Escuta qualificada e gestão social entre os profissionais de saúde.

 1  4  7  2017-01-20 11:05:39 Report infringing document
Artigo Original Escuta qualificada e gestão social entre os profissionais de saúde* Qualified listening and social management among health professionals Escucha calificada y gestión social entre los profesionales de salud Jader Sebastião Raimundo1, Matilde Meire Miranda Cadete2 Resumo Objetivo: Verificar por meio de relatos de profissionais da saúde, o que deve conter um programa institucional de formação em serviço voltado ao desenvolvimento das capacidades destes de realizar escutas qualificadas. Métodos: Estudo de abordagem qualitativa, do tipo descritivo, realizado por meio de entrevistas com foco nas representações sociais de seis profissionais – enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais e gestores – de um Ambulatório do Hospital das Clínicas de Belo Horizonte (MG), sobre os procedimentos de gestão social no uso dessa ferramenta. Para análise dos relatos obtidos, foi empregado o instrumento “Discurso do Sujeito Coletivo”. Resultados: Estudo qualitativo com enfoque nas representações sociais sobre os procedimentos de gestão social na utilização desta ferramenta. Para análise foi utilizado o instrumento “Discurso do Sujeito Coletivo”. Conclusão: A escuta qualificada mostrou-se como uma ferramenta de gestão para institucionalizar um trabalho de transformação que possibilite o encaminhamento de soluções mais eficazes na assistência à saúde. Descritores: Acolhimento; Organização social AbstRAct Objective: To verify, by means of reports of health professionals, what an institutional program of in-service training must contain that is focused on the development of the capabilities to accomplish qualified listening. Methods: A study using a qualitative, descriptive method, conducted by means of interviews with a focus on the social representations of six professionals – nurses, psychologists, occupational therapists and managers – of an ambulatory clinic at the Hospital das Clínicas de Belo Horizonte (MG), about the procedures of social management in the use of this tool. For analysis of the obtained results, we used an instrument “Collective Subject Discourse”. Results: A qualitative study with a focus on the social representations about the procedures of social management in the utilization of this tool. Conclusion: Qualified listening appeared as a management tool to institutionalize transformative work that enables the forwarding of more effective solutions in health care. Keywords: User embracement; Social organization Resumen Objetivo: Verificar por medio de relatos de profesionales de la salud, lo que debe contener un programa institucional de formación en un servicio volcado al desarrollo de las capacidades de éstos para realizar escuchas calificadas. Métodos: Se trata de un estudio de abordaje cualitativo, de tipo descriptivo, realizado por medio de entrevistas y enfocado en las representaciones sociales de seis profesionales – enfermeros, psicólogos, terapeutas ocupacionales y gestores – de Consultorios Externos del Hospital de las Clínicas de Belo Horizonte (MG), sobre los procedimientos de gestión social en el uso de esa herramienta. Para el análisis de los relatos obtenidos, se empleó el instrumento “Discurso del Sujeto Colectivo”. Resultados: El análisis permitió construir tres categorías descriptivas: El significado de escuchar; La comprensión de la escucha calificada; y la gestión social como estrategia del saber hacer. Conclusión: La escucha calificada se mostró como una herramienta de gestión para institucionalizar un trabajo de transformación que haga posible el encaminamiento de soluciones más eficaces en la asistencia a la salud. Descriptores: Acogimiento; Organización social * Estudo extraído da dissertação de mestrado intitulada “Procedimentos de gestão social na escuta qualificada: elementos para um programa de formação continuada em serviço de saúde” – apresentada ao Hospital das Clínicas de Belo Horizonte – Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – Belo Horizonte (MG), Brasil. 1 Mestre em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local pelo Centro Universitário UNA, Belo Horizonte; Fisioterapeuta Respiratório do Hospital das Clínicas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. 2 Doutora em Enfermagem. Professora do Mestrado em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA, Belo Horizonte. Membro do Nescon-UFMG-Belo Horizonte. Autor Correspondente: Jader Sebastião Raimundo Endereço: Rua Nefelina, 61/104, Santa Tereza Belo Horizonte – MG – CEP 31010-150 E-mail: Jadersr@gmail.com Artigo recebido em 06/10/2011 e aprovado em 14/07/2012 Acta Paul Enferm. 2012;25(Número Especial 2):61-7. 62 Raimundo JS, Cadete MMM IntRodução Ao longo do tempo na história, a administração da coisa pública e as relações impessoais na área da saúde, canalizaram-se para a valorização da doença em detrimento da pessoa doente. A partir da IX Conferência Nacional de Saúde em 1992, o tema humanização vem passando por discussões, sendo instituída a Política Nacional de Humanização (PNH) do Sistema Único de Saúde (SUS), operacionalizada através do resgate dos fundamentos básicos que norteiam as práticas de saúde, reconhecendo os gestores, trabalhadores e usuários como sujeitos ativos e protagonistas das ações de saúde(1). Sendo assim, a PNH apresenta como seu principal objetivo, além de outros aspectos, a possibilidade de apropriado acolhimento e escuta qualificada de seus atores. Nesta ótica, as dificuldades para a humanização desse sistema são muitas, necessitando de várias ações como: qualificar o sistema de cogestão; criar um sistema de saúde em rede; fortalecer e qualificar a atenção básica e ampliá-la como estratégia; considerar a diversidade cultural; superar o entendimento de saúde como ausência de doença; superar a fragmentação do processo de trabalho e das relações entre os diferentes atores; implantar diretrizes do acolhimento; melhorar a interação nas equipes e qualificá-las; e criar uma nova cultura de atendimento, pela aplicação do modelo usuário-centrado na construção coletiva do SUS(1). Neste sentido, quando se aborda a PNH, menciona-se o acolhimento como diretriz em conjunto com a clínica ampliada, tendo assim como propostas: a obrigação com o sujeito e não com a doença; o reconhecimento dos limites dos saberes com a afirmação de que o sujeito é sempre maior que o diagnóstico proposto; a afirmação do encontro clínico entre dois sujeitos – trabalhador de saúde e usuário; a busca pelo equilíbrio entre os danos e benefícios gerados pelas práticas de saúde; aposta nas equipes multiprofissionais e transdisciplinares e formato de corresponsabilidade entre diferentes sujeitos e defesa dos direitos dos usuários(2). A escuta e o diálogo são habilidades próprias dos seres humanos, sendo comum a concepção da escuta, como apenas o ouvir, o que pode ser perigoso, levando a acreditar que a escuta é instintiva(3). Neste contexto, pode ser percebido em profissionais da área da saúde e também nos usuários que a resolutividade dos casos relatados por estes pode estar sendo comprometida pela subjetividade presente em cada caso, uma vez que há indícios de que a relação e a comunicação com eles não têm sido suficientes ou não se processam(4,5). O documento-base do “HumanizaSus” para gestores e trabalhadores do SUS traz em seu bojo que a humanização é “a valorização dos diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde: usuários, trabalha- dores e gestores”(6). Esta se fixa nos valores de autonomia e protagonismo dos sujeitos, de corresponsabilidade entre eles, de solidariedade dos vínculos estabelecidos, dos direitos dos usuários e da participação coletiva no processo de gestão. A gestão social como inovação em política pública de saúde e o procedimento a ser aprendido constituem-se em uma nova modalidade de gerenciamento das políticas sociais, que exige modelos flexíveis e participativos que envolvam negociação e participação plural de uma variedade de interlocutores nas decisões e ações envolvidas nas diversas políticas(7). Assim, a gestão social é defendida como “um conjunto de instrumentos e estratégias para o encaminhamento de soluções mais eficazes e eficientes para as políticas sociais”(8). Neste sentido, para esta pesquisa são identificados os componentes para a compreensão da construção da noção de gestão social, como campo de conhecimentos e práticas na PNH do SUS. Nesta política, os sistemas de escuta qualificada funcionam como ferramenta de gestão para facilitar e institucionalizar o trabalho de transformação e a própria PNH, como estratégia de integralidade no tratamento conjunto de áreas de diferentes disciplinas da saúde que interferem no mesmo tipo de problema, ou seja, no modelo de atenção usuário-centrado. Para a gestão social, o princípio geral de ação que deve presidir essa perspectiva de desenvolvimento baseado na participação responsável de todos os membros da sociedade é o incitamento à iniciativa, ao trabalho em equipe, às sinergias, mas também ao autoemprego e ao espírito empreendedor. Contudo, quando a realidade de saúde desvela baixa responsabilização e descontinuidade no cuidado e nos tratamentos, emerge um conjunto de problemas que se apresentam, como fenômenos da desumanização: filas desnecessárias; descaso e descuidado com pessoas; incapacidade de lidar com histórias de vida, sempre singulares e complexas; práticas éticas descabidas, como a discriminação, a intimidação, a submissão a procedimentos e práticas desnecessárias, a cobrança “por fora”, a exclusão e o abandono, entre outros(9). Nessa linha, não se trata de humanizar o humano, mas de enfrentar e lidar com relações de poder, de trabalho e de afeto, estas sim, produtoras de práticas desumanizadas em relação a nosso horizonte ético e humanístico. Nesta concepção, a humanização é uma aposta metodológica, um modo de fazer, de lidar e intervir nos problemas do cotidiano no SUS. É uma política estratégica de inclusão de pessoas, de coletivos e movimentos sociais que leva à produção de mudanças nos modos de gerir, e de cuidar. Um dos princípios mais importantes da PNH é o quesito orientação nos processos de formação, ou seja, considerar que formação é intervenção e que esta é formação. Isso pressupõe o exercício prático de experimen- Acta Paul Enferm. 2012;25(Número Especial 2):61-7. Escuta qualificada e gestão social entre os profissionais de saúde 63 tação no cotidiano dos serviços de saúde com equipes de saúde cujo espaço por excelência de formação na área da saúde é a rede de serviços do SUS(9). Em relação ao objeto deste estudo que se baseia nas capacidades dos profissionais de saúde de realizarem escutas qualificadas, este, além dos demais princípios do SUS, traduzem a importância do processo formação-intervenção. Em relação ao campo da organização do trabalho, a formação exige nova experimentação e conduz a uma capacitação como educação permanente em saúde. A humanização como proposta de intervenção nos processos de trabalho e na geração de qualidade da saúde “[.] coincide com os próprios princípios do SUS, enfatizando-se a necessidade de assegurar atenção integral à população e às estratégias de ampliar a condição de direitos e de cidadania das pessoas”(10). Diante do exposto, este estudo teve como objetivo verificar, por meio de relatos de profissionais da saúde, o que deve conter um programa institucional de formação em serviço voltado ao desenvolvimento das capacidades destes de realizar escutas qualificadas. MétodoS Este estudo de abordagem qualitativa e do tipo descritivo, foi ancorado nos pressupostos das Representações Sociais, descritos por Moscovici, que se ocupam em elucidar os saberes gestados com base na comunicação da vida cotidiana, com a intencionalidade prática de orientar os comportamentos em situações sociais concretas(11). A coleta de dados foi feita por meio de entrevista semiestruturada, realizada individualmente, com quatro questões norteadoras sobre o assunto e observando a livre expressão de suas representações. Os depoimentos foram gravados, após autorização dos entrevistados. Participaram como sujeitos, seis profissionais de saúde de nível superior e integrantes da equipe multiprofissional: enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais e gestores. O local de realização desta pesquisa foi o Ambulatório Bias Fortes do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ABF-HC-UFMG). Este serviço deverá ser o local onde se pretende materializar as ações da PNH com o intuito final de uma construção coletiva para o acolhimento, baseada no desenvolvimento das capacidades procedimentais dos atores da saúde em realizar escutas qualificadas. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário UNA, e todos os entrevistados subscreveram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. CAAE – 0022.0.391.000-10. Para a organização dos dados foi empregada a técnica metodológica do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) desenvolvida por Lefèvre e Lefèvre(12). Trata-se de uma estratégia metodológica com vistas a tornar mais clara uma dada representação social e o conjunto das representações que conformam um dado imaginário. Para a elaboração do DSC, partiu-se dos discursos em estado bruto que foram submetidos a um trabalho analítico inicial de decomposição. O trabalho consistiu, basicamente, na seleção das principais ancoragens e/ ou ideias centrais presentes em cada um dos discursos individuais e de todos reunidos, terminando de forma sintética, no qual se buscou a reconstituição discursiva da representação social. As entrevistas foram cadastradas por um código (E), a saber: E1 = entrevista 1, E2 = entrevista 2 e assim sucessivamente. ReSultadoS Após várias releituras das entrevistas, partiu-se para a exata localização das expressões-chave, percebendo-se que, por várias vezes, alguns pensamentos presentes nas falas dos profissionais tinham sintonia e expressavam o cerne da questão que originou este estudo. A seguir, reuniu-se em torno de uma ou mais idéias centrais os pensamentos expressos, preocupando-se sempre com a preservação e fidelidade dos mesmos, agrupando-os em três categorias temáticas. Significado de escutar Um dos sujeitos verbalizou que escutar é “[.] resolver a necessidade do outro, sem julgamento”; outro revelou que “[.] escutar é dar espaço para que o outro possa falar”. Esses fragmentos de discursos indicam primeiro que o profissional de saúde propicia espaço para que o falante/ usuário revele seus pensamentos e sentimentos relativos à saúde, necessidades e dúvidas(13). Nessa mesma linha de pensamento, há explicitação de que o usuário precisa ser ouvido sem interrupções, sem inferências: simplesmente, silencia-se, para que seu ser seja escutado(5). Esses dizeres convocam ao que o e1 revela: “[.] eu pressuponho o reconhecimento do outro”, quando o escuto. Isso sugere que se deve calar, fazer silêncio, estar inteiramente disponível para o outro que diz e revela seu mundo e situação de saúde. No processo de escutar o outro, ao se assumir a provocação de pôr as próprias certezas entre quatro paredes e passar a acolher o ponto de vista do paciente, amplia-se a capacidade de antever outras dimensões possíveis. Trata-se aqui de uma competência que não se pode dispensar que deveria ser ensinada e exercitada com base na graduação dos cursos da área da saúde e também em todos os aspectos de interação e atendimento do ser humano. Dos discursos dos sujeitos desta pesquisa, emergiram falas que indicam a “[.] forma de escutar”, como uma instrumentalização poderosa na gestão, pois, conforme mencionam, “[.] se não sou ouvida, as motivações não ocorrem”. “[.] Eu penso que a organização do trabalho depende do saber ouvir, para que se tenha uma gestão de qualidade”. Acta Paul Enferm. 2012;25(Número Especial 2):61-7. 64 Raimundo JS, Cadete MMM Em relação à operacionalização da gestão social quanto a espaços coletivos, estes vêm se tornando de certa forma e cada vez mais pertinentes como arranjos organizacionais, criados para impulsionar a construção de sujeitos e coletivos organizados. De fato, os DSC revelam que a escuta, “[.] é dar esse espaço, para que o outro possa falar”; “[.] a escuta é um dispositivo de ajuda ao próximo”. Compreensão da escuta qualificada na visão dos profissionais de saúde A escuta qualificada conceituada pelos sujeitos traz, em seu bojo, sua essência, ou seja, mostra adesão aos conceitos e pressupostos advindos da PNH. Pode-se inferir também que há diferentes níveis de construção do que seja escuta qualificada: “[.] todos precisam ter ao ouvir o paciente, na sua integralidade. os profissionais aqui não sabem o que é escuta qualificada”; “[.] somos individualistas e egoístas, pois não vemos o outro de forma integral”. À primeira análise, chamam a atenção os relatos referentes à falta de visão do usuário como ser integral, evocando, assim, reflexão sobre a dissociação existente entre escuta qualificada e integralidade. Esta perspectiva pressupõe escutar o outro, pois a atitude interativa inclui o relacionamento entre o profissional de saúde e o usuário, compreendendo, por conseguinte, o sujeito em sua integralidade pela escuta de sua história de vida. Estes relatos também mostraram que um dos princípios doutrinários do SUS não está sendo contemplado no cotidiano assistencial – o da integralidade. Portanto, faz-se também necessário ressaltar, o que se advoga a respeito da importância dos procedimentos da gestão social nos sistemas de escuta qualificada. Assim, o discurso a seguir ilustra essa importância: “[.] eu a vejo, como uma ferramenta gerencial que sensibiliza, conscientiza e mobiliza todos os profissionais de saúde a uma mudança de conduta”. A escuta qualificada é concebida como ferramenta gerencial pelos profissionais “[.] eu entendo que ela seja interativa, coletiva e social dentro do processo de trabalho”. Prosseguindo Acesso em: 17 jul. 2009) 65 O Marechal Castelo Branco assumiu a Presidência da República em 15.04.1964. 116 A denominação do bairro remete à figura de Francisco dos Santos, o Chico dos Santos, dono de um rancho às margens do rio Machado onde ele administrava um entreposto de mercadorias, uma venda e uma pousada para os viajantes que comercializavam produtos através da estação de Fama (1896) da Estrada de Ferro Muzambinho e do barco que ia de Fama até a Cachoeira (ainda existente no rio Machado e próxima ao bairro). Segundo um de seus descendentes, Sr. João Esmeraldo Reis, nascido em 1932, figura de destaque no bairro, quando da construção de Furnas, a expectativa dos moradores é que a energia elétrica chegasse ao bairro. Até então apenas os moradores mais abastados do bairro eram sócios de uma pequena usina elétrica, inaugurada em 12 de abril de 1951.66 Em seu depoimento à pesquisadora, em estudo prévio sobre a comunidade atendida pela Fundamar, em 1994, Sr. João Esmeraldo relembrou as várias pontes construídas sobre o rio Machado, interligando o bairro do Chico dos Santos ao bairro do Coroado no município vizinho de Alfenas. Antes da construção da primeira ponte a travessia era de barco e para o gado era na água. Segundo o depoente, quando a primeira ponte foi construída, em torno de 1920, só aqueles que contribuíram para a obra tinham livre acesso. Os demais tinham que pagar para atravessar ou se valerem dos préstimos do barqueiro, Chiquinho Cordeiro. Depois que o rio Machado foi represado por Furnas, no bairro Chico dos Santos (1965?) a terceira ponte foi construída pela comunidade com ajuda de ambas prefeituras – Paraguaçu e Alfenas. O Sr. João Esmeraldo 66 O jornal “O Paraguassu”, Paraguaçu (MG), n. 496 de 15 abr. 1951 traz a notícia: “Inauguração da Luz Eletrica no Bairro Chicos dos Santos”. Segundo Sr. João Esmeraldo, eram vinte e dois sócios envolvidos na construção da usina de energia elétrica, captando as águas do ribeirão que deságua no rio Machado, no bairro Chico dos Santos. O responsável pela usina era Geraldo de Abreu, de Alfenas. 117 participou da construção da ponte de madeira amarrada com cipó, a base era de pedra e sua extensão era de 22m. Foi construída entre 25 de julho e 25 de agosto de 1967. Edição de “A Voz da Cidade” de 1º de outubro de 1967 confirma a informação de nosso depoente. Furnas só viria construir a ponte sobre o rio Machado, em substituição à antiga, já interditada, em 1981. O jornal “A Voz da Cidade” de 28 de março de 1981 refere-se a um convênio entre a Prefeitura Municipal de Paraguaçu e Furnas – Centrais Elétricas S/A para construção de obras para evitar o ilhamento de alguns produtores rurais, cujas propriedades localizam-se nas margens do lago de Furnas. Refere-se ainda à construção da nova ponte do rio Machado, de interesse direto dos moradores do Bairro dos Santos (bairro Chico dos Santos, em Paraguaçu) e do Coroado, no município de Alfenas, a ser executada diretamente por Furnas. Raro exemplo de publicação de memórias sobre um bairro rural do município de Paraguaçu, o livro “Memórias do Chico dos Santos”, de autoria de Edson Vianei Alves (1949-2002), sobrinho materno do depoente João Esmeraldo, registra suas lembranças sobre o rio Machado, ao tempo de seu pai, Joaquim Felipe: “No rio Machado, ele [o pai] pescava dourado, curimba, tubarana, piapava, mandi, bagre e lambari.” (ALVES, 2000, p. 34) Sr. José Cavaleiro, mais conhecido por Tonico Cavaleiro (1933), também nascido e ainda morador no bairro Chico dos Santos, lembra-se também das boas pescarias no rio Machado. Mas afirma que o represamento do rio facilitou muito a vida, pela facilidade de captação d‟água para a lavoura, 118 principalmente do alho, principal atividade do bairro na década de 50 a 60.67 Sr. Hélio Meirante, nascido em 1935, também nascido e ainda residente nas mesmas terras que foram de seus pais, às margens do rio Machado, lembra-se que seu pai perdeu três alqueires de terra e foi indenizado pelo valor nominal das mesmas. Seu irmão, Ademir de Souza Meirante, nascido em 1953, calcula em dez alqueires as terras perdidas por seu pai para Furnas. A chegada dos técnicos de Furnas no bairro é rememorada pelos irmãos Meirante: Foi uma coisa. Da moda que a gente nem esperava. Que antes a gente via passar, fazer a marcação, e ficava abismado de ver aquelas condução no meio do pasto. Que era para fazer a marcação, onde a água ia atingir. [.] Eles não explicava nada. Eles entrava [sic] no meio do pasto, com aqueles jipes, com aqueles aparelhos, marcando tudinho. Eles nunca veio [sic] aqui. (Depoimento do Sr. Hélio Meirante, 2009) Foi enchendo e foi acabando tudo. Se não vendesse [para Furnas] já perdia tudo. Lá no retiro, pra baixo do Matão, o rapaz não quis vender a casa, o terreno, de jeito nenhum. Não vendeu. Eu vi a casa, o terreno foi subindo, sumiu tudo. Perdeu tudo. [.] Que nem eles falou [sic]: „aqui tando cheio é nossa, tando seco é seu‟. (Depoimento do Sr. Ademir Meirante, 2009) Sr. Tonico Cavaleiro, quando indagado sobre a reação da população do bairro à chegada de Furnas, disse: “o povo achou bão [sic] e é bão [sic] até hoje”.68 67 O almanaque “O Sul-Mineiro Ilustrado” em reportagem intitulada “O Desenvolvimento de Paraguassú e a Administração Cristiano Otoni do Prado”, datado de 1941, informa sobre a cultura de alho no município, cuja produção “figura em primeiro logar no Brasil”. 68 Os depoimentos desses moradores ribeirinhos foram filmados por um grupo de educadores da Fazenda-Escola Fundamar, em 2009. Fragmentos de seus depoimentos foram incorporados a uma apresentação em PowerPoint integrante do instrumento de capacitação dos educadores, objeto dessa dissertação. 119 6.9. CINQUENTENÁRIO DE FURNAS: DUAS VERSÕES DISTINTAS Em 2000, a denúncia sobre as péssimas condições sanitárias do lago de Furnas era objeto do jornal “A Voz da Cidade”, em 1º de setembro. À época a preocupação era com o baixo nível das águas do lago, que prejudicava o turismo, principal fonte de renda da população lindeira. O jornal faz um paralelo entre os prejuízos daquele momento e aqueles sofridos à época da constituição do lago. E especula sobre as causas do rebaixamento do nível das águas, entre elas, a rivalidade entre o então presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Itamar Franco69, sobre a privatização de Furnas. Segundo essa versão, frente às ameaças do governador contra a privatização, o Presidente teria pedido à direção da empresa para esvaziar o lago. O jornal ainda noticia uma reunião de representantes da Associação dos Municípios do Lago de Furnas (ALAGO) com a diretoria da empresa em 28.11.2000, para encontrar soluções para as agressões ambientais que a represa vinha sofrendo, bem como recuperar o passivo que a empresa tinha com os municípios lindeiros: Diariamente são despejados no local, dejetos sanitários, industriais e agrotóxicos. A falta de infra-estrutura e a de uma política de utilização do Lago vem comprometendo o desenvolvimento da região, que aposta no turismo como uma das ferramentas para reverter a estagnação econômica. (A VOZ DA CIDADE, 12 set. 2000, p. 1) Em 2007, ano do cinqüentenário de Furnas, o jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, trouxe dois artigos sobre o evento, que evidenciam opiniões distintas sobre os impactos gerados pelo empreendimento. 69 O governador Itamar Franco e o Presidente Fernando Henrique Cardoso assumiram seus respectivos cargos em 1999. O Presidente iniciava então seu segundo mandato. 120 Luiz Neves de Souza, mestre em turismo e meio ambiente, em artigo intitulado “Os 50 Anos do Lago de Furnas”, denuncia a ausência de políticas públicas que canalizassem esforços voltados à preservação ambiental e também de projetos consistentes e objetivos para o fomento e desenvolvimento do turismo na região. E reclama: Basta percorrer as 34 cidades do Lago de Furnas e observar, em todas elas, toneladas de rejeitos em esgoto e lixo, além de defensivos agrícolas que são despejados em diversas regiões que se dizem próprias para o turismo e para a prática de esportes náuticos, para não falar da situação caótica da rede viária local. (SOUZA, 2007) O senador Eliseu Resende, no artigo intitulado “A Epopéia de Furnas” em “homenagem evocativa ao cinqüentenário”, imagina que sem a energia elétrica e a Petrobrás, o Brasil estaria hoje nos mesmos níveis de muitos países da África. Durante esse tempo [desde 1957] construímos nossos portos e modernizamos outros; instalamos a indústria química de base; desenvolvemos a produção de veículos e de navios; e entramos, firmes, na aeronáutica. Para tudo isso contribuiu a energia de Furnas e a que ela transporta e distribui, pelo principal sistema de interligação das grandes geradoras nacionais (RESENDE, 2007, p. 9). Ambos pontos de vista refletem faces distintas de um mesmo fato histórico. A percepção do ganho pela geração de energia para o desenvolvimento industrial nacional versus os prejuízos study has some limitations. The study sample consisted of a selected cohort of CML patients, as the enrollment was carried out in a single center. It is part of an observational study that was initially designed to evaluate imatinib-induced cardiotoxicity. Therefore, patients with cardiac disease, who have shown to be at increased risk for drug-induced nephrotoxicity [36], were excluded. The data were collected from the medical records, and the number of measurements differed among patients. Furthermore, only CML patients were enrolled. The effectiveness of imatinib has been demonstrated in several other diseases [3, 38, 39, 40] and it is also important to evaluate nephrotoxicity in these patients, as it is not known whether the propensity to develop imatinibinduced nephrotoxicity is related to the underlying malignancy. conclusions In conclusion, physicians should be aware that imatinib treatment may result in acute kidney injury and that the long- term treatment may cause a significant decrease in the estimated GFR and chronic renal failure. Therefore, it is important to monitor renal function of CML patients under imatinib therapy by measuring the creatinine levels and estimating GFR. Attention must be paid to concomitant administration of other potentially nephrotoxic agents, to avoid additive nephrotoxicity in these patients. acknowledgements We gratefully acknowledge the contributions of our patients, their families, and the hematologists (Cla´udia de Souza, Simone Magalha˜es, and Gustavo Magalha˜es). We also thank Heloisa Vianna for the constructive comments and suggestions, and Ka´tia Lage and Vera Chaves for the expert secretarial assistance. funding Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientı´fico e Tecnolo´ gico (478923/2007-4) to ALR; Fundaxca˜o de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais (PPM 328-08) to ALR; Coordenadoria de Aperfeixcoamento do Ensino Superior, Brazil (BEX 1199-09-9), to MSM. disclosure The authors declare no conflict of interest. references 1. Pappas P, Karavasilis V, Briasoulis E et al. Pharmacokinetics of imatinib mesylate in end stage renal disease. A case study. Cancer Chemother Pharmacol 2005; 56: 358–360. 2. 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