A MULHER E O AMBIENTE

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A MULHER E

O AMBIENTE

  Tradução feita por Frederico Flósculo Pinheiro Barreto, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília .

  Em todo o mundo, desde que nascem, espera-se das garotas (e, a seguir, das mulheres) que ajam de um modo determinado, que assumam responsabilidades determinadas, que demonstrem atitudes bem diferentes daquelas permitidas e esperadas dos rapazes (e, a seguir, dos homens).

  Por essas e outras razões, as ações e as experiências que homens e mulheres têm, sentem e gozam com respeito ao ambiente construído, bem como suas atitudes em face desse ambiente, diferem consideravelmente. Apesar de essas diferenças variarem consideravelmente ao longo da história, entre as diferentes culturas humanas, e entre grupos de idade, de classe social, entre muitas outras circunstâncias, o fato de que existem diferenças relacionadas ao gênero das pessoas é universal.

  O reconhecimento do quanto essas diferenças de gênero perpassam a nossa experiência espacial, o quanto se instauram espacialmente, quais as necessidades que geram, como os pressupostos colocados pelas diferenças de gênero afetam o planejamento e projeto físicos, é importante para qualquer entendimento do ambiente construído. É importante, para que possamos promover melhorias nas condições de vida das mulheres, que analisemos se essas diferenças de gênero refletem os fatos da vida real de homens e mulheres, seu cotidiano; se os ambientes construídos existentes atendem às necessidades das mulheres, e como podemos elaborar alternativas para que esse atendimento seja bem sucedido. É igualmente importante compreender os papéis que as mulheres têm assumido, e que podem vir a assumir, na criação e na

   manutenção dos ambientes construídos . 1 2 N.T.: apresentação da Autora: Karen A. Franck.

  Título Original: Women and the Environment. Capítulo 23 do livro Handbook of Environmental Psychology, editado por Robert Bechtel e Arza Churchman, publicado por John Wiley and Sons, Inc., 3 Nova Iorque, 2002; pp. 347-362.

  Nota da Autora: “Este trabalho é dedicado à memória de três autoras e colaboradoras parao campo

das relações entre a mulher e o ambiente: a arquiteta Joan Forrester Sprague; a arquiteta e membro do

programa New Everyday Life, Birgit Krantz; e a planejadora Marsha Ritzdorf. Todos nós guardamos

  Todas essas preocupações emergiram no campo da psicologia ambiental e em campos relacionados da arquitetura e do urbanismo, do planejamento urbano, da geografia, da antropologia, da sociologia, especialmente desde o final da década de 1970, e inícios da década de 1980, com a publicação de uma variedade de livros; da revista canadense Women and Environments; de edições especiais das revistas

  

Heresies (1981), Sociological Focus (1985), e Ekistics (1985); e ainda uma

   abundância de artigos individuais e apresentações em conferências .

  Desde as suas primeiras manifestações, o tema se apresentou multifacetado, abrangendo pesquisas acerca das atividades das mulheres, suas experiências e preferências; críticas das dificuldades que as mulheres encontram no ambiente construído tal como ele existe na atualidade; e descrições de ambientes alternativos e

  

  de modos alternativos de planejar e de projetar . Desde esses inícios, uma perspectiva feminista estruturou o campos das relações entre a mulher e o ambiente de duas maneiras significativas: em primeiro lugar, o gênero tornou-se uma importante categoria para a análise e, em segundo lugar, a melhoria das condições de vida das mulheres tornou-se um objetivo valioso, importante.

  Para a maioria de nós, pesquisadoras e escritoras interessadas nas relações entre a mulher e o ambiente, foi comum a aceitação do conceito de gênero inicialmente promovido pelo debate e pela pesquisa originária do movimento feminista dos anos 1970 e do começo dos anos 1980: era um sistema de crenças 4 variável cultural e historicamente, socialmente construído, que dava sentido à

  Nota da Autora: “Os livros que devo citar são: Women in American Architecture (Torre, 1977); The Suburban Environment and Women (Rothblatt e outros, 1979); New space for Women (Wekerle, Peterson, e Morley, 1980); Building for Women (Keller, 1981); Women and the American City (Stimpson, Dixler, Nelson, e Yatrakis, 1981); Women and Space (Ardener, 1981); Making Space: Women and the Man-Made Environment (Matrix, 1984); Her Space, Her Place (Mazey & Lee, 1983); From Sun to Sun: Daily Obligations and Community Structure in the Lives of Employed Women and

Their Families (Michelson, 1985); Redesigning the American Dream (Hayden, 1984); e The Unsheltered

5 Woman: Women and Housing in the 80s (Birch, 1985)”.

  Livros a esse respeito incluem: Women,Human Settlements and Housing (Moser, 1987); Women, Housing and Community (van Vliet, 1988); Architecture: A Place for Women (Berkeley & McQuaid, 1989); More than Housing: Lifeboats for Women and Children (Sprague, 1991); The Sphinx in lhe City: Urban life, the Control of Disorder and Women (Wilson, 1991); Discrimination by Design: A Feminist Critique of lhe Man-Made Environment (Weisman, 1992); Gendered Spaces (Spain, 1992); Feminism and Geography (Rose, 1993); Shelter, Women and Development (Dandekar, 1993); Women and lhe Environment (Altman & Churchman, 1994); Housing Women (Gilroy & Woods, 1994); Women and Planning (Greed, 1994); Changing Piares: Women's Lives in lhe City (Booth, Darke, & Yeandle, 1996); Voices in lhe Street: Explorations in Gender, Media and Public Space (Drucker & Gumpert, 1997b); e Design and Feminism: Re- Visioning Spaces, PIares and Everyday Things (Rothschild, 1999). No começo dos anos 1990, o JournaI of Architecture and PIanning Research (1991) e o Design Book Review (1992) dedicaram edições especiais a esse tópico, e a revista geográfica Gender, PIace and Culture começou a ser publicada (1994). No final dos anos 1990 e em 2000, uma série de antologias frcaram os aspectos históricos e teóricos das relações entre a mulher e a arquitetura: The Architect: Reconstructing Her Practice (Hughes, 1996); Architecture and Feminism (Coleman, Danze, & Henderson, 1996); The Sex of Architecture (Agrest, Conway, & Weisman, 1996); Designing Practices: Architecture, Gender and lhe InterdiscipIinary (Ruedi, Mc Corquodale, & Wigglesworth, 1996); Gender, Space, Architecture (RendeU, Penner, & Borden, 2000), and Gender and Architecture: History, Interpretation and Practice (Durning & Wrigley, 2000). African Nomadic Architecture: Space, PIace and

Gender (Prussin, 1995) documentou a arte e a arquitetura de vários povos nômades do Norte da Africa,

uma produção que teve como autoras mulheres. As mulheres como clientes dos arquitetos modernos é o assunto do trabalho Women and lhe Making of lhe Modern House (Friedman, 1998), e as contribuições das mulheres ao desenvolvimento dos Estados Unidos da América do Nortena até a virada do século é o assunto do trabalho How Women Saved the City (Spain, 2001). Joan Rothschild e

Victoria Rosner (1999) por sua vez, ofereceram uma detalhada e bem documentada história do trabalho da mulher no ambiente construído. diferença sexual (Rubin, 1978; Thorne, 1982). Assim se fez uma marcada diferenciação entre gênero e sexo, dando-se mais importância ao primeiro conceito que ao segundo. Quando nós, pesquisadoras e escritoras, oferecemos definições explícitas sobre o assunto, tratamos o conceito de gênero como um construto social, que se sobrepõe ao conceito de sexo como um construto das ciências biológicas (Matrix, 1984, pg. 7; Franck, 1985, pg. 144; Ahrentzen, 1996, pg. 72). Essa abordagem combate quaisquer argumentos “essencialistas” de que a mulher – o que ela é ou faz – é estritamente determinado pela biologia, o que estereotipa a mulher, restringe suas escolhas, deforma seu papel na sociedade e na cultura.

  Ao conduzir pesquisas e ao desenvolver propostas de mudanças, as pesquisadoras estudaram as diferenças de gênero, ou, de modo mais freqüente, dirigiram sua atenção para as atividades particulares e para as experiências de vida das mulheres. As mulheres, como um grupo, têm muito em comum, que é derivado das expectativas socialmente elaboradas, entranhadas em sua organização; é a exploração dessa comunalidade que estimula o interesse das pesquisadoras, e que segue guiando os trabalhos de investigação das relações entre a mulher e o ambiente.

  Ao mesmo tempo, as experiências de vida das mulheres, e suas necessidades, variam enormemente com a sua idade, raça, classe social, cultura, estilo de vida, orientação sexual, lugar de residência, e muitas outras circunstâncias individuais e ambientais. Nesse outro sentido, explica-se o vivo interesse nas diferenças existentes no “grupo”, e na atenção que as pesquisadoras têm dado a esses grupos de variáveis citados – e outros mais.

  IDENTIFICANDO AS DIFERENÇAS DE GÊNERO E AS NECESSIDADES DA MULHER

  Há uma série de diferenças fundamentais entre homens e mulheres que são aparentes em sua orientação básica e seu envolvimento com o ambiente. Essas diferenças se desenvolvem através da socialização, através do desenvolvimento da identidade do ser masculino e do ser feminino, e ainda através da organização do trabalho humano. Desde a infância, as meninas são incentivadas a ser bem menos e intrusivas, menos assertivas, mais medrosas e menos psicologicamente

  exploradoras

  ativas que os homens. Vários estudos resenhados por Susan Saegert e Roger Hart (1978) indicam que, nos Estados Unidos, a amplitude espacial das atividades das meninas nos espaços de vizinhança contíguos às suas casas é bem menor que a amplitude espacial dos meninos; que os jogos das meninas envolvem em menor escala a manipulação ativa de partes do ambiente.

  As meninas são educadas a ocupar menos espaço, a cruzar suas pernas a conter-se fisicamente (Henley, 1977). Íris Marion Young observa que as mulheres, em geral, são muito mais contidas em sua apropriação corporal do espaço físico, mantendo seus membros junto ao corpo ao moverem-se e quando paradas, e empregando o mínimo de força física e de movimentação corporal em tarefas cotidianas simples como se levantar, puxar portas ou gavetas, jogar algo fora, etc.. “A existência feminina parece criar uma encapsulação entre a mulher e o espaço circunjacente, de um tal modo, que o espaço que lhe pertence e que está ao seu alcance imediato, que é o campo de sua manipulação, é significativamente limitado e restrito - e o espaço que está além dela, e ao seu redor, não parece estar disponível à

  Na novela utópica escrita por Marge Pierce, Woman on the Edge of Time (1976), uma mulher que vem do futuro se mostra tão livre e desenvolta em sua presença física e movimentação, tão confiante em si mesma - tal o modo que usa o espaço ao seu redor -, que uma outra mulher, dos tempos modernos, pensa sinceramente que se trata, na verdade, de um homem.

  Numa escala mais ampla, a movimentação restrita da mulher é aparente em sua igualmente restrita mobilidade fora de casa, nas sociedades industrializadas ocidentais – e ainda mais em outras sociedades. As mulheres são mais empregadas nos serviços domésticos e no cuidado das crianças (isso tanto em casa quanto fora dela), o que lhes rouba o tempo que precisam para que possam sair sozinhas, por sua própria conta. Quando estão fora de casa, também estarão mais provavelmente acompanhadas por outras pessoas, o que inclui crianças; também estarão mais provavelmente engajadas em atividades diretamente relacionadas às responsabilidades domésticas (Franck & Paxson, 1989).

  As mulheres são, mais provavelmente que os homens, dependentes do sistema de transporte público, e assim muito mais sujeitas aos horários e aos percursos que tais sistemas oferecem. As mulheres são mais medrosas em face dos riscos de ocorrências de crimes, e suas próprias, precautas medidas de segurança, também restringem onde, quando e como elas se movem no espaço público (Day, 1995, 2000; Franck & Paxson, 1989; Gordon e Riger, 1989; Wekerle & Whitzman, 1995).

  As restrições quanto ao comportamento corporal e quanto à mobilidade pessoal são ainda maiores no caso das mulheres nos países muçulmanos, onde se exige que as mulheres cubram-se de véus, e que não saiam da vizinhança imediatamente adjacente à sua casa sem que estejam acompanhadas por homens de seu círculo de parentesco (Fenster, 1999; Moser, 1987).

  Os tipos de ações que as mulheres e os homens valorizam também diferem, possivelmente ao longo de uma dimensão instrumental / comunicativa. Young compreendeu ter, anteriormente, assumido um modelo de ação fortemente “instrumentalista / propositivo”, onde uma singela atividade é dirigida a um singelo objetivo – o que significaria um modelo válido para todos, um modelo universal, quando, efetivamente, não passava de um modelo de ação essencialmente masculinista.

  Um modelo diferente, que refletisse melhor o modo de agir feminino, deveria enfatizar a atividade comunicativa, e uma movimentação pessoal que é “mais plural e engajada, inquieta e ocupada, azafamada... que direcionada e planejada, obviamente objetiva” (Young, 1998, pg. 289), como, por exemplo, no ativo trabalho de fazer e guardar a comida de sua família ao mesmo tempo em que segura seu bebê que chora.

  Uma ênfase na comunicação que pode tecer, mais que na instrumentalidade que pode dominar, é algo aparente nas atitudes das mulheres com respeito às suas casas, seus lares, e aos seus objetos domésticos. Há alguma evidência de que as esposas sentem ser muito mais importante que suas casas sejam expressivas de suas personalidade, que seus maridos o sejam (Saegert & Winkel, 1980); maridos valorizam mais objetos ativos como televisões, equipamento esportivo, veículos – enquanto suas esposas valorizam objetos de contemplação tais como fotografias, esculturas, plantas, louças (Csikszentmihalyi & Rochberg-Halton, 1981). Nesse mesmo estudo, constatou-se que os homens falam mais extensamente sobre o trabalho que empregaram na casa, na sua manutenção, enquanto as mulheres vêem a casa de Talvez, para muitos homens, o mundo seja um lugar onde se faz coisas, enquanto que para as mulheres, o mundo é um lugar para relacionar-se com as coisas (e com as pessoas).

  Isso não significa que as mulheres não façam coisas. Ao contrário, dado a evidência de suas muitas responsabilidades. Compreenda-se que as mulheres valorizam mais acentuadamente suas relações com as pessoas e com as coisas do seu cotidiano, bem mais que acabar uma dada tarefa. Uma tal diferença nas atitudes associadas ao gênero é consistente com a idéia de que a relação mais profunda entre a mulher e o mundo é essencialmente de conexão, enquanto a relação entre o homem e o mundo é de separação. Essa idéia é baseada na teoria dos objetos das relações (object theory relations) e no trabalho de Nancy Chodorow (1978), que coloca – dado que a filha é do mesmo gênero que o da mãe – que o desenvolvimento da identidade da filha é centrado na figura parental (pai ou mãe) de maior importância em sua família, o que afeta diretamente suas relações com o “outro” e com o mundo. Por outro lado, o desenvolvimento da identidade do filho requer uma clara diferenciação e separação do que seja a “mãe”, e isso levaria a uma clara diferenciação e separação do “outro” e do mundo.

  A identidade masculina, pelo menos no Ocidente, também pode ser baseada numa tendência a menosprezar a vida cotidiana e a esfera doméstica e a valorizar abstrações, negócios, e a esfera pública. Nancy Hartsock (1983) argumenta que a masculinidade que os rapazes devem atingir, somente pode ser alcançada se escaparem da vida doméstica. Eles vêem diante de si dois mundos: um mundo “valorado, ainda que abstrato, todo-potencial, e essencialmente impossível de apreender em toda a sua abrangência; um outro desvalorizado, sem utilidade ou grandeza, ainda que concreto e necessário” (pg.241). Essa dicotomia elementar torna- se a base para a eclosão de uma série de dualismos hierárquicos [um superior, outro inferior]: abstrato / concreto; mente / corpo; cultura / natureza – onde o primeiro termo de cada par é associado com o macho, e o segundo termo, com a fêmea. Contrastantemente, o senso feminino do self é alcançado dentro do contexto doméstico, da casa e da família, e requer uma oposição entre os seus aspectos e significados concretos e abstratos, num plano que abrange a vida cotidiana e uma ampla gama de conexões e de continuidades (Hartsock, 1983).

  O precoce relacionamento que as mulheres estabelecem, conectando-se no universo familiar e diário, é, posteriormente, fortalecido e novamente elaborado no mundo da divisão do trabalho por gênero – mundo em que a mulher assume a maior parte da responsabilidade pelo cuidado das crianças, pelo cuidado dos idosos, e pelo cuidado da casa. Por exemplo, em seu estudo detalhado do uso do tempo e do orçamento familiar disponível, por mulheres casadas e por suas famílias, em Toronto, William Michelson (1985) descobriu que, quando se consierava todo o conjunto das atividades obrigatórias relacionadas ao emprego, ao transporte para o local de trabalho, às compras, ao cuidado da casa e das suas crianças, aquelas mulheres que tinham emprego em “tempo integral” (8 horas diárias de trabalho) investiam 11 horas adicionais, em média, no trabalho doméstico e de suas crianças. As compras e as viagens associadas com o cuidado das crianças eram atividades mais freqüentes para 6 as mulheres que para os homens – sendo que as mulheres eram as principais

  SELF é um conceito da psicologia da personalidade (e social) que, de um modo simplista, pode ser definido como o EU que se percebe, tanto como auto-representação, ou como o responsáveis pelas compras rotineiras de comida e itens de utilidade doméstica (Michelson, 1985).

  Isso significa que as mulheres têm muito menos tempo para si, para sua privacidade, que os homens, e ainda que, a qualquer tempo, é muito mais provável que estejam envolvidas em atividades de cuidar de pessoas, sejam seus filhos, marido, pais, sogro e/ou sogra, parentes, amigos, etc. É igualmente provável que estarão a desempenhar várias atividades ao mesmo tempo. Já os homens, quando não estão NO trabalho (at work), estão FORA DO trabalho (off work); mas as mulheres ficam FORA DO trabalho com muito menos freqüência – tanto em casa quanto em lugares públicos (Duncan, 1996). Uma conseqüência disso tangencia novamente a dicotomia separação – conexão: “Os homens conseguem separar-se de seus ambientes e

  

colocar-se em espaços outros, criados e mantidos por outras pessoas, e desligarem-

se, vendo nos espaços que assim freqüenta somente o que deseja, o que lhe é

momentaneamente conveniente... Já a mulher tem uma consciência imersa em suas

circunstâncias, em seu ambiente imediato, o que ela provavelmente monitora e

mantêm sob sua observação – muito mais que o homem -, seja para avaliar seus

” (Kirby, 1996, pg. 54). perigos, seja para avaliar sua sujeira e pó

  A maior parte dos pesquisadores no campo das relações entre a mulher e o ambiente não estudou as razões para que as diferenças de gênero surgissem e para que se desenvolvessem. Em vez disso, o objetivo mais comum é a busca por identificar essas diferenças, e aprender a como transformar o ambiente, de modo a torná-lo mais apto a responder à necessidades específicas das mulheres – que emergem dessas diferenças. Essa é a abordagem que Arza Churchman descreve: “O fato é que as vidas

  

diárias das mulheres e dos homens são diferentes, e que a questão é acerca de como o

ambiente pode ser congruente com tais diferenças, de um tal modo que cada pessoa

  ”

  possa alcançar um nível de qualidade de vida tão positivo quanto possível

  (Churchman, 2000, pg. 100). Essa abordagem implica no estudo das necessidades das mulheres, assim como a análise dos ambientes existentes, de modo a determinar se essas necessidades são satisfeitas ou não, e de modo a gerar propostas alternativas.

  Dadas as suas responsabilidades pelo cuidado da casa, pelo cuidado das crianças, pelo cuidado dos idosos; dado a sua condição de trabalhadora assalariada; e dada a sua grande dependência do transporte público, é provável que as mulheres tenham preferências diferentes daquelas dos homens, quanto à habitação e às vizinhanças que escolham para morar. Essa questão tem sido estudada pelos pesquisadores. Sylvia Fava (1985) constatou que, ao descrever as considerações que as levaram à escolha de sua atual habitação, as mulheres deram grande ênfase à proximidade de amigos e de parentes, de lojas, mercados e serviços convenientes, à segurança de sua vizinhança, e à qualidade do transporte público - mais que os homens que entrevistou.

  Um estudo de mulheres com crianças em diferentes comunidades suburbanas demonstrou que as mulheres mostravam níveis superiores de satisfação quando habitavam em comunidades mais densas e mais próximas do centro da cidade (Rothblatt, Garr, & Sprage, 1979). Muitas mulheres preferiram habitar em edifícios multifamiliares que possuíssem serviços de manutenção e segurança e que fossem próximos de instalações, organizações ou instituições culturais e de entretenimento - do que em casas unifamiliares.

  Dentro do cenário urbano, as mulheres parecem mais dispostas a valorizar a facilidade na acessibilidade aos serviços e a facilidade de manter contactos sociais (MacKintosh, 1985).

  Desde uma abrangente revisão da literatura que realizou, a pesquisadora Rebecca Peterson (1987) concluiu que a integração dos serviços com a habitação e a vizinhança é um demanda fundamental das mulheres, em uma grande diversidade de circunstâncias. Muitos autores mostram concordância quanto a vários aspectos do projeto urbano que beneficiam as mulheres: habitações com custos acessíveis, com serviços de suporte (esp. comércio e entretenimento) de fácil alcance; densidades elevadas; possibilidade de trabalhos que possam ser feitos em casa; uso misto do solo urbano na escala da vizinhança; fácil acesso ao sistema público de transporte; segurança nos espaços públicos (Churchman, 2000; fox, 1985; Franck, 1985, 1987; Moser, 1987; Wekerle,1985). Uma fácil acessibilidade a diferentes tipos de espaços urbanos – tal como é alcançada através da proximidade física, pela segurança dos espaços públicos, ou por bons serviços de transportes -, é a demanda mais fortemente caracterizada na literatura acerca das relações entre a mulher e o ambiente.

  RECONHECENDO O QUE É FICTÍCIO E O QUE É SEGMENTADO Há um pressuposto ancestral, que divide o mundo em duas “esferas de gênero”: a uma delas pertence a mulher, no âmbito doméstico, dentro ou próximo da casa; à outra pertence o homem, que pode ter acesso fácil e freqüente aos lugares distantes de sua casa, lugares onde outras pessoas se reúnem. A organização social e espacial desses dois domínios, as atividades que os caracterizam, os significados que têm, e o grau em que os movimentos das mulheres são restringidos, diferem, como um todo, histórica e culturalmente, mas a tendência a dividir o ambiente nas esferas sexualmente assimétricas da domesticidade (ou do domínio privado) e da publicidade, parece existir em todo o mundo, e persiste nos dias atuais numa variedade de formas, desde as nações muçulmanas até as vilas gregas (Hirschon, 1981), dos assentamentos de beduínos em Israel (Fenster, 1999), até as cidades e subúrbios norte-americanos (Franck & Paxson, 1989). Essa divisão reforça as restrições aos movimentos das mulheres no espaço público, e evita que participem plenamente da sociedade como trabalhadoras e como cidadãs.

  Antes da revolução industrial nos E.U.A. e nos países da Europa Ocidental, a habitação e o trabalho eram estreitamente relacionados, e as mulheres eram envolvidas de forma direta e freqüente nas atividades de produção, em suas próprias casas ou em casas das proximidades. Os homens se juntavam à força de trabalho paga, e começaram a trabalhar em postos distantes de suas casas. Quando as mulheres trabalhadoras começaram a juntar-se a essa mão-de-obra assalariada (Stansell, 1986), o conceito da sociedade era de que somente os homens poderiam constituir essa mão- de-obra – e que as mulheres, majoritariamente esposas de homens trabalhadores, deveriam permanecer em suas casas.

  Com a separação da habitação da produção (ou, mais genericamente, do “trabalho”), esses dois domínios, o público e o doméstico, adquiriram características adicionais, algo esperadas. A casa passa a ser idealizada, consolida-se nela a idéia de refúgio pacífico, afetuoso, um fundamento da moralidade, totalmente livre de rural, seria um reduto para o isolamento do agressivo, competitivo e imoral domínio dos negócios urbanos, dos vícios da cidade (Davidoff, L’Esperance, & Newby, 1976). A esposa deveria na apenas manter esse refúgio idílico para seu esposo, como também deveria confortar-lhe, amparar-lhe, ser sua enfermeira, guardiã dos valores morais e dos seus filhos (Welter, 1966). Nessa imagem inscrevem-se dicotomias de cunho ideológico, que mapeiam um e outro domínio: privado / público; casa / trabalho; fêmea / macho; subúrbio / cidade (Franck, 1985; Saegert, 1981).

  Essa imagem, que ainda é poderosa, subentende o lar idealizado, composto de uma esposa devotada e caseira, responsável por todo o trabalho doméstico e pelo cuidado das crianças; um marido assalariado e provedor; e um molho de crianças dependentes. Desde que a casa passa a ser vista como um refúgio protegido e distanciado do trabalho assalariado, tem-se que o trabalho assalariado não pode ocorrer nesse domínio – e todo o trabalho doméstico necessário pata manter a casa, não é reconhecido, de forma alguma, como uma modalidade de trabalho.

  Na medida em que a casa é um retiro, presume-se que seja seguro, mesmo que seja o lugar onde se registram as mais graves ocorrências de abusos contra as mulheres, perpetradas por seus maridos.

  Na medida em que a casa é vista como um abrigo para uma família nuclear somente, composta exclusivamente pelo marido, pela esposa e crianças, é correto e adequado que sua habitação não compartilhe quaisquer espaços ou serviços com outras habitações, e que seja tão independente quanto possível das outras pessoas e famílias. Isso exige que essa esposa e mãe desempenhe suas obrigações de forma independente de todos os vizinhos, e que se mantenha espacialmente separada de todos eles.

  Quando os primeiros subúrbios foram construídos, esse ideal tornou-se alcançável para as famílias da classe média norte-americana. Com a proliferação dos subúrbios, garantida por uma enorme expansão de financiamentos para a habitação, logo em seguida à Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a aquisição da casa nos subúrbios também se tornou possível para a classe trabalhadora. Assim, o que foi promovido como um ideal, e que tem sido massivamente construído é precisamente o oposto do tipo de ambiente que responderia à multiplicidade de responsabilidades da mulher, como dona-de-casa e como trabalhadora assalariada.

  O ambiente criado pela suburbanização separa – através de grandes distâncias, com freqüência, os lugares de morar e os lugares de trabalhar, e inclui nessa apartação os estabelecimentos comerciais e os prestadores de serviços; torna difícil – ou mesmo coíbe, com o apoio de princípios legislativos muito difundidos – as atividades assalariadas no âmbito do espaço doméstico; e ainda cria terminativos distanciamentos de ordem social e espacial entre as residências de uma mesma vizinhança. Ao passo que foi nos E.U.A. onde ocorreu o maior volume esse tipo de ambiente estruturado por separações sociais e espaciais, muitas das mesmas características (sobretudo a marcada separação dos usos do solo, e o isolamento das casas umas das outras) podem ser vistas em muitos outros países, como a Escandinávia (o grupo da Suécia-Noruega-Dinamarca) – ver Horelli & Vespä, 1994) - , a Grã-Bretanha (o grupo da Inglaterra-Escócia-Gales) – ver McDowell, 1983, 1993; Roberts, 1991) -, e em muitos países do Terceiro Mundo (Moser, 1987).

  A ideologia das separações por gênero, por atividades, por tipo de espaço, é evidente nos princípios de planejamento e zoneamento. No planejamento do trânsito, horários estão no centro das preocupações locacionais e de cronogramas do sistema de transportes, ao passo que muito menos atenção é dispensada aos empregos com que as mulheres se envolvem, às suas necessidades de cuidados das suas casas e das suas famílias, na sua agenda de atividades ao longo do dia. A localização das casas e seu projeto pode negligenciar completamente as necessidades sentidas pelas mulheres quanto à realização de sua iniciativa de geração de renda, tanto em casa quanto nas suas vizinhanças (Moser, 1987).

  Marsha Ritzdorf (1994) analisou planos de zoneamento urbano em uma vasta amostra de cidades norte-americanas, demonstrando o quanto esses planos restringem os tipos de habitação que melhor atenderiam aos pequenos negócios montados a partir dos lares das mulheres trabalhadoras – e, ao contrário, fortalecendo o padrão da casa de família “em refúgio”, ou a casa separada e isolada no meio urbano, destinada a uma só família nuclear. Esses planos e ordenamentos proíbem, de modo geral, a inclusão de edículas, puxadinhos, espaços acessórios, que ampliam as alternativas para a própria habitação e para a geração de renda das famílias moradoras. Também proíbem vários tipos de negócios, serviços e trabalhos que poderiam ter as habitações como sua sede física; e ainda restringem o acesso a serviços de cuidados de crianças – e à partilha dos espaços onde esse cuidado poderia acontecer, com o convívio de mães e avós de diferentes famílias – através da separação das residências entre si, e da separação das residências e dos setores de comércio, além de, devastadoramente, proibir que haja a prática de serviços de cuidados de crianças nas habitações privadas.

  Enquanto os complexos de escritórios, as sedes de empresas e conjuntos de empresas e empreendimentos comerciais, e outros lugares de emprego, localizam-se, na atualidade, majoritariamente nos subúrbios das grandes cidades, eles são predominantemente separados – através da imposição de princípios de zoneamento urbano – das áreas residenciais, assim com separam-se espacialmente os hospitais, as escolas, os armazéns, as fábricas, as oficinas, etc.; o ideal suburbano de separação de atividades, particularmente a separação entre o domínio da vida doméstica e o domínio da vida pública dos negócios e dos serviços, continua a ser dominante.

  Os vários esquemas alternativos para a habitação, revistos a seguir, são de improvável adoção e construção – e ainda mais improvavelmente se imaginarmos grandes empreendimentos nesses moldes alternativos -, pelo menos nos E.U.A., precisamente porque eles modificam essa separação, bem como a separação espacial e social das habitações individualizadas. Muitas mulheres podem vir a aceitar a apoiar alternativas como essas, a despeito das dificuldades que terão nesse apoio, aceitação e nos esforços de sua realização; sobretudo as maiores dificuldades repousam na onipresença do modelo ideal de separação, e ainda no desencorajamento representado pela raridade das alternativas a esse modelo ideal.

  Dado que o lugar “apropriado” para as mulheres tem sido, historicamente, nas suas casas ou na sua imediata vizinhança, elas não são tão bem-vindas nos espaços públicos quanto os homens – particularmente quando sua razão para estar ali não se relaciona com seu papel de dona-de-casa (desempenhado quando são compradoras, por exemplo).

  7 permanecesse, freqüentasse, surgisse na rua ou em espaços públicos (Wilson, 1991),

  A rainha Victoria, da Grã-Gretanha e Irlanda, que reinou de 1837 a 1901, teve uma isso ainda acontece em muitos países muçulmanos. Esse tipo de expectativa transforma a presença da mulher no espaço público em uma presença suspeita, mesmo no decorrer do século 20, mesmo quando uma crescente fração da força de trabalho urbano conta com sua participação (Meyerowitz, 1988). Apesar de expectativas dessa ordem não mais viger nos E.U.A. e em muitas outros países, a presença damulher no espaço público ainda a torna vulnerável ao assédio corporal, coerção física, e agressões verbais (Bowman, 1993; Boys, 1984; Hayden, 1984; Wekerle, 1981). Esse assédio mostra que, sempre que estiverem em público, desacompanhadas por homens, as mulheres não conseguem ter seu direto à privacidade tão respeitado quanto o dos homens.

  Além disso, ao olhar, ao xingar, ao molestar as mulheres nos lugares públicos, os homens associam uma característica privada – o sexo – com a presença da mulher em público. Como nos tempos vitorianos, quando as mulheres estão em público, ainda são percebidas, definidas e tratadas em termos de sua sexualidade (Franck & Paxson, 1989).

  A atividade pública da mulher, por excelência, e tal como é esperada pelas sociedades contemporâneas, é o fazer compras – o que é uma extensão de seu papel privado como donas de casa. As compras domésticas, em muitos países, é de responsabilidade das mulheres (Bowlby, 1984; Michelson, 1985). Mesmo nos tempos vitorianos, quando uma mulher desacompanhada não podia entrar nos restaurantes elegantes, era-lhe facultada a visita às lojas de departamentos – recém-criadas (Wilson, 1991) – que se faziam acolhedoras para as mulheres consumidoras, ao criar salas de leitura e de jantar exclusivas para elas (Rothman, 1979). De fato, se observarmos o que também ocorre na Arábia Saudita contemporânea, onde a movimentação e as roupas das mulheres são tão severamente restritas, elas não são proibidas de freqüentar os centros de compra (malls) desacompanhadas de seus parentes homens. E sua freqüência se dá em grande número. De um modo assemelhado, as mulheres da Coréia e de outras partes do Sudeste Asiático apreciam ostensivamente os ambientes limpos, seguros e previsíveis das lanchonetes McDonald’s, que tornaram-se uma espécie de centro de lazer tanto para as mulheres quanto para as crianças.

  Apesar da freqüência evidente do comportamento de compras das mulheres, os princípios de planejamento ainda preconizam a dicotomia do domínio-feminino versus o domínio-masculino, e assim o planejamento e o projeto de muitos espaços públicos não têm atendido plenamente as necessidades das mulheres ou dos homens.

  Até recentemente, os degraus e as portas giratórias de muitos shoppings tornavam difícil, se possível, o acesso por pessoas com crianças pequenas ou

  centers

  com carrinhos de bebê. A ausência de lugares adequados para o cuidado de crianças, para trocar suas fraldas demonstrava a desconsideração dessas necessidades. Nos dias atuais, há uma acessibilidade muito maior para os lugares públicos, há mais lugares para cuidar das crianças, trocar suas fraldas, e há até mesmo lugares para brincar em grandes lojas e mercados, embora a sua segurança ainda seja uma forte preocupação. O projeto e o planejamento de estações de ônibus, de garagens de estacionamento

  rígida e por seu propalado senso de dever, gerando um clima intelectual e político “puritano” e severamente coercivo dos comportamentos informais ou “desviantes” de seu código implícito de normas éticas. público, das ruas, calçadas e outras rotas de circulação de pedestres, ainda não respondem adequadamente às necessidades das mulheres por segurança. Tradicionalmente, muitos lugares de trabalho assalariado também foram projetados para a presença masculina – para homens livres das responsabilidades familiares, tais como o cuidado das crianças -, sob a premissa de que as mulheres não estarão presentes, ou somente manterão posições subordinadas tais como as de secretárias ou de enfermeiras. Em alguns casos, mesmo os locais de trabalho de maior proeminência pública não possuem sequer banheiros para as mulheres – como no caso do Senado Federal dos E.U.A., até recentemente, onde as senadoras e as assistentes (dos senadores, inclusive) eram obrigadas a usar os banheiros destinados às mulheres visitantes.

  Apesar das simbólicas dicotomias entre o domínio “feminino - vida reprodutiva - presença privada” e “masculino – vida produtiva – presença pública”, e o modo prevalente, forte, com que essas dicotomias se expressam fisicamente (no planejamento e projeto das habitações, das vizinhanças urbanas, das cidades, em todo o mundo), tem-se tornado claro que são frágeis, ficcionais, fundamento na vida cotidiana. As mulheres têm muito trabalho duro a executar em suas casas, para mantê- las, para sustentar e garantir a sua ordem. Para a mulher, a casa não é apenas uma espécie de refúgio, mas é um lugar de trabalho (“trabalho doméstico”) e, com freqüência, de trabalho assalariado. Mais e mais mulheres são empregadas além de suas casas, somando trabalhos. E as mulheres, ainda que sejam donas-de-casa em “dedicação exclusiva”, não permanecem em casa por todo o tempo: para conseguir ordenar suas casas e cuidar de seus filhos, elas devem se aventurar no domínio público.

  E, atenção: a casa idealizada, onde habitam o casal de pais, e suas crianças, é algo cada vez mais raro. Nem todas as mulheres têm filhos, nem todas têm maridos, e,velhas ou jovens, vivem sós, ou com outras mulheres, amigos, e parentes. Em todo o mundo, uma proporção crescente de mulheres são mães solteiras (sem companheiro) com filhos, que sustentam suas casas, arcando com todas as responsabilidades da vida doméstica e econômica de suas famílias.

  A ideologia das separações e a idealização da família nuclear não apenas distorcem as circunstâncias reais das vidas, das atividades de uma grande proporção de mulheres, mas também tornam essas dificuldades notavelmente difíceis de serem desempenhadas.

  Quando as mulheres têm filhos e são empregadas, simultaneamente, as dificuldades se multiplicam. As rotinas diárias das mulheres são forçadas a conectar, a religar, todos os aspectos da vida cotidiana que têm sido fisicamente separados – através do planejamento e do projeto de arquitetura e de urbanismo patrocinados ou aprovados pelos governos. De fato, tais separação persistem, ainda perseveram, exatamente porque as mulheres investem uma enorme quantidade de energia de suas vidas, de tempo e de esforço pessoal para que as conexões entre os domínios separados sejam feitas, de algum modo. “Uma grande quantidade do tempo das mulheres é dedicado ao processo de transformação, em termos pessoais, desses domínios fortemente segmentados em algo que funcione como um todo coerente. Esse trabalho ‘de bastidores’ acarreta, no entanto, o clássico círculo vicioso. Ao exigir que a mulher encontre soluções individuais para os problemas coletivos, cria-se uma

  ‘invisível’ e irrelevante, fora de discussão, e, portanto sem solução” (Horelli & Vespä, 1994, pg. 203).

  PROPONDO ALTERNATIVAS: FAZENDO CONEXÕES As análises dos espaços construídos e das circunstâncias dos ambientes domésticos e de trabalho assalariado das mulheres revelam tanto a ideologia que orienta o projeto e o planejamento desses ambientes, como o profundo desarranjo entre esses ambientes e as vidas das mulheres. A ideologia de projeto e planejamento cria um mundo altamente segmentado, feito de separações, “zoneado”; o desarranjo acarreta um enorme custo em termos de tempo, de energia, da qualidade de vida das mulheres, enfim, para superar a falta de funcionalidade do mundo planejado de forma segmentada.

  O primeiro passo a ser dado na direção da mudança dessa insustentável situação, consiste no reconhecimento desse grande desarranjo – e na maneira pela qual a realidade cotidiana das mulheres é distorcida pelas dicotomias simbólicas entre e privado, entre masculino e feminino, entre casa e trabalho. Essa distorção é

  público

  também criada pela suposição de uma divisão de trabalho baseada no gênero, e ainda por uma certa idealização da família nuclear.

  As propostas para mudar isso são iniciadas pelo reconhecimento da realidade cotidiana das mulheres, da variedade de situações vividas pelas mulheres, sugerindo uma variedade de maneiras pelas quais o ambiente construído pode facilitar e dar suporte a essa realidade, sobretudo pela redução da segmentação do ambiente construído, tal como é convencionalmente criada, planejada, construída, reforçada. O tema comum em muitas dessas alternativas – ainda que algumas ainda não passem de propostas, ou no caso em que foram executadas – é a formação de conexões entre recursos separados fisicamente, de ligações entre domínios que devem se interceptar, assim como de “amaciamento” de bem marcadas fronteiras entre o que, convencionalmente, é considerado público e o que é considerado privado.

  Para que possamos gerar os projetos de bairros e vizinhanças que possuam essas conexões, e para que as habitações possam servir aos grupos de moradores que não correspondem modelo da família nuclear, pai-mãe-filhos, o zoneamento urbano norte-americano e os modelos de uso do solo em muitos países deverão ser significativamente modificados. Planejadores, arquitetos, e gestores, assim como as cidadãs [as mulheres organizadas], precisam reconhecer como as leis existentes – e os princípios de projeto assumidos pela mainstream profissional – complicam a vida diária das mulheres (Horelli & Vespa, 1992; Moser, 1987; Ritzdorf, 1994). Marsha Ritzdorf (1994) afirma que as mulheres devem entender como “as vidas dos homens e das mulheres podem ser tornadas mais intensas através de vizinhanças urbanas que lhes dêem a liberdade de que precisam para trabalhar em suas próprias casas; que facilitem a vigilância sobre suas crianças (ou sobre seus idosos), ainda que seja através de centros de atenção, creches ou abrigos de bairro, da quadra, da unidade de

  ; que lhes permita usufruir dos espaços comuns, partilhando-os com suas

  vizinhança

  casas, na medida em que assim o desejem” (pg. 227). Ela aponta alguns avanços nos Estados Unidos, onde o uso do solo nos subúrbios havia criado fortes divisões entre as atividades, entre o morar e o trabalhar e o comprar, por exemplo. Em 13 Estados norte-americanos, movimentos liderados por mulheres mudaram as regras de zoneamento com respeito à localização das instituições de apoio aos cuidados das crianças.

  Alternativas de projeto que incorporem satisfatoriamente as conexões desejadas ainda estão por ser desenvolvidas. Dolores Hayden (1984) propôs algumas maneiras de re-projetar uma típica quadra suburbana, de forma a unir os quintais e jardins, e criar um espaço externo acessível e partilhado, e a incorporar espaço para o cuidado de crianças, idosos, para o cultivo de vegetais e de pequenos pomares, para o preparo de alimentos ao ar livre, assim como espaço para as brincadeiras de crianças e para a jardinagem. De um modo similar, Leavitt e West, em seu projeto vencedor do concurso “Nova Casa Americana” (New American House), propuseram 6 unidades de habitação que incorporavam espaços de trabalho, com uma das unidades oferecendo a opção de ser usada como uma casa para uma “mãe” – ou para a interação entre pessoas de gerações diferentes, uma casa que incorporava uma função social desempenhada por um adulto, de um modo propositado (Leavitt, 1989).

  Enquanto nenhuma dessas propostas chegou a ser concretizada, uma série de outras tentativas foram realizadas nos Estados Unidos, que usaram princípios de projeto comprometidos com demandas da vida cotidiana, acarretando uma maor aproximação entre os moradores, e contribuindo para reduzir o isolamento social e espacial da típica casa suburbana. O exemplo de maior destaque é a co-habitação (cohousing), uma inovação adotada desde a Dinamarca (McCamant & Durret, 1988). A co-habitação combina espaços unifamiliares completos (em geral, casas) com espaços externos especialmente projetados para o seu uso por pedestres, e uma “Casa Comum”, que possui serviços coletivos, partilhados (oficinas, lavanderia, salas de estar, salas de visitas, salas para adolescentes, etc.), e ainda uma cozinha e uma salas de jantar que é usada pelos residentes, que fazem suas refeições juntos.

  Os empreendimentos imobiliários em co-habitação são planejados e projetados pelos próprios residentes, que buscam esse tipo de alternativa justamente pelo forte senso de comunidade que oferece. Uma outra evidente vantagem da co-habitação (e uma alegada razão para seu desenvolvimento na Dinamarca) é que através da colaboração no trabalho de preparo dos alimentos, regularmente (na Dinamarca esse preparo comum ocorre por várias vezes ao longo da semana), a faina do preparo das refeições por cada grupo de moradores – e pelas mulheres dos grupos - é reduzida. O projeto dos espaços externos também facilitam os encontros e as brincadeiras das crianças, assim como a supervisão dos grupos de crianças de diferentes famílias. Até o ano 2000, um total de 51 de empreendimentos mobiliários [condomínios, quadras e loteamentos] no modelo de co-habitação foram construídos nos Estados Unidos e no Canadá. Na Dinamarca, essa forma de empreendimento já é tão comum que não é mais considerada “alternativa”.

  A co-habitação é igualmente uma escolha freqüente na Suécia, onde se associa a uma outra opção habitacional que apresenta serviços de alimentação em comum, entre outros. É o que se denomina “habitação com serviços comuns” (service-

  ), onde as refeições são servidas aos residentes por um serviço de

  enriched housing

  restaurante (Woodward, 1989). Em alguns casos, a habitação e os serviços de alimentação são dirigidos tanto para famílias quanto para idosos que vivem em apartamentos ou casas distintas, mas que partilham as refeições e muitos outros serviços – inclusive uma grande variedade de atividades, cursos, oficinas, e ainda usufruem um centro de cuidados e convívio para o conjuntos dos moradores. A com a presença de um restaurante e ainda de uma certa hotelaria, com “serviço-de- quarto”, também tem demandada por uma crescente clientela da classe média (e classe média alta) das cidades norte-americanas (Cromley, 1990), e as mulheres e homens que trabalham são os principais interessados em sua oferta – que se apresenta como decisiva para reduzir substancialmente a faina doméstica das mulheres dessas classes sociais (Hayden, 1981).

  Nos dias de hoje, nos E.U.A., contudo, esse tipo de serviço é limitado à habitação de idosos (o que inclui toda uma cara coorte de pessoal de apoio para emergências e cuidados de saúde), bem como outros tipos de habitação para pessoas com necessidades especiais – incluindo a habitação temporária para mulheres sem- teto, ou recuperando-se do uso de drogas, ou fugindo de lares onde foram vítimas de maus-tratos. Nesse tipo de habitação, uma grande variedade de serviços sociais é, com freqüência, oferecida aos moradores, inclusive orientação e apoio psicológico, aconselhamento pessoal e familiar, cursos e palestras, atividades esportivas e, em evidência, cuidados de crianças. O número e a variedade desse tipo de habitação, como uma opção reconhecida e valorizada pelas mulheres, tem crescido significativamente por todos os E.U.A., ao mesmo tempo em que também tem

  

  crescido o número de abrigos para mulheres agredidas em seus lares (Ahrentzen, 1989; Sprague, 1991). As casas transitórias, nesse caso, variam tremendamente quanto aos seus projetos, às suas políticas e aos seus serviços; todas elas compartilham o objetivo de oferecer os necessários serviços e suporte para que as mulheres encontrem um novo lugar, um novo lar, em novas e permanentes acomodações.

  Todas essas alternativas ora suavizam as fronteiras convencionadas entre o espaço público e o espaço privado, ora ampliam essas fronteiras para incluir uma variedade de espaços intermediários. A habitação pode incorporar espaço para o trabalho assalariado ou para a prestação de serviços, dentro ou adjacente às casas e apartamentos individuais; assim, a habitação reunirá famílias e grupos de residentes tanto nos espaços externos quanto em espaços internos aos seus conjuntos. As recomendações que se tem feito para os projetos arquitetônicos de empreendimentos em co-habitação enfatizam os modos pelos quais os espaços exteriores e o modo de apropriação do sítio físico das quadras ou conjuntos de residências encorajem e facilitem os encontros casuais, bem como a ocorrência de atividades planejadas entre os moradores (McCamant & Durret, 1988). Vale citar o trabalho de Joan Forrester Sprague, que analisa a variedade da partilha dos usos dos espaços que podem ser projetados nas casas “transitórias”, ou de abrigo de sem-teto ou de vítimas de violência familiar, nas diversas escalas pessoais, de grupo familiar, da comunidade e da vizinhança (Sprague, 1991).

  A relação que existe, tanto espacial quanto comportamental, entre a habitação e o mundo que a cerca é a principal preocupação do projeto “Nova Vida Cotidiana” (New Everyday Life). Na primeira conferência arranjada por esse projeto, os participantes adotaram o seguinte conceito: “um nível intermediário como uma estrutura mediadora” (intermediate level as a mediating structure), visando estimular e orientar idéias que levassem a uma maior integração entre a habitação, o trabalho, e 8 o cuidado dos habitantes (Horelli & Vespä, 1994).

  N.T: A autora se refere às políticas sociais do final do governo de William Clinton (1992- 2000), que foram dramaticamente modificadas por seu sucessor e opositor, George W. Bush

  O “nível intermediário” diz respeito à estrutura ausente, e que deveria existir, entre o governo, o mercado e a habitação, no contexto de uma área territorial dada (que pode variar de tamanho desde um grupo de residências até uma vizinhança ou uma grande fração da cidade). Esse nível intermediário torna visíveis as relações entre o trabalho assalariado (produção) e o cuidado das crianças (reprodução), tal como ocorre, por exemplo, na modalidade da co-habitação, onde a preparação de algumas refeições ocorre no espaço intermediário de uma sede comunitária, de uma “casa comum”. Num subúrbio de Helsinque [capital da Finlândia], o domínio intermediário ocorria em um “espaço de estar comunitário” (community living room), ou numa combinação entre um café e um centro comunitário, aberto das 9:00 às 21:00 horas, cinco dias por semana, oferecendo lanches e uma variedade de atividades para diversos grupos etários, ao longo do dia, e de noitinha. O apoio dado na forma de reconhecimento do valor que um tal espaço público-e-doméstico teria para as mulheres veio na forma de um estudo acerca das preferências dos tipos de espaços públicos, expressadas por mulheres de classe média do condado de Orange, na Califórnia.

  Os espaços preferidos pelas pessoas “acomodaram graciosamente a interação desejada, com amigos, com a família, com visitantes e estranhos” (Day, 2000, pg. 114), sendo que o melhor exemplo recaiu nas livrarias da cadeia Barnes & Noble, com suas saletas e espaços, sofás e cadeiras, seus excelente banheiros, café e ambientes planejados para um caloroso acolhimento de seus clientes, tanto adultos, quanto crianças.

  A “sala de estar” comunitária de Helsinqui, e os estares das livrarias Barnes & Noble, apesar de várias diferenças entre si, podem ser interpretadas como exemplos do que a autora Dolores Hayden (1984) denominou “domesticação do espaço urbano”. Outros modos de amaciar a tradicionalmente áspera e pouco sutil distinção entre o espaço privado doméstico, e o espaço público urbano, incluem a previsão de lugares para a higiene pessoal, e de áreas de estar, jogar, brincar, em edifícios públicos (ou de acesso aberto ao público em geral); esse tipo de lugar é muito mais comum hoje que em 1984, quando Hayden fez suas observações.

  A acessibilidade física também tem aumentado, primariamente como resultado de leis que têm exigido mudanças na arquitetura, implantação e planejamento de espaços públicos, numa pauta de mudanças que visa o atendimento das pessoas portadoras de necessidades especiais. A domesticação do domínio público também significa a construção de centros de cuidados de crianças e de idosos, tanto nos locais de trabalho quanto nas proximidades das áreas residenciais. Muitas empresas norte- americanas têm incluído esses centros e espaços de cuidados em seus edifícios. Talvez uma mudança ainda maior – e uma forma ainda mais radical de amaciamento da separação entre os espaços e atividades de produção e reprodução – seja a ocorrência de cuidados de crianças pelos pais (empregados) em seus próprios locais de trabalho; isso também está ocorrendo nos E.U.A. (Belluck, 2000).

  As conexões entre as unidades domiciliares privadas e o espaço público são também forjadas pela adoção de soluções físicas de projeto, assim como por outras medidas que melhorem o trânsito de público e aumentem a segurança, permitindo que todas as pessoas – e as mulheres em especial – possam andar com maior desembaraço, com maior freqüência, e durante os vários períodos do dia. Um programa denominado “Iniciativa para Cidades mais Seguras” (Safer Cities Initiative), um esforço colaboração com as agências governamentais com o objetivo de desenvolver programas sociais e propor melhorias nos espaços de suas comunidades, em suas ruas, praças, comércio, sistema de transportes públicos, parques públicos, centros urbanos. Gerda Wekerle e Carolyn Whitzman (1995) descreveram iniciativas assemelhadas em várias partes do mundo, detalhando especialmente a experiência de Toronto. Elas apresentaram ferramentas para determinar necessidade de segurança local e para ilustrar uma grande variedade de recomendações de projeto, tais como: iluminação pública adequada; visuais dos logradouros e dos eixos das ruas desimpedidos; eliminação de becos-sem-saída e situações físicas perigosas, desprotegidas; criação de oportunidades de ajuda entre vizinhos; visibilidade pelos outros, que seja derivada de uma mistura de usos do solo e de pólos geradores de atividade.

  PRODUZINDO E MANTENDO AMBIENTES: UM TRABALHO PARA AS MULHERES

  A compreensão das necessidades das mulheres, assim como a análise dos ambientes existentes, e a conseqüente proposição de alternativas, dependem, como um todo, do reconhecimento da importância da vida diária, do cotidiano, das necessidades práticas que derivam daí, e de como o planejamento e o projeto podem responder a essas demandas – da melhor maneira possível.

  Os campos da arquitetura e do planejamento tendem a subestimar – ou a abstratamente considerar – a vida diária, privilegiando, em vez disso, aquilo que é erroneamente visto como um domínio independente da estética no caso da arquitetura (Franck & Lepori, 2000), ou privilegiando aquilo que define como atividades orientadas por objetivos de produção e por necessidades, onde a racionalidade da eficiência e do ganho econômicos são metas essenciais, como ocorre no caso do planejamento (Horelli & Vespä, 1994; Milroy, 1991). Cada uma dessas abordagens privilegia a posição e o expertise de profissionais que baseiam suas decisões em quadros de referência estéticos ou técnicos, que se encontram distanciados das necessidades particulares de determinados tipos de pessoas, inclusive as mulheres. Os moradores e usuários reais são vistos de forma muito geral, sem que se proceda à identificação de suas necessidades específicas, relativas às suas vidas cotidianas, e se parece considerar que essas necessidades seriam triviais demais para serem consideradas. Na verdade, a trivialização das coisas práticas, das coisas concretas, das coisas cotidianas, parece ser uma parte essencial de uma orientação masculinista, e possivelmente da própria auto-identidade do homem, tal como foi construída no Ocidente.

  Dado que a maioria do profissionais do planejamento, e dos arquitetos, desde sempre e até o momento, é formada por homens, eles têm uma responsabilidade indiscutivelmente muito maior que as mulheres no projeto, na decisão acerca da forma dos ambientes construídos, e na definição dos princípios de sua organização. Dado o seu poder, não é surpreendente que o projeto e o planejamento da (quase) totalidade dos ambientes construídos continuem a se orientar pela ficção de que o mundo se ordena pelos fatos intransponíveis de que (a) o homem tem a seu encargo e responsabilidade o trabalho assalariado em instâncias públicas, e; (2) a mulher deve permanecer em casa, cuidando da casa e da família (Hayden, 1984; Spain, 1992; Weisman, 1992). Tal como já expusemos anteriormente, essa dicotomia espacial e produtivo tanto em suas casas quanto fora delas, e que mesmo o trabalho reprodutivo necessariamente as leva para o domínio público. Além disso, a atribuição de um papel puramente reprodutivo às mulheres ignora uma terceira responsabilidade que elas freqüentemente assumem: a administração e a manutenção de suas comunidades (Moser, 1987). Nos assentamentos comunitários construídos em mutirão, ou como fruto de esforço comunitário em auto-ajuda, como se verifica em todo o mundo, as mulheres estão invariavelmente envolvidas na construção de casas e edifícios públicos, na organização, na manutenção e na melhoria da infraestrutura e dos serviços comuns.

  As mulheres das vizinhanças urbanas norte-americanas em que a população tem uma baixa renda familiar, também assumem exemplarmente esse mesmo tipo de responsabilidade perante suas comunidades. Jacqueline Leavitt e Susan Saegert (1990) documentaram os bem-sucedidos esforços dos residentes de baixa renda do

  espaços administrados por cooperativas populares. Muitos dos participantes mais ativos e engajados eram mulheres de meia-idade e idosas. Essas autoras delineiam um modelo de “comunidade-lar” (community household) para compreender tais esforços, e para ser usado no desenvolvimento de programas sociais. Esse modelo “pode ser visto como um expansivo círculo de conexões e de suporte mútuo entre as pessoas, que é construído a partir da vida nos lares que o compõem, mas conseguindo ligar suas forças e recursos com as forças e recursos das associações de moradores, das vizinhanças, das cidades e da nação” (pg. 172). Outros exemplos contemporâneos do modelo de comunidade-lar em plena operação pode ser visto no trabalho das mulheres nos conjuntos habitacionais públicos da cidade de Chicago (Feldman & Stall, 1994), ou no trabalho de várias organizações nacionais de mulheres – tais como:

  National Congress of Neighborhood Women ; Center of Cultural ans Community

  , nos Estados Unidos; e o movimento Mother’s Centers, na Alemanha

  Development

  (Belenky, 1996; Belenky, Bond & Weinstock, 1997), ou ainda no esforço de décadas, empreendido pelas mulheres residentes nos conjuntos habitacionais públicos em Columbia Point, em Boston, para melhorar suas comunidades, e para permanecer nesses mesmos locais depois que essas melhorias fossem efetivamente realizadas (Breitbart & Pader, 1995).

  Em cada caso, a casa se estende além de seus limites tradicionais, e prolonga- se até a comunidade, transformando todo esse vasto domínio que a autora Bel Hooks denominou homeplace (1990). Esse domínio mais amplo pode estender-se além da vizinhança local e envolver a cidade como um todo, e diz respeito não apenas a manter o que se tem, mas a transformar a realidade pela construção. Entre a Guerra

  

   Civil Norte-Americana e a Primeira Guerra Mundial , o trabalho de mulheres de 9 N.T.: Um bairro de Nova Iorque, ao norte da Ilha de Manhattan, entre os rios Harlem e East.

  Fundado com a cidade, em 1658; no começo do Século 20 veio a tornar-se uma das maiores 10 comunidades negras dos E.U.A..

  N.T.: Numa tradução livre, algo como “lugar-lar”, a vizinhança considerada em todo o seu apego e intimidade. 11 N.T.: A Guerra Civil Norte-Americana foi travada entre o governo federal dos E.U.A. (Estados do 12 Norte, anti-escravistas) e a Confederação (Estados do Sul, escravistas), entre 1861 e 1865.

  N.T.: travada entre 1914 e 1918, envolvendo a Inglaterra, a França, a Rússia, a Bélgica, a Itália, o Japão, os E.U.A. e outros países aliados, que derrotaram a Alemanha, o império Austro-Húngaro, a Turquia e a Bulgária. classe média nas cidades de todos os E.U.A., voluntárias, produziu centenas de novos edifícios que visavam atender a imigrantes e a residentes. Entre esses novos edifícios havia abrigos, restaurantes para carentes e sem-teto, escolas, parques infantis, hotéis de trânsito, banheiros públicos (Spain, 2001). São diferentes modos por que se apresenta o trabalho das mulheres domesticando o mundo urbano.

  Martin Heidegger (1977) fazia a distinção entre duas formas de edificar: pela e pelo cultivo. Íris Marion Young, adotando o termo preservação para

  construção

  expressar o segundo tipo de edificação, observa que a construção tem sido sempre a província do homem, e a preservação, a província da mulher, sua responsabilidade. O modelo para o segundo é o cultivo na agricultura, o que envolve o cuidado, a nutrição, o sustento, a proteção (Young, 1997, pg. 136). Não se trata apenas do cuidado para com os lugares e para com as coisas, tal como no trabalho comunitário das mulheres descrito acima; envolve o preservar, dentro e além do lar, a memória e a identidade das pessoas e dos grupos (Hayden, 1995). Mais mulheres devem se envolver na forma de edificação que se faz pela construção, como planejadoras e arquitetas; ao mesmo tempo, a edificação pela preservação, tal como é feita tanto por homens quanto por mulheres, deve receber o devido reconhecimento. Uma maneira de fazer isso é pela incorporação, no planejamento governamental e nas iniciativas de desenvolvimento urbano, os valores, as habilidades e as intuições que as mulheres trazem aos movimentos sociais de base (grassroots) visando a melhoria de suas comunidades (Fenster, 1999; Horelli & Vespä, 1994; Moser, 1987). Ao mesmo tempo, pode-se dar aos movimentos sociais de base, às associações locais, recursos adicionais – e habilidades adicionais – para dar apoio e fortalecer seus esforços, devendo ser convidados a participar nas decisões de planejamento e projeto, em vez serem apenas obrigados a contestar essas decisões tomadas burocraticamente.

  A participação comunitária nessas decisões requer uma mudança nos valores e ações predominantes de muitos dos praticantes da arquitetura e do planejamento, quanto a dar importância à informação, à experiência e ao julgamento de não- profissionais, de leigos que já ocupam,ou que ocuparão os espaços sob consideração; os praticantes serão levados a adotar as técnicas necessárias para que essa participação aconteça. Os profissionais do trabalho de “fazer espaços” (professional place makers) podem colaborar com os habitantes dos espaços (place dwellers), de modo que cada grupo possa contribuir com seu conhecimento particular, com seu discernimento e experiência. Isso requer um nível de cuidado e de compromisso, e ainda um tipo de vulnerabilidade que de modo algum são típicos da prática convencional da prática profissional da arquitetura e do planejamento.

  “As responsabilidades do projeto dos espaços comunitários se estende para

  além do que é normalmente compreendido como sendo a ‘ação e o conhecimento profissionais’ padrão, e mergulha dentro do tumultuado domínio das relações humanas, povoado por conceitos como ‘cuidado’, ‘confiança’, e mesmo ‘amor’ ” (Schneekloth & Shibley, 1995, pg. 200).

  Essa abordagem, envolvendo sentimentos de apego e de compromisso entre profissionais e não-profissionais, é similar à abordagem que muitas mulheres adotam em sua participação nos movimentos sociais de base (grassroots movements), visando manter e melhorar suas comunidades. Em ambos os casos, o relacionamento para com o ambiente e para com os outros é de conexão, apego e cuidado – e não o relacionamento profissional tradicional de separação, de distinção, de circunspecção e controle, que é característica da prática da arquitetura e do planejamento, assim como de uma orientação masculinista com relação ao ambiente e aos outros.

  Essa orientação masculina também caracteriza a educação do arquiteto, sua formação, que promove a preocupação estética acima das preocupações cotidianas; a imagem do arquiteto é do gênio masculino, que trabalha só e em competição com todos os outros. Mesmo com o crescimento do número de estudantes mulheres de arquitetura, mesmo com o forte crescimento da população feminina como professoras das escolas de arquitetura [especialmente no Ocidente], esses valores continuam a dar forma tanto ao currículo da arquitetura quanto à cultura arquitetônica, de um modo mais amplo.

  Dado a distinta orientação que as mulheres parecem ter quanto ao ambiente e aos seus ocupantes, é compreensível que a formação do arquiteto, que é planejada e administrada desde uma orientação masculina, seja vista como sexista pela atual geração de professoras de arquitetura (Ahrentzen & Groat, 1992). De um modo significativo, as recomendações que Sherry Ahrentzen e Linda Groat fazem para que a formação do arquiteto seja revista referem-se repetidamente à atividade construir conexões e inter-relacionamentos, como deve ocorrer no estabelecimento de relações entre a arquitetura e outras áreas disciplinares, carreando diferentes modos de pensar para o ateliê de ensino de projeto, e trabalhando colaborativamente (Groat & Ahretzen, 1996). De fato, essas autoras propõem uma metáfora para a arquitetura, que parece levar a noção de conexão ao máximo: “uma tapeçaria de invenção cultural que

  ” (Ahretzen &

  vem a existir como suas próprias e diversificadas fibras entretecidas

  Groat, 1992, pg. 108). Muitas de suas recomendações se sobrepõem às recomendações feitas por um estudo da Carnegie Foundation, acerca da formação do arquiteto (Boyer & Mitgang, 1996).

  ASSUMINDO RISCOS: PONDO O INVISÍVEL VISÍVEL E IMPORTANTE Os aspectos mais robustos da pesquisa acerca da mulher e do ambiente são fundados na análise da vida diária no ambiente e no desenvolvimento de recomendações para a melhoria das condições ambientais, e para o fortalecimento do papel da mulher na tarefa de produzir tais condições ambientais, e em mantê-las. Esses objetivos refletem o objetivo utópico original da pesquisa para o projeto ambiental (Schneekloth, 1994) e fazem a distinção entre os trabalhos acerca da mulher e do ambiente, e muitos outros tópicos na pesquisa sobre o comportamento ambiental. A orientação mais geralmente aplicada à pesquisa depende de uma perspectiva analítica de reconhecida flexibilidade e argúcia. Usando as “lentes” das questões de gênero, da vida cotidiana, das condições materiais de vida, os pesquisadores revelaram-se extremamente efetivos na identificação do que existia como pressupostos, ou do que era ignorado, e em fazer do que descobriram, dos fenômenos identificados, uma verdadeira plataforma de mudanças. Para isso ser feito por profissionais do projeto e do planejamento, requer coragem.

  Articular as necessidades das mulheres, e fazer disso uma base para recomendações visando mudanças é uma posição radical, no caso dos profissionais do planejamento e da arquitetura, e pode levar a uma situação de marginalização ou mesmo de relações de hostilidade com colegas (Ritzdorf, 1994).

  As análises têm demonstrado o poder das dicotomias hierarquizadas e trabalho, no planejamento e no projeto dos ambientes construídos, que operam, por sua vez, no sentido de reproduzir essas dicotomias; as pesquisas têm demonstrado o quanto esses dualismos prejudicam as vidas das mulheres, e distorcem suas necessidades e auto-imagens. A pesquisa e a teoria feministas sugerem que uma visão de mundo masculinizada e a auto-identidade do homem são efetivas em privilegiar as separações e categorizações dualistas e marcadamente estáveis, ao passo que a experiência e a auto-identidade das mulheres são centradas em conexões e em categorizações flexíveis, mutáveis, múltiplas. Muito da pesquisa acerca da mulher e do ambiente demonstra como a perspectiva masculinista tem dominado o projeto ambiental, e como a pesquisa, o projeto e o planejamento, feitos de um ponto de vista feminista, é capaz de reconhecer e de promover inter-relações, conexões, categorizações que se interpenetram, e ocorrem em gradientes, criando intermediações e fronteiras dinâmicas e fluidas entre os condicionantes dos problemas abordados.

  De fato, os pesquisadores das relações entre o ambiente e a mulher praticam essa abordagem pela operação, algo transgressiva, algo arriscada, de cruzamento das fronteiras entre disciplinas; assim, alguns arriscam a aplicação de seus achados na forma de recomendações aos arquitetos e urbanistas; do mesmo modo, outros saem em busca do apoio da academia através de pesquisas baseadas em universidades, ou ainda em busca do apoio da comunidade, servindo-a como “advogados” de causas sociais, pelo prisma do gênero.

  Uma vez que essas categorias dicotômicas de (a) privado / casa / feminino, e; (b) público / trabalho / masculino, são postas de lado, e passamos a estudar as vidas diárias das mulheres, muito se aprende sobre os problemas que essas dicotomias geraram, e sobre como esses mesmos problemas podem ser minorados. Freqüentemente, é exatamente aquilo que é encoberto que se torna a base para as mudanças. Por exemplo: uma vez que a habitação é reconhecida como um lugar onde ocorrem tanto formas de trabalho pago quanto formas de trabalho não-pago, o planejamento habitacional que incorporar opções tanto para as formas de trabalho doméstico pago quanto para a partilha – pelos habitantes – do trabalho não-pago (como a preparação do alimento), faz sentido, é mais satisfatório.

  Os registros que se tem do trabalho das mulheres na construção e desenvolvimento de comunidades sugere um modelo de ativismo com importantes implicações para os programas sociais, e para a prática da arquitetura e do planejamento pelos profissionais. A pesquisa acerca da educação do arquiteto, e as experiências das professoras de arquitetura e urbanismo, assim como das estudantes serviram como base para a geração de recomendações dirigidas à mudança de tal modelo e do currículo do ensino de graduação em arquitetura e urbanismo nos E.U.A.. Descobrir o que tem sido particular ou próprio das mulheres, em termos dos modos de pensar e fazer pode nos auxiliar a compreender no que consiste a experiência feminina, e sugerir direções para mudanças que as beneficiem, e aos homens.

  Um outro dualismo característico da visão masculinista ocorre entre o abstrato e o concreto. Esse dualismo dá maior importância a determinados fenômenos (a produção, a política, a estética, a tecnologia) e menor importância a outros fenômenos (reprodução, família, vida cotidiana), se tanto. Esse dualismo foi essencial para que as vidas e as experiências das mulheres se tornassem invisíveis, na medida em que estivessem associadas o cotidiano, com o concreto, e auxiliou a sustentar uma abordagem da arquitetura que valoriza a aparência acima do uso efetivo. Tal como foi ser estudada para que compreendamos o padrão mais completo das vidas e das atividades das mulheres (Michelson, 1994), e esse estudo deve ser considerado como uma base conceitual e como um instrumento destinado a gerar propostas de mudanças que irão atingir as vidas das mulheres e dos homens de forma ainda mais plena (Franck, 1989; horelli, Booth, & Gilroy, 2000; Horelli & Vespä, 1994). A vida cotidiana não apenas se torna mais visível como ganha uma maior importância, num sentido normativo.

  Assim como nós, pessoas engajadas na pesquisa sobre a mulher e o ambiente, temos tornado os pressupostos e as categorias de análise usados pelos outros visíveis e sujeitas à crítica, temos que examinar e refletir criticamente sobre as categorias e pressupostos que empregamos. “Nós não necessitamos de uma totalidade para trabalhar bem; nós sequer precisamos partilhar o mesmo entendimento básico sobre os conceitos. Precisamos sim do compromisso com o engajamento, para a grande

  

conversação acerca da construção e da deconstrução das categorias e do

  conhecimento” (Schneekloth, 1994, pg. 301). E um dos primeiros conceitos que devem ser criticados é o próprio conceito de gênero.

  Há uma preocupação legítima de que, ao identificarmos as diferenças de gênero, ou ao estudarmos as atividades e as experiências próprias às mulheres, fortaleceremos o que queremos combates: a subordinação feminina, levando a uma mais intensa estereotipificação da mulher, e à redução das chances que elas têm quanto ao seu papel (Ahrentzen, 1996). Por exemplo, o registro sistemático do medo, do incômodo, da dor que está associada a determinadas experiências de mulher na esfera pública, pode ampliar a imagem da “mulher como vítima”, e não enfatizar por outro lado, sua presença cada vez mais freqüente na esfera pública, e sua genuína satisfação na esfera pública (Lofland, 1984) ? Será que o reconhecimento do senso de segurança sentido pelas mulheres em ambientes altamente controlados – e dirigidos ao consumo -, de acesso público, tais como os shopping centers, as livrarias Barnes & noble, ou o McDonald’s, não contribuiria para fortalecer o seu papel doméstico e limitado, e aprimorar a “sanitização” do espaço público e a perda da diversidade, da espontaneidade e da imprevisibilidade da vida urbana ? Será que a proposta de um modelo de trabalho comunitário que é baseado no papel doméstico das mulheres em suas casas (Leavitt & Saegert, 1991) não servirá para robustecer ainda mais esse papel ? Ao contrário, trazer para a luz os modos de pensar e de trabalhar das mulheres, celebrar alguns deles, torná-los a base para a mudança desse papel, pode ser claramente transformador – e é o que esse ensaio tenta demonstrar. Reconhecer seu valor não significa que tais modos de pensamento e trabalho devam permanecer somente como responsabilidade feminina, como a província da mulher; há aí uma potencial liberação de recursos para todas as pessoas. Mas os dois gumes representados pelo aumento (em potencial) de limitações e coações, de um lado, e pelo aumento (em potencial) de autoridade e poder, por outro, permanecem diante de nós.

  Uma diferença de gênero que aumenta esses riscos é o comportamento de cuidado que a mulher leva a efeito tanto com respeito às pessoas quanto com respeito ao ambiente – e ainda deve-se considerar as atitudes e valores relacionados com esse comportamento. A pesquisa feita por Carol Gilligan (1982) sobre o desenvolvimento moral sugere que as mulheres adultas e as adolescentes empregam uma “compreensão

  ” ao solucionar dilemas morais, exigindo que

  reflexiva da necessidade de cuidados consideradas e atendidas, enquanto que os homens adultos e os rapazes empregam uma “compreensão do tratamento justo”, exigindo que as pessoas sejam tratadas de forma justa e com igualdade.

  Gilligan denomina o primeiro conjunto de atitudes citado como uma “ética do cuidado”, e denomina o segundo conjunto de atitudes como uma “ética da justiça”. Ainda que essa diferenciação tenha sido alvo de críticas, o conceito da ética do cuidado mostrou-se consistente com a base formada pelas pesquisas acerca do papel ativo que as mulheres desempenham em comunidade – pesquisas a que nos referimos anteriormente. Esse conceito tem sido usado para caracterizar uma perspectiva feminista no campo do projeto ambiental e em sua pesquisa (Ahrentzen, 1990), e uma abordagem feminista da arquitetura (Franck, 1989). A ética do cuidado também tem sido usada como um quadro conceitual para a análise da experiência da mulher em espaços públicos, e para gerar recomendações tanto para o projeto físico quanto para o próprio programa das ativistas (Day, 2000). Membro do projeto Everyday Life usaram esse conceito – ou uma sua variante – para propor um outro, de “racionalidade da

  responsabilidade ” no planejamento, a ser considerado tanto pelos homens quanto

  pelas mulheres, e que inclui tanto uma expansão dos limites dos limites dos cuidados, do suporte, do auxílio que esteja sob consideração, como uma determinação de luta por mudanças nas condições materiais e sociais de vida (Horelli & Vespä, 1994).

  Há ainda a preocupação de que ser mulher não é, sempre, e para todos os estudiosos, o mais importante atributo em questão; que a importância que se tem dado à questão de gênero é inadequada, e associa-se à desconsideração de outros fatores, tais como idade, raça, classe, preferência sexual, etnicidade, entre outros. Os pesquisadores da relação entre mulher e ambiente têm identificado diferenças significativas nas atitudes e atividades de mulheres vindas de diferentes contextos sociais e econômicos (conforme Day, 1999). Dado que o presente ensaio deve ser breve, por se tratar de uma revisão geral do assunto, a influência desses outros fatores, bem como o contexto mais detalhado da vida das pessoas não foi descrito. Apesar da falta de homogeneidade da categoria mulher, a atenção à mulher como uma categoria

  • – ou um grupo – é essencial para que a pesquisa sobre a mulher e o ambiente se mantenha como uma linha válida de pesquisa, e como um tópico de projeto e de planejamento, assim como para que haja continuidade nos esforços que visam a melhoria das vidas das mulheres.

  Uma maneira de representar a complexidade da categoria mulher e as diferenças que essa categoria sempre inclui, é ver as mulheres não como um grupo homogêneo,mas como uma coletividade ou como uma série (Young, 1997). O conceito de uma série não requer que identifiquemos os atributos de todas as mulheres, nem a pertinência à série define a identidade de uma dada pessoa.

  “Mulher é uma coisa coletiva e serial que não é definida por uma identidade comum, ou por um conjunto comum de atributos que todos os indivíduos da série compartilharia, mas que essencialmente nomeia um determinado conjunto de relações e atributos estruturais de objetos assim condicionados, tanto em sua ação quanto em seu significado” (Young, 1997, pg. 36).

  Certamente muitas dessas relações e desses atributos têm sido abordados nas pesquisas sobre a mulher e o ambiente. Os “componentes” ou membros dessa série

  mulheres podem tornar-se um grupo quando decidem participar conjuntamente, e

  compreendem que são mulheres cujos objetivos tão particulares são gerados

  “Ao mesmo tempo em que a série definida por gênero (mulheres) é determinada por aquelas relações sociais que contêm completamente todas as fêmeas biológicas, temos que os grupos de mulheres são sempre parciais, uma parte dessa série – esses grupos reúnem somente algumas mulheres em torno de alguns propósitos que envolvem a sua experiência de gênero e de série categórica” (Young, 1997, pg. 35).

  Ainda continuamos a distinguir, na pesquisa sobre a mulher e o ambiente (pelo menos implicitamente), o gênero como um construto social, do sexo como um fenômeno biológico. Ao fazermos isso, é aparente que estamos a negar o corpo, de um modo geral, e a negar as mulheres como corpos sexuados. A clara distinção (na tradição de pesquisa sobre mulher e ambiente) entre gênero e sexo, e a tendência a conceder toda a importância à discussão de gênero, e quase nenhuma à discussão do sexo, foram inicialmente necessárias para que pressupostos “essencialistas” – de que ser mulher é algo biologicamente determinado – fossem removidos. Já que esse objetivo foi atingido, agora é possível avançar para além de uma visão tão abstrata do que seja o corpo que o tornou (como um conceito e como uma experiência a ser considerada) quase invisível, ausente. De fato, ao abstrair o corpo, nós caímos na armadilha das poderosas dicotomias mente-corpo e concreto-abstrato, tão importantes para a história e para a estrutura da herança intelectual do Ocidente.

  Nós podemos nos juntar a outras pesquisadoras feministas, no sentido de

  

  também adotarmos uma visão que entremeie os conceitos de gênero e de sexo . Não se trata de entender “gênero” como um construto cultural que seria uma extensão ou como uma espécie de adorno do “sexo biológico”, mas como construtos que constituem um ao outro, como coisas que se complementam. Para que essa visão possa ser consistentemente adotada, e para evitar as armadilhas dos determinismos biológicos, da “biologia com destino”, temos que reconhecer que o corpo não é uma entidade exclusivamente biológica, uma entidade plenamente determinada e “resolvida”, mas como um fenômeno complexo, em continuada mudança, multifacetado, que se sobrepõe e se mescla com outros fenômenos, inclusive os de gênero e de cultura.

  Nós devemos dar atenção tanto aos corpos femininos quanto masculinos, como fez Galen Cranz (1998) em seu estudo da fisiologia do comportamento de sentar, da história da cadeira e as suas desvantagens para o corpo. Nós podemos explorar uma abordagem do projeto que, à semelhança do trabalho de Galen Cranz, é mais plenamente orientado pelo corpo, tal como Bianca Lepori e eu já recomendamos (Franck & Lepori, 2000). Nós podemos explorar a experiência da mulher como corpos sexuais, tal como fenomenologistas o fizeram (Bigwood, 1998;Young, 1990), e nós podemos explorar as implicações dessa experiência para o projeto arquitetônico e do objeto, tal como Lepori o fez para salas de parto (Lepori, 1994). Ela iniciou seu trabalho pelo estudo da fisiologia do nascimento e dos tipos de posições e 13 movimentos descritos por mulheres que deram à luz em suas próprias casas. Ela

  Trata-se aqui de uma ampla e rica literatura. Alguns livros que devem ser citados são: Gender Trouble: Feminismo and the Subversion of Identity (Butler, 1990); Bodies That Matter: On the Discoursive Limits of “Sex” (Butler, 1993); Unbearable Weight: Feminism, Western Culture and the Body (Bordo, 1993); Volatile Bodies: Toward A Corporeal Feminism (Grosz, 1994); Nomadic Subjects: Embodiment and Sexual Difference in Contemporary Feminist Theory (Braidotti, 1994); A Passion for Difference:Essays in Anthropology and Gender (Moore, 1994); Space, Time and Perversion: Essays on the Politics of Bodies (Grosz, 1995);The Eros of Everyday Life: Essays on Ecology, Gender and Society (Griffin, 1995); descobriu que a posição [de parto] mais sensível, em termos fisiológicos, é acocorada – que é uma posição comumente assumida por culturas muito diferentes entre si. Descobriu ainda que, ao parir em suas casas, as mulheres não permanecem passivas, movem-se em busca demais conforto e facilidade, tentam variadas posições durante os trabalhos de parto.

  Apesar disso, a posição convencional do parto na medicina ocidental é uma variedade supina, semi-sentada, joelhos erguidos, numa cama hospitalar, cercada pela equipe médica, que têm o papel ativo de todo o procedimento, sendo que a mãe é o recipiente das decisões e das ações dos demais. O trabalho de Lepori integra informação acerca da fisiologia com uma certa compreensão do processo cultural, e ainda com o acervo de experiências das mulheres que deram à luz. Seu projeto prototípico de um ambiente arquitetônico – inclusive seu mobiliário e instalações – para uma sala de parto, cria condições para a liberdade de movimentos e para a escolha das mais diferentes posições de parto. O projeto responde às demandas do corpo da mulher, assim como às suas emoções, à sua força física, e à sua vulnerabilidade (Franck & Lepori, 2000, pg. 44).

  É possível que, mesmo com uma ampla análise do papel da cultura, um aumento da atenção dos estudiosos acerca da questão do corpo e do determinismo biológico será mal recebido por alguns – por parecer de um “essencialismo” alienante e politicamente ameaçador para a mulher. Esse parece ser um dos riscos que nós enfrentamos continuamente, ao desenvolver a pesquisa acerca da relação entre a mulher e o ambiente, e ao fazermos propostas para mudar a situação presente. As chances de que descubramos o que não sabíamos até então, de dar o devido valor ao que era valoroso, mas que era previamente desconhecido – ou tratado com menosprezo -, e de fazer mudanças que melhorem as vidas tanto de mulheres quanto de homens, bem que merecem esses riscos. Assumamos os riscos, ao mesmo tempo em que permanecemos vigilantes contra as suas armadilhas, sempre com uma atitude aberta ao diálogo com abordagens alternativas.

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