– PósGraduação em Letras Neolatinas

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS NEOLATINAS UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA MESTRADO INTERINSTITUCIONAL EM LETRAS NEOLATINAS O ETHOS EM “LA LÍNEA” DE FRONTEIRA BRASIL/ VENEZUELA: AMBIENTE ECOLINGUÍSTICO E REDES SOCIAIS Maria Ivone Alves da Silva 2012 2 O ETHOS EM “LA LÍNEA” DE FRONTEIRA BRASIL/ VENEZUELA: AMBIENTE ECOLINGUÍSTICO E REDES SOCIAIS Maria Ivone Alves da Silva Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de PósGraduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Linguísticos Neolatinos, opção: Língua Espanhola).Orientadora: Profª. Dra. Leticia Rebollo Couto Coorientadora: Profª. Dra. Maria Odileiz Sousa Cruz Rio de Janeiro Agosto de 2012 3 O ETHOS EM “LA LÍNEA” DE FRONTEIRA BRASIL/ VENEZUELA: AMBIENTE ECOLINGUÍSTICO E REDES SOCIAIS Maria Ivone Alves da Silva Orientadora: Profª. Dra. Leticia Rebollo Couto Coorientadora: Profª. Dra.Maria Odileiz Sousa Cruz Dissertação de Mestrado submetida ao Corpo Docente do Programa de PósGraduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários para obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas. Aprovada por: _ Presidente -Profª Dra. Leticia Rebollo Couto– Orientadora _ Profª. Dra. Mônica Maria Guimarães Savedra, UFF _ Prof. Dr. Thomas Daniel Finbow, USP/UFRJ _ Prof. Dr. Pierre François Georges Guisan, UFRJ, Suplente _ Prof. Dr. Xoán Carlos Lagares Diez, UFF, Suplente Rio de Janeiro 2012 4 Dados Internacionais de Catalogação na publicação (CIP) S586e Alves-da-Silva, Maria Ivone. O ethos em “la línea” de fronteira Brasil/Venezuela: ambiente ecolinguístico e redes sociais /Maria Ivone Alves da Silva. Boa Vista, 2012. 166 f. il Orientador: Profa. Dra. Leticia Rebollo Couto. Co-orientador: Profa. Dra. Maria Odileiz Sousa Cruz. Dissertação (mestrado) Universidade Federal do Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas. 1 –Fronteira Brasil/Venezuela. 2 –Ecolinguística. 3 –Ethos. 4 –Contato de línguas. I -Título. II –Couto, Letícia Rebollo (orientador).CDU: 800.87 5 RESUMO O ETHOS EM “LA LÍNEA” DE FRONTEIRA BRASIL/ VENEZUELA: AMBIENTE ECOLINGUÍSTICO E REDES SOCIAIS Maria Ivone Alves da Silva Orientadora: Profª Dra. Leticia Rebollo Couto Coorientadora: Profª Dra. Maria Odileiz Sousa Cruz Resumo da Dissertação de Mestrado submetido ao Programa de PósGraduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro -UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Linguísticos Neolatinos, opção: Língua Espanhola).Os contatos entre as populações dos dois lados da fronteira Brasil/Venezuela caracterizam um ambiente marcado por fortes relações num espaço-temporal a partir de especificidades de ordem histórica e política, geradoras de um ecossistema linguístico particular. As representações discursivas estão repletas de enunciados que podem expressar os mais variados tipos de sentimentos, partindo-se do princípio de que o discurso do sujeito enunciante traz consigo fragmentos dessa realidade. Assim, é possível a visualização dos diversos níveis de interação que ocorrem entre os sujeitos que vivem nessa fronteira e, por conseguinte um ethos. Uma das preocupações pertinentes que se impõe à reflexão é se a situação de contato linguístico influi na construção do ethos no ambiente de fronteira Brasil/Venezuela determinando uma relação de proximidade, cuja intensidade é condicionada pelos vínculos relacionais que se estabelecem entre os povos de fronteira. O objetivo geral desta pesquisa é reconhecer o ethos manifesto nas representações discursivas do ambiente ecolinguístico na fronteira Brasil/Venezuela. A análise dos enunciados foi realizada por meio da abordagem do ethos, na perspectiva de Maingueneau (2008).A abordagem do tema fundamenta-se nos elementos da Ecolinguística, vista em Couto (2007, 2009),a qual se apropria como categorias de análise as situações de contato ou migração de indivíduos, grupos de indivíduos e de populações no espaço. A análise é realizada a partir do material linguístico evocado nesse ambiente fronteiriço, levando-se em conta as interrelações que se estabelecem no território. Nossos principais resultados: o sujeito ora se enuncia como parte integrante da comunidade linguística de Santa Elena de Uairén, ora como parte de um lugar que é comum a brasileiros e venezuelanos -la línea”,principalmente em função das estruturas das redes sociais que estabelece com brasileiros. Palavras-chave: Fronteira Brasil/Venezuela. ecolinguístico. Contato de línguas. Ethos. Rio de Janeiro Agosto de 2012 Ecolinguística. Ambiente 6 RESUMEN O ETHOS EM “LA LÍNEA” DE FRONTEIRA BRASIL/ VENEZUELA: AMBIENTE ECOLINGUÍSTICO E REDES SOCIAIS Maria Ivone Alves da Silva Orientadora: Profª Dra. Leticia Rebollo Couto Coorientadora: Profª. Dra. Maria Odileiz Sousa Cruz Resumen de la Disertación de Maestría sometida al Programa de PósGraduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro -UFRJ, como parte de los requisitos necesarios para obtener el de Mestre en Letras Neolatinas (Estudios Lingüísticos Neolatinos, opción: Lengua Española).Los contactos entre poblaciones de los dos lados de la frontera Brasil/Venezuela caracterizan um ambiente marcado pro fuertes relaciones em um espacio-temporal a partir de especificidades históricas y políticas, generadoras de um ecosistema lingüístico particular. Las representaciones discursivas están repletas de enunciados que pueden expresar los más variados tipos de sentimientos, a partir de la premisa de que el discurso del sujeto enunciante trae consigo fragmentos de esa realidad. Así, es posible distinguir diversos niveles de interacción que ocurren entre los sujetos que viven en esta frontera y, en consecuencia un ethos. Una de las preocupaciones pertinentes que se impone a la reflexión es si la situación de contacto lingüístico influye o no en la construcción del ethos en el ambiente de frontera Brasil/Venezuela determinando una relación de cercanía, cuya intensidad se considera a partir de los vínculos de relaciones que se establecen entre los pueblos de la frontera. El objetivo general de este trabajo de investigación es reconocer y describir el ethos manifiesto en las representaciones discursivas del ambiente ecolinguístico en la frontera Brasil/Venezuela. El análisis de los enunciados se ha realizado a través del enfoque del ethos en la perspectiva de Maingueneau (2008).El enfoque del tema se fundamenta en los elementos de la Ecolingüística, propuestos por Couto (2007, 2009),para tratar y analizar las situaciones de contacto o de migración de individuos, grupos de individuos y de poblaciones en el espacio. El análisis se realiza a partir del material lingüístico evocado em ese ambiente fronterizo, considerando las interrelaciones que se establecen en el territorio. Nuestros principales resultados: el sujeto se enuncia a veces como como parte integrante de la comunidad lingüística de Santa Elena de Uairén, a veces como parte de um que es común a brasileros y venezuelanos -la línea”,principalmente en función de las estructuras de las redes sociales que establecen con brasileros. Palabras-clave: Frontera Brasil/Venezuela. Ecolingüística. Ambiente ecolingüístico. Contacto de lenguas. Ethos. Rio de Janeiro Agosto de 2012 7 Dedicatória Ao homem que me ensinou a sonhar e a seguir sonhando.Raimundo Inácio. in memorian) 8 AGRADECIMENTOS Ao Deus soberano, criador dos céus e da Terra; Ao meu companheiro, amigo e amado esposo, Oton; Ao meu maravilhoso filho, Victor Samuel; Aos meus irmãos: Ceiça, Cirlene, Franço, Rogério, Ocione, Alcimone e Luzia; Aos meus sobrinhos: Wiglyson, Welglyson, Pâmela, Mylena, Karen, Rodrigo, Symon, Itallo, Gabriel, Izabella, Mariana, Mateus e Ruan; Ao meu querido amigo, Augusto; A minha amiga, Marcela; Aos meus mestres do Programa de Mestrado Letras Neolatinas -UFRJ/UFRR; Aos Professores Tomas Finbow e Mônica Savedra pelas excelentes contribuições e sugestões ao trabalho. Muito especialmente à Dra. Odileiz e Dra. Leticia. 9 Sejas pra mim, minha outra metade falha; minha memória esquecida” Inácio) 10 LISTA DE FIGURAS Figura 1: Mapa do Tratado de Tordesilhas.28 Figura 2: Mapa dos limites atuais dos países latino americanos .30 Figura 3: Mapa Rodoviário do Estado de Roraima.334 Figura 4: Mapa Geográfico: Estado Bolívar.40 Figura 5: Área urbana de Santa Elena de Uairén .44 Figura 6: Tipos de Ethos .59 Figura 7: Criança/marco geodésico Brasil/Venezuela.85 Figura 8: Pessoas e veículos em movimento na fronteira Brasil/Venezuela.90 Figura 9: Grupo de estudantes brasileiras e venezuelanas .91 Figura 10: Posto de fiscalização da Receita Federal.92 Figura 11: Diagrama do ecossistema linguístico “provisional” de contato.94 11 LISTA DE TABELAS Tabela 1: Grupos étnicos Brasil/Guiana/Venezuela.37 Tabela 2: Caracterização do Meio Ambiente da língua.48 Tabela 3: Situações de contato de povos e línguas em determinado 52 território.Tabela 4: Abordagem do ethos.58 Tabela 5: Dados Sociolinguísticos dos sujeitos.65 Tabela 6: Cena da enunciação- quadro teórico.71 Tabela 7: Caracterização da cena de enunciação do ecossistema de estudo.71 12 LISTA DE APÊNDICES Apêndice 1 –Sujeito enunciador 1- Raquel.108 Apêndice 2 –Sujeito enunciador 2- Maria.110 Apêndice 3 –Sujeito enunciador 3- Salomão.113 Apêndice 4 –Sujeito enunciador 4- Tomé.116 Apêndice 5 –Roteiro da entrevista.136119 13 SUMÁRIO INTRODUÇÃO .14 1 CONFIGURAÇÃO HISTÓRICA DA FORMAÇÃO DOS AMBIENTES FRONTEIRIÇOS .19 1.1FRONTEIRA FLEXÍVEL ENTRE OS POVOS PRIMITIVOS .19 1.2 CONFIGURAÇÃO HISTÓRICA DAS FRONTEIRAS ATUAIS.21 1.3 FRONTEIRAS NO ESTADO MODERNO E ESTADO-NAÇÃO .23 1.4 TIPOLOGIA DAS FRONTEIRAS: FRONTEIRA" E "LIMITE";DEMARCAÇÃO E DELIMITAÇÃO" 24 1.5 FRONTEIRAS LUSO–HISPÂNICAS NA AMÉRICA DO SUL .26 1.6 PROCESSO DE FORMAÇÃO DA FRONTEIRA BRASIL/VENEZUELA .31 1.6.1 Formação do espaço sócio-histórico na fronteira Brasil/Venezuela: Roraima .33 1.6.2 Formação do espaço sócio-histórico na fronteira Venezuela/Brasil: o Estado de Bolívar .38 1.7 A FRONTEIRA BRASIL/VENEZUELA: PACARAIMA .42 1.8 A FRONTEIRA VENEZUELA/BRASIL: SANTA ELENA DE UIARÉN .44 2. ECOSSISTEMAS LINGUÍSTICOS FRONTEIRIÇOS .46 2.1 MEIO AMBIENTE DA LÍNGUA .46 2.2 CONTATO DE LÍNGUAS: INTERRELAÇÕES E AMBIENTE .49 3 DISCURSO E ETHOS .53 3.1 LINGUAGEM, DISCURSO E ETHOS .53 3.2 ETHOS: CONCEITOS E TIPOS .55 Fonte: Adaptado de Auchlin apud Maingueneau (2009).58 3.2.1 Tipos de ethos .58 4 FUNDAMENTOS DA ABORDAGEM E PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE .61 4.1 ABORDAGEM DO TEMA.61 4.2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS DE ANÁLISE .64 4.2.1 Os sujeitos enunciadores .64 4.2.2 A entrevista e convenções de transcrição .66 4.2.3 Os enunciados .67 4.2.4 Os fatores ecolinguísticos de influência no contato de povos .68 5 ANÁLISE DO ETHOS EM AMBIENTE ECOLINGUÍSTICO FRONTEIRIÇO BRASIL/VENEZUELA .70 5.1 SITUAÇÃO DE CONTATO ENTRE FALANTES NO ECOSSISTEMA LINGUÍSTICO BRASIL/VENEZUELA .70 5.2 CONSTRUÇÃO DO ETHOS DISCURSIVO DO SUJEITO DA FRONTEIRA .71 5.2.1Sujeito integrante da comunidade linguística de Santa Elena de Uairén .76 5.2.2 Sujeito integrante de um lugar comum a brasileiro e venezuelano .80 5.3 FATORES QUE INFLUENCIAM O CONTATO DE LÍNGUAS: UMA ANÁLISE DA CENA DE ENUNCIAÇÃO .87 5.4 ECOSSISTEMA LINGUÍSTICO “PROVISIONAL”:UMA PROPOSTA .92 CONSIDERAÇÕES FINAIS .96 REFERÊNCIAS .102 APÊNDICES.106 14 INTRODUÇÃO A configuração das regiões fronteiriças no Continente Americano surge a partir das necessidades europeias por novos produtos e matérias primas para o abastecimento do mercado europeu no século XV. As expedições marítimas de portugueses e espanhois, principalmente, resultaram na conquista das terras situadas ao sul do continente americano. O resultado dessas expedições e o esforço pela resolução de conflitos de demarcação territorial é a assinatura do Tratado de Tordesilhas em 1494. Esse acordo, determinou que as terras coloniais espanholas e portuguesas fossem fixadas por meio do princípio de Uti Posseditis, sugerindo que os limites de cada território fossem definidos e atribuidos para os primeiros ocupantes de determinada região, desde que essa ocupação pudesse ser devidamente comprovada. Esse critério possibilitou que Portugal ficasse com o domínio da Amazônia e a Espanha com o do Rio da Prata e com algumas concessões mútuas de territórios adjacentes (COUTO, 2009, p. 9-11).A partir de 1808, os portugueses direcionam sua política expansionista para a Amazônia com o objetivo de estabelecer limites territoriais seguros para a posse da foz do rio Amazonas. Contudo, somente em 1822, com a proclamação da Independência do Brasil, com desenvolvimento da chamada Guerra da Independência (1823-1824) e com plano externo pelo Tratado de Paz e Aliança de 1825, as fronteiras do novo país são definidas. As fronteiras interpaíses são consideradas áreas estratégicas pelos estados nacionais. No caso do Brasil, essa faixa é disciplinada pela Constituição Brasileira, por meio da Lei 6.634, de 1979, como área indispensável à Segurança Nacional, contemplando 150 km de largura, paralela à linha divisória terrestre do território nacional. A faixa que separa o país, de norte a sul, ocupa 27% do território nacional, significando 23.086 km de fronteiras, sendo que destas 15.719 km são terrestres compondo o seguinte quadro: a noroeste, a Colômbia (1.644 km);a oeste, o Peru (2.995 km) e a Bolívia (3.423 km);a sudoeste, o Paraguai (1.365 km) e a Argentina (1.261 km);ao sul, o Uruguai (1.068);e, ao norte, situam-se as fronteiras com a Guiana Francesa (730 km),o Suriname (593 km),a República Cooperativa da Guiana (1.606 km) e a Venezuela (2.199 km) ALVES, 1998, p. 11-13).Estas 15 fronteiras envolvem onze estados brasileiros, dos quais Roraima é um deles, caracterizado por situações de contato das línguas europeias de colonização entre as línguas portuguesa, a língua inglesa e língua espanhola. Remontando ao passado histórico, desde o período colonial até a contemporaneidade, verifica-se que as diretrizes políticas dos estados nacionais para as regiões fronteiriças ainda se restringem, em grande parte, aos interesses de ocupação e defesa estratégica das fronteiras. Contudo, a estratégia na direção da integração interpaíses com a organização em blocos econômicos e políticos, faz surgir o interesse pelas culturas regionais e pelas culturas dos povos fronteiriços. Uma iniciativa de integração dessa natureza está na política brasileira das diretrizes educacionais, e um dos resultados é a oferta do curso de Língua Portuguesa como Língua Estrangeira –PLE, pela Universidade Estadual de Roraima, onde foi realizada esta pesquisa. O curso de PLE é oferecido no campus de Pacaraima, fronteira com o Município de Santa Elena de Uairén, na Venezuela e foi onde localizamos os sujeitos que são objeto da nossa pesquisa. Outra demanda crescente nessa direção de integração está na realização de pesquisas direcionadas à compreensão do ambiente linguístico em suas diversas manifestações, a fim de caracterizar os contatos dos povos nos aspectos que envolvem a língua em relação ao ambiente natural e sócio-histórico. A partir da compreensão dessa complexidade do ambiente, surge a ideia desta pesquisa de analisar o discurso do sujeito venezuelano em função de suas experiências de sua interação com brasileiros. Numa primeira abordagem informal dessa fronteira, é possível verificar uma diversidade de tipos de comportamento, às vezes, inclusive agressivos, sobretudo em contextos de interação relacionados ao comércio legal ou ilegal de gasolina. É o caso de atitudes de autoridades policiais, funcionários e clientes venezuelanos nas filas de espera dos postos de gasolina em Santa Elena de Uairén1, onde se multiplicam situações de hostilidade e tensão na relação entre os participantes brasileiros e venezuelanos dessa interação. Eu mesma tive a ocasião de crescer numa localidade fronteiriça (BrasilBrasiléia/Bolívia-Cobija),o que certamente motivou o meu interesse por este tema de pesquisa. Na minha experiência pessoal pude perceber que a desigualdade do valor da moeda, as pequenas trocas não estavam marcadas pela hostilidade, pelo 1 Em Pacaraima (Brasil),município fronteiriço com Santa Elena (Venezuela),não há postos de gasolina. 16 menos na minha lembrança ou experiência. As perguntas que ficam e que motivam esta pesquisa são: por que essa diferença de atitude? Quais as razões Ecolinguísticas que exercem pressões nesse sentido e diferenciam o ethos boliviano (do contato Cobija/Brasiléia, que conheci na minha infância) do ethos venezuelano (do contato Santa Elena de Uairén /Pacaraima),que é nosso atual objeto de pesquisa? O reconhecimento da natureza dos fatores que influenciam no resultado das situações de contato estabelecidas nesses ecossistemas linguísticos é importante e pode auxiliar a compreender as interações que caracterizam essa situação específica de contato. Pressupõe-se assim, que a situação de contato exerce influência recíproca nas relações mantidas e, portanto pode interferir no posicionamento discursivo da população das regiões fronteiriças. Nessas circunstâncias, é possível supor que possa haver uma tendência ao surgimento de uma única comunidade de fala, emergida gradualmente ao longo do processo histórico da evolução dessa fronteira (COUTO, 2007, p. 17).Consideramos que nesses ecossistemas linguísticos, as representações discursivas estão repletas de enunciados que podem expressar os mais variados tipos de sentimentos de pertencimento e não pertencimento. Partindo do princípio de que o discurso do sujeito enunciante traz consigo fragmentos dessa realidade, representada pelo sujeito que vive na fronteira Brasil/Venezuela, é possível analisar discursivamente os diversos níveis de interação entre os sujeitos constituídos nessa fronteira. Levamos em conta, para tal análise, em conta conceitos de Ecolinguística visto em Mufwene (2001);e Couto, 2007, 2009),considerando a “relação da língua e o meio ambiente”,bem como alguns aspectos metodológicos da Análise do Discurso. Na Análise do Discurso, uma das preocupações pertinentes que se impõe à reflexão neste trabalho é se a situação de contato linguístico influi na construção do ethos no ambiente de fronteira Brasil/Venezuela. Nesta situação de contato a relação de proximidade e intensidade é condicionada pelos vínculos relacionais que se estabelecem entre os povos de fronteira. Outra preocupação está em saber se a compreensão da cena de enunciação, que caracteriza o ethos fronteiriço Brasil/Venezuela contribui para o entendimento das percepções, sentimentos, estereótipos e vicissitudes (Maingueneau, 2008),dos povos e do sujeito em ambientes de fronteira. A análise dos enunciados foi realizada por meio da 17 abordagem do Ethos na perspectiva de Maingueneau (2008),para quem o ethos se constitui em uma dimensão discursiva que faz parte da identidade de um posicionamento discursivo. O objetivo desta pesquisa é reconhecer o ethos manifesto nas representações discursivas do ambiente ecolinguístico na fronteira Brasil/Venezuela, tendo como objetivos específicos: a) descrever o processo de construção do ethos discursivo do sujeito da fronteira; b) caracterizar a situação de contato de povos no ecossistema linguístico Brasil/Venezuela; Esta pesquisa fundamenta-se nos elementos da Ecolinguística (Couto 2007, 2009),apropriando-se da fundamentação teórica relativa às situações de contato, especificamente no que diz respeito aos movimentos migratórios e interações de grupos e indivíduos nos seus deslocamentos entre os territórios. Evoca ainda, os fatores que influenciam nos resultados desses contatos sejam eles: Quantidade; Tempo; Intensidade; Atitude; Semelhança/Dessemelhança linguística e Resistência cultural no contato entre ambos os povos. A reflexão que se desenvolve está fundamentada também nos pressupostos teóricos da Análise do Discurso, apontados em Maingueneau (1997, 2008),por favorecer a análise, principalmente, das circunstâncias e do lugar social em que o sujeito enuncia. O sujeito falante, quando enuncia, o faz considerando seu contexto histórico, linguístico e social, mobilizando sua experiência, seu conhecimento e seus sentimentos na construção de seu ethos, traçando seu ponto de vista sobre o mundo, em função do espaço que habita. Para tanto, foram selecionados quatro sujeitos venezuelanos que vivem na fronteira Brasil/Venezuela, que estudam PLE na Universidade Estadual de Roraima e que estão, portanto, em pleno processo de relacionamento educacional com brasileiros. Utilizou-se como instrumento de pesquisa a entrevista livre. Esta pesquisa está estruturada em cinco capítulos. No primeiro, contextualizamos a formação das fronteiras e ambientes fronteiriços. No segundo, conceituamos os ecossistemas lingüísticos fronteiriços e o contato de línguas. No terceiro capítulo, definimos a partir da Análise do Discurso o conceito de ethos. no quarto capítulo, apresentamos a abordagem metodológica da pesquisa. E no quinto capítulo, analisamos o ethos construído no discurso do sujeito da fronteira. E por último, apresentamos os resultados nas considerações finais desta pesquisa no que 18 diz respeito aos nossos objetivos iniciais e na revisão da pertinência do ethos como metodologia de análise para o estudo de contatos linguísticos. A partir do conceito de ethos, descrevemos o processo de construção discursiva da imagem do sujeito da fronteira, contudo não conseguimos caracterizar a situação de contato de povos no ecossistema linguístico Brasil/Venezuela, sendo que para tal fez-se necessário introduzirmos o conceito de redes sociais, apontado como chave metodológica para futuros estudos sociolinguísticos em ambientes fornteiriços. 19 1 CONFIGURAÇÃO FRONTEIRIÇOS HISTÓRICA DA FORMAÇÃO DOS AMBIENTES 1.1Fronteira flexível entre os povos primitivos Uma fronteira por si só não existe já que ela é condicionada pela existência de povos que a constituíram ao longo do processo histórico de formação dos estados nacionais. O vocábulo Fronteira deriva-se do antigo latim „fronteria‟,front‟ ou „frontaria‟ que indicava a parte do território situada „in fronte‟,isto é nas margens. É assim, precisamente no período entre os séculos XIII e XV que surge a palavra fronteira na maioria das línguas europeias, não sendo originalmente aplicada a uma linha e sim a uma área. Na Europa medieval, a zona/região de fronteira era uma área, ou seja, possuía largura (e não só extensão, como é o caso do limite),visando cumprir um objetivo de separação e não de contato (MARTIN,1992. p. 21; STEIMA; MACHADO, 2002 p. 4).O desenvolvimento dessa concepção política de fronteira surgiu no período da Alta Idade Média (século VII e VIII) com a constituição dos „marks‟,ou „marches‟ francês),ou „marcas‟ espanhol),pelos reis francos, considerados como territórios especiais, usualmente objeto de projetos de colonização, visando a proteção das fronteiras do império contra eslavos e outros povos com os quais não queriam contato. Cada marca tinha um administrador próprio (os „markgrafs‟,margraves‟,ou marqueses),sendo que muitas delas deram origem, mais tarde, a reinos e estados independentes”.STEIMA; MACHADO, p. 4 s/d) Durante o percurso histórico das sociedades, entre os povos ditos primitivos, ou destas também chamadas sociedades primitivas (sem o aparecimento o aparecimento do estado, nem da escrita ou a existência de moeda para regular as transações econômicas),as situações de contato entre os povos poderiam variar desde “um simples enriquecimento cultural recíproco até a liquidação e o extermínio de povos e culturas inteiras” MARTIN 1992, p. 21) Nessas sociedades há um movimento aparentemente ilimitado, embora na realidade, elas se situem circunscritas em uma determinada parcela do território, onde cada grupo pretende defendê-lo de ameaças de outros grupos. A identidade deste grupo é específica, sendo que a apropriação coletiva do território é ligada 20 emblematicamente à extensão do culto religioso, adquirindo a fronteira um sentido mágico. Nesse momento as sociedades são caracterizadas pela não-separação entre propriedade individual e pública, ou seja, a terra que constitui a fonte de riqueza fundamental é propriedade coletiva, pertencente a toda comunidade. A atividade produtiva básica é a coleta e só se pratica a agricultura de forma suplementar. O nomadismo é outra característica importante, embora subordinanda à primeira. Nesta perspectiva a terra é propriedade comunal, pertencente a todos os indivíduos apenas enquanto membros da mesma comunidade. E a entidade comunitária tribal aparecerá, por sua vez, não como resultado, mas como condição da apropriação coletiva temporária do solo e de sua utilização” MARTIN 1992, p. 21-22) A condição de apropriação coletiva do território, desde os tempos primitivos já se vinha configurando também a formação de espaços fronteiriços demarcatórios, pelos menos em termos culturais e religiosos entre sociedades distintas, enquadrando-se nessa condição as pequenas populações de caçadores que se utilizam de um vasto território caracterizado por movimento aparentemente ilimitado, mas que está efetivamente circunscrito a um recinto natural rodeado por circunscrições semelhantes, onde cada grupo buscará defender seu território, preservando, além disso, sua identidade cultural e religiosa. O grupo, antes de considerar-se como parcela de um todo maior, prefere afirmar sua identidade específica contra o resto do mundo, e como essa apropriação coletiva do solo se acha ligada a extensão do culto religioso, a fronteira adquire também um sentido mágico. Esse sentido se prolongará através das civilizações de pastores, penetrando mesmo nos primeiros impérios (MARTIN 1992, p. 22).Por outro lado, a partir de estudos antropológicos sobre a geografia política, houve o rompimento com as teses do „primitivismo‟ das sociedades tribais, e com a ideia de que os homens primitivos não conheciam as fronteiras-limite lineares, concebendo somente zonas vinculadas ao território de caça. Conforme descrito a seguir. 21 De fato, Stephen Jones (1959) assinala que antropólogos identificaram em várias partes do globo práticas de sociedades tribais não apenas fazendo uso de linhas fronteiriças, mas de demarcação e patrulhamento. A ideia subjacente à tese do primitivismo era dos laços de parentesco como único princípio a gerar a coesão social desses grupos, mas o fato é que mesmo entre os povos antigos o princípio territorial era parte importante da formação de sua identidade, convivendo e disputando com a predominância dos critérios de parentesco (LOWIE, 1927 apud JONES, 1959, citado em Steiman; Machado, STEIMAN; MACHADO 2002 p. 3).Não obstante, a fronteira se apresenta extremamente flexível, ou seja, em virtude dela se caracterizar como propriedade comunal, as comunidades viviam em constante movimento. As guerras são constantes em decorrência de fatores econômicos e místicos, embora não estivessem ausentes os contatos de natureza pacífica e amistosa. São exemplos de comunidades deste tipo a dos tupis do Brasil, sendo comuns nas cerimônias e rituais de etiqueta preceder a penetração de indivíduos de uma aldeia no território de outra (MARTIN, 1992. p. 23).Dessa forma, é possível afirmar que desde os tempos ditos “primitivos" já havia a questão da delimitação do território, mas voltado à reprodução biológica e cultural e subsistência do grupo, esta situação é marcada por MARTIN, Mas isso não se fazia por intermédio de linhas rígidas, muito ao contrário, mas através de zonas mais ou menos fluidas que aceitavam ate certo ponto uma interpenetração. Em contrapartida, esse caráter eminentemente instável das fronteiras fazia com que, em nome de maior proteção, as comunidades, à medida que iam se sedentarizando, ansiassem por habitar territórios mais bem delimitados e menos sujeitos a invasões (MARTIN 1992, p. 23).As pesquisas na área da antropologia corroboram para esse entendimento identificando em diversas regiões do planeta praticas tribais de definição de linhas fronteiriças e de demarcação e patrulhamento, onde as relações parentais tinham uma importância significativa para as relações entre os membros das comunidades tribais. 1.2 Configuração histórica das fronteiras atuais A dissolução das comunidades primitivas inicia uma nova fase na caracterização das fronteiras. Dois fatores contribuíram significativamente para esse novo momento de contato entre povos: O primeiro deles deve-se a uma melhoria na produtividade agrícola, que permitia não somente a fixação de povos em regiões de 22 solos férteis, ao mesmo tempo em que surgiam novas atividades e funções mais especializadas, entre elas a burocracia, os militares, os artesãos, os comerciantes, além obviamente, dos camponeses. Além deste fator, mas por ele corroborado aumenta o número de grupos invasores vitoriosos que conquistavam junto com o território, seus habitantes dando origem a várias formas de trabalho servil. Nessa fase inicia-se um processo de centralização do poder e de expansão territorial, descaracterizando a propriedade coletiva da terra. Caracteriza esta fase o império Chinês, a expansão do império Romano, e a construção do império Inca. Em relação à caracterização da fronteira, esta era tida como linha estática fortificada e defensiva, própria dos impérios já expandidos, eram construídas trincheiras em pontos considerados estratégicos como no caso do império Inca ou muralhas como as da China (MARTIM, 1992, p. 23).De acordo com os estudos realizados por Owen Lattimore, geógrafo norteamericano que estudou as relações entre fronteira e civilização, havia, no caso do império chinês, toda uma vertente social e cultural subjacente às concepções políticas de fronteira no sentido de limite de civilização. Ao norte do Império, o intuito estava em excluir a transposição de povos considerados bárbaros e, portanto não sendo desejado absorvê-los. A rigidez perseguida pelos chineses, na interpretação de Lattimore, expressava um desejo de exclusão de povos que eles consideravam bárbaros e não desejavam absorver. Transpor a fronteira não implicava apenas dominar esses povos bárbaros mas dominar o espaço das estepes e da atividade pastoril, uma estrutura considerada, sob todos os aspectos, inferior à chinesa. A muralha da China não só separava duas grandes regiões, mas dois modos de organização espacial: as bacias hidrográficas chinesas, onde se praticava uma agricultura intensiva e irrigada, e as estepes do norte com sua pecuária extensiva (LATTIMORE, 1937, apud STEIMAN; MACHADO, 2002 p. 3-4).Com relação à caracterização da situação fronteiriça na Idade Média tem-se que: A presença romana deixaria marcas indeléveis em toda a Europa. No leste, porém, o império Bizantino acabaria gravitando em torno de problemas asiáticos, ao passo que no oeste as instituições romanas e germânicas iriam lentamente se fundir, fornecendo os fundamentos histórioo-culturais do que hoje normalmente designamos por "Europa Ocidental'E como é sabido, nesse processo, a igreja Católica cumpriu o papel de agente unificador fundamental, como que compensando a fragmentação política e a pulverização econômica existentes. Desde então, um sentido religioso das fronteiras começou a se separar daquele político-administrativo, o que só se completaria bem mais tarde com o surgimento dos estados modernos (MARTIN 1992, p. 31-32).23 A característica que marca os princípios originais de fronteira na Europa medieval, não foi nem os laços de parentesco nem a territorialidade, mas no próprio sistema feudal, já que ele atribuía aos próprios feudos uma natureza hereditária e territorial que ia além dos domínios territoriais dos reinos e impérios, abalando, em linhas gerais, o poder dos reis no sistema de monarquia feudal. Nesse viés, afirmase que as “bases desse sistema, assentado nos direitos hereditários e históricos que tinham prevalecido até então na delimitação de fronteiras foi, assim, gradualmente sendo rompida pela emergência do estado moderno” STEIMAN; MACHADO, 2002 p. 4).1.3 Fronteiras no estado moderno e estado-nação O advento do estado moderno traz em seu bojo a concepção de fronteira linear, a qual vai se tornar imprescindível nos processos de definição de limites entre as sociedades, haja vista a necessidade inicial desse estado em aprofundar os fundamentos de sua soberania territorial. Essa concepção surge com o Renascimento, e os progressos alcançados pelas matemáticas, astronomia dos conhecimentos obtidos com as viagens, permitindo um avanço cartográfico extraordinário. O avanço da cartografia tornava possível a introdução de traçados precisos entre soberanias, precisando os limites dos estados nacionais (MARTIN, 1992, p. 35).Considerada como a primeira concepção geográfica moderna de fronteira, surge então a "fronteira linear”,reconhecida como prova de que se trata de uma época com novas noções de espaço e de tempo, sendo a primeira tentativa de estabelecimento de uma fronteira ocorrida no Novo Mundo, representada pela "linha de Tordesilhas" que ratificou, por comum acordo dos soberanos de Portugal e Espanha, a bula papal anterior, na qual Portugal se julgava prejudicado. Assim, em 1494 foi definida uma "linha de demarcação" tendo por base o meridiano atravessando um ponto a 370 léguas das ilhas de Cabo Verde, garantindo a Portugal a posse das terras a leste da mesma, e à Espanha as do oeste (MARTIN 1992, p. 36).Essa concepção moderna de fronteira como limite dos estados nacionais estabelecendo uma relação entre limite e soberania territorial não foi imediata, pois na Europa quinhentista, os argumentos que embasavam o poder dos reis sobre o 24 reino eram de tipo feudal e não-nacional. Isto porque no período feudal, como visto, a característica marcante era a herança dos feudos por indivíduos que estavam unidos por laços de vassalagem (STEIMAN; MACHADO, 2002, p. 4).Por outro lado, é dado como consenso considerar o Tratado de Westfália como marco inicial na constituição de um sistema moderno de fronteiras na Europa Ocidental, entendendo-se esse conceito de “moderno” a concentração do poder político cuja base estava representada pelo estado. Começa a se afirmar, assim, o conceito de estado nação, o qual vai ser responsável pela fixação de limites rígidos e precisos das fronteiras entre as sociedades (MARTIN, 1992, p. 35).A igualdade jurídica elevou os Estados ao patamar de únicos atores nas políticas internacionais, eliminando o poder da Igreja nas relações entre os mesmos e conferindo aos mais diversos estados o direito de escolher seu próprio caminho econômico, político ou religioso. Ficou, então, consagrado o modelo da soberania externa absoluta, e iniciou-se uma ordem internacional protagonizada por nações com poder supremo dentro de fronteiras territoriais estabelecidas (PERINI, 2003, p. 2).A ordem internacional que foi estabelecida com o "Tratado de Westfália data do século XVII, mais precisamente a 1648, quando foi assinado. Por ele foram fixados os princípios normativos centrais -territorialidade, soberania, autonomia e legalidade –configurando um sistema internacional de estados, cujas relações entre eles ficam submetidas ao direito internacional, desde que cada um o consinta, já que não há autoridade legal para além do estado capaz de impor obrigações legais a ele ou a seus cidadãos. 1.4 Tipologia das fronteiras: fronteira" e "limite";demarcação e delimitação" A literatura que trata da questão de limites e fronteiras interpaíses é rica em abordagens sobre o significado e as formas de classificação de tipos de fronteiras separando duas sociedades. A mais conhecida e abordada pelos estudiosos é a que classifica as fronteiras em naturais e artificiais, discutida durante toda a primeira metade do século XX. Para os demarcadores, a "fronteira natural" é aquela onde a linha divisória acompanha os acidentes naturais, não existindo a presença de marcos assinalados e colocados pelos homens. A natureza aí é invocada com o objetivo apenas 25 pragmático de facilitar o trabalho de demarcação. Por outro lado, os geógrafos só consideram "natural" aquela fronteira que se apoia em obstáculos naturais e que “representam verdadeiras barreiras ao contato entre dois grupos, tal como ocorre com pântanos, densas florestas, montanhas e desertos. Trata-se, portanto, de faixas e não de linhas” MARTIN, 1992, p. 49).O que parece ser um traço comum a todas as classificações (naturais e artificiais; boas e más; lineares e zonais; etc) é o intuito de determinar a superioridade de um determinado conceito de fronteira sobre outros, uma superioridade claramente relacionada à função que o autor atribui à fronteira. Por exemplo, as discussões sobre a conveniência dos rios ou das montanhas como limites entre estados estão relacionadas à função prioritária da fronteira como fator de assimilação ou fator de defesa, respectivamente (STEIMAN; MACHADO 2002, p. 1).Fazendo uma revisão bibliográfica sobre a questão das fronteiras internacionais na primeira metade do século XX, Minghi (1963) coloca que as classificações e tipologias de fronteira-limite evoluíram do modelo natural-artificial para outras perspectivas evocando, por exemplo, desde a base física ou antropogeografia, até chegar àquelas com base na paisagem cultural. Esse autor coloca também as novas concepções sobre limites e fronteiras que estavam surgindo voltadas principalmente para o destaque das preferências. Verifica-se, portanto, que no tocante às similaridades e diferenças existentes entre as comunidades constituídas sócio-políticamente, existe o limite político, assim como a zona de fronteira. Isto permite a definição da função, do outro, da importância das zonas de circulação no que se refere à descrição da intensidade do movimento que ocorre na fronteira (MINGHI, 1963 apud MACHADO, 2002 p. 2).Elas representam por assim dizer a primeira tarefa do Estado. Só o estabelecimento de fronteiras relativamente seguras garante o mínimo de tranquilidade coletiva necessária para que o aparelho estatal possa se dedicar a outras atividades, como a construção de estradas e a canalização de recursos para o enriquecimento de regiões pouco desenvolvidas por exemplo. Entendidas dessa maneira, as fronteiras se associam, portanto, ao momento original de formação dos estados, ou se preferir, à fase que corresponderia a sua infância ,o que determinará em grande medida o caráter e o futuro dos mesmos. Trata-se aqui evidentemente de um nível de relações horizonte onde está pressuposta a igualdade jurídica entre duas entidades soberanas, o que corresponderia a uma abstração, uma vez que nivela idealmente sociedades na verdade bastante distintas entre si (MARTIN, 1992, p. 51).26 Em relação a esse aspecto, tem-se que as fronteiras externas são importantes para a constituição dos estados modernos. 1.5 Fronteiras luso–hispânicas na América do Sul “Las relaciones de sentido instauran efectos, constituen actores, âmbitos sociales, acontecimientos y la ilusión de um devenir sociohistorico.”BEHARES, 1996) A evolução do conhecimento técnico–científico experimentado pelos estados nacionais facilitou o dinamismo das tecnologias e equipamentos de transportes e comunicações e aumentou consideravelmente o volume e os movimentos dos deslocamentos interfronteiriços. Esse processo trouxe à tona a porosidade das fronteiras nacionais, étnico-culturais e identitárias, permitindo as trocas materiais e simbólicas, onde se confrontam indivíduos e culturas muito diferentes. Dão-se aí, relações marcadas por práticas de deslocamento que devem ser percebidas como constitutivas de significados culturais ao invés de serem apenas uma extensão ou transferência desses significados. O espaço fronteiriço entre o Brasil e a Venezuela também vem sendo profundamente impactado em virtude das novas tecnologias de transporte e comunicação intensificando os fluxos transfronteiriços e realmente se Venezuela e Brasil tivessem melhores convênios tanto de estudos como outros projetos a nível turismos acho que Santa Elena estivesse melhor que hoy/hoje em dia (porque ajuda é importante de ambas fronteiras é importante (eu acho que Venezuela não há aproveitado essa /essa integração com o Brasil pra fazer turismo (eu acho que hoje Brasil se está aproveitando pelo menos o estado de Roraima (essa questão de ser um estado fronteiriço eu admiro essa questão (porque antigamente quando o Brasil tinha uma mala situação econômica eh não é um segredo para os brasileiros (a gente aproveitava essa questão e inclusive a gente os brasileiros que trabalhavam lá eles eram maltratados (porque não tinha papel a gente explorava a questão de estrangeiro não é? agora a moeda está virada haha (então o venezuelano sente que é/é maltratado mas esse maus tratos não existem como tal (realmente não é toda a sociedade que mora em Santa Elena só alguns setores que maltratam (que aproveitam algumas oportunidades não é uma questão de a moeda da Venezuela está muito desvaloada (mas não é culpa do Brasil (então eu não posso pretender falar que não eu não compro lá eles estão me maltrando tem os preços são muito alto o preço é que é (a moeda da Venezuela tá muito fraca (agora então isso é depreciação então agora muitos brasileiros estão passando pra Venezuela (Pesq.:Você usa a língua portuguesa no seu dia-dia? então eles precisam de informação eu acho que é interessante que a gente dá informação num português bem fluido bem estudado (eu acho que é um pouco desagradável pra algumas pessoas que moram tanto do lado Venezuela e Brasil que as vezes a gente pergunta pra um brasileiro não pode explicar não pode entender e que as vezes um brasileiro pergunta pra um venezuelano não pode explicar um português básico pelo menos não é agradável estamos muito perto um de outro então (não é bom por isso (eu acho que (a gente deve aprender português aprender espanhol porque a integração não é somente uma questão econômica é social é cultural eu acho que maior vantagem (quando a gente está na fronteira a gente pode enriquecer mais a cultura própria porque quando a gente vê uma diferença entre uma cultura e outra pode valorar mais sua cultura sim eu acho que é assim (dá mais valor a sua cultura 112 APÊNDICE 3: SUJEITO 3 :Salomão” Nacionalidade: Venezuelana Idade :55 anos Vive em Santa Elena de Uairén há 26 anos Duração :10min26s. Pesquisadora: Você poderia me contar como é a vida na fronteira? S3: Debe hablar en castellano porqueee (soy nuevo en el /el portugués (estuve estudiando /lo estoy aprendiendo no (yo llegué en frontera hace vente y seis años (me dedicava a la educación /educación media (ahorita estoy dedicado a la educación superior (enseño la parte de estadística matemática física química( son mis área de conocimiento (estuve un tiempo desempeñandome en la parte política como consejar al local y aquí (e conozco bastante de /de /de este flujo de cual estas interesada (eh te voy hacer un resumen mas o meno no (eh cuando llegué acá esta era una zona muy deprimida (la /la economía fuerte la tenia era Venezuela eh la la economía débil era de Brasil (entonces nuestra moneda que es pues el bolívar seiscientos bolívares (tenía una fortaleza única (entonces todos desplazamos hace a la frontera a comprar (ese nuestro centro de de acopia y compra era aquí en Pacaraima (eeh con el tiempo fue /esto fue evolucionando (la parte económica y hoy por hoy Brasil es la parte fuerte (entonces no/ los brasilero o /la o la persona de ciudadania brasilera se translava hacia en Santa Elena y hacer el resto de Venezuela especialmente la Isla de Margarita (que eran onde compran (actualmente en Santa Elena estan llegando /o ha llegado una série de comerciante de nacionalidaaaad (oriental /oriental (diolando árabes .uhun (turcos (chinos (y que han estabelecidos centros comerciales bastante importante eh (dita el flujo (pues que existe deee/ de brasilero /la moneda brasilera es por ahí muy fuerte (y eso paraaa /importante pues su economia ha crecido (entonces hoy /la cosa se invertió (hun (hoy en dia el el comércio importante esta en Venezuela para brasilero (Venezuela es importante no (en Santa Elena como ves han montado un centro comerciale (vamos llamar entre comillas no (esas zonas de area son mucho mas grande (se no centrooo /negocio pues muy grande (para ese /ellos dempeñarse (en la /la parte deee /hay una parte que siempre me llamó la atención que que eees la la parte de combustible (el combustible como sabemos que Brasil no es un pais petrolero (entonces para /para ellos es dificil /es muy costozo el combustible (Venezuela es uno de los paises en el mundo que tiene el precio de combustible muy bajo /muy barato (inclusive para nosotros baratisismo (el precio del combustible y para los brasileros por supuesto es sumamente económico (eso ha generado un comércio aquí ii/ ilegal que era como llaman o llamaban vulgarmente los talibanes (que son las personas que se dedican a vender combustible fuera de /de /del centro “erocition” determinado por la ley para le/vender combustible (esto generó por supuesto una economía muy importante para Venezuela y para brasilero (hay ciudadanos /espero que esto no no delate a nadie no (simplesmente mencionan a las otoridades (esta es la parte investi /investigativa (yo soy investigador también y nuestros hermanos jamás (solo muy discretamente no(.ese comércio tambien es muy 113 importante para ciudadano brasilero (hay muchos que se transladan de la ciudad de Boa Vista hasta aca y lo unico que hacen es llenar su /su carro de combustible full (van omentar en Boa Vista y lo venderlo a un precio y(.acecible muy fructífero para ello (pues según las partes yo no sé se se llamaran de nagativo o positiva de/de un comércio ilegal que existe aca (eeeh /existe otro tipo de comércio fuerte se que es la parte (como /como /como es todo /como Santa Elena de Uairén en el año /el año mil noviciento novienta y se/ sei adelante (es un proyecto para aclarar un porto libre (eeh en el año dos /mil noviciento novienta y ocho aproximadamente se materializó y hoy en dia es un porto libre (entonces estamos exonerado de lo que son impuestos no(.entonces (esto también es muy económico (pero eso tiene una /unas restriciones si no si puede sacar mucha mercancia si nooo lo que esta estipulada por la ley y asi aseñato y quien hace esas regulacione (entonces esto también é utilizado tanto por venezoelano como como brasilero 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una incomodidad otoridad solecitano queee el pase hacia a la ciudad de Boa Vista cuando nos solicitan pasaporte no (Entonces nos deciamos cómo que se estamos en una frontera Boa Vista es tan cerca (nos piden pasaporte y ahora isso ya estaaa (exonerado (no simplesmente ya se ya es una solicitu./un permiso (no paso (porque somo muy /muy cercanos (entonces (eso se deben tratar los ciudadanos brasileros (ten una experiencia muy interesante (ahorita se estan sacando una cedula (brasilera para Venezuela no (un
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