunc. 2010. CAMPANTE. Rubens Goyatá. O Patrimonialismo em Faoro e Weber e a sociologia brasileira. Revista de Ciências Sociais - DADOS. Rio de Janeiro. 2003. CARVALHO. José Murilo de. Construção da Ordem e Teatro das Sombras. Rio de janeiro. Civilização brasileira. 2006. CASTRO, Celso. Pesquisando em Arquivo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2008. CASTRO, Jeanne Berrance de. A milícia Cidadã: a guarda nacional de 1831 a 1850. São Paulo. Ed. Nacional. 1979. CHAMBOREDON, Jean-Claude; PASSERON, Jean-Claude. Oficio de sociólogo. Petrópolis: Vozes, 2004. CHARLE, Christophe. “A prosopografia ou biografia coletivo: balanço e perspectivas”. In: HEINZ. Flávio M. Por uma outra história das elites. Rio de Janeiro. Editora FGV. 2006. CORADINI, Od aci Luiz. “As elites como objeto de estudo”. In: CORADINI, Odaci Luiz

  COSTA. Wilma Peres. A espada de Dâmocles: o exército, a guerra do Paraguai e a crise do império. São Paulo. Editora Hucitec. Unicamp. 1996. COUTINHO. Milson. O Maranhão no Senado: notas bibliográficas. São Luis. Sioge. 1986. _________________. O poder legislativo no Maranhão: (1830-1930). São Luis. Edição da Assembleia Legislativa do Maranhão. 1981. __________________. O Maranhão no Senado: notas bibliográficas. São Luis. Sioge. 1986. __________________. Fidalgos e barões: uma história da nobiliarquia luso-maranhense. São Luis. Instituto GEIA. 2005. DÉLOYE. Yves. Sociologia histórica do político. São Paulo. EDUSC. 1999. DIAS. Maria Odila Leite da Silva. A interiorização da metrópole e outros estudos. São Paulo. Alameda. 2005. DOLHNIKOFF. Miriam. O pacto imperial: origens do federalismo no Brasil do século XIX. São Paulo. Editora Globo. 2005. ELIAS, Norbert. O processo civilizador: formação do Estado e Civilização. Rio de janeiro. Jorge Zahar editora. 1993. ______________. Sociedade de Corte: Investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia de corte. Rio de janeiro. Jorge Zahar editora. 1993. _______________. Mozart: Sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar. 1994. _______________. Introdução à sociologia. Lisboa. Edições 70. 2008. ENGEL. Magali Gouveia. Verbete: Bernardo Pereira de Vasconcelos. In.VAINFAS (dir). Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889).Editora Objetiva. Rio de Janeiro. 2002. _____________________. Verbete: Balaiada. In.VAINFAS (dir). Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889). Editora Objetiva. Rio de Janeiro. 2002. FAORO. Raymundo. Os donos do poder: a formação do patronato político brasileiro. São Paulo. Editora Globo. 2008. FARIA. Maria Auxiliadora. A guarda nacional em Minas (1831-1853). Dissertação apresentada ao Departamento de História, setor de Ciências Humanas e Artes na Universidade Federal do Paraná. Curitiba. 1977. FARIA. Regina Helena Martins de. Trabalho escravo e trabalho livre na crise da

  

agroexportação escravista no Maranhão.(curso de especialização em história econômica

regional pelo Departamento de Historia da Universidade Federal do Maranhão). São Luis.

  UFMA. 1998. ______________________________. Em nome da ordem: a constituição de aparatos policiais no universo luso-brasileiro (séculos XVII e XIX). Tese (Doutorado em História) - Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco. Recife. 2007. FELDMAN-BIANCO.Bela. RIBEIRO. Gustavo Lins (orgs). Antropologia e poder: contribuições de Eric R. Wolf. Org. e. São Paulo. Editora Unicamp, 2003.

  ______________________. Antropologia das sociedades contemporâneas. Métodos. São Paulo: Editora Unesp, 2010.

  FERTIG, André Atila. Clientelismo político em tempos belicosos: a Guarda Nacional da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul na defesa do Império do Brasil. Santa Maria: Editora da UFSM, 2010.

  FRANCO. Maria Sylvia de Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. São Paulo. Editora Unesp. 1997.

  GRAHAM, Richard. Clientelismo e política no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro. Editora UFRJ. 1997.

  GRINBERG. Keila. Verbete: Poder moderador. In. VAINFAS. Ronaldo (dir). Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889). Editora Objetiva. Rio de Janeiro. 2002. ______________. Verbete: Conselho de Estado. In. VAINFAS. Ronaldo (dir). Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889). Editora Objetiva. Rio de Janeiro. 2002. _______________. Verbete: Justiça. In. VAINFAS. Ronaldo (dir). Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889). Editora Objetiva. Rio de Janeiro. 2002. ______________. Verbete: Partidos. In. VAINFAS (dir). Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889). Editora Objetiva. Rio de Janeiro. 2002. G

  RILL, Igor Gastal. “Especialização política: bases sociais, profissionalização e

  configurações de apoios

  ”. In: SEIDL, Ernesto; GRILL, Igor Gastal. As Ciências Sociais e os espaços da Política no Brasil. Rio de Janeiro: Editora da FGV. 2013. GRYNSZPAN. Mario. Os idiomas da patronagem: um estudo da trajetória de Tenório Calvacanti. Revista Brasileira de Ciências Sociais. Rio de Janeiro, n.14, ano 5, 1990. HEINZ. Flávio. Por outra história das elites. Rio de Janeiro. Editora FGV.2006. _____________. História social de elites. São Leopoldo. OIKOS. 2011. JANCSÓ. István. Independência: história e historiografia. São Paulo. Editora Hucitec. 2005. LANDÉ. Carl. A base diádica do clientelismo. In. Schimidt; s w. et al. (eds.) Friends, followers and factions. Berkeley. University of California Press. 1977, p. xiii-xxxviii. LEAL. Vitor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. São Paulo. Editora Companhia das letras. 2012. LEAL. Antonio Henriques. Pantheon Maranhense: Ensaios biographicos dos maranhenses illustres já fallecidos. Tomo II. Imprensa Nacional. Lisboa. 1874. LIMA. Edyene Moraes dos Santos. Honradas famílias: poder e política no Maranhão do século XIX (1821-1823). Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós- Graduação em História d, do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal da Paraíba. João Pessoa. 2009. MARQUES. Cesar Augusto. Dicionário histórico-geográfico da província do Maranhão. São Luís. Edições AML. 2008. MARTINS. Maria Fernanda. A velha arte de governar: estudo sobre política e elites a partir do Conselho de Estado (1842 - 1889). Rio de Janeiro. Arquivo Nacional. 2007. MAYER. Adrian C. A importância dos quase grupos no estudo das sociedades complexas. In: Bela Feldman-Bianco (org.). Antropologia das sociedades contemporâneas. Métodos. São Paulo: Editora Unesp, 2010. MENDES, Fábio Faria. Recrutamento militar e construção do estado no Brasil imperial. MESQUITA. Francisco de Assis Leal. Vida e morte da economia algodoeira do

  

Maranhão: uma análise das relações de produção na cultura do algodão (1850-1890). São

Luis. Edufma. 1987.

  MOTA. Antonia Mota. A dinâmica colonial portuguesa e as redes de poder local na

  

capitania do Maranhão. Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em

História da Universidade Federal de Pernambuco. Recife. 2007.

  QUEIROZ. Maria Isaura Pereira de. O mandonismo local na vida política brasileira e outros ensaios. São Paulo. Editora Alfa-Omega. 1976. REIS. Flavio Antonio Moura. Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão (1850-1930). São Luis. Litograf. 2007. SODRÉ. Nelson Werneck. Panorama do Segundo Império. 2. ed. Rio de Janeiro: GRAPHIA. 2004. SALDANHA. Flavio Henrique Dias. Os oficiais do povo: a guarda nacional em Minas Gerais oitocentista, 1831-1850. São Paulo. Anna lume, 2008. SCHWARZ. Roberto Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo. Editora 34, 2000. URICOECHEA. Fernando. O minotauro imperial: a burocratização do estado patrimonial brasileiro no século XIX. São Paulo, Difel, 1978.

  VAINFAS. Ronaldo (org). Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889). Editora Objetiva. Rio de Janeira. 2002.

  VARGAS. Jonas Moreira. Entre a paróquia e a corte: a elite política do Rio Grande do Sul (1850-1889). Santa Maria. Ed. da UFSM. 2010. ____________________. "Um negócio entre famílias". A elite política do rio Grande do Sul (1868 - 1889). In. HEINZ. Flavio (org.). História social de elites. São Leopoldo. OIKOS. 2011.

  VIVEIROS. Jerônimo de. Alcântara no seu passado econômico, social e político. In: Revista de Geografia e História. IBGE. 1950. ____________________. Uma luta política no segundo reinado. IHGM. São Luis. 1952. WACQUANT. Loïc. O Mistério do Ministério: Pierre Bourdieu e a política democrática. Rio de Janeiro. Revan. 2005. WEBER. Max. Ciência e política: duas vocações. São Paulo. Editora Cultrix. 1970. WOLF, Eric. Antropologia e poder. São Paulo. Editora Unicamp. 2003.

Novo documento

Tags

Documento similar

UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS ANTÔNIO MARCOS GOMES
0
15
165
RENATO KERLY MARQUES SILVA ACADEMIA MARANHENSE DE LETRAS: Produção literária e reconhecimento de Escritoras maranhenses
0
0
107
UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS PALOMA SÁ DE CASTRO CORNELIO
0
3
79
UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS DIOGO GUALHARDO NEVES
0
0
193
UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIENCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS KARLA SUZY ANDRADE PITOMBEIRA
0
0
124
UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS BRUNO LEONARDO BARROS FERREIRA
0
1
111
UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS ANA CAROLINE PIRES MIRANDA
0
0
162
UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS CURSO DE MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS EMERSON RUBENS MESQUITA ALMEIDA
0
0
150
UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS
0
0
134
UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS CURSO DE MESTRADO MARCO ANTÔNIO MARTINS DA CRUZ
0
0
144
UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS RENATA DESTERRO E SILVA DA CUNHA VIEIRA
0
0
105
UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMADE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS ALLYSON DE ANDRADE PEREZ
0
2
171
UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIENCIAS HUMANAS- CCH PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS
0
2
140
UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS
0
2
118
PAULO ROBERTO MELO SOUSA MUDANÇA E RECONSTRUÇÃO CULTURAL DAS PERFORMANCES CÔMICAS DO BUMBA-MEU-BOI DE ALCÂNTARA
0
1
135
Show more