UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA – UDESC CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E DA EDUCAÇÃO – FAED PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA – PPGH ELAINE CRISTINA MACHADO

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UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA – UDESC

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E DA EDUCAđấO Ố FAED

PROGRAMA DE PốS-GRADUAđấO EM HISTốRIA Ố PPGH

ELAINE CRISTINA MACHADO

  

EM NOME DA FÉ E DO PÁROCO: MEMÓRIAS E EXPERIÊNCIAS

RELIGIOSAS EM GUARAMIRIM/SC (DÉCADAS DE 1950, 1960 E 1970)

FLORIANÓPOLIS, SANTA CATARINA

2012

ELAINE CRISTINA MACHADO

  

EM NOME DA FÉ E DO PÁROCO: MEMÓRIAS E EXPERIÊNCIAS

RELIGIOSAS EM GUARAMIRIM/SC (DÉCADAS DE 1950, 1960 E 1970)

  Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em História, área de concentração em História do Tempo Presente, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre.

  Orientadora: Profª Drª Janice Gonçalves.

  

FLORIANÓPOLIS, SANTA CATARINA

2012 M149n Machado, Elaine Cristina, 1979- Em nome da fé e do pároco: memórias e experiências religiosas em Guaramirim/SC: décadas de 1950, 1960 e 1970 [manuscrito] / Elaine Cristina Machado. – 2012. 136f. : il. ; 30 cm Cópia de computador (Printout(s)).

  Dissertação (Mestrado em História) – Universidade do Estado de Santa Catarina. Pós-Graduação em História, 2012. “Orientador: Prof.ª Drª. Janice Gonçalves”.

  Salete de Oliveira Borges – CRB 14/1006s

  Aos meus pais, portadores de uma rica e sensível memória.

  Vou Uma vez mais Correr atrás De todo o meu tempo perdido Quem sabe, está guardado Num relógio escondido por quem Nem avalia o tempo que tem Ou Alguém o achou Examinou Julgou um tempo sem sentido Quem sabe, foi usado E está arrependido o ladrão Que andou vivendo com o meu quinhão Ou dorme num arquivo Um pedaço de vida, vida A vida que eu não gozei Eu não respirei Eu não existia Mas eu estava vivo Vivo, vivo O tempo escorreu O tempo era meu E apenas queria Haver de volta Cada minuto que passou sem mim [...] (Sergio Godinho, Um tempo que passou; composição: Chico Buarque e Sergio Godinho, 1983) “A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. O passado só se deixa fixar, como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido.” (BENJAMIN, 1994, p.224)

  

AGRADECIMENTOS

  Este trabalho é fruto de investimentos coletivos. Devo reconhecer que de um modo ou de outro, muitas pessoas deixaram nele suas contribuições. Aproveito este espaço para carinhosamente agradecer a todos aqueles que fizeram com que ele se tornasse possível. Não há palavra que possa traduzir minha gratidão, mas mesmo assim gostaria de expressar alguns agradecimentos que considero importantes.

  Agradeço aos meus pais, Carlos e Maria Conceição Machado, por sempre dividirem comigo suas lembranças. Portadores de uma bela e rica memória, sempre me mostraram muitas “Guaramirins”. Agradeço por ter vocês sempre perto de mim e por sempre me fazerem uma pessoa melhor, me mostrando com sua simplicidade o quão rica e frágil pode ser a vida.

  Aos meus irmãos Elizabete, Eliane e Gerson. Por sempre me apoiarem e por compreenderem a importância de estarmos juntos. Ao Gerson, meu manusco, devo minha gratidão por me mostrar a duvidosa beleza da história, este me pegou pela mão e me apresentou para um universo a ser desbravado e aqui estou.

  À Samantha pela parceria, pela paciência e pelas interrogações. Agradeço-lhe por me fazer acreditar que este trabalho era possível; sua atenção, afeto, cuidado, dedicação e colaboração foram muito importantes.

  Aos meus entrevistados, que aceitaram dividir aquilo que guardavam com tanto carinho: suas lembranças. Deles levei não só as lembranças que comigo compartilharam, levei outras lembranças também muito queridas, aquelas que remetem aos nossos encontros.

  À D. Elsa, por me mostrar que esperar o tempo passar não é sinônimo de se entregar a ele, e sim uma sutil maneira de nele estar. Ao Sr. João e à D. Maria (casal Pereira), por mais uma vez me acolherem tão bem e compartilharem comigo suas memórias. Ao Sr. Angelo, por ter me contagiado com a alegria em falar “daquele tempo”. Ao Sr. Abílio e à D. Odete (casal Borba), por terem demonstrado com tanto carinho a saudade que sentem do passado. Ao Sr. Francisco Schork, pela disposição e pelo cuidado em falar de Pe. Mathias e pela emocionante narrativa da sua infância. Ao Sr. Daniel, que me acolheu e demonstrou muita, muita disposição em colaborar

  À professora Janice Gonçalves, que me orientou e com muita serenidade e sabedoria conduziu este trabalho e fez com que fosse possível sua concretização. Com ela me senti mais segura em me aventurar por esses caminhos. Este trabalho não é só meu: é nosso!

  Às professoras Viviane Trindade Borges e Maria Teresa Santos Cunha, que tão carinhosamente me acolheram no estágio docência. Agradeço por terem partilhado cada qual a seu modo todo o encantamento com o patrimônio.

  À professora Maria Teresa Santos Cunha devo ainda minha gratidão por tão generosamente ter colaborado, juntamente com a professora Cristiani Bereta, a quem também sou grata, com os rumos deste trabalho.

  A todos os professores do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), em especial aos professores Luiz Felipe Falcão, Silvia M. F. Arend, Reinaldo L. Lohn e o professor Emerson César Campos, que fizeram de suas disciplinas ricos espaços de reflexão.

  A todos os colegas de sala que dividiram seus temas e preocupações com a História, especialmente ao nosso “grupo de estudos”, no qual etilicamente debatemos perspectivas conceituais e teóricas, além de dividir as coisas da vida. Agradeço ao Fábio, Daniel Bronstrup, Maicon Mariano, Daniel Boeira, Rochele e Misael, por terem compartilhado comigo suas esperanças, (in)certezas e angústias.

  Aos colegas do Museu Nacional de Imigração e Colonização, Adriana, Fernanda, Gabriel e todos os demais colegas, por entenderem as minhas ausências e por sempre me apoiarem. À Salete pela colaboração dada a finalização deste trabalho.

  Aos amigos e colegas do colégio “Nova Era”, em especial a Marla, Silvia, Gorete e Pipo, por sempre estarem do meu lado. A tia Zenaide, D. Maria Lucia Richard, Ademir Pfiffer, Sr. Ralf e D. Ana, Deise,

  Mário Sérgio de Santana, Valdinei Deretti, do recém-nascido centro de documentação de Guaramirim, Silvia, do Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul, Kleber e Marluce Ribeiro. Todos vocês colaboraram e muito com esta caminhada e fizeram dela mais especial.

  Ao Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul. Ao Arquivo Histórico de Joinville.

  Odoiya minha mãe!

  

RESUMO

  MACHADO, Elaine Cristina. Em nome da fé e do pároco: memórias e experiências religiosas em Guaramirim/SC (décadas de 1950, 1960 e 1970). 2012. 136 f. Dissertação (Mestrado em História – Área: História do Tempo Presente) – Universidade do Estado de Santa Catarina, Programa de Pós-Graduação em História, Florianópolis, 2012.

  O presente trabalho foi construído através das memórias de pessoas que viveram, durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, em Guaramirim/SC, e procura colocar em evidência as experiências religiosas relatadas por esses sujeitos. Essas experiências religiosas, a partir da chegada de Pe. Mathias, pároco católico, na cidade, passam a ser ressignificadas, uma vez que as relações de poder se tornaram mais consistentes e evidentes, impondo uma condição normatizadora para os fiéis dessa denominação. As evidenciações das memórias que tratam das experiências religiosas e de seus desdobramentos em Guaramirim/SC aparecem traduzidas e refratadas em frases, sorrisos, pausas e silêncios, porém estão acompanhadas de saudosismos, estranhamentos, concordâncias e lacunas. As relações de vizinhança, os espaços de sociabilidades, as obrigações religiosas, as proibições e a vida em comunidade foram narradas por sujeitos que procuraram nos contar suas leituras e apropriações da cidade, tornando-se possível identificar a atribuição de sentidos e significados para essas leituras e experiências. A intenção de tomar a memória como pauta principal das reflexões presentes neste estudo está ligada também a um movimento provocado pelo desejo de lembrar, a esse movimento relaciona-se intimamente um de nossos entrevistados, que colaborou em grande medida para a construção de uma versão oficial da história de Guaramirim, que necessariamente passa pela valorização de Pe. Mathias nessa versão. Nesse sentido, foi possível identificar uma tensão entre as memórias dos entrevistados e a intenção de memória que integra a história da cidade à trajetória de Pe. Mathias. Esse movimento evidencia no presente o processo de patrimonialização de Pe. Mathias, e na medida em que oferta uma versão de um passado transforma o pároco em sujeito indispensável para a organização da vida pública e para o crescimento da cidade.

  

Palavras-chave: Memória. Religiosidade. Patrimonialização. Guaramirim/SC. Tempo

presente.

  

ABSTRACT

  MACHADO, Elaine Cristina. On behalf of faith and parish priest: Religious memories and experiences in Guaramirim/SC (50, 60 and 70 decades). 2012. 136 f. Dissertação (Mestrado em História – Área: História do Tempo Presente) – Universidade do Estado de Santa Catarina, Programa de Pós-Graduação em História, Florianópolis, 2012.

  This work was built through the memories of people who lived during the 1950s, 1960s and 1970s in Guaramirim/SC and sought to highlight the religious experiences reported by these subjects. These religious experiences from the arrival of Father Mathias, a Catholic priest in the city are to be re-signified, since the power relations have become more consistent and clear, imposing a normalizing condition for the faithful of this denomination. The disclosures of memories dealing with religious experiences and their consequences in Guaramirim/SC appear in phrases translated and refracted, smiles, pauses and silences, but are accompanied by missings, estrangements, concordances and gaps. Neighborly relations, the spaces of sociability, religious obligations, prohibitions and community life were reported by subjects who sought to tell us about their readings and appropriations of the city, making it possible to identify the assignment of meanings to these readings and experiments. The intention to take the memory as a main agenda of the reflections presented here is also linked to a movement led by the desire to remember, this movement is closely related to one of our interviewees worked largely for the construction of an official version of the Guaramirim story, which necessarily involves the appreciation of Fr Mathias in this version. Thus, it was possible to identify a tension between the memories of the interviwees and the intention of memory that integrates the city's history to the history of Father Mathias. This movement shows this process in the patrimonialization of Father Mathias, and offers a version of a past priest which turns him into a vital subject to the organization of public life and growth of the city.

  Keyword: Memory. Religiosity. Patrimonialization. Guaramirim/SC. Present time.

  

LISTA DE ILUSTRAđỏES

  Figura 1 – Mapa dos bairros e das localidades de Guaramirim................................................ 27 Figura 2 – D. Elsa ..................................................................................................................... 47 Figura 3 – Casal Pereira (Sr. João e D. Maria) ......................................................................... 47 Figura 4 – Sr. Angelo ............................................................................................................... 53 Figura 5 – Sr. Abílio ................................................................................................................. 53 Figura 6 – D. Odete .................................................................................................................. 57 Figura 7 – Francisco Schork ..................................................................................................... 57 Figura 8 – Sr. Daniel ................................................................................................................ 62 Figura 9 – Acervo de documentos pertencentes a Sr. Daniel ................................................... 62 Figura 10 – Planta Hospital Santo Antônio ............................................................................ 101 Figura 11 – Carta de renúncia de Pe. Mathias ........................................................................ 101 Figura 12 – Documento emitido pela Câmara de Vereadores de Guaramirim que concede a Padre Mathias o título de cidadão honorário da cidade .......................................................... 110 Figura 13 – Estátua fixada em frente à Igreja Matriz Senhor Bom Jesus .............................. 118 Figura 14 – Nota pública emitida pelo prefeito em exercício, Francisco Schork, na ocasião da morte de Padre Mathias .......................................................................................................... 119 Figura 15 – Capa do documentário em homenagem do centenário de nascimento Monsenhor Mathias Maria Stein ............................................................................................................... 126 Figura 16 – Placa em homenagem ao centenário de nascimento de Pe. Mathias, que após a sessão solene da Câmara de Vereadores foi fixada na igreja Senhor Bom Jesus em Guaramirim ............................................................................................................................. 126

  

SUMÁRIO

  3.2 O vivido e o consentido: Fé e Sociabilidade .............................................................. 63

  

6 CONSIDERAđỏES FINAIS Ố OCASIấO DO RITO FINAL ................................. 128

  5.3 “Lembranças compartilhadas?”: a monumentalização de um herói local ............... 122

  5.2 A vontade da verdade: a construção de uma “memória histórica” para Guaramirim 109

  5.1 O desejo de fazer lembrar ........................................................................................ 102

  

5 CAPÍTULO IV – NÃO SEI SE VOU DIZER, SE VOU TOCAR NISSO... ............ 102

  4.3 Edificando a fé e obras paroquiais ............................................................................. 95

  4.2 Entre aproximações e distanciamentos ...................................................................... 85

  4.1 Um líder convicto de seu papel no reino dos homens ............................................... 78

  4 CAPÍTULO III – UM NOVO PASTOR PARA CONDUZIR UM NOVO

REBANHO .............................................................................................................................. 78

  3.3 Estreitando (re)composições ...................................................................................... 74

  3.1.6 Sr. Daniel ....................................................................................................................... 58

  

INTRODUđấO: TATEANDO ESPAđOS, EXPERIÊNCIAS E SENTIDOS ................. 13

  3.1.5 Francisco Schork ........................................................................................................... 54

  3.1.4 Casal Borba (Sr. Abílio e D. Odete) .............................................................................. 50

  3.1.3 Sr. Angelo...................................................................................................................... 48

  3.1.2 Casal Pereira (Sr. João e D. Maria) ............................................................................... 44

  3.1.1 D. Elsa ........................................................................................................................... 41

  3.1 Encontros ................................................................................................................... 40

  3 CAPÍTULO II – OLHARES COMPARTILHADOS: FÉ E COTIDIANO EM

LEMBRANÇAS, FALAS E GESTOS .................................................................................. 40

  1.3 Um campo em evidência ............................................................................................ 34

  1.2 Apegos polifônicos .................................................................................................... 29

  1.1 A inquietante presença do ausente ............................................................................. 23

  2 CAPÍTULO I – CIDADE E MEMÓRIAS, RELIGIÕES E RELIGIOSIDADES:

PENSAR GUARAMIRIM ..................................................................................................... 23

  

7 REFERÊNCIAS ............................................................................................................ 131

  INTRODUđấO: TATEANDO ESPAđOS, EXPERIÊNCIAS E SENTIDOS

  Compadre meu Quelemém me dá conselhos, de tranqüilidade. O que ele renova é: - “... Em presentes e futuros...” Eu sei. Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa – a inteira – cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem – mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas, fora dessa conseqüência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer fica sendo falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para cada representador – sua parte, que antes já foi inventada num papel. (ROSA, 2001, p.500)

  O trecho extraído da obra de João Guimarães Rosa é apresentado aqui para ilustrar um universo. Esse recorte permite-nos apresentar um universo em que coexistem experiências atravessadas pela fé, indicativos de normatizações e comportamentos, e interferências sobre a vida de sujeitos, que em meio ao enredo produzido por uma narrativa veem suas vidas transitarem entre o crer e o saber.

  O texto de Guimarães Rosa é apresentado a partir da narrativa de Riobaldo, que apoiado em suas memórias percorre um caminho de reflexões sobre sua própria vida, suas angústias, dúvidas e sofrimentos, trazendo ao centro de sua narrativa questões existencialistas e sua relação de fé. Compadre Quelemém, personagem amigo de Riobaldo, é aquele que o socorre em caso de dúvidas, seu mentor, aquele que lhe dá conselhos. Seu diálogo com Quelemém é denso, pois é ele quem oferece consolo e age como um facilitador na busca pela verdade encetada por Riobaldo. O romance apresenta uma forma diferente de trabalhar o tempo, e esse tempo não é linear, é fragmentado e em determinados momentos difuso, estilhaçado: o romance é marcado pelo tempo da memória.

  Para além da leitura dualista apresentada no texto de Guimarães Rosa, onde o bem e o mal se fazem presentes, nos aproximamos da essência de sua discussão ao tratarmos da aspereza em que reside o cotidiano, onde transparecem as marcas da fé e do poder da religiosidade. Não tratamos a aspereza como um terreno vazio de sentidos, envergado pelo peso de uma vida endurecida por sonhos e desejos inacabados; um terreno marcado por privações, delações, proibições e controle; pelo contrário, essa aspereza foi apresentada nesta dissertação como sinônimo de um espaço heterogêneo, oxigenado por lembranças de um passado carregado de saudades, emoções e experiências.

  A literatura não é a base em que se apoia este trabalho; este trabalho é construído a partir de memórias. Memórias e experiências religiosas que tomam como referência a presença de Pe. Mathias no município catarinense de Guaramirim, nas décadas de 1950, 1960 e 1970, narradas por diferentes sujeitos. A pesquisa buscou investigar, a partir de memórias dos moradores de Guaramirim, as ressonâncias do poder religioso em Guaramirim e discutir as formas de legitimação do poder, bem como a aceitação e as resistências a esse poder fortalecido por um discurso proferido em nome da fé e do pároco.

  O historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior, em História: a arte de inventar o

  

passado (2007), no capítulo 11, sob o título: “Violar memórias e gestar a História: abordagem

  1

  a uma problemática fecunda que torna a tarefa do historiador um parto difícil” , escreve: “O historiador quase sempre está manipulando memórias” (p.199). A manipulação de memórias é apresentada como uma referência a depoimentos que são utilizados como provas para reforçar os argumentos apresentados durante uma construção historiográfica. Nesse sentido, as discussões apresentadas pelo autor nos são desafiadoras, pois nos convocam a conduzir a discussão para uma direção contrária àquela que toma a memória individual como alicerce da consciência individual ou coletiva. Como nos chama atenção Albuquerque Júnior (2007, p.200), é preciso tratar “[...] duma Memória como unidade subjetiva, como individualidade e não como subjetivação”.

  A memória aparece neste trabalho como o fio condutor de nossas problematizações. Em evidência neste trabalho estão as narrativas de sujeitos que compartilharam suas experiências e ressignificações do passado a partir do presente. Nesse sentido, seja pelo recorte temporal ou pelo método investigativo eleito para desenvolver a pesquisa, este trabalho é um exercício histórico que se assenta na História do Tempo Presente.

  Ao tratar do “presente em posição de preeminência”, Dosse (2001, pp.92-93) afirma que

  [...] a história do tempo presente não enceta apenas a abertura de um período novo, 1 em que o que está muito próximo se mostra ao olhar do historiador. Ela é também uma história diferente, que participa das orientações novas de um paradigma buscando na ruptura com o tempo único e linear e que pluraliza os modos de racionalidade.

  Ao romper com um tempo único e linear a História do Tempo Presente nos convida a imergir em uma dilatação temporal que esbarra no rompimento com fatalismos causais. Esse rompimento que questiona a continuidade e a progressividade do tempo nos provocou a pensar o passado como um tempo inacabado, constantemente revisitado e refeito pelas memórias de nossos entrevistados.

  O passado não é só tempo, ele é também espaço, espaço de experiência. E quando ressignificado na medida em que é verbalizado, converte as narrativas do pretérito em experiências que foram apropriadas de diferentes maneiras. Primeiro pelos entrevistados, pois foram eles que as escolheram e as fizeram presentes em suas falas, e depois por nós, no momento em que as identificamos e as trouxemos à baila.

  Para Koselleck (2006, p.311),

  A experiência proveniente do passado é espacial, porque ela se aglomera para formar um todo em que muitos estratos de tempos anteriores são simultaneamente presentes, sem que haja referência a um antes e um depois. Não existe uma experiência cronologicamente mensurável – embora possa ser datada conforme aquilo que lhe deu origem –, porque a cada momento ela é composta de tudo o que se possa recordar da própria vida ou da de outros.

  Depreende-se do trecho escrito pelo autor a superposição de experiências que, impregnadas umas nas outras, compõem recordações que servem como referência para marcar o tempo, para falar do passado.

  Cabe chamar atenção para a maneira como a memória é organizada, e como são atribuídos significados a acontecimentos passados, conferindo ao presente a impressão de ser um prolongamento daquilo que já se foi. Ao tratar da relação de “tempo e memória”, no capítulo 4 de Memória e sociedade: lembrança de velhos, Bosi (2004, p.415) nos chama a perceber como “[...] a sucessão de etapas na memória é toda dividida por marcos, pontos onde a significação da vida se concentra”. Essa condição da memória evidenciada por Ecléa Bosi pode ser encontrada nas histórias narradas pelo casal Pereira, pelo casal Borba, por D. Elsa, por Sr. Angelo, por Sr. Francisco Schork e por Sr. Daniel, entrevistados durante o processo de pesquisa para esta dissertação, cada qual com suas referências e sentidos. Entre essas referências e sentidos estão o casamento, os bailes, a escola, a relação entre vizinhos, e a saudade daquilo que já passou.

  Mas como tatear esse universo e nele adentrar? Como transitar nesse espaço feito de

  O diálogo seria a resposta mais confortante para essa questão. Porém, durante o desenvolvimento desta pesquisa, no momento em que conhecíamos e reconhecíamos esses narradores, pudemos observar que esperavam de nós mais do que um diálogo, esperavam ser ouvidos. Embora estivéssemos ali para realizar uma entrevista sobre suas histórias de vida, após o primeiro contato o que ocorreu não foi uma simples troca de perguntas e respostas, afim de “recolher” memórias; foi uma interação, onde, a partir de consentimento prévio, os conteúdos da memória foram evocados e provocados.

  Assim, cientes dessa relação construída com o entrevistado, vimos que na história oral, como lembra Portelli (2010, p.20), “[...] o relato da história não é um fim em si mesmo”. Nesse sentido, as questões levantadas por Portelli sobre a relação entrevistador/entrevistado somam grandes contribuições para este trabalho ao refletir sobre as implicações metodológicas, éticas e políticas do conhecimento que produzimos a partir da história oral.

  Ao considerar essa relação repensamos o conteúdo das entrevistas e o que delas nós extrairíamos, pois foi possível compreender que também estávamos ali. Por meio da experiência de encontros os narradores permitiram que nos aproximássemos de seus apegos, desafetos, perdas, de seus espaços de sociabilidades e de sua religiosidade. A partir desses encontros foi possível construir leituras, interpretações e desfazer equívocos. Esses narradores doaram-nos aquilo que queriam doar. Suas falas evidenciaram uma rede de relações urdida por vizinhos, colegas de trabalho, sócios, companheiros de sindicatos, parentes, esposos e esposas, pastores e o vigário de Guaramirim, durante as décadas de 1950, 1960 e 1970.

  As lembranças narradas dessas relações permitiram-nos retomar Guimarães Rosa, quando o autor escreve: “Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa – a inteira – cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive”. Apropriamo-nos da frase do autor e dela destacamos o desejo narrado por seu sujeito: aquilo que sempre quis achar e que por fim sempre teve. Trata-se da lembrança.

  A lembrança para o narrador é trabalho e para nós é elemento. Um elemento constitutivo de nossa análise, que permitiu pensarmos “CIDADE E MEMÓRIAS, RELIGIÕES E RELIGIOSIDADES: PENSAR GUARAMIRIM”. Assim apresentamos o primeiro capítulo, que abre a discussão com um subtítulo que trata da “inquietante presença do ausente”. Esse subtítulo chama atenção para as lembranças de uma cidade que não aparece a todo o momento, porque ela está na memória. Busca discutir as relações resultantes das experiências religiosas em Guaramirim, marcadas por códigos, discursos e relações de poder. A “inquietante presença do ausente” trata também de Pe. Mathias, que durante as décadas de

  1950, 1960 e 1970 atravessa essas experiências. Ainda no primeiro capítulo nos ocupamos daquilo que denominamos “apegos polifônicos”, onde ao tratarmos do campo religioso e dos sujeitos que nele habitam e transitam conseguimos identificar que embora a fé católica seja predominante encontramos outras devoções, o que contraria a suposta e frágil imagem de homogeneidade. Procuramos mapear, a partir de números oficiais, outras vozes, credos e apegos e identificamos uma polifonia em Guaramirim.

  A partir desta identificação evidenciamos o campo religioso que estamos tratando, abrindo o diálogo com conceitos que nos aproximamos e nos apoiamos e que permitiu que situássemos nossa discussão.

  No segundo capítulo transitamos entre os olhares compartilhados que se apoiaram em lembranças para tratar da fé e do cotidiano de Guaramirim. Essas lembranças são resultados dos encontros onde conhecemos e reconhecemos nossos entrevistados. Ao tratar desses encontros procuramos apresentar, além de nossos entrevistados, a maneira como compartilharam suas memórias, e o que por eles foi posto em evidência: o silêncio e o verbo. Nesse capítulo, sob o subtítulo “O vivido e o consentido”, aparecem lembranças que denunciaram obediência, concordâncias, legitimações e transgressões nos espaços de trabalho e de sociabilidades, mesmo que por vezes esses espaços se misturem, nas lembranças, e seja impossível de separar um e outro.

  No terceiro capítulo tratamos da presença de Pe. Mathias em Guaramirim e a implicação da fé católica e seus códigos nos espaços de sociabilidades. A partir do sujeito Pe. Mathias, problematizamos suas ações em consonância com as diretrizes da Igreja católica do período em questão. Neste capítulo foram considerados “as aproximações e os distanciamentos” da Igreja (representada por Pe. Mathias) em relação às comunidades rurais; essa aproximação apontava para o fortalecimento da fé católica e para rígidos códigos de disciplinarização dos fiéis, presentes no período que atuou como pároco na cidade, décadas de 1950, 1960 e 1970.

  Ao indicar os rumos de “um caminho certo” e ao permitir que o narrador de sua história assuma que sozinho “a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar”, topamos mais uma vez com João Guimarães Rosa. Tal qual a renovação dirigida por Quelemém a Riobaldo, onde tempos distintos (“[...] Em presentes e futuros [...]”) são conjugados e reconhecidos, o quarto capítulo perpassa essa conjugação e esse reconhecimento, pois se propõe a tratar da monumentalização de Pe. Mathias e de um processo de “patrimonialização” presente na cidade.

  Ao discutir a redefinição de memória e patrimônio dentro de um novo regime de

  2

  historicidade presente no ocidente , Hartog (2006, p.266) destaca:

  O patrimônio define menos o que se possui, o que se tem, e se circunscreve mais ao que somos, sem sabê-lo, ou mesmo sem ter podido saber. O patrimônio se apresenta então como um convite à anamnese coletiva. Ao “dever” da memória, com a sua recente tradução pública, o remorso, se teria acrescentado alguma coisa com a “ardente obrigação” do patrimônio, com suas exigências de conservação, de reabilitação e de comemoração.

  As reflexões trazidas por Hartog serviram-nos para interrogar os motivos que levaram Pe. Mathias a ser inserido em um processo de patrimonialização, num “desejo de fazer lembrar” que parte do mesmo tempo que a memória: o presente. Foi possível identificar nesse processo investimentos para aliar a memória de Pe. Mathias às memórias de Guaramirim. Entre esses investimentos a que nos detivemos a investigar estão o erigir de um monumento com a sua imagem, a composição de uma biografia para contar a história deste padre, a conservação dos pertences pessoais e de ofício do pároco, abrigados na paróquia Senhor Bom Jesus – pertences que já compuseram uma exposição sobre sua vida e que são alvo da intenção da criação de um museu para o padre –, e a recente alteração do nome do hospital municipal Santo Antônio para Hospital Padre Mathias.

  O manifesto desejo da construção de uma memória histórica para Guaramirim dialoga com o que Hartog chama de “ardente obrigação do patrimônio”, que carrega consigo a necessidade de proteger, reabilitar e oferecer à comemoração. Essa condição soma-se ainda ao dever da memória: assim, a proteção e a oferta de uma memória que liga a imagem de Pe. Mathias a Guaramirim nos convida a pensar sobre a construção de um herói local.

  Interessou-nos, portanto, investigar como moradores de Guaramirim hoje trabalham suas memórias sobre o período em questão (décadas de 1950, 1960 e 1970) e como esses mesmos indivíduos lidam com uma memória institucionalizada buscando perceber nesse exercício as implicações e os diálogos entre uma categoria e outra. Não estamos propondo um confronto entre estas categorias, mas identificando e relacionando um conjunto de elementos que se inter-relacionam.

  Entre “presentes e futuros”, como sugere Guimarães Rosa, ou entre presentes e passados, elegemos um espaço de experiências e sentidos heterogêneos para tatearmos. Esse espaço chamado Guaramirim foi eleito em grande medida por termos morado e vivido ali por 2 mais de duas décadas, onde repetidas vezes apareciam reverberações contendo algumas das questões aqui investigadas. Essas reverberações ora eram tomadas por um sentimento nostálgico, ora por anunciações que apresentavam aquilo que se confundia com abuso de autoridade, saudade e excesso de zelo. Foi justamente nesse limiar que procuramos conduzir nossa investigação.

  Ao decidirmos estudar Guaramirim, tivemos que realizar um duplo exercício: primeiro tivemos que nos distanciar, se é que isso é possível, da cidade que julgávamos conhecer. Empreendemos o exercício sugerido por Velho (1978), de “estranhar o que é familiar”, pois também éramos e somos parte deste universo de escolha. Depois, ou em paralelo, passamos a tatear, a investigar a partir de seis entrevistas, que contaram com a participação de oito entrevistados, realizadas com moradores de Guaramirim/SC, suas memórias e as experiências religiosas. A opção em conduzirmos nossa investigação a partir das memórias de sujeitos que viveram em Guaramirim no período em questão foi motivada pela possibilidade de nos depararmos e apurarmos uma perspectiva diferente daquela dada pelas memórias institucionalizadas em Guaramirim.

  Os caminhos percorridos nessa pesquisa contaram, além das memórias de moradores de Guaramirim, com uma investigação em documentos que estavam sob guarda de arquivos públicos. Foram levantados e analisados documentos sob a guarda do Arquivo Histórico de Joinville, do Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul e do recém-formado centro de documentação de Guaramirim. Entre os documentos com os quais tivemos contato estão os periódicos: Jornal A Notícia, Jornal de Joinville e Jornal do Vale, além de fotografias produzidas na cidade por diversos moradores e documentos hoje sob guarda do poder público municipal. Trata-se de cartas e documentos expedidos pela administração municipal que nos serviram para fundamentar nossa discussão. É preciso esclarecer que não tivemos acesso direto aos documentos da paróquia ou aos documentos pessoais pertencentes a Pe. Mathias, pois estes foram confiados a seu biógrafo e encontram-se sob sua guarda. Contudo, vale destacar que nossas preocupações direcionam-se às tessituras trazidas pelas narrativas de nossos entrevistados. Não se trata de privilegiar as fontes orais em detrimento de outras fontes, mas de colocar no centro de nossa investigação a maneira como os nossos entrevistados trabalharam suas memórias. Nesse sentido, os periódicos e os outros documentos analisados nos serviram para identificar e explicar as versões conflitantes, mas também convergentes, tanto nas memórias pessoais como na “pública”.

  As lembranças com as quais trabalhamos foram registradas por meio de entrevistas orais, no período de outubro de 2010 a dezembro de 2011. Filmamos cada uma dessas entrevistas, pois entendemos que não só as falas dos entrevistados nos serviriam, mas também os gestos, as expressões e os silêncios. A partir desse entendimento foi possível analisar as entrevistas e interpretar as diferentes leituras sobre Guaramirim. As falas dos entrevistados são apresentadas em itálico e para a maioria mantivemos a fala coloquial empregada, exceto em alguns momentos em que realizamos a edição dessas falas, adequando-as ao nosso texto.

  Entre as seis entrevistas realizadas, D. Elsa foi nossa primeira entrevistada. A entrevista que ela nos concedeu revelou experiências riquíssimas e a partir dessas experiências foi possível delinear alguns caminhos para esta pesquisa. D. Elsa é uma antiga moradora do bairro Caixa D’Água e, ao visitar nossos familiares, neste bairro, víamos em muitos finais de semana essa senhora sentada em um ponto de ônibus, descompromissada com horário e sem esperar de fato o ônibus: D. Elsa ali esperava o tempo passar. Em mais um dos finais de semana em que passávamos pela mesma rua e pelo mesmo local, lá estava D. Elsa, resolvemos parar e do nosso encontro resultou a primeira entrevista desse trabalho.

  Com o casal Pereira, no bairro Rio Branco, realizamos a segunda entrevista. Já conhecíamos o casal: Sr. João, quando era presidente do sindicato, conhecia muitas famílias de agricultores e éramos filhos de agricultores. Ficou desse reencontro, além das lembranças do casal, a ansiedade de D. Maria para contar tudo aquilo que ela podia lembrar e de Sr. João a calma e a tranquilidade para contar suas histórias com uma riqueza de detalhes que ele na ocasião julgou necessária.

  Em uma dessas conversas sobre a pesquisa, conhecemos um funcionário do Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul. Na ocasião, Ademir Pfiffer, que morou em Guaramirim, nos sugeriu dois nomes: Sr. Angelo Bolomini e Sr. Abílio de Borba, e generosamente nos indicou como chegar à casa de cada um deles.

  Sr. Angelo é de uma alegria contagiante, falar do passado foi um presente para ele. Recebeu-nos com sua carteira de trabalho, exibindo-a em vários momentos da entrevista com muito orgulho. Além de nos receber tão bem, também nos preparou um generoso café, porque, segundo ele: “em casa de italiano tem que se comer bem”.

  Para chegar à casa do casal Borba e conhecer seu Abílio, fizemos uso das referências que havíamos anotado na conversa com o historiador do Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul e contamos com a ajuda de uma terceira pessoa, D. Maria Lúcia. D. Maria Lúcia foi diretora da escola em que estudamos durante a adolescência; fizemos o contato e ela prontamente nos apresentou o casal Borba e Putanga, a localidade em que mora a família de Sr. Abílio. Putanga é uma localidade do interior de Guaramirim, e o que até parecia redundante, o interior de uma cidade do interior, passa a ocupar o centro a partir das memórias do casal Borba.

  Já conhecíamos os livros de Sr. Francisco Schork, mas não pessoalmente. Queríamos muito ouvir suas lembranças. Queríamos entender mais sua relação com Pe. Mathias. Quando fizemos o primeiro contato, Sr. Francisco Schork prontamente se colocou à disposição. Agendamos uma conversa e a entrevista. Sr. Francisco Schork emocionou-se ao falar de sua infância. Durante sua narrativa, ressignificou espaços, lugares e reafirmou seu compromisso em manter viva a memória de Pe. Mathias.

  Por último, conhecemos Sr. Daniel. Já tínhamos lido muitos artigos e matérias de jornais sobre este senhor. Sabíamos do seu interesse pela história de Guaramirim. Durante 2011 seu nome fora citado várias vezes em jornais de circulação local, pois Sr. Daniel havia vendido para a Prefeitura de Guaramirim um acervo documental que colecionou durante boa parte de sua vida. Sr. Daniel é chamado por esses jornais de “guardião da história de Guaramirim”. Fomos até sua casa e ali ficamos algumas horas conversando sobre causos e histórias. Marcamos um novo encontro e quando retornamos para fazer a entrevista fomos surpreendidos por um dos cômodos de sua casa repleto de fotografias, muitas delas repetidas. Ao tomarmos contato com algumas dessas fotografias, pudemos perceber que não obedeciam a uma ordem ou cronologia, estavam misturadas, e Sr. Daniel foi nos mostrando essas imagens a partir de acontecimentos que se relacionavam diretamente com sua vida. Ali pudemos perceber que, sem intenção, com aquele gesto, Sr. Daniel nos mostrava como a memória trabalha.

  Esses narradores coloriram com suas lembranças interrogações previamente selecionadas. Opacas, as questões levadas até esses indivíduos passaram a fazer sentido somente a partir das falas dos entrevistados. Sem se importar em dividir conosco suas memórias, essas pessoas generosamente permitiram que entrássemos em seus lugares mais queridos. Suas casas, seus cômodos e seu local de trabalho foram por nós visitados e revisitados por suas memórias.

  Apoiados nas lembranças dos entrevistados, foi possível perceber que “o narrador tira o que narra da própria experiência e transforma em experiência dos que o escutam”. A frase é tributária de Bosi (2004, p.85), mas nos serve para reforçar os sentidos por nós atribuídos e as nossas ressignificações resultantes desses encontros.

  Os itinerários percorridos, neste trabalho, partem das experiências geradas por relações pautadas na religiosidade e constituídas de significados diversos, marcados por arritmias e compassos sinalizados pelos tons e sons daqueles que compartilharam conosco suas memórias. Por meio de um trabalho muito delicado, exercitaram suas lembranças, rememorando composições e recomposições de momentos em que expressaram elementos deste universo que nos serve de referência.

  As reflexões que seguem buscam inicialmente discutir como as relações resultantes das experiências religiosas de Guaramirim, nas décadas de 1950, 1960 e 1970, apresentam uma cidade marcada por disputas de poder e discursos que se pretendem harmoniosos, mas que por vezes se desencontram. Nessas décadas ocorreu uma intensificação das ações de enquadramento dos católicos da cidade em rígidos códigos de moral e conduta. Alguns dos entrevistados mostram-se totalmente envolvidos por estes códigos e falam deles com um saudosismo capaz de eleger estas rígidas orientações e posturas como essenciais para as suas vidas, já outros apontam descompassos, desafinações e desencontros em relação a esses códigos, dispensando a eles uma importância secundária.

  O conceito “religiosidade” permeará toda a discussão. Para tanto, é necessário explicarmos que esse conceito será tomado aqui como um investimento das pessoas em uma proposição, como uma modalidade de afirmação que aproxima as pessoas não só daquilo em que elas acreditam, mas daquilo que lhes permite o sentimento de pertencimento. A religiosidade é possuidora de significados diversos na medida em que envolve sujeitos distintos que experienciam uma condição de ler e interpretar os códigos religiosos e processos normativos, mas que podem ser burlados ou revistos em decorrência de suas relações com outros sujeitos. As experiências resultantes dessas relações podem contrariar aquilo que parece ser a primeira imagem de um fiel: o condicionamento a uma instituição, que por sua vez se desdobra em uma vida orientada por códigos, princípios e relações construídas a partir do pertencimento a um mesmo universo religioso.

  Esta dissertação toma como referência uma cidade objeto de memórias matizadas pelas experiências de moradores, os quais, bem mais do que testemunhas da tentativa de orquestração da vida pública e privada, constroem para si leituras e releituras da Guaramirim das décadas de 1950, 1960 e 1970, pluralizando-a.

2 CAPÍTULO I – CIDADE E MEMÓRIAS, RELIGIÕES E RELIGIOSIDADES: PENSAR GUARAMIRIM

  [...] o homem também se admira de si mesmo por não poder aprender a esquecer e por sempre se ver novamente preso ao que passou: por mais longe e rápido que ele corra, a corrente corre junto. (NIETZSCHE, 2003, p.7-8) A descoberta da cidade é a de um labirinto do vivido eternamente renovável, onde o indivíduo que nele adentra não é um ser completamente perdido ou sem rumo. É alguém que lida com memória e sensação, experiência e bagagem intelectual, recolhendo os microestímulos da cidade que apresentam caminhos que se abrem e se fecham. (PESAVENTO, 1995, p.288)

  1.1 A INQUIETANTE PRESENÇA DO AUSENTE Somos, de nossas recordações, apenas uma testemunha, que às vezes não crê em seus próprios olhos e faz apelo constante ao outro para que confirme a nossa visão. (BOSI, 1994. p.407)

  A ação de tomar a cidade como um texto a ser lido e interpretado não pode estar voltada para o passado, pois nela impera outro tempo, e seu passado só pode ser analisado pelo presente. Isso nos possibilita entender que a materialidade de uma cidade, conforme sustenta Lepetit (2001, p.179), “é marcada pela ação contínua do tempo, e o inventário urbano inscreve-se quase inteiro na história”. Portanto, a relação da evocação da memória com o tempo a que essa lembrança se refere, somada à cidade e a suas temporalidades voláteis, nos permite transitar para além dos marcos temporais e das comemorações cravadas no seu calendário oficial, provocando uma emersão de vozes e a reverberação de falas que extrapolam os limites demarcados pelos discursos oficiais.

  A cidade não pode ser vista como uma folha de papel em branco a ser desenhada ou escrita uniformemente com base em desejos e intenções singulares. Nesse sentido, Lepetit (2001, p.140) afirma que “a cidade não é um palimpsesto”, pois nela se justapõem diversos usos e é essa condição que nos permite realizar uma hermenêutica de seus espaços.

  Conforme assinala Sarlo (2009, p.145), “Los discursos producen ideas de ciudad,

  

críticas, análisis, figuraciones, hipótesis, instruciones de uso, prohibiciones, ordenes,

  

ficciones de todo tipo. La ciudad escrita es siempre simbolización y desplazamiento, imagem,

metonímia ”.

  As rupturas discursivas e cronológicas são promovidas a partir do reconhecimento das diferentes marcas espalhadas pela cidade, seja através de sua materialidade expressa em vestígios, como igrejas, escolas, casas e demais edificações, seja por meio de lembranças que assumem contornos da imaterialidade presentes nas memórias, e que nos convidam a percorrê-las a cada frase, a cada palavra saudosa, a cada silêncio ou negação após uma pergunta, ou simplesmente tangenciando sua resposta com um simples e gentil: “isso eu não posso dizer, porque eu não lembro!”.

  A inserção de novos olhares sobre as relações que se constituem na cidade e que ao mesmo tempo a constroem se traduz em uma delicada e desafiadora escolha de entender que estes olhares partem de falas, impressões, leituras e experiências daqueles que fizeram e que constantemente operam o refazer da cidade, e que nos possibilitaram reconhecer as polissemias presentes em Guaramirim, além de transitar entre elas a partir da perspectiva religiosa.

  Guaramirim está localizada na região norte de Santa Catarina, e até o final da década de 1940 era um distrito de Joinville, sendo em 1949 desmembrado e elevado à condição de município, passando por substanciais alterações, a partir da sua emancipação política e da presença oficial da Igreja católica na cidade. Até 1943 Guaramirim era conhecido como distrito de Bananal do município de Joinville, mas após sua emancipação teve sua configuração alterada.

  3 Seu nome está relacionado a uma ave de plumagem rubra , e por força do decreto-lei

  estadual nº 941, de 31/12/1943, o nome Bananal foi substituído por Guaramirim. No início da década de 1960, Guaramirim contava com sua divisão territorial formada por três distritos,

  4 sendo Guaramirim a sede, e Massaranduba e Schroeder os dois outros distritos .

  Trata-se de um pequeno município localizado no interior de Santa Catarina, numa das regiões mais industrializadas do estado, próximo a polos industriais como Joinville, Jaraguá

  5

  do Sul e Blumenau. Atualmente conta com uma população de 35.130 habitantes . A maioria 3 da população vive na área urbana, mas inversamente, durante as décadas de 1960 e 1970,

  

Trata-se de uma garça cujo nome científico é Eudocimus ruber L. e que parece nunca ter existido na região. A

respeito da origem do nome existem informações conflitantes, pois há quem defenda que esta denominação se 4 deve ao diminutivo do lobo- guará, Chrysocyon brachyurus.

  

Os desmembramentos dos distritos de Massaranduba e Schroeder serão retomados ao tratarmos da composição 5 do cenário religioso da cidade. vivia predominantemente em áreas rurais, como um reflexo do contexto de ocupação da própria cidade.

  A agricultura familiar tem grande influência sobre a economia do município, onde predomina o cultivo de arroz e banana. Contudo, na década de 1970 muitas indústrias passaram a se instalar na cidade e hoje Guaramirim abriga um importante parque industrial.

  A instalação de indústrias e empresas dos mais variados ramos implicou diretamente um aumento populacional e uma mudança de hábitos, pois o agricultor e os membros de sua família que antes desse período se dedicavam quase exclusivamente ao trabalho na roça, dentro de uma sistemática de produção que envolvia todos os membros da família, passaram a

  6 dedicar parte do seu tempo como trabalhadores assalariados da indústria .

  Guaramirim tem seu território dividido em bairros e localidades (Figura 1) e nesses espaços situam-se as experiências vividas por nossos entrevistados. Entre essas experiências podemos citar as práticas religiosas, as relações familiares, de vizinhança e de trabalho, que deram a seus moradores referências para tratar do passado.

  A denominação localidade é utilizada genericamente entre os moradores de Guaramirim para indicar uma região ou bairro da cidade a que estão se referindo. Comumente essas localidades são cortadas por uma estrada principal, que abriga próximo às suas margens as residências dos moradores. Essas estradas geralmente recebem a mesma denominação da localidade e dependendo da sua extensão pode ser subdividida, conforme indica o mapa (Figura 1). Conforme Machado (2003, p.13),

  Localidade é um termo comumente usado pelos moradores de Guaramirim/SC para se referirem aos espaços de vivências das comunidades. É em torno desta estrutura que eles vivenciam, mais intensamente, os espaços de sociabilidades. Em uma localidade pode [podem] coexistir diversas comunidades, constituídas frequentemente pelo sentido de pertencimento e vivência de uma determinada religião. Nesse sentido, as religiões que mais se destacam são as cristãs, católica, luterana, pentecostais e as assembleianas. [...] Cada localidade possui um pequeno centro, que é o espaço de maior convivência. Geralmente, ele se configura pela existência de uma estrutura religiosa.

  Seja na condição de distrito ou como cidade emancipada, poucos eram os espaços em que as famílias se encontravam; geralmente era em torno da igreja e da vida religiosa que se criavam e recriavam as sociabilidades. Em torno das comunidades religiosas anualmente se organizavam festas de padroeiros e outras atividades recreativas. Essas festas, principalmente 6 para os católicos, eram organizadas pelo próprio vigário e tinham o objetivo de levantar fundos para manter o funcionamento da estrutura paroquial. Já para os luteranos essas festas cumpriam o papel de fortalecimento da comunidade, além de manter sua estrutura funcional.

  As festas de comunidade por um lado promoviam a aproximação entre as famílias e um estreitamento das relações de vizinhança; contudo, eram esses os momentos em que a distinção em relação a fiéis de outras denominações religiosas ficava mais evidente.

  Essa composição do cotidiano dos moradores de Guaramirim, durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, nos deu subsídios para entender onde se assentam os limites de convivência com o outro. Ao nos voltarmos às memórias de sujeitos que experienciaram a vida nessas localidades, estamos privilegiando mais os significados dessas experiências do que as demarcações temporais, que ficam mais salientes após a emancipação da cidade. Pois entendemos que a cidade de Guaramirim não nasce com sua emancipação e sim com um conjunto de experiências que ali se localizam.

  Figura 1 – Mapa dos bairros e das localidades de Guaramirim

  

Fonte: Prefeitura Municipal de Guaramirim/ Conselho de Desenvolvimento Municipal - CD-ROM. Guaramirim

em Dados. 2001.

  Notas:

  Bairros:

  1 – Recanto Feliz 2 – Imigrantes 3 – Nova Esperança 4 – Centro 5 – Amizade 6 – Avaí 7 – Caixa D’Água 8 – Ilha da Figueira 9 – Beira Rio 10 – Bananal do Sul 11 – Guamiranga 12 – Corticeira

  13 – Figueirinha 14 – Rio Branco 15 – Barro Branco

  Localidades

  16 – Brüderthal I 17 – Brüderthal II 18 – Serenata 19 – Quati 20 – Poço Grande I 21 – Poço Grande II

  22 – Jacu-Açu I 23 – Jacu-Açu II 24 – Perdidos 25 – Tibagi 26 – Putanga 27 – Novo Tibagi 28 – Ponta Comprida 29 – Timbiras 30 – Guamiranga Sul I 31 – Guamiranga Sul II 32 – Ribeirão do Salto 33 – João Pessoa. Ao problematizarmos as relações arregimentadas por um cotidiano que sugere que a cidade se reconheça a partir de sua emancipação política, ousamos converter essa questão em um instigante desafio, o de romper essa delimitação percorrendo os limiares das vivências e experiências pretéritas de Guaramirim. Iniciamos esse desafio no momento em que provocamos uma aproximação daqueles que apresentam uma pluralidade de léxicos para defini-la, e que através de suas memórias reinventam e transgridem as fronteiras temporais.

  Geertz (2008, p.81) assinala que “falar de ‘perspectiva religiosa’ é, por implicação, falar de uma perspectiva entre outras. Uma perspectiva é um modo de ver, no sentido mais amplo de ‘ver’ como significando ‘discernir’, ‘apreender’, ‘compreender’, ‘entender’ [...].” Ao tomarmos as memórias e as experiências religiosas de Guaramirim como norte, a perspectiva desta pesquisa ganha os contornos da religiosidade, mas esses contornos nos permitem extrapolá-los na medida em que acessamos estas memórias por meio das entrevistas orais. Os contornos da religiosidade não são espaços delimitadores e sim referenciais, pois as narrativas não são lineares, revelando, entre suas lembranças, por meio de movimentos irregulares, um cotidiano mais plural.

  As entrevistas orais não só foram o caminho que nos possibilitou o contato com as lembranças e as memórias de pessoas que construíram experiências religiosas durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, como também agiram como força centrípeta, puxando para o centro da relação entrevistadora e entrevistado, estilhaçando a clássica imagem na qual o entrevistador se coloca frente ao entrevistado e conduz o diálogo de acordo com as pretensões de sua pesquisa. Ante essa experiência fomos chamados a perceber que as falas e aquilo que estas queriam traduzir iam além da simples intenção de dizer, passavam por uma constante formulação, uma construção verbal que pudesse dar conta de um passado enunciado a partir do presente, ao passo que cambiavam no diálogo arquitetado por aqueles que provocavam e violavam algumas das lembranças que muitos entrevistados já julgavam esquecidas.

  Embora considerando a volatilidade da memória e sua reelaboração como uma reação às provocações realizadas pela entrevistadora durante cada entrevista, as falas que por vezes pareciam opacas e frágeis quando tratavam da infância mostraram-se revigoradas e cheias de vibração ao verbalizar as lembranças que marcaram suas vidas com uma importância singular, resultado de sentimentos que são reconhecidos no presente a partir de experiências do passado. Esse constante processo em que está inserido o trabalho da memória, em contínua reelaboração, parte do seu significado para narrar suas lembranças. Para Bosi (1994, p.66),

  “[...] sempre ‘fica’ o que significa. E fica não do mesmo modo: às vezes quase intacto, às vezes profundamente alterado”.

  A tênue imagem comumente atribuída à memória pode ser questionada, pois esta fragilidade é uma condição temporária, sua força não pode ser medida somente pela intensidade da fala ou pela quantidade de vezes em que o fato foi evocado e rememorado. O silêncio, a pausa e as respostas evasivas também estão recheados de significados e podem ter um peso muito maior do que uma frase feita, pois a relação em que se pauta cada entrevista é ressignificada a cada gesto dos que ali estão diretamente envolvidos.

  Ao tratar da aproximação do entrevistador e do entrevistado e da relação que se constrói entre ambos, Portelli (2010, p.20) sublinha:

  A ideia de que existe um “observado” e um “observador” é uma ilusão positivista: durante todo o tempo, enquanto o pesquisador olha para o narrador, o narrador olha para ele, a fim de entender quem é e o que quer, e de modelar seu próprio discurso a partir dessas percepções. A “entre/vista”, afinal, é uma troca de olhares. E bem mais do que outras formas de arte verbal, a história oral é um gênero multivocal, resultado do trabalho comum de uma pluralidade de autores em diálogo.

  A multivocalidade resultante dessa interação entrevistador e entrevistado é provocadora, como terreno a ser explorado, no momento que verbaliza, ou sinaliza, as manifestações da memória.

  É na subjetividade que se inscreve a memória. Cumpre chamar a atenção para o fato de que, ao se optar por trabalhar com a história oral, se opta aqui por estudar menos o que teria acontecido e mais o que se lembra e se entende que teria acontecido. Eis o ponto de encontro entre o exercício da busca na memória e a História do Tempo Presente, que faz dessa perspectiva, “mais do que qualquer outra”, “uma história inacabada: uma história em constante movimento, refletindo as comoções que se desenrolam diante de nós e sendo portanto objeto de uma renovação sem fim” (BÉDARIDA, 2006, p.229).

  1.2 APEGOS POLIFÔNICOS Os híbridos caminhos percorridos pelas memórias nos possibilitaram entender que neles se assentam o reconhecimento das experiências como o ponto de partida das narrativas.

  Ao tomarmos o hibridismo como multiplicidade e complexidade, uma série de questões fascinantes aparece, entre elas a religiosidade e as experiências resultantes da convivência e da coexistência entre diferentes comunidades religiosas.

  O passado trazido pelas memórias daqueles que abriram suas experiências e as verbalizaram traduzindo-as com diferentes cores, sons, tonalidades e intensidades, passa a ser encarado como uma referência, não como um modelo pronto. Essa questão só fica evidente quando assumimos a íntima e tensa relação entre o passado e o presente. Isto se dá porque o tempo histórico não é lógico, muito menos autossistêmico, e, em uma relação muito próxima e dialógica dessa questão está a História do Tempo Presente, que toma entre suas referências as experiências.

  Segundo Koselleck (2006, pp. 309-310),

  [...] a experiência é o passado atual, aquele no qual acontecimentos foram incorporados e podem ser lembrados. Na experiência se fundem tanto a elaboração racional quanto as formas inconscientes de comportamento, que não estão mais, ou que não precisam mais estar presentes no conhecimento. Além disso, na experiência de cada um, transmitida por gerações e instituições, sempre está contida e é conservada uma experiência alheia. Nesse sentido, também a história é desde sempre concebida como conhecimento de experiências alheias.

  A experiência individual atravessada pelo tempo carrega consigo marcas alojadas profundamente em fissuras instaladas na memória. As memórias nascem de um embrião gerado a partir de uma íntima relação consigo mesmo; quando evidenciadas, essas memórias não tratam mais de si e sim de uma construção a partir do outro.

  Tomar essas experiências como o fio condutor das problematizações acerca da religiosidade de Guaramirim não representa apontá-las para uma única direção, até porque essas experiências são atravessadas a todo o momento por outras, promovendo desencontros, interrupções, paralisações, sendo arrastadas e convocadas a compor outras vivências, afastando uma suposta linearidade.

  A experiência religiosa, por mais individual, íntima e introspectiva que possa parecer, provoca-nos a olhar para outros significados nela projetados. Ao considerarmos que as experiências religiosas resultam de um conjunto de práticas compostas por discursos, sentidos, códigos e afetos, nos permitimos olhar para dentro de um campo, que Bourdieu

  1

  (2009) batiza de “campo religioso” . Ou ainda, por vezes, identificar modestamente pagãos que tentam encontrar um espaço nesse campo, e com muita ousadia transgridem seus espaços delimitadores, pois aparecem com frequência quando evocados pela memória, ao menos entre 1 os moradores de Guaramirim.

  

O conceito “campo religioso” foi trazido pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, que apresenta o campo

religioso como um espaço no qual os agentes (padre, profeta, feiticeiro etc.) lutam pela imposição da definição

  Um olhar menos atento para Guaramirim pode sugerir uma relativização do campo religioso e, por conseguinte, das religiosidades presentes na cidade, além de deixar escapar importantes detalhes que merecem ser analisados, e que aqui serão tomados como referência para problematizar as experiências religiosas. Uma leitura acerca do número de religiões presentes na cidade nas décadas de 1950, 1960 e 1970 pode perigosamente sugerir apenas um quadro de predominância do catolicismo, presença consistente dos luteranos, em função da organização de suas comunidades, e tímida presença de assembleianos. Porém, ao nos aproximarmos dos censos produzidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 1950, 1960 e 1970, podemos perceber que, embora em menor número, outras denominações se faziam presentes, pluralizando ainda mais o campo religioso em questão.

  2 Segundo dados coletados em pesquisa desenvolvida pelo IBGE em 1950 , Guaramirim

  contava com uma população de 20.912 pessoas, sendo que deste total 17.619 afirmaram se dedicar ao catolicismo, 6.341 eram protestantes. Contudo, é preciso salientar que em relação a esse tipo de identificação realizada pelo censo não há distinção entre as denominações religiosas que compõem esse conjunto chamado de “protestantes”, o que significa que houve um enquadramento de fiéis de diferentes denominações religiosas em um único grupo.

  Retomando os números apresentados no mesmo censo, 7 pessoas eram espíritas, 1 maometano, 20 pessoas eram pertencentes à genérica categoria desse levantamento chamada de outras religiões, 2 pessoas se declararam sem religião e, por último, foi apurado que 17 pessoas não declararam sua pertença religiosa.

3 Já em 1960 , a população de Guaramirim era de 24.140 habitantes e, entre as religiões

  presentes na cidade, 16.724 pessoas declaravam-se católicos romanos e 7.166 pessoas foram identificadas como protestantes. Nesse mesmo levantamento foram identificados 4 espíritas, 3 budistas, 2 israelitas, 1 ortodoxo, 1 maometano, além de 234 pessoas identificadas como “outras religiões”, sendo que 5 pessoas se declararam sem religião alguma. Esses dados oferecem subsídios para pensar em duas questões diretamente ligadas a esses números e aos enquadramentos realizados por este levantamento. A primeira questão a ser trazida à baila é sobre essa diversidade religiosa em uma cidade que opera um discurso predominantemente católico; e uma segunda questão a ser discutida é como essa diversidade religiosa aparece nas memórias dos moradores.

  Em relação ao primeiro ponto é preciso considerar que esses números precisam ser 2 depurados, pois em 1950 Guaramirim somava a população que vivia dentro das delimitações

  4 geográficas oficiais e a população de dois outros distritos: Massaranduba e Schroeder .

  Entretanto, não é somente a definição política da região que interfere nos números apresentados pelo censo, mas a maneira como essas denominações religiosas operam sobre essa região, especialmente o catolicismo, que ganhara corpo e consistência com a chegada de Pe. Mathias em Guaramirim, em 1949.

  A outra questão levantada diz respeito à maneira como os sujeitos se definem e como esses sujeitos veem os outros. Os outros, nesse sentido, podem ser entendidos como aqueles que não professavam a fé católica e que, independentemente da opção por uma denominação religiosa ou pela ausência de uma denominação, passam a ser tratados com a devida distância, recomendada diretamente do púlpito.

  Quanto ao Pe. Mathias, a presença desse pároco em cada comunidade representou mais do que o conforto espiritual para as famílias do município, que eram predominantemente católicas. Sua presença traduziu-se no estabelecimento de um determinado código de convivência social; a imposição de uma “pedagogia” da fé foi o marco referencial desse

  5

  código. E os moradores da cidade, que até a chegada desse padre viviam sob laços mais frouxos, passam a ter que estreitá-los na medida em que se situam dentro de um novo universo religioso, permeado por um novo discurso, que ditava as novas normas de conduta social, apontando para a construção de um quadro social coordenado através da fé.

  Em 1970 os números apresentados pelo censo indicam que houve uma reconfiguração do quadro religioso na cidade. Essa reconfiguração foi resultante não só da redefinição política dos distritos que compunham Guaramirim, mas também resultou da “pedagogia da fé” amplamente incorporada e praticada pelos católicos seguidores de Pe. Mathias, e do aparecimento e crescimento de denominações pentecostais, embora nenhum dos levantamentos investigados indique a presença desses fiéis, o que reforça uma condição de invisibilidade em decorrência do enquadramento desse levantamento, que agora os denomina “evangélicos”.

4 A lei estadual nº 247, de 30 de dezembro de 1948, transfere o distrito de Guaramirim do município de Joinville

  

para o município de Massaranduba; entretanto, em função da disputa política envolvendo estes dois distritos e da

argumentação de Guaramirim sobre a estrutura apresentada por Massaranduba em 18 de julho de 1949, por meio

da lei estadual nº 295, essa relação se inverte passando Massaranduba à condição de distrito de Guaramirim. E

pela lei municipal de Guaramirim nº 2, de 10 de setembro de 1958, é criado o distrito de Schroeder, sendo

desmembrado de Guaramirim em 1964. Fonte: <http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/dtbs/santacatarina/

5 guaramirim.pdf >. Acesso em: 11 ago. 2011.

  6 Conforme números levantados pelo IBGE em 1970 , Guaramirim contava com uma

  população de 10.102 habitantes, sendo 7.778 católicos, 2.198 evangélicos e a 126 pessoas foi atribuída a condição de pertencentes a “outras religiões”. Um fato curioso é que nesse censo nenhuma pessoa aparece como sem religião ou optante por não declarar seu credo.

  Há que se considerar que as pesquisas feitas por projeções de amostragens podem apresentar lacunas e estas lacunas ficam ainda mais salientes na medida em que consideramos a dilatação do campo religioso brasileiro, que a cada ano apresenta uma complexidade e uma diversidade ainda maior de denominações religiosas.

  Esses números representam bem mais do que a disparidade da distribuição de credos em Guaramirim, eles apontam para outras questões bem mais delicadas, como as relações entre fiéis de uma mesma denominação religiosa e de diferentes denominações; embora não mostrem como eram essas relações, alertam para a existência dessas experiências. Essa composição numérica, mesmo que tangencialmente, indica descompassos entre aqueles que se reconhecem na condição de maioria, os católicos, e os que assumem seu credo em outras denominações, compondo uma minoria.

  Outra questão que merece ser observada é que os números dos levantamentos, que remetem ao final da década de 1940, de 1950 e final da década de 1960, apresentam o segundo maior número de fiéis, chamados, no primeiro e no segundo recenseamento, de protestantes, e no terceiro, de evangélicos, com uma larga diferença numérica em relação à maioria católica.

  Existem relevantes diferenças entre as denominações religiosas presentes na cidade neste período, como a Igreja Luterana, a Batista, a Presbiteriana Independente e as denominações pentecostais, como a Assembleia de Deus, e são essas diferenças que foram ignoradas em função do modelo de levantamento, que silencia discretamente o sentimento de pertencimento. Outro ponto que merece nossa atenção é o que representa o item “outras religiões”. Em relação a esse item presente nos levantamentos aqui analisados, é preciso considerar que ele deixa margem para pensarmos sobre a emergência, em Guaramirim, de outras denominações religiosas em expansão no Brasil no período em questão, além de considerarmos que um número significativo de pessoas provavelmente frequentava práticas religiosas de vários cultos, o que os distanciaria dos modelos apresentados pelo instrumento estatístico.

  A religião é sem dúvida um elemento de aproximação entre as pessoas, pois muitos identificam seus pares pela maneira como se comportam, como falam, como se vestem, como leem a vida e a morte a partir das mensagens salvíficas, ou ainda como refutam o pecado, ou aquilo que lhes é estranho ou desconhecido. São esses códigos que os identificam e lhes permitem se sentir pertencentes a uma comunidade ou denominação religiosa. Porém, as relações sociais extrapolam esse elemento de identificação. A composição familiar, as relações de trabalho, as relações entre vizinhos, os bailes e as festas surpresas de aniversário também foram, em Guaramirim, elementos de aproximação e que permitiriam transgredir o aparente distanciamento gerado pela escolha de uma religião.

  Nessas tênues fronteiras, a fé tem ressonâncias e essas ressonâncias são polifônicas. Mostrar-se envolvido por um apego ao sagrado enquanto espaço de demonstração de fé e devoção (denominação religiosa) nem sempre é viver somente em um dos lados da fronteira, pois, por mais que existam códigos, normas e condutas vigiadas, por mais que seja estabelecida uma “pedagogia da fé”, os sujeitos sempre transitam entre as fronteiras: elas não são lugares delimitadores de territórios, são espaços de trânsito e também de litígio, e as relações entre os sujeitos vão além da esfera religiosa.

  Desse modo, observa-se que a fronteira da religiosidade não é algo material, mas simbólico; e não é a fronteira que separa esses sujeitos, mas o limite da(s) identidade(s). Entretanto, esse limite não representa necessariamente uma barreira, mas sim uma referência, que pode representar uma divisão do sujeito entre o ser (cristão, ou ser católico, ou ser luterano, ou ser assembleiano ou sem religião) e o estar (em uma determinada denominação religiosa). Mas isso só é possível porque se pauta um sentimento de pertencimento.

  1.3 UM CAMPO EM EVIDÊNCIA Ao acentuarmos a presença do conjunto de denominações religiosas em Guaramirim, durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, e relacionarmos essas denominações com os números apresentados nos censos produzidos pelo IBGE no referido período, foi possível identificar a presença de um campo religioso bastante diversificado.

  A pluralidade religiosa identificada em Guaramirim é marcada pelo contraste da

  7

  predominância do catolicismo e do protestantismo , embora também tenham registros nesses levantamentos sobre a presença de outras religiões. É a partir da identificação dessa predominância das religiões cristãs e fiéis católicos e protestantes que dirigimos o foco de nossa análise. A já anunciada sobressaliência nos é significativa, uma vez que foi a partir dela que construímos nossas problematizações, essa condição subsidiou o entendimento das relações e das experiências religiosas narradas por nossos entrevistados.

  Em se tratando de pluralidade religiosa Guaramirim não destoa do crescimento do campo religioso brasileiro, contudo, em Guaramirim, é pertinente chamar a atenção para o fato de que esse alargamento do campo religioso encontra uma retração, pois esbarra nas ações empreendidas por Pe. Mathias que visam fortalecer o catolicismo na cidade.

  Essa retração denuncia a eficácia das ações de Pe. Mathias, que se amparavam pela oferta de uma percepção de mundo, o que faz desse pároco um orientador da vida social e espiritual. Ao discutir o campo religioso brasileiro na História do Tempo Presente Huff Júnior

  ( 2009, p.7) observa: O campo religioso é, nesse sentido, aquele em que os bens religiosos estão em jogo, havendo nele lutas pelas maneiras de desempenhar os papéis determinados no próprio jogo. Nele manipulam-se visões de mundo na elaboração de estruturas de percepção do mundo, palavras, princípios de construção da realidade. A religião tem, nessa perspectiva, um caráter de linguagem. É um sistema simbólico de comunicação e de pensamento.

  Diante desse quadro podemos caracterizar o lugar que compete à religião na definição de práticas e valores, das normas e das crenças que norteiam a ação dos fiéis em diferentes domínios.

  Contudo, ao exercitarmos nosso olhar acerca do campo religioso brasileiro podemos perceber que essa condição contrasta com a emergência de novos componentes no campo religioso brasileiro na atualidade, conforme observa Isaia (2009, p.100):

  O campo religioso brasileiro na atualidade apresenta uma complexidade empírica enorme, marcada pela emergência de componentes novos, voláteis, que aparecem e desaparecem de uma maneira tão rápida que não chegamos a registrá-los. [...] A articulação de novos componentes ao campo religioso brasileiro, obviamente, que se dá à medida que os mesmos passam a desfrutar de credibilidade. Quando suas prescrições ou interpretações do mundo ganham o que é fundamental, na acepção de 7 Bourdieu, para valorizá-los no interior do campo: a legitimidade.

  

Ao citarmos a presença do protestantismo em Guaramirim estamos nos referindo as denominações que

  Apoiados nas considerações de Isaia (2009) foi possível observar que a religiosidade brasileira vem apresentando manifestações de pluralidades cada vez mais atuantes, anunciando uma redefinição de fronteiras e até mesmo do campo religioso. Esse quadro fica cada vez mais evidente na medida em que o autor se aproxima das discussões trazidas por Sanchis (2005), que questiona se, no Brasil, o campo religioso ainda é o campo das religiões.

  Nesse sentido, Isaia (2009) chama a atenção para os perigos de se defender o discurso de uma identidade religiosa fixa, na medida em que há uma emersão de componentes do campo religioso brasileiro que confrontam a imagem do Brasil como um país predominantemente católico, ou inserido em um projeto de um Brasil evangélico. Portanto, pensar o campo religioso brasileiro é pensar, antes de tudo, na extrema complexidade do universo de crenças entre nós.

  A partir desse entendimento e reconhecendo que o Brasil, apesar dos esforços dirigidos durante séculos na tentativa de se fazer e mostrar um país católico, nunca teve condições de sustentar essa imagem, uma vez que o catolicismo praticado em todo o país sofreu mutações e hibridizações, mesmo recebendo as orientações de Roma.

  Na medida em que Isaia (2009) reconhece que a noção de campo religioso oferecida por Pierre Bourdieu empresta inteligibilidade às transformações nas configurações históricas das religiões, ao ponderar sobre a emergência numérica da diversidade religiosa brasileira, nos chama a atenção para o fato de que essa emergência está acompanhada de um novo reconhecimento de suas eficácias e que destoa da tentativa de traduzir hegemonicamente a realidade religiosa brasileira.

  Assim, nos apropriamos da noção de campo apresentada por Bourdieu (2009), conforme pontuamos no início deste capítulo, por entendemos que esse conceito carrega consigo algumas questões muito importantes e que nos oferece condições para compreender as articulações entre as religiões, as tensões, o capital simbólico e as estratégias de legitimação presentes em cada religião.

  Ao desenvolver um estudo sobre os tênues limites da religiosidade católica na

  8

associação Tradição, Família e Propriedade ( TFP) , Zanotto (2009 , p.104), ao considerar a

  ressonância da diversidade religiosa brasileira e da pluralidade de mensagens salvíficas em oferta no campo religioso brasileiro, constatou que:

  Essa diversidade de religiões e de formas de adesão dos fiéis à mensagem de salvação afeta também a cotidianidade da igreja Católica Romana que, apesar do centralismo, da sólida hierarquização e controle, abarca em seu seio uma variedade díspar e mesmo antagônica de grupos e movimentos, muitas vezes em conflito aberto pela legitimidade da interpretação da mensagem cristã ou pelas formas de expressão social de tais interpretações.

  A partir de tal afirmação Zanotto (2009) observou que a Igreja católica, ante a essa extensa lista de denominações, práticas, crenças religiosas e mensagens de salvação, sentiu-se afetada, pois teve que investir ainda mais em sua eficácia na disputa por fiéis. E embora tenha empreendido essa disputa externa, a Igreja católica internamente teve que lidar com uma multiplicidade de compreensões eclesiais que sempre conviveu com a reiterada hierarquia de uma Igreja que, principalmente no século XX, se pretendeu homogênea.

  A discussão apresentada por Zanotto (2009) nos é pertinente, pois auxilia a compreender como a Igreja católica lida com essa larga oferta de bens e mensagens de salvação, situada fora de seu domínio e como aparecem internamente movimentos de cunho conservador que abrigam leigos e/ou clérigos.

  Esses movimentos de retração que brotam no seio da Igreja e que se dirigem à valorização da hierarquia e de rígidos códigos comportamentais, em nome da moral e da fé, nos oferecem condições para entender que Guaramirim não se distancia dessa realidade, pelo contrário se aproxima e muito. Contudo, é preciso esclarecer que não apuramos em Guaramirim a presença da TFP, mas por outro lado identificamos a presença das intenções de valorização da rígida hierarquia da Igreja e a presença de códigos e interditos comportamentais ditados em nome da fé.

  A partir do desenvolvimento dessas práticas em Guaramirim identificamos que seus propósitos tiveram êxito porque puderam se valer de uma estrutura articulada e trazida para a cidade, durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, por intermédio do pároco católico da cidade. Seus esforços voltaram-se para a instalação e estruturação de instituições, que contaram com o trabalho de outros religiosos, principalmente de freiras, que atuaram diretamente em instituições de ensino e saúde da cidade, possibilitando por meio dessas instituições a ampliação e o fortalecimento da fé católica. Toda essa estrutura fazia com que as fronteiras que separavam a vida pública da privada além de voláteis ficassem ainda mais tênues.

  Ao tratar das figuras do sagrado que estão situadas e transitam entre o público e o privado, Montes (1998, p.76), localizando sua discussão nas décadas de 1930 e 1940, período

  9

  da formação sacerdotal de Pe. Mathias , afirma que:

  [...] a crescente presença de ordens estrangeiras, como conseqüência do triunfo da romanização, levará a Igreja a buscar manter sua influência na vida pública mediante um retorno “privatizante” sobre si mesma, procurando controlar instituições sociais capazes de formar o caráter e moldar as atitudes do homem por meio da educação, ao mesmo tempo que, no plano propriamente religioso, volta-se ainda mais para a esfera privada, reduzindo o catolicismo a uma dimensão puramente individual e familiar, ao incentivar a formação de consciência e as práticas de devoção.

  O indivíduo e a família são envolvidos por uma demanda de obras assistenciais e religiosas que assumem destacado papel na comunidade em que estão inseridos. E ao mesmo tempo em que são conduzidos, seja pela formação ou pela devoção, a integrar e legitimar essa estrutura, também assume um papel de vigilância em relação àqueles que estão próximos a fim de garantir e fortalecer seu funcionamento.

  A presença ativa do discurso de disciplinarização de fiéis e de práticas que referendam este discurso fica exposta ao analisarmos a relação do catolicismo praticado em Guaramirim com os propósitos defendidos pela Igreja católica em Santa Catarina no período em questão. A aproximação do pároco católico com as famílias de agricultores, a pulverização de códigos, interditos e posturas que valorizam a unidade familiar e que reconheçam a figura do padre como uma liderança civil e religiosa deixa transparecer uma das faces desse catolicismo.

  Ao apresentar o norteamento que conduziu algumas discussões sobre as diferentes faces que compõem o catolicismo e em função dessa estrutura tão heterogênea que permite que sejam dirigidos diferentes olhares sobre as práticas religiosas dessa denominação, Souza (2008, p.11) chamam a atenção para o fato de o catolicismo ser visto

  [...] como parte de um sistema de poder em constante mutação. É permeado por imaginários sociais e adquire, a cada momento, novas feições justamente por estar em processo e devido aos seus diferentes sujeitos, tanto dos que se envolvem na busca de sentido para a existência, quanto dos que fazem dele um lugar permanente de conflito para a defesa ou ataque dos seus múltiplos discursos e práticas.

  Ao reconhecermos essa estrutura multifacetada do catolicismo e inserirmos nossa discussão como parte integrante dessas faces passamos a percorrer e problematizar as tensões e as legitimações que partem de uma institucionalização mais presente do catolicismo em Guaramirim reconhecida a partir do decreto oficial de criação da paróquia de Guaramirim, desmembrando-a da paróquia da Catedral de Joinville.

  Não se trata de sobrepor o catolicismo em relação às demais denominações religiosas, pelo contrário, buscamos dialogar com outras práticas devocionais, contudo é preciso reconhecer que em Guaramirim o peso de práticas católicas mais institucionalizadas, representadas pela presença de Pe. Mathias, fez com que voltássemos nosso foco para essa denominação. Trata-se de assumir que optamos por trilhar este caminho porque elegemos as experiências evidenciadas pelas narrativas de sujeitos que viveram em Guaramirim, durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, para construir nosso trabalho e essas memórias apresentaram narrativas acerca do enrijecimento da posição institucional do catolicismo, dos enquadramentos e ordenamento dos ritos e das práticas devocionais dos fiéis católicos.

3 CAPÍTULO II – OLHARES COMPARTILHADOS: FÉ E COTIDIANO EM LEMBRANÇAS, FALAS E GESTOS

  10 Mas era melhor antigamente [...].

  (Sr. João) A língua tem indicado inequivocamente que a memória não é um instrumento para a exploração de um passado; é antes, o meio. É o meio onde se deu a vivência, assim como o solo ó o meio no qual as cidades antigas estão soterradas. Quem pretende se aproximar do próprio passado soterrado deve agir como um homem que escava. (BENJAMIN, 1995, p.239) [...] Longe se vai Sonhando demais Mas onde se chega assim Vou descobrir O que me faz sentir Eu, caçador de mim. (Milton Nascimento, Caçador de mim, 1981; composição: Sérgio Magrão e Luiz Carlos Sá)

  3.1 ENCONTROS Por meio de uma experiência de encontro foi possível fazer com que este termo alcançasse no mínimo dois sentidos diferentes, mas que caminharam juntos e comungaram da mesma essência. O primeiro sentido a que nos referimos foi o contato realizado com cada sujeito que a seu modo compartilhou suas memórias, experiências e expectativas. O segundo encontro foi o dos próprios sujeitos com suas lembranças, que neste labiríntico e enigmático universo permitiram que fossem afloradas alegrias, mágoas, tristezas e tensões.

  Esses encontros resultaram, como já anunciado anteriormente, na matéria-prima para as tessituras que compreendem este estudo. São falas entrelaçadas, urdiduras que foram expostas, nos envolveram e que se deixaram envolver, se projetando em textos e contextos.

  As narrativas que estruturam este trabalho são atravessadas de sentimentos, experiências e esquecimentos, fruto de uma seleção daqueles que refizeram o caminho de suas memórias entrecortadas por esparsas ou consistentes lembranças, que permitiram este encontro e que ressignificaram aquilo que a princípio era apenas uma conversa, mas que ganhou contornos de trabalho.

  Ao tratar das contribuições de Halbwachs sobre as relações entre memória e história, Bosi (2004, p.53) destaca que, para o autor, “a lembrança é a sobrevivência do passado”. Essa percepção acerca da lembrança é questionada na medida em que a mesma autora afirma:

  [...] a memória não é sonho, é trabalho. Se assim é, deve-se duvidar da sobrevivência do passado, “tal como foi”, e que se daria no inconsciente de cada sujeito. A lembrança é uma imagem construída pelos materiais que estão, agora, à nossa disposição, no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual. (BOSI, 2004. p.55)

  Para além da fria imagem atribuída aos trabalhos de memória, que convencionalmente chamamos de fontes, e que nos ofereceram subsídios para tecer estas problematizações, as narrativas que se construíram a cada encontro podem se apreendidas como polifonias, que dialógica e artesanalmente foram trabalhadas e que contaram com os atentos olhares daquela que esperava ouvir e daqueles que pacientemente abriram não só as suas casas, ou espaços, mas que permitiram que esses encontros fossem transformados e trabalhados a cada entre/vista.

3.1.1 D. Elsa

  11 Elsa Narcizo Ribeiro foi a primeira entrevistada . A partir de sua entrevista, nos

  deparamos com a possibilidade de construir uma pesquisa que problematizasse as experiências religiosas envolvendo sujeitos pertencentes a diferentes denominações de religião, que por meio de seus trabalhos de memória narrassem suas leituras e vivências sobre esse universo.

  D. Elsa mora no bairro Caixa D’Água desde seu nascimento, porém durante sua juventude migrou para Joinville para trabalhar em casa de família, motivo que ela mesma atribui à sua saída. D. Elsa (Figura 2), senhora negra, que até a realização da entrevista tinha 75 anos, é filha de João Manoel Narcizo e Matilde Tomazi Martins Narcizo, agricultores, tal como ela e seu falecido esposo, o Sr. José Nazário Ribeiro.

  A família foi o elemento que permeou toda a sua narrativa, em lembranças que percorreram sua infância, juventude e se estenderam até o presente. Ao tratar de sua família, D. Elsa deixou transbordar de sua fala emoções que se misturam a sentimentos de mágoa, carinho, saudade, mostrando forte apego ao seu núcleo familiar.

  Das lembranças relativas ao seu casamento D. Elsa frisou muito as dificuldades que ela e seu marido enfrentaram. Suas lembranças são marcadas pelo intenso trabalho, e expõem as duras dificuldades enfrentadas após o casamento para sustentar a família. D. Elsa conta que seu marido saiu para arrumar trabalho fora de Guaramirim e empregou-se na empresa responsável pela implantação da BR-280, abrindo o caminho até a cidade de Cascavel. Seu José vinha somente uma vez por mês para casa e a ela coube a responsabilidade de criar os cinco filhos.

  Católica de batismo, conta que fizera uma promessa quando seu filho, que ela chama de “Nego”, tinha 10 anos, e que esperou seu marido receber o pagamento e junto com seu filho foram até Iguape pagar a promessa.

  Em relação ao dia do seu casamento, lembra emocionada que uma grande festa foi realizada na casa dos seus pais. Conta que foi um dia em que tristeza e alegria se misturaram, pois ela sentia aos prantos a emoção de começar uma nova família, mas por outro lado foi uma festa que durou todo o sábado e também o domingo, animou os parentes e amigos com música, dança, comida e bebida. D. Elsa conta que se casou só no cartório e que somente muito tempo depois oficializou seu enlace na Igreja (católica), com os missionários capuchinhos:

  Só depois com muito tempo nóis ia (sic) na igreja. E vinha naquele tempo do Padre Mathias, ainda, vinha (sic) os capuchinhos de fora, missionário, uns padrinho (sic) assim de idade. Aí eles faziam reunião lá na igreja e a gente ia [...]. E aí se preparemos (sic) pra casar na igreja com os missionários.

  Ao narrar sua experiência de conversão para a Igreja “Brasil para Cristo”, denominação que frequenta há mais de 20 anos, D. Elsa faz uma pausa, e afirma: “é uma ”. Essa Igreja fica próxima à sua casa, em história mais complicada ainda, mais complicada... uma região onde moram predominantemente famílias negras e evangélicas. Ao tratar de sua ligação com essa denominação religiosa, instalada na comunidade há aproximadamente 40 anos, ela explica:

  [...] é que meu marido bebia um pouco, daí um dia ele bebeu demais e ele ficou meio louco, e eu tinha ido para Joinville com a Silvana [filha], estava só com a Silvana em casa, visitar minha irmã que estava lá em Joinville no hospital, era um domingo. Ele saiu sábado, bebeu, chegou brigando e nos botou no mato e domingo nós ia (sic) pra Joinville. Daí ele dormiu até umas 11h e o Hélio [vizinho] me arrumou uma condução que eles também iam

  tínhamos almoçado e nós íamos pegar a condução ali no Hélio pra ir. Chegou bem doido, bem doido pra nos matar, e a Silvana estava grávida. [...] E daí quando estávamos lá em Joinville, nós vínhamos só segunda-feira e daí segunda-feira viemos embora e tivemos a notícia que o José estava

  12 preso .

  E quando fomos visitar ele na cadeia chorou, chorou, chorou e eu com aquela raiva que eu fiquei, depois viemos pra casa. Aí nesse tempo que ele estava preso foi (sic) uns pastores da igreja, da Assembleia, visitar ele, daí aconselharam, deram a palavra da Bíblia pra ele e ele aceitou. Aceitou, pediu perdão, disse que não iria mais fazer essas coisas e ia pra igreja. Porque antes ele ia na igreja aqui [católica], mas sempre encrencando, encrencando, encrencando, nunca estava bom. [...] Daí como ele aceitou Jesus e foi pra igreja dos crentes, ele queria que eu fosse também e eu não queria, não queria, não queria. Tem um pastor que até hoje ele pega no meu pé. Aí eu decidi: vou acompanhar também, ou ele ficava direto ou ele saía e aí nem ele e nem eu, aí fui pra igreja. [...] Mas por mim eu podia estar na católica ainda, da minha parte eu poderia estar.

  D. Elsa, por influência do marido, se converteu a outra religião; mesmo inicialmente se mostrando resistente a essa mudança, continua frequentando a denominação “Brasil para Cristo”, após o falecimento de seu esposo.

  Em relação ao período que fora católica e em que convivera, na condição de fiel, com Pe. Mathias, afirma: “pro meu lado ele era bom, agora pros outros já não sei, porque a gente

  

não conversava sobre essas coisas ”. Sua descrição sobre a bondade desse pároco ganha

outros contornos na medida em que ela anuncia alguns códigos de conduta defendidos por ele.

  Contudo, sua firme postura é compensada com o reconhecimento das obras por ele planejadas e orquestradas:

  [...] agora... ele era um pouco exigente no vestuário das pessoas, fazia exigência e na hora da missa ele dava uns bréfi lá (sic), mas ele ajudou muito, olha todas essas igrejas que tem por aí foi o Padre Mathias que fez [...] foi um padre batalhador mesmo, se ele estivesse por aí a coisa não estava como está hoje, com essas malandragens de roubo, de matança como tem hoje, de drogas. Acho que não tinha não, se ele estivesse vivo. A gente tinha medo até de chegar perto dele. Até na hora de confessar, pelo amor de Deus, dava um medo! A gente já tinha medo do jeito dele.

  A fala de D. Elsa trata da forte liderança de Pe. Mathias em todas as comunidades da cidade. Para D. Elsa essa liderança foi importante porque através do trabalho religioso o pároco realizou muito mais do que obras, orientou seus fiéis a viver de acordo com rígidos costumes, temendo a Deus e obedecendo a ele.

  A família, o trabalho e suas experiências religiosas constantemente convergiam em sua narrativa. Ao verbalizar suas lembranças, carregadas de saudosismos e tristezas, procurava

  fazer um balanço de suas experiências e das pessoas presentes em sua fala, buscando compensar as mazelas da vida mostrando que coisas boas também vieram juntas. Atualmente D. Elsa vive sozinha em sua casa, mas seus netos, sua nora e uma filha são suas vizinhas, o que segundo ela ainda é o que conforta.

3.1.2 Casal Pereira (Sr. João e D. Maria)

  É história, coisa de pequeno a gente marca assim. (D. Maria) Só praticamente porque naquela época era muito difícil. (Sr. João)

  O Sr. João Pereira nasceu em Luiz Alves e mudou-se para Guaramirim em 1947, quando tinha três anos de idade. Sua família instalou-se no bairro Rio Branco, onde permanece até hoje. Sr. João era de uma família de agricultores, praticavam agricultura de subsistência, dividindo as tarefas da roça, do cuidado com os animais e do trabalho no engenho de farinha com mais cinco irmãos. Casou-se com D. Maria quando tinha 31 anos de idade.

  D. Maria era de uma família de doze irmãos. Todos trabalhavam na roça e também praticavam agricultura de subsistência. D. Maria começou o namoro com o Sr. João (Figura 3) no dia de bodas de prata de seus pais. Sobre esse dia, D. Maria com eloquência narra: “deixa eu contar a história. A história é que ele foi no casamento de prata da minha mãe e

  13 arrumou eu de nariz de folha. Arrumou eu para namorar ” .

  Com permissão para namorar só aos finais de semana , o casal morava próximo, ele no Rio Branco e ela no Jacu-Açu; em um ano estavam casados. D. Maria casou-se com 25 anos. Sobre os ritos que envolviam o casamento o Sr. João lembra:

  Uma coisa que marcou na minha vida assim, e a dela também, foi quando pra casar, na hora de confessar, Padre Mathias queria saber tudo. Perguntou pra mim se tinha mantido relação sexual com ela já, eu disse que não [risos], imagina se ia dizer que sim. E a mesma coisa ele perguntou pra ela, ela disse que não também.

  E sobre o dia do casamento, D. Maria lembra: “Foi casado em uma sexta-feira, 13 tivemos uma festa e festa, fizemos uma polenta”. E o Sr. João completa: “Naquela época era

  

casado de manhã, Pe. Mathias não permitia casar [em outro horário] pra não dar bagunça,

então nos casamos nove horas, com uma festa normal até sete, oito horas ”.

  As experiências de D. Maria com o casamento foram além do rito do enlace, pois ela era de família luterana e para se casar com o Sr. João teve que se converter ao catolicismo. Em relação à sua conversão ,

  D. Maria relata que não teve dificuldades para se adaptar, pois

  14

  frequentava uma escola onde era ensinada a doutrina católica. Sobre sua conversão , ela contou:

  [...] daí a minha madrinha foi a dona Dolores Schmitter, assim testemunhar com outros padrinhos pra eu ficar católica, mas eu já acompanhava na aula, já acompanhava o catolicismo lá e daí eu ganhava dez em todas as participações.

  A vida escolar do Sr. João assemelha-se àquela relatada por D. Maria, onde , segundo Sr. João , as atividades escolares giravam em torno da intenção de educar bons fiéis:

  Era católico, tinha que tá lá às sete e meia, pra aula começar às oito. Às sete e meia tinha que rezar um terço, depois voltava pra aula, daí rezava mais um pai nosso dentro da sala de aula.

  Sr. João e D. Maria tiveram apenas uma filha. Ambos estão aposentados como agricultores. Sr. João , além de manter o vínculo com a agricultura de subsistência, esteve ligado à diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Guaramirim durante 30 anos. D.

  15 Maria trabalhou durante quase uma década nas indústrias WEG , em Jaraguá do Sul, para onde ia todos os dias de bicicleta.

  ,

  Ao tratar das lembranças de sua infância o Sr. João relata uma situação de estranhamento em relação à primeira vez que teve contato com negros:

  Então eu não conhecia o preto e meu pai estava roçando a banda de baixo, na beira da estrada, que era uma estrada cheia de curva, daí lá no Putanga morava um monte de preto, então passou e eu era pequeninho, eu tava ali tinha uns três pra quatro anos, estava com o pai sentado lá na beirada e lá vinha os pretos lá debaixo, uns sete, oito, mais ou menos, daí eu perguntei: pai, meu Deus do céu! Esse pessoal sai da roça lá de carvão nem toma 14 banho e vem assim pra casa? Meu pai disse: não, filho, eles são assim

Algumas das escolas do município foram construídas por meio das obras empreendidas por Padre Mathias.

  

Após a conclusão das obras, as escolas, mantidas com recursos da própria Igreja em parceria com o governo

municipal e estadual, contavam com irmãs que se dividiam nas tarefas educacionais, ensinando a ler, escrever e

os cálculos básicos, além dos princípios doutrinários do catolicismo. Entretanto, por ausência de outras unidades

escolares, alunos de outras denominações religiosas frequentavam as mesmas escolas e participavam das

15 mesmas atividades.

  mesmo, eles são pretos. Eu pensei que eles não tinham tomado banho. Eles trabalham na roça de carvão. Mas eu nunca tinha visto preto na vida!

  O estranhamento narrado por Sr. João não é significativo apenas porque trata de uma memória de sua infância, mas também porque ele trata de um grupo vindo de Putanga, uma localidade do interior do município na qual morava um grande número de famílias de afrodescendentes, onde também acontecia a festa de Nossa Senhora do Rosário, conhecida

  

16

popularmente como Nossa Senhora dos Pretos .

  O casal , mostrando certa cumplicidade em suas falas , evidencia sua ampla rede de relacionamentos com outras famílias da cidade e, principalmente, do bairro, demonstrando que as diferenças e os estranhamentos estiveram presentes em suas vidas. Sr. João e D. Maria aproveitam o tempo legado pela aposentadoria dividindo-se entre a casa de praia e a casa que construíram para morar. Embora passem alguns dias longe de Guaramirim , Sr. João mostra-se incomodado com a distância e com a falta da convivência quase que diária com seus amigos do centro da cidade e vizinhos. Figura 2 – D. Elsa Fonte: Elaine Cristina Machado, 21 out. 2010. Acervo pessoal.

  Figura 3 – Casal Pereira (Sr. João e D. Maria) Fonte: Elaine Cristina Machado, 9 fev. 2011. Acervo pessoal.

3.1.3 Sr. Angelo

  Na varanda de sua casa, em uma tarde de outono, o Sr. Angelo José Bolomini nos

  17

  18

  esperava para nosso encontro . Nascido no dia 30 de agosto de 1950 , casado e pai de cinco

  ,

  filhos Sr. Angelo (Figura 4), que nasceu em Schroeder, conta que por falta de oportunidades só conseguiu estudar até a 5ª série e atribui ao falecimento do pai o principal motivo da interrupção de seus estudos, e repetidas vezes enfatiza: “eu era um cara bom na aula, eu tirava só notas dez geralmente! ”.

  Sr. Angelo conta que aos 17 anos veio morar em Guaramirim, na região da Ponta Comprida , e após o seu casamento mudou-se para Bananal do Sul. Entusiasmado , fala das diferenças de Guaramirim e Schroeder, dizendo que Guaramirim era melhor porque era maior, tinha trem, que ele chama de misto, e litorina. Sr. Angelo costumava fazer uso desses transportes para ir a Joinville procurar trabalho, porém recebeu respostas negativas em cada uma das empresas que visitou.

  Em 1974, com 24 anos, se casou com D. Catarina, e fala do dia de seu casamento com grande carinho. Em sua narrativa , Sr. Angelo procura mostrar que , apesar das dificuldades , foi um dia muito especial:

  Olha, naquele tempo era só um almoço, vamos supor. Porque naquele tempo o casamento era sábado às 9h. Esse era o horário, aí 9h ia bater foto, tinha que ir pra Jaraguá bater foto, era o Loss, aquele tempo, que batia foto, e o Piazera. Tomamos café em Jaraguá depois de bater foto e depois almoço na casa da noiva, depois de quatro cinco horas não tinha mais nada, só um cafezinho à tarde e [...] acabou. Hoje em dia é mais luxuoso, naquele tempo

não tinha nada disso aí, era mais religioso e pronto.

  Sr. Angelo procura sublinhar a simplicidade com que um evento como este era tratado, mostrando, através da sua preocupação em descrever este dia com tantos detalhes, como aconteciam os casamentos na década de 1970, momento em que ele chama de “naquele tempo”.

  Em relação ao seu namoro com D. Catarina, Sr. Angelo conta que foi em uma festa de

19 Igreja na Ilha da Figueira , por uma brincadeira, que começaram a namorar, pois já conhecia

  a família de D. Catarina, mas confessa que nunca tinha se interessado por ela. Lembra com 17 muita saudade das festas de Igreja, das domingueiras (bailes realizados em salões) e das

  

BOLOMINI, Angelo José. Entrevista concedida a Elaine Cristina Machado, Guaramirim, SC, 16 maio

18 2011.

  “surpresas”, festas de aniversários onde os vizinhos e parentes se reuniam para comemorar a data e dançar ao som de gaita. Sr. Angelo, católico, relata que havia um certo controle em relação à presença de católicos nos bailes. “Deus o livre, se ele [Padre Mathias] soubesse que um

  

católico ia pro baile, ele pegava pela orelha depois, porque se ele descobrisse depois ele pegava na

rua por aí.”

  A proibição de frequentar bailes é relatada por Sr. Angelo como uma prática predominante em todo o período que Pe. Mathias esteve na cidade, e sua fala aponta para um controle sobre a vida pública dos fiéis, além de demonstrar como o pároco católico conhecia a maioria deles.

  Sr. Angelo conta que seu principal trabalho foi na Paróquia Senhor Bom Jesus, na construção civil. Segundo ele , era um dos responsáveis pela construção de igrejas, trabalhou também na construção das casas que abrigavam as irmãs, em grupos escolares e na construção do único hospital da cidade. Exibindo sua carteira de trabalho, Sr. Angelo relata que , além dele , mais oito funcionários eram registrados pela paróquia para trabalhar nessas obras, mas contavam também com a ajuda dos fiéis que eram recrutados pelo Pe. Mathias para trabalhar.

  Suas lembranças são marcadas, sobretudo , pela forte ligação que mantinha com a paróquia e com o Pe. Mathias , e narra com tristeza o momento em que o pároco anunciou sua despedida de Guaramirim: Olha, a gente trabalhando junto com ele, até o sábado de meio dia.

  Domingo de manhã foi a missa, aí no final da missa ele disse: “Eu peço um minuto de ‘silêncio’”. Todo mundo ficou quietinho, né? E ele disse: “Estou me despedindo de Guaramirim, amanhã eu vou embora para a Alemanha, para minha terra”. Foi uma surpresa para todo mundo e a gente que trabalhava com ele foi uma surpresa maior ainda. Aí ele prestou conta para a paróquia, disse que estava tudo pago e as construções que estão em andamento vão continuar. Porque ele disse: “Vou ficar dois anos pra lá e depois vou voltar”. Mas não voltou. Isso foi em 20 de junho de 1976.

  Para Sr. Angelo o inesperado retorno de Pe. Mathias para a Alemanha representou uma profunda mudança na vida de toda a cidade, e especialmente na sua. Sem esconder seu sentimento de gratidão em relação ao padre, afirma que as cartas enviadas da Alemanha serviam para diminuir a falta que ele fazia, porque Sr. Angelo o reconhecia como líder religioso e como uma figura paterna. Sr. Angelo afirma que as cartas eram “[...] uma maneira de a gente sempre estar lembrando, porque foi muito difícil ”.

  Durante sua narrativa , procura nos mostrar que , mesmo longe , Pe. Mathias manteve laços com muitos moradores da cidade, principalmente através de correspondências e cartões

  Ele sempre escrevia, tenho carta aqui que ele sempre escrevia pra mim. Todo o final do ano eu recebia carta, todo final do ano. Aquilo vinha pra mim umas cinquenta cartas para entregar, eu recebia um envelope grande e dentro do envelope tinha uma carta: “Angelo, faz favor de entregar isso aqui tal e tal fulano... que vou rezar uma missa pra ti”. Tinha outro cara também que entregava, mas o mais grosso era para mim, aí era município de Schroeder, Guaramirim e toda essa região. Eu era de bastante confiança dele.

  Após ser desligado da paróquia , segundo ele porque o novo pároco não tinha interesse em

  

continuar fazendo novas obras, Sr. Angelo foi trabalhar na WEG, onde permaneceu até sua

  aposentadoria. Atualmente , cria abelhas, é apicultor, confessa sua paixão por flores e por

  ,

  abelhas. Embora completamente envolvido com essas atividades continua indo com frequência à missa e confessa que de vez em quando abre uma carta ou outra para lembrar do tempo de Pe. Mathias.

3.1.4 Casal Borba (Sr. Abílio e D. Odete)

  Era lindo sabe... E ali era coisa muito respeitada. (Sr. Abílio)

  Em um sábado, no dia 21 de maio de 2011, Sr. Abílio Belarmino de Borba (Figura 5) e

  20 D. Odete (Figura 6) nos receberam em sua casa . Ele , um senhor muito irreverente que

  afirmou não revelar sua data de nascimento, nem sua idade, por nada. Morador de Putanga, região onde vive um grande número de famílias afro-brasileiras, Sr. Abílio é uma liderança comunitária, foi um dos criadores da associação de moradores daquela localidade. Sr. Abílio é católico e foi integrante da diretoria da Igreja Nossa Senhora do Rosário, padroeira da comunidade, e enche-se de orgulho ao nos contar que foi um dos principais responsáveis pela construção da nova capela.

  Filho de Belarmino de Borba e Cristina da Silva Borba, que também moravam em Putanga, casou-se com D. Odete em 1956 e é pai de dez filhos. Lamenta-se por não ter estudado e conta que um dos motivos que fez com que ele não frequentasse a escola foi um problema que tinha no joelho, que fez com que os médicos da cidade sugerissem a amputação de sua perna. Entretanto , sua mãe , contrariando as orientações médicas , o levou a Joinville em 20 uma benzedeira para curar esse problema.

  D. Odete da Silva Borba, que é natural de Joinville, foi morar em Putanga quando tinha 15 anos e ao tratar da grande presença de famílias de afrodescendentes da localidade lembra do que seu pai contava:

  Que assim, quando deu a lei áurea, que assim que eles saíram [negros recém-libertos] então vieram muitos pra cá, porque aqui era uma região só de pretos, aí depois que foram vindo os poloneses, foram vindo alguns alemães e aí que foram se misturando, foram casando. A maior parte era negro com polonês. Daí foi que se formou Putanga, daí tinha a Igreja, a igrejinha era dos pretos também.

  A Igreja , além do principal espaço de sociabilidade dessa comunidade , aparece nas narrativas do casal como uma das principais referências de suas lembranças, pois

  ,

  constantemente frisavam seu envolvimento com aquele espaço. Sr. Abílio ao falar das igrejas que já foram construídas na comunidade , procura demonstrar todo seu empenho na construção da igreja da padroeira:

  A igreja daqui era de madeira, bem simplesinha. Depois foi indo e fizeram outra igreja de madeira também, construída no tempo do Padre Mathias. Aí depois nós construímos essa aí, agora que eu fiz uma folha [para arrecadar dinheiro] para tirar materiais de construção e aí conseguimos fazer essa igreja ali.

  As lembranças da festa da padroeira misturam-se à saudade e à ausência deixada pela festa que não acontece mais. Soma-se a essa saudade a da festa de São Sebastião, um segundo padroeiro da comunidade, que tinha a data de 20 de janeiro dedicada a homenagens a esse santo.

  Essa festa [Nossa Senhora do Rosário] era começada a ensaiar dia 29 de setembro, eles [os festeiros] começavam com a bandeira, iam de casa em casa, ia até 25 ou 24 de dezembro, mas antes já estava preparado. Tinha o juiz, o rei e a rainha e essa festa era feita por eles, [pelos festeiros] eles é que arcavam com toda a despesa. Isso era tudo de graça, era feito por eles e ninguém pagava nada, era só eles. E dava uma festa que todo mundo comia, todo mundo bebia e todo mundo brincava. E era três dias de festa. Era uma dança, tinha uns capacetes, uns saiotinhos na cintura, espadinha e cantava esses cantos.

  ,

  Ao ser convocado a trabalhar sua memória e cantar uma dessas canções Sr. Abílio se emociona, mas segue mostrando a performance e batucando na mesa,

  “Senhor rei e rainha receba a coroa, De ouro ou de prata receba a coroa.” Aí outros já cantam: “Ô bendita seja aqui Senhora das dores

  Aí eles cantam, depois na hora de coroar então traziam uma coroa, eu me lembro que era branca assim, bem bonita. Não sei o que era aquilo que não enferrujava nada. Aí coroavam o rei e aquela coroa assim que nem (sic) uma noiva coroava a rainha. [...] Então formavam tudo ali e eles ficavam com aquela coroa na hora do almoço tudo, eles eram coroado, estavam ali, né? (sic) Tinha instrumento, tinha tambor que dava aquele som para as cantorias que eles cantavam. Aí ficava bonito porque se eles batiam também sapateava e se tinha quatro de um lado e quatro do outro então eles dançavam pra banda da Santa.

  Em relação a essas práticas , Sr. Abílio afirma que gostaria muito que a comunidade retomasse a festa, pois segundo ele tem muita gente que sabe como acontecia, mas ele não consegue explicar por que deixaram desaparecer. Já D. Odete, que é catequista na comunidade há 31 anos, exibindo uma bandeira de Nossa Senhora do Rosário , que ela guarda com muito cuidado e carinho, conforme mostra a Figura 6, de maneira mais contundente, afirma que a festa acabou porque muitos negros foram migrando, segundo ela “saindo aqui do

  lugar ”.

  D. Odete e Sr. Abílio , envolvidos e nos envolvendo com suas narrativas carregadas de saudade , lamentam a presença do preconceito na comunidade, mesmo vivendo ali um grande número de famílias negras. D. Odete afirma: “esse pessoal daqui não dão valor, porque se é preto, negro que fez , eles não dão valor ”. Figura 4 – Sr. Angelo Fonte: Elaine Cristina Machado, 16 maio 2011. Acervo pessoal.

  Figura 5 – Sr. Abílio Fonte: Elaine Cristina Machado, 21 maio 2011. Acervo pessoal.

3.1.5 Francisco Schork

  São lembranças muito interessantes que marcam e que marcaram muito a minha vida. (Sr. Francisco Schork)

  Francisco Herbert Schork recebeu-nos por volta das 18h do dia 27 de maio em seu

  21

  escritório , no centro da cidade. Nascido em 10 de fevereiro de 1952, até a realização da entrevista tinha 59 anos.

  O pedagogo, com especialização na área de gestão de pessoas, atualmente cursa parapsicologia clínica e institucional. Casado, pai de dois filhos, teve uma forte experiência religiosa e institucional, pois aos 13 anos, por intermédio do Pe. Mathias, foi para o seminário, onde permaneceu por mais 13 anos de sua vida.

  Francisco H. Schork (Figura 7) foi vice-prefeito da cidade entre os anos de 1989 a

  22

  1992 . E ao descrever a Guaramirim de sua infância, sublinha:

  [...] a Guaramirim da minha infância era muito pequena, tinha o trilho do trem, a 28 de agosto (rua central) e evidentemente algumas pequenas ruas laterais. As casas antigas nas esquinas, poucas casas se comparado com hoje, era uma cidade bucólica. [...] Foi um período interessante, nós morávamos a aproximadamente 3,5 km da escola e da Igreja e diariamente nós fazíamos esse percurso para a escola e nos finais de semana íamos à Igreja, sábados de manhã nós acordávamos muito cedo, 5h30 da manhã, porque 7h tinha missa das crianças. E aos domingos à tarde a catequese, primeiro a catequese da eucaristia e depois a catequese da perseverança.

  Ao descrever a cidade a partir de lembranças de sua infância o Sr. Francisco Schork mostra a importância que a religião tinha na vida família, e como sua leitura da cidade está intimamente ligada à religiosidade.

  Vindo de uma família de nove irmãos, de pais agricultores, Francisco Schork, em meio às suas lembranças, salienta os fortes laços mantidos com todo o seu núcleo familiar, a farta mesa e o trabalho na agricultura, dividido por todos os membros da família. Tais laços percorrem sua fala e transformam-se em lágrimas na medida em que descreve sua ligação com seus pais.

  Os valores que pautaram sua vida familiar, durante sua infância e parte da juventude, 21 foram ensinados por seus pais. Segundo ele, seu pai, analfabeto, ensinava que deveriam ser

  

SCHORK, Francisco Herbert. Entrevista concedida a Elaine Cristina Machado, Guaramirim, SC, 27 maio justos e honestos com as pessoas, e sua mãe ensinava os princípios religiosos, apoiando-se nos valores da oração e do terço, que era uma prática diária para sua família.

  A experiência da convivência com a diferença religiosa também esteve presente em sua fala, pois sua família semanalmente recebia um vizinho evangélico luterano para conversar. Narra o Sr. Francisco Schork um fato que lhe chamava a atenção:

  Nós estávamos rezando o terço, depois da chamada ceia, que hoje é janta, depois da nossa polenta, rezando o terço e de repente a gente escutava o cachorro latir nas quintas-feiras à noite, e era o Bidi, que estava chegando. E ele chegava, sentava na porta, na escadaria da casa, esperava o terço terminar e depois então tinha aquela confraternização.

  O crescimento da cidade, a dissolução de estreitos laços entre vizinhos, a falta de estrutura e planejamento urbano foram elementos recorrentes em sua narrativa. Segundo Francisco Schork, Guaramirim está vivendo sua adolescência, e confessa partilhar da ideia defendida por Pe. Mathias, que ele resolve chamar de profecia. Segundo ele, Pe. Mathias dizia: “ embora o nome de Guaramirim signifique garça pequena, Guaramirim será muito grande ”.

  Francisco Schork era uma liderança religiosa da cidade, ocupando a função de ministro leigo. Ele conta que no dia do seu casamento, realizado em um sábado à noite (hábito então ainda pouco comum na cidade, pois os casamentos geralmente eram realizados pela manhã), vários padres estiveram presentes, fazendo dessa cerimônia um evento muito concorrido na parte religiosa. E em relação à festa que sucedeu a cerimônia, diz que foi apenas um jantar onde puderam receber os amigos e familiares, porque ele e sua esposa sempre defenderam que em qualquer casamento a religião deve ter muito mais espaço que as comemorações.

  Autor de dois livros, um deles tratando do Hospital Municipal Santo Antônio, narra sua motivação para escrever este livro onde projeta Pe. Mathias como o grande idealizador e realizador da construção do hospital:

  Uma forma de não ver a história ser esquecida, eu me propus a escrever esta obra e que faz parte de uma outra obra também da vida do Padre Mathias.

  Além disso, Francisco Schork apresenta um relato muito pontual sobre a construção desta obra:

  Não há guaramirense que tenha mais de 50 anos que não tenha dado alguma contribuição para o Hospital Municipal Santo Antônio, eu me recordo perfeitamente que nós éramos crianças, que os fundamentos, aliás

  eram fundamentos, muito bem baseados, eram construídos, como se fala no evangelho, sobre a rocha. E nós recolhíamos pedras dos nossos pastos que eram nos morros e eram colocadas em cima de caminhões e essas pedras eram usadas nos fundamentos não só do hospital, mas do salão paroquial e da própria igreja, na ampliação da igreja matriz também.

  Sobre seu outro livro, uma biografia de Pe. Mathias, que assume tons de homenagem, durante suas lembranças reforça que sua amizade com Pe. Mathias era fortalecida a cada dia. Sobre a escolha de fazer a biografia de Pe. Mathias, afirma:

  Esse não é um papel que a pessoa faz porque quer fazer. Primeiro, para ser biógrafo de alguém precisa ter uma ligação muito forte, ou vai contar meramente uma história e eu não sou muito dado a contar meramente histórias. Eu me interessei pela biografia dele porque ele tem não uma história, ele tem uma grande história. [...] Evidentemente o Padre Mathias era um padre à moda antiga, aquele estilo de religioso voltado para a sacramentalização, voltado para as pastorais, mas naquele estilo antigo. Embora eu estivesse longe da cidade, estudando, eu na verdade, durante o período de férias, eu trabalhava intensamente com ele, estava sempre com ele. Nas férias de dezembro, nas férias de julho, ele não me dispensava, se ele tinha cinco missas no domingo eu estava nas cinco missas aí com ele. E nas segundas-feiras, que as pessoas dizem que é o dia de descanso do padre, até pode ser pros padres modernos, para ele era um dia de trabalho e naquele dia ele saía pra fazer os negócios pra paróquia e estava sempre junto com ele. Ele me levava pra Curitiba, Blumenau ou qualquer cidade onde ele fosse buscar, comprar, intermediar alguma coisa pra paróquia, eu estava acompanhando.

  A família, a religião e os fortes laços mantidos com Pe. Mathias estiveram muito presentes em sua narrativa. Além do desejo de fazer com que a memória de Pe. Mathias permaneça viva na cidade, esforço que faz com que divida seu tempo entre a família, os cuidados com a memória de Pe. Mathias e sua atividade profissional.

  Atualmente, Francisco Schork é consultor empresarial, dedicando-se à consultoria organizacional, voltando-se para a área comportamental, trabalhando com palestras de cunho motivacional, planejamento estratégico e mudança de cultura organizacional. Também desenvolve atividades de formação de líderes, criou há dez anos um programa específico que denominou de “líder visionário”, através do qual forma líderes que atuam na área tática e operacional das empresas, dividindo com outro sócio uma área de sua empresa voltada para a gestão de pessoas, atuando principalmente no recrutamento, seleção, contratação e integração de pessoas nas empresas. Francisco Schork também presta assessoria à Câmara de Vereadores de Guaramirim, atuando diretamente no projeto “vereador-mirim”. Figura 6 – D. Odete Fonte: Elaine Cristina Machado, 21 maio 2011. Acervo pessoal.

  Figura 7 – Francisco Schork Fonte: Elaine Cristina Machado, 27 maio 2011. Acervo pessoal.

3.1.6 Sr. Daniel

  “ Eu tenho um lema comigo: eu não guardo nada de segredos antigos,

  porque eu já estou perto do fim da minha vida.

  (Sr. Daniel) Daniel Graudin da Silva nasceu em Blumenau no dia 6 de abril de 1935. Sr. Daniel

  (Figura 8) foi funcionário público, trabalhou para os governos do estado e do município de Guaramirim, nas secretarias de infraestrutura, hoje é aposentado. Em sua atividade como operador de máquinas e patrolas Sr. Daniel fazia a manutenção e aberturas de ruas. E em decorrência dessa atividade conheceu muitas famílias do município e algumas famílias das cidades vizinhas.

  Quando fizemos o primeiro contato com o Sr. Daniel ele estava sentado na varanda de sua casa e nos recebeu com um largo sorriso que demonstrava grande satisfação, como quem espera alguém e já sabe o que essa pessoa quer. Na parede da varanda estavam pendurados vários quadros com reproduções fotográficas, que mostravam fotos aéreas da cidade e comemorações dos aniversários de Guaramirim. Orgulha-se de ser chamado de “o guardião da

  23

  história de Guaramirim” . Nesse dia, pudemos perceber que o Sr. Daniel estava muito disposto a colaborar com a pesquisa, mas também estava ansioso por ser ouvido. Algumas informações foram constantemente repetidas por Sr. Daniel. A primeira expôs um sentimento de solidão, marcado pelo recente falecimento de sua esposa. A segunda tratou do interesse de sua bisneta que, mesmo criança, é, segundo ele, “ quem mais gosta de ouvir as histórias dos

  

tempos antigos. Às vezes ela vem e senta aqui ou me leva lá no quarto e pede: ‘Vô, me conta uma

daquelas histórias ’”.

  Sr. Daniel está acostumado a ser procurado por pessoas que vêm entrevistá-lo ou em busca de alguma informação sobre a história da cidade ou de famílias. Está habituado a percorrer escolas municipais e da rede estadual e fazer palestras contando histórias.

  No dia da nossa entrevista, Sr. Daniel estava nos esperando em sua varanda, mas a entrevista não ocorreu ali. Sr. Daniel tinha preparado para a entrevista um dos cômodos de 23 sua casa. Mostro-nos um quarto com um roupeiro que estava repleto de livros, fotos, objetos

Esse título foi atribuído ao Sr. Daniel Graudin em função de artigo publicado pelo Jornal do Vale em 25 ago.

  

2005. O artigo tratou do acervo de objetos e documentos que fazem referência à história de Guaramirim e que o antigos, documentos e reproduções de documentos. Muitas fotos e documentos eram repetidos. Sobre uma cama estavam espalhadas mais e mais fotografias repetidas, livros e reproduções (Figura 9). Fez-nos escrever em uma antiga lousa que, segundo ele, era distribuída para as crianças que frequentavam a escola e explicou como funcionava uma caneta bico de pena. Só depois de nos mostrar o rico acervo que ainda guarda em sua casa é que iniciamos a entrevista

  24 .

  A partir de todas essas experiências, não podemos deixar de considerar o primeiro contato e esses momentos que antecederam a gravação como parte de nossa análise, onde enfocamos as narrativas apresentadas e a maneira como suas memórias foram ativadas. As fotografias, os livros, os objetos e outros documentos eram as referências da memória do Sr. Daniel. Dentro de sua lógica, organizou suas lembranças e, como quem se esforçava para não deixar escapar nenhum detalhe da “História de Guaramirim”, começou a contar sobre sua vida.

  Sr. Daniel é filho de André Bernardino da Silva e de Izidira Graudin da Silva. Seu pai era natural da cidade de Itajaí e sua mãe era natural de Guaramirim. Contou-nos Sr. Daniel que seu pai foi membro da Assembleia de Deus. Seu pai era católico e chegou a frequentar seminários, mas ao contrair uma tuberculose no Rio de Janeiro teve contato com assembleianos que lhe pregaram a palavra, orando pela sua cura, e se converteu. Contou-nos Sr. Daniel que seu pai foi um dos responsáveis por fazer com que a Assembleia de Deus fosse implantada em diversas cidades do país; segundo Sr. Daniel:

  Eu na minha meninice com dois anos de idade fui morar na cidade de Itararé em São Paulo, aí moramos uns quatro meses em Itararé, uns três meses em Sorocaba, uns três meses em Campinas e uns três meses em Mogi Mirim. Daí eu tive dois irmãozinhos que nasceram lá. Meu pai era pastor da Assembleia de Deus, ele fundava as Assembleias de Deus, era o início da Assembleia de Deus no Brasil. Então ele fundava as Igrejas Assembleia de Deus, deixava lá funcionando e ia para outro lugar. Ele foi para Laguna, lá nasceu minha quinta irmãzinha. Isso entre 1930 e 1945. Aí em 1941 eu voltei em definitivo, porque meu pai em 1941 foi para o Rio de Janeiro, em Niterói, na praia de Caraí, lá ele pegou, como o católico diz, uma matriz. A mãe não quis ir para lá aí eles ficaram separados. Não em briga, nem em cartório, nem nada. Se conversavam tudo, mas ele lá e ela aqui. No dia 15 de março de 1933 foi aberta a primeira Assembleia aqui em Guaramirim, ele veio em Itajaí, aí ele veio e abriu a de Joinville. Aí tinha um tal de Santana, que era o alfaiate da multidão (o pai dele, lá da Getúlio Vargas, sempre tinha propaganda nas rádio, que gritava: “Daniel alfaiate da multidão”. Agora já não sei se tem mais), aí ele disse: “Não, lá no Jacu-Açu tem um monte desses crentes de vocês” [referindo-se ao Sr. Santana]. Aí 24

  meu pai disse: “Não existe crente assim por aqui”. No fim eram os Batistas. Aí o pai pegou uns caras lá e vieram aqui conversar com eles, chegaram lá não era da Assembleia, eram Batistas. Aí o pai viu uma rolinha branca lá, se agradou e veio a ser minha mãe.

  Segundo Sr. Daniel, sua mãe era descendente de russos-letos e frequentava a Igreja Batista, pois o pai dela era pastor dessa denominação. Sobre o enlace de seus pais e a união de fiéis de diferentes denominações, Sr. Daniel narrou:

  O pai voltou, escreveu uma carta pra cá para ver se ela se agradava dele.

  [referindo-se à fala de sua mãe] Aí todo mundo dizia: “Ele é “Ah sim!” pastor!”. Aí ela disse: “Ah, quero já”. Já cataram ele e pronto. Aí lá do Rio de Janeiro veio aqui e conheceu minha mãe lá no Jacu-Açu e pronto. Aí ele [referindo-se a seu pai] trouxe a Assembleia e fundou ali. O pai disse que queria fazer a Assembleia de Deus, que queria ficar aqui. Aí o vô e os Batistas estavam meio brigados, estava meio queimado com os Batistas, aí já aceitou. Aí o vô falou: “Então pode abrir aqui em casa”. Então foi a união da Família de Batistas e do meu pai que era da Assembleia que começou os crentes aqui.

  Ao rememorar os tempos de namoro, lembra que já conhecia a moça com quem se casou. Ela era a filha de seu professor, o Sr. Cantalício Flores, mas eram apenas conhecidos, até passarem a se interessar um pelo outro e resolverem se casar. Seu sogro era da Igreja Presbiteriana Independente. Conta-nos Sr. Daniel que seu casamento foi realizado nessa Igreja.

  Eu casei no dia cinco de janeiro de 1956, com 21 anos. O casamento foi no Rio Branco na casa do Sr. Cantalício mesmo. Em não casei na Assembleia. Eu casei na Igreja Presbiteriana Independente, por causa do sogro. O sogro e ela eram Independente. Eu não olhava muito para religião. Eu hoje não olho muito, não me dou muito com religião fixa, porque eu sou uma pessoa que se eu estou lá na católica, eu não pratico a católica, mas eu venero, eu respeito.

  Deu prosseguimento ao hábito de seu sogro, o Sr. Cantalício Flores, de guardar documentos. Seu interesse e encantamento por documentos começou, segundo Sr. Daniel, ainda quando frequentava a escola. Sr. Daniel cursou até o 3º ano primário e fala desse momento com orgulho de seu desempenho escolar. Contou-nos Sr. Daniel, a respeito dos documentos que possuía, que começou guardando os documentos que pertenciam a seu avô e que acabou ficando com os documento de seu sogro, e acumulou um acervo tão grande e rico que recentemente foi adquirido pela Prefeitura Municipal de Guaramirim.

  Eu fiquei com uns documentos do meu avô, eu tinha a história dos letos na versão portuguesa. Então eu ganhei quando criança um armarinho, aí

  armarinho fora. Ele andou mais de 60 anos comigo. Ali dentro eu guardava tudo, tinha um carinho, ficavam todas as minhas coisinhas ali. Assim como tenho até hoje aqui nesse guarda-roupa. Quando eu me casei em 1956 eu me mudei para o Rio Branco, aí meu tio vendeu tudo. Aquilo passou para herança que morreu minha avó e eu fiquei. O meu sogro também tinha angariado livros de história que ele foi professor, foi administrador, foi delegado de polícia, foi capelão da Igreja católica, depois foi capelão da Igreja Presbiteriana Independente e ele era louco por um livro. E ele morreu em 1970 e eu guardei tudo aquilo, ele tinha muitas peças, muitas coisas.

  Sr. Daniel tinha consciência da importância de seu acervo. Tinha consciência da fragilidade desse material e da impossibilidade de continuar guardando todo esse material em um ranchinho que fica próximo a um rio. A partir dessa condição de fragilidade, Sr. Daniel negociou junto à Prefeitura Municipal a venda desse acervo. Sobre esse processo, conta-nos Sr. Daniel:

  Em agosto, setembro do ano passado [referindo-se a 2010] me chamaram lá na Prefeitura e aí eu fui. Fizeram uma citação, a Câmara aprovou, foi votado em duas sessões na câmara. Mas a pessoa que fez toda essa força foi o Marcos Mannes [vereador], que faleceu. Aí foi que o prefeito me chamou e perguntou: “Quanto tu quer nisso?” [fala do prefeito]. Aí eu disse: “Olha”,

  [referindo-se ao tava todos os jornais e tudo, “se eu fosse vender, Nilson, prefeito] isso tudo está programado para custar R$ 800.000,00”. Já teve gente da faculdade federal de Florianópolis aqui, encostaram um ônibus de filmagem e filmaram isso tudo, só assim meio rápido, não especificaram tudo. Eles disseram: “Olha, Sr. Daniel, o senhor não pode vender por menos de R$ 800.000,00” [referindo-se à avaliação dos pesquisadores]. Aí o Byllard disse “Eu vou te dar R$ 30.000,00, Graudin” [referindo-se ao prefeito].

  Apesar de ter vendido parte de seu acervo para a Prefeitura Municipal, Sr. Daniel ainda se orgulha de ser detentor da memória da cidade, pois segundo ele tem uma riqueza de detalhes que só ele sabe. Esses detalhes são suas significações e impressões a partir de seu presente.

  Esse trabalho de sua memória nos ficou aparente na medida em que Sr. Daniel, ao narrar suas lembranças e fazer sua leitura de Guaramirim, se referia ao passado ora como quem apenas contava uma história como um observador, ora mostrando-se completamente envolvido e em determinados momentos tomado por emoções.

  Sr. Daniel, em sua narrativa, esforça-se para mostrar como sua história de vida está diretamente ligada à memória da cidade. Suas lembranças e a maneira como ele fala da história de Guaramirim, a partir de suas referências e elaborações, estão voltadas à afirmação de que em torno dele está a história da cidade e a história de quatro denominações religiosas, Figura 8 – Sr. Daniel Fonte: Elaine Cristina Machado, 13 dez. 2011. Acervo pessoal.

  Figura 9 – Acervo de documentos pertencentes a Sr. Daniel Fonte: Elaine Cristina Machado, 13 dez. 2011. Acervo pessoal.

  3.2 O VIVIDO E O CONSENTIDO: FÉ E SOCIABILIDADE Algumas experiências relatadas pelos sujeitos entrevistados na pesquisa para esta dissertação são muito próximas e em determinados momentos até convergem. Caminha entre as narrativas dessas experiências um esforço para descrever a “Guaramirim daquela época”, ou a “Guaramirim do tempo do Pe. Mathias”. Ao trabalhar suas memórias sobre essa descrição, o Sr. Francisco Schork apresenta-nos a sua leitura de Guaramirim e o peso das relações pessoais vigentes na cidade descrita. Assim o Sr. Francisco Schork, aos 59 anos, lembra de Guaramirim:

  Na época era isso, as pessoas rezavam, as pessoas trabalhavam, as pessoas faziam festa e o vigário evidentemente dava o toque. E ele era um homem de fé inabalada, de uma fé muito profunda, evidentemente que ele tinha o jeito

  25 conservador de ser .

  A percepção do Sr. Francisco Schork sobre a sua Guaramirim das décadas de 1960 e 1970 procura ofertar sentido aos eventos e lugares sociais que ocuparam os sujeitos trazido por sua fala. Ao evocar as práticas devocionais e religiosas, o trabalho e as festas, o Sr. Francisco Schork está tratando de relações que não habitam somente o universo religioso, mas que essencialmente tratam da sociabilidade desses sujeitos: as pessoas. Porém, ao utilizar a metáfora do toque, Sr. Francisco Schork expunha a personalidade de Pe. Mathias e o poder da influência desse vigário sobre as pessoas.

  O poder verbalizado pelo Sr. Francisco Schork traz consigo a operacionalidade do discurso e do saber na constituição de sujeitos. O corpo é transformado no locus em que operam essas forças; entretanto, é preciso reconhecer que o discurso atravessa vidas, e mesmo fragmentado emerge a partir da conjugação do poder, porque o poder é verbo e está em constante relação, o poder é relacional, existe porque reconhece o outro e no outro há

  26

  possibilidade de ação ou rejeição . O púlpito, o verbo, o confessionário e o olhar são elementos indissociáveis que estão inscritos na fissura da memória em que reside a lembrança.

  É esse rigor em relação à postura exigida de seus fiéis e o intenso combate em relação aquilo que lhe fugia ao controle que constantemente aparece como pauta das narrativas 25 relacionadas ao universo religioso em Guaramirim e à atuação do Pe. Mathias. 26 SCHORK, op. cit.

  Influenciada pelo livro que trata da biografia de Pe. Mathias, escrito pelo Sr. Francisco Schork, combinando-o com as suas impressões, D. Maria fala sobre a personalidade do pároco:

  Ele era bem rígido, bem, bem, meu... [pausa] Eu tenho o livro dele, eu ganhei o livro, ganhei esse ano, ganhei esse começo de ano. Ganhei esse livro do Padre Mathias, eu gostei muito sabe, gostei muito do livro

  27 .

  A rigidez declarada por D. Maria aproxima-se da descrição feita por D. Elsa, que além de descrevê-lo fisicamente trata de expor os esforços do pároco para atender sua mãe que estava adoentada, além de apresentá-lo como um zelador dos bons modos e comportamento (no momento em que D. Elsa fala da exigência sobre a maneira de vestir).

  Era um padre grande, um alemãozão (sic), aquela batina, a batina dele não era preta era assim creme assim (sic), andava de bicicleta, andava de a pé (sic), vinha de bicicleta lá de Guaramirim às vezes, vinha de jeep, tinha o jeep também. Quando chovia ele vinha de jeep e chegava lá em casa, confessava a minha mãe, que ela tava doente. Mas assim, ele era um pouco exigente com o vestuário das pessoas, não gostava que [uma mulher] fosse de carça (sic) comprida, queria que andasse só de vestido, de saia

  28 .

  Os interditos em relação às roupas também estão presentes nas memórias de Sr. Daniel, e embora ele seja assembleiano e, portanto, habituado a esses códigos e distinções feitas pelo comportamento e pela maneira de se vestir, narra com espanto a cobrança de Pe.

  Mathias:

  Ele era muito exigente em relação à roupa, se uma moça ou senhora andasse de calça ou bermuda ele já chamava na hora e se não conseguisse mandava chamar em casa, mandava o recado que queria falar urgente ou pegava no confessionário depois 29 .

  A disciplinarização era a imposição mais recorrente e, como essa não se sustentava sozinha, trazia consigo a interferência legitimada pelo discurso religioso, que alcançava a fé daqueles a quem o controle era dirigido. Os comportamentos que fugiam dos ajustamentos ditados do altar não poderiam ficar em segredo. A cena, o fato e o ato precisavam ser conhecidos por todos da comunidade, mesmo que os nomes não aparecessem; assim se constituía um método punitivo.

  O controle e a disciplinarização do corpo agem como regulamentadores do cotidiano, fazendo com que esses sujeitos sejam levados a investir no trabalho. O trabalho não é só uma 27 PEREIRA; PEREIRA, op. cit. 28 extensão do controle e da disciplina, o trabalho também é sociabilidade. O trabalho aproximou os entrevistados, e por meio de suas memórias foi possível identificar a importância do trabalho em suas vidas.

  A roça e a criação de animais aparecem de maneira recorrente em todas as falas, para uns com mais intensidade, como é o caso do casal Borba (Sr. Abílio e D. Odete), do casal Pereira (Sr. João e D. Maria), de D. Elsa e em grande medida do Sr. Daniel, que embora tenha sido funcionário público, atuando na área de infraestrutura, operando máquinas, também nos relatou seu trabalho na roça e seu investimento na lavoura de bananas.

  Para o Sr. Abílio e D. Odete o trabalho na roça oferecia o sustento da família. Ao evocar suas memórias sobre o trabalho na roça, Sr. Abílio trata da produção e venda desses produtos em um tempo em que a fiscalização de órgãos ambientais não era tão ostensiva, sendo muito comum a prática de derrubada de matas nativas para a implantação de roças. Sobre sua atividade como agricultor e o meio de sustentar sua família, Sr. Abílio rememora:

  Eu trabalhei assim, né (sic). Eu plantei arroz naquele tempo em que a gente

  30 podia roçar e plantar, não tinha o IBAMA , não tinha isso, então a gente roçava para arroz em terra enxuta, onde tinha mato, capoeira e plantava arroz, aquele era nossa ajuda para comprar o pão. Chegava a colheita e

  31 tinha um dinheirinho para comprar roupa, essas coisas todas .

  D. Odete lembra ainda que costumavam plantar milho, aipim, cará e taiá, mas o excedente era encaminhado à venda. Segundo D. Odete,

  Quando plantava pepino essas coisas aí nós vendia (sic) aqui para Massaranduba, arroz vendia a maior parte pra cá (sic) para Guaramirim [referindo-se ao centro da cidade], era para o Urbano [empresa de

  32 beneficiamento de arroz] e o resto espalhava por aí .

  Bastante próximas das memórias do casal Borba estão as memórias do casal Pereira. Sr. João e D. Maria contam que, por mais que tivessem exercido outra profissão (Sr. João atuou no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Guaramirim e D. Maria trabalhou em uma indústria do ramo metal-mecânico), o trabalho na roça era uma atividade comum a todas as famílias. Ao falar sobre o trabalho na roça, Sr. João, apropriando-se das experiências vividas no sindicato, mostra em sua fala uma leitura da situação da maioria das famílias de 30 Guaramirim:

  

Sr. Abílio refere-se ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA),

31 criado pela lei nº 7.735 de 22 de fevereiro de 1989.

  Eu trabalhava com criação, era agricultor, pequeno agricultor, plantava pra subsistência. Porque na verdade era tudo igual, ninguém podia rir do outro porque era tudo igual, não tinha diferença um do outro porque tudo (sic) era pobre. A nossa localidade era muito pobre. Era bastante pobre, 33 aqui no Rio Branco .

  D. Maria completa a fala de Sr. João e reforça a leitura de seu marido no momento em que também faz sua avaliação, mas a fala de D. Maria vem carregada da preocupação em mostrar que o casal não rompeu totalmente os laços com o trabalho na roça:

  Muito bom assim sabe. Era muito bom, era pobreza, mas era muito melhor assim. Sei lá eu... [pausa], mas hoje tá bom, mas era muito melhor. Mas a gente tem alguma coisinha ainda, plantei feijão, colhi feijão e tem banana por aí, sempre tem uma coisinha. Depois eu trabalhei na WEG e saí, eu fiquei na greve, fiquei junto e daí ganhei a conta depois. Mas daí nós compramos vaca, tinha cinco vacas de leite, bezerros. Vendia leite assim pros vizinhos, o João levava pra Guaramirim, eu levantava quatro horas da

  34 manhã, tirava leite, daí ele levava e eu ia entregar por aí e à noite também .

  Para D. Elsa, o trabalho na roça significava uma extensão de suas relações de vizinhança, ora plantando para a própria família em terras arrendadas, ora trabalhando por dia como empregada em outras plantações. D. Elsa apresenta, em suas lembranças, o trabalho como um importante elo entre ela e seus vizinhos. Também experienciou o trabalho no chão de fábrica, mas é quando fala do trabalho na roça que deixa transparecer sua satisfação:

  Nós trabalhamos muito na roça, com o filho do seu Bonifácio. Eu trabalhava em casa, plantava alguma coisa, fazia roça por conta com outra colega e assim a gente ficou um tempão. Plantava e dava, a renda ficava pra eles, que assim eu plantava arroz, eu com a minha colega plantava arroz na terra dele, só que a gente colhia o arroz e vendia e naquele tempo era engenho dos Buzzi, ali pra cima [referindo-se ao centro da cidade]. Criava vaca, eu tinha vacas minhas e eu cuidava de vaca dos outros, eles tinham vaca magra então eles traziam pra engordar, então eu tratava das vacas, mas tudo isso antes de começar a

  35 trabalhar fora. Mas era bom, puxa [pausa] E se era [risos] .

  Se para D. Elsa as memórias sobre o trabalho na roça aparecem como lembranças alegres, para o Sr. Daniel as lembranças do período em que resolveu investir sua força de trabalho e capital na produção agrícola são carregadas de tristezas. Conta-nos o Sr. Daniel que resolveu investir na produção de bananas, contraiu empréstimo, comprou mudas da planta, empregou funcionários, mas na primeira colheita sofreu diretamente os impactos do golpe 33 militar de 1964: sua produção ia ser encaminhada para a exportação em países vizinhos, mas 34 PEREIRA; PEREIRA, op. cit.

  seu carregamento foi proibido de cruzar as fronteiras. Com o golpe também veio a falência, e para saldar sua dívida o Sr. Daniel vendeu tudo o que tinha e passou a trabalhar no serviço público, fazendo a patrolagem de ruas.

  Mesmo aparentemente distante do trabalho na roça, o Sr. Daniel construiu uma rede de relações bem ampla, graças ao seu trabalho como servidor público. Sobre seu trabalho e a convivência com outros sujeitos, narra:

  Conheci muita gente quando eu trabalhava na Prefeitura. Todo mundo me conhece, é só chegar na Prefeitura e perguntar onde mora o seu Daniel da Prefeitura, que trabalhava na patrola, que qualquer um vai dizer. Eu trabalhava em todos os cantos de Guaramirim. Abria ruas, fazia manutenção. Conheci muita gente. A maioria das pessoas trabalhava na roça, eram agricultores, pequenos agricultores, plantavam assim pra família comer e vendiam o que sobrava pra fazer um dinheirinho, era vida muito difícil. Mas eu conheci também muita gente importante. Trabalhei com todos

  36

os prefeitos de Guaramirim e conheço um por um .

  Ao contrário de Sr. Daniel, o trabalho para o Sr. Angelo e o Sr. Francisco tinha outro sentido, e este estava ligado à escola. O Sr. Angelo cuidadosamente nos expõe seu capricho, boas notas e sua dedicação à escola no período em que era estudante, quando narra:

  Eu estudei até a quinta série. É, eu não tive oportunidade de estudar, vamos supor, porque a gente naquele tempo morava em Schroeder e acontece que eu era para ir estudar em diante, mas aí eu tinha 13 anos eu estava na quinta série. Dia 15 de dezembro acabou a aula e dia 16 de dezembro faleceu meu pai de repente, aí ninguém viu mais estudo pra mim, né (sic). Eu ia estudar lá pra Araquari, o falecido pai tinha falado sobre isso ali, mas como aconteceu esse caso ali fiquei sem estudo. Que a minha mãe não tinha estudo nenhum, o meu irmão que estudava junto comigo depois de seis anos na aula saiu no primeiro ano. Aí eu fiquei sem estudo. Eu gostava de todas as matérias. Até o ano passado eu fui visitar a minha professora lá, que

  37 ainda está viva e ela me falou: “O Angelo foi nota dez” .

  Apesar de bom aluno, o Sr. Angelo começou a trabalhar cedo: funcionário da paróquia, trabalhou não só na construção e reforma de novas igrejas, do hospital municipal, mas na construção de grupos escolares. Para o Sr. Angelo, a escola continuava a gerar satisfação, não mais como aluno: a escola passou a ser o resultado de seu ofício. Assim Sr. Angelo nos apresenta o resultado de seu trabalho:

  Trabalhei fazendo muitas escolas, grupos. Vamos supor que trabalhei fazendo grupos por aí tudo. Trabalhei no Rio Branco, naquele grupo aqui em baixo no Guamiranga, em São Pedro ali que eles dizem [São Pedro é o 36 nome da escola localizado no bairro Guamiranga], na Caixa D’Água. Eu era

  servente, entende? Depois a gente foi se adaptando e trabalhava que nem (sic) pedreiro daí. Ali a gente tinha que fazer de tudo no fim, mas quando 38 ficava pronto um grupo aí sim, aí era bom .

  Assim como para o Sr. Angelo, a escola para o Sr. Francisco foi mais do que um espaço de alfabetização. Foi nesse espaço que encontrou motivações para seguir uma profissão. Pedagogo de formação, dedicou-se ao ensino quando retornou à cidade, depois de ter frequentado o seminário. Sobre a relação entre a escola e o trabalho, o Sr. Francisco narrou:

  Eu era professor em Blumenau, na época, fazia faculdade de pedagogia, daí tomei essa decisão. Uma vez formado recebi um convite para voltar para minha terra, ao receber esse convite deixei uma carreira promissora lá em Blumenau, da área do magistério, aos 23 anos eu já era diretor de escola lá. Vim para Guaramirim e assumi a direção da escola aqui, que foi na época um grande desafio, eu assumi uma escola que estava na época com sérios problemas na área de gestão, tinha 108 alunos e apenas uma habilitação, que era o magistério. Fiquei como diretor dois anos e meio e quando eu me retirei da direção da escola tinha 650 alunos, com três habilitações de

  39 técnico de 2º grau e todo o 1º grau implantado, inclusive a pré-escola .

  É possível perceber que o trabalho para cada um dos entrevistados não apareceu apenas como uma necessidade à sobrevivência, ou imposição necessária a sujeitos de bem. O trabalho foi lembrado para além da experiência produtiva e de acúmulo de capital, apareceu como um espaço: um espaço de trocas, doação, interação e sociabilidades.

  As lembranças constituídas pelos entrevistados tiveram a função de caracterizar suas experiências sobre o passado, onde deixaram transparecer o sentido atribuído a lugares, laços de vizinhança, relações de troca, relações comerciais e inserções dessas diferentes dimensões e grupos familiares.

  Ainda que tenham nos apresentado leituras e experiências de trabalho individuais, era em torno da Igreja que orbitava a vida desses sujeitos: mesmo verbalizando suas memórias sobre o trabalho como gerador de proventos para sustentar a família, foi possível identificar que a força de trabalho doada para as obras da paróquia ocupou grande espaço entre as narrativas dos entrevistados. Sr. João, Sr. Francisco Schork e D. Elsa narraram as convocações por Pe. Mathias e pelos turmeiros, grupos de pessoas de uma rua ou região convocados nas missas, para realizar mutirão de obras. Essas convocações legitimavam o fortalecimento dos espaços de influência católica da cidade, na medida em que se 38 avolumavam os templos religiosos, casa de irmãs catequistas e professoras e grupos escolares.

  Essas convocações eram decodificadas por esses sujeitos e por seus pares como uma obrigação. O Sr. João apresentou esses mutirões como lembranças marcadas pelo sofrimento de sua família, na medida em que lembra que o pai, mesmo tendo se acidentado em obra da paróquia, teve que pagar os dias em que deixou de ir trabalhar. Para o Sr. Francisco Schork, a doação de dias de trabalho para as obras da Igreja era bastante comum entre os católicos. O Sr. Francisco Schork lembra que

  [...] a estrutura da época da Igreja, vamos falar da Igreja católica evidentemente, e do período de administração do Padre Mathias, ocorreu da seguinte forma: ele tinha os chamados turmeiros. O que eram os turmeiros? Na nossa rua o nosso turmeiro era seu Henrique Bernardes, uma pessoa já falecida, em torno de seu Henrique Bernardes praticamente todas as pessoas que moravam naquela rua, que eram lá os habitantes em torno de 20 a 25 famílias, faziam parte da turma do seu Henrique Bernardes. Então, quando chegava no domingo, por exemplo, na época [da] construção do hospital, do salão paroquial, ou qualquer outra obra, o Padre Mathias dizia o seguinte: para trabalhar essa semana a turma do seu Henrique Bernardes, e assim ele ia citando outros nomes que agora eu não me recordo evidentemente, mas vinham grupos, três ou quatro grupos diferentes e trabalhavam o dia todo. Cada um trazia a sua marmita ou sua comida, seja lá como for, que isso não me recordo muito bem. E no final de cada dia de trabalho tinha um prêmio que o Padre Mathias dava pessoalmente, que era um garrafão de pinga, e dava um traguinho para os adultos, para as crianças não, para os adolescentes não, os adultos recebiam um gole de pinga, aquele gole de pinga era encarado como uma benção. Veja que eram pessoas que estavam ali disponíveis, não recebiam nada, no final do dia recebiam uma grande recompensa que era um traguinho, um golinho. E as pessoas saíam felizes da vida porque tinham ganhado do padre um golinho de pinga, era esse o agradecimento, e lá dois meses depois, quando precisava, essa mesmo turma voltava e quem não podia vir mandava alguém da família ou pagava um dia de trabalho, e não se ouvia as pessoas reclamarem, por uma razão muito simples, quando há um líder que é coerente, honesto e dedicado, ninguém se nega a contribuir e ninguém

  40 nunca se negou a contribuir . (Grifo nosso)

  Ao distribuir entre os trabalhadores uma dose de cachaça ao término de um dia de trabalho Pe. Mathias promovia uma aproximação entre esses trabalhadores, que na maioria eram fiéis católicos. A partir das lembranças de Francisco Schork é possível identificar que esse espaço não era só trabalho, era também um momento em que, após todo o trabalho do dia, os vizinhos sentavam para conversar e estreitar suas relações e, para aliviar o peso de um dia de trabalho braçal, uma benção: “um traguinho, um golinho” de pinga distribuída pelo próprio padre.

  Para D. Elsa o trabalho nas obras da paróquia remete a um drama familiar, a perda do seu quarto filho. Esse é o marco, a referência em sua memória utilizada por D. Elsa para contar sobre a participação do seu marido nessas obras.

  Meu marido trabalhou nas obras do padre, só na escola não, mas na Igreja ele trabalhou, na escola não. Isso quando eu tava esperando o terceiro, o quarto filho, que esse quarto eu perdi, nesse dia ele tava trabalhando lá na Igreja. Foi um dia muito triste. Aí foram chamar o Zé, que eu tinha perdido a criança. Quem comandava as obras era o Padre Mathias e os outros pedreiros faziam, e os turmeiros assim convidavam as outras pessoas pra trabalhar. Não ganhavam nada, ia só ajudar, né (sic)!

  Além dessas narrativas que se aproximam pelo trabalho voltado ao sustento do núcleo familiar, do trabalho doado para as obras da Igreja, os bailes e as festas de padroeiros também são recorrentes entre as lembranças dos entrevistados.

  Ao analisar as relações étnicas no distrito de Bananal, que antecedeu a Guaramirim como município, Machado (2003, p.110) afirma:

  Os bailes eram encontros que reuniam boa parte dos moradores, jovens e adultos, que tinham nesses espaços, além da diversão, a oportunidade de encontrar parceiros para o matrimônio, bem como se congregarem de acordo como suas afinidades eletivas, em especial as de cunho étnico 41 .

  Na discussão apresentada pelo autor aparecem elementos que fazem do baile um espaço de lazer carregado de sentidos. Em um mesmo evento era possível identificar o limite da convivência com o outro, comportamentos que permitiam iniciar namoros ou descartar pretendentes. Um baile poderia representar um espaço sedutor em relação aos perigos provocados pelos desvios de conduta, capazes de manchar a moral de alguns de seus frequentadores e de suas famílias. Ao rememorar os bailes em que participou, D. Odete lembra:

  Tinha uns primos dele [referindo-se a Sr. Abílio] que tocavam violão, e o meu pai gostava muito de tocar gaita de boca, então nós se reunimos, uma turminha de moças assim, daí vinha lá do outro lado, umas caboclas, se fosse ali dançar mulher com mulher poderia dançar, agora Deus o livre, dançar com um rapaz, fosse tirar para dançar

  42 .

  O baile era, também, um espaço privilegiado em relação à convivência de um mesmo grupo étnico. Segundo D. Odete, os bailes eram eventos em que as diferenças étnicas ficavam mais salientes, segundo ela, “porque antigamente o preconceito aqui era assim, se tinha um 41 O autor desenvolveu um estudo sobre a dinâmica das relações interétnicas no distrito de Bananal, durante as

  

décadas de 1930 e 1940. Sua análise nos é pertinente não só pela localização geográfica de seu estudo, o antigo

  

baile de preto eram só pretos, se tinha de branco eram de brancos, um preto não entrava em

  43 um baile de brancos ”.

  A partir da fala de D. Odete foi possível perceber que os bailes eram também espaços de disputas, de tensões, ficando as aproximações reféns das eletividades dos seus organizadores e participantes.

  Os bailes geralmente aconteciam em casas particulares e eram chamados de surpresa. O casal Pereira (Sr. João e D. Maria), o casal Borba (Sr. Abílio e D. Odete), D. Elsa e Sr. Angelo trazem o baile e essas festas entre as memórias mais afetuosas. Ao rememorarem esses momentos, mostraram os bailes e as festas religiosas como o momento em que se reuniam os moradores da localidade e de outros lugares.

  Sr. João e D. Maria contam como esses eventos movimentavam a vida dos moradores:

  Baile mais assim era muito na casa de particular, eles faziam os bailinhos na casa de vizinhos, então tinha muito isso aí. Quase todo mundo ia. Era chamado de surpresa. E tinha também na Figueira, onde tinha ali domingueiras. Começava uma e meia, duas horas e ia até as seis da tarde. Todo mundo era mais respeitoso, assim sabe? Mas quando chegava festa de

  44 Natal ou o Ano Novo, essas festas aí sim tinha diversão .

  Na fala do casal Borba emerge a saudade desse tipo de evento. Completando um a fala do outro, o casal assim nos apresenta os bailes e festas:

  Naquele tempo eram três dias de festa, aborrecia de dançar e conversar com a turma. Mas era bonito. Naquele tempo em todo aniversário e tudo era surpresa. A pessoa nem esperava e eles batiam na porta e entrava e começavam a dançar até... Fechavam todas as janelas e quando dava o amanhecer do dia o sol estava alto e eles estavam dançando ainda. Levava gaiteiro, levavam tudo junto já. Levava alguma coisa para fazer o café, cada um levava uma coisinha. O Padre Mathias dizia “Borba”, nem dizia o meu nome. Dizia: “Olha Borba, você tava lá no baile, você foi no baile, Borba”. Eu disse: “Como é que o padre sabe que eu fui? E se eu não fui?”. E ele dizia: “Você estava lá Borba, e não era você só, tinha uma porção daqui”. Ele dizia né. Eu dizia pra ele: “Até pode ser né padre”. “Pode ser não, eu sei!”, falava ele por último. [Sr. Abílio] Ele era bom, mas a turma tinha medo dele. Porque o que ele queria dizer, pedir e xingar ele fazia né. Ele dizia pra não fazer isso, não vai de vestido curto, não vai de batom [risos]. [...] Mas é na festa de Nossa Senhora do Rosário que todo mundo se envolvia. Eram três dias de festa, o dia de Nossa Senhora do Rosário é 26 de dezembro. Aí todo mundo ia, todo mundo se

  45 43 envolvia, se preparava. Os ensaios começavam em setembro . [D. Odete] 44 BORBA; BORBA, op. cit.

  Assim como as festas chamadas de surpresa e as festas da padroeira marcaram as lembranças do casal Borba, para D. Elsa a festa do casamento foi o evento mais importante do qual ela participou; essas marcas foram tão profundas que as lembranças desse dia retornavam com frequência à sua narrativa. Assim D. Elsa descreve essa festa:

  No dia do meu casamento, ai meu Deus, mas dançaram, comeram e beberam. Sábado o dia inteiro, a noite toda, até domingo. Até meio dia, dançando, comendo e bebendo. É dançaram, dançaram. E a dona Albertina, não sei se tu conhece? Conhece a dona Albertina? Conversa com ela que ela conta também do nosso casamento. Era sexta-feira e já começou a festa. Deixa tocar, e deixa o pessoal já dançar, beber e comer. Sexta-feira eu passando roupa, me preparando para o casamento e chorando [risos]

  46 .

  Assim como as lembranças narradas pelo casal Pereira, pelo casal Borba e por D. Elsa, as lembranças de Sr. Angelo encontram nos bailes a satisfação em mostrar como “antigamente”, mesmo esse sendo um tempo indefinido, era bem melhor do que hoje em dia. Sobre esses bailes e surpresas, conta o Sr. Angelo:

  Naquele tempo a turma chamava de domingueira, era domingo à tarde. Era que nem hoje em dia, soirée, era domingueira, a turma chamava. Era música e a turma dançava, mas dançavam. Não é que como hoje em dia, hoje em dia é uma porcaria, tudo bagunçado. E outra coisa que dava muito naquele tempo, que eu fui bastante, era chamado de surpresa. É nas casas dos caras (sic) que tinha aniversário, sábado à noite, vamos supor. Só entrava convidado, mas dava muita gente. Tinha uma gaita, um pandeiro e a turma dançava, comia e bebia à vontade e ia embora. Às vezes isso

amanhecia o dia. Eu fui alguma vez nas casas por aí

  47 .

  O tom em que essas lembranças foram evocadas e a intensidade como cada um descreveu esses encontros nos dão condições para entender que esses momentos de lazer, encontros e cumplicidades serviam para amenizar as cobranças trazidas pelo trabalho. Junto com esse alívio vinha a satisfação de encontrar os vizinhos e homenagear ou ser homenageado com uma surpresa, o prazer em dançar em um baile a noite toda até o amanhecer e a emoção em oferecer a festa mais importante de sua vida, mesmo que, para cada um desses eventos, tivesse um olhar sempre atento e vigilante, cuidando do vestido ou do batom.

  Assim como os bailes, apresentam-se como práticas de lazer de Guaramirim as festas nas comunidades, as festas dos padroeiros. Essas festas eram grandes eventos e mexiam com a vida de toda a localidade: quanto maior e mais bem organizada fosse a festa, mais prestígio 46 tinham os moradores. O objetivo era fazer com que a festa fosse “bem falada”, servisse como referência para outras comunidades.

  Entre os preparativos dessas festas estava o recolhimento de prendas, que eram coletadas de casa em casa, onde Pe. Mathias apontava o que cada família deveria doar. Passando de casa em casa para visitar as famílias e coletar as prendas, Pe. Mathias enchia o

  

jeep e o reboque. E, nessas ocasiões, até quem não era católico era convocado a fazer alguma

  doação. Entre as doações estavam animais, somas em dinheiro e serviços, que não estavam relacionados às obrigações anuais para com as obras da paróquia.

  D. Elsa, ao rememorar os preparativos das festas em sua comunidade, narra:

  Ele fazia festa boa [Pe. Mathias]. Passava pedindo galinha, tinha que dar, Deus o livre se não desse uma galinha pra ele. Ele mesmo ia no terreiro e escolhia a mais bonita que tinha. Chamava as criações e via, a mais bonita era dele. Daí já pedia arroz, aquele tempo eu colhia o arroz, já pegava arroz pro pessoal. Arroz fresquinho assim do engenho, mas tinha uma coisa:

  48 todo mundo tinha que ajudar na festa .

  Sobre os preparativos das festas, lembra D. Odete que “arrecadavam [Pe. Mathias]

galinhas, às vezes trinta, quarenta galinhas, ovos, trigo, manteiga, bastante coisa que davam.

  49 Isso assim para fazer as comidas que eram vendidas na festa ” .

  Para cada festa eram eleitos os festeiros, pessoas que eram escolhidas para homenagear o santo padroeiro. Cabia a cada festeiro contribuir com a organização, os preparativos e o fomento da festa, e no dia da cerimônia religiosa esse festeiro deveria contribuir com uma quantia em dinheiro superior aos demais participantes.

  A respeito das festas organizadas por Pe. Mathias, Sr. Angelo conta que fazia parte de suas obrigações, como funcionário da paróquia, auxiliar nos preparativos. Sobre essas atividades, lembra Sr. Angelo:

  Como eu era funcionário da paróquia então quando tinha festa eu tinha que ajudar. Matava e limpava galinha ou outros animais que tivesse. Mas mais pessoas ajudavam. Depois, na festa, as pessoas compravam isso [referindo- se aos pratos preparados], precisava arrecadar dinheiro para tocar as obras. Tinha que ajudar e todo mundo tinha que ir à missa. Ali todo mundo se

  50 encontrava .

  O momento mais importante de cada festa era a cerimônia religiosa, onde todos os 48 fiéis católicos deveriam participar. Depois da cerimônia, ocorriam os festejos, onde as pessoas 49 RIBEIRO, op. cit.

  mais uma vez contribuíam com a Igreja, adquirindo o almoço e/ou o café. Essas refeições eram preparadas com as prendas coletadas anteriormente pelo pároco.

  As somas arrecadadas durante as festas eram investidas nas obras da paróquia. Um só caixa movimentava as contas de todas as comunidades: assim era possível dimensionar e redirecionar as quantias necessárias para as obras em andamento.

  Ritmos, marcas, passos de danças, ofertas, preces e orações marcam as lembranças e experiências projetadas nos espaços de sociabilidades da Guaramirim narrada.

  3.3 ESTREITANDO (RE)COMPOSIđỏES As memórias compartilhadas por cada um dos entrevistados nos ofereceram possibilidades para identificar que cada um deles vivenciou e experimentou a cidade, durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, de maneira diferente. Essas memórias que transitam entre o individual e o coletivo se encontram, bifurcam, se chocam e se repelem, pois suas narrativas partiram das experiências dos entrevistados.

  Apesar das diferenças espaciais e etárias que separam nossos entrevistados, um conjunto interessante de suas experiências e lembranças os aproxima e atribui ao termo

  

encontro, já duplamente significado neste trabalho, outros contornos, pois suas composições

mnemônicas se entrecruzaram muitas vezes. Alguns, como no caso do Sr. João e do Sr.

  Abílio, tiveram suas narrativas aproximadas no momento em que o Sr. João fala do seu estranhamento na primeira vez que vira um negro, sendo o Sr. Abílio justamente um negro de Putanga, região citada pelo Sr. João durante o momento em que expunha suas lembranças. Ambos são católicos, um grifou sua estranheza ao conhecer negros e outro é um negro devoto de Nossa Senhora do Rosário, conhecida como Nossa Senhora dos Pretos.

  Outro ponto convergente nessas histórias de vida é a experiência da conversão, que marcou tanto a vida de D. Elsa quanto a vida de D. Maria Pereira. Embora as duas não se conheçam, ambas participaram com diferente intensidade e diferentes motivos dessa experiência. As duas passaram a compor e recompor suas relações em outra comunidade religiosa, após se converterem à religião do marido, ampliando seus universos de apego.

  Já o Sr. Angelo e o Sr. Francisco Schork se conhecem e os dois relataram com grande emoção seu envolvimento com a religião católica, com as obras executadas pela Paróquia Senhor Bom Jesus, através do Pe. Mathias, além de repetidas vezes reforçarem seus laços de

  Sr. Daniel carrega consigo uma experiência de vida e religiosa muito plural, ele assembleiano, sua esposa batista converteu-se para a Assembleia de Deus após o falecimento de seu pai. As lembranças narradas por Sr. Daniel permitem-nos aproximá-las das demais lembranças narradas pelos outros entrevistados, pois dialogam com as lembranças de Sr. Angelo e Sr. Francisco Schork ao apresentarem Pe. Mathias com uma liderança determinada e incisiva, responsável por idealizar grandes obras em boa parte das localidades de Guaramirim; se encontram, também, com as memórias de D. Elsa, que assim como o Sr. Daniel tem suas experiências religiosas ligadas ao (neo)pentecostalismo; dialogam com o casal Pereira, que assim como ele frequentou a escola da localidade do Rio Branco, localidade em que Sr. Daniel viveu boa parte de sua vida; e com o casal Borba, na medida em que este se revela um grande conhecedor do interior de Guaramirim.

  O que torna essas memórias e esses fragmentos de lembranças especialmente interessantes são a profundidade e a intensidade do envolvimento de cada um dos entrevistados, que se permitiram transitar entre o passado e o presente. Os adjetivos e os tratamentos atribuídos ao passado desses sujeitos estavam cravados de emoções que pulsavam ou recuavam na medida em que falavam ou suspendiam o verbo, nos envolvendo em um silêncio, como se esse fosse um pacto daqueles que estavam presentes naqueles encontros.

  Portelli (1997, p.16), ao localizar a história oral como uma metodologia que opera entre versões do passado, afirma:

  A memória é um processo individual, que ocorre em um meio social dinâmico, valendo-se de instrumentos socialmente criados e compartilhados. Em vista disso, as recordações podem ser semelhantes, contraditórias ou sobrepostas. Porém, em hipótese alguma, as lembranças de duas pessoas são – assim como as impressões digitais, ou, a bem da verdade, como as vozes – exatamente iguais.

  Portanto, ao contrário do que possa parecer, essas narrativas não se encaixam como peças de um quebra-cabeça. Elas também apresentam lacunas, fissuras e questionam as impressões que podem sugerir uma ordem ou lógica. Isso porque estamos tratando de lembranças e, ao considerarmos a função de lembrar na vida desses sujeitos, é possível perceber que esses desencontros, longe de ser uma confusão do passado, buscam um sentido para explicá-lo. Conforme nos chama a atenção Rousso (2006, p.94), “a memória, no sentido básico do termo, é a presença do passado”.

  São marcas que o presente vai encontrar e, ao trabalhá-las, trazê-las revestidas de significações. Essa condição da memória fica evidente quando D. Maria, ao trabalhar suas memórias, afirma: “é história, coisa de pequeno a gente marca assim”. É a partir dessas parte, fazer escolhas, construir leituras a partir das significações que nossos entrevistados deram ao passado.

  Ao destacarmos a leitura de Sr. Abílio acerca de suas experiências religiosas no passado, no momento em que ele evoca suas lembranças sobre a festa de nossa Senhora do

  51 Rosário e diz: “Era lindo sabe... E ali era coisa muito respeitada” , estamos considerando

  suas leituras sobre esse passado, somado ao sentido atribuído por ele e os códigos de convivência presentes em sua fala.

  Ao trazermos ao centro de nossas análises narrativas que procuraram explicar a cidade e o passado, levando à tona suas experiências religiosas, relações de vizinhança, o trabalho e suas sociabilidades, estamos buscando discutir a forma como Guaramirim e as relações de poder e tensão aparecem nas leituras elaboradas por esses indivíduos.

  Ao retomarmos a evocação de D. Elsa sobre o silêncio presente entre os moradores da cidade que não falavam ou criticavam abertamente a maneira como o pároco católico tratava seus fiéis, podemos perceber que há um trânsito e uma negociação entre a percepção, a ciência e a aceitação destes códigos. Sobre esse silêncio revela D. Elsa: “Pro meu lado ele era

  52

bom, agora pros outros já não sei, porque a gente não conversava sobre essas coisas ” .

  Depreende-se da fala de D. Elsa duas condições: a primeira é seu enquadramento em relação a esses códigos, e a segunda o poder e o controle exercido por Pe. Mathias.

  Podemos encontrar referências a esses códigos, mecanismos legitimadores de poder e controle exercidos por Pe. Mathias na fala de Sr. Angelo, que ao tratar da ida não consentida aos bailes fala: “[...] porque se ele [Pe. Mathias] descobrisse depois ele pegava na rua por

  53

” . O púlpito, a sacristia e a rua eram espaços comuns, onde o poder exercido por Pe.

  Mathias circulava livremente.

  A maneira como esses sujeitos produziram dizibilidades e visibilizaram Pe. Mathias nos inquietou. Afinal, quem era esse padre e por que ele tinha tanto poder? Tentar responder à questão nos parece uma tarefa singularmente complexa, porque não estamos tentando entender quem era Pe. Mathias, mas porque esse pároco aparece nas narrativas de nossos entrevistados de maneira tão peculiar e plural.

  Ao tratar da liderança de Pe. Mathias, seus princípios e valores, o Sr. Francisco Schork destaca: “quando há um líder que é coerente, honesto e dedicado, ninguém se nega a

  51 52 BORBA; BORBA, op. cit.

  54

contribuir e ninguém nunca se negou a contribuir ” . Certamente o que levou as pessoas a

  não se negarem a contribuir não foi só sua liderança, honestidade e dedicação, mas principalmente a operatividade de sua pedagogia da fé.

  Há pessoas, lembranças e situações que contestam a coerência de Pe. Mathias. Seu envolvimento em conflitos e disputas de poder também deixaram marcas. Esses distanciamentos, estranhamentos e sua aproximação com o campo político serão discutidos mais detidamente no próximo capítulo.

  

4 CAPÍTULO III – UM NOVO PASTOR PARA CONDUZIR UM NOVO

REBANHO

  A religião serve, assim, para manter a realidade daquele mundo socialmente construído no qual os homens existem nas suas vidas cotidianas. Seu poder de legitimidade tem, contudo, outra importante dimensão – a integração em um nomos compreensivo precisamente daquelas situações marginais em que a realidade da vida cotidiana é posta em dúvida”. (BERGER, 1985, p.55)

  4.1 UM LÍDER CONVICTO DE SEU PAPEL NO REINO DOS HOMENS [...] Como se vê Dr. Elpídio, depois de 32 anos de professorado, trabalhando cinco anos como professor federal e vinte e sete anos como professor estadual ininterruptamente, sem ter a mínima falta que desdoire a minha fé de ofício, com uma escola organizada, contendo um archivo (sic) suficiente desde 1920 vejo-me agora duramente

  perseguido por um padre estrangeiro, que menospresando (sic) as leis do ensino, com ameaças de ex-comunhão (sic), proibindo a matrícula dos alunos católicos na época legal [referindo-se ao

  período de matrículas] em pleno desrespeito ao Decreto-lei 301, art. 5 letra a, na escola em que sou professor, prejudicando assim o desdobramento da mesma que vinha sendo feito desde 1939 e, consequentemente tirando-me Cr$ 4 380,00 de vencimentos, o que faz jus pelo desdobramento, nest’ora (sic) tão difícil de se viver

  1

  . (Grifo nosso) Esse trecho é parte de uma carta endereçada a Elpídio Barbosa

  2

  , escrita por Cantalício Érico Flores em 1952. A partir desse trecho é possível perceber que a carta anuncia as tensões que envolveram o autor da carta, um membro da Igreja Presbiteriana Independente, e um pároco católico. O documento, que trata das disputas pelo poder local em Guaramirim, desencadeado pela aposentadoria forçada de Cantalício Flores e pela defesa da implantação de uma nova escola administrada pelo pároco católico, permite-nos identificar que essas disputas extrapolam o universo educacional, transitando entre a política partidária e o universo religioso. 1 FLORES, Cantalício Érico. Carta enviada ao Sr. Elpídio Barbosa. 11 mar. 1952. Acervo do Centro de Documentação de Guaramirim. 2 Elpídio Barbosa, eleito pelo Partido Social Democrático (PSD), atuou como deputado estadual de Santa

Catarina no período de 1951 a 1955. Antes de seu mandato como deputado estadual, em 1935, ocupou cargo

  

técnico no Departamento de Educação do Estado. Foi Diretor do Grupo Escolar Professor Luís Neves, em Mafra,

  A religiosidade e seus códigos delimitadores de espaços e práticas nos convidam a problematizar práticas religiosas, direcionadas especialmente aos fiéis católicos de Guaramirim, e o cotidiano de sujeitos que, a partir da década de 1950, passaram a ser capitaneados através da fé, sendo convocados a se aproximar dos cuidados e orientações do novo pároco da cidade, Pe. Mathias Maria Stein.

  O sacerdote, nascido na cidade alemã de Schneppenbach, em 15 de junho de 1907, retornou ao Brasil no início de novembro de 1949 para assumir a função de secretário do

  3

  bispo D. Pio de Freitas , da diocese de Joinville, e em 6 de dezembro do mesmo ano assumiu a paróquia de Guaramirim. Pe. Mathias veio ao Brasil pela primeira vez em 1931, onde prosseguiu sua formação sacerdotal iniciada ainda na Alemanha, em 1923. Depois de frequentar a faculdade de filosofia em São Paulo, onde iniciou seus estudos teológicos, foi

  4

  para Minas Gerais, onde deu prosseguimento a esses estudos, e em Corupá/SC, em 1939 , no Seminário Sagrado Coração de Jesus, concluiu seus estudos e recebeu sua ordenação sacerdotal.

  Sua formação sacerdotal ocorreu dentro do período de Romanização da Igreja. Para Azevedo (1978, p.144), o processo de Romanização Católica foi “um movimento de cunho político-religioso concebido pela hierarquia da Igreja, ocorrido a partir de meados do século

  XIX”. A Romanização trazia consigo o reconhecimento e a reverência à autoridade da Igreja, a submissão ao papa, a devolução dos Estados Pontifícios, o reconhecimento do matrimônio como um sacramento, a prática da virtude e a obediência aos superiores.

  Segundo Alves (2005, pp.22-23),

  No âmbito eclesial, o esforço da Sé Romana de reavivamento espiritual, baseado na idealização romântica da Idade Média contra o racionalismo, está marcadamente explícito na encíclica Quanta Cura e no Sílabo de erros, divulgados por Pio IX [1846 – 1878] em 1864. [...] O Sílabo, (um anexo à encíclica Quanta Cura) consiste em 80 alocuções condenatórias dos “principais erros da nossa época”, a saber, o niilismo religioso e o protestantismo, o socialismo, o comunismo e as sociedades secretas, o cientificismo, a negação do matrimônio como sacramento e do voto de castidade para os sacerdotes, além de outros “erros” do modernismo liberalizante. [...] Outras cartas de Leão XIII [1878 -1903] – e também de Pio X (1903-1914) – seguem a mesma linha de exortação ao clero para a erradicação dos “males da sociedade moderna” através da doutrina da submissão ao papado. Convém relembrar que o Primeiro Concílio Vaticano (1869-1870) reafirmou na Igreja a imagem de “Sociedade Perfeita”, quer dizer, toda imperfeição e todo o mal deveriam ser extirpados do seio da cristandade. Sendo que por “imperfeição” e “mal” deve-se 3 entender tudo o que ameaçava a hierarquia e o poder eclesial. 4 D. Pio de Freitas foi bispo diocesano de Joinville até 1957, sendo sucedido por D. Gregório Warmeling.

  

Sua formação ampara-se nas orientações da Igreja fundamentadas pelo Concílio Vaticano I, realizado na

  A implantação e manutenção da Romanização em Santa Catarina foram essenciais à

  5 chegada e à atuação de padres europeus, seculares e religiosos, desde meados do século XIX .

  A vinda desses clérigos para o Brasil foi motivada, em grande medida, pelo escasso número desses religiosos ajustados a essa prerrogativa da Igreja, pela existência de comunidades católicas compostas por imigrantes e pela prática recorrente do catolicismo popular.

  Ao tratar, na biografia de Pe. Mathias, da sua opção missionária, em 1931, pelo Brasil, Schork (2007, p.12) escreve:

  Após 8 anos de formação no Seminário Menor, na própria Alemanha, o jovem seminarista Mathias, então com 25 anos de idade, veio para o Brasil, como ele mesmo afirma em sua carta autobiográfica, “levado pelo impulso missionário, pois, quando estudante no seminário, lá na Alemanha, lia nos calendários missionários sobre a falta de sacerdotes no Brasil e como a Providência Divina plantou em minha mente a tenra plantinha fiquei sacerdote para o querido Brasil e fui colocado 27 anos no amado Guaramirim”.

  Na mesma correspondência enviada a Francisco Schork, em 1984, Pe. Mathias expõe claramente a postura que o acompanhou durante seu exercício civil e sacerdotal em Guaramirim:

  A formação intelectual, cultural e religiosa que os candidatos ao sacerdócio recebem é de fato muito profunda e alicerçada em bases sólidas. O padre é preparado para ser um líder e, como líder, deve estar convicto de seu papel no reino dos homens, procurando prepará-los, através de todos os meios ao convívio feliz da eternidade.

  (SCHORK, 2007, p.14, grifo nosso)

  O espírito de liderança é uma habilidade trabalhada durante a formação dos sacerdotes. Além do domínio das liturgias e obediência às orientações da Igreja, o sacerdote deveria estar preparado para ser um lastro em cada comunidade em que atuava. Um líder que pudesse oferecer conforto espiritual e tivesse determinação para conduzir seus fiéis.

  Após sua ordenação, retornou à Alemanha e em decorrência da II Guerra Mundial ficou impedido de voltar ao Brasil. Seu retorno aconteceu em 1949, por intermédio direto de D. Pio de Freitas (SCHORK, 2007, p.15) junto ao presidente do Brasil no período, Eurico Gaspar Dutra. Embora fique evidente que foi sua ligação e proximidade com o bispo da diocese de Joinville que facilitou seu retorno ao Brasil, salienta-se que a aprovação de seu retorno também se deve a seus firmes propósitos sacerdotais e sua postura política, afinada com as orientações que então predominavam no governo brasileiro, sob a presidência de 5 Dutra, e em vários países do mundo, no contexto do que ficaria conhecido como Guerra Fria.

  

Tal afirmação se apoia na investigação empreendida por Alves (2005), que desenvolveu uma análise sobre as

  A postura combativa da Igreja católica contra os comunistas e as preocupações com os rumos da Igreja, especialmente na Alemanha

  6

  , constantemente ocupava as páginas do Jornal

  de Joinville

  7

  . A partir desse periódico foi possível perceber as tensões presentes na Europa envolvendo Igreja e comunistas e o posicionamento do próprio jornal em relação a essa questão.

  A opção em trabalharmos com periódicos assenta-se no entendimento de que as publicações contidas nesses veículos não estão isentas de cumprir a transmissão imparcial dos fatos, operando como um instrumento de intervenção sobre o meio em que circula. Nesse sentido, nos aproximamos de Capelato e Prado (1980, p.19), que afirmam que a imprensa é um

  [...] instrumento de manipulação de interesses e de intervenção na vida social; nega- se, pois, aqui, aquelas perspectivas que a tomam como mero “veículo de informações”, transmissor imparcial e neutro dos acontecimentos [e da] realidade político-social na qual se insere.

  Em artigo publicado em 11 de junho de 1949, intitulado “Sovietismo em ação no mundo cristão”, o Jornal de Joinville destaca:

  Se as autoridades eclesiásticas da Zona Soviética na Alemanha não fizeram prova de maior “faculdade de adaptação”, poderá tornar-se necessário aplicar medidas preventivas. Esta advertência [foi] publicada por órgão soviético oficial, “Taeglische Rundschau” [e] citada pelo jornal democrático cristão “Rheinische Post” [Rheinische Post é um periódico alemão com sede em Düsseldorf e desde 1946 circula predominantemente na parte ocidental] de 9 de abril. O periódico renano relata que a tensão anteriormente existente entre a Igreja e o Partido (Comunista) da Unidade Social (S.E.D) [referia-se ao Partido da Unidade Socialista da Alemanha] patrocinado pelos soviets, está agora se manifestando nas

relações entre as autoridades militares soviéticas e a Igreja.

(Jornal de Joinville, 11 jun. 1949)

  O Jornal de Joinville, ao dedicar suas páginas àquelas tensões, deixava mais do que aparente os esforços da Igreja para combater seu inimigo: o comunismo. A partir de suas publicações e, em especial do trecho apresentado, foi possível identificar os motivos que adiaram o retorno do vigário ao Brasil, tanto no que se refere às dificuldades para o Brasil recebê-lo, como para sair da Alemanha: “o perigo vermelho”, conforme anuncia o Jornal de

6 Após a II Guerra a Alemanha dividida passa a viver sob duas áreas de influência. A parte ocidental sob

  

influência capitalista e a parte oriental sob o domínio socialista soviético. A divisão da Alemanha em dois

estados distintos ocorreu em 1949. 7

  

Joinville em matéria de capa “A Igreja manterá sempre acesa a luta contra os inimigos de

  8 ”, como uma referência clara ao combate do comunismo.

  Deus

  Esse posicionamento da Igreja expunha não só a preocupação com seus fiéis, mas acima de tudo com os seus clérigos e com seu poder institucional. E em meio à Guerra Fria o envolvimento da Igreja, por meio de declarações com esse tipo de conteúdo, aquecia não só a disputa política como também a disputa pelo capital simbólico representado por cada um dos grupos envolvidos.

  No ano de publicação desses artigos, em 1949, Pe. Mathias foi nomeado vigário no estado da Turíngia [Thüringen], uma região da Alemanha central localizada na zona de influência soviética, ficando impedido de retornar ao Brasil.

  Ao escrever sobre os motivos que fizeram com que Pe. Mathias adiasse seu retorno ao Brasil, Schork (2007, p.15) destaca:

  Embora a II Grande Guerra Mundial tenha surgido em seu caminho inesperadamente, tendo que deixar em posição de espera seu ardor missionário pelo Brasil, não arrefeceu seu zelo pelo pastoreio das almas, numa época tão conturbada da história vivida pela sua pátria mãe, a Alemanha. Dessa maneira, enquanto aguardava, pacientemente, poder retornar ao Brasil, dedicou-se ao trabalho como coadjuntor das paróquias nas cidades alemãs de Lengensaize/Thiirigem (sic) e Niederfischbasc/Sieg, até assumir como pároco e comissário episcopal na cidade de Berent/Wetpreussem, passando a responder por mais seis paróquias, devido à absoluta falta de padres. Em 30 de maio de 1945 é nomeado pároco de Samim-Studmitz/Pommern, ali permanecendo até 30 de outubro de 1946. Embora imaginasse que uma vez tendo terminado (sic) a II Guerra Mundial, viria ao Brasil, veja o que deixou registrado em seus arquivos pessoais: “Ainda não é a vez de voltar ao Brasil, pois, em 17 de dezembro de 1946, acabei sendo nomeado vigário na cidade alemã de Bad Rastember – Buttstädt/Thürigem, função que exerci até 03 de agosto de 1949”.

  Ao retornar ao Brasil em 1949, Pe. Mathias, depois de sua breve passagem pela diocese de Joinville, deu início à sua intensa atuação como pároco em Guaramirim. No início da década de 1950 encampou o desafio de estruturar fisicamente e fortalecer religiosamente a

  9

  recém-criada paróquia . Embora houvesse pequenas capelas, construídas ainda no período em que Guaramirim era distrito de Joinville, foi com a chegada de Pe. Mathias que foram registradas novas construções, reformas, ampliações e aquisições de bens pertencentes à paróquia.

  É essa disposição de Pe. Mathias em investir no crescimento e no fortalecimento do 8 catolicismo em Guaramirim e seu poder de interferir, aferir e consentir as relações entre seus 9 Jornal de Joinville, Joinville, 19 fev. 1949.

  

Conforme decreto de criação assinado em 8 de dezembro de 1950 pelo bispo D. Pio de Freitas. A Paróquia fiéis e fiéis de outras denominações religiosas que nos provoca a problematizar suas ações enquanto uma liderança religiosa e comunitária, principalmente no que se refere aos seus investimentos na estruturação das comunidades católicas, na defesa da unidade familiar e dos valores morais. Contudo, é possível notar que esta não era apenas uma predisposição pessoal, mas também um estreitamento da Igreja com a conjuntura política que defendia o desenvolvimento do Estado e da pátria, colocando o homem do campo no centro dessas preocupações.

  Ajustada ao propósito de tornar as famílias rurais alvo de estratégias de desenvolvimento do Estado, a Igreja engajava-se num projeto de reordenação do espaço rural visando restabelecer o espírito cristão. Conforme problematiza Souza (2008, p.205), ao trabalhar a aproximação da Igreja do homem do campo, durante a década de 1950,

  A Igreja apresentava-se como a instituição mais próxima do homem do campo. Reforçava-se a idéia de que o trabalho no campo era difícil, mas, sem dúvida nenhuma, o mais digno, já que dele dependia a sobrevivência da humanidade. O sacrifício era indispensável para que se gerasse um excedente produtivo.

  Partindo da discussão apresentada por Souza (2008), é possível identificar a execução desse projeto em Guaramirim, uma vez que a cidade era composta por um grande número de famílias que residiam em áreas rurais, sendo o trabalho familiar a força motora de cada propriedade. O pároco trabalhava para que em torno da Igreja orbitassem todas as relações, fazendo desse espaço mais do que um espaço de fé e apego ao sagrado, mas um espaço onde as vivências e as experiências eram tuteladas pelos preceitos e orientações morais emitidos do púlpito.

  As problematizações apresentadas por Souza aproximam-se ainda mais da questão analisada, na medida em que o autor pontua:

  Entendia-se que essa interferência da Igreja na esfera pública era salutar para aproximar o homem do campo aos objetivos do desenvolvimento agrário. Para tanto, a elevação do nível produtivo deveria basear-se numa reforma física, cívica, moral e com noções de economia doméstica e de agricultura. Por isso, a ação pastoral da Igreja deveria voltar-se à instrução e a elevação da cultura do homem do campo. E essa ação se tornava patente quando se perspectivava nela a solução para o problema econômico de Santa Catarina e do Brasil. (SOUZA, 2008, p.209)

  A partir dessas ações defendidas pela Igreja, o padre tinha o papel de estimular a produção agrícola familiar e de manter a vigilância sobre seus membros, na medida em que apresentava como perspectiva de vida a religião mantida sobre firmes e sólidas bases, sendo a fé capaz de resolver todos os problemas familiares e afastar os perigos que poderiam ameaçar autoridade local, pois agia na reorganização do trabalho produtivo do agricultor, estabelecia critérios de normatização e disciplinarização dos fiéis.

  Em sua biografia sobre o Pe. Mathias, Schork (2007, p.47) afirma que

  Suas ações no campo social mostram que foi muito além do seu dever de pastorear almas, tanto que tentou até a constituição de uma cooperativa agrícola e que não vigorou por absoluta falta de cultura das pessoas, na época, quanto aos benefícios que ela poderia lhes proporcionar. (Grifo nosso)

  A organização de uma cooperativa poderia fazer com que o lucro resultante da produção minimizasse as precárias condições sociais em que se encontravam muitas famílias. Contudo, além da avaliação feita por Schork, não conseguimos identificar porque essa estrutura de produção e venda não chegou a se efetivar.

  É possível identificar a intensa atuação de Pe. Mathias junto às famílias de agricultores. Sr. Angelo, ao tratar da proximidade entre Pe. Mathias e os agricultores, lembra:

  Ele era um padre que tinha um poder. Que eu me lembro que a turma plantava arroz, aí batia aquele bichinho, a lagarta e comia todo o arroz. Chamava o padre Mathias para benzer as lagartas. É lá em tal e tal fulano [remetendo-se aos agricultores que solicitaram a benção]. “E ele [Pe.

  Mathias] dizia: amanhã vou passar lá.” Quantas vezes eu fui junto com ele.

  Ele [Pe. Mathias] ia num canto da arrozeira aqui, um canto lá e benzia as lagartas. E cadê as lagartas? As lagartas sumiam, ninguém passava um agrotóxico, nada. Ele

  [Pe. Mathias] dizia no final: “um saco de arroz” [imitando o sotaque carregado do padre] [risos]. E a lagarta se sumia. E tinha gente que dava risada e a lagarta não se acabava, comia todo o arroz e não se acabava a lagarta da arrozeira. O padre Mathias tinha um poder muito forte, da fé e com as pessoas. Ele estava sempre junto com os agricultores, cuidando para ver como eles trabalhavam, se ia bem, porque ele se preocupava, queria ver as pessoas produzindo, porque era muito difícil

  10 .

  Em relação à percepção de Pe. Mathias sobre as condições sociais vigentes em Guaramirim no início da década de 1970, encontramos registradas, no Livro Tombo da paróquia, a seguinte observação: “A vida dura na lavoura, com rendimento insuficiente, devido à falta de uma política adequada por parte dos sucessivos governos, fez com que os jovens migrassem em busca de futuro promissor na cidade, especialmente, Joinville e adjacências”

  11

  . Essa afirmação de Pe. Mathias dá conta de dimensionar as condições sociais predominantes em Guaramirim nesse período e as características dessa cidade, que destoavam das cidades vizinhas. Seu registro também chama a atenção para a principal atividade 10 BOLOMINI, op. cit. 11 econômica do município: o trabalho agrícola e a mão de obra familiar, que pareciam comprometidos frente às escolhas dos membros mais jovens dessas famílias, que fizeram a opção por um “futuro promissor”.

  A partir desse registro, é possível identificarmos sua preocupação em relação à principal estrutura produtiva da cidade, a mão de obra familiar, e o comprometimento de seus investimentos, iniciados na década de 1950, como liderança religiosa e civil de muitas dessas famílias de Guaramirim.

  As diretrizes apontadas pela Igreja católica em Santa Catarina na década de 1950 subsidiavam a construção de uma Guaramirim edificada em nome da família, da fé e do pároco, dada sua onipresença junto à maioria das famílias da cidade, sobretudo as famílias de agricultores mais capitalizadas. Na década de 1960, porém, Pe. Mathias intensificará suas ações e interferências no campo religioso, político e social, promovendo um encurtamento daquilo que separa o público do privado.

  Contudo, é preciso considerar que, embora a formação de Pe. Mathias tenha ocorrido sobre as prerrogativas do Concílio Vaticano I, em boa parte de sua atuação como vigário de

  12 Guaramirim teve que atuar dentro das novas diretrizes da Igreja apontadas pelo Vaticano II .

  Portanto, o vicariato de Pe. Mathias foi composto por uma assimetria resultante de sua formação e das novas orientações da Igreja, vigentes a partir do início dos anos de 1960.

  4.2 ENTRE APROXIMAđỏES E DISTANCIAMENTOS A recomposição da vida nas comunidades católicas em Guaramirim concretizou um volumoso e consistente corpo de relacionamentos, uma vez que todas as ações empreendidas eram amparadas pela justificativa de que a fé e os desejos da Igreja católica (traduzidos através da presença do pároco) eram inquestionáveis.

  Essas recomposições traziam à tona a presença de um discurso religioso que se direcionava ao fortalecimento da fé, à manutenção e elevação da unidade familiar. Para atingir tais propósitos era preciso educar o corpo e corrigir costumes que pudessem desviar esses sujeitos. Esse desafio esbarrava em relações já estabelecidas dentro de algumas localidades de 12 Guaramirim, passando a vigorar um delicado jogo de interesses.

  

O Concílio Vaticano II foi aberto solenemente em 11 de outubro de 1962 pelo papa João XXIII. Na pauta

  Ao empreender suas ações de fortalecimento da fé católica, valorização e proteção à família, Pe. Mathias envolvia-se em intensas disputas de poder, mas essas disputas não eram essencialmente provocadas por motivações pessoais, embora tenhamos encontrado, na bibliografia consultada e nas lembranças de nossos entrevistados, diversos registros sobre sua forte personalidade.

  É possível perceber que, durante o período de sua atuação como pároco nas décadas de 1950, 1960 e 1970, há uma equação que resulta da soma de sua personalidade, suas intenções em fortalecer a fé e a Igreja católica em Guaramirim, o projeto de Igreja defendido em Santa Catarina, aliados à conjuntura política nacional. O quadro geral apontava para a sustentação de um discurso que defendia estruturas religiosas hierarquizadas onde ficavam evidentes relações de poder e saber que agiam como forças disciplinadoras.

  Ao assumir suas funções como vigário, Pe. Mathias fez uma avaliação sobre as condições financeiras em que se encontrava a paróquia e efetuou o seguinte registro: “No

  13 caixa da Igreja não havia dinheiro e poucas pessoas frequentavam as missas dominicais” .

  Ao iniciar seu trabalho de fortalecimento da fé católica e de estruturação das comunidades instaladas em diferentes localidades da cidade, empreendeu a construção, reforma e ampliação de aproximadamente duas dezenas de igrejas, a construção de cinco salões paroquiais, três escolas, um galpão, casas para abrigar as irmãs catequistas, adquiriu terrenos, mobilizou uma comunidade e as autoridades locais e regionais para construir uma ponte e conduziu a construção de um hospital. Essas ações permitem-nos identificar a dimensão da força de seu discurso e de sua liderança.

  O elevado número de obras empreendidas por Pe. Mathias chama a atenção para o fato de que elas só foram possíveis graças à participação da comunidade e do peso e da influência do discurso que envolvia seus fiéis, que os ajustava a esses propósitos. Conforme anuncia o pároco em mensagem dirigida aos fiéis: “procuramos (sic) realizar a vontade de Deus e

  14 Altíssimo pai que tudo mais o será dado por acréscimo” .

  Ao tratarmos da presença e da circulação desse discurso nos aproximamos da discussão proposta por Orlandi (1987, p.252), que defende que “o poder da palavra na religião é evidente. O mecanismo de performatividade atesta este poder de forma clara. A performatividade da linguagem está intimamente ligada a uma visão da linguagem como uma 13 ação”. O discurso religioso é uma elaboração de componentes cuidadosamente escolhidos

STEIN, Mathias Maria. Livro Tombo da Paróquia Senhor Bom Jesus de Guaramirim. Ano 1950, p.9.

14 Apud Schork (2007, p.27).

  pelo responsável pela emissão de um conjunto de códigos, destinado diretamente a um grupo de fiéis que tem a função de decodificá-los. Uma vez decodificados, apropriados e aceitos, evidenciam um conjunto de práticas que se instalam sobre o corpo e transformam esse corpo em um portador de códigos e sentidos religiosos, legitimando o emissor e o conteúdo emitido.

  Peter Berger, ao discutir a eficácia da legitimação religiosa, afirma que

  [...] a legitimação tem um aspecto objetivo e um aspecto subjetivo. As legitimações existem como definições disponíveis da realidade, objetivamente válidas. Constituem parte do “saber” objetivado da sociedade. (BERGER, 1985, p.45)

  O processo de legitimação procura conter resistências individuais ou de grupos na medida em que é decodificada e reproduzida, agindo diretamente na maneira como o sujeito apreende o mundo. A legitimação de um discurso ou uma ação faz com que discurso e ações caminhem juntos, e carrega consigo a necessidade de lembrar repetidamente, por isso é capaz de aproximar os pares e identificar o diferente.

  Em meio às celebrações religiosas, do púlpito, do confessionário, na casa das pessoas ou na rua, os cuidados e o controle de Pe. Mathias eram sentidos por seus fiéis em todos os lugares. Sobre o poder e a influência de Pe. Mathias, contou-nos Sr. Abílio que: “naquele

  15

tempo ele mandava em tudo, ele que nos mandava em tudo ” . O “mandar em tudo” para o Sr.

  Abílio significou, em sua fala, que todas as ações dos fiéis católicos tinham de estar ajustadas aos enquadramentos ditados pelo padre. Ao lembrar da maneira como Pe. Mathias tratava seus fiéis e a forma como cuidava para que todos o obedecessem, Sr. João narrou:

  Ele [Pe. Mathias] tinha o púlpito, lá em cima. Ele subia naquele púlpito e dava de dedo. Se encontrava [Pe. Mathias] a gente no caminho também, na estrada ele parava o jeep e dava o recado dele. Na própria arrozeira, se via alguém lá que ele queria cobrar alguma coisa que ele soube e não gostou,

  16 coisas assim parecidas, ele parava e cobrava, falava e brigava .

  Em Guaramirim, as famílias católicas que não se enquadravam nos códigos vigentes iam assistir missas em Jaraguá do Sul, refletindo um distanciamento do enquadramento proposto. Ao tratar dessas aproximações e desses afastamentos, Sr. Angelo, um dos entrevistados no processo de pesquisa da dissertação, já apresentado anteriormente, relata:

  Muitos católicos iam para Jaraguá ver missas. Eu não sei, eu gostava muito do Pe. Mathias, achava ele um homem muito justo, muito certo assim. Mas tinha gente que não gostava, aí não ia na missa dele porque não fazia como

  17 15 ele queria . 16 BORBA; BORBA, op. cit.

  As fronteiras religiosas estavam estabelecidas e o trânsito entre essas fronteiras era cada vez mais difícil: com a presença de Pe. Mathias, só aos luteranos era creditada, entre os não católicos, a condição de merecedores de reconhecimento, desde que esse reconhecimento estivesse amparado em certo distanciamento, desde que a convivência não implicasse a conversão de um católico para essa denominação. Essa aceitação é resultado da estrutura das comunidades que professavam essa fé, famílias relativamente mais capitalizadas e em menor número em relação aos católicos, nas décadas de 1950, 1960 e 1970.

  Em relação à presença dos luteranos em Guaramirim é possível encontrar registros da

  18

  estruturação de uma comunidade instalada na localidade de Brüderthal desde 1886 . No caso dos luteranos de Guaramirim, a religião transcende o exercício da fé oferecendo um sentido de continuidade e perpetuidade à identidade da qual participam seus membros, que remete aos imigrantes europeus chegados no final do século XIX.

  Segundo Machado (2003, p.113), “em termos de manifestação pública do idioma alemão, a Igreja luterana era um espaço privilegiado. Ainda hoje ela promove cultos nesse idioma”. A partir da observação desse autor, foi possível perceber que a religião foi um dos espaços em que a identidade étnica tinha fronteiras mais bem demarcadas. A religião cumpriu, entre as comunidades luteranas, um papel de unidade e de organização social e econômica das famílias que professavam essa fé.

  Ao retomarmos a relação entre católicos e luteranos, foi possível identificar que, enquanto Pe. Mathias foi pároco de Guaramirim, foi marcada por aproximações e distanciamentos. Os luteranos eram bem-vindos nas festas dos padroeiros e a conversão de luteranos para o catolicismo era bem aceita; contudo a conversão de um católico para o luteranismo era motivo de sobra para se praticar a exclusão e o afastamento.

  A respeito da participação de luteranos em festas católicas e da aceitação de Pe. Mathias em relação a esses fiéis, Schork (2007, pp.36-37) escreveu:

  Embora Pe. Mathias, tido como uma pessoa muito conservadora, cultivava um grande respeito pelas pessoas de outras religiões, especialmente os de Confissão Luterana. Tanto isso é verdade que em relação à construção da capela da comunidade de Brüderthal, há um dado muito interessante que registrou no Livro 18 Tombo (cf. p.45), assim transcrito: “As pessoas de religião luterana cooperaram para

Em 1886, um grupo de aproximadamente 180 imigrantes vindos da Europa se instalaram na localidade de

Brüderthal (vale dos irmãos). A área foi adquirida pelo pastor Lange, que os conduziu até o Brasil e aqui os

organizou, sorteando lotes de terras entre essas famílias para que pudessem coletivamente produzir. Sobre

Brüderthal ver: SCHULBERT. Waldir Humberto. Histórico da Paróquia Evangélica de Brüderthal – Itapocú;

Paróquia Evangélica Luterana de Guaramirim; Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Região obtermos lucro na festa, já que eles eram bem situados”, ou seja, tinham poder aquisitivo maior do que as famílias católicas do lugar que naquela época eram muito pobres.

  Lembram Sr. João e D. Maria, ao tratarem dessas relações entre católicos e luteranos, que:

  Com o Pe. Mathias não se podia nem olhar para uma igreja que era protestante ou outra seita qualquer. Não podia nem olhar, se precisava olhar e tinha que ir reto para frente e não olhar pra igreja. Não podia olhar, ele te proibia. Mas entre a gente, entre as famílias não tinha nada a ver com isso aí [fala Sr. João]. Não tinha separação nenhuma, mas o padre é que tinha aquela coisa que não podia nem olhar pra dentro da igreja. Se virar de religião [referindo-se a conversão] assim, ele queria puxar para Católica, você viu como eu virei católica [fala D. Maria]. Se chegasse a virar para protestante ele excomungava pai, filho e tudo. A família aqui pra cima [referindo-se às imediações do bairro Rio Branco], uma moça casou com um rapaz protestante, ele que fazia, que mandava praticamente na Igreja [referindo-se ao envolvimento do rapaz em sua comunidade]. O pai dela era o responsável de pegar o pessoal pra trabalhar lá [como turmeiros nas obras da Igreja católica], o padre não quis mais ele, expulsou de lá e acabou. Só porque a filha se casou. Só porque a filha casou com protestante, na Luterana

  19 .

  Já a convivência entre católicos e assembleianos era ainda mais distante. Essa distância dava-se pelo ainda modesto número de pessoas que frequentavam a Assembleia de Deus e pelas diferenças litúrgicas das duas denominações.

  Conforme Pommerening (2008, p.16), a Assembleia de Deus está presente em Guaramirim desde o início dos anos de 1930, e se deu por meio do pastor André Bernardino da Silva

  20

  . Durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, a igreja da Assembleia de Deus teve em Guaramirim uma adesão muito modesta, comparada ao número de famílias católicas e luteranas. Se retomarmos os dados levantados pelos censos produzidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesse período, não há nenhuma menção em relação aos assembleianos; é possível que esses fiéis tenham sido enquadrados dentro da categoria “outras religiões”

  21 . 19 PEREIRA; PEREIRA, op. cit. 20 O pastor da Igreja Assembleia de Deus André Bernardino da Silva era pai do Sr. Daniel, entrevistado durante a

pesquisa para a dissertação. Vindo do Rio de Janeiro em 1931, onde havia se convertido, fixou residência em

Itajaí. A partir do seu retorno passou a supervisionar os trabalhos da Assembleia de Deus em Joinville e por

extensão em Guaramirim. Ver Pommerening (2008). 21 Conforme já apresentado no primeiro capítulo, o censo produzido pelo IBGE apresenta uma lacuna em relação

às religiões existentes em Guaramirim. O IBGE apurou que o número de fiéis pertencentes a “outras religiões”

em 1960 era de 234 pessoas. E contrariando o crescimento nacional de praticantes da Assembleia de Deus, em

1970 o número de fiéis classificados como praticantes de “outras religiões” era de apenas 126 pessoas. Como já

  À medida que as ações dos missionários assembleianos se intensificaram, novas igrejas dessa denominação foram sendo construídas na cidade. Os fiéis frequentadores dessa denominação passaram a projetar novos espaços, que lhes permitam assumir novas práticas religiosas que comungassem dos preceitos filosóficos dessa denominação.

  A presença da Assembleia de Deus, em Guaramirim, traduziu-se em uma relação de poucos diálogos entre os católicos, conduzidos por Pe. Mathias, e os assembleianos, uma vez que a ressonância do discurso religioso desse padre será a tônica da aceitação ou rejeição do outro.

  A fé é, inegavelmente, um instrumento que promove o diálogo entre as instituições religiosas e os fiéis, que movimenta uma estrutura cada vez mais dinâmica e plural dada a existência, em um mesmo espaço social, de várias religiões, em que os fiéis têm a possibilidade efetiva da adoção de identidades religiosas singulares, ou múltiplas, subjetivas ou coletivas e de vínculos efêmeros ou regulares.

  O universo religioso e a fé pressupõem uma sincronia, onde os sujeitos submetem-se a um apego, e esse apego é coletivo. É um sentimento compartilhado, pois está revestido de uma sacralidade construída pelas mensagens salvíficas, que indica um caminho único, seguido individualmente e reconhecido coletivamente. Em Guaramirim a convivência entre fiéis de diferentes denominações religiosas também pode se transformar em um espaço antagônico e fronteiriço, na medida em que o outro, o diferente, transita em uma lógica binária, em que o fiel católico está bem conduzido, pois tem uma forte liderança e os demais não, embora o outro esteja percorrendo um caminho recheado de sentidos e significados muito semelhantes aos seus.

  A reflexão acerca das experiências religiosas e das implicações das diferenças e a atribuição de contrastes em relação ao outro em Guaramirim aponta para uma constante capacitação dos fiéis para combater o desconhecido, para combater as forças que podem abalar a unidade da comunidade e que abrem suas portas para o pecado, mesmo que este pareça inclassificável, pois é o pecado que desestabiliza a ordem almejada e valorizada pela fé católica.

  Os embates envolvendo representantes de diferentes denominações religiosas, códigos de condutas e disputas no campo político foram bastante intensos e deixaram transparecer, por exemplo, uma tensão envolvendo Pe. Mathias e o Sr. Cantalício Érico Flores. O Sr. Cantalício

  Érico Flores foi administrador do núcleo colonial Barão do Rio Branco

  22

  , professor e, após a criação do distrito policial

  23

  , atuou como subdelegado de polícia. Logo suas práticas devocionais e políticas desagradaram ao Pe. Mathias e entraram em conflito com os objetivos por ele defendidos. Em carta enviada ao Sr. Elpídio Barbosa, em 11 de março de 1952, o Sr. Cantalício escreveu:

  A conselho do meu grande amigo Álvaro Maia, resolvi escrever-lhe, não para que politicamente tome o feito o meu caso, mas para que avalie a injustiça que se está fazendo a um pobre professor que empregou e emprega ainda a melhor de sua aptidão na educação dos filhos deste pedaço de terra do nosso glorioso Brasil, cujo caso é o seguinte: Há dois anos mais ou menos chegou a esta localidade vindo da Alemanha, um padre de nome Mathias Maria Stein, que foi prisioneiro de guerra em um dos campos de concentração na Rússia e, que, conseguiu fugir para o Brasil, homem de espírito atilado, de uma prepotência a toda prova.

  Logo que começou a paroquiar aqui iniciou uma campanha de perseguição a minha pessoa, porque professo a fé evangélica como membro da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. Assim é que, urdindo uma trama pérfida e cruel contra minha pessoa, conseguiu entre os católicos mais beatos de toda a redondeza do Núcleo, abrangendo o raio de ação das seis escolas aqui localizadas, um abaixo assignado (sic) com cento e vinte e poucas assinaturas inclusive a do chefe udenista local, que diz ter assinado involuntariamente. De posse desse documento que não representa a expressão da verdade, pois que, muitas assinaturas foram conseguidas por meio de ameaças de ex-comunhão (sic) o padre se apresentou ao senhor governador do estado pedindo em nome daquelas assinaturas falsas a criação de uma escola pública, junto a minha escola, dirigida exclusivamente por catequistas 24 . (Grifo nosso)

  Essa carta, que já foi parcialmente apresentada no início deste capítulo, não trata meramente de uma oposição religiosa direta entre uma liderança católica e um membro da Igreja Presbiteriana Independente, mas também de um jogo de forças embalado por uma disputa pelo poder local, com apelo às influências políticas estaduais.

  Ao afirmar que Pe. Mathias era um padre alemão fugitivo de um campo de concentração russo que veio para o Brasil, o Sr. Cantalício Flores não esperava apenas recuperar seu poder e sua influência na localidade de Rio Branco: essa forte argumentação era o apelo necessário para afastá-lo da cidade, uma vez que, ao evidenciar a nacionalidade de Pe. Mathias e acusá-lo de fugitivo de campo de concentração russo, no início dos anos de 1950, 22 O núcleo colonial Barão do Rio Branco foi um empreendimento criado em 1913 no governo do Marechal

  

Hermes da Fonseca, para ser uma colônia agrícola em Guaramirim. Inicialmente dividido em 198 lotes rurais,

recebeu famílias alemãs, russas, polonesas e italianas. A implantação de núcleos coloniais foi uma realização do

governo federal, por meio da Diretoria Geral do Serviço de Povoamento. Oficialmente o núcleo Barão do Rio

Branco deixa de existir em 1930. Sobre o núcleo colonial Barão do Rio Branco ver: PIAZZA; HÜBENER

(1983). 23 O governo do estado de Santa Catarina, por meio do decreto nº .1372 de 12 de abril de 1920, criou um distrito

  com esse apelo, mesmo que confuso, esperava mostrar o quanto este pároco poderia ser perigoso. Soma-se ao peso desse apelo a declaração de perseguição religiosa e a ameaça de excomunhão aos fiéis católicos que se recusassem a assinar o documento apresentado pelo padre.

  Traindo as expectativas de Cantalício Érico Flores, Pe. Mathias confirmou a construção de uma escola dirigida por irmãs catequistas no Rio Branco. Contudo, por um período de dois anos (1950 e 1951), a localidade contou com o funcionamento de duas escolas, uma para católicos e outra para não católicos. Em 1951, o Sr. Cantalício Flores aposentou-se, e o que reforçou o início de sua aposentadoria foram os investimentos do governo do estado no projeto defendido por Pe. Mathias para a construção da nova escola,

  25 dirigida pelas irmãs catequistas, inaugurada em 1955 .

  As tensas negociações, os desacordos e os desconfortos envolvendo não católicos e católicos, exemplificadas no confronto entre o Sr. Cantalício Flores e Pe. Mathias, embora estriados e marcados por desafetos e exclusões, foram represados, transparecendo o poder representado por Pe. Mathias e prevalecendo o projeto de condução da comunidade defendido pelo sacerdote.

  Sr. Daniel, ao narrar os atritos entre Pe. Mathias e o Sr. Cantalício Flores, expõe o que representou para seu sogro esse enfrentamento, na medida em que relembra:

  Chamaram o seu Cantalício e perguntaram: “seu Cantalício, o senhor não quer se aposentar?”. Seu Cantalício responde: “Não, eu não quero me aposentar”. “Não, seu Cantalício porque nós vamos implantar outra escola”. Seu Cantalício respondeu: “Na minha escola aqui padre não entra” [reproduzindo o diálogo entre seu sogro e a secretaria da educação]. Aí o resultado foi que foram fazer a escola lá no início do Jacu-Açu. Quem era católico ia lá e quem era protestante ia no Rio Branco, eles fizeram duas escolas, uma chama São José [a escola para católicos] e outra Núcleo Barão do Rio Branco [para os não católicos]. Foi quase dois anos assim e aí veio o decreto do secretário de educação do Estado de Santa Catarina que disse que o seu Cantalício estava aposentado, dizendo que ele deveria sair de sala de aula, que a escola ia ser demolida. Deu um desespero. Ele tinha todos os documentos desde 1918, quando ele chegou aqui, de todos os alunos que tinham se formado. Ele tinha o arquivo morto da escola, aí eles pegaram tudo aquilo lá e rasgaram e queimaram tudo, tudo! Foi destruído tudo e o que o seu Cantalício deu conta de pegar, porque eles pegaram ele de supetão, então ele guardou, era o que ele tinha em casa. E o que estava na escola não guardaram uma folha. Então teve aquela grande encrenca terrível. Aí eles meteram o trator, era terra de governo, dizia 60 metros, então eles mediram da rua até lá 60 metros, deu na beirada da casa do Cantalício que não sobrou quatro dedos. Nós tínhamos que subir pelos fundos para entrar dentro de casa. Acabaram com tudo e disseram: “Aqui

  agora é tudo pátio da escola São José e quem manda é freira e Pe. Mathias que manda” [referindo-se à ação da secretaria da educação]. Isso foi o fim do seu Cantalício, ficou numa tristeza de dar dó. Ninguém queria mais falar com ele, nenhum católico podia chegar mais nele, ele ficou, como é que se diz? Ele ficou uma pessoa contaminada, é como se hoje tivesse lepra, era um leproso. Ele ficou completamente jogado fora. O Murara se doeu a favor do seu Cantalício, ficou só o Murara católico. O Murara ia às missas em Jaraguá, então quem era a favor dele ia às missas em Jaraguá, pegava o caminhão e ia às missas em Jaraguá pra não ver o

26 Pe. Mathias .

  Ao tratar sobre a relação entre o poder político e o poder religioso, Bourdieu (2009, p.69) defende que

  A estrutura das relações entre o campo religioso e o campo do poder comanda, em cada conjuntura, a configuração da estrutura das relações constitutivas do campo religioso, que cumpre uma função externa de legitimação da ordem estabelecida na medida em que a manutenção da ordem simbólica contribui diretamente para a manutenção da ordem política, ao passo que a subversão simbólica da ordem simbólica só consegue afetar a ordem política quando se faz acompanhar por uma subversão política dessa ordem.

  O movimento provocado pelo atrito e pela permuta entre poder político e poder religioso resultou no fortalecimento da legitimação de um discurso religioso majoritário, e devido à força de sua influência, seu poder de mobilização em diferentes instâncias indica o reforço e a manutenção da ordem política em vigor.

  Em meio às suas lembranças, o Sr. Daniel trata os embates envolvendo o Sr. Cantalício Flores, seu sogro, e Pe. Mathias como um incidente lamentável que felizmente teve um fim. Esse fim significou a reconciliação entre essas duas lideranças. Sobre o episódio da reconciliação, conta o Sr. Daniel:

  Em 1958 já resolveram esse incidente lamentável. Meu pai [André Bernardino da Silva, pastor da Assembleia de Deus] chegou do Rio de Janeiro, já fazia de 16 anos, aí ele voltou. Como meu pai já conhecia o Pe.

  Mathias e eles se davam bem, aí nós estávamos ali em casa, foi a primeira coisa que aconteceu, aí meu sogro me chamou e disse: “Daniel vem cá, olha [reproduzindo a fala de Sr. Cantalício]. Tinha uma areazinha e lá o teu pai” tinha uma cadeira de balanço, não ele tinha duas [referindo-se ao espaço em que Pe. Mathias costumava descansar]. Aí estava o Pe. Mathias balançando em uma e o meu pai na outra do lado. Os dois se balançando. E ele [referindo-se ao Sr. Cantalício] não queria ver aquilo. Meu sogro queria dar um ataque, não queria deixar meu pai entrar de volta dentro de casa. Aí deu uma briga de família. Assim, não briga. Eu não queria brigar com o pai, que o pai era pastor jubilado, não trabalhava mais, então estava aposentado, se diz jubilado. Ele [referindo-se a Pe. Mathias] foi, eram umas três da tarde e ficou até umas quinze pra seis, que seis horas ele tinha que rezar a missa. Quando chegou quinze pra seis o pai veio pra casa. O Cantalício não piava.

  Aí eu chamei o pai pra dentro e perguntei: “Pai o que o pai fez, pai?”. Aí o pai disse: “Não, vamos acabar com isso, amanhã o padre vem de novo, vou levar o Cantalício lá para sentar com o padre também”. Aí eu disse: “Tu não faz isso pai, ele leva o revólver e mata o padre, ele tem revólver”. Aí o pai disse: “Não, não, ele não vai fazer nada, não vai fazer e não vai dizer nada e eu vou levar amanhã lá”

  [risos]. Aí uns dois dias depois aí nós tínhamos a areazinha, com a farmácia do lado, aí tinha um vãozinho na farmácia de um metro e pouco e aí tinha a área, nós sentávamos na área. Aí daqui um pouco o Pe. Mathias sentado na área, chamaram o seu Cantalício. Lá se sentou o pai, o seu Cantalício, sentou-se o padre. Sentamos no meio. O Pe. Mathias contou história para nós e se abarcaram tudo. Não falaram do passado, não falaram do futuro, só falaram do presente. Só falaram daquilo ali na base dos autos como quatro pessoas civilizadas, conversaram e ficou naquilo

  27 .

  O atrito envolvendo o Sr. Cantalício Flores e Pe. Mathias, motivado pela extinção da escola administrada por Cantalício Flores e pela implantação de uma escola administrada pelo pároco católico e por irmãs catequistas, foi resolvido. Contudo, ficou, para a população da localidade do Rio Branco e redondeza, a obrigatoriedade, independente da religião, de frequentar a escola São José. Ao trabalhar suas memórias, D. Maria, que era luterana e frequentava a escola católica na localidade de Rio Branco, relembra:

  Eu ia a pé pra escola. Eu aprendi a andar de bicicleta tinha sei lá eu, mas daí não tinha bicicleta pra ir, meu pai ia trabalhar, nós tinha (sic) que ir a pé. Eu fui até a quarta série. Eu estudei ali, mas eu não continuei, meu pai não tinha como pagar. As professoras eram irmãs catequistas, eram irmãs de assim [sinal com as mãos expressando uso de hábito]. De manhã iam rezar na Igreja. Entrava tudo (sic) com a mão no ombro um do outro e uma vez por semana cantava o hino nacional, hoje acabou nas escolas

  28 .

  As experiências trazidas por D. Maria possibilitam identificar a transparente aproximação entre a Igreja e o Estado, que ganhava volume e densidade com a crescente iniciativa da Igreja em tomar para si a construção e a administração de um número crescente de obras assistenciais, dentre elas escolas e hospitais.

  Ao discutir a presença dos franciscanos na história da educação, Otto (2008, p.117) apresenta a dinâmica e os propósitos de criação de escolas paroquiais, e sobre esses propósitos destaca: “As ações que objetivavam a garantia de uma sólida formação religiosa como parte essencial de um currículo escolar tornam patente que a intenção de seus idealizadores era a formação de sujeitos fiéis às diretrizes da Igreja Católica”

  29

  . Pela instrução 27 SILVA, op. cit. 28 PEREIRA; PEREIRA, op. cit. 29 Embora a discussão da autora esteja localizada em um recorte temporal diferente do proposto por este estudo, escolar ensinavam-se as obrigações para com a religião. As ações disciplinadoras, amparadas por estruturas curriculares de orientação cívico-religiosa, promoviam a construção de sujeitos enquadrados dentro de uma conduta moral cristã, assentados nos propósitos da Igreja desse período, que depositava nessa estrutura os investimentos necessários para ajustar socialmente aqueles que frequentavam esses espaços.

  Foi comum em Guaramirim, durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, a presença de irmãs atuando como catequistas, professoras e nas atividades do hospital. Essas religiosas pertenciam a congregações da Divina Providência, a congregação das Filhas de Nossa Senhora do Monte Calvário e congregação franciscana. Essas religiosas eram comumente chamadas de “irmãs catequistas” independendo do papel que desempenhavam dentro das comunidades, independendo se atuavam na administração do Hospital Santo Antônio, no atendimento aos doentes, como catequistas ou professoras, embora esses dois últimos papéis fossem praticamente indissociáveis. Essas religiosas geralmente moravam ao lado das igrejas, em casas construídas para abrigá-las. A presença das irmãs em grande parte das comunidades tornava Pe. Mathias ainda mais onipresente. Desse modo, a atuação dessas religiosas, principalmente as dedicadas à atividade missionária/educacional, esteve voltada para a solidificação de um discurso que transformava os alunos em bons fiéis, construindo sujeitos obedientes, disciplinados e voltados à prática sacramental.

  4.3 EDIFICANDO A FÉ E OBRAS PAROQUIAIS “ Foi um padre batalhador mesmo, se ele tivesse por aí eu acho que não

  30 existiam essas malandragens ” . (D. Elsa)

  As narrativas acerca do que representou a atuação de Pe. Mathias em Guaramirim nos permitem aproximá-las, na medida em que essas narrativas perpassam as obras que foram coordenadas por esse pároco. Pe. Mathias aparece como lastro, uma referência para nossos narradores. Sua forma de atuar como pároco e sua influência sobre a vida pública e privada fez com ele parecesse necessário e indispensável.

  Ao tratar do tempo da memória, Rousso (2006, p.94) afirma que “a memória é incontestavelmente da atualidade [...]”. Essa afirmação permite-nos destacar uma das imagens de Pe. Mathias apresentadas por D. Elsa, quando provocada a tratar da ausência do pároco. Suas lembranças o elegeram como um “homem batalhador” e que daria conta de anular as “malandragens” do presente. Ao verbalizar essa impressão, D. Elsa trata daquilo que a desestabiliza e carrega consigo: a idade avançada, o sentimento de solidão, a perda de seu filho, as notícias de violência e a Guaramirim que ela, naquele momento, não reconhecia mais, pois estava envolvida pelas lembranças de seu passado. A frase de D. Elsa não é só uma lembrança, mas uma reelaboração.

  Semelhante ao movimento produzido pelas lembranças de D. Elsa, que nos mostrou o tempo da memória, está a observação do Sr. Francisco Schork, que fala na condição daquele que trabalhou suas memórias e daquele que é o biógrafo de Pe. Mathias. Ao tratar da atuação de Pe. Mathias e daqueles o criticavam, o Sr Francisco Schork pontua:

  Dizem que a unanimidade é burra, e o Pe. Mathias não era santo, ele era um homem que tinha uma visão, uma cultura, um objetivo de vida, que era servir à comunidade e, evidentemente ele não tinha unanimidade, e tinha lá

  31 aquelas pessoas que o criticavam .

  As críticas feitas a Pe. Mathias e o reconhecimento ao seu trabalho também aparecem na narrativa de Sr. Daniel, que considera que

  Na época foi uma ditadura religiosa muito brava, jamais haverá nesse lugar uma ditadura religiosa como foi pregado na época. Mas para hoje, olhando os tempos atrás, na minha velhice olhando para trás eu vejo como era proveitoso aquilo. Arrumou uma cidade [referindo-se a Pe. Mathias]. As mulheres se vestiam decentemente, andavam decentemente, as crianças tinham seus horários religiosos e tudo. Mas era uma ditadura, mas era uma parte que levava uma vida religiosa. Se você não olhar para essa parte, então era uma coisa [referindo-se ao peso das obrigações, dos códigos e interditos impostos pelo pároco católico], se não, foi uma parte muito boa,

  32 muito séria .

  Encontramos na narrativa feita por Sr. Daniel uma crítica compensatória, pois Sr. Daniel avaliou a atuação de Pe. Mathias como uma “ditadura religiosa”, ao passo que, a partir do presente, da sua “velhice, olhando para trás”, enxergou essa “ditadura religiosa” como proveitosa, pois foi a partir dela que Pe. Mathias arrumou a cidade.

  O fato de D. Elsa considerar Pe. Mathias um homem batalhador, de Sr. Daniel tratar da ditadura religiosa vigente no momento em que Pe. Mathias era vigário (tomando essa ditadura religiosa a partir de duas perspectivas) e do Sr. Francisco Schork anunciar a presença 31 de críticos a Pe. Mathias (respondendo o vigário a essas críticas com seu trabalho, com o objetivo de servir à comunidade), convoca-nos a problematizar os esforços desse vigário para ampliar a fé em Guaramirim e a maneira como nossos entrevistados apresentam essas ações.

  Desses esforços, aquilo que Sr. Daniel considera arrumar uma cidade, consideramos aqui que só foi possível porque Pe. Mathias pode contar com o trabalho e as doações de seus fiéis. Schork (2007, p.29), ao tratar dos registros feitos por Pe. Mathias acerca de sua pretensão de estruturar a Paróquia, escreveu:

  [...] necessitava de suporte que desse guarida à sua determinação de estruturar a paróquia em todos os sentidos. Sobre o quanto essa sua maneira peculiar de atuar surtiu resultados práticos, veja o que registrou no Livro Tombo (cf.p. 10 e 11) “Esse trabalho gratuito fez crescer a solidariedade na nova paróquia e trouxe muitas famílias de volta à Igreja”. (Grifo nosso)

  Aquilo que o Sr. Francisco Schork chama de “maneira peculiar de atuar” o Sr. Daniel chamou de “ditadura religiosa”. Não queremos opor a leitura feita por Schork e a leitura feita por Sr. Daniel, apenas chamar a atenção para o controle exercido sobre os fiéis católicos. De fato, era trabalho gratuito, mas essa gratuidade foi resultado de uma estimulação anunciada do púlpito.

  Em relação ao retorno das famílias à Igreja, em 1952 Pe. Mathias fez o seguinte registro no Livro Tombo:

  Aumentou a religião na nova paróquia. Na matriz, já não cabia mais o número crescente de fiéis, tanto que no ano de 1951, foram realizados 341 batizados e 294 primeiras comunhões. Também no ano de 1951, a torre lateral da igreja teve que ser refeita, por apresentar rachaduras em sua estrutura. Um fato lamentável, daquele ano, foi o falecimento dos senhores Dante da Luz e Vicente de Andrade e ferimentos graves sofridos pelo jovem Jorge Hang, em acidente ocorrido, enquanto efetuavam 33 obras de retirada de barro, no terreno situado nos fundos da igreja .

  O registro efetuado por Pe. Mathias permite-nos entender que, já no início da década de 1950, a sistemática de trabalho e o fortalecimento da fé surtiam resultados proveitosos, exceto pelas mortes e ferimentos provocados em decorrência dos trabalhos doados à Igreja. O investimento do pároco para capitanear esses trabalhadores fazia com que ficasse aparente um ciclo experimentado cotidianamente por esses fiéis. Esse ciclo reunia fé, orientação de comportamento, o chamado do líder religioso para trabalhar nas obras da Igreja, doações (dinheiro, animais, alimentos, trabalho ou qualquer outro bem), punições, vigilância e 33 educação de crianças e jovens dentro de uma lógica religiosa.

  O propósito era servir à comunidade, conforme nos lembra o Sr. Francisco Schork. Em decorrência desse propósito, aproximadamente duas dezenas de igrejas foram construídas, reformadas e ampliadas. A implantação ou ampliação dessas igrejas exigia que, junto delas, se organizasse uma estrutura física para atender à comunidade, como a construção e a instalação das casas das irmãs; para tanto, precisava que a comunidade se envolvesse ainda mais.

  Nesse ritmo e sistemática de produção iam-se edificando obras e criando a estrutura necessária para o fortalecimento e a expansão do catolicismo na cidade. Assim, à medida que Pe. Mathias se tornava mais presente nas comunidades, ia sendo constatado o crescimento do número de fiéis católicos praticantes e obedientes às suas diretrizes.

  A doação feita pelos fiéis, incluindo dias de trabalho, pagamento de dízimos, prendas para a realização de festas de padroeiros e a participação nessas festas, não era suficiente para que essas construções fossem realizadas, embora, segundo Schork (2007, p.47),

  A área financeira da matriz era uma espécie de banco, onde Pe. Mathias fazia as transações entre as capelas, emprestando dinheiro de uma para outra e aplicando da melhor forma possível, nada fugindo ao registro de quem devia a quem.

  Assim como o número de fiéis, a receita da paróquia também cresceu. A movimentação do caixa contava com as já referidas doações de fiéis e com a captação de verbas junto às autoridades políticas locais e regionais. Seu trânsito entre os políticos ficou mais evidente com a construção do Hospital Santo Antônio, hoje chamado de Hospital Pe. Mathias.

  A construção do hospital na proporção em que foi projetado (Figura 10) exigia grandes investimentos financeiros e grande disponibilidade de mão de obra. Para a primeira necessidade, Pe. Mathias foi buscar mais recursos entre seus fiéis, junto a instituições da Alemanha e junto a autoridades e políticos locais e regionais, principalmente aqueles filiados à União Democrática Nacional (UDN), como o ex-deputado federal Lauro Carneiro de Loyola 34. e o ex-prefeito de Joinville Nilson Wilson Bender O ex-deputado Lauro Carneiro de Loyola era uma espécie de mediador de Pe. Mathias na busca de recursos com outras autoridades e políticos, fossem eles filiados à UDN ou ao PSD; conforme Schork (2003, p.8), o segundo lote de doações para o hospital contou com a participação do governo federal e do governo 34 estadual, destinando os seguintes valores:

  

Lauro Carneiro de Loyola assume a função de deputado federal em 1956 e fica nesse partido até a data de seu

encerramento em 1965, filiando-se e elegendo-se posteriormente para novos mandatos pela Aliança renovadora

  Governo Federal: Gabinete do Presidente Café Filho Cr$ 50.000,00 Gabinete do Presidente Nereu Ramos Cr$ 300.000,00 Gabinete do Presidente Jucelino Kubstchek Cr$ 1.700.000,00 Obs.: O dep. Fed. Lauro C. de Loyola foi o mediador na consecução destes auxílios. Governo estadual:

Gabinete do Governador Jorge Lacerda Cr$ 10.000,00

Gabinete do Governador Eriberto Hülse Cr$ 80.000,00

Gabinete do Governador Celso Ramos Cr$ 30.000,00

  Ao narrar o período que acompanhou a construção do hospital, Sr. João trata da estreita relação de Pe. Mathias com a UDN:

  Ele construiu todas estas capelas, o hospital foi ele também. É muito pouca que foi construída depois do Pe. Mathias. Com alguns prefeitos ele era bem próximo, aí conseguia as coisas, mas se era de outro partido já o negócio já era mais disputado. O que era chegado, era chegado mesmo. Que ele era da situação, da ARENA. A não, bem antes era o PSD e a UDN, bem antes então, na época do início da construção do hospital, depois em 1965 fechou a UDN e o PSD, aí veio ARENA e MDB. Alguns prefeitos, vereadores apresentavam as obras de acordo com as reivindicações do padre, tinha que ser como ele [Pe. Mathias] dizia

  35 .

  A partir da narrativa de Sr. João e das informações sobre as aproximações de Pe. Mathias de figuras do cenário político local, regional e nacional do período em questão, é possível constatar que, por mais que essas informações possam nos levar a crer que Pe.

  Mathias era uma personificação do poder em Guaramirim, há aí implicada uma relação. E essa relação não é unilateral. O pároco não se relacionava só com filiados à UDN e políticos daquele partido, embora o principal responsável pela articulação da doação dessas somas tenha sido Lauro Carneiro de Loyola, udenista. Prova disso é que os registros indicam doações de membros do PSD, partido opositor da UDN, como é o caso de Nereu Ramos, Juscelino Kubitschek e Celso Ramos.

  O quadro contendo as doações e a narrativa do Sr. João fazem-nos crer que essa é uma relação de troca, de interesses, conjugada entre o poder religioso, influência política e capital, mesmo este último sendo dinheiro público. Estamos tratando, portanto, de uma relação de poder. Não entendemos aqui o poder como uma imposição, mas, como nos chama atenção Foucault (1988, p.103), “o poder não é uma instituição e nem uma estrutura, não é uma certa potência de que alguns sejam dotados: [este] é o nome dado a uma situação estratégica complexa numa sociedade determinada”.

  A aproximação entre o poder religioso católico e poder político, em Guaramirim, fez com que fossem viabilizadas e concretizadas todas as obras defendidas por Pe. Mathias. Nesse sentido, percebe-se que a crescente iniciativa de tomar para si essas instituições com características assistenciais fez com que a presença da Igreja católica atuasse de forma centralizadora sobre o corpo de seus fiéis, procurando agir na cura dos males do corpo, da mente e da alma.

  O corpo é o locus: é sobre ele que agem as forças disciplinadoras, é nele que se instalam as forças de poder e saber. É apontando para ele e pensando nele que estão os interditos, as normas comportamentais, as confissões e o trabalho. Assim, são os corpos dos sujeitos, ou melhor, dos fiéis que se pretendia alcançar. Construir um hospital, escolas e igrejas representava cuidar de corpos, mentes e almas. Sujeitos disciplinados, fortes e orientados, seguindo seu líder. Contudo, essa liderança chega ao fim e Guaramirim experimenta um vazio que, depois de 27 anos, causou para uns um sentimento de abandono, de perda, para outros, de alívio.

  No dia 31 de maio de 1976 Pe. Mathias escreve uma carta, de próprio punho (Figura 11), renunciado ao cargo de pároco, mas não de capelão do hospital que construiu. Nessa carta anunciava o perdão àqueles que criticaram seu trabalho apostólico e pede perdão pelas suas falhas. Essa carta antecedeu a realização de sua última missa, celebrada na Matriz Senhor Bom Jesus em 21 de junho de 1975, momento em que anunciou sua partida para Alemanha, não mais retornando a Guaramirim.

  Com os mais próximos manteve contato por muito tempo, por meio de cartas, sempre procurando saber o que estava acontecendo com a Guaramirim que ele havia deixado. Dessa maneira, contribuiu significativamente para que fosse constantemente evocado. Figura 10 – Planta Hospital Santo Antônio Fonte: SCHORK (2007, p.61).

  Figura 11 – Carta de renúncia de Pe. Mathias Fonte: SCHORK (2007, p.51).

  36

  5 CAPÍTULO IV – NÃO SEI SE VOU DIZER, SE VOU TOCAR NISSO...

  Eu daria tudo que tivesse Pra voltar aos tempos de criança Eu não sei pra que que a gente cresce Se não sai da gente essa lembrança Aos domingos missa na matriz Da cidadezinha onde nasci Ah! Meu Deus, eu era tão feliz (Ataulfo Alves, Meus tempos de criança, 1957)

  5.1 O DESEJO DE FAZER LEMBRAR As lembranças da juventude, das relações de trabalho, das experiências religiosas e outras reminiscências que permearam todas as discussões até o presente momento mais uma vez são convocadas, para neste capítulo subsidiar as discussões acerca dos contornos e das enunciações das memórias de Guaramirim, durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, e entender por que essas memórias estão intimamente ligadas à presença e às ações de Pe. Mathias.

  Emerge na cidade um desejo do passado, motivado principalmente pelos investimentos dirigidos a Pe. Mathias. Os esforços para preservar e exibir o passado ficam cada vez mais consistentes na medida em que o poder público municipal toma para si essa responsabilidade. A latente intenção de evitar o esquecimento e protegê-lo está associada à ideia de perda dos referenciais identitários provocada pelo crescimento populacional e às alterações por que vem passando Guaramirim, em decorrência de um número cada vez maior de migrantes, vindos principalmente do Paraná, e da instalação de um significativo número de indústrias e empresas do ramo metal-mecânico e têxtil.

  O passado é colocado na pauta das discussões do poder público com a justificativa de que a cidade já não se reconhece mais, ou pelo menos se vê cada vez mais distante e opaca a imagem de uma cidade que um dia pensou reconhecer.

  Nesse sentido, Anico (2005, p.74), ao discutir essa emergência do passado, observa que

  Perante uma ameaça de ruptura e de desaparecimento de referentes culturais em face da eventualidade da sua assimilação por uma cultura transnacional, por vezes real, por vezes imaginada, assistiu-se a uma crescente valorização das identidades colectivas locais, a qual tem sido acompanhada, não raras vezes, por um sentimento nostálgico em relação ao passado, que é, em função das circunstâncias e necessidades do presente, resgatado, interpretado, recriado, inventado e processado através da mitologia, das ideologias, dos nacionalismos, do romanticismo, dos localismos e, em alguns contextos, da gestão e do marketing cultural.

  Esse apelo ao passado geralmente está associado a estratégias de proteção e valorização de uma memória como resposta ao desconforto provocado pela leitura de um presente instável. O passado deixa de ser tomado como tempo e, com uma localização distante, passa a ser objeto, passível de ser apresentado, inventado, interpretado e negociado.

  A intenção de manter vivo o passado de Guaramirim motivou a Prefeitura Municipal e mobilizou a Câmara de Vereadores a empreender as negociações e a compra de parte do acervo de objetos e de documentos (muitos deles públicos) que estavam sob a guarda do Sr. Daniel Graudin. Em setembro de 2010, o jornal A Notícia anuncia: “Coleção particular vira

  

acervo público: Prefeitura compra fotografias, objetos, e documentos antigos sobre a

cidade

  37

  . A matéria trata da dimensão do acervo guardado por Sr. Daniel e do valor destinado a essa compra. Assim, em 22 de setembro de 2010 o referido jornal trata da negociação:

  O tesouro guardado há mais de 70 anos pela família Graudin agora virou um patrimônio público de Guaramirim. A Câmara de Vereadores aprovou o projeto para a compra do acervo fotográfico e de documentos do aposentado Daniel Graudin, 75 anos. O valor da compra dos cerca de seis mil objetos, documentos e fotografias foi de R$ 30 mil e negociado com a Prefeitura e o guardião do acervo. O preço foi calculado depois que o material passou pelo inventário do historiador Ademir Pfeiffer, que trabalha no acervo histórico de Jaraguá do Sul. “Eu não tinha um valor específico, porque é um material que não tem preço, mas não tenho mais condições de guardar em minha casa”, disse Graudin, lembrando que a maior parte do material está em caixas. “Tenho medo que estrague. Com a venda sei que vai ser bem aproveitado pela cidade”, ressaltou Graudin.

  Essa negociação

  38

  trata de um deslocamento da função de proteção da memória da cidade, ocupada pelo Sr. Daniel, para a Prefeitura Municipal, que provisoriamente abrigou todos os objetos e documentos adquiridos em uma pequena sala, intencionando transferi-los para junto da biblioteca municipal.

  Foi possível identificar que, junto ao desejo de reconhecer e retomar o passado de Guaramirim, traduzido pela aquisição do acervo pertencente ao Sr. Daniel, caminha um 37 Disponível em: <http://www.clicrbs.com.br/anoticia/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a3047709.xml& processo de monumentalização de Pe. Mathias, iniciado ainda na década de 1980, e que ganha ainda mais força no presente.

  Esse interesse pelo passado aponta para ações de valorização e ativação patrimonial, manifestando desejos e atribuições de sentidos a elementos que são deslocados e retirados de seus contextos sociais, espaciais e temporais e passam a ser incorporados a novas relações. Ao examinar as relações e as novas configurações de tempo e patrimônio, Hartog (2006, p.266) observa que:

  O patrimônio se encontra ligado ao território e à memória, que operam um e outro como vetores de identidade: a palavra chave dos anos 1980. Mas trata-se menos de uma identidade evidente e segura dela mesma do que uma identidade que se confessa inquieta, arriscando-se de se apagar ou já amplamente esquecida, obliterada, reprimida: de uma identidade em busca dela mesma, a exumar, a “bricoler”, e mesmo a inventar.

  O afloramento de um sentimento nostálgico em relação ao passado deixa transparecer as intenções de fazer presente aquilo que parece esquecido. Nos esforços que intencionam a preservação de memórias de uma cidade, transparece uma recriação do passado a partir de desejos e aspirações do presente, deixando de considerar seus múltiplos sons, tons, texturas e hibridismos.

  A memória ofereceu-nos subsídios para problematizar diferentes narrativas de homens e mulheres que dividiram suas experiências e suas leituras do passado; esses sujeitos em muitos momentos silenciaram o verbo, pois, como lembra Benjamin (1994, p.40), “nem sempre proclamamos em voz alta o que temos de mais importante a dizer”, desafiando-nos a pensar sobre quais são os referenciais dessas memórias e como são evocadas e/ou instituídas.

  As evidenciações das memórias que tratam das experiências religiosas e de seus desdobramentos em Guaramirim aparecem traduzidas e refratadas em frases, sorrisos, pausas e silêncios, acompanhadas de saudosismos, estranhamentos, concordâncias e lacunas. Contudo, a memória também será pensada a partir de outras dimensões, que buscam discutir a constituição material de referências para a cidade, como, por exemplo, a estátua que foi erigida para homenagear Pe. Mathias, a alteração do nome do hospital da cidade para “Hospital Padre Mathias Maria Stein”, a constituição de um acervo de objetos pessoais dedicados ao pároco e outras produções e publicações que visam dar visibilidade à sua vida e às suas realizações.

  Ao transitar nesse amplo e irregular terreno das memórias, avolumam-se e ampliam-se as versões, as descontinuidades e as porosidades das narrativas, e representam o ponto de querer lembrar e deixar esquecer. Mas o desejo de lembrar não é somente um desejo espontâneo, é também um desejo instituído e que, no caso de Guaramirim, ora converge e ora diverge das memórias de muitos moradores da cidade. A partir dessa perspectiva, é preciso reconhecer que existem significativas diferenças entre a lembrança e a memória, e também considerar que é frequente a apropriação da lembrança e da memória pela História, em um exercício dialógico que as aproxima e as diferencia.

  Ao reconhecermos essa condição volátil da memória, passamos a sublinhar algumas ações que pretendem revestir fatos de lembranças previamente demarcadas, uma vez que essa

  39

  volatilidade é permeada pela intenção de sacralizar a imagem de Pe. Mathias. A referida imagem resulta de uma soma de elementos discursivos que apontam Pe. Mathias como um grande homem, uma figura ímpar e indispensável para a cidade, um vigário não só preocupado em desempenhar suas funções sacerdotais, mas também com poder de interferir na vida pública e privada da população da cidade.

  Nessa dimensão discursiva, aparecem lembranças marcadas pela saudade “do tempo

  40

do Padre Mathias ” e pela rejeição do vigário e das experiências resultantes de sua presença

  e ações. Os polêmicos desencontros evidenciados pelas memórias sobre o vigário são trazidos à baila por todas as pessoas que concederam as entrevistas realizadas nesta pesquisa, inclusive por seu biógrafo oficial, o Sr. Francisco Schork.

  O Sr. Francisco Schork iniciou seu trabalho como biógrafo através de artigos

  41

  publicados em um periódico de circulação regional, o Jornal do Vale , durante a década de 1980, quando principiou suas investigações acerca da vida de Pe. Mathias e ensaiou uma positivação da imagem do religioso através de uma série de artigos publicados em 1987 sob o título Monsenhor Mathias – Sua Vida e sua Obra.

  Em 2003, com a publicação do livro Hospital Santo Antônio: 50 anos assistindo vidas

e renovando esperanças , o Sr. Francisco Schork destaca os incansáveis esforços de Pe.

Mathias na concepção e conclusão das obras do hospital, onde o sacerdote é revestido de um espírito empreendedor e visionário. Seus comentários são sustentados pelas informações e interpretações extraídas de documentos da Paróquia Senhor Bom Jesus, de Guaramirim, a

  39 Recorremos à metáfora da sacralização para iniciar a discussão que se propõe a entender por que Padre

Mathias aparece de maneira recorrente entre nossos entrevistados e por que há uma intenção de se positivar essas 40 lembranças. 41 RIBEIRO, op. cit. exemplo do Livro Tombo, além do acervo fotográfico pessoal de Pe. Mathias confiado ainda em vida a seu biógrafo.

  A partir de suas lembranças, o Sr. Francisco Schork (2003, p.31) escreve:

  Lembro-me, como se fosse hoje, que nas muitas vezes em que Padre Mathias falava em suas celebrações sobre o Hospital, sempre se referia carinhosamente como “nosso Hospital”, pois, mais do que ninguém, ele sabia que a sua edificação foi possível porque, como líder incontestável da causa, foi capaz de superar barreiras, fossem elas de credo, raça ou conotação política, assim levando a cabo uma obra que, a bem da verdade, sejamos sinceros e honestos conosco mesmos, Guaramirim jamais teria visto se concretizar, ao menos nos moldes que se concretizou, se não fosse a determinação inabalável de Padre Mathias.

  Nessa afirmação, que reconhece nesse pároco a inabalável determinação e que o descreve como “líder incontestável”, o Sr. Francisco Schork registra sua motivação para escrever sobre a vida pastoral e as obras atribuídas a Pe. Mathias: suas lembranças.

  Em homenagem ao centenário de nascimento de Pe. Mathias, em 2007, o Sr. Francisco Schork lança uma nova publicação: Padre Mathias, monsenhor Stein: amor incondicional a

  

Deus e zelo incansável pelo bem-estar do povo , onde procura evidenciar todas as obras físicas

  e espirituais realizadas pelo vigário. Em relação à administração da paróquia e sobre sua perseverança, escreve:

  Há que se reconhecer que Padre Mathias possuía um grande tino administrativo e arrojado espírito empreendedor, tanto isso é verdade que, tão logo tomou pé da situação da nova paróquia, passou a agir e as construções foram aparecendo, até simultaneamente, em pontos diversos do município. (SCHORK, 2007, p.27)

  Procurando externar sua gratidão e reconhecendo a importância de Pe. Mathias em sua vida pessoal, Francisco Schork dedica-se a mostrar como esse pároco também fora importante e decisivo para Guaramirim se estruturar como cidade. Sobre essa questão, remetemos ao seguinte trecho:

  [...] a preocupação de Padre Mathias, ia muito além do atendimento às necessidades espirituais de seus paroquianos, encarregando-se também em criar condições de saúde, educação e meios que proporcionassem à comunidade local, melhor qualidade de vida. (SCHORK, 2007. p.39)

  Suas produções sobre a vida de Pe. Mathias e a maneira como o descreve, sempre preocupado em investir no bem-estar da população, motiva a produção do documentário

  

Homenagem ao centenário de nascimento de Monsenhor Mathias Maria Stein , no ano de

  2007, organizado pela Câmara de Vereadores de Guaramirim. Essa produção audiovisual é resultado da soma de homenagens oficiais dispensadas ao pároco por ocasião do seu

  42 centenário de nascimento .

  As alegorias construídas com a pretensão de descrever quem foi Pe. Mathias nos provocam a pensar se o que foi apresentado pelo jogo de velar e revelar da memória diz respeito ao pároco em questão ou remete às ressonâncias de suas práticas evidenciadas, ao desejo de fazer lembrar, que pretende proteger e blindar a imagem daquele que é lembrado.

  Em decorrência dessas alegorias, aparecem outras versões, leituras e interpretações sobre as experiências religiosas em Guaramirim. Essas memórias são embaladas por um movimento pendular que aponta para outras lembranças sobre Pe. Mathias, que reconhecem a versão apresentada no exercício biográfico, que ganham corpo com o documentário e as homenagens prestadas em comemoração ao centenário de nascimento, mas que não param por aí.

  Ao narrar sua relação com Pe. Mathias, Sr. Abílio, a quem o pároco chamava de Borba, faz referência a um padre muito presente na vida da sua comunidade e, em decorrência dessa presença, para o Sr. Abílio, o pároco se mostrava, em muitos momentos, severo e controlador. Segundo Sr Abílio: “o que ele queria dizer, e pedir e xingar, ele fazia, né? Isso

  43 ” . porque ele sabia tudo que acontecia, dizia que sabia, não sei

  A maneira como Sr. Abílio apresentou suas lembranças sobre Pe. Mathias e a maneira como esse padre tratava seus fiéis se aproxima da narrativa feita pelo Sr. João Pereira. O Sr. João Pereira lembra que

  [...] tinha aquele que tinha muito medo do Padre Mathias, que dizia que o cara tinha que fazer se não ele excomungava, ele era rígido mesmo e tinha aquele revoltado que até mudava, ia pra Jaraguá pra missa, principalmente esse pessoal mais grande de Guaramirim, não assistiam à missa do Padre Mathias, iam pra Jaraguá, os maiores aqui de Guaramirim, eu não vou citar

  44 nomes porque não é bom citar, né?

  Não se trata de uma oposição das memórias. É preciso destacar que, entre os entrevistados, inclusive na entrevista realizada com o Sr. Francisco Schork, essa questão também aparece de maneira aberta; não existe uma fronteira demarcada com exímia precisão que separa a imagem de um sujeito intensamente envolvido com suas obrigações sacerdotais e disposto a colaborar com o desenvolvimento da cidade, da imagem de um severo e rigoroso 42 padre que capitaneava a vida de seus fiéis de cima do altar ou de dentro do confessionário.

  

Homenagem ao Centenário de Nascimento do Monsenhor Mathias Maria Stein. Câmara de Vereadores de

43 Guaramirim. Guaramirim: Foto Sul. Filmagem/Edição Jaimir Kunz. 2007. (1:11’.10’’). Son. Color. Port.

  Essa pluralidade de imagens trazidas pela evocação de lembranças localizadas em um tempo que parece distante e difícil de traduzir, de um tempo específico, nomeado pelos entrevistados de “naquele tempo...”, são represadas e separadas, sendo de um lado colocadas as lembranças dos moradores que conheceram e conviveram com Pe. Mathias e de outro lado os registros encontrados nos documentos da paróquia e nas produções oficiais, sejam bibliográficas ou audiovisuais.

  É o anseio em preservar uma memória que por vezes parece opaca e o desejo de registrar aquilo que se considera importante para ser lembrado sobre a cidade que motiva os registros feitos sobre Pe. Mathias até agora. Conforme sublinha Albuquerque Júnior (2006, p.13), “temos muita dificuldade em pensar o sujeito como um exercício, como uma função que se exerce numa ação, que não vem antes do discurso, mas é seu resultado final [...]”. Entretanto, cabe dizer que, ao se problematizar a maneira como esse sujeito foi enredado, tomado como referência, negado e rejeitado, pode-se mostrar que, ante essa heterogeneidade de falas, lembranças, impressões, imagens, registros e discursos, o sujeito pode ocupar diferentes posições, conforme é tomado.

  Apreender e transitar entre as práticas discursivas que constituíram a imagem de Pe. Mathias em suas variadas formas, sem hierarquizá-las, considerando de onde partem as falas daqueles que as produzem, é uma tarefa muito delicada, porém instigante, pois se trata de refletir como alguns discursos produziram dizibilidades e visibilidades, considerando a legitimação de uma determinada imagem constituidora de um sujeito “rigoroso” e “justo”, e que contrasta com a imagem de um sujeito “intransigente” e “poderoso”.

  Ao deslocar Pe. Mathias da sua condição de vigário da cidade e tomá-lo como um sujeito resultante de uma invenção discursiva, consideramos que as construções discursivas se projetam sobre esse pároco e em grande medida projetam a imagem do próprio pároco. Nesse sentido, aproximamos estas reflexões de Foucault (2009, p.9), que afirma que

  [...] a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade.

  Nesse sentido, a produção de discursos sobre Pe. Mathias, impressa em publicações, no documentário em homenagem ao seu centenário e nas solenidades públicas a ele destinadas, que o apresentam como uma figura indispensável à cidade, visa se sobressair em relação às outras imagens do padre que circulam pela cidade.

  A intensa reverberação de falas e pronunciamentos presentes nas memórias daqueles que falam na e da cidade traz, em narrativas saudosas e delicadas, lembranças que tratam de suas experiências, e frequentemente entre essas experiências aparecem momentos envolvendo Pe. Mathias. Essas falas repelem e se aproximam de uma constante enunciação do que foi e representou a presença desse clérigo para a cidade, portanto assumem outros contornos, para além das enunciações que criam e instituem determinada realidade.

  5.2 A VONTADE DA VERDADE: A CONSTRUđấO DE UMA ỀMEMốRIA HISTÓRICA” PARA GUARAMIRIM

  Contrariar a fúnebre imagem do trabalho de luto efetuado pelo esquecimento é o que motiva, ampara e sustenta o exercício de lembrar. Assentados em um constante desejo de evocar o passado, através deste exercício aparecem indícios, fragmentos e fatos que são tomados como referência, a fim de provocar e afrontar a poderosa condição do esquecimento. Entretanto, essa condição, apesar de poderosa, também apresenta fragilidades, uma vez que a localização da lembrança se mostra incerta e transita irregularmente entre o presente e o passado. É na instabilidade do movimento causado pelo exercício da lembrança que surgem condições para que algumas pessoas, datas e lugares sejam lembrados e tomados como referência oficial da história de uma cidade.

  Essas referências tornam-se oficiais na medida em que documentos são manuseados, interpretados e passam a servir a interesses voltados para explicar um passado instalado em um tempo distante; porém, também podem provocar um efeito contrário, inspirando e motivando uma releitura que conteste a ideia de um passado preso a si mesmo.

  Conforme sublinhou Foucault (1987, p.7),

  [...] o documento, pois, não é mais, para a história, essa matéria inerte através da qual ela tenta reconstituir o que os homens fizeram ou disseram, o que é passado e o que deixa apenas rastros: ela procura definir, no próprio tecido documental, unidades, conjuntos, séries, relações.

  Assim, é preciso tratar os mecanismos oficiais que pretendem fazer recordar Pe. Mathias como mecanismos motivados pelo reconhecimento de sua importância para Guaramirim, pelo sentimento de gratidão e pelo interesse em fazer recordar um passado cheio de êxitos; esses sentimentos e pretensões em grande medida nos soam como provocadores.

  Nessa esteira, trazemos à baila a primeira homenagem feita a esse pároco, em 13 de atribuiu ao Sr. Mathias Maria Stein, vigário do município, o título de “Cidadão Honorário”. Esse título demarca oficialmente, entre as autoridades municipais e os demais munícipes, o poder de interferência desse padre, uma vez que era muito próximo de autoridades políticas filiadas ou coligadas à UDN, o que facilitava seu trânsito regional e estadual em busca de recursos para suas obras. Esse título reafirmou, entre seus fiéis, seu compromisso com a cidade, sendo também uma forma de retribuir sua escolha por Guaramirim, pois nasceu na Alemanha, e escolheu Guaramirim para atuar como sacerdote.

  Figura 12 – Documento emitido pela Câmara de Vereadores de Guaramirim que concede a Padre Mathias o título de cidadão honorário da cidade

Fonte: Câmara de Vereadores de Guaramirim. Disponível em: <www.cmg.sc.gov.br/pdfs/certificados/1.JPG>.

  

Acesso em: 13 abr. 2011.

  Há uma distância temporal de aproximadamente duas décadas entre a homenagem da Câmara de Vereadores de Guaramirim, através do título de cidadão honorário, e os artigos publicados pelo Sr. Francisco Schork no Jornal do Vale. Nos artigos publicados durante o ano de 1987, o professor e biógrafo Francisco Schork pontua cronologicamente a trajetória religiosa de Pe. Mathias, bem como demarca cada uma de suas obras, que incluem desde a construção de igrejas, salões comunitários, escolas, chegando ao hospital municipal. Em todos os artigos, procurou justificar a maneira como o pároco conduzia a vida religiosa de seus fiéis, além de revestir de nobres propósitos a maneira como os recrutava para trabalhar em suas obras e angariava as doações para as mesmas, afastando as críticas e diminuindo os enfrentamentos em relação àqueles que não concordavam com o padre. Ao tratar dessas convocações e do controle realizado sobre esses grupos de trabalho, Schork (2007, p.29) destaca:

  Padre Mathias inovou na maneira de trabalhar, criando as chamadas turmas de trabalho, sempre com um líder escolhido “a dedo”, dentre aqueles que lhe inspirava confiança, tanto na matriz quanto nas capelas.

  Em relação à presença de tais críticas e das curiosidades sobre a vida pessoal desse pároco, que se avolumavam e ganhavam outros contornos entre os munícipes, seus fiéis ou não, aí incluído o autor de sua biografia, registra:

  [...] Abro aqui um parênteses, para revelar que sempre tive curiosidade de conhecer mais de perto a vida deste homem, haja visto na minha infância, ter ouvido as mais desencontradas “Estórias”, que tanto se contava a seu respeito e as conjecturas que as pessoas faziam sobre elas, pois há um dito popular que diz: os grandes ventos e furacões nunca se preocupam com as ervas rasteiras, mas sim, procuram derrubar as árvores frondosas e altas. (Jornal do Vale, segunda quinzena de agosto/1987)

  É possível observar que essa preocupada enunciação não era apenas com a preservação da imagem de Pe. Mathias, mas com aquilo que faria lembrar Pe. Mathias e com o legado deixado pelo clérigo. Essa pretensão ganha corpo a cada artigo publicado e se amplia na medida em que entram nesses artigos algumas falas e desejos do clérigo. Diante das recordações que são apresentadas como recomendações de Pe. Mathias e diante dos princípios ideológicos defendidos pelo referido pároco, Sr. Francisco Schork escreve:

  Mons. Mathias foi um zeloso defensor da fé e da religião, dentro de seus princípios e de sua formação. Mas... não ficou só nisto, as obras paroquiais se espalham pela cidade e pelo interior

de Guaramirim, Schroeder e Araquari durante seu tempo.

Lembro-me que certa vez, nas minhas férias de seminário, ao levar-me para visitar o novo salão paroquial, disse-me: “Francisco, eu só espero que no futuro, consigam conservar o que até aqui foi feito com tanto sacrifício”. (Jornal do Vale, segunda quinzena de outubro/1987)

  Esses artigos foram lentamente reforçando a imagem de grande líder indispensável à cidade, apontando Pe. Mathias como merecedor de uma condição de imortalidade proporcionada pelas lembranças ligadas aos “grandes homens”; entretanto, para seu biógrafo esse status somente seria alcançado com a escrita oficial de sua história.

  A ideia de resgate é um dos principais motivadores que resultam na construção do livro dedicado a tratar do Hospital Santo Antônio, publicado na ocasião em que o hospital comemorava 50 anos. Para organizar a pesquisa e escrever esse livro, o professor e biógrafo contou com documentos a ele especialmente confiados. Entre esses documentos estão o Livro Tombo da Paróquia Senhor Bom Jesus, as atas de criação do hospital, fotografias e especialmente as de 1984. Nesse último ano, entre suas habituais correspondências com o pároco Francisco Schork, solicitou a Pe. Mathias que lhe enviasse algo sobre sua biografia pessoal.

  Aquilo que na apresentação do livro inicialmente poderia parecer um jogo de palavras, uma figura de linguagem, pois o livro trata da história do hospital da cidade, uma instituição destinada a cuidar das fragilidades, mazelas, e evitar a falência do corpo, era uma forma de expressar um dos propósitos que contribuíram para escrita desse livro. Segundo o autor:

  Resgatar o que já parecia esquecido e até porque não dizer, largado às traças do tempo, transcendeu a simples tarefa de pesquisa, desembocando no desaguadouro de um grande treino da minha paciência pessoal, indo não poucas vezes aos limites das minhas forças físicas e psíquicas. (SCHORK, 2003)

  Analisar e escrever sobre um determinado fato implica fazer escolhas; entre essas escolhas estão as opções metodológicas, conceituais e as formas de tratamento dispensadas aos sujeitos envolvidos. Nesse sentido, ao citar seu desejo de “resgatar o que já parecia esquecido e até porque não dizer, largado às traças do tempo [...]”, o autor toma pra si a condição de guardião das memórias de Pe. Mathias, constituindo-se em uma espécie de “voz autorizada”, uma vez que a utilização do termo resgate nos remete a algo que está em perigo ou que está fadado a desaparecer.

  E, ao discorrer sobre o processo de construção do Hospital Santo Antônio e sua trajetória de meio século, o autor faz a opção de dar visibilidade às ações de Pe. Mathias para captar recursos para a construção do hospital, de registrar as doações feitas por algumas famílias mais capitalizadas da cidade e destacar a aproximação desse pároco de políticos das décadas de 1950 e 1960, como o ex-deputado federal Lauro Carneiro de Loyola, o ex-prefeito de Joinville Nilson Wilson Bender, do ex-governador e ex-senador Celso Ramos, o ex- governador Irineu Bornhausen, entre outros políticos desse período.

  Em meio a essa construção discursiva que projeta Pe. Mathias como uma espécie de herói da cidade, é preciso pontuar que, além de registrar os desmedidos esforços para construir o hospital e sua aproximação de políticos do período, o autor registra a vinda e a presença de freiras responsáveis por atender às demandas do hospital e pelos cuidados com os doentes. Entre essas religiosas estavam as irmãs da Divina Providência, as irmãs da Congregação das Filhas de Nossa Senhora do Monte Calvário e as irmãs da Congregação de Maria – Irmãs Maristas. Porém, todas essas religiosas estavam submetidas às orientações do padre.

  No capítulo que o autor chama de “Anotações Soltas”, escreve sobre as lembranças de pessoas que trabalhavam nas obras de construção do hospital:

  Os mais idosos se lembram que estes pastos eram repletos de pedras. Então, Padre Mathias, vendo tanta pedra e um hospital para construir, certamente teve a ideia de conclamar, durante suas missas dominicais, os colonos a trazerem carroçadas de pequenas pedras que serviam muito bem para fazer os alicerces. (SCHORK, 2003, p.38)

  A influência e o poder de Pe. Mathias sobre seus fiéis era tão visível que essas marcas não ficaram só nas memórias daqueles que acompanharam a construção das obras orquestradas pelo pároco: estão presentes também nos livros produzidos pelo Sr. Francisco Schork, inclusive naquele que foi dedicado ao hospital. Sobre a influência e o poder desse padre sobre a vida das pessoas, escreve o autor:

  Parte do tempo utilizado para os avisos paroquiais nas missas dominicais eram dedicados (sic) à escalação das turmas de trabalho da semana seguinte, isso tanto podia ser para iniciar a construção de uma nova capela, ou um salão de festas e, durante pelo menos 15 anos, de quando em quando, uma nova ala do hospital, conforme os recursos financeiros apareciam. Fazendo uma respeitosa brincadeira, podemos dizer que Padre Mathias era nada menos do que o técnico Felipão [referência a Luiz Felipe Scolari], que trouxe o Penta para o Brasil, que às vezes, mesmo enfrentando críticas infundadas, seguia tenazmente em frente, porque assim como o Filipão (sic), nosso vigário conhecia sua equipe, nome por nome, e cobrava sim a participação, mostrando como resultado prático cada novo alicerce ou parede [...]. (SCHORK, 2003, p.38)

  Em meio à sua narrativa, Sr. João lembra o envolvimento da sua família nas obras da igreja e das convocações que aconteciam ao final das missas:

  45 Nós éramos convocados. Existia o Rafael Marangoni , que até aqui em

  46 casa mesmo pertencia pra Guaramirim , então a gente era praticamente quando pegava mesmo lá a cada oito dias, tinha que ficar um dia lá, tinha uma época. Aí um dia lá no Salto foram tirar uma madeira com machado, daí o cara, o pai tava cá embaixo derrubando, e o cara derrubou uma árvore lá em cima e o pai tava lá e pegou uma ripa e pegou no ombro do meu pai e quebrou a cravícula (sic) do pai, ele ficou três meses sem poder trabalhar, e a gente pobre, fogo, né? Daí o Padre Mathias lá marcando os dias, eu sei dizer que quando fomos pagar tava uns trinta dias devendo pra igreja. Ele marcava lá, se não pagava tava lá marcado, tinha que pagar.

  Tinha que participar dos dias trabalhando. Tinha dias que eu ia e ficava oito dias trabalhando direto lá para pagar esses dias que o pai tinha, que ele bem podia perdoar, eu acho, né? (sic), porque o pai se machucou lá e o

  47 45 pau atingiu ele lá, depois ficou sem trabalhar .

  

Responsável por organizar os integrantes do grupo de trabalho, chamados de turmeiros, da região em que o

46 entrevistado estava inserido.

  É entre o reconhecimento de uma liderança incansável e lembranças marcadas por desafetos e mágoas que se compõem as contrastantes imagens de Pe. Mathias. São esses contrastes que nos permitem perceber que as publicações realizadas por Schork são também frutos de um trabalho de memória, portanto resultantes de leituras que partem do presente.

  Na apresentação de seu segundo livro, Padre Mathias, Monsenhor Stein: Amor

  

incondicional a Deus e zelo incansável pelo bem-estar do povo , publiciza sua aproximação

  com Pe. Mathias, demonstrando a preocupação e o desejo de atribuir àquilo que está impresso um tom de verdade. O autor anuncia, nesse livro, seu compromisso pessoal com o pároco e reforça esse compromisso a cada página, sendo que, já no início, enfatiza:

  Querendo fazer jus ao meu compromisso com ele, publiquei, no transcorrer do ano de 1985, uma série de artigos através do Jornal do Vale e finalmente agora faço chegar sua rica e inédita biografia com a publicação desta obra, para que o povo de Guaramirim possa orgulhar-se de ter convivido com uma pessoa tão expressiva, quanto foi Padre Mathias. (SCHORK, 2007, p.9)

  A história de vida de Pe. Mathias foi projetada nas 104 páginas do livro em que Francisco Schork cuidadosamente selecionou, decantou e ordenou os acontecimentos envolvendo esse pároco. Segundo Sr. Daniel, a pesquisa para a realização desse livro contou com a colaboração de suas lembranças e com a análise de alguns documentos que no momento ainda estavam sob os cuidados de Sr. Daniel. Sr. Daniel conta que “quando o

  

Schork estava fazendo aquele livro sobre o Pe. Mathias ele esteve aqui em casa tirando uns

  48

dados ” , embora essa informação não apareça em nenhum momento no livro, o que nos faz

  supor que as lembranças e os documentos que o Sr. Daniel tinha para oferecer não atendiam aos objetivos da pesquisa realizada pelo Sr. Francisco Schork.

  A imagem desse pároco, impressa no livro, é uma construção apresentada de maneira linear, cadenciada, crescente e cronológica, iniciando com sua infância em Schneppenbach, Alemanha, sublinhando sua vocação sacerdotal, a escolha pelo Brasil e seus estudos de

  49 preparação para o sacerdócio .

  Os relatos e as experiências presentes nesse livro dão visibilidade a nobres propósitos justificados pela fé. A construção de uma autoridade civil e religiosa justifica e diminui seu autoritarismo e atribui um sentido e uma explicação lógica para seus atos, a fim de desconsiderar críticas e leituras contrárias às apresentadas ao pároco. 48 O relato biográfico, para Bourdieu (2006, p.184), 49 SILVA, op. cit.

  

Conforme já discutimos anteriormente, foram confiados a Francisco Schork todos os documentos oficiais,

  [...] se baseia sempre, ou pelo menos em parte, na preocupação de dar sentido, de tornar razoável, de extrair uma lógica ao mesmo tempo retrospectiva e prospectiva, uma consciência e uma constância, estabelecendo relações inteligíveis, com a do efeito à causa eficiente ou final, entre os estados sucessivos, assim constituídos em etapas de um desenvolvimento necessário.

  A composição biográfica de Pe. Mathias feita por Schork buscou instituir um discurso enaltecedor, personalista e engrandecedor, deixando evidente a pretensão de explicar o passado da cidade por meio do Pe. Mathias, criando um sentimento de dívida e gratidão a partir do presente, ficando as lacunas encobertas pela fé. Esse propósito é apresentado quando o Sr. Francisco Schork afirma:

  O fato é que, ainda hoje, mais de 30 anos após sua saída de Guaramirim, basta olhar aqui ou acolá que ele continua vivo, seja através das obras que deixou, seja através da fortaleza que buscou imprimir nos corações e mentes de tantas pessoas, que continuam a admirá-lo e respeitá-lo pelo que foi e pelo que fez. (SCHORK, 2007, p.24)

  A pretensão de registrar e oferecer uma única versão para o passado faz com que a biografia dedicada ao Pe. Mathias seja uma espécie de crivo editor de outras memórias, pois os livros do Sr. Francisco Schork têm ampla circulação na cidade e foram adotados pelo legislativo e pelo executivo municipais como uma importante referência do passado da

  50

  cidade . Essa construção discursiva que projeta Pe. Mathias também se projeta sobre as memórias individuais daqueles que conheceram e conviveram com esse clérigo.

  É nessa oferta de um passado “passado a limpo”, ou seja, sem fissuras, sem rusgas que se sustentassem em motivos concretos, sem oferecer margens para questionamentos ou contestações, um passado sem manchas e merecedor de ser lembrado e reverenciado e solidamente construído nos alicerces da fé, que se assenta o desejo de verdade sobre o passado da cidade.

  É preciso considerar que a memória histórica apresenta o risco de se incorporar à sedutora e confortável versão oficial, transformando os fatos localizados no pretérito e as experiências em convenções que se somam para anular as múltiplas significações. Nesse

  51

  sentido retomamos a fala de D. Maria , em que nos contou ter ganhado o livro escrito pelo Sr. Francisco Schork contendo a biografia do referido pároco. A respeito do contato com esse

50 O documentário produzido e financiado pela Câmara de Vereadores da cidade reforça essa afirmação, pois seu

  

roteiro foi elaborado sob a coordenação e orientação de Francisco Schork, com leituras de grandes trechos do seu

último livro, com imagens da sessão solene em homenagem ao centenário de nascimento de Padre Mathias, que livro, D. Maria faz o seguinte relato: “ganhei esse livro do Pe. Mathias, eu gostei muito sabe,

  52 gostei muito do livro. No livro dele está tudo ali, tudo o que ele construiu ” .

  A leitura da biografia de Pe. Mathias parece ter influenciado as lembranças narradas por D. Maria, principalmente aquelas que não tinham relação direta com suas experiências, como a construção de inúmeras capelas e o hospital. Ao tratar dessas obras, demonstrou em sua fala um reconhecimento de como Pe. Mathias foi importante para Guaramirim, pois foi o idealizador e realizador das principais construções da cidade. Esse reconhecimento destoa do início de sua fala, onde D. Maria identificava esse pároco como sendo “bem rígido, bem, bem,

  53

meu... ” . Fica evidente que nesse momento da entrevista a narrativa de D. Maria se mistura à

imagem de Pe. Mathias apresentada pela biografia do pároco.

  O exercício desenvolvido por Francisco Schork, materializado através da construção de um discurso, é ofertado como uma memória oficial da cidade, ainda que recente; resulta da tentativa de mostrar como a vinda de Pe. Mathias, suas obras, sua influência na vida privada das pessoas e na vida pública da cidade é um exemplo a ser seguido, um horizonte a ser alcançado. Porém, apoiados em Dosse (2009, p.11), e chamados a refletir sobre o peso de escrever sobre a vida de um sujeito tal qual foi Pe. Mathias, é possível percebermos que “escrever uma vida é um horizonte inacessível, que no entanto sempre estimula o desejo de narrar e compreender”.

  Ao analisarmos a maneira como o biógrafo descreve a vida de Pe. Mathias e sua relação de proximidade com ele, encontramos em suas publicações informações carregadas de admiração e saudades. Conforme escreve Schork (2007. p.53):

  A última carta que recebi de Padre Mathias, datada de 05 de março de 1991, não era em tom de mensagem como as demais. Não sei se pressentindo sua partida iminente, mas, continha algo diferente, revelando um tom sem igual, com expressões de muita resignação, mas também do dever cumprido, sempre enfatizando a importância da oração pelas vocações sacerdotais e religiosas, hábito que incutiu e que ainda persiste em nossos dias na paróquia guaramirense. Agradeceu-me pela amizade que sempre nutrimos um pelo outro, por tê-lo acompanhado nas missas e nas viagens assim concluindo, “JUNTOS NO TRABALHO, FOI SÓ PARA A GLÓRIA DE DEUS ALTÍSSIMO”.

  É preciso considerar que, em sua escrita e sua fala, esses sentimentos que demonstram a afetividade, o respeito, o apego e a gratidão e que produzem um discurso sobre esse pároco nos permitem compreender a postura combativa em relação às divergências e aos desafetos 52 que estavam presentes nas relações de alguns fiéis com o clérigo, diminuindo e de certa forma 53 PEREIRA; PEREIRA, op. cit.

  anulando essas experiências, pois o autor logo trata de reafirmar o caráter e os firmes propósitos religiosos que motivam o pároco a recrutar seus fiéis para trabalhar em suas obras. Podemos perceber que esse discurso também serve a outros propósitos, pois aponta para a reprodução daquilo que ajuda a construir: a inviolável memória sobre o vigário.

  Sobre o gênero biográfico e essas construções discursivas, Dosse (2009, p.123) pontua:

  Prestou-se ao discurso das virtudes e serviu de modelo moral edificante para educar, transmitir os valores dominantes às gerações futuras. O gênero biográfico participa, pois, de um regime de historicidade no qual o futuro é a reprodução dos modelos existentes, que devem perpetuar-se.

  Em entrevista, ao tratar dessas afirmações presentes em seus registros bibliográficos e ao ser interpelado sobre as memórias de pessoas que conviveram com Pe. Mathias e divergem dos seus registros, o Sr. Francisco Schork volta-se para a câmera, fixa seu olhar e questiona:

  54 “Aí eu pergunto: o que esses [críticos] deixaram para Guaramirim?” .

  O peso de seu questionamento e a contundência de sua convicção aspiram à incorporação desses fatos e desse discurso, almejando a consolidação de uma memória histórica do padre articulada com a história da cidade. Entretanto, a irregularidade de movimentos provocados pelas lembranças que perfazem os caminhos da memória nos oferece condições para problematizar e questionar essas pretensões.

  Na mesma direção do discurso que deseja postular as memórias positivadas sobre Pe. Mathias encontra-se uma mobilização, realizada no ano de 1984, liderada por fiéis católicos que mandaram construir uma estátua para homenagear o padre. Essa estátua foi erigida em frente à igreja matriz de Guaramirim para celebrar o título de monsenhor concedido ao padre

  55

  pelo Papa João Paulo II, em 28 de julho de 1981. E o homenageado, da Alemanha , agradece dizendo:

  Amados ex-paroquianos. Quantas vezes eu lhes disse do púlpito que Guaramirim será grande, muito grande, sim, se procurarmos realizar a vontade de Deus e altíssimo Pai. [...] A estátua lembra a vós que todos os que construíram as obras da paróquia e das capelas procuraram em primeiro lugar agir com fé, esperança e amor para com Deus e para com o próximo, obtendo progresso na vida espiritual e progresso na vida material da paróquia Sr. Bom Jesus e de Guaramirim. (SCHORK, 2007, p.52)

  54 55 SCHORK, op. cit.

  Figura 13 – Estátua fixada em frente à Igreja Matriz Senhor Bom Jesus

Fonte: Elaine Cristina Machado, 20 abr. 2011. Acervo pessoal.

  Conforme Le Goff (2003, p.526), “o monumento tem como característica o ligar-se ao poder de perpetuação, voluntária ou involuntária, das sociedades históricas (é um legado à memória coletiva) [... ]”. Assim, o ato de construir um monumento dedicado ao Pe. Mathias adquiriu outros contornos, para além do desejo de comemorar seu título e de rememorar suas ações no campo religioso. Em virtude da escolha desse pároco e da edificação de um marco em sua homenagem, evidencia-se o desejo de lembrar aquilo que está relacionado diretamente

  Essas homenagens materializadas pelo título concedido ao vigário na década de 1960, pelos artigos publicados na década de 1980, pela estátua erigida também na década de 1980, pelas publicações e pelo documentário na primeira década de 2000, além da sessão solene e das celebrações religiosas, foram organizadas, projetadas e concebidas convidando a população a se envolver nesse misto de saudosismo, reverência, reconhecimento e respeito, embaladas por memórias precisamente selecionadas e projetadas para serem compartilhadas pela coletividade.

  Assim, seja do púlpito, do altar, da tribuna da Câmara de Vereadores ou por meio da imprensa, é ofertada à população uma versão da memória que é cuidadosamente apresentada como verdadeira, nos convocando a observar de que lugar são enunciados esses discursos que pretendem imortalizar sujeitos e quem os emite.

  Na nota abaixo, é possível perceber esses enunciados e a posição do seu emissor: Figura 14 – Nota pública emitida pelo prefeito em exercício, Francisco Schork, na ocasião da morte de Padre Mathias

  

Fonte: Jornal do Vale, Jaraguá do Sul, ano V, n.158, 31 de maio a 6 de junho de 1991.

  Essa nota publicada no jornal, que agradece ao ex-pároco por toda a sua obra e anuncia com pesar o falecimento de Monsenhor Mathias, presta uma homenagem do

  56

  executivo municipal em nome do povo de Guaramirim. Mas, apesar da dor da perda, registrada em nota pública em um jornal de circulação regional, a morte de Monsenhor 56 Mathias serve como mais um motivador para ampliar o culto à sua memória.

  Em 2007, a cidade organiza-se oficialmente para prestar novas homenagens ao ex- vigário. Dessa vez, os motivos que levaram à organização de eventos públicos foi a comemoração do centenário de nascimento do clérigo. Para organizar os eventos que marcaram as comemorações do “Jubileu Áureo de Padre Mathias”, uma comissão liderada pelo então vigário, Padre Everton, foi composta. Essa notícia foi reproduzida pela imprensa, mesclando expectativa e euforia. Assim publica o Jornal do Vale:

  Neste dia 15 de junho de 2007, comemora-se o centenário de nascimento de Monsenhor Mathias Stein, popularmente conhecido em Guaramirim como Padre Mathias. Embora, já transcorram 31 anos que tenha deixado a paróquia Sr. Bom Jesus, retornado a sua terra natal, na Alemanha, onde veio a falecer no ano de 1991, sua imagem como homem de dedicação plena ao Reino de Deus continua viva no coração de muitas pessoas com as quais conviveu. [...] Para resgatar a sua trajetória de vida, a paróquia Sr. Bom Jesus, sob a liderança do atual vigário, Pe. Everton, está incentivando uma série de eventos em comemoração ao centenário de nascimento de Monsenhor Mathias, a partir da Festa do Padroeiro da paróquia, no próximo dia 05 de agosto, ocasião em que será lançado um livro revelando detalhes da vida e da obra de Monsenhor Mathias. (Jornal do Vale, 14 jun. 2007)

  Nesse contexto, essa comissão, composta somente por alguns sujeitos, toma para si a missão de fazer lembrar, registrar e evidenciar marcas do passado. Os eventos organizados por essa comissão estão marcados pela ideia de resgate de um passado sem rupturas, contínuo, justificado pelas ações realizadas “em nome da fé”. Um passado recomposto, editado e apresentado sob uma versão gloriosa.

  Essa ação de resgatar uma trajetória de vida parece-nos perigosa porque sugere que ela estava sepultada e esquecida, o que contraria todas as ações empreendidas para fazer lembrar o vigário, além de desconsiderar as lembranças acerca de Pe. Mathias que não aparecem entre as projeções na mídia, nas publicações, no documentário e nas homenagens públicas.

  Entre os eventos que marcaram essa comemoração estão uma exposição contendo objetos de ofício, objetos de uso pessoal, fotos e indumentárias utilizadas pelo padre enquanto ainda exercia sua função sacerdotal em Guaramirim. Missas foram realizadas em ação de graças às suas obras no campo material e espiritual. Além da missa, chamada pela imprensa de “Celebração Solene”, ocorreu o lançamento do livro contendo a biografia de Pe. Mathias.

  O Jornal do Vale noticia esse evento, através de seu colunista e do próprio autor do livro, o Sr. Francisco Schork, da seguinte maneira:

  Pe. Mathias - Monsenhor Stein Finalmente, depois de muito pesquisar, resumir, analisar, ouvir opiniões e a avaliação crítica de pessoas abalizadas, neste último dia 05 de agosto foi lançado, durante celebração solene na Igreja Matriz Senhor Bom Jesus de Guaramirim, o livro que narra a história de Monsenhor Mathias, aliás, a figura humana mais marcante de toda a existência de Guaramirim. Com o indispensável incentivo do Pe. Everton, atual vigário, e contando com o apoio de mais de três dezenas de benfeitores e da comissão encarregada dos festejos relacionados ao centenário de nosso homenageado é que a publicação desta obra acabou sendo viabilizada. Sem dúvida, ser o biógrafo de Padre Mathias me deixou a alma transbordante de alegria e plena de felicidade, até porque ler o livro “Tombo da Paróquia”, de ponta a ponta, em busca de informações foi uma experiência única, que contribuiu para decifrar enigmas da vida deste religioso, como informações que se mantinham encobertas, assim podendo entender que de fato, como ninguém, ele soube colocar- se a serviço do Reino de Deus, alternando firmeza e amabilidade em suas ações. [...] O fato é que passados mais de 31 anos de seu retorno à terra natal, sua memória continua viva, bem como suas palavras a ecoar em nossas mentes e corações. (Jornal do Vale, 9 ago. 2007)

  Esse trecho representa uma reafirmação do sentimento de gratidão do biógrafo em relação a Pe. Mathias, além de abertamente mostrar sua intenção de elevar o pároco à condição de herói local.

  Homenagens ao clérigo também foram feitas na Câmara de Vereadores, que resolveu financiar a produção de um documentário (Figura 15) sobre a vida de Pe. Mathias, baseado na biografia apresentada no livro Padre Mathias, Monsenhor Stein: amor incondicional a Deus e zelo incansável pelo bem-estar do povo .

  A fé e a maneira como o Pe. Mathias conduziu as comunidades católicas do município aparecem no documentário, nas comemorações do jubileu áureo e nas publicações sobre o vigário como condicionantes na constituição da vida pública de Guaramirim. Contudo, embora carregadas desse enaltecimento personalista, as comemorações aparentemente incorporadas pela população podem ser questionadas, pois moradores que viveram no período de atuação do padre na cidade evidenciam falas que contradizem o “zelo incansável pelo bem- estar do povo”. Sr. Angelo, exitoso em falar sobre a maneira como Pe. Mathias tratava os fiéis que não obedeciam a suas orientações, narra:

  Ele era, vamos supor assim, rigoroso, ele era rigoroso. Por exemplo, o que que (sic) eu vou dizer? [pausa]. Não sei se eu vou tocar nisso... Ele, vamos supor, uma mulher usava uma blusa decotada, ele não deixava entrar, vestido curto, calça comprida, também não podia entrar, ele aquelas ali não aceitava. [...] Tinha que estar com o véu: casada, véu preto, e as moças, véu

  branco. Naquele tempo era com véu. Se não tivesse tinha que andar meio

  57 escondida para ele não ver.

  Depreende-se da fala de Sr. Angelo não só a maneira como o pároco tratava seus fiéis, mas a maneira como rígidos códigos de postura eram impostos a eles, cabendo aos católicos a obediência. Nesse sentido, em se tratando de Pe. Mathias e do universo católico da cidade, zelo e controle são práticas que andam juntas.

  Negar a existência de outras impressões e leituras que constroem discursos e que produzem sujeitos, mesmo que esse sujeito chamado Pe. Mathias pareça o mesmo, pois é evocado com o mesmo nome e com a mesma intensidade, é anular as lembranças de experiências que se espalham pela cidade.

  Para Sarlo (2007, p.25): “A narração, ato que sucede a busca da lembrança na memória, inscreve a experiência numa temporalidade que não é a de seu acontecer (ameaçado desde seu próprio começo pela passagem do tempo e pelo irrepetível), mas a de sua lembrança”. Assim, tomamos como referência o presente enquanto tempo de evocação da lembrança, tempo que permite, àqueles que recordam seu passado e que atribuem outros sentidos às suas experiências, trabalhar suas memórias.

  5.3 ỀLEMBRANđAS COMPARTILHADAS?Ể: A MONUMENTALIZAđấO DE UM HERÓI LOCAL

  Os discursos que se pulverizam, se intensificam pela cidade e que passam a ganhar corpo e consistência, principalmente com as comemoração do “jubileu áureo” de Pe. Mathias, em 2007, têm seus esforços voltados para a monumentalização desse pároco e movem-se a partir de dois vetores, sendo o primeiro responsável por instituir Pe. Mathias como uma espécie de herói local; e o segundo, aquele que concentra seus esforços em dissipar as lembranças que não se aproximam da construção da imagem pretendida por esse discurso.

  Os enunciados sobre a desprendida história de vida desse pároco e a obstinada fé são os marcos referenciais desse discurso. Nesse sentido, os enunciados são como estruturas discursivas que são pronunciadas e repetidas por meio das publicações sobre o padre e sustentam o propósito de serem incorporados pela memória coletiva. As práticas discursivas e não discursivas que caminham na direção de impor uma memória a ser salvaguardada se integram a uma tentativa, mais ou menos consciente, de definir e de reforçar um sentimento de pertencimento. Nessa perspectiva, estamos tratando de um sentimento de pertencimento que orbita entre a cidade que pertence ao padre e o padre que pertence à cidade, excluindo as polifonias e as polissemias presentes em toda a cidade. Os esforços para manter a coesão de um discurso e defender aquilo que um grupo tem em comum apontam para a oferta de uma memória que reforce o sentimento de pertencimento e que possa ser retroalimentada a cada vez que é evocada. Portanto, concomitantemente à tentativa de imposição de uma única versão sobre as memórias da cidade, na medida em que aparecem imbricadas com as memórias sobre o Pe. Mathias, ocorre uma coerção das outras memórias e das outras versões.

  Ao ser convidada a evocar suas lembranças sobre Pe. Mathias, D. Elsa expõe um sentimento que mistura saudosismo e medo, definindo o pároco como um homem muito rigoroso. Segundo D. Elsa,

  Fazia exigência, mais (sic) as pessoas não obedeciam, [...] na hora da missa ele dava uns bréfe (sic) lá mas... O medo era tanto, o medo era tanto que a gente tinha medo de até chegar perto dele, na hora de confessar. Pelo amor

  

58

de Deus dava um medo!

  As lembranças evocadas por D. Elsa não estão sozinhas: quando se trata das rigorosas posturas de Pe. Mathias, outros sujeitos, quando convidados a narrar suas experiências religiosas, as evocam. Ao lembrar de Pe. Mathias, Sr. Abílio o descreve com uma imagem muito próxima àquela evocada por D. Elsa:

  [...] um homem muito rigoroso. O que ele falava tinha que obedecer. Se não obedecesse, se não fizesse como ele queria, do jeito dele, ele chamava a atenção na frente de todo mundo, isso na igreja ou onde a pessoa estivesse,

  59 porque ele conhecia todo mundo, ia na casa da pessoa .

  O tom de evocação dessas lembranças possibilita-nos perceber que há um distanciamento da imagem de quem defende o vigário como um incansável zelador do bem- estar do povo, pois ao dizer que Pe. Mathias era um homem rigoroso esses sujeitos reconhecem seu respeito pelo pároco e reafirmam o poder e o controle que este fazia questão de demonstrar publicamente.

  As problematizações trazidas aqui não pretendem opor as memórias individuais e a memória coletiva, mas pretendem evidenciar a violência simbólica com que essa memória coletiva é instituída. Portanto, não estamos negando os referenciais que constroem as memórias coletivas (e nesse contexto Pe. Mathias é um desses referenciais), mas 58 reconhecendo que a memória individual não está isolada, que frequentemente sofre imposições produzidas pela memória coletiva e que esta se constitui por meio de quadros sociais. Ao tratar dos quadros sociais da memória, Halbwachs defende que

  [...] os quadros coletivos da memória não se resumem em datas, nomes e fórmulas, que eles representam correntes de pensamento e de experiência onde reencontramos nosso passado porque este foi atravessado por isso tudo. (HALBWACHS, 2004, p.71)

  A memória individual apoia-se sobre o “passado vivido”, o qual permite a constituição de uma narrativa sobre o passado do sujeito, apoiando-se na experiência e conversando com o trabalho de enquadramento de memórias. Ao problematizar a delicada presença e relação do esquecimento e do silêncio com a memória, Pollak (1989, p.8) retoma Henry Rousso e apresenta o conceito de enquadramento de memória. Assim aproximamos os investimentos de enquadramento de memórias presentes em Guaramirim com a discussão de Pollak (1989). Conforme Pollak (1989, p.8),

  O trabalho de enquadramento da memória se alimenta do material fornecido pela história. Esse material pode sem dúvida ser interpretado e combinado a um sem- número de referências associadas; guiado pela preocupação não apenas de manter as fronteiras sociais, mas também de modificá-las, esse trabalho reinterpreta incessantemente o passado em função dos combates do presente e do futuro. Mas, assim como a exigência de justificação discutida acima limita a falsificação pura e simples do passado na sua reconstrução política, o trabalho permanente de reinterpretação do passado é contido por uma exigência de credibilidade que depende da coerência dos discursos sucessivos.

  O ponto de convergência que evidencia o encontro entre as memórias individuais aqui citadas e o desejo de promover um enquadramento dessas memórias são as lembranças que tratam da presença de Pe. Mathias e as experiências constituídas a partir da relação com esse pároco. Contudo, ao passo que essas estruturas de memória se encontram, também divergem, operadas por uma distensão dos discursos que as sustentam e que estão em constante movimento.

  É na senda aberta por essa distensão discursiva que se pauta a invenção de Pe. Mathias como um monumento, embora essa invenção se articule com o discurso que propõe aquilo que merece e deve ser lembrado pela cidade. Em tal contexto, a ênfase dada à frase retirada da sua biografia é bastante significativa. Inscrita na placa (Figura 16) que remete à comemoração do centenário de nascimento de Pe. Mathias, apresentada na sessão solene da Câmara de Vereadores e fixada na entrada da Igreja Matriz Senhor Bom Jesus, considerada um dos cartões postais da cidade, continua lembrando os firmes propósitos que sustentaram as ações de Pe. Mathias:

  Monsenhor Mathias Maria Stein Visão – Crença – Ação O padre é formado para ser líder e, como líder, deve estar convicto de seu papel no reino dos homens, utilizando os meios de que dispõe para servi-los até que se encaminhem ao convívio feliz da eternidade.

  A mais recente homenagem feita a Pe. Mathias ocorreu em julho de 2011, quando, ao celebrar um convênio com a Associação Beneficente São Camilo, a Prefeitura repassou a administração do hospital municipal a essa associação e alterou o nome do hospital. A alteração do nome do hospital passou a valer a partir de agosto daquele ano, mês em que o município comemora a sua emancipação. A transição foi marcada com uma celebração religiosa, o que reforça a aproximação entre o poder político e o religioso. A homenagem feita a Pe. Mathias veio em tom de reconhecimento e marca a nova fase do hospital. Assim é noticiado o evento pelo site oficial da Prefeitura, em 29 de julho de 2011:

  Celebração marca a transição da administração do hospital de Guaramirim Na próxima segunda-feira (01) a administração do hospital municipal de Guaramirim passa oficialmente para as mãos da São Camilo. Para marcar esta transição, foi realizada hoje (28), ao meio dia, uma missa de ação de graças. Antes da celebração, o prefeito de Guaramirim, Nilson Bylaardt, fez um agradecimento a todos que se dedicaram ao hospital, tanto em sua fundação quanto para mantê-lo. “É um momento de transição, se abrem novas perspectivas e também dúvidas na comunidade, mas temos a certeza que essa ação vai trazer

uma melhoria no atendimento da população”, comentou.

  A missa foi celebrada pelo Padre Everton e contou com a presença de funcionários do hospital, da Prefeitura e de representantes da São Camilo. As preces e orações foram todas voltadas ao sucesso do hospital, em agradecimento aos colaboradores, principalmente ao fundador Padre Mathias Maria Stein, que dará nome a esta nova fase administrativa.

  (Grifo nosso)

  As mudanças no único hospital da cidade não passaram despercebidas, nem poderiam passar, uma vez que a administração municipal faz investimento na veiculação dessa notícia e a imprensa local, apoiando a Prefeitura, dá destaque a essas duas grandes alterações.

  O primeiro destaque está ligado à nova fase administrativa dessa instituição e está envolto por expectativas e, como lembra o prefeito, também por dúvidas, pois há muito a população vem cobrando providências em relação a uma gestão mais eficiente daquela instituição. Já o segundo destaque tira de foco a questão administrativa e coloca em evidência a homenagem prestada pela Prefeitura Municipal ao idealizador desse hospital, Pe. Mathias. Essa ação, em grande medida, produz um efeito positivo para a administração pública, pois imprime mais uma vez a marca de reconhecimento às ações de Pe. Mathias na cidade e agrada Figura 15 – Capa do documentário em homenagem do centenário de nascimento Monsenhor Mathias Maria Stein Fonte: Elaine Cristina Machado, 25 nov. 2011. Acervo pessoal.

  Figura 16 – Placa em homenagem ao centenário de nascimento de Pe. Mathias, que após a sessão solene da Câmara de Vereadores foi fixada na igreja Senhor Bom Jesus em Guaramirim Fonte: Elaine Cristina Machado, 20 abr. 2011. Acervo pessoal.

  às principais lideranças locais, contando com o apoio do atual pároco católico, com o apoio do Sr. Francisco Schork e da maioria dos vereadores da cidade, que aprovaram a transição.

  O Jornal do Vale é um dos veículos que publicaram notícias sobre a transição e o texto publicado foi copiado na íntegra do site da Prefeitura de Guaramirim. O Jornal do Vale apresenta essas mudanças da seguinte maneira:

  Governo de Guaramirim e São Camilo assinam convênio: No próximo dia 18, uma equipe da São Camilo virá ao hospital para começar o processo de transição.

  A partir do dia primeiro de agosto, a São Camilo passa a administrar oficialmente o Hospital Municipal de Guaramirim. A assinatura do convênio entre a instituição e o Governo de Guaramirim foi na tarde desta quarta-feira (06), na Câmara de Vereadores. O prefeito destacou os problemas enfrentados pelo hospital nos últimos anos e a busca por um modelo de gestão ideal, pautado em questões técnicas e não políticas. “É uma dia histórico para Guaramirim, o hospital tem sofrido ao longo dos anos muito desgaste por causa de ingerência. O hospital tem que ter um projeto de continuidade e por isso partimos em busca de uma gestão que melhorasse o atendimento, principalmente para os usuários do sistema único de saúde (SUS)”. [...] Outra novidade é que o hospital passa a se chamar Hospital Municipal Padre

Mathias Maria Stein, uma homenagem ao seu fundador.

  Assim, Pe. Mathias é convocado a amenizar possíveis inquietações e oposições políticas e é conduzido a um processo de imortalização através dos mecanismos que exercem seu poder de perpetuação por meio da construção da memória social, freando o trabalho do esquecimento.

6 CONSIDERAđỏES FINAIS Ố OCASIấO DO RITO FINAL

  As equilibradas harmonias e notas dissonantes projetadas nas memórias de moradores de Guaramirim que, por meio de suas narrativas, trataram das relações e experiências religiosas em Guaramirim, nas décadas de 1950, 1960 e 1970, foram utilizadas para conduzir este trabalho.

  Não procuramos tratar do conjunto de práticas e rituais que os fiéis católicos eram submetidos em Guaramirim no momento em que Pe. Mathias atuou como pároco da cidade. Intencionamos analisar como sujeitos que experienciaram essas práticas e rituais e que conheceram Pe. Mathias trabalharam suas memórias.

  A partir dessas narrativas e de documentos que dialogam com o período, com a temática e o objetivo proposto passamos a interpretar, retomar e urdir esta versão para o passado. Consideramos apropriada a aproximação feita pelo historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior entre o trabalho do historiador e o trabalho manual. Segundo Albuquerque Júnior (2009, p.4) a história é resultado de um

  trabalho de ordenamento e de racionalização do vivido, a história nasce como este trabalho artesanal, paciente, meticuloso, diuturno, solitário, infindável que se faz sobre os restos, sobre os rastros, sobre os monumentos que nos legaram os homens que nos antecederam que, como esfinges, pedem deciframento, solicitam compreensão e sentido. O historiador, como a bordadeira, ao final de suas atividades de pesquisa, tem à sua frente uma cesta cheia de documentos, de relatos, de imagens, de escritos, de narrativas, de variadas cores e tonalidades, misturados de forma caótica. É ele, como faz a profissional do bordado, que submete este caos a uma ordem, a um desenho, a um plano, a um projeto, a um molde, a um modelo, que deve ser previamente pensado.

  Envolvida e submersa em tantos pontos fomos de encontro às amarras, procuramos enlaçar e entrelaçar aquilo que encontramos durante as atividades de pesquisa, procurando dar forma às diferentes versões do passado que ouvimos e vimos, pois sabíamos de onde partia a sua busca, tínhamos ciência que esse exercício utilizava como ponto de partida o presente e apresentava-se por meio de leituras e releituras.

  Trabalhamos com recordações e essas se mostraram muito vivas e tão presentes que as lembranças evocadas ganhavam formas e gestos, tomados por emoções, saudosismos, denunciando sofrimentos e conflitos. Os narradores que nos doaram suas memórias e nos permitiram conhecer muito mais do que a cidade que eles descreviam nos autorizaram partilhar das lembranças de suas vidas.

  Assim, esses narradores contaram-nos como era a Guaramirim do seu tempo, ou melhor, a Guaramirim “daquele tempo” ou “do tempo do Pe. Mathias”. Uma cidade que no final da década de 1940 passou por intensas transformações, envolvendo a sua emancipação política e a chegada de um pároco católico, experiências que marcaram profundamente a vida das pessoas que viveram ali naquele período.

  As memórias de nossos narradores reconheceram a importância de Pe. Mathias para a cidade durante o período em que atuou como líder religioso e em grande medida também como líder civil. Um padre formado dentro de rígidos códigos e hierarquias da Igreja vigentes na década de 1930, que viveu a tensão de ter que agir com obediência à Igreja e pedagogizar seus fiéis, e após o Concílio Vaticano II teve que ajustar em sua prática pastoral a obediência às novas diretrizes institucionais defendidas pela Igreja católica.

  Pe. Mathias continua sendo convocado ao presente, e é conduzido a um processo de patrimonialização, que por vezes está amparado em um sentimento de reconhecimento e em outras situações sendo utilizado como projeção e contentamento de desejos políticos.

  A memória foi tomada a partir de duas perspectivas; a primeira assenta-se no trabalho com as narrativas de entrevistados acerca do que lembravam e dos sentidos atribuídos em relação àquilo que viveram no passado; a segunda procurou identificar uma memória sendo construída em Guaramirim, onde a imagem de Pe. Mathias está intimamente ligada ao passado da cidade, e esse passado é ofertado como a principal versão.

  Outra temática que nos permitiu caminhar entre as narrativas tomadas como referência neste estudo e em grande medida aproximá-las foi a religiosidade. Essa temática atravessa todas as relações na cidade, no período em questão. Apesar de ser trazida à tona pelas lembranças foi possível perceber que a religiosidade, seus códigos e interditos marcaram o cotidiano dos moradores de Guaramirim.

  O vetor que conduziu as problematizações dessa temática foi o catolicismo. A partir dessa perspectiva foi possível entender as demarcações territoriais, as relações com outras denominações religiosas, as ações de fortalecimento da fé católica e os investimentos para anular a oposição em relação a essas práticas.

  As experiências religiosas de que nos ocupamos não fazem de Guaramirim um cenário isolado, pelo contrário são resultantes das orientações e dos rumos trilhados pela Igreja católica no século XX. Com a ressalva de que em Guaramirim quem segurava a bússola, lia e ditava as coordenadas para que os fiéis caminhassem em direção a esse rumo era Pe. Mathias.

  Conforme chama a atenção Montes (1998, p.73) o Brasil é um país historicamente marcado pela influência da religião, o Brasil encontrou no catolicismo um conjunto de valores, crenças e práticas institucionalmente organizadas e incontrastadamente hegemônicas que por quatro séculos definiram de modo coerente os limites e as inserções entre a vida pública e a vida privada. Formalmente ligada enquanto instituição ao Estado até o final do Império, a Igreja católica entra no século XX sob o signo da romanização e, ao mesmo tempo, da tentativa de recuperação de seus laços privilegiados com o poder político.

  As íntimas ligações entre poder político e poder religioso comumente definiram os limites do público e do privado. Nesses limites instalaram-se brechas que permitiam brotar a defesa de valores e normas de conduta, onde o sacerdote era a referência para decidir sobre as pendências, as farpas e as arestas geradas tanto na fronteira quanto em meio à vida pública e privada. Percebemos que em Guaramirim também prevaleceu essa intenção de aproximar a liderança religiosa católica dos fiéis dessa denominação, foi possível identificar ainda que os investimentos para fortalecimento da fé católica extrapolaram essa relação, pois se dirigiram a todos aqueles que pudessem de uma maneira ou de outra colaborar com esses propósitos, alcançando fiéis de outras denominações e lideranças políticas partidárias.

  Assumimos que estas considerações, mesmo que enunciadas como considerações finais, se apresentam tal qual o rito final em uma celebração religiosa católica. Apenas encerra as atividades daqueles que ali estiveram presentes, tal qual como pretendem estas considerações, mas registra o convite para que sejam revisitados os enunciados ali presentes. Assim, mais uma vez nos apoiamos em Dosse (2009, p.410), que anuncia que “a porta permanece escancarada para sempre, oferecida a todos em revisitações sempre possíveis das infrações individuais e de seus traços no tempo”.

  As problematizações que tomaram as diferentes formas que delineiam o sujeito Pe. Mathias a partir do tensionamento das redes de poder que o apreendem, projetam e o inventam, ou a partir das memórias que se verbalizam, longe de se colocarem como esgotadas, são ofertadas como convites a constantes revisitações, pois consideram a coexistência de outros sentidos, outras leituras, outros desejos, outras pretensões, outros credos, outras lembranças, outras memórias e outros relicários, para além da uniformidade pretendida.

7 REFERÊNCIAS

  Entrevistas concedidas a Elaine Cristina Machado

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  SCHORK, Francisco Herbert. Entrevista concedida a Elaine Cristina Machado, Guaramirim, SC, 27 maio 2011.

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  Secretaria Executiva. Planejamento Estratégico. Guaramirim em dados - 2001. Guaramirim, 2001. CD-ROM.

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