Trabalho Final de Graduação A FORTUNA HISTORIOGRÁFICA DE FORTUNATO: Uma análise histórica dos arquétipos machadianos em “A Causa Secreta”

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  CENTRO UNIVERSITÁRIO FRANCISCANO THIAGO MOREIRA AGUIAR

Trabalho Final de Graduação

A FORTUNA HISTORIOGRÁFICA DE FORTUNATO:

  

Uma análise histórica dos arquétipos machadianos em “A Causa Secreta”

Santa Maria, RS

  THIAGO MOREIRA AGUIAR A FORTUNA HISTORIOGRÁFICA DE FORTUNATO: Uma análise histórica dos arquétipos machadianos em “A Causa Secreta”

  Trabalho final de graduação (TFG), apresentado ao curso de História, da Área das Ciências Sociais e Humanas, do Centro Universitário Franciscano – UNIFRA -, como requisito para aprovação final do curso de História.

  Orientadora: Profª. Drª. Nikelen Acosta Witter Santa Maria, RS

  Centro Universitário Franciscano Área das Ciências Sociais e Humanas

  Curso de Licenciatura em História A Comissão Examinadora abaixo assinada aprova a Monografia

  A FORTUNA HISTORIOGRÁFICA DE FORTUNATO: Uma análise dos arquétipos machadianos em “A Causa Secreta”

  Elaborada por

  Thiago Moreira Aguiar

  Comissão examinadora _____________________________________

  Prof.ª. Drª. Nikelen Acosta Witter Presidente/Orientador(a)

  _____________________________________ Prof.º Drº. Carlos Alberto da Rosa Rangel

  _______________________________________ Prof.º Dr.º Leonardo Guedes Santa Maria, ______ de Junho de 2012.

  DEDICATÓRIA À minha mãe, que de tudo fez para os meus estudos.

AGRADECIMENTOS

  Primeiramente, gostaria de agradecer aos familiares que, de uma forma ou de outra, me ajudaram a passar por mais essa etapa. Da mesma forma, não poderia deixar de ser grato, a Professora Drª Nikelen Witter pelo aporte intelectual e pela paciência despendida na produção, não só desse trabalho, mas de toda minha jornada acadêmica. Agradeço, também, a minha namorada, Gabrielly Milani que, de forma companheira, esteve presente em algumas madrugadas enquanto desenvolvia esse trabalho. Por fim, aos meus colegas, amigos e parceiros de Bavaria (a Clássica), que, tenho certeza, estarão cada vez mais atuantes nos sindicatos da vida.

RESUMO

  Este trabalho tem por objetivo encontrar correlações entre os arquétipos dos personagens construídos por Machado de Assis, no conto “A Causa Secreta”, com o contexto social em que este vivia. Nesse sentido, foram analisadas obras historiográficas com temáticas que compreendem o século XIX, em especial, sobre cotidiano das mulheres e as questões ligadas à área da saúde. Dessa forma, a partir da ligação com a movimentação dos atores do conto, alguns caminhos foram trilhados para tentar elucidar o que era considerado como desvio psicológico nos oitocentos brasileiro e o que se constituía como normal nesse período, em se tratando de normas de conduta.

  Palavras-chave: Machado de Assis, arquétipos femininos, ciência médica.

ABSTRACT

  This study aims to find correlations between the archetypes of the characters built by Machado de Assis, the story "The Secret Cause," with the social context in which he lived. Accordingly, we analyzed historical works with themes that comprise the nineteenth century, especially on the daily lives of women and issues related to health. Thus, from the connection with the movement of the actors in the tale, some paths have been trodden to try to elucidate what was considered a psychological shift in the nineteenth century Brazil and that was as normal during this period, when it comes to standards of conduct.

  Keywords: Machado de Assis, female archetypes, medical science.

  

SUMÁRIO

  

INTRODUđấO ........................................................................................................................ 8

  

2. MARIA LUISA: A VÍTIMA ........................................................................................... 18

  

3. GARCIA O OBSERVADOR ATENTO ......................................................................... 33

.................................................................................

   4. FORTUNATO: UM CASO CLÍNICO ............................................................................................................................

  39

   5. CONCLUSÃO .......................................................................................

  46 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  48

  Inúmeros são os estudos que buscam nas obras do escritor Machado de Assis, respostas para uma melhor compreensão do turbulento contexto social em que este vivia (CHALHOUB, 2003; CAVALLINI, 2005; GUIMARÃES, 2004). A partir da leitura dessas análises foi que despertou a curiosidade que lançou as bases para a formação desta pesquisa, fazendo com que a intenção deste trabalho se dirija para uma tentativa de contribuir para um melhor entendimento do período vivido pelo escritor. Com uma biografia bastante singular e uma produção de textos carregados de prodigiosos significados e intenções, Machado de Assis abre incontáveis caminhos aos quais se podem discorrer textos historiográficos, como os já citados. Isso porque, ao que tudo indica, no decorrer de sua carreira profissional, tanto de escritor como de funcionário público, Machado de Assis sempre manteve uma preocupação constante com problemas, principalmente sociais, de sua época. Carioca, nascido no ano de 1839, o autor participou ativamente de momentos contundentes na história brasileira. O período em que viveu foi marcado por transformações sociais que acompanharam – logicamente que não no mesmo ritmo e intensidade – as revoluções europeias e os novos ideais que provinham desta, assim como os recentes acontecimentos e concepções estadunidenses (CHALHOUB, 2005).

  Mesmo originário de família pobre, sendo neto de escravos alforriados e estando em uma época que saber ler e escrever era coisa para pouquíssimos, Machado de Assis conseguiu instrução suficiente para, desde muito jovem, publicar crônicas quase que semanalmente em jornais da cidade. Sendo, portanto, capaz de contribuir para a formação de uma opinião pública propriamente nacional e, dessa forma, elucidar seus leitores das mazelas políticas e seduzi-los para práticas que pudessem contribuir rumo a um desenvolvimento nacional (CAVALLINI, 2005).

  Além disso, seu engajamento social não se restringia somente a tinta de sua pena, mas, também, aos esforços que eram despendidos para o cumprimento das leis então vigentes neste cenário. A sua atuação como chefe da Diretoria da Agricultura, do Ministério da Agricultura Imperial, onde atuou dentre os anos 1870 e 1880, solidificou ainda mais seu envolvimento com os problemas por ele vividos, já que o cargo não somente permitia atuações relacionadas à terra, mas também em outras instâncias, como aquelas ligadas a escravidão, por exemplo através do que era produzido pelo escritor Machado de Assis – em questão, o conto “A Causa Secreta” – tentando encontrar correlações que possam ajudar na elucidação do Brasil Imperial.

  Desde que começou a ganhar popularidade como crítico das artes, por volta de 1860 – principalmente com questões teatrais e literárias –, Machado de Assis buscava popularizar a cultura, tendo por meio a valorização do que se produzia nacionalmente. O autor acreditava que a principal missão do escritor brasileiro era lapidar e aperfeiçoar o gosto de seu público, trazendo questões que eram vividas em seu próprio contexto social. De maneira que tais obras seriam melhor compreendidas também pelas classes inferiores e, assim, caíssem no gosto popular. Colocava, dessa forma, o gosto da classe de senhores e proprietários em cheque, acusando-os de valorizar apenas os aspectos culturais vindos de fora, tanto em relação ao teatro quanto às obras literárias, em especial as que vinham da França (GUIMARÃES, 2004). Neste momento, ao que parece, Machado de Assis acreditava que seria a partir dos meios mais intelectualizados da sociedade que se poderia ajudar a tirar as classes mais pobres de uma condição limitada pela ordem vigente, rumo ao progresso. Ora, tais ideias oferecem indícios de o escritor ter, pelo menos, certa simpatia com o projeto cultural iluminista.

  Contudo, o decorrer da década de 1870 é marcado por um Machado de Assis que vai perdendo parte de seu otimismo em relação à transformação das artes brasileiras, pelo menos da forma que até então estava convencido. Apesar de reconhecer as dificuldades de “instruir” um povo com pouco hábito à leitura, não remetia essa culpa ao público, dizendo que “este era o efeito, mas não a causa”. Sua crítica social se torna mais contundente neste momento. Machado de Assis irá procurar incorporar seu texto a esta realidade, admitindo que o ambiente cultural brasileiro ainda não esteja “maduro” o suficiente para a criação de novas doutrinas artísticas (GUIMARÃES, 2004). Subentende-se, aqui, uma crítica que vai além do principal obstáculo à leitura popular: a reticência da classe burguesa em incentivar a disseminação da leitura; mas, também, de uma aristocracia que, em seu núcleo, vende seu gosto ao que está em voga na moda europeia, em um jogo de vaidades exclusivo para a alta sociedade, querendo reforçar a divisão entre esta e as demais. Além disso, fica transparente um fatídico reconhecimento de que os artistas brasileiros estão em um meio hostil a sua produção, e a solução sobre a qual Machado de Assis se debruça é a desmistificação literária, se distanciando da descrição da natureza, dos costumes do país, típicos do romantismo.

  Nesse sentido, apesar deste ceticismo no caráter missionário das artes, Machado de escritor tinha a crença de que era o jornal o meio mais democrático para se distribuir informações. Com preço baixo e com uma boa circularidade, buscava através desse fazer com que a população, além de se inteirar das notícias, debatesse e formulasse opiniões. O “jornal faria tremer as aristocracias, mais do que os movimentos populares, pois a discussão nele veiculada exporia a organização desigual e sinuosa da sociedade” (ASSIS apud SILVA, 2009, p. 28). Nesse sentido, Machado de Assis utilizava-se de vários recursos para chegar a este fim, criando textos cheios de ironia, com pseudônimos, ou até mesmo sem nenhuma assinatura que fizesse referência ao autor que escrevia (CHALHOUB, 2005).

  Em um exemplo claro disso, Sidney Chalhoub (2005) analisa, em “A arte de alinhavar histórias”, a ambivalência do relojoeiro Policarpo que de tudo fazia para conseguir se identificar com as ideias da classe senhorial da corte. Contudo, este personagem criado por Machado de Assis, apesar de tentar defendê-las, não as compreendia bem, carregando uma profunda dubiedade em suas opiniões. Quando este artesão tenta se posicionar nas questões relativas à medicina imperial, floreia seu discurso em prol das teorias evolucionistas, correntes à época, e que “outorgavam” à prática médica sua possível superioridade em relação às demais, ditas populares. No final do seu texto, Policarpo percebe o caos que existe no próprio pensamento médico, onde inexistia qualquer sentido de unidade e conclui dizendo: “se morria por certo em qualquer escola, independente de qual fosse” (CHALHOUB, 2005).

  Nesta conclusão acima, pode-se perceber que a distância entre autor e narrador é praticamente nula. Nota-se uma crítica direta a prepotência e a arrogância dos médicos do 1 Brasil Império, que, em sua maioria, eram sectários na defesa da doutrina positivista , à qual Machado de Assis não devotava muita simpatia (LOPES E SILVA, s/d). A repercussão que poderia ter um texto como esse se torna difícil de mensurar, tanto no âmbito local quanto de um modo mais abrangente, como o “nacional”. Isso porque, juntamente com a chegada da família real, em 1808, veio a imprensa e os jornais se alastraram de forma rápida por toda a ex-colônia lusitana (ARAÚJO SALES, 2005). Neste sentido, se torna mais que natural deduzir que não seria apenas Machado de Assis se utilizaria deste meio para debater ideias correntes à época. E não somente as relativas à cura, como no exemplo citado de acima de Chalhoub (2005), mas inúmeros outros novos e velhos temas seriam abordados, tendo esses escritos um legado que permite discernir as nuances literárias machadianas e perceber o 1 amadurecimento de seus dotes como literato.

  

Desenvolvido por Auguste Comte, o positivismo é uma maneira de pensar baseada na suposição de que é

  Um exemplo disso, se encontra em um artigo chamado Folhetim: uma prática de

  

leitura no século XIX, publicado pela historiadora Germana Maria Araújo Sales (2005). Nele é

  feita uma pesquisa em periódicos da época, identificando o sucesso dos romances-folhetins pela intensidade de publicações nos rodapés dos jornais na província do Grão-Pará. A partir do artigo citado, pode-se perceber o quanto esta prática jornaleira estava sendo disseminada nos oitocentos brasileiro, mesmo antes do desenvolvimento ocasionado pelo ciclo da borracha nessa região interiorana, e bem distante dos principais centros urbanos. Tanto no interior como nas cidades litorâneas, as temáticas abordadas no pé das páginas destes periódicos eram bastante profusas, tanto que era difícil fazer uma definição sobre o gênero deste espaço. Contudo, sendo o meio de comunicação mais barato e difundido neste momento, muitos escritores se lançavam à empreitada em busca de notoriedade, retratando, e muitas vezes opinando, sobre as diversas culturas que conviviam e, claro, acompanhando as transformações que emanavam delas em seus textos escritos.

  O jornal era o principal veículo de informações no Brasil dos oitocentos, sendo que os debates políticos por meio deste eram intensos. Além disso, nesta época, a grande maioria das folhas que provinham da imprensa brasileira não escondia o seu cunho ideológico. Muito pelo contrário. Havia calorosos debates de umas contra outras. Mais precisamente, entre os jornais que tinham um conteúdo de cunho mais liberal e outros que expressavam suas opiniões em prol da aristocracia da corte, de cunho conservador. Os movimentos políticos contrários à monarquia “ressurgiram” com todo o gás na década de 1860 (exatamente a época na qual Machado de Assis debutava no meio literário), buscando na história dos movimentos revolucionários do início do século a simbologia que caracterizaria um sistema constitucional representativo. O sete de abril de 1831, dia em que D. Pedro abdicou do trono, aparecerá como exemplo desse ressurgimento representativo (ZAHAR, 2004).

  O esclarecimento desta divisão se torna importante para situar um Machado de Assis que teve várias publicações, por exemplo, no “Diário do Rio de Janeiro”, jornal que levantava de forma clara o brasão liberal. Em uma de suas crônicas, na série “Bons dias!”, o escritor expunha o seu cansaço em relação aos constantes desapontamentos com os acontecimentos políticos que, segundo ele, somente agiam em favor dos interesses particulares, desdenhando e manipulando a opinião pública. Com estes fatos podemos compreender de forma mais concisa qual era o posicionamento do escritor e suas possíveis críticas eclipsadas nas suas obras. Neste sentido, Chalhoub (2005), menciona que,

  Machado de Assis romancista e o Machado de Assis funcionário público compartilhavam a mesma ideologia: ambos aprenderam a não esperar nada de bom da classe senhorial escravista brasileira do século 19 (p. 07).

  O embate do escritor com esta aristocracia, que não lhe imprimia muita simpatia, acontecia de maneira frequente nos periódicos da capital do Império. Machado de Assis aproveitava-se desta variedade temática oferecida pelo jornal e a sua disseminação pelo interior brasileiro (que acompanhava o crescimento demográfico) para compor este enfrentamento, sendo que, por vezes, talvez para não se prejudicar, sequer dava qualquer assinatura nos textos que publicava. Desta forma, o escritor valia-se do anonimato para preencher páginas de jornal com textos carregados de críticas, ironias e deboches, muitas vezes sutilmente subentendidos. No mesmo artigo já abordado acima, Chalhoub (2005) cita uma série de crônicas intituladas “A + B”, onde o escritor apenas apresenta alguns fatos políticos da atualidade por meio de diálogos entre dois personagens hipotéticos (A + B), criando quase que um desafio para o leitor pensar as questões políticas de seu tempo. Tanto para as crônicas que eram publicadas sem a referência do autor, como as que se apresentam com pseudônimos, Machado de Assis ganhava maior liberdade para se expressar e expor suas críticas, na medida em que não se conhecia de fato a identidade de tais opiniões.

  Outro ponto positivo em escrever textos de forma anônima era o fato de o escritor também ter autonomia em relação ao público leitor. Sendo o jornal o principal meio para que fossem expostas a arte e as ideias destes autores, o que era escrito poderia acabar implicando, algumas vezes, em textos tendenciosos, influenciados não só pelo cunho ideológico do jornal já citado, mas por leitores que faziam pedidos e sugestões de todos os tipos para os escritores. Nos periódicos, a proximidade com o público não era maior que a do livro somente pelo preço e pela circulação, mais baratos e disseminados para o primeiro. Mas, também, pela possibilidade dos leitores se manifestarem com anúncios e opiniões inscritas nos jornais, além de ser mais fácil ter ali uma “troca de favores”, por meio do qual poderiam solicitar para o escritor falar disso ou daquilo, fazer um texto que mencione “tal assunto” para fins publicitários e etc. Dessa forma, a produção artística dos escritores ficava, por algumas vezes, cerceada e impedida de se tornar livre. Por conseguinte, os escritores ainda tinham que acompanhar o mercado, já que determinados assuntos constituíam mais assinantes para os jornais e consequentemente mais lucro, enxugando a variedade temática do impresso. Além disso, também de forma razoavelmente frequente, acorria erros e descuidos nas cópias impressas, podendo alterar o sentido, sendo que as revisões somente aconteciam nos livros, mãos atadas” para continuar com publicações no local onde possivelmente ganharia mais dinheiro, devido à sua quantidade e possibilidades de ter seu trabalho escrito, o jornal. Assim, certamente diminuía seu entusiasmo para uma contribuição artística mais efetiva, limitando este aspecto artístico e cultural.

  Ainda sim, não foram poucos os escritores conseguiam libertar-se deste contexto de “confinamento” da escrita, driblando essas restrições com singular sutileza, a exemplo de Machado de Assis. Para estes “artistas das letras”, as próprias barreiras impostas para a produção de arte nacional acabaram por significar algo novo, fazendo com que surgisse um movimento literário inusitado, até então, no Brasil. Nesse sentido, a intenção de muitos autores mudou em relação ao seu texto, abrindo intensos debates entre a “velha guarda do romantismo” e os adeptos à “nova escola literária”, pela disputa de leitores. Este movimento ficou designado como Realismo, estilo que fazia com que seus escritores buscassem em meio aos fatos do contexto social em que viviam a base para a produção de seus textos, contrapondo qualquer tipo de idealização, como a que estava em voga, até então. (SANTOS, CRISTINA, 2008).

  Nesse ambiente, haviam fartos momentos de incertezas, já que, concomitante a transição do Império para a República se dava a passagem de um mundo rural e escravocrata, para um incipiente ambiente burguês, citadino e democrático (mesmo que ainda bastante excludente no que corresponde ao sufrágio). Dessa forma, este turbulento contexto favorece, e muito, o então, hodierno movimento, possibilitando uma interpretação social inusitada, fertilizando a produção artística dos literatos. Indo na mesma direção, com seu estilo irônico, único para o período, Machado de Assis também discorria e contribuía com suas impressões sobre sua época em seus escritos, principalmente ao que concerne o futuro incerto desta transição política. Não é à toa que a obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, escrita pelo “bruxo do Cosme velho”, é considerada o primeiro romance realista do Brasil. (SANTOS, CRISTINA, 2008).

  Contudo, a produção artística brasileira, mesmo acompanhando importantes inovações

  e, de certa forma, se atualizando, ainda cambaleava nas limitações locais impostas. Não eram somente os baixos níveis educacionais já referidos no início deste texto que confinavam a literatura em meios seletos e diminutos. Mas, também, as restrições tecnológicas faziam com que as principais obras publicadas, a partir do momento que esgotassem, levassem anos até que pudessem sair novamente da prensa e acabassem por constituir mais exemplares para primeiro momento (FERREIRA, s/d). Dessa forma, a baixa tiragem de livros no Brasil dificultava a circulação e recepção de obras literárias de uma forma geral, tornando os livros caros, canalizando e elitizando, ainda mais, o público leitor. Sendo assim, uma das consequências ocasionadas por essa penosa situação era a de que estes intelectuais, apesar de certa notoriedade, não conseguiam sobreviver somente com a sua arte. Sendo compreensível que fosse hábito tantos escritores dos oitocentos trabalharem em outras profissões e não somente com a sua pena. Além disso, essa situação corroborava crescimento de publicações em jornais por parte desta elite intelectual, fortalecendo os periódicos e, nem sempre, agradando literatos (FERREIRA, s/d)

  Outro obstáculo que merece maior profundidade de compreensão é o mencionado escasso número de leitores existentes no século XIX. Para elucidar mais esse quadro, índices de alfabetização feitos no final dos oitocentos, início dos novecentos, traçam uma população recém-iniciada nas letras.

  No Brasil, os índices de alfabetização feminina, coletados pelo Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, no período compreendido entre 1880 a 1920, indicavam uma baixa escolaridade: apenas 20% das mulheres sabiam ler e escrever, contra 29% dos homens. (HELLER apud DUMOND, SANTOS, 2002, p. 30).

  Se compararmos estas estatísticas com a de alguns países mais desenvolvidos – onde a escolarização para um público mais amplo iniciou-se mais cedo, graças a movimentos de massa, como o feminista, que reivindicavam a educação como um direito – a situação brasileira fica ainda mais desencantadora para os escritores nacionais. Contudo, se essa comparação se estender a Portugal, por exemplo, país de que herdamos o maior legado, as discrepâncias se amenizam, assim como boa parte dos países do leste/sul europeu. Nas terras lusitanas, a consciência sobre a importância da educação veio concomitantemente ao início do desenvolvimento econômico e a formação da classe burguesa, assim como no caso brasileiro. Entretanto, este processo teve seu início mais cedo e em contextos diferentes. De qualquer forma, foi a partir daí que o povo português se voltou de forma mais incisiva para a resolução do analfabetismo, principalmente nas classes menos favorecidas e, também, de ambos os sexos (RAFAEL, 2011).

  A importância de traçar esta pequena parte da carreira e do perfil de Machado de Assis (assim como de seus companheiros escritores) em um panorama geral – bem como do público que os lia – está na possibilidade de, assim, interpretar melhor alguns de seus contos, os quais, em boa medida, eram publicados em periódicos. A forma de folhetins as quais eram impressas estas pequenas histórias dos escritores do século XIX era quase a mesma que já vinha sendo utilizada na Europa e que fora criada na França. A ideia era de que no jornal existisse um espaço livre para qualquer tipo de assunto ou ficção, abrindo caminho para inovações na linguagem, trazendo um texto mais informal e, ao mesmo tempo, mais próximo e interessante para o público. Este estilo jornalístico, inovador para a época, caiu no gosto da sociedade brasileira já em meados dos oitocentos e acabou se intensificando com o passar do tempo, popularizando ainda mais a mídia impressa (CAVALLINI, 2005).

  O conto “A Causa Secreta”, devido a sua extensão, conteúdo e ano de publicação (1885), pode ser encaixado de maneira clara neste contexto jornalístico. Este conto traz uma interessante gama de possibilidades historiográficas, que podem ser exploradas em seu enredo, e onde se pode buscar compreender as concepções que Machado de Assis tinha em relação aos tipos de patologias reconhecidas como tal (tanto para a medicina oficial, quanto para a dita “popular”) em sua época, assim como uma maior compreensão do que se pode chamar de desvios de conduta ou desvio psicológico na sociedade brasileira, em fins do século XIX. Para isso, pode-se usar como baliza, a forma como seus personagens foram construídos e sua movimentação ao longo da história.

  Neste conto, Machado de Assis escreve sobre três personagens – Garcia, Fortunato e Maria Luísa – envolvidos em uma trama que tem seu início em 1860. Fortunato, personagem principal do conto, é um homem muito respeitado na cidade do Rio de Janeiro, e esta consideração já fica latente quando Machado o descreve como um burguês abastado, capitalista e de meia idade (1983, p. 06). Garcia, um jovem estudante de medicina, conhece Fortunato quando este salva a vida de seu vizinho Gouveia, atacado por capoeiristas no centro do Rio de Janeiro.

  Mesmo antes de os dois personagens principais se conhecerem formalmente, Garcia já tinha percebido alguma singularidade especial em Fortunato. Sua curiosidade foi aumentando conforme crescia a amizade entre os dois. Com a intensidade do convívio, Garcia vai percebendo que em Fortunato existe um comportamento ambíguo, que vai além da “fachada” representada e respeitada no seu convívio social.

  A inusitada forma de agir de Fortunato, que é narrada através dos olhos de Garcia, paira entre a dedicação e comprometimento para com a sua profissão, e a maneira fria e obcecada com que olha, cuida e trata seus pacientes. E, enquanto este olhar desvenda a causa secreta da conduta do médico Fortunato, da mesma forma, o leitor do conto percebe, no decorrer da trama, que em Garcia também há uma especificidade anormal, na excessiva

  Além disso, Maria Luísa, que Machado descreve como uma “moça de vinte e cinco anos, esbelta, airosa, de olhos meigos e submissos”, que era casada com o doutor Fortunato, participa ativamente nas emoções dos dois personagens, sendo alvo do comportamento dos amigos. Apesar de ser personagem secundária no enredo, é com essa mulher que as causas secretas começam a se tornar mais evidentes. Já que é nela que pode-se notar, mais presente, o moralismo social da época. E, em vários momentos, as dicotomias entre vontade e moral se tornam mais patentes.

  A convivência entre os três personagens se torna mais intensa a partir do momento que Fortunato e Garcia resolvem abrir uma casa de saúde.

  A comunhão dos interesses apertou os laços da intimidade. Garcia tornou-se familiar na casa; ali jantava quase todos os dias, ali observava a pessoa e a vida de Maria Luísa, cuja solidão moral era evidente” (ASSIS, s/d p. 05).

  Com o fluir dessa vivência, um sentimento proibido de amor acabou nascendo no doutor Garcia por Maria Luísa, acarretando no sofrimento de ambos. Ainda sim, o golpe final para Maria Luísa foi quando Fortunato resolveu transferir o seu laboratório de estudos anatômicos e fisiológicos para casa onde moravam. Nesta atividade, Fortunato utilizava-se de cães e gatos como cobaias. Contudo, o guincho do sofrimento dos animais muito atordoava sua esposa, aumentando sua angústia e tormento. A forma como Maria Luísa sofria era tamanha que parece ter sido esse o motivo para o início de uma moléstia que lhe seria fatal.

  A causa secreta somente é desvendada aos olhos de Garcia (e, consequentemente, do leitor) no momento em que este, ao chegar à residência do casal, se depara com Maria Luísa saindo aflita do gabinete de Fortunato. E, não é para menos. Garcia vê Fortunato em êxtase torturando um rato, cortando-lhe pedaço por pedaço até sua morte. Nada de raiva ou ódio. Apenas o prazer de contemplar o sofrimento do animal.

  O desfecho final do conto se dá quando Maria Luísa morre tísica, moléstia muito comum nos oitocentos. Nos momentos finais de sua vida, Fortunato a acompanhou com toda a dedicação possível, fazendo de tudo para seu cuidado. Somente no velório da moça é que a paixão de Garcia foi demonstrada para Fortunato. Pois, este consegue flagrar o médico, em lágrimas, dando um beijo apaixonado no cadáver, finalizando o conto com mais um prazer contemplativo de Fortunato em relação à dor.

  No primeiro capítulo, serão abordadas as representações femininas existentes no século XIX. Tentando delinear as possíveis opções que Machado de Assis poderia ter, caso Luísa. Da mesma maneira, observar características históricas que possam compactuar com a personagem e que possivelmente forneceu embasamento para sua construção.

  O segundo capítulo terá como aporte a história da psicologia no Brasil, tentando delinear como se constituía essa profissão no momento em que Machado de Assis escreve o conto. Para, dessa forma, buscar a compreensão do universo em que Garcia foi criado, estabelecendo, através de seu comportamento, possibilidades de existir características congruentes entre ele e a profissão.

  No terceiro e último capítulo, será analisado o personagem principal da obra, Fortunato. Nesse sentido, as práticas médicas terão um maior aprofundamento histórico, com o intuito de compreender as relações de força entre médico e paciente, nos oitocentos brasileiro. Além disso, foi mapeado o que poderia ser considerado patológico em termos de saúde mental.

  Pivô amoroso de Garcia e Fortunato, Maria Luísa pode ser extremamente representativa como um modelo típico de inúmeras mulheres que viviam no Brasil da segunda metade do século XIX. O escritor descreve uma mulher que pode ser definida como um exemplo de boas maneiras e de extremada virtude moral. As características atribuídas a ela remetem à valores e modos de comportamentos que eram propagados de forma crescente no decorrer desse período brasileiro, principalmente entre a sociedade burguesa. Estes eram em sua maioria importados da Europa e, muitas vezes, copiados de forma bastante cômica por essa nova classe social do país. Na época em que é narrada a trama machadiana, tem-se justamente o começo de consolidação do sistema capitalista brasileiro, circunstância que corrobora a passagem de um mundo quase que exclusivamente rural, para o início de uma vida mais urbana. Por esta ocasião, acaba “nascendo uma nova mulher”, com uma atuação social inusitada até então (D‟INCÃO, 2009).

  Logo no primeiro parágrafo do conto, Machado de Assis, a partir de uma diegese, nos mostra um ambiente extremamente tenso, onde Maria Luísa está à beira da janela de sua casa fazendo um “trabalho de agulha” (ASSIS, s/d, p 02). Nessa cena, ambientada juntamente com Fortunato e Garcia e onde ambos são retratados com semblantes de serenidade e severidade respectivamente, quem acaba por demonstrar o nervosismo do ambiente é Maria Luísa. Seus dedos ainda pareciam trêmulos, resultado do episódio anterior da obra, no qual, mesmo que o leitor até então não saiba, foi revelada a causa secreta do marido. Nesse momento, a personagem é descrita fazendo um trabalho de bordados e costuras, tarefa típica das donas de casa dos oitocentos brasileiro (SANTIAGO, SILVA, FARIAS, MOTA, s/d). Esse tipo de ocupação era bastante direcionado para as mulheres dessa época, que, juntamente com a ilustração da delicadeza e da fragilidade do feminino, no tremor das mãos da personagem, o escritor já delineia um arquétipo de mulher que permanecerá, ao longo do enredo, externando características sempre análogas. Segundo a narração pormenorizada do próprio autor: “(...) Maria Luísa é que possuía ambos os feitiços, pessoa e modos. Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove (ASSIS, s/d, p 04).

  O desenrolar do enredo vai configurando, aos poucos e, principalmente através da Luísa. Por meio das impressões do amigo do casal, o leitor, cada vez mais, depara-se com a descrição de uma esposa com quase nenhuma voz ativa na relação conjugal em que vivia. Sem diálogo algum, nada de contrapontos. Tudo o que Fortunato decidia era acatado de forma silenciosa pela mulher. Quando a amizade de Fortunato e Garcia se consolida de vez e estes resolvem abrir uma casa de saúde, a reação de Maria Luísa é significativa: (...) e foi uma desilusão para Maria Luísa. Criatura nervosa e frágil, padecia só coma ideia de que o marido tivesse de viver em contato com enfermidades humanas, mas não ousou opor-se-lhe, e curvou a cabeça (ASSIS, s/d, p 05). Além da reticência da personagem em se opor ao marido, o que pode ser percebido nesse trecho da obra, mesmo que de maneira muito sutil, é certo receio ou até mesmo medo de Maria Luísa em ver Fortunato em contato mais frequente com os doentes. Pode ser que seja pelo zelo para com cônjuge ou, quem sabe, por já saber de sua patologia e penar pelos pacientes que irão ser tratados pelo mesmo.

  O conto, como um todo e por si só, gira em torno de questões éticas e, nesse sentido, nenhum personagem está isento. Além disso, pode-se generalizar que, de certa forma, todos os ambientes ao qual Maria Luísa aparece esta atmosfera moral criada ao seu redor aparece de forma mais patente. Um exemplo claro disso está no trecho:

  “A comunhão dos interesses apertou os laços da intimidade. Garcia tornou-se familiar na casa; ali jantava quase todos os dias, ali observava a pessoa e a vida de Maria Luísa, cuja solidão moral era evidente. E a solidão como que lhe duplicava o encanto. Garcia começou a sentir que alguma coisa o agitava, quando ela aparecia, quando falava, quando trabalhava, calada, ao canto da janela, ou tocava ao piano umas músicas tristes. Manso e manso, entrou-lhe o amor no coração. Quando deu por ele, quis expeli-lo para que entre ele e Fortunato não houvesse outro laço que o da amizade; mas não pôde. Pôde apenas trancá-lo; Maria Luísa compreendeu ambas as coisas, a afeição e o silêncio, mas não se deu por achada (ASSIS, 1983, p 05)”.

  O que se percebe nesse parágrafo retirado do conto é a história de um amor impossível, de uma moça frívola e emotiva, clássico para os romances da época (DUMONT E SANTO, 2007). A certeza de Garcia em relação ao seu sentimento para com a personagem, silenciado pela amizade que este tem com o marido da moça, não se dá na mesma medida entre os dois. Ao que parece, mesmo tendo percebido o nível de empatia que o sócio de Fortunato sentia por ela, Maria Luísa não consegue sequer imaginar qualquer possibilidade de, ao menos, definir e aceitar que compartilha da mesma afeição, permanecendo perdida nas suas emoções.

  Para fechar as características que Machado de Assis atribui à Maria Luísa, torna-se relevante, ainda, abordar dois fatos ocorridos nesta trama. O primeiro deles acontece quando Fortunato resolve estudar anatomia em casa, utilizando-se de animais para tal engenho. sofresse simultaneamente com as cobaias, horrorizando a moça todo aquele sofrimento dos pobres bichos. Entretanto, mesmo estando unidos pelos laços do matrimônio, Maria Luísa não tem coragem de expor sua angústia ao marido, tendo o desembaraço de relatar seu sofrimento apenas a pessoa que a admira secretamente, Garcia. Como argumento para justificar seu medo, a personagem explica ao amigo de Fortunato que se ela própria fosse pedir ao marido que cessasse com as experiências, este diria que o motivo era uma bobagem, coisa de criança (ASSIS, s/d). Por conseguinte, ainda resta o fato que encerra o conto, onde Maria Luísa quase desmaia ao ver Fortunato torturando um rato que havia aparecido em sua casa. Essa última cena descrita por Machado de Assis antes da morte da personagem, causada pela tísica é mais um momento que reforça a fragilidade de Maria Luísa.

  Exposto as principais características desse arquétipo machadiano, faz-se a necessidade de tentar delinear quais seriam as alternativas que teria o autor, caso este quisesse descrever outros tipos de mulheres. Que opções, afinal, Machado de Assis poderia retirar, como exemplo feminino, no contexto social em que viva? A tarefa que se coloca aqui não é das mais fáceis, já que em meados da década de mil oitocentos e oitenta, período em que o escritor publica seu conto, a diversidade feminina se espraia de forma contínua pela sociedade carioca e nacional. Dois são os principais paradoxos que se encontram nesse momento entre a classe burguesa, tipo social descrito no conto: de um lado a mulher tradicional, recatada, voltada para os cuidados domésticos e zeladora das virtudes morais e das boas maneiras; de outro, as transgressoras de regras e normas, mais voltadas para a autonomia, a independência, ou ainda, as que apenas fingem seguir as diretrizes de bom comportamento social (FERREIRA, 2003).

  A época de Machado de Assis foi marcada por muitas transformações que acompanharam a passagem campo/cidade. Dentre as relevantes e que podem ajudar a compreender a formação do arquétipo de uma mulher como Maria Luísa, estão, por exemplo, as relacionadas com questões afetivas e sexuais, nas quais a representação ideal da mulher seria do tipo amorosa e assexuada, ou melhor, virgem. Isto porque, juntamente com o novo sistema econômico, veio a necessidade de instituir novos valores que, como já fora mencionado, eram copiados e importados de determinados países europeus: os valores burgueses. Esse redimensionamento cultural trouxe em seu bojo um tipo singular de civilização, onde os costumes da dita “alta sociedade” teriam como parâmetro o que necessariamente pudesse representar o que era considerado moderno destas regiões O que para uma visão contemporânea certamente seria considerado como caso extremo de machismo, no tempo de Machado de Assis o considerado “moderno” nos meios literários estava fixado em um dualismo sexual: os meios políticos e intelectuais aos homens, enquanto que para às mulheres cabia o zelo pela moral e os bons costumes. E, claro, estando o escritor mergulhado neste contexto, o que era literariamente criado nesse momento refletia (pelo menos em sua maioria) a reprodução ou, ainda que de forma modesta, o embate dessas normas de conduta no Brasil (CÂMARA DE MORAES, 1998).

  Nessa relação com o gênero feminino, “A Causa Secreta” permanece com um tom mais conservador, descrevendo sua única mulher com afazeres domésticos e sempre zelosa pelo casamento, mesmo que infeliz. Ao que parece, pelo menos em um primeiro momento para o leitor, Machado simplesmente não tem a intenção de abordar esta temática como algo a ser debatido, focando apenas o lado da psicopatia médica e da reflexão das atitudes dos profissionais da medicina naquele momento. Esta dedução poderia representar uma realidade diversa de sua vida. Até porque para este, acostumado a escrever em um jornal liberal, como, por exemplo, no Diário do Rio de Janeiro, não seria estranho desenhar uma mulher mais atuante e relutante com o tipo cultural condicionado até então, sendo que este tipo certamente existia. E, também, muito provavelmente não faltariam leitores (e, quem sabe, principalmente leitoras) com interesse neste conteúdo. Contudo, uma leitura mais atenta e com o conhecimento da sua forma irônica de escrever, cria-se a possibilidade de fazer com que essa conclusão mude, hipótese que será comentada no final.

  A contínua metamorfose social que culminou com a passagem do Império para a República conduziu uma nova política social que também afetava o comportamento feminino

  • – a limpeza urbana – onde as impurezas seriam os próprios brasileiros que, em sua maioria, eram de baixa renda e não se adequavam a nova ordem estabelecida. Para que esta ação governamental tivesse êxito, foi utilizada uma espécie de associação entre Estado e a classe médica, principalmente com a que tinha a prática especializada em doenças mentais. Neste sentido, todo tipo de comportamento que não se adequasse ao “requinte urbano” poderia ser considerado anormal, patológico. A sexualidade, o trabalho, o fanatismo religioso, dentre outros tipos de conduta que não se enquadravam na concepção que se buscava de “ser civilizado”, não raramente eram considerados uma doença mental (ENGEL, 2009).

  Mas o que, afinal, isso tudo tem haver com Maria Luísa? Teria ela algum desvio de conduta como possivelmente apresentam os outros dois personagens e que poderia se também ter alguma causa secreta que os leitores contemporâneos à publicação do conto pudessem identificar? A descrição que Machado faz desta personagem pode nos trazer algumas respostas. Além disso, o comportamento conjugal que essa mantém com Fortunato, o tipo de conduta que ela sustenta diante das adversidades pelas quais passam o casal, abre caminhos para algumas hipóteses de como se configurava a vida privada neste cenário nacional.

  O perfil traçado pelo escritor remete a uma mulher bonita e que, além de possuir um olhar submisso, também tinha modos que “transcendiam o respeito e confinavam na resignação e no temor” em relação ao seu marido. A representação é de um casal sem muitas coisas em comum e com “pouca ou nenhuma afinidade moral”. A construção desta imagem feminina (bonita, frágil e submissa) não é novidade para a literatura da época, já que neste período a mulher estava fortemente identificada com a idealização da natureza, assim como o homem, ao contrário, estava mais ligado à questões racionais (ENGEL, 2009). Contudo, a singularidade deste enredo pode estar nos motivos pelos quais Maria Luísa apresenta um comportamento mais “conformado”.

  Em um de seus trabalhos, intitulado “Psiquiatria e feminilidade”, a historiadora Magali Engel (2009) aborda três casos de internação médica de diferentes mulheres que viviam em fins do século XIX, início do XX, por motivos de doença mental. Assim como a personagem machadiana, estas também eram casadas. Entretanto, diferentemente de Maria Luísa, elas não se mantêm casadas até o final de suas vidas.

  No primeiro caso relatado por Engel (2009), a infidelidade conjugal por parte da esposa faz com que o matrimônio não perdure. Mesmo não tendo um comportamento que pudesse ser considerado insano para os dias de hoje, o fato de esta mulher ter tido amantes, fez com que os psiquiatras da época a diagnosticassem como ninfomaníaca e a internassem. Aqui, podemos deduzir a suposta confusão sentimental que Maria Luísa teve, quando se deu por conta da amorosidade de Garcia. Para as almas femininas do século XIX, a traição conjugal poderia ter não só a retaliação do marido, mas de toda a sociedade, podendo ser considerada doente por causa disso. Dessa forma, considerar implícito o fato de ela permanecer perdida em relação ao que realmente sentia, não querendo (e, assim, tendo o azar de) aceitar que poderia estar apaixonada pelo amigo de Fortunato, de maneira alguma é absurdo.

  O segundo caso não se configurou mais sério só porque acabou com um assassinato do determinado tempo de casada, não demonstrar mais sinais de afeto, tanto pelo marido, quanto pelos filhos. Também foi internada.

  Esse episódio é emblemático para se compreender o quanto as normas de comportamento social eram tidas de forma rígida e extremista. No processo crime estudado por Engel (2009), a mulher não é considerada criminosa, mas sim louca. A justificativa é clínica, o fato de a esposa não se comportar de forma adequada, como manda o figurino social (no caso, apaixonada pelos filhos, pelo marido e zelosa do lar), da qual bebe a medicina da época para diagnosticar pacientes, faz com que ela seja internada para tratamento, não indo para uma cadeia comum, supostamente mais óbvio nos dias de hoje.

  Mais uma vez, os jornais que circulavam na sociedade Machadiana podem nos oferecer algumas respostas, desenhando o mundo que era “proposto” para as mulheres, em especial as burguesas. Nesse sentido, os periódicos brasileiros assumem um papel de condutor social para um novo estilo de vida, mais requintado e civilizado, contrastando com o campo, considerado rudimentar. A eficácia desse meio para atingir o novo “corpus social” é considerável, sendo intrínseco o seu potencial difusor e criador de novos discursos, a partir do seu “diálogo” com o leitor. Dessa forma, pode-se afirmar que o jornal representa ser um formador de novas configurações sociais, tendo a capacidade de criar novas identidades devido a sua fecundidade, principalmente no meio citadino (FERREIRA, 2003).

  Em relação à necessidade de novos estilos de vida:

  Com a transferência da Corte Portuguesa para o Brasil, para alguns o acontecimento mais importante depois da chegada da frota de Cabral, o Brasil deixa de ser colônia para se tornar a sede da monarquia portuguesa e a cidade do Rio de Janeiro, capital da colônia desde 1763, recebe entre 15 a 16 mil novos habitantes, tornando-se o centro do Império e palco de grandes mudanças sociais (Cardoso, 1988) pode-se dar uma dimensão do quanto a imprensa era “necessária” para um classe que poderia estar perdida (Apud FERREIRA, 2003).

  No entanto, mesmo com o processo de urbanização, não houve um deslocamento, pelo menos em seu início, para uma sociedade menos patriarcal, mais igualitária. O homem continuou ditando as regras no meio político, conforme sua vontade. As leis, os processos jurídicos e, além disso, os principais (para não dizer todos) trabalhos profissionais e cargos públicos eram ocupados por homens (SAMARA, 1989).

  Em relação aos meios de comunicação, o contexto não era diferente. Nesse caminho, desde que os primeiros jornais começaram a ser impressos em território nacional, juntamente com a vinda da corte portuguesa para o Brasil, eram, do princípio ao fim, feitos e escritos predominantemente por homens, raramente aparecendo algum texto assinado por uma mulher. idealizado por um gênero apenas, rejeitando e subordinando as proposições femininas. Por conseguinte, para garantir o status civilizado, racional e, claro, “macho”, era preciso um discurso – de preferência científico – que colocasse a mulher em seu lugar: uma dona de casa frágil, abnegada, submissa, amorosa para com os filhos e o marido. Para outorgar essas premissas masculinas, os meios políticos, juntamente com as práticas empregadas pela medicina, foram as principais vertentes que configuravam esse perfil desejado (FERREIRA, 2003).

  No caso político, os ideais positivistas incorporados pela elite brasileira, principalmente a partir da República, não mudaram substancialmente o panorama social da mulher, mantendo a desigualdade sexual. Mesmo que os princípios comteanos designassem o papel feminino como o de redentor da nação, com qualidades morais e altruísticas, sua figuração continuou seguindo a linha da subordinação. Um exemplo disso pode ser pensado a partir da proibição do acesso ao voto para as mulheres, sendo o sufrágio dedicado somente ao meio masculino. A justificativa empregada pelos representantes do governo era de que, na medida em que a mulher fosse se envolvendo nos meios mais politizados da sociedade, acabaria por perder sua pureza, de suma importância para manter as famílias brasileiras fora do alcance da imoralidade que corrompia política (ALMEIDA, 1999).

  Retomando a linha jornalística, outro modelo que pode ser empregado para se compreender as limitações femininas no século XIX, está no periódico “O Médico do Povo”. Jornal carioca e de cunho científico, publicado aos domingos pelo doutor Mello Moraes, destacou-se um artigo no qual falava das características que possuíam as mulheres brasileiras. Com o título “Caráter geral dos brasileiros”, a ideia que se quer passar é a de que neste país existiam as melhores mulheres do mundo, sendo nesse lugar onde elas são mais “amáveis, doces, brandas, fiéis, extremosas e boas mães de família, etc”. Isso, claro, também acompanhada de uma “fina” educação, de preferência. Esse tipo de estereótipo que encontrava eco na sociedade masculina oitocentista tentava delinear uma mulher que só seria realmente boa se seguisse os moldes civilizados e requintados da nova elite urbana (REMER, 2010).

  Por fim, no último caso estudado por Engel (2009), apesar de o marido não ter sido morto, houve uma tentativa de homicídio por parte de sua esposa. Contudo, os motivos pelos quais esta queria lhe tirar a vida estavam relacionados ao medo do esposo abandonar o lar e deixá-la sozinha com os filhos. Apesar de o diagnóstico ter sido de degeneração e histeria, o tempo de internação foi extremamente curto, diferentemente das duas primeiras mulheres que permaneceram em clínicas de tratamento infinitamente mais que essa última. O que caracteriza as diferenças quanto ao tempo de internação pode não ser o fato da infidelidade conjugal configurado no primeiro caso, ou do assassinato descrito no segundo, caso mais óbvio. As diferenças estabelecidas entre esse processo e os dois iniciais, também pode ter uma motivação relativa às normas de conduta propagadas no período estudado. Essa hipótese deve ser considerada, já que a extensão do tratamento foi equivalente à gravidade da falha no âmbito familiar: o comportamento fora do “bom tom” no âmbito conjugal, só é justificável quando já existe, por uma das partes, a transgressão das normas sociais estabelecidas. Um crime pode ser extenuado caso tenha como justificativa a quebra de conduta por uma das partes do casal. Para fins de comparação, se torna interessante relacionar outro romance machadiano, “Helena”. Nele, o escritor também aborda um caso típico de submissão feminina, de sociedade patriarcal, com um enredo que tem como temática a infidelidade conjugal. A partir de um suposto caso extraconjugal, descobre-se que Helena é filha de um homem bastante rico, o “conselheiro Vale”. Considerando que o reconhecimento paterno veio a partir de um testamento, e que a esposa do conselheiro, agora sabendo que esse a traía, já não poderia lhe fazer mal algum, a viúva se vê obrigada a também a aceitar Helena e lhe trazer para o meio familiar, mesmo não sendo sua filha legítima. Com essa analogia, o que interessa salientar é o fato de que mesmo com a traição do marido – que, da mesma maneira que foi citado por Engel (2009), transgrede as normas de comportamento social – o que prepondera é a vontade masculina, onde a esposa do falecido é obrigada a admitir a filha bastarda do seu cônjuge. Nesse sentido, percebe-se que a mulher sempre está em disparidade na relação conjugal, sendo fiel ou não e, mesmo que a pena não tenha um tempo muito estendido, o sistema sempre tem uma brecha que pode fazer dela condenada. Para que se constituíssem essas práticas sociais, não se pode deixar de considerar, além do que já foi dito, o quanto a influência das escolas, principalmente católicas, afetaram este processo. O ensino brasileiro começou a ganhar corpo de forma mais contundente no século

  XIX. Pois foi a partir desse momento que começou a figurar de forma mais abrangente, escolas normais nos Estados da Federação – mesmo que, em sua maioria, fossem de péssima qualidade. Muitas mulheres de baixa renda procuravam esses estabelecimentos de ensino. Contudo, para as moças de família das classes dominantes e que quisessem obter uma eram os internatos religiosos. Ali, tinha-se a crença de que poderiam manter as mulheres protegidas dos malefícios sociais, tendo a tutela moral da igreja (ALMEIDA, 1999). Dessa forma, estas instituições de ensino, não somente conservavam o discurso moralizador e patriarcal da sociedade, como, também, influenciavam os seus devotos católicos, que, graças ao legado lusitano, provavelmente configuravam a maioria religiosa do Brasil.

  Além disso, as filhas de famílias mais abastadas também poderiam ter acesso ao ensino a domicílio. Nesses casos, os professores particulares que iam até às casas dessas moças poderiam ser brasileiros ou, de forma bastante frequente, estrangeiros. As práticas domésticas eram as mais corriqueiras no ensino, como agulha e costura, exemplo já citado. Outras instruções se resumiam, basicamente, em alguns dotes artísticos, uma cultura literária básica

  e, claro, regras de etiqueta para se adequar ao novo estilo civilizado. Esse modelo educacional feminino permaneceu com força até finais do século XIX, quando escolas particulares começaram a abrir cursos para mulheres. (ALMEIDA, 1999). Nota-se que as prescrições religiosas – principalmente cristãs – e as formas de ensino desse período, congregavam forças para impor sua vontade patriarcal, imprimindo normas de conduta que, devido à importância de suas tradições e representações na sociedade, favoreciam a assimilação e aceitação desse tipo de comportamento.

  O que se pode observar nesse conjunto descrito é que as mulheres estão sempre em desvantagem nas relações de poder da sociedade oitocentista. Com uma educação voltada apenas para as prendas domésticas e as primeiras letras, muito pouco se podia ter de expectativas para obter alguma mobilidade social ou uma representação de maior autonomia no meio profissional.

  Com tais limitações impostas, uma das poucas oportunidades de que dispunham as mulheres do século XIX, para obter uma representação mais considerável na sociedade brasi- leira era o casamento. Independente de existir amor, a constituição de uma família, a partir do casamento, dá a possibilidade de uma nova posição na sociedade, na medida em que constituir matrimônio com um homem ou uma mulher de origem nobre, significa adquirir uma repre- sentação diferenciada, com significados distintos, etc. Algumas personagens machadianas, por não conseguirem ascender socialmente se valiam do enlace para chegar a tal fim (BERGA- MINI, s/d). Nesse sentido, Machado de Assis retrata as mulheres oitocentistas, em grande parte, em uma busca por um determinado tipo de identidade coletiva, angariando subsídios para se enquadrarem no perfil de determinado grupo social ou de gênero.

  Para dar uma dimensão maior do que poderia significar esse pertencimento à classe social burguesa, Foucault (2010) faz referência às variações de identidade no tempo. Não em um sentido limitado e só referente à burguesia ou ao gênero feminino, mas de forma ampla e sem especificidades, podendo se encaixar em muitos contextos e tipos. Nesse sentido, segun- do o filósofo, os questionamentos devem ser feitos a partir do que é identidade e o que não é identidade em determinado período histórico. Indo ao encontro deste pensamento, sabemos que no século XIX brasileiro houve um início de ruptura nas tradicionais formas de “compor- tamento rural”, até então existentes (ALENCASTRO, 1998). De maneira que, se fez necessá- rio o relato acima, para compreender quais eram os novos modos de proceder entres as dife- rentes classes sociais dos oitocentos no Brasil. Para, a partir disso, estabelecer o que era con- siderado “normal” nos jeitos de se portar, nos seus modos, hábitos e os tipos de conduta em determinados momentos, para organizar, de maneira clara, as diferentes classes sociais.

  Para aprofundar mais a compreensão desse saber, é importante salientar que não se pretende neste trabalho utilizar uma concepção de culturas fechadas em um núcleo comum. Muito pelo contrário. Uma das finalidades procuradas aqui é também buscar, na medida do possível, quais as práticas culturais que podem ter sido compartilhadas por essas diferentes classes, tendo em vista a possibilidade de criação de novas formas de se portar no quotidiano imperial e republicano, a partir de um provável convívio social entre as diferenças. Além disso, tem-se a atenção para o caso de existir a possibilidade de que haja integrantes de um mesmo patamar social que não se “identifiquem” com determinadas normas de comportamento, procurando outras formas de vivências que não as genealógicas ou de uma classe médica, por exemplo.

  Ainda em relação à questão genealógica aventada acima – em se tratando de laços familiares e seus comportamentos – se configura no pensamento foucaultiano uma importante relação de paridade. Foucault acredita que é a partir dela que se tenha a primeira percepção de identidade, onde a revelação do outro está sob o domínio do mesmo. Ainda sim, ciente de que não é só por este aspecto que se podem definir identidades, já que, dessa forma, estariam exclusos os reprimidos pelos sistemas de poder ao longo dos tempos. Além disso, também devemos pensar no que está imerso em condições materiais nessa dinâmica, onde existem tensões e interesses distintos, e não em um pressuposto romântico de um amor qualquer. O exemplo já mencionado relacionado ao matrimônio pode constituir um panorama desse paradigma, onde os casamentos são estabelecidos visando, na maioria das vezes, apenas a herdeiros, para manter ou ampliar suas posses materiais. Dessa forma, pode-se notar que existem maneiras incomuns de comportamento entre as classes, justamente porque, quanto mais alta a posição social, maior o interesse em tornar visível sua distinção entra essa e as demais, reproduzindo determinados tipos de costumes e normas. A partir desse quadro apresentado, podemos retomar o conto e ver que a descrição de Maria Luísa, feita por Machado de Assis, pode se enquadrar perfeitamente na conjuntura social que existia no momento em que o escritor define o início da história, 1865. Contudo, é exatamente neste momento que o panorama de resignação da mulher começa a dar sinais de mudanças, em direção a uma participação social mais autônoma nesse universo marcadamente patriarcal, como será descrito ainda. O que deve ser considerado neste instante é a visão que o autor tinha no momento em que escreve o conto, em 1885, vinte anos depois. Nesse sentido, perceber as mudanças que ocorreram nesse intervalo de tempo e tentar, de forma mais precisa, entender o que pode estar por trás de uma personagem, aparentemente, tão correta e congruente com as normas que eram consideradas de “bom tom” nesse meio burguês machadiano, podem demonstrar o quanto esse mundo poderia ser criticado tanto pelo escritor, quanto pelos leitores que compartilhavam esse tipo de literatura. Em meados do século XIX a configuração social brasileira começa a harmonizar, não somente em relação às normas de etiqueta, mas, também, a um sentimento de prosperidade que não se adequava mais aos valores que até então percorriam a sociedade. A corriqueira importação de hábitos, modas, e infinitas outras “utilidades” vindas da Europa e dos Estados Unidos, acabaram por estimular discussões mais “humanísticas” com o passar do tempo, abrindo espaço para refletir sobre os direitos de cada um dentro da sociedade. Os ideais liberais e republicanos que compactuavam com as campanhas abolicionistas ganhavam cada vez mais força dentre a sociedade brasileira. Nesse sentido, os jornais vindos e comercializados de outros continentes, noticiando os acontecimentos que, muitas vezes, alteravam a ordem social dessas regiões eram propagados de maneira progressiva entre os meios citadinos (ALMEIDA, 1999). O berço da imprensa feminina se dá a partir desse momento. Desde os primórdios da contestação à Monarquia brasileira as folhas impressas destinadas a esse público ganharam força, com mais presença entre o público leitor. O surgimento desse tipo de mídia tem sua gênese exatamente no momento em que as tensões sociais atingiam um ponto bastante considerável. Acompanhando esse processo, as reivindicações femininas por uma participação

acesso à educação e, também, participação política através do voto, atingiram seu ponto máximo com a instauração da República. Afinal, para um novo contexto político, rumo a uma nova sociedade, nada mais adequado que uma nova mulher, acompanhando o ritmo de tais transformações. (ALMEIDA, 1999). Portanto, pode-se afirmar que as origens dos prelos femininos se configuram em um momento tenso e conturbado politicamente, sendo resultado de tais contradições.

  Nesse sentido, se torna importante salientar que nem todas as mulheres dos oitocentos viviam para o casamento assim como Maria Luísa, logicamente. A sua forma, muitas delas buscavam liberdade para expandir suas vontades. Mesmo que a relação que se tinha com a leitura, do tipo machadiana, por exemplo, fosse sempre difícil, sendo esta prática proibida em alguns meios sociais, essas mulheres não se reservavam de forma acomodada com livros sobre moralismos e preceitos de família, que eram especialmente destinados a elas. O fato é que muitas liam escondido seus romances ou o que conseguissem ter acesso e desejo de ler (CÂMARA DE MORAES, 1998). Mesmo não sendo retratado neste conto aqui trabalhado, o próprio Machado de Assis já criou mulheres solitárias e com livros nas mãos ou de uma dubiedade entre moral e adultério, como no caso de Capitu. Dessa forma, muitas mulheres, mesmo com toda a proibição, conseguiam seguir em um caminho ascendente de alfabetização, que não raramente transcendia as primeiras letras. Acabavam lendo o que era noticiado em outros países. Movimentos como o feminista em Portugal ilustram um pouco do que se poderia ter acesso nesse momento, além de fornecer um conteúdo bastante diligente nas proximidades do final do século XIX (RAFAEL, 2011). Para elucidar um pouco mais sobre o mundo que rodeava Machado de Assis, em especial sobre o gênero feminino:

  A partir de meados do século XIX, a cidade do Rio de Janeiro presenciou o surgimento de uma infinidade de jornais e revistas dedicados à família e à mulher. Esse tipo de imprensa, meio de comunicação de grande importância na construção da esfera pública, dividiu com o livro o espaço das cestas de costura. No entanto esses jornais não se limitaram a difundir os romances da época sob a forma de folhetins. Dirigidos à família e especialmente à mulher alvo de seu discurso e sua principal interlocutora tornaram possível o desenvolvimento de um espaço cultural através da imprensa no qual a subjetividade originada na esfera íntima da família foi cada vez mais tematizada (...)” (BICALHO, Apud ALMEIDA, 1999, p 34).

  Com uma conjuntura favorável de fatores (maiores oportunidades educacionais, expansão de uma imprensa voltada para as mulheres, etc.) que propiciaram a abertura de algumas mudanças na posição feminina em relação ao seu papel na sociedade, as mulheres brasileiras foram conquistando, de forma crescente, um espaço participativo mais equânime estava o incentivo a educação, muito propagado em revistas de estilo feminil. A mensagem que provinha desse meio era de que a mulher tinha que ser combativa, corajosa, mas sem eximir-se do papel sagrado de ser mãe, personagem crucial na educação familiar. Dessa forma, rompeu-se a brecha necessária para que a mulher se voltasse para formas mais emancipatórias de vida, começando as primeiras manifestações no plano político e ideológico. (ALMEIDA, 1999). Entretanto, essas conquistas femininas não se deram de maneira branda, muito pelo contrário. A resistência masculina para que as mulheres pudessem ultrapassar a barreira do espaço doméstico representou um grande obstáculo para que as mulheres ganhassem maior representatividade social. Havia uma oposição considerável nos periódicos mais tradicionais da elite carioca. Qualificavam os movimentos femininos de outros países da Europa e do norte da América apenas como uma desordem, considerando que as mulheres brasileiras não se adequavam a esse mesmo espírito caótico, de ideias pouco apropriadas para uma imagem de mãe e esposa digna. Além disso, o conservadorismo pedagógico e a reticência católica constrangiam as mulheres em sua luta (CRUZ, 2008). Contudo, o atravanco estabelecido por esse universo masculino arraigado há bastante tempo não fez com que o mundo feminino silenciasse, suas vozes ecoaram nas entrelinhas do poder. Mesmo presas aos valores sociais, essa mulheres faziam parte da construção daquela sociedade. Movimento que se sucedeu ainda de maneira branda em meados do século XIX, ganhando força, principalmente, nos anos próximos a virada para o século XX, a contínua expansão da imprensa feminina se configurava em um lugar de distinção social da mulher. A organização que se deu nesse sentido, criou uma identidade constituída entre suas leitoras, onde os anseios e insatisfações desse gênero, publicadas nas páginas desses periódicos, eram confundidas com as vontades cobiçadas pelo público que os lia (FERREIRA, s/d). Dentre os desejos mais recorrentes e essenciais descritos nos jornais voltados para as mulheres está o apoio à extensão do ensino para as mulheres e a reivindicação ao sufrágio feminino. Esse tipo de temática ganha corpo com o início da República, acompanhando, agora sob suas perspectivas, a metamorfose que se instituiu com esse novo sistema nacional (FERREIRA, s/d). Interessante notar é que tais reclamações apontam para um rumo mais político, mesmo que o vento ainda não esteja muito favorável, na medida em que o sistema republicano, em princípio, não alterou substancialmente o patriarcalismo social. Na mesma medida, a magnitude com que as mulheres viam a educação parece sugerir um caminho no

reconhecimento feminino das formas de poder que eram estabelecidas e a que estavam submetidas, buscando uma participação nos sustentáculos ideológicos do período.

  Por conseguinte, seguindo a mesma linha de pensamento, está a opinião de Eni Mesquita Samara (1989). Segundo a autora, houve certo exagero em relação ao comportamento submisso das mulheres oitocentistas por parte da historiografia. A partir das fontes que ela analisa, é desmistificado (ou, pelo menos, visto com menor intensidade) o estereótipo de dominação patriarcal e o cerceamento social que existia no Brasil imperial e republicano, aportando-se no enfrentamento e nas formas de resistência por parte do gênero feminino. Como justificativa Samara (1989) mapeia inúmeros exemplos de casos em que a mulher consegue ascender socialmente e enfrentar os obstáculos que se impunham.

  Para compreender mais o universo em que Maria Luísa foi criada, torna-se importante salientar modelos de mulheres que não se conformavam de maneira fácil a esta sociedade. Nesse sentido, comparando a personagem com casos matrimoniais que de fato existiram no século XIX, pode-se afirmar – ainda segundo Samara (1989) – que a posição da mulher no âmbito familiar, devido à divisão de incumbências entre os cônjuges, era de uma importância bastante considerável. Dessa forma, existia, sim, certa influência feminina nesse tipo de relacionamento, até pelo fato de serem elas as responsáveis pela educação dos filhos nesse ambiente.

  Ainda sim, em conformidade com esses estudos, a grande maioria das personagens femininas criadas por Machado de Assis tem como características mulheres que são astuciosas e inteligentes. Mesmo quando são apresentadas de maneira delicada e com pouca firmeza, elas sabem o que querem e onde pisam (BERGAMINI, s/d).

  Por fim, cabe neste momento verificar se Machado de Assis seguiu uma linha incomum ao criar Maria Luísa ou se, assim como as outras personagens do autor, ela preenche os requisitos preferidos e mais recorrentes do mesmo. Buscando nas entrelinhas do texto escritor, talvez Maria Luísa não seja tão submissa e zeladora da família como pode parecer em um primeiro momento. Alguns indícios apontam para tal caminho.

  Em uma citação do conto já referida, onde a personagem é descrita de forma angustiada por causa das experiências de Fortunato em sua casa, já que não conseguia ver o sofrimento dos animais que estavam submetidos pelo doutor, Maria Luísa parece compreender muito bem a situação que a cerca. Vendo suas possibilidades reduzidas, ao invés de pedir ela mesma para que o marido cessasse os experimentos com os animais, ela se utiliza mulher indefesa, mas sim de alguém que racionalizou a situação e procurou alternativas para resolvê-la. Possivelmente por já conhecer o patriarcalismo social no qual estava inserida e, quem sabe, por já saber da patologia do marido, ela decide tomar esta atitude que acaba dando certo. Além disso, em se tratando do seu consorte, que tinha o prazer com o sofrimento alheio, não seria estranho ter uma boa dose de cautela para que a situação se resolvesse.

  Nesse sentido, quando Fortunato decide abrir uma casa de saúde com Garcia, Maria Luísa novamente acaba sofrendo, já que veria o marido em contato com as enfermidades humanas. Por outro lado e seguindo a mesma hipótese, pode ser que a personagem não estivesse padecendo por causa do marido, mas sim por causa das pessoas que seriam tratadas por ele. Contudo, os motivos pelos quais ela ainda continuava casada com Fortunato podem ser compreendidos pelos exemplos já referidos nesse trabalho: rejeição do marido e pelo meio social, possibilidade de internação por loucura e, claro, a falta de perspectiva para obter uma vida pessoal autônoma fora dos laços matrimoniais. Dessa forma, a mulher desse período vai jogando com as possibilidades que se apresentam.

  Por conseguinte, torna-se necessário retornar às duas datas, 1865 e 1885, que compreendem o estudo dessa personagem. A primeira datação, período em que é narrada a história, compreende mais o estilo que é apresentado (sem desvendar o que está eclipsado) por Machado de Assis a personagem Maria Luísa: com características submissas e voltadas apenas para os afazeres domésticos. Entretanto, a segunda datação, época em que é escrito o conto, merece uma última atenção.

  Por que, afinal, Machado de Assis cria, ao contrário de suas outras personagens, uma mulher com uma descrição tão delicada e passiva? De forma frequente, o escritor arquiteta mulheres astuciosas, que maneja e comanda o contexto ao seu redor, diferentemente dos tipos representados pelo movimento literário anterior ao realismo (BERGAMINI, s/d). Apesar de Maria Luísa estar ainda longe do idealismo romântico, ela constitui um espelho para as mulheres de boa conduta, de virtuosismo moral. Contudo, o perfil desfigurado das outras personagens machadianas pode ter outra intenção. Geralmente, as mulheres cerebrais retratadas em suas histórias, de alguma forma, acabam se dando bem no final. A singularidade de Maria Luísa pode estar exatamente nesse ponto: por se portar nos moldes convencionados pela sociedade, em dissonância com o perfil amiúde traçado por Machado de Assis, sua história é de uma mulher infeliz e que tem a morte como sua redentora. Fortunato e Garcia, médicos, amigos, sócios, ousados, apaixonados pela mesma mulher e o mais especial: ambos, ao que parece, portando um determinado tipo de patologia psicológica. Em se tratando dos personagens principais do conto, quais os motivos que levariam o escritor Machado de Assis a configurar arquétipos que apresentam comportamentos doentios, de maneira tão proeminente na obra? Qual a razão de os mistérios da “Causa Secreta” estarem exatamente nesse fato? No decorrer desse trabalho, já foi dito que o autor conjuga, por meio de suas obras, o contexto social em que vivia, indo ao encontro do movimento literário realista. Nesse caso, o foco de análise se direciona para a possibilidade de que Machado de Assis tivesse a intenção de denunciar enfermidades existentes no meio social presenciado por ele diariamente. Para isso, volta-se a atenção para as características em comum que contém os dois personagens, garimpando indícios e possibilidades que, congruentes com obras historiográficas sobre o assunto, possibilitem a identificação das intenções produzidas nessa história e eclipsadas pelo escritor. Ainda sim uma análise semiótica do texto pode nos fornecer mais firmeza, no intuito de revelar um pouco mais das “causas secretas históricas”:

  A semiótica tem como principal objeto de estudo o texto, que deve ser descrito como uma unidade de sentido que se organiza tanto do ponto de vista interno, como do externo. A análise interna estuda o texto como “objeto de significação”, já a análise externa estuda o texto a partir de sua “relação com o contexto sócio histórico”, observando a relação entre destinador e destinatário envolvidos num meio social em que circulam valores que podem ser apreendidos no texto (MOSCARDINI, s/d, p. 01).

  Machado de Assis se utiliza dos olhos de Garcia para relatar a maior parte do conto. O personagem é apresentado como um estudante de medicina, motivo pelo qual fez ver Fortunato (que já era médico) pela primeira vez em um hospital da cidade do Rio de Janeiro. Principalmente no início da obra, momentos antes de conhecer Fortunato de maneira formal, algumas características são igualmente consideráveis para que se chegue à conclusão de que, além de Fortunato, Garcia também continha algum desvio secreto na sua psicologia. Primeiramente, os dois personagens vão a uma peça teatral de cunho trágico, em um local onde somente os mais intrépidos é que frequentavam (ASSIS, s/d). Nota-se que o gosto pelo sofrimento não se restringe somente ao médico, mas também se manifesta no estudante, já que este compareceu, como de costume, para apreciar o ato. Da mesma maneira, o fato de o estudante ficar constantemente analisando uma pessoa estranheza. Logo no primeiro contato que tiveram de maneira mais pessoal, quando Fortunato chega para ajudar Gouveia, o olhar atento de Garcia chama atenção. Espantado com a forma persecutória que o médico via seu paciente, o estudante acaba sentindo certa repulsa com a cena, mas, sem hesitar, continua olhando com singular curiosidade. O interesse do universitário aumenta quando recebe a notícia de que o doutor humilha, sem motivo aparente, o homem que tinha salvado a vida, quando esse foi agradecê-lo. O assombro de Garcia foi tanto que desejou ir à Catumbi, onde morava o médico, para vê-lo novamente (ASSIS, s/d).

  A curiosidade inflamada do garoto é descrita pelo autor:

  Este moço possuía, em gérmen, a faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da análise, e sentia o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas morais, até apalpar o segredo de um organismo (ASSIS, s/d, p. 04).

  Com a proximidade e a consequente amizade iniciada com o casal Fortunato, aos poucos, Garcia expande sua análise, ficando cada vez mais intrigado com a singularidade do casal, na díspar vida conjugal a qual levavam. Contudo, a hipótese criada para o tipo de distúrbio existente no estudante, será debatida na conclusão final. O que importa neste momento é dimensionar o papel que ele representa no enredo, deixando esse mistério patológico para uma consideração final de análise desse personagem. Nesse sentido, grande parte dos enigmas contidos no enredo é desvendada para o leitor através das observações atentas de Garcia. Dessa forma, não é nenhum absurdo propor que esse personagem configura, nas formas de se portar, a representação de um psicólogo, tendo a fixação de analisar compulsivamente o que lhe rodeia. Gradativamente, o poder cognitivo do moço interpreta as ações do casal, analisa, julga até desvendar os mistérios da razão que os movimenta. Voltando ao período preferencialmente proposto para o estudo desse trabalho, com as datações do início da história propriamente dita e o ano de publicação do conto (1865 e 1885), torna-se importante dar uma dimensão de como estava constituída a Psicologia como ciência no momento em que Machado de Assis dá corpo a sua obra. De maneira que, a partir disso, torna-se viável compreender as perspectivas que os leitores do seu tempo poderiam ter em relação à questão clínica e médica, estabelecendo possibilidades de interpretação tanto para este trabalho, como para o público que consumia essas histórias folhetinescas à época do escritor. Além disso, é possível configurar hipóteses mais sólidas das ideias que rodeavam Machado de Assis e que poderiam influenciar sua forma de escrever.

  As mudanças culturais que transcorreram no século XIX, principalmente depois da vinda da corte portuguesa para o Brasil, também repercutiram no pensamento psicológico. As ideias compreendidas por essa área, ainda estavam atreladas a outras áreas do conhecimento, como a Medicina e a Educação. Mesmo com limitadas intenções de produção de conhecimento, tendo o seu intuito primordial voltado para a formação profissional, as instituições superiores de ensino deram um grande impulso nesse momento. A graduação desses profissionais estava sob forte domínio das ideias liberais e positivistas, intimamente ligadas com as proposições da Psicologia desse período (ANTUNES, s/d).

  Correspondentes às teorias psicológicas e direcionando o foco para as práticas médicas, o que existia no meio social machadiano era um substancial interesse em relação à psicologia experimental, no qual se denotava um sentido metafísico em seus pressupostos. Essas tinham como base o “eu”, a “alma”, o “espírito”, configurando a subjetividade ou o comportamento humano nos discursos, não só da Psicologia, mas inclusive de áreas distintas, como a filosofia e a teologia, que também influenciavam de maneira expressiva nas proposições psicológicas. Nesse sentido, boa parte das conclusões de curso, produzidas nas faculdades recém-criadas de medicina do Rio de Janeiro e, com menor incidência, da Bahia, mantinha uma estreita relação com essa conjetura, com temáticas atinentes à neurologia, neuriatria, psiquiatria, etc (PEREIRA, NETO, 2003).

  Muitos desses estudos precipitaram a criação, em 1881, da “Clínica das Moléstias Mentais”, disciplina formal e ineditamente autônoma relacionada com a psicologia e que trazia temáticas das mais diversas:

  Os assuntos são muito variados, dentre os quais: paixões ou emoções, diagnóstico e tratamento das alucinações mentais, epilepsia, histeria, ninfomania, hipocondria, psicofisiologia, instrução e educação física e moral, higiene escolar, sexualidade e

temas de caráter psicossocial. (ANTUNES, s/d, p. 17).

  O que se pode afirmar com esse breve resumo histórico, é que o ambiente da psicologia estava em pleno debate e mergulhado em transformações, rumo a um processo de autonomia, constituição e institucionalização da profissão. Nesse sentido, uma hipótese que pode ser considerada, ao escrever sobre o comportamento de Garcia, é a de que o autor esteja intencionalmente fazendo uma alegoria com esse personagem, configurando, assim, uma crítica às proposições médicas relacionadas com a psique.

  A justificativa assenta-se na repulsa que Machado de Assis tinha em relação às teorias e os métodos das doutrinas que influenciavam a prática do alienista. Segundo Marciano Lopes e Silva (s/d), as características atribuídas ao recém-formado médico Garcia moral e a dissecação íntima do comportamento humano configuram a falta de crença nas pesquisas das ciências naturais e de um narrador típico desse movimento literário. Machado de Assis se contrapunha de forma incisiva a essa doutrina. Suas formas de sensualidade, fisiologia e excessivo erotismo, segundo o autor, prejudicavam a análise do caráter moral dos personagens na sua relação com o contexto histórico narrado, quando não a excluía.

  Dessa forma, pode-se dizer que, no conto, com suas dimensões instintivas e inconscientes, há uma condenação em relação às formas literárias até então existentes, além de possuir uma forte crítica aos fundamentos de Augusto Comte, onde sua doutrina colocava a objetividade e a neutralidade do discurso como uma de suas tônicas (LOPES E SILVA, s/d). Devido às análises feitas pelo doutor Garcia, revelam-se os instintos, o inconsciente do casal Fortunato, dando exemplos de determinados impulsos que, mesmo não tendo uma conotação patológica, são intrinsecamente ligados ao comportamento humano. Nesse sentido, traça um paralelo do meio privado, onde essas características ficam nuas, e o meio social qual convivem, onde predomina a razão e as normas corretas de se portar frente às outras pessoas.

  Há, ainda, outro ponto concernente ao Garcia que pode ser representativo para uma elucidação histórica do século XIX. O momento em que Fortunato lhe propõe a sociedade para abrir uma casa de saúde torna-se simbólico, na medida em que a oferta é aceita, mesmo que de início tenha existido alguma reticência. (...) Na verdade, era uma boa estreia para ele, e podia vir a ser um bom negócio para ambos (ASSIS, s/d, p. 05). Nesse sentido, desvendar o que era considerada “boa estreia” nos oitocentos brasileiro, oportuniza compreender o ainda mais o caráter tanto de Fortunato, como, em especial, Garcia.

  Em 1860, período em que é narrado o conto, existia uma quantidade ainda pequena, mas crescente de médicos formados no Brasil. Esse fato, mais uma vez ligado à transferência da corte portuguesa para cá, relacionava-se com um projeto de civilização, onde o ambiente tivesse que se adequar ao novo requinte imperial. Pouco antes da metade do século XIX, as recém-criadas faculdades de medicina, juntamente com a Academia Imperial de Medicina, começaram incorporar e reproduzir um discurso norteador de comportamentos sociais, em nome da saúde pública. Contudo, nessa primeira metade dos oitocentos, o incipiente número de médicos presentes no Brasil, as dificuldades encontradas até a década de 1870 para a instituição da medicina, com a descrença principalmente popular na sua capacidade, assim como as disputas pelo poder ocorridas nesse espaço de tempo, representaram dificuldades para por em prática suas propostas (SOARES, 2001).

  Nessa sociedade oitocentista brasileira a doença e a cura tinham significados específicos, ainda muito voltados para a religiosidade cristã. Dessa forma, lutar contra as enfermidades em alguns casos poderia ser considerado um ato pecaminoso, já que as moléstias poderiam ter relação com os pecados cometidos, ou por manifestações demoníacas. Nota-se que essas questões ligadas à saúde estão mais ligadas ao sobrenatural, ao metafísico, do que propriamente ao científico, aos remédios. A condução dos tratamentos era, de forma mais corriqueira, tratados pelos próprios familiares e não raro com o acompanhamento de padres. Além disso, o crédito oferecido à medicina entre as elites não era substancialmente melhor. De maneira muito comum as classes mais altas da sociedade recorriam a mezinheiros e/ou curandeiros na procura da cura ou, então, para retirar possíveis feitiços, acreditando, também, no sobre-humano (SOARES, 2001).

  Nota-se que a medicina oitocentista brasileira não surgiu de maneira muito conceituada, tendo que provar que o seu cunho científico era mais eficiente que as tradicionais práticas arraigadas já há tempos na sociedade. Dessa forma, não é difícil concluir que a sociedade com Fortunato para abrir uma casa de saúde realmente não se dava de todo mal. Pelo contrário, juntando-se poderia compartilhar de sua posição social, angariar o título de capitalista e obter um status que, como estudante ou recém-formado na profissão, provavelmente não possuía. Dessa forma, o envolvimento de Garcia com Fortunato pode ser movido por interesses econômicos e sociais, escondidos sob os signos da amizade.

  Outra circunstância que chama atenção está no amor que esse nutria por Maria Luísa. A partir da observação rotineira de seus modos e dotes que, como já foi mencionado, era típico de uma mulher burguesa, o enquadramento de Garcia a uma classe mais alta ficaria completo. “(...) Maria Luísa é que possuía ambos os feitiços, pessoa e modos. Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove” (ASSIS, s/d, p. 04). Ter “ambos os feitiços”, nesse caso, poderia representar possuir uma mulher que, além de ser bonita, continha hábitos adequados para sua ambição social.

  Nesse sentido, a definição de amor que Garcia sentia pela esposa de Fortunato fica desfigurada. O que pode estar eclipsado aqui também pode ter uma conotação patológica na medida em que o personagem, mesmo impossibilitado de casar-se com Maria Luísa, continua observando-a e convivendo com a ideia matrimonial, em prol, talvez, não de um pressuposto romântico, mas de sua própria ganância social. Por fim, na última cena ambientada entre Garcia e a sua musa esse personagem continua por analisar o cadáver da mulher, beijando-a ele a observa sempre de forma atenta, nutrindo, a partir disso, um constantemente sofrimento, através de seus olhos.

  Voltando aos primeiros parágrafos, onde já se levantava a dúvida de que Garcia também poderia possuir algum desvio psicológico (através da escolha do teatro, pela obsessão em analisar uma pessoa que era ainda desconhecida e pelo fato de, mesmo sentido repugnância em ver Fortunato tratar de Gouveia, continua a observa-lo), torna-se, agora, possível estabelecer uma relação com os fatos aqui analisados. Em consonância com a sua sempre atenta observação, estão, na maioria dos casos, o sofrimento e a dor. Curiosamente, mesmo que a visão desse tipo de sentimento também lhe afete, seus olhos não mudam de direção.

  Compartilhando a ideia de Marciano Lopes e Silva (s/d), a conclusão a que se chega, em relação às formas de se portar do personagem Garcia, é a de que se trata de um sadomasoquista, sempre em busca de sensações de sofrimento para lhe preencher a alma. Nesse sentido, ainda conforme Marciano Lopes e Silva (s/d).

  Garcia é um duplo de Fortunato, pois reproduz seu comportamento sádico, o mesmo acontecendo com o narrador do conto, que observa a todos com a mesma frieza e impassibilidade que caracterizam o olhar de ambos. Fortunato disseca animais e delicia-se observando o sofrimento dos enfermos, assim como observa friamente o sofrimento de Maria Luiza. Ambos são dissecados e observados por Garcia, que também é observado e dissecado pelo narrador. Nesse jogo de reflexos mise en abîme, Machado de Assis estende a relação ao infinito, de modo a abranger também a figura do leitor, último observador da cadeia de relações no processo de leitura (p.

  09).

  Esse paradoxo que se estabelecia entre as normas propagadas pelo cientificismo oitocentista e o que Machado de Assis acreditava ser a representação da verdadeira ciência (com a representação do inconsciente e dos impulsos humanos e que, possivelmente, estava presente no quotidiano de muitas pessoas do século XIX) configurava parte da visão que o autor tinha em relação ao seu meio.

  Personagem principal do conto, o médico Fortunato, desde o início da história, demonstra alguns sinais malignos nas suas ações. O cenário que rodeia o médico no transcorrer do enredo quase sempre é pintado com algum tipo de dor ou angústia por ele presenciado. Quando vai ao teatro, lugar especialmente apropriado para os mais intrépidos, o personagem demonstra singular interesse nos momentos mais dolorosos e com mais sofrimento exposto, “(...) a tal ponto que o estudante suspeitou haver na peça reminiscências pessoais do vizinho” (ASSIS, s/d, p.02). Sem esperar o fim, Fortunato resolve sair, já não continha mais cenas de agonia para ver. Ainda sim, na volta para sua casa, vai dando umas bengaladas em alguns cães que dormiam pelo caminho, deixando-os ganindo.

  No atendimento ao Gouveia, vizinho de Garcia não se demonstrou menos curioso. Utilizando forças desmedidas para ajudar o enfermo, Fortunato olhava-o com estranha frieza. Depois de curado, o paciente foi até a casa do doutor, com a intenção de lhe agradecer. Saiu de lá humilhado. Fortunato fez questão de deixá-lo constrangido, mesmo que sem motivo aparente, dando gargalhadas da situação do pobre Gouveia.

  Logo em seguida, já casado com Maria Luísa, Fortunato se aproxima de Garcia e acaba convidando-o para uma janta. Refeição a parte, o que não modificava era a singularidade do médico:

  (...) Fortunato deu-lhe um bom jantar, bons charutos e boa palestra, em companhia da senhora, que era interessante. A figura dele não mudara; os olhos eram as mesmas chapas de estanho, duras e frias; as outras feições não eram mais atraentes que dantes. Os obséquios, porém, se não resgatavam a natureza, davam alguma compensação, e não era pouco (ASSIS, s/d, p. 04).

  Quando Fortunato se apresenta, ainda no início do conto, faz questão de deixar claro a que posição social pertencia, fazendo sua própria descrição como a de um homem capitalista e solteiro, morador de Catumbi. Até o presente momento, Fortunato é apresentado dentro dos conformes burgueses, demonstrando ser um profissional muito dedicado. Além disso, o molde ainda é mais realçado por agora esse estar casado. Entretanto, no decorrer da história, suas causas secretas vão se sobressaindo, mostrando o que está por trás de tamanha cordialidade e empenho nas práticas de cura transparecidas até então.

  Nesse caminho, o leitor vai percebendo o inconsciente desse personagem, através de alguns fatos que vão acontecendo, tais como: a agonia de Maria Luísa em ver seu marido em contato com enfermidades humanas, pela dedicação incansável para com os pacientes de sua clínica, os estudos de anatomia com animais e, claro, com o episódio final do rato, onde é revelada, finalmente, a sua casa secreta.

  Essa narrativa apresenta uma dubiedade que já fora estudada no caso de Garcia, mas que, contudo, merece ser estuda com maior profundidade, devido à possibilidade de abrir outros caminhos de análise. Nesse sentido, o caráter malévolo de Fortunato se configura na sua irrepreensível dedicação ao trabalho, que lhe valia uma imagem social exaltada, configurando-o em um excelente profissional, reconhecido pela quantidade de pacientes existentes em sua clínica, transluzido no enredo. De um lado, um mal que parece ser congênito e que somente é revelado em um mundo privado. De outro, o que é exibido para a sociedade como de um profissional exemplar.

  Nesse sentido, as relações interpessoais existentes no século XIX, que são trabalhadas por Maria Ângela D‟Incão (2009), também retratam uma sociedade voltada para a fantasia e a falsidade, visão historiográfica nada distante do que o autor pretende criticar em sua obra. A historiadora delineia a incipiente família burguesa do período, classificando essa “nova” forma de agir como “máscara social”, indicando as novas maneiras de se portar frente a outras pessoas, camuflando a vida particular. O personagem Fortunato se torna simbólico justamente por exibir de forma mais patente esse tipo de comportamento na obra. O mundo privado é o único local onde conseguimos compreender as reais intenções que estavam por trás de suas práticas sociais. Contudo, a “máscara social” de Fortunato traz consigo algo mais singular e perverso, carregando signos de uma época e que podem ser trabalhados através de sua provável patologia psíquica.

  Para uma representação social, não somente do tipo burguesa e capitalista, mas também de qualquer grupo ou classe, tem-se a necessidade de fixar estereótipos, definir papéis e normas de conduta, relacionando com determinado tipo de ideologia. O fato de pertencer ou não a algum tipo de grupo cria a necessidade de reconhecer o que é correspondente ao conjunto e o que não se enquadra no mesmo, dando uma dimensão de identidade e alteridade. Nesse sentido, estabelece um processo individual e coletivo, onde cada individuo se relaciona com determinado tipo de pessoas e se difere de outras. (PESAVENTO, 1995, p. 115). Com base na Nova História Cultural, tem-se nesse trabalho a uma análise historiográfica que busca compreender como se davam essas diferenças de classe no século XIX e a que custo isso acontecia, direcionando o foco de pesquisa para o personagem principal de “A causa secreta”. Ainda em relação a isso, Pesavento (1995):

  A categoria da representação tornou-se central para as análises da Nova História lugares diferentes os homens foram capazes de perceber a si próprios e ao mundo, construindo um sistema de ideias e imagens de representação coletiva e se atribuindo uma identidade (p. 116).

  As décadas de sessenta e oitenta do século XIX, período em que se assenta a maior parte da análise desse trabalho, configuram um universo em transição. Apesar de serem data- ções aproximadas, os contextos são distintos, principalmente no que se refere à medicina cien- tífica. Esta, em meados dos oitocentos, teve uma ascensão bastante considerável até a data em que foi publicada a obra (1885), ganhando cada vez mais respaldo e autoridade, sobretudo nos meios oficiais do Brasil imperial (SAMPAIO, 2005).

  Nas primeiras décadas dos estabelecimentos das faculdades de medicina lutou-se por sua institucionalização, sendo que, aos poucos, principalmente após os anos de 1870, a preo- cupação com a produção científica passou a ser primordial. Com isso, as instituições médicas passaram por importantes reformas, das quais a mais significativa ocorreu em 1884, com im- portantes transformações no ensino da medicina no país. Mesmo com o prestígio aumentando desde a segunda metade do XIX, os médicos ainda eram acusados de assassinar seus pacien- tes, além de travarem uma guerra contra as outras práticas de cura que não eram consideradas oficiais e que ainda carregavam um grande prestígio social. Dessa forma, percebe-se que a medicina oficial não ganhou espaço na sociedade de forma branda, muito pelo contrário. Exis- tiam, ainda, muitas críticas que se direcionavam a ela e que se espraiavam numa atmosfera que englobava quase todas as concepções de ciência, de forma geral. A guerra que essa decla- rou em direção às outras práticas de cura, tendo que recorrer, muitas vezes, à formas coerciti- vas e repressivas para ganhar espaço, graças a outorga do Estado, demonstra o quanto ela ain- da estava longe de ser unanimidade na concepção dos enfermos, existindo curandeiros famo- sos que eram tão procurados quanto os médicos formados (SAMPAIO, 2005).

  Nesse período, o poder da cura ainda estava distribuído entre vários atores sociais com terapias e práticas distintas, onde a medicina não se destacava como a mais funcional, tendo disputas e críticas partindo dos próprios meios acadêmicos e profissionais diplomados a ou- tros colegas de mesma profissão. Nesse sentido, parecem haver vários Fortunatos em busca de doentes e disputando pacientes em uma procura desenfreada por moléstias de todo tipo (WITTER, 2001).

  Aqui pode estar relacionada mais uma das formas pela qual Machado de Assis via a sociedade brasileira, em especial nesta transição para o regime republicano, quando se refor- çavam os elos de legitimação e os vínculos entre o governo e ciência. Esses portadores do cias e atividades que tinham quase o mesmo impacto que as práticas não científicas (SAM- PAIO, 2005).

  Além disso, a ciência médica tornava muito ampla as definições sobre o que era saúde e o que era considerado doença, o que era normal e o que se avaliava como patológico. A par- tir de 1830, atos, hábitos, formas de se portar, religiosidades e normas de conduta eram temas comumente relacionados com questões raciais, civilizacionais, sexuais, etc., forma pela qual, conseguiam denotar algum limite em termos tão abrangentes. Dessa forma, a aliança estabele- cida entre Estado e classe médica, configurou em um viés importante para que fosse mantida a moralidade social, assim como o controle de qualquer tipo de ameaça à probidade da ordem. Com a vastidão e a generalização dos motivos que poderiam ocasionar doenças, qualquer desvio de conduta poderia ser considerado patológico, principalmente quando este quebrava as normas sociais estabelecidas dentro de um “bom tom” comportamental (ENGEL, 1999).

  Nesse sentido, o que se percebe é uma forte e desmedida tentativa de transformar a so- ciedade brasileira aos moldes europeus. A guinada nesse percurso histórico, em direção a um pressuposto racional e progressista, derivados da razão positivista, constituiu um aumento no interesse por práticas médicas que pesquisassem os enigmas da alma humana nas faculdades de medicina dos oitocentos. Ao que parece, Machado de Assis acompanha com singular inte- resse esse transcorrer científico, criando uma espécie de paródia em algumas de suas obras relacionadas à suposta presunção da medicina, em especial, da psiquiatria (MOREIRA, BER- LINCK, 2002).

  Para se pensar de forma um pouco mais coesa esse assunto, podemos relacionar “O Alienista”, conto conhecidíssimo de Machado de Assis. Nele, o repúdio do autor para com a prepotência médica no período estudado é demonstrado de forma irônica, onde a loucura final da sociedade está na própria pessoa que trata a doença: o médico. A historiografia que 2 trabalha com a questão dos hospícios no século XIX retrata um contexto distante de qualquer significado filantrópico

  . Tendo, estas casas de “saúde a única função de recolher a “sujeira social”: os inaptos para o trabalho, criminosos de toda a sorte, e os demais que apresentavam desvios de conduta e algum tipo de descontrole, sendo comumente homogeneizados e 2 enquadrados pela expressão loucura.

  

As bibliografias aqui utilizadas foram: FOUCAULT, Michel. A História da Loucura na Idade Clássica. Ed.

Perspectiva, 2000. VIEIRA, Priscila Piazentini. Reflexões Sobre a História da Loucura de Michel Foucault.

Revista Aulas, 2007. RESENDE, Heitor. Política de saúde mental no Brasil: uma visão histórica. In:

  Com a pintura deste quadro não é difícil perceber os motivos que levaram à antipatia de Machado para com a medicina, principalmente em sua relação moral e social empregada em pacientes com alguma deficiência mental representada, no caso, pela Casa Verde de Si- mão Bacamarte. Essa conceituação historiográfica nos permite concluir que a loucura estava relacionada com a aptidão ao trabalho, a sua utilidade social. Em relação aos manicômios, nas palavras de Engel (1999):

  Para essas instituições, apesar de sua proliferação pelo país inteiro, nunca deixaram de ser um mero depósito de despossuídos de toda sorte, afastando-se, assim, do objetivo invocado para sua criação: proporcionar ao chamado doente mental um tratamento adequado em um ambiente terapêutico. De fato, os manicômios ou hospícios se afirmaram não como espaço de terapia, mas como instrumentos de pura exclusão, exclusão física que deu concretude à exclusão simbólica do universo da cidadania (p. 01).

  Retomando as referências em Foucaultianas (2010), torna-se imprescindível salientar sua visão sobre as relações de poder. O filósofo acredita que essas relações estão impregnadas nas esferas sociais e culturais da história. Nessa balança entre fracos e fortes, segundo Foucault, sempre há o favorecimento de um em detrimento de outros. O personagem Fortunato é descrito por Machado de Assis como um burguês abastado, capitalista e de meia idade, estando, ao que tudo indica, um lado mais favorável nessa balança social. Nesse sentido, que papel restaria a sociedade se esta descobrisse as “causas secretas” de Fortunato, sendo este muito procurado por enfermos da cidade? O âmago ao que se quer chegar está imerso nesse jogo de poder, pois, a partir dessa abordagem, pode-se analisar em até que ponto essa bal ança entre “fracos e fortes” torna-se um fiel entre “doentes ou saudáveis”. Mais especificamente, compreender em que medida a posição social pode determinar se um tipo de conduta é normal ou patológica.

  A hipótese que se chega, a parir das análises historiográficas já referidas, é que a más- cara utilizada por Fortunato em seu meio social torna-se necessária na medida em que, de forma não muito difícil, os pacientes atendidos por esse médico poderiam procurar outras formas de cura. Sendo assim, o fato desse personagem tornar sua patologia secreta faz-se im- prescindível, não só para saciar seu instinto sádico, mas também para manter sua profissão e o seu status social. Dessa forma, Machado de Assis relega o próprio médico a uma espécie de reclusão, contrapondo a prática clínica utilizada no período em que o escritor compõe a obra e alterando a sua lógica de poder. Nas palavras de Foucault (1995):

  Acredita-se que Tuke e Pinel abriram o asilo ao conhecimento médico. Não introduziram uma ciência, mas uma personagem, cujos poderes atribuíram a esse saber apenas um disfarce ou, no máximo, sua justificativa. Esses poderes, por delimitar a loucura, não é porque a conhece, é porque a domina; e aquilo que para o positivismo assumirá a figura da objetividade é apenas o outro lado, o nascimento desse domínio. (1995, p. 498).

  O que podemos perceber na narrativa foucaultiana é que qualquer afirmação de inte- resse está, por conseguinte, na dimensão da luta e do poder. Os enfermos tratados por Fortu- nato estavam sujeitos às suas práticas de cura, independente do curador sofrer de alguma pato- logia ou não. Contudo, Machado de Assis, atento ao contexto social em que vivia, parece per- ceber que, nessa relação de forças, quem está por baixo é a própria classe médica, na sua pro- cura desesperada por enfermidades e reconhecimento social.

  Entretanto, o enredo realça apenas as ações de Fortunato, eclipsando as relações de poder que estão intrinsecamente ligadas entre paciente e médico. Nesse conto quem realmente consegue perceber a força que tem é o doutor, fato que se evidencia na sua apresentação como um homem capitalista. Nesse sentido, o último sustentáculo do tripé da identidade/alteridade visto em Foucault (2010) é a questão do sujeito. Para o filósofo, é exatamente nesse deslocamento de dentro do eixo do poder que se descobre o sujeito, passando do governo dos outros para o governo de si, definindo a sua “autoconstituição”. Nessa troca, os significados mudam e se re-configuram, formando outro sujeito e tornando mais claras as diferenças entre o “eu” e o mundo. Este novo mundo que se cria (ou novo governo nas palavras de Foucault) pode ser definido como uma casa, uma alma ou uma consciência de si, tendo a compreensão do poder que se tem e, por conseguinte, do outro. Nesse caso, a medicina brasileira reconhecia e buscava a sua força, participando ou, no mínimo, se associando ao Estado.

  Por fim, cabe ainda dimensionar a questão dos leitores do século XIX. Já foi dito aqui nesse trabalho que o número de leitores era extremamente reduzido nesse período que a educação ainda engatinhava para se tornar universal e com uma busca incipiente de atingir alguma qualidade. Nesse sentido, torna-se curioso existir em um meio tão inóspito como esse, um escritor à altura de Machado de Assis. Como o público leitor poderia, em um país pouco letrado, perceber tantas intenções trazidas pelo escritor através de suas obras, e que ficavam subentendidas ou mesmo escondidas na sua forma irônica de escrever?

  

Diante de tamanha adversidade, pode-se afirmar que tais textos eram lidos e

  compreendidos a partir de uma leitura classificada, segundo o historiador Roger Charier (2002), como “intensiva”, pois se tratava de uma situação em que o leitor deparava-se com um reduzido número de impressos, consumidos de maneira calma, com bastante tempo para releitura. De maneira que as histórias eram lidas, na maioria dos casos, mais de uma vez.

  As proposições aqui defendidas, com este aporte teórico, permitem identificar nas obras machadianas um direcionamento específico, onde o autor apontava conscientemente sua ironia para o seu público, conhecendo-o. Prova disso, está nas características mais marcantes do próprio Machado de Assis, que são a investigação do espírito humano, onde suas temáticas variam entre o adultério, o parasitismo social, as relações e os limites entre razão e loucura, hipocrisia, vaidade, egoísmo, etc. Essas abordagens fazem a crítica, na maioria das vezes, a propriedades específicas da nova classe burguesa brasileira. Contudo, é justamente essa “no- va” classe social que compreende a maioria de letrados com potencial de leitura e interpreta- ção de suas obras.

  A partir da literatura moderna, na qual existe a criação do “eu” como individuo literato e em que este tem maior liberdade para agora revelar o que há em seu interior, a análise historiográfica pode ter exatamente aí sua base de pesquisa e investigação na trama de determinado escritor. Pois o pensamento do autor, que transparece através da trama que move o seu enredo, está intrinsecamente ligado à sua época, seu tempo. Dessa forma, sua relação com a história se conecta a produção científica do contexto social em que este vive, tornando mais do que possível uma investigação dentro do respectivo recorte temporal.

  Nesse sentido, a análise do conto “A causa secreta”, de Machado de Assis configura um meio importante para elucidar um pouco mais sobre o século XIX brasileiro. No seu enredo, transparecem arquétipos que podem ser congruentes com o contexto em que foi escrito, demonstrando as intenções de alguém que vivia naquele momento, no caso, o escritor. Nesse caso, ao revelar rupturas e contradições sociais, percebe-se, a partir do estudo do conto, que as representações que existiam, por exemplo, nas formas de se portar da classe burguesa não estavam de acordo com critérios de veracidade e autenticidade. De maneira que a eficácia demonstrada por essa ciência oficial, não eram superiores as ditas mais populares. Sendo assim, esse estilo de vida se constituía (mesmo que no mundo privado seja diferente) nas capacidades de mobilização e força, configuradas principalmente através da representação do Estado.

  Além disso, o sentido primordial de “A causa secreta” está em demonstrar o quanto o século XIX, enredado nas proposições do cientificismo, era determinado pela aparência, ignorando a essência, os impulsos, as vontades, o íntimo das pessoas. A máscara social não era só de Fortunato e da classe médica em disputa por pacientes, mas sim, de toda uma sociedade que vivia da ostentação, do bem trajar, mostrando o quanto poderia ser distinta em relação aos outros, o quanto era constituída de “poder”.

  Nesse sentido, pode-se dizer que Machado de Assis via com olhos desiludidos o processo capitalista no qual o Brasil começava a mergulhar, compreendendo sua lógica interna, que se conjuga amoral, egoísta e, acima de tudo, competitiva. A hipótese de que, Garcia, ao invés de ver Fortunato como um amigo, na verdade o enxergava como uma possibilidade de ascensão social pode ser reveladora e vai ao encontro do pensamento machadiano. Assim como a luta de Fortunato para manter seu “status quo”, tornando-se prisioneiro de sua própria doença. Ou, ainda, de Maria Luísa que, percebendo-se em um meio hostil, prefere a morte que ser tratada pelo marido e continuar a viver naquele contexto. Dessa forma, ao que parece, Machado de Assis conjuga o cientificismo e o liberalismo aos instintos humanos, numa competição pelo poder.

  Ainda sim, essa relação também pode ser pensada, principalmente, na obtenção de prazer que Fortunato desfruta. A partir de sua posição social, o doutor poderia dissecar e regozijar a sociedade em que vivia, em especial os doentes. Esse gozo experimentado pelo médico denota o poder da classe burguesa em relação ao meio social, tendo os mais necessitados (os enfermos, no caso), como suas cobaias. A cena final do conto se torna simbólica por oferecer indícios de que o rato pode ser comparado com os pacientes tratados por Fortunato, ambos lhe dão prazer e são utilizados como um simples instrumento para se chegar ao desfrute dessa sensação. Os dois estão no mesmo nível. Dessa forma, com a criação do personagem Fortunato, quem sabe o escritor pretendesse mostrar, além do caráter, o destino das elites brasileiras.

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