Trabalho Final de Graduação A FORTUNA HISTORIOGRÁFICA DE FORTUNATO: Uma análise histórica dos arquétipos machadianos em “A Causa Secreta”

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Full text

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CENTRO UNIVERSITÁRIO FRANCISCANO

THIAGO MOREIRA AGUIAR

Trabalho Final de Graduação

A FORTUNA HISTORIOGRÁFICA DE FORTUNATO:

Uma análise histórica dos arquétipos machadianos em “A Causa Secreta”

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THIAGO MOREIRA AGUIAR

A FORTUNA HISTORIOGRÁFICA DE FORTUNATO:

Uma análise histórica dos arquétipos machadianos em “A Causa Secreta”

Trabalho final de graduação (TFG), apresentado ao curso de História, da Área das Ciências Sociais e Humanas, do Centro Universitário Franciscano – UNIFRA -, como requisito para aprovação final do curso de História.

Orientadora: Profª. Drª. Nikelen Acosta Witter

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Centro Universitário Franciscano Área das Ciências Sociais e Humanas

Curso de Licenciatura em História

A Comissão Examinadora abaixo assinada aprova a Monografia

A FORTUNA HISTORIOGRÁFICA DE FORTUNATO: Uma análise dos arquétipos machadianos em “A Causa Secreta”

Elaborada por

Thiago Moreira Aguiar

Comissão examinadora

_____________________________________ Prof.ª. Drª. Nikelen Acosta Witter

Presidente/Orientador(a)

_____________________________________ Prof.º Drº. Carlos Alberto da Rosa Rangel

_______________________________________ Prof.º Dr.º Leonardo Guedes

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DEDICATÓRIA

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AGRADECIMENTOS

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RESUMO

Este trabalho tem por objetivo encontrar correlações entre os arquétipos dos personagens construídos por Machado de Assis, no conto “A Causa Secreta”, com o contexto social em que este vivia. Nesse sentido, foram analisadas obras historiográficas com temáticas que compreendem o século XIX, em especial, sobre cotidiano das mulheres e as questões ligadas à área da saúde. Dessa forma, a partir da ligação com a movimentação dos atores do conto, alguns caminhos foram trilhados para tentar elucidar o que era considerado como desvio psicológico nos oitocentos brasileiro e o que se constituía como normal nesse período, em se tratando de normas de conduta.

Palavras-chave:

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ABSTRACT

This study aims to find correlations between the archetypes of the characters built by Machado de Assis, the story "The Secret Cause," with the social context in which he lived. Accordingly, we analyzed historical works with themes that comprise the nineteenth century, especially on the daily lives of women and issues related to health. Thus, from the connection with the movement of the actors in the tale, some paths have been trodden to try to elucidate what was considered a psychological shift in the nineteenth century Brazil and that was as normal during this period, when it comes to standards of conduct.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 8

2. MARIA LUISA: A VÍTIMA ... 18

3. GARCIA O OBSERVADOR ATENTO ... 33

4. FORTUNATO: UM CASO CLÍNICO ... 39

5. CONCLUSÃO ... 46

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1.

INTRODUÇÃO

Inúmeros são os estudos que buscam nas obras do escritor Machado de Assis, respostas para uma melhor compreensão do turbulento contexto social em que este vivia (CHALHOUB, 2003; CAVALLINI, 2005; GUIMARÃES, 2004). A partir da leitura dessas análises foi que despertou a curiosidade que lançou as bases para a formação desta pesquisa, fazendo com que a intenção deste trabalho se dirija para uma tentativa de contribuir para um melhor entendimento do período vivido pelo escritor. Com uma biografia bastante singular e uma produção de textos carregados de prodigiosos significados e intenções, Machado de Assis abre incontáveis caminhos aos quais se podem discorrer textos historiográficos, como os já citados. Isso porque, ao que tudo indica, no decorrer de sua carreira profissional, tanto de escritor como de funcionário público, Machado de Assis sempre manteve uma preocupação constante com problemas, principalmente sociais, de sua época. Carioca, nascido no ano de 1839, o autor participou ativamente de momentos contundentes na história brasileira. O período em que viveu foi marcado por transformações sociais que acompanharam – logicamente que não no mesmo ritmo e intensidade – as revoluções europeias e os novos ideais que provinham desta, assim como os recentes acontecimentos e concepções

estadunidenses (CHALHOUB, 2005). Mesmo originário de família pobre, sendo neto de escravos alforriados e estando em

uma época que saber ler e escrever era coisa para pouquíssimos, Machado de Assis conseguiu instrução suficiente para, desde muito jovem, publicar crônicas quase que semanalmente em jornais da cidade. Sendo, portanto, capaz de contribuir para a formação de uma opinião pública propriamente nacional e, dessa forma, elucidar seus leitores das mazelas políticas e seduzi-los para práticas que pudessem contribuir rumo a um desenvolvimento nacional (CAVALLINI, 2005).

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através do que era produzido pelo escritor Machado de Assis – em questão, o conto “A Causa Secreta” – tentando encontrar correlações que possam ajudar na elucidação do Brasil Imperial.

Desde que começou a ganhar popularidade como crítico das artes, por volta de 1860 – principalmente com questões teatrais e literárias –, Machado de Assis buscava popularizar a cultura, tendo por meio a valorização do que se produzia nacionalmente. O autor acreditava que a principal missão do escritor brasileiro era lapidar e aperfeiçoar o gosto de seu público, trazendo questões que eram vividas em seu próprio contexto social. De maneira que tais obras seriam melhor compreendidas também pelas classes inferiores e, assim, caíssem no gosto popular. Colocava, dessa forma, o gosto da classe de senhores e proprietários em cheque, acusando-os de valorizar apenas os aspectos culturais vindos de fora, tanto em relação ao teatro quanto às obras literárias, em especial as que vinham da França (GUIMARÃES, 2004). Neste momento, ao que parece, Machado de Assis acreditava que seria a partir dos meios mais intelectualizados da sociedade que se poderia ajudar a tirar as classes mais pobres de uma condição limitada pela ordem vigente, rumo ao progresso. Ora, tais ideias oferecem indícios de o escritor ter, pelo menos, certa simpatia com o projeto cultural iluminista.

Contudo, o decorrer da década de 1870 é marcado por um Machado de Assis que vai perdendo parte de seu otimismo em relação à transformação das artes brasileiras, pelo menos da forma que até então estava convencido. Apesar de reconhecer as dificuldades de “instruir” um povo com pouco hábito à leitura, não remetia essa culpa ao público, dizendo que “este era o efeito, mas não a causa”. Sua crítica social se torna mais contundente neste momento. Machado de Assis irá procurar incorporar seu texto a esta realidade, admitindo que o ambiente cultural brasileiro ainda não esteja “maduro” o suficiente para a criação de novas doutrinas artísticas (GUIMARÃES, 2004). Subentende-se, aqui, uma crítica que vai além do principal obstáculo à leitura popular: a reticência da classe burguesa em incentivar a disseminação da leitura; mas, também, de uma aristocracia que, em seu núcleo, vende seu gosto ao que está em voga na moda europeia, em um jogo de vaidades exclusivo para a alta sociedade, querendo reforçar a divisão entre esta e as demais. Além disso, fica transparente um fatídico reconhecimento de que os artistas brasileiros estão em um meio hostil a sua produção, e a solução sobre a qual Machado de Assis se debruça é a desmistificação literária, se distanciando da descrição da natureza, dos costumes do país, típicos do romantismo.

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escritor tinha a crença de que era o jornal o meio mais democrático para se distribuir informações. Com preço baixo e com uma boa circularidade, buscava através desse fazer com que a população, além de se inteirar das notícias, debatesse e formulasse opiniões. O “jornal faria tremer as aristocracias, mais do que os movimentos populares, pois a discussão nele veiculada exporia a organização desigual e sinuosa da sociedade” (ASSIS apud SILVA, 2009, p. 28). Nesse sentido, Machado de Assis utilizava-se de vários recursos para chegar a este fim, criando textos cheios de ironia, com pseudônimos, ou até mesmo sem nenhuma assinatura que fizesse referência ao autor que escrevia (CHALHOUB, 2005).

Em um exemplo claro disso, Sidney Chalhoub (2005) analisa, em “A arte de alinhavar histórias”, a ambivalência do relojoeiro Policarpo que de tudo fazia para conseguir se identificar com as ideias da classe senhorial da corte. Contudo, este personagem criado por Machado de Assis, apesar de tentar defendê-las, não as compreendia bem, carregando uma profunda dubiedade em suas opiniões. Quando este artesão tenta se posicionar nas questões relativas à medicina imperial, floreia seu discurso em prol das teorias evolucionistas, correntes à época, e que “outorgavam” à prática médica sua possível superioridade em relação às demais, ditas populares. No final do seu texto, Policarpo percebe o caos que existe no próprio pensamento médico, onde inexistia qualquer sentido de unidade e conclui dizendo: “se morria por certo em qualquer escola, independente de qual fosse” (CHALHOUB, 2005).

Nesta conclusão acima, pode-se perceber que a distância entre autor e narrador é praticamente nula. Nota-se uma crítica direta a prepotência e a arrogância dos médicos do Brasil Império, que, em sua maioria, eram sectários na defesa da doutrina positivista1, à qual Machado de Assis não devotava muita simpatia (LOPES E SILVA, s/d). A repercussão que poderia ter um texto como esse se torna difícil de mensurar, tanto no âmbito local quanto de um modo mais abrangente, como o “nacional”. Isso porque, juntamente com a chegada da família real, em 1808, veio a imprensa e os jornais se alastraram de forma rápida por toda a ex-colônia lusitana (ARAÚJO SALES, 2005). Neste sentido, se torna mais que natural deduzir que não seria apenas Machado de Assis se utilizaria deste meio para debater ideias correntes à época. E não somente as relativas à cura, como no exemplo citado de acima de Chalhoub (2005), mas inúmeros outros novos e velhos temas seriam abordados, tendo esses escritos um legado que permite discernir as nuances literárias machadianas e perceber o amadurecimento de seus dotes como literato.

1 Desenvolvido por Auguste Comte, o positivismo é uma maneira de pensar baseada na suposição de que é

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Um exemplo disso, se encontra em um artigo chamado Folhetim: uma prática de

leitura no século XIX, publicado pela historiadora Germana Maria Araújo Sales (2005). Nele é

feita uma pesquisa em periódicos da época, identificando o sucesso dos romances-folhetins pela intensidade de publicações nos rodapés dos jornais na província do Grão-Pará. A partir do artigo citado, pode-se perceber o quanto esta prática jornaleira estava sendo disseminada nos oitocentos brasileiro, mesmo antes do desenvolvimento ocasionado pelo ciclo da borracha nessa região interiorana, e bem distante dos principais centros urbanos. Tanto no interior como nas cidades litorâneas, as temáticas abordadas no pé das páginas destes periódicos eram bastante profusas, tanto que era difícil fazer uma definição sobre o gênero deste espaço. Contudo, sendo o meio de comunicação mais barato e difundido neste momento, muitos escritores se lançavam à empreitada em busca de notoriedade, retratando, e muitas vezes opinando, sobre as diversas culturas que conviviam e, claro, acompanhando as transformações que emanavam delas em seus textos escritos.

O jornal era o principal veículo de informações no Brasil dos oitocentos, sendo que os debates políticos por meio deste eram intensos. Além disso, nesta época, a grande maioria das folhas que provinham da imprensa brasileira não escondia o seu cunho ideológico. Muito pelo contrário. Havia calorosos debates de umas contra outras. Mais precisamente, entre os jornais que tinham um conteúdo de cunho mais liberal e outros que expressavam suas opiniões em prol da aristocracia da corte, de cunho conservador. Os movimentos políticos contrários à monarquia “ressurgiram” com todo o gás na década de 1860 (exatamente a época na qual Machado de Assis debutava no meio literário), buscando na história dos movimentos revolucionários do início do século a simbologia que caracterizaria um sistema constitucional representativo. O sete de abril de 1831, dia em que D. Pedro abdicou do trono, aparecerá como exemplo desse ressurgimento representativo (ZAHAR, 2004).

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Machado de Assis romancista e o Machado de Assis funcionário público compartilhavam a mesma ideologia: ambos aprenderam a não esperar nada de bom da classe senhorial escravista brasileira do século 19 (p. 07).

O embate do escritor com esta aristocracia, que não lhe imprimia muita simpatia, acontecia de maneira frequente nos periódicos da capital do Império. Machado de Assis aproveitava-se desta variedade temática oferecida pelo jornal e a sua disseminação pelo interior brasileiro (que acompanhava o crescimento demográfico) para compor este enfrentamento, sendo que, por vezes, talvez para não se prejudicar, sequer dava qualquer assinatura nos textos que publicava. Desta forma, o escritor valia-se do anonimato para preencher páginas de jornal com textos carregados de críticas, ironias e deboches, muitas vezes sutilmente subentendidos. No mesmo artigo já abordado acima, Chalhoub (2005) cita uma série de crônicas intituladas “A + B”, onde o escritor apenas apresenta alguns fatos políticos da atualidade por meio de diálogos entre dois personagens hipotéticos (A + B), criando quase que um desafio para o leitor pensar as questões políticas de seu tempo. Tanto para as crônicas que eram publicadas sem a referência do autor, como as que se apresentam com pseudônimos, Machado de Assis ganhava maior liberdade para se expressar e expor suas críticas, na medida em que não se conhecia de fato a identidade de tais opiniões.

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mãos atadas” para continuar com publicações no local onde possivelmente ganharia mais dinheiro, devido à sua quantidade e possibilidades de ter seu trabalho escrito, o jornal. Assim, certamente diminuía seu entusiasmo para uma contribuição artística mais efetiva, limitando este aspecto artístico e cultural.

Ainda sim, não foram poucos os escritores conseguiam libertar-se deste contexto de “confinamento” da escrita, driblando essas restrições com singular sutileza, a exemplo de Machado de Assis. Para estes “artistas das letras”, as próprias barreiras impostas para a produção de arte nacional acabaram por significar algo novo, fazendo com que surgisse um movimento literário inusitado, até então, no Brasil. Nesse sentido, a intenção de muitos autores mudou em relação ao seu texto, abrindo intensos debates entre a “velha guarda do romantismo” e os adeptos à “nova escola literária”, pela disputa de leitores. Este movimento ficou designado como Realismo, estilo que fazia com que seus escritores buscassem em meio aos fatos do contexto social em que viviam a base para a produção de seus textos, contrapondo qualquer tipo de idealização, como a que estava em voga, até então. (SANTOS, CRISTINA, 2008).

Nesse ambiente, haviam fartos momentos de incertezas, já que, concomitante a transição do Império para a República se dava a passagem de um mundo rural e escravocrata, para um incipiente ambiente burguês, citadino e democrático (mesmo que ainda bastante excludente no que corresponde ao sufrágio). Dessa forma, este turbulento contexto favorece, e muito, o então, hodierno movimento, possibilitando uma interpretação social inusitada, fertilizando a produção artística dos literatos. Indo na mesma direção, com seu estilo irônico, único para o período, Machado de Assis também discorria e contribuía com suas impressões sobre sua época em seus escritos, principalmente ao que concerne o futuro incerto desta transição política. Não é à toa que a obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, escrita pelo “bruxo do Cosme velho”, é considerada o primeiro romance realista do Brasil. (SANTOS, CRISTINA, 2008).

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primeiro momento (FERREIRA, s/d). Dessa forma, a baixa tiragem de livros no Brasil dificultava a circulação e recepção de obras literárias de uma forma geral, tornando os livros caros, canalizando e elitizando, ainda mais, o público leitor. Sendo assim, uma das consequências ocasionadas por essa penosa situação era a de que estes intelectuais, apesar de certa notoriedade, não conseguiam sobreviver somente com a sua arte. Sendo compreensível que fosse hábito tantos escritores dos oitocentos trabalharem em outras profissões e não somente com a sua pena. Além disso, essa situação corroborava crescimento de publicações em jornais por parte desta elite intelectual, fortalecendo os periódicos e, nem sempre, agradando literatos (FERREIRA, s/d)

Outro obstáculo que merece maior profundidade de compreensão é o mencionado escasso número de leitores existentes no século XIX. Para elucidar mais esse quadro, índices de alfabetização feitos no final dos oitocentos, início dos novecentos, traçam uma população recém-iniciada nas letras.

No Brasil, os índices de alfabetização feminina, coletados pelo Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, no período compreendido entre 1880 a 1920, indicavam uma baixa escolaridade: apenas 20% das mulheres sabiam ler e escrever, contra 29% dos homens. (HELLER apud DUMOND, SANTOS, 2002, p. 30).

Se compararmos estas estatísticas com a de alguns países mais desenvolvidos – onde a escolarização para um público mais amplo iniciou-se mais cedo, graças a movimentos de massa, como o feminista, que reivindicavam a educação como um direito – a situação brasileira fica ainda mais desencantadora para os escritores nacionais. Contudo, se essa comparação se estender a Portugal, por exemplo, país de que herdamos o maior legado, as discrepâncias se amenizam, assim como boa parte dos países do leste/sul europeu. Nas terras lusitanas, a consciência sobre a importância da educação veio concomitantemente ao início do desenvolvimento econômico e a formação da classe burguesa, assim como no caso brasileiro. Entretanto, este processo teve seu início mais cedo e em contextos diferentes. De qualquer forma, foi a partir daí que o povo português se voltou de forma mais incisiva para a resolução do analfabetismo, principalmente nas classes menos favorecidas e, também, de ambos os sexos (RAFAEL, 2011).

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utilizada na Europa e que fora criada na França. A ideia era de que no jornal existisse um espaço livre para qualquer tipo de assunto ou ficção, abrindo caminho para inovações na linguagem, trazendo um texto mais informal e, ao mesmo tempo, mais próximo e interessante para o público. Este estilo jornalístico, inovador para a época, caiu no gosto da sociedade brasileira já em meados dos oitocentos e acabou se intensificando com o passar do tempo, popularizando ainda mais a mídia impressa (CAVALLINI, 2005).

O conto “A Causa Secreta”, devido a sua extensão, conteúdo e ano de publicação (1885), pode ser encaixado de maneira clara neste contexto jornalístico. Este conto traz uma interessante gama de possibilidades historiográficas, que podem ser exploradas em seu enredo, e onde se pode buscar compreender as concepções que Machado de Assis tinha em relação aos tipos de patologias reconhecidas como tal (tanto para a medicina oficial, quanto para a dita “popular”) em sua época, assim como uma maior compreensão do que se pode chamar de desvios de conduta ou desvio psicológico na sociedade brasileira, em fins do século XIX. Para isso, pode-se usar como baliza, a forma como seus personagens foram construídos e sua movimentação ao longo da história.

Neste conto, Machado de Assis escreve sobre três personagens – Garcia, Fortunato e Maria Luísa – envolvidos em uma trama que tem seu início em 1860. Fortunato, personagem principal do conto, é um homem muito respeitado na cidade do Rio de Janeiro, e esta consideração já fica latente quando Machado o descreve como um burguês abastado, capitalista e de meia idade (1983, p. 06). Garcia, um jovem estudante de medicina, conhece Fortunato quando este salva a vida de seu vizinho Gouveia, atacado por capoeiristas no centro do Rio de Janeiro.

Mesmo antes de os dois personagens principais se conhecerem formalmente, Garcia já tinha percebido alguma singularidade especial em Fortunato. Sua curiosidade foi aumentando conforme crescia a amizade entre os dois. Com a intensidade do convívio, Garcia vai percebendo que em Fortunato existe um comportamento ambíguo, que vai além da “fachada” representada e respeitada no seu convívio social.

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Além disso, Maria Luísa, que Machado descreve como uma “moça de vinte e cinco anos, esbelta, airosa, de olhos meigos e submissos”, que era casada com o doutor Fortunato, participa ativamente nas emoções dos dois personagens, sendo alvo do comportamento dos amigos. Apesar de ser personagem secundária no enredo, é com essa mulher que as causas secretas começam a se tornar mais evidentes. Já que é nela que pode-se notar, mais presente, o moralismo social da época. E, em vários momentos, as dicotomias entre vontade e moral se tornam mais patentes.

A convivência entre os três personagens se torna mais intensa a partir do momento que Fortunato e Garcia resolvem abrir uma casa de saúde.

A comunhão dos interesses apertou os laços da intimidade. Garcia tornou-se familiar na casa; ali jantava quase todos os dias, ali observava a pessoa e a vida de Maria Luísa, cuja solidão moral era evidente” (ASSIS, s/d p. 05).

Com o fluir dessa vivência, um sentimento proibido de amor acabou nascendo no doutor Garcia por Maria Luísa, acarretando no sofrimento de ambos.

Ainda sim, o golpe final para Maria Luísa foi quando Fortunato resolveu transferir o seu laboratório de estudos anatômicos e fisiológicos para casa onde moravam. Nesta atividade, Fortunato utilizava-se de cães e gatos como cobaias. Contudo, o guincho do sofrimento dos animais muito atordoava sua esposa, aumentando sua angústia e tormento. A forma como Maria Luísa sofria era tamanha que parece ter sido esse o motivo para o início de uma moléstia que lhe seria fatal.

A causa secreta somente é desvendada aos olhos de Garcia (e, consequentemente, do leitor) no momento em que este, ao chegar à residência do casal, se depara com Maria Luísa saindo aflita do gabinete de Fortunato. E, não é para menos. Garcia vê Fortunato em êxtase torturando um rato, cortando-lhe pedaço por pedaço até sua morte. Nada de raiva ou ódio. Apenas o prazer de contemplar o sofrimento do animal.

O desfecho final do conto se dá quando Maria Luísa morre tísica, moléstia muito comum nos oitocentos. Nos momentos finais de sua vida, Fortunato a acompanhou com toda a dedicação possível, fazendo de tudo para seu cuidado. Somente no velório da moça é que a paixão de Garcia foi demonstrada para Fortunato. Pois, este consegue flagrar o médico, em lágrimas, dando um beijo apaixonado no cadáver, finalizando o conto com mais um prazer contemplativo de Fortunato em relação à dor.

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Luísa. Da mesma maneira, observar características históricas que possam compactuar com a personagem e que possivelmente forneceu embasamento para sua construção.

O segundo capítulo terá como aporte a história da psicologia no Brasil, tentando delinear como se constituía essa profissão no momento em que Machado de Assis escreve o conto. Para, dessa forma, buscar a compreensão do universo em que Garcia foi criado, estabelecendo, através de seu comportamento, possibilidades de existir características congruentes entre ele e a profissão.

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2.

MARIA LUISA: A VÍTIMA

Pivô amoroso de Garcia e Fortunato, Maria Luísa pode ser extremamente representativa como um modelo típico de inúmeras mulheres que viviam no Brasil da segunda metade do século XIX. O escritor descreve uma mulher que pode ser definida como um exemplo de boas maneiras e de extremada virtude moral. As características atribuídas a ela remetem à valores e modos de comportamentos que eram propagados de forma crescente no decorrer desse período brasileiro, principalmente entre a sociedade burguesa. Estes eram em sua maioria importados da Europa e, muitas vezes, copiados de forma bastante cômica por essa nova classe social do país. Na época em que é narrada a trama machadiana, tem-se justamente o começo de consolidação do sistema capitalista brasileiro, circunstância que corrobora a passagem de um mundo quase que exclusivamente rural, para o início de uma vida mais urbana. Por esta ocasião, acaba “nascendo uma nova mulher”, com uma atuação social inusitada até então (D‟INCÃO, 2009).

Logo no primeiro parágrafo do conto, Machado de Assis, a partir de uma diegese, nos mostra um ambiente extremamente tenso, onde Maria Luísa está à beira da janela de sua casa fazendo um “trabalho de agulha” (ASSIS, s/d, p 02). Nessa cena, ambientada juntamente com Fortunato e Garcia e onde ambos são retratados com semblantes de serenidade e severidade respectivamente, quem acaba por demonstrar o nervosismo do ambiente é Maria Luísa. Seus dedos ainda pareciam trêmulos, resultado do episódio anterior da obra, no qual, mesmo que o leitor até então não saiba, foi revelada a causa secreta do marido. Nesse momento, a personagem é descrita fazendo um trabalho de bordados e costuras, tarefa típica das donas de casa dos oitocentos brasileiro (SANTIAGO, SILVA, FARIAS, MOTA, s/d). Esse tipo de ocupação era bastante direcionado para as mulheres dessa época, que, juntamente com a ilustração da delicadeza e da fragilidade do feminino, no tremor das mãos da personagem, o escritor já delineia um arquétipo de mulher que permanecerá, ao longo do enredo, externando características sempre análogas. Segundo a narração pormenorizada do próprio autor: “(...) Maria Luísa é que possuía ambos os feitiços, pessoa e modos. Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove (ASSIS, s/d, p 04).

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Luísa. Por meio das impressões do amigo do casal, o leitor, cada vez mais, depara-se com a descrição de uma esposa com quase nenhuma voz ativa na relação conjugal em que vivia. Sem diálogo algum, nada de contrapontos. Tudo o que Fortunato decidia era acatado de forma silenciosa pela mulher. Quando a amizade de Fortunato e Garcia se consolida de vez e estes resolvem abrir uma casa de saúde, a reação de Maria Luísa é significativa: (...) e foi uma desilusão para Maria Luísa. Criatura nervosa e frágil, padecia só coma ideia de que o marido tivesse de viver em contato com enfermidades humanas, mas não ousou opor-se-lhe, e curvou a cabeça (ASSIS, s/d, p 05). Além da reticência da personagem em se opor ao marido, o que pode ser percebido nesse trecho da obra, mesmo que de maneira muito sutil, é certo receio ou até mesmo medo de Maria Luísa em ver Fortunato em contato mais frequente com os doentes. Pode ser que seja pelo zelo para com cônjuge ou, quem sabe, por já saber de sua patologia e penar pelos pacientes que irão ser tratados pelo mesmo.

O conto, como um todo e por si só, gira em torno de questões éticas e, nesse sentido, nenhum personagem está isento. Além disso, pode-se generalizar que, de certa forma, todos os ambientes ao qual Maria Luísa aparece esta atmosfera moral criada ao seu redor aparece de forma mais patente. Um exemplo claro disso está no trecho:

“A comunhão dos interesses apertou os laços da intimidade. Garcia tornou-se familiar na casa; ali jantava quase todos os dias, ali observava a pessoa e a vida de Maria Luísa, cuja solidão moral era evidente. E a solidão como que lhe duplicava o encanto. Garcia começou a sentir que alguma coisa o agitava, quando ela aparecia, quando falava, quando trabalhava, calada, ao canto da janela, ou tocava ao piano umas músicas tristes. Manso e manso, entrou-lhe o amor no coração. Quando deu por ele, quis expeli-lo para que entre ele e Fortunato não houvesse outro laço que o da amizade; mas não pôde. Pôde apenas trancá-lo; Maria Luísa compreendeu ambas as coisas, a afeição e o silêncio, mas não se deu por achada (ASSIS, 1983, p 05)”.

O que se percebe nesse parágrafo retirado do conto é a história de um amor impossível, de uma moça frívola e emotiva, clássico para os romances da época (DUMONT E SANTO, 2007). A certeza de Garcia em relação ao seu sentimento para com a personagem, silenciado pela amizade que este tem com o marido da moça, não se dá na mesma medida entre os dois. Ao que parece, mesmo tendo percebido o nível de empatia que o sócio de Fortunato sentia por ela, Maria Luísa não consegue sequer imaginar qualquer possibilidade de, ao menos, definir e aceitar que compartilha da mesma afeição, permanecendo perdida nas suas emoções.

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sofresse simultaneamente com as cobaias, horrorizando a moça todo aquele sofrimento dos pobres bichos. Entretanto, mesmo estando unidos pelos laços do matrimônio, Maria Luísa não tem coragem de expor sua angústia ao marido, tendo o desembaraço de relatar seu sofrimento apenas a pessoa que a admira secretamente, Garcia. Como argumento para justificar seu medo, a personagem explica ao amigo de Fortunato que se ela própria fosse pedir ao marido que cessasse com as experiências, este diria que o motivo era uma bobagem, coisa de criança (ASSIS, s/d). Por conseguinte, ainda resta o fato que encerra o conto, onde Maria Luísa quase desmaia ao ver Fortunato torturando um rato que havia aparecido em sua casa. Essa última cena descrita por Machado de Assis antes da morte da personagem, causada pela tísica é mais um momento que reforça a fragilidade de Maria Luísa.

Exposto as principais características desse arquétipo machadiano, faz-se a necessidade de tentar delinear quais seriam as alternativas que teria o autor, caso este quisesse descrever outros tipos de mulheres. Que opções, afinal, Machado de Assis poderia retirar, como exemplo feminino, no contexto social em que viva? A tarefa que se coloca aqui não é das mais fáceis, já que em meados da década de mil oitocentos e oitenta, período em que o escritor publica seu conto, a diversidade feminina se espraia de forma contínua pela sociedade carioca e nacional. Dois são os principais paradoxos que se encontram nesse momento entre a classe burguesa, tipo social descrito no conto: de um lado a mulher tradicional, recatada, voltada para os cuidados domésticos e zeladora das virtudes morais e das boas maneiras; de outro, as transgressoras de regras e normas, mais voltadas para a autonomia, a independência, ou ainda, as que apenas fingem seguir as diretrizes de bom comportamento social (FERREIRA, 2003).

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O que para uma visão contemporânea certamente seria considerado como caso extremo de machismo, no tempo de Machado de Assis o considerado “moderno” nos meios literários estava fixado em um dualismo sexual: os meios políticos e intelectuais aos homens, enquanto que para às mulheres cabia o zelo pela moral e os bons costumes. E, claro, estando o escritor mergulhado neste contexto, o que era literariamente criado nesse momento refletia (pelo menos em sua maioria) a reprodução ou, ainda que de forma modesta, o embate dessas normas de conduta no Brasil (CÂMARA DE MORAES, 1998).

Nessa relação com o gênero feminino, “A Causa Secreta” permanece com um tom mais conservador, descrevendo sua única mulher com afazeres domésticos e sempre zelosa pelo casamento, mesmo que infeliz. Ao que parece, pelo menos em um primeiro momento para o leitor, Machado simplesmente não tem a intenção de abordar esta temática como algo a ser debatido, focando apenas o lado da psicopatia médica e da reflexão das atitudes dos profissionais da medicina naquele momento. Esta dedução poderia representar uma realidade diversa de sua vida. Até porque para este, acostumado a escrever em um jornal liberal, como, por exemplo, no Diário do Rio de Janeiro, não seria estranho desenhar uma mulher mais atuante e relutante com o tipo cultural condicionado até então, sendo que este tipo certamente existia. E, também, muito provavelmente não faltariam leitores (e, quem sabe, principalmente leitoras) com interesse neste conteúdo. Contudo, uma leitura mais atenta e com o conhecimento da sua forma irônica de escrever, cria-se a possibilidade de fazer com que essa conclusão mude, hipótese que será comentada no final.

A contínua metamorfose social que culminou com a passagem do Império para a República conduziu uma nova política social que também afetava o comportamento feminino – a limpeza urbana – onde as impurezas seriam os próprios brasileiros que, em sua maioria, eram de baixa renda e não se adequavam a nova ordem estabelecida. Para que esta ação governamental tivesse êxito, foi utilizada uma espécie de associação entre Estado e a classe médica, principalmente com a que tinha a prática especializada em doenças mentais. Neste sentido, todo tipo de comportamento que não se adequasse ao “requinte urbano” poderia ser considerado anormal, patológico. A sexualidade, o trabalho, o fanatismo religioso, dentre outros tipos de conduta que não se enquadravam na concepção que se buscava de “ser civilizado”, não raramente eram considerados uma doença mental (ENGEL, 2009).

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também ter alguma causa secreta que os leitores contemporâneos à publicação do conto pudessem identificar? A descrição que Machado faz desta personagem pode nos trazer algumas respostas. Além disso, o comportamento conjugal que essa mantém com Fortunato, o tipo de conduta que ela sustenta diante das adversidades pelas quais passam o casal, abre caminhos para algumas hipóteses de como se configurava a vida privada neste cenário nacional.

O perfil traçado pelo escritor remete a uma mulher bonita e que, além de possuir um olhar submisso, também tinha modos que “transcendiam o respeito e confinavam na resignação e no temor” em relação ao seu marido. A representação é de um casal sem muitas coisas em comum e com “pouca ou nenhuma afinidade moral”. A construção desta imagem feminina (bonita, frágil e submissa) não é novidade para a literatura da época, já que neste período a mulher estava fortemente identificada com a idealização da natureza, assim como o homem, ao contrário, estava mais ligado à questões racionais (ENGEL, 2009). Contudo, a singularidade deste enredo pode estar nos motivos pelos quais Maria Luísa apresenta um comportamento mais “conformado”.

Em um de seus trabalhos, intitulado “Psiquiatria e feminilidade”, a historiadora Magali Engel (2009) aborda três casos de internação médica de diferentes mulheres que viviam em fins do século XIX, início do XX, por motivos de doença mental. Assim como a personagem machadiana, estas também eram casadas. Entretanto, diferentemente de Maria Luísa, elas não se mantêm casadas até o final de suas vidas.

No primeiro caso relatado por Engel (2009), a infidelidade conjugal por parte da esposa faz com que o matrimônio não perdure. Mesmo não tendo um comportamento que pudesse ser considerado insano para os dias de hoje, o fato de esta mulher ter tido amantes, fez com que os psiquiatras da época a diagnosticassem como ninfomaníaca e a internassem. Aqui, podemos deduzir a suposta confusão sentimental que Maria Luísa teve, quando se deu por conta da amorosidade de Garcia. Para as almas femininas do século XIX, a traição conjugal poderia ter não só a retaliação do marido, mas de toda a sociedade, podendo ser considerada doente por causa disso. Dessa forma, considerar implícito o fato de ela permanecer perdida em relação ao que realmente sentia, não querendo (e, assim, tendo o azar de) aceitar que poderia estar apaixonada pelo amigo de Fortunato, de maneira alguma é absurdo.

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determinado tempo de casada, não demonstrar mais sinais de afeto, tanto pelo marido, quanto pelos filhos. Também foi internada.

Esse episódio é emblemático para se compreender o quanto as normas de comportamento social eram tidas de forma rígida e extremista. No processo crime estudado por Engel (2009), a mulher não é considerada criminosa, mas sim louca. A justificativa é clínica, o fato de a esposa não se comportar de forma adequada, como manda o figurino social (no caso, apaixonada pelos filhos, pelo marido e zelosa do lar), da qual bebe a medicina da época para diagnosticar pacientes, faz com que ela seja internada para tratamento, não indo para uma cadeia comum, supostamente mais óbvio nos dias de hoje.

Mais uma vez, os jornais que circulavam na sociedade Machadiana podem nos oferecer algumas respostas, desenhando o mundo que era “proposto” para as mulheres, em especial as burguesas. Nesse sentido, os periódicos brasileiros assumem um papel de condutor social para um novo estilo de vida, mais requintado e civilizado, contrastando com o campo, considerado rudimentar. A eficácia desse meio para atingir o novo “corpus social” é considerável, sendo intrínseco o seu potencial difusor e criador de novos discursos, a partir do seu “diálogo” com o leitor. Dessa forma, pode-se afirmar que o jornal representa ser um formador de novas configurações sociais, tendo a capacidade de criar novas identidades devido a sua fecundidade, principalmente no meio citadino (FERREIRA, 2003).

Em relação à necessidade de novos estilos de vida:

Com a transferência da Corte Portuguesa para o Brasil, para alguns o acontecimento mais importante depois da chegada da frota de Cabral, o Brasil deixa de ser colônia para se tornar a sede da monarquia portuguesa e a cidade do Rio de Janeiro, capital da colônia desde 1763, recebe entre 15 a 16 mil novos habitantes, tornando-se o centro do Império e palco de grandes mudanças sociais (Cardoso, 1988) pode-se dar uma dimensão do quanto a imprensa era “necessária” para um classe que poderia estar perdida (Apud FERREIRA, 2003).

No entanto, mesmo com o processo de urbanização, não houve um deslocamento, pelo menos em seu início, para uma sociedade menos patriarcal, mais igualitária. O homem continuou ditando as regras no meio político, conforme sua vontade. As leis, os processos jurídicos e, além disso, os principais (para não dizer todos) trabalhos profissionais e cargos públicos eram ocupados por homens (SAMARA, 1989).

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idealizado por um gênero apenas, rejeitando e subordinando as proposições femininas. Por conseguinte, para garantir o status civilizado, racional e, claro, “macho”, era preciso um discurso – de preferência científico – que colocasse a mulher em seu lugar: uma dona de casa frágil, abnegada, submissa, amorosa para com os filhos e o marido. Para outorgar essas premissas masculinas, os meios políticos, juntamente com as práticas empregadas pela medicina, foram as principais vertentes que configuravam esse perfil desejado (FERREIRA, 2003).

No caso político, os ideais positivistas incorporados pela elite brasileira, principalmente a partir da República, não mudaram substancialmente o panorama social da mulher, mantendo a desigualdade sexual. Mesmo que os princípios comteanos designassem o papel feminino como o de redentor da nação, com qualidades morais e altruísticas, sua figuração continuou seguindo a linha da subordinação. Um exemplo disso pode ser pensado a partir da proibição do acesso ao voto para as mulheres, sendo o sufrágio dedicado somente ao meio masculino. A justificativa empregada pelos representantes do governo era de que, na medida em que a mulher fosse se envolvendo nos meios mais politizados da sociedade, acabaria por perder sua pureza, de suma importância para manter as famílias brasileiras fora do alcance da imoralidade que corrompia política (ALMEIDA, 1999).

Retomando a linha jornalística, outro modelo que pode ser empregado para se compreender as limitações femininas no século XIX, está no periódico “O Médico do Povo”. Jornal carioca e de cunho científico, publicado aos domingos pelo doutor Mello Moraes, destacou-se um artigo no qual falava das características que possuíam as mulheres brasileiras. Com o título “Caráter geral dos brasileiros”, a ideia que se quer passar é a de que neste país existiam as melhores mulheres do mundo, sendo nesse lugar onde elas são mais “amáveis, doces, brandas, fiéis, extremosas e boas mães de família, etc”. Isso, claro, também acompanhada de uma “fina” educação, de preferência. Esse tipo de estereótipo que encontrava eco na sociedade masculina oitocentista tentava delinear uma mulher que só seria realmente boa se seguisse os moldes civilizados e requintados da nova elite urbana (REMER, 2010).

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tempo de internação foi extremamente curto, diferentemente das duas primeiras mulheres que permaneceram em clínicas de tratamento infinitamente mais que essa última.

O que caracteriza as diferenças quanto ao tempo de internação pode não ser o fato da infidelidade conjugal configurado no primeiro caso, ou do assassinato descrito no segundo, caso mais óbvio. As diferenças estabelecidas entre esse processo e os dois iniciais, também pode ter uma motivação relativa às normas de conduta propagadas no período estudado. Essa hipótese deve ser considerada, já que a extensão do tratamento foi equivalente à gravidade da falha no âmbito familiar: o comportamento fora do “bom tom” no âmbito conjugal, só é justificável quando já existe, por uma das partes, a transgressão das normas sociais estabelecidas. Um crime pode ser extenuado caso tenha como justificativa a quebra de conduta por uma das partes do casal.

Para fins de comparação, se torna interessante relacionar outro romance machadiano, “Helena”. Nele, o escritor também aborda um caso típico de submissão feminina, de sociedade patriarcal, com um enredo que tem como temática a infidelidade conjugal. A partir de um suposto caso extraconjugal, descobre-se que Helena é filha de um homem bastante rico, o “conselheiro Vale”. Considerando que o reconhecimento paterno veio a partir de um testamento, e que a esposa do conselheiro, agora sabendo que esse a traía, já não poderia lhe fazer mal algum, a viúva se vê obrigada a também a aceitar Helena e lhe trazer para o meio familiar, mesmo não sendo sua filha legítima. Com essa analogia, o que interessa salientar é o fato de que mesmo com a traição do marido – que, da mesma maneira que foi citado por Engel (2009), transgrede as normas de comportamento social – o que prepondera é a vontade masculina, onde a esposa do falecido é obrigada a admitir a filha bastarda do seu cônjuge. Nesse sentido, percebe-se que a mulher sempre está em disparidade na relação conjugal, sendo fiel ou não e, mesmo que a pena não tenha um tempo muito estendido, o sistema sempre tem uma brecha que pode fazer dela condenada.

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eram os internatos religiosos. Ali, tinha-se a crença de que poderiam manter as mulheres protegidas dos malefícios sociais, tendo a tutela moral da igreja (ALMEIDA, 1999). Dessa forma, estas instituições de ensino, não somente conservavam o discurso moralizador e patriarcal da sociedade, como, também, influenciavam os seus devotos católicos, que, graças ao legado lusitano, provavelmente configuravam a maioria religiosa do Brasil.

Além disso, as filhas de famílias mais abastadas também poderiam ter acesso ao ensino a domicílio. Nesses casos, os professores particulares que iam até às casas dessas moças poderiam ser brasileiros ou, de forma bastante frequente, estrangeiros. As práticas domésticas eram as mais corriqueiras no ensino, como agulha e costura, exemplo já citado. Outras instruções se resumiam, basicamente, em alguns dotes artísticos, uma cultura literária básica e, claro, regras de etiqueta para se adequar ao novo estilo civilizado. Esse modelo educacional feminino permaneceu com força até finais do século XIX, quando escolas particulares começaram a abrir cursos para mulheres. (ALMEIDA, 1999). Nota-se que as prescrições religiosas – principalmente cristãs – e as formas de ensino desse período, congregavam forças para impor sua vontade patriarcal, imprimindo normas de conduta que, devido à importância de suas tradições e representações na sociedade, favoreciam a assimilação e aceitação desse tipo de comportamento.

O que se pode observar nesse conjunto descrito é que as mulheres estão sempre em desvantagem nas relações de poder da sociedade oitocentista. Com uma educação voltada apenas para as prendas domésticas e as primeiras letras, muito pouco se podia ter de expectativas para obter alguma mobilidade social ou uma representação de maior autonomia no meio profissional.

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Para dar uma dimensão maior do que poderia significar esse pertencimento à classe social burguesa, Foucault (2010) faz referência às variações de identidade no tempo. Não em um sentido limitado e só referente à burguesia ou ao gênero feminino, mas de forma ampla e sem especificidades, podendo se encaixar em muitos contextos e tipos. Nesse sentido, segun-do o filósofo, os questionamentos devem ser feitos a partir segun-do que é identidade e o que não é identidade em determinado período histórico. Indo ao encontro deste pensamento, sabemos que no século XIX brasileiro houve um início de ruptura nas tradicionais formas de “compo r-tamento rural”, até então existentes (ALENCASTRO, 1998). De maneira que, se fez necess á-rio o relato acima, para compreender quais eram os novos modos de proceder entres as dife-rentes classes sociais dos oitocentos no Brasil. Para, a partir disso, estabelecer o que era con-siderado “normal” nos jeitos de se portar, nos seus modos, hábitos e os tipos de conduta em determinados momentos, para organizar, de maneira clara, as diferentes classes sociais.

Para aprofundar mais a compreensão desse saber, é importante salientar que não se pretende neste trabalho utilizar uma concepção de culturas fechadas em um núcleo comum. Muito pelo contrário. Uma das finalidades procuradas aqui é também buscar, na medida do possível, quais as práticas culturais que podem ter sido compartilhadas por essas diferentes classes, tendo em vista a possibilidade de criação de novas formas de se portar no quotidiano imperial e republicano, a partir de um provável convívio social entre as diferenças. Além disso, tem-se a atenção para o caso de existir a possibilidade de que haja integrantes de um mesmo patamar social que não se “identifiquem” com determinadas normas de comportamento, procurando outras formas de vivências que não as genealógicas ou de uma classe médica, por exemplo.

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herdeiros, para manter ou ampliar suas posses materiais. Dessa forma, pode-se notar que existem maneiras incomuns de comportamento entre as classes, justamente porque, quanto mais alta a posição social, maior o interesse em tornar visível sua distinção entra essa e as demais, reproduzindo determinados tipos de costumes e normas.

A partir desse quadro apresentado, podemos retomar o conto e ver que a descrição de Maria Luísa, feita por Machado de Assis, pode se enquadrar perfeitamente na conjuntura social que existia no momento em que o escritor define o início da história, 1865. Contudo, é exatamente neste momento que o panorama de resignação da mulher começa a dar sinais de mudanças, em direção a uma participação social mais autônoma nesse universo marcadamente patriarcal, como será descrito ainda. O que deve ser considerado neste instante é a visão que o autor tinha no momento em que escreve o conto, em 1885, vinte anos depois. Nesse sentido, perceber as mudanças que ocorreram nesse intervalo de tempo e tentar, de forma mais precisa, entender o que pode estar por trás de uma personagem, aparentemente, tão correta e congruente com as normas que eram consideradas de “bom tom” nesse meio burguês machadiano, podem demonstrar o quanto esse mundo poderia ser criticado tanto pelo escritor, quanto pelos leitores que compartilhavam esse tipo de literatura.

Em meados do século XIX a configuração social brasileira começa a harmonizar, não somente em relação às normas de etiqueta, mas, também, a um sentimento de prosperidade que não se adequava mais aos valores que até então percorriam a sociedade. A corriqueira importação de hábitos, modas, e infinitas outras “utilidades” vindas da Europa e dos Estados Unidos, acabaram por estimular discussões mais “humanísticas” com o passar do tempo, abrindo espaço para refletir sobre os direitos de cada um dentro da sociedade. Os ideais liberais e republicanos que compactuavam com as campanhas abolicionistas ganhavam cada vez mais força dentre a sociedade brasileira. Nesse sentido, os jornais vindos e comercializados de outros continentes, noticiando os acontecimentos que, muitas vezes, alteravam a ordem social dessas regiões eram propagados de maneira progressiva entre os meios citadinos (ALMEIDA, 1999).

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acesso à educação e, também, participação política através do voto, atingiram seu ponto máximo com a instauração da República. Afinal, para um novo contexto político, rumo a uma nova sociedade, nada mais adequado que uma nova mulher, acompanhando o ritmo de tais transformações. (ALMEIDA, 1999). Portanto, pode-se afirmar que as origens dos prelos femininos se configuram em um momento tenso e conturbado politicamente, sendo resultado de tais contradições.

Nesse sentido, se torna importante salientar que nem todas as mulheres dos oitocentos viviam para o casamento assim como Maria Luísa, logicamente. A sua forma, muitas delas buscavam liberdade para expandir suas vontades. Mesmo que a relação que se tinha com a leitura, do tipo machadiana, por exemplo, fosse sempre difícil, sendo esta prática proibida em alguns meios sociais, essas mulheres não se reservavam de forma acomodada com livros sobre moralismos e preceitos de família, que eram especialmente destinados a elas. O fato é que muitas liam escondido seus romances ou o que conseguissem ter acesso e desejo de ler (CÂMARA DE MORAES, 1998). Mesmo não sendo retratado neste conto aqui trabalhado, o próprio Machado de Assis já criou mulheres solitárias e com livros nas mãos ou de uma dubiedade entre moral e adultério, como no caso de Capitu.

Dessa forma, muitas mulheres, mesmo com toda a proibição, conseguiam seguir em um caminho ascendente de alfabetização, que não raramente transcendia as primeiras letras. Acabavam lendo o que era noticiado em outros países. Movimentos como o feminista em Portugal ilustram um pouco do que se poderia ter acesso nesse momento, além de fornecer um conteúdo bastante diligente nas proximidades do final do século XIX (RAFAEL, 2011). Para elucidar um pouco mais sobre o mundo que rodeava Machado de Assis, em especial sobre o gênero feminino:

A partir de meados do século XIX, a cidade do Rio de Janeiro presenciou o surgimento de uma infinidade de jornais e revistas dedicados à família e à mulher. Esse tipo de imprensa, meio de comunicação de grande importância na construção da esfera pública, dividiu com o livro o espaço das cestas de costura. No entanto esses jornais não se limitaram a difundir os romances da época sob a forma de folhetins. Dirigidos à família e especialmente à mulher alvo de seu discurso e sua principal interlocutora tornaram possível o desenvolvimento de um espaço cultural através da imprensa no qual a subjetividade originada na esfera íntima da família foi cada vez mais tematizada (...)” (BICALHO, Apud ALMEIDA, 1999, p 34).

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estava o incentivo a educação, muito propagado em revistas de estilo feminil. A mensagem que provinha desse meio era de que a mulher tinha que ser combativa, corajosa, mas sem eximir-se do papel sagrado de ser mãe, personagem crucial na educação familiar. Dessa forma, rompeu-se a brecha necessária para que a mulher se voltasse para formas mais emancipatórias de vida, começando as primeiras manifestações no plano político e ideológico. (ALMEIDA, 1999).

Entretanto, essas conquistas femininas não se deram de maneira branda, muito pelo contrário. A resistência masculina para que as mulheres pudessem ultrapassar a barreira do espaço doméstico representou um grande obstáculo para que as mulheres ganhassem maior representatividade social. Havia uma oposição considerável nos periódicos mais tradicionais da elite carioca. Qualificavam os movimentos femininos de outros países da Europa e do norte da América apenas como uma desordem, considerando que as mulheres brasileiras não se adequavam a esse mesmo espírito caótico, de ideias pouco apropriadas para uma imagem de mãe e esposa digna. Além disso, o conservadorismo pedagógico e a reticência católica constrangiam as mulheres em sua luta (CRUZ, 2008).

Contudo, o atravanco estabelecido por esse universo masculino arraigado há bastante tempo não fez com que o mundo feminino silenciasse, suas vozes ecoaram nas entrelinhas do poder. Mesmo presas aos valores sociais, essa mulheres faziam parte da construção daquela sociedade. Movimento que se sucedeu ainda de maneira branda em meados do século XIX, ganhando força, principalmente, nos anos próximos a virada para o século XX, a contínua expansão da imprensa feminina se configurava em um lugar de distinção social da mulher. A organização que se deu nesse sentido, criou uma identidade constituída entre suas leitoras, onde os anseios e insatisfações desse gênero, publicadas nas páginas desses periódicos, eram confundidas com as vontades cobiçadas pelo público que os lia (FERREIRA, s/d).

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reconhecimento feminino das formas de poder que eram estabelecidas e a que estavam submetidas, buscando uma participação nos sustentáculos ideológicos do período.

Por conseguinte, seguindo a mesma linha de pensamento, está a opinião de Eni Mesquita Samara (1989). Segundo a autora, houve certo exagero em relação ao comportamento submisso das mulheres oitocentistas por parte da historiografia. A partir das fontes que ela analisa, é desmistificado (ou, pelo menos, visto com menor intensidade) o estereótipo de dominação patriarcal e o cerceamento social que existia no Brasil imperial e republicano, aportando-se no enfrentamento e nas formas de resistência por parte do gênero feminino. Como justificativa Samara (1989) mapeia inúmeros exemplos de casos em que a mulher consegue ascender socialmente e enfrentar os obstáculos que se impunham.

Para compreender mais o universo em que Maria Luísa foi criada, torna-se importante salientar modelos de mulheres que não se conformavam de maneira fácil a esta sociedade. Nesse sentido, comparando a personagem com casos matrimoniais que de fato existiram no século XIX, pode-se afirmar – ainda segundo Samara (1989) – que a posição da mulher no âmbito familiar, devido à divisão de incumbências entre os cônjuges, era de uma importância bastante considerável. Dessa forma, existia, sim, certa influência feminina nesse tipo de relacionamento, até pelo fato de serem elas as responsáveis pela educação dos filhos nesse ambiente.

Ainda sim, em conformidade com esses estudos, a grande maioria das personagens femininas criadas por Machado de Assis tem como características mulheres que são astuciosas e inteligentes. Mesmo quando são apresentadas de maneira delicada e com pouca firmeza, elas sabem o que querem e onde pisam (BERGAMINI, s/d).

Por fim, cabe neste momento verificar se Machado de Assis seguiu uma linha incomum ao criar Maria Luísa ou se, assim como as outras personagens do autor, ela preenche os requisitos preferidos e mais recorrentes do mesmo. Buscando nas entrelinhas do texto escritor, talvez Maria Luísa não seja tão submissa e zeladora da família como pode parecer em um primeiro momento. Alguns indícios apontam para tal caminho.

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mulher indefesa, mas sim de alguém que racionalizou a situação e procurou alternativas para resolvê-la. Possivelmente por já conhecer o patriarcalismo social no qual estava inserida e, quem sabe, por já saber da patologia do marido, ela decide tomar esta atitude que acaba dando certo. Além disso, em se tratando do seu consorte, que tinha o prazer com o sofrimento alheio, não seria estranho ter uma boa dose de cautela para que a situação se resolvesse.

Nesse sentido, quando Fortunato decide abrir uma casa de saúde com Garcia, Maria Luísa novamente acaba sofrendo, já que veria o marido em contato com as enfermidades humanas. Por outro lado e seguindo a mesma hipótese, pode ser que a personagem não estivesse padecendo por causa do marido, mas sim por causa das pessoas que seriam tratadas por ele. Contudo, os motivos pelos quais ela ainda continuava casada com Fortunato podem ser compreendidos pelos exemplos já referidos nesse trabalho: rejeição do marido e pelo meio social, possibilidade de internação por loucura e, claro, a falta de perspectiva para obter uma vida pessoal autônoma fora dos laços matrimoniais. Dessa forma, a mulher desse período vai jogando com as possibilidades que se apresentam.

Por conseguinte, torna-se necessário retornar às duas datas, 1865 e 1885, que compreendem o estudo dessa personagem. A primeira datação, período em que é narrada a história, compreende mais o estilo que é apresentado (sem desvendar o que está eclipsado) por Machado de Assis a personagem Maria Luísa: com características submissas e voltadas apenas para os afazeres domésticos. Entretanto, a segunda datação, época em que é escrito o conto, merece uma última atenção.

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3. GARCIA: UM OBSERVADOR ATENTO

Fortunato e Garcia, médicos, amigos, sócios, ousados, apaixonados pela mesma mulher e o mais especial: ambos, ao que parece, portando um determinado tipo de patologia psicológica. Em se tratando dos personagens principais do conto, quais os motivos que levariam o escritor Machado de Assis a configurar arquétipos que apresentam comportamentos doentios, de maneira tão proeminente na obra? Qual a razão de os mistérios da “Causa Secreta” estarem exatamente nesse fato? No decorrer desse trabalho, já foi dito que o autor conjuga, por meio de suas obras, o contexto social em que vivia, indo ao encontro do movimento literário realista. Nesse caso, o foco de análise se direciona para a possibilidade de que Machado de Assis tivesse a intenção de denunciar enfermidades existentes no meio social presenciado por ele diariamente. Para isso, volta-se a atenção para as características em comum que contém os dois personagens, garimpando indícios e possibilidades que, congruentes com obras historiográficas sobre o assunto, possibilitem a identificação das intenções produzidas nessa história e eclipsadas pelo escritor. Ainda sim uma análise semiótica do texto pode nos fornecer mais firmeza, no intuito de revelar um pouco mais das “causas secretas históricas”:

A semiótica tem como principal objeto de estudo o texto, que deve ser descrito como uma unidade de sentido que se organiza tanto do ponto de vista interno, como do externo. A análise interna estuda o texto como “objeto de significação”, já a análise externa estuda o texto a partir de sua “relação com o contexto sócio histórico”, observando a relação entre destinador e destinatário envolvidos num meio social em que circulam valores que podem ser apreendidos no texto (MOSCARDINI, s/d, p. 01).

Machado de Assis se utiliza dos olhos de Garcia para relatar a maior parte do conto. O personagem é apresentado como um estudante de medicina, motivo pelo qual fez ver Fortunato (que já era médico) pela primeira vez em um hospital da cidade do Rio de Janeiro. Principalmente no início da obra, momentos antes de conhecer Fortunato de maneira formal, algumas características são igualmente consideráveis para que se chegue à conclusão de que, além de Fortunato, Garcia também continha algum desvio secreto na sua psicologia. Primeiramente, os dois personagens vão a uma peça teatral de cunho trágico, em um local onde somente os mais intrépidos é que frequentavam (ASSIS, s/d). Nota-se que o gosto pelo sofrimento não se restringe somente ao médico, mas também se manifesta no estudante, já que este compareceu, como de costume, para apreciar o ato.

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estranheza. Logo no primeiro contato que tiveram de maneira mais pessoal, quando Fortunato chega para ajudar Gouveia, o olhar atento de Garcia chama atenção. Espantado com a forma persecutória que o médico via seu paciente, o estudante acaba sentindo certa repulsa com a cena, mas, sem hesitar, continua olhando com singular curiosidade. O interesse do universitário aumenta quando recebe a notícia de que o doutor humilha, sem motivo aparente, o homem que tinha salvado a vida, quando esse foi agradecê-lo. O assombro de Garcia foi tanto que desejou ir à Catumbi, onde morava o médico, para vê-lo novamente (ASSIS, s/d).

A curiosidade inflamada do garoto é descrita pelo autor:

Este moço possuía, em gérmen, a faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da análise, e sentia o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas morais, até apalpar o segredo de um organismo (ASSIS, s/d, p. 04).

Com a proximidade e a consequente amizade iniciada com o casal Fortunato, aos poucos, Garcia expande sua análise, ficando cada vez mais intrigado com a singularidade do casal, na díspar vida conjugal a qual levavam. Contudo, a hipótese criada para o tipo de distúrbio existente no estudante, será debatida na conclusão final. O que importa neste momento é dimensionar o papel que ele representa no enredo, deixando esse mistério patológico para uma consideração final de análise desse personagem.

Nesse sentido, grande parte dos enigmas contidos no enredo é desvendada para o leitor através das observações atentas de Garcia. Dessa forma, não é nenhum absurdo propor que esse personagem configura, nas formas de se portar, a representação de um psicólogo, tendo a fixação de analisar compulsivamente o que lhe rodeia. Gradativamente, o poder cognitivo do moço interpreta as ações do casal, analisa, julga até desvendar os mistérios da razão que os movimenta.

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As mudanças culturais que transcorreram no século XIX, principalmente depois da vinda da corte portuguesa para o Brasil, também repercutiram no pensamento psicológico. As ideias compreendidas por essa área, ainda estavam atreladas a outras áreas do conhecimento, como a Medicina e a Educação. Mesmo com limitadas intenções de produção de conhecimento, tendo o seu intuito primordial voltado para a formação profissional, as instituições superiores de ensino deram um grande impulso nesse momento. A graduação desses profissionais estava sob forte domínio das ideias liberais e positivistas, intimamente ligadas com as proposições da Psicologia desse período (ANTUNES, s/d).

Correspondentes às teorias psicológicas e direcionando o foco para as práticas médicas, o que existia no meio social machadiano era um substancial interesse em relação à psicologia experimental, no qual se denotava um sentido metafísico em seus pressupostos. Essas tinham como base o “eu”, a “alma”, o “espírito”, configurando a subjetividade ou o comportamento humano nos discursos, não só da Psicologia, mas inclusive de áreas distintas, como a filosofia e a teologia, que também influenciavam de maneira expressiva nas proposições psicológicas. Nesse sentido, boa parte das conclusões de curso, produzidas nas faculdades recém-criadas de medicina do Rio de Janeiro e, com menor incidência, da Bahia, mantinha uma estreita relação com essa conjetura, com temáticas atinentes à neurologia, neuriatria, psiquiatria, etc (PEREIRA, NETO, 2003).

Muitos desses estudos precipitaram a criação, em 1881, da “Clínica das Moléstias Mentais”, disciplina formal e ineditamente autônoma relacionada com a psicologia e que trazia temáticas das mais diversas:

Os assuntos são muito variados, dentre os quais: paixões ou emoções, diagnóstico e tratamento das alucinações mentais, epilepsia, histeria, ninfomania, hipocondria, psicofisiologia, instrução e educação física e moral, higiene escolar, sexualidade e temas de caráter psicossocial. (ANTUNES, s/d, p. 17).

O que se pode afirmar com esse breve resumo histórico, é que o ambiente da psicologia estava em pleno debate e mergulhado em transformações, rumo a um processo de autonomia, constituição e institucionalização da profissão. Nesse sentido, uma hipótese que pode ser considerada, ao escrever sobre o comportamento de Garcia, é a de que o autor esteja intencionalmente fazendo uma alegoria com esse personagem, configurando, assim, uma crítica às proposições médicas relacionadas com a psique.

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moral e a dissecação íntima do comportamento humano configuram a falta de crença nas pesquisas das ciências naturais e de um narrador típico desse movimento literário. Machado de Assis se contrapunha de forma incisiva a essa doutrina. Suas formas de sensualidade, fisiologia e excessivo erotismo, segundo o autor, prejudicavam a análise do caráter moral dos personagens na sua relação com o contexto histórico narrado, quando não a excluía.

Dessa forma, pode-se dizer que, no conto, com suas dimensões instintivas e inconscientes, há uma condenação em relação às formas literárias até então existentes, além de possuir uma forte crítica aos fundamentos de Augusto Comte, onde sua doutrina colocava a objetividade e a neutralidade do discurso como uma de suas tônicas (LOPES E SILVA, s/d). Devido às análises feitas pelo doutor Garcia, revelam-se os instintos, o inconsciente do casal Fortunato, dando exemplos de determinados impulsos que, mesmo não tendo uma conotação patológica, são intrinsecamente ligados ao comportamento humano. Nesse sentido, traça um paralelo do meio privado, onde essas características ficam nuas, e o meio social qual convivem, onde predomina a razão e as normas corretas de se portar frente às outras pessoas.

Há, ainda, outro ponto concernente ao Garcia que pode ser representativo para uma elucidação histórica do século XIX. O momento em que Fortunato lhe propõe a sociedade para abrir uma casa de saúde torna-se simbólico, na medida em que a oferta é aceita, mesmo que de início tenha existido alguma reticência. (...) Na verdade, era uma boa estreia para ele, e podia vir a ser um bom negócio para ambos (ASSIS, s/d, p. 05). Nesse sentido, desvendar o que era considerada “boa estreia” nos oitocentos brasileiro, oportuniza compreender o ainda mais o caráter tanto de Fortunato, como, em especial, Garcia.

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Nessa sociedade oitocentista brasileira a doença e a cura tinham significados específicos, ainda muito voltados para a religiosidade cristã. Dessa forma, lutar contra as enfermidades em alguns casos poderia ser considerado um ato pecaminoso, já que as moléstias poderiam ter relação com os pecados cometidos, ou por manifestações demoníacas. Nota-se que essas questões ligadas à saúde estão mais ligadas ao sobrenatural, ao metafísico, do que propriamente ao científico, aos remédios. A condução dos tratamentos era, de forma mais corriqueira, tratados pelos próprios familiares e não raro com o acompanhamento de padres. Além disso, o crédito oferecido à medicina entre as elites não era substancialmente melhor. De maneira muito comum as classes mais altas da sociedade recorriam a mezinheiros e/ou curandeiros na procura da cura ou, então, para retirar possíveis feitiços, acreditando, também, no sobre-humano (SOARES, 2001).

Nota-se que a medicina oitocentista brasileira não surgiu de maneira muito conceituada, tendo que provar que o seu cunho científico era mais eficiente que as tradicionais práticas arraigadas já há tempos na sociedade. Dessa forma, não é difícil concluir que a sociedade com Fortunato para abrir uma casa de saúde realmente não se dava de todo mal. Pelo contrário, juntando-se poderia compartilhar de sua posição social, angariar o título de capitalista e obter um status que, como estudante ou recém-formado na profissão, provavelmente não possuía. Dessa forma, o envolvimento de Garcia com Fortunato pode ser movido por interesses econômicos e sociais, escondidos sob os signos da amizade.

Outra circunstância que chama atenção está no amor que esse nutria por Maria Luísa. A partir da observação rotineira de seus modos e dotes que, como já foi mencionado, era típico de uma mulher burguesa, o enquadramento de Garcia a uma classe mais alta ficaria completo. “(...) Maria Luísa é que possuía ambos os feitiços, pessoa e modos. Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove” (ASSIS, s/d, p. 04). Ter “ambos os feitiços”, nesse caso, poderia representar possuir uma mulher que, além de ser bonita, continha hábitos adequados para sua ambição social.

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References

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