Alexandre Crescencio Coelho de Coelho A GUERRILHA DO ARAGUAIA: A REAÇÃO DO PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL (PCdoB) AO AUTORITARISMO NO BRASIL (1968-1975)

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Alexandre Crescencio Coelho de Coelho

A GUERRILHA DO ARAGUAIA: A REAđấO DO PARTIDO COMUNISTA DO

BRASIL (PCdoB) AO AUTORITARISMO NO BRASIL (1968-1975)

  Santa Maria, RS

  

Alexandre Crescencio Coelho de Coelho

A GUERRILHA DO ARAGUAIA: A REAđấO DO PARTIDO COMUNISTA DO

BRASIL (PCdoB) AO AUTORITARISMO NO BRASIL (1968-1975)

  Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano – UNIFRA, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado em História

  Orientadora: Lenir Cassel Agostini Santa Maria

  

Alexandre Crescencio Coelho de Coelho

A GUERRILHA DO ARAGUAIA: A REAđấO DO PARTIDO COMUNISTA DO

BRASIL (PCdoB) AO AUTORITARISMO NO BRASIL (1968-1975)

  

Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas, do

Centro Universitário Franciscano – UNIFRA, como requisito parcial para obtenção do grau de

Licenciado em História

Lenir Cassel Agostini – Orientadora (UNIFRA)

  

Elisabeth Weber Medeiros (UNIFRA)

Luis Augusto Ebling Farinatti (UNIFRA)

Aprovado em ....... de .................... de 2008.

  Dedico este trabalho, aos homens que deram suas vidas, na Guerrilha do Araguaia,

para devolver a democracia ao Brasil.

  AGRADECIMENTOS À professora Lenir,

que orientou com dedicação, paciência e bom humor a elaboração deste trabalho.

Aos meus amigos e amigas, Alexandre Bregão,

  Calebe Hilgert, Christian A. Di Giacomo, Diorge Konrad, Franciele Maffi,

  Glaucia Konrad, Jair A. Machado, Joel Fiegenbaum, Leandro Schermen,

  Lucas Cassanta. À minha mãe, Geneci Coelho, e aos meus irmãos, Humberto Coelho e Daniela Coelho, por todo o apoio durante esta jornada.

  

RESUMO

  Esta pesquisa tem como tema a Guerrilha do Araguaia, sob o enfoque da reação do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) ao autoritarismo no Brasil, no contexto nacional de 1968 a 1975. Fundamenta-se em fontes bibliográficas e documentais, presentes no Acervo de Luta Contra a Ditadura Militar, disponibilizado nos arquivos do Estado do Rio Grande do Sul, localizado na Praça da Alfândega, na cidade de Porto Alegre-RS, e nos jornais Estado de São Paulo e Jornal do Brasil, localizados no Museu da Comunicação Hipólito da Costa. Através da história política, proposta ao ambiente da investigação e da identificação, buscou-se comprovar as respostas aos questionamentos, esclarecendo-as em um cenário autoritário. Entende-se que a partir das ações da Guerrilha do Araguaia, o PCdoB, se tornou uma ameaça ao Governo Civil-Militar Brasileiro, com a formação de um exército popular, como tentativa de guerrilha rural baseada nas idéias de Mao Tsé-Tung, onde deveria primeiro ser conquistado o campo para depois tomar o poder na cidade, com o apoio das massas. A Guerrilha do Araguaia localizou-se ao sul do Estado do Pará, devendo ser exterminada, sem prisioneiros, pois, o Governo Militar, a Força de Segurança Nacional (FSN) e o Serviço Nacional de Inteligência (SNI), entendiam que o PCdoB e seu foco de guerrilha constituíam- se em perigo à manutenção da ordem nacional. A repressão militar ao PCdoB, no movimento do Araguaia, representou, naquele momento, o fim dos ideais e de transformação social, defendidos pelo PCdoB.

  

Palavras-chave: Guerrilha do Araguaia. Partido Comunista do Brasil. Autoritarismo no

Brasil.

  

ABSTRACT

  This research has the theme of the Guerrilha do Araguaia, under the focus of the reaction of the Partido Comunista do Brasil (PCdoB) to authoritarianism in Brazil, at the national level between 1968 and 1975. It is based on bibliographic and documentary sources, in the Collection of Combat Military Dictatorship, available in the archives of the Rio Grande do Sul state, located in the Praça da Alfândega, of Porto Alegre-RS city, and in the newspapers Estado de São Paulo and Jornal do Brasil, located in the Museum of Communications of Costa Hipólito. Through political history, proposed to the environment of research and identification, we tried to verify the answers to questions, explaining them in an authoritarian setting. It is understood that from the actions of the Guerrilha do Araguaia, the PCdoB, has become a threat to the American Civil-Military Government, with the formation of a popular army, as an attempt to rural guerrillas based on the ideas of Mao Zedong, where should first be conquered the field for after taking power in the city, with the support of the masses. The Guerrilha do Araguaia was located in the south of Pará, Brazil, should be exterminated, with no prisoners, because the Military Government, the National Security Force (FSN) and the National Intelligence Service (SNI), understood that the PCdoB and his outbreak of guerrilla constituted themselves dangerous to the maintenance of domestic order. The military repression to PCdoB, in the Araguaia movement, was at that moment, the end of the ideals and of social transformation, protected by PCdoB.

  

Key-words: Guerrilha do Araguaia. Partido Comunista do Brasil. Authoritarianism in Brazil.

  

SUMÁRIO

  

1 INTRODUđấO ..................................................................................................................... 8

  

2 REFERENCIAL TEÓRICO ............................................................................................. 10

  

3 METODOLOGIA ............................................................................................................... 12

  

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO ....................................................................................... 13

  

4.1 O PCdoB no Cenário Nacional: 1968-1975.................................................................... 13

  

4.2 O PCdoB e a Guerrilha do Araguaia ............................................................................. 24

  

5 CONSIDERAđỏES FINAIS ............................................................................................. 41

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................ 44

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA....................................................................................... 46

FONTES DOCUMENTAIS .................................................................................................. 47

  

LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Congresso de Fundação do Partido Comunista do Brasil....................................... 13

Figura 2 - Demonstrativo do resultado eleitoral de 1945........................................................ 15

Figura 3 – Demonstrativo do trabalho implantado pelo PCdoB na região do Araguaia

  através do serviço social com a criação de uma escola e de um posto de saúde ...................................................................................................................... 26

  Figura 4 - O Exército desloca tropas para o Araguaia, visando combater o foco da

  guerrilha rural comandada pelo Partido Comunista do Brasil............................... 27

  

Figura 5 - Mapa da região do Araguaia................................................................................... 28

Figura 6 - Descoberta dos guerrilheiros que, surpreendidos, abandonaram as bases e

  embrenharam-se nas matas. As tropas chegam por Marabá (PA), Araguantins e Xambioá ......................................................................................... 32

  Figura 7 - Recuo das tropas federais e retomada dos contatos dos guerrilheiros com a

  população, agora de forma ostensiva . .................................................................... 35

  

Figura 8 - Última campanha, com sua estratégia de cerco e aniquilamento ........................... 39

1 INTRODUđấO

  Neste estudo buscou-se identificar e investigar a Guerrilha do Araguaia, sob o enfoque da reação do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) ao autoritarismo no Brasil, no contexto nacional de 1968 a 1975.

  Esta pesquisa inicia com recorte temporal do ano de 1968, ano em que foi instituído, no Brasil, o Ato Institucional nº 5 (AI-5), proporcionando maior poder ao governo civil militar. Nesse contexto, o PCdoB, que havia começado a organizar a resistência no ano de 1966, torna-se responsável pela maior e mais forte oposição ao governo ditatorial neste período. Tal resistência dá origem ao movimento que se denominaria Guerrilha do Araguaia, localizando-se na região sul do Estado do Pará. Militantes do PCdoB deslocaram-se para esta área, onde viveram clandestinamente, buscando a mobilização das massas, por entender que efetuavam um trabalho pelo povo brasileiro.

  Desta forma, o PCdoB, dedicou-se à implantação de um exército popular, para combater as forças políticas e militares do regime ditatorial brasileiro. As ações do PCdoB são vistas pelos órgãos de segurança como uma força subversiva forte e atuante, que deveria ser combatida.

  Devido à Ditadura Civil Militar Brasileira e à repressão, naquele momento político do país, o PCdoB propôs ao cenário político, a implantação da luta armada rural, chamada Guerrilha do Araguaia, inspirada nas idéias do líder chinês Mao Tsé-Tug, para o qual a revolução deveria ser feita primeiro no campo para depois conquistar as cidades. Tais idéias foram adaptadas à realidade do Brasil.

  Considerando-se este panorama buscou-se identificar a repressão do governo civil- militar brasileiro à Guerrilha do Araguaia, considerada estratégia de reação do PCdoB à repressão, no período de 1968 a 1975.

  Em um primeiro momento, procura-se construir o cenário político brasileiro, para caracterizar o governo civil militar brasileiro e o aparelho repressivo dirigido àqueles que desafiavam o governo ditatorial.

  Em um segundo momento, investiga-se e identifica-se a reação do PCdoB, no contexto nacional, através da luta armada estratégica, na formação de um exército popular, nos chamados ‘anos de chumbo’, através da Guerrilha do Araguaia, como ofensiva ao autoritarismo no Brasil.

  Justifica-se a importância da pesquisa ao considerar a necessidade de elucidar e esclarecer o momento político brasileiro, em um período que contribuiu para a falta de liberdade de expressão aos que se opuseram ao regime civil-militar brasileiro, em especial, o PCdoB. Considerou-se como foco de investigação a concepção tática do PCdoB, identificando, dessa forma, a importância histórica do partido nesse período, tida como a maior força de oposição ao regime civil-militar brasileiro, através da Guerrilha do Araguaia, movimento que durou três anos, no período de abril de 1972 a janeiro de 1975.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

  Como forma de atingir a proposta de identificar e investigar a Guerrilha do Araguaia, sob o enfoque da reação do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) ao autoritarismo no Brasil, no contexto nacional de 1968 a 1975, buscou-se na literatura os trabalhos de Bobbio (1995); Bobbio, Matteucci e Pasquino (2003), Bonavides (2005), Rémond (2003) e Bottomore (2001), com os quais se pretendeu constituir a base para o desenvolvimento da pesquisa e da busca por fontes primárias.

  A história política trabalhada nesta pesquisa teve como temática as ações políticas implantadas pelo governo civil-militar brasileiro, a fim de aplacar a reação do PCdoB e a Guerrilha do Araguaia que combatiam as forças militares, através da luta armada estratégica. Tais organizações tinham como propósito a tomada do poder, com a formação de um exército popular e de guerrilha rural.

  Na avaliação de Bobbio (1995), a denominação de ditadura é aplicada a todos os regimes que não são democráticos. Para este autor, “[...] no Estado Totalitário, toda a sociedade está resolvida no Estado na organização de poder político que reúne em si poder ideológico” (BOBBIO, 1995, p.158). O Estado Totalitário representa um caso limite. Para este mesmo autor, a revolução e a ditadura, possuem a mesma forma de governo quando se trata de beneficiar seus interesses próprios.

  Para Bottomore (2001, p. 382) os marxistas acreditavam que o “Estado Totalitário só poderia ser combatido através do uso da violência contra a violência”, sendo a única saída para combater àqueles que tentavam prejudicar os interesses das massas populares. No Brasil ocorreu uma forte manifestação de resistência contra a Ditadura Civil-Militar Brasileira, onde se manifestaram os grupos táticos de guerrilha.

  Para entender o conceito de ‘mobilização de massas’ buscou-se a leitura das obras de Bonavides (2005), Bobbio (1995) e Bobbio, Matteucci e Pasquino (2003). Para Bonavides (2005, p.368) a mobilização das massas passava pela vida social, explicando o poder político, na ideologia marxista, procurando um instrumento de ação contra a manutenção das estruturas sociais na intenção de mudanças profundas na sociedade, ‘buscando a luta de classes’. Este mesmo autor ressalta que o golpe é a prevalência do interesse egoístico de um grupo ou a satisfação de uma sede pessoal de poder; a revolução é o atendimento dos anseios coletivos, movendo-se em conformidade com novos princípios e idéias; a revolução é a legitimidade e o golpe é a usurpação. Como todas as usurpações, caracterizam-se por ser, concomitantemente, ilegais e ilegítimas.

  As revoluções, em geral, se propagam por toda a nação e representam um levante de vastíssimas proporções; ‘[...] já o golpe se circunscreve geograficamente, atingindo apenas os pontos vitais, no coração político do país, onde o governo tem sede de todos os órgãos essenciais da administração do poder’ (BONAVIDES, 2005, p. 425). Para este autor, os partidos comunistas e socialistas pretendiam promover uma revolução, ou seja, realizar mudanças profundas nas estruturas sociais.

  Já Bobbio, Matteucci e Pasquino (2003, p. 902) entende que os partidos de esquerda buscavam conscientizar a sociedade ‘Povo’ através da ‘mobilização das massas’, mostrando a consciência política onde esta sociedade seja promotora da transformação. Para o autor, ‘[...] esses partidos eram denominados como Partido de Organização das Massas’, e buscavam esclarecer a sociedade sobre a necessidade de uma transformação estrutural, capaz de modificar a relação de poder no Estado.

  Entretanto, Rémond (2003, p. 445) ressalta que os grupos buscavam a organização política da sociedade, onde os partidos de esquerda visavam à ação especificamente política, através da mobilização das massas. Este autor ressalta, ainda, que ‘[...] estudar a história política é estar convencido de que o político existe por si mesmo, professar que ele tem uma consistência própria e uma autonomia suficiente para ser uma realidade distinta’.

  Por outro lado, Bonavides (2005, p. 375) considera que a escassez de ensaios monográficos sobre partidos políticos no Brasil denota que, simplesmente, ‘[...] nossos publicistas nunca reconheceram as agremiações partidárias na história política do país’.

  A leitura da obra de Bottomore (2001) permitiu entender o conceito e o vocabulário do Partido Comunista, aplicado no cenário político de 1965 a 1978, assim como compreender o partido que tinha por objetivo buscar a mobilização das massas, para desenvolver nelas a consciência política, para que o povo fosse o agente das transformações sociais. Para este mesmo autor o partido político envolve-se com a defesa da construção de partido independente, que ocupa uma posição fundamental no pensamento e na atividade política.

  Além disso, autores como Bonavides (2005), Bobbio (1995), Bobbio, Matteucci e Pasquino (2003), Rémond (2003) e Bottomore (2001), remetem aos conceitos de política voltada para o trabalho pesquisado. Seus relatos promoveram esclarecimentos sobre o cenário político, econômico e social, no período de 1968 a 1975, quando o Governo Civil-Militar Brasileiro perseguiu qualquer força de oposição ao sistema implantado. Entre elas, se

3 METODOLOGIA

  Para trabalhar o tema abordado nesta pesquisa, a Guerrilha do Araguaia, sob o enfoque da reação do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) ao autoritarismo no Brasil, no contexto nacional de 1968 a 1975, buscou-se por fontes bibliográficas que se relacionassem ao tema proposto, nas quais as informações fornecidas fossem fundamentais para o posterior desenvolvimento da pesquisa em fontes documentais.

  Além disso, a utilização destas fontes bibliográficas possibilitaram a reconstituição do cenário brasileiro da época proposta (1968 a 1975), com relação ao PCdoB neste contexto. Vários autores foram abordados para a composição desta pesquisa, entre os quais, destaca-se: Moura (1979), Burlatski (1987), Segatto (1989), Arns (1991), Giordani (1996),

  Vários (1996), Campos Filho (1997), Hobsbawm (1998), Couto (1999), Gaspari (2002), Alves (2005), Buonicore (2006), Löwy (2006), Prestes (2006), Sales (2007), Carrion (2007).

  Para as fontes em documentos, buscou-se o Acervo de Luta Contra a Ditadura Militar, localizado na Praça da Alfândega, em Porto Alegre – RS, e os periódicos Jornal do Brasil e Estado de São Paulo, entre os anos de 1968 a 1975, localizados no Museu de Comunicação Hipólito da Costa.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.1 O PCdoB no Cenário Nacional: 1968–1975

  O Partido Comunista do Brasil (PCB) foi fundado em 25 de março de 1922, na cidade de Niterói (antiga Capital do Estado do Rio de Janeiro), sob forte influência da Revolução

  1 Russa. Seus integrantes defendiam ser possível a tomada do poder pelo proletariado .

  Sua fundação respondeu a uma exigência do movimento operário da época, pois, nas

  2 primeiras décadas do século XX, existia a carência de um partido operário revolucionário .

  Portanto, constituiu-se como resultado da formação do proletariado e do desenvolvimento de suas lutas no Brasil, que têm início na segunda metade do século XIX. Na Figura 1 o registro do Congresso de fundação do PCB.

  

Figura 1 - Congresso de Fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB), em 25 de março de 1922 (Fonte:

, ano III, n. 29, março de 2006, p. 12).

  Jornal Imprensa Popular

1 Proletariado ou classe operária, para Marx e Engels, está engajado em sua luta contra a BURGUESIA, sendo a

  

força polắtica que realizaria a destruição do CAPITALISMO e uma TRANSIđấO para o SOCIALISMO

2 (BOTTOMORE, 2001, p. 66).

  

O Partido operário, revolucionário e independente, ocupou uma posição fundamental no pensamento e na

atividade política. A classe operária não pode agir como classe, exceto constituindo-se em um partido político

  Este movimento político ocorreu em função da implantação do processo industrial que, por sua vez, foi parte de profundas transformações por que passava a sociedade nacional naquele momento, principalmente, em razão da economia cafeeira no Rio de Janeiro, no sul de Minas Gerais e em São Paulo.

  A economia cafeeira foi o produto mais importante do Brasil, representando cerca de 70% das exportações. O problema foi a super produção, que fez cair os preços no mercado mundial. Como conseqüência, os cafeicultores de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais montaram um acordo, onde ficava acertado que os governos comprariam os excedentes de café.

  Para conceituar os sistemas de governo, o partido político e as ideologias, buscou-se os conceitos de Rémond (2003), Bobbio (1995-2005), Bonavides (2005) e Bottomore (2001). Para Rémond (2003) a dimensão ideológica se baseia na idéia de que um partido se define, fundamentalmente, pelos seus fins, ou seja, pelo seu projeto de sociedade. Sob essa

  ótica, o modelo marxista realiza seu ideal, cuja legitimidade não é posta em dúvida, resultando daí os partidos de esquerda. Nesta concepção, ideologicamente, o Partido Comunista serve de referência.

  Este partido surge como o primeiro partido brasileiro. Assim sendo, o surgimento do Partido Comunista do Brasil (PCB) significava para o proletariado a abertura de perspectiva

  3

  4

  de superação do espontaneismo e do economicismo , com vistas à transformação revolucionária da sociedade.

  Nesse universo, e como reação das classes dominantes, o PCB foi colocado na clandestinidade, em julho de 1922, quando o governo decretou Estado de Sítio, após o Levante do Forte de Copacabana, rebelião tenentista que tentou evitar a posse de Artur Bernardes. Os tenentes não queriam mais o domínio das oligarquias, que trazia atraso e corrupção, pela política café com leite.

  De 1922 até 1945 o PCB se mantém na clandestinidade. Em 1945, o partido conquista a anistia e a legalização. Na eleição, deste mesmo ano, o PCB aparece como a quarta maior força partidária do país, uma grande vitória política como aponta Anita Leocádia Prestes:

3 Espontaneismo, convicção de que a revolução sócia pode e deve ocorrer de forma espontânea se é para ter uma

  

base solida, considera nociva ação de partidos ou indivíduos sobre a elaboração de um revolucionário

4 (BOTTOMORE, 2001, p.138).

  

Economicismo, conceito desenvolvido por Lenin em vários artigos de 1899 que criticavam certos grupos

  Nas eleições de 02/12/1945, para a assembléia constituinte, o PCB obteve grande vitória, Luiz Carlos Prestes foi eleito senador pelo Distrito Federal (o mais votado da historia da República, com mais de 160 mil votos) e deputado por três estados, segundo a legislação em vigor na época. Além disso, foram eleitos 14 deputados comunistas, entre os quais se destacavam nomes como os de Carlos Marighela, Gregório Bezerra, Osvaldo Pacheco e Jorge Amado (PRESTES, 2006, p. 48).

  É de significância demonstrar o resultado eleitoral do poder executivo e do poder legislativo no ano de 1945 (Figura 2).

  

Figura 2 – Demonstrativo do resultado eleitoral de 1945 (Fonte: BOULOS JÚNIOR, A. História: sociedade &

cidadania. São Paulo: FTD, 2006, p. 148).

  A Figura 2 mostra o gráfico dos candidatos à presidência: o general Eurico Gaspar Dutra, pela coligação PSD- PTB, que obteve 55% dos votos; o brigadeiro Eduardo Gomes, pela UDN, que obteve 33% dos votos; e. Yedo Fiúza pelo PCB, que obteve 10% dos votos, mostrando a proporção de votos dos partidos nas eleições de 1945.

  Na leitura dos dados apresentados o general Eurico Gaspar Dutra vencedor das eleições por maioria absoluta dos votos, agremiando-se a sua vitória ao partido getulista, PTB, e à liderança de Getulio Vargas.

  As eleições legislativas de 1945 apresentaram o seguinte quadro de votação: PSD com 53% dos votos; UDN, com 26 % dos votos; PTB, com 8% dos votos; PCdoB com 5% dos votos; e, os outros partidos somaram 8% dos votos.

  Para as eleições do Legislativo, observa-se que o Partido Social Democrático (PSD), foi o maior vitorioso, conseguindo 151 cadeiras para a câmara dos deputados, e para o senado 39; a União Democrática Nacional (UDN) conquistou 77 cadeiras, para a câmara dos deputados, tornando-se a segunda maior força partidária. Nesta eleição, o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), sem a figura de Getulio Vargas, ficou apenas em terceiro lugar com 22 cadeiras para a câmara dos deputados e duas cadeiras, apenas, para o senado; o Partido Comunista do Brasil (PCB) foi a grande surpresa das eleições de 1945, sendo o quarto partido

  Os outros partidos conquistaram, juntos, oito cadeiras para a câmara dos deputados e cinco, para o senado. Foi eleito também o legislativo que formaria o Congresso Nacional, que no primeiro momento comporia a assembléia constituinte, após a elaboração da constituição de 1946, transforma-se em Congresso Nacional, onde a maioria pertencia ao PSD, o partido do presidente Dutra. Mas, o surpreendente, foram os mais de 500 mil votos aos comunistas, tornando possível a eleição de uma bancada de 15 membros na Assembléia Constituinte, incluindo um senador, Luis Carlos Prestes.

  Entretanto, de acordo com Segatto (1999), o registro do Partido Comunista do Brasil foi cassado em 1947, pelo governo Dutra, quando passa a ficar entre idas e vindas, da clandestinidade para a legalidade e vice-versa, permanecendo nessa situação até a década de 1960 (1960 – 1964).

  Em 1956, começou uma luta interna pelo comando do Partido: de um lado, tendo à frente Luiz Carlos Prestes, que buscava rever o marxismo e a ditadura proletária; de outro, com a liderança de João Amazonas, que lutava pela permanência do marxismo e dos

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  princípios da ditadura proletária e da revolução . Este mesmo autor assinala que no ano de 1961, o Partido Comunista do Brasil realiza uma conferencia nacional onde é aprovado o novo estatuto, que altera o nome de Partido Comunista do Brasil para Partido Comunista Brasileiro (PCB).

  Porém em 18 de fevereiro de 1962, o grupo dissidente no partido organiza uma Conferência Extraordinária, decidindo pela manutenção do nome Partido Comunista do Brasil e a adoção da sigla PCdoB, centrado em bases revolucionárias que têm por objetivo a implantação, através da luta armada, do chamado ‘governo popular’. O grupo dissidente era composto por João Amazonas, Ângelo Arroio, Diógenes Arruda Câmara, Pedro Pomar, Maurício Grabois, Elza Monerat, entre outros. Para esse mesmo autor, daí em diante os

  6

  7 partidos comunistas, PCB e o PCdoB iriam se distanciar cada vez mais.

5 Ditadura do proletário é um conceito fundamental do pensamento político de Marx e também do leninismo

  

como um momento intermediário necessário no caminho para abolição das diferenças de classe em geral,

6 (BOTTOMORE, 2001, p.111).

  

O PCB passa a se chamar Partido Comunista Brasileiro em 1961 através do novo estatuto em conferência

Nacional (SEGATTO, 1999, p.25).

  O PCdoB segue programa às referências ao Marxismo–Leninismo. Em fevereiro de 1962 com um novo estatuto declarou a reorganização do Partido que segundo seus membros o grupo de Prestes tentara liquidar. A partir deste momento, o Brasil passou a conviver com dois Partidos Comunistas, o PCB e o PCdoB (SALES, 2007, p.20).

  Entende-se como importante conhecer o estatuto do PCB e do PCdoB. De acordo com o Estatuto do Partido Comunista Brasileiro (PCB):

  Deve ser organizado para, centrando-se no movimento de massas, viabilizarem as ações estratégicas voltadas para a construção do processo revolucionário. As ações do PCB devem pautar-se simultaneamente, pela tomada de iniciativas políticas, no tempo da conjuntura e no passo da construção do processo revolucionário definido por sua concepção estratégica, e pela busca da classe trabalhadora. O PCB deverá atuar de forma constante e cadenciada, devendo cada direção, organização de base e

militante ter sempre uma agenda mínima de atividades.

  O PCB entende que, em meio ao amplo leque de autores que consiste o marxismo, no

  :

  que diz respeito à construção do partido, que

  Esta construção deve basear-se em elementos reais, ditados pelas condições em que se dá a luta de classes nos seus diversos segmentos. Tem como núcleo central as bases, concebidas como organismos que têm como finalidade a realização do trabalho político para por em prática as propostas do Partido e, ao mesmo tempo, recolher as experiências e reivindicações das massas, para melhor capacitar o Partido na elaboração de proposta realistas.

  A assistência às bases deve ser garantida pelos organismos superiores e solicitada pelas bases sempre que for necessário. Preservadas e respeitadas as características pessoais de cada membro, seguindo as diretrizes das instâncias superiores realizando as tarefas do partido.

  Para a construção do processo revolucionário, o PCB deve atuar de forma unitária e constante. Os quadros são lideranças de trabalhadores, ativistas de movimentos sociais ou pessoas que tenham interesse ou potencial para o trabalho político que, trabalha sua formação teórica, possam inserir-se na luta pela transformação revolucionaria da sociedade.

  A diferenciação entre militantes e simpatizantes ou amigos deve ser clara:

  O partido deve ter uma política ativa de recrutamento, mantendo, ao mesmo tempo, instâncias que permitam constante integração com os amigos, simpatizantes e pessoas que tenham interesse em conhecer e interagir com as ações do Partido. Os novos militantes devem receber atenção especial em seu processo de formação, tanto por parte das direções como pelas bases. O PCB precisa estar presente nas principais empresas do país. Para isto, dever-se-ia planejar a construção do partido com metas e prazos para a implantação nas concentrações industriais (ESTATUTO DO PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO, 2005, p. 49-51; POLÍTICAS, 2005).

  Já o Estatuto do PCdoB, reafirma que foi fundado em 25 de março de 1922 e reorganizado em 18 de fevereiro de 1962:

  É o Partido político da classe operária e do conjunto dos trabalhadores brasileiros, fiel representante dos interesses do povo trabalhador e da nação. Organização política de vanguarda consciente do proletário guia-se pela teoria cientifica e revolucionária elaborada por Marx e Engels, desenvolvida por Lênin e outros revolucionários marxistas.

  O PCdoB luta contra a exploração e a opressão capitalista e imperialista e,

  Visa a conquista do poder político pelo proletariado e seus aliados, propugnando o socialismo científico. Tem como objetivo superior o comunismo. Afirmando a superioridade do socialismo sobre o capitalismo, almeja retomar um novo ciclo de luta pelos ideais socialistas, renovados com os ensinamentos da experiência socialista do século XX, desenvolvido para atender á realidade do nosso tempo e ás exigências de nosso país e nossa gente. Ao mesmo tempo, no espírito do internacionalismo proletário, apóia a luta antiimperialista de todos os povos por sua emancipação nacional e social, soberania nacional.

  Os quadros são a coluna vertebral da estrutura partidária:

  São os principais responsáveis pela unidade do partido em torno de seus princípios e de sua orientação, bem como pela permanente construção política, ideológica e orgânica do partido. São os cumpridores exemplares dos deveres dos militantes. Quadros são os(as) militantes que, a partir de comprovada atuação regular em uma das organizações partidárias, realizam esforço pessoal permanente por elevar o domínio do marxismo-leninismo e da linha política do partido; estão rigorosamente em dia com suas obrigações financeiras junto ao partido; e que: a) São responsáveis para de funções de direção de comitês partidários, ou atuam junto aos órgãos de direção partidária, como membros de comissões

auxiliares ou em outras funções de apoio;

  b) Exercem atividades de representação política eletiva ou por indicação do partido, na atividade institucional e na direção de organização de massas; c) Atuam, por tarefas partidárias, no âmbito das atividades estatais, acadêmicas, cientificas e culturais, em funções técnicas de assessoria às bancadas e à direção partidária.

  O PCdoB é uma organização de caráter socialista, patriótico e antiimperialista, expressão e continuação da elevada tradição de lutas do povo brasileiro, de compromisso direitos, liberdade e solidariedade, de uma moral e ética proletária, humanista e democrática (ESTATUTO DO PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL, 1996, p. 45-6, 50-1; SOCIALISMO, 2005).

  Na leitura dos Estatutos dos dois Partidos Comunistas, o PCB e o PCdoB observa-se que, tanto o PCB quanto o PCdoB, são adeptos da corrente marxista-leninista. O termo

  8

  marxismo-leninismo ou leninismo, criado após a morte de Wladimir Ilitch Lenin , revolucionário russo responsável em grande parte pela Revolução Russa de 1917, influenciou teoricamente os partidos comunistas de todo o mundo. Sua contribuição resultou na criação desta corrente teórica, utilizada pelos dirigentes da URSS, a partir do ano de 1925, cuja

  9 doutrina é reivindicada por diferentes grupos comunistas, entre eles os maoístas .

  O que, principalmente, os diferenciava era a tática de implantação da luta armada no

  10 Brasil, onde o PCB era contrário, acreditando na via pacífica, ou seja, a revolução pela via da luta armada não era o caminho apropriado para a época.

  O leninismo é o marxismo da época do imperialismo da revolução proletária. Mas exatamente; o leninismo é a teoria e a tática da revolução proletária em geral, a tática da ditadura proletária em particular. Marx e Engels militaram no período pré-revolucionário (referimo-nos á revolução proletária), quando o imperialismo ainda não estava desenvolvido, no período de preparação do proletário para a revolução, no período em que a revolução proletária ainda não se tornara uma necessidade prática imediata. Porem Lenin, discípulo de Marx e Engels, no período de desenvolvimento do imperialismo e no período de desencadeamento da revolução proletária, quando a revolução proletária já havia triunfado em um país e destruído a democracia burguesa e iniciado a era da democracia proletária, a era dos Soviets. Por isso o leninismo é o desenvolvimento ulterior do marxismo.

  Mas estas características do marxismo-leninismo ou leninismo se explica por dois motivos: em primeiro lugar, pelo fato de que o lenininismo brotou da revolução proletária, cujo selo não pode deixar de ostentar; em segundo lugar, pelo fato de que se desenvolveu e fortaleceu na luta contra o oportunismo da II Internacional, luta que continua a ser condição necessária preliminar para o êxito da luta contra o capitalismo. A luta implacável contra o oportunismo e a exploração não podia deixar de ser uma das tarefas do leninismo. 8 Lenin procurou adaptar a teoria marxista do século XIX para a realidade do século XX (BOTTOMORE, 2001, 9 p.211).

  

Maoísmo ou maoístas é uma corrente comunista baseada nos ensinamentos e na filosofia do líder

revolucionário chinês Mao Tsé-Tung, levando o maoísmo a defender a insurreição armada como método de

tomar o poder em todas as sociedades e não só nas agrárias (BOTTOMORE, 2001, p. 232).

  Para Burlatski (1987) a corrente marxista-leninista está intimamente ligada à prática histórica e ao processo revolucionário mundial. O seu papel social mais importante é determinado pela sua contribuição para a educação revolucionária do proletariado e das forças de vanguarda de todos os trabalhadores e da intelectualidade progressista. Nesta qualidade, o marxismo-leninismo constrói a mais profunda base teórica da análise do processo histórico, da crítica do regime capitalista obsoleto e de conjectura das vias de transição de todos os povos para o novo regime social.

  O PCdoB apontava o imperialismo norte-americano, parte da burguesia brasileira e o latifúndio responsável pela paralisia do desenvolvimento no Brasil. Seus integrantes entediam que estes grupos beneficiavam o capital estrangeiro. A solução era implantar um governo popular revolucionário e um regime que combatesse o imperialismo dos Estados Unidos, o latifúndio e o monopolismo. Em seguida, o PCdoB se alinha à política e à ideologia do Partido Comunista Chinês (PCC), ao maoísmo e, também, na adoção da luta armada estratégica.

  A filosofia marxista-leninista permite analisar de forma cientifica e rigorosa os problemas complexos do desenvolvimento da sociedade humana, da natureza, e da consciência social. Esta corrente se adaptou a teoria marxista do século XIX à realidade do século XX. A corrente marxista-leninista é composta por diferentes grupos comunistas, inclusive os maoístas. Os princípios marxistas-leninistas da análise burguesa moderna têm em consideração todo o conjunto de raízes teóricas cognitivas sociais de cada um dos seus aspectos, no conjunto das idéias, políticas, econômicas e sociais (BURLATSKI, 1987, p.11).

  Na avaliação de Bonavides (2005) é possível colher na literatura marxista, na qual se 11 patenteia, a natureza dos partidos políticos, pelo ângulo da ideologia proletária . O materialismo histórico pretende, como concepção, entender todas as manifestações da vida social, como igualmente explicar o poder político a partir da dominação de classes, bem como seus instrumentos de ação.

  Para o mesmo autor, o que distingue o marxismo é o caráter do partido na sociedade burguesa e na sociedade socialista, exprimindo, antes de tudo, a existência da própria luta de classes.

  Já Bobbio (1995) avalia que todas as formas de governo que não possuem sistema democrático denominam-se ditadura, através de um Estado totalitário, tendo com base a 11 A ideologia operária para os marxistas deveria ser resolvida pela via política, com a organização de organização do poder, representado na ‘ordem’. O Estado de regime totalitário representa um governo que lida com as situações no limite da tolerância. Mas há diferença da ditadura do proletariado para a ditadura militar. A ditadura do proletariado passa a ser referida não mais a uma pessoa e sequer a um grupo de pessoas, mas a uma classe inteira. E, na ditadura militar, o ditador exerce poderes extraordinários, que podem ser substituídos por ‘domínio e autoritarismo’, com o apoio da classe dominante.

  Nessa perspectiva, sugere-se que o Governo Civil-Militar Brasileiro não aceite qualquer movimento de oposição ao regime imposto, limitando qualquer manifestação, além de direitos básicos, tais como a liberdade de expressão.

  Na leitura de Hobsbawm (1998) as Forças Armadas tomaram o poder no Brasil em março de 1964 contra um inimigo bastante conhecido, os herdeiros do grande líder trabalhista Getulio Vargas, que se deslocavam com simpatia para a esquerda, no início da década de 1960, propondo democratização, reforma agrária e reação à política americana.

  12 Nota-se que a instituição do Ato Institucional nº 5 , em 13 de dezembro de 1968,

  decretado no governo do General Arthur da Costa e Silva, serviu de base jurídica ao endurecimento do autoritarismo no Brasil. O AI-5 dava poderes totais ao presidente general, para colocar em recesso o Legislativo nos três poderes (Federal, estaduais e municipais), decretar intervenções nos estados e nos municípios, cassar mandatos e suspender direitos políticos de qualquer cidadão por dez anos, remover e aposentar funcionários públicos civis e militares, decretar Estado de Sítio e determinar seu prazo de duração, confiscar bens de cidadãos condenados por crime contra a Lei de Segurança Nacional (LSN) e impor a censura à imprensa, à correspondência, às telecomunicações e às diversões públicas.

  Dessa forma, iniciam-se os chamados ‘anos de chumbo’, onde a repressão política era ilimitada, marcando um período de perseguições a quem se opusesse ao governo instituído no

  

13

Brasil. Alguns historiadores chamaram o AI-5 de ‘golpe dentro do golpe’.

  O processo de ampliação e radicalização das lutas de massas foi contido pelo Ato Institucional nº 5 (AI-5), anunciado em dezembro de 1968. Era o golpe dentro do golpe. O regime endureceu ainda mais e se tornou uma ditadura terrorista. A tortura e os assassinatos de lideranças de esquerda passaram a fazer parte do cotidiano da vida política brasileira. O fechamento de qualquer possibilidade de uma substituição pacifica do regime levou ao crescimento da contestação armada (BUONICORE, 12 2006, p. 63).

  

Governo baixa Ato Institucional e coloca Congresso em recesso por tempo ilimitado (JORNAL DO BRASIL,

14 de dezembro de 1968, p. 1).

  Percebe-se, assim, que a promulgação do AI5 consolidou um Estado ditatorial. A resposta ao Ato, por parte da oposição, foi a luta armada dos grupos de esquerda, estratégia que teve resposta imediata dos setores da segurança interna, os quais se valeram para implantar e para reforçar o aparato de repressão e o terror, esmagando brutalmente a resistência armada.

  De acordo com Couto (1999), as punições não se limitaram aos responsáveis por ações ‘subversivas’ se bem que seus setores merecessem maior divulgação. Ressalta, ainda, esse mesmo autor, que os sindicatos e as universidades haviam sido alvo dos ideais comunistas, que ‘manipulavam’ as confederações e os sindicatos, atuando irregularmente e desarticulando o movimento sindical. Na área de educação as dificuldades para o Governo Civil-Militar Brasileiro foram maiores, sendo que a propaganda marxista e os ‘estudantes radicais doutrinados’ pelo PCdoB, PCB e Ação Popular (AP), já possuíam uma visão de esquerda, e os mais esclarecidos, estavam a favor da luta armada.

  Nesse contexto, entende-se que o PCdoB manteve a concepção marxista-leninista no campo da esquerda brasileira, aumentando os adeptos da revolução socialista como tarefa do presente e não do futuro.

  Reveste-se de importância fazer referência ao PCdoB, por concentrar recursos humanos e materiais na estruturação de sua base guerrilheira, no que revelou extraordinária capacidade organizativa, através de um grupo de militantes com treinamento na China. Paradoxal foi que a guerrilha do Araguaia, planejada para desfechar a guerra popular prolongada, segundo o modelo Maoísta com a guerrilha rural aonde deveria tomar o poder no campo para mais tarde dominar as cidades, através do apoio das massas.

  O modelo maoísta ou maoísmo, também chamado de marxismo-leninismo-maoismo é uma corrente do comunismo baseada nos ensinamentos de Mao Tse-Tung (1893-1976). Na Republica Popular da China, o pensamento de Mao Tse-Tung é a doutrina oficial do Partido Comunista Chinês. Uma característica do maoísmo é o voluntarismo, segundo o qual as condições objetivas da sociedade não são muito importantes se as condições subjetivas, isto é, a vontade revolucionaria do povo, estão presentes. Isso leva os maoístas a defender a insurreição da luta armada com métodos de tomar o poder em todas as sociedades, e não só no campo.

  Desse modo, a operação de combate dos grupos de esquerda se intitulava ‘luta armada’, e a formação de um exército popular ameaçava a ordem política implantada pelo enfrentavam o sistema autoritário. Entre estes grupos se encontrava o PCdoB, com a guerrilha rural do Araguaia.

  Na ótica de Giordani (1996), o presidente Médici viveu uma fase política difícil, tendo de se empenhar decididamente na luta contra o ‘terrorismo’ – as guerrilhas rurais e urbanas –, então em sua fase de maior violência.

  Os reprimidos, clandestinos, torturados e exilados não eram considerados cidadãos brasileiros, pois, deveriam ser tratados como ‘terroristas’ por um governo autoritário, onde não era admitido qualquer tipo de oposição.

  Percebe-se na leitura de Giordani (1996) um posicionamento semelhante ao de Couto (1999) na visão de dois oficiais do exército, na questão da Guerrilha e dos movimentos revolucionários, dos quais o PCdoB fez parte. Esses autores destacam os movimentos revolucionários como ‘terroristas’, que perturbavam a ‘ordem’ e ‘buscavam desestabilizar’ o Governo Civil-Militar Brasileiro. Estes autores também identificam a influência da Revolução Cubana nas posições adotadas pelos partidos de esquerda no Brasil, entre os quais estava o PCdoB.

  A luta contra o terrorismo explicava o arbítrio. A segurança nacional passa a ter precedência temporária sobre os direitos individuais. Era como se estivéssemos em guerra quando todo o esforço do país deve ser dirigido para a vitória (COUTO, 1999, p. 253).

  Verifica-se, que para os detentores do poder, os guerrilheiros, eram ‘terroristas’, deveriam ser aprisionados e ‘exterminados’, por desestabilizar o Governo Civil-Militar Brasileiro, através das guerrilhas. Assim, a FSN e o SNI foram ativados para eliminar toda e qualquer oposição que houvesse no país. Seus agentes vigiavam os opositores ao regime, podendo prendê-los a qualquer momento.

  Na avaliação conservadora de Giordani (1996), se o Brasil pudesse exorcizar-se de movimentos revolucionários, feliz do país, por ter nas Forças Armadas a segurança da pronta intervenção. Trata-se de uma perspectiva do Governo Civil-Militar Brasileiro com uma visão conservadora no entendimento da oposição.

  Verifica-se que, a partir das ações revolucionárias do PCdoB, foi dificultada a estrutura governamental do Governo Civil-Militar Brasileiro, tendo, assim, que direcionar o governar através da violência aberta, eliminando qualquer tipo de obstáculo. O Governo Civil-Militar Brasileiro, no período de 1968-1975, marcado pelo autoritarismo, manteve a ‘ordem’ a qualquer preço.

  A pesquisa, em um segundo momento, vai se remeter à atuação do PCdoB no sul do Estado do Pará com a Guerrilha do Araguaia, como reação ao autoritarismo brasileiro.

4.2 O PCdoB e a Guerrilha do Araguaia

  As atividades do PCdoB na Guerrilha do Araguaia e a opção pela guerra popular prolongada, elaborada em janeiro de 1969, já com a presença de militantes na região do Araguaia, deu-se com o documento ‘Guerra Popular, o caminho da luta armada no Brasil’. Através dele, pretendeu-se deflagrar um movimento que culminaria com a instalação de um governo revolucionário. Neste documento foi feita uma análise da situação político-social do Brasil, com o objetivo claro de estabelecer as características essenciais do nosso país. Seria necessário ter em conta a forma, a estratégia e a tática da luta armada, da experiência revolucionária e de certas características nacionais, a fim de traçar o caminho revolucionário.

  A partir daí, o PCdoB, através da sua estrutura de organização, começa a implantar o exército popular na região do Araguaia, no Estado do Pará, mesmo na conjuntura da repressão desencadeada após o AI-5, sendo este o único caminho que entendiam restar para combater os militares, através da luta armada no campo.

  Na avaliação de Campos Filho (1997), a Guerrilha do Araguaia não fugiu à regra histórica, situando-se em um momento complexo, marcado pela radicalização das lutas políticas no Brasil. De um lado, a Ditadura Civil-Militar Brasileira que cassara os direitos políticos dos cidadãos; de outro lado, os setores revolucionários que defendiam a transformação social e a tomada do poder para a instalação do socialismo, pela via revolucionária. A complexidade daquele momento, de forte repressão aos direitos sociais e de exclusão das oposições na participação política institucional, levou à luta armada. A situação vivida no país, nesta época, pela análise dos quadros do PCdoB, só seria possível através da violência, visando derrubar o Governo Civil-Militar Brasileiro.

  Nessa perspectiva, Löwy (2006) ressalta a importância do trabalho desenvolvido pelo PCdoB, através da luta armada no campo na região do Araguaia. Além disso, o interior era o lugar propício parra a guerra popular, pois existia uma população que vivia no abandono, na ignorância e na miséria.

  Para o partido, PCdoB, as grandes cidades não podiam ser o cenário principal da guerrilha popular para a libertação do povo brasileiro. Nestas cidades estavam concentrados Gerais, Porto Alegre, Salvador e Recife, cidades que sediavam grandes recursos para reprimir as lutas sociais. Nelas, os militares tinham a possibilidade de derrotar os movimentos rebeldes que não possuíam material bélico suficiente para enfrentá-los.

  Na leitura de Sales (2007), o epílogo da luta armada contra a Ditadura Civil-Militar Brasileira se daria em um cenário diferente, para quais os militares não estavam nem um pouco preparados e familiarizados. Para o mesmo autor, o responsável por este epílogo foi o PCdoB, que no ano de 1966, enquanto outros grupos combatiam a repressão política nas cidades, o PCdoB organizava um trabalho silencioso, na implantação de militantes na região do Araguaia, na localidade sul do Estado do Pará. Esta luta, após a descoberta do Exército Brasileiro teve a duração de 1972 a 1975.

  Dessa forma, tem início o processo de elaboração da implantação do chamado governo popular, através da luta armada para derrotar o sistema autoritário do regime civil-militar brasileiro.

  De acordo com Moura (1979), desde os meados da década de 1966, o PCdoB iniciou o trabalho de massas ao sul do Estado do Pará, escolhida como área mais adequada para o surgimento de um futuro ‘Exército Popular’. Com a escala repressiva desencadeada pelo Regime Militar, após o AI5, o PCdoB acelerou o deslocamento de militantes para essa área estratégica, contando, principalmente com lideranças estudantis obrigadas a viver na clandestinidade por força da perseguição policial.

  Percebe-se, assim, que o combate à Ditadura Civil-Militar Brasileira foi o centro de engajamento do PCdoB, que aprovou a política de união dos brasileiros. O partido inicia o

  14 trabalho de massas no Araguaia .

  De acordo com Arns (1991), todo este combate à Ditadura Civil-Militar Brasileira ocasionou vinte e nove dos processos estudados que abordavam atividades do PCdoB, divididos em dez estados, onde foram processados mais de trezentos cidadãos, acusados de ligação com o partido .

  Para este mesmo autor, desde o ano de 1969, o PCdoB começou a se organizar clandestinamente, reunindo 69 militantes, que trabalhavam com os camponeses, ajudando a construir estruturas locais, como escola, assistência médica e aulas de agronomia.

  A Figura 3 mostra a foto que evidencia a integração dos guerrilheiros do PCdoB, no Araguaia, com a população camponesa que se encontrava no esquecimento e no abandono pelo governo civil militar brasileiro.

  

Figura 3 – Demonstrativo do trabalho implantado pelo PCdoB na região do Araguaia através do serviço social

com a criação de uma escola e de um posto de saúde (Fonte: SÁ, G. Relato de um guerrilheiro. São Paulo: Anita Garibaldi, 1990, p. 73).

  De acordo com Carrion (2007), este envolvimento se deu apenas pelo convívio político, pois não houve tempo dos militantes do PCdoB desenvolverem tal trabalho, segundo havia sim grande simpatia da população pelos guerrilheiros, fazendo amizade no decorrer dos anos, nas relações pessoais e ainda devido ao atendimento prestado pelos guerrilheiros a população da região principalmente em relação a saúde e educação, a um povo que se encontrava abandonado.

  A manchete da Figura 4 tem como notícia a chegada do Exército Brasileiro à região de Tocantins, em Xambioá, para combater as Forças Guerrilheiras do Araguaia e acabar com a desordem e o atraso, provocado pelos guerrilheiros, na visão do governo civil militar brasileiro.

  

Figura 4 - O Exército desloca tropas para o Araguaia, visando combater o foco da guerrilha rural comandada

pelo Partido Comunista do Brasil - PCdoB (Fonte: O Estado de São Paulo, 24 de setembro de 1972, p. 27).

  Nesse contexto, a Guerrilha do Araguaia tem início em doze de abril de 1972, quando os órgãos de segurança detectaram a presença do PCdoB no sul do Pará e deslocaram imensos contingentes do Exército para sucessivas operações de cerco, as quais prosseguiram até janeiro de 1975. Iniciados os combates na região, o partido, PCdoB constituiu as ‘Forças Guerrilheiras do Araguaia’, que obtiveram algumas vitórias militares, contra o Exército Brasileiro. Na ocasião foram lançados comunicados tentando divulgar suas propostas políticas, para conquistar o apoio das massas e a adesão dos camponeses. O desfecho final dos combates, do ponto de vista militar, foi, entretanto, claramente favorável às tropas governamentais, resultando na morte de mais de cinqüenta militantes do PCdoB, após a recepção opressiva que se abateu sobre a população de toda região.

  Essa guerrilha, segundo Gaspari (2002), foi detectada pelas tropas que começaram a chegar no dia doze de abril de 1972, operando entre Marabá e Xambioá, entre as regiões do Pará e Tocantins. Acampou um batalhão por cidade, cada uma com quatrocentos homens, enquanto que no interior da floresta foram instaladas seis bases de combate. Em agosto, já haviam 1500 militares, sendo que o IV Exército comandava a operação a 1600 quilômetros, no Recife.

  Entretanto, a chamada Operação Papagaio, designada para a eliminação da guerrilha estava ainda ocultada, contando com um contingente que possuía oitocentos militares das tropas de elite do Exército Brasileiro. Além deste contingente militar, havia cerca de cem homens para cada Centro de Informações do Exército (CIE).

  Entende-se como importante, mostrar o espaço territorial do Araguaia onde aconteceram os embates entre as Forças Guerrilheiras do Araguaia e as Forças Militares do

  A Figura 5 descreve o mapa da região do Araguaia, com as bases de cada setor onde aconteceram os conflitos. As bases guerrilheiras são representadas pela foice e o martelo, as bases de tropas por dois soldados, as bases áreas é indicada por um avião e um helicóptero e o sol é o desembarque da comissão do exército no natal de 1973.

  

Figura 5 – Mapa da região do Araguaia (Fonte: GASPARI, E. A Ditadura escancarada. São Paulo: Companhia

das Letras, 2002, p. 349).

  15 Nesse universo, Alves (2005) afirma que o Serviço Nacional de Informações (SNI)

  descobriu o foco da guerrilha em 1972. Imediatamente o Exército iniciou uma ampla manobra de ocupação militar da área, promovendo, entre 1972 e 1975, três campanhas que envolveram um total de dez mil homens, sendo a maior mobilização de tropas realizada pelo Exército, semelhante à mobilização da Força Expedicionária Brasileira (FEB), na Segunda Guerra Mundial.

  As operações realizadas eram de caráter especial. Inicialmente toda a região foi declarada prioritária para a segurança nacional. Os militares instalaram bases militares nas cidades de Altamira, Humaitá, Imperatriz, Itaituba e Marabá.

  Percebe-se que essa operação realizada pelo Governo Civil-Militar Brasileiro produziria grande impacto no território brasileiro, tendo em vista o propósito de exterminar

  16 qualquer ação que se opusesse ao regime instituído no país .

  Do grande Presidente Médici guardamos uma ordem imorredoura: Quando invadirem um ‘aparelho’ terão de invadir metralhando. Estamos numa guerra e não podemos sacrificar os nossos [...] além do aniquilamento da guerrilha em curso na região do Araguaia (GIORDANI, 1996, p. 87).

  Na leitura de Campos Filho (1997), a Guerrilha do Araguaia não pode ser vista como ação de um pequeno grupo, sendo preciso dimensioná-la na devida proporção histórica, reconhecendo-a como a maior mobilização de tropas militares brasileiras desde a Segunda Guerra, quando as abrangências extrapolaram os limites da intolerância no país.

  Para o mesmo autor, é preciso entender como um capítulo sangrento, autoritário e violento da história dos movimentos sociais brasileiros. É preciso também enxergar, naqueles guerrilheiros, não uma força terrorista, mas sim homens e mulheres corajosos, que possuíam um ideal revolucionário, não visando destruir o Brasil. Pelo contrário, acreditavam lutar pela democracia e contra a dominação do Brasil por potências estrangeiras. Neste momento, a Guerrilha era o único caminho de luta possível.

  Nessa discussão, a origem e causas da revolução ou ‘guerrilha’ inserem-se na abordagem de Bonavides (2005). Para o autor, foi Marx, sem dúvida, o pensador que mais acentuou a origem das revoluções na esfera econômica. Segundo Bonavides (2005, p. 414) “[...] quando as forças materiais de produção na sociedade caem em contradição com as relações de produção existente’, tem-se, segundo o marxismo, o fator gerador de força e violência, [...]” que fazem aluir revolucionariamente o sistema político, econômico e social.

  Nessa perspectiva, Sales (2007) afirma que, no início dos combates, o PCdoB contava com um efetivo de 69 militantes, divididos em três áreas de destacamentos, sob os comandos de João Borges Ferreira, Osvaldo Orlando da Costa e Paulo Mendes Rodrigues. No comando geral da Comissão Militar das Forças Guerrilheiras do Araguaia, estavam Ângelo Arroyo, Mauricio Grabois, João Carlos Haas Sobrinho, Gilberto Olimpio e Libero Castiglia. O PCdoB se encontrava instalado na região do Araguaia, desde o final da década de 1960. Naquele momento político brasileiro, o partido e suas lideranças, nessa experiência, colocam à prova o 16 seu projeto de luta armada contra o Exército Brasileiro.

  

Para ALVES (2005) oficialmente a repressão à população da região do Araguaia, justificada pela necessidade

  Com um posicionamento semelhante ao de Sales (2007), na questão da organização da Guerrilha do Araguaia, encontra-se Gaspari (2002). Para este autor, os quadros do PCdoB dividiram-se, sim, em três áreas, em uma extensão de 130 quilômetros. Moviam-se numa suficiência de 6,5 mil quilômetros quadrados. Até o primeiro semestre de 1972, os guerrilheiros contavam com 59 homens e 14 mulheres. Quando o Exército chegou, havia 69 guerrilheiros na mata e sete a caminho. Cinco a menos que as forças de Fidel Castro ao alcançar o litoral cubano, 26 combatentes a menos do que Che Guevara tivera na Bolívia poucos anos antes. Seria a centelha de uma guerra popular.

  Nesse cenário, pela descrição dos documentos revolucionários do PCdoB, entrariam em um cenário de triunfo nos quais as montanhas e as florestas, os capões de mato e as grutas, abrigariam os guerrilheiros, protegidos pela simpatia das massas.

  Na avaliação de Campos Filho (1997), os estudos feitos pelo PCdoB quanto à região, que deveria ser preparada para a deflagração de um movimento armado, levando em conta que o sul do Pará correspondia perfeitamente às características assinadas pelos teóricos militares e balizadas pelas experiências internacionais. Tanto geograficamente, pelas dimensões territoriais, florestas e serras, como em relação às disparidades regionais, foi avaliado que as condições eram propícias para a deflagração do movimento guerrilheiro.

  Para esse mesmo autor, o território brasileiro com toda sua dimensão e contradições, e a situação de atraso e abandono da população rural brasileira, serviriam para reforçar os argumentos que consideravam o interior como elo da estrutura social brasileira.

  O documento ‘A Guerra Popular, o caminho da luta armada no Brasil’, apresentou os elementos essenciais a partir dos quais o PCdoB definiu o seu caminho revolucionário, podendo ser interpretado como uma síntese das formulações de Mao Tsé-Tung, a respeito da guerra popular prolongada, com algumas modificações, visando adaptá-la à realidade do Brasil.

  Para Gaspari (2002) o que se deu na região do Araguaia foi paroxismo do radicalismo ideológico que, com seus medos, influenciaram a vida política brasileira por quase uma década. A história brasileira registra confrontos armados sangrentos e duradouros entre o povo pobre e o poder. Este autor ressalta, ainda, que nos maiores confrontos, ocorridos no sertão de Canudos e nas matas do Contestado, contou-se em poucos os combatentes que sabiam ler e escrever. Nas matas perdidas do Araguaia, o PCdoB torna-se a única e derradeira força política brasileira a ir buscar na violência das massas a energia vital de seu projeto comunista.

  Na leitura de Buonicore (2006), o primeiro deslocamento guerrilheiro formado por João Amazonas tinha inicialmente cinco pessoas: José Genuíno, Glênio Sá, Osvaldo Orlando da Consta e José Humberto Bronca. As atividades desses guerrilheiros eram de desbravar a região, começar o trabalho na roça e se relacionar com a população camponesa, andar na mata caçar, percorrer a região. Esse autor ainda enfatiza que não havia uma atividade militar do PCdoB. A eclosão da luta armada no Araguaia se deu em abril de1972, com mais de dois mil soldados do Exercito na região levando a um aumento, sem precedentes das perseguições aos militantes do PCdoB. Entre o final de1972 e início 1973, foram presos, torturados e assassinados quatro dirigentes Carlos Danielli, Lincoln Oest, Luis Guilhardini, e Lincoln Bicalho Roque. Estava começando a operação limpeza que tinha por propósito eliminar a direção do partido que promovia a guerrilha, onde ninguém poderia sobreviver.

  Com posicionamentos semelhantes os autores Campos Filho (1997), Gaspari (2002) e Moura (1979) entendem que o primeiro movimento do governo civil-militar brasileiro aos guerrilheiros deu-se entre abril e outubro de 1972, ofensiva que mobilizou 3.200 militares das três Forças Armadas. Em agosto os militares somavam 1.500 soldados, movimentação de tropas semelhante ao da Força Expedicionária Brasileira (FEB).

  As tropas do Exército não estavam preparadas, ainda, para combater os guerrilheiros do Araguaia. As baixas do PCdoB ficaram em treze mortos e sete feridos. Mas em 22 de maio a população desta região começa a sofrer um autoritarismo sem limites por parte do governo militar, produzindo a primeira vítima,que foi Lourival de Sousa Paulino, barqueiro, amigo dos guerrilheiros.

  Estes mesmos autores ressaltam, ainda, que as tropas voltaram em outubro de 1973, desta vez somando 750 soldados, divididos em três grupos de 250 homens que se revezavam na zona do combate, sob ordens do CIE, comandados por oficiais das forças especiais e do esquadrão de elite do Exército, treinados para a guerra na selva. A ordem agora era para não fazer prisioneiros. A tática utilizada pelos guerrilheiros foi recuar para as áreas de refúgio, evitando o enfretamento imediato com as tropas federais, e continuar mantendo contato com a população, questão essencial para a sobrevivência dentro da mata. Tais contatos permitiam a aquisição de suprimentos e de realizar emboscadas contra o inimigo.

  Percebe-se que, na primeira ofensiva das Forças Armadas, algumas deficiências, entre elas uma foi subestimar as Forças Guerrilhas do Araguaia, que tivera treinamento de guerra na China, outra o despreparo do Exército brasileiro, para enfrentar a guerrilha no campo.

  A Figura 6 mostra o primeiro movimento do Exército Brasileiro contra os guerrilheiros, quando as tropas militares conquistaram alguns territórios sem sucesso, pois ainda não estavam efetivamente preparados para este confronto.

  

Figura 6 – Descoberta dos guerrilheiros que, surpreendidos, abandonaram as bases e embrenharam-se nas matas.

  As tropas chegam por Marabá (PA), Araguantins e Xambioá (Fonte: PORTELA, F. Guerra de guerrilhas no Brasil . São Paulo: Global, 1979, p. 350).

  Na leitura de Portela (1979) e de Moura (1979), o segundo movimento teve uma nova tática das Forças Armadas, contra os guerrilheiros. Dois meses depois em setembro de 1972, as Forças Armadas retornam ao Araguaia com um número maior de soldados, 3.000 militares. Embora a maior porcentagem das tropas fosse do Exército, agora contava com um maior apoio da Força Aérea e da Marinha. Parcialmente, as Forças Armadas foram estabelecendo uma nova relação com o povo da região, o objetivo era ganhar a simpatia da população com intenção de isolar as Forças Guerrilheiras do Araguaia e, por fim, tentar encurtar o tempo de guerrilha. Paralelamente, as tropas foram estabelecendo esta nova relação com o povo da região, ao mesmo tempo em que realizavam emboscadas nas estradas, roças, capoeiras e ocupavam a aldeia dos índios Suruí, obrigando-os a servir de guias. Espalharam bases militares por toda a região e distribuíram panfletos com o nome dos guerrilheiros que foram

  Para esses mesmos autores, mesmo utilizando uma nova tática e com um número maior de soldados, as Forças Armadas insistiam em enviar, para as matas do Araguaia pelotões compostos na sua maioria por recrutas. Foram utilizados recrutas do batalhão de selva, regimento acampado a 8 km da Rodovia Transamazônica. Estes militares não possuíam a menor experiência para aquele tipo de guerra que estava sendo desenvolvida. Constituiu-se em um equívoco enviar elementos despreparados para a selva do Araguaia, e essa pode ter sido uma das ‘razões do silêncio das Forças Armadas’, já que inúmeros soldados foram mortos em combate, havendo suspeita de que alguns se perderam nas matas sem terem sido jamais encontrados. As Forças Armadas preferem manter o silêncio sobre esta questão que ainda suscita polêmica entre os militares.

  De acordo com Campos Filho (1997), é importante destacar, no tocante à ação repressiva, pelas forças armadas, nos dois primeiros movimentos no Araguaia, entrando na mata com fardamento oficial de campanha. Foi um erro tático favorável às Forças Guerrilheiras do Araguaia, que identificavam facilmente seus alvos, sem receio de confundi- los com a população da região. Houve casos de militares descaracterizados, confundindo os guerrilheiros, que evitavam atirar com medo de atingir alvos errados, mas na maioria das ações efetuadas nas duas primeiras campanhas, o Exército brasileiro utilizou tropas fardadas.

  O relatório do CIE explica que a constatação do Exército de que o apoio da população era um fator de fortalecimento à resistência das Forças Guerrilheiras do Araguaia, também ressalta a necessidade de conhecer toda a região, os costumes do povo rural, suas necessidades, sendo esta a melhor forma de ganhar a confiança da população. No primeiro item do relatório afirma que ‘[...] a finalidade desta Norma Geral de Ação (NGA) é ver a importância da população no cenário da guerrilha rural e realçar aspectos importantes [...]’. Esses aspectos são relacionados, orientando as tropas para ganhar a confiança da população da região, mas o comportamento verificado foi o oposto. O Exército passou a desenvolver ali a chamada Operação Aciso (Ação Cívico-Social), visando atender a população, naquilo que era essencial, isto é, saúde, moradia e educação.

  Para Moura (1979) essas ações não foram suficientes para abalar o ciclo de confiança e de apoio às Forças Guerrilheiras do Araguaia. O pequeno intervalo entre a primeira e a segunda campanha das Forças Armadas, serviu para um maior contato com os camponeses da região, porém, o assistencialismo prestado pelo Exército foi desfrutado somente por poucos. Os guerrilheiros aproveitaram este intervalo para manter contato com a população da região visando algumas estratégias, entre elas a fragilidade dos armamentos. A fim de obter um Liberdade e pelos Direitos do Povo (ULDP), baseada em um programa com 27metas de um estudo elaborado através de depoimentos informais de camponeses, desde a sua chegada no local.

  Diz o documento da ULDP:

  A UNIÃO PELA LIBERDADE PELOS DIREITOS DO POVO, surgida para unir as amplas massas, crê que esses 27metas sintetizadas as reivindicações mais sentidas e imediatas do homem desta região. Incluem tudo que ele deseja e te direito. Representam, contudo, o mínimo exigido por eles nas condições atuais. Por isso a ULDP considera que este é um programa em defesa dos pobres e pelo progresso do interior. Em torno dele se unirá o povo sofrido: os lavradores, os castanheiros, os vaqueiros, os garimpeiros, os peões, os barqueiros, os que trabalham na madeira e na quebra de babaçu, os pequenos e médios comerciantes, enfim, todos os que querem o progresso da região de seus habitantes É hora da decisão, de acabar para sempre com o abandono em que vive o interior e de por fim aos incontáveis sofrimentos de milhões de brasileiros abandonados, humilhados e explorados. A Revolução abrirá o caminho para uma nova vida. Até hoje o povo foi tratado como escravo. Chegou o momento de levantar-se para varrer os inimigos da liberdade, da independência e do progresso do Brasil (MOURA, 1979, p. 79-80).

  Na avaliação de Portela (1979), em um curto espaço de dois meses, as Forças Armadas se retiraram da área. Em mais uma campanha, elas não souberam adotar uma tática eficaz para derrotar o inimigo. As ações sociais junto à população fracassaram, os guerrilheiros continuaram obtendo apoio e a guerrilha já começava a ter uma dimensão que incomodava o regime militar, a repercussão no exterior e a propaganda que o PCdoB começava realizar nas grandes cidades exigiram do governo civil-militar brasileiro uma ação definitiva, a ponto de envolver toda a cúpula militar brasileira, incluindo o general Presidente da República.

  Para Gaspari (2002) não era apenas isso, havia o fato de que apenas 69 guerrilheiros suportavam os ataques de mais de dez mil militares, com armamentos superiores, helicópteros, a Marinha com lanchas, e a Força Área com aviões. As tropas federais derrotadas recuaram para se preparar para contra ofensiva, que visava agora o aniquilamento total das Forças Guerrilheiras do Araguaia. Não sairiam da região enquanto não eliminassem todos os guerrilheiros. Desta vez não seriam feitos prisioneiros e nem deveriam deixar sobreviventes. Começava a construção de estradas, quartéis militares, pontes, trincheiras eram abertas nas matas, ocorriam prisões e torturas. Era o autoritarismo aberto para dar fim à guerrilha.

  Na Figura 7 é possível observar o recuo Forças Armadas, que comete o mesmo erro do primeiro movimento, não realizando uma preparação de combate na selva, e tendo sucesso parcial, contra a Guerrilha Armada.

  

Figura 7 Recuo das tropas federais e retomada dos contatos dos guerrilheiros com a população, agora de forma

ostensiva. É criada a União Pela Liberdade e pelos Direitos do Povo (ULDP). Os militares recuam, mas, fazem infiltrar, na área do conflito, agentes dos órgãos de informações disfarçados (Fonte: PORTELA, F. Guerra de guerrilhas no Brasil. São Paulo: Global, 1979, p. 353).

  De acordo com os autores Portela (1979), Moura (1979) e Gaspari (2002), o terceiro movimento seria a ofensiva final. No final de outubro de 1972, os militares deixaram a região, até outubro de 1973. Foi exatamente um ano de trégua sem conflitos entre militares e guerrilheiros. Com o fracasso das outras campanhas agora a ofensiva seria violenta contra a guerrilha, tendo o apoio, e o envolvimento do Presidente da República. O inimigo não seria mais subestimado, os militares procuraram as ligações entre os guerrilheiros e o PCdoB nas cidades. Teve início a caça aos comunistas e todos que tivessem ligação ou envolvimento com a guerrilha deveriam ser eliminados. A ordem era não deixar sobreviventes. Essa ordem foi determinada pelo Alto Comando em Brasília.

  Em meados de 1973 toda a área estava mapeada pelo CIE e SNI e os moradores da região fichados, obtendo os seus dados, para evitar apoio aos guerrilheiros comunistas. O simples fato de um morador receber um paulista (era com o povo da região chamava os guerrilheiros), em suas casas traria conseqüências a toda população.

  Para os mesmos autores, em outubro de 1973 começou o terceiro movimento totalmente diferente dos dois anteriores. As Forças Armadas ocuparam todos os municípios, nas regiões selvagens como Transamazônica, São Domingos, Brejo Grande, São Geraldo, Metade, Palestina e Santa Cruz. Foram mantidos militares da região como batalhão da selva de Manaus. O Exército Brasileiro constituía a maior força militar de combate, com destaque para a brigada de pára-quedas do Exército do Rio de Janeiro. A Força Aérea, trouxe o 1º Esquadrão, Misto de Reconhecimento e Ataque (EMRA) de Belém, além dos agentes de informação, espalhados pela região, para caçar os comunistas. Relatam os atos de autoritarismo escancarado que viria contra prisioneiros, tanto aos guerrilheiros quanto à população da região.

  Na perspectiva de Campos Filho (1997), o número de militares das Forças Armadas envolvidos no terceiro movimento é difícil de prever. Calcula-se entre todos os efetivos 3.800 militares, distribuídos em bases militares, em Marabá, Xambioá, Barcaba e Araguatins, e os vários acampamentos, localizados nos povoados e municípios, fixando um cerco total na área de conflito. No entanto, as ofensivas na selva, com o combate direto às Forças Guerrilheiras do Araguaia, deu-se, principalmente, pelos pára-quedistas e o CIE, responsável pelo mapeamento da região, contando com a participação de 250 militares com helicópteros e aviões, que bombardeavam áreas suspeitas, do mesmo modo ao usado na guerra do Vietnã.

  Para Moura (1979), simultaneamente em que se efetuavam várias prisões, com base em relatórios apresentados pelo CIE e SNI, que vasculhara toda a área, o Exército prosseguiu com as medidas táticas, cerco e aniquilamento.

  Dentro da mata as Forças Guerrilheiras do Araguaia, alertadas da presença dos militares, preparavam-se para o enfrentamento, havendo confiança pelas vitórias obtidas nos dois primeiros movimentos e o avanço do trabalho político. Contudo, o que o PCdoB enfrentou foi o cerco total da área e a retirada da população da região. Isto surpreendeu os guerrilheiros, bem como a ofensiva ter se dado em grande escala, mata a dentro, com militares especializados, prontos para o aniquilamento da guerrilha. Antes disso não sairiam da floresta. Essas manobras do Exército Brasileiro levaram as Forças Guerrilheiras do Araguaia a cometer erros em sua orientação tática.

  Com o terceiro movimento, o contato com a direção do partido PCdoB foi isolado devido à ação autoritária do regime militar nas cidades, dificultando a troca de informações,

  Para este mesmo autor, os guerrilheiros procuram desenvolver ações ofensivas, mas a vantagem numérica bélica do Exército era extremamente superior. Os conflitos com os militares quase sempre deixavam vítimas e prisioneiros. As baixas agora entre os soldados eram poucas, menores que nos movimentos anteriores. Sem ter a real dimensão do cerco, os guerrilheiros imaginavam que o efetivo militar não ultrapassasse de cinqüenta homens.

  A partir de dezembro de 1973 a guerrilha se reduziria a um confronto desigual. Pode- se dizer que o Exército decidira não deixar sobreviventes. Os guerrilheiros estavam preparados para dar suas vidas nas matas do Araguaia, pois ali haviam plantado os seus ideais. A luta prosseguiu pelo ano de 1974, embora restassem poucos guerrilheiros, e apesar do cerco militar, não foi fácil perseguir os últimos combatentes comunistas, mas a resistência era quase nula.

  De acordo com Portela (1979), entre os últimos guerrilheiros, que restaram estava Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, o mito do Araguaia. Sua morte foi comemorada com tiros e foguetes pelas Forças Armadas. Foi morto, surpreendido, em meio a um matagal pela tropa, pois o guia dos militares o confundiu, o civil Arlindo Piary. Após a sua morte o Exército desfilou com o corpo suspenso no ar, por cima das cidades até chegar a Xambioá, onde foi exposto à população, pondo fim ao mito guerrilheiro, indicando que o temido guerrilheiro Osvaldão seria enterrado na pista de pouso da Base Xambioá. Após, foi retirado, ‘para limpeza da área’.

  Na leitura de Moura (1979), em janeiro de 1975, a Guerrilha do Araguaia chegou ao fim, derrotada palas Forças Armadas, mas, parte das tropas permaneceu na região com a tarefa final de ‘limpar totalmente a área’, para que não houvesse qualquer resquício do combate ali travado. Os guerrilheiros enterrados em Bacaba e na pista de Xambioá foram desenterrados e seus restos mortais levados para a Serra das Andorinhas. Tal operação não tem confirmação dos órgãos militares, a não ser pelo depoimento do oficial do Exército coronel Pedro Cabral. Algo ainda perturbava as Forças Armadas Brasileiras, qual teria sido o fim de um dos principais comandantes das Forças Guerrilheiras do Araguaia, Ângelo Arroyo. Ele foi procurado pelos militares e não encontrado, portanto, a missão contra a Guerrilha do Araguaia não chegou ao fim integralmente, como desejava o Comando Militar do Planalto, havendo então um sobrevivente do terceiro movimento, um dos mais importantes dirigentes do PCdoB, presentes no Araguaia.

  O sul do Pará após a guerrilha recebeu atenção especial do Governo Civil Militar Brasileiro, a repercussão no exterior do acontecimento guerrilheiro, foi manchete no Jornal Le Monde, em 04/11/72, 12/01/73 e 12-13/08/73, deixando arranhada a imagem das Forças Armadas (CAMPOS FILHO, 1997, p. 193).

  O temor que a Guerrilha do Araguaia não estivesse sido exterminada gerou um constrangimento entre as Forças Armadas em relação à população daquela região. De pretensa área liberada, como queria o PCdoB, o sul da região do Pará, o Araguaia, passou a ser controlado pelo SNI e CIE, no comando do major Sebastião Curió.

  Encerra-se a Guerrilha do Araguaia, mas permanece, ainda, o mistério sobre o que havia sido feito com os guerrilheiros presos e onde se encontravam os corpos dos mortos. A informação obtida sobre estas questões é de que todos os guerrilheiros, presos no andamento do terceiro movimento, foram executados ou mortos por tortura. A denúncia veio através do Coronel Pedro Cabral, em entrevista à revista Veja, do dia 13 de outubro de 1993. De seu depoimento, destaca-se:

  Segundo o oficial do Exército as ordens vieram de Brasília, que não houvesse nenhum guerrilheiro ou comunista vivo, é estarrecedor, é forte, é triste, mas eram as ordens recebidas. Os militares saiam com os guerrilheiros, após obterem informações os levavam para dentro da mata e os executavam. No linguajar militar, punha-os pra viajar. Viajar significava execução (CAMPOS FILHO, 1997, p.155).

  Constata-se assim que o PCdoB, com a Guerrilha do Araguaia, impôs ao Governo Civil-Militar Brasileiro os anseios de uma sociedade que vivia no abandono, no esquecimento e na marginalização, por um governo autoritário, em um período em que não era possível exercer e desfrutar a liberdade.

  A Figura 8 mostra o cerco total da região de conflito, efetuada pelas Forças Armadas Brasileiras, onde os guerrilheiros não tiveram nenhuma chance de fuga, sendo quase todos aniquilados.

  

Figura 8 – Última campanha, com sua estratégia de cerco e aniquilamento. Os guerrilheiros são encurralados

entre um forte aparato militar e as densas matas do Araguaia, distanciando-se dos pontos de apoio onde estavam armazenados víveres e medicamentos (PORTELA, F. Guerra de guerrilhas no Brasil.

  São Paulo: Global, 1979).

  Entende-se como significância renome ar os desaparecidos e mortos na Guerrilha do Araguaia (1972-1975) em conflito com as Forças Aramadas Brasileiras, pelo ideal de justiça social que buscavam são eles:

  Dinalva Oliveira, nascido em 16/05/45 Argoín-BA, Geógrafa, desaparecida desde 25/12/73; Osvaldo Orlando da Costa, nascido em 27//04/38 Passa Quatro-MG, Engenheiro, desaparecido em meados de 1974; Miguel Ferreira nascido em 12/07/43 Recife (PE), bancário morto pelos militares em 20/09/72; Hélio Luiz, estudante de Química (UFRJ), desaparecido desde 14/01/74; Antonio de Pádua, estudante de Física (UFRJ), desaparecido desde inicio de 1974; Paulo Roberto nascido em Pains-MG, bancário desaparecido desde 25/12/73; Luiza Augusta, nascida em Araraquara- SP, Enfermeira, desaparecida em 25/12/73; Ciro Flavio, nascido em 26/12/43, cursava Arquitetura (UFRJ), morto em 30/09/72; Andre Gabrois nasceu no Rio de Janeiro em 03/12/46, estudante, morto em 14/10/73; João C. Haas, nascido em Porto Alegre-RS, Médico, morto em 30/09/72; Antonio Guilherme, nascido em 20/09/46 São Paulo, desaparecido em 29/11/73; Antonio Carlos nascido em Ilhéus-BA em 24/08/44, Geólogo, desaparecido em 28/09/72; Daniel Ribeiro nascido em São Gonçalo-RJ, 16/10/40, operário, desaparecido desde 25/12/73; Manoel José, desaparecido desde 25/12/73; Nelson Lima nascido na Bahia, morto em 02/01/74; José Humberto Bronca nasceu em Porto Alegre- RS em 08/09/34, atleta, desaparecido desde 25/12/73; Helenira Souza, estudante (UNE), morta em 29/02/72; Tobias Pereira, estudante de Medicina (UFRJ), desaparecido desde 1974; Luiz René nasceu no Rio de Janeiro em 15/07/51, Médico, desaparecido desde janeiro de 1974; Rodolfo Trolano, mineiro, desaparecido desde 1974; Gilberto Olimpio, jornalista em Lucia nasceu em Agudos-SP, em 28/03/50, morta em junho de 1974; Francisco Chaves, morto 20/09/72; Antonio de Castro estudante de Farmácia (UFRJ), morto em 25/12/73; Áurea Elisa, estudante de física (UFRJ), desaparecida desde 1974; Rosalindo de Souza, nasceu em Saúde-BA, estudante de Direito (UFBA), morto em setembro de 1975; Uirassu de Assis, baiano, estudante, desaparecido desde 1974; Dinaelza Santana nasceu em Vitoria da Conquista-BA, Geógrafa, desaparecida desde 25/12/73; Antonio Ferreira Pinto, nordestino, desaparecido desde 14/01/74; Adalísio Soares Aranha nasceu em Rubim-MG, Psicólogo, desaparecido desde 1972; João Gualberto, natural de Espírito Santo, estudante, morto em 14/10/73; Guilherme Gomes nasceu no Rio de Janeiro, em 11/07/47, Arquiteto, desaparecido desde 25/12/73; Kleber Lemos Silva, membro da UNE, morto em 1972; Orlando Momente nasceu em São Paulo, líder sindical, desaparecido desde 1974; Maria Cecília Correia, natural do Rio de Janeiro, bancaria desaparecida desde 1974; Jana Moroni Barroso nasceu em Fortaleza-CE, Bióloga, desaparecida desde 02/01/74; Líbero Giancarlo Castiglia nascido em Comune Di Sam Lucido - Itália, desaparecido desde 25/12/73; Jaime Peitt da Silva nasceu em Iacanga-SP em 18/06/45, Professor de matemática e física, desaparecido desde 29/11/73; Paulo Mendes Rodrigues, Economista natural do Rio Grande do Sul, desaparecido desde 25/12/73; Sueli Yumiko Kanayama nasceu em Coronel Macedo-SP em 25/05/48, formada em Língua Portuguesa e Germânica pela USP, morta em 1974; Elmo Correia estudante de Medicina, desaparecido desde 1974; Lucio Peitt da Silva nasceu em Piratinga-SP em 01/12/43, Engenheiro, desaparecido desde 14/01/74; Telma Regina Correia estudante de Geografia da (UFF), desaparecida desde 1974; Pedro Alexandrino estudante universitário, desaparecido desde 1974; Jose Lima Piauhy natural da Bahia, fotografo, desaparecido desde 25/12/73; Adriano Fonseca nasceu em Minas Gerais, filosofo morto em 29/11/73; Valquiria Afonso Costa nasceu em Uberaba-MG 02/08/47, estudante de Artes e Educação (UFMG), Vandick Reidner Pereira nasceu em Boa Vista-BA, Economista e professor de História, desaparecido desde 25/12/73; Divino Ferreira Souza natural de Goiás, camponês, morto em 14/10/74; Cilon da Cunha Brun nasceu em São Sepé-RS em 03/02/46, Economista, desaparecido desde 25/12/73; Dermeval da Silva Pereira, Advogado, natural da Bahia, desaparecido desde 1974; Lucia Maria de Souza nasceu no Rio de Janeiro, estudante de Medicina, morta em 24/10/74; Bergson Gurjão Farias natural do Ceará, Químico, morto em 08/05/72; Arlindo Valadão natural do Espírito Santo, Físico, morto em 24/11/74; Custodio Saraiva Neto natural do Ceará, estudante, desaparecido desde 1974; Antonio Alfredo Campos camponês, nascido no Pará, morto em 14/10/73; Joaquinzão, José Lorival Paulino, Frederico, Luizão e Luizinho, camponeses da região que integraram nas Forças Guerrilheiras do Araguaia, dos quais faltam maiores dados biográficos.

  Os guerrilheiros citados nesta relação acima foram, para região do Araguaia entre 1969 e 1971, abandonando seu modo de vida por uma causa em busca de uma igualdade social, da liberdade política e do direito democrático em nosso país. (Fonte da lista de nomes dos Guerrilheiros do Araguaia, Carrion 2007,p.15 – 17, Campos Filho 1997,p.229 – 232, Vários 1996, Bibliografia dos Guerrilheiros, p.76 – 92)

   CONSIDERAđỏES FINAIS

  Com esta pesquisa foi possível perceber que o Partido Comunista do Brasil (PCB), criado em 1922, para reivindicar os direitos da classe proletária e do povo brasileiro, nesta época, surgiu como instrumento de luta contra a oligarquia brasileira.

  Nesta perspectiva o PCB buscou o apoio dos trabalhadores para chegar ao poder, adotando como estratégia a participação nas atividades dos sindicatos e das lutas operárias em busca das melhorias sociais. Tendo assim, neste mesmo ano, se tornado uma ameaça para a oligarquia vigente. Neste sentido, a ordem social representada pela elite oligárquica, criou mecanismos para colocar o partido na clandestinidade.

  Entende-se que o PCB teve dificuldade de manter-se entre 1922 e 1945, devido aos mecanismos a ele impostos pela a classe dominante, que compunha a política brasileira. Essa situação levou o partido a trabalhar em busca da anistia, da legalidade, conseguindo-a em abril de 1945, com decreto do governo Vargas.

  Dessa forma, o partido participa da eleição de 1945, tornando-se uma surpresa eleitoral, obtendo uma grande vitória política. Esta situação levou novamente o partido em 1947, à clandestinidade, pois, ao mostrar crescimento e mobilização dos trabalhadores, torna- se uma ameaça aos interesses do governo Dutra. Também, soma-se à posição do governo brasileiro, o processo democrático dos Estados Unidos da América e as influências do mundo bipolar. O PCB continuou na clandestinidade até a década de 1960, mas, antes disso, o partido teve uma luta política interna pela liderança partidária.

  Em 1961, entretanto, o PCB realiza uma Conferência Nacional, deixando de se chamar Parido Comunista do Brasil, adotando como novo nome Partido Comunista Brasileiro. Como resultado de uma dissidência entre os integrantes do partido, é resgatado o nome Partido Comunista do Brasil, com a sigla PCdoB. Compreende-se que estas diretrizes, adotadas pelo PCB e PCdoB os distanciariam, cada vez mais, mudando o rumo da história política do país, em especial, nos apoios para a eleição, na década de 1960.

  Neste contexto, identificou-se, através da leitura dos estatutos do PCB e do PCdoB, que ambos baseiam-se em ideais muito semelhantes, na concepção marxista-leninista. Expõem suas diferenças, sobre a luta armada estratégica, onde o PCB é contra, por considerar não ser o momento propício para ser implantada. Enquanto o PCdoB acreditava que a luta armada era o único caminho em busca de uma igualdade social, que levaria a burguesia e o imperialismo norte-americano à derrota.

  Quanto ao cenário político, o PCdoB buscava implantar um governo popular revolucionário, criando um sistema combativo à exploração do sistema capitalista do governo norte-americano, influenciando-se nas idéias de Mao Tsé-Tung, com base na luta armada estratégica.

  A formação de um governo popular foi acelerada, devido à instalação do AI-5, na data de 18 de dezembro de 1968, que atribuía plenos poderes ao presidente. Tal fato fez o PCdoB, antecipar o projeto de guerrilha rural na região sul do Pará, Araguaia.

  Quanto à situação do PCdoB dentro dos movimentos sociais, era abrangente, pois possuía material humano nos sindicatos e nas universidades, com pessoas esclarecidas, que eram favoráveis à luta armada.

  Pode-se sugerir a importante referência do PCdoB, através de movimento revolucionário, que era composto por diversos setores da sociedade, com participação de desempregados, trabalhadores precarizados e de marginalizados.

  A proposta do PCdoB leva um grupo de militantes a receber treinamento específico, na China, para o combate de guerrilha rural, culminando no Brasil com a Guerrilha do Araguaia.

  Identifica-se que o governo civil-militar brasileiro, entendia que o PCdoB era uma possível ameaça contra o regime instaurado, devendo ‘ser exterminado’. Assim foram ativados o FSN e o SNI, para vigiar os opositores, tendo os mesmos a prisão preventiva executada, a qualquer momento, demonstrando o poder instituído através dos Atos Institucionais, para combater os movimentos considerados ‘subversivos’.

  Neste contexto, o PCdoB situa-se no Araguaia, no ano de 1966, com um trabalho silencioso, implantado por seus militantes, tornando-se um eixo fundamental para os militantes partidários, na construção de uma estrutura para população camponesa, carente de justiça social, que, em parte, se junta ao grupo, para apoio ao foco da Guerrilha do Araguaia. O PCdoB contava com sessenta e nove guerrilheiros para o início do combate.

  Percebe-se que esta luta partidária, com seus ideais políticos, busca no Araguaia um local para por em prática os seus ideais de sociedade. Neste espaço geográfico se reúnem os militantes, que acreditavam na possibilidade de justiça social, com uma população camponesa com necessidades de sobrevivência. Tal situação aguça os militantes revolucionários na referência à base de seus ideais, a revolução comunista.

  Dessa forma, sugere-se que o governo civil-militar brasileiro foi um regime de autoritarismo instalado, sob o pretexto de combater o comunismo e a subversão, durante o

  Portanto, com essa abordagem, buscou-se resgatar a importância da Guerrilha do Araguaia e das ações desencadeadas pelo PCdoB, contra um regime autoritário, sem estigmatizá-las, compreendendo o real valor de sua atuação, em uma época em que foi retirado o direito à democracia e à liberdade política.

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FONTES DOCUMENTAIS

  CARRION, R. 85 anos PCdoB. Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul: Partido Comunista do Brasil, 2007. JORNAL DO BRASIL. Museu de Comunicação Hipólito da Costa. Porto Alegre-RS: 1968 – 1975. _____. Rio de Janeiro, 14 dez. 1968, p. 1. JORNAL IMPRENSA POPULAR. Acervo particular. _____. Rio de Janeiro, mar. 2006, p. 12. O ESTADO DE SÃO PAULO, São Paulo, 24 set.1972, p. 27. _____. Museu de Comunicação Hipólito da Costa. Porto Alegre-RS: 1968 – 1975.

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