Escolas públicas em São Paulo (1960-1972)

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Universidade de São Paulo | Faculdade de Arquitetura e Urbanismo CARLOS AUGUSTO FERRATA Escolas públicas em São Paulo (1960-1972) Volume 01 São Paulo 2008 CARLOS AUGUSTO FERRATA Escolas públicas em São Paulo (1960-1972) Orientador: Profa. Dra. Anália Maria Marinho de Carvalho Amorim Dissertação de Mestrado Universidade de São Paulo Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Área de Concentração: Projeto de Arquitetura Volume 01 São Paulo 2008 Dedico esse trabalho à Luana. Agradecimentos Aos meus pais e família, pelo apoio permanente. Ao Álvaro Puntoni, mestre inconteste. A Anália Amorim, pela delicadeza com que conduziu a orientação. Ao César Shundi, pelas conversas maravilhosas. A Patrícia Grimaldi, pela ajuda. A Helena Ayoub Silva. A Avany Ferreira e Mirela Mello e todos da FDE que contribuíram durante o processo. A Marta Moreira. Ao Antonio Carlos Barossi. Aos arquitetos Paulo Mendes da Rocha, Ubyrajara Gilioli, Paulo Bastos e Décio Tozzi pelas entrevistas. A Dulcinéia pela gentileza. A Giana Viscardi e Michael Ruzitschka, meus músicos prediletos. Ao Anderson Freitas, Cássia Buitoni, Eduardo Ferroni, Moracy Amaral e Pablo Hereñu pelas dicas. A professora Giselda e a todos os diretores e diretoras das escolas visitadas. A todos os meus colegas professores, alunos e alunas sem os quais esse trabalho não seria possível. E inalmente à Luana pela dedicação e paciência. Resumo Esse trabalho é um catálogo de onze escolas públicas projetadas no estado de São Paulo num período que se estende por pouco mais de uma década, de 1960 a 1972. Reúne projetos emblemáticos da arquitetura moderna paulistana, de autoria de Paulo Mendes da Rocha, Ubyrajara Gilioli, Paulos Bastos, Décio Tozzi, entre outros. A leitura dos projetos selecionados permite reconhecer suas raízes históricas e arquitetônicas no surgimento da escola republicana, nas conquistas pedagógicas “escolanovistas”, nas escolas projetadas por Afonso Eduardo Reidy e Oscar Niemeyer, nas obras da Comissão Executiva do Convênio Escolar e, inalmente, na obra precursora do arquiteto João Batista Vilanova Artigas. Abstract This thesis is an analysis of eleven public schools which were projected in the state of São Paulo within a period of little more than ten years from 1960 to 1972. It gathers emblematic projects of the modern architecture of São Paulo with works by Paulo Mendes da Rocha, Ubyrajara Gilioli, Paulos Bastos and Décio Tozzi among others. A comprehensive study of these selected projects allows for an understanding of how they are historically and architectonically rooted in the emergence of public schools during the republic, in the pedagogic accomplishments of the movement of the “Escola Nova” (New School) , in the schools which were planned and executed by Afonso Eduardo Reidy and Oscar Niemeyer, in the projects of the “Comissão Executiva do Convênio Escolar” (a council which was established as a collaboration between state and community authorities) , and inally, in the pioneering works of the architect João Batista Vilanova Artigas. Sumário Introdução 1 Capítulo 1: Antecedentes Arquitetônicos. 3 1.1. Da Escola Republicana a Anísio Teixeira - A Transformação da Escola no Brasil. 4 1.2. Alguns Exemplos 11 1.2.1. Afonso Eduardo Reidy: Escola Infantil de Pedregulho, Rio de Janeiro, 1946 11 Escola Brasil Praguai, Assunção, 1952 16 1.2.2. Oscar Niemeyer: Escola para Meninos, Cataguases, 1946 23 Escola Júlia Kubitscheck, Diamantina, 1951 25 Capítulo 2: O Caso de São Paulo. 28 2.1. A Produção da Comissão Executiva do Convênio Escolar - 1949 a 1954. 29 2.2. IPESP e FECE e o Plano de Ação do Governo Carvalho Pinto (1959-1963) 39 2.3. A obra precursora de Vilanova Artigas: Ginásios de Itanhaém (1959), Guarulhos (1960) e Utinga (1961). 42 Capítulo 3: As Escolas. 57 3.1. EE Prof. Antônio Vilela Júnior, 1960 58 3.2. EE Profa. Suely Antunes de Mello, 1961 69 3.3. EE Prof. Ramiro Gonzáles Fernandes, 1962 79 3.4. EE Goferdo Teixeira da Silva Telles, 1967 91 3.5. EE Presidente Roosevelt, 1968 99 3.6. EMEB Aluísio de Azevedo, 1972 114 3.7. EE Profa. Luiza Collaço Queiroz Fonseca, 1966 122 3.8.EE Prof. Fausto Cardoso Figueira de Mello, 1968 134 3.9. EE D. José de Camargo Barros, 1969 150 3.10. EMEB Mário Martins Almeida, 1966 159 3.11. EE Prof. Euclides Deslandes, 1967. 169 Considerações Finais 180 Crédito das Imagens 182 Bibliograia 185 “Em cada fase da luta pela educação nacional, constróem-se escolas cuja arquitetura relete talvez melhor do que qualquer outra categoria de edifícios, as passagens mais empolgantes de nossa cultura artística; os recursos técnicos que tivemos a disposição; as idéias culturais e estéticas dominantes; tudo condicionado a um projeto nacional de desenvolvimento. Conhecendo essas passagens pode, a arquitetura brasileira, não só valorizar corretamente os sucessos dos pontos nodais de sua história, como escolher caminhos novos”. ARTIGAS (1970) Introdução O projeto de pesquisa original para esta Dissertação de Mestrado, elaborado em 2004, tinha como objetivo conceber um catálogo das escolas do IPESP (Instituto de Previdência do Estado de São Paulo) e do FECE (Fundo Estadual de Construções Escolares), realizadas durante a vigência do Plano de Ação do governo Carvalho Pinto (1959 a 1963)1. A intenção desse apanhado era trazer a público importante acervo de ediicações escolares projetadas e construídas no Estado de São Paulo, em curto espaço de tempo, contando com arquitetos (muitos deles recémformados) de fora do quadro do funcionalismo público, numa iniciativa pioneira até então. Para tanto, organizaria essas escolas por grupo de arquitetos e as redesenharia à luz dos projetos executivos originais. Entretanto, em meados de 2006, para nossa surpresa, o livro Arquitetura Escolar Paulista: anos 1950 e 19602 foi publicado, trazendo à tona a maior parte desse acervo. Dessa feita, revisamos o projeto original estabelecendo um recorte mais especíico. Selecionamos onze escolas - todas públicas, não necessariamente projetadas para o Governo do Estado - que entendemos serem obras emblemáticas da produção do período compreendido entre 1960 e 1972. Os edifícios eleitos representam um modo peculiar e contundente de pensar a escola como equipamento público na cidade. Neles estão implícitas as conquistas adquiridas ao longo do processo histórico de enfrentamento da questão do desenho do edifício escolar no país e mais especiicamente em São Paulo, suas implicações sociais, éticas e estéticas. O objetivo dessa pesquisa é contribuir para o processo de relexão sobre as propostas colocadas por esses projetos, entendendo que o conhecimento dessa importante passagem da história da construção escolar em São Paulo permite não só valorizar os aspectos essenciais dessa produção como vislumbrar novos caminhos para a construção da obra pública e para o papel social do arquiteto no país. O trabalho foi dividido em três capítulos. O primeiro, intitulado “Antecedentes Arquitetônicos”, é um breve 1 Plano de Ação do Governo do Estado durantre a gestão do Governador Carlos Alberto Alves de Carvalho Pinto, que envolvia uma alteração de vários setores da administração estadual. No que tange às políticas para a educação, criou o FECE (Fundo Estadual de Construções Escolares), órgão responsável pelo custeio e planejamento da expansão da rede escolar do Estado de São Paulo. 2 FERREIRA, Avany de Francisco; MELLO, Mirela Geiger de (organizadoras). Arquitetura Escolar Paulista: anos 1950 e 1960. FDE (Fundação para o Desenvolvimento da Educação),São Paulo, 2006. ESCOLAS PÚBLICAS EM SÃO PAULO (1960-1972) 1 panorama sobre a escola no Brasil, suas origens, importância histórica e simbólica. Destaca a escola republicana e, principalmente, as escolas modernas paradigmáticas produzidas por dois dos maiores arquitetos brasileiros, Afonso Eduardo Reidy e Oscar Niemeyer, projetadas à luz das conquistas pedagógicas do Movimento da Escola Nova, que teve o educador Anísio Teixeira como um dos maiores expoentes. O segundo capítulo trata do caso especíico da arquitetura escolar de São Paulo e foi subdividido em três partes. A primeira delas aborda a produção de uma equipe de arquitetos, funcionários públicos, cheiados por Hélio Duarte, cujas obras revolucionaram o quadro da arquitetura paulistana ao aliar as conquistas da arquitetura moderna brasileira aos avanços obtidos no plano da educação. A segunda parte do capítulo é um breve panorama histórico das circunstâncias político-institucionais em que as escolas foram realizadas. Em seguida relacionamos três escolas desenhadas por Vilanova Artigas que, em nosso entendimento, inauguraram o processo de renovação do edifício escolar no estado de São Paulo. O terceiro e último capítulo, “As Escolas”, trata especiicamente das onze obras selecionadas. Traz desenhos feitos a partir dos projetos executivos originais3, imagens fotográicas e leitura dos projetos. Seus autores são os arquitetos Paulo Mendes da Rocha (EE Prof. Antônio Vilela Júnior, 1960; EE Profa. Suely Antunes de Mello, 1961; EE Prof. Ramiro Gonzáles Fernandes, 1962; EE Goferdo Teixeira da Silva Telles, 1967; EE Presidente Roosevelt, 1968; EMEB Aluísio de Azevedo, 1972), Ubyrajara Gilioli (EE Profa. Luiza Collaço Queiroz Fonseca, 1966; EE Prof. Fausto Cardoso Figueira de Mello, 1968; EE D. José de Camargo Barros, 1969), Paulo Bastos (EMEB Mário Martins Almeida, 1966) e Décio Tozzi (EE Prof. Euclides Deslandes, 1967). Para inalizar, o trabalho conta com um volume anexo que contém a reprodução dos projetos executivos originais das escolas relacionadas, impressos no formato do papel A4, com o intuito de enriquecer a leitura das obras e contribuir para a constituição de importante acervo de escolas públicas em São Paulo. 3 Das obras relacionadas apenas duas não foram redesenhadas à luz dos projetos originais, que não foram encontrados. ESCOLAS PÚBLICAS EM SÃO PAULO (1960-1972) 2 Capítulo 01: Antecedentes Arquitetônicos ESCOLAS PÚBLICAS EM SÃO PAULO (1960-1972) 3 1.1. Da Escola Republicana a Anísio Teixeira - A Transformação da Escola no Brasil Em seu célebre Raízes do Brasil1, Sérgio Buarque de Hollanda discute a diferença entre as ocupações espanhola e portuguesa na América, ressaltando na primeira a importância do traçado urbano ordenador e das obras dele decorrentes: “A construção da cidade começaria sempre pela chamada praça maior. Quando em costa de mar essa praça icaria no lugar do desembarque do porto; quando em zona mediterrânea, ao centro da povoação. Assim, a povoação partia nitidamente de um centro; a praça maior representa aqui o mesmo papel do cardo e do decumanos nas cidades romanas – as duas linhas traçadas pelo lituus do fundador, de norte a sul e de leste a oeste, que serviam como referência para o plano futuro da rede urbana. Mas, ao passo que nestas o agrupamento ordenado pretende apenas reproduzir na terra a própria ordem cósmica, no plano das cidades hispano-americanas, o que se exprime é a idéia de que o homem pode intervir arbitrariamente, e com sucesso, no curso das coisas e de que a história não somente acontece, mas também pode ser dirigida e até fabricada”.2 Por outro lado, a idéia de construção da própria história por meio de uma ordenação abstrata, de uma intenção prévia de ocupação, de um projeto, não igurava nas intenções originais da coroa Portuguesa durante a ocupação de sua porção de território americano. De acordo com Sérgio Buarque de Hollanda, isso se insere dentro do espírito usurário dessa ocupação. Não interessava, portanto, aos portugueses constituir cidades nem tampouco os equipamentos dela decorrentes. Disso resultou a primazia da vida rural em relação à urbana durante mais de três séculos de ocupação portuguesa no Brasil: “Essa primazia acentuada da vida rural concorda bem com o espírito da dominação portuguesa, que renunciou a trazer normas imperativas e absolutas, que cedeu todas as vezes em que as conveniências imediatas aconselharam a ceder, que cuidou menos em construir, planejar ou plantar alicerces, do que em feitorizar uma riqueza fácil e quase ao alcance da mão”.3 Os espanhóis, por sua vez, pensavam de maneira distinta a ordenação do território e a construção das obras representativas das colônias; a construção das escolas de ensino superior, nesse sentido, reletiu sua intenção urbanizadora: 1 2 3 HOLLANDA, Sérgio Buarque de. 2005. São Paulo, Companhia das Letras. Idem p. 97-98. Idem. p. 95. ESCOLAS PÚBLICAS EM SÃO PAULO (1960-1972) 4 “O afã de fazer novas terras mais do que simples feitorias comerciais levou os castelhanos, algumas vezes, a começar pela cúpula a construção do edifício colonial. Já em 1538, cria-se a Universidade de São Domingos. A de São Marcos, em Lima, com os privilégios, isenções e limitações da de Salamanca, é fundada por célula real de 1551, vintes anos apenas depois de iniciada a conquista do Peru por Francisco Pizarro. Também de 1551 é a da Cidade do México, que em 1553 inaugura seus cursos”.4 Em contrapartida, no Brasil, as primeiras instalações de ensino superior datam de 1827 (cursos de Direito em São Paulo e Olinda) e a instituição escolar é um fenômeno ainda mais recente, foi implantada só a partir da República. Em São Paulo a escola nasceu na Praça da República, em substituição ao edifício da Igreja. “ [.] Em 1894 era construída a Escola Normal de São Paulo, centro de preparação de professores, hoje Instituto de Educação Caetano de Campos [.] O prédio da Escola Normal de São Paulo conservou-se tal qual era inicialmente até 1940. Magníico edifício implantado em vasta área verde, simboliza bem o ímpeto renovador que caracterizou os primeiros anos republicanos. A Escola e o Relógio como que se transformaram em símbolos do ardoroso ideário republicano aparecendo nas escolas mais novas em substituição da Igreja e do Cruzeiro”.5 A cidade modiicava-se, passava a ter um caráter nitidamente urbano, resultado direto do desenvolvimento industrial e conseqüente aumento populacional. Foi nesse contexto histórico que o Estado passou a organizar a educação do país. “[.] a escola é conseqüência da vida urbana – equipamento da cidade industrial”6, resume Artigas. MARCÍLIO (2005) assim descreve o nascimento de um sistema público de ensino em São Paulo: “Com o empenho e determinação dos intelectuais do primeiro momento da República, São Paulo realizou a sua primeira Reforma paulista da Instrução Pública, em 1892, criando um primeiro e aperfeiçoado sistema escolar, que ia do ensino primário e secundário à Escola Normal e ao superior, incluindo a criação do jardim-de-infância e do Ginásio de Estado. Foi organizada a primeira rede de ensino público estruturada e articulada no sentido vertical. Ela tornou-se o paradigma para todo o país”. 7 A Escola Normal de São Paulo, de 1884, batizada depois de Instituto de Educação Caetano de Campos em homenagem a seu primeiro diretor, é exemplar desse momento histórico. Este edifício ocupava extensa área 4 5 6 7 137-138. HOLLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 2005. São Paulo, Companhia das Letras, p. 98. ARTIGAS, João Batista Vilanova. Sobre escolas. In: Acrópole nº 377. São Paulo, setembro de 1970, p. 11. Idem p.10. MARCÍLIO, Maria Luiza. História da Escola em São Paulo e no Brasil. São Paulo, Imprensa Oicial do Estado de São Paulo: Instituto Barudel, 2005, p. ESCOLAS PÚBLICAS EM SÃO PAULO (1960-1972) 5 e era dividido em dois corpos, o da Escola Normal e o do Jardim da Infância (anos mais tarde demolido para a passagem de uma avenida). O projeto que foi concebido originalmente por Antonio Francisco de Paula Souza e depois desenvolvido pelo escritório do arquiteto Ramos de Azevedo, possuía planta em forma de “U”, simétrica, e continha basicamente salas de aula (em duas alas, a masculina e a feminina) organizadas em dois pavimentos8. Podemos reconhecer então no projeto o WOLFF (1992) destaca como o caráter monumental assumido pela arquitetura escolar pública de então: “A arquitetura escolar pública nasceu imbuída do papel de propagar a ação de governos pela educação democrática. Como prédio público, devia divulgar a imagem de estabilidade e nobreza das administrações [.] Um dos atributos que resultam desta busca é a monumentalidade, consequência de serem as escolas públicas, edifícios muito evidentes, facilmente percebidos e identiicados como espaços da esfera governamental”.9 Caetano de Campos. Ramos de Azevedo, 1884. ARTIGAS (1970) destaca como os modelos arquitetônicos adotados para as escolas públicas republicanas datadas até 1911 reletiam uma certa ideologia conservadora de educação: “As estruturas pouco tinham que ver com a forma com que se revestiam. Constituíam uma solução tectônica, pura em sua rudeza, destinada a programas humildes que retratavam os conceitos dominantes sobre ensino. Estruturas para aceitar qualquer forma que o enciclopedismo pedisse como manifestação artística. Aparências que se justiicavam por si mesmas, nem impostas pela estrutura tectônica nem procura de uma forma para o universo brasileiro. Quanto ao programa, tudo era ensino[.] A Plantas de situação antes e depois da avenida. escola desconhecia qualquer ampliação de seu signiicado social além de ensinar primeiras letras e taboada. Só muito mais tarde esses programas foram enriquecidos”.10 Talvez residam na observação feita acima os pressupostos que irão, anos depois, nortear a produção de edifícios escolares de sua autoria: a importância da escola como edifício simbólico, representativo da vida social urbana, como equipamento público da cidade industrial nascente, em evidente oposição à vida rural; a relação da construção com o programa vigente, com as conquistas pedagógicas e a importância dada à estrutura tectônica simples, desprovida das formas neoclássicas que a revestiam na época da escola republicana. 8 Em 1940 a Escola modiicou-se. Sobre ela acrescentou-se mais um pavimento. Houve um incremento no programa original com auditório, a elaboração de material didático. Os Encontros contribuíram na articulação com outros povos e troca de experiências para manter as escolas resistentes contra o regimento dos brancos. Nós vamos continuar trabalhando como sempre. (Encontro dos professores., 1990, p.10) 36 Cadernos de Pesquisa, nº 111, dezembro/2000 Nesse processo de organização, os encontros anuais representam momentos decisivos. Além de possibilitar articulações culturais e políticas, trocas de experiências e de conhecimentos, favorecem o surgimento de novas concepções de educação escolar indígena que respeitam os conhecimentos, as tradições e os costumes de cada povo. Concomitantemente à valorização e ao fortalecimento da identidade étnica, procuram introduzir conhecimentos necessários para uma melhor relação com a sociedade não índia. A seguir, traço um panorama geral da trajetória histórica do movimento, em seus já 12 anos de existência, reportando-me a cada encontro realizado. Foram produzidos relatórios de todos os 12 encontros. No 1o Encontro, realizado na cidade de Manaus, em 1988, cada grupo relatou a maneira de educar na sua comunidade, com base na questão “Como se aprende a viver?” Problematizaram-se a existência da escola e os seus objetivos, tendo em vista o fato de que a educação sempre existiu, o que se traduziu na indagação: “Se já existia educação na originalidade, para que funciona a escola atual?” As reflexões também se reportaram ao perfil da escola desejada e aos passos para obtê-la. No 2o Encontro, de 1989, foram avaliadas as realizações dos professores para atingir os objetivos em consonância com os princípios estabelecidos com a finalidade de nortear a construção de uma verdadeira escola indígena. Destacaram-se, também, as ações empreendidas para garantir o reconhecimento e a regulamentação das escolas indígenas em nível oficial, pois, como explicitam os professores de Roraima: “o não reconhecimento das escolas indígenas é uma das dificuldades mais graves, no que diz respeito aos trabalhos clandestinos”. Os esforços para se manterem articulados foram considerados importantes para o fortalecimento do movimento e a conquista de seus ideais escolares. Como problemas comuns, destacaram-se a questão das línguas indígenas e a situação complexa de diversidade lingüística presente no movimento. No 3o Encontro, de 1990, avaliaram-se as contribuições dos encontros anteriores e o papel do movimento no encaminhamento e na resolução dos desafios enfrentados pelos professores na prática diária. Foram também discutidas temáticas como: “Currículos”, “Formação dos professores” e “Articulação do movimento”. O 4o Encontro, de 1991, aprofundou a discussão de problemas relativos à elaboração de currículos, e o estudo da legislação relacionada direta ou indiretamente à educação escolar indígena. Houve também discussão sobre a articulação do movimento dos professores com as diversas organizações indígenas (de cará- Cadernos de Pesquisa, nº 111, dezembro/2000 37 ter mais amplo, como a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira – Coiab –; e outros movimentos específicos, como o de agentes de saúde indígena e de mulheres). Realizou-se ainda um trabalho inédito com base na metodologia dos “temas geradores”, ocasião em que os professores puderam vivenciar um profundo exercício de interculturalidade, confrontando os diversos saberes dos povos indígenas presentes no encontro. Um dos momentos mais significativos foi a discussão e aprovação de uma “Declaração de Princípios” sobre a educação escolar indígena, que se tornou, desde a ocasião, o principal documento do movimento, de caráter articulador e reivindicatório. O 5o Encontro, de 1992, realizado na cidade de Boa Vista, em Roraima, centrou a atenção nos currículos, no regimento, na metodologia do tema gerador no contexto da diversidade cultural, na legislação/política governamental, nas propostas para o novo Estatuto do Índio, no Comitê Assessor do MEC e, ainda, na articulação e na continuidade do processo. Nessa ocasião o Estado do Acre passou a integrar também o movimento. No 6o Encontro, de 1993, realizado pela segunda vez na cidade de Boa Vista, discutiu-se sobre as “Culturas diversificadas”, o que demonstra a vontade de aproveitar os momentos de reunião não só para se conhecer mas também para conhecer a história e a cultura dos demais povos indígenas presentes. Esse tema, por sua vez, gerou a discussão de vários subtemas: organização social e política; origens; rituais; trabalho, economia e produção; educação tradicional. O 7o Encontro, de 1994, focalizou, além da temática “Medicina tradicional”, vários outros assuntos, tais como a avaliação da história do movimento; diagnóstico e avaliação da situação atual dos currículos e regimentos; política educacional oficial (governamental) e interna (indígena). No 8o Encontro, de 1995, discutiram-se as “Escolas indígenas e projetos de futuro” (relação entre escola e economia) com base na “Declaração de princípios”. Elaborou-se também um detalhado diagnóstico da realidade e dos problemas enfrentados pelas escolas indígenas da região, bem como procurou-se identificar as metas a serem alcançadas, dependentes do poder externo (União, estados e municípios), e as que estavam prioritariamente nas mãos do próprio movimento, ou seja, as que dependem da articulação e do trabalho interno. Foi também retomada uma questão fundamental, discutida no 1o Encontro: “Para que escola?” O 9o Encontro, de 1996, realizado pela primeira vez em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, elegeu como tema “Escolas indígenas e projetos de futuro”. Na ocasião foram aprofundadas discussões do encontro anterior, a partir da constatação de que as escolas tanto podem ajudar a construir o futuro, como 38 Cadernos de Pesquisa, nº 111, dezembro/2000 podem destruí-lo. Foi também debatida a problemática da saída dos jovens das aldeias, por falta de alternativas internas. O 10o Encontro, de 1997, realizado em clima de festa, em comemoração aos dez anos, teve como tema “Avaliando o passado é que se constrói o futuro”. Num grande esforço coletivo, os participantes efetuaram profunda avaliação dos avanços alcançados e dos problemas e dificuldades que permanecem no tocante à situação das escolas indígenas nas regiões englobadas pelo movimento. Também se discutiu a continuidade do movimento, com base na temática “Pensando as perspectivas futuras”. No 11o Encontro, de 1998, além de serem abordados inúmeros temas – “A educação indígena e suas alternativas rumo ao ano 2000”; “Amazônia: políticas de ocupação e desenvolvimento”; “Educação indígena na trilha do futuro”; “As organizações indígenas frente aos projetos de ocupação da Amazônia”; “Educação indígena e desafios atuais” –, foi desenvolvido um trabalho sobre a proposta de estruturação da COPIAR, suas ações e maneira de se organizar. Decidiu-se também que essa discussão deveria ser aprofundada nas diferentes regiões, durante o período posterior ao encontro, e retomada no 12o Encontro, de 1999. O 12o Encontro, de 1999, realizado novamente na cidade de Manaus, escolheu como tema “A educação indígena nas trilhas do futuro: o Brasil que a gente quer são outros 500”. Na ocasião, foram analisados a situação da educação escolar nas regiões e os avanços e impasses na construção de escolas indígenas. Foram também relatadas experiências indígenas na gestão da educação, atividade que contou com a contribuição do professor Gersem dos Santos Luciano, do povo Baniwa, na época secretário municipal de educação de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, e do professor Bento Macuxi, coordenador da DEI, de Roraima. A opção pela “oficialização”: riscos e desafios de um novo momento A dinâmica dos encontros tem priorizado, ao longo desses 12 anos, o intercâmbio das variadas experiências de como “fazer escolas indígenas”, fortalecendo o movimento como formulador de políticas e princípios próprios para a educação escolar. Também a troca de informações acerca do debate nacional quanto ao direito dos povos indígenas a “escolas diferenciadas”, inclusive prevista na legislação oficial, tem merecido constantes reflexões, como foi o caso da discussão sobre Resolução elaborada pelo Conselho Nacional de Educação, que cria e normatiza a categoria “escolas indígenas”. No final do último encontro, em 1999, decidiu-se, com o objetivo de aprimorar o instrumental de organização do movimento – seu Cadernos de Pesquisa, nº 111, dezembro/2000 39 poder de articulação e proposição –, transformar a Copiar em Conselho de Professores Indígenas da Amazônia – Copiam. Para tanto, as diversas regiões assumiram tarefas concretas, entre as quais a elaboração de uma proposta de estatuto, discutida no 13o Encontro Anual, em Manaus, em agosto de 2000. Esse encontro teve o formato de Assembléia Geral do Copiam, ocasião em que foi abordado o tema “A educação indígena diferenciada é a trilha do novo milênio”. Com uma pauta predominantemente ligada às de Araçatuba, São Paulo, Brasil, e relação entre elas no período de 1994 a 2004. Ano Cães Habitantes Relação habitante/ cão Relação cão/ 10 habitantes * 1994 1999 2004 26.926 34.332 31.793 159.700 169.303 177.823 * Relação seguida de letras diferentes diferem entre si (p < 0,0001). 5,93 4,93 5,59 1,69 c 2,03 a 1,79 b Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 24(4):927-932, abr, 2008 ESTUDO DESCRITIVO DE UMA ESTRUTURA POPULACIONAL CANINA 929 Figura 1 Porcentagem de cães segundo a faixa etária na área urbana de Araçatuba, São Paulo, Brasil, nos anos de 1994 e 2004. baixa resposta imunológica frente a diversas vacinas contra importantes enfermidades, como a raiva 2,13. O número de eutanásias realizadas pelo CCZ declinou no período pós-raiva (1997 e 1998) e aumentou a partir de 1999 com a introdução da leishmaniose visceral (Figura 2). A taxa de eutanásia em 1994 foi de 8,8% (2.376/26.926); em 1999 foi de 14,9% (5.121/34.332) e em 2004 de 29,4% (9.364/31.793), diferenças estas estatisticamente significantes (p < 0,0001). Considerando-se o período de 11 anos, 49.380 cães foram submetidos à eutanásia no CCZ, sendo que deste total, 41.774 corresponderam ao período entre 1999 e 2004 (dados não apresentados). Ao contrário da raiva, cujas medidas de controle são amplamente eficazes, a enzootia de leishmaniose visceral no município não conta com meios de prevenção tão eficientes 14,15 e a alta taxa de eutanásia observada pode ter sido fator determinante para o decréscimo da população canina. Segundo Lima Júnior 2, elevadas taxas de mortalidade favorecem a renovação populacional o que pode resultar em população mais jovem e com maior tendência à prolificidade. Em Araçatuba, porém, a eliminação anual de um grande número de cães pode ter prejudicado seriamente o crescimento desta população uma vez que, mesmo havendo a reposição dos cães, muitos podem ter sido eliminados antes de atingirem a idade reprodutiva. A distribuição dos animais pela área urbana de Araçatuba revelou uma densidade de cães variável entre os diversos setores. Em 2004, por exemplo, os cães jovens com menos de dois anos de idade representaram 49,6% dos cães da área urbana (Figura 3). Os setores mais periféricos, com população de poder aquisitivo mais baixo, com mais problemas sociais e de saneamento ambiental, além de animais sem acompanhamento médico-veterinário, apresentaram alto percentual de cães menores de dois anos de idade (62% a 68%). Por outro lado, em setores economicamente mais desenvolvidos (região central), a porcentagem de cães com menos de dois anos de idade variou de 32,7% a 37,7%, sugerindo que a expectativa de vida dos cães destes setores é superior à dos periféricos. Os setores com maior porcentagem de animais jovens também apresentaram maior número de casos humanos de leishmaniose visceral e prevalência canina da doença (Centro de Controle de Zoonoses, Secretaria de Saúde e Higiene Pública. Boletins mensais das atividades de controle da leishmaniose visceral. Araçatuba, 1999-2004). Tal resultado é influenciado pela maior freqüência de ações de controle desenvolvidas nesses locais em decorrência dos casos humanos, resultando em maior taxa de eutanásia. Porém, o aumento da população canina mais jovem pode resultar em aumento da susceptibilidade destes cães à leishmaniose visceral, mantendo a doença na área. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 24(4):927-932, abr, 2008 930 Andrade AM et al. Figura 2 Número de cães eutanasiados e existentes no período de 1994 a 2004 na área urbana de Araçatuba, São Paulo, Brasil. Figura 3 Porcentagem de animais de até dois anos de idade nos diferentes setores do Município de Araçatuba, São Paulo, Brasil, em 2004. São Paulo Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 24(4):927-932, abr, 2008 33% a 38% 38% a 46% 46% a 54% 54% a 62% 62% a 68% ESTUDO DESCRITIVO DE UMA ESTRUTURA POPULACIONAL CANINA 931 Conclui-se que a ocorrência de raiva e leishmaniose visceral influenciou na estrutura e composição da população canina da área urbana de Araçatuba, em decorrência das ações de controle aplicadas ao reservatório canino. Resumo Colaboradores No período de 1994 a 2004, a população canina de Araçatuba, São Paulo, Brasil, registrou duas importantes zoonoses: a raiva e a leishmaniose visceral. Analisaram-se as mudanças ocorridas nessa população durante esse período, utilizando resultados de censos caninos e de coletas censitárias de sangue realizados em 1994, 1999 e 2004. A relação cão/10 habitantes variou significativamente, passando de 1,7 em 1994 para 2,0 em 1999 e para 1,8 em 2004. A porcentagem de cães com até um ano de idade passou de 20% para 32,5% e o número de eutanásias realizadas também aumentou após 1999, com a introdução da leishmaniose visceral. O número de cães e a estrutura etária variaram nos diversos setores do município e aqueles com maior porcentagem de animais com até dois anos de idade apresentaram maior ocorrência de casos de leishmaniose visceral humana e canina. Tais resultados decorrem de ações de controle adotadas nos setores com casos humanos de leishmaniose visceral, porém, o aumento da população canina mais jovem pode resultar em aumento da susceptibilidade destes cães à doença, favorecendo a manutenção da mesma na área. A. M. Andrade contribuiu na coleta de dados, análise e interpretação dos resultados e elaboração do manuscrito. S. H. V. Perri colaborou na análise estatística e correção do texto. L. H. Queiroz e C. M. Nunes contribuíram na concepção e planejamento, análise e interpretação dos dados e correção do texto. Agradecimentos À Prefeitura Municipal de Araçatuba, por meio da Secretaria de Saúde e Higiene Pública e do Centro de Controle de Zoonoses, e ao relator (anônimo) pelas correções e sugestões. Raiva; Leishmaniose Visceral; Eutanásia Animal; Cães Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 24(4):927-932, abr, 2008 932 Andrade AM et al. Referências 1. Beran GW, Frith M. Domestic animal rabies control: an overview. Rev Infect Dis 1988; 10(4 Suppl): 672-7. 2. Lima Júnior AD. Caracterização da população canina para o controle da raiva e outros problemas de saúde pública. Ciência Veterinária Tropical 1999; 2:65-78. 3. Wandeler AI, Budde A, Capt S, Kappeler A, Matter H. Dog ecology and dog rabies control. 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Produção de anticorpos e determinação da resistência adquirida à raiva canina [Tese de Doutorado]. São Paulo: Instituto de Ciências Biomédicas, Universidade de São Paulo; 1999. 14. Costa CHN, Vieira JBF. Mudanças no controle da leishmaniose visceral no Brasil. Rev Soc Bras Med Trop 2001; 34:223-8. 15. Palatinik-de-Souza CB, Santos VR, França-Silva JC, Costa RT, Reis AB, Palatinik M, et al. Impact of canine control on the epidemiology of canine and human visceral leishmaniasis in Brazil. Am J Trop Med Hyg 2001; 65:510-7. Recebido em 19/Set/2007 Versão final reapresentada em 08/Jan/2008 Aprovado em 15/Jan/2008 Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 24(4):927-932, abr, 2008
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