DA OBRA DE PROUST EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Livre

0
0
130
9 months ago
Preview
Full text

  

CRIAđấO E SUBLIMAđấO:

UMA LEITURA INSPIRADA EM FREUD E RICOEUR

DA OBRA DE PROUST EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

  

DOUTORADO : FILOSOFIA

TALITHA FERRAZ DE SOUZA CRIAđấO E SUBLIMAđấO: UMA LEITURA INSPIRADA EM FREUD E RICOEUR

  Tese apresentada à banca examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em Filosofia, sob a orientação da Profª Drª Jeanne-Marie Gagnebin.

  Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

   Banca Examinadora

____________________________________

____________________________________

____________________________________

____________________________________

____________________________________

  

RESUMO

  Pensada como uma reflexão sobre a criação na arte, especialmente na literatura, a partir do conceito psicanalítico de sublimação, esta tese propõe-se a uma leitura da obra de Proust Em Busca do Tempo Perdido, visando a elucidação deste processo de criação.

  O conceito de sublimação, embora passível de múltiplas leituras, permite a compreensão da criação na arte como um processo de “flexibilização” em relação a fixações originárias compulsivas, o que pode ser compreendido na obra proustiana como uma “busca do tempo perdido” que possibilita, através de um “tempo reencontrado”, a escrita literária.

  Palavras-chave: criação, sublimação, Psicanálise, Ricoeur, Proust.

  

ABSTRACT

  As a reflection on the creation in art, especially in literature, starting from the psychoanalitic concept of sublimation, this thesis presents for consideration the reading of Proust's work: In Search of Lost Time, aiming on the elucidation of this process of creation.

  The concept of sublimation, although subject to multiple readings, allows the comprehension of the creation in art as a process of "flexibilization" in relation to compulsive originary fixations, that can be understood in Proust's work as a "search of lost time" making possible through a "re-encountered time” its literary writing.

  

Aos meus pais,

José Onofre de Souza (in

memoriam),

pelo amor aos livros e à

  

Daisy Lagatta de Souza,

por tudo,

mas hoje, por estar tão

viva

.

  

AGRADECIMENTOS

À Comissão de Pesquisa do CEPE da PUCSP, pelo auxílio concedido de março de 2004 a março de 2005.

  À Profª Drª Jeanne-Marie Gagnebin, minha orientadora, pelo estímulo a uma

orientanda por vezes desanimada, pela sua acolhida pessoal e intelectual, e

principalmente pelas suas observações sempre sensíveis e instigantes.

  À Profª Drª Glória Carneiro do Amaral e ao Profº Drº Peter Pál Pelbart pela leitura, comentários e sugestões feitos no Exame de Qualificação.

  À Sybil Safdié Douek, minha querida amiga, principalmente pela sua presença

constante, mas também pela ajuda inestimável no cotejamento do texto original em

francês com a tradução, inclusive por seus comentários, que foram apenas

parcialmente transcritos neste trabalho.

  À Julia de Souza Delibero Angelo, minha filha querida, não só por seu carinho

e preocupação (exagerada) sempre presentes, mas também pelos seus argutos

comentários (Por exemplo, sobre fazer uma tese ser um processo solitário: “não sei

porque você se queixa de solidão: além da Jeanne-Marie, a Gugu lê, a Denize lê, a

Ilana lê, a Graciela lê ...”).

  A todos os meus amigos, pelo incentivo, mas especialmente aos que, com sua

leitura (os que a Julia citou, mas agora dando o nome aos bois) puderam, não só

interferir no meu texto, mas principalmente pelo seu encorajamento, me fazer persistir

na sua conclusão: Sybil Safdié Douek, mais uma vez (juro que é a última!), Denize

Rubano, Ilana Amaral e Graciela Codina.

  Por último, mas não menos importante, agradeço ao Rodney Franco de Lima,

pela sua paciência taoista com a minha inabilidade com os assuntos da informática, e

pela dedicação ao meu trabalho.

  

Índice

Introdução......................................................................................................... 1

Capítulo I

A Sublimação.................................................................................................... 8

Capítulo II

Psicanálise e Literatura ................................................................................. 27

Capítulo III

O Início da Obra - Numa Xícara de Chá........................................................ 38

Capítulo IV

A História Invisível de Uma Vocação............................................................ 47

I – Do Quarto à Biblioteca........................................................................... 48

  

II – Ainda na Biblioteca – “Um Romance Familiar” .................................. 60

  

III – No Salão (e na cozinha!) – A Natalidade ............................................ 71

Capítulo V

“Frente à Obra” - Um Sujeito Modesto......................................................... 79

Capítulo VI

Criação e Sublimação .................................................................................... 88

Considerações Finais .................................................................................. 107

Referências Bibliográficas .......................................................................... 118

Introdução

  “Outra técnica para afastar o sofrimento reside no emprego dos deslocamentos de libido que nosso aparelho mental possibilita e através dos quais sua função ganha tanta flexibilidade. (...) Obtém-se o máximo quando se consegue intensificar suficientemente a produção de prazer a partir das fontes do trabalho psíquico e intelectual. Quando isso acontece, o destino pouco pode fazer contra nós. Uma satisfação desse tipo, como, por exemplo, a alegria do artista em criar, em dar corpo às suas fantasias, ou a do cientista em solucionar problemas ou descobrir verdades, possui uma qualidade especial que, sem dúvida, um dia poderemos caracterizar em termos metapsicológicos.” 1 Pensada como uma reflexão sobre a criação na arte, nos propusemos

  nesta tese a empreender uma leitura do texto de Proust, Em Busca do Tempo Perdido, a partir do conceito psicanalítico de sublimação.

  Uma primeira questão diz respeito à escolha da obra de Proust como objeto da leitura proposta neste trabalho, leitura esta, enfatizamos, orientada para a questão da criação.

  Em Busca

  2

  constitui-se na verdade, como um exemplo privilegiado, para esta reflexão, por ser o processo de criação exatamente seu tema, como comenta Leda Tenório da Motta:

  “Sherazade abrindo nas Mil e uma noites a página do conto em que vira contista, esta (Em Busca do Tempo Perdido) é igualmente a história de um texto.” 3 1 FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora Imago, vol. XXI, 1987, p. 98. 2 A partir deste ponto, utilizaremos a abreviatura Em Busca para a obra de Proust. 3 O processo de criação tematizado na obra, permite, e este é outro motivo para a escolha, uma aproximação com o conceito de sublimação, já que este pressupõe, como veremos, uma via regressiva, uma “busca do tempo perdido” também, pela importância que o “retorno do recalcado” representa no processo de sublimação.

  Em relação ao conceito de sublimação, nos interessa apontar o horizonte no qual se inscreve, na tentativa de justificar nossa escolha.

  Como fica claro na obra O Mal-Estar na Civilização, é a questão da

  4

  busca da felicidade, propósito e intenção da vida, do ponto de vista humano , a questão de fundo sobre a qual o conceito de sublimação será pensado:

  “Voltar-nos-emos, portanto, para uma questão menos ambiciosa, a que se refere àquilo que os próprios homens, por seu comportamento, mostram ser o propósito e a intenção de suas vidas. O que pedem eles da vida e o que desejam nela realizar? A resposta mal pode provocar dúvidas. Esforçam-se para obter felicidade; querem ser felizes e assim 5 permanecer (...)”

  E apesar de considerar este projeto temerário (“Ficamos inclinados a dizer que a inten(ção de que o homem seja ‘feliz’ não se acha incluído no plano

  6

  da ‘Criação’.”) , Freud considera que não há como nos afastarmos dele – o

  7 Princípio do Prazer, e mais tarde o Princípio da Realidade, é o que nos move , 4 segundo a Psicanálise.

  

A questão que Freud levanta, é sobre este propósito, mas referido àquilo que os próprios

homens mostram, por seu comportamento, como sendo sua intenção; e não sobre a questão

5 mais geral “do propósito da vida humana”, do ponto de vista da religião. 6 FREUD, Sigmund. Op. cit., p. 94. 7 Idem, p. 95.

  

O que muitas vezes não é notado, é que o princípio da realidade ainda busca o prazer, ou a

satisfação, segundo Laplanche:

  A citação escolhida como epígrafe desta Introdução, traz a possibilidade

  8

  da sublimação como uma técnica “para afastar o sofrimento” (ao lado de outras, como a “intoxicação”, “o aniquilamento dos instintos” como na ioga, a loucura individual ou “os delírios de massa” – por exemplo a religião – e a que Freud se refere logo após a sublimação: “a fruição das obras de arte”, obtida

  9 através da fantasia) .

  Mas como fica evidente na citação – “o destino pouco pode fazer contra nós” –, a sublimação representa um recurso poderoso, que produz satisfação e alegria genuínas, a partir da criação na arte ou na ciência – os dois exemplos privilegiados por Freud –, e que configuram uma possibilidade não só importante para o indivíduo, mas fundamental para a Cultura.

  Dedicamos o 1º capítulo desta tese a uma discussão sobre o conceito de sublimação, na qual foi decisiva a leitura do texto de Joel Birman

  10 “Fantasiando Sobre a Sublime Ação” .

  A seguir, abordamos as relações entre literatura e Psicanálise, no capítulo de mesmo nome, introdutório à leitura propriamente dita da obra proustiana, a partir do capítulo “O Início da Obra – Numa Xícara de Chá”.

  Este capítulo foi também o primeiro esboçado, inicialmente um pequeno texto apresentado ao final de uma das disciplinas cursadas no Programa de Filosofia para obtenção dos créditos do Doutorado, no qual o que nos moveu

  

(LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J.B. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Livraria Martins

8 Fontes, 1988, p. 470).

  Sobre a busca da felicidade, Freud considera que:

“Essa empresa apresenta dois aspectos: uma meta positiva e uma meta negativa. Por um

lado, visa a uma ausência de sofrimento e de desprazer; por outro, à experiência de intensos

sentimentos de prazer. Em seu sentido mais restrito, a palavra ‘felicidade’ só se relaciona a

9 esses últimos.” (FREUD, Sigmund. Op. cit., p. 94).

  Idem, p. 96, 97, 98, 99 e 100. foi o famoso episódio de Em Busca, no qual Proust nomeia explicitamente o termo “felicidade”, em relação à sensação de saborear a madeleine mergulhada na taça de chá fumegante (“E recomeço a me perguntar qual poderia ser esse estado desconhecido, que não trazia nenhuma prova lógica,

  11 mas a evidência de sua felicidade” ).

  Nos pareceu vislumbrar, neste momento, uma relação entre arte e felicidade (intitulamos nosso Projeto inicial “A Arte Como Possibilidade de Felicidade”), que continuamos a considerar como existente, mas que não era tão direta como pensamos a partir desta primeira leitura.

  O episódio da madeleine em si, concluímos por fim, quase nada nos diz sobre o processo de criação pela arte, e seu narrador também não se contenta com ela, o que indica o famoso parênteses ressaltado por Ricoeur em um texto que comentaremos adiante: “embora ainda não soubesse, e tivesse de deixar para muito mais tarde tal averiguação, por que motivo aquela lembrança me

  12

  tornava tão feliz.” Esta averiguação, que nos parece constitutiva do processo de criação, não por acaso, só acontece tardiamente em Em Busca, ao seu final, quando os temas da morte e do esquecimento se impõem, e é este enfrentamento que transforma a narração, segundo observação de Jeanne-Marie Gagnebin, em obra de arte:

  “Só se tornou uma obra de arte, isto é uma criação que tem a ver com a verdade, porque se confronta com as dificuldades dessas revivências felizes, porque toma a sério a presença da resistência e do esquecimento, em última instância a presença do tempo e da morte. A elaboração estética e reflexiva, descrita nos parágrafos anteriores no 11 seu duplo movimento de concentração e de distração, é imprescindível

PROUST, Marcel. Du côte de chez Swann. Volume I de: À la recherche du temps perdu.

  Paris: Flammarion, 1987. Tradução de Mário Quintana: No Caminho de Swann. São Paulo, Editora Globo, 2001 (14ª edição), p. 49. (Du côte de chez Swann: “Et je recommence à me demander quel pouvait être cet état inconnu, qui n’apportait aucune preuve logique, mais justamente porque não há reencontro imediato com o passado, mas sim sua lenta procura, cheia de desvios, de meandros, de perdas que as frases proustianas mimetizam, atravessando as numerosas, diversas, 13 irregulares e heterogêneas camadas do lembrar e do esquecer.”

  Ficou evidenciado que a questão da criação nos impunha uma leitura mais abrangente da obra de Proust, para a qual foram fundamentais dois textos de Paul Ricoeur.

  O primeiro deles, a que já nos referimos (sem nomeá-lo), “Em Busca do

  14 Tempo Perdido – O Tempo Travessado” determinou uma mudança na

  compreensão da obra, como também já comentamos. Além disto, inspirou um longo capítulo intitulado “A História Invisível de Uma Vocação”, em que tentamos explorar algumas possibilidades de interpretação de certas passagens de Em Busca, que a leitura do texto de Ricoeur nos suscitou.

  O segundo texto de Ricoeur que nos influenciou, “A Identidade

  de Proust, constitui um sujeito narrativo (no capítulo “Frente à Obra – Um Sujeito Modesto”, abordamos algumas questões ligadas a esta noção) que

  16

  consegue ao final, para usar uma expressão machadiana : “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência”. Marcel, o herói de Em

  

Busca, não é nem mesmo velho, mas doente e frágil, convivendo com

  presságios de morte, o que o coloca numa situação semelhante ao do narrador 13 de Dom Casmurro. Mas se este inicia sua narração por esta motivação (“atar

  

GAGNEBIN, Jeanne-Marie. O rumor das distâncias atravessadas. Revista do Departamento

14 de Teoria Literária. nº 22, Campinas: UNICAMP, p. 9.

  

RICOEUR, Paul. A la Recherche du temps perdu: le temps traversé. In: Temps et récit II – La

configuration dans le récit de fiction. Paris: Seuil, 1984. Tradução de Marina Appenzeller: Em

busca do tempo perdido: o tempo travessado. In: Tempo e narrativa – Tomo II. Campinas:

Papirus, 1995. Não podemos deixar de mencionar a impropriedade da tradução da

expressão distance traversée por “distância travessada”, em vez de “distância atravessada”

15

(“travessada” simplesmente não existe em português ou pelo menos não é dicionarizada).

  

RICOEUR, Paul. A Identidade Narrativa. [L’Identité Narrative, In: Revista Esprit nº 7-8 (juillet- as duas pontas...”), não temos apenas, ao final de Em Busca, um projeto de uma obra ainda não realizada, mas uma obra acabada sobre o processo de criação, com todas as vicissitudes, confrontos e sofrimentos próprios deste processo, e também de alegria, prazer e consolação que a obra de arte pode proporcionar (não só ao seu autor, mas também, ao “amador”).

  Finalmente, para o último capítulo, intitulado “Criação e Sublimação”, o

  17

  texto de Franklin Leopoldo e Silva, “Bergson, Proust – Tensões do Tempo” , com o qual nos deparamos ao final da elaboração da tese, foi decisivo, permitindo que, a partir de algumas considerações contidas no texto, esboçássemos algumas formulações conclusivas.

  Uma última palavra, que diz respeito ao conceito principal abordado nesta tese, o de sublimação (e que veremos ser bastante controverso).

  Num surpreendente comentário, feito num texto de 1910 (em que o conceito não havia ainda “amadurecido”), Freud termina suas Cinco Lições com uma “admoestação” contra os possíveis excessos da sublimação. Depois de observar que:

  “A plasticidade dos componentes sexuais, manifesta na capacidade de sublimarem-se, pode ser uma grande tentação a conquistarmos maiores frutos para a sociedade por intermédio da sublimação contínua e cada vez mais intensa. Mas assim como não contamos transformar em trabalho senão parte do calor empregado em nossas máquinas, de igual modo não devemos esforçar-nos em desviar a totalidade da energia do instinto sexual da sua finalidade própria. Nem o conseguiríamos. E se o cerceamento da sexualidade fôr exagerado, 18

trará consigo todos os danos duma exploração abusiva.”

17 Freud conclui:

  

SILVA, Franklin Leopoldo e. Bergson, Proust – Tensões do Tempo. In: Tempo e História. São

18 Paulo: Companhia das Letras, 1992.

  “Não sei se da parte dos senhores considerarão como presunção minha a admoestação com que concluo. Atrevo-me apenas a representar indiretamente a convicção que tenho, narrando-lhes uma anedota já antiga, cuja moralidade os senhores mesmo apreciarão. A literatura alemã conhece um vilarejo chamado Schilda, de cujos habitantes se contam todas as espertezas possíveis. Dizem que possuíam êles um cavalo com cuja fôrça e trabalho estavam satisfeitíssimos. Uma só coisa lamentavam: consumia aveia demais e esta era cara. Resolveram tirá-lo pouco a pouco dêsse mau costume, diminuindo a ração de alguns grãos diàriamente, até acostumá-lo à abstinência completa. Durante certo tempo tudo correu magnìficamente; o cavalo já estava comendo apenas um grãozinho e no dia seguinte devia finalmente trabalhar sem alimento algum. No outro dia amanheceu morto o pérfido animal; e os cidadãos de Schilda não sabiam explicar por quê.

  Nós nos inclinaremos a crer que o cavalo morreu de fome e que sem certa ração de aveia não podemos esperar em geral trabalho de 19 animal algum.”

  Esta tão pouco presunçosa “admoestação” com que Freud conclui seu texto, podemos dizer que se coloca na verdade a favor da vida, e não contra a sublimação.

  Com a nossa escolha do conceito, para a compreensão do processo de criação, não pretendemos glorificá-lo: a sublimação não deve (e não pode) sobrepor-se à vida. Questão importante tematizada na obra de Proust, quando o narrador descobre que a vida (“minha vida passada”), é a “matéria da obra

  20

  literária”

  19 20 Idem, p. 50-51.

  

PROUST, Marcel. Le temps retrouvé. Volume VIII de À la recherche du temps perdu. Paris:

Gallimard, Livre de Poche, 1954. Tradução de Lúcia Miguel Pereira: O Tempo Redescoberto,

Capítulo I A Sublimação

  “A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós; proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas. ‘Não podemos passar sem contruções auxiliares’, diz-nos Theodor Fontane. Existem talvez três medidas desse tipo: derivativos poderosos, que nos fazem extrair luz de nossa desgraça; satisfações substitutivas, que a diminuem; e substâncias tóxicas, que nos tornam insensíveis a ela. Algo desse tipo é indispensável. Voltaire tinha os derivativos em mente quando terminou Candide com o conselho para cultivarmos nosso próprio jardim, e a atividade científica constitui também um derivativo dessa espécie. As satisfações substitutivas, tal como as oferecidas pela arte, são ilusões, em contraste com a realidade; nem por isso, contudo, se revelam menos eficazes psiquicamente, graças ao papel que a fantasia assumiu na vida mental.” 21 Nesta citação de O Mal-Estar, Freud afirma que, a fim de suportar a

  vida, existem medidas paliativas “que não podemos dispensar”, entre elas “derivativos poderosos que nos fazem extrair luz de nossa desgraça”

  22 Freud 21 FREUD, Sigmund. Op. cit., p. 93. 22 No texto original não existe esta expressão (“extrair luz”). A frase em questão poderia ser traduzida (tradução proposta por Rafael Ventura, a quem agradeço) mais própriamente por “distrações poderosas que fazem com que não demos tanto valor a nossa miséria.” O trecho citado como epígrafe em alemão é o que se segue: Das Leben, wie es uns auferlegt ist, ist zu schwer für uns, es bringt uns zuviel Schmerzen, Enttäuschungen, unlösbare Aufgaben. Um es zu ertragen, Können wir Linderungsmittel nicht entbehren. (Es geht nicht ohne Hilfskonstruktionen, hat uns Theodor Fontane gesagt.) Solcher Mittel gibt es vielleicht dreierlei: mächtige Ablenkungen, die uns unser Elend geringschätzen lassen, Ersatzbefriedigungen, die es verringern, Rauschstoffe, die uns für dasselbe unempfindlich machen. Irgend etwas dieser Art ist unerlässlich. Auf die Ablenkungen zielt Voltaire, wenn er seinen “Candide” in den Rat ausklingen lässt, seinen Garten bearbeiten; solche eine Ablenkung ist auch die wissenschafltiche Tätigkeit. Die Ersatzbefriedigungen, wie die Kunst sie bietet, sind gegen die Realität Illusionen, darum cita Voltaire para ilustrar este ponto, concluindo que a ciência é um derivativo desta espécie.

  A seguir, na citação, Freud fala explicitamente da arte, exemplo do que categoriza como “satisfações substitutivas”, que “são ilusões”, mas eficazes psiquicamente, nesta tarefa de suportar a vida, “graças ao papel que a fantasia assumiu na vida mental”.

  Comumente, considera-se que nestes exemplos de sublimação – pois, como veremos, é deste processo que se trata –, haveria uma valoração em favor da ciência, exemplo privilegiado em detrimento da arte, ilusão consoladora e valiosa, mas ilusão (e sem dúvida, em vários textos de Freud, pode ser percebida esta apreciação).

  No entanto, algo parece não se encaixar nesta categorização. Por que cargas d’água Freud citaria Voltaire, um filósofo, em relação a uma obra literária que costuma ser assimilada a um gênero específico, “o conto filosófico”, e cujo conteúdo nos exorta a “cultivar o próprio jardim”, para afinal ilustrar o que chama de “derivativos poderosos”, cujo maior exemplo seria a ciência?

  Ou seja, por que Freud não usa, para ilustrar este ponto, um dos inúmeros exemplos gloriosos da própria ciência de que sua época era pródiga, e ao invés cita uma obra literária de um filósofo?

  Uma leitura atenta do texto dissipa estas questões, pois Freud delimita claramente o âmbito do processo de sublimação:

  “Obtêm-se o máximo quando se consegue intensificar suficientemente a produção de prazer a partir das fontes do trabalho psíquico e intelectual. Quando isso acontece, o destino pouco pode fazer contra nós. Uma satisfação desse tipo, como, por exemplo, a alegria do artista em criar, em dar corpo às suas fantasias, ou a do cientista em solucionar sem dúvida, um dia poderemos caracterizar em termos 23 metapsicológicos.”

  Ou seja, a sublimação corresponde à criação, em qualquer âmbito artístico ou científico, e que se diferencia das anteriormente denominadas “satisfações substitutivas”, e que a seguir revelam-se como um processo passivo, de “fruição”:

  “Enquanto esse procedimento já mostra claramente uma intenção de nos tornar independentes do mundo externo pela busca da satisfação em processos psíquicos internos, o procedimento seguinte apresenta esses aspectos de modo ainda intenso. Nele, a distensão do vínculo com a realidade vai mais longe; a satisfação é obtida através de ilusões, reconhecidas como tais, sem que se verifique permissão para que a discrepância entre elas e a realidade interfira na sua fruição. A região onde essas ilusões se originam é a vida da imaginação; na época em que o desenvolvimento do senso de realidade se efetuou, essa região foi expressamente isentada das exigências do teste de realidade e posta de lado a fim de realizar desejos difíceis de serem levados a termo. À frente das satisfações obtidas através da fantasia ergue-se a fruição das obras de arte, fruição que, por intermédio do 24 artista, é tornada acessível inclusive àqueles que não são criadores.”

  Voltemos à citação de Candide, citação aliás que exorta ao trabalho (“cultivar o próprio jardim” sem dúvida tornou-se posteriormente uma metáfora), já que no contexto do conto, trata-se de cultivar mesmo um jardim.

  Sobre a questão do trabalho, diz Freud (numa nota de rodapé):

  “Quando numa pessoa não existe uma disposição que prescreva imperativamente a direção que seus interesses na vida tomarão, o trabalho profissional comum, aberto a todos, pode desempenhar o papel a ele atribuído pelo sábio conselho de Voltaire. (...) Nenhuma outra 23 técnica para a conduta da vida prende o indivíduo tão firmemente à Idem, p. 98. realidade quanto a ênfase concedida ao trabalho, pois este, pelo menos, fornece-lhe um lugar seguro numa parte da realidade, na comunidade humana. A possibilidade que essa técnica oferece de deslocar uma grande quantidade de componentes libidinais, sejam eles narcísicos, agressivos ou mesmo eróticos, para o trabalho profissional, e para os relacionamentos humanos a ele vinculados, empresta-lhe um valor que de maneira alguma está em segundo plano quanto ao de que goza como algo indispensável à preservação e justificação da existência em sociedade. A atividade profissional constitui fonte de satisfação especial, se for livremente escolhida, isto é, se, por meio de sublimação, tornar possível o uso de inclinações existentes, de impulsos instintivos persistentes ou constitucionalmente reforçados. No entanto, como caminho para a felicidade, o trabalho não é altamente prezado pelos homens. Não se esforçam em relação a ele como o fazem em relação a outras possibilidades de satisfação. A grande maioria das pessoas só trabalha sob a pressão da necessidade, e essa natural aversão humana 25 ao trabalho suscita problemas sociais extremamente difíceis.”

  Freud hesita em considerar o trabalho como possibilidade de sublimação, já que em sua época (e também na nossa) o que prevalece é o

  26

  trabalho alienado . Mas, se na sublimação “se consegue intensificar suficientemente a produção de prazer a partir das fontes do trabalho psíquico e intelectual”, por que, afinal, mesmo em relação ao “livremente escolhido”, “não

  27 se costuma fazer referência ao prazer que porventura ele proporcione?”.

  Mesmo o trabalho “intelectual” ou “mental”, muitas vezes também acaba, numa cultura que valoriza apenas a produção e a produtividade, por assumir 25 um caráter de alienação: o que poderia, por exemplo, significar a expressão 26 FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. Op. cit., p. 99.

  

Não que o trabalho alienado tenha sido inventado pela revolução industrial: o trabalhador

que construiu as pirâmides, também não se identificava com aquilo que produzia. Mas costumamos dizer, é “trabalho escravo”. A ironia da expressão “trabalho livre” foi denunciada há muito por Marx.

  

publish or perish, que preside o trabalho intelectual nas academias

  americanas? Trabalho sem prazer. E prazer (ou “lazer”) como ausência de trabalho.

  Questão crucial, que, no entanto, escapa ao escopo deste ... trabalho.

  No entanto, mesmo não aprofundando esta questão, em relação ao processo de “sublimação”, gostaríamos de salientar que nos interessa não apenas o que pode proporcionar em termos de felicidade pessoal, mas principalmente sua importância para a Cultura:

  “Uma das grandes revelações de Freud foi a de que a civilização não se baseia apenas no recalque dos impulsos libidinosos, mas também, e de forma não menos importante, na sua canalização, em volume significativo, para finalidades criadoras – processo a que deu o nome de sublimação. Quando a necessidade de repressão e o mecanismo de repressão se rompem, parece claro que a civilização só pode florescer se os canais de sublimação forem constantemente ampliados e aprofundados, somente se as pessoas puderem encontrar escoadouros sempre novos para as suas energias latentes, e que 28 também constituam fontes autênticas de satisfação.”

  Em relação à importância do processo de sublimação para a Cultura, se é pertinente neste contexto uma questão mais propriamente política, alguns autores têm apontado os perigos do declínio deste processo nas sociedades industriais (e pós-industriais), como podemos depreender deste comentário, que relaciona este declínio com o capitalismo:

  “Mas, no capitalismo monopolista, é exatamente o contrário que ocorre: a totalidade do processo vital de sublimação está em perigo de colapso. Como interpretar de outro modo a perda de significação do trabalho, a insipidez estultificante do lazer, a degeneração do que recebe o nome de cultura, o fenecimento da atividade política como luta sobre o 29 28 caminho a ser percorrido pela sociedade?” Até este momento, falamos do conceito de sublimação como evidente. É chegada a hora de tentarmos estabelecer uma compreensão deste conceito, que possibilite a reflexão sobre o processo de criação na arte, tal como a encontramos em Em Busca do Tempo Perdido, de Proust.

  É um conceito polêmico (a sublimação) sobre o qual é necessário nos posicionarmos; é o que faremos aqui, desde já deixando claro que não se trata da formulação de uma nova leitura deste conceito.

  Ao invés, enfocaremos as formulações de alguns autores, que julgamos possibilitar uma compreensão abrangente, e ao mesmo tempo sintética da questão da sublimação.

  Iniciaremos com uma crítica bastante contundente (e também, como veremos, exemplar de uma certa leitura do conceito), formulada por Adorno

  30

  , que dirige um duro comentário ao conceito de sublimação:

  “Os artistas não sublimam. Crer que eles não satisfazem nem reprimem seus desejos, mas transformam-nos em realizações socialmente desejáveis, suas obras, é uma ilusão psicanalítica; aliás, nos dias de hoje, obras de arte legítimas são, sem exceção, socialmente indesejadas. Antes, manifestam os artistas instintos violentos, de tipo neurótico, que eclodem livremente e, ao mesmo tempo, colidem com a realidade. Mesmo o filisteu, que imagina o ator ou o violinista como uma síntese entre um feixe de nervos e um destruidor de corações, está mais certo do que a não menos filistéia economia pulsional, segundo a qual os privilegiados filhos da renúncia se liberam criando sinfonias ou romances.”

  Adorno termina estas considerações do seguinte modo, visando diretamente a figura de Freud:

  “A arte é tão hostil à arte quanto o são os artistas. Na renúncia ao objetivo pulsional a arte continua fiel a este, com uma fidelidade que desmascara o que é socialmente desejado, ingenuamente glorificado por Freud como a sublimação que, provavelmente, não existe.”

  Talvez poucos adjetivos pudessem atingir Freud do modo como o fez Adorno, ao supô-lo “ingênuo”, e à psicanálise “criadora de ilusões”, quando aquele tantas vezes assinalou a Psicanálise como um saber que objetiva, nas

  31 palavras de Hélio Pellegrino, “curar o ser humano de suas ilusões” .

  Se esta fosse mesmo, a única forma de compreendermos o sentido do conceito de “sublimação”, nada nos restaria a não ser concordar com Adorno, e nos afastarmos de uma formulação tão ingênua, ilusória, e acima de tudo, conformista.

  Na verdade, as dificuldades postas para a elaboração do conceito de sublimação, estão dadas desde o seu início, com o próprio Freud insatisfeito com sua formulação, como assinala Laplanche, ademais nos proporcionando um primeiro histórico do conceito:

  “A sublimação é certamente uma das cruzes (em todos os sentidos do termo: ao mesmo tempo um ponto de convergência, de cruzamento mas também o que põe na cruz) da psicanálise e uma das cruzes de Freud. (...) o conceito de sublimação apresenta-se desde o início em Freud, desde 1895, com as cartas a Fliess. Mas, do começo ao fim, a sublimação será mais citada do que desenvolvida e analisada: não aparece tanto como um conceito, mas como indicador de um questionamento que era preciso fazer, tarefa a realizar, noção indispensável mas jamais “apreendida” no Begriff *. Dois momentos, entre outros, são testemunho disso: em 1915, Freud começa a elaborar um tratado de metapsicologia que deverá compreender uma dúzia de capítulos, entre os quais um texto, precisamente, sobre a sublimação. Esse texto, como alguns outros, aliás, nunca foi publicado, pois ele o destruiu; restaram apenas, escapando à vindita ou à insatisfação de Freud, aqueles que estão atualmente publicados na coletânea intitulada Metapsicologia, coletânea truncada pelo próprio Freud. Muito mais tarde, em 1930, em O mal-estar na civilização, é ainda diante da mesma tarefa inacabada que Freud se encontra. A satisfação sublimada, diz ele, possui “uma qualidade particular que um dia chegaremos a caracterizar do ponto de vista metapsicológico”. A compreensão da sublimação é remetida para o futuro, se bem que Freud dê prova de um 32 grande otimismo com o seu “certamente”.” [(*) Begriff – conceito, idéia básica]

  Mas o que podemos considerar, mesmo provisoriamente, como sendo “sublimação”? Partiremos de uma definição elaborada por Laplanche e Pontalis:

  “Processo postulado por Freud para explicar atividades humanas aparentemente sem relação com a sexualidade mas que encontrariam sua origem na força da pulsão sexual. Freud descreveu como atividade de sublimação principalmente a atividade artística e a investigação intelectual. Diz-se que a pulsão foi sublimada na medida em que ela é desviada para uma nova meta não-sexual e visa a objetos socialmente 33 valorizados.”

  Sobre esta definição de sublimação, Laplanche considera que:

  “(...) introduz (num modo dubidativo: “postulado”, “encontrariam” etc.) numerosos elementos. Em primeiro lugar a relação entre sexual e não- sexual, com a questão da passagem de um ao outro; veremos, aliás, que tal relação deve ser apreendida nos dois sentidos – não apenas do sexual para o não-sexual, como aqui, mas também do não-sexual para o sexual – para termos um quadro verdadeiramente abrangente do problema. Mais especificamente, a noção de pulsão ou de energia libidinal, como aquilo que seria precisamente suscetível de transitar das atividades sexuais para as atividades não-sexuais. Por outro lado, 32 enfim, o que também é essencial para Freud, uma referência à valorização social: ela está praticamente presente em todas as 34 elaborações freudianas concernentes à sublimação.”

  Nestas considerações, Laplanche retoma os dois problemas propostos por Adorno em relação ao conceito: a questão da sexualidade e a questão do reconhecimento social.

  Na tentativa de abordar estas duas questões, consideremos as

  35

  formulações de Joel Birman, no texto “Fantasiando Sobre a Sublime Ação” , que embora apoiando-se em autores importantes que refletiram sobre o conceito de sublimação, constituem uma contribuição própria e instigante para seu esclarecimento. Na introdução deste texto, Birman comenta o propósito da sublimação:

  “Estamos aqui diante de uma das caixas-pretas do pensamento freudiano. Por isso mesmo, não pode ser tematizado de maneira formalista e repetitiva, como se fosse algo líquido e certo. Existe um impasse real na idéia do sublimar, na medida em que a noção de dessexualização pulsional é problemática por múltiplas razões.”

  A idéia de uma “caixa-preta” (parece que o conceito suscita muitas metáforas: poderíamos colocar esta imagem, ao lado da imagem da “cruz” evocada por Laplanche), é sugestiva no sentido de assinalar a importância do conceito de sublimação para a própria história da Psicanálise (já que “caixa- preta” tem como função registrar uma história) e as dificuldades envolvidas (encontrá-la, abri-la, interpretá-la). Ademais, já assinala a questão da dessexualização pulsional como problemática, tal como para Adorno.

  Birman faz uma distinção importante, assinalando duas possíveis leituras do conceito a partir de vários textos de Freud, inicialmente destacando

  36

  o texto de 1908 , (o mais conhecido, e que parece embasar as considerações 34 de Adorno): LAPLANCHE, Jean. Op. cit., p. 11.

  “(...) se pressupõe nesta matriz de pensamento que a sublimação implica uma dessexualização da pulsão. Vale dizer, para que se realize uma efetiva experiência de criação, necessário seria que o sujeito pudesse suspender qualquer veleidade erótica. Dito de outra maneira, o ato criativo pressuporia a suspensão do erótico, de maneira a conduzir a subjetividade para o horizonte da “espiritualização”. (...) Assim, existiria nesta suposição teórica a oposição radical entre criar e erotizar, de forma que para que a primeira experiência acontecesse necessário seria colocar a segunda entre parênteses. Portanto, a criação seria, rigorosamente falando, um ato de espiritualização, na medida em que o corpo erógeno seria colocado provisoriamente de lado e impedido de se 37 manifestar.”

  É importante também mencionar, que esta primeira formulação do conceito, já é marcada pela insatisfação de Freud em relação a ela:

  “Porém, desde que a enunciou formalmente o discurso freudiano mostrou-se já francamente insatisfeito com a solução apontada, indicando prontamente desde então os seus impasses e contradições que acabaram por conduzi-lo inequivocamente para uma segunda teoria 38 da sublimação nos anos trinta.”

  Birman destaca o ano de 1915, referente ao qual é importante assinalar uma falta (a de um texto), mas que é também o ano no qual Freud (em outro texto) faz uma alusão ao conceito de sublimação, que é importante ser mencionada:

  “O instinto sexual – ou, mais corretamente, os instintos sexuais, pois a investigação analítica nos ensina que o instinto sexual é formado por muitos constituintes ou instintos componentes – apresenta-se provavelmente mais vigorosamente desenvolvido no homem do que na maioria dos animais superiores, sendo sem dúvida mais constante, desde que superou completamente a periodicidade à qual é sujeito nos animais. Esse instinto coloca à disposição da atividade civilizada uma extraordinária quantidade de energia, em virtude de uma singular e marcante característica: sua capacidade de deslocar seus objetivos sem restringir consideravelmente a sua intensidade. A essa capacidade de trocar seu objetivo sexual original por outro, não mais sexual, mas psiquicamente relacionado com o primeiro, chama-se capacidade de sublimação.” (FREUD, Sigmund. Moral Sexual “Civilizada” e Doença Nervosa Moderna. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora Imago, vol. IX, 37 1987, p. 193).

  “Nos ensaios metapsicológicos de 1915 o discurso freudiano retoma o conceito de sublimação. Parece que, neste contexto, Freud teria escrito um texto original sobre isso, mas que teria sido perdido entre vários outros, restando apenas o que se referia às neuroses de transferência. Com esta perda a problemática da sublimação aparece 39 apenas como uma alusão, em ‘As pulsões e seus destinos’.”

  Birman continua, ressaltando que nesta alusão, já é possível a indicação de uma outra compreensão para o conceito de sublimação:

  “Nesta aparição fugaz, no entanto, a mudança no enunciado do conceito fica evidenciada, indicando uma outra leitura metapsicológica. A passagem em que isso se realizou se destaca precisamente, do ponto de vista metapsicológico, justamente porque naquela se diferenciam agora de forma nítida o recalque e a sublimação, como sendo dois destinos distintos da pulsão. O discurso freudiano indica com isso mais uma vez, se necessário é ainda insistir nisso, como não superpõe mais 40 ambos os conceitos, como fazia no ensaio de 1908.”

  As conseqüências da distinção entre os dois conceitos são importantes:

  “Portanto, se o recalque estaria na origem da produção do sintoma que, como formação de compromisso que seria, articularia os diferentes pólos da pulsão e da defesa, a sublimação implicaria na retirada da pulsão dessa situação. Isso porque pressuporia o retorno do recalcado como sua matéria-prima primordial, isto é, a suspensão do recalque 39 estaria aqui em jogo. Vale dizer, estaria sugerido aqui que a sublimação

  

Idem, p. 111. (“As Pulsões e seus destinos” aparece com o título “Os Instintos e suas

Vicissitudes” na tradução da Edição Standard Brasileira. A alusão que Birman comenta é a que se segue: “Nossa investigação sobre as várias vicissitudes pelas quais passam os instintos no processo de desenvolvimento e no decorrer da vida deve ficar confinada aos instintos sexuais, que nos são mais familiares. A observação nos mostra que um instinto pode passar pelas seguintes vicissitudes: Reversão a seu oposto.

  Retorno em direção ao próprio eu (self) do indivíduo. Repressão. Sublimação. Visto que não pretendo tratar aqui da sublimação e que a repressão exige um capítulo especial, resta-nos apenas descrever e examinar os dois primeiros pontos.” (FREUD, se fundaria na erotização da pulsão, pelo viés precisamente do retorno do recalcado como sua materialidade.” 41 O “retorno do recalcado” é um processo que pode ser aproximado das

  reminiscências descritas em Em Busca (abordaremos esta questão no capítulo

  VI), ficando desde já assinalada a importância deste retorno para o processo de sublimação.

  Birman sugere a seguir, que é apenas com o surgimento do conceito de “pulsão de morte”

  42

  de 1920, que “o conceito de sublimação e a concepção psicanalítica da criação não apenas ficariam mais evidentes, como também não se oporiam mais definitivamente ao erotismo.”

  43 Isto porque, no embate entre as duas pulsões, é possível, no psiquismo

  aliado a Eros, não somente a simples oposição à morte, mas também a criação:

  “(...) diante da morte como possibilidade e imperativo real da condição humana, o psiquismo se valeria de duas modalidades complementares para a sua evitação e regulação, quais sejam, a erotização e a sublimação. Assim, erotizar seria uma forma verbal intransitiva do psiquismo no qual esse se oporia ao movimento do ser para a morte, pela ligação que seria promovida da força pulsional aos objetos de satisfação propiciados pelo outro. Sublimar, em contrapartida, implicaria a reutilização da força pulsional, agora erotizada, na criação de novos objetos de satisfação possível.” 44 Esta formulação é preciosa para os nossos propósitos, tendo em vista a

  importância do processo de sublimação na “história de uma vocação” que Em 41 Idem, p. 112. 42

“[O conceito de pulsão de morte foi enunciado como forma de uma pulsão sem

  representação e que se oporia nos seus detalhes à pulsão de vida, como modalidade ao mesmo tempo ligada e representada da pulsão, e herdeira, no registro metapsicológico, da força pulsional concebida como sendo antônima dos processos representacionais tal como foi enunciada no ensaio sobre “As pulsões e seus destinos”]” (Idem, p. 113-114).

  

Busca representa, e que, como veremos, se resolve quando a “noção de

tempo” – a possibilidade da morte e do esquecimento –, se impõe.

  no conceito:

  “Nas ‘Novas conferências introdutórias à psicanálise’ de 1932, o discurso freudiano afirmou que existiria na sublimação a criação de novos objetos de investimento e de ligação da força pulsional. O que implica dizer que, pela sublimação, existiria a criação de outros objetos para o circuito pulsional e não mais apenas a manutenção do mesmo 46 objeto, como no ensaio de 1908.”

  Nesta nova leitura do processo de sublimação, é ressaltada sua “ruptura” com as fixações eróticas originárias (iniciado embora, como vimos, pelo “retorno do recalcado”):

  “A hipótese de trabalho que proponho aqui é que a sublimação seria agora uma “ruptura” com as “fixações” eróticas originárias, pela mediação das quais o psiquismo teria se constituído “contra” o movimento primário para a morte, pela promoção e criação de novas ligações e objetos possíveis de satisfação. Por isso mesmo, a sublimação não seria uma forma de idealização, precisamente porque possibilitava o “triunfo” da vida contra a morte. Contudo, a erotização continuaria a ser a matéria-prima do processo sublimatório, mas uma erotização sem qualquer marca de idealização, presente no objeto de 47 45 fixação originário.”

  

Na Conferência em questão, denominada “Ansiedade e Vida Instintual”, Freud afirma que:

“As relações de um instinto com a sua finalidade e com o seu objeto também são passíveis de modificações; ambos podem ser trocados por outros embora sua relação com seu objeto seja, não obstante, a que cede mais facilmente. Um determinado tipo de modificação da finalidade e de mudança do objeto, na qual se levam em conta nossos valores sociais, é descrito por nós como ‘sublimação’. (FREUD, Sigmund. Novas Conferências Introdutórias à Psicanálise. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora Imago, vol. XXII, p. 121). Na verdade, a mudança é tão sutil, que possibilitou a seus tradutores ingleses afirmar que: “O conteúdo desse parágrafo é, na sua grande maioria, repetição da primeira parte de ‘Os Instintos e suas Vicissitudes’.” (Idem, p. 122). Sutil, mas poderíamos dizer com Birman,

decisiva, já que se trata da inclusão da possibilidade de novos objetos de investimento.

  Mas, este rompimento se daria com as fixações originárias, e não com Eros, representando então, diferentemente da interpretação de Adorno, uma “renovação do erotismo”:

  “A sublimação seria agora, então, uma renovação do erotismo, pela reabertura que possibilita de novos campos de investimento objetal e de outras modalidades possíveis de ligação da força pulsional. A sublimação permitiria, pois, a “flexibilização” do circuito pulsional originário, retificando a “compulsividade” presente nas fixações originárias. Seria isso justamente que estaria presente na possibilidade de criação para a subjetividade, pois mediante aquela o psiquismo poderia se contrapor à “fixação” e à “repetição”. Estas estariam sempre presentes nas formas originárias de gozo, mas a sublimação indicaria “novas” possibilidades de gozar. Pelo movimento sublimatório, de ruptura com as fixações originárias, a “diferença” seria a marca por excelência do psiquismo que retificaria os traços do “mesmo” presentes 48 nas fixações primordiais.”

  Podemos começar a compreender as objeções de Adorno ao conceito de sublimação, a partir de uma observação de Birman, feita anteriormente em seu texto, que aponta um desconhecimento, ou mesmo um recalcamento, em relação a sua segunda formulação (de 1932):

  “É bem curioso constatar como o discurso psicanalítico pós- freudiano reteve a primeira formulação de Freud e recalcou a segunda, quando não a ignorou pura e simplesmente. Com a única exceção de poucos intérpretes de Freud, como Jacques Lacan e Jean Laplanche, que assumiram a versão freudiana final, a tradição psicanalítica focou a versão inicial e construiu a matriz de pensamento que sintetizei acima em linhas gerais. Nesta adesão ao enunciado inicial de Freud algo de fundamental se excluiu do discurso freudiano, que implicou uma 49 concepção problemática do que seja a experiência psicanalítica.” Se podemos compreender a primeira questão levantada por Adorno em seu comentário, como compatível com a primeira formulação freudiana sobre o conceito de sublimação, não podemos no entanto negar que esta é a mais conhecida e explícita. Uma outra leitura do conceito – que acreditamos absolutamente legítima –, foi proposta a partir de alusões diretas e indiretas, em textos não dedicados explicitamente à sublimação, já que um suposto texto sobre o tema (de 1915), como já foi comentado, teria se perdido (segundo Birman), ou sido destruído (Laplanche).

  Retomemos agora a segunda questão levantada por Adorno, a da “valorização social”, que Laplanche observa estar “praticamente presente em todas as elaborações freudianas concernentes à sublimação”, e que Adorno coloca em termos de “realizações socialmente desejáveis”.

  Quando Adorno observa que “nos dias de hoje, obras de arte legítimas são, sem exceção, socialmente indesejadas”, tem em vista a arte moderna (mas também inúmeros outros momentos da história da arte, em que as realizações artísticas não foram “socialmente desejadas”), que ainda escandalizava os salões de arte, na época em que o texto foi escrito (1951).

  De fato, em relação à arte, Freud sempre deu mostras de um profundo conservadorismo, e mesmo de uma franca antipatia com relação à arte moderna, como podemos depreender deste comentário de Tânia Rivera, que no entanto aproxima os dois termos – arte moderna e Psicanálise:

  “Esta aproximação entre a arte moderna e a psicanálise vem do fato de serem ambas produtos culturais que compartilham um mesmo “espírito da época”, ainda que suas ligações nem sempre sejam visíveis, mas permaneçam freqüentemente latentes, à espera de que se venha atualizá-las. E apesar de o próprio fundador da psicanálise, em vez de convocar os artistas de seu tempo, preferir fazer referência, em sua obra, a obras clássicas de Michelângelo ou Leonardo da Vinci. Freud não escondia, inclusive, sua antipatia em relação à arte moderna. A respeito de uma obra que pertencia a seu discípulo Karl Abraham, qualificar a “arte” dita moderna. Ao pastor e psicanalista Oskar Pfister ele demonstra uma franca intolerância em relação aos expressionistas e afirma que estas pessoas não têm o direito de ser designadas como 50 artistas.”

  Aliás, o inverso não é verdadeiro, pois os movimentos de arte moderna, freqüentemente fizeram referências à Psicanálise:

  “Principalmente a partir da Primeira Guerra Mundial, contudo, movimentos de vanguarda literária e artística farão referências explícitas à psicanálise. Em nome de um novo cânone estético, que se afirma por uma negação virulenta de todos os parâmetros vigentes e pela busca de uma expressão revolucionária que irromperia do inconsciente, alguns artistas se aproximaram das idéias de Freud. Um deles, o poeta francês André Breton, antigo aluno de psiquiatria que lançará em 1924 o primeiro Manifesto do surrealismo, terá um papel decisivo para a influência freudiana no meio artístico. Apenas em 1922 ele poderia ler algum livro do pai da psicanálise, visto que enfim eram publicadas as traduções para o francês da Psicopatologia da vida cotidiana e das Conferências introdutórias à psicanálise, mas vários anos antes ele já 51 afirmava que as idéias de Freud lhe causavam “emoções intensas”.”

  Mas, mesmo ingênuo como o supõe Adorno (e talvez o seja, em relação à arte moderna), Freud, amante das artes (mas invejoso do artista, como comentaremos no próximo capítulo), com certeza não desconhecia – e mesmo apreciava –, o caráter subversivo que a arte freqüentemente assume na história – e que talvez seja sua uma de suas principais funções.

  Este caráter subversivo, no entanto, não é contraditório em relação à busca do que Laplanche denomina “valorização social”, pois a arte busca sempre um reconhecimento, mesmo que este reconhecimento não seja possível de uma forma imediata (e mesmo que muito tempo, até mesmo séculos, afastem a obra de sua compreensão por outrem), mas cuja busca é sempre legítima.

  O que Adorno visa criticar aqui, é uma compreensão da sublimação como um processo capaz de transformar desejos em “realizações socialmente desejáveis”, ou seja, naquilo que o social – nossos pais, as instituições –, desejam. Como “bons meninos” então, devemos abrir mão de nossos desejos

  • – muitas vezes transgressivos –, “sublimá-los”, transformando-os em “boas ações” socialmente aprovadas.

  Esta crítica de Adorno, nos parece, é extremamente relevante, no sentido de alertar-nos sobre o perigo que ronda o conceito de sublimação, de

  52 transformar-se um apelo ao conformismo.

  A segunda questão levantada por Adorno, como podemos depreender deste comentário de Birman, também se ligaria ao texto de 1908, em que Freud pela primeira vez descreve o processo de sublimação:

  “(...) tal suspensão erótica, que materializaria o tal ato de espiritualização, seria um esforço da ordem da “civilização”. Pressupõe- se, pois, que o processo civilizatório se daria na direção da espiritualização e contra a erotização. Com efeito, a dita civilidade espiritualizante seria, enfim, inscrita no registro da “ordem” que se 53 contraporia à “desordem” do sexual.”

  Ou seja, haveria uma ligação íntima entre uma “espiritualização” que o processo de sublimação supostamente permitiria, e a existência de uma

  54 52 “ordem” avessa ao sexual no processo civilizatório.

  

Seria fácil simplesmente invertermos a crítica de Adorno a Freud, chamando-o ingênuo, e

declararmos que neste ponto Adorno é que o é, ao desconhecer as formulações freudianas posteriores a 1908 sobre o conceito de sublimação, que possibilitam uma outra leitura do conceito. Mas não é isto que importa, e sim o alerta inestimável de Adorno sobre o perigo 53 de uma certa leitura do conceito, que nos incentivou a buscar esta outra leitura. 54 BIRMAN, Joel. Op. cit., p. 99.

  

É no texto “Moral Sexual ‘Civilizada’ e Doença Nervosa Moderna”, de 1908, que Freud

explicita uma primeira formulação do conceito de sublimação, muito sintética, mas que permite a primeira leitura assinalada. Este texto, no entanto, pode ser lido como uma

  Mas também em relação a esta segunda questão levantada por Adorno, é possível uma outra leitura, que privilegie o reconhecimento social, não de um ponto de vista exclusivamente narcísico (para o qual a simples adequação ao “socialmente desejado” seria a meta), mas sim do da busca do reconhecimento “pelo outro ou pelos outros”, como sugere Laplanche nestas considerações que faz em forma de questões:

  “Essa noção de uma valorização social desemboca num duplo questionamento: primeiro, saber se essa valorização social é capital na própria definição de atividades sublimadas, o que leva principalmente a interrogar sobre o campo da sublimação e seus limites: uma atividade não-valorizada – supondo-se que isso exista –, um hobby, uma idéia fixa, um colecionismo aberrante, será uma sublimação da mesma categoria de uma atividade culturalmente reconhecida? E, se não são sublimações, será necessário um outro conceito para dar conta delas? Por outro lado, supondo que se deva reter essa dimensão de valorização social, como compreendê-la, como compreender que ela seja suscetível de marcar o próprio processo psíquico? O que está em questão será a utilidade para a sociedade, será, de modo mais profundo, o “reconhecimento” pelo outro ou pelos outros, será o valor de comunicação e até mesmo o valor de linguagem?” 55 Não pretendemos, é claro, responder neste capítulo a estas questões

  tão complexas, que nos parecem todavia tão ricas, e que sugerem que até mesmo a comunicação e a linguagem talvez tenham algo a ver com a sublimação.

  Mas nos parece importante assinalar como fundamental, na sublimação, a busca de uma “valorização social”, mesmo que neste processo, esteja envolvida uma atividade “desvalorizada” (supondo, como diz argutamente Laplanche, que exista “uma atividade não-valorizada” – por quem?): a própria arte, a ciência, muitas vezes o ensino, não são atividades assim, em determinadas sociedades, ou épocas?

  Neste sentido, a busca da valorização social pode implicar, na melhor das hipóteses, num questionamento dos valores sociais vigentes numa determinada cultura. Busca esta, inegavelmente ligada ao narcisismo, mas que neste caso opõe-se à mera reprodução dos valores estabelecidos. Busca de reconhecimento social, mas não a qualquer preço.

  Retornando ao início desta reflexão, podemos concordar com o conselho ao final de Candide, lembrado por Freud, no sentido (agora metafórico) de “cultivarmos nosso próprio jardim”.

  Sim, mas com Adorno, não para transformar nossos desejos recalcados em obras “socialmente desejadas”. Mas “cultivar o próprio jardim”, mesmo se o que for produzido for o indesejado, o que incomoda, o que (ainda) não tem lugar; como talvez o fosse Em Busca, que por seus temas, e principalmente sua forma, subverteu as convenções literárias de seu tempo, inaugurando um novo modo de se conceber o romance.

Capítulo II Psicanálise e Literatura

  “Nem sempre fui psicoterapeuta. Como outros neuropatologistas, fui preparado para empregar diagnósticos locais e eletroprognósticos, e ainda me causa estranheza que os relatos de caso que escrevo pareçam contos e que, como se poderia dizer, falte-lhes a marca da seriedade da ciência. Tenho de consolar-me com a reflexão de que a natureza do assunto é evidentemente a responsável por isso, e não

56

qualquer preferência minha.”

  Freud foi um amante das artes, e especialmente da Literatura. Mais do que isto: sua obra está impregnada de referências literárias. Este é um ponto sobre o qual não existe polêmica: biógrafos, críticos, leitores, são unânimes em constatar sua importância para a Psicanálise, e pessoalmente para seu criador. Sua obra, que passa por vários gêneros literários: ensaios (alguns sobre artistas ou obras de arte), autobiografia, esboços, conferências, lições e até mesmo uma obra que ele próprio considerava como “romance histórico”: Moisés e o Monoteísmo. Além é claro, de seus escritos sobre casos clínicos.

  Seriam estes últimos – os casos clínicos – literatura? É exatamente esta a questão que instiga Freud na citação escolhida como epígrafe deste capítulo, que estranha (ao discorrer, em 1895, sobre a paciente Elisabeth Von R.) “que os relatos de casos que escrevo pareçam contos e que, como se poderia dizer, falte-lhes a marca da seriedade da ciência.”

  Freud definia-se como um cientista, não um artista, e por isto seu pesar em relação a seus relatos de casos, que parecem contos, afastando-se do que ele considerava “seriedade da Ciência”.

  Em relação às artes (que admirava) e à filosofia (que temia, já que reconhecia seu pendor ao que chamava de “especulação”

  57

  ), a atitude de Freud é sempre uma atitude ambígua, ou até mesmo – utilizando um conceito psicanalítico –, uma atitude ambivalente.

  Esta ambigüidade, dirigida ao romancista – por vezes mesclando admiração e inveja –, pode ser exemplificada pelo que escreveu a Arthur Schnitzler: “muitas vezes me perguntei com perplexidade, de onde o senhor poderia ter retirado este ou aquele conhecimento secreto, que eu havia adquirido através de laboriosas investigações.”

  58 Outro exemplo é a famosa frase sobre a feminilidade: “Se desejarem saber mais a respeito da feminilidade, indaguem da própria experiência de vida dos senhores, ou consultem os poetas, ou aguardem até que a ciência possa dar-lhes informações mais profundas e coerentes.” 59 Podemos perceber nesta citação, a admiração de Freud pela poesia, só

  comparável a sua confiança no desenvolvimento futuro da ciência (neste trecho, seguramente a ciência psicanalítica); e pelos poetas – até mesmo reconhecendo as vantagens do artista, beneficiado com um “saber” que o cientista, “injustamente”

  60 apenas pode conquistar através de trabalho árduo. 57

(...) quando seu biógrafo Ernest Jones lhe perguntou o quanto lera de filosofia, Freud

respondeu: “Muito pouco. Quando jovem, senti forte atração pela especulação e refreei-a

implacavelmente”. (GAY, Peter. Freud – Uma Vida Para o Nosso Tempo. São Paulo: Cia. das

Letras, 1989, p. 40). Em outro momento, no entanto, Freud confidencia a Fliess (Idem,

Ibidem, p. 122): “Vejo”, escreveu numa carta de reflexões de Ano Novo, em 1º de janeiro de

1896, “que você, através do desvio da medicina, está alcançando seu primeiro ideal, o de

entender os seres humanos como fisiólogo, assim como eu alimento em profundo segredo a

esperança de atingir meu objetivo original, a filosofia.” 58 Citado a partir de GAY, Peter. Idem, p. 296. 59 FREUD, Sigmund. Feminilidade. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora Imago, vol.

  XXII, 1987, p. 165. 60 Quando estava namorando Martha, sua futura mulher, Freud era um namorado ciumento, e

numa ocasião, segundo Peter Gay, observou a ela que: “Não devia mostrar uma predileção

  Se é inegável a preocupação de Freud em sempre tentar circunscrever limites entre o método psicanalítico e o processo artístico (ou entre a Psicanálise e a Literatura), no entanto, em sua obra, nunca renunciou ao saber que pudesse estar presente nas artes, sempre demonstrando uma intimidade, em especial com a Literatura, referência constante em sua obra, expressa principalmente pelas inúmeras citações literárias que permeiam seus escritos, mas também na própria construção da teoria psicanalítica: quase não seria necessário lembrar Édipo-Rei na elaboração do conceito de “Complexo de Édipo”.

  Inúmeros textos de Freud propõem-se a analisar obras de arte ou artistas: “Leonardo – Uma Lembrança de Infância” (sobre Leonardo da Vinci), “Moisés de Michelângelo”, “Gradiva” (sobre um romance de Jensen, que em sua trama inclui um afresco encontrado em Pompéia) e “O Tema dos Três Escrínios” (ensaio que trata da mitologia e do “Rei Lear” de Shakespeare para discutir um tema comum).

  Também em seus textos sobre cultura (“O Futuro de Uma Ilusão” e principalmente “O Mal Estar na Civilização”), através do conceito de “sublimação”, Freud reflete sobre o valor da arte para a cultura. E este valor, para ele, não era nada desprezível.

  Estas breves considerações, no entanto, não fazem inteiramente justiça à importância da Arte para Freud: em cada momento de sua vida e de sua obra, o recurso às artes encontra-se de alguma forma presente. Como fonte de inspiração, ou por outro lado, como síntese de alguma idéia proposta. E muitas vezes em sua vida pessoal, como fonte de consolação, que extraía do prazer estético que a obra de arte pode proporcionar.

  Não poderíamos deixar de mencionar, que no que tange à literatura, sua admiração foi plenamente recompensada (ou melhor dizendo, foi um amor considerava-se um cientista), deu-lhe muito prazer, e do qual sempre orgulhou- se.

  Enfim, Freud também podia considerar-se um escritor, um artista portanto, e não somente o autor de uma obra que pretendia científica.

  61 Evidentemente, se os textos de Freud possuem qualidades literárias, isto

  não significa que não sejam textos científicos. Mas seriam mesmo, estes textos científicos? É interessante lembrar, e isto é raramente mencionado, que seus textos anteriores à Psicanálise foram reconhecidos e considerados até hoje pela

  Neurologia: seus artigos sobre a “afasia”, e a denominada “paralisia cerebral infantil” por si já garantiriam a Freud um lugar entre os cientistas.

  62 Mas, com relação à Psicanálise, poderíamos dizer que os textos de

  Freud, que a fundamentam, seriam científicos? Não pretendemos responder a esta difícil questão

  63

  , que nos parece extrapolar os objetivos deste trabalho. Hoje, muitos psicanalistas não consideram problema “renunciar” ao estatuto de ciência para a Psicanálise. Como podemos exemplificar por este comentário de Fábio Herrmann: 61 Os próprios termos da escolha do nome de Freud para o prêmio evidenciam também o

  

reconhecimento do caráter científico da sua obra, o que deve tê-lo agradado bastante: A

menção vinha cerimoniosamente assinada pelo prefeito de Frankfurt. “Com o rigoroso método

da ciência natural”, iniciava ela, no tom um tanto exagerado desses documentos, “ao mesmo

tempo interpretando audaciosamente os símiles cunhados por escritores de ficção, Sigmund

Freud abriu caminho até as forças motrizes da alma, e assim criou a possibilidade de se

reconhecer o surgimento e a construção das formas culturais e de se curar algumas de suas

enfermidades.” (GAY, Peter. Op. cit., p. 517). 62 O neurologista suíço Randolf Brun observou em 1936 que “a monografia de Freud é a

exposição mais cabal e completa que jamais foi escrita sobre as paralisias cerebrais infantis

  

(...) Foi uma realização magnífica e, sozinha, bastaria para garantir ao nome de Freud um

lugar proeminente na neurologia clínica.” (GAY, Peter. Idem, p. 95). 63

  “Outro impasse é querer disfarçar a psicanálise em ciência. Isso sim, todos sabem que é bobagem, a ciência é que tem que “agüentar" a 64 psicanálise.”

  Esta citação é interessante, pois aponta, através de uma “provocação” (“a ciência é que tem que ‘agüentar’ a psicanálise”), para o desafio que a Psicanálise representou (e ainda representa) para o método científico, especialmente em relação a questões que concernem (ou deveriam concernir) diretamente à Psiquiatria.

  Que questões são estas? Significativamente, foram questões colocadas pela clínica, que se convencionou chamar depois de clínica psicanalítica, mas que no início daquilo que chamaríamos de Psicanálise, era uma clínica neurológica. As questões que desafiam ainda hoje a Psiquiatria, foram questões que desafiaram anteriormente o jovem Freud.

  Lembremos que é com pesar que Freud admite que falte “a marca da seriedade da ciência” ao escrever seus casos. Nestas considerações, Freud demonstra respeito pelo que chama de “natureza do assunto”, dentro do mais estrito espírito científico. No entanto, o respeito ao objeto de estudo, é para ele, apenas fonte de consolação, já que ao levar em conta sua “natureza” (e não, como salienta qualquer preferência pessoal), perde-se “a marca da seriedade da ciência”, e as histórias clínicas ganham, a seu pesar, um caráter literário.

  Neste fragmento (é a continuação da epígrafe), que faz parte dos primeiros escritos psicanalíticos, Freud dá-se conta do paralelismo entre literatura/discurso do paciente:

  “A verdade é que o diagnóstico local e as reações elétricas não levam à parte alguma no estudo da histeria, ao passo que uma descrição pormenorizada dos processos mentais, como as que estamos 64 acostumados a encontrar nas obras dos escritores imaginativos, me

  

HERRMANN, Fábio. Problemas na Orientação de Teses de Psicanálise. In: Revista permite, com o emprego de algumas fórmulas psicológicas, obter pelo menos alguma espécie de compreensão sobre o curso dessa 65 afecção.”

  Aquilo que é tido como “ficção” (a obra de Shakespeare, Sófocles, Goethe, por exemplo, para citar só alguns autores caros a Freud), passa a ter o mesmo “peso” do discurso do paciente (que parece “ficção”, mas inicialmente tido como “não-ficção”, através da acepção original de “trauma”) na clínica psicanalítica.

  Mas mesmo esta nova abordagem dos limites entre os dois termos é colocado à prova num segundo momento, quando Freud renuncia à chamada

  66

  “teoria da sedução” (e resignifica o conceito de “trauma” através da admissão

  67

  da denominada “fantasia psíquica” ). Os pacientes produzem não apenas relatos que parecem “contos”, mas também produzem propriamente “ficção”: contam histórias improváveis, absurdas, inventadas, que não se baseiam totalmente ou que distorcem a realidade empírica (que poderíamos assimilar aqui, ao conceito de “não-ficção”). E a Psicanálise, por fim, acaba por acolher esta “ficção” peculiar, produzida não por artistas, mas por pacientes que puderam assim – escapando do juízo de “mentirosos” ou “simuladores” que pesava sobre eles – contar suas histórias e serem “escutados”, ou seja, estas serem reconhecidas como possuindo significado.

  Inicialmente proposta em relação à histeria, a idéia da “fantasia” como realidade subjetiva, opondo-se à realidade empírica, passou a ser reconhecida também em relação às outras patologias (e mais tarde também à chamada “normalidade”), constituindo-se como a “pedra fundamental” do método 65 psicanalítico: o ser humano é um ser que fantasia, e a Psicanálise faz deste 66 FREUD, Sigmund. Estudo sobre a Histeria. Op. cit., p. 172. 67 Veremos adiante o significado de “trauma”.

  

“[(...) Freud, que tinha começado por admitir a realidade das cenas infantis patogénicas

  “falsear a realidade”, que é sua verdade mais profunda, a própria matéria prima com que trabalha:

  “Pois se é preciso que o paciente conte tudo e ainda que fale ao acaso e sem propósito definido, não é para encontrar um fato empírico que não tenha sido registrado em nenhuma parte a não ser na memória do paciente: é que os acontecimentos empíricos não têm realidade para o analista mais que no e pelo “discurso” que confere a eles a autenticidade da experiência, sem importar sua realidade histórica, e ainda (mais valeria dizer: sobretudo) se o discurso elude, transpõe ou inventa a biografia que o sujeito se atribui.” 68 Este movimento, que constituiu o pensamento psicanalítico (propiciado

  pelo caráter “subversivo” do recurso ao discurso do paciente), permitiu uma aproximação entre Ciência (esta “não-ficção” por excelência, tendo em vista a compreensão positivista de Freud da Ciência) e Literatura, questionando seus limites: num primeiro momento, levando em conta este discurso (que parecia “literário”, “romanceado”, “novelesco”) – mas tido como não-ficcional, e num segundo momento, reconhecendo seu caráter ficcional – poderíamos dizer, poético –, mas não por isto desautorizando-o.

  O caráter “ficcional” do discurso do paciente para a Psicanálise, ao invés de ser estigmatizado como “simulação” ou “fingimento”, é indício – tal como na poesia, como indicam estes famosos versos de Fernando Pessoa –, de um sofrimento muito real:

  “O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente”

  (“Autopsicografia”) 69 Não podemos deixar de assinalar que, se no momento inaugural da Psicanálise “ficção” e “não-ficção” foram aproximadas, em prol da compreensão das patologias, posteriormente esta aproximação aprofundou-se, deixando evidentes, não apenas as semelhanças, mas as íntimas conexões entre Literatura e a própria estruturação do psiquismo.

  As conexões íntimas entre clínica e Literatura evidenciaram-se quando o pensamento psicanalítico debruçou-se sobre a chamada “normalidade” (ou, na exata acepção de Freud, “vida cotidiana” – pois nem os psicóticos o são o tempo todo), extrapolando assim os limites da Psicopatologia – ou melhor, estendendo seus limites à “vida cotidiana” –, neste movimento incluindo o sonho, e em menor grau o ato falho, numa Psicologia na qual o caráter “poético” da psique pode ser reconhecido.

  O sonho, para a Psicanálise, tem na vida pessoal, o mesmo papel que a arte – especialmente a poesia –, tem na cultura:

  “Octavio Paz considera que todos os povos fazem poesia, muitos não tiveram novela, muitos não tiveram teatro, mas não há povo primitivo que não tivesse canto, que não tivesse uma poética (...) O papel que a poesia tem na vida dos povos, o sonho tem na vida de cada um de nós: preservar o passado em nossa vida atual permitindo que ele aponte 70 para o futuro.”

  Reconhecendo de modo radical, o caráter poético do psiquismo, colocando em questão os limites entre “ficção” e “não-ficção” das produções psíquicas, a Psicanálise desafia os próprios pressupostos científicos, que opõem – neste movimento excluindo um dos termos –, as noções de objetivo/subjetivo, verdadeiro/falso, enfim “ficção” e “não-ficção” (assim como foi anteriormente desafiada por estas mesmas oposições).

  Estas oposições/exclusões, na verdade, não são novas na história do conhecimento – não podemos deixar de mencionar que a própria Filosofia nasceu contra os sofistas, numa tentativa de salvaguardar o logos da sedução da retórica sofística (e também assim da Poesia):

  “A operação fundadora da filosofia confunde-se, assim, com as estratégias de captura dos discursos com os quais Platão, e posteriormente Aristóteles, rivalizavam no mundo grego. É a partir do solo de oposições engendrado pela metafísica – essência/aparência; verdadeiro/falso – que a radical alteridade de outros discursos, tais como a retórica, a sofística e a poesia, será tragada para o campo da filosofia, tornando-se então prisioneira de conceitos que não lhe diziam necessariamente respeito. (...) Como conseqüência de todo esse processo, passou-se a julgar outras práticas discursivas a partir de pressupostos que lhe eram alheios, garantindo-se assim sua condenação e atribuindo-se simultaneamente à filosofia o papel de único logos legitimado. Esse procedimento marcou definitivamente o pensamento ocidental, constituindo as balizas que fundam, em geral, nosso pensamento e nossas práticas discursivas, bem como a separação, até hoje vigente, entre os campos da ficção e da não- 71 ficção.”

  Em suas origens, a Psicanálise almejava não opor-se à ciência, mas sim provocar nesta uma transformação. Freud nunca renunciou ao estatuto de ciência para a Psicanálise, e acreditava que seu reconhecimento dependeria

  72 dos progressos científicos.

  Mas, talvez possamos dizer hoje, apesar de persistir, a Psicanálise não conseguiu efetuar a transformação almejada. Persiste no entanto, resistindo (não no sentido psicanalítico, mas no sentido político), continuando a desafiar 71 os pressupostos científicos.

  

FERRAZ, Maria Cristina F. Platão – As Artimanhas do Fingimento. Rio de Janeiro: Relume

Dumará, 1999, p. 28-29.

  É por isso que a expressão de Fábio Herrmann: “A ciência é que tem que agüentar a Psicanálise”, talvez faça sentido: “agüentar” como tem-se que “agüentar” um filho não-reconhecido, ou como um filho que “dá muito trabalho”. É muitas vezes o que sugere as relações da Psicanálise (e psicanalistas) com a Psiquiatria (e psiquiatras).

  No entanto, no interior da Psicanálise, talvez possamos falar de um afastamento do paradigma científico, em direção ao que Birman denomina “paradigma estético”:

  “(...) a sublimação e a criação passaram a ser paulatinamente concebidas pelo “paradigma estético” e não mais pelo “paradigma científico”, sendo aquele o modelo preferencial a partir do qual pode-se 73

melhor pensar a sublimação e a criação em psicanálise.”

  Podemos considerar que há uma clara preponderância do “paradigma

  74

  estético” a partir da segunda formulação freudiana do conceito de sublimação, que possibilitaria pensar inclusive a criação científica:

  “(...) poder-se-ia dizer ainda que o paradigma estético poderia explicitar melhor o que seria a criação científica, existindo, pois, uma estética da criação que estaria igualmente presente nos registros da ciência e da 75

arte. E por que não, nos registros da religião e da filosofia?”

  Estas considerações de Birman estão em consonância com as 73 observações feitas sobre a citação de O Mal-Estar, que serviu como epígrafe 74 BIRMAN, Joel. Op. cit., p. 118.

  Este conceito refere-se ao próprio termo “sublime”, que Laplanche comenta: “O que é que a sublimação põe em jogo, no próprio termo, em sua metáfora? Recordo, com outros autores, que sua metáfora incide sobre o termo sublime, com duas referências nas quais não me deterei por agora: por um lado, a referência filosófica, sendo o sublime uma das categorias da estética filosófica; por outro, a metáfora química, sendo a sublimação em química definida como uma passagem direta de um corpo, sem intermediário líquido, do estado sólido ao estado gasoso.” (LAPLANCHE, Jean. Op. cit., p. do capítulo anterior, no qual Freud utiliza o recurso a uma obra literária (Candide), escrita por um filósofo, para exemplificar a ciência (ou melhor, o “fazer científico”) como exemplo de sublimação. Ou seja, para falar da criação na ciência, Freud utiliza um exemplo da Literatura, obra ademais criada por um

  76 filósofo.

Capítulo III O Início da Obra - Numa Xícara de Chá

  “Chegará até a superfície de minha clara consciência essa recordação, esse instante antigo que a atração de um instante idêntico veio de tão longe solicitar, remover, levantar no mais profundo de mim mesmo? Não sei. Agora não sinto mais nada, parou, tornou a descer talvez; quem sabe jamais voltará a subir do fundo da sua noite? Dez vezes tenho de recomeçar, inclinar-me em sua busca. E, de cada vez, a covardia que nos afasta de toda tarefa difícil, de toda obra importante, aconselhou-me a deixar daquilo, a tomar meu chá pensando simplesmente em meus aborrecimentos de hoje, em meus desejos de 77 amanhã, que se deixam ruminar sem esforço.”

  Iniciaremos nossa leitura do texto apontando o caráter espacial desta imagem evocada por Proust para discorrer sobre a memória: uma xícara de chá. As referências ao espaço parecem continuar sempre presentes, mesmo após Santo Agostinho tornar possível pensar o tempo sem uma relação direta com o espaço do cosmos:

  “(...) ela (a reflexão agostiniana) marca um corte fundamental com as tentativas da filosofia antiga (em particular Platão e Aristóteles) que definiam o tempo em relação ao movimento de corpos externos, em 78 particular ao movimento dos astros.”

  t-il jusqu’à la surface de ma claire conscience, ce souvenir, l’instant ancien que l’attraction d’um instant identique est venue de si loin solliciter, émouvoir, soulever tout au fond de moi? Je ne sais. Maintenant je ne sens plus rien, il est arrêté, redescendu peut-être; qui sait s’il remontera jamais de sa nuit? Dix fois il me faut recommencer, me pencher vers lui. Et chaque fois la lâcheté qui nous détourne de toute tâche difficile, de toute oeuvre importante, m’a conseillé de laisser cela, de boire mon thé en pensant simplement à mes ennuis d’aujourd’hui, à mes désirs de demain qui se laissent remâcher sans peine.”, op. cit., p. 144). Em relação ao termo émouvoir, uma tradução literal seria “comover”.

  No fragmento analisado, a superfície de uma “clara consciência” confunde-se com a superfície do chá na xícara, e a recordação buscada, que “tornou a descer talvez”, parece submersa no líquido fumegante.

  Podemos sugerir a partir de Santo Agostinho, que esta imagem é uma

  79

  metáfora da psique em confronto com o Tempo . Passado, presente e futuro, “mais fáceis” os últimos, neste fragmento, os quais “se deixam ruminar sem esforço”, do que o passado que escapa, que demanda uma busca, “tarefa difícil” diz Proust, mas “obra importante”.

  “Uma xícara de chá!” – poderíamos exclamar – “que objeto insignificante!” E de fato, esta imagem, em sua pequenez, em sua aparente insignificância, nos coloca frente a perdas características da passagem das sociedades tradicionais às sociedades modernas.

  Perda do espaço público, podemos apontar primeiramente, já que o “ritual” do chá – pelo menos nas sociedades ocidentais –, acontece num espaço privado, na intimidade dos lares, compartilhado com pessoas também íntimas, ou mesmo tomado solitariamente, como é o caso do fragmento que estamos comentando (mesmo que o chá tenha sido oferecido ao personagem por sua mãe). E perda especialmente da experiência coletiva (a “Erfahrung” que Benjamim aponta) em favor da experiência particular (para Benjamim, a “Erlebnis”): a recordação buscada é uma experiência íntima, e a própria busca é um processo solitário.

  Este fragmento de Em Busca do Tempo Perdido, fundamental na obra, ao tematizar esta busca como um processo individual, é significativo do romance moderno, e da própria modernidade, que já não pode mais invocar a 79 experiência, a tradição, a memória coletivas.

  

Foi a partir de Santo Agostinho que o tempo pôde ser pensado em relação ao espírito: ”É em

ti (in te), meu espírito, que meço os tempos” (27, 36) (Confissões, citado a partir de: A la

Recherche du temps perdu: le temps traversé, In: Temps et récit I e III – La configuration dans

  Há inúmeros indícios que aproximam Proust da Psicanálise: sua ênfase na memória involuntária, seu apego aos detalhes como significativos, sua descrição daquilo que “quem sabe jamais voltará a subir do fundo da sua noite” – aquilo que a Psicanálise denominará o recalcado.

  O que é intrigante no fragmento citado, e que à primeira vista parece afastá-lo da compreensão psicanalítica, é o conteúdo banal, mas recalcado, da recordação buscada, em contraste com a descrição marcada pelo sofrimento, no início do romance, em que Marcel detalhadamente relembra o suplício do afastamento cotidiano da mãe ao deitar-se, memória poderíamos dizer “traumática”, no entanto já de início consciente, suscitando então algumas

  80

  perguntas: Por que o recalque dos momentos banais? Por que o “trauma”

  

81

  permanece absolutamente consciente? A cidade de Combray inteira, surgindo de uma xícara de chá, suscitada por frágeis vestígios deixados por um sabor e uma fragrância (“o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando,

  82

  esperando ...”) reencontrados na madeleine mergulhada em seu líquido fumegante, inicia um movimento de ampliação efetuado pela memória, ampliação esta representada pela extensão da cidade e das lembranças que

  83

  emergem (e que serão narradas no capítulo seguinte da obra ), mas que neste 80

  

“Acontecimento da vida do Indivíduo que se define pela sua intensidade, pela incapacidade

em que se acha o Indivíduo de lhe responder de forma adequada, pelo transtorno e pelos

efeitos patogénicos duradouros que provoca na organização psíquica.

Em termos económicos, o traumatismo caracteriza-se por um afluxo de excitações que é

excessivo, relativamente à tolerância do Indivíduo e à sua capacidade de dominar e de

elaborar psiquicamente estas excitações.” (LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J.B. Op. cit.,

81 verbete “trauma”, p. 678).

  

“(...) o acontecimento traumático desencadeia por parte do ego, em lugar das defesas

normais habitualmente utilizadas contra um acontecimento penoso (desvio da atenção, por

exemplo), uma «defesa patológica» – cujo modelo é então para Freud o recalcamento – que

82 opera segundo o processo primário.” (Idem, p. 681).

  

PROUST, Marcel. No Caminho de Swann. Op. cit., p. 51. (Du côté de chez Swann: “l’odeur et la saveur restent encore longtemps, comme des âmes, à se rappeler, à attendre, à espérer ...”, op. cit., p. 144). momento do romance referem-se a uma imagem específica: a da retomada de uma casa, até então restrita a uma sala de jantar (em que estão os adultos) e a um quarto, no qual eternamente um menino espera o beijo de “boa noite” que a mãe lhe prometeu: “(...) eis que a velha casa cinzenta, de fachada para a rua, onde estava seu quarto [observação: o da tia do personagem, que costumava lhe oferecer os mesmos bolinhos com chá], veio aplicar-se, como um cenário de teatro, ao pequeno pavilhão que dava para o jardim e que fora construído para meus pais aos fundos da mesma (esse truncado trecho da casa que era

  84

  só o que eu recordava até então).” Vemos então que, da metáfora inicial da xícara de chá, que sugerimos representar a psique, surge uma outra, esta bastante assinalada pela literatura

  85

  psicanalítica como correspondendo ao corpo : a imagem da casa. Mais precisamente, da retomada de uma casa, na qual antes estava-se encerrado.

  E então, a partir da expansão de um espaço – ou melhor, da saída de um espaço em que estava-se confinado –, “Combray inteira” levanta-se da xícara de chá, “e com a casa, a cidade toda, desde a manhã até a noite, por qualquer tempo, a praça para onde me mandavam antes do almoço, as ruas

  86

  por onde eu passava e as estradas que seguíamos quando fazia bom tempo.” É a uma expansão do espaço que Proust alude, e também a uma expansão do tempo: “desde a manhã até a noite, por qualquer tempo”, e não 84 mais apenas à fatídica hora de ‘ir dormir’”.

  

PROUST, Marcel. No Caminho de Swann. Op. cit., p. 51. (Du côté de chez Swann: “(...)

aussitôt la vieille maison grise sur la rue, où était sa chambre, vint comme un décor de théâtre s’appliquer au petit pavillon, donnant sur le jardin, qu’on avait construit pour mes 85

parents sur ses derrières (ce pan tronqué que seul j’avais revu jusque-là.”, op. cit., p. 145).

  

Em “A Interpretação de Sonhos”, Freud assinala este simbolismo: “O corpo humano como

um todo é retratado pela imaginação onírica como uma casa, e os diferentes órgãos do corpo, como partes de uma casa”. (FREUD, Sigmund. A Interpretação de Sonhos. In: Obras 86 Completas. Rio de Janeiro: Editora Imago, vol. IV, p. 227).

  

PROUST, Marcel. No Caminho de Swann. Op. cit., p. 51. (Du côté de chez Swann: “et avec

la maison, la ville depuis le matin jusqu’au soir et par tous les temps, la Place où on

  Podemos entender o sentimento de felicidade que Marcel assinala expressamente (“E recomeço a me perguntar qual poderia ser esse estado desconhecido, que não trazia nenhuma prova lógica, mas a evidência de sua

  87

  felicidade.”) como dizendo respeito à liberdade: liberdade de espaço, liberdade de tempo, mas principalmente liberdade de espírito (não mais encerrado numa cena que se repete invariavelmente, compulsivamente), colocando então no passado suas recordações “truncadas”, e longamente retomadas nos vários quartos nos quais dormiu, e nos quais acordou assombrado pelos fantasmas de sua mãe e de seu pai, restando a ele, Marcel, nada mais do que continuar desempenhando o papel de menino sugestionável, sensível, ao mesmo tempo vítima e senhor da situação.

  É à libertação de uma “cena traumática” que assistimos então. Mas o “trauma” aqui, é o que é consciente, e a recordação buscada, que traz consigo a “evidência de sua felicidade”, revela-se afinal banal.

  A felicidade mencionada não se refere à recordação em si, já que seu conteúdo é bastante prosaico: o chá que a tia do menino lhe oferecia aos domingos, em Combray, junto com as pequenas madeleines.

  No entanto, ao emergir, a lembrança traz consigo o cotidiano da infância, e a felicidade experimentada deve-se à retomada no presente, deste passado esquecido.

  A compulsão à repetição, que podemos notar nos devaneios do narrador ao acordar num quarto estranho – e que sempre referem-se ao quarto do menino em Combray –, pode ser comparada à repetição de cenas traumáticas, nos sonhos dos “neuróticos de guerra”, que levou Freud (entre outros indícios)

  87 a escrever Além do Princípio do Prazer

  88

  , no qual propõe o conceito, ao lado das pulsões de vida, de pulsão de morte. Ou seja, a partir deste artigo, Freud abre a possibilidade de compreendermos o trauma como não necessariamente recalcado, mas como presente (com seu conteúdo intacto) nos sonhos, nos devaneios (e nos jogos).

  Mas tomemos distância da psicopatologia. Nossa intenção foi a de apenas apontar que este episódio não parece afastar-se tanto assim da clínica psicanalítica (e não a de tentar diagnosticar o herói de Em Busca).

  No entanto, esta aproximação com os “neuróticos de guerra” talvez permaneça instigante se, como acreditamos, o fragmento de Em Busca que estamos enfocando, se revele também como característico de uma questão mais abrangente: a da relação do homem com a Cultura, necessariamente conflituosa, do ponto de vista psicanalítico.

  Um comentário de Hélio Pellegrino, psicanalista brasileiro que não teve ainda sua obra publicada, pode indicar um pouco melhor esta idéia:

  “O ser humano é uma ruptura com a natureza e com o Cosmo. É o salto da natureza para a cultura, a linguagem e a Lei, pelas quais tenta assumir o rombo da indeterminação e de liberdade que o constitui. A psicanálise é a ciência desse processo, dessa caminhada pela qual nos tornamos humanos, gradativamente, através de dolorosas lutas e renúncias. O filósofo Althusser disse que todo ser humano é, num certo sentido, um mutilado de guerra – alguém que, para tornar-se humano, sócio da sociedade humana, o faz através de uma tragédia surda, cheia de som e fúria. Isto é perfeitamente justo e exato. Somos humanos na medida de renúncias decisivas, de recalques inevitáveis, de perdas e danos que ferem de morte nossas exigências primárias. Enfim, a neurose no adulto é ainda o rumor de antigas lutas infantis, de coisas que não ficaram perfeitamente esquecidas. A neurose é uma falha no processo da anistia pela qual devemos esquecer nossos conflitos e desejos infantis para olhar adiante – na direção da realidade e do 89 Outro.”

  O que o fragmento de Em Busca em questão nos sugere é que embora alicerçado num drama pessoal do personagem, e portanto passível de ser compreendido de um modo individual (clínico portanto), trata-se de uma questão muito mais abrangente: a da perda, imposta pela Cultura, de uma liberdade primeira a que tivemos que renunciar.

  Não é somente o pequeno Marcel que está enclausurado em seu quarto – e também condenado a mesma hora fatídica. Esta imagem é emblemática da relação que estabelece-se sempre entre o ser humano e a Cultura.

  No registro individual, o evento traumático é muitas vezes recalcado, outras vezes atuado compulsivamente, mas muito mais fundo é o recalque de tudo a que se renunciou: de um “tempo” perdido, mas também de um “espaço” perdido, metáforas do sentimento infantil de pertencer ao mundo, com tudo que de liberdade, mas também de risco que isto acarreta.

  Mas o “tempo perdido” pode ser reencontrado (retrouvé), é o que nos indica Proust. De fato, sabemos que este primeiro momento de Em Busca que estamos enfocando, foi escrito concomitantemente ao último da obra, que enfatiza o processo de criação pela arte como possibilidade do reencontro com um tempo que acredita-se perdido.

  É sobre o poder da arte de referir-se ao mundo com o mesmo sentimento de “pertencimento” de que a criança foi capaz, ameaçando as noções que diferenciam sujeito/objeto ou eu/outro (e ao qual renunciou), que nos fala Paul Ricouer:

  “(...) O discurso poético também está no registro do mundo, mas não dos objetos manipulados de nosso ambiente cotidiano. Ele se refere às nossas maneiras múltiplas de pertencer ao mundo antes que nos opuséssemos às coisas a título de “objetos” dando de frente para um “sujeito”. Se nos tornamos cegos para estas modalidades de enraizamento e de pertencimento que precedeu a relação de um sujeito com objetos é porque ratificamos de maneira não crítica um certo conceito de verdade, definido pela adequação a um real de objetos e submetido ao critério da verificação e da falsificação empíricas. O discurso poético questiona precisamente esses conceitos não criticados de adequação e de verificação. Ao fazer isso, ele questiona a redução da função referencial ao discurso descritivo e abre o campo de uma 90 referência não descritiva ao mundo.”

  Se as “maneiras múltiplas de pertencer ao mundo” nos levam a este "antes" situado na infância (como na descrição que analisamos), isto no entanto, não deveria reforçar a crença na "infância feliz".

  Segundo a perspectiva psicanalítica, a infância é o momento em que tivemos que renunciar aos mais caros objetos de nossos desejos, e aos impulsos mais arcaicos do desenvolvimento - processo sempre violento (não é a toa que Hélio Pellegrino, citando Althusser, fala em "mutilados de guerra") -, e não o período "feliz" que gostaríamos que fosse e que a Cultura idealiza.

  Este "antes", de que fala Ricouer, e que quando recordado, revela-se banal, mas ao mesmo tempo, nas palavras do narrador de Em Busca, traz "a evidência de sua felicidade", refere-se não tanto à infância, mas à possibilidade de uma outra maneira de relacionar-se com a realidade, que foi, não perdida, mas esquecida, e que pode talvez ser reencontrada (possibilidade para a qual a arte é uma via privilegiada).

  É sobre esta possibilidade – de retomada do sentimento de pertencer ao mundo – que é construída, nos parece, a narração deste episódio de Em

  

Busca, episódio singelo ao referir-se ao drama pessoal do narrador, mas também exemplar: nele, cada um de nós pode identificar-se com as sucessivas renúncias, que o embate com a Cultura nos impõe. Nas palavras de Ricoeur:

  “Eis porque a instituição é necessariamente constrangedora: o homem só se educa ‘renunciando’ a um exercício arcaico, ‘abandonando’ objetos e objetivos ultrapassados. A instituição é a contrapartida dessa estrutura ‘perversa polimorfa’. Porque o adulto permanece a presa da criança que ele foi, porque pode se atrasar e regredir, porque é capaz de arcaísmo, o conflito não é um acidente que uma melhor organização social ou uma melhor pedagogia poderia poupar-lhe. O ser humano só pode viver seu ingresso na cultura de um modo conflitual. Há um sofrimento que adere à tarefa da cultura como 91 um destino, como esse destino ilustrado pela tragédia de Édipo.”

  A questão edípica, insinuada por Ricoeur quando fala de um “destino ilustrado pela tragédia de Édipo”, será discutida a seguir, quando prosseguimos a nossa leitura (não linear) da obra de Proust.

Capítulo IV A História Invisível de Uma Vocação

  “[(...) o enigma a ser resolvido é o da “relação” entre os momentos bem-aventurados, oferecidos pelo acaso e pela memória 92 involuntária, e a “história invisível de uma vocação”.]”

  Este capítulo nasceu da leitura do texto de Paul Ricoeur sobre Em

  94 na qual a obra é tomada como “uma fábula sobre o tempo” .

  Esta leitura nos suscitou algumas questões, que serão explicitadas no decorrer do capítulo, e às quais buscamos responder.

  Ricoeur assinala a existência de uma “simetria entre o começo e o final”, de Em Busca:

  “O que o narrador entende por tempo redescoberto? Para tentar responder a essa questão, aproveitaremos a simetria entre o começo e o final da grande narrativa. Da mesma forma que a experiência da madalena delimita em No caminho de Swann um antes e um depois, o antes do semidespertar e o após do tempo redescoberto de Combray, também a grande cena da biblioteca da mansão de Guermantes delimita um antes ao qual o narrador conferiu uma amplidão significativa e um depois onde se descobre a significação 95 92 última do Tempo redescoberto”. 93 RICOEUR, Paulo. Tempo e Narrativa - Tomo II. Op. cit., p. 242. 94 Citado na nota anterior.

  

“A decisão de escrever tem, então, a virtude de transpor o extratemporal da visão original

para a temporalidade da ressurreição do tempo perdido. Nesse sentido, pode-se dizer que,

na realidade, Em busca... conta a transição de uma significação para outra do tempo

  É esta simetria que nos inspira considerar três momentos do romance.

I – Do Quarto à Biblioteca

  O começo, “o semidespertar”, de que fala Ricoeur, é seguido na obra, pela narração de lembranças de infância do narrador, centradas na obsessiva cena que o atormenta em inúmeros quartos nos quais dormiu: o episódio do “beijo de boa noite”, beijo este negado ao menino quando da visita do Sr. Swann. A narração deste episódio antecede o da madeleine, a partir do qual Ricoeur propõe que as lembranças devam ser compreendidas:

  “Essas lembranças articulam-se em torno de um episódio singular, a experiência da madalena; esse episódio tem seu antes e seu depois. Antes, há apenas arquipélagos de lembranças sem vínculo; só emerge a lembrança de um certo beijo da noite, ele próprio situado sobre o fundo de um ritual costumeiro: beijo materno recusado quando da chegada do senhor Swann; beijo esperado na angústia; beijo ainda mendigado ao final da vigília noturna; beijo finalmente obtido, mas logo despojado da qualidade da felicidade almejada. Pela primeira vez, a voz do narrador torna-se distinta; evocando a lembrança de seu pai, o narrador observa: “Faz muitos anos isso. A parede da escada, onde vi subir o reflexo da sua vela, já não existe há muito... Faz também muito tempo que meu pai já deixou de poder dizer a mamãe: ‘Vai com o pequeno’. Jamais renascerá para mim a possibilidade de tais horas”. 96 Já nos referimos em capítulo anterior ao episódio da madeleine, e

  voltaremos a ele adiante. Nos deteremos no do “beijo de boa noite”, lembrança marcante da infância vivida pelo narrador em Combray, que culmina com a decisão do menino de obter o beijo de qualquer maneira (ficando acordado e aguardando que seus pais se recolhessem, quando poderia tentar obtê-lo furtivamente), mas sendo surpreendido pelo pai, que trava com a mãe o seguinte diálogo:

  “Olhou-me um momento, com um ar atônito e agastado, e, depois que mamãe, com algumas palavras embaraçadas, explicou-lhe o que acontecera, retrucou-lhe:

  • Pois então vai com o menino, já que dizias que não tinhas sono; fica um pouco no quarto dele, eu não tenho necessidade de nada.
  • Mas, meu caro – respondeu timidamente minha mãe –, que eu tenha ou não vontade de dormir, isso não altera em nada as coisas. O que não se pode é habituar esse menino...
  • Mas não se trata de habituar – disse meu pai, dando de ombros
    • –, bem vês que esse pequeno está aflito, tem um ar desolado essa criança; vejamos, afinal de contas nós não somos carrascos! Muito terás adiantado, depois que o fizeres adoecer! Como há duas camas no seu quarto, manda Françoise preparar-te a grande e deita esta noite perto dele. Bem, boa-noite, eu que não sou tão nervoso como vocês, vou deitar-me.

  Não se podia agradecer a meu pai, seria irritá-lo com o que ele 97 chamava de pieguices. Não me atrevia a fazer um movimento (...).”

  Tal como evocado por Ricoeur (em citação anterior), teria havido no episódio um “beijo finalmente obtido”, o que provoca perplexidade no leitor atento, pois não há menção a este beijo, e sim desdobramentos inesperados a

  

98

97 partir da decisão do menino em obtê-lo.

  

PROUST, Marcel. No Caminho de Swann. Op. cit., p. 41. (Du côté de chez Swann: “Il me

regarda un instant d’un air étonné et fâché, puis dès que maman lui eut expliqué en quelques mots embarrassés ce qui était arrivé, il lui dit : « Mais va donc avec lui, puisque tu disais justement que tu n’as pas envie de dormir, reste un peu dans sa chambre, moi je n’ai besoin de rien. – Mais, mon ami, répondit timidement ma mère, que j’aie envie ou non de dormir, ne change rien à la chose, on ne peut pas habituer cet enfant... – Mais il ne s’agit pas d’habituer, dit mon père en haussant les épaules, tu vois bien que ce petit a du chagrin, il a l’air désolé, cet enfant; voyons, nous ne sommes pas des bourreaux! Quand tu l’auras rendu malade, tu seras bien avancée! Puisqu’il y a deux lits dans sa chambre, dis donc à Françoise de te préparer le grand lit et couche pour cette nuit auprès de lui. Allons, bonsoir, moi qui ne suis pas si nerveux que vous, je vais me coucher. » On ne pouvait pas remercier mon père; on l’eût agacé par ce qu’il appelait des

  O que torna o episódio inquietante para o menino (e também para o leitor!), é que o que foi obtido, foi “mais do que um beijo”, o jamais esperado, a permissão dada pelo pai à mãe, para que passasse a noite no quarto do filho, o que o torna nas palavras do narrador, a “noite talvez mais doce e triste de

  99 minha vida”.

  Sobre a tristeza desta noite, nos deteremos adiante. Sobre a doçura desta noite, basta por enquanto assinalar sua relação com a literatura: de fato, é a leitura que faz a mãe de um romance de George Sand (François le Champi) que acalma o menino de seus temores.

  Aceitando a sugestão de Ricoeur, da existência de uma “simetria entre o começo e o final da grande narrativa”, também nos reportaremos ao trajeto do quarto nunca esquecido da infância do narrador à biblioteca onde se dá a descoberta da “história invisível de uma vocação”: a parte final da obra, referente por sua vez, ao início do projeto de “ser escritor”.

  Mas antes da recepção dos Guermantes, em que o narrador é

  100

  convidado a esperar na biblioteca – episódio que denomina “visita” –, Ricoeur ressalta uma mudança de “tom da narrativa”:

  “Com efeito, o tom da narrativa inverte-se no momento em que o herói se deixa seduzir, como outrora em Combray, pelo nome de 101 Guermantes, lido no convite para o almoço oferecido pelo príncipe.”

como por exemplo, o contido neste comentário de Roger Shattuck, em que é mencionado um

pretenso arrependimento da mãe do personagem, inexistente no texto:

  Numa noite da infância do narrador (chamaremos o menino de Marcel), a visita de Monsieur Swann para o jantar levou a mãe de Marcel a recusar-se a subir e a dar- lhe um beijo de boa-noite. Em protesto, ele permaneceu acordado até que Swann fosse embora. Então, arrependida, a mãe leu para ele e passou a noite em seu 99 quarto. (SHATTUCK, Roger. As Idéias de Proust. São Paulo: Cultrix, 1985, p. 48).

  

PROUST, Marcel. O Tempo Redescoberto. Op. cit., p. 165. (Le temps retrouvé: “(...) pendant

100 la nuit peut-être la plus douce et la plus triste de ma vie (...), op. cit., p. 245).

  

Em francês “visitation”, segundo observação de Jeanne-Marie Gagnebin, é uma alusão ao

  A partir do momento em que deixe-se novamente seduzir pelo nome de Guermantes, é aparentemente “por acaso” que o herói passa a vivenciar algumas experiências que mantêm, por correspondência com a idéia de “felicidade”, uma afinidade com a experiência da madeleine, segundo Ricoeur:

  “É então que o herói acolhe como um “aviso” portador de salvação uma série de experiências em tudo semelhantes, pela felicidade que dispensam, às de Combray, “e me pareciam sintetizar-se nas últimas obras de Vinteuil”: a topada nos degraus desiguais, o tilintar de uma colher em um prato, a rigidez pesada de um guardanapo dobrado. Mas, enquanto outrora o narrador tivera de adiar a elucidação das razões dessa felicidade, dessa vez, está bem decidido a elucidar seu enigma. Não que o narrador não tivesse percebido, desde a época de Combray, que a alegria intensa que sentia resultava da conjunção fortuita entre duas impressões semelhantes a despeito de sua distância no tempo; aliás, ainda dessa vez, o herói não tarda em reconhecer Veneza e as duas lajotas desiguais do batistério de São Marcos sob a impressão da pavimentação desigual de Paris. O enigma a ser resolvido não é, portanto, que a distância temporal possa ser anulada desse modo “por acaso”, “como por encanto”, na identidade de um mesmo instante: é que a alegria recebida seja “uma alegria semelhante à da certeza, e suficiente para, sem mais provas, tornar-me indiferente a idéia da morte?”. Em outras palavras; o enigma a ser resolvido é o da relação entre os momentos bem- aventurados, oferecidos pelo acaso e pela memória involuntária, e a 102 ‘história invisível de uma vocação’”.

  Os dois últimos eventos citados por Ricoeur (“o tilintar de uma colher em um prato, a rigidez pesada de um guardanapo dobrado”), já se passam na pequena sala-biblioteca, em que o narrador aguarda a abertura das portas do salão onde se dá a recepção.

  O evento culminante do episódio da biblioteca é a descoberta de

  

François le Champi entre os livros, que no entanto não tem merecido dos

  103

  comentadores a mesma valoração dos eventos que Roger Shattuck denomina como “as três ressurreições clássicas: a torrada mergulhada no chá; as lajes desiguais do calçamento; o retinir da colher num prato”.

  De fato, apesar de aparentada com os três eventos citados – especialmente pelo papel do acaso –, a descoberta do volume entre inúmeros outros da biblioteca, guarda uma importante diferença em relação àqueles, que prontamente o narrador assinala:

  “E, sem parar de refletir, ia tirando um a um, sem maior atenção, os preciosos volumes, quando, ao abrir distraidamente um deles, “François le Champi”, de George Sand, assaltou-me uma impressão de início desagradável, como se contrariasse o rumo atual de meu pensamento, mas que depois, comovido até as lágrimas, reconheci estar bem de acordo com ele. Tal como numa câmara ardente, quando os empregados da empresa funerária se preparam para levar o caixão, o filho do morto que prestara grandes serviços à pátria, ao ouvir, enquanto aperta a mão dos últimos amigos em desfile, explodir de súbito sob suas janelas uma fanfarra, revolta-se imaginando tratar- se de pilhéria insultuosa a sua dor, e, em seguida, ele que até então se dominara, não contém mais o pranto, pois compreende ser a banda de um regimento que vem associar-se a sua dor e prestar homenagem aos restos de seu pai. Assim acabava eu de reconhecer a impressão dolorosa experimentada ao ler na biblioteca do príncipe de Guermantes o título de um livro, título do qual me viera a noção da realidade do mundo misterioso que já agora não encontrava mais na 104 103 literatura.” 104 SHATTUCK, Roger. Op. cit., p. 128.

  PROUST, Marcel. O Tempo Redescoberto. Op. cit., p. 162 (Le temps retrouvé: “Et tout en poursuivant mon raisonnement, je tirais un à un, sans trop y faire attention du reste, les précieux volumes, quand, au moment où j’ouvrais distraitement l’un d’eux : François le Champi de George Sand, je me sentis désagréablement frappé comme par quelque impression trop en désaccord avec mes pensées actuelles, jusqu’au moment où, avec une émotion qui allait jusqu’à me faire pleurer, je reconnus combien cette impression était d’accord avec elles. Tandis que dans la chambre mortuaire les employés des pompes funèbres se préparent à descendre la bière, et que le fils d’un homme qui a rendu des services à la patrie serre la main aux derniers amis qui défilent, si tout à coup retentit sous

  Este diferencial é a “impressão de início desagradável”, que contrasta com as impressões felizes que lhe suscitaram as “ressurreições clássicas”.

  Esta característica não deve nos surpreender. Já comentamos em capítulo anterior, o contraste entre esta lembrança dolorosa (veremos que trata-se do episódio do “beijo de boa noite”) que surge agora novamente, mas nunca “recalcada”

  105

  , e as lembranças de Combray, surgidas do episódio da “madeleine”, lembranças banais, mas que suscitaram um sentimento de felicidade, advindo da conjunção entre o passado e o presente.

  O conteúdo da lembrança no episódio da descoberta de François le

  

Champi, inicialmente desprazeroso, revela-se afinal como algo de comovente

  (o que é expresso sugestivamente na metáfora do “pai morto”

  106

  ), e que precipita uma mudança surpreendente de perspectiva pelo narrador:

  “Indagara com raiva que estranho me vinha perturbar, e o estranho era eu mesmo, a criança que fora, logo suscitada pelo livro que só dela tomava em mim conhecimento, só a ela invocava, não querendo ser visto senão por seus olhos, amado senão por seu coração, ouvido senão por seus ouvidos. Por seu lado, este livro, cuja leitura minha mãe me fizera em Combray até alta madrugada, guardara para mim todo o encanto daquela noite.” 107 s’accordait avec mes pensées actuelles la douloureuse impression que j’avais éprouvée en voyant ce titre d’un livre dans la bibliothèque du prince de Guermantes; titre qui m’avait donné l’idée que la littérature nous offrait vraiment ce monde de mystère que je ne trouvais plus en elle.”, op. cit., p. 241). 105

Em termos psicanalíticos, esta lembrança provem do pré-consciente, que faz parte do

  Sistema Cs./Pré-cs., e não do Inconsciente. 106

Em Totem e Tabú, Freud sugere o nascimento da Cultura a partir de um ato de selvageria: o

assassinato do pai primitivo. “Discutível do ponto de vista histórico, esta hipótese deve ser entendida principalmente como um mito que traduz a exigência imposta a todo o ser humano de ser um ‘rebento de Édipo’”, segundo J. Laplanche e J. B. Pontalis (In: Vocabulário da Psicanálise, op. cit., p. 120, verbete Complexo de Édipo). Na clínica psicanalítica, muitas vezes encontramos como um momento importante da análise, a “morte simbólica do pai”. A menção ao “pai morto” neste momento do romance, em que o escritor está prestes a assumir a sua vocação não é pois, isenta de significação, de um ponto de vista psicanalítico.

  De fato o episódio parece representar, não o contrário, mas o outro lado do da madeleine. A face, entrevista inicialmente com raiva “do estranho” (l’étranger) “que me vinha perturbar”, e na qual o narrador reconhece “eu mesmo, a criança que fora”, agora apropriada, faz com que a lembrança seja retomada com um prazer evidente, ligado diretamente ao encanto do menino com a literatura, agora reencontrado através do encontro fortuito com o romance:

  “Não era entretanto um livro extraordinário, era François le Champi, mas este nome, como o de Guermantes, não se confundia para mim com os que depois aprendi. A lembrança de tudo quanto, ao ouvir mamãe lê-lo, me parecera inexplicável no enredo de François le Champi acudia invocada pelo título, do mesmo modo por que o nome dos Guermantes (quando passava muito tempo sem vê-los) resumia para mim o feudalismo – como François le Champi a essência do romance. (...) Era uma remota impressão, onde se misturavam suaves reminiscências de infância e de família, e que eu não reconhecera de pronto.” 108

  Entrega-se então, à rememoração destas lembranças (na verdade, não tão suaves assim), utilizando na sua descrição, um termo surpreendente, à primeira vista:

  “como no caso deste François le Champi, contemplado pela primeira vez em meu quarto de Combray, na noite talvez mais doce e triste de minha vida – quando, ai de mim (numa época em que me pareciam inacessíveis os misteriosos Guermantes), obtive de meus pais a en moi, car, de moi ne connaissant que cet enfant, c’est cet enfant que le livre avait appelé tout de suite, ne voulant être regardé que par ses yeux, aimé que par son coeur, et ne parler qu’à lui. Aussi ce livre que ma mère m’avait lu haut à Combray presque jusqu’au matin, avait-il gardé pour moi tout le charme de cette nuit-là.”, op. cit., p. 242). 108 Idem, p. 162 (Le temps retrouvé: “Et pourtant ce n’était pas un livre bien extraordinaire, c’était François le Champi. Mais ce nom-là, comme le nom de Guermantes, n’était pas pour moi comme ceux que j’avais connu depuis. Le souvenir de ce qui m’avait semblé inexplicable dans le sujet de François le Champi tandis que maman me lisait le livre de George Sand, était réveillé par ce titre (aussi bien que le nom de Guermantes, quand je n’avais pas vu les Guermantes depuis longtemps, contenait pour moi tant de féodalité – abdicação inicial, da qual data o declínio de minha saúde, e de minha vontade, minha sempre crescente renúncia a qualquer tarefa difícil – e revisto hoje na biblioteca dos Guermantes, precisamente no dia mais belo, o que me iluminava subitamente não somente as antigas hesitações intelectuais, mas a própria razão de ser de minha existência e quiçá da arte.” 109

  Proust emprega o termo “abdicação” (abdication no original)

  110

  , para caracterizar algo que o narrador obtivera de seus pais “na noite talvez mais doce e triste de minha vida” (e relembrado “precisamente no dia mais belo”), e que sabemos referir-se à noite em que o menino não pudera dormir sem o beijo da mãe, e conseguira enfim, o que nem em sonhos ousara desejar: que a mãe passasse a noite em seu quarto.

  O termo nos parece surpreendente, pois parece indicar como que o fim da infância do menino – já que os pais parecem renunciar ao seu poder –, e que é desta forma investido de algo, de uma responsabilidade que seria deles, e que passaria agora a ser do menino, que o sente como um peso excessivo:

  “aquela reviravolta das coisas humanas, que, uma hora depois que mamãe se recusara a subir a meu quarto e me mandara desdenhosamente dizer que dormisse, me elevava assim à dignidade de adulto, fazendo-me atingir de súbito uma espécie de puberdade do sofrimento, de emancipação das lágrimas. Deveria sentir-me feliz e não o era.” 111 109

  Idem, p. 165 (Le temps retrouvé: “(...) comme à ce François le Champi, contemplé pour la première fois dans ma petite chambre de Combray, pendant la nuit peut-être la plus douce et la plus triste de ma vie où j’avais, hélas! (dans un temps où me paraissaient bien inaccessibles les mystérieux Guermantes) obtenu de mes parents une première abdication d’où je pouvais faire dater le déclin de ma santé et de mon vouloir, mon renoncement chaque jour aggravé à une tâche difficile – et retrouvé aujourd’hui dans la bibliothèque des Guermantes précisément, par le jour le plus beau et dont s’éclairaient soudain non seulement les tâtonnements anciens de ma pensée, mais même le but de ma vie et peut- être de l’art.”, p. 245-246). 110Abdication: renonciation au pouvoir” (renúncia ao poder) (Dictionnaire Encyclopédique

  Larousse, Librairie Larousse, Paris, 1979). 111

  A sentença tão forte, “vai com o menino”, que o pai profere, não pode deixar de suscitar questões, por parte do leitor moderno, que tem presente no seu horizonte a Psicanálise (e este é o leitor de Proust, sendo este

  112

  contemporâneo a Freud) , que se não contempladas, colocam em risco a própria compreensão do episódio, que permanecerá em grande medida, opaco.

  113

  Julia Kristeva, a propósito de François le Champi , comenta:

  “Menos “campestre” que os outros, François le Champi (1850) relata a história de uma criança achada (champi significa “criança achada” em dialeto da região de Berry) que, recolhida pela moleira Madeleine Blanchet, e seu objeto de amor inconsciente, torna-se efetivamente o amante e em seguida o esposo de sua mãe adotiva, quando, retornando, adulto, a seu vilarejo, ele reencontra Madeleine enviuvada.

  Proust, que mais tarde criticou freqüentemente George Sand, guardou entretanto referência central a François le Champi, afirmando assim o papel estruturante da leitura deste texto na edificação da Recherche: no fim do Tempo Reencontrado, na biblioteca do príncipe de Guermantes, o volume “campestre” provoca a quarta reminiscência e a revelação estética do escritor. Tem-se portanto motivos para pensar que é precisamente o tema incestuoso, o da mãe pecadora, que reteve e manteve a atenção de Proust sobre François le Champi, para além de suas reticências em relação ao estilo de George Sand. A moleira chagrin, d’émancipation des larmes. J’aurais dû être heureux : je ne l’étais pas.”, op. cit., p. 112 134).

  

A questão da possível influência de Freud na obra de Proust, tem sido considerada por

vários comentadores, mas não tem recebido uma resposta conclusiva: “Quando Proust escrevia Jean Santeuil entre 1895 e 1900, a psicanálise dava seus primeiros passos em Viena. (...) Poderíamos acreditar, que Proust tenha lido A Interpretação dos Sonhos de Freud publicada em alemão em 1900 e traduzida, em 1926, por Meyerson. Sabemos que o jovem Proust tinha preferido o curso de alemão no liceu Condorcet ao curso de inglês dado por Mallarmé na época, mas dizer que por isso lia Freud em sua língua seria extrapolar sem provas. Teria ele tido acesso à teoria psicanalítica lendo outros escritos de Freud ou de seus discípulos?” (WILLERMART, Philippe. Proust, Poeta e Psicanalista. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000, p. 106.

  Madeleine Blanchet transmitirá assim, com a brancura de sua farinha, o gosto de um amor proibido que se insinuará no credo estético maior do narrador, transformado em objeto aparentemente anódino: as pequenas madeleines.”

  Apesar de caminhar no mesmo sentido da análise que proporemos, Kristeva não se refere, em relação a François le Champi, ao episódio do “beijo de boa noite” que enfocamos aqui.

  Mas, o que mais nos afasta da interpretação de Kristeva, é que esta visa sobretudo o autor de Em Busca, e tem como objeto de análise as várias versões produzidas anteriormente, tentando demonstrar que a referência à personagem Madeleine Blanchet teria sido suprimida por Proust no episódio que relata a leitura de François le Champi, feita pela mãe do narrador; supressão que por sua vez tornaria enigmático o episódio da “madeleine”.

  Não se trata aqui, de analisar Proust. Não que isto não seja possível (o próprio Freud não relutou em aceitar por vezes este desafio: analisar o artista através de sua obra, mas trata-se de uma empreitada extremamente arriscada e desnecessária para os nossos propósitos). Mas sim, de que para o leitor de Freud convencido por ele de que as descobertas psicanalíticas podem ser exemplificadas não só na clínica, mas também na vida cotidiana e na ficção literária, este episódio quase “clama” por uma análise. Análise aliás, que o próprio narrador empreende (discutiremos esta questão no capítulo VI).

  Ricoeur, no texto que estamos considerando, não comenta, e nem sequer menciona a frase que destacamos. Talvez isto em parte se deva ao

  114

  risco que menciona em Da Interpretação – Ensaio Sobre Freud , e que, por não ser “analista nem analisado”, poderia tê-lo inibido numa possível interpretação do texto proustiano, que a sua leitura acurada de Freud mais do 114 que o habilitaria.

  Pode-se lamentar especialmente que não tenha empreendido esta

  115

  leitura de inspiração psicanalítica, pois o texto em questão como já foi mencionado, faz parte de uma reflexão mais ampla sobre o tempo na ficção (em que são considerados ainda outros textos literários), e na qual ficção e

  

realidade são aproximadas através do conceito de “experiência fictícia” (o

  nome deste capítulo chama-se exatamente “A Experiência Temporal Fictícia”), aproximação esta também importante para o pensamento psicanalítico (por exemplo, quando Freud, em 1903, escreve “Gradiva”, em que demonstra a analogia existente entre o sonho efetivamente sonhado, e o sonho na ficção).

  Num ato de ousadia, mas estritamente como leitura de Freud, tentemos escutar esta sentença que o pai do menino, neste início do romance, profere, e com cujas conseqüências o narrador “vai ter de se haver” durante as três mil páginas que compõem a obra: “Vai com o menino”.

  Podemos compreender, por esta frase – se admitirmos as descobertas psicanalíticas –, porque o narrador fala em “abdicação” em relação ao episódio inteiro: trata-se de uma renúncia, de uma desistência, do que seria próprio do desempenho da função paterna, que visa assegurar a entrada da criança na cultura, através da aceitação da lei da proibição ao incesto. Nas palavras de Hélio Pellegrino:

  “Nascemos uma vez, quando somos expulsos do útero materno. E pela Lei do pai, que interdita o incesto, nascemos uma segunda vez, na medida em que a figura materna nos é proibida, enquanto objeto sexual genital. (...) Somos incompletos. Somos, enquanto seres humanos, uma ruptura com a natureza. Somos expulsos do paraíso. Tudo isso vai nos surgir, na evolução psíquica de cada um de nós, através das vicissitudes do drama edipiano. O complexo de Édipo é o crivo pelo qual cada um de nós tem que passar, para tornar-se, verdadeiramente, 116 sócio da sociedade humana.” Na noite da “abdicação”, o menino é, para seu prazer e desespero, levado simbolicamente a transgredir o que Pellegrino chama de Lei do pai, que interdita o incesto, e é significativo que tenha clareza desta interdição, que “seu maior desejo” também fosse “contrário às necessidades da vida e ao sentir de todos”, o que explica os remorsos que sentiu, agora acalmados pelo prazer da leitura:

  “Meus remorsos estavam agora acalmados, eu me abandonava à doçura daquela noite em que tinha mamãe junto de mim. Sabia que uma noite daquela não poderia repetir-se: que o meu maior desejo no mundo, ter mamãe comigo no quarto durante aquelas tristes horas noturnas, era por demais contrário às necessidades da vida e ao sentir de todos, para que a realização que lhe fora concedida aquela noite não pudesse ser mais que uma coisa fictícia e excepcional. Amanhã recomeçariam as minhas angústias e mamãe não estaria ali 117 comigo.

  Anteriormente, o narrador comenta um aspecto da personalidade do pai, na tentativa de compreender sua atitude, mas no entanto acaba por lançar dúvidas sobre seu amor pelo menino:

  “Talvez até aquilo a que eu chamava sua severidade, quando me mandava deitar, merecesse menos esse nome do que a severidade de minha mãe ou de minha avó, pois a natureza de meu pai, (...) provavelmente não havia adivinhado até então o quanto eu sofria todas as noites, coisa que minha mãe e minha avó muito bem sabiam: mas as duas me amavam o bastante para não consentir que me fosse poupado o sofrimento, pois queriam ensinar-me a dominá-lo, a fim de diminuir minha sensibilidade nervosa e fortalecer minha vontade. Quanto a meu pai, cuja afeição por mim era de outra espécie, não sei

  117 PROUST, Marcel. No Caminho de Swann. Op. cit., p. 47 (Du côté de chez Swann: “Mes remords étaient calmés, je me laissais aller à la douceur de cette nuit où j’avais ma mère auprès de moi. Je savais qu’une telle nuit ne pourrait se renouveler; que le plus grand désir que j’eusse au monde, garder ma mère dans ma chambre pendant ces tristes heures nocturnes, était trop en opposition avec les nécessités de la vie et le voeu de tous, pour que se teria ele tal coragem: logo que compreendeu que eu sofria, dissera 118 a minha mãe: “Vai consolá-lo”.”

  É o drama (que se passa no quarto de dormir) do menino assoberbado pelas questões edípicas, que é reencontrado no episódio da Biblioteca, a partir da descoberta de François le Champi entre os livros.

  Mas o que significa este reencontro? Como teria afinal, o herói de Em

  Busca, elaborado seu dilema edípico? É o que tentaremos abordar a seguir.

II – Ainda na Biblioteca – “Um Romance Familiar”

  Ainda mais uma vez, nas páginas finais de Em Busca, o narrador volta a referir-se ao episódio do beijo de “boa noite” (mencionando novamente

  

François le Champi), agora nomeado como “abdicação de minha mãe”. Para

  compreendermos melhor o termo “abdicação de minha mãe”, que no contexto desta tentativa de interpretação deve ser diferenciado do de “abdicação de meus pais” já mencionado, o seguinte fragmento é esclarecedor:

  “Parecia-me que minha mãe acabava de me fazer uma primeira concessão que lhe deveria ser dolorosa, que era uma primeira abdicação de sua parte ao ideal que concebera para mim, e que pela primeira vez, ela, tão corajosa, se confessava vencida. Que, se eu havia alcançado uma vitória, era contra ela, que lhe conseguira quebrantar o ânimo e dominar a razão 118 como o teriam feito a doença, o sofrimento ou a velhice, e que aquela noite

  Idem, p. 42 (Du côté de chez Swann: “Peut-être même que ce que j’appelais sa sévérité, quand il m’envoyait me coucher, méritait moins ce nom que celle de ma mère ou ma grand- mère, car sa nature, plus différente en certains points de la mienne que n’était la leur, n’avait probablement pas deviné jusqu’ici combien j’étais malheureux tous les soirs, ce que ma mère et ma grand-mère savaient bien; mais elles m’aimaient assez pour ne pas consentir à encetava uma nova era e ficaria como uma triste data. (...) Por certo, o belo rosto de minha mãe ainda brilhava de juventude naquela noite em que me prendia tão docemente as mãos e procurava estancar o pranto; mas parecia-me que não deveria ser assim, que sua cólera me deveria ser menos triste do que aquela recente brandura que minha infância desconhecera; e que, com mão sacrílega e furtiva, eu acabava de traçar- lhe na alma a primeira ruga e de ali fazer surgir o primeiro fio de cabelo 119 branco.”

  Ou seja, “a abdicação de minha mãe” é uma abdicação “ao ideal que concebera para mim”, que é vivenciado como uma derrota por parte dela (é comum – em termos psicanalíticos –, mas também fonte de neurose, que a mãe projete no filho seu ideal, e sinta-se fracassada quando este ideal não se confirma).

  Este episódio é narrado agora, incluindo nesta lembrança a figura de Swann, cuja importância comentaremos:

  “Ah! se ainda possuísse as forças intactas da noite que então evoquei, sugerida por François le Champi! Daquela noite, a da abdicação de minha mãe, datava, com a lenta morte de minha avó, o declínio de minha vontade, de minha saúde. Tudo se decidiu no momento em que, incapaz de esperar o dia seguinte para pousar os lábios no rosto de minha mãe, eu me resolvi, saltei da cama e fui, de camisa de dormir, instalar-me na janela por onde entrava o luar, até a saída de Swann. Meus pais o haviam acompanhado, ouvi o portão 120 119 abrir-se, fazer soar o badalo, fechar-se.”

  

Idem, p. 43 (Du côté de chez Swann: “Il me semblait que ma mère venait de me faire une

première concession qui devait lui être douloureuse, que c’était une première abdication de sa part devant l’idéal qu’elle avait conçu pour moi, et que pour la première fois elle, si courageuse, s’avouait vaincue. Il me semblait que si je venais de remporter une victoire c’était contre elle, que j’avais réussi comme auraient pu faire la maladie, des chagrins, ou l’âge, à détendre sa volonté, à faire fléchir sa raison et que cette soirée commençait une ère, resterait comme une triste date. (...) Certes, le beau visage de ma mère brillait encore de jeunesse ce soir-là où elle me tenait si doucement les mains et cherchait à arrêter mes larmes; mais justement il me semblait que cela n’aurait pas dû être, sa colère eût été moins triste pour moi que cette douceur nouvelle que n’avait pas connue mon enfance; il me semblait que je venais d’une main impie et secrète de tracer dans son âme une première

  E ainda:

  “Neste momento, na casa do príncipe de Guermantes, o ruído dos passos de meus pais reconduzindo Swann, o tilintar álacre, ferruginoso, interminável, agudo e claro da sineta, anunciando que afinal a visita se fora e mamãe ia subir, eu os ouvia ainda, distintamente, apesar de já tão remotos. E, refletindo sobre todos os sucessos necessariamente situados entre o instante em que os ouvira e a matinée dos Guermantes, pasmou-me verificar ser bem a mesma sineta que ainda repercutia em mim, sem me ser sequer possível 121 atenuar-lhe os sons gritantes do badalo, (...)”

  O beijo de boa noite, ritual cotidianamente encenado e que simboliza o vínculo do menino à mãe, só era suspenso por ocasião das visitas recebidas, e quase que o único visitante era Swann: “Em geral, o visitante era o Sr. Swann, o qual, além de alguns forasteiros de passagem, era quase a única pessoa que

  122

  vinha a nossa casa em Combray...” A importância desse personagem não pode ser subestimada, entre outros motivos, por seu nome aparecer no próprio título do primeiro livro de Em

  

Busca. Aliás, aparece também num relato desse mesmo livro (“Um Amor de

en apercevant François le Champi! C’était de cette soirée, où ma mère avait abdiqué, que datait, avec la mort lente de ma grand’mère, le déclin de ma volonté, de ma santé. Tout s’était décidé au moment où, ne pouvant plus supporter d’attendre au lendemain pour poser mes lèvres sur le visage de ma mère, j’avais pris ma résolution, j’avais sauté du lit et étais allé, en chemise de nuit, m’installer à la fenêtre par où entrait le clair de lune jusqu’à ce que j’eusse entendu partir M. Swann. Mes parents l’avaient accompagné, j’avais entendu la 121 porte du jardins s’ouvrir, sonner, se refermer...”, op. cit., p. 438-439).

  Idem, p. 290 (Le temps retrouvé: “(...) c’est qu’à ce moment même, dans l’hôtel du prince de Guermantes, ce bruit des pas de mes parents reconduisant M. Swann, ce tintement rebondissant, ferrugineux, intarissable, criard et frais de la petite sonnette que m’annonçait qu’enfin M. Swann était parti et que maman allait monter, je les entendis encore, je les entendis eux-mêmes, eux situés pourtant si loin dans le passé. Alors, en pensant à tous les événements qui se plaçaient forcément entre l’instant où je les avais entendus et la matinée Guermantes, je fus effrayé de penser que c’était bien cette sonnette qui tintait encore en 122 moi, sans que je pusse rien changer aux criaillements de son grelot (...)”, p. 441).

  PROUST, Marcel. No Caminho de Swann. Op. cit., p. 19 (Du côté de chez Swann: “Le

  Swann”), relato este construído em 3ª pessoa, o que já se constitui indício do que será sugerido adiante.

  Quem é, afinal, Swann? Esta questão principal comporta ainda outras mais específicas: Por que a recorrência do personagem na obra (ampliada ainda nas figuras de Gilberte e da Srtª de St. Loup)? De onde vem sua capacidade de nomear (“o caminho”, o primeiro tomo da obra, e o relato “Um Amor de Swann”?).

  Não se trata aqui, de buscar fora da obra as pistas que nos conduziriam a solucioná-las (não se trata certamente, de interrogar Proust, o autor), mas sim, de buscar respostas no próprio texto.

  Não é fácil responder a esta questão “quem é Swann”, pois o personagem, para o narrador, se desdobra em “pessoas diferentes”:

  “e eu tenho a impressão de deixar alguém para ir ter com outra pessoa diferente, quando, em minha memória, retrocedo do Swann que mais tarde conheci deveras para este primeiro Swann – este primeiro Swann que descubro entre os encantadores equívocos de minha juventude, e que aliás se parece menos com o outro do que com as pessoas a quem conheci na mesma época, como se em nossa vida sucedesse como em um museu, onde todos os retratos de um mesmo tempo têm um ar de família, uma mesma tonalidade – para este primeiro Swann cheio de lazeres, perfumado pelo odor do grande castanheiro, do cesto de framboesas e de um quase nada de estragão. 123

  123 Idem, p. 25 (Du côté de chez Swann: “(...) et que j’ai l’impression de quitter une personne pour aller vers une autre qui en est distincte, quand, dans ma mémoire, du Swann que j’ai connu plus tard avec exactitude je passe à ce premier Swann – à ce premier Swann dans lequel je retrouve les erreurs charmantes de ma jeunesse, et qui d’ailleurs ressemble moins à l’autre qu’aux personnes que j’ai connues à la même époque, comme s’il en était de notre

  Este Swann (tão perfumado!) conhecido na infância pelo narrador, mais que isto, tem um “ar de família”, liga-se, como foi comentado, ao episódio do “beijo” lembrado pelo narrador na cena da biblioteca.

  O papel de Swann, involuntariamente (especialmente no episódio do

  124 “beijo de boa noite”), é o de perturbar , o de frustrar a criança.

  É por sua causa que o ritual do “beijo da noite” é suspenso, causando a angústia relatada, que por sua vez precipita o desafio do menino ao pai (resolve obter de qualquer forma o beijo recusado) e seu surpreendente desfecho, a frase “vai com o menino”, proferida pelo pai à mãe do narrador.

  Seria “fantasioso” dizer que o desempenho da função paterna, renegado pelo pai do narrador, é, neste episódio, simbolicamente (embora de modo frágil), desempenhado pela figura de Swann, a única que tem como função colocar um limite no vínculo do menino com sua mãe?

  Não nos parece que o seja, se levarmos em conta os desdobramentos da figura de Swann na obra, o primeiro destes, o relato Um Amor de Swann, que se segue às rememorações de Combray após o episódio de madeleine, e que introduz a personagem Odette, também tão presente na obra toda.

  Trata-se de uma hipótese interpretativa, discutível como toda interpretação, mas também necessária, no sentido de que sem ela (ou talvez outra – mas esta é a que nos ocorre), o texto proustiano em grande medida permanece enigmático.

  Esta interpretação também possibilita abordarmos a questão já anunciada da “3ª pessoa”, em Um Amor de Swann.

  A inclusão do capítulo, no primeiro volume de Em Busca, sempre foi motivo de perplexidade. No entanto, tendo em vista a temática edípica que supomos presente em No Caminho de Swann (principalmente em “Combray”, onde é narrado pela primeira vez o episódio do “beijo de boa noite”), não é difícil associar a 3ª pessoa em que é redigido, com (nas palavras mais uma

  125

  vez, de Hélio Pellegrino) “o advento do terceiro, do pai, cuja entrada em cena, através da estrutura triádica, ajuda a criança a construir sua própria

  126

  liberdade e autonomia.” Para situarmos Um Amor de Swann no contexto da obra, uma observação do narrador, ao final de Combray, é, deste ponto de vista, sugestiva:

  “E assim ficava eu muitas vezes até de madrugada, pensando nos tempos de Combray, em minhas tristes noites de insônia, e em tantos dias também, cuja imagem me fora mais recentemente evocada pelo sabor – “o perfume”, como diriam em Combray – de uma taça de chá e pela ligação estabelecida entre recordações minhas e certas coisas relativas a um amor que tivera Swann antes de meu nascimento e que só vim a saber muitos anos depois de 127 125 deixar a cidade (...)

  

Pellegrino, influenciado certamente por Lacan, concebe o Édipo de um modo estrutural (se

bem que Freud muitas vezes assinalou o “triângulo amoroso” formado pela criança, o pai e a mãe, o que tornou possível a “releitura” empreendida por Lacan): “A Lei existe, não para humilhar e degradar o desejo, mas para estruturá-lo, integrando-o no circuito de intercâmbio social. A estrutura edípica representa a gramática elementar do desejo, a partir de cujas regras vai ser possível a articulação do discurso desejante. Assim como, na língua, as contraintes lógico- sintáticas são a condição da invenção dos discursos – a langue, a partir de cuja estrutura emerge a parole –, assim também o Édipo deve representar a contrição essencial que vai permitir ao desejo desferir o seu vôo.” (PELLEGRINO, Hélio. Pacto Edípico e Pacto Social. In: Folhetim, Suplemento da Folha de São Paulo. 126 Setembro de 1983, (transcrição de Conferência), p. 5). 127 Idem, p. 5.

  

PROUST, Marcel. No Caminho de Swann. Op. cit., p. 182 (Du côté de chez Swann: “C’est

ainsi que je restais souvent jusqu’au matin à songer au temps de Combray, à mes tristes soirées sans sommeil, à tant de jours aussi dont l’image m’avait été plus récemment rendue par la saveur – ce qu’on aurait appelé à Combray le « parfum » – d’une tasse de thé et par

  Esta citação é interessante, pois refere-se a um “antes” do nascimento do narrador, personificado na figura de Swann, que já sugerimos simbolizar de modo frágil a “função paterna”, que o personagem do pai, no episódio que enfocamos, se furta a desempenhar. Ou mesmo, desempenha de uma forma invertida (ou aparentemente invertida)

  128

  , como uma das passagens mais enigmáticas do episódio do “beijo de boa noite” deixa entrever:

  “(...) estava ainda ali diante de nós, alto, com seu branco roupão de dormir e a manta roxa e cor-de-rosa de casimira da Índia que costumava enrolar à cabeça desde que sofria de nevralgias, na mesma atitude com que Abraão, na gravura segundo Benozzo Gozzoli que me dera o senhor Swann, dizia a Sara que se separasse de Isaac. Faz muitos anos isso.” 129

  Se Em Busca constitui o relato de uma história (“a história de uma vocação”), “Um Amor de Swann”, - este relato situado para o narrador “antes do meu nascimento” -, representa sua pré-história. 128

  

Nesta comparação da figura do pai com Abraão (note-se: a partir de uma gravura

presenteada por Swann), há uma aparente inversão, pois este diz a Sara “que se separasse de Isaac”, o contrário do que o pai do personagem diz à mãe: “vai com o menino”. Devo a Sybil S. Douek a percepção de que esta inversão talvez seja apenas aparente: afinal, trata-se do sacrifício do filho, no caso de Abraão, e da abdicação, por parte do pai do menino (ou seja, de renúncia ao poder paterno, o que implica num abandono do filho). Devo a ela também, ter encontrado a seguinte nota, sobre este episódio: “Benozzo Gozzoli (1420-1497), pintor florentino, colaborador de Angélico, pintou no Campo Santo de Pisa afrescos inspirados no Antigo Testamento, hoje em grande parte destruído, que incluíam uma gesta de Abraão. Mas não parece que a cena evocada por Proust (ausente aliás da Bíblia) tivesse sido aí representada. Ver a esse respeito: Marcel Gutwirth “La bible de Combray”, Revue des Sciences humaines, juil.-sept. 1971, p. 424-426.” [In: PROUST, Marcel. Du côté de chez Swann. Volume I de: À la recherche du temps perdu.

  Édition établie sous la direction de Jean Milly. Préface par Jean Milly. Par Bernard Brun et Anne Herschberg-Pierrot. Notes de Anne Herschberg-Pierrot. Paris: Flammarion, 1987, p. 581, note 35] (tradução proposta por Sybil S. Douek). Sobre esta nota, transcrevo seu esclarecedor comentário: “Na nota, Proust não só inventou o episódio bíblico, como também a própria gravura de Gozzoli: ela também parece não ter existido! Não é o máximo? Esse Proust...” 129

PROUST, Marcel. No Caminho de Swann. Op. cit., p. 41 (Du côté de chez Swann: “(...) il

  était encore devant nous, grand, dans sa robe de nuit blanche sous le cachemire de l’Inde violet et rose qu’il nouait autour de sa tête depuis qu’il avait des névralgies, avec le geste

  História e pré-história, no sentido psicanalítico, corresponderiam no

  âmbito da subjetividade, às relações entre “realidade” e “fantasia”, que a

  130

  criança no afã de libertar-se da influência parental transforma no que Freud chamou de “romance familiar”, em que dados da realidade (“história”), se mesclam com fantasias sobre a sua origem – a “pré-história” (que aliás, mesmo referido ao sentido forte de História, sempre se refere a um mito de origem):

  “(...) a imaginação da criança entrega-se à tarefa de libertar-se dos pais que desceram em sua estima, e de substituí-los por outros, em geral de uma posição social mais elevada. Nessa conexão ela lançará mão de quaisquer coincidências oportunas de sua experiência real, tal como quando trava conhecimento com o senhor da Casa Grande ou com o dono de alguma grande propriedade, se mora no campo, ou com algum membro da aristocracia, se mora na cidade. Esses acontecimentos fortuitos despertam a inveja da criança, que encontra expressão numa fantasia em que seus pais são substituídos por outros de melhor linhagem. A técnica utilizada no desenvolvimento dessas fantasias (que, naturalmente, são conscientes nesse período) depende da inventividade e do material à disposição da criança. Há também a questão de as fantasias serem desenvolvidas com maior ou menor esforço para se obter verossimilhança. Esse estádio é alcançado numa época em que a criança ainda ignora os 131 determinantes sexuais da procriação.”

  Esta citação se coaduna melhor com as fantasias do narrador de Em

  132 130

Busca, quando narra sua fascinação pelos Guermantes , (não nos

“Os pais constituem para a criança pequena a autoridade única e a fonte de todos os conhecimentos. O desejo mais intenso e mais importante da criança nesses primeiros anos

  é igualar-se aos pais (isto é, ao progenitor do mesmo sexo), e ser grande como seu pai e sua mãe. Contudo, ao desenvolver-se intelectualmente, a criança acaba por descobrir gradualmente a categoria a que seus pais pertencem. Vem a conhecer outros pais e os compara com os seus, adquirindo assim o direito de pôr em dúvida as qualidades extraordinárias e incomparáveis que lhes atribuíra. Os pequenos fatos da vida da criança que a tornam descontente, fornecem-lhe um pretexto para começar a criticar os pais; para manter essa atitude crítica, utiliza seu novo conhecimento de que existem outros pais que em certos aspectos são preferíveis aos seus.” (FREUD, Sigmund. Romances Familiares. In: 131 Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora Imago, vol. IX, p. 243).

  Idem, p. 244-245. esqueçamos que o “caminho de Guermantes” rivaliza com o “caminho de Swann”

  133

  até se encontrarem no livro final de Em Busca

  134

  ), do que com as possíveis fantasias contidas em “Um Amor de Swann”. Mas Freud vai além em seu relato sobre os “romances familiares”:

  “Quando finalmente a criança vem a conhecer a diferença entre os papéis desempenhados pelos pais e pelas mães em suas relações sexuais, e compreende que ‘pater semper incertus est’, enquanto a mãe é ‘certissima’, o romance familiar sofre uma curiosa restrição: contenta-se em exaltar o pai da criança, deixando de lançar dúvidas sobre sua origem materna, que é encarada como fato indiscutível. Esse segundo estádio (sexual) do romance familiar sofre o influxo de um outro motivo que está ausente do primeiro estádio (assexual). A criança que já conhece os processos sexuais tende a se imaginar em relações e situações eróticas, cuja força motivadora é o desejo de colocar a mãe (objeto da mais intensa curiosidade sexual) em situações de secreta infidelidade e em secretos casos amorosos. Dessa forma as fantasias da criança, que inicialmente eram assexuais, elevam-se ao nível do seu conhecimento posterior. 135

  Tendo em vista “Um Amor de Swann”, quando Freud descreve um segundo momento neste processo de “libertar-se dos pais”, no qual a “força motivadora é o desejo de colocar a mãe (...) em situações de secreta infidelidade e em secretos casos amorosos” (força esta instigada pelos ciúmes que sente a criança em relação ao que se passa no quarto dos pais, e eventualmente pelo surgimento de um irmão), não podemos deixar de lembrar a figura de Odette, a cortesã que Swann finalmente desposa, e que verdadeiro caso de amor com essa família nobre.” (SHATTUCK, Roger. Op. cit., p.

  56). 133

“Entrementes, Marcel torna-se profundamente consciente dos “dois caminhos” ou veredas que dividem a aldeia: um conduz à distante propriedade da aristocrática família Guermantes e o outro, à casa de Swann. Os dois caminhos sussurram sedutoramente para o garoto, afastando-o de sua própria e humilde vereda.” (Idem, p. 49). 134

“Enquanto está em Tansonville, Marcel descobre que os dois “caminhos”, que pareciam estar em direções totalmente opostas, de fato reúnem-se mais adiante no campo, assim como o casamento de Gilberte e Robert uniu dois elementos discrepantes da sociedade.” permanecerá importante até o final da obra de Proust, inclusive como personagem que é mãe de Gilberte, e avó da Srtª de Saint-Loup, sobre cujo significado falaremos adiante. Na descrição de Roger Shattuck:

  “Voltando quase uma geração, o narrador relata, na terceira pessoa, o caso de amor entre o cavalheiro judeu, Swann, e a cocotte, Odette. Ela, na verdade, não é absolutamente o seu tipo de mulher, embora sua imaginação estética o impulsione lentamente para um poderoso ciclo de atração em direção a essa mulher comum e enigmática. (...) Seu ciúme por Odette alcança proporções patológicas antes que ele inicie um lento restabelecimento. Chega-se a supor que eles acabarão por separar-se. Mas quando reaparecem na narrativa, 136 estão casados e têm uma filha.

  A partir da hipótese sugerida acima, Odette (contrastando com as figuras

  137

  imaculadas da mãe e da avó do narrador) , seria uma personagem degradada, mas substituta da figura materna, depositária dos ciúmes do menino preso a uma armadilha edípica, ao qual só resta, através da construção de um “romance familiar”, simbolizar o exercício da função paterna através da figura de Swann, e o desejo pela mãe, tingido pelos ciúmes, na figura de Odette.

  Esta interpretação tem a vantagem de oferecer uma leitura plausível para as relações entre o rapaz e seu primeiro amor, Gilberte, a filha de Swann

  138

  e Odette , a partir de uma observação de Freud em outro texto (“Escritores Criativos e Devaneios”), mas que também configura um exemplo de “romance 136 familiar”: 137 SHATTUCK, Roger. Op. cit., p. 49.

  

Nas palavras de Shattuck: “O amor apaixonado mas nunca maculado entre Marcel e sua

mãe e avó é inteiramente apresentado antes da longa curva em arabesque do caso entre 138 Swann e Odette.” (Idem, p. 43-45).

  Na descrição de Roger Shattuck: “Como um garoto que brinca nos jardins dos Champs-Elysées, Marcel se apaixona por Gilberte, a filha de Swann e Odette. Ele também sente uma grande fascinação pela amizade do pai e da mãe de Gilberte. Seu amor passa por uma revolução

  “Um exemplo bastante comum pode servir para tornar claro o que eu disse. Tomemos o caso de um pobre órfão que se dirige a uma firma onde talvez encontre trabalho. A caminho, permite-se um devaneio adequado à situação da qual este surge. O conteúdo de sua fantasia talvez seja, mais ou menos, o que se segue. Ele consegue o emprego, conquista as boas graças do novo patrão, torna-se indispensável, é recebido pela família do patrão, casa-se com sua encantadora filha, é promovido a diretor da firma, primeiro na posição de sócio do seu chefe, e depois como seu sucessor. Nessa fantasia, o sonhador reconquista o que possui em sua feliz infância: o lar protetor, os pais amantíssimos e os primeiros objetos do seu afeto. Esse exemplo mostra como o desejo utiliza uma ocasião do presente para construir, segundo moldes do passado, um quadro do futuro.” 139

  As relações entre o rapaz e Gilberte, podem ser compreendidas então, como um desdobramento das relações entre Swann e Odette. Nas palavras de Roger Shattuck: “Assim, como um eco juvenil de Um Amor de Swann, ficamos imersos no amor adolescente de Marcel por Gilberte.”

  140

  Alias, na narração das relações entre os dois jovens, as figuras de Swann e de Odette permanecem como absolutamente centrais: “Ele também sente uma grande fascinação pela amizade do pai e da mãe de Gilberte.”

  Enfim, o que estamos sugerindo, é que “Um Amor de Swann” seja tomado como um exemplo de romance familiar, tal como Freud descreveu este recurso que a criança freqüentemente utiliza para elaborar seus conflitos edípicos. Exemplo, é claro, que o romancista desenvolve, lapida poderiamos dizer, a partir da experiência bruta que é o devaneio infantil.

  139

FREUD, Sigmund. Escritores Criativos e Devaneios. In: Obras Completas. Rio de Janeiro:

III – No Salão (e na cozinha!) – A Natalidade

  A seguir, na narrativa, passa-se da biblioteca ao salão, último cenário da obra, onde se dá a recepção.

  Os temas da deterioração e da morte, enfim, do tempo, serão os que estarão presentes, finalmente, na recepção do príncipe de Guermantes, na última “prova”, segundo observação de Ricoeur, pela qual o narrador terá que passar antes de efetivar sua vocação:

  “Resta dizer como o caráter narrativo do nascimento de uma vocação é garantido pela prova que se segue à revelação da verdade da arte e pelo engajamento do herói na obra a ser feita. Essa prova 141 passa pelo desfiladeiro da morte.

  Neste cenário, em que se defrontam personagens transformados (e deformados) pelo tempo, o narrador percebe que por mais difícil que seja a identificação de pessoas “tão conhecidas”,

  “para o artista capaz de preservar a relação do tempo ressuscitado com o extratemporal, o Tempo revela sua outra face mítica: a profunda identidade que os seres conservam, não obstante sua 142 degradação.”

  Nesta recepção, é o encontro com a Srtª de Saint-Loup, filha de Gilberte e Robert (amigo do narrador), não nomeada na obra (ou talvez sobre- nomeada, pois carrega os sobrenomes dos personagens principais), que precipita através da “noção de tempo” (pois “assemelhava-se a minha mocidade”), a possibilidade da obra:

  “Achei-a bonita, ainda cheia de esperanças. Risonha, formada 141 pelos anos que eu perdera, assemelhava-se a minha mocidade.

  Enfim, a noção do Tempo trazia-me uma última vantagem, era 143 um aguilhão, convencia-me da urgência de começar, (...)”

  Segundo observação de Paul Ricoeur, a Srtª de Saint-Loup “simboliza a reconciliação entre os dois ‘lados’, o de Swann, por sua mãe, o de

  144

  Guermantes, por seu pai”. :

  “E, antes de tudo, a ela conduziam os dois grandes “caminhos” de meus passeios e dos sonhos – por seu pai Robert, o de Guermantes, por Gilberte, sua mãe, o de Méséglise, que era o de Swann. Este, através da mãe da jovem e os Campos Elísios, me levava a Swann, às noites de Combray, no rumo de Méséglise; aquele, através de seu 145 pai, às tardes de Balbec, onde eu o revia junto ao mar ensolarado.”

  Em outro comentário sobre o aparecimento da personagem da Srtª de Saint-Loup, Paul Ricoeur lança mão de um conceito precioso para a compreensão do papel da criação na arte:

  “O narrador viu um sinal de que esse pacto entre as duas representações do “Tempo redescoberto” poderia ser concluído e preservado no encontro que nada do que precede permitiria esperar: o aparecimento da filha de Gilberta Swann e de Robert de Saint-Loup. (...) Esse aparecimento que concretiza uma reconciliação, muitas vezes anunciada ou antecipada na obra, visa a sugerir que a criação tem um pacto com a juventude – com a “natalidade”, diria Hannah Arendt – que torna a arte, diferentemente do amor, mais forte do que 146 143 a morte?”

  PROUST, Marcel. O Tempo Redescoberto. Op. cit., p. 279 (Le temps retrouvé: “Je la trouvais bien belle: pleine encore d’espérances, riante, formée des années mêmes que j’avais perdues, elle ressemblait à ma Jeunesse.

  Enfin cette idée du Temps avait un dernier prix pour moi, elle était un aiguillon, elle me 144 disait qu’il était temps de commencer.”, op. cit., p. 423). 145 RICOEUR, Paul. Tempo e Narrativa – Tomo II. Op. cit., p. 247.

  PROUST, Marcel. O Tempo Redescoberto. Op. cit., p. 276-277 (Le temps retrouvé: “Et avant tout venaient aboutir à elle les deux grands ‘côtés’ où j’avais fait tant de promenades et de rêves – par son père Robert de Saint-Loup le côté de Guermantes, par Gilberte sa mère le côté de Méséglise qui était le ‘côté de chez Swann’. L’une, par la mère de la jeune fille et les Champs-Elysées, me menait jusqu’à Swann, à mes soirs de Combray, au côté de

  Ricoeur ressalta a diferença entre este “sinal” que o narrador reconhece, e os outros que o precederam, e que o fará enfim, iniciar sua obra:

  “Esse signo não é mais, como os precedentes, anunciador ou premonitório, é um “aguilhão”: “Enfim, a noção do tempo trazia-me uma última vantagem, era um aguilhão, convencia-me da urgência de começar, se quisesse captar o que algumas vezes, no curso da existência, eu sentira em fugazes e fulgurantes intuições, no caminho de Guermantes, nos passeios de carro com a Sra. de Villeparisis, e me fizera julgar a vida digna de ser vivida. Assim a considerava, agora mais do que nunca, pois parecia-me possível iluminá-la, ela que passamos nas trevas, fazê-la voltar à verdade original, ela (que) 147 continuamente falseamos, em suma, realizá-la num livro.”

  Após imaginar o livro, que por fim vislumbra como possível realizar, mesmo que em parte apenas esboçado, mesmo que inacabado, e assinalar sua relativa importância para a posteridade (que protege o túmulo “contra os rumores e algum tempo contra o esquecimento”), significativamente (se

  148

  levarmos em conta o que Hannah Arendt denomina “natalidade” ), o narrador volta-se para pensar sobre os que leriam sua obra, os quais apressa-se a 147 declarar que seria inexato denominar “meus leitores”, (neste fragmento 148 Idem, p. 248.

  Este conceito que inspirou Ricoeur encontra-se na obra de Hanna Arendt em um capítulo intitulado “A Crise na Educação” In: Entre o Passado e o Futuro. São Paulo, Ed.

  Perspectiva, 2005, p. 223: “a essência da educação é a natalidade, o fato de que seres nascem para o mundo”. O conceito de “natalidade”, se compreendemos bem o texto de Hanna Arendt, extrapola o sentido meramente biológico do termo, enfatizando sua importância para a renovação do mundo (da cultura), como podemos notar neste parágrafo com que conclui o capítulo: “O que nos diz respeito, e que não podemos portanto delegar à ciência específica da pedagogia, é a relação entre adultos e crianças em geral, ou, para colocá-lo em termos ainda mais gerais e exatos, nossa atitude face ao fato da natalidade: o fato de todos nós virmos ao mundo ao nascermos e de ser o mundo constantemente renovado mediante o nascimento. A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens. A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em analisado por Paul Ricoeur em um instigante texto, que enfocaremos no próximo capítulo deste trabalho):

  “(...) E naqueles grandes livros há partes que só tiveram tempo de ser esboçadas e que, sem dúvida, nunca serão terminadas por causa da amplidão da planta do arquiteto. Quantas grandes catedrais permanecem inacabadas! Longamente nutrimos um livro assim, fortalecemos-lhe os trechos fracos, preservamo-lo, mas depois é ele que cresce, que designa nosso túmulo, o protege contra os rumores e algum tempo contra o esquecimento. Mas, para voltar a mim mesmo, pensava mais modestamente em meu livro, e seria inexato dizer, pensando naqueles que o leriam, nos meus leitores. Porque segundo minha opinião, não seriam leitores de mim, mas os próprios leitores de si mesmos, meu livro só sendo uma espécie de lentes de aumento, como as que oferecia a um freguês o dono da ótica de Combray; meu livro, graças ao qual eu lhes forneceria o meio de lerem em si 149 mesmos.”

  É como se, para o escritor prestes a iniciar sua obra, o leitor nascesse antes desta: é colocando-se dentro do espírito de “natalidade” (de que fala Hannah Arendt), é fazendo um “pacto com a juventude”, diz Ricoeur, que a criação (a escritura) torna-se possibilidade.

  E é o olhar deste futuro leitor que o guia afinal até o olhar presente de Françoise, sob o qual poderá concretizá-la (“à medida que melhor, mais concretamente, antevia a tarefa em que me empenharia”), utilizando-se agora

  149 PROUST, Marcel. O Tempo Redescoberto. Op. cit., p. 279-280, tradução consideravelmente modificada por Jeanne-Marie Gagnebin. (Le temps retrouvé: “Et dans ces grands livres-là, il y a des parties qui n’ont eu le temps que d’être esquissées, et qui ne seront sans doute jamais finies, à cause de l’ampleur même du plan de l’architecte. Combien de grandes cathédrales restent inachevées! On le nourrit, on fortifie ses parties faibles, on le préserve, mais ensuite c’est lui qui grandit, qui désigne notre tombe, la protège contre les rumeurs et quelque temps contre l’oubli. Mais pour en revenir à moi-même, je pensais plus modestement à mon livre, et ce serait même inexact que de dire en pensant à ceux qui le liraient, à mes lecteurs. Car ils ne seraient pas, selon moi, mes lecteurs, mais les propres lecteurs d’eux-mêmes, mon livre n’étant qu’une sorte de ces verres grossissants comme de metáforas surpreendentes pela sua simplicidade – como um vestido (e não mais como uma catedral), e mais adiante como um prato culinário:

  “Por isso não esperaria deles (nota: os futuros leitores) nem elogios nem ataques, mas apenas que me dissessem se estava certo, se as palavras em si lidas eram mesmo as que eu empregara (as possíveis divergências não provindo, aliás, sempre de erros meus, mas, algumas vezes, de não serem os olhos do leitor daqueles aos quais meu livro conviria para a leitura interior). Mudando de comparações à medida que melhor, mais concretamente, antevia a tarefa em que me empenharia, pensei que, sentado à grande mesa de pinho, eu escreveria minha obra sob o olhar de Françoise. Os seres simples que conosco convivem possuindo certa intuição de nossas ocupações, (...) pois, pregando aqui e ali uma folha suplementar, eu construiria meu livro, não ouso dizer ambiciosamente como uma 150 catedral, mas modestamente como um vestido.”

  Destas imagens, ou melhor, desta passagem de imagens “mais elevadas” (como a da catedral) para outras “mais rústicas” comenta Leda Tenório da Motta:

  “(...) muitas imagens possíveis, e ao mesmo tempo: a da catedral, repetidamente, o que não impede a do boeuf-à-la-mode preparado por Françoise, este mais apreciado pelo juiz Norpois, quando não, mais banal ainda, a de um vestido bem cortado. Escrever é tarefa que se coaduna com as Belas-Artes, com o estilo elevado, mas que não descarta, em sua busca eterna e inquieta, expedientes menores, rudemente artesanais. Pelo contrário, há toda uma cozinha

  150 Idem, p. 280 (Le temps retrouvé: “De sorte que je ne leur demanderais pas de me louer ou de me dénigrer, mais seulement de me dire si c’est bien cela, si les mots qu’ils lisent en eux- mêmes sont bien ceux que j’ai écrits (les divergences possibles à cet égard ne devant pas, du reste, provenir toujours de ce que je me serais trompé, mais quelquefois de ce que les yeux du lecteur ne seraient pas de ceux à qui mon livre conviendrait pour bien lire en soi- même). Et, changeant à chaque instant de comparaison selon que je me représentais mieux, et plus matériellement, la besogne à laquelle je me livrerais, je pensais que sur ma grande table de bois blanc, regardé par Françoise, comme tous les êtres sans prétention qui proustiana, chamada a ocupar na obra, pela primeira vez, seu 151 lugar.”

  De fato, mais adiante no texto, as imagens afastam-se cada vez mais da biblioteca e acercam-se da cozinha: é com o boeuf-à-la-mode que Françoise preparava que se dá a comparação com a obra a ser realizada:

  “Aliás, como as individualidades (humanas ou não) se comporiam neste livro de impressões múltiplas, as quais, provocadas por muitas moças, muitas igrejas, muitas sonatas, serviriam para constituir uma única sonata, uma única igreja, uma única moça, eu poderia fazê-lo como Françoise o boeuf-à-la-mode, tão apreciado por Norpois, onde tantos pedaços de carne, escolhidos e acrescentados, 152 enriqueciam a geléia.”

  Esta imagem de uma impressionante crueza (“tantos pedaços de carne”), suscita por parte de Leda Tenório da Motta outro comentário que ressalta os aspectos sociológicos envolvidos, mas principalmente – “a cozinha proustiana” –, a relação íntima entre o processo de criação literária e a literalidade:

  “A cozinha: subterrâneo profundo onde se desenvolvem dramas particularmente secretos, particularmente sádicos, como o da ajudante apelidada A caridade, de Giotto, a esconder ali sua gravidez malvinda, numa primeira lição de sexo. Os baixos da cozinha, por onde o livro começa, são abismos em que o escritor vai conhecer o mundo, sem dúvida. Porém mais que isso, em que vão se cruzar com perfeição Giotto e caçarolas, matança de aves e instinto de morte de Françoise, perfazendo o espaço dúbio onde se lê, deslocada da biblioteca, onde se dá apenas o estalo, uma receita da literatura. Receita em que se misturam os gêneros, se aproveitam partes, se 151 unem os contrários, tudo fermenta, cresce, se transforma. O livro 152 MOTTA, Leda Tenório da. Op. cit., (Posfácio) p. 302.

  PROUST, Marcel. O Tempo Redescoberto. Op. cit., p. 281 (Le temps retrouvé: “D’ailleurs, comme les individualités (humaines ou non) sont dans un livre faites d’impressions proustiano, deste ponto de vista, é antes de tudo um intrincado ‘modo 153 de fazer’”.

  Enfim, o trajeto, “do quarto à biblioteca” (com esta breve passagem pela “cozinha proustiana”), que culmina com a recepção dos Guermantes, corresponde à averiguação deixada em suspenso desde o episódio de

  154

madeleine , e que enfim se dá, quando os temas do tempo e da morte se

impõem.

  Esta longa busca, por parte do narrador/herói, transformado em escritor de uma obra a ser iniciada, corresponde assim ao do leitor que é convidado à tarefa (e ao prazer) da releitura de uma obra na qual se dissimulava até o final (como um bom romance policial), não só a solução, mas também o problema a ser averiguado:

  “... é preciso que se represente o ciclo de Em busca... como uma elipse da qual um dos focos é a busca e o outro, a visita. A fábula sobre o tempo é então a que cria a relação entre os dois focos de Em busca... A originalidade de Em busca... é ter dissimulado o problema e sua solução até o final do percurso do herói, reservando desse modo 155 a uma segunda leitura a inteligência da obra toda.

  O processo de transformação do narrador/herói em escritor, como já comentamos, culmina com o aparecimento da figura do “leitor”, que possibilita um vislumbre da obra a ser iniciada (e ao mesmo tempo, ressalte-se que, a

  153 154 MOTTA, Leda Tenório da. Op. cit., (Posfácio), p. 302.

  Segundo observação de Paul Ricoeur, que nota que: “a experiência da madalena poderia conduzir por uma pista falsa um leitor que não conservasse, no centro de suas próprias expectativas, todas as reticências que acompanham a evocação desse momento bem-aventurado.” (Tempo e Narrativa II, p. 233), ressaltando o modesto parêntese que Proust coloca no último parágrafo da descrição do episódio da madeleine: “(embora ainda não soubesse, e tivesse de deixar para muito mais tarde tal averiguação, por que motivo aquela lembrança me tornava tão feliz.)” (Marcel Proust. No Caminho de Swann, pg. 51) (Original em francês: “ (quoique je ne susse pas encore et dusse remettre à bien plus tard de découvrir pourquoi ce souvenir me rendait si obra que estamos lendo está sendo concluída). O próximo capítulo visa a reflexão sobre este momento.

Capítulo V “Frente à Obra” - Um Sujeito Modesto

  “(...) longamente nutrimos um livro assim, fortalecemos-lhe os trechos fracos, preservamo-lo, mas depois é ele que cresce, que designa nosso túmulo, o protege contra os rumores e algum tempo contra o esquecimento. Mas para voltar a mim mesmo, pensava mais modestamente em meu livro, e seria inexato dizer, pensando naqueles que o leriam, nos meus leitores. Porque segundo minha opinião, não seriam leitores de mim, mas os próprios leitores de si mesmos, meu livro só sendo uma espécie de lentes de aumento, como as que oferecia a um freguês o dono da ótica de Combray; meu livro, graças ao qual eu 156 lhes forneceria o meio de lerem em si mesmos.”

  Para a discussão das relações entre o autor e a obra, inspiramo-nos em um artigo de Paul Ricoeur, onde ele analisa a epígrafe deste capítulo.

  “A Identidade Narrativa”, este instigante texto de Paul Ricoeur, também foi escrito a partir da experiência do autor frente à obra:

  “Deparei-me com este problema no final de Temps et récit II, quando me perguntei, depois de uma longa viagem através da narrativa histórica e da narrativa de ficção, sobre a existência de uma experiência 157 fundamental capaz de integrar as duas grandes classes de narrativa.”

  156 PROUST, Marcel. O Tempo Redescoberto. Op. cit., p. 279-280, tradução consideravelmente modificada por Jeanne-Marie Gagnebin. (Le temps retrouvé: “On le nourrit, on fortifie ses parties faibles, on le préserve, mais ensuite c’est lui qui grandit, qui désigne notre tombe, la protège contre les rumeurs et quelque temps contre l’oubli. Mais pour en revenir à moi- même, je pensais plus modestement à mon livre, et ce serait même inexact que de dire en pensant à ceux qui le liraient, à mes lecteurs. Car ils ne seraient pas, selon moi, mes lecteurs, mais les propres lecteurs d’eux-mêmes, mon livre n’étant qu’une sorte de ces verres grossissants comme ceux que tendait à un acheteur l’opticien de Combray; mon livre,

  Desde o início do texto, através da expressão “histórias de vida”, há uma aproximação entre os dois tipos de narração, a histórica e a literária. Este capítulo não enfocará esta questão, possivelmente o conteúdo do texto, mas pretende, a partir do fragmento de Proust, citado por Ricoeur, refletir sobre a questão do nascimento de um sujeito – o autor –, frente à obra (no caso do narrador de Em Busca, uma obra apenas vislumbrada, mas que imagina

  158 concretizada em livro) .

  É quando nasce a obra que nasce também o autor, enquanto sujeito da obra. Neste sentido, parece-nos imprescindível a discussão da questão do

  sujeito.

  A partir do final do Século XIX, e mais intensamente durante o Século

  XX, no pensamento filosófico, e de um modo radical, com o surgimento de uma nova disciplina, a Psicanálise, deu-se o questionamento do cogito cartesiano, que é freqüentemente assimilado ao próprio surgimento do conceito de sujeito moderno:

  “A primeira intuição evidente, verdade indubitável de onde partirá toda a filosofia moderna, concentra-se na célebre formulação de 159 Descartes: ‘Penso, logo existo’”

  A crise do sujeito sugere que, no momento seguinte ao qual nos proclamamos como seres livres e soberanos, ironicamente nos descobrimos assolados por sobredeterminações (econômicas, políticas, e sobretudo pelas

  

vicissitudes do desejo), e com isto retornando ao sentido primeiro de sujeito (do

160

  latim subjectu, “posto debaixo”). Sentimo-nos então, muitas vezes

  158 No entanto, há um paradoxo em Em Busca, pois se o final da obra remete ao início da criação, podemos também entendê-la como uma obra concluída sobre este processo. Leda

  Tenório da Motta, frente a este paradoxo, sugere a idéia de circularidade, apontando que o sentido do livro “vai ser então circular, o começo sendo o fim, e vice-versa”. (MOTTA, Leda 159 Tenório da. Op. cit., (Posfácio) p. 299).

  CHAUÍ, Marilena. Primeira Filosofia. São Paulo: Ed. Brasiliense, p. 81. impotentes frente à multiplicidade de determinações que presidem nossa existência (os gregos falariam em “destino”).

  No entanto – lembrando dois pensadores fundamentais neste processo de questionamento da noção moderna de sujeito – , para Marx e Freud, o conhecimento dos limites do sujeito pode ser transformador: reconhecer a alienação é um primeiro passo para distanciar-se dela; reconhecer os efeitos do inconsciente pode representar novas possibilidades para a consciência ou

  161 mesmo abrir novas perspectivas para a Cultura.

  A noção de sujeito cartesiana, também é colocada em cheque na modernidade tardia, pelas artes, e especialmente pela literatura, notadamente no romance moderno, entre outros indícios, pela crise de identidade do personagem:

  “O romance moderno está repleto de situações em que se fala correntemente da perda de identidade do personagem. Exatamente o inverso do tipo de fixidez do herói que caracterizava o folclore, o conto 162 de fadas, etc.”

  Ricoeur, no entanto, mesmo admitindo que “o sujeito não é o centro de

  163

  tudo, (que) ele não é o senhor do sentido” , inscrevendo-se portanto nesta tradição de questionamento da noção de sujeito como soberano, alerta ao perigo de “jogar a criança com a água do banho”, não propõe sua 161 desconstrução ou anulação, como tantas vezes podemos perceber na

  

“Porém, é sempre necessário que se especifique precisamente que a psicanálise está para o Iluminismo, assim como a obra de Marx está para o Capitalismo. Costumo dizer que assim como O Capital é a última flor do Capitalismo, porque se dedica a pensar os limites dessa formação social, assim também a psicanálise é a última flor do Iluminismo na medida em que concebe o inconsciente e uma subjetividade que, sendo próprias do ser humano, resistem à razão e deveria nos lançar a um interminável processo de simbolização, isto é, de construção criadora que nos representaria no interior do mundo da cultura.” (BERLINCK, 162

Manoel Tosta. A Mania de Saber. In: Boletim de Novidades. São Paulo: Ed. Escuta, p. 34). 163 RICOEUR, Paul. A Identidade Narrativa. Op. cit., p. 5. formulação de muitos pensadores em voga, constituindo o que Jeanne-Marie

  164 Gagnebin denomina como “relativismo pós-moderno”.

  No pensamento de Ricoeur, ao lado de um cuidado ao circunscrever seus limites, podemos perceber um respeito ao sujeito, mesmo que assujeitado por suas determinações, mesmo que reduzido, mesmo que, e sobretudo, em crise.

  Talvez mais do que isto, Ricoeur admite a possibilidade de uma

  

reconciliação com as determinações do sujeito: se fere nosso narcisismo (o

  “cogito ferido”), se temos de abrir mão (graças a Deus!) de nossas pretensões totalizadoras, por outro lado, (além de nos poupar dos desvarios da razão – “a mania de saber” na expressão já citada de Manoel Berlink), a sugestão de que somos parte de uma teia – ou enredo – de significações que nos precedeu e que sucederá a nós é instigante: há um sujeito, um sujeito “modesto” (para já utilizar um termo sugerido pelo fragmento da obra de Proust que enfocaremos), mas um sujeito.

  Antes de abordar a instigante questão texto-leitor, enfatizada por Ricoeur, gostariamos de nos deter um pouco na questão da relação do autor- personagem “consigo mesmo”: “Mas para voltar a mim mesmo, pensava mais modestamente em meu livro, e seria inexato dizer, pensando naqueles que o leriam, nos meus leitores.”

  Neste fragmento, o encontro consigo mesmo é um retorno, e um retorno propiciado por uma obra (assumida, mesmo modestamente como sua), e mais importante, pelos que a leriam. Sobre estes, o autor-personagem observa que não seria exato dizer, serem seus leitores, mas sim “os próprios leitores de si mesmos”. Inexato, mas não despropositado, isto é, suficiente para que fosse usada a expressão “meus leitores”, mesmo com a ressalva que dá início ao lúcido trecho (“Porque segundo minha opinião, não seriam leitores de mim, mas os próprios leitores de si mesmos”) sobre o qual a ênfase da análise de Ricoeur recai.

  Há uma situação privilegiada na existência, que pode significar um paralelo interessante para a relação entre o autor e sua obra: a da maternidade/paternidade. Esta aproximação, sugerida aqui, não é de forma alguma original: são inúmeras as assimilações entre obra/filho, processo criativo/gravidez, término de um trabalho/parto (também falamos, por outro

  165 lado, de “trabalho de parto”!).

  E da mesma forma que o autor-personagem de Proust, frente à obra; frente ao filho crescido pode-se sentir um misto de orgulho e apreensão (conhece-se bem suas qualidades e defeitos), e portanto (na melhor das hipóteses), assume-o modestamente como seu.

  Tudo seria mais simples se a questão se reduzisse à relação com a obra. Mas Proust introduz a questão da relação do autor com seus leitores (“e seria inexato dizer, pensando naqueles que o leriam, nos meus leitores”), mesmo difícil de ser falada (“inexato dizer”).

  E pensando em seus leitores, Proust imediatamente explicita porque é inexato dizer isto: “Porque segundo minha opinião, não seriam leitores de mim, mas os próprios leitores de si mesmos.”

  Também os nossos filhos não são nossos, também eles, (ousaríamos dizer, se formos “bem sucedidos” como pai/mãe) são os “próprios leitores de si mesmos”. E a sensação de vazio que poderíamos sentir frente a esta autonomia (que vai impondo-se no tempo) é correlata da vivência do autor frente à obra – a sensação de que ela não lhe pertence mais, está lançada no mundo, e seus leitores “não seriam leitores de mim, mas os próprios leitores de si mesmos, meu livro só sendo uma espécie de lentes de aumento”, capaz de ajudar os leitores a “lerem em si mesmos.” Ricoeur aponta, segundo Jeanne-Marie Gagnebin, para a possibilidade de criação/transformação abarcar a leitura e não somente a autoria:

  “O conceito de refiguração, de transformação da experiência temporal do leitor, apela para um conceito enfático de leitura como 166 atividade específica de recepção e de reapropriação transformadora.”

  Seria certamente indevido dizer que o autor, ao retornar a si mesmo, é mais sujeito que o leitor ao “ler em si mesmo”. Mas a autoria (e aqui poderíamos estender este conceito a situações outras: um jardineiro ao plantar um canteiro, um cozinheiro ao realizar um prato, etc.) talvez pudesse ser concebida como um modo peculiar do sujeito? Aquele que abre-se para a multiplicidade dos sujeitos, para o outro?

  Mas não seria este modo, antes de designar o autor, uma característica básica que circunscreve o sujeito humano? Ao comentar sobre o que separa a

  167

  ficção científica da narrativa , Ricoeur chega a um limite quanto à noção de sujeito:

  “Em todos os experimentos de ficção científica evocados acima, 168 o sujeito encontra-se isolado, sem o outro no sentido de outrem.”

  Então, não há a priori uma diferenciação entre autor/leitor, na busca de “si mesmo” (“Mas para voltar a mim mesmo”), ou na leitura do “si mesmo” (“meu livro, graças ao qual eu lhes forneceria o meio de leram em si mesmos”). 166 Isto porque o sujeito nunca está isolado, é sempre mediado pela Cultura: 167

GAGNEBIN, Jeanne-Marie. “Uma Filosofia do cogito ferido: Paul Ricoeur”, op. cit., pg. 268.

  

Apesar de, neste texto, Ricoeur aproximar a ficção – a narrativa literária – , da História,

parece-nos que ele exclui deste movimento a “ficção científica”, inclusive negando-lhe o estatuto de narrativa. Mas a chamada “ficção científica” segue sendo interessante (e sem dúvida, não é por outro motivo que Ricoeur se ocupa dela) para se pensar os limites da

  “o si não se conhece imediatamente, mas somente indiretamente pelo desvio de signos culturais de todos os tipos que se articulam nas 169

mediações simbólicas que desde sempre articulam a ação.”

  Se não há um a priori que distingue a posição do autor/leitor nesta busca/leitura de “si mesmo”, no entanto é a uma situação específica que o fragmento de Proust alude: a do autor frente à obra (ou ao filho crescido, ou ao canteiro florido, ou ao prato servido). E é então que surgem pensamentos como os que o narrador de Em Busca enuncia:

  “E naqueles grandes livros há partes que só tiveram tempo de ser esboçadas e que, sem dúvida, nunca serão terminadas por causa da amplidão da planta do arquiteto. Quantas grandes catedrais 170 permanecem inacabadas!”

  Ao invés de “triunfante”, como poderíamos supor, a situação do autor frente à obra (e que poderia ser “tão mais!”) parece-se, muitas vezes, com o que Ricoeur denomina de “noites da identidade pessoal” e que se traduz freqüentemente pela expressão: “eu não sou nada”. Isto não significa, no entanto, a anulação da posição de sujeito: “Um não-sujeito não é um nada quanto à categoria do sujeito.

  Com efeito, nós não nos interessaríamos por esse drama da dissolução e não seríamos mergulhados por ele na perplexidade, se o não-sujeito não fosse ainda uma figura do sujeito, ainda que sob o modo 171 negativo.”

  Ao alertar, ao final do texto, que “só não pode ser abolida a pergunta,

  172

  quem sou eu?” , Ricoeur sugere uma possibilidade de abertura do “solipsista”

  169 170 Idem, p. 7.

  

PROUST, Marcel. O Tempo Redescoberto. Op. cit., p. 279 (Le temps retrouvé: “Et dans ces grands livres-là, il y a des parties qui n’ont eu le temps que d’être esquissées, et qui ne seront sans doute jamais finies, à cause de l’ampleur même du plan de l’architecte. 171 Combien de grandes cathédrales restent inachevées!”, op. cit., p. 424.) cogito cartesiano: Eu sou aquele, não que duvido

  173

  , mas que pergunto por mim.

  174

  Nas palavras de Ricoeur:

  “Alguém coloca a questão: quem sou eu? Nada ou quase nada é a resposta. Mas é ainda uma resposta à questão quem, simplesmente conduzida à nudez da questão mesma.” 175

  Importa a pergunta, a “questão quem”, a partir da qual a resposta é por vezes “nada ou quase nada”. Mas ainda proferida por um sujeito, um sujeito modesto como já dissemos, mas um sujeito.

  Na obra de Proust, a noção de sujeito se desdobra em vários “eus”. Ricoeur distingue, (mas esta distinção, na leitura do texto, nem sempre é fácil de ser estabelecida) duas vozes narrativas, primeiramente a do herói:

  O herói conta suas aventuras mundanas, amorosas, sensoriais, estéticas, à medida que elas acontecem; aqui, a enunciação adota a forma de um avanço orientado para o futuro, mesmo quando o herói se lembra; daí a forma do “futuro no passado” que projeta Em busca... rumo a seu desenlace; é ainda o herói que recebe a revelação do sentido de sua vida anterior como história invisível de uma vocação: a esse respeito, é da maior importância distinguir a voz do herói da do narrador, não apenas para tornar a situar suas próprias reminiscências na corrente de uma busca que progride, mas para preservar o caráter factual da visitação. 176

  Em seguida, a do narrador: 173

  Não se pode deixar de observar que o cogito cartesiano, ancora-se na dúvida, sendo o “penso, logo existo”, o “brado triunfante” do ser que de tudo duvida, até encontrar seu limite: não é possível duvidar de que duvido. 174 Na formulação de Ricoeur, que acima é interpretada livremente, há um tributo ao pensamento de Heidegger: “Ponho-me de acordo com Heidegger para dizer que a questão da Selbstheit pertence à esfera de problemas relevantes do tipo de ente que ele chama Dasein e que ele caracteriza pela capacidade de interrogar-se sobre seu próprio modo de ser e também de se reportar ao ser enquanto ser (...) Só o Dasein é meu e mais genericamente, si. As coisas, dadas e manipuláveis, podem ser ditas mesmas, no sentido da identidade – idem.” (RICOEUR, Paul. A Identidade Narrativa. Op. cit., p. 3).

  Porém, é preciso também ouvir a voz do narrador: este está adiantado em relação à progressão do herói porque a sobrevoa; é ele que, mais de cem vezes na obra, diz: “Como veremos adiante”. Mas, sobretudo, é ele quem imprime na experiência narrada pelo herói a significação: tempo redescoberto, tempo perdido. Antes de chegar a revelação final, sua voz é tão baixa que mal é discernível da voz do herói (o que 177 autoriza a falar de narrador-herói).

  Os dois modos do sujeito (as duas vozes narrativas) só coincidem na transformação final do narrador/herói em escritor.

  No próximo capítulo, refletiremos sobre este momento, em que a criação está em questão.

Capítulo VI Criação e Sublimação

  “Deponho a taça e volto-me para meu espírito. É a ele que compete achar a verdade. Mas como? Grave incerteza, todas as vezes em que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo, quando ele, o explorador, é ao mesmo tempo o país obscuro a explorar e onde todo o seu equipamento de nada lhe servirá. Explorar? Não apenas explorar: criar. Está diante de qualquer coisa que ainda não existe e a que só ele 178 pode dar realidade e fazer entrar em sua luz.”

  Este último capítulo retoma a questão deixada em suspenso no capítulo anterior: o que designa o autor? E por extensão, o que designa o artista e a criação?

  Partiremos de uma afirmação de Franklin Leopoldo e Silva, contida no artigo “Bergson, Proust – Tensões do Tempo”:

  “O artista percebe o que de direito é perceptível, isto é, tudo. E desse todo, pelo qual passeia o foco indeterminado de sua atenção descontraída, retira os aspectos em que a verdade mais nítida e mais inteiramente se apresenta: são os aspectos que, para a percepção comum, aparecem como inesperados e insuspeitados, mas que ela mesma, percepção comum, reconhece como portadores de verdade, porque reconhece neles aquilo que de direito poderia perceber, não fossem os critérios pragmáticos da visão simplesmente humana do 179 mundo.”

  178 PROUST, Marcel. No Caminho de Swann. Op. cit., p. 49. (Du côté de chez Swann: “Je pose

la tasse et me tourne vers mon esprit. C’est à lui de trouver la vérité. Mais comment? Grave

incertitude, toutes les fois que l’esprit se sent dépassé par lui-même; quand lui, le chercheur,

est tout ensemble le pays obscur où il doit chercher et où tout son bagage ne lui sera de rien.

  

Chercher? Pas seulement : créer. Il est en face de quelque chose qui n’est pas encore et

  Esta enfática colocação, que define o artista como aquele que “percebe tudo”, alude a uma insuficiência da percepção no cotidiano, na ciência, ou mesmo no discurso filosófico, baseada na crítica bergsoniana:

  “Segundo Bergson, o erro das teorias filosóficas foi o de ter abandonado a percepção. Não se tratava de dar as costas à percepção, diz ele, mas de alargá-la e aprofundá-la. Como fazê-lo, poder-se-ia perguntar, se a percepção é estruturalmente voltada para a articulação pragmática da realidade? Podemos modificar a nossa constituição natural? Evidentemente não, mas há uma evidência de que se pode perceber a realidade tal como não o fazemos habitualmente. Trata-se de dar à percepção o caráter que ela não tem no nosso trato costumeiro 180 com o mundo. Que isso é possível, prova-o a arte.”

  A arte aparece então, como prova da possibilidade da ampliação da percepção. Mas como compreender esta possibilidade? Por que ela é apenas possibilidade, e a percepção comum, tão restrita?

  Continuaremos citando o texto de Franklin Leopoldo e Silva, que debate esta questão nos seguintes termos:

  “Por que nossa consciência, que de direito deveria perceber tudo, percebe o mundo apenas parcialmente? Por que a nossa consciência se apresenta o mundo em vez de apresentá-lo simplesmente a si, tal como ele é nele mesmo? Por que, enfim, as coisas que não interessam à nossa ação sobre o mundo não estão presentes no horizonte de nossa consciência empírica? A resposta bergsoniana é, em princípio, de uma simplicidade desconcertante. Não percebemos os aspectos do real que não interessam à nossa prática porque não prestamos atenção 181 neles.

  182

  Realmente é surpreendente a resposta de Bergson à questão da 180 parcialidade da percepção, que se restringiria exatamente porque não 181 Idem, p. 145. prestamos atenção aos aspectos (no cotidiano, mas também na ciência e na filosofia) que não nos interessam. Adiante em seu texto, Franklin Leopoldo e Silva detalha este processo:

  “A atenção mantém nossa consciência perceptiva e intelectual ligada aos aspectos instrumentais do real. Trata-se de uma tensão e de um esforço continuamente desenvolvido para que o homem se mantenha na condição de senhor das coisas e de usuário da natureza. Aquilo que de direito perceberíamos, se nosso espírito se pusesse diante da realidade desarmado de qualquer critério pragmático, se obnubila: nosso espírito se concentra, tensionando, estreitando-se como um cone para que só a ponta deste cone toque o real, o adentre e o domine 183 naquilo em que ele nos pode ser útil.”

  E a seguir, volta-se para a arte como um contra-exemplo da tensão envolvida no processo de restrição da percepção:

  “A condição da arte é o relaxamento desta tensão. Nunca saberemos por que ele ocorre: é esta a parte enigmática da gênese da obra, a partir da percepção do artista. O que para nós aparece como criação é fruto dessa descontração, dessa distração pela qual o espírito se distende e, por desatenção, percebe mais e mais profundamente. A percepção alargada e aprofundada (...) consiste nesta indeterminação do foco de atenção, graças à qual o artista percebe e revela os aspectos insuspeitados e inesperados do real. O senso comum sempre se espantou com esse aspecto misterioso que é o próprio centro da criação artística: como o desligamento da realidade, a desatenção às coisas pode ser a condição de uma percepção mais aguda, mais profunda e mais ampla? Esse espanto do senso comum com o aparente paradoxo que crê encontrar é índice da verdade que, 184 insuspeitada e inesperadamente, nos é dada a ver na obra.”

  

Freud e Proust praticamente contemporâneos, mas muito mais porque têm em comum,

abordar o processo de lembrar não mais a partir do processo consciente (em grego

anamnésis), mas sim a partir das imagens inconscientes ou involuntárias que afetam o

sujeito (mnéme) (RICOEUR, Paul. La Mémoire, L’Histoire, L’Oubli. Paris: Editores du Seuil,

183 2000, especialmente as p. 30, 34, 38 e 62 sobre Bergson).

  Nesta citação, o autor menciona a “gênese da obra” como um processo enigmático. Mas neste mesmo texto, numa passagem anterior, Franklin Leopoldo e Silva vislumbra uma possibilidade de elucidação do enigma:

  “A originalidade do artista e aquilo que vimos ser o caráter inesperado e insuspeitado da arte derivam da peculiar percepção do artista. Aí está pois a percepção alargada e aprofundada: nós temos acesso não a ela mesma, mas àquilo que ela produz. A arte enquanto produto é uma realidade; a arte enquanto gênese desse produto é um enigma. Mas mediante a realidade da obra podemos lançar um olhar para a região enigmática em que ela se produz. A elucidação do procedimento artístico tateará, portanto, essa imensa e obscura distância que se situa 185 entre a arte e a filosofia da arte, distância que separa e aproxima.”

  É portanto “mediante a realidade da obra” que “podemos lançar um olhar

  186

  para a região enigmática em que ela se produz”. Adiante, ao refletir sobre o processo de criação, utilizaremos o conceito psicanalítico de sublimação

  187

  aproximando-o da obra de Proust , que por suas características (constituir- se, nas palavras já citadas de Ricoeur, na “história de uma vocação”) permite “um olhar para a região enigmática em que ela se produz”. Um olhar a partir da Psicanálise, que ao lado da filosofia da arte, são disciplinas que são instigadas pela investigação do enigma que o processo de criação representa.

  Mas neste momento já podemos observar que a condição da arte, assinalada anteriormente por Franklin Leopoldo e Silva (“o relaxamento desta tensão”), não tão surpreendentemente assim, se levarmos em conta os paralelos entre Psicanálise e Literatura sugeridos no capítulo II, é aproximável 185 186 Idem, p. 145.

  Na verdade, esta colocação corrobora o que temos intentado desde o início deste trabalho:

abordar o enigma da arte a partir da obra, e não da biografia do autor, ou do contexto da

187 obra.

  E não da gênese da obra. Neste sentido, é muito clara nossa intenção de não colocar

Proust no divã, o que é válido também para o herói-narrador do romance, que no entanto, da prática psicanalítica, através da noção de “atenção flutuante”, uma prescrição metodológica que orienta a escuta analítica do discurso do paciente.

  Um artigo filosófico, “O Discurso Precário: Notas Sobre A Noção De Atenção Flutuante na Psicanálise”, define bem esta prescrição:

  “Consiste a “atenção flutuante” no abandono voluntário ou na suspensão completa, se possível, de todos os móveis que ordinariamente orientam a faculdade de atenção. Assim, o analista afasta de si, na escuta do discurso do analisado, as suas inclinações e interesses pessoais, os seus preconceitos e até, surpreendentemente, 188 os pressupostos teóricos, mesmo os mais bens fundamentados...”

  O exercício da “atenção flutuante” por parte do analista, voltado à escuta dos conteúdos nascidos da “livre associação” por parte do analisando, pode parecer a primeira vista aleatório, arbitrário ou mesmo delirante, mas é o que permite a fala do paciente:

  “(...) com Freud o paciente fala e o faz livremente, e sobre a matéria bruta desse discurso, cujas articulações motivadoras são mascaradas, assenta-se a possibilidade de cura e a possibilidade da constituição da teoria. Mas, para o desvendamento dos eixos de articulação desse discurso ou dos pontos de cosimento do discurso manifesto – mesmo sendo possível explicar-lhes o funcionamento no repouso posterior da teoria acabada – não é menos necessário que primeiro se trave a relação, sem dúvida inquietante e instável, de cintilações punctuais e 189 esporádicas de inconsciente a inconsciente.”

  Não nos interessa aqui, aprofundar a noção de “atenção flutuante”, mas sim assinalar que, de modo similar a esta prescrição psicanalítica, o artista “suspende” sua atenção à realidade empírica – Franklin Leopoldo e Silva fala

  188 GIACÓIA JÚNIOR, Oswaldo e ARANTES, Regina Maria de Souza. Cadernos PUC – Filosofia nº 13. São Paulo, Cortez Editora, [s/d] p. 6.

  190

  mesmo de uma “desatenção” –, para que seja possível abarcar “o que de

  191

  direito é perceptível, isto é, tudo.” Retomando agora nosso trabalho de leitura do texto proustiano, podemos encontrar, na sempre citada passagem de No Caminho de Swann, um exemplo explícito da busca, por parte do narrador, da assinalada suspensão da atenção ao corriqueiro:

  “E recomeço a me perguntar qual poderia ser esse estado desconhecido, que não trazia nenhuma prova lógica, mas a evidência de sua felicidade, de sua realidade ante a qual as outras se desvaneciam. Quero tentar fazê-lo reaparecer. Retrocedo pelo pensamento ao instante em que tomei a primeira colherada de chá. Encontro o mesmo estado, sem nenhuma luz nova. Peço a meu espírito um esforço mais, que me traga outra vez a sensação fugitiva. E para que nada quebre o impulso com que ele vai procurar captá-la, afasto todo obstáculo, toda idéia estranha, abrigo meus ouvidos e minha atenção contra os rumores da peça vizinha. Mas sentindo que meu espírito se fatiga sem resultado, forço-o, pelo contrário, a aceitar essa distração que eu lhe recusava, a pensar em outra coisa, a refazer-se antes de uma tentativa suprema. Depois, por segunda vez, faço o vácuo diante dele, torno a apresentar-lhe o sabor ainda recente daquele primeiro gole e sinto estremecer em mim qualquer coisa que se desloca, que desejaria elevar-se, qualquer coisa que teriam desancorado, a uma grande profundeza; não sei o que seja, mas aquilo sobe lentamente; sinto a resistência e ouço o rumor das distâncias 192 190 atravessadas.” 191 SILVA, Franklin Leopoldo e. Op. cit., p. 146. 192 Idem, p. 146.

  PROUST, Marcel. No Caminho de Swann. Op. cit., p. 49-50. (Du côté de chez Swann: “Et je

recommence à me demander quel pouvait être cet état inconnu, qui n’apportait aucune

preuve logique, mais l’évidence de sa réalité devant laquelle les autres s’évanouissaient. Je

veux essayer de le faire réapparaître. Je rétrograde par la pensée au moment où je pris la

premiére cuillerée de thé. Je retrouve le même état, sans une clarté nouvelle. Je demande à

mon esprit un effort de plus, de ramener encore une fois la sensation qui s’enfuit. Et pour que

rien ne brise l’élan dont il va tâcher de la ressaisir, j’écarte tout obstacle, toute idée étrangère,

  Fica evidenciado aqui, na tentativa do narrador de tentar captar uma “sensação fugitiva”, a necessidade do que ele chama de “distração”, para que a reminiscência possa surgir, já que tentar manter a atenção focada na recordação buscada parece não ter surtido efeito.

  Processo que corresponde ao da “desatenção” por parte do artista assinalado por Franklin Leopoldo e Silva a partir de Bergson, e também ao de “atenção flutuante” por parte do analista (assim como o de “livre associação” por parte do analisando) em busca dos conteúdos inconscientes.

  Mas é importante estabelecer uma distinção. Para o narrador de Em

  

Busca, (já no último volume da obra), agora preocupado com a literatura,

  “perceber tudo” não implica em “descrever tudo”, até mesmo opõe-se a este último processo:

  “A literatura que se limita a “descrever as coisas”, a fornecer-lhe um esquema das linhas e superfície, é, a despeito de suas pretensões realistas, a mais fora da realidade, pois corta bruscamente toda comunicação de nosso eu presente com o passado, do qual as coisas guardavam a essência, e como o futuro, onde nos convidam a gozá-lo 193 de novo.”

  Importa então na literatura, a comunicação do “eu presente” com o passado e o futuro. Idéia que a seguinte observação de Freud sobre o fantasiar e a criação literária, esclarece e aprofunda (observação esta bastante próxima da de Proust na citação acima), ao apontar o papel e a importância do desejo neste processo:

  

cette premiére gorgée et je sens tressaillir en moi quelque chose qui se déplace, voudrait

s’élever, quelque chose qu’on aurait désancré, à une grande profondeur; je ne sais ce que

c’est, mais cela monte lentement; j’éprouve la résistance et j’entends la rumeur des distances

193 traversées.”, op. cit., p. 143).

  PROUST, Marcel. O Tempo Redescoberto. Op. cit., p. 167. (Le temps retrouvé: “De sorte

que la littérature qui se contente de ‘décrire les choses’, d’en donner seulement un misérable

relevé de lignes et de surfaces, est celle qui, tout en s’appelant réaliste, est la plus éloignée

  “A relação entre a fantasia e o tempo é, em geral, muito importante. É como se ela flutuasse entre três tempos – os três momentos abrangidos pela nossa ideação. O trabalho mental vincula-se a uma impressão atual, a alguma ocasião motivadora no presente que foi capaz de despertar um dos desejos principais do sujeito. Dali, retrocede à lembrança de uma experiência anterior (geralmente da infância) na qual esse desejo foi realizado, criando uma situação referente ao futuro que representa a realização do desejo. O que se cria então é um devaneio ou fantasia, que encerra traços de sua origem a partir da ocasião que o provocou e a partir da lembrança. Dessa forma o passado, o presente e 194

o futuro são entrelaçados pelo fio do desejo que os une.”

  A relação entre os tempos, em Em Busca, dá-se em torno das reminiscências. São elas que permitem vislumbrar o “fio do desejo” que une passado, presente e futuro, entrelaçando-os.

  Pela importância das reminiscências na “história de uma vocação” que

  

Em Busca representa, talvez não seja indevido aproximar seu herói-narrador

  dos pacientes iniciais da Psicanálise, os histéricos. Nesta passagem, Freud se utiliza de uma bela metáfora – a dos monumentos comemorativos –, para a compreensão do sofrimento na histeria:

  “(...) podemos sintetizar os conhecimentos até agora adquiridos na seguinte fórmula: os histéricos sofrem de reminiscências. Seus sintomas são resíduos e símbolos mnêmicos de experiências especiais (traumáticas). Uma comparação com outros símbolos mnêmicos de gênero diferente talvez nos permita compreender melhor êsse simbolismo. Os monumentos com que ornamos nossas cidades são também símbolos dessa ordem. (...) Mas que diriam do londrino que ainda hoje se detivesse compungido ante o monumento erigido em memória do entêrro da rainha Eleanor, em vez de tratar de seus negócios com a pressa exigida pelas modernas condições de trabalho, ou de pensar satisfeito na jovem rainha de seu coração? Ou de outro que, em face do ‘Monument’ chorasse a incineração da cidade querida, reconstruída depois com tanto brilho? Como êsses londrinos poucos práticos, procedem, entretanto, os histéricos e neuróticos: não só recordam acontecimentos dolorosos que se deram há muito tempo, como ainda se prendem a êles emocionalmente; não se desembaraçam 195 do passado e alheiam-se por isso da realidade e do presente.”

  Com esta aproximação, não queremos certamente insinuar que Marcel é histérico: não se trata de diagnosticar o herói-narrador de Em Busca, mas sim de apontar o aparecimento de uma mesma idéia – a da importância das reminiscências –, na obra de Proust e na Psicanálise freudiana.

  Mesmo porque, na história da Psicanálise, a própria descoberta do papel das reminiscências na histeria, representa uma primeira formulação do conceito de inconsciente, que pôde ser aplicada também em relação a outras patologias e em seguida à chamada normalidade, especialmente na abordagem dos sonhos e dos atos falhos. Para a Psicanálise, num sentido

  196

  amplo , poderíamos dizer que todos os homens “sofrem de

  197 reminiscências” .

  Mas o herói-narrador de Em Busca sofre de um modo peculiar. Suas reminiscências não são “traumáticas”, como as dos pacientes a que Freud se 195 refere na citação acima, mas reportam-se a acontecimentos banais, ou mesmo

  FREUD, Sigmund. Cinco Lições de Psicanálise. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: 196 Editora Imago, vol. XI, 1987, p. 18 e 19. Ou seja, resguardada a questão da especificidade das diferentes psicopatologias (no caso

da histeria, as reminiscências encontram-se inscritas nos corpos dos pacientes, sob a forma

197 de sintomas físicos).

  Não podemos deixar de mencionar Nietzsche sobre esta doença da memória (a “desmedida

da história”) que a histeria representa em alto grau, mas que concerne a todos os homens:

“A história na medida em que está a serviço da vida, está a serviço de uma potência a-

histórica e por isso nunca, nessa subordinação, poderá e deverá tornar-se ciência pura,

como, digamos, a matemática. Mas a questão: até que grau a vida precisa em geral do

serviço da história, é uma das questões e cuidados mais altos no tocante à saúde de um

homem, de um povo, de uma civilização. Pois, no caso de uma certa desmedida de história,

a vida desmorona e degenera, e por fim, com essa degeneração, degenera também a própria não mencionados anteriormente na narração, como nota Shattuck nesta observação:

  “Entretanto, é significativo o fato de que Marcel não registra como eventos importantes – e freqüentemente omite – as impressões iniciais que voltam mais tarde nas reminiscências principais. Ele estava levemente consciente do guardanapo engomado em Balbec, dos apitos dos barcos de passeio e do romance de Georges Sand, Françoise le Champi, mas nada disso o atingiu, já que se tratava apenas de uma parte incidental do momento. Ele quase nem registrou o gosto ou o cheiro da Madeleine mergulhada no chá quando sua tia Léonie lhe ofereceu um pedaço. Isso formou um mero fragmento do mundo dela. Ele aparentemente reparou tão mal nas pedras desiguais do calçamento, no Batistério de São Marcos em Veneza, que sequer mencionou-as naquela época. Quando, do trem, ele viu a fila de árvores, não teve consciência de ter ouvido o martelo do guarda-trem batendo nas rodas. Mais tarde, contudo, precisamente esse som é que 198 irá fornecer o “Abre-te, Sésamo” para a lembrança total da cena.”

  O episódio da madeleine, paradigmático em relação às reminiscências posteriores, refere-se, é verdade, ao surgimento de uma lembrança referente a um cotidiano bastante banal:

  “E de súbito a lembrança me apareceu. Aquele gosto era o do pedaço de madalena que nos domingos de manhã em Combray (pois nos domingos eu não saía antes da hora da missa) minha tia Léonie me oferecia, depois de o ter mergulhado em seu chá da Índia ou de tília, 199 quando ia cumprimentá-la em seu quarto.”

  No entanto, vale notar que este episódio é narrado em seguida, e mesmo em oposição, ao do episódio do “beijo de boa noite”. Mesmo banal, e

  198 199 SHATTUCK, Roger. Op. cit., p. 118.

  PROUST, Marcel. No Caminho de Swann. Op. cit., p. 50. (Du côté de chez Swann: “Et tout

d’un coup le souvenir m’est apparu. Ce goût c’était celui du petit morceau de madeleine que

  200

  talvez por isso mesmo , o episódio da madeleine encontra-se em oposição ao anterior, pois representa uma libertação em relação à cena obsessivamente lembrada, que limitava Combray a um determinado espaço e a um determinado tempo:

  “Muitos anos fazia que, de Combray, tudo quanto não fosse o teatro e o drama do meu deitar não mais existia para mim, quando, por um dia de inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha

201

frio, ofereceu-me chá, (...)”

  Mas antes de comentarmos a importância desta libertação para a criação em Em Busca, vale notar que metáforas relativas ao teatro estão presentes em todo o episódio da madeleine, inicialmente nesta expressão: “o teatro e o drama do meu deitar”.

  Aliás, em sua obra, Proust não se limita a tratar do processo de criação na literatura. A música, através do personagem Vinteuil, e da importância da sua sonata para o narrador (mas também para Swann); a pintura, por meio do personagem Elstir, são formas da arte que merecem extensas reflexões no romance – e participam ativamente da sua trama.

  202

  Mas é no episódio da madeleine, como já notamos , que surgem metáforas referentes ao teatro, forma de arte mais tarde personificada nas figuras das atrizes (La Berma e Rachel) presentes na obra. Já em seu início, a narração faz menção ao “cenário” e “antigas peças”, além da já citada expressão “drama do meu deitar”:

  “Assim, por muito tempo, quando despertava de noite e me vinha 200 a recordação de Combray, nunca pude ver mais que aquela espécie de

A banalidade do episódio representa a retomada de uma infância banal, mas mais livre do 201 que a infância recordada pela memória voluntária.

PROUST, Marcel. No Caminho de Swann. Op. cit., p. 48. (Du côté de chez Swann: “Il y avait

déjà bien des années que, de Combray, tout ce qui n’était pas le théâtre et le drame de mon

coucher, n’existait plus pour moi, quand un jour d’hiver, comme je rentrais à la maison, ma

mère, voyant que j’avais froid, me proposa de me faire prendre, contre mon habitude, un peu de thé.”, op. cit., p. 142). lanço luminoso, recortado no meio de trevas indistintas, semelhante aos que o acender de um fogo de artifício ou alguma projeção elétrica alumiam e secionam em um edifício cujas partes restantes permanecem mergulhadas dentro da noite: na base, bastante larga, o pequeno salão, a sala de jantar, o trilho da alameda escura por onde chegaria o sr. Swann, inconsciente autor de minhas tristezas, o vestíbulo de onde me encaminhava para o primeiro degrau da escada, tão cruel de subir, que constituía por si só o tronco, muito estreito, daquela pirâmide irregular; e, no cimo, meu quarto, com o pequeno corredor de porta envidraçada por onde entrava mamãe; em suma, sempre visto à mesma hora, isolado de tudo o que pudesse haver em torno, destacando-se sozinho na escuridão, o cenário estritamente necessário (como esses que se vêem indicados no princípio das antigas peças, para as representações na província) ao drama do meu deitar; como se Combray consistisse apenas em dois andares ligados por uma estreita escada, e como se fosse sempre sete horas da 203 noite.”

  Estas metáforas constroem a imagem de uma infância em que o sujeito encontra-se confinado a um mesmo fragmento do espaço e a um mesmo tempo (o “drama do meu deitar” é uma referência ao episódio anterior, o do “beijo de boa noite”, em que o narrador conta suas angústias ao se deitar, quando menino, e que se prolongam em suas noites de adulto).

  Mas esta infância, até então marcada pela restrição a um mesmo 203 espaço/tempo que compulsivamente e obsessivamente retornam, é retomada e

  Idem, p. 47-48. (Du côté de chez Swann: “C’est ainsi que, pendant longtemps, quand,

réveillé la nuit, je me ressouvenais de Combray, je n’en revis jamais que cette sorte de pan

lumineux, découpé au milieu d’indistinctes ténèbres, pareil à ceux que l’embrasement d’un

feu de Bengale ou quelque projection électrique éclairent et sectionnent dans un édifice dont

les autres parties restent plongées dans la nuit : à la base assez large, le petit salon, la salle

à manger, l’amorce de l’allée obscure par où arriverait M. Swann, l’auteur inconscient de mes

tristesses, le vestibule où je m’acheminais vers la première marche de l’escalier, si cruel à

monter, qui constituait à lui seul le tronc fort étroit de cette pyramide irrégulière; et, au faîte,

ma chambre à coucher avec le petit couloir à porte vitrée pour l’entrée de maman; en un mot,

toujours vu à la même heure, isolé de tout ce qu’il pouvait y avoir autour, se détachant seul

sur l’obscurité, le décor strictement nécessaire (comme celui qu’on voit indiqué en tête des ampliada pelas mudanças efetuadas na memória do narrador, a partir da experiência da madeleine, também narrada utilizando-se uma metáfora relativa ao teatro (o cenário):

  “E mal reconheci o gosto do pedaço de madalena molhado em chá que minha tia me dava (embora ainda não soubesse, e tivesse de deixar para muito mais tarde tal averiguação, por que motivo aquela lembrança me tornava tão feliz), eis que a velha casa cinzenta, de fachada para a rua, onde estava seu quarto, veio aplicar-se, como um cenário de teatro, ao pequeno pavilhão que dava para o jardim e que fora construído para meus pais aos fundos da mesma (esse truncado trecho da casa que era só o que eu recordava até então); e, com a casa, a cidade toda, desde a manhã à noite, por qualquer tempo, a praça para onde me mandavam antes do almoço, as ruas por onde eu passava e as estradas que seguíamos quando fazia bom tempo.” 204

  O cenário muda, transforma-se, amplia-se então. Como no teatro, é possível um novo “ato”.

  A libertação em relação a uma situação obsessiva/compulsiva, como a narrada no episódio da madeleine, pode ser, de um ponto de vista psicanalítico, considerada como indício do processo de sublimação, já que a “flexibilização” do processo pulsional, como vimos anteriormente, acontece de modo explícito neste episódio: suas marcas são a ampliação do espaço “parental” para toda uma cidade, e a expansão do tempo antes restrito à hora de “ir dormir”.

  204 Idem, p. 51.(Du côté de chez Swann: “Et dès que j’eus reconnu le gout du morceau de

madeleine trempé dans le tilleul que me donnait ma tante (quoique je ne susse pas encore et

dusse remettre à bien plus tard de découvrir pourquoi ce souvenir me rendait si heureux),

aussitôt la vieille maison grise sur la rue, où était sa chambre, vint comme un décor de

théâtre s’appliquer au petit pavillon, donnant sur le jardin, qu’on avait construit pour mes

parents sur ses derrières (ce pan tronqué que seul j’avais revu jusque-là); et avec la maison,

  É com o conceito de sublimação que Freud tentou abordar o enigma da criação, que como vimos (Capítulo I), permanece em grande parte insolúvel, e que pode ser inquirido a partir de múltiplas leituras.

  O processo de sublimação é entendido por Birman como um processo que basicamente permitiria uma flexibilização pulsional em relação às fixações originárias compulsivas:

  “A sublimação seria agora, então, uma renovação do erotismo, pela reabertura que possibilita de novos campos de investigação objetal e de outras modalidades possíveis de ligação da força pulsional. A sublimação permitiria, pois, a ‘flexibilização’ do circuito pulsional originário, retificando a ‘compulsividade’ presente nas fixações originárias. Seria isso justamente que estaria presente na possibilidade de criação para a subjetividade, pois mediante aquela o psiquismo 205 poderia se contrapor à ‘fixação’ e à ‘repetição’.”

  Birman assinala expressamente que seria esta “flexibilização” que liga- se à possibilidade de criação, contrapondo-se à “fixação” e à “repetição”. Seria difícil encontrar uma melhor descrição desta característica do processo de sublimação do que o episódio da madeleine, que relata a saída de um espaço e de um tempo compulsivamente presentes, ou seja, os únicos a que a atenção do narrador se voltava, tornada possível pelo emergir de uma reminiscência.

  Em termos psicológicos, podemos falar apenas – nas palavras de Birman –, “na possibilidade de criação”, ou seja, a “flexibilização” própria da sublimação, que permite ao sujeito contrapor-se à “fixação” e à “repetição”, pode ou não redundar no processo de criação.

  Na obra de Proust, o episódio da madeleine significa apenas o início de um processo, pois a sua compreensão, como nos alerta Ricoeur ao comentar uma questão colocada pelo narrador do episódio, se dará muito mais tarde:

  “(...) ‘De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligada ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde apreendê-la?’ Ora, a questão colocada desse modo comporta a cilada de uma resposta demasiado curta, que seria simplesmente a da memória involuntária. Se a resposta colocada por ‘esse estado desconhecido’ estivesse saturada pelo retorno repentino da lembrança da primeira pequena madalena oferecida outrora pela tia Léonie, Em busca..., logo de início, já teria atingido sua meta: limitar-se- ia à busca de tais revivescências, das quais o mínimo que se pode dizer é que não requerem o labor de nenhuma arte. Um único indício mostra ao leitor sutil que não é bem assim; é um parênteses que diz: ‘(embora ainda não soubesse, e tivesse de deixar para muito mais tarde tal averiguação, por que motivo aquela lembrança me tornava tão 206 feliz),...’”

  Este processo que se inicia com a experiência da madeleine, é retomado

  207

  no final da obra, de um modo simétrico , no episódio da biblioteca (que enfocamos no capítulo IV):

  “(...) o êxtase da madalena abre o tempo redescoberto da infância, como a meditação na biblioteca abrirá o do tempo da comprovação da 208 vocação finalmente reconhecida.”

  O processo iniciado no episódio da madeleine culmina então, com o reconhecimento de uma vocação, por parte do narrador de Em Busca:

  “E compreendi que a matéria da obra literária era, afinal, minha vida passada; que tudo me viera nos divertimentos frívolos, na indolência, na ternura, na dor, e eu acumulara como a semente os alimentos de que se nutrirá a planta, sem adivinhar-lhe o destino nem a sobrevivência. Como a semente, poderia morrer uma vez desenvolvida a planta, para qual vivera sem o saber, sem nunca imaginar que minha vida devesse entrar em contato com os livros que sonhara escrever e cujo assunto, 206 quando outrora me sentava à mesa de trabalho, buscara em vão. Assim 207 RICOEUR, Paul. Tempo e Narrativa I., Op.cit., p. 233.

  

Segundo Ricoeur: “(...) aproveitaremos a simetria entre o começo e o final da grande minha existência até este dia poderia e não poderia resumir-se neste título: uma vocação.” 209

  O caráter inconsciente

  210

  deste processo é sugerido pelas palavras do narrador (“sem adivinhar-lhe o destino nem a sobrevivência”), que culmina com o reconhecimento de que “a matéria da obra literária era, afinal, minha vida passada”.

  A importância da “vida passada” para a criação literária, coloca o narrador de Em Busca numa situação próxima ao do paciente na análise psicanalítica, que também se propõe a esta investigação: toda análise de certa forma também é uma busca de um “tempo perdido”.

  Esta aproximação entre a análise psicanalítica e o processo narrado em

  Em Busca, também é sugerido por Shattuck 211

  :

  “Devido à sua preocupação com os estados da mente e a motivação oculta; a Busca parece classificar-se como uma exaustiva anamnese psicanalítica. (...) Começando com sintomas reconhecíveis de ansiedade, o narrador da Busca transporta suas explorações ao passado, até localizar o evento magnetizado e luminoso que se encontra na raiz de todas as coisas. Assim, essa anamnese caminha através de revelações sucessivas, que aumentam em escala e em

  209

PROUST, Marcel. O Tempo Redescoberto. Op. cit., p. 175. (Le temps retrouvé: “Et je

compris que tous ces matériaux de l’oeuvre littéraire, c’était ma vie passée; je compris qu’ils

  

étaient venus à moi, dans les plaisirs frivoles, dans la paresse, dans la tendresse, dans la

douleur, emmagasinés par moi, sans que je devinasse plus leur destination, leur survivance

même, que la graine mettant en réserve tous les aliments qui nourriront la plante. Comme la

graine, je pourrais mourir quand la plante se serait développée, et je me trouvais avoir vécu

pour elle sans le savoir, sans que ma vie me parût devoir entrer jamais en contact avec ces

livres que j’aurais voulu écrire et pour lesquels, quand je me mettais autrefois à ma table, je

ne trouvais pas de sujet. Ainsi toute ma vie jusqu’à ce jour aurait pu et n’aurait pas pu être résumée sous ce titre : Une vocation.”, op. cit., p. 260-261). 210

Aqui, no sentido de não consciente. De um ponto de vista psicanalítico, este processo seria mais propriamente pré-consciente. 211 detalhe até que pareçam revelar a vida do paciente. A “análise” avança 212 sempre, sondando o funcionamento da psique.”

  Shattuck se pergunta a seguir, sobre o sujeito da “análise” que Em

  

Busca representaria: “Mas podemos distinguir o paciente da análise nesta

213

  narrativa?” Sua resposta faz referência à importante questão da distinção das vozes narrativas, em Em Busca:

  “As duas personagens envolvidas nos episódios não são separadas aqui pela competência profissional representada pelo pagamento de uma taxa; elas estão separadas pela idade e pela experiência, como é demonstrado nos vários sinais evidentes e ocultos da voz narrativa. A Busca registra a auto-análise dolorosamente prolongada de uma personagem fictícia projetada na dupla função de Marcel e de narrador.

  Ambos contribuem com trechos de profunda análise, que às vezes parecem fazer a ação parar completamente. Mas ela continua sempre. A Busca é fundamentalmente uma história – uma narrativa temporal e linear, na qual o leitor sente a pressão dos eventos impelindo-o de um começo a um fim. O movimento geral é de crescimento e de 214 amadurecimento.”

  Os passos deste processo “de crescimento e de amadurecimento”, típico de um romance de formação, têm no entanto seu ritmo ditado pelas

  215 212 reminiscências, de um modo similar ao do método psicanalítico , quando leva 213 Idem, p. 107-108. 214 Idem, p. 108. 215 SHATTUCK, Roger. Op. cit., p. 108.

  

Estamos usando o termo num dos sentidos que Laplanche e Pontalis registram para Psicanálise:

“Um método de investigação que consiste essencialmente na evidenciação do significado

inconsciente das palavras, das ações, das produções imaginárias (sonhos, fantasmas,

delírios) de um indivíduo. Este método baseia-se principalmente nas associações livres do em conta as produções mentais inconscientes dos analisandos – suas associações livres –, ou prescreve a “atenção flutuante” ao analista.

  É neste sentido que talvez o herói/narrador de Em Busca, para o romance moderno, tenha um papel comparável ao dos histéricos na Psicanálise, que permitiram um primeiro vislumbre do inconsciente: Marcel, não um histérico, mas como os histéricos, só é compreensível a partir das reminiscências que corajosamente (mas é uma coragem-moderna? – cheia de hesitações, preguiça e adiamentos) quer fazer surgir em sua consciência. Se é verdade que a obra de Proust, conforme sugerido por Shattuck, “registra a auto-análise dolorosamente prolongada de uma personagem fictícia projetada na dupla função de Marcel e de narrador”, esta última aproximação com a Psicanálise não só é possível, como necessária.

  Comparável à Psicanálise por sua ênfase nas reminiscências,

  216

  deslocando o que seria central num romance de formação – ou seja, sua ênfase no aprendizado consciente –, para um segundo plano (no entanto também extensamente abordado na obra) mas não mais suficiente (e muitas vezes inibidor) para o salto que o reconhecimento da “história de uma vocação” representa, e para o qual o surgimento das reminiscências é fundamental, a obra de Proust provoca a mesma estranheza (pelo descentramento que provocam na consciência do narrador) que a proposição do conceito de inconsciente significou para a Psicologia.

  Também em relação à estrutura, Em Busca representa uma inovação em relação ao gênero. Não é intenção deste trabalho discutir esta importante questão, mas talvez seja esclarecedor para nossos propósitos, assinalar um aspecto relativo à estrutura de Em Busca, a partir deste comentário de Graciela 216 Codina:

  Segundo Ricoeur, “Marcel Proust subverte de uma maneira diferente da de Thomas Mann a lei do

  “(...) Os episódios mais importantes podem até ter a aparência de um desfecho clássico, mas são superados pelo ‘movimento dialético da obra’, o que, segundo Tadié, conduz a um fim aberto, pela primeira vez 217 na história do gênero.”

  Quando comparamos a obra de Proust com a análise psicanalítica (ou mais precisamente com uma auto-análise, segundo Shattuck), insinua-se a questão do fim da análise, que não é questão fácil de ser respondida, e sobre a qual Freud reflete, em um texto significativamente intitulado “Análise Terminável e Interminável”, do qual destacaremos essas considerações:

  “(...) Não estou pretendendo afirmar que a análise é, inteiramente, um assunto sem fim. Qualquer que seja nossa atitude teórica para com a questão, a terminação de uma análise é, penso eu, uma questão prática. Todo analista experimentado será capaz de recordar uma série de casos em que deu a seu paciente um adeus definitivo (...). Nosso objetivo não será dissipar todas as peculiaridade do caráter humano em benefício de uma ‘normalidade’ esquemática, nem tampouco exigir que a pessoa que foi ‘completamente analisada’ não sinta paixões nem desenvolva conflitos internos. A missão da análise é garantir as melhores condições psicológicas possíveis para as funções do ego; 218 com isso, ela se desincumbiu de sua tarefa.”

  Comparável ao término da análise, sobre a qual Freud admite ser finalizada por “uma questão prática”, mas na verdade interminável, se atentarmos para as aspas colocadas na expressão ”completamente analisada”, já que certos aspectos do sujeito talvez nunca sejam totalmente analisáveis, também Em Busca termina. E também seu término não é fácil de ser definido, já que ao seu final vislumbra-se uma possibilidade: um romance a ser iniciado. Final e início, obra que se conclui e que no entanto permanece em aberto.

  217

CODINA, Graciela Deri de. As Aporias do Eu na Recherche de Proust: Desilusão e Sentido.

  Tese de Doutorado, Deptº de Filosofia, UNICAMP, agosto/2005, p. 185.

Considerações Finais

  “Num sentido ao mesmo tempo paradoxal e trivial, gostaria de dizer que os homens não são animais tão específicos porque possuem uma memória: mas somente porque se esforçam em não esquecer. A escrita da história é sim atravessada pela morte, como afirma o deus solar do Fedro; mas se o historiador luta contra o esquecimento (Heródoto) e trabalha para cavar um túmulo, seu gesto recorda simultaneamente aos vivos que nenhuma memória poderia torná-los inesquecíveis, isto é, eternos. Assim, a história luta igualmente contra este esquecimento primevo que nos é tão caro: o esquecimento de nossa própria morte.” 219

  Nestas considerações, nos voltamos para as passagens finais de Em

  

Busca, na tentativa, não de concluir, o que seria impossível, e sim (para usar

  um termo inspirado nas observações que faremos adiante) “arrematar” nossa leitura do texto proustiano.

  Nos voltamos também, para a observação de Paul Ricoeur (já citada no capítulo IV), suscitada pelo episódio do aparecimento da Srtª de Saint-Loup no final da obra

  220

  , e que sugere a existência de “um pacto com a juventude” na criação.

  Gostaríamos de voltar a esta observação, através de um outro exemplo que também traz a voz do narrador de Em Busca prestes a escrever sua obra:

  “(...) a felicidade que experimentava não provinha da tensão puramente subjetiva dos nervos, que nos isola do passado, mas, ao contrário, de 219

GAGNEBIN, Jeanne-Marie. Os Prelúdios de Paul Ricoeur. In: Lembrar, Escrever, Esquecer.

  Rio de Janeiro, Ed. 34, 2006, p. 192. 220

“(...) Esse aparecimento que concretiza uma reconciliação, muitas vezes anunciada ou um alargamento de meu espírito, no qual renascia, atualizava-se o passado e que me permitia apreender – mas, ai de mim!, fugazmente – o valor da eternidade. Desejaria legá-lo àqueles a quem poderia enriquecer meu tesouro. Certamente, o que sentira na biblioteca e buscava proteger era ainda o prazer, porém não mais egoísta, ou, pelo menos (já que todos os altruísmos fecundos da natureza se desenvolvem de maneira egoísta, sendo estéril o altruísmo humano não egoísta, o do escritor que interrompe seu trabalho para receber um amigo infeliz, exercer função pública, escrever artigos de propaganda) por outrem utilizável.

  Já não era despreocupado como ao regressar de Rivebelle, sentia-me responsável pela obra que em mim trazia (como por algo precioso e frágil que me houvesse sido confiado e quisesse depor intacto nas mãos de terceiros aos quais se destinava).” 221

  Estes pensamentos, próprios do escritor prestes a escrever a obra, são matizados pela preocupação em relação ao tempo que resta, pela urgência.

  O desejo do narrador, ao final, é legar uma experiência, “o valor da eternidade”, que poderia ser “por outrem utilizável”. O ato da criação é atravessado pois, poderíamos dizer por este “pacto com a juventude” de que fala Ricoeur, a partir do conceito de “natalidade”.

  O último parágrafo citado [e que numa tradução literal seria “(...), eu me sentia acrescido desta obra que eu trazia em mim (como por algo de precioso e 221

  

PROUST, Marcel. O Tempo Redescoberto. Op. cit., p. 282. (Le temps retrouvé: “(...) que le

bonheur que j’éprouvais ne venait pas d’une tension purement subjective des nerfs qui nous

isole du passé, mais au contraire d’un élargissement de mon esprit en qui se reformait,

s’actualisait ce passé, et me donnait, mais hélas! momentanément, une valeur d’éternité.

J’aurais voulu léguer celle-ci à ceux que j’aurais pu enrichir de mon trésor. Certes, ce que

j’avais éprouvé dans la bibliothèque et que je cherchais à protéger, c’était plaisir encore, mais

non plus égoïste, ou du moins d’un égoïsme (car tous les altruismes féconds de la nature se

développent selon un mode égoïste, l’altruisme humain qui n’est pas égoïste est stérile, c’est

celui de l’écrivain qui s’interrompt de travailler pour recevoir un ami malheureux, pour

accepter une fonction publique, pour écrire des articles de propagande) d’un égoïsme

utilisable pour autrui. Je n’avais plus mon indifférence des retours de Rivebelle, je me sentais

accru de cette ceuvre que je portais en moi (comme par quelque chose de précieux et de de frágil que me teria sido confiado e que eu gostaria de remeter intacto às mão às quais ele estava destinado e que não eram as minhas)”.], no original, nos remete diretamente ao conceito de “natalidade”, pois nele, a criação como

  

transmissão fica evidente (“remeter intacto às mãos as quais ele estava

  destinado e que não eram as minhas”), o que corresponde à idéia de paternidade, ou até mesmo à de maternidade, insinuada em “oeuvre que je portais en moi” (que também pode ser traduzida por “obra que eu carregava em mim”), ou mais exatamente à “gravidez” do narrador com relação a uma obra que esta sendo gestada.

  Mas se a natalidade é “o fato de que seres nascem para o mundo”

  222

  , sua contraparte é o fato de que os seres morrem para o mundo, e não é possível a admissão da natalidade, sem seu correspondente que diz respeito à

  mortalidade 223

  • – talvez por isto tão difícil a criação. O narrador de Em Busca se dá conta disto de um modo pungente:

  “Victor Hugo disse: ‘Il faut que l’herbe pousse et les enfants meurent’. E eu afirmo que a lei cruel da arte exige que os seres pereçam, que nós mesmos morramos padecendo todos os tormentos, a fim de que cresça a relva, não do olvido, mas da vida eterna, a dura relva das obras fecundas, sobre a qual as gerações futuras virão alegremente, sem

cogitar dos que sob ela dormem, fazer seus piqueniques.”

224 222 ARENDT, Hannah. Op. cit., p. 223. 223

  

Sobre a questão da mortalidade, esta citação de um outro texto de Hanna Arendt pode ser

esclarecedora: “A preocupação dos gregos com a imortalidade resultou de sua experiência de uma natureza imortal e de deuses imortais que, juntos, circundavam as vidas individuais de homens mortais. Inserida num cosmo onde tudo era imortal, a mortalidade tornou-se o emblema da existência humana. Os homens são «os mortais», as únicas coisas mortais que existem porque, ao contrário dos animais, não existem apenas como membros de uma espécie cuja vida imortal é garantida pela procriação. A mortalidade dos homens reside no fato de que a vida individual, com uma história vital identificável desde o nascimento até a morte, advém da vida biológica. Essa vida individual difere de todas as outras coisas pelo curso retilíneo do seu movimento que, por assim dizer, intercepta o movimento circular da vida biológica. É isto a mortalidade: mover-se ao longo de uma linha reta num universo em que tudo o que se move o faz num sentido cíclico.” (ARENDT, Hanna. A Condição Humana. Rio de Janeiro: Ed. Forense Universitária, 1991, p. 27). 224

PROUST, Marcel. O Tempo Redescoberto. Op. cit., p. 284. (Le temps retrouvé: “Victor Hugo

  A obra de Proust pode ser compreendida como a narração de um processo que culmina com a descoberta da vocação do escritor, acompanhada pela admissão da morte e do tempo destruidor:

  “Sim, a esta obra, a noção do Tempo, que acabava de adquirir, me dizia chegada a hora de consagrar-me. Essa urgência justificava a ansiedade que de mim se apoderara ao entrar no salão, onde as fisionomias retocadas me deram a sensação do tempo perdido; mas já não seria tarde? Eu vivera como o pintor galga a encosta que penetra um lago, cuja vista lhe é vedada por uma cortina de rochedos e árvores. Por uma brecha, divisa-o afinal, tem-no todo sob os olhos, toma dos pincéis. Mas já a noite chega e o impede de pintar, a noite após a qual não haverá mais dia!” 225

  Um outro exemplo em que a questão da morte é tematizada, é esta passagem em que o narrador lamenta não apenas a possível perda da posição de sujeito, mas muito mais as experiências cuja narração é ameaçada pela morte:

  “Eu tinha a certeza de que meu cérebro constituía uma rica zona de mineração, com jazidas preciosas, extensas e várias. Mas teria tempo de explorá-las? Era a única pessoa capaz de fazê-lo. Por dois motivos: com minha morte, não desapareceria só o mineiro conhecedor

exclusivo dos minérios, mas também as próprias minas.”

226

dorment en dessous, leur ‘déjeuner sur l’herbe’.”, op. cit., p. 431), [“déjeuner sur l’herbe” é,

segundo Jeanne-Marie Gagnebin, uma alusão ao quadro de Manet, que não consta da

225 tradução].

  

Idem, p. 281.(Le temps retrouvé: “Oui, à cette oeuvre, cette idée du Temps que je venais de

former disait qu’il était temps de me mettre. Il était grand temps; mais, et cela justifiait

l’anxiété que s’était emparée de moi dès mon entrée dans le salon, quand les visages grimés

m’avaient donné la notion du temps perdu, était-il temps encore et même étais-je encore en

état? (...) J’avais vécu comme un peintre montant un chemin qui surplombe un lac dont un

rideau de rochers et d’arbres lui cache la vue. Par une brèche il l’aperçoit, il l’a tout entier

devant lui, il prend ses pinceaux. Mais déjà vient la nuit où l’on ne peut plus peindre, et sur

laquelle le jour ne se relève pas.”, p. 427). [O tradutor “pulou” uma frase (“L’esprit a ses

paysages dont la contemplation ne lui est laissée qu’un temps.”) cuja tradução possível seria:

“O espírito tem suas paisagens cuja contemplação só lhe é permitida por um certo tempo.”

(Sugerida por Sybil Safdié Douek)].

  Na verdade a questão do tempo não é uma questão restrita ao último volume da obra, nela esta preocupação é onipresente. Nas palavras de Shattuck: “A primeira frase de toda a obra, assim como seu título, indicam uma

  227 coexistência constante com o tempo” .

  E poderíamos acrescentar: também o título do último volume (O Tempo

  

Reencontrado) e as últimas passagens (assim como a última palavra) da obra,

também indicam a persistência desta “coexistência constante com o tempo”.

  No último volume – e isto é novo numa obra que se demora minuciosamente em cada acontecimento –, é que surge o sentimento de urgência assinalado: natalidade e mortalidade poderíamos dizer, são os temas das derradeiras páginas de Em Busca, após a vocação finalmente assumida.

  Na tentativa de caracterizarmos estas questões que são próprias do final da obra, talvez ainda seja tempo (!) de examinarmos mais uma imagem, já que ela nos parece condensar, de forma metafórica, a questão da criação literária atravessada pelo tempo. Trata-se da imagem dos “papeluchos” aos quais Françoise se refere no romance, e dos quais era tão zelosa:

  “Os papéis que Françoise chamava de papeluchos estavam, de tanto ser colados uns aos outros, rasgados aqui e ali. Françoise poderia, se fosse necessário, ajudar-me a consertá-los, do mesmo modo como remendava seus vestidos, ou, esperando o vidraceiro como eu o tipógrafo, punha na janela da cozinha um pedaço de jornal no lugar de uma vidraça quebrada.

  Apontando para meus cadernos, roídos como madeira por cupim, lamentava: ‘Está tudo bichado, que pena, este canto de página é uma renda’ – examinava-o como um alfaiate – ‘acho que não poderei consertar, está perdido. Que prejuízo, talvez sejam suas melhores

avec ma mort eût disparu non seulement le seul ouvrier mineur capable d’extraire ces idéias. Como se diz em Combray, ninguém conhece as peles tão bem 228

como as traças. Estragam sempre as melhores fazendas’.”

  “Papeluchos” que são afinal, as anotações do futuro escritor, e que neste momento só são valorizados pela criada (e pelas traças!).

  Nesta imagem, presente no final da obra, há uma profunda consciência da fragilidade da palavra escrita, ironizada na figura das traças – metáfora clara do tempo destruidor –, que contrasta com a imagem do início do romance, a da xícara de chá na qual “pedacinhos de papel” mergulhados n’água tomam “forma e solidez”, revelando Combray em seu cotidiano banal, mas no entanto

  229 subtraído da experiência do narrador.

  Nesta que é uma das passagens mais famosas de Em Busca – e uma das mais felizes (nos dois sentidos: o da felicidade do momento e o do achado literário) –, os “pedacinhos de papel” que na água desabrocham como flores

  230

  ressuscitam Combray, que “toma forma e solidez”, saída de uma taça de 228 chá:

  

PROUST, Marcel. O Tempo Redescoberto. Op. cit., p. 281. (Le temps retrouvé: “A force de

coller les uns aux autres ces papiers que Françoise appelait mes paperoles, ils se déchiraient

çà et là. Au besoin Françoise ne pourrait-elle pas m’aider à les consolider, de la même façon

qu’elle mettait des pièces aux parties usées de ses robes, ou qu’à la fenêtre de la cuisine, en

attendant le vitrier comme moi l’imprimeur, elle collait un morceau de journal à la place d’un

carreau cassé*?

  • * Françoise me dirait, en me montrant mes cahiers rongés comme le bois où l’insecte s’est mis : ‘C´est

    tout mité, regardez, c’est malheureux, voilà un bout de page qui n’est plus qu’une dentelle’ et l’examinant comme un tailleur : ‘je ne crois pas que je pourrai la refaire, c’est perdu. C’est dommage, c’est peut-être vos plus belles idées. Comme on dit à Combray, il n’y a pas de fourreurs qui s’y

    connaissent aussi bien comme les mites. Ils se mettent toujours dans les meilleures étoffes.’

    ”, op. 229 cit., p. 426). (Em francês o 2º parágrafo da tradução citada é uma nota).

  

Pelo menos da memória voluntária: “Na verdade, poderia responder, a quem me

perguntasse, que Combray compreendia outras coisas mais e existia em outras horas. Mas

como o que eu então recordasse me seria fornecido unicamente pela memória voluntária, a

memória da inteligência, e como as informações que ela nos dá sobre o passado não

conservam nada deste, nunca me teria lembrado de pensar no restante de Combray. Na

verdade, tudo isso estava morto para mim.” (PROUST, Marcel. No Caminho de Swann. Op.

cit., p. 48). (Du côté de chez Swann: “A vrai dire, j’aurais pu répondre à qui m’eût interrogé

que Combray comprenait encore autre chose et existait à d’autres heures. Mais comme ce

que je m’en serais rappelé m’eût été fourni seulement par la mémoire volontaire, la mémoire

de l’intelligence, et comme les renseignements qu’elle donne sur le passé ne conservent rien

de lui, je n’aurais jamais eu envie de songer à ce reste de Combray. Tout cela était en réalité

  “(...) E, como nesse divertimento japonês de mergulhar numa bacia de porcelana cheia d’água pedacinhos de papel, até então indistintos e que, depois de molhados, se estiram, se delineiam, se colorem, se diferenciam, tornam-se flores, casas, personagens consistentes e reconhecíveis, assim agora todas as flores de nosso jardim e as do parque do sr. Swann, e as ninféias do Vivonne, e a boa gente da aldeia e suas pequenas moradias e a igreja e toda a Combray e seus arredores, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, de minha taça de chá.” 231

  A obra não “se resolve” no episódio da madeleine, como sabemos, mas a experiência narrada neste episódio atravessa os vários volumes da obra, experiência que será ampliada pelas posteriores reminiscências, representando ao menos, nas palavras de Ricoeur, um “sinal premonitório”, além de um “primeiro esboço” da revelação final:

  “Se o êxtase da madalena não passa de um sinal premonitório da revelação final, já possui, pelo menos, a virtude de abrir a porta da lembrança e permitir o primeiro esboço do Tempo redescoberto: as narrativas de Combray.” 232

  É a cena que “se passa” numa xícara de chá que poderíamos dizer

  

pressagia toda a obra. Os “pedacinhos de papel” que se materializam numa

  cidade esquecida representam a fragilidade, mas ao mesmo tempo a solidez das reminiscências.

  

suas impressões. Só mais tarde ele irá compreender que elas são o próprio material da

realidade e que o prepararam para os dois estágios posteriores da memória:

ressurreição/reminiscência (Proust utiliza os termos cristão e grego indistintamente; assim,

agirei da mesma maneira) e arte.” (SHATTUCK, Roger. Op. cit., p. 133). 231

  

PROUST, Marcel. No Caminho de Swann. Op. cit., p. 51. (Du côté de chez Swann: “Et

comme dans ce jeu où les Japonais s’amusent à tremper dans un bol de porcelaine rempli

d’eau, de petits morceaux de papier jusque-là indistincts qui, à peine y sont-ils plongés

s’étirent, se contournent, se colorent, se différencient, deviennent des fleurs, des maisons,

des personnages consistants et reconnaissables, de même maintenant toutes les fleurs de

notre jardin et celles du parc de M. Swann, et les nymphéas de la Vivonne, et les bonnes

gens du village et leurs petits logis et l’église et tout Combray et ses environs, tout cela qui

  Contrastando com esta imagem, os “papeluchos” de Françoise são fragmentos da obra a ser escrita, compreensíveis muito mais do ponto de vista do costureiro (questão esta já insinuada no capítulo IV), do que da posição do arquiteto que idealiza uma catedral:

  “(...) (eu) trabalharia a seu lado, e quase à sua imitação (ao menos à imitação do que outrora fazia: agora, muito velha, já não tinha vista para nada), pois, pregando aqui e ali uma folha suplementar, eu construiria meu livro, não ouso dizer ambiciosamente como uma catedral, mas modestamente como um vestido. Quando não encontrasse todos os meus papéis, meus papeluchos, como dizia Françoise, e faltasse justamente o mais necessário no momento, ela compreenderia que me enervasse, pois repetia sempre ser-lhe impossível coser sem a linha e 233 os botões mais adequados, (...)”

  Se os “pedacinhos de papel”, no caso do episódio da madeleine, transformam-se na Combray esquecida, a imagem que aparece no final da obra não é mais a destes papeizinhos que se abrem quase magicamente como

  234

  pétalas, mas a de “papeluchos” que se abrem como sanfonas , e que se parecem mais a remendos; imagem esta, poderíamos dizer, desconfiada dos destinos da escrita.

  Se o episódio da madeleine representa o momento de inspiração do 233 artista, momento de totalidade, a costura dos fragmentos representa o outro

  

PROUST, Marcel. O Tempo Redescoberto. Op. cit., p. 280. (Le temps retrouvé: “(...) je

travaillerais auprès d’elle, et presque comme elle (du moins comme elle faisait autrefois : si

vieille maintenant, elle n’y voyait plus goutte); car, épinglant ici un feuillet supplémentaire, je

bâtirais mon livre, je n’ose pas dire ambitieusement comme une cathédrale, mais tout

simplement comme une robe. Quand je n’aurais pas auprès de moi toutes mes paperoles,

comme disait Françoise, et que me manquerait juste celle dont j’aurais besoin, Françoise

comprendrait bien mon énervement, elle qui disait toujours qu’elle ne pouvait pas coudre si

234 elle n’avait pas le numéro de fil et les boutons qu’il fallait.”, op. cit., p. 425).

  

A expressão nos foi sugerida por Leda Tenório da Motta, que comenta aqui não só a

narração, mas o contexto biográfico da obra; que nos abstivemos de mencionar até aqui,

mas que todavia se impõe: “Treze volumes ao cabo da aventura, que coincide

milimetricamente com a morte de Proust, em 1922. Uma pequena biblioteca para conter à

proliferação impressionante de carnês, cadernos, margens escritas, rodapés, tiras

intercaladas e as célebres sanfonas de papel destinadas a aumentar as páginas manuscritas, momento da criação literária: o da escritura propriamente dita (que alguns chamam, e com razão, de transpiração), necessariamente fragmentária. Momento de humildade, que se dá logo após o momento culminante da obra, a “revelação final” segundo Ricoeur, que como sabemos acontece numa biblioteca:

  “(...) A simetria entre o começo e o fim revela, desse modo, ser o

  princípio diretor da composição: se Combray sai de uma xícara de chá, como a narrativa da madalena sai dos semidespertares de um quarto de dormir, é da maneira como a meditação na biblioteca vai comandar o encadeamento das provas ulteriores.” 235

  Na biblioteca enfim, é que se dá a descoberta de uma vocação: a de autor de uma obra a ser empreendida, que no entanto já se esboça na descoberta de que “a matéria da obra literária era, afinal, minha vida passada”

  236 .

  Esta valorização do passado, ou melhor, da relação entre o passado narrado e o presente do narrador, coloca em evidência as figuras do sujeito (o

  

herói e o narrador) presentes na obra, que podem se encontrar enfim, na

  almejada transformação final do narrador em escritor. Nas palavras de Jeanne- Marie Gagnebin:

  “Esses ‘jogos com o tempo’ (segundo a expressão de Ricoeur) são bem conhecidos na obra de Marcel Proust. São também jogos com as duas figuras de sujeito que podem ser diferenciadas na Busca do tempo perdido: o herói, aquele ‘eu’ incerto que nem sabe se dorme ou está acordado, que conta suas aventuras e suas desilusões, e o narrador, aquele outro ‘eu’ que já sabe de coisas futuras, aquele que antecipa, mas que também lembra, que vai deduzir da experiência da memória involuntária tanto os motivos quanto as leis da obra a realizar, o narrador que se transformará, no fim, em escritor. O herói se manifesta no tempo narrado, o narrador no da narração, mas esses 235 dois tempos em Proust somente são distinguíveis em teoria, porque, na prática da escrita proustiana, eles se entremesclam, se confundem e nos confundem, confundem o leitor que não sabe mais, muitas vezes, 237 quem fala, quando e de onde esse ‘eu’ incansável toma a palavra.”

  É importante notar que, o tempo reencontrado, no presente do narrador, refere-se ao passado, no entanto ampliado nesta longa busca, pelas reminiscências que revolucionam a própria noção de “vida passada”. O futuro escritor deve proceder então, a uma espécie de arqueologia da própria vida, lutando contra o esquecimento.

  Na epígrafe escolhida para estas considerações, Jeanne-Marie Gagnebin, mencionando Heródoto, afirma que “o historiador luta contra o esquecimento”. No entanto, esta não é tarefa apenas do historiador, mas também a do romancista que, tratando embora de uma “experiência temporal

  238 fictícia” , empreende uma luta comparável no interior da obra.

  Não é fácil traçar (se é que é necessário), uma linha divisória entre o trabalho do historiador e o do romancista. No caso da obra de Proust, isto torna-se ainda mais complicado, por ser a luta contra o esquecimento tematizada pela própria obra, luta que não objetiva lembrar os grandes feitos, mas a não esquecer os pequenos gestos do cotidiano, que por vezes são subtraídos da memória pela força das lembranças obsessivas que restringem a consciência do narrador.

  Como última palavra, não podemos esquecer (!), no entanto, que se Em

  

Busca narra as vicissitudes do herói solitário, narra também (e ao mesmo

  tempo) uma época, e o faz, segundo a preciosa observação de Walter Benjamin, a partir de sua intimidade:

  “Nem sempre proclamamos em voz alta o que temos de mais 237 importante a dizer. E, mesmo em voz baixa, não o confiamos sempre à

O Tempo Pela Janela, O Tempo Pela Escritura. In: II Seminário do Museu Vale do Rio Doce: Sentidos Na/Da Arte Contemporânea, p. 6. pessoa mais familiar, mais próxima e mais disposta a ouvir a confidência. Não somente as pessoas, mas também as épocas, têm essa maneira inocente, ou antes, astuciosa e frívola, de comunicar seu segredo mais íntimo ao primeiro desconhecido. No que diz respeito ao século XIX, não foram nem Zola nem Anatole France, mas o jovem Proust, o esnobe sem importância, o trêfego freqüentador de salões, quem ouviu, de passagem, do século envelhecido, como de um outro Swann, quase agonizante, as mais extraordinárias confidências. Somente Proust fez do século XIX um século para memorialistas. O que era antes dele uma simples época, desprovida de tensões, converteu- se num campo de forças, no qual surgiram as mais variadas correntes, 239 representadas por autores subseqüentes.”

  239

Referências Bibliográficas ADORNO, Theodor. Minima Moralia. São Paulo: Editora Ática, 1993

  ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Rio de Janeiro: Ed. Forense Universitária, 1991. _____. Entre o Passado e o Futuro. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2005. ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. São Paulo: Ed. Scipion, 1996. BARAN, Paul e SWEEZY, Paul. O Sistema Irracional, In: Capitalismo Monopolista. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1966. BENJAMIN, Walter. Zum Bilde Prousts, Ges. Schr. II-1. Frankfurt am Main:

  Suhrkamp, 1974. Tradução brasileira de Sérgio Paulo Rouanet: A

  imagem de Proust. In: Obras Escolhidas, Volume I – Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985.

  BENVENISTE, Emile. Problemas da Lingüística General. Buenos Aires: Siglo XXI, 1974. BERLINCK, Manoel Tosta. A Mania de Saber. In: Boletim de Novidades. São Paulo: Ed. Escuta, 1993. BIRMAN, Joel. Fantasiando sobre a Sublime Ação. In: Psicanálise, Arte e

  Estética de Subjetivação. (org. Giovanna Bertucci). São Paulo: Editora Imago, 2002.

  CHAUÍ, Marilena. Primeira Filosofia. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1984. CODINA, Graciela Deri de. As Aporias do Eu na Recherche de Proust:

  Desilusão e Sentido. Tese de Doutorado, Deptº de Filosofia, UNICAMP,

  agosto/2005 FERRAZ, Maria Cristina F. Platão – As Artimanhas do Fingimento. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999.

  FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1975. FREUD, Sigmund. Estudo sobre a Histeria. In: Obras Completas. Rio de

  _____. A Interpretação de Sonhos. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora Imago, vol.V, 1987. _____. Escritores Criativos e Devaneios. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora Imago, vol. IX, 1987. _____. Moral Sexual “Civilizada” e Doença Nervosa Moderna. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora Imago, vol. IX, 1987. _____. Romances Familiares. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora Imago, vol. IX, 1987. _____. Cinco Lições de Psicanálise. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora Imago, vol. XI, 1987. _____. Os Instintos e suas Vicissitudes. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora Imago, vol. XIV, 1987. _____. Além do Princípio do Prazer. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora Imago, vol. XVIII, 1987. _____. O Mal-Estar na Civilização. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora Imago, vol. XXI, 1987. _____. Feminilidade. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora Imago, vol.

  XXII, 1987. _____. Novas Conferências Introdutórias à Psicanálise. In: Obras Completas.

  Rio de Janeiro: Editora Imago, vol. XXII, 1987. _____. Análise Terminável e Interminável. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora Imago, vol. XXIII, 1987.

  GAGNEBIN, Jeanne-Marie. Dizer o Tempo. In: Sete Aulas Sobre Linguagem, Memória e História. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1997. _____. O rumor das distâncias atravessadas. In: Revista do Departamento de Teoria Literária, nº 22, Campinas: UNICAMP, 2002. _____. Os Prelúdios de Paul Ricoeur. In: Lembrar, Escrever, Esquecer. São Paulo: Editora 34, 2006. _____. Uma Filosofia do cogito ferido: Paul Ricoeur. In: Lembrar, Escrever,

  _____. O Tempo Pela Janela, O Tempo Pela Escritura. In: II Seminário do

Museu Vale do Rio Doce: Sentidos Na/Da Arte Contemporânea.

GIACÓIA JÚNIOR, Oswaldo e ARANTES, Regina Maria de Souza. Cadernos PUC – Filosofia nº 13. São Paulo: Cortez Editora, [s/d]. GAY, Peter. A Experiência Burguesa da Rainha Vitória a Freud – A Educação dos Sentidos. São Paulo: Cia. das Letras, 1989. _____. Freud – Uma Vida para o Nosso Tempo. São Paulo: Cia. das Letras, 1989. HERMMANN, Fábio. Problemas na Orientação de Teses de Psicanálise. In:

  Revista Psicanálise e Universidade, nº 1, fev. 1994 (Núcleo de Pesquisa em Psicanálise do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUCSP).

  KRISTEVA, Julia. Les Temps Sensible – Proust et l’expérience littéraire. Paris: Gallimard, 1994. LAPLANCHE, Jean. A Sublimação. São Paulo: Livraria Martins Fontes, 1989. LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J.B. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Livraria Martins Fontes, 1988. MOTTA, Leda Tenório da. A História de Um Texto. In: Marcel Proust. O Tempo Redescoberto. São Paulo: Ed. Globo, 2005. NIETZSCHE, Friedrich. Considerações Extemporâneas. In: Obras Incompletas, da série: Os Pensadores, São Paulo: Nova Cultural, 1996. NOSEK, Leopoldo. Palavra do Presidente da Sociedade Brasileira de

  Psicanálise de São Paulo. In: Revista da Sociedade Brasileira de

  Psicologia Analítica, (Freud e Jung – 90 anos de Encontros e Desencontros, nº 14), 1996.

  PELLEGRINO, Hélio. Pacto Edípico e Pacto Social. (transcrição de Conferência), In: Folhetim, Suplemento da Folha de São Paulo, setembro de 1983.

  _____. Ainda É A Cabeça Que Liberta O Corpo. transcrição de conferência (apostila da disciplina de Psicologia do Ciclo Básico da PUCSP, 1987). PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Aguilar, 1974.

  PROUST, Marcel. Du côté de chez Swann. Volume I de: À la recherche du

  temps perdu. Édition établie sous la direction de Jean Milly. Préface par

  Jean Milly. Par Bernard Brun et Anne Herschberg-Perrot. Notes de Anne Herschberg-Pierrot. Paris: Flammarion, 1987.

  

_____. Du côté de chez Swann. Volume I de: À la recherche du temps perdu.

  Paris: Flammarion, 1987. Tradução de Mário Quintana: No Caminho de Swann.São Paulo: Editora Globo, 2001 (14ª edição). _____. Le temps retrouvé. Volume VIII de À la recherche du temps perdu.

  Paris: Gallimard, Livre de Poche, 1954. Tradução de Lúcia Miguel Pereira: O Tempo Redescoberto, São Paulo: Editora Globo, 2001. (14ª edição).

  RICOEUR, Paul. A la Recherche du temps perdu: le temps traversé, In: Temps

  et récit I e III – La configuration dans le récit de fiction. Paris: Seuil,

  1984. Tradução de Marina Appenzeller: “Em busca do tempo perdido: o tempo travessado”, In: Tempo e narrativa – Tomo I e III. Campinas: Papirus, 1995.

  _____. A la Recherche du temps perdu: le temps traversé, In: Temps et récit II

  • – La configuration dans le récit de fiction. Paris: Seuil, 1984. Tradução

  de Marina Appenzeller: Em busca do tempo perdido: o tempo travessado. In: Tempo e narrativa – Tomo II. Campinas: Papirus, 1995. _____. Nas Fronteiras da Filosofia. São Paulo: Edições Loyola, 1996.

  

_____. Da Interpretação: Ensaio sobre Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora,

1977.

  _____. La Mémoire, L’Histoire, L’Oubli. Paris: Editores du Seuil, 2000. _____. A Identidade Narrativa [“L’Identité Narrative”, In: Revista Esprit nº 7-8 (juillet-août)].

  RIVERA, Tânia. Arte e Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar Editora, 2002. SHATTUCK, Roger. As Idéias de Proust. São Paulo: Cultrix, 1985. SILVA, Franklin Leopoldo e. Bergson, Proust – Tensões do Tempo. In: Tempo e História. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

  VOLTAIRE. Candido, ou O Otimismo. São Paulo: Ed. Nova Alexandria, 1995.

Novo documento

Tags

Documento similar

DOUTORADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA SÃO PAULO 2008
0
0
177
ROSA MARIA FRUGOLI DA SILVA
0
0
144
NADP-DEPENDENT ISOCITRATE DEHYDROGENASE OF Astyanax scabripinnis (PISCES, CHARACIDAE) FROM THREE ALTITUDES AT GRANDE STREAM, CAMPOS DO JORDÃO, SP
0
0
10
COMMUNITY ECOLOGY OF METAZOAN PARASITES OF THE LATER JUVENILE COMMON SNOOK Centropomus undecimalis (OSTEICHTHYES: CENTROPOMIDAE) FROM THE COASTAL ZONE OF THE STATE OF RIO DE JANEIRO, BRAZIL
0
0
7
SPATIAL DISTRIBUTION OF CHROMIUM AND LEAD IN THE BENTHIC ENVIRONMENT OF COASTAL AREAS OF THE RÍO DE LA PLATA ESTUARY (MONTEVIDEO, URUGUAY)
0
0
14
HABITAT USE BY Oryzomys subflavus (RODENTIA) IN AN OPEN SHRUBLAND FORMATION IN RESTINGA DE JURUBATIBA NATIONAL PARK, RJ, BRAZIL
0
0
6
COMMUNITY ECOLOGY OF THE METAZOAN PARASITES OF WHITE SEA CATFISH, Netuma barba (OSTEICHTHYES: ARIIDAE), FROM THE COASTAL ZONE OF THE STATE OF RIO DE JANEIRO, BRAZIL
0
0
8
ANT AND TERMITE MOUND COINHABITANTS IN THE WETLANDS OF SANTO ANTONIO DA PATRULHA, RIO GRANDE DO SUL, BRAZIL
0
0
7
TEMPORAL AND SPATIAL VARIATION ON HEAVY METAL CONCENTRATIONS IN THE OYSTER Ostrea equestris ON THE NORTHERN COAST OF RIO DE JANEIRO STATE, BRAZIL
0
0
10
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP Fátima Bissoto Medeiros Cintra
0
0
103
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PROGRAMA DE ESTUDOS POS-GRADUADOS EM CIÊNCIAS SOCIAIS Cristiane Simão Michelan
0
1
156
DOUTORADO EM EDUCAÇÃO: PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO São Paulo 2009
0
0
368
A criança em risco no trânsito: O caso da “lei da cadeirinha” DOUTORADO EM PSICOLOGIA SOCIAL
0
0
240
A CRIANÇA E A EXPLORAÇÃO DO ESPAÇO DA SALA DE AULA: UM OLHAR FENOMENOLÓGICO
0
0
64
A criação impossível de Frankenstein: discussões clínicas sobre a experiência contemporânea MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA
0
0
149
Show more