Carnavalização e memória mítica no poema Camongo, de Gilberto Mendonça Teles

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AGRADECIMENTOS

  Sérgio Alves Peixoto, pelo apoio à escolha do corpus analisado, e pela sensibilidade e abertura ao diálogo, propriedades que concorreram para arealização deste trabalho. Ao CNPq, pela concessão de uma bolsa de estudos durante o período de um ano.

RESUMO

  A partir do livro Sintaxe invisível (1967) - primeiro da trilogia que se completa com Raiz da fala (1972) e Arte de armar (1977) -, o poeta inaugura a segundafase de sua obra, por ele denominada como A Sintaxe, de caráter marcadamente metalingüístico, em que se observa o aprofundamento e intensificação da reflexão sobrea relação entre linguagem e poesia. Amo o jogo das tripas e dos tropos e todo dia excito a competênciada língua retorcida como um búzio 9nas vésperas da posse.” Também neste último livro que completa a trilogia da segunda fase, o poeta introduz em sua obra a imagem de mistério, que destoa dos poemas mais racionalistas eremete ao mito e à história, elementos estes que se reiteram e se multiplicam na sua poética a partir da fase seguinte.

15 A propósito do acordo da anistia cf. A estratégia da interdição da investigação do passado

  Tendo sido deflagrado no contexto da Guerra Fria, o golpe de estado levou à ampliação da influência dos Estados Unidos sobre o Brasil a fim de mantê-lo afastadodo risco de adesão ao regime da União Soviética que, desde a revolução cubana de1959, pautada pela adesão gradativa de Fidel Castro ao socialismo, encontrou território propício para infiltrar-se em todo o continente latino-americano. Dada a extensão territorial do Brasil – maior país da América Latina -, bem como a proximidade da postura de seu dirigente, o presidente João Goulart, das ideias e valores do regime socialista, este país passou a despertar o receio do então embaixadoramericano Lincon Gordon de vir a transformar-se num reduto de comunismo, tornando- se em pouco tempo uma porta de entrada deste regime para os demais países docontinente.

20 CARDOSO, Irene. Para uma critica do presente. São Paulo: editora, 34, p.137

  Desenvolvendo a sua reflexão, o mesmo crítico afirma que na sociedade dominada pelos discursos ideológicos a poesia perdeu o seu poder de dar sentido àscoisas, e o seu lugar foi ocupado pela ideologia dominante: “No entanto, sabemos todos, a poesia já não coincide com o rito e as palavras sagradas que abriram o mundo ao homem e o homem a si mesmo. Em sua composição reconhecemos a fala de um soldado expedicionário em missão de guerraque, diante de exércitos estrangeiros, se apresenta como filho de uma pátria distante e saudosa, cuja natureza, bela e fecunda, propicia uma vida de simplicidade e paz, e cujavitória a conquistar constitui o objetivo principal de sua luta.

46 BENVENISTE, E. Problemas de lingüística geral II. Campinas, Pontas, 1989, p. 87-88

  3.3 - Autoridade militar do Camões de cordel Segundo os dados constantes da biografia de Luís Vaz de Camões, este poeta, descendente de modesta fidalguia, nasceu por volta de 1525 e pouco depois deadquirir formação escolar – não tendo provavelmente cursado a Universidade -, começou a projetar-se como poeta de grande talento no ambiente da Corte, então sob o reinado de D. 3.4- O depoimento de Camões sobre o saci de Goiás Retornando à análise da fala do Camões de cordel a partir de sua introdução na oitava estrofe, e tomando-a como paródia explícita, observamos que o tom deautoridade e superioridade expresso por ela deriva de certa ascendência do sujeito que a produz sobre a figura mítica do saci a que ele se refere.

73 BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010, p

  “Quem é aquele que passa fingindo que chora e ri, o que atravessa a vidraçacom a finura de um i, que está pulando na praça 74como se fosse um saci?” A esta estrofe seguem-se outras três ainda aparentemente impregnadas do tom carnavalesco que parece marcar a transição para a terceira parte do poema,anteriormente mencionada. Empenhado em abordar aquele impasse político gerado pela anistia, a despeito da proibição expressa por tal acordo, uma vez coroado como rei do carnaval noespaço do poema, ele introduzirá na parte seguinte uma cadeia de revelações mais ou menos dissimuladas sobre a sua história pessoal em cujo avesso se inscreve a história daditadura pós-64, conforme demonstraremos no capítulo seguinte.

77 TELES, G.M. Op. cit., p. 461

  Ainda com respeito à simbologia do bufão, particularmente no que toca à sua linguagem, é importante destacar o jogo irônico por ele incorporado comomodalidade expressiva, conforme consta de sua simbologia: “Uma das características do bufão é a de exprimir em tom grave coisas anódinas e em tom de brincadeira, as coisas mais graves. 81 Como já referimos anteriormente, reportando-nos à Benveniste, o que caracteriza a enunciação é a acentuação da relação discursiva do locutor com umparceiro – seja ele real ou imaginário, individual ou coletivo -,em que se introduz a estrutura do diálogo entre dois sujeitos respectivamente identificados como sujeito do enunciado e sujeito da enunciação.

81 BENVENISTE, E. Problemas de lingüística geral II. Campinas, Pontas, 1989, p 87

  A mesma cena que, por um lado, pode ser vista como efeito de fala inocente, por outro lado, revela suafinalidade de criticar o contexto de opressão instaurado pelo regime militar que condenava aqueles que não o defendessem, ou não se mantivessem alheios à situaçãopor ele imposta, a submergirem nas sombras – “céu de nuvens sem fim”- por tempo indeterminado. Em uma de suas teses sobre o conceito de história, Walter Benjamin ressalta86 a importância da apropriação, pelo historiador, da reminiscência histórica tal como ela TELES, G.

87 BENJAMIN, W. Sobre o conceito de história. In: Obras Escolhidas I. São Paulo: Brasiliense: 1986

  E num eclipse pelo avesso 91vou te contar como foi.” ( 39ª estrofe )Contrastando os versos finais das referidas estrofes, percebemos a ironia implícita na repetição da palavra “contar” e constatamos que as histórias anunciadas por cada um desses versos diferem entre si, e que a primeira, anunciada pelo Camões de cordel, é um longo engodo sem enredo, e apenas a última leva a efeito sua proposta. rabo de arraia e tatu,Apontam nomes na terra trataram de abrir os canos, “Mas era teatro de guerra “E foi assim que quinze anos ( 41ª estrofe ) ( 43ª estrofe ) 93 No que é ruim, no que é bom.” 94 O que a censura deixou.” Abriu seu mês e seu show.

99 TELES, G.M. Op. cit., p. 464

  Movido pelo interesse de relatar a sua experiência pessoal, Mendonça Teles consegue retratar em seu poema, através da paródia e da carnavalização, o drama dosilenciamento forçado, da fala que se esforça num anseio de expressão, e se recua perante a intervenção de um engodo soberano. Na referida estrofe do poema em questão, o poeta que se nomeia, depois de afirmar que já não tem o que pedir à sua musa, tendo relatado suas memórias, reafirma asua capacidade de condensá-las e presentificá-las no ato de nomeação , o que confirma a sua função de doador de sentido.

CAMONGO

  E cada pulo que dava chamava mais a atenção:queriam ver sua clava, conhecer o seu bordão,todo mundo só pensava na sua imagem e opção Vem daí toda a memória de sua sorte e azar,vem daí a trajetória de seu pé e polegar,pé-de-garrafa ou da estória que eu quero, moça, contar. Pois se tiver meu engenho e de artes me for capaz,hei de por tudo o que tenho no folhetim dos jornaispara mostrar num desenho o saci do meu Goiás Deu um pulo mais pra frente, viu novas terras e céu,conheceu coisas e gente, parou, tirou o chapéu,traçou as gringas no dente pulando de déu em déu.

BIBLIOGRAFIA GERAL:

  In.: Boletim do Centro de Estudos Portugueses da Faculdade de Letras da UFMG – Ano V – Nº 9 – janeiro/junho de 1983, p. “A ideologia na casa de bonecos – a ideologia de Os Lusíadas, a epopéia de Portugal”.

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