Comunicação: uma necessidade percebida no período pré-operatório de pacientes cirúrgicos.

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PESQUISA Revista Brasileira de Enfermagem REBEn Comunicação: uma necessidade percebida no período pré-operatório de pacientes cirúrgicos Communication: a percieved need in the pre-operative period for surgical patients Comunicación: una necesidad percibida en lo periodo pre-operatorio de pacientes quirúgicos Waldine Viana da Silva Enfermeira. Doutora em Enfermagem Docente do Curso de Enfermagem – Graduação e Pós-Graduação (latu-senso) da Universidade Católica de Santos (UniSantos). Sumie Nakata Enfermeira. Docente do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Católica de Santos.Mestranda no Curso de Saúde Pública da UniSantos. RESUMO O estudo teve como objetivo avaliar os sentimentos de pacientes no período pré-operatório. É um estudo descritivo com abordagem qualitativa. Foi realizado em uma unidade cirúrgica de um hospital público num município do Estado de São Paulo. A população constituiu-se de pacientes no período pré-operatório, na faixa etária de 10 a 80 anos. Observação não sistematizada e entrevista semi-estruturada foram utilizadas para coleta de dados. Os resultados evidenciaram a falta de comunicação efetiva devido às barreiras existentes, impedindo um relacionamento terapêutico adequado e, frente a isso, os pacientes permanecem ansiosos e deprimidos durante toda a internação por falta de orientação quanto à cirurgia e ausência de apoio por parte da equipe de Saúde. Descritores: Enfermagem perioperatória; Cuidados de enfermagem; Comunicação; Relações enfermeiropaciente. ABSTRACT The study had as objective to evaluate the patients’ feelings in the pre-operative period. The study is descriptive with qualitative approach. It was accomplished in a surgical unit of a public hospital of São Paulo. The population was constituted of patients in the pre-operative period, in the age group from 10 to 80 years. Non-systematized observation and semi-structured glimpses were used for data gathering. The results showed the lack of efetive communication caused by the obstacle disturbs the therapeutic relationship, leading the patients to anxiety and depression during the hospitalization, because the lack of surgery orientation and support by the health team. Descriptors: Perioperative nursing; Nursing care; Communication; Nurse-patient relations. RESUMEN El estudio tuve como el objetivo evaluar los sentimientos de pacientes en el diario perioperatorio. Él es descriptivo com un abordaje cualitativo. Fue Ilevado a través de una unidad quirúrgica de un hospital público en el estado de São Paulo. La población consistió en pacientes en el diario perioperatorio, en la venda sería de 10 a los 80 años. Para la recolecta de datos fueron usados la observación y la entrevista semi-estructurada. Los resultados evidencian la carencia de la comunicación logran debido a las barreras existentes, inpedindo una ajustada relación terapéutica, afrontan a esto, los pacientes siguen ansiosos y pressionados durante toda la internacón debido a la falta de orientación cuanto a la chirugía y a la ausencia de la ayuda de parte del equipo de salud. Descriptores: Enfermería perioperatória; Atención de enfermería; Comunicación; Relaciones enfermero-paciente. Silva WV, Nakata S. Comunicação: uma necessidade percebida no período pré-operatório de pacientes cirúrgicos. Rev Bras Enferm 2005 nov-dez; 58(6):673-6. 1. INTRODUÇÃO O ser humano quando afetado por uma enfermidade se torna vulnerável, razão pela qual merece ser olhado com muito respeito, haja vista ser um doente e não uma máquina a ser reparada ou um objeto a ser reconstituído. Portanto, se faz necessário modificar a forma de tratamento que normalmente se dá ao doente, pois ele está circunstancialmente afetado pela doença, ameaçado, às vezes, de invalidez e morte. Isto faz surgir um sentimento de insegurança, solidão, medo e desamparo, levando-o a buscar na equipe de Saúde não apenas a sua cura, mas também segurança, afeto e solidariedade. Mezzomo(1) não considera o paciente apenas um doente no leito. Afirma que o paciente tem uma história de vida, é rodeado por um lar, pelo trabalho, por parentes, alegrias, tristezas, esperanças e temores. Para que o profissional de Saúde, particularmente o enfermeiro, possa se relacionar adequadamente com o paciente, ele deve saber se comunicar, pois a comunicação é uma exigência 673 Rev Bras Enferm 2005 nov-dez; 58(6):673-6. Silva WV, Nakata S. da própria natureza humana. Segundo Stefanelli , a comunicação deve ser entendida como um processo que compreende e compartilha as mensagens enviadas e recebidas facilitando, assim, a interação entre as pessoas, estabelecendo um intercâmbio entre elas e seu meio. (2) Comunicar constitui-se num enriquecimento mútuo, tanto por parte daquele que transmite como de quem recebe. Quando essa comunicação é bem feita, visa sempre a realização humana e o bem comum. Essa observação confirma o que Mendes(3) afirma sobre a valorização do homem como pessoa sendo premissa básica para a humanização na assistência de Enfermagem. Deve haver valorização de ambas as partes, ou seja, tanto da pessoa do enfermeiro como da pessoa do paciente. Mediante o exposto, as autoras deste estudo acreditam que devido ao fato de a ansiedade ser um fator básico no desenvolvimento e uma manifestação no comportamento humano, é necessário que o enfermeiro adquira uma profunda compreensão sobre suas características, origem e adaptações em geral, para dar o suporte necessário ao paciente em seus cuidados profissionais. A preocupação com o paciente no período pré-operatório, enquanto ser humano que necessita de apoio emocional no momento de ansiedade, foi motivação para a realização dessa pesquisa. Baseando-se no respeito à pessoa humana, percebeu-se a necessidade iminente de melhorar a abordagem frente à pessoa enferma, na tentativa de diminuir o conflito vivenciado pelos pacientes ao se submeterem a certos tipos de cirurgias, assim como o medo de morrer ou ficar com alguma deficiência física. Este estudo tem como objetivo investigar como realmente se sentem os pacientes que irão se submeter a cirurgias e, também, como foi seu preparo para as mesmas. 2. REVISÃO DA LITERATURA 2.1 A comunicação efetiva no cuidar Para que haja a identificação desses problemas e a assistência de Enfermagem seja eficaz, é necessário haver um relacionamento interpessoal por meio da comunicação terapêutica que, segundo Stefanelli(2), contribui para o desenvolvimento da prática de Enfermagem despertando sentimento de confiança entre paciente e enfermeiro. A ansiedade é, simultaneamente, uma adaptação e um estressor. Funciona como adaptação no sentido de que é uma resposta a um desequilíbrio do sistema e, inicialmente, reduz o nível da tensão, obscurecendo a natureza do estressor. Contudo, sua existência é um sinal de que o sistema está tendo dificuldades em manter o equilíbrio e, nesse sentido, desempenha uma função preciosa(4). Por outro lado, ela serve como estressor no sentido de ser percebida como negativa. Sua presença, muitas vezes lança o sistema em um estado de tensão, não aliviando a tensão original. Portanto, sendo a ansiedade vista como negativa, é natural que o sistema empregue uma variedade de mecanismos para lidar com ela. É sabido que muitas pessoas apresentam clima de apreensão por desconhecimento da cirurgia a que vão se submeter, exacerbando o estado de estresse e tensão. Manifestam medo, desconforto geral e ansiedade, fatores psicológicos que interatuam de maneira muitas vezes intensa sobre a manifestação orgânica da enfermidade que possuem. A comunicação é uma parte essencial no processo terapêutico e isto envolve escutar cuidadosamente e interpretar inteligentemente. O enfermeiro deve considerar a comunicação com o paciente como um processo recíproco. Confirma-se essa colocação através de estudos realizados por Stefanelli(2), Zago; Casagrande(5), Waldow(6), Silva(7), Aitken(8) entre outros. 674 Quando se fala em inter-relação, se quer dizer que o enfermeiro e o paciente estão vendo um ao outro como pessoas que interagem e que expressam através de seu comportamento, suas motivações e necessidades. O paciente internado em um hospital, para realização de uma cirurgia de qualquer espécie, precisa confiar em alguém que o considere e respeite seus sentimentos. O modo como ele é cuidado é de grande importância. Ele precisa de segurança e procura encontrá-la em alguém. Este alguém – poderá ser qualquer membro da equipe de Saúde – precisa estar preparado e disposto a empregar todo seu esforço em dar-lhe uma resposta positiva. De acordo com Aitken(8) “uma pessoa doente é mais que um corpo. Cada ser humano é um ser integral, e precisa ser visto e cuidado em todos os seus aspectos”. É válido ressaltar que a comunicação interpessoal como método terapêutico deve ser cumprida com precisão e para isso é necessário auto-disciplina, pois é um meio de intercâmbio entre quem ajuda e quem é ajudado. A disciplina exigida leva tempo para tornar-se integrada dentro de qualquer comunicação, a fim de que esta seja efetivada e contribua para o bem estar do paciente. 2.2. Dificuldades na comunicação Existem vários tipos de dificuldades que impedem uma comunicação eficaz entre as pessoas. À essas dificuldades Stefanelli(2) dá o nome de barreiras à comunicação. A autora afirma, ainda, que essas barreiras decorrem, geralmente, da falta de habilidade para ouvir, ver, sentir e compreender a mensagem ou o estímulo recebido. Acredita que a causa pode ser, principalmente, por deficiência orgânica de algumas funções psíquicas, entre elas da memória, da atenção ou do raciocínio. Em nosso relacionamento com outras pessoas devemos procurar falar pausadamente, focalizando as idéias principais repetindo-as e verificando se elas foram entendidas, pois às vezes o nosso interlocutor tem dificuldade em apreender e compreender as informações recebidas. Entre as várias barreiras à comunicação referidas por Stefanelli(2) foi observado nesta pesquisa que as mais presentes foram: pressuposição da compreensão; influência de mecanismos inconscientes e imposição de esquemas de valores. Evidenciou-se com isto que normalmente a comunicação entre enfermeiro e paciente se torna apática, sem efetividade e sem afeto, deixando de ser uma comunicação terapêutica. Quando a assistência de Enfermagem é automatizada, é normal acontecer do paciente achar que os profissionais de Saúde se aborrecem facilmente com ele. Daí para não incomodá-los, muitas vezes se cala. Existem profissionais que se esforçam para tranqüilizar o paciente frente a alguma ansiedade iminente, porém por desconhecimento ou onipotência utilizam meios que deixam o paciente mais ansioso ainda, usando linguagem inacessível, considerada jargão ou termos técnicos ou científicos que o paciente desconhece. Para exemplificar é válido ressaltar um fato ocorrido em um hospital de ensino: em visita à enfermaria, médico e enfermeira conversavam frente ao leito de uma paciente. O médico pergunta: (em direção à enfermeira, referindo-se a paciente) “Como ela está hoje?”. A enfermeira responde: dispnéica. E ambos se afastaram sem mais nenhum comentário. Momentos depois a paciente está em prantos, e uma aluna de Enfermagem procura saber o que ela tem e ela lhe relata o acontecido e faz uma pergunta: “Isso é grave?” Silva(9) afirma que na área da Saúde se lida com gente, e se não houver uma comunicação efetiva podem surgir conflitos originados por mensagens não compreendidas. Por outro lado, quando o enfermeiro tenta ajudar um paciente Rev Bras Enferm 2005 nov-dez; 58(6):673-6. Comunicação: uma necessidade percebida no período pré-operatório de pacientes cirúrgicos afirmando algo que pode não acontecer ou ao generalizar as queixas deste, se diz que é uma falsa tranqüilização. Isso é freqüente quando o paciente se encontra preocupado ou com medo do que poderá acontecer consigo ou seus familiares durante sua internação ou na cirurgia e o enfermeiro consola-o : “não se preocupe sua família estará bem, eles querem o melhor para o senhor”; “não precisa ficar com medo, amanhã estará tudo bem”; “isso aconteceu com uma amiga minha e foi tudo bem”. Os termos linguagem inacessível e falsa tranqüilização identificam quando uma comunicação não é terapêutica. A primeira por usar palavras desconhecidas para o paciente; e a segunda é quando o profissional utiliza frases estereotipadas e vazias na tentativa de confortar o paciente sem atentar para o seu efeito, ou seja, reação que provoca no outro(2). 3. METODOLOGIA Este estudo foi realizado em uma unidade cirúrgica de um hospital público localizado em um município do Estado de São Paulo. As autoras optaram pela realização de um trabalho de campo de natureza descritiva com abordagem qualitativa. Foi utilizada a entrevista semi-estruturada na qual de acordo com Rey(10), o pesquisador está sempre presente, consciente e atuante, permitindo a relevância na situação do alvo. A coleta de dados foi feita primeiramente através de uma observação não sistematizada no campo pelas autoras, a qual deu base para realização de um roteiro de perguntas abertas permitindo flexibilidade para correções ou adaptações das informações no transcorrer das entrevistas. Os dados foram coletados num período de dois meses (agosto a setembro de 2000) no turno vespertino. As entrevistas foram realizadas pelas autoras, algumas vezes individuais e outras em grupo de três pacientes. Essas entrevistas foram realizadas com 27 pacientes na fase do período pré-operatório. Destes 15 eram do sexo masculino e 12 do sexo feminino. Após a cirurgia de cada um dos sujeitos do estudo, foi feito um novo contato para checar os sentimentos dos mesmos e assim garantir a validade da pesquisa caracterizando também o tipo de assistência prestada aos pacientes da unidade cirúrgica em estudo. 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO 4.1 Participantes do estudo Os entrevistados deste estudo constituíram-se de pacientes na faixa etária de 10 a 80 anos. Em relação ao grau de instrução o 1º grau incompleto sobrepujou os que estavam cursando o 2º grau. As cirurgias a que estes pacientes se submeteram foram: gastrectomia, apendicectomia, laparotomia exploradora, prostatectomia, varicocele e hidrocele. 4.2 Informações recebidas pelos pacientes antes da cirurgia. Quando indagados sobre a cirurgia a que iam se submeter, uns responderam ter conhecimento do nome da cirurgia, mas não sabiam como era realizada. Outros disseram desconhecer totalmente nome e do que se tratava e outros disseram ter uma vaga idéia do nome e do que se tratava, como por exemplo: “Não me falaram nada sobre do que vou operar, estou com medo, pois estou no escuro” “Acho que é varicele” “Me falaram, mas não entendi direito” Diante do exposto pelos pacientes, foi constatado que, se houve orientação quanto as cirurgias a serem realizadas esta foi feita de maneira inadequada, deixando-os com muitas dúvidas. Configurou-se, com isso, que é de fundamental importância o preparo do paciente no pré-operatório, não somente quanto as informações sobre a cirurgia mas, também, quanto aos exames de rotina solicitados pela equipe médica. O período pré-operatório é o momento mais adequado para o relacionamento interpessoal, é quando o enfermeiro deverá aprofundar o preparo emocional do paciente em face de suas ansiedades quanto a cirurgia Rev Bras Enferm 2005 nov-dez; 58(6):673-6. à que irá se submeter. Segundo Ferraz(11), os pacientes devem conhecer sobre sua cirurgia para que aceitem as mudanças, mesmo que sejam temporárias e necessárias, ajustando-se mental e fisicamente. Feldman(12) afirma que o esclarecimento de dúvidas permite ao paciente compreender certas situações e, quem sabe, procurar alternativas que minimizem suas ansiedades. Evidencia que o profissional de Saúde deve ser cauteloso e identificar o nível de ansiedade do paciente, evitando dar informações excessivas, podendo aumentar sua ansiedade. É evidente que uma explicação na fase que antecede a cirurgia sobre os procedimentos que o paciente estará envolvido, possivelmente, diminuirá os sofrimentos por ele sentidos. Ao serem indagados sobre sua recepção na unidade, quanto a identificação da equipe de Saúde e quanto ao preparo para a cirurgia, observou-se mediante os relatos o despreparo da equipe na assistência, inclusive a presença da falsa tranqüilização. Alguns pacientes relataram que não tiveram praticamente nenhuma orientação no período préoperatório e verbalizaram: “A gente entra no hospital, apavorado, com medo de morrer, pois não se sabe nem o que vão fazer com a gente e nem quem cuida da gente.” “Não se recebe uma palavra amiga, de conforto para diminuir aquele medo imenso que se está sentindo.” “Eu não sei quem é a enfermeira e auxiliar de Enfermagem e nem tenho certeza de quem é meu médico, todos entram e saem e não se apresentam” “Uma vez uma moça chegou e me falou que eu ia me operar da apêndice e que era uma cirurgia simples que eu não ficasse com medo, mas se ela é enfermeira, não sei.” De acordo com Oetker-Black(13) e Morita et al(14) a preparação psicológica é vista como benéfica se baseada nas necessidades individuais do paciente, pois na medida em que o paciente se sente esclarecido em suas dúvidas diminuem os temores, prevenindo possíveis complicações no período pós-operatório. Era evidente a necessidade que estes pacientes sentiam de informações. Uma boa comunicação seria a prova de que a qualidade do cuidado com o paciente estava de excelente nível. Segundo Stefanelli(2), a eficácia na comunicação acaba por provocar, a curto ou longo prazo, uma mudança no modo de pensar, sentir ou atuar de uma pessoa, ou seja, toda atividade de enfermagem envolve uma ação interpessoal. É no momento da apresentação que o enfermeiro tem a oportunidade de apresentar os membros da equipe de Enfermagem diferenciando a função de cada um e evidenciando a sua. Durante as entrevistas observou-se que todos os pacientes, conscientes ou não de seus diagnósticos, apresentavam-se ansiosos e interrogativos quanto ao a elaboração de material didático. Os Encontros contribuíram na articulação com outros povos e troca de experiências para manter as escolas resistentes contra o regimento dos brancos. Nós vamos continuar trabalhando como sempre. (Encontro dos professores., 1990, p.10) 36 Cadernos de Pesquisa, nº 111, dezembro/2000 Nesse processo de organização, os encontros anuais representam momentos decisivos. Além de possibilitar articulações culturais e políticas, trocas de experiências e de conhecimentos, favorecem o surgimento de novas concepções de educação escolar indígena que respeitam os conhecimentos, as tradições e os costumes de cada povo. Concomitantemente à valorização e ao fortalecimento da identidade étnica, procuram introduzir conhecimentos necessários para uma melhor relação com a sociedade não índia. A seguir, traço um panorama geral da trajetória histórica do movimento, em seus já 12 anos de existência, reportando-me a cada encontro realizado. Foram produzidos relatórios de todos os 12 encontros. No 1o Encontro, realizado na cidade de Manaus, em 1988, cada grupo relatou a maneira de educar na sua comunidade, com base na questão “Como se aprende a viver?” Problematizaram-se a existência da escola e os seus objetivos, tendo em vista o fato de que a educação sempre existiu, o que se traduziu na indagação: “Se já existia educação na originalidade, para que funciona a escola atual?” As reflexões também se reportaram ao perfil da escola desejada e aos passos para obtê-la. No 2o Encontro, de 1989, foram avaliadas as realizações dos professores para atingir os objetivos em consonância com os princípios estabelecidos com a finalidade de nortear a construção de uma verdadeira escola indígena. Destacaram-se, também, as ações empreendidas para garantir o reconhecimento e a regulamentação das escolas indígenas em nível oficial, pois, como explicitam os professores de Roraima: “o não reconhecimento das escolas indígenas é uma das dificuldades mais graves, no que diz respeito aos trabalhos clandestinos”. Os esforços para se manterem articulados foram considerados importantes para o fortalecimento do movimento e a conquista de seus ideais escolares. Como problemas comuns, destacaram-se a questão das línguas indígenas e a situação complexa de diversidade lingüística presente no movimento. No 3o Encontro, de 1990, avaliaram-se as contribuições dos encontros anteriores e o papel do movimento no encaminhamento e na resolução dos desafios enfrentados pelos professores na prática diária. Foram também discutidas temáticas como: “Currículos”, “Formação dos professores” e “Articulação do movimento”. O 4o Encontro, de 1991, aprofundou a discussão de problemas relativos à elaboração de currículos, e o estudo da legislação relacionada direta ou indiretamente à educação escolar indígena. Houve também discussão sobre a articulação do movimento dos professores com as diversas organizações indígenas (de cará- Cadernos de Pesquisa, nº 111, dezembro/2000 37 ter mais amplo, como a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira – Coiab –; e outros movimentos específicos, como o de agentes de saúde indígena e de mulheres). Realizou-se ainda um trabalho inédito com base na metodologia dos “temas geradores”, ocasião em que os professores puderam vivenciar um profundo exercício de interculturalidade, confrontando os diversos saberes dos povos indígenas presentes no encontro. Um dos momentos mais significativos foi a discussão e aprovação de uma “Declaração de Princípios” sobre a educação escolar indígena, que se tornou, desde a ocasião, o principal documento do movimento, de caráter articulador e reivindicatório. O 5o Encontro, de 1992, realizado na cidade de Boa Vista, em Roraima, centrou a atenção nos currículos, no regimento, na metodologia do tema gerador no contexto da diversidade cultural, na legislação/política governamental, nas propostas para o novo Estatuto do Índio, no Comitê Assessor do MEC e, ainda, na articulação e na continuidade do processo. Nessa ocasião o Estado do Acre passou a integrar também o movimento. No 6o Encontro, de 1993, realizado pela segunda vez na cidade de Boa Vista, discutiu-se sobre as “Culturas diversificadas”, o que demonstra a vontade de aproveitar os momentos de reunião não só para se conhecer mas também para conhecer a história e a cultura dos demais povos indígenas presentes. Esse tema, por sua vez, gerou a discussão de vários subtemas: organização social e política; origens; rituais; trabalho, economia e produção; educação tradicional. O 7o Encontro, de 1994, focalizou, além da temática “Medicina tradicional”, vários outros assuntos, tais como a avaliação da história do movimento; diagnóstico e avaliação da situação atual dos currículos e regimentos; política educacional oficial (governamental) e interna (indígena). No 8o Encontro, de 1995, discutiram-se as “Escolas indígenas e projetos de futuro” (relação entre escola e economia) com base na “Declaração de princípios”. Elaborou-se também um detalhado diagnóstico da realidade e dos problemas enfrentados pelas escolas indígenas da região, bem como procurou-se identificar as metas a serem alcançadas, dependentes do poder externo (União, estados e municípios), e as que estavam prioritariamente nas mãos do próprio movimento, ou seja, as que dependem da articulação e do trabalho interno. Foi também retomada uma questão fundamental, discutida no 1o Encontro: “Para que escola?” O 9o Encontro, de 1996, realizado pela primeira vez em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, elegeu como tema “Escolas indígenas e projetos de futuro”. Na ocasião foram aprofundadas discussões do encontro anterior, a partir da constatação de que as escolas tanto podem ajudar a construir o futuro, como 38 Cadernos de Pesquisa, nº 111, dezembro/2000 podem destruí-lo. Foi também debatida a problemática da saída dos jovens das aldeias, por falta de alternativas internas. O 10o Encontro, de 1997, realizado em clima de festa, em comemoração aos dez anos, teve como tema “Avaliando o passado é que se constrói o futuro”. Num grande esforço coletivo, os participantes efetuaram profunda avaliação dos avanços alcançados e dos problemas e dificuldades que permanecem no tocante à situação das escolas indígenas nas regiões englobadas pelo movimento. Também se discutiu a continuidade do movimento, com base na temática “Pensando as perspectivas futuras”. No 11o Encontro, de 1998, além de serem abordados inúmeros temas – “A educação indígena e suas alternativas rumo ao ano 2000”; “Amazônia: políticas de ocupação e desenvolvimento”; “Educação indígena na trilha do futuro”; “As organizações indígenas frente aos projetos de ocupação da Amazônia”; “Educação indígena e desafios atuais” –, foi desenvolvido um trabalho sobre a proposta de estruturação da COPIAR, suas ações e maneira de se organizar. Decidiu-se também que essa discussão deveria ser aprofundada nas diferentes regiões, durante o período posterior ao encontro, e retomada no 12o Encontro, de 1999. O 12o Encontro, de 1999, realizado novamente na cidade de Manaus, escolheu como tema “A educação indígena nas trilhas do futuro: o Brasil que a gente quer são outros 500”. Na ocasião, foram analisados a situação da educação escolar nas regiões e os avanços e impasses na construção de escolas indígenas. Foram também relatadas experiências indígenas na gestão da educação, atividade que contou com a contribuição do professor Gersem dos Santos Luciano, do povo Baniwa, na época secretário municipal de educação de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, e do professor Bento Macuxi, coordenador da DEI, de Roraima. A opção pela “oficialização”: riscos e desafios de um novo momento A dinâmica dos encontros tem priorizado, ao longo desses 12 anos, o intercâmbio das variadas experiências de como “fazer escolas indígenas”, fortalecendo o movimento como formulador de políticas e princípios próprios para a educação escolar. Também a troca de informações acerca do debate nacional quanto ao direito dos povos indígenas a “escolas diferenciadas”, inclusive prevista na legislação oficial, tem merecido constantes reflexões, como foi o caso da discussão sobre Resolução elaborada pelo Conselho Nacional de Educação, que cria e normatiza a categoria “escolas indígenas”. No final do último encontro, em 1999, decidiu-se, com o objetivo de aprimorar o instrumental de organização do movimento – seu Cadernos de Pesquisa, nº 111, dezembro/2000 39 poder de articulação e proposição –, transformar a Copiar em Conselho de Professores Indígenas da Amazônia – Copiam. Para tanto, as diversas regiões assumiram tarefas concretas, entre as quais a elaboração de uma proposta de estatuto, discutida no 13o Encontro Anual, em Manaus, em agosto de 2000. Esse encontro teve o formato de Assembléia Geral do Copiam, ocasião em que foi abordado o tema “A educação indígena diferenciada é a trilha do novo milênio”. Com uma pauta predominantemente ligada às segmentos da comunidade e da escola era reduzida, em virtude da falta de informações e/ou das injunções decorrentes das relações de poder que inibem o posicionamento autônomo desses atores. A pesquisa mostrou também que o PAR não tem conseguido envolver as diferentes secretarias administrativas nos âmbitos nacional, estadual e municipal, tampouco tem garantido a participação dos diferentes atores sociais no ato de planejar, visto que esse plano tem se restringido às secretarias de educação e, por vezes, a um único setor ou a uma única pessoa da secretaria, formando-se “comitês de gabinete”, o que tira do plano seu caráter participativo. Além disso, percebeu-se que a possibilidade de financiamento de programas e projetos ganha lugar de destaque no PAR, o que dá a este um caráter, acima de tudo, de captação de recursos financeiros. O impacto dessa visão no interior dos sistemas pode ser observado quando o PAR não se configura de fato como um instrumento de planejamento dos sistemas educativos, mas 620 CADERNOS DE PESQUISA v.44 n.153 p.602-623 jul./set. 2014 Eliza Bartolozzi Ferreirra como um “programa do MEC” executado de forma paralela às diversas ações políticas e pedagógicas das secretarias. Como agravante, a análise dos dados coletados da pesquisa revela um distanciamento do MEC de sua tarefa inicial: assistir os sistemas com apoio técnico e financeiro de forma mais efetiva. Observou-se que a ação do MEC caracteriza-se por um apoio relativo aos municípios, pois a assistência técnica e financeira é limitada, o que deixa entrever que é precária a pretendida ação de colaboração. Geralmente, os sistemas municipais executam isoladamente o PAR, contando com a assistência técnica da Undime e da Secretaria de Estado da Educação. Por outro lado, pode-se observar também avanços em relação ao compartilhamento de ideias e assistência entre os municípios de pequeno porte, que, ao encontrarem dificuldades na compreensão da feitura do PAR, buscam auxílio entre si e praticam, desse modo, uma forma de colaboração técnica. Assim, é possível afirmar que a aplicação do PAR nos municípios trouxe uma nova estratégia de ação de planejamento até então não vivenciada pelo sistema. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este texto traz uma descrição analítica sucinta de parte dos dados encontrados na pesquisa “Gestão das políticas educacionais no Brasil e seus mecanismos de centralização e descentralização: o desafio do Plano de Ações Articuladas (PAR)”. Essa investigação revelou dificuldades de execução do PAR no contexto de secretarias de educação de municípios de pequeno e médio porte localizados nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do país. As dificuldades encontradas no PAR podem ser compreendidas como consequência de seu curto tempo de implantação, já que a avaliação de uma política pública exige um distanciamento histórico maior. Em concordância com essa visão, cabe destacar que esses primeiros diagnósticos sobre o PAR podem servir de correção da trajetória atual e talvez possam promover formas de empoderamento dos municípios, capacitando-os à formação de profissionais com competências de gestão pública de caráter político/emancipatório. Todavia, não somente a formação das competências dos trabalhadores locais é suficiente para a execução do PAR. Os dados mostram que é necessário reformular a organização do trabalho do MEC e do FNDE, mas o Compromisso também deve estar vinculado ao planejamento econômico, social, cultural e político como um todo do país como base para as mudanças das estruturas que fundam os alicerces da nação brasileira. Não obstante as dificuldades apontadas, deve-se reconhecer que o PAR é um instrumento inovador de planejamento e tem possibilidades, em um tempo mais longo e com condições mais bem estruturadas, de ajudar no equilíbrio federativo entre os sistemas educativos. Os CADERNOS DE PESQUISA v.44 n.153 p.602-623 jul./set. 2014 621 FEDERALISMO E PLANEJAMENTO EDUCACIONAL NO EXERCÍCIO DO PAR dados revelam a existência de indicativos que permitem verificar práticas de articulação entre municípios, estados e União, mesmo que ainda simples. Embora não discutido neste texto, entende-se que os avanços somente poderão ocorrer quando da revisão da política fiscal empregada atualmente no Brasil. Por fim, falta destacar que o conceito de qualidade almejado na educação – de forma ainda que pragmática porque ciente dos marcos históricos em que nos encontramos – pressupõe a constituição de um projeto nacional compartilhado pelas diferentes classes sociais, com o compromisso de reduzir todo tipo de desigualdades. Dessa forma, princípios de justiça social devem ser debatidos entre os segmentos sociais de modo a encontrar consensos que se traduzam em maior igualdade e liberdade humana. Talvez esse seja o primeiro passo para o exercício de um planejamento educacional que articule e integre todos os entes federativos para a construção de uma escola ética e política que impulsione a formação humana para uma conscientização da necessária emancipação das amarras prático-utilitárias da sociedade capitalista global. REFERÊNCIAS ARRETCHE, Marta T. S. Estado federativo e políticas sociais: determinantes da descentralização. São Paulo: Fapesp, 2000. BRASIL. Ministério da Educação. Decreto n. 6.094, de 24 de abril de 2007. Dispõe sobre a implementação do Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação, pela União Federal, em regime de colaboração com Municípios, Distrito Federal e Estados, e a participação das famílias. Brasília, DF: MEC, 2007a. ______. Lei n. 11.494, de 20 de junho de 2007. Regulamenta o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação - Fundeb, de que trata o art. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias; altera a Lei no 10.195, de 14 de fevereiro de 2001; revoga dispositivos das Leis nos 9.424, de 24 de dezembro de 1996, 10.880, de 9 de junho de 2004, e 10.845, de 5 de março de 2004; e dá outras providências. Brasília, DF: MEC, 2007b. ______. Resolução n. 029, de 20 de junho de 2007. Estabelece os critérios, os parâmetros e os procedimentos para a operacionalização da assistência financeira suplementar a projetos educacionais, no âmbito do Compromisso Todos pela Educação, Brasília, DF: MEC/FNDE, 2007c. ______. Plano de Desenvolvimento da Educação: razões, princípios e programas. Brasília, DF: MEC, 2007d. ______. Resolução n. 047. Altera a Resolução CD/FNDE n. 29, de 20 de julho de 2007, que estabelece os critérios, os parâmetros e os procedimentos para a operacionalização da assistência financeira suplementar e voluntária a projetos educacionais, no âmbito do Compromisso Todos pela Educação. Brasília, DF: MEC/FNDE, 2007e. ______. Guia de programas que constam no PAR - documento complementar ao Guia Prático de Ações. Brasília, DF: MEC, 2009. ______. Documento Técnico contendo o histórico acerca da criação e implementação do Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação e as perspectivas de continuidade. Brasília, DF: MEC, 2010. Técnica Fabiane Robl. ______. Plano de Ações Articuladas - PAR 2011-2014. Guia Prático de Ações para os Municípios. MEC, 2011a. ______. Questões importantes sobre o preenchimento do PAR municipal 2011 – 2014. 4ª versão. Brasília, DF: MEC, 2011b. 622 CADERNOS DE PESQUISA v.44 n.153 p.602-623 jul./set. 2014 Eliza Bartolozzi Ferreirra DINIZ, Eli. Globalização, reformas econômicas e elites empresariais. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004. FERREIRA, Eliza B.; FONSECA, Marília. O planejamento das políticas educativas no Brasil e seus desafios atuais. Revista Perspectiva, Florianópolis, v. 29, n. 1, p. 69-96, 2011. MARTINS, Paulo S. O financiamento da educação básica por meio de fundos contábeis: estratégia política para a equidade, a autonomia e o regime de colaboração entre os entes federados. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Brasília, Brasília. 2009. ______. Fundeb, federalismo e regime de colaboração. Campinas: Autores Associados/UnB, 2013. RATTNER, Henrique. 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