Tese de Doutorado: As Contribuições à Macroeconomia de Mário Henrique Simonsen

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Universidade de Brasília Departamento de Economia Programa de Pós-Graduação

  Universidade de Brasília Departamento de Economia Programa de Pós-GraduaçãoTese de Doutorado: As Contribuições à Macroeconomia de Mário Henrique SimonsenAutora: Andrea Felippe Cabello Orientador: Mauro Boianovsky Data de Defesa: 27 de abril de 2012, às 8:30 Abstract: This thesis discusse s Mário Henrique Simonsen‟s contributions to macroeconomics. Simonsen, desde o início de sua vida profissional, sempre esteve envolvido de uma forma ou de outra com a formulação da política econômica, seja na elaboração doPAEG, seja como Ministro da Fazenda e do Planejamento na década de 1970, ou seja, como conselheiro extra-oficial dos diversos ministros que o país teve nas décadas de1980 e 1990.

1.1. A vida de Mário Henrique Simonsen:

  Simultaneamente, iniciou sua carreira como docente, ministrando aulas de engenharia econômica na própria EscolaNacional de Engenharia e de programação linear no Instituto de Matemática Pura eAplicada (IMPA) e no Conselho Nacional de Economia (ALBERTI, ROCHA eSARMENTO, 2002). Com o tempo, ela passou a ser vista com suspeita pela esquerda nacional, a partir do momento em que Dreifuss (1981) a associou com o regime militar, impressãoagravada, segundo Campos (2004), pelo fato de vários membros da Consultec, entre eles, Simonsen e o próprio Campos terem se tornado ministros durante o regime.

3 Brasileiro de Alfabetização) , Ministro da Fazenda no governo Geisel (1974-1979) e, durante cinco meses, Ministro do Planejamento no governo Figueiredo (1979)

  Diversos relatos apontam que a principal contribuição de Simonsen para o programa foi a vinculação de um percentual do imposto de renda de pessoas jurídicas ede uma parcela do lucro da loteria esportiva I. A Inflação Inercial: A menção feita à inflação inercial refere-se ao modelo de realimentação proposto porSimonsen que identificava três determinantes para a taxa de inflação: a componente autônoma, a de realimentação e a regulagem de demanda.

V. Endividamento em países subdesenvolvidos:

  Campos (1998) e Boianovsky (2008) mencionam também a regra do endividamento prudencial, pela qual a solvência depende de incremento de juros internacionais iguaisou inferiores à taxa de crescimento do produto interno bruto. Observa-se que a maior parte das contribuições relevantes de Simonsen está relacionada com a macroeconomia, principalmente com os problemas que afetavam a economiabrasileira: o processo inflacionário que caracterizou a economia brasileira pela maior parte do século XX e o grande endividamento que culminou com a Crise da Dívida da4 Década de 1980.

1.3. Descrição do Trabalho: O presente trabalho está dividido em seis capítulos, incluindo esse capítulo introdutório

  Incluem-se aqui o modelo de realimentação,desenvolvido na década de 1970, a defesa do uso de políticas de renda (tanto no contexto do modelo de realimentação, quanto no contexto de teoria dos jogos,desenvolvido uma década mais tarde) e a Curva de Simonsen e a consequente política salarial desenvolvida por Simonsen e posta em prática no contexto do PAEG. Do lado político, a grande polarização entre a UDN (UniãoDemocrática Nacional) e o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), acentuada ao longo da década de 1950, a renúncia de Jânio Quadros e a resistência de setores do governo e dasociedade a ascensão de João Goulart como presidente marcaram o período(SKIDMORE, 2000).

2.2. Estabilização e Reformas:

  O PAEG foi bem sucedido no sentido em que reduziu de forma considerável a taxa de8 inflação brasileira (de aproximadamente 90% ao ano em 1964 para quase 20% ao ano Segundo Lara Resende (1982), a principal diferença entre o Plano Trienal e o PAEG era a política salarial, uma vez que o Plano Trienal somente sugeria moderação nos reajustes de rendas mais elevadas. Isso, no entanto, não significa que a política de combate à inflação foi abandonada: a partir de 1968, o diagnóstico passa a ser o de uma inflação de custos, emque as taxas de juros eram vistas como o grande problema, pois encareciam o crédito, uma vez que, como conseqüência da reforma financeira posta em prática durante o 9 PAEG, essas aumentaram sensivelmente (LAGO, 1990) .

2.3. Os Choques do Petróleo da Década de 1970:

  A estratégia escolhida foi a da adoção do II PlanoNacional de Desenvolvimento (II PND), que previa a intensificação do processo de substituição de importações em curso no país, com a substituição da matriz energética(em clara resposta ao choque de petróleo) e da produção de bens de capital. No Brasil, a inflação mais uma vez dobrou de patamar, aproximando-se dos100% anuais (como pode ser observado na tabela 2) e a situação externa mais uma vez agravou-se, com o Brasil chegando a contabilizar reservas negativas por um breveperíodo no começo da década de 1980 (NÓBREGA, 2010).

2.4. A Década Perdida:

  A década de 1980 pode ser caracterizada pelas altas e voláteis taxas de inflação, pelo déficit fiscal elevado (nem sempre consensual entre observadores) pelo endividamentopúblico e pelo crescimento medíocre. O diagnóstico de Delfim Netto também conflitou com o do Ministro da Fazenda da época, Karlos Rischbieter, que compartilhava a visão de Simonsen, mas que só foi substituído em janeiro de 198017 (SKIDMORE, 2000).

18 Pérsio Arida e de André Lara Resende que a inflação foi controlada, a partir de 1994

  Nos trinta e cinco anos abordados aqui, nas palavras do próprio Simonsen (Exame, 1318 de abril de 1994), o Brasil deixou de ser um país periférico, subdesenvolvido e rural Pérsio Arida, em relato à Leitão (2011), afirmou que quando foi apresentar essas idéias, em 1984, nos Estados Unidos, Simonsen foi chamado a comentar o trabalho. Sardenberg (1987) também relata algo semelhante, afirmando até que a imprensa somente passou a se interessar pelas novas idéias depois do aval de Simonsen 19 também em termos de distribuição de renda , uma vez que esse crescimento não se deu de forma igualitária.

19 Simonsen (63) defende que a economia brasileira apresentava uma estrutura dual, causada pela intervenção institucional na determinação dos salários urbanos e na proteção legal a esses trabalhadores

  Capítulo 3: O Debate Acerca da Inflação no Brasil: O objetivo desse terceiro capítulo é contextualizar o debate acerca da inflação no mundo e no Brasil, com o foco principalmente no debate entre monetaristas e estruturalistas nadécada de 1960 e a proeminência da tese da inflação inercial a partir da década de 1970. Apesar da análise desse capítulo estar centrada na questão inflacionária, é claro que outras facetas importantes serão abordadas, uma vez que a inflação é geralmenteestudada à luz de um contexto mais amplo de desenvolvimento.

3.1. A Visão Ortodoxa do Processo Inflacionário – a Teoria Quantitativa da Moeda:

  De acordo com essa visão, a equação de equilíbrio seria dada por:(1) Onde M representa o estoque de moeda, k (a constante marshalliana) representa o inverso da velocidade-renda de circulação da moeda (V), y representa o produto real e Po nível de preços. Isso é facilmente observado pela equação sob a forma de logaritmos: (3)Onde m, p e y representam os logaritmos da oferta de moeda, do índice geral de preços e do produto real, relacionado as taxas de crescimento de cada uma dessas variáveis.

20 Simonsen (1979b) mostra as conseqüências da TQM em modelos um pouco mais

  Segundo ele, seria Em que um aumento na quantidade de ouro em um país aumentaria preços e gastos naquele país, causando um déficit comercial e saída de ouro até que o saldo do balanço de pagamentos de equilíbriofosse restaurado, com o ouro distribuído entre países de acordo com sua demanda por encaixes reais. Não seria o aumento na oferta de moeda que explicaria a inflação da procura global e sim os desvios da taxa de juros em relação à sua posição de equilíbrio queoriginam simultaneamente as variações na quantidade da moeda e na intensidade da 23 procura global .

3.2. Críticas à TQM:

  Observa-se, nessa argumentação de Simonsen, a influência do pensamento de Eugênio Gudin, cujadistinção entre moeda de ação direta e moeda de ação indireta era incompatível com a hipótese de quea velocidade-renda da moeda fosse independente da taxa de juros, como será tratado adiante (SIMONSEN, 1979b). Sendo a procura por liquidez real per capita uma função da renda permanente per capita, em umperíodo de depressão a renda permanente cai menos que a corrente (pois aquela depende também da renda passada), logo a velocidade-renda da moeda aumenta em relação àpermanente, mas declina em relação a corrente que cai em maior proporção que a permanente.

3.2.1. A Crítica de Patinkin e a restrição de Cash-in-advance proposta por Simonsen:

  Em outras palavras, as quantidades demandas e ofertadas de bens não podem nem temporariamente ser afetadas pormudanças no estoque de moeda (BECKER e BAUMOL, 1952). Isso significava que, exceto por Wicksell, na visão de Patinkin, a teoria monetária neoclássica não explicavacomo um aumento na oferta de moeda conduziria a uma alta geral de preços (já que as 24 equações do setor real independem dos meios de pagamentos ).

25 Efeito Liquidez Real apontado por Patinkin poderiam ser considerados como soluções particulares de um mesmo problema

  Considerando a TQM, haveria somente um nível de preços de equilíbrio para cada nível de oferta de moeda, o que contradiz a Identidade de Say que requer que a quantidade de moeda demandadaseja igual à ofertada, em qualquer estrutura de preços. Simonsen(1964c) observa que a visão de Patinkin distingue entre a demanda de moeda em função dos preços (com estoques de moeda iniciais inalterados) e das posições de equilíbrio daquantidade de moeda em função do nível geral de preços, já que uma expansão monetária provoca um deslocamento para a direita da curva de demanda de moeda,provocado pelo Efeito Liquidez Real.

3.2.2. A restrição de Cash-in-advance proposta por Simonsen:

  Aprincipal hipótese de um modelo cash-in-advance é que a compra de bens deve ser financiada com a moeda restante do período anterior, ou seja, não há sincronia entregastos e recebimentos 31 (1967), Grandmont e Younes (1972) e de Lucas (1980) . A diferença importante é que Simonsen (1964c) não fez uso de programação dinâmica, focando-se em um período no tempo e não no horizonte de vários períodos de32 Lucas, uma vez que esse nível técnico ainda não era common knowledge na época (BOIANOVSKY, 2002).

31 Lucas (1980) considerou a restrição proposta por Clower de que o valor total de bens demandados não

  Boianovsky (2002) argumenta que como programação dinâmica não era amplamente conhecida entre economistas na época, Simonse não considerou a possibilidade de usar a restrição de cash-in-advancepara construir uma economia de cash-in-advance, considerando os motivos de transação e precaução e dispensando a abordagem de moeda na função utilidade. No caso em que , a restrição de cash-in-advance não está ativa, de modo que a solução seria a de um equilíbrio interior, como descrita por Simonsen(1964c), já que tanto a utilidade marginal do consumo do bem como a utilidade marginal da liquidez real são iguais a .

33 Quando , qualquer aumento na oferta inicial de moeda levará a um aumento na

  Simonsen (1964c) usou uma abordagem de programação não linear, o que o levou à conclusão de que só seria verdade que indivíduos demandariam ao final do período nãomais que o necessário para suas compras programadas se a restrição de cash-in-advance fosse ativa. Como muitas de suas contribuições foram no sentido de formalizar conhecimentos que em sua opinião são senso comum (como é o caso de seu modelo deinflação e da regra de endividamento prudencial, que serão discutidas no capítulo quatro e cinco, respectivamente), ele nem percebeu que esse seu artigo trouxe algo derealmente inovador à teoria econômica.

3.3. A Visão Keynesiana:

  Uma expansão de demanda Sobre uma teoria de inflação em Keynes, Simo nsen (1980: 10) afirma “da obra de Keynes o que seextrai de relevante para a teoria da inflação é mais a inspiração metodológica do que qualquer teoria objetiva”. Supondo a + b inferior a , o hiato inflacionário passa a ser:(16a) e a equação de equilíbrio de pleno emprego é(17a)Nesse contexto, um processo inflacionário é desencadeado por um aumento de gastos autônomos ou por uma expansão contínua dos meios de pagamentos.

3.4. A Curva de Phillips:

  Simonsen (1979b) chama a atenção para dois pontos em relação à versão aceleracionista da Curva de Phillips que têm relevância para a discussão de seu próprio trabalho queserão discutidas de forma mais detalhada nos próximos capítulos: a rigidez da própria taxa de inflação e a ocorrência de crises de estabilização. Esse é o ponto de partida para os modelos de realimentação” (SIMONSEN, 1979b:119)Já em relação à ocorrência de crises de estabilização, Simonsen (1979b) afirma que nenhum desses modelos descritos aqui explicaria a ocorrência de crises de estabilização,nem mesmo a teoria aceleracionista.

3.5. Demand-Pull Vs Cost-Push:

  Definindo o hiato inflacionário como sendo a diferença entre ademanda efetiva e a renda de pleno emprego, como a demanda não pode ser indefinidamente superior à oferta, os preços sobem para eliminar o hiato (MARQUES, 39 1987) . Já a noção de cost-push inflation teria surgido no pós guerra e ocorreria quando a ação de sindicatos pressiona os salários para cima mesmo sob a existência de desemprego.

39 Por considerar a inflação fenômeno típico de situações de pleno emprego, esse arcabouço não explica a estagflação

  Samuelson e Solow (1960) chamam atenção que algum tipo de concorrência imperfeita de mercado) ou de bens é necessária para que aumentos de preços surjam antes deatingida a plena capacidade da economia. A inflação de custos é entendida como resultante da alta desses preços ditosadministrados.” (SIMONSEN, 1970:119) Mais adiante nesse mesmo texto, Simonsen, no entanto reafirma o papel de estruturas oligopolistas no processo de inflação decustos: “No mundo moderno não apenas os salários são administrados institucionalmente.

40 Ackley (1959) . Esse exercício busca mostrar a importância de fatores setoriais

  Em outras palavras, o controle de uma inflação de demanda exige medidas de controle de demanda, que podem ocasionar umacrise de estabilização. Já o correto controle de uma inflação de custos deve ser feito por uma política de preços e rendas, já que aquelas políticas além de ineficazes, levariam àrecessão.

3.6. O Debate Metalista X Papelista:

42 Simonsen (1970:119) detalha esse impasse: “Tanto quantitativistas quanto os keynesianos concordam

  Esse debate se assemelha aos debates ocorridos um pouco antes na Inglaterra entre os bulionistas e os antibulionistas e entre a Currency School e a Banking School(FONSECA E MOLLO, 2011). Nocaso dos papelistas, eles defendiam principalmente uma flexibilização da conversibilidade e da emissão com base em padrão metálico de modo a satisfazer àsnecessidades crescentes de meios de pagamento no Brasil (FONSECA, 2008).

3.7. O Debate Monetarista X Estruturalista:

  Tanto pela experiência desastrada ocorrida durante a crise do Encilhamento, quando a flexibilização da política monetária defendida pelos papelistas foi posta em prática,tanto quanto a primazia das idéias de cunho ortodoxo no mundo inteiro no período, a visão que se sobrepôs no Brasil até a década de 1930 foi a liberal. No entanto, essadécada foi um período de ruptura não só no pensamento econômico americano e europeu quanto no brasileiro (BIELSCHOWSKY, 2000).

43 Latina . Obviamente, no entanto, a ruptura aqui foi muito menor (BIELSCHOWSKY, 2000)

  A principal divergência entre a visão liberal (conhecida como visão monetarista) e a visão baseada nos estudos da CEPAL (que ficou conhecidacomo estruturalismo) foi a relação entre estabilidade e desenvolvido em economias em 44 processo de desenvolvimento . Franco (2005) chega a afirmar implicitamente que, noBrasil, formuladores de política de visão estruturalista utilizavam a inflação de forma deliberada para financiar o investimento público, tributar sem se submeter ao rito43 congressual, diminuir a rigidez de contratos nominais, livrar-se de dívidas, etc.

3.8. A Visão Monetarista:

  Em relação à primeira premissa, ou seja, a inflação é nociva ao crescimento, para monetaristas, a estabilidade de preços seria condição necessária para crescimentoeconômico, o que é uma negação de uma idéia muito difundida na época de que esse e aquela seriam incompatíveis. Tal observação não contraria a premissa, uma vez que Campos (1961) também nota que, no momento em que escrevia, ou seja, no inícioda década de 1960, os países que aliavam desenvolvimento à inflação apresentavam uma desaceleração do primeiro e uma aceleração do segundo, o que era especialmenteverdade para o Brasil.

47 Graeme S. Dorrance era um economista canadense, funcionário do Fundo Monetário Internacional

  Nela, foram debatidas as visões antagônicas sobre a relação entre inflação e crescimento econômico de monetaristas e estruturalistas. O FMI, com sua defesa de políticas ortodoxas de controle de inflação, eracriticado por muitos economistas locais.

48 Em relação à oferta inelástica, seguindo o argumento de Octávio Bulhões, tanto Campos quanto Gudin

49 Em relação a Gudin, sua hipótese inicial era de que a economia encontrava-se em pleno

  Ele discordava da busca pelo equilíbrio simultâneo de preços interno e no balanço de pagamentos, poisachava que as desvalorizações cambiais prejudicariam o combate à inflação e permitiriam uma deterioração dos termos de troca, piorando o desequilíbrio. Na época, no entanto, ele acreditava n o seguinte: “conquanto seja limitado o grau de planejamentocompatível com a preservação de estilos não-socialistas de crescimento, a utilização do planejamento não significaria necessariamente, como alguns liberais brasileiros pretendiam, uma espécie de perversidadesocialista.

3.9. A Visão Estruturalista:

  Esses últimos teriam sido os responsáveis pela introdução de uma visão maisheterodoxa na literatura cepalina relacionada à inflação, uma vez que Prebisch interpretava a inflação de modo mais tradicional, baseando-se em elementos de 55 demanda e custos (BOIANOVSKY, 2012) .porta para a socialização, ao estimular controle governamental excessivo e dirigismo econômico. Mas poderia ser também utilizado para fortalecer a iniciativa privada, „substituindo intervenções erráticas e perturbadoras do governo por políticas definidas; clarificando os campos respectivos de ação do governoe da iniciativa privada; apontando os objetivos gerais de crescimento e estabelecendo incentivos para a54 ação empresarial‟” (CAMPOS, 2004:618).

55 Boianosky (2012) chama atenção para uma provável influência de Furtado sobre Noyola ainda, uma

  Tal ponto de partida influenciou deforma intensa o argumento e gerou críticas tanto de opositores, como Campos (1961) quanto dos próprios defensores da corrente, como Furtado (Boianovsky, 2012) de quemuitas vezes a generalização do caso chileno para o restante da América Latina era indevida. Esse processo estaria relacionado com a discrepância entre a taxa de crescimento da renda e a da capacidade de importar(BOIANOVSKY, 2012).

56 Essa visão acerca da peculiaridade latino-americana era fortemente criticada por economistas de viés

  Excetuando talvez a palavra „estrutural‟, nenhum economista ortodoxo deixaria de concordar com esse ponto de vista e o debate assim se transforma em simples jogo de palavras.” Esse comentário deSimonsen durante essa conferência é de extrema importância, pois é a primeira vez que ele recebe exposição e passa a integrar o debate nacional, saindo da sombra de Gudin e57 da Consultec. Apesar de criticado pelo FMI, o gradualismo também foi alvo de resistências políticas, principalmente da parte de economistas mais esquerdistas que acreditavam nanecessidade da inflação para o processo de crescimento e que qualquer tentativa de estabilização, por mais lenta e controlada, era vista como nociva ao desenvolvimento dopaís (CAMPOS, 2004).

59 Boianovsky (2012) observa que, no entanto, o gradualismo passou a ser considerado mais seriamente

  No caso do PAEG, sua estratégia previa uma fase de inflação corretiva, uma fase de desinflação e uma fase de estabilidade de preços (CAMPOS, 2004). Simonsen (1970) concede, no entanto, que durante a década de 1960 houve uma revisão da estratégia gradualista, com a diminuição da velocidade de desaceleração da inflaçãoesperada, o que levou críticos a cunharem a expressão “gradualismo a passo de cágado”.

3.9.1. O Desemprego Estrutural:

  A motivaçãodesse debate está relacionada com o fato de que, com o uso de uma mesma tecnologia, a produtividade média do trabalho é inferior em países subdesenvolvidos quandocomparados com os países desenvolvidos, não existindo convergência de renda per capita no longo prazo (BOIANOVSKY, 2010). A CEPAL adotou a abordagem de subemprego, com um excesso de mão-de-obra no 62 setor primário, de modo a conciliar subemprego com a inflação , com a existência de uma reserva de trabalho a ser utilizada em momentos de expansão (sem implicarnecessariamente em desemprego de fato).

61 Santa‟Anna (2009) afirma sobre as idéias de Lewis: “pela definição de Lewis, a semelhança entre o

  Assim, Simonsen busca evidenciar o dualismo econômico, demodo que o problema no Brasil não seria a nulidade da produtividade marginal do trabalho e sim das diferenças de produtividade e padrões de vida entre a cidade e ocampo. Considera-se, ainda, que a relação capital/trabalho de ambos os processos agrícolas seja inferior à dotação de capital e trabalho e a relação capital/trabalho de ambos os processosindustriais seja superior à dotação de capital e trabalho e que os mercados sejam perfeitos.

66 Simonsen (1969:160) conclui então que “o conceito de desemprego estrutural não é tão

  Isso conduziria à baixa do preço relativo do primeiro produto (o maiscapitalizado) e o único ponto da curva de transformação compatível com o novo preço passaria a ser o ponto P, à esquerda denesse ponto, todavia, surgiria um excesso de procura do primeiro produto e um excesso de oferta do segundo. Mais curioso ainda é lembrar as quatro soluções propostas por ele para solucionar o problema de dualismo econômico e a que de fato ele ajudou a implementar:1) A primeira seria a liberação de salários urbanos, de modo a que esses caíssem ao seu patamar de equilíbrio.

68 Pode-se argumentar que isso é, de certa forma, influência de Eugênio Gudin que, em Gudin (1965), criticava de forma enfática a situação salarial do início da década de 1960

  4)E por último, e a opção que ele mais favorece nesse momento, é a acumulação impeça que os salários reais institucionalmente fixados cresçam na proporção doaumento geral de produtividade. Ele reconhece, no entanto, que essa é uma solução de longo prazo.

3.10. O Argumento de Ignácio Rangel:

  Além disso, elediscordava da conclusão de ambas as correntes acerca da inelasticidade de oferta e da tese de estrangulamento externo, pois acreditava que o país tinha condições de financiarseu desenvolvimento e que a atenção a outros mercados poderiam solucionar a estagnação das exportações e a baixa capacidade de importar. Considerando oaumento na inflação, ceteris paribus, a equação de trocas se converte em uma desigualdade, em que MV < PT, o que pode ser resolvido de três formas: i) dada ainércia de V, M aumenta; ii) P volta ao seu nível anterior (base da política monetária ortodoxa); iii) se MV e P se mantêm constantes, parte do produto material seria retiradade mercado.

3.11. Formalizações Posteriores:

  Tanto Lopes (1979) quanto Barbosa (1983) argumentam que a característica básica de um modelo monetarista é o formato da Curva de Phillips no longo prazo (51)Definindo , onde é a taxa de variação do preço nominal do setor i e considerando que a taxa de variação do índice de preços seja dada por(52) Onde β é um parâmetro. O setor privado distribuiria sua riqueza nominal (W) entre esses ativos em função da rentabilidade e risco de cada um: (57)(58)(59) Onde: é a taxa esperada de inflação; i a taxa real de juros;p o índice geral de preços; q o valor (médio do capital existente em termos do índice geral de preços).

69 Ou ainda

69 Considerando que a relação produto-capital (

  A taxa de juros é, geralmente, noentanto, endógena, podendo ser manipulada pela política monetária, mas Lopes(1979:16) aponta a importância da conclusão: “Rangel, entretanto, encara o equilíbrio da equação como um „fio da navalha‟ harrodiano. Além disso, uma maior propensão a poupar (aos mesmos níveis de renda e riqueza) deve ser acompanhada de uma maiortaxa de inflação, o que explicaria a afirmação de Rangel de que a inflação não resulta de uma demanda excessiva e sim de uma crônica insuficiência de demanda.

3.12. O conceito de Inflação Inercial:

  Em análises de Furtado sobre a economiabrasileira da década de 1950 (BOIANOVSKY, 2012) e na análise de Sunkel (1958) sobre a inflação chilena já estava presente uma conceito rudimentar do que viria a serchamado na década de 1980 de inflação inercial. A partirda década de 1980, quando a indexação passa a ser informal, ou seja, todos os preços e não somente aqueles formalmente indexados são reajustados de acordo com a inflaçãopassada, é que a inércia inflacionária passa a ser vista como principal componente da taxa de inflação brasileira (BRESSER PEREIRA, 2010).

4.1. A visão sobre a inflação:

  Em relação à perpetuação da inflação, também em toda a sua obra está a idéia de que a inflação passada está relacionada com a inflação atual, no sentido que o processoinflacionário é um processo de realimentação. Simonsen, no casoda inflação, sempre trabalha supondo uma Curva de Phillips de curto prazo com inclinação negativa (mas uma Curva de Phillips de longo prazo vertical), o que faz comque sua preocupação constante seja como tornar o sacrifício de uma recessão temporária o menor possível.

73 Em outro artigo de 1982, Simonsen (1982b:41) afirma “a austeridade monetária é condição necessária

  Simonsen também mostra predileção pelo gradualismo, exceto no caso de uma inflação substancial: “No patamar inflacionário a que chegamos [fevereiro de 1986], a idéia de um combate gradualista àalta de preços mistura muita fantasia com um pouco de humor negro. Segundo, confundiram política de recuperação acurto prazo (voltada predominantemente para a procura) com a política de crescimento a longo prazo76 (essencialmente dirigida para a oferta).” (SIMONSEN, 1969a: 89) Ele mesmo afirma que no caso do déficit público, o fato dele ser estrutural ou não é uma questão desemântica (SIMONSEN, 1964b).

77 Em trabalho posterior, além de enfatizar a correlação negativa entre crescimento e inflação para definir

  o monetarismo, Simonsen (1979b:94) aponta também a exclusividade de causas monetárias no processo inflacionário:“Monetarismo não é a doutrina que afirma que existe uma correlação entre taxas de expansão monetária e taxas de inflação e que, por isso, a austeridade monetária é condição imprescindível à estabilidade de preços. A Inércia Inflacionária: O Surgimento da Discussão no Brasil a partir do Modelo de Realimentação de Simonsen: O pensamento econômico no Brasil, nas décadas de 1980 e 1990 foi dominado pela idéia de inércia inflacionária, ou seja, de que a taxa de inflação tenderia a repetir seusvalores passados na ausência de qualquer pressão.

78 Como será argumentado adiante, entre os autores que já discutiam, mesmo que de forma embrionária, a idéia de realimentação inflacionária, estão Furtado (BOIANOVSKY, 2012) e Sunkel (1958)

de inflação pudesse apresentar severos focos de resistência por fenômenos de 79 expectativas e de realimentação” (SIMONSEN, 1976a:79-80)A idéia de inércia inflacionária, apesar de não reconhecida como tal, estaria presente no debate acerca do efeito de variáveis monetárias sobre variáveis reais. SegundoSimonsen (1988a), na afirmativa “as medidas monetárias afetam as quantidades antes de afetar os preços” estaria presente a idéia de inércia inflacionária, uma vez que o produto reagiria antes dos preços, pois agentes estariam viciados em uma espiral preços-salários Antes de descrever o modelo de Simonsen, é interessante mencionar uma alteração à TQM discutida por ele, para melhor contextualização do modelo.

4.3. TQM com preços incompressíveis:

  Nessa versão da teoria, chega-se às seguintes conclusões:a) se a taxa máxima do crescimento fisicamente possível para o produto realfosse superior a taxa de expansão monetária, então , ou seja, haveria estabilidade de preços e o produto real cresceria à taxa. Introduzindo uma componente de custos para tornar o modelo mais realista, considerando um aumento mínimo inevitável de preços , tem-se que a taxa decrescimento do produto real seria limitada pela da expansão monetária enquanto (66) Após esse valor, qualquer expansão monetária teria efeitos apenas inflacionários.

4.4. O Modelo de Realimentação de Simonsen:

  85 Para tornar o modelo determinado e de fato um modelo de inflação , Simonsen (1976a) 8684 introduz uma terceira equação, referente à TQM :Barbosa (1983) chama a atenção para o fato que o modelo deve ser visto como um modelo amplo de determinação simultânea da taxa de inflação e da taxa de crescimento do produto real, entre outras85 variáveis. Simonsen (1979b) enfatiza a necessidade, em um modelo de inflação, de uma equação de ligação entre a componente de regulagem de demanda e a taxa de crescimento do produto real, além de equações queestabeleçam relações entre essa taxa de crescimento, com a taxa de crescimento dos preços e das variáveis86 de política monetária e fiscal.

89 SIMONSEN, 1995)

  Sobre o controle do componente de realimentação, Simonsen (1970) afirma que isso pode ser feito por meio de indução psicológica, de uma crise de estabilização e de 90 controle de preços . Ele chama a atenção para o fato de que quanto mais longo o período de realimentação, mais difícil será o período de estabilização devido ao efeitorepetitivo da inflação (principalmente no caso da realimentação múltipla).

4.5. Comparações com outros modelos:

Antes de comparar o modelo de realimentação com outros modelos que tratavam do mesmo tema, é importante observar que, em 1979, Lopes (1979) foi o primeiro ainterpretá-lo como um modelo estruturalista, pois era clara a idéia de um trade off entre inflação e desemprego em curto prazo no modelo.

89 Cysne e Simonsen (1995) creditam a choques favoráveis de oferta quedas na taxa de inflação brasileira

  (γ>0) – a curva de Phillips com salários(79) Onde p e o logaritmo do índice de preços, w o logaritmo do índice de salários nominais, u uma função do tempo que acumula os choques de oferta, y o logaritmo do produtoreal, o logaritmo do produto real a pleno emprego, h o desvio do produto a taxaefetiva e a taxa esperada de inflação. Nesse caso, as equações (80) e (79) podem ser reescritas:(80a)(79a)Considerando a equação (3), que representa a TQM e a equação (77) que define o desvio do produto, tem-se que (83)Supondo a taxa de crescimento da oferta de moeda e do produto real a pleno emprego constantes e derivando em relação ao tempo tem-se que (84)O que, tendo em vista a equação (80a), leva a: (85) (86)Assim, converge para .

4.6. A explicação para a Inércia Inflacionária:

  Apesar de empiricamente convincente, a explicação foi deixada de lado pela revolução de expectativas racionais que consideravam expectativas inflacionárias backward- looking como uma premissa „ad hoc’. Nesse ambiente de informaçãoincompleta, Simonsen (1988c) conclui que, caso os jogadores escolham uma estratégia do tipo maximin, ou seja, de maximizar o payoff obtido no pior estado de natureza, ainércia permanecerá, dado que o comportamento defensivo implicará na não interrupção das remarcações de preços.

4.7. Importância do Modelo:

95 Esse tópico será tratado com mais detalhes na discussão sobre a política salarial

  Em análises de Furtado sobre a economia brasileira da década de 1950 (BOIANOVSKY, 2012) e na análise de Sunkel (1958) sobre ainflação chilena já estava presente uma conceito rudimentar do que viria a ser chamado na década de 1980 de inflação inercial. O modelo de Simonsen mostra que, se o objetivo da política for trazer a taxa de inflaçãoà taxa limite para qual ela naturalmente converge no caso de ausência de pressões de demandas e uma componente autônoma constante, , a estabilização pode ser feitasem crise.

96 Pode-se considerar o modelo de Simonsen como uma primeira formalização das idéias estruturalistas

  Deve-se perceber, no entanto, que, ao afirmar que a taxa de inflação tem uma componente de realimentação, Simonsen (1970) faz o argumento de que o gradualismonão é menos eficaz que o tratamento de choque no combate à inflação (como acreditavam algumas agências internacionais) 97 rendas, como congelamentos de preços, salários e taxa de câmbio . Isso aconteceria, pois esse tipo de política poderia diminuir o coeficiente derealimentação (b no modelo), de modo que a taxa limite para a qual a taxa de inflação converge diminui, possibilitando até uma redução da inflação sem crise deestabilização.

4.8. O uso de Política de Rendas:

  Isso não implica, entretanto, que a taxa de inflação tenda ao infinito, pois os indivíduo sabem que ao elevar a sua renda100 nominal (e, consequentemente sua renda real), estão elevando também a taxa de A questão de como se atingir um equilíbrio de Nash sob a hipótese de expectativas racionais será tratada com mais detalhes nos capítulos cinco e seis. 103Em artigo de 16 de março de 1994 para a revista Exame, Simonsen enfatiza a importância do Fundo Social de Emergência (FSE) para o sucesso de Plano Real, uma vez que ele garantira o ajuste das contas104 públicas em 1994.

4.9. A Política Salarial como Política de Rendas:

  Inicialmente, seu foco em relação à política de rendas estava muito relacionado à política salarial e não tanto a controles de preços, uma vez que no início da década de1960, os reajustes desordenados de salários eram vistos por muitos economistas como uma das causas da aceleração inflacionária do período. No PAEG, foi instituída uma regra para reajustes salariais que muitos economistas, entre eles Roberto Campos, que era Ministro do Planejamento à época, creditam aSimonsen a base teórica que serviu de sustentação e que influenciou outros regimes de correção salarial ao longo da década de 1980.

4.10. A Curva de Simonsen:

  108 Foi Barbosa (1997) quem cunhou o termo curva de Curva de Simonsen e afirma que a primeira vez que ela foi discutida foi no livro de Simonsen, A Experiência, de 1964, em que ele exemplifica a situação por meio de dados Inflacionária no Brasil referentes ao salário mínimo real no estado da Guanabara entre janeiro de 1952 e março de 1964 (Simonsen, 1964b:18). Em termos algébricos, isso implica dizer que o reajuste do salário nominal será de tal forma que o novo salário nominal para o período t seja de:(87)Onde: é o salário nominal do período t-1 é a taxa de inflação do período t-1Simonsen, durante o PAEG, propôs um mecanismo diferente para o reajuste de preços, com o objetivo de romper com a espiral preços-salários.

4.11. O Mecanismo Pazos-Simonsen:

  Simonsen (1983) propõe uma versão do modelo (alterando a premissa de um leiloeiro 119Walrasiano para uma regra de indexação ad hoc ) para mostrar que qualquer arranjo que enfraqueça algumas rigidezes de preços como indexação de renda e de impostossobre ganhos de capital aumentam a sensibilidade do nível geral de preços a qualquer tipo de choque. Ele critica o modelo de Gray-Fischer, pois esse não estaria de acordocom a percepção de que a indexação é um mecanismo perpetuador de inflação e que, mesmo sem choques, cláusulas de indexação produzem taxas de inflação viscosas,sugerindo que a luta contra a inflação é mais difícil devido a piores trade-offs entre preço e produto.

4.12. A Importância da Análise de Simonsen:

  A idéia de realimentação e, mais tarde, de inércia inflacionária, setornou cada vez mais presente nos trabalhos de Simonsen a medida que a correção monetária tornava mais rígida a taxa de inflação brasileira. A discussão docomportamento de salários no Brasil e a necessidade de se reajustar pela média e não pelo pico é amplamente embasada em reajustes salariais ocorridos na década de 1960 e122 que eram vistos como desordenados e fonte de pressão sobre a inflação por Simonsen.

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