História da Ciência: objetos, métodos e problemas.

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HISTÓRIA DA CIÊNCIA: OBJETOS, MÉTODOS E PROBLEMAS History of Science: purposes, methods and problems Lilian Al-Chueyr Pereira Martins 1 Resumo: O objetivo deste artigo é auxiliar o trabalho de pessoas que estão se iniciando na pesquisa de História da Ciência, especialmente em relação a um determinado tipo de trabalho a que nos dedicamos. Este tratará da escolha de um tema adequado de pesquisa, dos tipos de fontes encontradas em História da Ciência e de alguns problemas encontrados em trabalhos de História da Ciência. Este estudo levou à conclusão de que só se apreende a fazer pesquisa em História da Ciência a partir da prática e que um bom historiador da ciência se constrói a longo prazo. Unitermos: metodologia da pesquisa em História da Ciência; fontes primárias; fontes secundárias. _________________________________________________ Abstract: The aim of this paper is to help people who are starting History of Science research, especially concerning a definite kind of work to which we dedicate ourselves. It deals with the choice of a suitable research subject, the kinds of sources in History of Science, as well as some problems which may be found in the works on History of Science. This study leads to the conclusion that beginners learn how to do History of Science research through the praxis and that a person becomes a good historian of science in the long term. Keywords: History of Science research methodology; primary sources; secondary sources. _________________________________________________ Introdução Este trabalho se destina a todos aqueles que estão iniciando uma pesquisa em História da Ciência ou que desejem fazer uma tese em História da Ciência ou temas correlatos, particularmente àqueles que optarem pelo tipo de trabalho em História da Ciência a que vamos nos referir.2 Por outro lado, acreditamos que os aspectos discutidos neste artigo poderão também ser úteis para aqueles que se dedicam à área de Educação ou ao Ensino de Ciências e que fazem uso de trabalhos de História da Ciência seja em sua própria pesquisa ou em suas aulas. Sabese que trabalhos de História da Ciência muitas vezes contêm erros de vários tipos e tomar conhecimento dos procedimentos necessários em uma pesquisa de História da Ciência pode auxiliar na seleção de bons trabalhos. Muitos estudiosos vêm tentando definir o que é História da Ciência ou discutindo se seria preferível a denominação História da Ciência ou Histórias das Ciências. Tratam-se de discussões complexas sobre as quais não existe um consenso e não pretendemos nos concentrar nelas. Em um nível fundamental, os filósofos da ciência vêm debatendo há muito tempo 1 Professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em História da Ciência, PUC/SP; Pesquisadora do Grupo de História e Teoria da Ciência (GHTC), Unicamp; Pesquisadora do CNPq. E-mail: lacpm@uol.com.br 2 Certamente há várias metodologias de pesquisa em História da Ciência e a própria “metodologia de pesquisa em História da Ciência” tem uma história (ver MARTINS, 2001, e referências citadas naquele trabalho). Tais metodologias podem ser extraídas dos diversos estudos historiográficos que vêm se sucedendo no tempo. Entretanto, não existem muitas obras específicas sobre metodologia de pesquisa em História da Ciência disponíveis. Uma boa obra que trata também desses aspectos é o livro de Helge Kragh (1989). Uma outra obra de referência que possibilita uma visão de diversas linhas historiográficas em História da Ciência é a de OLBY, CHRISTIE & HODGE (1990). 305 Ciência & Educação, v. 11, n. 2, p. 305-317, 2005 Lilian Al-Chueyr Pereira Martins acerca dos critérios que vão delimitar o que é ciência e o que não é ciência e ainda não chegaram a um acordo. Podemos, entretanto, fazer algumas afirmações a respeito da História da Ciência. Em primeiro lugar, que se trata de um estudo metacientífico ou de segundo nível, uma vez que se refere a um estudo de primeiro nível que é a ciência. Há outros estudos metacientíficos que não são História da Ciência, como, por exemplo, a Psicologia da Ciência, a Filosofia da Ciência, e a Sociologia da Ciência. A História da Ciência, em um primeiro nível, é descritiva, porém deve utilizar a terminologia adequada que normalmente ela retira da Filosofia da Ciência. Entretanto, não deve permanecer somente na descrição, mas deve ir além, oferecendo explicações e discutindo cada contribuição dentro de seu contexto científico. Além disso, consideramos também que a História da Ciência apresenta uma metodologia própria, que não é nem a metodologia da História e nem a metodologia da Ciência, uma vez que é um tipo de estudo de natureza diferente dos dois anteriores (ver a respeito MARTINS, 2001, p. 37-40). Ademais, deve-se levar em conta que para fazer um trabalho de História da Ciência é preciso um treino que envolve vários estudos: em metodologia de pesquisa em História da Ciência, em epistemologia, um conhecimento dos conceitos da ciência com a qual se está lidando, além de um conhecimento histórico do período que está sendo estudado. Assim, não basta ser um matemático ou um historiador para fazer uma pesquisa em História da Matemática, pois as técnicas empregadas de um trabalho em História da Ciência são diferentes daquelas utilizadas em Matemática ou nas pesquisas históricas de outros tipos. Qualquer que seja a formação universitária que o indivíduo tenha obtido, ele deverá ter uma preparação longa para que se torne um historiador da ciência competente. Um bom historiador da ciência se constrói a longo prazo. Há diversas subáreas e vários tipos de enfoques distintos em História da Ciência. Vamos nos referir aqui a duas possíveis abordagens. Uma abordagem conceitual (interna, internalista), discute os fatores científicos (evidências, fatos de natureza científica) relacionados a determinado assunto ou problema. Procura responder a perguntas tais, como se determinada teoria estava bem fundamentada, considerando o contexto científico de sua época. Por exemplo: A teoria de evolução3 de Lamarck estava bem formulada e fundamentada para sua época? Uma abordagem não-conceitual (externa, externalista), lida com os fatores extracientíficos (influências sociais, políticas, econômicas, luta pelo poder, propaganda, fatores psicológicos). Por exemplo: se uma teoria estava bem fundamentada para sua época e foi rejeitada, o porquê da rejeição da mesma diz respeito a fatores não-conceituais. Por que a teoria de evolução de Lamarck foi rejeitada em sua época já que estava bem fundamentada? Um estudo completo envolveria os dois tipos de abordagem. Entretanto, embora em termos práticos tudo ocorra ao mesmo tempo, ou seja, os processos de proposta/fundamentação e o de aceitação ou rejeição não sejam independentes um do outro, esta distinção pode proporcionar maior clareza à análise de História da Ciência. Assim é possível, para efeito de estudo, dividir o processo em duas partes e, normalmente, um estudo não-conceitual deve ser precedido de um estudo conceitual bem-feito. Os dois tipos de pergunta que estão colocados nos parágrafos anteriores, dão origem a dois tipos de pesquisa que vamos procurar exemplificar por meio da Teoria de Evolução de Lamarck. Para responder à primeira pergunta, teremos que selecionar inicialmente alguns aspectos da teoria de Lamarck em sua obra original, já que ela lida com questões que vão desde 3 Embora Lamarck não utilizasse o termo evolução para se referir ao que ele chamou de sua teoria, pois este termo tinha uma conotação diferente da atual, podemos dizer que propôs o que consideraríamos atualmente como sendo uma teoria de evolução. É neste sentido que utilizaremos esse termo neste artigo. Ciência & Educação, v. 11, n. 2, p. 305-317, 2005 306 História da ciência: objetos, métodos e problemas a origem da vida até o surgimento das faculdades superiores no homem, abrangendo várias áreas de estudo como a Zoologia, a Botânica, a Geologia, a Química etc. Se ele escreveu várias obras onde apresentou diversas versões de sua teoria, teremos que examinar todas, inclusive a última, onde aparecerá a versão final de sua teoria. Tendo, por exemplo, escolhido a parte que trata da Zoologia sem lidar com o limite superior da escala animal, que é o homem, vamos procurar verificar, em relação aos aspectos escolhidos (por exemplo, origem da vida/geração espontânea; escala animal; espécies; as leis da transformação dos animais), como Lamarck fundamentava suas idéias, em que evidências ele se baseou e se havia lacunas metodológicas (coisas que ele poderia ter feito em sua época e não fez). Um dos problemas das teorias de evolução é a apresentação de exemplos de formas intermediárias entre espécies fósseis antigas e espécies atuais. Lamarck tinha à sua disposição várias formas intermediárias entre conchas fósseis e atuais e não utilizou esses exemplos para fundamentar sua teoria. Sob o ponto de vista epistemológico empirista (que era a concepção de ciência que ele defendia), esta pode ser considerada uma lacuna metodológica. Por outro lado, vamos analisar também as alternativas de teorias de evolução concebidas um pouco antes ou na época de Lamarck e indicadas por seus coetâneos ou historiadores da ciência tais como as teorias de De Maillet e Robinet para verificar se elas eram mais ou menos coerentes que a de Lamarck. Ao fazer isso, verificamos que a proposta de Lamarck, embora apresentasse algumas lacunas metodológicas, era superior a todas as outras alternativas - se é que elas poderiam ser chamadas assim, pois algumas delas poderiam ser consideradas obras literárias ou metafísicas que não tinham como ponto de partida um estudo de História Natural, como no caso de Lamarck. Assim, estudando as publicações científicas primárias, pudemos responder à primeira pergunta; ou seja, a teoria de Lamarck estava bem fundamentada para a época. Esta resposta nos leva à segunda pergunta: se não foram fatores de natureza conceitual, quais fatores então teriam contribuído para que a teoria de Lamarck fosse rejeitada, na época? Para respondê-la, teremos que fazer um estudo de outro tipo, porque em geral esses fatores (políticos, religiosos, sociais, luta pela autoridade no campo, propaganda), que são chamados não-conceituais (ou extracientíficos), não transparecem nos textos científicos. Para detectá-los, seria preciso estudar a correspondência de Lamarck com outros estudiosos de sua época ou de outros estudiosos influentes que comentassem sobre Lamarck e sua teoria, ler textos que nunca foram publicados, analisar o contexto social, político e religioso da época. Para ter acesso a todas essas informações, seria necessária uma viagem ao exterior, incluindo visitas a bibliotecas e arquivos, por um período relativamente longo, pois esse tipo de material inédito não está disponível aqui no Brasil. Além disso, seria preciso um treino do pesquisador para que ele pudesse trabalhar com esses documentos (ver MARTINS, 1993). A seguir, daremos algumas sugestões que poderão auxiliar a encontrar um bom tema de pesquisa, comentaremos, depois, acerca dos tipos de fontes encontradas em História da Ciência e, finalmente, trataremos de alguns problemas encontrados em trabalhos de História da Ciência. Como se aprende a fazer uma pesquisa em História da Ciência? Não existe uma fórmula mágica ou receita infalível para fazer uma boa pesquisa em História da Ciência. Em diversos momentos, o pesquisador vai refletir sobre o problema estudado e procurar novas fontes. Ele vai precisar fazer levantamentos, selecionar e localizar documentos, buscá-los ou obter cópias deles e analisá-los. Precisará também escrever, elaborar uma argumentação, discutir trabalhos historiográficos anteriores sobre o mesmo assunto e fundamentar bem 307 Ciência & Educação, v. 11, n. 2, p. 305-317, 2005 Lilian Al-Chueyr Pereira Martins suas conclusões. Tudo isso exige um trabalho intenso, cansativo, e pressupõe o conhecimento de técnicas de pesquisa que o iniciante precisa aprender. Por outro lado, também não existe um orientador que consiga transformar seu orientando em um bom pesquisador. É preciso um esforço de ambas as partes. Uma forma de melhorar nosso trabalho é expô-lo às críticas construtivas de nossos pares, iniciando pelos próprios colegas, antes de apresentá-los para um público mais amplo e especializado como o que se encontra em congressos, por exemplo. Como tudo na vida, a História da Ciência tem modismos. A maioria deles, entretanto, como mostra a própria História da Historiografia da Ciência, tem duração curta. Até o indivíduo se tornar apto a publicar trabalhos nessa nova tendência desenvolvida em outros países, ela poderá já estar sendo substituída por outra. Assim, deve-se ter cuidado com isso. Por exemplo, nas décadas de 1960-1970, grande parte dos historiadores defendia que a História deveria abandonar a neutralidade e defender uma ideologia (a marxista). Já na década de 1980, o marxismo foi questionado e juntamente com ele a História ideológica, havendo um retorno à biografia, ao estudo da História política, administrativa, religiosa e constitucional (ver a respeito em MARTINS, 2001, p. 40-41). Como encontrar um bom tema de pesquisa? Normalmente, uma pesquisa investiga uma questão dentro de um assunto. Por exemplo: O que levou Dalton a supor que a molécula de água é constituída por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio? Neste exemplo, o “assunto” é a Teoria Atômica de Dalton e a “questão” é a pergunta colocada acima. O assunto de pesquisa precisa ser delimitado. Não se pode fazer uma pesquisa sobre a História da Matemática como um todo. Quanto mais restrito for o assunto, mais fácil será dominá-lo. Entretanto, se o restringirmos demasiadamente, poderemos correr o risco de desenvolver uma pesquisa pouco relevante e que não provoque o interesse dos leitores. É aconselhável que o pesquisador iniciante evite assuntos que já foram excessivamente explorados por outros historiadores, reservando-os para quando tiver mais experiência, quando terá maiores possibilidades de acrescentar algo original ao que já foi feito. Assim, em vez de estudar a Teoria de Evolução de Darwin ou a mecânica de Newton, por exemplo, assuntos que já foram bastante explorados, poderia estudar assuntos que foram menos abordados, tais como as idéias evolutivas de Ernst Haeckel ou a mecânica de Lagrange. No entanto, é preciso tomar cuidado para não cair no extremo oposto: estudar um desconhecido, sobre o qual pode nem sequer existir uma documentação que possibilite a pesquisa. A “questão” a ser investigada depende, em grande parte, do tipo de enfoque adotado. Dentro de um assunto qualquer, pode-se formular uma infinidade de questões diferentes, que serão relevantes ou não dependendo da linha de trabalho adotada. Há, no entanto, algumas regras gerais bastantes evidentes. Em uma pesquisa, não faz sentido repetir coisas que já foram feitas, ou chegar a conclusões já aceitas por todos, sem acrescentar nada de novo. Uma pesquisa deve procurar trazer novos conhecimentos históricos ou criticar e corrigir conhecimentos antigos. Em geral, a questão é guiada por uma hipótese de trabalho ou por uma conjetura inicial – por exemplo, a suposição de que certas descrições históricas anteriores estão erradas (Galileo nunca fez o famoso experimento da Torre de Pisa) ou de que há uma conexão, que nunca foi sugerida antes, entre dois acontecimentos históricos (a relação entre a física de Newton e seus estudos sobre religião e alquimia). Antes de se conhecer um assunto e estudar os trabalhos historiográficos a respeito dele, é praticamente impossível escolher uma boa questão. O pesquisador deve fazer um levantamento dos trabalhos historiográficos disponíveis, a Ciência & Educação, v. 11, n. 2, p. 305-317, 2005 308 História da ciência: objetos, métodos e problemas respeito do assunto que deseja estudar, e examinar os mais relevantes para ter uma idéia a respeito do que já foi estudado e para tentar localizar algum tema expressivo para sua pesquisa. É desejável também que se conheça o assunto científico cuja História se quer pesquisar. No entanto, muitas pessoas se sentem atraídas por temas com os quais não possuem familiaridade. Por exemplo: uma pessoa que tem um bom conhecimento de botânica pode sentir-se atraída momentaneamente por estudar a História da astronomia, um assunto que desconhece totalmente. Isso pode levar a resultados desastrosos. É preciso também considerar que os períodos históricos mais recentes exigem mais pré-requisitos científicos, enquanto os períodos mais antigos exigem muitos pré-requisitos filosóficos. Suponhamos que um pesquisador tenha interesse em estudar a lei da conservação da energia. Como se trata de um assunto bastante vasto, ele poderia restringir sua investigação aos estudos de Joule sobre a conservação da energia. Este poderia ser um bom objeto de estudo; mas e a questão? Para ele encontrar uma pergunta relevante, teria que ler um bom número de trabalhos de Joule, assim como um bom número de estudos historiográficos sobre a conservação da energia. Ao se escolher um determinado assunto, deve-se levar em conta alguns aspectos: O interesse pessoal pelo assunto. Não é conveniente estudar um assunto que não seja atraente ao pesquisador ou que ele deteste. É preferível escolher algo que esteja dentro de uma área conhecida pelo investigador. Por exemplo, alguém que tenha um bom conhecimento de botânica poderá escolher algum aspecto dentro da História da botânica que o interesse. O domínio que o pesquisador tem ou pode vir a adquirir a curto prazo sobre aquele assunto. Deve-se evitar dedicar-se a alguma coisa totalmente desconhecida ou muito distante de seu treino prévio. Por exemplo, se a pessoa não tem um domínio técnico dos conceitos da mecânica quântica, não deve pretender estudar o desenvolvimento dos conceitos da mecânica quântica. Deve-se evitar tanto assuntos muito vastos como assuntos muito restritos. Um assunto muito amplo é difícil de ser Por exemplo, [.] teve uma festa na casa da Juliana, certo? Como é que você sabe que realmente aconteceu. como é que você comprova que realmente teve uma festa na casa da Juliana? [Várias falas simultaneamente] P2 - E quem que falou? Alunos - A Juliana. P2 - Então! Ou você esteve lá na festa e viu, [.] ou então alguém que ‘tava na festa contou pra você. Então, vocês vão notar que essa comprovação ‘tá ligada à observação. O fato, [.] como é que a gente tem certeza de um fato? A gente tem certeza porque a gente observou, de alguma maneira. A gente foi na festa, alguém foi na festa e contou para a gente [.] [.] P1 - Então, pra você dizer que é um fato, você vai ter que viver situações observando as coisas que estão acontecendo [.]. [.] P1 - E a hipótese, vocês disseram que é uma coisa que pode ou não acontecer. [.] Eu acho que é bem lógica essa idéia de vocês, se vocês agora completarem que a hipótese, você não teve condição do quê?. Alunos - De observar [.]. P1 - De observar. [.] A hipótese, você não está comprovando nada, você lança uma idéia, uma hipótese, depois você corre atrás para tentar comprovar,. através do quê? De observação, de utilização de aparelhos, de instrumentos. Não é? P2 - Olha, voltando ao caso do detetive. A hipótese, por exemplo, de que fulano de tal que é o assassino, é uma hipótese [.] que nunca foi observada. Ele não vai poder ver o crime. Só se alguém viu o crime acontecendo, é que essa pessoa. P1 - Serve de testemunha. P2 - Ela é uma testemunha. Nesse caso, a pessoa, ela observou, pra aquela pessoa é um fato. Mas para o investigador, ele nunca vai poder presenciar o que realmente aconteceu. O que que ele tem, vocês falaram, ele vai atrás dos fatos [.]. Quais são os fatos? O que ele pode observar hoje em dia. Por exemplo, se tem uma impressão digital numa porta, numa arma. Ou por exemplo, algum objeto que era do suspeito e que ficou lá no local do crime. Então, isso aí dá pra ele colher lá e ele estar observando diretamente, certo? Então [.] a hipótese continua sendo hipótese, porque ele nunca vai conseguir observar o que realmente aconteceu, e ele pode até ‘tar errado (às vezes ele ‘tá). Né? Às vezes a justiça ‘tá errada [.]. A justiça faz o julgamento em cima dos fatos que o detetive [.], que a polícia levantou [.]. 4.2 - Os alunos propõem experimentos para testar hipóteses A aula prosseguiu com uma exposição em que a professora apresentou algumas das principais hipóteses existentes no final do século XIX sobre o modo de comunicação da febre amarela (teoria dos miasmas, hipótese do contágio direto, hipótese do contágio por meio de objetos, hipótese do mosquito). Concluída a exposição, solicitou-se aos alunos que respondessem por escrito às seguintes questões: 62 O ENSINO DE CONTEÚDOS DE HISTÓRIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA Grupo 1 [A3,A6,A10,A16] - Questão 15 do Guia de estudos: Proponha um experimento para testar a teoria do mosquito. Grupo 2 [A1,A11,A13,A15] - Questão 16 do Guia de Estudos: Proponha um experimento para testar a hipótese do contágio direto (pessoa a pessoa). Grupo 3 [A4,A5,A7,A12] - Questão 17 do Guia de Estudos: Proponha um experimento para testar a hipótese do contágio por objetos (roupas). Grupo 4 [A2,A8,A9,A14] - Questão 17a: Proponha um experimento para testar a teoria dos miasmas. O objetivo dessa atividade era: (a) dar oportunidade para que os alunos se familiarizassem melhor com determinadas hipóteses sobre a febre amarela; (b) inserir os alunos num processo de reflexão que favorecesse a aprendizagem dos conteúdos subseqüentes; (c) despertar curiosidade sobre como foi que os cientistas do passado organizaram suas pesquisas sobre o modo de transmissão da febre amarela; (d) dar oportunidade para que os alunos exercitassem a criatividade e o pensamento lógico. A professora apresentou a tarefa sob a forma de uma simulação, o que foi bastante positivo em termos de se conseguir motivar os alunos: P1 - [.] Agora, aqui eu vou ter quatro cientistas [aponta para um dos grupos de alunos] [.] Decidam os seus grupos, mas eu quero um grupo de quatro cientistas aqui, quatro aqui e quatro aqui [aponta para as mesas onde estão os alunos]. [.] P1 - Eu preciso de quatro grupos de cientistas trabalhando arduamente pra eu poder ter resultados[.]. O meu primeiro grupo de cientistas [A3,A6,A10,A16], [.] vão escrever pra mim como eu posso testar [a teoria do mosquito] [.]. [.] P1 - [continuando] [.] vocês vão me escrever tudo o que vocês pensarem pra provar que a teoria do mosquito está certa [.]. Este grupo de cientistas aqui [A1,A11,A13,A15] [.] irão provar para todos os outros cientistas do planeta [.] que a febre amarela acontecia por contágio direto [.]. Olha: formulem hipóteses, procurem fatos, descrevam experimentos. e me confirmem essa teoria. [.]. Este grupo de cientistas aqui [A4,A5,A7,A12] [.] irão provar para todos os cientistas da comunidade que a febre amarela acontecia por contágio por meio de objetos. Então vocês discutam, procurem experimentos, comprovem. fatos, levantem hipóteses [.]. E vocês [A2,A8,A9,A14] vão formular pra nós a teoria dos miasmas. Sejam excelentes cientistas, vão fundo aí - ‘tá? - e me dêem uma resposta convincente - vocês vão ter que convencer todos os cientistas da comunidade. [.]. 63 BASTOS Note-se que as instruções dadas pela professora ficaram contraditórias com os enunciados das questões do Guia de Estudos, o que pode ter favorecido confusões e outros problemas. De qualquer forma, o tipo de tarefa solicitada (simulação) despertou visível interesse entre os alunos. Após as instruções da professora, os alunos passaram a trabalhar na resolução das questões, sendo que esse foi o primeiro exercício em grupo realizado pelos alunos dentro do Mini-Curso. De um modo geral, a atividade proposta parece não ter sido muito fácil para nenhum dos grupos de alunos. Todos os grupos precisaram de explicações adicionais para entender melhor o que é que deveriam fazer. Durante a realização da tarefa, solicitaram continuamente a equipe de professores para pedir ajuda e tirar dúvidas. De fato, conforme veremos em seguida, o acompanhamento e suporte por parte dos professores foi requisito essencial para o bom andamento das atividades do Mini-Curso. Por outro lado, em conseqüência de um descuido da professora, a tarefa original, que era apenas ‘propor experimentos’, acabou sendo substituída por uma tarefa bem mais complicada e de adequação questionável, ou seja, ‘provar’. Ao terem que ‘provar’, os alunos seriam obrigados inventar cegamente resultados de pesquisa ou até mesmo forjar resultados sabidamente falsos, caso a hipótese de trabalho fosse falsa (hipótese do contágio direto, hipótese do contágio por meio de objetos, teoria dos miasmas). Outra possibilidade seria forçar ao máximo a criatividade a fim de imaginar uma situação em que resultados plausíveis parecessem confirmar uma hipótese que hoje não é mais válida. Esse último caminho foi justamente o escolhido pelo grupo 4, que escreveu (de maneira brilhante) a seguinte resposta: Na cidade de Miquelópolis várias pessoas apresentaram sintomas como febre, vômito, dores musculares, dores de cabeça, diarréia; constata-se a febre amarela. O lixo, através de seus gases venenosos está transmitindo a febre amarela pelo ar; pela água que é ingerida pela população, esta água vem de um riacho que passa próximo ao lixão; e pelo solo onde se encontram as plantações que são contaminadas pela água do riacho. Mudou-se de Adrianópolis (um município distante 500km) para Miquelópolis, uma família composta de 5 pessoas. Essa família [.] decidiram com o nosso auxílio consumir alimentos e água de outro município. Mesmo assim esta família contraiu a febre amarela. CONCLUSÃO: descartamos a possibilidade da contaminação através dos alimentos e da água. Concluímos então que o ar (gases eliminados pelo lixo) estão contaminando as pessoas de Miquelópolis através da respiração [Alunas 2, 8, 9 e 14, resposta escrita à Questão 17a]. O grupo 3 resolveu o exercício inventando resultados de pesquisa pouco plausíveis: Levamos ao nosso laboratório uma pessoa contaminada com a febre amarela. Para comprovarmos que essa pessoa foi contaminada através de objetos, pegamos 10 pessoas e fizemos a seguinte experiência: - durante 10 dias, mantemos 10 pessoas usando os objetos dessa pessoa contamina- 64 O ENSINO DE CONTEÚDOS DE HISTÓRIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA da. Dessas 10 pessoas, 7 apresentaram os sintomas da febre amarela: febre, vômito, dor de cabeça, dores musculares e outros. Concluímos que mais da metade apresentavam os sintomas e que possivelmente estavam contaminadas pela febre amarela. [Alunas 4, 5, 7 e 12, resposta escrita à Questão 17] Mesmo tendo ocorrido, nesse último caso, o problema dos resultados altamente improváveis, pode-se dizer que os grupos 3 e 4 deram conta de suas tarefas de modo plenamente satisfatório, já que conseguiram antepassados do século XV é fundamentalmente importante, principalmente no que diz respeito aos direitos indígenas. Ainda é frequente a confusão entre os conceitos de “cultura” e “etnia” quando se buscam critérios de indianidade. Ao tratar esses dois conceitos como sinônimos, propaga-se a ideia de que o História (São Paulo) v.30, n.1, p. 349-371, jan/jun 2011 ISSN 1980-4369 367 Thiago Leandro Vieira Cavalcante indígena para ser indígena precisa ter um grande bojo de sinais diacríticos que marquem sua diferença em relação à sociedade envolvente. Trata-se de uma perspectiva tola, pois aqueles ocidentais, que quase não se parecem mais com seus avôs, exigem que os indígenas sejam como seus ancestrais pré-coloniais, negando-lhes novamente a sua historicidade. É evidente que aí há um discurso político implícito, discurso esse que visa afirmar que os indígenas que usam roupas ocidentais, televisão, telefones celulares, computadores, etc., não são mais indígenas, consequentemente não têm mais os direitos constitucionais que lhes são garantidos. A história indígena precisa ajudar a desconstruir esse discurso, demonstrando que as culturas são históricas e ressaltando que os critérios de identificação étnica estão muito mais relacionados às relações sociais do que a culturais (BARTH, 2000). O último ponto a ser abordado neste artigo diz respeito ao compromisso ético-profissional que é reforçado diante da relevância social que a pesquisa em história indígena adquiriu no Brasil. Semelhante ao que já foi relatado em relação ao surgimento da etno-história nos Estudos Unidos, no Brasil a história indígena começou a ganhar força justamente no momento em que a nova Constituição Federal de 1988 garantiu uma série de direitos aos povos indígenas, com grande destaque para o direito a terra. Segundo o artigo 231 da nova Constituição, os indígenas têm garantidos os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, cabendo à União demarcá-las e protegêlas. Os estudos históricos, sejam eles produzidos pela academia ou durante as pesquisas realizadas pelos grupos técnicos do órgão indigenista oficial, são elementos muito importantes nesse processo, pois fundamentam os técnicos do governo na elaboração dos relatórios de identificação de terras indígenas. Esses estudos são também frequentemente utilizados durante a realização de perícias solicitadas pelo poder judiciário em causas envolvendo direitos individuais e/ou coletivos de indígenas. Conclui-se, por tanto, que a história indígena tem papel ativo como subsidiadora e legitimadora das ações estatais de garantias ou privações de direitos indígenas. Diante disso, como destacou Trigger (1982), o pesquisador da história indígena, ainda que seja simpático à causa indígena, e de fato, quase sempre é, não pode jamais abrir mão dos critérios de validação do conhecimento histórico. Com relação a isso, ainda que haja vozes discordantes, é sempre bom lembrar que não há conhecimento histórico sem fontes, entende-se evidentemente que as fontes históricas compreendem um conjunto de vestígios sobre os atos humanos muito mais amplo do que apenas o dos documentos escritos e que para a história indígena o recurso às tradições orais e à cultura material, não é apenas salutar, mas fundamental. O pesquisador precisa ter um compromisso ético diante da consciência da importância de seu trabalho para as reivindicações indígenas. Assim, não há absolutamente necessidade alguma de se produzir trabalhos cuja validade 368 História (São Paulo) v.30, n.1, p. 349-371, jan/jun 2011 ISSN 1980-4369 Etno-história e história indígena: questões sobre conceitos, métodos e relevância da pesquisa acadêmica possa ser questionada, pois o que há, de fato, sobre a história indígena, sendo bem abordado é mais do que suficiente para fundamentar as legítimas reivindicações dos povos indígenas. Em um artigo como esse é impossível abordar a problemática da história indígena de maneira exaustiva, mas espera-se que o texto tenha contribuído para o aclaramento de alguns conceitos importantes, bem como no estímulo à reflexão sobre alguns dos pontos considerados chave no desafio que é a história indígena. Agradecimentos Agradeço aos professores Paulo Santilli, Jorge Eremites de Oliveira e Protásio Paulo Langer pela leitura e comentários à primeira versão deste artigo. A responsabilidade pelo texto é, no entanto, exclusivamente minha. Notas 1 Lei de reivindicações indígenas. 2 - O acesso integral aos textos é livre se for feito a partir de computadores interligados a servidores com acesso livre ao projeto de Periódicos da CAPES . 3 http://www.gbl.indiana.edu/archives/menu.html Referências ASE – The American Society for Ethnohistory., acessado em: 16.06.2010. ALMEIDA, M. C. História dos Índios na América: abordagens interdisciplinares e comparativas. Entrevista com Serge Gruzinski. Tempo, Niterói, v. 12, n. 23, 2007. BARTH, F. Os Grupos étnicos e suas Fronteiras. In. _______________ O Guru, o iniciador e outras variações antropológicas. Trad. John Cunha Comerford. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2000. CAPES – Cursos recomendados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. , acessado em: 16.06.2010. CASTRO, E. V.; CUNHA, M. C. (Orgs.) Amazônia Etnologia e História Indígena. São Paulo: NHII/USP: FAPESP, 1993. CAMACK, R. M. Ethnohistoria y teoría antropológica. Trad. F. J. Lima. 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