Desterritorialização e resistência tupiniquim: mulheres indígenas e o complexo agroindustrial da Aracruz Celulose

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Universidade eederal de Minas Gerais Departamento de Geografia Gilsa Helena Barcellos Minas Gerais - Brasil 2008 Gilsa Helena Barcellos Tese apresentada ao Programa de PósGraduação do Departamento de Geografia da Universidade eederal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Doutor em Geografia. Área de Concentração: Organização do Espaço. Orientador: Prof. Dr. Cássio Eduardo Viana Hissa. Belo Horizonte Departamento de Geografia da UeMG 2008 !% + ," ! & , % -, ' . !" ! # $% (! ) * / " '- 0 1 2 3+4 5 6 7 8 9 "/% : % , ", ; < 0 = 0$ 1 > &!? @ +7 # @+ ;'A + B 5 5! A! + 88 4 5 6 7 ! % , 888 $ + 8 8 7 !: #! '- 0 ' 4" ;CD2EC 3";C< + + A muitas e muitos tenho o que agradecer. Às mulheres indígenas, portadoras de saberes ricos, dos quais pude partilhar um pouco; que tiveram paciência comigo e foram muito solidárias todo o tempo da pesquisa. Aos índios Tupiniquim que, por muitas vezes, adentraram comigo o eucaliptal para a realização do trabalho de campo. Ao meu companheiro Winnie, que contribuiu em todos os sentidos e em todas as horas para a escrita da tese. Ao meu querido orientador, Cássio, que foi imprescindível para que a pesquisa e a tese se realizassem; com quem aprendi muito, sobretudo o compromisso que a ciência e a academia devem ter com a produção de um saber engajado, implicado na transformação do mundo. Ao professor Boaventura de Sousa Santos que, na condição de co-orientador, no “doutorado-sanduíche”, colaborou para que eu tivesse acesso a conteúdos que foram importantes para a escrita da tese. Ao Programa de Pós-Graduação em Geografia, que me oportunizou novos e ricos aprendizados; que me possibilitou encontros com professores e colegas maravilhosos. Ao Programa Bolsa da eundação eord, que contribuiu com uma importante logística para que eu pudesse fazer a pós-graduação, particularmente para a viabilização do “doutorado sanduíche”. A CAPES, que contribuiu com uma bolsa no último ano de estudo. Ao meu filho André e aos meus pais que, por diversos momentos, tiveram que abrir mão da minha presença nesses últimos quatro anos. Às minhas companheiras geógrafas e integrantes da Rede Alerta Contra o Deserto Verde, Marilda Maracci e Simone eerreira, que muito contribuíram para a elaboração deste estudo. Às minhas companheiras do eórum de Mulheres, com quem tenho aprendido muito, que muito me apoiaram e compreenderam a necessidade de meu afastamento nesse último período. Ao meu querido amigo feminista e eterno professor, Thimóteo Camacho. Que venham e vejam os homens, as mulheres e os meninos que sabem viver e têm uma alegria que também não puderam matar os que pretendiam ensinar outras nações como viver. (ACHEBE, 1960, p. 45, tradução nossa) RESUMO A modernidade ocidental somada a outras formas de dominação (colonialismo, capitalismo, projeto hegemônico de desenvolvimento, neoliberalismo, globalização hegemônica) alteram profundamente a relação da humanidade com o ambiente e transformam a natureza em fonte inesgotável de matéria-prima. A obsessão pelo controle da natureza e pelo acúmulo de riquezas tem destruído, ao longo da história, fontes de subsistência e sistemas culturais de diversas populações locais em países do Sul. Ao mesmo tempo, criam-se novas formas de dominação e reelaboram-se as já existentes. Criam-se modelos de desenvolvimento e de “subdesenvolvimento”. Estabelecem-se padrões “ideais” de produção e consumo. A relação de dominação Norte x Sul se reproduz dentro do Sul e do Norte, ou seja, criam-se muitos nortes dentro do Sul e suis dentro do Norte. A crise ambiental surge como uma denúncia do esgotamento dos “recursos naturais” do planeta, porém novas estratégias tecnológicas e político-institucionais são encontradas pelo capital para ampliar a capacidade de exploração dos “recursos naturais”. Os pobres e as mulheres são responsabilizados pelo aumento populacional, indicado pelos especialistas do meio ambiente e do desenvolvimento como a principal ameaça à segurança ambiental do planeta; as mulheres dos países do Sul são alvo de políticas de controle da natalidade dos Estados Unidos nos anos de 1970. Com o discurso de combate à pobreza, populações do Sul são conectadas ao projeto de desenvolvimento. A partir de então, vivenciam rupturas jamais imaginadas. No Espírito Santo, a conexão das populações indígenas ao chamado projeto de desenvolvimento pela industrialização é devastadora, porque leva essas populações a perderem os seus territórios (restrição territorial) feitos de biodiversidade e cultura. A chegada da Aracruz Celulose S.A. ao território indígena dá início ao quarto ciclo de perdas territoriais Tupiniquim; o processo de desterritorialização e reterritorialização erode o modo de vida indígena. As mulheres, portadoras de saberes imprescindíveis à vida do seu povo, se vêem expropriadas das fontes materiais e simbólicas que permitiam a construção e a reprodução desses saberes: agricultoras, coletoras e artesãs são transformadas em subempregadas. A nova conformação territorial fragiliza o papel e o poder da mulher na sociedade Tupiniquim. Diante de uma realidade tão complexa, essa população reafirma a importância do lugar como foco de resistência ao projeto hegemônico global e trava, há quarenta anos, uma luta incansável pela recuperação territorial. Muitas batalhas e alianças são feitas. Nesse sentido, a Rede Alerta Contra o Deserto Verde constitui-se num instrumento estratégico, porque ajuda a consolidar uma gama de apoio local, nacional e internacional à luta indígena, que assume uma dimensão cosmopolita. As mulheres não abrem mão de se somarem à luta pela terra por meio de uma organização específica. eorjam a Comissão de Mulheres Indígenas Tupinikim e Guarani, que constitui um espaço de elaboração de estratégias e de fortalecimento dos laços entre as mulheres. Dessa forma, os Tupiniquim vão construindo a sua história de r-existência, dando uma importante contribuição ao movimento contra a globalização hegemônica. PALAVRAS-CHAVE: mulheres, meio ambiente, colonialismo, desenvolvimento econômico, território, lugar. Western modernity has dramatically changed the relationship between mankind and nature. In combination with other forms of domination, such as colonialism, capitalism, hegemonic globalization, neoliberalism and hegemonic development strategy, this has also resulted in nature being made an inexhaustible source of raw materials. Throughout history, the obsession to control nature and to accumulate wealth has disintegrated the sources of subsistence and cultural systems of local population groups in countries of the South. At the same time, this process created new forms of domination and redefined the existing ones. Economic development and ‘subdevelopment’ models were put into practice and the ’ideal’ production and consumption patterns were determined. The domination of the North over the South is a pattern that is repeated in both the North and the South. In other words, many ‘norths’ can be found in the South and many ‘souths’ can be found in the North. The environmental crisis originates from the denouncement against the depletion of natural resources. However, the capitalist system has come up with new technological and political-institutional strategies to improve its capacity to exploit the natural resources. According to environmental and development ‘specialists’, the main threat to the environment are the poor and women, who were held responsible for the population growth. As a result, women in the South were the target of birth control policies executed by the United States of America in the 1970s. In the fight against poverty, the inhabitants of the South were linked to the development programs and, from then on, they experienced ruptures in their societies never seen before. In Espírito Santo, Brazil, the socalled industrial development model had devastating effects on the lives of the indigenous groups, because they lost their lands, rich in biodiversity and culture. The establishment of the company Aracruz Celulose S/A in the indigenous areas of Espírito Santo started the fourth cycle of land loss for the Tupiniquim indians. They had to go through a process of losing and regaining their lands, which has irrevocably affected their way of life. Within this context, the women, who are the carriers of knowledge essential for their people, lost the material and symbolic sources that enabled them to gain and share knowledge. Previously farmers, gatherers and artisans, they now became underemployed. The changes caused by the land loss weakened the role and the power of the women in the Tupiniquim society. eaced with this complex reality, the indigenous people reconfirmed the importance of land as a focal point in their struggle against the global hegemonic model. During the last forty years, they have fought tirelessly to regain their lands. Many battles were fought and many alliances made. The Brazilian Alert against the Green Desert Network (Rede Alerta Contra o Deserto Verde) has given considerable support to the indigenous struggle in Espirito Santo, because it consolidated a local, national and international support network: the indigenous struggle reached global dimensions. The women have not given up and participate in the land struggle through a specific organization. They persisted in creating the Commission of Indigenous Tupinikim and Guarani Women (Comissão de Mulheres Indígenas Tupinikim e Guarani), which gives them a space to formulate strategies and to strengthen the relationship between themselves. This way, the Tupiniquim are making their own history through the ‘struggle for their existence’ (r-existência), making an important contribution to the struggle against hegemonic globalization. KEYWORDS: women, environment, colonialism, economic development, territory, place. eoto 1 – Os índios e a descaracterização da cultura tradicional . 273 eoto 2 – divulgado pelas empresas terceirizadas da ARCEL em 2006. 275 eoto 3 – Rio Sahy. 311 Gráfico 1 – Produtividade média das florestas de coníferas (pinus)/2001. 189 Gráfico 2 – Produtividade média de florestas folhosas (eucalipto)/2001. 190 Gráfico 3 – Produtividade de florestas homogêneas/2003. 190 Gráfico 4 – Crescimento da produção de celulose no Brasil. 191 Gráfico 5 – Participação do setor de celulose e papel no desembolso para o setor industrial realizado pela BNDES. 193 Gráfico 6 – Recursos acessados para fins de silvicultura. 198 Gráfico 7 – Custos comparativos - celulose de fibra curta (US$/t). 200 Gráfico 8 – População urbana e rural do Espírito Santo. 209 Gráfico 9 – Evolução da presença da Mata Atlântica no Espírito Santo. 214 Gráfico 10 – Maiores produtores de celulose de fibra curta branqueada do mundo (milhões t/ano). 222 Gráfico 11 – Potencial/capacidade de produção de celulose (ARCEL). 223 Gráfico 12 – Produtividade versus número de empregados (ARCEL). 227 Gráfico 13 – Produção de celulose pelo Grupo Aracruz. 231 Mapa 1 – Presença dos Tupiniquim no Estado do Espírito Santo. 126 Mapa 2 – Aldeias destruídas e em reconstrução existentes nos territórios indígenas do Espírito Santo. 164 Mapa 3 – Representação aproximada do mundo Guarani. 178 Mapa 4 – Complexo fabril da Aracruz Celulose. 226 Mapa 5 – Plantios de eucalipto nas terras indígenas no Estado do Espírito Santo. 281 Mapa 6 – Demarcações de terras indígenas no Estado do Espírito Santo. 282 Mapa 7 – Terras indígenas no Espírito Santo. 282 Mapa 8 – Apropriação dos recursos hídricos – reservatórios hídricos Aracruz Celulose. 303 Mapa 9 – Apropriação dos recursos hídricos – complexo fabril Aracruz Celulose. 304 Quadro 1 – Situação das aldeias antes e pós-chegada da empresa Aracruz Celulose. 172 Quadro 2 – Empresas instaladas no Espírito Santo em parceria com o Estado brasileiro e capital estrangeiro. 208 Quadro 3 – Eventos que envolvem o processo de instalação e expansão da Aracruz Celulose. 232 1 – Importação e produção de celulose e papel entre os anos 1955-64/t. 2 – Plantios homogêneos executados pela indústria de celulose e papel até 1980/ha 3 – Área plantada com e Eucalipto no Brasil/ha. 4 – Investimentos realizados e previstos para o setor industrial (Governo eederal: 2003 a 2010). 5 – Investimento em plantações de eucalipto incentivados no Espírito Santo (1967/1987). 6 – População do Espírito Santo em números absolutos e da Região Metropolitana da Grande Vitória em %. 7 – Índices de GINI de municípios do norte do Espírito Santo. 8 – Crescimento do monocultivo de eucalipto no Espírito Santo/ha. 9 – Contribuições/financiamentos para a construção da eábrica A da ARCEL. 10 – Composição acionária da ARCEL em 1975. 11 – Composição acionária da ARCEL em 1990. 12 – Composição acionária da ARCEL a partir de 2001. 13 – Recursos do BNDES repassados para a ARCEL até o ano 2003 (US$,Cr$,R$) 14 – Áreas de propriedade do Grupo Aracruz no Brasil. 15 – Situação das terras indígenas no Brasil em 2007. 184 189 191 199 206 209 213 217 219 220 221 224 225 229 258 ABRAe – Associação Brasileira de elorestas ABTCP – Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel ACAPEMA – Associação Capixaba de Meio Ambiente ACESITA – Aços Especiais Itabira ADR – American Depositary Receipt AGB – Associação dos Geógrafos Brasileiros AI-5 – Ato Institucional nº. 5 AID – Agency for International Development (Agência pelo Desenvolvimento Internacional AITG – Associação Indígena Tupinikim e Guarani ANePC – Associação Nacional dos eabricantes de Papel e Celulose AP – Antes do Presente APM – Aracruz Produtos de Madeira APOINME – Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo ARCEL – Aracruz Celulose S. A. AReLO – Aracruz elorestal S. A. BANDES – Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo BB – Banco do Brasil BNDE – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social BNDESPAR – BNDES Participações BOVESPA – Bolsa de Valores do Estado de São Paulo BRACELPA – Associação Brasileira de Celulose e Papel BRALANDA – Brasil Holanda Indústria S. A. BVRJ – Bolsa de Valores do Rio de Janeiro CATG – Comissão de Articulação Tupinikim e Guarani CBPO – Companhia Brasileira de Projetos e Obras CDDH – Centro de Defesa dos Direitos Humanos CDI – Conselho de Desenvolvimento Industrial CEDDIM – Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher CeEMEA – Centro eeminista de Estudos e Assessoria CENIBRA – Celulose Nipo-Brasileira S. A. CEPAL – Comissão Econômica e Social das Nações Unidas CEPEDES – Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul da Bahia CIEDUR - Centro Interdisciplinar de Estudos sobre o Desenvolvimento CIMI – Conselho Indigenista Missionário CMBEU – Comissão Mista Brasil-Estados Unidos CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil CNI – Confederação Nacional da Indústria CODES – Companhia de Desenvolvimento Econômico do Espírito Santo COeAVI – Companhia eerro e Aço de Vitória COMIL – Comissão de Mulheres Indígenas do Leste CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento CONAeLOR – Comissão Coordenadora do Programa Nacional de elorestas CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente CPI – Comissão Parlamentar de Inquérito CREA – Conselho Regional de Engenharia Arquitetura e Agronomia CSN – Companhia Siderúrgica Nacional CST – Companhia Siderúrgica de Tubarão CVRD – Companhia Vale do Rio Doce DAWIN – Development Alternatives with Women for a New Era (Alternativas de Desenvolvimento com Mulheres para uma Nova Era) DIA – Declaração de Impacto Ambiental DOU – Diário Oficial da União DST – Doença Sexualmente Transmissível DTC – Divisão de Terras e Colonização ECe – Elemental Chlorine eree (Livre de Cloro Elementar) ECOSOC – Conselho Econômico e Social das Nações Unidas ECOTEC – Empresa de Consultoria Economia e Engenharia Acesso em: 17 jul. 2009) 65 O Marechal Castelo Branco assumiu a Presidência da República em 15.04.1964. 116 A denominação do bairro remete à figura de Francisco dos Santos, o Chico dos Santos, dono de um rancho às margens do rio Machado onde ele administrava um entreposto de mercadorias, uma venda e uma pousada para os viajantes que comercializavam produtos através da estação de Fama (1896) da Estrada de Ferro Muzambinho e do barco que ia de Fama até a Cachoeira (ainda existente no rio Machado e próxima ao bairro). Segundo um de seus descendentes, Sr. João Esmeraldo Reis, nascido em 1932, figura de destaque no bairro, quando da construção de Furnas, a expectativa dos moradores é que a energia elétrica chegasse ao bairro. Até então apenas os moradores mais abastados do bairro eram sócios de uma pequena usina elétrica, inaugurada em 12 de abril de 1951.66 Em seu depoimento à pesquisadora, em estudo prévio sobre a comunidade atendida pela Fundamar, em 1994, Sr. João Esmeraldo relembrou as várias pontes construídas sobre o rio Machado, interligando o bairro do Chico dos Santos ao bairro do Coroado no município vizinho de Alfenas. Antes da construção da primeira ponte a travessia era de barco e para o gado era na água. Segundo o depoente, quando a primeira ponte foi construída, em torno de 1920, só aqueles que contribuíram para a obra tinham livre acesso. Os demais tinham que pagar para atravessar ou se valerem dos préstimos do barqueiro, Chiquinho Cordeiro. Depois que o rio Machado foi represado por Furnas, no bairro Chico dos Santos (1965?) a terceira ponte foi construída pela comunidade com ajuda de ambas prefeituras – Paraguaçu e Alfenas. O Sr. João Esmeraldo 66 O jornal “O Paraguassu”, Paraguaçu (MG), n. 496 de 15 abr. 1951 traz a notícia: “Inauguração da Luz Eletrica no Bairro Chicos dos Santos”. Segundo Sr. João Esmeraldo, eram vinte e dois sócios envolvidos na construção da usina de energia elétrica, captando as águas do ribeirão que deságua no rio Machado, no bairro Chico dos Santos. O responsável pela usina era Geraldo de Abreu, de Alfenas. 117 participou da construção da ponte de madeira amarrada com cipó, a base era de pedra e sua extensão era de 22m. Foi construída entre 25 de julho e 25 de agosto de 1967. Edição de “A Voz da Cidade” de 1º de outubro de 1967 confirma a informação de nosso depoente. Furnas só viria construir a ponte sobre o rio Machado, em substituição à antiga, já interditada, em 1981. O jornal “A Voz da Cidade” de 28 de março de 1981 refere-se a um convênio entre a Prefeitura Municipal de Paraguaçu e Furnas – Centrais Elétricas S/A para construção de obras para evitar o ilhamento de alguns produtores rurais, cujas propriedades localizam-se nas margens do lago de Furnas. Refere-se ainda à construção da nova ponte do rio Machado, de interesse direto dos moradores do Bairro dos Santos (bairro Chico dos Santos, em Paraguaçu) e do Coroado, no município de Alfenas, a ser executada diretamente por Furnas. Raro exemplo de publicação de memórias sobre um bairro rural do município de Paraguaçu, o livro “Memórias do Chico dos Santos”, de autoria de Edson Vianei Alves (1949-2002), sobrinho materno do depoente João Esmeraldo, registra suas lembranças sobre o rio Machado, ao tempo de seu pai, Joaquim Felipe: “No rio Machado, ele [o pai] pescava dourado, curimba, tubarana, piapava, mandi, bagre e lambari.” (ALVES, 2000, p. 34) Sr. José Cavaleiro, mais conhecido por Tonico Cavaleiro (1933), também nascido e ainda morador no bairro Chico dos Santos, lembra-se também das boas pescarias no rio Machado. Mas afirma que o represamento do rio facilitou muito a vida, pela facilidade de captação d‟água para a lavoura, 118 principalmente do alho, principal atividade do bairro na década de 50 a 60.67 Sr. Hélio Meirante, nascido em 1935, também nascido e ainda residente nas mesmas terras que foram de seus pais, às margens do rio Machado, lembra-se que seu pai perdeu três alqueires de terra e foi indenizado pelo valor nominal das mesmas. Seu irmão, Ademir de Souza Meirante, nascido em 1953, calcula em dez alqueires as terras perdidas por seu pai para Furnas. A chegada dos técnicos de Furnas no bairro é rememorada pelos irmãos Meirante: Foi uma coisa. Da moda que a gente nem esperava. Que antes a gente via passar, fazer a marcação, e ficava abismado de ver aquelas condução no meio do pasto. Que era para fazer a marcação, onde a água ia atingir. [.] Eles não explicava nada. Eles entrava [sic] no meio do pasto, com aqueles jipes, com aqueles aparelhos, marcando tudinho. Eles nunca veio [sic] aqui. (Depoimento do Sr. Hélio Meirante, 2009) Foi enchendo e foi acabando tudo. Se não vendesse [para Furnas] já perdia tudo. Lá no retiro, pra baixo do Matão, o rapaz não quis vender a casa, o terreno, de jeito nenhum. Não vendeu. Eu vi a casa, o terreno foi subindo, sumiu tudo. Perdeu tudo. [.] Que nem eles falou [sic]: „aqui tando cheio é nossa, tando seco é seu‟. (Depoimento do Sr. Ademir Meirante, 2009) Sr. Tonico Cavaleiro, quando indagado sobre a reação da população do bairro à chegada de Furnas, disse: “o povo achou bão [sic] e é bão [sic] até hoje”.68 67 O almanaque “O Sul-Mineiro Ilustrado” em reportagem intitulada “O Desenvolvimento de Paraguassú e a Administração Cristiano Otoni do Prado”, datado de 1941, informa sobre a cultura de alho no município, cuja produção “figura em primeiro logar no Brasil”. 68 Os depoimentos desses moradores ribeirinhos foram filmados por um grupo de educadores da Fazenda-Escola Fundamar, em 2009. Fragmentos de seus depoimentos foram incorporados a uma apresentação em PowerPoint integrante do instrumento de capacitação dos educadores, objeto dessa dissertação. 119 6.9. CINQUENTENÁRIO DE FURNAS: DUAS VERSÕES DISTINTAS Em 2000, a denúncia sobre as péssimas condições sanitárias do lago de Furnas era objeto do jornal “A Voz da Cidade”, em 1º de setembro. À época a preocupação era com o baixo nível das águas do lago, que prejudicava o turismo, principal fonte de renda da população lindeira. O jornal faz um paralelo entre os prejuízos daquele momento e aqueles sofridos à época da constituição do lago. E especula sobre as causas do rebaixamento do nível das águas, entre elas, a rivalidade entre o então presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Itamar Franco69, sobre a privatização de Furnas. Segundo essa versão, frente às ameaças do governador contra a privatização, o Presidente teria pedido à direção da empresa para esvaziar o lago. O jornal ainda noticia uma reunião de representantes da Associação dos Municípios do Lago de Furnas (ALAGO) com a diretoria da empresa em 28.11.2000, para encontrar soluções para as agressões ambientais que a represa vinha sofrendo, bem como recuperar o passivo que a empresa tinha com os municípios lindeiros: Diariamente são despejados no local, dejetos sanitários, industriais e agrotóxicos. A falta de infra-estrutura e a de uma política de utilização do Lago vem comprometendo o desenvolvimento da região, que aposta no turismo como uma das ferramentas para reverter a estagnação econômica. (A VOZ DA CIDADE, 12 set. 2000, p. 1) Em 2007, ano do cinqüentenário de Furnas, o jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, trouxe dois artigos sobre o evento, que evidenciam opiniões distintas sobre os impactos gerados pelo empreendimento. 69 O governador Itamar Franco e o Presidente Fernando Henrique Cardoso assumiram seus respectivos cargos em 1999. O Presidente iniciava então seu segundo mandato. 120 Luiz Neves de Souza, mestre em turismo e meio ambiente, em artigo intitulado “Os 50 Anos do Lago de Furnas”, denuncia a ausência de políticas públicas que canalizassem esforços voltados à preservação ambiental e também de projetos consistentes e objetivos para o fomento e desenvolvimento do turismo na região. E reclama: Basta percorrer as 34 cidades do Lago de Furnas e observar, em todas elas, toneladas de rejeitos em esgoto e lixo, além de defensivos agrícolas que são despejados em diversas regiões que se dizem próprias para o turismo e para a prática de esportes náuticos, para não falar da situação caótica da rede viária local. (SOUZA, 2007) O senador Eliseu Resende, no artigo intitulado “A Epopéia de Furnas” em “homenagem evocativa ao cinqüentenário”, imagina que sem a energia elétrica e a Petrobrás, o Brasil estaria hoje nos mesmos níveis de muitos países da África. Durante esse tempo [desde 1957] construímos nossos portos e modernizamos outros; instalamos a indústria química de base; desenvolvemos a produção de veículos e de navios; e entramos, firmes, na aeronáutica. Para tudo isso contribuiu a energia de Furnas e a que ela transporta e distribui, pelo principal sistema de interligação das grandes geradoras nacionais (RESENDE, 2007, p. 9). Ambos pontos de vista refletem faces distintas de um mesmo fato histórico. A percepção do ganho pela geração de energia para o desenvolvimento industrial nacional versus os prejuízos study has some limitations. The study sample consisted of a selected cohort of CML patients, as the enrollment was carried out in a single center. It is part of an observational study that was initially designed to evaluate imatinib-induced cardiotoxicity. Therefore, patients with cardiac disease, who have shown to be at increased risk for drug-induced nephrotoxicity [36], were excluded. The data were collected from the medical records, and the number of measurements differed among patients. Furthermore, only CML patients were enrolled. The effectiveness of imatinib has been demonstrated in several other diseases [3, 38, 39, 40] and it is also important to evaluate nephrotoxicity in these patients, as it is not known whether the propensity to develop imatinibinduced nephrotoxicity is related to the underlying malignancy. conclusions In conclusion, physicians should be aware that imatinib treatment may result in acute kidney injury and that the long- term treatment may cause a significant decrease in the estimated GFR and chronic renal failure. Therefore, it is important to monitor renal function of CML patients under imatinib therapy by measuring the creatinine levels and estimating GFR. Attention must be paid to concomitant administration of other potentially nephrotoxic agents, to avoid additive nephrotoxicity in these patients. acknowledgements We gratefully acknowledge the contributions of our patients, their families, and the hematologists (Cla´udia de Souza, Simone Magalha˜es, and Gustavo Magalha˜es). We also thank Heloisa Vianna for the constructive comments and suggestions, and Ka´tia Lage and Vera Chaves for the expert secretarial assistance. funding Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientı´fico e Tecnolo´ gico (478923/2007-4) to ALR; Fundaxca˜o de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais (PPM 328-08) to ALR; Coordenadoria de Aperfeixcoamento do Ensino Superior, Brazil (BEX 1199-09-9), to MSM. disclosure The authors declare no conflict of interest. references 1. Pappas P, Karavasilis V, Briasoulis E et al. Pharmacokinetics of imatinib mesylate in end stage renal disease. A case study. Cancer Chemother Pharmacol 2005; 56: 358–360. 2. 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