A PESTE EM SANTA MARIA: A CIDADE SITIADA (1912-1924)

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FLAVIA DOS SANTOS PRESTES

A PESTE EM SANTA MARIA: A CIDADE SITIADA (1912-1924)

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FLAVIA DOS SANTOS PRESTES

A PESTE EM SANTA MARIA: A CIDADE SITIADA (1912-1924)

Trabalho Final de Graduação apresentado ao curso de História- Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de

licenciado em História

Orientadora: Profª Drª Nikelen Acosta Witter

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Flavia dos Santos Prestes

A PESTE EM SANTA MARIA: A CIDADE SITIADA (1912-1924)

Trabalho Final de Graduação apresentado ao curso de História- Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de licenciado (a) em História.

______________________________________ Professora Mestre Janaína Teixeira (UNIFRA)

_____________________________________________ Professora Mestre Paula Simone Bolzam (UNIFRA)

_____________________________________________ Professora Doutora Nikelen Acosta Witter (UNIFRA)

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A paciência nos faz ver além de um simples amanhecer. E é está paciência que as vezes nos diz para paramos e observamos.

E ao fazermos isso quem sabe poderemos ver o sol

Sentir que ele não está simplesmente nascendo para mais um dia, mas quem sabe para um dia em especial. Neste dia não haverá, tantos imprevistos, problemas sem resolução, será só mais um amanhecer.

Que poderá ao final da tarde nos mostrar que os dias podem ser diferentes uns dos outros: uns mais claros, outros mais longos, outros mais difíceis. Mesmo assim o sol sempre vai estar lá; algumas vezes escondido entre as nuvens, outras límpido, um pouco acanhado, mas sempre o sol que só se vai para dar lugar a lua.

O sol é como as pessoas.

Basta que se busque olhar um pouco mais, com profundidade.

Ele sempre vai lançar seus raios a todos que estiverem receptíveis a sua “magia”.

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RESUMO

Nossa proposta de pesquisa tem como tema demonstrar o contexto sócio-econômico em que se disseminou a peste bubônica em Santa Maria, registrada entre os anos de 1912 e 1924. Ressaltando a importância da relação entre esta doença e as condições socioeconômicas dentro do contexto de crescimento demográfico da região Além de contribuir para a historiografia brasileira, no sentido de ampliar o conhecimento sobre as doenças e os tratamentos do período estudado, como também, aplicar novas abordagens historiográficas, principalmente, na história da medicina, no que corresponde ao estudo específico de suas epidemias e doenças.

Palavras-chave: Peste Bubônica, Santa Maria, Doença, Tratamento.

ABSTRACT

Our research proposal is to demonstrate the theme of the socio-economic development in that spread the bubonic plague in Santa Maria, recorded between the years 1912 and 1924. Emphasizing the importance of the relationship between this disease and socioeconomic conditions within the context of demographic growth in the region in addition to contributing to the Brazilian historiography, in order to increase knowledge about diseases and treatments of the period studied, but also implement new approaches historiography, especially in the history of medicine, which corresponds to their specific study of epidemics and diseases.

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ... 7

2 EPIDEMIA E DOENÇA: SUA INFLUÊNCIA NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE ... 10

2.1 Os tempos de peste ... 12

2.2 O pesadelo da peste: nossos medos são os mesmos ... 15

2.3 As escalas da peste ... 17

3 A PESTE EM SANTA MARIA: A CIDADE SITIADA (1912-1924) ... 18

3.1 Moléstia suspeita ... 21

3.2 Atitude do corpo médico e as providencias tomadas ... 24

3.3 Novas vítimas ... 27

3.4 Diversas notas ... 31

3.5 Debelação da terrível moléstia ... 34

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 39

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1 INTRODUÇÃO

A ocorrência da doença representa a desorganização do círculo social, em especial, quando esta atinge uma comunidade, causando tensões entre os grupos e suas diferentes formas de organização, sejam elas políticas, religiosas ou administrativas. Em função disso, correlacionar a proliferação de doenças com o crescimento demográfico e as questões sociais, vem fazendo parte das novas abordagens historiográficas acerca da história da saúde.

As modificações ocorridas com relação aos métodos de se trabalhar com a pesquisa histórica, seus objetos e o seu alcance, fizeram com que, nas últimas décadas, fossem privilegiados novos recortes para o trabalho do historiador. Do micro ao macro, ganhou espaço a problematização do cotidiano e o privilégio das ações dos homens comuns como construtores da História. Para isso, se fez necessário buscar uma ampla troca de saberes com diversas outras áreas de pesquisa que trabalham com o estudo da humanidade.

A razão da mudança de abordagem está no fato de que narrar os acontecimentos por si só deixou de ser suficiente para a compreensão histórica. Por conseguinte, o foco principal da utilização das novas metodologias ficou por conta do privilegio dado à elaboração dos questionamentos, debates e, porque não, das diferentes respostas encontradas através do uso renovado e intensivo de fontes originais na construção histórica das sociedades.

A partir dessa inspiração teórica, encontramos o foco de nosso trabalho na ocorrência de uma doença epidêmica, historicamente estigmatizada, em uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, no exato momento em que esta vivenciava um surto de prosperidade. Nosso intuito foi o de ressaltar a importância da relação entre as doenças e as condições socioeconômicas, dentro do contexto de crescimento demográfico da região estudada. Assim sendo, nos dedicamos ao estudo da disseminação da peste bubônica em Santa Maria, entre os anos de 1912 e 1924.

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O primeiro ponto que nos chamou a atenção ao iniciarmos esta pesquisa foi o de estarmos trabalhando com uma doença – a peste bubônica – historicamente estigmatizada. Assim, dentro da problemática da influência das doenças no decorrer dos séculos, não há como não destacar a importância das epidemias de peste bubônica nas diversas regiões do continente europeu desde a Alta Idade Média. Para isso, apresentamos um breve histórico da passagem dessas epidemias, desde o século VI até o século XIX, e da forma como a doença foi sendo agregada de pavor e de estigmatização histórico-social ante seu espectro.

Por conseguinte, enfatizamos a questão do medo que se colou às epidemias dessa doença. O medo é um sentimento presente no cotidiano da humanidade desde os mais remotos tempos, sendo responsável por nosso senso de preservação e sentido sobrevivência. Ao longo dos séculos, esse sentimento vem desempenhando um papel importante na construção da história das sociedades. Mostrando-se sempre presente nas grandes mudanças de pensamento da humanidade que estruturaram o nascimento e o desenvolvimento das nações.

Para discorrer sobre tal sentimento, nos detivemos um pouco mais sobre a grande epidemia de Peste Negra do século XIV, que, por ter atingido cerca de um terço da população européia, marcou a época como de grande pavor, medo e desordem social. É no século XIV que a peste bubônica, chamada Negra, ou ainda Peste dos Ratos, recebeu sua maior carga de estigmatização. A partir daí, seu nome passou a ecoar com pavor onde quer que notícias sobre sua ocorrência chegassem. Este raciocínio compõe a primeira parte do trabalho.

A razão de termos escolhidos tais abordagens, está no fato de que doença, epidemia, peste bubônica e medo se tornaram, assim, as palavras-chaves de nosso trabalho. Isso ocorre no sentido de que nosso principal interesse é o de correlacionar o contexto sócio-econômico com a disseminação da peste bubônica em Santa Maria nas duas primeiras décadas do século XX. Assim, após as considerações sobre a história da peste, discorreremos brevemente sobre a chegada e instauração da epidemia desta em Santa Maria. Primeiramente, procuramos enfatizar o processo de crescimento da cidade e do surto populacional promovido pela estrada de ferro entre os últimos anos do século XIX e os primeiros do XX. Além da importante significação dessa linha de ferro, enquanto promovedora de contatos com as diferentes regiões do estado do Rio Grande do Sul.

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invisível de tudo isso, ou seja, a proliferação de germes, bactérias, responsáveis pela chegada de novas doenças.

Na segunda parte do trabalho, passaremos a tratar da peste bubônica propriamente dita em sua incursão pela região. Para contribuir teoricamente com nosso tema, buscou-se pesquisar fontes bibliográficas, contudo, tais informações se mostraram dispersas e raras. Assim, nos debruçamos sobre um manancial ainda em grande parte inédito de fontes primárias sobre a epidemia. Os relatos contidos nas reportagens do jornal O Diário do Interior, veiculadas entre 1912 e 1924. O conteúdo do relatório escrito pelo Doutor Astrogildo de Azevedo, diretor do recém criado Hospital de Caridade, e enviado ao doutor Ricardo Machado, Diretor de Higiene do estado do Rio Grande do Sul, em1912 Os prontuários da época, existentes no Hospital de Caridade e datados dos anos de 1903 a 1928. Além disso, contou-se com as Crônicas das Irmãs Franciscanas, que trabalhavam no Hospital de Caridade como enfermeiras, desde 1903.

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2 EPIDEMIA E DOENÇA: SUA INFLUÊNCIA NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE

A questão da saúde e de sua influência na história da humanidade vem se tornando importante fonte de estudos. Principalmente, quando estas pesquisas relacionam a saúde e a doença com relações de poder, florescimento de cidades e desenvolvimento do saber científico. Estes formam um conjunto de elementos tão marcantes na história quanto as guerras e as conquistas.

Através dos primeiros relatos sobre doenças, e de como o homem vem lutando contra ela, podemos compreender o papel que estas vem desempenhando na construção das sociedades humanas e dos seus processos sócio-históricos. A doença é uma preocupação que aparece junto à história humana desde seus primeiros relatos escritos. Conforme aponta Kenneth F. Kipple: “Existem evidências escritas e ilustradas deste fato provenientes do Egito e da Mesopotâmia, pelo menos a partir de cerca do ano 1000 a.C”. (2001, p.16).

Os primeiros casos eram os de doenças adquiridas por meio do contato ou ingestão de animais selvagens e também através de parasitas, como piolhos, vermes e bactérias. Quando o homem tornou-se agricultor, seu estilo de vida se sedentarizou, e ele passou a viver mais em comunidades. Através do cultivo da terra e da domesticação dos animais, surgiu o cenário propício – com maior contato entre os humanos, destes com os animais e também com o acúmulo de sujeira – para que as doenças passassem a se disseminar mais vertiginosamente.

Doenças transmitidas por parasitas, camundongos, ratos, mosquitos e águas contaminadas passaram a fazer parte do ambiente desses homens, agora dependentes da agricultura e organizados em assentamentos permanentes. As perdas humanas neste contexto, ainda não contabilizavam grandes números. Pois, junto com a adaptação dos seres humanos a um sistema baseado na agricultura e no sedentarismo, as doenças também iam se adaptando aos organismos humanos.

Contudo, conforme as populações iam aumentando, outras doenças iam surgindo. Segundo Kipple:

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Mesopotâmia e no Egito. No vale do Indu e também no subcontinente indiano, grandes populações estavam também emergindo. (KIPPLE, 2001, p.24).

Na medida em que cresciam as aglomerações humanas, o combate a estas novas doenças tornava-se cada vez mais difícil, tamanha era a quantidade de diferentes patógenos e seu grande poder de contaminação.

Os historiadores que se dedicam ao estudo da doença acreditam numa clara ligação entre a influência das doenças na história da humanidade e o crescimento das civilizações. Esta influência, segundo dados arqueológicos, aparece mais ou menos em torno de 500 a.C na Ásia e Europa. Doenças como varíola, difteria, influenza, varicela e cachumba, eram transmitidas diretamente de humano para humano. Além da relação das doenças com o crescimento das civilizações, já nesta época se tem informações de que as moléstias ampliaram sua circulação pelos movimentos comerciais entre as aldeias:

Saqueadores, mercadores, missionários e exércitos em marcha não mais permitiram que as civilizações florescessem em isolamento exótico. Movendo-se de um lugar para outro, eles também conectaram seus conjuntos de patógenos. Assim, uma doença familiar para um povo tornou-se a praga para outros povos. (KIPPLE, 2001, p.24).

Esse movimento migratório das doenças passou a ter o nome de surtos, visto que apareciam nas regiões de tempos em tempos. Também porque enquanto atacavam certas localidades deixavam outras livres. Ainda conforme as extensões de sua propagação adquiriram a referência de epidemia. Voltando a idéia de doença e aumento da população, percebe-se que a primeira passava a agir também como um agente controlador da população, diante dos limitados excedentes agrícolas. De acordo com Kiple: “à medida que pequenas vilas se tornaram maiores, tornaram-se mais esquálidas, e a pressão populacional ditava a concentração da dieta em estoques de alimentos cada vez menores.” (2001, p.22). Em outras palavras, o crescimento das cidades, estava diretamente relacionado com a produção de alimentos e esta (ou sua falta) estava relacionada com a invasão de vírus e bactérias, prejudiciais a saúde dos homens.

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Pérsia e alcançando a Grécia em 430 a.C, marcando a época como o “ponto de virada da história da Civilização Ocidental” (FLORENZANO, 1982, p. 53).

Seguindo a linha dos surtos epidemiológicos durante a conquista romana, séculos mais tarde, os patógenos continuaram a se expandir afetando regiões como a Macedônia e a Grécia (146 a.C), Ásia (64 a.C) e o Egito (30 a.C). A partir do século II, os registros sobre doenças se intensificam. A primeira grande ocorrência é a chamada praga de Antonino, em Roma, ocorrida entre os anos de 165 e 180 d.C. É possível que esta tenha matado cerca de um quarto a um terço da população, de acordo com as informações conhecidas. Logo depois, aconteceram sucessivas ondas epidêmicas, como a que castigou novamente Roma entre 211 e 266 d.C. (KIPLE, 2001, p. 26).

As doenças mais freqüentes até então eram: malária, tuberculose, difteria e influenza, sendo que, até o final do século V, conforme aponta Kipple: “ocorreram 200 epidemias, estas assolaram o Sudeste da Ásia, Oriente Médio e Leste da Ásia.” (2001 p.26). A partir do século VI, o predomínio é de doenças próprias de animais, e que até o presente momento não haviam proliferado nos organismos humanos em significativa escala. Entre estas doenças estava a peste bubônica, transmitida por ratos e pulgas. Esta passou a assolar comunidades inteiras provocando altas taxas de mortalidade. Para Ladurie: “a peste dos séculos VI e VII desenhou a sua maneira, num estilo simplista, o mapa da urbanização, da demografia e das facilidades de tráfico no ocidente gaulês da Alta Idade Média”. (1978, p.7).

O significado desta doença para nossa proposta de trabalho é de extrema importância, visto que seus “ciclos” foram responsáveis pela grande diminuição dos contingentes demográficos das regiões por onde passou.

2.1 Os tempos de peste

De acordo com Kenneth Kiple:

A peste bubônica originou-se nas “Bordas do Himalaia, onde a China e a Índia dividem uma fronteira- em parte porque as espécies de rato negro (Rattus rattus),

que foram tradicionalmente implicados na transmissão da peste, parecem ter se originado nessas regiões.” (KIPPLE, 2001, p.28).

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somente no primeiro ano matou cerca de trezentas mil pessoas Com o crescimento das cidades do Oriente como Constantinopla, considerada o principal porto comercial do Mediterrâneo, a epidemia alastrou-se pelas estradas romanas e atingiu também a Síria e a Pérsia, vindo a desaparecer depois disso. A peste de Justiniano foi considerada o primeiro ciclo da epidemia de peste bubônica na Europa. Os relatos desta epidemia foram descritos pelo historiador Procópio, que acrescentou também o receio da população, que passou a viver confinada em suas casas, pois achava que “fluidos naturais” poderiam entrar em suas residências enquanto estivesse dormindo.

Entre os séculos VI e VIII, a peste bubônica, fixou-se basicamente em regiões do Mediterrâneo com surtos epidêmicos virulentos que apareciam mais ou menos, a cada 12 anos. E veio a desaparecer no início do século IX. A partir do século XII, com o ressurgimento das rotas comerciais na Europa e o impulso comercial e migratório das Cruzadas, houve o favorecimento de aglomerações populacionais e construções desordenadas de edificações, o que novamente favoreceria o deslocamento de bactérias e disseminação de infecções.

Nos antigos e muito antigos regimes de economia, a situação era evidentemente diferente. As técnicas da época, relativamente leves, não eram férteis em produtos poluentes. Em contrapartida, o crescimento medieval e “moderno” nesta modalidade arcaica – do século XI ao XVI – colocou a ênfase, com muita força, sobre o desenvolvimento da demografia, dos défrichements, das cidades, do comércio, da colonização, das “Cruzadas”, das resistências e incursões militares. Ricos em contatos, esses processos implicavam em enormes riscos de poluição microbiana: afirmar isso, bem entendido é arrombar uma porta aberta. (LE ROY LADURIE, 1978, p.1).

Esse cenário se tornou propício para o reaparecimento da peste, que em seu segundo ciclo ficou conhecida como Peste Negra, devido ao aspecto horripilante dos que eram contaminados.1 Durante o século XIV, mais precisamente em 1346, atingiu Constantinopla e

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Gênova e, logo depois, toda a Europa, de Portugal e da Irlanda à Moscou. As devastações da “morte negra” estenderam-se pelos anos de 1348-1351, eliminando “a terça parte do mundo.” (DELUMEAU, 1989, p.107).

O alastramento da grande epidemia do século XIV trouxe para a Europa uma era de constante inquietação, em especial no âmbito das cidades que estavam se urbanizando em uma velocidade vertiginosa, resultado do crescimento demográfico e econômico do período. Segundo José Carlos Rodrigues, “a Europa medieval foi uma efervescência de movimentos, migrações, batalhas, trocas, comércio – interpenetrações que se materializaram, ora na sucessão, ora na contemporaneidade em misturas de elementos inteiramente impares.” (1999, p.31).

A Peste Negra passou a aparecer praticamente todos os anos na Europa até o século XVI. Alastrando-se pela França, Inglaterra, Bélgica e Alsácia. Não se falava mais em epidemia, mas sim em catástrofe, devido a retornos cada vez mais ofensivos, que alcançavam os mais remotos cantos. O cenário era assustador, com cadáveres apodrecendo nas ruas, os odores espalhando-se por todos os locais, as casas eram abandonadas, as roupas queimadas, os corpos enterrados em valas comuns. A disseminação da peste transformou a vida dos indivíduos, o seu cotidiano as cidades entraram pouco a pouco em desordem e dispersão. Não havia mais separação entre as camadas sociais, pois qualquer pessoa poderia se infectar. No imaginário da época, a peste estava em todos os lugares, entre os judeus, vinda dos céus, como castigo de Deus:

La peste iguala a los hombres, hace que unos y otros se reconoczan como potenciales enfermos. Pero aqui ya no se trata de esa igualdad entre pares que precisa suponer La pluralidad. La peste iguala, pero aún em esa igualdad instaura jerarquias y rangos, sustituye los argumentos por los mandatos y La cura por El aislamiento. (CAPONI, 1999, p.8).

A grande epidemia de peste que assolou o mundo medieval e o princípio da era moderna foi dividida em fases. Sendo a primeira a de 1348, considerada a mais forte. De 1348 até por volta de 1410, ocorreram surtos2 com cerca de dez anos de intervalo. Continuando pelo século XV, até o XVI classificado como segundo surto. O terceiro surto, com ataques mais esparsos, contudo, com violentas explosões, aterrorizou cidades como Londres, em

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1603, 1625 e 1665; Milão e Veneza, em 1576 e 1630; Espanha em 1596-1602, 1648-1652, 1677-1685; e Marselha, em 1720, vindo, então, a desaparecer do Ocidente.

Um terceiro ciclo de peste bubônica viria assolar as populações não só da Europa, mas também de regiões da Ásia, China e América. Segundo Ladurie, “este ciclo, fez sua primeira parada em Mandehourie e sobre as costas orientais da China.” (1978, p.2). Sendo responsável pela última pandemia, já no final do século XIX. A ocorrência desse ciclo fez ressurgir novamente sentimentos de terror e pânico coletivo, nos homens. Estes sentimentos antes relegados aos homens do medievo agora passavam a fazer parte também do cotidiano de diferentes regiões do mundo.

2.2 O pesadelo da peste: nossos medos são os mesmos

Ao apresentarmos uma breve descrição da doença e sua relação histórica com a humanidade, seguida de uma breve apresentação dos registros sobre as epidemias de peste bubônica, no decorrer dos séculos, surgiu à idéia de discorrermos sobre a questão do medo visto pela ótica histórica, em especial o medo da peste, também chamada negra, isto é, a peste bubônica. Para isso, delimitamos ponderar sobre a grande epidemia de Peste Negra que assolou a Europa durante o século XIV, e a onda de temor e medo que está significou.

Os grandes medos são parte importante no que se refere à formação da consciência coletiva de pertença ao mundo. Os medos nos dão também a dimensão de nosso tamanho diminuto em relação às intempéries do mundo natural, bem como criam as sombras que nos ameaçam através do mundo sobrenatural legado por nossas culturas ancestrais. Este sobrenatural era muito presente na Idade Média, época em que a disseminação da peste bubônica alcançou proporções gigantescas, alastrando-se por quase toda a Europa e dizimando cidades inteiras.

Segundo Jean Delumeau: “não só os indivíduos tomados isoladamente, mas também as coletividades e as próprias civilizações estão comprometidas num diálogo permanente com o medo.” (1989, p.12). Em razão disso, o medo da Peste Negra passou a ter forte influência na vida cotidiana da população européia.

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entre a França e a Inglaterra; além da expulsão de cerca de 100 mil judeus da França, e a perseguição aos hereges. O que resultou no abarrotamento das cidades, que ficaram lotadas de gente provindas do campo.

Ora, não foram justamente as aglomerações humanas o cenário propício para a propagação de doenças, conforme apontam os historiadores da área.Logo quem contraia a doença dificilmente sobrevivia. A peste trouxe para esse cenário, uma desordem social expressiva. Embora medos antigos, como os dos normandos, judeus, sarracenos pudessem ser considerados superados, a Europa agora era assolada por algo que fugia ao controle dos homens, o alastramento de uma doença que não se sabia de onde surgia, apenas que deixava grande escala de mortes por onde passava.

Cidades inteiras forma dizimadas pela Peste Negra, grandes contingentes humanos fugiam para outros locais que julgavam a peste não os alcançaria, mas levando-a consigo muitas vezes. Os que continuavam em suas casas trancavam-se, procurando evitar o contato com o próximo. Instalou-se nas regiões atingidas um verdadeiro cenário de terror, forças militares guardavam as entradas das cidades, os religiosos pregavam o fim do mundo, governantes se viam perdidos.

Agora eis a cidade sitiada pela doença, posta em quarentena, se necessário cercada pela tropa, confrontada com a angústia cotidiana e obrigada a um estilo de existência em ruptura com aquele a que se habituara. Os quadros familiares são abolidos. A insegurança não nasce apenas da presença da doença, as também de uma desestruturação dos elementos que construíram o meio cotidiano. Tudo é outro. Antes de mais nada, a cidade está anormalmente deserta e silenciosa. Muitas casas estão doravamente desabitadas. (DELUMEAU, 1989, p.120).

A epidemia de1348 marcou o ingresso da Europa na era do medo.

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2.3 As escalas da peste

A peste bubônica, antes conhecida e temida apenas em regiões européias alastrou-se pelo mundo chegando as Américas na época contemporânea. A “terceira pandemia” surge no final do século XIX e se espalhou pela China, Índia e Oriente Médio, alcançando também os Estados Unidos e vários países da América Latina como Paraguai, Argentina e Brasil.

Já em regiões brasileiras, a peste bubônica instalou-se no estado de São Paulo, na região do porto de Santos em 1898. Estendeu-se também ao Rio de Janeiro, já no início do século XX, entre os anos de 1906 a 1909. Não demorou para que esta “invasão” fosse considerada, pelas autoridades da ciência do país, como um dos grandes desafios de caráter biológico da virada entre os dois séculos.

Doença importada, de triste memória no imaginário europeu desde a Idade Média, a chegada da peste determinou uma resposta enérgica por parte das autoridades. Estas apressaram a constituição dos Institutos Butantan, em São Paulo, e Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. “Ambos ainda hoje, duas grandes instituições de pesquisa em saúde pública e ciência biológica do país.” (SILVA, 2003, p.1).

Além das regiões mencionadas acima a peste bubônica também alcançou regiões do nordeste do Brasil e do Rio Grande do Sul, mais precisamente nas cidades de Pelotas e Rio Grande (1903-1904) e, logo a seguir, na capital, Porto Alegre (1909). Diversas medidas profiláticas foram tomadas no combate desta doença, como o isolamento dos doentes, a desinfecção das casas e dos pertences dos contaminados.

Por volta de 1910, a conclusão a que se chegou é de que depois das epidemias de Santos, Rio de Janeiro e Porto Alegre, a peste bubônica estava erradicada no Brasil, ficando apenas pequenos focos em zonas rurais não atingindo centros urbanos. Tal conclusão vai contra o que encontramos na documentação. Logo, nosso objetivo é demonstrar que o alcance da epidemia foi maior que o apontado até agora pela historiografia e que a epidemia atingiu sim outras regiões do país além das cidades portuárias. Não estiveram a salvo nem as cidades centrais, que estavam em processo de crescimento demográfico e urbanístico. A razão disto pode ser atribuída à novíssima malha ferroviária que agora passava a interligar as cidades brasileiras.

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Grande do Sul, a peste se infiltrou através das linhas férreas. De acordo com os registros, o bacilo pestilento teria saído da cidade de Rosário, na Argentina, em carregamentos de farinha, e aportado em Santa Maria, via estação ferroviária. O foco inicial da doença foi uma padaria localizada no que, na época, era centro da cidade (MORALES, 2008, p. 28).

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3 A PESTE EM SANTA MARIA: A CIDADE SITIADA (1912-1924)

As primeiras décadas do século XX configuram um cenário de extrema importância no contexto santa-mariense. A cidade passava por um período de mudanças em suas estruturas, tornando-se um dos mais importantes centros comerciais do Rio Grande do Sul. A chegada da ferrovia trouxe importantes benefícios para a localidade, pois através de suas linhas, ligava a região central com outras cidades, também importantes para o transporte e comércio do estado.

Santa Maria tornou-se o entroncamento ferroviário mais importante da região sul do Brasil. Surgiram diversos hotéis, indústrias e escolas, além de ampliarem-se as casas de comércio. A cidade passou a receber viajantes, negociantes, militares e investimentos em infraestrutura, trazendo para a localidade diversas melhorias, como o calçamento de ruas e o alargamento de avenidas.

A imagem de uma cidade prospera núcleo de desenvolvimento regional, agia como força de atração, impulsionando os negócios, atraindo imigrantes, canalizando energias para os empreendimentos mais audaciosos e forçando a implementação de normas públicas mais audaciosas e mais complexas e funcionais. A realidade e sua representação soprepunham-se num influxo de causa-efeito, numa interdependência que servia para confirmar os entusiasmos, criar novos hábitos e legitimar uma identidade em plena construção, com todo o seu processo de inclusão e exclusão, próprio de uma sociedade que se especializa. (RANGEL; ANTONELLO; VAZ, 1998, p.113).

Além disso, nas primeiras décadas do século XX, a cidade contava com um recém instalado hospital, que já prestava atendimento médico não só a Santa Maria, mas também a outras localidades da região central. Segundo Beber, “a área de saúde começou bem o século 20 para Santa Maria, a cidade possui um bom hospital e um corpo médico de destaque, com nomes como Astrogildo de Azevedo, Francisco Mariano da Rocha entre outros.” (1998, p.33). A presença do hospital, mais tarde, acarretaria em grande importância da cidade como referência em centros médicos em todo o Rio Grande do Sul.

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No início do século XX, desenvolve-se a teoria ecológica de doenças infecciosas, na qual é fundamental a idéia de que a interação do agente com o hospedeiro ocorre em um ambiente composto de elementos de diversas ordens (físicos biológicos e sociais). (COSTA, 1990, p.7).

Dentro das mudanças ocorridas com o processo de crescimento populacional de Santa Maria, fica nitidamente explicitado o esforço das autoridades em urbanizar locais que agiam como catalisadores de doenças, principalmente as redondezas da ferrovia, os locais de embarque e desembarque, e prédios próximos. Está urbanização rápida e descontrolada foi, sem dúvida, decisiva para a proliferação de uma epidemia de peste bubônica em Santa Maria.

A questão das facilidades de comunicação que a ferrovia vai proporcionar bem como a melhoria das estradas e a dinamização das atividades passam a serem constantemente ressaltadas por muitos viajantes e relatórios de governantes, dando-nos a noção das transformações por que passava a cidade, projetada por estes viajantes como uma região de futuro glorioso e progressista. (VALANDRO, 2005, p.57).

Para abordar a questão, em primeiro lugar, iremos trabalhar com as fontes bibliográficas e as informações que suas leituras nos proporcionaram. As referências à peste bubônica aparecem em apenas duas obras, as únicas a fazerem alusões à epidemia em Santa Maria. Por outro lado, em função da data da chegada da doença, será nosso primeiro foco de análise o contexto do ano de 1912 e os acontecimentos daí decorrentes.

Na obra Santa Maria Memória, 1848-2008, organizado por Neida Ceccim Morales, existe a informação de que houve oito casos desta doença em Santa Maria. A peste matou primeiramente um menino de treze anos, que era filho do dono da panificadora Aliança, localizada onde hoje está a esquina das ruas Silva Jardim e Rio Branco. Na época se apontou que o foco da infecção foi transmitido por ratos que vieram em um carregamento de farinha saído do porto da Argentina. “Por ordem das autoridades, o local foi incendiado e uma casa de isolamento foi instalada em lugar bem afastado. Em agosto de 1912, a epidemia foi considerada extinta”. (MORALES, 2008, p.28).

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Julho, 21 – Ocorre o primeiro óbito por peste bubônica, forma pneumônica, espalhando pavor e morte e determinando o fechamento dos colégios, paralisação das atividades comerciais e sociais e verdadeiro êxodo da população. (BELTRÃO, 1979, p.470).

Prossegue o autor, adiante:

O aparecimento repentino no seio de uma pequena cidade, cuja população era como uma só família; a falta de recursos médicos, hospitalares e medicamentos; a tomada de medidas draconianas por parte das autoridades, embora necessárias, como a queima de casas, o isolamento de residência por força armada; a fuga da cidade dos que puderam iludir a vigilância das autoridades; a morte rápida de todos os doentes, em número de 18, sendo 6 de uma só família, e a paralisação total da atividades citadinas, transformaram a cidade em um cenário de espectros. (BELTRÃO, 1979, p. 470).

Conforme o memorialista, a epidemia de peste bubônica em Santa Maria foi um dos períodos mais trágicos de sua história. Beltrão relata que o intendente municipal da época, Ramiro de Oliveira, ao término de sua administração, não teve substituto eleito por não haver sido feita eleição. Sobre esse fato, o autor deixa uma pergunta: ”Seria a peste que grassou em agôsto, época de eleições municipais? Creio que sim” (3 de outubro de 1912). (BELTRÃO, 1979, p.472). É ainda Romeu Beltrão que afirma que a epidemia teria vitimado dezoito pessoas, sendo seis da mesma família, e que teria se extinguido após o mês de agosto.

O mais provável é que estes autores tenham usado como base os textos dos jornais da época. Assim, passamos a eles como forma de trazer mais luz à ocorrência da epidemia em Santa Maria. Extraímos informações, em especial do jornal O Diário do Interior. Este circulou no Rio Grande do Sul de 16 de maio de 1912 até 1940 e foi um importante meio de comunicação à época. No Diário as notícias sobre a epidemia passaram a circular no dia 2 de agosto de 1912 e davam conta dos seguintes acontecimentos.

3.1 Moléstia suspeita

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nome de grippe.”3A nota que descrevia a notícia sobre a doença ocupava uma página inteira

do jornal. Depois de informar aos seus leitores sobre a instauração da gripe, informou também que a senhorita Clélia Bicca e sua tia, Francisca Pavão, haviam falecido depois de terem contraído a tal “gripe”. A notícia vai sendo descrita da seguinte maneira:

Após a morte das duas mulheres, os médicos Astrogildo de Azevedo, Becker Pinto e Nicolau Turi, fizeram uma reunião para discorrer a respeito dos casos; nas linhas que se seguem, o texto informa que em outro momento já haviam noticiado sobre a “estranha doença” (o que não foi verificado por nossas pesquisas). Por conseguinte, o jornal relata que, na residência da família Bicca foram registrados outros casos de “gripe”. Além da residência da família Bicca, também na chácara da Picadinha, de propriedade de Francisca Pavão, havia novos casos e que o dr. Francisco Mariano da Rocha tratava de três casos, sendo que o dr. Astrogildo atendia doentes da tal “gripe” em seu consultório; e que entre esses pacientes estava o irmão de Clélia, o Sr. Saady Bicca. Por último, o artigo fecha a notícia com a seguinte descrição:

Não como nota de alarme à população, mas, pelo menos como uma prevenção muito útil, publicamos estas notas, recommendando à hygiene dos lares todo o cuidado que é preciso ter, contra a invasão, quase sempre fatal, da destruidora e contagiosa peste pulmonar.”4

Em nota publicada em seis de agosto, o jornal continua suas indagações a respeito da chegada da “gripe”. Noticiando que esta continua a “ceifar vidas”, e que a maioria dos médicos da cidade pensa tratar-se de uma “gripe de caráter epidêmico”. Também informam o falecimento da mãe de Clélia Bicca, d. Maria José Bicca, e de uma criada da casa de Gil Corrêa (que, segundo as fontes posteriormente consultadas, teria sido a primeira vítima da peste, mas ainda não fora feita referência a sua morte no jornal).5 O jornal volta a ressaltar que estavam sendo realizadas várias reuniões com o corpo médico e as autoridades do município. Nestas reuniões, teria ficado acertado que se tomariam enérgicas providências no sentido de combater a “terrível epidemia”.

Como vimos até o presente momento, não se havia ouvido falar ainda em peste bubônica em Santa Maria. As descrições acima serviram para nos mostrar que a princípio as reportagens do jornal apresentavam apenas a confirmação pelo corpo médico da cidade

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se de uma moléstia pulmonar. O que nos deixou intrigados foi o fato de que conforme as informações iam sendo repassadas aos leitores e população em geral, a nomenclatura da doença ia mudando, de gripe, passou a chamar-se moléstia, depois epidemia.

Continua na sua terrível faina de destruição de organismos humanos, ceifando, a cada dia que passa novas vidas preciosas, uma moléstia suspeita, que, de accôrdo com o pensar da maioria dos médicos desta cidade, passa por ser a grippe (?), com caracter epidêmico6.

Através dessas informações podemos ter noção dos desafios que a chegada de uma epidemia pode trazer a uma comunidade em transformação. E, no caso, a comunidade que habitava a cidade de Santa Maria estava passando por transformações variadas. Inserida num contexto mundial de expansão do mundo capitalista, Santa Maria viu, com a chegada da ferrovia (a qual foi sucedida por chegadas de levas de imigrantes), o aumento acelerado de sua população e, com isso, de seu mundo urbano. Conforme, já foi dito, tais transformações acarretaram em uma série de problemas sanitários, com os quais a cidade e seus habitantes tiveram de passar a lidar. Não podemos, no entanto, esquecer que esses problemas estavam inseridos, igualmente, num contexto maior, o da transformação das realidades urbanas ocidentais, num processo que vinha desde fins do século XIX.

No Brasil, ainda nas primeiras décadas do XX, esse processo de saneamento irá extrapolar suas preocupações citadinas chegando até o campo. Por fim, ainda havia a questão interna do próprio desenvolvimento da Medicina científica, a qual além de se digladiar com outras práticas de cura em busca da hegemonia terapêutica, ainda estava atrelada a um processo de diagnóstico intermediado pelas famílias dos doentes e muito próximo dos modelos do século XIX. Isto porque os conceitos sobre as doenças assumiam variadas formas, conforme variadas circunstâncias. “As explicações acerca das causas de uma moléstia se davam ao longo do processo da enfermidade acompanhando a forma como esta se desenvolvia.” (WITTER, 2001 p. 30).

A enorme quantidade de inseguranças que acompanhavam esse contexto exigia que se obtivesse, o mais rápido possível, respostas concretas para o “mal” que estava atingindo a região. Para que então, fossem tomadas as providências cabíveis em relação ao combate da calamidade que, naquele momento, assaltava os indivíduos e o coletivo. É claro que, com o

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passar dos dias e o aumentos das mortes, muitos já não se convenciam de que uma “simples” gripe poderia estar causando tanto alvoroço na comunidade.7

Com o decorrer dos acontecimentos e a confirmação de que a estranha doença se tratava da peste bubônica, os modos de se tratar o tema foram mudando de foco. Primeiramente porque com certeza não passava pela mentalidade dos governantes e dos médicos da cidade que esse tipo de contágio pudesse vir a se instaurar tão longe dos grandes centros, de cidades litorâneas e com grande contingente demográfico.

De acordo com Beatriz Weber:

As doenças que preocupavam os governos do Rio Grande do Sul, a partir de 1895, foram praticamente as mesmas até 1928, havendo, quase todos os anos, casos de difteria, peste bubônica, febre tifóide, varíola, varicela, sífilis e tuberculose. A varíola só adquiriu caráter epidêmico em 1905 (havendo casos em 1904 e 1906); a varicela, em 1909, confundida com varíola, o tifo, apanágio de quase todas as cidades e vilas, reinou endemicamente (o registro é de 1909). Em 1918, metade da população do Estado foi atacada de “influenza espanhola” (gripe), com 3.971 óbitos. Ocorreram em 1921, a varicela e, em 1925 o „alastrim”, uma varíola atenuada. Esses foram os casos considerados de “caráter epidêmico. (WEBER, 2001, p.63).

O que temos como fato é de que a população tomou conhecimento de que a cidade estava sendo acometida por uma forte epidemia de gripe, através do jornal. Em seguida, de que não se sabia ao certo a gravidade da tal doença, mas que está já vinha ceifando muitas vidas.

3.2 Atitude do corpo médico e as providencias tomadas

Segundo os relatos do jornal, os acometidos pela peste foram tratados nos consultórios particulares dos médicos da cidade, também em uma ala do hospital de caridade e em um prédio doado pela viação férrea que foi transformado em lazareto:

O lazareto que é, conforme hontem noticiamos, em terrenos da Viação Férrea, junto ao Vaccacahy, ficou pronto hontem mesmo, podendo começar a funcionar de hoje em diante. Foi levantado alli, na frente da casa, um grande pavilhão destinado aos pestosos. Tal como o isolamento do hospital de caridade, aquelle lazareto ficará a

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cargo do dr. Francisco Mariano, que assim será o director de todo o serviço de soccorros aos pestosos.8

Ainda trabalhando com as informações retiradas do jornal O Diário do Interior, fica-se sabendo que após reunião precedida no dia 2 de agosto de 1912, foi estabelecido que o Intendente Coronel Ramiro de Oliveira, chefe político do município, deveria comunicar o ocorrido ao Presidente do estado. Visto que, se tornava imprescindível a ajuda para se combater a “moléstia” que se instalava no seio da cidade de Santa Maria.

Entre as principais necessidades fixou-se envio de materiais e de pessoal, para trabalhar na desinfecção, com o objetivo de frear a propagação da moléstia. Para tal processo foram tomadas diversas medidas como: o isolamento dos prédios onde ocorreram casos de peste, evitar ao máximo o contato com os doentes, instruir as pessoas (principalmente os parentes das vítimas) quanto aos meios de contaminação e de como evitar essa contaminação. Algumas medidas aparentam ter sido consensuais para os governos estaduais em todo o país, no início do século, quando ocorriam ameaças de epidemias Eram estas: a obrigatoriedade da notificação dos órgãos públicos a respeito do surgimento de casos de alguma das doenças, o isolamento do doente e a desinfecção das casas com suspeita ou diagnóstico de moléstias contagiosas.

Provavelmente, a pouca informação sobre a propagação das epidemias fazia com que fossem mantidos os únicos procedimentos conhecidos, juntamente com as medidas de saneamento urbano. As medidas adotadas pelos governos positivistas no Rio Grande do Sul, resumiam-se ao deslocamento de um médico para o diagnóstico da doença, o isolamento dos doentes ou suspeitos e a desinfecção das moradias onde havia se manifestado a doença. (WEBER, 1999, p.62).

Foi designado para dirigir o processo de desinfecção nas moradias o doutor Becker Pinto, o lazareto ficou a cargo do doutor Mariano da Rocha e a guarnição federal era dirigida pelo coronel João Nabuco, está era responsável por guardar os pontos onde os doentes foram alocados fora da cidade

Como referência a importância da epidemia de peste em Santa Maria não podemos deixar de observar que muitas das ações tomadas pelos governantes e médicos da época, não diferem muito da Idade Média. Visto que se fez necessário isolar os doentes, os possíveis contaminados, seus familiares e queimar seus pertences.

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Portanto, até mesmo tais ações não deixam de negar o caos que se instalou na cidade. Vejamos a descrição desse cenário nas linhas a seguir:

Devido a deficiência de pessoal com que luta a intendência, o Coronel Ramiro de Oliveira, intendente e chefe do Partido Republicano deste município, requisitou ao general Julio Fernandes Barbosa, commandante da 8º Brigada Estratégica, com sede nesta cidade,o auxílio da força federal, para o serviço de isolamento dos prédios onde ocorreram casos fataes da peste reinante.9

Para trabalhar no combate a epidemia, foram então recrutadas cinqüenta praças do 7° regimento de infantaria, somente para guardar a chácara da picadinha, também vinte praças da guarda municipal para vigiar o lazareto. Havia também praças vigiando as moradias infectadas, não sendo permitido a nenhum morador sair das residências, também ninguém entrava. Com relação aos alimentos e materiais de higiene, eram colocados um local especifico, para que os moradores pudessem pegar sem ter contato com os que estavam do lado de fora: “Nenhuma pessoa poderá approximar-se dos locaes isolados, excepto os portadores de recursos...entretanto, para os recursos da subsistência, saerão marcados pontos onde estes podem ser deixados pelos portadores, e, ahi, recebidos, por uma pessoa da casa.”10

Em nossas leituras percebemos que, segundo as descrições das fontes até agora pesquisadas, as medidas de combate e profilaxia a epidemia de peste bubônica em Santa Maria durante o mês de agosto de 1912, parecem ter surtido efeito. Em vista de que sempre afirmam que a contaminação não saiu do seu círculo de origem, também que a quantidade de mortes, se restringiu apenas aquele mês. Como principal argumento da eficiência dessas ações, a partir dessa data as referências a tal epidemia iam cada vez mais se escasseando.

Segundo Romeu Beltrão, após a epidemia de 1912 só teremos notícias sobre a peste nos anos de 1919 e 1924. O que nos abre ainda uma ampla oportunidade de pesquisa, visto que no decorrer da construção da problemática nos foi possível acessar outras fontes. Estas ao que parece nos proporcionarão uma visão mais ampla dos fatos ocorridos durante a epidemia de peste bubônica na região. Além de estender nosso espaço temporal até 1924, data em que a maioria das fontes concordam ter sido extinta a peste em Santa Maria.

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Entre estas fontes estão: o relatório que o doutor Astrogildo formulou ao Diretor de Higiene do Estado, as Crônicas das Irmãs Franciscanas e os Prontuários do Hospital de caridade

3.3 Novas vítimas

Dirigimos nosso olhar então para o relatório do doutor Astrogildo. Este nos apresenta a informação que em princípios do mês de julho, o doutor Nicolau Turi, foi chamado a residência do Sr. Arthur Corrêa, prédio nº 19 na Avenida Rio Branco para tratar de seu filho Gil Corrêa, de 15 anos.

Após examinar o doente, diagnosticou tratar-se de uma bronco-pneumonia gripal, para isso receitou os medicamentos conhecidos e aconselháveis da época. Apesar disso, o rapaz faleceu quatro dias depois e, logo em seguida, apenas dois dias depois de seu falecimento, adoeceu Clélia Bicca, de trinta anos que havia prestado cuidados ao rapaz. O diagnóstico também foi bronco-pneumonia gripal. Esta veio a falecer quatro dias depois do diagnóstico.

A estranha doença também vitimou as tias de Clélia, Francisca Pavão e Maria José Bicca. Após todas estas mortes, o corpo médico da cidade resolveu se reunir e analisar melhor os casos, pois se desconfiava que não poderia ser pneumonia, em razão do caráter aparentemente epidêmico. Nesta reunião, o doutor Alfredo Torres relatou ter atendido a um rapaz que trabalhava e morava na padaria, este apresentava “um bubão extremamente doloroso no triângulo de Scarpa e 40 graus de febre”, lhe foi ministrado medicações simples. O comentário do doutor Torres claramente não se dirige à primeira vítima, apontada pelo doutor Azevedo, porém, não são colocadas outras informações sobre o caso e não é possível saber qual o destino deste paciente.

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tratava de uma peste de forma bronco pulmonar. Segundo o doutor Astrogildo de Azevedo (1912), “o sinistro quadro mórbido por nenhum de nós até então foi jamais visto.”11

Já na leitura das Crônicas das Irmãs Franciscanas12, o diagnóstico relatado era o de

peste pulmonar: “No mês de agosto repentinamente apareceu a peste pulmonar.”13 sendo o

período caracterizado como um tempo de horror. Constatamos que os médicos da época, chegaram ao diagnóstico de peste bubônica, depois de terem sido achados cerca de 200 ratos mortos no porão da padaria Aliança, e da observação dos referidos bubões no corpo do empregado do local. Neste ponto, de nossa exposição as dúvidas começam a aparecer: quem era o rapaz que de fato foi a primeira vítima da peste? Isso porque, como foi dito acima, tanto o relatório do Dr. Azevedo, como os jornais apontam o filho do dono da padaria Aliança, Gil Corrêa, como sendo a primeira morte da peste. Ficamos com mais este impasse, pois em nenhuma das fontes utilizadas para nossa pesquisa encontramos dados mais precisos.

O que podemos concluir é que as pulgas que vieram com os ratos é que transmitiram a doença a esse rapaz, e também aos outros habitantes do local. É possível ainda inferir que, as diferentes denominações que foram dadas a estranha moléstia se devem ao fato de que, segundo as nossas fontes, o primeiro paciente a ser atendido pelos médicos foi Gil Corrêa, e este não apresentava bubões, uma das características das pessoas contaminadas pela peste bubônica.

Ainda trabalhando com informações surgidas durante o processo de pesquisa, conseguimos ter acesso também aos prontuários do Hospital de Caridade datados dos anos de 1903 a 1928. Ao analisarmos esta fonte localizamos seis registros de doentes de peste bubônica em Santa Maria durante o mês de agosto.

O primeiro paciente a aparecer nos Prontuários foi Maria José, parda-solteira, de 14 anos, doméstica, que tem registro de entrada e falecimento no dia quatro de agosto. Também constatamos que os seis doentes registrados nos prontuários são os citados por Romeu Beltrão e fazem parte do círculo de pessoas que tinham contato com os primeiros contaminados.

Através cruzamento de nossas fontes, podemos concluir que o jornal O Diário do Interior, o Relatório do doutor Astrogildo de Azevedo e o livro de Romeu Beltrão, coicidem

11 RELATÓRIO apresentado ao Illm_o Doutor Ricardo Machado, Director de Hygiene do Estado, pelo Doutor Astrogildo de Azevedo, Superintendento do Serviço de Prophylaxia da Peste Pulmonar em Santa Maria. 1918, p.5. Casa de Memória Edmundo Cardoso (CMEC)

12 Museu Histórico e Cultural das Irmãs Franciscanas (MHIF)

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quanto a quantidade de vítimas da peste que somam um total de vinte. Quanto aos focos epidêmicos também informam ser em número de oito que são:

Prédio do Sr: Arthur Corrêa, á Avenida Rio Branco; da família Bicca à Praça Tiradentes; do Sr: Rêgulo de Moraes, à rua do Acampamento; do Sr: Pedro Lenz, à praça Julio de Castilhos; do Sr: Vicente Corrêa, à Avenida Rio Branco; de Chiquinota Pavão, à chácara da Picadinha; do Sr: Vicente Corrêa á chácara que possui fora da cidade ; do Sr: Francisco Salva, à rua Barão do Triunfo e do Sr: Raul Krebs, à rua Silva Jardim.14

Até o presente momento procuramos seguir os relatos das fontes sobre como ocorreu o aparecimento da peste bubônica em Santa Maria no ano de 1912. Em vista disso, mais um diferencial nos chamou a atenção: nos relatos registrados nas Crônicas das Irmãs, há um total de dezoito óbitos por peste na região. Diante dos relatos aqui descritos sobre o aparecimento da peste em Santa Maria, somado as medidas tomadas pelas autoridades no combate e profilaxia dos casos sobram ainda muitos questionamentos a serem respondidos.

Afinal, se foram tão poucas as vítimas, a ponto de não merecerem referência nas obras que tematizam a história de Santa Maria, por que a análise dos documentos revela números diferentes, que o dos relatos oficiais? Por que, se a epidemia foi rapidamente controlada, se necessitou da intervenção do Diretor de Saúde Pública do Estado? Este chegou a mandar um representante para a cidade, trazendo consigo ajudantes e materiais para serem utilizados no combate a peste.

Também com que finalidade precisou-se construir um lazareto, e ainda, o porquê da necessidade de guardas municipais, de soldados do exército e da brigada serem deslocados para vigiar possíveis focos de peste, além de controlar a movimentação da população? Bem vamos às possíveis respostas.

Santa Maria vinha passando por uma era de crescimento, tanto econômico quanto demográfico, o que representava “a idéia de progresso e desenvolvimento contínuo. (RANGEL; ANTONELLO; VAZ, 1998, p.110). Essas premissas eram o alicerce que atraia os negociantes para a cidade, e que também transmitiam a população local um sentimento de segurança e até mesmo confiança nos governantes. Portanto , progresso era sinônimo de que todos os setores que formam a sociedade iam bem.

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No caso da região, a segurança comunitária ainda era aumentada em razão de que a cidade dispunha de diversos médicos. Estes não só prestavam cuidados aos doentes, mas também participavam ativamente das decisões políticas que envolviam o governo local. Em vista disso, outras áreas que faziam parte da demografia santamariense foram deixadas de lado. Aí poderemos citar a falta de saneamento, até mesmo nas regiões mais centrais, visto que os focos bubônicos em sua maioria estavam localizados nessa região.

Outra importante medida que parece não ter sido priorizada pela administração local era o controle da entrada e saída de produtos que viajavam pelas estradas de ferro. E, por fim, a confiança de que a distância dos grandes centros deixava Santa Maria fora do alcance das grandes epidemias de tifo, varíola, tuberculose e peste bubônica que já vinham assolando outros estados brasileiros e regiões do Rio Grande do Sul.

Então como explicar a epidemia de 1912? Voltamos a nosso breve relato cronológico dos focos de peste desde os primórdios da civilização. Sempre que esta surgia em uma região está vinha de uma fase de crescimento, expansão comercial e aumento populacional; isto ocasionava aglomerações desordenadas, poluição do ambiente, disputa pelos melhores territórios e a produção de alimentos não era suficiente. Todos estes fatores tendiam a deixar vulneráveis as populações que passavam por estas mudanças. Como complemento final a esses períodos de progresso, restava a proliferação de germes, grandes epidemias de doenças que ainda não se sabia como combater.

O que Santa Maria, uma cidade da região central do Rio Grande do Sul no século XX, tem em comum com os fatos descritos acima? Ora esta não diferia em nada de outras regiões que, em outros lugares e épocas, haviam passado por crescimentos acelerados. Com a chegada da ferrovia, a região pode expandir-se, manter contatos constantes com outras localidades, precisou de mais construções para abrigar pessoas que aqui vinham instalar-se, sem falar do intenso fluxo comercial, compra e venda de produtos e mobilidade social. A epidemia de 1912 ocorreu em meio a este momento. E, com certeza, ocasionou profundas mudanças nas estruturas sociopolíticas da cidade. Visto a tamanha rapidez com que se tomaram as medidas de combate à peste, e porque não salientar a forma de registro dessa epidemia, delimitando-a a um pequeno círculo e a curto espaço de tempo.

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segurança que as autoridades locais procuravam passar estava longe de ser verdadeira, e que a cidade viveu momentos de medo e pânico generalizado tal qual os homens do medievo e sua Peste Negra.

3.4 Diversas notas

Retomando nossa enumeração dos fatos, passamos agora a trabalhar com o argumento de que a cidade passou por momentos difíceis durante a epidemia de peste bubônica. Após a constatação de que a “estranha moléstia” tratava-se da peste transmitida por ratos, iniciou-se o combate a epidemia que consistia em tratar dos contaminados, o que foi feito através do hospital de caridade, do lazareto, dos atendimentos nas casas dos doentes. As medidas profiláticas dividiram-se em: isolar possíveis doentes no lazareto, também em uma ala do hospital de caridade e os que preferissem ficar em suas residências seriam vigiados por uma força policial:

O serviço está dividido em patrulhas. Toda e qualquer pessoa sobre a qual possam recair suspeitas de enfermidade de tal caracter, será logo isolada e ficará em observação medica durante o praso da incubação do micróbio.15

[...]

O isolamento é completo, collocadas as sentinellas na frente, findos e lados das casa, quando estas precisem , de fôrma que as mesmas não venham a ter communicação com a rua. As praças devem manter-se a distancia, dando suas ordens ás pessoas que se approximarem ou tentarem sair, e, no caso de serem desobedecidas, ficam autorizadas ao emprego de violência para control-as e o commandante da guarda as mandará apresentar logo ao director do serviço, para que sejam de prompto isoladas”.16

Com isso, podemos notar a tamanha importância que os órgãos públicos deram a esta moléstia, pois praticamente todos os setores importantes da sociedade foram chamados a ajudar. No caso de Santa Maria contou-se com a ajuda do exército, Viação Férrea, profissionais da medicina e policias locais. Em poucos dias, segundo nossas fontes, o “mal” havia sido debelado. Mas não sem antes mergulhar a cidade no caos provocado por um

15 O DIÁRIO DO INTERIOR, 6 de agosto de 1912, p.3. Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria (AHMSM)

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acontecimento inesperado. A aparição de uma doença que trazia em sua bagagem um poder destrutivo tão aterrorizante como a peste negra o foi durante o século XIV.

Além do medo de que a peste se alastrasse, não podemos esquecer que: “as noções de contágio evocavam espectros de poluição e impureza.” (PORTER, 2001, p.104).

Por isso não poderemos deixar de explicitar as ações dos responsáveis pelas medidas profiláticas, com relação aos locais em que se deram os focos pestosos. Estes locais foram queimados, os pertences de seus habitantes foram desinfectados, as pessoas que mantinham contato com estas ações, ficavam separadas do resto da população. Em nossa descrição dos fatos trabalhamos com a aparição da peste, os primeiros doentes, algumas medidas tomadas pela administração do município, além da explicitar os principais focos da doença e os primeiros doentes. No intuito de reforçar nossa argumentação do “medo” que a peste trouxe para Santa Maria não poderíamos deixar de lado também o comportamento da população, ou seja, quais as suas reações aos devidos acontecimentos.

Tal qual no pânico medieval, a peste do mês de agosto, em pleno inverno gaúcho, provocou uma série de medidas, as quais estão demonstradas no documento subscrito abaixo:

“3 de Agosto Medidas Profiláticas

O Serviço de combate a moléstia começou no dia 4 quando já haviam morrido 12 pessoas e 5 estavam com o gérmen do mal em incubação.

Entre as medidas tomadas estão:

1° Isolar os prédios onde se deram os casos de peste;

2° Reduzir ao menor número possível as pessoas em contato com os doentes;

3° Instruir essas pessoas a respeito dos meios tendentes a evitar, quanto possível, que o mal lhes fossem transmitido.

Os meios aconselhados foram:

a) Uso de uma pasta de algodão colocado sobre o nariz e a boca e fixada por uma tira de gaze.

b) Lavagem meticulosa e desinfecção das mãos depois dos contatos suspeitos. c) Roupas especiais para entrar no quarto dos doentes.

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e) Evitar o levantamento de poeira, que pudesse conter o gérmen do mal e reduzir ao mínimo possível as relações dos enfermeiros com as demais pessoas existentes nos prédios isolados.

4° Hospitalização dos casos novos, quando possível;

5° Desinfecção dos prédios contaminados e de tudo quanto dentro dele se achasse e larga distribuição de pó de piretro;

6° Injeção preventiva de soro anti-pestoso naqueles que se houvessem arriscado ao contágio e quisessem sujeitar-se a essa medida pereventiva.

O Bispo Diocesano, encarregou um único padre de prestar os socorros espirituais aos enfermos.

Quanto aos doentes que não quiseram ser hospitalizados, ficavam em suas casas. A família Correa, se retirou para uma chácara na Caturrita e com a do Snr. Coronel Regulo de Moraes.

Outros que não tinham onde se hospedar, ficaram em setor isolado do Hospital. Êxito letal da moléstia, nenhum sistema de tratamento ou escola médica foi imposta aos doentes. Deram-se ao todo 20 casos e vinte mortos sendo que os doentes foram tratados por vários médicos e pelos mais diversos meios”.17

Mas ao que nos parece parte da população não acreditou em tais medidas. Visto que encontramos nas páginas do O Diário do Interior a seguinte chamada: “êxodo das famílias”, o que nos serve como comparação ao comportamento dos habitantes da Europa medieval:

Como medida de prevenção contra possíveis infecções da peste reinante, numerosas famílias aqui residentes têm abandonado a cidade, partindo para a campanha do município, fornyeira e interior do Estado. Os trens têm partido repletos de passageiros, chegando a ser insufficientes os carros para atender ao grande numero de pessoas que desejam embarcar.18

[...]

Todos os collegios desta cidade, em virtude da peste reinante, suspenderam suas aulas. Estas só serão reabertas após o desapparecimento completo da peste. Foi uma medida de grande alcance, utilíssima e que só applausos póde merecer19.

17 Expurgo do Relatório apresentado ao Illm_o Doutor Ricardo Machado, Director de Hygiene do Estado, pelo Doutor Astrogildo de Azevedo, Superintendento do Serviço de Prophylaxia da Peste Pulmonar em Santa Maria, 1918, p.9

Fonte: Acervo Museológico da “Casa de Memória Edmundo Cardoso” (CMEC) Organização: Flavia Prestes

18 O DIÁRIO DO INTERIOR, 7 de agosto de 1912, p. 2. Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria (AHMSM)

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3.5 Debelação da terrível moléstia

A terrível moléstia que assolou Santa Maria parece não ter durado muito tempo, ao menos é o que citam as reportagens do jornal O Diário do Interior e o Relatório do doutor Astrogildo de Azevedo. Segundo estas “o mal estava sendo debelado, e apenas restavam rumores infundados sobre possíveis doentes. Pois, logo que as notícias da epidemia espalharam-se pela cidade, as medidas higiênicas também foram recomendadas segundo matéria do Jornal:

A desinfecção particular continua, também, muito activa, parecendo não existir presentemente, em nossa cidade, prédio que não dê a idéia de uma pharmacia ou de um desinfectario. Tanto melhor para todos. Pois, prevenção e caldo de galinha, - diz o adágio, - não fazem mal a doente.20

A administração da cidade também reagiu rapidamente ao temor que já se espalhava para outras cidades vizinhas. Para tanto o Coronel Ramiro de Oliveira, intendente do município, telegrafou aos governantes de: São Gabriel, São Vicente, Alegrete, Bagé, Uruguaiana, Cachoeira do Sul, Montenegro, Rio Pardo, Santo Amaro, Cruz Alta, Júlio de Castilhos, Passo Fundo, São Francisco de Assis e Porto Alegre, que não havia preocupações quanto à expansão da epidemia as suas regiões. Aqui mais uma vez uma nota, da importância que tal doença configurou no contexto sócio-econômico de Santa Maria nas duas primeiras décadas do século XX.

Ficam para possíveis reflexões parte do documento que o doutor Astrogildo escreveu em 1918 ao diretor de higiene do estado sobre os serviços de profilaxia da peste bubônica em Santa Maria:

“Epílogo

Ahi ficam succintamente expostos os factos mais importantes ocorridos no período calamitoso que Santa Maria acaba de atravessar.

Grande foi o perigo e pesada a responsabilidade dos que tiveram a missão de debelal-lo.

A epidemia iniciara-se ameaçadora propagando-se rapidamente e tirando aos atacados toda a esperança de salvamento.

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Parece que abandonada a si mesma teria dizimado a população em breve praso. No entretanto promptas enérgicas accudiram as providencias sanitárias. Havia, como se via, um número limitado de prédios isolados onde o mal se achava circumscripto.

Em torno destes focos desenvolvia-se a acção da Hygiene Estadual e Municipal. O resto da cidade estava immune; poderia ter continuado a vida normal sem o mínimo perigo para seus moradores nem para as populações circumvisinhas.

Os factos confirmaram esta verdade; a moléstia foi jugulada sem ultrapassar o sitio imposto desde logo.

Ao tempo em que assumi a superintendência do serviço prophylactco já se haviam dado 12 obitos e 5 pessoas tinham a moléstia incubada porque a manifestaram nas 48 horas seguintes!

Pois bem, de então em diante, três indivíduos foram contaminados elevando a vinte o numero total dos atacados e dos mortos.

A epidemia estava extinta. Sem embargo os boatos continuaram a fervilahr, desenvolveu-se o pânico, espalharam-se noticias absurdas o Estado inteiro alarmou-se!

Repelia-se a verdade mais transparente para acceitar ingenuinamente falsidades perversas e inverossímeis!

Passada a borrasca, dissipado o terror, restabelecida a calma, é a vez dos engenheiros de obra feita criticarem a excessiva severidade das medidas adoptadas: não era caso para tanto... exagerou-se a gravidade da situação e a prova é que tudo se normalisou como, por encanto...

É a eterna historia das epidemias e das guerras...

Entre estes dois erros que se destroem mutuamente, sobresae a eloqüência dos factos, affirmando que, graças á energia, prudência e opportunidade das medidas adoptadas pelo Estado e pelo Municipio, salvou-se a população de uma hecatome, cuja importância ninguém pode prever até que ponto teria atingido.

Pela parte que me toca só esta consideração basta para compensar quantos desgastos me tenha custado a inesquecível cruzada.”21

21 Epílogo do Relatório apresentado ao Illm_o Doutor Ricardo Machado, Director de Hygiene do Estado, pelo Doutor Astrogildo de Azevedo, Superintendento do Serviço de Prophylaxia da Peste Pulmonar em Santa Maria, 1918, p.11-12.

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Ao retomarmos nossa proposta de pesquisa não nos demos por satisfeitos. Em vista disso, aprofundamos um pouco mais nossas leituras, na busca por descrições mais detalhadas sobre nosso objeto de estudo. Encontramos nos livros prontuários do Hospital de Caridade, e nas Crônicas das Irmãs Franciscanas, uma relação de doentes maior e com datas que perpassam 1912. Nos livros prontuários, achamos setenta e um doentes, com vinte e três falecimentos, durante os anos de 1912 a 1924. Durante o ano de 1912, houve seis casos de peste bubônica registrados pelo hospital, todos entre os meses de julho e agosto (estes encontram-se também relacionados em nossas outras fontes).

A peste durante o ano de 1913, segundo esses registros, não apareceu em Santa Maria, durante os anos de 1914 até 1919, apareceu apenas esporadicamente, somente em 1920 se tem informações de um significativo aumento de doentes, com vinte e um casos de peste. Em 1922, mais vinte e três casos, para finalmente encerrarem-se os registros em 1924 com oito casos.

Concordando com as referências bibliográficas de Romeu Beltrão que cita o acontecimento durante o ano de 1919: ”Dezembro-Novo surto de peste bubônica, com um caso fatal, e que perdurará por todo o ano seguinte, através de casos esporádicos, aqui e em outros pontos. (BELTRÃO, 1979, p.500).

Em maio de 1922: “Novo surto de peste bubônica de caráter benigno.” (BELTRÃO, 1979, p.509).

E por fim em março de 1924:

Novo surto de peste bubônica, com poucos óbitos, entre eles o do padre palotino João Barbisan, vítima do dever sacerdotal. Como sacristão, ajudei na sua última missa, rezada no piquenique realizado na Montanha Russa, na homenagem que os libertadores prestaram ao chefe revolucionário Honório Lemes. Queixou-se de febre e mal podia ficar em pé. Como o contágio se estabelece pelas gotículas expelidas durante a respiração, muito perto andei de contraí-la. (BELTRÃO, 1979, p.520)

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