Capelania hospitalar e a terapia da enfermidade: uma visão pastoral

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1 UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO DIVINO GOMES DA SILVA CAPELANIA HOSPITALAR E A TERAPIA DA ENFERMIDADE: UMA VISÃO PASTORAL São Paulo 2010 2 DIVINO GOMES DA SILVA CAPELANIA HOSPITALAR E A TERAPIA DA ENFERMIDADE: UMA VISÃO PASTORAL Dissertação de Mestrado Stricto Sensu à Universidade Presbiteriana Mackenzie, como um dos requisitos para a obtenção do grau de mestre no Curso de Pós-Graduação em Ciências da Religião. Orientador: prof. dr. Antônio Maspoli de Araújo Gomes. São Paulo 2010 3 S586c Silva, Divino Gomes da Capelania Hospitalar e a Terapia da Enfermidade: Uma Visão Pastoral / Divino Gomes da Silva - 2010. 102 f. : il. ; 30 cm Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2010. Bibliografia: f. 97-103. 1. Capelania 2. Capelania hospitalar 3. Religião 4. Terapia I. Título LC BV4335 CDD 259.4 4 DIVINO GOMES DA SILVA CAPELANIA HOSPITALAR E A TERAPIA DA ENFERMIDADE: UMA VISÃO PASTORAL Dissertação de Mestrado Stricto Sensu à Universidade Presbiteriana Mackenzie, como um dos requisitos para a obtenção do grau de mestre no Curso de Pós-Graduação em Ciências da Religião. Aprovado em 25 de agosto de 2010. BANCA EXAMINADORA _______________________________________________________________ Prof. dr. Antônio Maspoli de Araújo Gomes Orientador _______________________________________________________________ Prof. dr. Edson Pereira Lopes Universidade Presbiteriana Mackenzie – UPM _______________________________________________________________ Prof. drª. Patrícia Pazinato Universidade São Francisco - USF 5 AGRADECIMENTOS Recebam deste pesquisador a gratidão, A Deus que nunca me desamparou e nunca vai me desamparar em minha jornada para a eternidade com Ele; A minha esposa Renilda e meus filhos Gabriel e Eliel Joshua; Aos meus pais: Lázaro Fernandes da Silva (in memorian) e Ana Maria da Silva; Ao meu orientador e apoiador Antônio Maspoli; Aos membros e amigos da banca examinadora Edson Pereira de longa data; e Patrícia Pazinato uma nova amizade; Não poderia deixar de agradecer aos amigos Sérgio Adriano de Castro Ribeiro; Wilson Roberto Rodrigues Mazzini e Josué Attene Júnior que me apoiaram nos momentos incertos; Aos Reverendos Jorge Corrêa dos Santos Filho e Raimundo Monteiro Montenegro Neto que foram amigos e pastor; Ao amigo e bom companheiro Ivan De Oliveira Silva; À todos os membros da Igreja Unida de Suzano que estiveram comigo e com a minha família nesse retorno à São Paulo; E a todos que me ajudaram. Deus os conhece. 6 RESUMO Esta pesquisa procura avaliar o trabalho da Capelania Hospitalar na Terapia da Enfermidade. E o foco central é analisar a influência e a validade do trabalho de um Capelão dentro de um Hospital. Nesta pesquisa vamos fazer verificações históricas, teológicas e, pragmáticas e, no desenvolvimento do trabalho se procura comprovar a hipótese de que a capelania sempre foi, é sempre será relevante nos dias atuais no contexto Hospitalar. O serviço de Capelania em extensão, validade e importância está para uma Organização Hospitalar assim como a espiritualidade e a religião está para o ser humano. O caminho percorrido nas verificações atravessa essencialmente por uma via histórica desde sua gênese até sua regulamentação e prática extensiva na atualidade. Considera a pessoa de Deus, e da pessoa humana, e nesta consideração Deus e Homem, vê-se que este tem necessidade de encontro com o sagrado; e nesta necessidade analisa-se o ambiente hospitalar e dentro deste vamos encontrar a Capelania, a qual é denominada: Capelania Hospitalar, passando a ser considerada uma Instituição Jurídica. A capelania dentro de um hospital será uma ferramenta amplamente social, pois alcançara os enfermos; seus familiares e todo staff hospitalar. Finalmente, o caminho trilhado por este pesquisador faz parte de sua prática profissional como pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Palavras-chave: Religião, Capelania, Hospital, Aconselhamento, Terapia. 7 ABSTRACT This research evaluates the work of the Hospital Chaplaincy Illness Therapy. And the main focus is to analyze the influence and validity of the work of a chaplain in a hospital. In this research we make checks historical, theological, and pragmatic, and work development is sought to prove the hypothesis that the chaplaincy has always been, always will be relevant today in the context Hospital. The Chaplaincy service in scope, validity and importance is for a hospital as well as spirituality and religion is for humans. The path crosses the findings essentially a historical road from its genesis to its rules and extensive practice today. Does the person of God and the human person and in this regard God and Man, one sees that this needs to encounter with the sacred, and this need is analyzed within the hospital environment and this we find the Chaplaincy, which is called: Hospital Chaplaincy, from being considered a legal institution. The chaplaincy in a hospital is largely a social tool, as had reached the sick, their families and staff throughout the hospital. Finally, the path taken by this researcher is part of their professional practice as pastor of the Presbyterian Church of Brazil. Keywords: Religion, Chaplaincy, Hospital, Counseling, Therapy. 8 SUMÁRIO INTRODUÇÃO . . . . . . 10 CAPITULO 1 - DEUS E O HOMEM . . . . 14 1.1 O HOεEε E A REδIGIÃO . . . 17 1.2 O HOMEM E A SAÚDE. 22 1.3 O HOMEM E A DOR. 24 1.4 O HOεEε E A εORTE . . 32 CAPITULO 2 - CONCEITUAÇÃO E HISTORIOGRAFIA DA CAPELANIA . 37 2.1 DESENVOδVIεENTO HISTÓRICO DA CAPEδANIA . 42 2.2 A CAPEδANIA EVANGÉδICA . . 47 2.3 A CAPEδANIA CATÓδICA . 48 2.3.1 REGUδAεENTO PARA O SERVIÇO DE CAPEδANIA HOSPITAδAR . 49 CAPITULO 3 – A CAPELANIA HOSPITALAR EM ATIVIDADE. 54 3.1 O CAPEδÃO Eε ATIVIDADE. . . . 58 3.2 O δEIGO Eε ATIVIDADE. . . 63 3.3 O CAPELÃO DEVE ACONSELHAR COM PACIÊNCIA. . 65 3.4 O CAPEδÃO TRABAδHA COε A DOR DA AδεA. . 67 3.5 O CAPELÃO PRESTA ASSISTÊNCIA ESPIRITUAL AOS FAMILIARES ENLUTADOS. 71 9 CAPÍTULO 4 – A RELEVÂNCIA DA CAPELANIA HOSPITALAR . 75 4.1 CONFδITOS COε A PRÓPRIA REδIGIÃO . . . 75 4.2 EMOÇÕES DOLOROSAS. . . . 77 4.2.1 SEPARAÇÃO DOS PAIS . 80 4.2.2 ABUSO SEXUAδ. . . 87 4.2.3 TRANSTORNOS ESPIRITUAIS . 90 CONSIDERAÇÕES FINAS . .94 REFERÊNCIAS BIBδIOGRÁFICAS. . 98 10 INTRODUÇÃO A presente dissertação de Mestrado em Ciências da Religião tem por alvo contribuir com a pesquisa científica no quesito Capelania Hospitalar. O interesse pessoal deste pesquisador pela Capelania Hospitalar surgiu pela necessidade do mesmo como pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil de visitação aos membros da Igreja, e, portanto, procura dar um viés pastoral para esta pesquisa para demonstrar que não há incompatibilidade entre religião e ciência. E diante da necessidade procura em 2005 realizar o Curso1 que era realizado no Hospital Universitário da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (HU/UFMS) – e que tem como capelão responsável o pastor Batista Edilson dos Reis – ou simplesmente: pr. Reis; Em São Paulo me envolvi com a capelania da Universidade Federal (UNIFESP), que tem como capelão responsável o pastor Batista Antônio Pinho Ribeiro, ou simplesmente: pr. Nino; com o Hospital Servidor Público e também com o Hospital Emilio Ribas, tendo como capelã a senhora Eleny Vassão de Paula Aitken que é capelã–missionária da Igreja Presbiteriana do Brasil. Para conclusão do referido curso foi feito um trabalho monográfico com o titulo original “Consolo no Deserto”, porque era assim que via as pessoas que estavam no Leito da Enfermidade, os via em um grande deserto, em uma grande tempestade, mas o deserto involuntário que muitas vezes entramos: o deserto das dificuldades: da doença; do financeiro e da separação2. Quando pensamos no deserto logo imaginamos um grande Deserto como o Saara, ou somente o deserto que tem uma imensidão de areia escaldante e praticamente sem vida. Quem entra no deserto voluntariamente tem que tomar os seus devidos cuidados, uma boa condução, um bom e sadio camelo; um bom jipe e neste caso, 1 Curso ministrado pelo Capelão Edílson dos Reis , pastor Batista – Teólogo com Especialização Pastoral, 2º Tenente Capelão e Chefe do Servidor de Assistência Social do Corpo de Bombeiros do Estado do Mato Grosso do Sul, também Capelão do HU/UFMS. 2 São tantas as separações que o homem sofre durante sua vida: Conjugal; mudança; morte. 11 muito combustível, muita água, muito alimento, roupas para o frio e para o calor para enfrentar os quase3 cinqüenta graus centígrados que fazem de dia e as baixas temperaturas da noite. E com tudo isso em mãos o (a) excursionista precisa de muita perseverança. Porque quando tudo isso falta, o calor do deserto leva–nos ao desespero, as energias são consumidas com o medo, com a insegurança e com a preocupação com a vida, daí vem a estagnação e a vontade de desistir e de morrer. Com a falta de recursos começa-se a ver miragens. ao longe se vê um Oásis. Interessante é que o calor é diferente, e pode ter intempéries frias, amenas e também pode chegar ao insuportável e escaldante calor do dia. Qualquer deserto da vida pode deixar as suas marcas, algumas no corpo, outras no espírito. Vi também que tais problemas são uma realidade para todas as classes sociais, e que nenhuma Classe Social está isenta de lágrimas diante das intempéries da vida, ninguém passa por esta vida sem lágrimas. Na estrada da vida a jornada para algumas pessoas é tranqüila, para outros transeuntes é cheia de pedregulhos. Em muitos casos há necessidade também de se cuidar do espírito para que o corpo seja curado. Há uma transição de doença física e espiritual. Para descrever o trabalho do capelão hospitalar focalizei o trabalho realizado dentro da Capelania Hospitalar do Hospital Universitário da Universidade Federal de São Paulo, para isto a atual pesquisa tomou três aspectos norteadores: O primeiro capitulo apresentará a importância da religião e de Deus para o ser humano; o segundo capitulo apresentará a história da capelania no Brasil; o terceiro capitulo apresentará as atividades da capelania hospitalar e o quarto capitulo apresentará a relevância da capelania hospitalar. A relevância da presente pesquisa pode ser observada tanto nos círculos religiosos como também na comunidade cientifica: médicos (as), enfermeiros (as) e tantos outros, onde homens e mulheres correm para salvar vidas. E por fim com os próprios envolvidos em todo este processo: os enfermos e seus familiares. Também é grande a contribuição desta pesquisa para a área emergente da humanização hospitalar, área que está fazendo parte do currículo de algumas escolas de medicina; mas não é uma área emergente no meio religioso, onde muitos 3 http:// mundoestranho.abril.com.br/mundoanimal/pergunta_287971.shtml 12 têm abraçado esta causa. Desta forma podemos observar a relevância social da pesquisa pelo fato de que o presente trabalho irá ajudar na resposta a uma pergunta básica: justifica-se a existência da figura de um capelão hospitalar em um hospital? Assim a pesquisa poderá ajudar a compreender o papel e a relevância do capelão hospitalar a partir de seu envolvimento com a comunidade hospitalar: médicos – enfermeiras – pacientes e seus familiares. A relevância cientifica desta pesquisa pode ser observada no grande número de pessoas que estão procurando os Cursos de Capelania4 – leigos e profissionais. As pessoas que procuram o tal curso não estão atrás de salários, porque ainda não é uma profissão remunerada, são homens e mulheres vocacionados; chamados, e que nem mesmo a falta de remuneração tem conseguido deter estes corações voluntários. Utilizarei três referenciais teóricos nesta pesquisa: o primeiro Gustav Carl Jung que contemplou a dualidade psicossomática e foi ele que disse que a alma é “naturaliter religiosa” achá-lo não foi uma tarefa fácil para uma pessoa que não tem os referenciais da psicologia. O segundo é Héber Carlos de Campos, este fornecendo a perspectiva teológica do homem e aquele fornecendo a perspectiva da espiritualidade com viés na psicologia, e o terceiro é João Calvino que já faz parte de minhas formulações teológicas. Farei a leitura de outros autores no campo da Teologia; da Psicologia; e da Ciência da Religião. Também foi empregada a observação participativa deste pesquisador nos meios hospitalares, onde procurou apresentar o trabalho religioso de um capelão, que não é apenas apresentar a Bíblia Sagrada ao paciente, mas acima de tudo compreender o enfermo hospitalizado nos seus dilemas; a partir deste enfoque este autor procurou material didático voltado para a multidisciplinaridade que envolvesse o aconselhamento espiritual e o psicológico, a chamada doença psicossomática. A pesquisa se organiza a partir do seguinte problema central: há de fato uma real influência do trabalho de capelania hospitalar na recuperação dos pacientes? 4 Capelania Hospitalar – Militar – Educacional e Prisional. 13 Com base nos argumentos históricos – técnicos – práticos e teológicos, a hipótese sugerida é: o trabalho do capelão tem relevância no meio hospitalar, isto pode ser observado nos Hospitais onde a capelania se faz presente. A presença de um capelão dentro de um hospital já pressupõe a fé – a religião e uma instituição. 14 CAPÍTULO 1 – DEUS E O HOMEM Deus foi o primeiro missionário que saiu em busca do Homem desde o Jardim do Éden; e essa busca culminou na cruz do calvário onde houve uma grande vitória; onde o amor foi demonstrado de forma plena; hoje a Igreja espera o arrebatamento e a ressurreição para novos céus e novas terras. Ninguém passa por este mundo sem ouvir ou falar o nome de Deus; sem usar o nome de Deus em algum momento de sua vida; seja crente; descrente ou ateu; seja rico ou pobre; seja plebeu ou rei. Alguns crêem em Deus; outros falam: eu sou deus; como os faraós no Egito ou os imperadores romanos; até mesmo os ateus contemporâneos não escapam de Deus, a mente humana tem convicção de Deus. O nome de Deus movimenta os céus; a terra e o próprio inferno, portanto, é um nome que traz unidade e controvérsias; paz e guerra; segurança e medo. E para este pesquisador o nome de Deus traz profunda paz interior; e também crê que a relação entre Deus e o Homem não traz confusão, mas sim clareza e lucidez. O escritor reformado J.I. Packer (1991, p. 16) nos ajuda a compreender a visão do homem sobre Deus depois do pecado: Têm suspeitas acerca da realidade de Deus, mas elas são vagas e borradas. Colocar Deus em foco significa pensar corretamente acerca do seu caráter, da Sua soberania, da Sua salvação, do Seu amor, do Seu Filho, do Seu Espírito e de todas as realidades da Sua obra e da Sua maneira de agir. Calvino nos afirma que a visão do homem é míope e ele tem uma visão falha das verdades bíblicas e somente através das Escrituras é que Deus deixará de ser apenas um borrão em suas mentes. Campos (2002, p. 30) também nos ajuda quando ele assevera que “quando Deus criou o homem este ficou com a imagem de Deus estampada em si”. 15 O presente continua uma grande repetição do passado porque muitos continuam tendo muitas dúvidas acerca de Deus. Como a mulher Samaritana que em suas dúvidas religiosas pergunta a Jesus sobre o verdadeiro lugar da adoração; e sendo fiel interprete das Escrituras e da religião, Jesus nos fala no texto bíblico de João 4:24 para a mulher que “Deus é Espírito, e é necessário que os que O adoram O adorem em espírito e em verdade”. Nas muitas dúvidas religiosas, há um número grande de pessoas que continuam crendo que Jesus é apenas um grande filósofo; um revolucionário; um grande homem e, nada mais. E o Espírito Santo, apenas uma força, uma energia de Deus. Mas para os cristãos, e para este pesquisador Jesus e o Espírito Santo é Deus. E se Jesus fosse apenas um filósofo ou um revolucionário; ou se o Espírito Santo fosse apenas uma força não teríamos religião e muito menos Igreja. Deus e o homem não são assuntos somente para as Igrejas e Seminários Teológicos; mas também para as Faculdades e Universidades na Graduação e na Pós-Graduação; não é assunto somente para a Teologia; mas também para a Sociologia; a Filosofia; a História; a Geografia e outras Ciências como a Exatas e a Biológica. Jung (1998, p. 62) asseverava que “Tal como a Ciência, a Arte e a Filosofia, a religião é parte integrante e inseparável da cultura humana, e muito provavelmente sempre continuará sendo”. Este pesquisador crê: que todos os objetos de estudo das Ciências têm a marca indelével de Deus; que todo ser vivo tem o DNA de seu Criador; que o Deus criador é único e singular, e os deuses são criações humanas. Vejamos o que nos fala o Salmo 115 versículos 4-7: Os ídolos deles são prata e ouro, obra das mãos do homem. Têm boca, mas não falam; têm olhos, mas não vêem; têm ouvidos, a elaboração de material didático. Os Encontros contribuíram na articulação com outros povos e troca de experiências para manter as escolas resistentes contra o regimento dos brancos. Nós vamos continuar trabalhando como sempre. (Encontro dos professores., 1990, p.10) 36 Cadernos de Pesquisa, nº 111, dezembro/2000 Nesse processo de organização, os encontros anuais representam momentos decisivos. Além de possibilitar articulações culturais e políticas, trocas de experiências e de conhecimentos, favorecem o surgimento de novas concepções de educação escolar indígena que respeitam os conhecimentos, as tradições e os costumes de cada povo. Concomitantemente à valorização e ao fortalecimento da identidade étnica, procuram introduzir conhecimentos necessários para uma melhor relação com a sociedade não índia. A seguir, traço um panorama geral da trajetória histórica do movimento, em seus já 12 anos de existência, reportando-me a cada encontro realizado. Foram produzidos relatórios de todos os 12 encontros. No 1o Encontro, realizado na cidade de Manaus, em 1988, cada grupo relatou a maneira de educar na sua comunidade, com base na questão “Como se aprende a viver?” Problematizaram-se a existência da escola e os seus objetivos, tendo em vista o fato de que a educação sempre existiu, o que se traduziu na indagação: “Se já existia educação na originalidade, para que funciona a escola atual?” As reflexões também se reportaram ao perfil da escola desejada e aos passos para obtê-la. No 2o Encontro, de 1989, foram avaliadas as realizações dos professores para atingir os objetivos em consonância com os princípios estabelecidos com a finalidade de nortear a construção de uma verdadeira escola indígena. Destacaram-se, também, as ações empreendidas para garantir o reconhecimento e a regulamentação das escolas indígenas em nível oficial, pois, como explicitam os professores de Roraima: “o não reconhecimento das escolas indígenas é uma das dificuldades mais graves, no que diz respeito aos trabalhos clandestinos”. Os esforços para se manterem articulados foram considerados importantes para o fortalecimento do movimento e a conquista de seus ideais escolares. Como problemas comuns, destacaram-se a questão das línguas indígenas e a situação complexa de diversidade lingüística presente no movimento. No 3o Encontro, de 1990, avaliaram-se as contribuições dos encontros anteriores e o papel do movimento no encaminhamento e na resolução dos desafios enfrentados pelos professores na prática diária. Foram também discutidas temáticas como: “Currículos”, “Formação dos professores” e “Articulação do movimento”. O 4o Encontro, de 1991, aprofundou a discussão de problemas relativos à elaboração de currículos, e o estudo da legislação relacionada direta ou indiretamente à educação escolar indígena. Houve também discussão sobre a articulação do movimento dos professores com as diversas organizações indígenas (de cará- Cadernos de Pesquisa, nº 111, dezembro/2000 37 ter mais amplo, como a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira – Coiab –; e outros movimentos específicos, como o de agentes de saúde indígena e de mulheres). Realizou-se ainda um trabalho inédito com base na metodologia dos “temas geradores”, ocasião em que os professores puderam vivenciar um profundo exercício de interculturalidade, confrontando os diversos saberes dos povos indígenas presentes no encontro. Um dos momentos mais significativos foi a discussão e aprovação de uma “Declaração de Princípios” sobre a educação escolar indígena, que se tornou, desde a ocasião, o principal documento do movimento, de caráter articulador e reivindicatório. O 5o Encontro, de 1992, realizado na cidade de Boa Vista, em Roraima, centrou a atenção nos currículos, no regimento, na metodologia do tema gerador no contexto da diversidade cultural, na legislação/política governamental, nas propostas para o novo Estatuto do Índio, no Comitê Assessor do MEC e, ainda, na articulação e na continuidade do processo. Nessa ocasião o Estado do Acre passou a integrar também o movimento. No 6o Encontro, de 1993, realizado pela segunda vez na cidade de Boa Vista, discutiu-se sobre as “Culturas diversificadas”, o que demonstra a vontade de aproveitar os momentos de reunião não só para se conhecer mas também para conhecer a história e a cultura dos demais povos indígenas presentes. Esse tema, por sua vez, gerou a discussão de vários subtemas: organização social e política; origens; rituais; trabalho, economia e produção; educação tradicional. O 7o Encontro, de 1994, focalizou, além da temática “Medicina tradicional”, vários outros assuntos, tais como a avaliação da história do movimento; diagnóstico e avaliação da situação atual dos currículos e regimentos; política educacional oficial (governamental) e interna (indígena). No 8o Encontro, de 1995, discutiram-se as “Escolas indígenas e projetos de futuro” (relação entre escola e economia) com base na “Declaração de princípios”. Elaborou-se também um detalhado diagnóstico da realidade e dos problemas enfrentados pelas escolas indígenas da região, bem como procurou-se identificar as metas a serem alcançadas, dependentes do poder externo (União, estados e municípios), e as que estavam prioritariamente nas mãos do próprio movimento, ou seja, as que dependem da articulação e do trabalho interno. Foi também retomada uma questão fundamental, discutida no 1o Encontro: “Para que escola?” O 9o Encontro, de 1996, realizado pela primeira vez em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, elegeu como tema “Escolas indígenas e projetos de futuro”. Na ocasião foram aprofundadas discussões do encontro anterior, a partir da constatação de que as escolas tanto podem ajudar a construir o futuro, como 38 Cadernos de Pesquisa, nº 111, dezembro/2000 podem destruí-lo. Foi também debatida a problemática da saída dos jovens das aldeias, por falta de alternativas internas. O 10o Encontro, de 1997, realizado em clima de festa, em comemoração aos dez anos, teve como tema “Avaliando o passado é que se constrói o futuro”. Num grande esforço coletivo, os participantes efetuaram profunda avaliação dos avanços alcançados e dos problemas e dificuldades que permanecem no tocante à situação das escolas indígenas nas regiões englobadas pelo movimento. Também se discutiu a continuidade do movimento, com base na temática “Pensando as perspectivas futuras”. No 11o Encontro, de 1998, além de serem abordados inúmeros temas – “A educação indígena e suas alternativas rumo ao ano 2000”; “Amazônia: políticas de ocupação e desenvolvimento”; “Educação indígena na trilha do futuro”; “As organizações indígenas frente aos projetos de ocupação da Amazônia”; “Educação indígena e desafios atuais” –, foi desenvolvido um trabalho sobre a proposta de estruturação da COPIAR, suas ações e maneira de se organizar. Decidiu-se também que essa discussão deveria ser aprofundada nas diferentes regiões, durante o período posterior ao encontro, e retomada no 12o Encontro, de 1999. O 12o Encontro, de 1999, realizado novamente na cidade de Manaus, escolheu como tema “A educação indígena nas trilhas do futuro: o Brasil que a gente quer são outros 500”. Na ocasião, foram analisados a situação da educação escolar nas regiões e os avanços e impasses na construção de escolas indígenas. Foram também relatadas experiências indígenas na gestão da educação, atividade que contou com a contribuição do professor Gersem dos Santos Luciano, do povo Baniwa, na época secretário municipal de educação de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, e do professor Bento Macuxi, coordenador da DEI, de Roraima. A opção pela “oficialização”: riscos e desafios de um novo momento A dinâmica dos encontros tem priorizado, ao longo desses 12 anos, o intercâmbio das variadas experiências de como “fazer escolas indígenas”, fortalecendo o movimento como formulador de políticas e princípios próprios para a educação escolar. Também a troca de informações acerca do debate nacional quanto ao direito dos povos indígenas a “escolas diferenciadas”, inclusive prevista na legislação oficial, tem merecido constantes reflexões, como foi o caso da discussão sobre Resolução elaborada pelo Conselho Nacional de Educação, que cria e normatiza a categoria “escolas indígenas”. No final do último encontro, em 1999, decidiu-se, com o objetivo de aprimorar o instrumental de organização do movimento – seu Cadernos de Pesquisa, nº 111, dezembro/2000 39 poder de articulação e proposição –, transformar a Copiar em Conselho de Professores Indígenas da Amazônia – Copiam. Para tanto, as diversas regiões assumiram tarefas concretas, entre as quais a elaboração de uma proposta de estatuto, discutida no 13o Encontro Anual, em Manaus, em agosto de 2000. Esse encontro teve o formato de Assembléia Geral do Copiam, ocasião em que foi abordado o tema “A educação indígena diferenciada é a trilha do novo milênio”. Com uma pauta predominantemente ligada às conhecimento produzido por especialistas nas áreas de conhecimento – história, física, geografia. Os especialistas disciplinares nem sempre concordam ou acertam, e, embora seu propósito seja descobrir a verdade, às vezes são influenciados por outros fatores, além da busca da verdade. Contudo, é difícil pensar em uma fonte melhor para “o melhor conhecimento disponível” em qualquer campo. Não há país com um bom sistema educacional que não confie nos seus especialistas disciplinares como fontes do conhecimento que devem estar nos currículos. (ii) Em relação a diferentes grupos de aprendizes: todo currículo é elaborado para grupos específicos de aprendizes e tem de levar em consideração o conhecimento anterior de que estes dispõem. Os elaboradores de currículo em qualquer nível envolvem-se no processo que Bernstein chamou de recontextualização, uma palavra relativamente simples para um processo extremamente complexo. O termo refere-se ao modo como os elementos do conhecimento disciplinar são incorporados ao currículo para aprendizes de diferentes idades e conhecimentos anteriores. Considero que é nossa responsabilidade, como teóricos do currículo, investigar esses processos de recontextualização. Há pouquíssimas pesquisas desse tipo. A teoria de Bernstein nos dá duas pistas sobre os tipos de perguntas a que uma pesquisa assim deveria tentar responder. Uma delas é a distinção entre discursos pedagógicos oficiais e discursos pedagógicos de recontextualização. No primeiro caso, ele se refere ao governo e suas agências; no segundo, às associações profissionais de especialistas da comunidade educacional, particularmente professores. Essa distinção aponta para a inevitável tensão entre os papéis do governo e das comunidades educacionais na elaboração do currículo. Os teóricos do currículo podem envolver-se como membros especializados da comunidade educacional ou, em alguns casos, como consultores do governo (e, às vezes, as duas coisas). Na Inglaterra, os teóricos do currículo tendem a se ver como advogados dos professores contra os governos, o que é compreensível, mas não necessariamente produtivo. Alguns de nós estão tentando mudar isso. CADERNOS DE PESQUISA v.44 n.151 p.190-202 jan./mar. 2014 199 TEORIA DO CURRÍCULO: O QUE É E POR QUE É IMPORTANTE A segunda pista oferecida por Bernstein está na identificação de três processos envolvidos na recontextualização: como o conhecimento é selecionado, como é sequenciado e como progride. Se uma escola, um estado ou um país inteiro está redesenhando seu currículo, os elaboradores de currículo precisarão se concentrar no propósito desse currículo: o que ele está tentando fazer ou como está tentando ajudar os professores a fazer? Minha definição de propósito de um currículo é como ele promove a progressão conceitual ou aquilo que o filósofo Christopher Winch chama de “ascensão epistêmica”. Na minha opinião, a ascensão epistêmica requer disciplinas para estabelecer marcos e fronteiras conceituais, de forma que os alunos possam de fato “ascender”. Os desafios que isso levanta para diferentes campos de conhecimento ou disciplinas vão depender de suas estruturas de conhecimento. Bernstein distingue entre estruturas verticais e horizontais de conhecimento, referindo-se, grosso modo, às ciências exatas e humanas. Há muito pouca pesquisa sobre a utilidade desses conceitos de Bernstein para analisar currículos. Contudo, um exemplo de pesquisa em andamento na Cidade do Cabo, na África do Sul, ilustra as possibilidades no que concerne ao currículo universitário da Engenharia (SMIT, 2012). É um caso muito específico, mas ilustra o papel que a teoria do currículo que tenho discutido pode ter na pesquisa curricular em geral. Como quaisquer outros, os currículos de engenharia são formas complexas de conhecimento especializado organizado socialmente, que são reunidas e modificadas ao longo dos anos – neste caso – por especialistas em engenharia. Uma questão que surgiu durante a pesquisa foi o ensino da física como parte do currículo para futuros engenheiros. Um tema-chave da física para a engenharia é a termodinâmica. No entanto, embora a teoria (neste caso, as equações) conhecida como termodinâmica seja a mesma para engenheiros e físicos, os dois grupos interpretam-na de maneira muito diferente. Para os engenheiros, a termodinâmica é útil para ajudar a resolver problemas de engenharia – para entender por que a caldeira de uma estação de energia parou de funcionar ou para projetar um reator nuclear. Já para os físicos, a termodinâmica trata de entender as leis gerais relacionadas ao calor e ao trabalho. Espera-se que os alunos possam mover-se livremente de um significado para outro da termodinâmica, embora, talvez, seus professores não estejam completamente familiarizados com os dois. Esse é um exemplo de problema comum naquilo que Bernstein chama de currículos “integrados” em todos os níveis, quando os alunos aprendem com diferentes especialistas e, por isso, podem fazer a “integração” sozinhos. 200 CADERNOS DE PESQUISA v.44 n.151 p.190-202 jan./mar. 2014 Michael Young SUMÁRIO E CONCLUSÃO Ponderei que o objeto da teoria do currículo deve ser o currículo – o que é ensinado (ou não), seja na universidade, na faculdade ou na escola. Assim, o currículo sempre é: um sistema de relações sociais e de poder com uma história específica; isso está relacionado com a ideia de que o currículo pode ser entendido como “conhecimento dos poderosos”; sempre é também um corpo complexo de conhecimento especializado e está relacionado a saber se e em que medida um currículo representa “conhecimento poderoso” – em outras palavras, é capaz de prover os alunos de recursos para explicações e para pensar alternativas, qualquer que seja a área de conhecimento e a etapa da escolarização. Johan Muller e eu já argumentamos em outras instâncias que, no passado, a teoria do currículo não estabeleceu um bom equilíbrio entre esses dois aspectos. Concentrou-se demasiadamente no currículo como “conhecimento dos poderosos” – um sistema concebido para manter as desigualdades educacionais – e negligenciou o currículo como “conhecimento poderoso”. O resultado é que certas questões sobre o conhecimento são evitadas. Por exemplo: O que há de poderoso no conhecimento que é característico dos currículos das escolas de elite? Por que, às vezes, os professores se assustam com a ideia do conhecimento e acham que devem resistir a ele, como algo inevitavelmente opressivo e não como algo libertador que deve ser encorajado? O que há de poderoso nesse “conhecimento poderoso”? Por que esse “conhecimento poderoso” deve ser separado do conhecimento cotidiano dos alunos, mesmo que alguns alunos possam facilmente considerá-lo alienante? Quais são as formas especializadas que o currículo pode assumir, suas origens, seus propósitos e seus processos de seleção, sequenciamento e progressão? É através desses processos em diferentes campos que os currículos reproduzem – ou não – as oportunidades sociais. Não sabemos muito sobre o conhecimento nos currículos, exceto no nível de generalizações excessivamente abrangentes. Uma das razões pelas quais os currículos existentes continuam a manter o acesso para alguns e a excluir outros é que não investigamos em que medida os processos de seleção, sequenciamento e progressão são limitados, de um lado, pela estrutura do conhecimento e, de outro, pela estrutura dos interesses sociais mais amplos. CADERNOS DE PESQUISA v.44 n.151 p.190-202 jan./mar. 2014 201 TEORIA DO CURRÍCULO: O QUE É E POR QUE É IMPORTANTE Se vamos enfrentar essa pesquisa como teóricos do currículo, temos de nos tornar “especialistas duplos”. Nossa especialização principal é a teoria do currículo. Mas também precisamos de um certo nível de familiaridade com os campos especializados que estamos pesquisando, seja engenharia ou alfabetização. Em geral, é aqui que a teoria do currículo fracassa, e talvez seja por isso que não se desenvolve: as duas formas de especialização – a teoria do currículo e o campo específico sob exame – são raramente reunidas. Há muito a fazer. REFERÊNCIAS CALLAHAN, Raymond. Education and the cult of efficiency. Chicago: The University of Chicago Press, 1964. HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Império. Rio de Janeiro: Record, 2001. MULLER, Johan. Reclaiming knowledge: social theory, curriculum and education policy. London: Routledge/Falmer,2000. SCOTT, David; HARGREAVES, Eleanore (Ed.). Handbook on learning. London: Sage, 2014. SMIT, Reneé. Transitioning disciplinary differences: does it matter in engineering education? In: AUSTRALASIAN ASSOCIATION FOR ENGINEERING EDUCATION CONFERENCE, 2012. Proceedings Melbourne, Victoria: AAEE, 2012. MICHAEL YOUNG Instituto de Educação, da Universidade de Londres (Reino Unido) m.young@ioe.ac.uk Recebido em: JANEIRO 2014 | Aprovado para publicação em: FEVEREIRO 2014 202 CADERNOS DE PESQUISA v.44 n.151 p.190-202 jan./mar. 2014
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Ingressou : 2016-12-29

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