O significado da autoavaliação institucional na perspectiva de técnicos-administrativos de uma universidade pública.

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O significado da autoavaliação institucional na perspectiva de técnicos-administrativos de uma universidade pública DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S1414-40772016000200014 O significado da autoavaliação institucional na perspectiva de técnicos-administrativos de uma universidade pública Ana Elisa de Souza Falleiros Márcio Lopes Pimenta Valdir Machado Valadão Júnior Resumo: Em 2004, o Ministério da Educação criou o Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior como uma forma de regular as Instituições de Ensino Superior e avaliar a qualidade da educação no Brasil. Este trabalho tem como objetivo principal analisar os significados atribuídos à Autoavaliação institucional pelos técnicos-administrativos da classe E com função gratificada da Universidade Federal de Uberlândia, considerando a perspectiva de integração, diferenciação e fragmentação. Utilizando como método de procedimento o estudo de caso e entrevistas em profundidade, foram coletados os discursos dos servidores para identificar os significados atribuídos à Autoavaliação Institucional em diferentes momentos. A análise de conteúdo evidenciou que na Universidade Federal de Uberlândia ainda não se tem uma cultura de avaliação e, um dos motivos para isso, é a falta de resultados práticos advindos do processo de avaliação. Palavras-chave: Cultura organizacional. SINAES. Autoavaliação institucional. Administração pública. The meanings of institucional self-assessment for the technical-administratives in a public university Abstract: The Brazilian Ministry of Education created in 2004 the National Assessment of Higher Education as a system to regulate high level education institutions and evaluate the quality of education in Brazil. The objective of this study is to analyze the meanings attributed to institutional evaluation by technical-administrative class E with financial bonus at Federal University of Uberlândia, considering the perspective of integration, differentiation and fragmentation. Methods employed include case studies and in-depth interviews with public employees performed at two different times (2009 and 2013), in order to identify a change in perception over time. The content analysis evidenced that Federal University of Uberlândia does not have an evaluative culture and one of the reasons for this is the lack of practical results arising from the evaluation processe more prepared to make teaching-learning students with disability in inclusive education perspective. Key words: Organizational culture. SINAES. Institutional Self-assessment. Public management. Avaliação, Campinas; Sorocaba, SP, v. 21, n. 2, p. 593-618, jul. 2016 593 Ana Elisa de Souza Falleiros; Márcio Lopes Pimenta; Valdir Machado Valadão Júnior 1 Introdução Uma organização pública deve ter compromisso com resultados eficazes e com o público. Isso significa que ela deve democratizar o acesso em todos os níveis, ser permeável ao controle da sociedade, melhorar a qualidade dos serviços prestados e aumentar o grau de resolução dos problemas. Sendo assim, os processos de avaliação da administração pública tornam-se estratégicos para o seu gerenciamento (SIQUEIRA, 1990). A administração pública no Brasil passou por três momentos históricos: a administração pública patrimonialista, a burocrática na segunda metade do século XIX e a gerencial na segunda metade do século XX. O último modelo surgiu como uma resposta a mudanças como a globalização da economia e o desenvolvimento tecnológico. Esse estilo tem foco nos resultados e não nos processos. O cidadão é visto como cliente dos serviços públicos e, por isso, os resultados são avaliados por meio do atendimento das suas necessidades (RAMOS, 2005). A avaliação institucional implantada nas Instituições de Ensino Superior (IES) considera a avaliação não como um fim em si, mas como parte de um conjunto de políticas públicas, na área da educação superior, contribuindo para um processo mais amplo de revalorização dessa educação e de desenvolvimento da sociedade brasileira. A avaliação centraliza, organiza e dá coerência a esse processo (INEP, 2004). A atual avaliação institucional surgiu a partir da criação do Plano Nacional de Educação (PNE) criado por meio da Lei 10.172 de 9 de janeiro de 2001(BRASIL, 2001). Em 2004 é promulgada a Lei 10.861 de 14 de abril de 2004 que institui o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – SINAES (INEP, 2004). Na atual avaliação institucional feita nas IES é necessário que os sujeitos envolvidos entendam o seu real significado e não a vejam como, meramente, um programa que deve ser cumprido, para que a universidade se integre ao sistema de educação superior. Essa integração vai muito além da ideia de simplesmente fazer parte. A partir desse entendimento, será possível traçar políticas e estratégias de desenvolvimento para a organização. Conforme o INEP (2009, p. 113) o Governo tem procurado dar significado à avaliação desde a criação do PAIUB em 1993 que, mesmo com sua curta duração, contribuiu para tal e promoveu mudanças no cotidiano das Universidades. É evidenciado que “[.] a autoavaliação institucional deve ter, portanto, um caráter educativo, de melhora e de autorregulação. Deve buscar compreender a cultura e a vida de cada instituição em suas múltiplas manifestações”. 594 Avaliação, Campinas; Sorocaba, SP, v. 21, n. 2, p. 593-618, jul. 2016 O significado da autoavaliação institucional na perspectiva de técnicos-administrativos de uma universidade pública Nesse sentido, o estudo das três perspectivas de Martin (2002) - integração, fragmentação e diferenciação - colabora para a compreensão da cultura organizacional que permeia as Instituições Federais de Ensino Superior. Por meio dessa perspectiva, é possível evidenciar tanto a cultura dominante quanto as subculturas presentes na organização, de forma que elas possam ser entendidas e trabalhadas para a consecução de um objetivo. O objetivo geral deste estudo é analisar os significados atribuídos à avaliação institucional pelos técnicos-administrativos da classe E com função gratificada da Universidade Federal de Uberlândia, considerando a perspectiva de integração, diferenciação e fragmentação. Na Universidade Federal de Uberlândia, a avaliação institucional teve como objetivo identificar suas condições de ensino, pesquisa e extensão, suas potencialidades e fragilidades, com vistas à melhoria da sua qualidade por meio do redirecionamento do planejamento, das ações das Unidades Acadêmicas e Administrativas e da gestão da Universidade. Do ponto de vista prático, o presente trabalho justifica-se por ser necessário entender e analisar como a avaliação de uma instituição pública é realmente vista pelos seus servidores, procurando relacionar os discursos destes com os objetivos do Governo ao implantar uma avaliação institucional. Também se justifica do ponto de vista teórico pelo fato de não haver sido encontrada na literatura nenhuma pesquisa sobre a avaliação institucional em IES que estude os seus significados, agrupando-os conforme a teoria de Martin (2002). 2 Referencial teórico 2.1 A administração pública Para conceituar administração pública é necessário voltar-se para o direito administrativo. Di Pietro (2005, p. 99) conceitua a administração pública em dois sentidos: um subjetivo e outro objetivo. O primeiro envolve as pessoas, órgãos e agentes públicos que exercem a atividade administrativa. Já no sentido objetivo, ela engloba a natureza das atividades dos entes públicos e é atribuída aos órgãos do Poder Executivo. A administração pública no Brasil vem se modificando, historicamente, por meio de três modelos: a administração pública patrimonialista, a burocrática e a gerencial. A administração pública patrimonialista tem como características principais a corrupção e o nepotismo, devido ao fato do estado ser a extensão do poder do soberano e os servidores, seus súditos. Esse modelo não se sustentou Avaliação, Campinas; Sorocaba, SP, v. 21, n. 2, p. 593-618, jul. 2016 595 Ana Elisa de Souza Falleiros; Márcio Lopes Pimenta; Valdir Machado Valadão Júnior por muito tempo, surgindo a administração pública burocrática. Seus princípios orientadores eram: a profissionalização, a ideia de carreira, a hierarquia funcional, a impessoalidade e o formalismo. A administração pública burocrática sempre enfatizou o controle dos abusos, porém era ineficiente, pois não era voltada para servir o cidadão (RAMOS, 2005). Conforme o mesmo autor devido às mudanças como a globalização da economia e o desenvolvimento tecnológico, surge a administração pública gerencial. Apesar de possuir alguns princípios da burocrática, ela inova na forma de controlar, passando a focar nos resultados e não nos processos. Ela vê o cidadão como cliente dos seus serviços e, por isso, os resultados são avaliados por meio do atendimento das necessidades do cidadão. Nesse modelo os objetivos do administrador público são precisos, existe autonomia na gestão dos recursos humanos, materiais e financeiros e controle ou cobrança a posteriori dos resultados. É possível pensar que a administração pública no Brasil se encontre no modelo de administração pública gerencial, porém, ainda com algumas características da burocrática, como por exemplo, o foco nos processos e não nos resultados. Nota-se por parte do Governo Federal uma tentativa de mudar esse foco e, por isso, se torna necessário e importante criar mecanismos para se avaliar a administração pública. 2.2 Avaliação institucional Holanda (2003, p. 2) propõe dois conceitos de avaliação: um no sentido lato e outro no estrito. No sentido lato a avaliação significa “julgar, estimar, medir, classificar, ordenar, ponderar, aferir ou analisar criticamente o mérito, o valor, a importância, a relevância ou a utilidade de algo ou alguém”. Já no sentido estrito, avaliar é “determinar o mérito e a prioridade de um projeto de investimento ou de um programa social, geralmente financiado com recursos públicos e voltado para resolver um determinado problema econômico ou social”. Mokate (2002) afirma que uma avaliação procura criar valor para alguma coisa, seja um programa, uma empresa, uma atividade ou um projeto. Para o autor a avaliação ainda não possui uma ferramenta significativa dentro das empresas para implementar e desenhar estratégias, programas e projetos. Perez e Famá (2003) afirmam que no processo de avaliação se trabalha com premissas e hipóteses comportamentais, ou seja, ativos intangíveis. Ao se avaliar uma empresa, deve-se levar em consideração o valor dos ativos intangíveis, como por exemplo, o conhecimento dos funcionários. Apesar de 596 Avaliação, Campinas; Sorocaba, SP, v. 21, n. 2, p. 593-618, jul. 2016 O significado da autoavaliação institucional na perspectiva de técnicos-administrativos de uma universidade pública não se ter ferramentas unânimes para medi-los, eles são considerados valiosos e estratégicos. Por isso, os autores Colauto e Beuren (2003), acreditam que um sistema de avaliação só será útil na tomada de decisões se for possível comparar os indicadores com outras empresas do mesmo setor ou com dados históricos da organização. Neste estudo adotaremos a definição de avaliação institucional dada por Dias Sobrinho (1996, p. 72): Avaliação implica um fundamentado conhecimento daquilo sobre o que interrogamos e atribuição de significado aos fatos, dados e informações que colhemos. Para além dos fatos, e a partir deles, a produção dos juízos de valor. Avaliar é uma ação que não admite neutralidade. Ultrapassa as descrições objetivas e as análises de coerência interna da realidade tomada como objeto. É um processo de forte conteúdo ético, pois indaga sobre valores e significados sociais. Atribuir significações e emitir juízos de valor, ou seja, avaliar, é reconhecer o mundo da produção humana e as diferenças, é responder às perguntas que fazemos a respeito de seus valores ou de suas qualidades. Ainda conforme o mesmo autor, a avaliação deve lidar com os posicionamentos diferentes e não buscar a homogeneidade de valores, interesses ou concepções. A sua legitimidade depende da transparência do processo avaliativo. Portanto, toda instituição deve passar por processos de avaliação para que deixe de lado os juízos de valor e possa, com dados concretos e objetivos, traçar estratégias e gerir a diversidade internamente, bem como adaptar-se às necessidades do ambiente externo. 2.2.1 Autoavaliação Institucional nas IFES: um braço do Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior As primeiras avaliações institucionais do ensino superior surgiram com o intuito de controlar a qualidade das Instituições de Ensino Superior (IES) e prestar contas à sociedade. Em 1983 surgiu o PARU que abordou dois temas nos questionários aplicados: gestão e produção (disseminação de conhecimentos). Depois tem-se o Programa de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras – PAIUB que foi o primeiro programa de avaliação institucional das IES e a adesão a ele era voluntária. Após essa segunda tentativa de avaliação, surgiram outros mecanismos, porém mais focados nos resultados e desempenho das IES (POLIDORI; FONSECA; LARROSA, 2007). A atual avaliação institucional faz parte do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES). Suas finalidades são a melhoria da qualidade da Avaliação, Campinas; Sorocaba, SP, v. 21, n. 2, p. 593-618, jul. 2016 597 Ana Elisa de Souza Falleiros; Márcio Lopes Pimenta; Valdir Machado Valadão Júnior educação superior, a orientação da expansão da sua oferta, o aumento permanente da sua eficácia institucional e efetividade acadêmica e social e, especialmente, a promoção do aprofundamento dos compromissos e responsabilidades sociais das instituições de educação superior, por meio da valorização de sua missão pública, da promoção dos valores democráticos, do respeito à diferença e à diversidade, da afirmação da autonomia e da identidade institucional. O SINAES é composto por três componentes principais: a avaliação das instituições, dos cursos e do desempenho dos estudantes (INEP, 2004). A avaliação institucional está dividida em duas modalidades: a autoavaliação e a avaliação externa. A primeira é feita pela Comissão Própria de Avaliação de cada IES e orientada pela Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior (CONAES). A segunda modalidade consiste em uma avaliação externa realizada por comissões designadas pelo INEP e é feita de acordo com padrões de qualidade para a educação (INEP, 2004). Leite (2008), em seu artigo, evidencia a importância de se ter uma cultura de avaliação dentro da instituição de ensino superior. O estudo de Andriola e Souza (2010) corrobora com a ideia de Leite (2008) sobre a cultura de avaliação, pois os segmentos entrevistados evidenciam em seus discursos a importância da cultura avaliativa para entender a Avaliação Institucional e para que os sujeitos envolvidos participem dos ciclos de avaliação. Com o SINAES, o Estado procurou consolidar um significado para a avaliação dentro das IES por meio de um processo contínuo, que serve, também, como forma de regulação do ensino superior. A seguir, se discutirá sobre pesquisas na área de cultura organizacional. Com isso, se pretende entender como a cultura de uma organização influencia nos modos de agir de seus colaboradores e pode interferir em como ela será gerida e seus objetivos traçados e alcançados. 2.3 Cultura organizacional O tema cultura organizacional se popularizou nas últimas décadas. Foi a partir dos anos 80 que se notou o crescimento das pesquisas na área, apesar de já existir produção antes dessa data. Esse crescimento é explicado por dois fatores: o milagre japonês e o fato da cultura organizacional passar a ser vista como solução para problemas identificados dentro das empresas (FREITAS, 1991). Martin (2002) relata que muitos estudiosos de cultura organizacional encontraram nela a possibilidade de obter soluções gerenciais para motivar e gerenciar os funcionários, utilizando valores da cultura para gerar comprometimento e aumentar a produtividade. A autora acredita que as pesquisas sobre a cultura organizacional têm mais a oferecer do que apenas promessas da cultura como 598 Avaliação, Campinas; Sorocaba, SP, v. 21, n. 2, p. 593-618, jul. 2016 O significado da autoavaliação institucional na perspectiva de técnicos-administrativos de uma universidade pública forma de se chegar à lucratividade. Essa não é a única razão para se estudar cultura, porém, Martin (2002) admite que são pesquisas representativas. No presente trabalho, utilizaremos a definição de cultura organizacional proposta por Martin (2002). A autora acredita que a cultura é uma metáfora usada para estudar a vida organizacional. Ela busca entender como as pessoas interpretam os significados das manifestações e como essas interpretações formam padrões de claridade, consistência e ambiguidade os quais podem ser utilizados para analisar a vida no ambiente de trabalho. Um observador da cultura estuda como as manifestações culturais se ligam aos padrões, gerando conflitos, harmonia, ambiguidades, paradoxos e contradições. Neste estudo, trataremos as manifestações do significado da avaliação para os servidores e estudantes da UFU. 2.3.1 As três perspectivas Martin, Frost e O’Neill (2004) propõem três perspectivas nos estudos sobre cultura organizacional: integração, diferenciação e fragmentação. Os estudos relativos à integração são caracterizados pela consistência das interpretações culturais, pela organização voltada para o consenso e pela transparência. As empresas tem muitas manifestações culturais como: práticas formais e informais, histórias dos funcionários, rituais, jargões específicos, normas de conduta, entre outros. Segundo Passos (2005) na perspectiva da integração existe elementos que são compartilhados por todos, de modo homogêneo e são balizadores das interpretações partilhadas por quase todos, Acesso em: 17 jul. 2009) 65 O Marechal Castelo Branco assumiu a Presidência da República em 15.04.1964. 116 A denominação do bairro remete à figura de Francisco dos Santos, o Chico dos Santos, dono de um rancho às margens do rio Machado onde ele administrava um entreposto de mercadorias, uma venda e uma pousada para os viajantes que comercializavam produtos através da estação de Fama (1896) da Estrada de Ferro Muzambinho e do barco que ia de Fama até a Cachoeira (ainda existente no rio Machado e próxima ao bairro). Segundo um de seus descendentes, Sr. João Esmeraldo Reis, nascido em 1932, figura de destaque no bairro, quando da construção de Furnas, a expectativa dos moradores é que a energia elétrica chegasse ao bairro. Até então apenas os moradores mais abastados do bairro eram sócios de uma pequena usina elétrica, inaugurada em 12 de abril de 1951.66 Em seu depoimento à pesquisadora, em estudo prévio sobre a comunidade atendida pela Fundamar, em 1994, Sr. João Esmeraldo relembrou as várias pontes construídas sobre o rio Machado, interligando o bairro do Chico dos Santos ao bairro do Coroado no município vizinho de Alfenas. Antes da construção da primeira ponte a travessia era de barco e para o gado era na água. Segundo o depoente, quando a primeira ponte foi construída, em torno de 1920, só aqueles que contribuíram para a obra tinham livre acesso. Os demais tinham que pagar para atravessar ou se valerem dos préstimos do barqueiro, Chiquinho Cordeiro. Depois que o rio Machado foi represado por Furnas, no bairro Chico dos Santos (1965?) a terceira ponte foi construída pela comunidade com ajuda de ambas prefeituras – Paraguaçu e Alfenas. O Sr. João Esmeraldo 66 O jornal “O Paraguassu”, Paraguaçu (MG), n. 496 de 15 abr. 1951 traz a notícia: “Inauguração da Luz Eletrica no Bairro Chicos dos Santos”. Segundo Sr. João Esmeraldo, eram vinte e dois sócios envolvidos na construção da usina de energia elétrica, captando as águas do ribeirão que deságua no rio Machado, no bairro Chico dos Santos. O responsável pela usina era Geraldo de Abreu, de Alfenas. 117 participou da construção da ponte de madeira amarrada com cipó, a base era de pedra e sua extensão era de 22m. Foi construída entre 25 de julho e 25 de agosto de 1967. Edição de “A Voz da Cidade” de 1º de outubro de 1967 confirma a informação de nosso depoente. Furnas só viria construir a ponte sobre o rio Machado, em substituição à antiga, já interditada, em 1981. O jornal “A Voz da Cidade” de 28 de março de 1981 refere-se a um convênio entre a Prefeitura Municipal de Paraguaçu e Furnas – Centrais Elétricas S/A para construção de obras para evitar o ilhamento de alguns produtores rurais, cujas propriedades localizam-se nas margens do lago de Furnas. Refere-se ainda à construção da nova ponte do rio Machado, de interesse direto dos moradores do Bairro dos Santos (bairro Chico dos Santos, em Paraguaçu) e do Coroado, no município de Alfenas, a ser executada diretamente por Furnas. Raro exemplo de publicação de memórias sobre um bairro rural do município de Paraguaçu, o livro “Memórias do Chico dos Santos”, de autoria de Edson Vianei Alves (1949-2002), sobrinho materno do depoente João Esmeraldo, registra suas lembranças sobre o rio Machado, ao tempo de seu pai, Joaquim Felipe: “No rio Machado, ele [o pai] pescava dourado, curimba, tubarana, piapava, mandi, bagre e lambari.” (ALVES, 2000, p. 34) Sr. José Cavaleiro, mais conhecido por Tonico Cavaleiro (1933), também nascido e ainda morador no bairro Chico dos Santos, lembra-se também das boas pescarias no rio Machado. Mas afirma que o represamento do rio facilitou muito a vida, pela facilidade de captação d‟água para a lavoura, 118 principalmente do alho, principal atividade do bairro na década de 50 a 60.67 Sr. Hélio Meirante, nascido em 1935, também nascido e ainda residente nas mesmas terras que foram de seus pais, às margens do rio Machado, lembra-se que seu pai perdeu três alqueires de terra e foi indenizado pelo valor nominal das mesmas. Seu irmão, Ademir de Souza Meirante, nascido em 1953, calcula em dez alqueires as terras perdidas por seu pai para Furnas. A chegada dos técnicos de Furnas no bairro é rememorada pelos irmãos Meirante: Foi uma coisa. Da moda que a gente nem esperava. Que antes a gente via passar, fazer a marcação, e ficava abismado de ver aquelas condução no meio do pasto. Que era para fazer a marcação, onde a água ia atingir. [.] Eles não explicava nada. Eles entrava [sic] no meio do pasto, com aqueles jipes, com aqueles aparelhos, marcando tudinho. Eles nunca veio [sic] aqui. (Depoimento do Sr. Hélio Meirante, 2009) Foi enchendo e foi acabando tudo. Se não vendesse [para Furnas] já perdia tudo. Lá no retiro, pra baixo do Matão, o rapaz não quis vender a casa, o terreno, de jeito nenhum. Não vendeu. Eu vi a casa, o terreno foi subindo, sumiu tudo. Perdeu tudo. [.] Que nem eles falou [sic]: „aqui tando cheio é nossa, tando seco é seu‟. (Depoimento do Sr. Ademir Meirante, 2009) Sr. Tonico Cavaleiro, quando indagado sobre a reação da população do bairro à chegada de Furnas, disse: “o povo achou bão [sic] e é bão [sic] até hoje”.68 67 O almanaque “O Sul-Mineiro Ilustrado” em reportagem intitulada “O Desenvolvimento de Paraguassú e a Administração Cristiano Otoni do Prado”, datado de 1941, informa sobre a cultura de alho no município, cuja produção “figura em primeiro logar no Brasil”. 68 Os depoimentos desses moradores ribeirinhos foram filmados por um grupo de educadores da Fazenda-Escola Fundamar, em 2009. Fragmentos de seus depoimentos foram incorporados a uma apresentação em PowerPoint integrante do instrumento de capacitação dos educadores, objeto dessa dissertação. 119 6.9. CINQUENTENÁRIO DE FURNAS: DUAS VERSÕES DISTINTAS Em 2000, a denúncia sobre as péssimas condições sanitárias do lago de Furnas era objeto do jornal “A Voz da Cidade”, em 1º de setembro. À época a preocupação era com o baixo nível das águas do lago, que prejudicava o turismo, principal fonte de renda da população lindeira. O jornal faz um paralelo entre os prejuízos daquele momento e aqueles sofridos à época da constituição do lago. E especula sobre as causas do rebaixamento do nível das águas, entre elas, a rivalidade entre o então presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Itamar Franco69, sobre a privatização de Furnas. Segundo essa versão, frente às ameaças do governador contra a privatização, o Presidente teria pedido à direção da empresa para esvaziar o lago. O jornal ainda noticia uma reunião de representantes da Associação dos Municípios do Lago de Furnas (ALAGO) com a diretoria da empresa em 28.11.2000, para encontrar soluções para as agressões ambientais que a represa vinha sofrendo, bem como recuperar o passivo que a empresa tinha com os municípios lindeiros: Diariamente são despejados no local, dejetos sanitários, industriais e agrotóxicos. A falta de infra-estrutura e a de uma política de utilização do Lago vem comprometendo o desenvolvimento da região, que aposta no turismo como uma das ferramentas para reverter a estagnação econômica. (A VOZ DA CIDADE, 12 set. 2000, p. 1) Em 2007, ano do cinqüentenário de Furnas, o jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, trouxe dois artigos sobre o evento, que evidenciam opiniões distintas sobre os impactos gerados pelo empreendimento. 69 O governador Itamar Franco e o Presidente Fernando Henrique Cardoso assumiram seus respectivos cargos em 1999. O Presidente iniciava então seu segundo mandato. 120 Luiz Neves de Souza, mestre em turismo e meio ambiente, em artigo intitulado “Os 50 Anos do Lago de Furnas”, denuncia a ausência de políticas públicas que canalizassem esforços voltados à preservação ambiental e também de projetos consistentes e objetivos para o fomento e desenvolvimento do turismo na região. E reclama: Basta percorrer as 34 cidades do Lago de Furnas e observar, em todas elas, toneladas de rejeitos em esgoto e lixo, além de defensivos agrícolas que são despejados em diversas regiões que se dizem próprias para o turismo e para a prática de esportes náuticos, para não falar da situação caótica da rede viária local. (SOUZA, 2007) O senador Eliseu Resende, no artigo intitulado “A Epopéia de Furnas” em “homenagem evocativa ao cinqüentenário”, imagina que sem a energia elétrica e a Petrobrás, o Brasil estaria hoje nos mesmos níveis de muitos países da África. Durante esse tempo [desde 1957] construímos nossos portos e modernizamos outros; instalamos a indústria química de base; desenvolvemos a produção de veículos e de navios; e entramos, firmes, na aeronáutica. Para tudo isso contribuiu a energia de Furnas e a que ela transporta e distribui, pelo principal sistema de interligação das grandes geradoras nacionais (RESENDE, 2007, p. 9). Ambos pontos de vista refletem faces distintas de um mesmo fato histórico. A percepção do ganho pela geração de energia para o desenvolvimento industrial nacional versus os prejuízos Kim, J.; Saito, K.; Sakamato, A.; Inoue, M.; Shirouzu, M.; Yokoyama, S. Crystal structure of the complex of the human Epidermal Growth Factor and receptor extracellular domains. Cell, v. 110, p. 775-787, 2002. Ortega, A.; Pino, J.A. Los constituyentes volátiles de las frutas tropicales. II. Frutas de las especies de Carica. Alimentaria. Revista Tecnología Higiene Alimentos, v. 286, p. 27-40, 1997. Oshima, J.; Campisi, J. 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