Feedback

Cidade sustentável, políticas públicas e esporte de natureza: um caminho a se trilhar.

Documento informativo
Universidade Federal da Paraíba- UFPB Sônia Maria Neves Bittencourt de Sá Cidade Sustentável, Políticas Públicas e Esporte de Natureza: um caminho a se trilhar Dissertação submetida a Universidade Federal da Paraíba como parte dos requisitos necessários para obtenção do grau de mestre do Programa de Desenvolvimento e Meio Ambiente área de concentração Gestão Ambiental Orientadora: Dra. Alicia Ferreira Gonçalves Co-orientadora: Dra. Belinda Pereira da Cunha João Pessoa, Paraíba Dezembro, 2011 UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAIBA – UFPB Programa de Desenvolvimento e Meio Ambiente PRODEMA Cidade Sustentável, Políticas Públicas e Esporte de Natureza: um caminho a se trilhar Sônia Maria Neves Bittencourt de Sá Orientadora: Dra Alicia Ferreira Gonçalves Co-orientadora: Dra Belinda Pereira da Cunha Dissertação de Mestrado João Pessoa- Dezembro de 2011 S111c Sá, Sônia Maria Neves Bittencourt de. Cidade sustentável, políticas públicas e esporte de natureza: um caminho a se trilhar / Sônia Maria Neves Bittencourt de Sá.-- João Pessoa, 2011. 213f. : il. Orientadora: Alicia Ferreira Gonçalves Co-orientadora: Belinda Pereira da Cunha Dissertação (Mestrado) – UFPB/PRODEMA 1.Meio Ambiente. 2. Sustentabilidade. 3. Políticas públicas. 4. Esportes de natureza. 5. Direito a cidades. UFPB/BC CDU: 504(043) ~ III ~ Cidade Sustentável, Políticas Públicas e Esporte de Natureza: um caminho a se trilhar Dissertação submetida a Universidade Federal da Paraíba como parte dos requisitos necessários para obtenção do grau de mestre do Programa de Desenvolvimento e Meio Ambiente área de concentração Gestão Ambiental. APROVADA: 13 de dezembro de 2011 João Pessoa, Paraíba ~ IV ~ Dedicatória Em memória a meu pai que me ensinou que amar é um verbo sem categoria cujo tempo extrapola a urgência e a espera. A minha irmã Maria Cristina ... ~V~ Agradecimentos Agradeço a minha família, sobretudo a minha mãe, que soube em momentos difíceis e de passagem compreender meu distanciamento. Ao programa de bolsas da CAPES que possibilitou os meus estudos no PRODEMA/UFPB. A todos os esportistas e gestores de esporte de natureza, particularmente, Badeco e aos ciclistas de mangabeira com quem pude conversar mais tempo e foram co-autores, muitas vezes invisíveis do trabalho de reflexão. Aos professores do PRODEMA da Universidade Federal da Paraíba-UFPB pela ampla aprendizagem que me ofereceram ao longo destes dois anos de estudo, em particular a coordenadora e professora Dra.Maristela de Andrade Oliveira por sua colaboração nas primeiras leituras do meu trabalho. A professora Dra. Alicia Ferreira Gonçalves que com simplicidade, liberdade e criatividade soube sabiamente encontrar os caminhos para me conduzir a este momento. Espero que este convívio de um ano trilhe para uma longa amizade. Aos amigos que de longe não se furtaram em me oferecer carinho nesta etapa de transição de minha vida. A amiga Magna Célia Jacinto e seu companheiro prof. Dr. Gabriel Trindade pelo convívio e as boas conversas ao longo de caminhadas no Seixas. As minhas tias Conceita e Zezinha pela inesquecível visitinha e ainda que distante não deixasse de me oferecer bons papos por telefone e me fizeram me sentir mais próxima de todos. A amiga e nadadora Márcia Azevedo pelos seus e-mails tão cheios de recordações alegres num momento tão difícil de sua luta contra o câncer. ~ VI ~ Ao amigo paraense e professor emérito da Universidade Federal do Pará Dr. Manuel Ayres que num gesto de generosidade me enviou seu livro de Bioestat 5.0 e me deu ótimas dicas de estudo. A professora Dra. Belinda Pereira da Cunha e sua filha Ana Luiza pelo carinho com o qual me acompanharam nas primeiras adaptações a cidade e no início do curso do mestrado. Aos colegas do mestrado, em particular, João Paulo e Caio, pelas risadas e conversas filosóficas. Aos professores Layse Mattos, Alessandra G.C Ferreira, Jamaci Gomes Chagas que muito colaboraram nas correções e opiniões sobre os questionários e foram parceiros quando tentava conciliar o mestrado com a coordenação pedagógica do Centro Educacional Felipe Tiago Gomes. Ao professores Rômulo Reis, Rodolfo Gonçalves de L. Freire e aos estudantes Brenda e Everton do Ensino Médio pela confiança e colaboração na edição do vídeo e novas aprendizagens sobre a história da cidade e em informática. Por último, não poderia deixar de agradecer, a dois companheiros inseparáveis de pés de mesa, Naiobi e Pequeno. Com eles aprendi, no usufruto da praia do Seixas, e, nas muitas horas de estudo, que as palavras se tornam desnecessárias quando os vínculos oferecidos pela natureza e sobrepõem as hierarquias de seres superiores e inferiores, racionais e irracionais. ~ VII ~ E os cheiros dos cajus e da maresia Vão mesclando numa só memória A cidade e a minha vida. Sônia M N B de Sá ~ VIII ~ RESUMO Esta dissertação tem como objeto o esporte de natureza e sua relação com a cidade de João Pessoa. Ela se estruturou sob três eixos básicos: a sustentabilidade, as políticas públicas e o direito a cidade. O objetivo da pesquisa foi verificar, analisar e compreender como ocorre a inter-relação entre os esporte de natureza, as políticas públicas e sociais no espaço urbano, e como modalidade esportiva se articula com o conceito de sustentabilidade econômica, ambiental e social, de modo a efetivar o direito a cidade. Nesta perspectiva, a pesquisa respondeu a três hipóteses: a) verificar se há correlação entre a gestão dentro dos esportes de natureza e a formulação das políticas públicas desportivas de forma a cooperar na construção da sustentabilidade, particularmente, nos critérios relacionados a saúde, vulnerabilidade social e cuidado ambiental; b) verificar se os gestores de esporte de natureza conhecem os princípios que norteiam os conceitos de uma sociedade sustentável e por último, c) verificar se os programas de políticas públicas em esporte de João Pessoa não favorecem as práticas de esporte de natureza por não possuírem subsídios sobre os potenciais destes na cidade como indicadores de qualidade de vida. A metodologia da pesquisa se delimitou a: Levantamentos bibliográficos, questionário com questões abertas e fechadas e entrevistas semi-estruturadas. Dentre os principais questionamentos estavam: Os problemas que os esportistas enfrentam no uso cotidiano da cidade e como estabelecem redes e atuam para se fazer ouvir e ampliar suas perspectivas no que diz respeito às políticas públicas e, o modo como ocorrem as parcerias entre público e privado na organização destas modalidades. Pelos resultados constatou-se que, muitas das dificuldades encontradas são vivenciadas pela população em geral quando se pensa em oportunidades, transporte e segurança. Alguns problemas estão relacionados ao contexto específico da cidade de João Pessoa, reflexo do Estado e da região nordeste. As análises indicaram a potencialidade da cidade nas modalidades pesquisadas, com ênfase na questão ambiental, e valorizara natureza que ainda compõe o cenário da cidade. Isso exige atenção para a educação ambiental e inserção dos desfavorecidos socialmente. Estas questões foram auferidas dentro dos diversos programas de esportivos para comunidade quase sem participação do Estado. Destaque para a formação de grupos associativos e sua rede de solidariedade formada ao longo de anos, mesmo extra-competição como é o caso de alguns grupos de corrida, caminhada, mbk. Os valores de solidariedade e a cooperação são fundamentais quando se pensa em risco e segurança. A partir dos resultados surgiram algumas sugestões de melhorias extensivas a população em geral por compreender o espaço público, diferente dos esportes que ocorrem em áreas privadas. O sentimento de pertencimento presente nos esportistas lhes dá o desejo de aqui permanecer e junto ao aparato de Estado construir processos de sustentabilidade dentro das dinâmicas das cidades. Longe de ser tarefa fácil, exige compromisso político dos esportistas e da sociedade propondo de forma participativa os limites aos projetos urbanos e desenvolvimentistas que pautados, exclusivamente, na especulação imobiliária e crescimento econômico perpetuam a segregação social. Palavras-chave: Sustentabilidade. Políticas públicas. Esporte de natureza. Direito a cidades. ~ IX ~ ABSTRACT This thesis is the result of a study of Sport of Nature and its‟ effect in the city of João Pessoa. For this reason, it´s based on three main issues: sustainability, public policy and the well being of the city. The goal of this research was to investigate, analyze and understand the inter-relation between the practice of Sports of Nature, public and social policies in the urban environment, and how this type of sport is linked to the concept of sustainability economic, environmental and social, in order to maintain the city`s rights. Based on this proposal, the research sought to answer three hypotheses: a) Check for a correlation between the form of management within Sports of Nature and formulation of public sports policies in order to effect a construction of sustainability; b) Check if Sports of Nature managers know the basic principles that guide the concept necessary for a sustainable society and finally, c) Check if the public policy programs in the sports of João Pessoa do not favor the practice of Sports of Nature, because they lack potential benefits offered by the city as indicators of quality of life. The research methodology was limited to: literature review, a questionnaire with open and closed questions and semi-structured interviews. Among the key questions guiding the study were: The main problems that athletes face in everyday usage of the city and establish networks to be heard and their perspectives in sport with regard to public policies and how they develop partnerships, both public and private during the organization of these modalities. Based on the results it was found that, when it comes to opportunities, many of the difficulties are the same ones faced by the population in general such as, transport and safety. Many of the problems are related to the specific make up of the city of João Pessoa, which is a reflection of the state and the region in which it´s part of. On the other hand, the analysis pointed to the potential of the city in the practice of these modalities, including environmental issues, to generate a strong sense of belonging and desire to care for, and preserve, the nature. This generates a focus on the environmental education and social inclusion for the less fortunate. It´s worth mentioning that the formation of associative groups that weave a network of solidarity even when out of competitive circuits, as is the case of some groups of marathon, walking, mbk . This valuable solidarity and cooperation become fundamental when one thinks about risk and safety. From the results and analysis there are some suggestions for extensive improvements in the general population to understand the public. The feeling of belonging to these sports gives them the desire to stay here, and to seek with the state, apparatus to build sustainability into the process dynamics that are typical of cities. It requires strong political commitment of the athletes of nature and society in a participatory manner by proposing limits and putting brakes on urban and development projects which are based solely on speculation and economic growth by increasing the gap of social segregation. Key words: sustainability, public politics, Sports of Nature, right to the cities. ~X~ RESUMEN Esta tesis tiene como objeto el deporte de naturaleza y su relación con la ciudad de João Pessoa. Se estructuró bajo tres ejes básicos: la sustentabilidad, las políticas públicas y el derecho a la ciudad. El objetivo de la investigación fue verificar, analizar y comprender como ocurre la inter-relación entre el deporte de naturaleza, las políticas públicas y sociales en el espacio urbano y, como modalidad deportiva se articula con el concepto de sustentabilidad económica, ambiental y social, de forma a hacer valer el derecho a la ciudad. En esta perspectiva, la investigación respondió a tres hipótesis: a) verificar se existe correlación entre la gestión en los deportes de naturaleza y la elaboración de las políticas públicas deportivas de forma a cooperar en la construcción de la sustentabilidad, puntualmente, en los criterios relacionados a la salud, vulnerabilidad social y cuidados ambientales; b) verificar si los gestores del deporte de naturaleza conocen los principios que orientan los conceptos de una sociedad sustentable y; c) verificar se los programas de políticas públicas deportivas de João Pessoa no favorecen a la práctica de deportes de naturaleza por no poseer subsidios a las potencialidades que estos deportes ofrecen en la ciudad, como indicadores de calidad de vida. La metodología de la investigación delimitada fue bibliográfica, utilizó como instrumentos cuestionario con preguntas abiertas y cerradas y entrevistas semiestructuradas. Entre las principales preguntas estaban : Los problemas que enfrentan los deportistas en el uso cotidiano de la ciudad y como se establecen las redes y actúan como forma de ser escuchados y ampliar sus perspectivas con respecto a las políticas públicas y la forma como ocurre la asociación entre lo público y lo privado en la organización de estas modalidades. Por los resultados se constató que, muchas de las dificultades encontradas son experimentadas por la población en general cuando se trata de oportunidades, transporte y seguridad. Algunos problemas están relacionados con el contexto específico de la ciudad de Joao Pessoa, un reflejo del Estado y de la región Nor Este. El análisis indica el potencial de la ciudad en las modalidades investigadas, con énfasis en la cuestión ambiental, y valorizar la naturaleza que todavía constituyen el paisaje de la ciudad. Esto requiere la atención a la educación ambiental y la inclusión de las personas socialmente desfavorecidas. Estas cuestiones han sido obtenidas dentro de los diversos programas de deportes para la comunidad, casi sin participación estatal. Destaque para la formación de grupos asociativos y su red de solidaridad formada a lo largos de años, incluso fuera de la competición como es el caso de algunos grupos para carreras, caminar, MBK. Los valores de la solidaridad y la cooperación son esenciales cuando se piensa en el riesgo y la seguridad. A partir de los resultados surgieron algunas propuestas de mejora para la población en general por comprender el espacio público, diferentes de los deportes que se realizan en las áreas privadas. El sentimiento de pertenencia en los deportistas les da el deseo de permanecer aquí y junto con al aparato del Estado construir procesos de sustentabilidad dentro de las dinámicas de las ciudades. Lejos de ser una tarea fácil , exige un compromiso político de los atletas y de la sociedad de una manera participativa, proponiendo límites a los proyectos urbanos y de desarrollo que guiado exclusivamente por la especulación inmobiliaria y el crecimiento económico perpetúan la segregación social. Palabras clave: Sustentabilidad. Políticas públicas. Deportes de naturaleza. Derecho a las ciudades. ~ XI ~ LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 Gráfico 2 Gráfico 3 Gráfico 4 Gráfico 5 Gráfico 6 Gráfico 7 Gráfico 8 Gráfico 9 Gráfico 10 Gráfico 11 Gráfico 12 Gráfico 13 Gráfico 14 Gráfico 15 Gráfico 16 Gráfico 17 Gráfico 18 Gráfico 19 Gráfico 20 Gráfico 21 Gráfico 22 Gráfico 23 Gráfico 24 Gráfico 25 Gráfico 26 Gráfico 27 Gráfico 28 Gráfico 29 Gráfico 30 Gráfico 31 Gráfico 32 Gráfico 33 Gráfico 34 Gráfico 35 Gráfico 36 Gráfico 37 Gráfico 38 Gráfico 39 Gráfico 40 Distribuição do gênero nos segmentos de gestores, esportistas e máster Relação de Gênero e Esporte de Natureza Anos de Escolaridade Tipo de Trabalho de Esportistas Masters Profissões dos Esportistas Masters Profissões dos Gestores Distribuição da Faixa etária O espelho dos esportistas O Espelho dos esportistas masters Vida Sexual e Esporte Motivação para a prática dos Esportes de Natureza Relação Corporeidade e Saúde Requisitos obrigatórios para atuar em projeto desportivo Organização do Esporte de Natureza Opções de locomoção para treinamento Local que pratica esporte de natureza Uso dos Espaços Públicos para esportistas Uso do espaço público e privado Turno da prática do esporte de natureza Comparação de Freqüência das práticas entre master e esportistas Segurança de esporte em área pública Percepção dos gestores sobre Esporte de natureza e meio ambiente Consciência Ambiental do esportista em geral Relação master e Esportista com o meio ambiente Esporte de Natureza e Geração de emprego Parcerias no programa de esporte de natureza Uso de recursos financeiros Fonte de recursos financeiros Fatores que interferem no planejamento Relações de mercado, qualidade de vida e valores Formas de ascensão ao cargo de gestão Fatores que interferem na gestão Diretrizes e Metas de Planejamento Participação da Comunidade Participação em Grupos Políticos Forma de participação política Potencial dos esportes de natureza Forma de pagamento entre master e Esportista Relação entre Infraestrutura e esporte de natureza Relação entre eventos esportivos e cidade de João Pessoa ~ XII ~ 92 94 96 99 100 101 103 105 106 110 112 115 136 137 140 142 143 146 147 148 151 156 156 159 165 168 172 175 177 177 181 186 187 189 191 192 195 198 200 201 LISTA DE FIGURAS Figura 1 Figura 2 Figura 3 Figura 4 Figura 5 Figura 6 Figura 7 Figura 8 Figura 9 Figura 10 Figura 11 Figura 12 Figura 13 Figura 14 Figura 15 Figura 16 Figura 17 Figura 18 Figura 19 Figura 20 Figura 21 Figura 22 Figura 23 Figura 24 Figura 25 Figura 26 Figura 27 Figura 28 Figura 29 Figura 30 Figura 31 Figura 32 Figura 33 Figura 34 Figura 35 Figura 36 Figura 37 Figura 38 Figura 39 Figura 40 Mapa de localização do Estado da Paraíba Vista panorâmica de João Pessoa Daniel e fabrico de prancha Rita palestrando sobre tartarugas urbanas Travessia picãozinho Sr.Jackson- Vovô do caiaque Escolinha de surf Guajiru Equipe de bombeiros Marina Ciclismo Gestor de Kytesurfe Macarrão e grupo de MBK Jackonias ciclismo Sandra e Selmi caminhadas Dr.Fernando corredor master Amigos de Esporte de natureza da praia do Seixas Mosaico sobre Espaço Público e Esporte de Natureza Mosaico sobre Ambiente Natural, Espaço Público e EN Aluilson gestor natação Badeco e Família Djarlan instrutor surf Helena MBK Vista da cidade de João Pessoa Mapa dos Parques e áreas verdes Meio Ambiente e MBK Áreas de conservação da Mata Atlantica e zoneamento esportista Sr. Jackson caiaque Mosaico Esporte de natureza e geração de emprego Grupos de jovens praticantes de surf Aluilson Daniel Marina Jackonia Badeco e filho Tartarugas urbanas Praia do Seixas Caiaque confeccionado por Daniel MBK Confecção de caiaque Sonhos de uma cidade Tatuagem ~ XIII ~ 28 29 36 71 71 79 98 100 100 109 113 114 116 122 133 142 144 150 150 153 153 154 155 159 161 165 168 171 173 173 173 189 189 190 195 199 198 202 203 210 LISTA DE QUADROS QUADRO I QUADRO II QUADRO III QUADRO IV QUADRO V QUADRO VI QUADRO VII QUADRO VIII QUADRO IX Itens que compõem questionários Dos entrevistados Gestores Dos entrevistados esportistas Aspectos qualitativos para QV Participação feminina no esporte de natureza Relação Esporte de Natureza e Saúde Valores presentes na sociabilidade, organização e autoestima A questão da segurança Programas sociais e esporte de natureza 35 37 38 64 95 117 118 152 170 LISTA DE TABELAS TABELA 1 TABELA 2 TABELA 3 Zoneamento dos esportistas por vizinhança de bairros Distribuição de maior participação dos esportistas por bairros Percentual de participação dos esportistas por bairros 125 125 126 LISTA DE MAPAS MAPA 1 MAPA 2 MAPA 3 MAPA 4 MAPA 5 Estado da Paraíba Vista aérea de João Pessoa Localização de maior concentração de Esportistas por habitantes Mapa dos parques e áreas verdes na cidade Área de conservação de Mata Atlântica e zoneamento do esportistas 28 29 127 155 161 LISTA DE ESQUEMAS ESQUEMA 1 ESQUEMA 2 ESQUEMA 3 Prioridades nos programas de gestores de esporte de natureza Classes Sociais e esporte de natureza Aspectos que interferem na gestão ~ XIV ~ 169 178 182 LISTA DE SIGLAS APA ACOR ANPED ASCORPA BID CBCE ÁREA DE PRESERVAÇÃO AMBIENTAL ASSOCIAÇÃO DOS CORREDORES DE RUA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO ASSOCIAÇÃO DOS CORREDORES DA PARAIBA BANCO INTERAMERICANO DE DESENVOLVIMENTO COLÉGIO BRASILEIRO DE CIÊNCIA DOS ESPORTES CBD CONFEDERAÇÃO DO DESPORTO BRASILEIRO CEBS COMUNIDADE ECLESIAIS DE BASE CEDES CENTRO DE ESTUDO DE EDUCAÇÃO E SOCIEDADE CEMAM CONSELHO ESTADUAL DE MEIO AMBIENTE CMMAD COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO COI COMITÊ OLÍMPICO INTERNACIONAL COM ECA ECO-92 EMPRETEC EN FGV IBAMA COMITE OLÍMPICO NACIONAL ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE MEIO AMBIENTE EMPREENDIMENTO E TECNOLOGIA ESPORTE DE NATUREZA IBGE INDESP FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS INSTITUTO BRASILEIRO DE MEIO AMBIENTE E RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA INSTITUTO NACIONAL DO DESPORTO IPEA INSTITUTO DE PESQUISA MBK MOUNTAINBIKE MINISTÉRIO DO ESPORTE ME MMA MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE ~ XV ~ ONG ORGANIZAÇÃO NÃO GOVERNAMENTAL ONU ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS OSCIP ORGANIZAÇÃO DA SOCIEDADE CIVIL DE INTERESSE PUBLICA PND PNUD QV SEBRAE SEMA SESC POLÍTICA NACIONAL DO DESPORTO PROGRAMA DE DESENVOLVIMENTO DAS NAÇÕES UNIDAS QUALIDADE DE VIDA SERVIÇO DE APOIO A MICRO E PEQUENAS EMPRESAS SECRETARIA ESPECIAL DO MEIO AMBIENTE SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO SESI SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA SUDEMA SUPERITENDÊNCIA DO MEIO AMBIENTE SUDENE SUPERINTENDÊNCIA DO DESENVOLVIMENTO NORDESTE UNIDADE DE CONSERVAÇÃO AMBIENTAL UCS UNICAMP DO UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS UPAS UNIDADES DE PRESERVAÇÃO AMBIENTAL WHOOQOLBREF WORLD HEALTH ORGANIZATION QUALITY OF LIFE GROUP ~ XVI ~ SUMÁRIO LISTA DE GRÁFICOS LISTA DE FIGURAS LISTA DE QUADROS, TABELAS, MAPAS E ESQUEMAS LISTA DE SIGLAS APRESENTAÇÃO .................................................................................... 19 1 O PERCURSO METODOLÓGICO.................................................................... 28 1.1 Da Coleta de dados .................................................................................. 29 1.2 Da Amostra .............................................................................................. 30 1.3 Material e Equipamentos ......................................................................... 33 1.3.1 Dos Questionário ...................................................................................... 33 1.3.2 Das Entrevistas ........................................................................................ 35 1.3.3 Dos Equipamentos .................................................................................... 38 2 A INSTITUCIONALIZAÇÃO DAS POLÍTICAS DE SUSTENTABILIDADE: O CASO DO DESPORTO ....................................... 40 3 CIDADES SUSTENTÁVEIS E CIDADES DE DIREITO .... ........................... 51 3.1 Cidade de João Pessoa: um pouco de história ......................................... 56 4 NOVAS TRILHAS NA PAISAGEM DA CIDADE DE JOÃO PESSOA: SUSTENTABILIDADE, POLÍTICAS PÚBLICAS E ESPORTE DE NATUREZA ................................................................................................ 67 5 NAS TRILHAS DAS PRÁTICAS DO ESPORTE DE NATUREZA: MATAS, RUAS E PRAIAS DA CIDADE DE JOÃO PESSOA..... ................................. 90 5.1 Do Gênero ................................................................................................ 90 5.2 Escolaridade e Trabalho ........................................................................... 96 5.3 Faixas Etárias ............................................................................................ 102 5.4 Percepção de si dos esportistas, valores e saúde ....................................... 105 5.5 Mercado e meio ambiente ......................................................................... 119 5.6 Território .................................................................................................. 122 5.7 Associativismo ou comunidade cívica ...................................................... 130 ~ XVII ~ 6 COM PEDAIS, REMOS E PRANCHAS, OS ESPORTISTAS 133 REDESENHAM A CIDADE DE JOÃO PESSOA ....................................... 6.1 A dinâmica dos esportes de natureza em João Pessoa e Lei Ordinária 133 12.395 .................................................................................................... 6.2 O Espaço Público.................................................................................... 139 6.2.1 O espaço Público e acessibilidade aos Esportes de natureza. ................. 139 6.2.2 O espaço Público e acessibilidade Econômica. ....................................... 142 6.2.3 O espaço Público e instalações para Esportes de natureza. .................... 146 6.2.4 Espaço Público e segurança .................................................................. 148 6.3 Meio Ambiente e Educação Ambiental ................................................. 154 6.3.1 Área de Preservação ambiental e esporte .............................................. 160 6.3.2 Impacto Ambiental e Esporte de natureza............................................. 162 6.4. 165 Emprego e Geração de Renda ............................................................... 6.4.1 Geração de Renda e Programa de Inclusão social .................................. 165 6.4.2 Recursos Financeiros: Recursos públicos e privados.............................. 172 6.5 176 Planejamento e Gestão dos Esportes de natureza................................... 6.5.1 Participação Política, Gestão e Planejamento.......................................... 180 6.5.2 Condições para gestão ............................................................................ 185 6.6 Organização e Forma de participação política......................................... 190 6.6.1 Participação em grupos políticos ............................................................ 190 6.6.2 Forma de participação política................................................................. 192 6.7 Cidades, Equipamentos e Eventos de natureza...................................... 194 6.7.1 Acessibilidade e Esporte de natureza ..................................................... 197 6.7.2 Forma de Pagamento entre master e esportistas...................................... 198 6.7.3 Relação entre Infraestrutura e eventos de esporte de natureza............... 199 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................... 204 REFERÊNCIAS....................................................................................... 212 APENDICES ANEXO ~ XVIII ~ APRESENTAÇÃO Caminhando pelas ruas da cidade de João Pessoa, percebo uma movimentação de vários esportistas. É o corredor, é o ciclista, é o grupo que após ter marcado encontro por email começa a nadar em mar aberto. São 6 horas da manhã. Na praia do Bessa, um homem ou uma mulher, não sei, de longe é apenas um silhueta que aproveita o vento e o mar e por meio de manobras e da agilidade corporal faz a união da água com o céu. Paro e aprecio este bailarino anônimo que faz com sua prancha de kite o tempo pausar em minha mente. Assim começo a criar um novo cenário da cidade na qual vivo atualmente. O trabalho de dissertação que apresento é fruto de uma pesquisa sobre os esportes de natureza e a relação entre os seus praticantes e a cidade de João Pessoa. Na perspectiva da constituição cidadã de 1988 e nas propostas de sustentabilidade visando uma nova organização social e econômica globalizada, é mister se pensar o desporto como um direito e como um campo de ação que possibilita dividendos sociais e econômicos. Isso quando amalgamado ao campo das políticas públicas pode favorecer a diminuição da desigualdade social e a melhor inserção dos jovens em uma nova forma de se pensar o meio ambiente, a educação, os valores e a saúde. Este movimento em prol de uma melhor simetria nas oportunidades e possibilidades de vida da população teve seus alicerces construídos com maior profundidade a partir da década de 90, em vários eventos, tais como: Conferência do Meio Ambiente e Desenvolvimento do Rio de Janeiro, conhecida como ECO 92, Conferência dos Direitos Humanos de Viena (1993), Conferência das Mulheres de Beijing (1995) e Conferência sobre Assentamentos Humanos- Habitat II de Istambul (1996), a maioria deles comprometidos com a sustentabilidade. Todos estes eventos, os quais o Brasil foi signatário e, portanto, co-responsável em seus avanços possui o compromisso político com as propostas e agendas estabelecidas no sentido de fortalecer a participação popular e, sobretudo, a democracia, não só no âmbito das instituições, como também nas experiências vivenciadas informalmente e nas relações cotidianas. No bojo de todos os pontos abordados está a questão dos direitos humanos expressa na Constituição Brasileira, nos Direitos Fundamentais da Organização do Estado, no Capítulo do Meio Ambiente e no Capítulo da Política Urbana. Para este trabalho, o ponto de partida e referencial legal foi a Constituição Federal Brasileira de 1988, elaborada pela Assembléia Nacional Constituinte que consolidou entre os 20 seus Direitos Fundamentais o da prática ao Esporte e ao Lazer que serão detalhados no Título VIII da Ordem Social, especificamente no Capítulo III, seção III. E como resultado dos avanços constitucionais surgiu os Ministérios do Meio Ambiente, dos Esportes e das Cidades. A inovação desta constituição também se fez presente quando foi incluída a valorização do Meio Ambiente em um capítulo específico sobre tal, a preservação dos recursos naturais, incluindo nesses a vida da fauna e da flora em seus respectivos ecossistemas. E a valorização da Política Urbana, incluindo neste, um conjunto de princípios e responsabilidades do Poder Público no que diz respeito aos cidadãos e a sua relação com as cidades. Tantos nos países desenvolvidos e mais ainda nos países subdesenvolvidos, hoje, chamados periféricos, há uma necessidade preeminente da inserção em seus projetos de desenvolvimento, os quais possuem inúmeros vieses, um olhar aguçado sobre os problemas das assimetrias de poder e de oportunidades, o que gera um profundo desequilíbrio no contexto das sociedades. Além disso, há a questão da degradação ambiental que associado a miséria produz malefícios à saúde da população. Estas questões citadas acima ocorrem nos espaços das cidades e diz respeito aos modelos hegemônicos do que se chama desenvolvimento e dos modelos urbanísticos. É na cidade que os direitos individuais e coletivos acabam por se materializar, já que é no seu interior e nas suas diversas formas de convivência, de valores e no seu complexo modo de produção que a vida acontece. Como analisado por Rodrigues (2007), a cidade como direito busca qualificar um modo de vida, fundamentando-se no cotidiano e no processo de se criar uma cidade possível construída na realidade e na universalização de uso. O direito a cidade implica enfatizar a promoção, o respeito, a defesa, e a realização dos direitos civis, ambientais entre outros garantidos nos instrumentos regionais e internacionais dos Direitos Humanos (Carta Mundial pelo Direito a Cidade, 2006). Assim, a Constituição de 1988, quando analisada como um todo e dentro do contexto do direito internacional, garante, pelo menos enquanto princípio, maior participação da sociedade e seus diversos segmentos - as organizações não governamentais, os diversos movimentos sociais e as comunidades - nas discussões das pautas da governança.Também garante a intervenção, quando necessária do Estado para diminuir lacunas e distorções na busca das garantias dos direitos coletivos e individuais. Nesse sentido, muitos dos problemas e programas de Estado dizem respeito aos direitos de terceira geração, isto é, ao que é entendido dentro do patrimônio de um bem comum que enfatiza a importância de um ambiente sadio e ecologicamente equilibrado. 21 De um lado, tem-se a política macroeconômica do Brasil que se orienta pela cartilha do neoliberalismo. Por outro lado e cada vez mais, o país é chamado para responder aos compromissos globais e locais a fim de um direcionamento de desenvolvimento que minimamente possibilite a sustentabilidade das gerações presentes e futuras. Isto além de paradoxal é conflitante, mas reflete o retrato de uma sociedade e de um Estado cujo destino sempre foi traçado pelas elites políticas e econômicas aliadas aos interesses externos ao da nação e da pátria brasileira. Ianni (2005, p. 9) ao analisar a conjuntura da América Latina, incluindo nesta o Brasil aponta para o paradoxo acima, ... A América Latina parece uma e única, em sendo realmente múltipla e invertebrada, buscando-se contínua e reiteradamente nos espelhos da Europa e dos Estados Unidos da América do Norte, do tradicionalismo e da modernidade, do capitalismo e do socialismo. Um laboratório em constante ebulição, sem nunca configurar-se nem realizar-se plenamente. Gonçalves (2006, p.40), seguindo a mesma linha de raciocínio, afirma que a despeito das teorias que afirmam a autonomia do Estado na determinação dos rumos da política econômica da nação, o estado-nação e os processos sociais a ele associados seguem também as determinações de organismos transnacionais. No caso do esporte podemos citar as determinações da FIFA (Federação Internacional das Associações de Futebol), no caso especifico da Copa do Mundo de 2014 e do COI (Comitê Olímpico Internacional), no caso das Olimpíadas. Para que a sociedade brasileira alcance a qualidade de vida será necessário compreender a cidade como direito estendido ao direito de liberdade de associação, de segurança, de privacidade e que o meio ambiente seja adequado a saúde física e mental. Assim, ao longo dos anos, cada vez mais se torna necessário a intervenção do Estado para atenuar as desigualdades locais e regionais por meio de dois dos seus instrumentos mais poderosos: as políticas públicas e as políticas sociais. Partindo dos vários direitos citados acima, esta pesquisa fez a opção por integrar três conceitos importantes para o processo de construção do direito a cidade que são: o conceito de sustentabilidade, o esporte de natureza e as políticas públicas. Esses conceitos vêm ao longo da última década ampliando as discussões sobre as cidades, em suas diversas dinâmicas e perspectivas. Com relação aos esportes na sua organização estrutural e prática cotidiana pressupõem a defesa dos valores de sustentabilidade presentes na Agenda 21 do Movimento 22 Olímpico1 no qual o esporte está a serviço da harmonia do homem, da paz e da preservação da dignidade humana. Em um dos seus aspectos mais relevantes situa-se o cuidar ambiental, que presente nas diretrizes esportivas do Plano Regional do COI, CON e PND2 propõe uma série de incentivos as novas tecnologias esportivas menos poluidoras como: uso de reciclados, educação para o consumo esportivo, uso de energia de forma consciente, além de salvaguardar os espaços para as práticas de esportes tradicionais em comunidades locais. As diretrizes acima favoreceram a escolha das modalidades esportivas de natureza, como aquelas que, pelas suas próprias características, possivelmente apresentam aspectos que mais se amoldam as propostas de sustentabilidade, seguindo os valores de cooperação, coesão de grupo, cultura cívica, política e ações coletivas. Castells (1978) e Putnam (2009), ao se referir e má valorização social citam a participação popular, as formas de gestão e as percepções de normas e regras como fundamentos para se construir uma sociedade que tenha como fim o respeito à pessoa que fundamenta os direitos humanos. Não se pode deixar de analisar o esporte enquanto potencial social e econômico amplamente reconhecido não só pelos Estados como também pelo mercado. O conceito de cidade sustentável foi definido por Alva (1997) e por Martinelli (2005) como espaços reorganizados que permitem gerir novas economias externas, eliminar as deseconomias de aglomeração, melhorar a qualidade de vida das populações e superar as desigualdades sócio-econômicas para o crescimento econômico. Para Martinelli (idem), apesar das criticas sofridas a este conceito devido aos projetos de desenvolvimento que acarretam degradação ambiental nas cidades e forte concentração humana gerando inúmeros déficits nos serviços, ainda assim, o conceito de cidade sustentável é um processo de constante busca de direitos, o qual fica subtendido o direito à terra urbana, à moradia, ao saneamento ambiental, à infra-estrutura urbana, ao transporte e aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer, para o presente e futuras gerações. Para tal as cidades com mais de 20000 habitantes são obrigadas a possuir seu Plano Diretor, que inclui as políticas necessárias ao desenvolvimento econômico e social e os instrumentos necessários a implementação das mesmas. Ele passa por revisão periódica de cinco em cinco anos, prazo estabelecido pela Lei Orgânica no Artigo 240. O No título IV, Capítulo I, seção V, p.25, o plano diretor traça diretrizes para o esporte na cidade, a saber: do art. 67 até o art. 70. Neles, estão relacionados o apoio do Poder Publico Municipal ao desenvolvimento e prática do esporte, particularmente, a do esporte amador. 1 2 COI – Movimento deflagrado após a ECO92 pelo Comitê Olímpico Internacional CON E PND – Comitê Olímpico Nacional e Plano Nacional de Desporto 23 O local escolhido para o estudo foi à própria cidade de João Pessoa, capital da Paraíba. O Estado da Paraíba possui uma área de 56.439 Km² com seus 223 municípios, grande parte destes incluídos na região semi-árida. Faz limite ao norte com o estado do Rio Grande do Norte, ao sul com Pernambuco, ao Leste com o Oceano Atlântico e a Oeste com o Ceará. Sua capital é João Pessoa que se localiza no litoral. Cidade turística, conhecida mundialmente por ser o extremo oriental das Américas, “Lá onde o sol nasce primeiro”, há uma mata atlântica nativa que cobre em torno de 20% da área urbana do município. Nacionalmente reconhecida por sua beleza natural, pelo seu patrimônio histórico, pelas suas condições climáticas e localização geográfica torna-se bastante atrativa para aqueles que apreciam os esportes de natureza. A procura por este tipo de prática reforça a valorização do discurso ecológico e de alguns símbolos de consumo ligados à natureza: aventura, risco, bucólico, selvagem, verde e inóspito. Como citado por Dias (2004) a relação entre esportes e meio ambiente funciona como uma espécie de propulsor às ações esportivas. Daí a compreensão de que é na sua “territorialidade” que reside uma das principais originalidades destes esportes. Além disso, eles promovem uma expansão dos espaços esportivos da cidade. Também Melo (2009) aponta para a explosão do crescimento dos esportes de natureza nos últimos trinta anos no mundo como uma busca por novas formas de ressignificar a corporeidade, modo de vida e saúde. O esporte por ser um bem cultural é, portanto um direito social, que sofre alterações ao longo das histórias das sociedades. Na sociedade moderna, por exemplo, o esporte representa os valores culturais regidos pela especialização, tecnicismo, valorização do rendimento e do individualismo. Na atualidade, o esporte possui forte vínculo com os movimentos ecológicos e isto se reflete na forte pressão que as gestões públicas das cidades sofrem para garantir minimamente a possibilidade da prática de esporte de natureza urbana. A crescente democratização da prática desportiva em quase todos os lugares do mundo, como apontado num estudo sobre saúde e prática desportiva na Finlândia, decorre em virtude das preocupações com a sustentabilidade do planeta, o que gera novos hábitos e comportamentos de consumo. No entanto, para que haja possibilidade de se concretizar novas formas de melhoria na reorganização das atividades esportivas, com largo alcance para a população e em sua relação com a organização das cidades, o Estado, as organizações não governamentais e a sociedade civil organizada precisam fazer com que as políticas públicas, particularmente as desportivas, sejam geridas por um novo modelo de gestão propiciando uma maior democratização nas formas de participação política, social e cultural. 24 Neste sentido, o problema central desta pesquisa é refletir sobre a relação entre cidade sustentável, esporte de natureza e políticas públicas e buscar compreender como no espaço concreto das cidades é possível se construir redes de relações institucionais e pessoais de forma a se modelar práticas que garantam melhor equidade social para a população como um todo. Nisto se inclui a gestão das políticas desportivas, entre eles, os de natureza, pois estes, para serem de fatos incorporados no cotidiano das cidades precisam de equipamentos, instalações e espaços adequados, além da acessibilidade das pessoas a estes esportes e aos espaços públicos. Pensar equipamentos e espaços públicos urbanos propícios a determinadas práticas de esporte requer repensá-los como parte das diretrizes políticas de educação, cultura, transporte, saúde e meio ambiente. Dentro deste horizonte, a problemática está em analisar como os esportes de natureza se estruturam e estão articulados às políticas públicas e sociais da cidade de João Pessoa; e de que forma estas práticas esportivas promovem ações afirmativas que garantam melhoria da qualidade de vida e diminuição da desigualdade social no contexto de construção permanente de uma cidade sustentável. Esta pesquisa justifica-se à medida que os esportes de natureza, por possuírem características peculiares que os distingue dos esportes em ambientes fechados, propiciam aos seus praticantes a possibilidade de uma nova relação entre a vida urbana e a natureza, como ainda ocorre em cidades como João Pessoa. O que possibilita uma mudança de atitude quanto ao conceito de vida saudável, já que com o desenvolvimento desordenado da vida urbana há um estresse decorrente do trabalho e de aceleração no ritmo imposto na vida diária das pessoas. Nesse sentido, os esportes, particularmente os de natureza, por serem praticados ao ar livre abrem um espaço, um tempo, uma brecha que permite a vivência de outra experiência de vida dentro do próprio cotidiano. Assim, imbuído de um novo valor eles se tornam um bem necessário ao próprio conceito de cidadania. Outro aspecto a considerar sobre a prática dos esportes de natureza é que estes trazem para a vida cotidiana a possibilidade do usufruto dos espaços públicos, o que o potencializa como um dos meios esportivos mais promissores de diminuir segregações na prática de esporte e do lazer vinculando-os em definitivo aos valores da sustentabilidade social e ambiental. Desta forma, a prática dos esportes de natureza, no cenário de beleza natural e de cidade intermédia – João Pessoa, a capital Paraibana - pode vir oferecera possibilidade de melhoria na qualidade de vida da população, tendo como alavanca a interferência do Estado 25 por meio de políticas públicas. Para tanto, busco neste trabalho aprofundar o conhecimento sobre quem são os praticantes de esporte de natureza e como eles estabelecem os vínculos entre si e a cidade de João Pessoa. Neste sentido, esta dissertação tem como objetivo geral, verificar, compreender e analisar como se constrói a relação entre os praticantes dos esportes de natureza com os espaços reservados para essas práticas, associadas às políticas públicas e sociais, bem como o modo que essa relação se articula com o conceito de sustentabilidade econômica, ambiental e social. Para que o mesmo seja alcançado, outros objetivos mais específicos foram traçados, tais como: 1. Traçar o perfil dos esportistas de algumas modalidades dos esportes de natureza e analisar em que medida esta atividade relacionada à política desportiva local e nacional participa na construção de uma cidade mais sustentável e vinculada à melhoria do bem-estar da população; 2. Analisar se as políticas públicas desportivas, inclusive as de natureza, seguem os critérios de sustentabilidade estabelecidas nas diretrizes básicas do COI, CON, PND que são: democratização, garantia dos direitos sociais, inserção dos jovens em algum tipo de sistema produtivo e luta contra exclusão social; 3. Compreender a relação esporte e cidade como um direito: oferta de equipamentos e democratização da gestão pública. Como forma de se pensar as diversas relações entre esportistas de natureza, cidade sustentável e políticas públicas, recorri à construção de três hipóteses que serão confrontadas com os dados obtidos e analisados nos capítulos 5 e 6, são elas: (I) Há uma correlação entre a forma de gestão e a formulação das políticas públicas desportivas de forma a cooperar na construção de uma sustentabilidade urbana, particularmente nos critérios de: melhoria das condições de saúde da população, redução dos índices de vulnerabilidade social entre os jovens, aumento da interação e inserção social, geração de novas perspectivas de inclusão no sistema produtivo e mercado, educação para o uso do espaço coletivo e cuidado ambiental e aumento da participação no processo de gestão democrático. 26 (II) Os gestores públicos desportivos, em João Pessoa, desconhecem os Princípios Fundamentais que norteiam os conceitos necessários a uma sociedade sustentável e suas relações com o esporte. (III) Os programas de políticas públicas de esportes, em João Pessoa, não favorecem as práticas desportivas, inclusive as de natureza por desconhecimento dos potenciais que a cidade oferece para a prática destes como indicadores de qualidade de vida. Esta dissertação está estruturada em uma apresentação e seis capítulos. Na apresentação, situa-se o cenário dos esportes de natureza na cidade de João Pessoa tendo como perspectiva a Constituição Cidadã de 1998 e as reflexões sobre a relação entre os esportes de natureza, políticas públicas e a cidade como direito. Ademais, elencaram-se os objetivos gerais e específicos, a justificativa e as hipóteses que nortearam este estudo. O primeiro capítulo descreve o percurso metodológico traçado neste estudo sobre os esportes de natureza e a cidade. O segundo capítulo aborda o marco constitucional de 1988 quando por meio da Assembléia Constituinte se buscou a construção de uma Constituição mais democrática e voltada para a justiça social. Percorreu-se a trajetória histórica da política brasileira e desportiva deste momento denominado de Nova República e as contribuições para o panorama desportivo atual inserido no contexto da sustentabilidade e da Agenda 21 do Movimento Olímpico. O terceiro capítulo analisa o conceito de cidade dentro do enfoque da sustentabilidade e, principalmente, de cidade como Direito tendo como referência os trabalhos de Rodrigues (2005, 2007) e as análises do modelo político patrimonialista de Maricatto (2006) no qual se assenta nossa estrutura de poder, que se reflete na própria concepção de cidade, inclusive da cidade de João Pessoa e no modelo de democracia brasileira. O quarto capítulo conceitua os esportes de natureza e os insere no contexto das cidades e das políticas públicas em João Pessoa refletido dentro da construção de um processo de sustentabilidade da capital paraibana. O quinto e o sexto capítulos mostram as reflexões e as análises dos dados obtidos durante a pesquisa, buscando responder as diversas problematizações da estruturação e prática dos esportes de natureza, tendo como princípios norteadores o esporte e a cidade como direitos garantidos constitucionalmente. 27 Isso implica nas análises da relação entre iniciativa privada e ação pública dentro do que se compreende como políticas públicas e programas de governo. Estas reflexões e análises permitem possíveis considerações para melhoria dos esportes de natureza na cidade de João Pessoa. Assim, a presente pesquisa tem como eixo condutor a busca da cidadania e o direito como forma de garantir um novo patamar no processo de democratização e a uma maior equidade no usufruto de uma vida citadina mais saudável. 28 1 – SOBRE O PERCURSO METODOLÓGICO Entre os meses de janeiro a julho de 2011, foi realizada uma pesquisa de campo quantitativa e qualitativa de caráter exploratório na cidade de João Pessoa, capital da Paraíba, buscando estabelecer um cenário sobre a prática de esportes de natureza nesta cidade. A localização geográfica do estado da Paraíba pode ser observada no mapa 1. Figura 1 – Estado da Paraíba. Fonte: http://www3.di.ufpb.br/svr2008/site/imagens/paraibamapa.gif Acesso em 04/11/2011 às 22h15min. No mapa do estado da Paraíba como pode ser visualizado acima, observa-se em vermelho a capital João Pessoa, cidade onde a pesquisa foi desenvolvida. Os esportes de natureza relacionados ao ambiente praieiro desta cidade - surf, kitesurf, canoagem, natação – são praticados na orla pessoense, precisamente entre a Ponta do Seixas – localizada no bairro Cabo Branco – e o início da praia de Intermares – localizada no município de Cabedelo. O mapa 2 mostra a vista panorâmica da orla de João Pessoa, desde a Ponta Extrema de Cabo Branco até a praia de Manaíra. . 29 Figura 2 – Vista aérea de João Pessoa Fonte: http://ibajp.br.tripod.com/tour.htm. Acesso em 04/11/2011 às 22h17min. 1.1. DA COLETA DE DADOS A pesquisa foi dividida em três etapas: A primeira constou de um levantamento bibliográfico e documental – a partir da Constituição e dos comentários produzidos pelos atores sociais que atuaram durante a Assembléia Constituinte - que abrangeu o processo histórico de construção da Constituição de 1988 e as discussões sobre os conceitos: desenvolvimento e cidade sustentável, cidade como direito, esporte de natureza e políticas públicas. A segunda etapa consistiu da aplicação de questionário com perguntas fechadas e abertas e entrevistas qualitativas que foram transcritas e posteriormente analisadas. Os dados obtidos formaram um banco de dados tabelados e registrados no programa BioEstat.5.0. A partir destes dados foram confeccionados gráficos para cada bloco de tópicos, gráficos estes utilizados para as análises através dos percentuais apontados. A terceira etapa consistiu nas análises de dados dos questionários e das entrevistas. Para os testes estatísticos foram utilizados os percentuais e as análises comparativas entre os três segmentos. Relacionaram-se as atividades de esporte de natureza que mais possuem capacidade de gerar dinâmicas sociais 30 positivas, particularmente nos indicadores de inclusão social, tais como geração de renda e emprego, gênero, programas sociais, analisando a relação entre visão de esporte e valores dos gestores públicos do esporte. Para tal, foram coletados por meio de questionários com questões abertas e fechadas dados sobre o perfil dos esportistas de algumas modalidades de esporte de natureza, doravante EN, na cidade de João Pessoa. As modalidades selecionadas - corrida, surf, kitesurf, ciclismo, moutainbike (MTB), natação, triathlon e canoagem - para a pesquisa aproximam-se das modalidades conceituadas por Melo (2009) e incluem: mobilidade, contato direto com a natureza, aventura e risco. Além destas, outras modalidades foram acrescentadas, como: futebol e voleibol de areia, devido a informações fornecidas voluntariamente pelos próprios entrevistados. Estas novas informações apontadas pelos agentes da pesquisa fazem parte de uma técnica de amostragem conhecida como bola de neve. À medida que se aplica questionários, os sujeitos da pesquisa começam a indicar outros pares e outros eventos, informações novas que fornecem subsídios para outros tipos de análise até que se atinja o "ponto de saturação teórico". Este "ponto de saturação" é atingido quando os novos respondentes começam a repetir as informações dadas. Este método segundo Garcia (2010), Madeira (2005) facilita a aprendizagem sobre uma população desconhecida, como é o caso desta amostra de esporte de natureza. 1.2. DA AMOSTRA Com relação à amostra, ela foi aleatória ou randômica dentro de cada modalidade dos esportes de natureza selecionados e que a princípio são os de maior possibilidade de serem praticados na cidade. A quantidade da amostra foi baseada, empiricamente, no número médio de corredores das competições realizadas em João Pessoa, por esta ser a modalidade de natureza mais popular. Num evento de corrida, em geral, esta média varia entre 150 a 300 corredores. Uma amostra entre esses números pode fornecer um número expressivo de esportistas, sendo possível esboçar o perfil destes, independente das especificidades dos esportes. No entanto, é importante lembrar que, as escolhas para as práticas das modalidades passam por aspectos valorativos, características biológicas, sociais, econômicas e culturais que não permitem a homogeneidade ou a criação de um perfil ideal de esportista. 31 A amostra constou ao todo de três segmentos envolvidos com o esporte de natureza: (a)Segmento formado por 20 esportistas com idade entre 12 a 24 anos, ou seja, que ainda estão inseridos numa primeira etapa de juventude; (b) Segmento formado por 130 esportistas master com idade entre 25 e mais de 70 anos, que já estão inseridos em um contexto social diferenciado, possuindo maior autonomia de escolhas; e por fim o segmento (c) formado por 19 gestores. A amostra foi composta de 169 sujeitos- pesquisados para o preenchimento dos questionários. Na amostra qualitativa foram entrevistados 25 sujeitos, sendo 10 gestores e 15 esportistas de natureza. A idade variou, neste caso, entre 16 e 66 anos. Consideraram-se esportistas, aqueles que praticam esporte de natureza de forma regular e sistemática, pelo menos, duas vezes por semana, não necessariamente para fins competitivos, podendo a atividade ser praticada para manutenção da saúde ou por prazer. Esta divisão entre os esportistas permitiu diferenciar os adolescentes ou jovens dos adultos em função das diferentes necessidades fisiológicas, emocionais e financeiras, tendo os adolescentes, de modo geral, menor autonomia. De acordo com Gáspari e Schwartz (2001, p.107): ... Adolescentes, cujos interesses e expectativas encontram-se em constante processo de transição e, contraditoriamente, são permeados por estereótipos que lhe conferem atitudes socialmente impostas... É a transitoriedade dessa etapa da vida humana, na fragilidade que o caracteriza por estar fora da cadeia produtiva e como pessoa que ainda não sedimentou hábitos, atitudes e valores esperados pela sociedade. Já os master, categoria atribuída nesta pesquisa conforme o modelo adotado em algumas modalidades esportivas como natação, seriam aqueles esportistas adultos, com idade acima de 25 anos, cujo processo de crescimento e desenvolvimento foi praticamente concluído e que a princípio possuem mais independência financeira e social. As faixas etárias nesta categoria foram adaptadas para esta pesquisa variando não de cinco em cinco anos, mas de nove em nove anos, estendo-se até acima de 70 anos. Segundo Nina e Assumpção (2009, p.4) ...o esporte master apresenta-se como uma alternativa diferenciada de observação do processo de envelhecimento, na medida em que o universo esportivo alicerça-se em valores relacionados à competição, à superação de limites, a comparação de rendimentos, a um agonismo que renuncia à acomodação comportamento estreitamente ligado a quem envelhece. 32 O artigo de um dos mais respeitados fisiologista do esporte brasileiro, Cláudio Gil Soares de Araújo (2002, p.3), mostra o quanto é significativa as diferenças entre adolescentes e adultos na prática do esporte. Define, assim, o esportista master: Dentro da concepção original, o atleta master seria aquele, de idade mais alta, que competiria apenas com seus pares da mesma a faixa etária. Sendo assim, o termo parece ser mais apropriadamente aplicado para aqueles que se encontra com pelo menos 40 anos de idade, sendo ainda mais específico para o grupo de idosos competidores, que são normalmente agrupados por faixas etárias delimitadas por intervalos de cinco em cinco anos, na maioria das modalidades desportivas. Apesar de o autor considerar 40 anos a idade que mais diferencia o esportista máster, o critério mais usado no Brasil é a partir dos 25 anos. Como o trabalho de pesquisa não visa à análise fisiológica ou de rendimento do esportista, optou-se por seguir o modelo de divisão master a partir dos 25 anos. Outro aspecto importante é que ambos os pesquisadores acentuam o aspecto competitivo do esportista master. No entanto, não há vínculo com o resultado do desempenho, mas sim em participar de forma regular das atividades competitivas. Quanto ao segmento de gestores esportivo, ele foi definido a partir do trabalho de Borragine et ali (2010), como aqueles atores sociais que serão capazes de responder civilmente perante sua associação ou órgãos públicos pelo planejamento e condução das modalidades esportivas de natureza. Para tal, terão que ter competência em: conhecimento específico da área, negociação, planejamento, tomada de decisão, conhecimento jurídico da área esportiva capacitação para recursos financeiros, relações humanas e valores éticos nas relações tais como: responsabilidade, respeito, honestidade. O levantamento do perfil e das percepções dos gestores esportivos está associado à reflexão e análise da hipótese dois deste trabalho que diz respeito à relação entre os gestores e os Princípios Fundamentais que norteiam os conceitos necessários a uma sociedade sustentável tais como: qualidade de vida, preservação ambiental e políticas públicas voltadas para infra-estrutura, direito a cidade, patrimônio cultural, mais igualdade social, entre outras. 33 1.3. DO MATERIAL E EQUIPAMENTOS 1.3.1 Do questionário Para a realização da pesquisa foi confeccionado três modelos de questionários de acordo com os segmentos a serem estudados (esportistas; esportistas máster; gestores). Os questionários tinham por objetivo traçar o perfil dos entrevistados e como eles percebiam a realidade do esporte de natureza e sua relação com diversos aspectos da sustentabilidade tais como: promoção social e qualidade de vida na cidade de João Pessoa. Os questionários aplicados foram diferenciados em razão dos segmentos citados acima. Na sua primeira página, havia uma carta-explicação com breve resumo do objetivo do mesmo e a sua aprovação pelo Comitê de Ética do Hospital Universitário da UFPB em 14 de dezembro de 2010, protocolo nº 744/10 e CADE Nº 0574.0; 126000-10 (ver em anexo I, cópia da certidão) e também, uma lista de procedimentos simples de como preenchê-lo. Os entrevistados foram informados sobre o uso de suas imagens e gravações e autorizaram por escrito o uso das mesmas. Os itens dos questionários apresentavam questões de sim ou não, respostas livres, múltiplas escolhas e questões mistas. Como a aplicação do mesmo foi presencial em 90% dos casos, as dúvidas foram tiradas na hora e as observações foram feitas no próprio questionário. Foi feita uma amostra piloto num total de quinze (15) para conferir a clareza e acolher sugestões para sua melhoria. O tempo médio para a resposta dos questionários dos esportistas variou entre 15 e 25 minutos. De modo geral, as respostas dos gestores foram as mais demoradas variando entre 30 a 40 minutos. Algumas questões, aparentemente, traziam repetições em seus itens, mas o contexto da questão diferenciava a razão de sua repetição. Também ficaram registradas algumas dúvidas que envolviam a precisão conceitual. Na análise do próprio questionário quando aplicado a um público de esportista eclético a questão da linguagem, particularmente das definições apontaram para a problemática da questão conceitual. Por exemplo, na estruturação do questionário, algumas questões foram pensadas e inseridas numa lógica dual, tal como: barato/claro, popular/elite, coletivo/individual, próximo/ distante. No entanto, dependendo das subjetividades e do contexto social de quem respondia, as interpretações tomavam rumos diferentes o que ampliava as possibilidades de respostas. Para resolver o problema, os informantes podiam comentar suas respostas com base em sua compreensão do conceito e com a relação deste 34 com sua vivência. Naquelas que isto não foi possível ser feito, as dúvidas foram retomadas nas entrevistas. No caso dos esportistas ou gestores que apresentavam dificuldades na leitura do questionário, esta foi feita oralmente e as respostas preenchidas pelo próprio aplicador. Durante a aplicação, assuntos que surgiram e que eram consideradas relevantes ao trabalho eram anotadas no verso do questionário com a autorização verbal do entrevistado. As questões sobre qualidade de vida foram formuladas baseadas no questionário WHOQOL-Bref e na pesquisa realizado pelo grupo de saúde coletiva/epidemiologia e atividade física da Unicamp. No entanto, como o trabalho envolve itens sobre cidades e políticas públicas e, como não foi encontrado equivalente nos trabalhos anteriores, foram criados alguns novos itens relacionados a estes tópicos. No final de sua elaboração, o questionário apresentou as seguintes subdivisões: Esportistas I. Dados pessoas, Escolaridade, local de moradia; II. Atividade Esportiva, III. Relação entre esporte e qualidade de vida; IV. Esporte e Família grupo social; V. Esporte e Corporeidade; VI. Esporte e Meio Ambiente; VII Esporte e Cidade, VIII. Esporte e Emprego, IX. Esporte e Gênero e X. Esporte e Direitos Sociais. Esportistas Master: I. Dados pessoas, Escolaridade, local de moradia; II. Atividade Esportiva, III. Relação entre esporte e qualidade de vida; IV. Esporte e Família grupo social; V. Esporte e Corporeidade; VI. Esporte e Meio Ambiente; VII Esporte e Cidade, VIII. Esporte e Emprego, IX. Esporte e Gênero e X. Esporte e Direitos Sociais. Gestores: I. Dados Pessoais, Escolaridade, II. Relação com cargo de gestor, Planejamento, III. Relação do Esporte com instituições públicas e privadas, parcerias, IV. Recursos para gestão, cidades e esporte de natureza, V. Relação Estado e esporte, VI. Meio ambiente e esporte e VII. Políticas públicas e esporte. Neste questionário um item foi posteriormente anulado (tempo de deslocamento) por não ter relação direta com o assunto. Observe o quadro I abaixo: 35 ESPORTISTAS MASTER Dados Pessoais Dados Pessoais Atividade Esportiva Atividade Esportiva Relação esporte e qualidade de vida Relação esporte e qualidade de vida Esporte e Grupo Social Esporte e Grupo Social Esporte e Corporeidade Esporte e Corporeidade Esporte e Participação Política Esporte e Meio Ambiente Esporte e Cidade Esporte e Cidade Esporte e Emprego Esporte e Emprego Esporte e Gênero Esporte e Gênero Esporte e Direitos Sociais Esporte e Meio Ambiente GESTOR Dados Pessoais Relação com cargo de gestor Planejamento Relação do esporte com instituições públicas e privadas parcerias Recursos para gestão Cidade e esporte de natureza Macro políticas e esporte Relação Estado e esporte Organização do esporte Programas esportivos Meio ambiente e esporte Total de subitens: 47 Esporte e Políticas Públicas Esporte e Políticas Públicas Total de subitens: 65 Total de subitens: 44 QUADRO I- Itens que compõem os questionários aplicados Fonte: SMNBS, pesquisa de campo, 2011. 1.3.2 DAS ENTREVISTAS: As entrevistas foram realizadas com o objetivo apreender e compreender melhor a realidade esportiva dos praticantes de esportes de natureza e com isto aprofundar as análises dos dados obtidos a partir dos questionários. Para tal foi considerado os diversos pontos de vista de cada entrevistado, e posteriormente traçado um paralelo com as respostas já obtidas nas análises dos questionários. A amostra para as entrevistas foi por julgamento. Neste tipo de amostra o pesquisador, define conforme seu julgamento, os indivíduos que melhor representam o universo pesquisado. 36 Ao todo foram realizadas 25 entrevistas, ou seja, 15% da amostra total sendo: (10) gestores das seguintes modalidades: canoagem (2), natação (1), surf (2), kitesurf (1), ciclismo (1), MBK (2) e sendo (3) novos gestores, e (15) esportistas em geral: corridas (2), caminhantes (2), aquathlon (1), triatleta (1), ciclista (1), MBK (4), canoagem (1), surf (3), sendo (8) novos. Mais uma vez por indicação dos entrevistados foi incluída entre as falas, as análises de gestor e esportista relacionado à canoagem, como pode ser observado na figura 1. Figura 3. Daniel e o fabrico de caiaques Fonte: SMNBS, 2011. Elas foram feitas de modo geral, nos locais das práticas das atividades ou no espaço de trabalho do pesquisado a pedido deste. As perguntas, neste caso, partiam do histórico esportivo do esportista, sua percepção de como o esporte de natureza se relacionava com o seu modo de vida, a relação dos esportes de natureza com as políticas públicas, destacando-se: a) Infraestrutura: espaços públicos (ruas, estradas), segurança, mobilidade, acessibilidade, eventos, política social e participação política b) Relação esporte e meio ambiente; c) Esporte de natureza e a relação destes com o meio ambiente e com a cidade. De modo geral elas tiveram uma duração de 45 a 50 minutos. O tempo total foi de aproximadamente 510 minutos, ou seja, oito horas. As transcrições foram feitas por um graduando de ciências sociais, o estudante Hector Ferreira Gonçalves Scuratto Abdal. A edição de um mini documentário no total de 18 minutos foi elaborada em conjunto com os alunos do Ensino Médio Brenda e Everton Batista Correia e a professora de História Layse Mattos, todos do Centro Educacional Cenecista Felipe Tiago Gomes, localizado na Avenida Souto Maior em João Pessoa. 37 Os entrevistados – gestores e esportistas - com seus respectivos tempos de esporte e modalidades estão nos quadros II e III a seguir. O período das entrevistas foi entre os meses de junho a agosto do ano corrente. Gestores Tempo de Dados Pessoais experiência Surf 6 anos Canoagem 10 anos Presidente da Federação de Canoagem da Paraíba e trabalha com fabrico de barcos. Empresário Diretor de águas abertas da Associação master de natação e Professor da APCEF. Funcionário Público aposentado Natação Gestor do Projeto Arnaldo Badeco escolinha de Surf. Funcionário Público Surf Vice-presidente da Federação de ciclismo e diretor técnico de ciclismo. Funcionário Público Ciclismo e Mountainbike (MBK) Fundador do Grupo Copas Médico cirurgião e professor universitário da UFPB; Caminhadas e Corrida de Rua Local:Cabo Branco Gestor e co-fundador do grupo MBK raios do Sol, Empresário do ramo alimentício Fundador e gestor de Kitesurfschool. É instrutor certificado IKO MBK Local: Tambaú Secretario da juventude e esporte. Vereador pelo PSDC Nomeado por RC Secretaria de Esporte e juventude. (55 anos) Aluilsson Costa (56 anos) 8 anos 20 anos Arnaldo Badeco (38 anos) Paulo Pereira Souza de 5 anos (46 anos) Fernando Carvalho (60 anos) Joaquim Sales Filho (padeiro) (55 anos) Guilherme (Guiga) (42 anos) 30 anos 8 anos 10 anos 2 anos João Corujinha local das entrevistas Doutora em Zoologia, bióloga-cofundadora da ONG Guajiru e coordenadora do projeto Tartarugas urbanas e Projeto Escolinha do surfista Tia Lenira. Professora pesquisadora Voluntária em zoologia da UFPB Rita Mascarenhas (48 anos) Roberto Antonio da Silva Modalidade Esportiva e Quadro II – Dos entrevistados: gestores Entrevistador (a): Sônia Maria Neves B. de Sá, 2011 Local: Intermares Local: Ponta do Seixas Local: (mar) Águas abertas Local: Bessa Local:Altiplano Kitesurfe Local: Bessa 38 Esportistas Alvimar Maia Tempo de experiência 4 anos (44 anos) Marina Palmeira Sobral 8 anos Odontóloga e dona de uma pousada 10 anos (50 anos) Luiz Antonio Militar das Forças Armadas (56 anos) Sandra Profissão Advogada e servidora pública 10 anos Piloto da Força Aérea 40 anos Professor de (52 anos) Jackson (63 anos) –Vovô do canoagem e de judô caiaque José Edmilson 6 anos Mecânico de bicicleta 6 anos Mecânico de bicicleta Marconi 10 anos Professor De História Daniel 10 anos Pescador 6 anos Bombeiro Militar 8 anos Motoboy de Farmácia (32 anos) Jakonia (35 anos) (28 anos) Santana (45 anos) Djarlan (34 anos) Paulo Fernando Instrutor de surf 5 anos (56 anos) Helena Metalúrgico aposentado 4 anos Estudante universitária 1 ano Estudante Ensino (24 anos) Ítalo (16 anos) Marco Alexandre Fundamental 10 anos (59 anos) Quadro III – Dos entrevistados: esportistas Fonte: SMNBS, Pesquisa de campo 2011 Aposentado e operador de caldeira Modalidades Kitesurfe Triathlon Pedestrianismo Corredor de rua Canoagem MBK Ciclismo MBK Canoagem Triathlon Surfista Esportistade natureza MBK Kitesurf Corredor de rua 39 1.3.3 DOS EQUIPAMENTOS Os equipamentos utilizados para os registros das entrevistas e das imagens foram um gravador da marca Sony profissional, modelo ICD-PX 820; uma filmadora da marca Samsung, modelo C200, referência SMX –C200 BN/XAZ e uma máquina fotográfica Samsung digital L830 resolução 8.1megapixel, memória 10MB, sensibilidade ISSO: 3200. Zoom ótico 3.0X. Espera-se se poder traçar o perfil dos esportistas de natureza e dos atuais gestores nas modalidades estudadas, bem como, mapear os programas esportivos que estão de algum modo relacionado às políticas públicas e sociais atuantes em João Pessoa (JP), de forma a oferecer subsídios para:  Melhor controle social das políticas públicas direcionadas às atividades relacionadas aos esportes de natureza;  Construir um quadro dos programas e projetos de esportes de JP, situando os possíveis beneficiários, quando se pensa em gestão de política pública desportiva para uma cidade sustentável;  Adequar programas de esporte ao potencial ambiental e social de JP inclusive fornecendo subsídios para os projetos já inseridos no plano diretor e urbanístico da cidade de João Pessoa na perspectiva de cidade sustentável;  Desmistificar as práticas de esporte, inclusive, os de natureza como direito quase exclusivo de uma pequena classe social economicamente privilegiada.  Servir de referência para outros estudos que ampliem e fomentem novas informações para melhor programar as políticas públicas tendo como prioridades o meio ambiente, os anseios da população e a cidade de João Pessoa. No capítulo seguinte será abordado o marco constitucional a partir do qual o desporto, inclusive, de natureza se insere na política pública como uma política de Estado. 40 2. A institucionalização das políticas de sustentabilidade: o caso do desporto [...] a descoberta da fome que fiz na infância, nos alagados de Recife onde convivi com os afogados deste mar de miséria [...] (Josué de Castro. Homens e caranguejos) [...] sinto imensa alegria em ver as pessoas saírem daqui satisfeito e sentindo bem-estar. (Djarlan, instrutor voluntário de surf) Uma das características marcantes do cenário brasileiro é sua enorme desigualdade social e econômica, presente, inclusive, entre as regiões geográficas do país. Isto está explicitado nas obras do renomado economista Celso Furtado. Este pensador entendia ter o Brasil se modernizado em torno de seu parque industrial, mas destacava que isto fora feito com a maioria do nosso povo na miséria ou sem acesso as mínimas oportunidades. No seu discurso na sede do Banco do Nordeste no ano de 2000, quando propõe a recriação da SUDENE5 diz: “A política econômica praticada tradicionalmente em nosso país criou uma sociedade com graves distorções e sujeita a crises intermitentes de balança de pagamentos externos.” (FURTADO, 2000, p.210). Apesar de o Brasil ter sua economia consolidada entre as maiores do mundo, ou seja, o seu inegável crescimento econômico, particularmente entre 1930 e 1950. O forte salto para a industrialização não ocorreu, de forma paralela com o desenvolvimento sociopolítico e isto se torna um entrave para consolidação dos direitos sociais constitucionais agravados durante o período de1964 até o início da consolidação da abertura política em meados da década de 1980. Na década de 1980, em todo o território brasileiro começam movimentos pró eleições diretas. O contexto em que este desejo se estabelece está delimitado por uma economia debilitada, desgaste do governo militarista e, sobretudo, a crescente desigualdade social e econômica gerada por um modelo político e econômico fortemente centralizador e controlado pelo Estado. Em síntese, o Estado apresenta um quadro de instabilidade. 5 SUDENE – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste. É um órgão autárquico recriado em três de janeiro de dois mil e sete, por lei complementar, com sede em Recife que abarca os noves estados do nordeste, extremo norte de MG, Vale do Jequitinhonha e norte do ES. Sua missão é promover o desenvolvimento includente e sustentável e a integração competitiva de sua área de atuação na economia nacional. 41 Para Sampaio (2008), o que de decisivo ocorreu nos anos 1980, precedente à Constituição, foi justamente a inviabilização da construção de um projeto nacional na periferia do sistema. As imagens midiáticas apontam para inúmeras manifestações de rua e as greves se tornam rotineiras nos períodos de negociações. Uma grande parcela da classe média se manifesta em prol de mudanças e término do que ficou conhecido como “anos de chumbo”. Milhares de pessoas, liderados por líderes estudantis, sindicalistas, artistas e políticos progressistas, tais como: Tancredo Neves, Franco Montoro, Orestes Quércia, Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, Petrônio Portella, Ulysses Guimarães, e por alguns resistentes movimentos populares, como a Pastoral da Terra, reforçam os slogan das Diretas Já, projeto de 1983 do então deputado estadual do PMDB Dante de Oliveira. Dentro do movimento sindical destacam-se as lideranças de Luis Inácio Lula da Silva (CUT) e Joaquinzão (CGT). Posteriormente, Lula será um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) e Mário Covas do Partido Social Democrático Brasileiro (PSDB) uma dissidência do PMDB. O projeto requeria mudança no texto constitucional para que se realizassem as eleições diretas para Presidente da República. Esta emenda que, dentro de um Congresso Conservador, passou despercebida foi encampada por grande parte dos movimentos políticos e congregou uma enorme força social passando a ser conhecido como Movimento pelas Diretas Já. Apesar de derrotado, em abril de 1984, um comício no Rio de Janeiro, em frente à Candelária contou com mais de um milhão de participantes. Posteriormente foi superado por outro comício em frente à Praça da Sé, em São Paulo, com a participação de um milhão e quinhentas mil pessoas. Como um fato raro na história do Brasil, a sociedade vai às ruas e abre alas para a construção de uma nova relação entre sociedade e Estado, culminando com a formação da Assembléia Constituinte instalada em 1986. Sob a batuta do deputado Ulysses Guimarães – PMDB - a Constituinte se estruturou, majoritariamente, com uma composição conservadora (dos deputados e senadores constituintes, 306 pertenciam ao PMDB, 201 aos partidos conservadores, liderados pela União Democrática Ruralista – UDR - e apenas 50 aos partidos de esquerda). Mesmo assim, o texto final propiciou a sociedade muito mais condições de transformação do que a permanência no status quo vigente. Isto foi mais fruto das articulações dos movimentos populares, dos movimentos sociais organizados e no dizer de Ulysses Guimarães: “... a 42 Constituição traz em seu bojo o sopro de gente, de rua, de praça, de favela, de fábrica, de trabalhadores” (Pilatti, 2011). Plínio de Arruda Sampaio (op. cit.) também rememora este rico momento político: “A Constituição não começou com um texto pronto – Ela começou com 24 comissões temáticas que deviam chamar as pessoas do povo, ouvi-las e acolher as emendas populares. Nesse momento aconteceu algo inédito, decisivo: o povo acreditou e foi para o Congresso. Tínhamos uma média de 30 mil pessoas por dia. Os corredores foram inundados, assim como os gabinetes dos deputados. Topávamos com delegações a todo o momento. Foi à primeira vez, por exemplo, que as prostitutas fizeram uma delegação para exigir seus direitos. Foi a primeira vez que os gays foram à constituinte para exigir os seus direitos também. Todos foram; inclusive ministros do Supremo Tribunal Federal. A diferença é que os ministros do Supremo não iam para o Plenário, mas sim para o gabinete do Ulysses Guimarães. Foram também generais, carteiros, marinheiros e outros.” Quando promulgada em 1988, a Constituição Federal Brasileira ficou conhecida como uma Constituição Cidadã. Hermany (2007, p.91) reforça este entendimento, pois segundo ele, a Constituição de 1988 ao consagrar a ideia de Estado Democrático de Direito como princípio fundamental, serve para compatibilizar Estado e Sociedade e consolida uma ordem jurídica de integração social. Ou seja, não é apenas o Estado o construtor de direitos, mas a sociedade por meio da sociedade civil organizada é co-participe. Silva (2010) aponta este caráter cidadão da Constituição nas garantias que são dadas aos cidadãos em forma de direitos de natureza social e civil. Estas garantias se espalham ao longo de vários artigos e em vários Títulos diferentes. Pode-se citar como referência, o Título II - dos Direitos e Garantias Individuais e com destaque para o capítulo I e II (art.5º a art.11), Título VIII - Da Ordem Social, com destaque pela novidade da inclusão do capítulo VI – Do Meio Ambiente (art.225). Este assunto é tratado sob a ótica do direito difuso ou coletivo que envolve o conceito de Bem Comum. A legislação ambiental começou a ser implantada no Brasil a partir de 1981 com a lei nº 6938 - Política nacional do Meio Ambiente. Ela vai regulamentar e instruir o planejamento, a gestão ambiental e a fiscalização. Atualmente, há toda uma legislação sobre o crime ambiental, inclusive, em relação aos resíduos sólidos. Outro aspecto que não pode deixar de ser citado é a preocupação durante toda a Constituinte com a retomada do desenvolvimento social e econômico, este último, apresentava a época um forte quadro inflacionário e de recessão. No entanto, no conceito de desenvolvimento estará circunscrito a questão da sustentabilidade. Apesar das tentativas de reformas que a constituição vem sofrendo ao longo de mais de vinte anos, como se pode observar em mais de 60 emendas entre o período de 1992 até 2008, ela continua a ser o marco que caracteriza o processo de democratização, ao resguardar a participação popular, facilitar o acesso à justiça, incluir o meio ambiente como bem de 43 todos. Também merece destaque por inovar ao trazer dentro do Título VII – Da Ordem Econômica e Financeira, o capítulo II, voltado para a política urbana, que mais tarde consolidará o Estatuto das Cidades. Sendo o texto constitucional, o espelho de todo o ordenamento jurídico, torna-se importante frisar o papel progressista da Constituição, inclusive, por ampliar o conceito de cidadania para além de um universo restrito a política, e avançar na efetivação dos direitos enquanto garantias civis e sociais. Assim, a primazia no papel democrático da Carta Magna de 1988 foi garantir a inclusão social de milhares de brasileiros que ainda vivem a margem do Estado de Direito e da Justiça, em um quadro de miséria cultural, material e imaterial. Neste sentido, o Título VII, da Ordem Econômica e Financeira, em seu Capítulo I e artigo 170, apontam diretrizes importantes para resguardar um maior equilíbrio entre os interesses econômicos do Estado e privados e os dos cidadãos, como, por exemplo, a existência digna. Como grande marco deste cuidado, surge em 1990, o Código de Proteção e Defesa do Consumidor, Lei nº. 8.078, nos termos dos artigos 5º, XXXII, 170, VII e artigo 48 de suas disposições transitórias. Torna-se relevante frisar esta lei, porque ela respalda em conjunto com a lei ambiental o conceito de coletividade. Essa orientação para o coletivo é importante para a consolidação dos direitos, inclusive os individuais, já que reforçam a ação do indivíduo dentro da esfera social. O Estado brasileiro, ou seja, a sociedade brasileira, precisa nas diversas práticas cotidianas fortalecer o que hoje se constitui o Estado justo, construído no respeito às leis. A Constituição ao propor estruturas de funcionamento para o Estado e ao garantir as diversas manifestações de liberdade social e individual, revigorou o conceito de cidadania, pois esta só tem sentido quando permite ao indivíduo delinear seu projeto de vida sem, no entanto, desvincular-se de seus deveres enquanto ser social, inserido constantemente nos problemas rotineiros de sua comunidade. Nesse contexto, todas as ações públicas afetam direta ou indiretamente a forma de como indivíduo vai ser co-atuante nas administrações públicas e co-atuantes na gestão dos interesses que lhe afetam. No dizer de Hermany (2007, p.151), “a importância do Estado deve-se especialmente em função do papel dos princípios constitucionais como referenciais mínimos capazes de confrontar a atuação da sociedade na perspectiva dialética de atribuição de sujeito ativo no processo de decisões públicas”. Isto implica que todos os espaços para a formação dos atores sociais e seu agir são bem-vindos. Não se trata mais de pensar ou esperar por um Estado paternalista, mas aquele 44 que garante condições reais e profícuas para o desenvolvimento não só do indivíduo, mas de uma coletividade participativa e que implica na expressão dos conceitos de autonomia, dignidade e solidariedade num cotidiano menos violento, mais tolerante e respeito para o que representa o público. É dentro deste contexto que a Constituição no Título VIII - Da Ordem Social inclui o Desporto em seu Capítulo III, na sua seção III, art.217. Esta normatização foi fruto de um esforço histórico. Diversos profissionais relacionadas ao esporte e à educação física durante os finais da década de 70 e dos anos 80 buscaram romper com o paradigma do esporte competitivo e voltado para as questões de segurança nacional que norteavam a política desportiva brasileira desde o Estado Novo. Entre as entidades que lutavam contra um pensamento hegemônico esportivo se destacaram a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPED), fundada em 1976, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), uma das mais antigas entidades científicas do Brasil, em atuação desde 1948 e, o Centro de Estudos Educação e Sociedade (CEDES), criado em março de 1979, na cidade de Campinas – SP. Na área específica da Educação Física, foi criado em 1978, o Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE), que representava nesta época um dos mais importantes centros científicos para pesquisadores e acadêmicos de Educação Física e áreas afins tanto biológicas como sociais. Sua sede situada dentro de São Caetano, em São Paulo, convivia com as fortes discussões sobre os rumos do país, o que acabou possibilitando uma participação política e mais crítica de seus membros. Entre as lideranças críticas para se repensar o modelo desportivo e a educação física orientados para as questões culturais e para o problema da inclusão social, pode-se citar: Apolônio do Carmo (1982), João Paulo Medina (1983), Vitor Marinho de Oliveira (1983 e 1985), Vera Lúcia Costa (1989), Valter Bracht dos filósofos Manuel Sérgio (Portugal) e Silvino Santin (1987). No nordeste vozes se fizeram ouvir nas figuras de Lino Castellani Filho (1983 e 1988), Celi Nelza Zülke Taffarel (1993), Scobar (1993) e Lamartine Costa. Na época, entre os profissionais e acadêmicos ligados ao esporte de rendimento, esta crise foi personificada na figura do renomado professor Dr. Manuel Gomes Tubino (1986) em seus vários debates com outros profissionais, particularmente, com o filósofo Manuel Sérgio; alguns desses debates a pesquisadora teve a oportunidade de presenciar. Esta crise de identidade dentro da Educação Física gerou: inúmeras publicações, revisões dos currículos acadêmicos com a inclusão de várias disciplinas relacionadas às 45 ciências sociais contrabalanceando as tendências biologista da abordagem corporal; buscas de novas teorias e práticas para a educação física e esporte; e o aumento da abordagem interdisciplinar para se compreender os determinantes sociais, políticos e econômicos que marcavam a maneira de se pensar a corporeidade de forma interdisciplinar o que garantiu uma maior democratização dos debates. Como conseqüência deste processo, os esportes, a educação física escolar e a social vão ter seus representantes dentro do Comitê de Esporte durante a Constituinte. O resultado final também seguiu orientações de outras constituições: Portuguesa, Espanhola, Uruguaia e Peruana por já trazerem o esporte em seus textos, como meio de integração e educação social. No final, o Esporte e o Lazer ficaram incluídos dentro do Título da Ordem Social no Capítulo III, seção III, artigo 217 com o caput: Art.217 – É dever de o Estado fomentar práticas desportivas formais e não formais como direito de cada um, observados: I. Autonomia das entidades desportivas dirigentes e associações quanto a sua organização e funcionamento; II. A destinação de recursos públicos para a promoção prioritária do desporto educacional e, em casos específicos, para o desporto de alto rendimento; III. O tratamento diferenciado para o desporto profissional e o não profissional IV. A proteção e o incentivo às manifestações desportivas de criação nacional. Vários desdobramentos de ordem estrutural e hierárquica podem ser observados após a promulgação da constituinte. Um dos mais relevantes, apesar de polêmico à época foi à criação do ministério do esporte em 1999 com o intuito de planejar e fomentar de forma adequada aquilo que a Constituição garantiu como um direito social. O Ministério do Esporte é responsável por construir uma Política Nacional de Esporte. Além de desenvolver o esporte de alto rendimento, o Ministério trabalha ações de inclusão social por meio do esporte, garantindo à população brasileira o acesso gratuito à prática esportiva, qualidade de vida e desenvolvimento humano. (MINISTÉRIO DOS ESPORTES, 2010) 46 Outro desdobramento foi o deslocamento da competência para legislar sobre o desporto que deixou de ser exclusiva da União, passando de acordo com o inciso IX do artigo 24 a ser concorrentes da União, Estados e Distrito Federal. E o último desdobramento a ser destacado é a garantia pela Constituição da descentralização das verbas e dos programas desportivos favorecendo uma maior participação popular. Na prática o projeto desenhado para o Capítulo III seria o reconhecimento do esporte e lazer como um bem, e estes junto às outras políticas sociais promoveriam a inclusão social, principalmente dos segmentos marginalizados, ao propiciar um espaço educativo informal, porém possuidor de um conjunto de regras e valores. Numa definição bastante ampla, pode-se definir o “esporte contemporâneo” como um fenômeno sociocultural cuja prática é considerada direito de todos e contribui, por meio dos jogos, para um convívio humano mais solidário, além de ser um espaço para a criatividade e a expressão da corporeidade. Este conceito justifica ele ter sido tipificado no artigo 6º do capítulo II dos Direitos Sociais e no parágrafo 3º do artigo 217, seção III do Capítulo III, nos seguintes termos: § O poder público incentivará o lazer, como forma de promoção social. Um marco importante para o esporte brasileiro na década de 90 foi a criação da Agenda 21 do Movimento Olímpico, surgido a partir da ECO-92. A agenda fortaleceu a perspectiva social da educação física e do esporte. As diretrizes desta Agenda estão sedimentadas nos princípios da sustentabilidade e estes vão direcionar as metas das Confederações Desportivas em todo o mundo, incluindo o Brasil. Neste período histórico, no campo antropológico social Elenor Kunz (1994) - com sua obra Transformação Didático-Pedagógica do Esporte - e entre os antropólogos brasileiros Jocimar Daólio apud Betti (1995), reforçam a concepção do corpo como uma construção social, portanto, rica em signos e simbologia. Para eles as atividades corporais são vistas como expressão, nos quais fazem parte o jogo, o esporte, a dança, a ginástica. Também não se pode deixar de citar, como mais detalhadamente desenvolvido por Caldeira (2003), a associação do corpo com a ação política, estado de direito e poder. Esses aspectos estão relacionados aos conceitos de disciplina, controle e enclausuramento do corpo. 47 Corpos e direitos civis são sempre conectados, tanto em países como o Brasil como naqueles em que os corpos são circunscritos e os direitos civis respeitados. Na sociedade brasileira, o que predomina é a noção incircunscrita do corpo 6 e do indivíduo... Quando a marcação dos corpos predomina, o respeito aos direitos civis é improvável, apesar de poder haver uma democracia política eleitoral e um respeito relativamente amplo aos direitos sociais. (CALDEIRA, 2003, p. 374) No campo sociológico Nobert Elias (1992) corrobora com a idéia do esporte como um dos maiores fenômenos da modernidade, principalmente por seu potencial agregador, por estar fortemente vinculado ao processo educacional e por vincular-se a área de saúde pública. É importante frisar que o esporte não tem neutralidade política, basta lembrar os acontecimentos das Olimpíadas de 1936 (Berlim), de 1968 (México), de 1972 (Munique) e de 1980 (Moscou) 7 em que pese às contradições de comportamentos preconceituosos e racistas de alguns atletas, de modo geral, os estudos apontam para o papel positivo da prática de desporto, como promotor de inclusão social e solidariedade. Também vale ressaltar o papel político do grande boxeador Cassius Clay que se recusou a lutar na guerra do Vietnã, e contra o racismo. Realizou sua luta mais importante contra George Foreman, no Zaire, onde se tornou ídolo inconteste dos africanos. Posteriormente assumiu a religião islâmica e mudou seu nome para Muhammed Ali.Haj. Foi considerado o desportista do século pela revista americana Sport Illustrated em 1999. Ainda é considerado o maior pugilista de todos os tempos. Sua última grande aparição foi num show para arrecadar fundos para as vítimas do terremoto do Haiti. Na área da saúde preventiva é inegável, com ampla comprovação nas pesquisas, o aspecto benéfico de sua prática, principalmente, as atividades praticadas ao ar livre, para todos os segmentos e faixas etárias, inclusive para os portadores de necessidades especiais. De modo geral, hoje, os programas e as políticas públicas de saúde indicam a prática desportiva, 6 Corpo incircunscrito é aquele corpo desprotegido, lançado à própria sorte em meio à cidade. Nu e exposto. 7 Olimpíada de 1936 – Owell vence no atletismo e Hitler se retira do Estádio. Olimpíada de 1972 (Munique) - o massacre dos atletas israelitas. Olimpíada de 1968 - movimentos dos negros americanos (Panteras Negras). Olimpíada de 1980 (Moscou) - boicote dos EUA e bloco ocidental das Olimpíadas. 48 principalmente, no combate ao sedentarismo, à obesidade, ao uso de drogas, ao uso de cigarros, ao alcoolismo, à pressão alta e à depressão. A agenda 21 do Movimento Olímpico nascida a partir da ECO 92 e alicerçada sobre o conceito de sustentabilidade e da questão ambiental mundial, propugna a atividade física orientada a saúde como parte de um programa de educação desportiva, incluindo, os aspectos nutricionais e os sanitários que dizem respeito a: enfermidades transmissíveis, proteção de grupos vulneráveis e saúde das populações urbanas. A concepção desportiva integradora se aproxima mais do desporto escolar e lúdico do que o do profissional. Pensar o esporte dentro de uma concepção cooperativa é garantir um espaço separado, como foi pensado na constituição entre o esporte profissional, elitista e competitivo daquele praticado por milhares de pessoas na busca de uma qualidade de vida mais saudável. Para se garantir o cumprimento destas aspirações, várias legislações infraconstitucionais como a Lei Zico, Lei Pelé, e por último a Lei de Incentivo ao Esporte, Lei nº. 11.438/06, regulamentado pelo Decreto nº. 6.180/07 foram pensadas. As primeiras se voltaram mais para o âmbito do futebol e a última finalmente, busca, garantir o inciso II ao parágrafo 3º do artigo 217. Conforme se pode observar no enunciado a seguir: Nenhum indivíduo ou conjunto de indivíduos poderá ser alijado do recebimento do necessário fomento à prática da atividade desportiva em todas as suas manifestações. A sociedade civil desportiva organizada será o elo entre o Estado e o beneficiário do direito, tendo em vista que restaria impossível a presença do Estado em cada região ou atividade localizada. (PANHOCA, 2009, p.25). Pode-se perguntar: Qual o alcance desta lei para a questão da democratização desportiva? Um primeiro argumento forte a favor é a maior abrangência na ação de pelo menos três importantes setores sociais: o setor público que teria o papel de fiscalizador e avalista; o setor privado (constituído por sociedades empresariais e contribuintes - pessoas físicas) habilitados para liberar os incentivos e as ONGs na condição de executor que engloba as associações sem fins lucrativos e todas as que cumprem o papel de interesse social. É importante frisar que esta lei tem um caráter transitório de nove anos, portanto, válida até 2015 e não possui intencionalidade de se tornar uma política pública permanente, mas sim alavancar as práticas desportivas tanto educacionais como o de lazer e de rendimento. 49 Como exemplos de programas de inclusão social pelo esporte, estão os executados no morro da Mangueira no Rio de Janeiro e o programa de atividade esportiva de academia inserida dentro das políticas públicas em Belo Horizonte ambos com enorme alcance popular. A Lei do Incentivo ao Esporte, como não poderia deixar de ser, não restringe o seu apoio a determinados tipos de modalidades esportivas, com exceção dos praticados de modo profissional. A busca de recursos pode ser de forma individual, coletiva a qualquer modalidade desportiva: terrestre, aquática, aérea, radical de aventura, de natureza, olímpica, não-olímpica, paraolímpica, etc. Também permite possibilidades para projetos de construções e instalações desportivas, promoção de eventos de natureza desportivos ou o custeio de equipes de rendimento (não profissionais), até os programas de atividades esportivas regulares (núcleos e centros de treinamento). Toda esta movimentação legal em prol do esporte associada com outras ações visa à emancipação da população e em médio e longo prazo a melhoria de sua qualidade de vida. As organizações desportivas devem ajudar a incentivar as instituições públicas relacionadas com o esporte e promover a prática desportiva pelos grupos humanos que, por razões econômicas e de gênero, raça ou casta, dela se excluírem. Tais instituições devem favorecer o desenvolvimento prioritário de infra-estrutura e equipamentos desportivos nas zonas mais carentes ou marginalizadas. A Constituição ao tratar do esporte e do lazer associados à cultura e à urbanização das cidades reconheceu o valor socializador que se projeta na relação homem, cultura e natureza. De acordo com o art.182, que trata da Política Urbana, o desporto indiretamente está associado a um dos bens sociais relacionado ao bem-estar dos habitantes de uma cidade e hoje, de modo geral, está expresso dentro do Plano Diretor das cidades com mais de vinte mil habitantes. No presente, a atividade esportiva e o lazer estão correlacionados às atividades emancipadoras. A população mais consciente do significado da qualidade de vida começa a dar um novo sentido à atividade física como um bem não só relacionado à saúde, mas a um bem-estar social e ambiental. De modo geral, o esporte produz efeitos na auto-estima do sujeito e potencializa a participação. Este complexo quadro de atitudes individuais e coletivas, sustentados por valores democráticos e resguardados como direitos, estão relacionados ao conceito de qualidade de vida que necessariamente remete a uma vasta discussão sobre as cidades e suas 50 divisões de trabalho, suas formas de produção, suas possibilidades de uso de múltiplos espaços, concepções e visões. A riqueza da Constituição de 1988 para o desporto foi institucionalizá-lo como um dos fatores fundamentais para o processo de construção de uma sociedade sustentável. Isto pode ser evidenciado quando garante recursos financeiros da união para o seu desenvolvimento e indiretamente o associa a melhoria de vida dentro dos espaços urbanos. Dentro dos espaços das cidades as práticas desportivas e de lazer se articulam de diversas formas como expressão de elementos culturais e sociais e, portanto, geradores de demandas econômicas e serviços. Eles estão a exigir políticas que permita maior inclusão da população dentro do que se denominou melhor qualidade de vida e da cidade como direito. É sobre esta ótica que será abordado o tema das cidades no próximo capítulo. 3. CIDADES SUSTENTÁVEIS E CIDADES DE DIREITO “As cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas, e que todas as coisas escondam uma outra coisa.” Ítalo Calvino. As cidades invisíveis. O conceito de cidades sustentáveis e o de desenvolvimento sustentável têm uma abrangência interdisciplinar nas quais se inclui a preocupação com as dimensões sociais, éticas, econômicas, tecnológicas, culturais, ambientais, além da qualidade de vida e equidade social. Entretanto, de acordo com Diegues (1996) estes conceitos estão longe de serem consensuais. Para o autor, o conceito de sustentabilidade reconhece a existência de uma grande complexidade na relação sociedade/natureza, pois, nem sempre é possível identificar e compreender de que modo ocorre o entrelaçamento e os limites de uma e outra. Esta relação não conseguiu ser homogeneizada nem no modelo capitalista ocidental e nem pela proposta socialista representada por mais de setenta anos pelo bloco da antiga União Soviética, os países da cortina de ferro, e tampouco, pelo atual modelo de desenvolvimento chinês. Alguns pontos são consensuais como o reconhecimento que a industrialização, os avanços técnico-científicos e o consumo geram impactos profundos na relação sociedade/natureza e que, nos modelos de desenvolvimento pensados até então, a natureza era considerada como uma fonte inesgotável de matéria-prima, e não como sistema vivo com processos e funções próprias. (DIEGUES, 1996, p.14). Rodrigues (2005), diz que a questão urbana e a ambiental estão relacionadas ao sucesso do modo de produção de mercadorias e não a desvios ou fracassos de modelo. Cita, ainda, como base dos problemas ambientais o uso acelerado das riquezas naturais, a questão do progresso pelo avanço de novas tecnologias, o aumento significativo da produção de novas mercadorias e a exacerbação do consumo, que provocam, em larga escala, o uso acelerado dos elementos da natureza utilizados para a produção. A autora ressalta que a questão da sustentabilidade não exclui a realidade das gerações presentes e nem o espaço onde os acontecimentos ocorrem, pois era comum priorizar apenas a questão temporal dos acontecimentos. Segundo ela, “as modificações 52 no espaço estão imbricadas com o ideário de domínio da natureza e a interação da ciência e técnica com a vida cotidiana, e que propiciam a compreensão do tempo/espaço. (RODRIGUES, 2005, p.11). Já em 1980, Henri Lefebvre apud Souza (2009) apontava o espaço enquanto produto social e, portanto, produtor de contradições. Segundo ele, o mundo real é caracterizado por: desigualdades sociais, crises financeiras, fragmentação das ciências, necessidades distintas e, sobretudo, pelo agravamento do conflito entre o capital e o trabalho. Estas questões remetem a uma visão do espaço como um componente dialeticamente definido dentro da economia política. O autor, então, vislumbrava a cidade como o espaço, o lócus de coexistência da pluralidade e das simultaneidades de padrões, da maneira de viver da vida urbana e dos conflitos sociais. Do ponto de vista ambiental, a cidade, também, é o espaço no qual os conflitos natureza e sociedade aparecem sob diversos aspectos, entre eles: mudanças climáticas, grande consumo de água, produção de dióxido de enxofre (chuva ácida), de dióxido de carbono (efeito estufa), de óxido de nitrogênio, de compostos orgânicos voláteis e de partículas, acúmulos de produtos de resíduos sólidos (lixo). Estes elementos, que vão compor os indicadores físicos da sustentabilidade da cidade, estão relacionados à pegada ecológica8 e à qualidade de vida9. A pegada ecológica pode ser compreendida como o impacto da cidade em um ecossistema determinado. A qualidade de vida está associada à melhoria para toda a população dos indicadores que compõem o bem-estar social. Quanto maior o controle do poder público, incluindo a sociedade civil organizada sobre os indicadores acima, mais equilibrada se torna a relação cidades e meio ambiente. Sandra, moradora há 30 anos de João Pessoa: “só não preserva esse paraíso mesmo quem não tem educação, pode ter certeza. Porque aqui a gente, as vezes, até, muitas vezes, no verão – infelizmente, você não pode estar aqui no verão...Eu, muitas vezes, correndo na areia saio com saco apanhando plástico, sacola, latinha, garrafa de refrigerante.” Fernando, morador há mais de 40 anos na cidade: 8 Pegada ecológica (ecological footprint) – também chamado de rastro ou sombra ecológica, é o impacto de uma entidade, por exemplo, uma cidade, a estrutura produtiva de uma região ou pais, sobre os ecossistemas locais, regionais e globais. Este conceito tem sido aplicado mais ao desgaste ambiental de cidades do que de regiões ou país (RIBEIRO, Edson, 2006, p. 156) 9 Segundo Edson Ribeiro (idem), qualidade de vida não possui um consenso em sua definição, mas é composta por inúmeros fatores, tais como: saúde pública, vida comunitária, cultura, vida social e recreativa, bem estar ambiental e qualidade estética. 53 “João Pessoa é uma cidade que tem uma orla que nenhuma outra cidade do nordeste tem. Você vai a qualquer capital do nordeste e vê beleza, mas nenhuma tem dentro da cidade uma orla como esta. É uma cidade que ainda tem uma qualidade de vida quando comparada a outras capitais, quanto a relação cidade e natureza. Nessa mesma perspectiva de situar o conflito natureza/sociedade, Alva (1997) conceitua cidades sustentáveis como aquelas capazes de reorganizar os espaços, gerir novas economias externas, eliminar as deseconomias de aglomeração, melhorar a qualidade de vida das populações e superar as desigualdades sócio-econômicas para o crescimento econômico. Para Martinelli (2003) a busca da sustentabilidade urbana acontece sobre inúmeros e complementares aspectos, como a organização territorial, a sustentabilidade ambiental e a capacidade de suporte, a sustentabilidade política que exige esforço de construção da cidadania e participação. Segundo a autora, é necessário pensar a sustentabilidade das cidades como um processo progressivo da implementação de critérios de sustentabilidade, os quais refletem uma série de valores, atitudes e princípios, tanto na esfera pública como na esfera privada. É importante ressaltar, mesmo sinteticamente, a relação entre o planejamento urbano, as visões de mundo e a política ao se analisar os três modelos de urbanização. O primeiro modelo de urbanização consiste nas cidades-jardim; o segundo modelo referese ao planejamento urbano de Le Corbusier - que até hoje tem forte influência no Brasil - e, por último, o terceiro modelo conhecido como urban sprawl. Para tal abordagem, Alier (2007) faz uma discussão relevante sobre as formas assumidas pelas cidades, sua relação com o crescimento populacional e uma breve análise entre a proposta das cidades-jardim que nasce com Ebenezer Howard em 1900 e sua relação com as moradias de classe média e alta nas zonas suburbanas. As cidades jardins podem ser descritas como cidades em forma circular assentadas em um entorno formado por um cinturão agrícola verde permanente, o que dificultaria a expansão urbana. Elas se ligariam a outras pequenas cidades para formar um novo círculo. Esta proposta está vinculada aos nomes de Mumford, Marsh, Patrick Geddes e Ebenezer Howard e Kropotkin. São modelos que beneficiariam o escoamento dos produtos da zona rural para a cidade. Teresa Caldeira (2003, p. 309) ao analisar a influência desta forma de planejamento na cidade de São Paulo afirma: 54 ...no centro se aglomerariam os prédios públicos para criar o “espírito cívico”. A cidade seria planejada como uma totalidade e controlada pela autoridade pública para evitar especulação e mau uso. As cidades jardins seriam governadas por uma tecnocracia corporativa e os integrantes eleitos pelos moradores locais. Contrapondo-se a este modelo, ao mesmo tempo em que resguarda algumas de suas características, encontra-se o projeto modernista de cidades, que no Brasil sofre forte influência de Le Corbusier. Entre seus pontos mais polêmicos está a priorização dos automóveis circulando nas ruas em detrimento dos pedestres - que são retirados das ruas. O esvaziamento da rua – a retirada da circulação dos pedestres - permite a livre circulação dos automóveis e modifica a relação privado e público. A cidade adquire características de funcionalidade e se articula por setores: de residência, de trabalho, de recreação, de transporte, de administração e cívismo. Na tentativa de evitar as diferenças sociais, o que de fato, este modelo trouxe, conforme o exemplo de Brasília, citado por Caldeira (2003, p. 311), foi uma maior segregação social, pois minou a diversidade urbana e impossibilitou o convívio das diferenças. De acordo com a autora, o tipo de espaço criado não foi o da igualdade, mas o da desigualdade mais explícita. Ironicamente, então, instrumentos do planejamento modernista, com pouca adaptação, servem para produzir desigualdade. Ruas projetadas apenas para o tráfego de veículos, ausência de calçadas, enclausuramento e internalização da área de comércio e grandes espaços vazios isolando prédios esculturais e áreas residenciais criam e mantêm a separação social... Seu objetivo é diminuir os espaços públicos e estender alguns domínios privados de forma que eles possam cumprir funções públicas, mas segregadas. (CALDEIRA, 2003, p.312). Por último, o modelo Urban Sprawl favoreceu uma expansão das cidades nas quais os subúrbios concentram mais riquezas do que os centros das cidades. Alier (2007) alerta para a necessidade de se diferenciar os subúrbios das periferias. Alguns dos diferenciadores seriam: a renda média, o consumo de água e de eletricidade, a geração de resíduos sólidos e o metro quadrado por ocupação por habitante vão ser maiores nos subúrbios que nas periferias. Segundo Jakob (2002), este modelo de urbanização tem sido criticado por serem subúrbios com baixa densidade populacional, o que exige grandes quantidades de espaços para serem ocupados e leva a graves danos ambientais - aumento de poluição do ar, da terra, das águas, sonora, entre outros; engarrafamentos de trânsito cada vez maiores; aumento do estresse urbano e como conseqüência perda de qualidade de vida. 55 O resultado acarreta enormes despesas municipais com infra-estrutura e sistema de transportes mais dispersos. O conceito de cidades médias surge a partir da década de 70, principalmente na França, e na década de 90 sofre forte influência do conceito de sustentabilidade. Elas podem ser compreendidas como cidades que possuem controle sobre seu crescimento demográfico, ordenamento espacial e complementaridade de funções. Para tal, há a necessidade de boas vias de comunicação e uma relação complementar entre zona rural e zona urbana. As cidades médias podem ser vistas como um sistema de territórios em redes. A partir da noção de sustentabilidade, foram incrementadas novas perspectivas ao conceito, gerando novas potencialidades às cidades, em vista das exigências econômicas em seus aspectos competitivos e globalizado. Isso por sua vez, gerou outras formas de exclusão social, econômica e cultural. Em meados dos anos 90, surge o conceito de cidades intermédias que passam a incorporar, entre seus indicadores, não só aspectos quantitativos, por exemplo, densidade populacional, mas outros, subjetivos e qualitativos: modo de vida, cultura, valores, as formas como se dão as trocas, as sinergias. Desta forma, caracteriza-se como um sistema urbano aberto e dinâmico com espaços a se construir. ... os tempos de indigência eram sucedidos por épocas mais alegres: uma suntuosa Clarisse - borboleta saía da mísera Clarisse - crisálida; a nova abundância fazia a cidade extravasar de novos materiais edifícios objetos; afluía nova gente de fora; nada e ninguém tinham a ver com Clarisse ou as Clarisses anteriores; e quanto mais se estabelecia triunfalmente no lugar com o nome da primeira Clarisse, mais a nova cidade percebia afastar-se desta, destruí-la com a velocidade dos ratos e do mofo... As populações e os costumes mudaram diversas vezes; resta o nome, o lugar em que estão situados, os objetos mais resistentes. (CALVINO, 1998, p.99). De acordo com a definição proposta pela União Européia, a cidade intermédia possui, pelo aproveitamento das potencialidades locais, condições de implementação de projetos de desenvolvimento e de promoção da sustentabilidade urbana. Segundo Costa (2002, p.118), as cidades intermédias, como analisado por Agnes-Desmaret-Parreil, apresenta-se como excelente palco para a conciliação entre processo global e local. No entanto, como parte significativa da população vive em zonas urbanas, são nestes territórios que as mudanças terão maior impacto. 56 Baseado em Costa (2002, p.119), se pode sintetizar, em dois eixos, o pensamento norteador do processo de sustentabilidade urbana: o primeiro eixo refere-se a busca do bem-estar da população a longo prazo, o que significa dar suporte às necessidades materiais e não materiais de seus habitantes, incluindo a questão ambiental; o segundo eixo refere-se à aprendizagem coletiva para lidar com as diferenças e os conflitos das vontades, o que implica a participação de todos os agentes neste processo. Este segundo eixo desemboca no conceito de justiça social, o que reflete o direito a cidades como analisado por Rodrigues (2007): O direito à cidade como bem coletivo, com acesso universal aos bens e serviços, constitui uma “revolta” contra a mercadoria terra, moradia e cidade e a privatização dos equipamentos públicos. É uma “revolta” contra o predomínio do valor de troca, uma luta pelo valor de uso da cidade e da propriedade. O texto de Rodrigues vai ao encontro da Carta dos Direitos Humanos das cidades, construída em 2002, durante o II Fórum Social Mundial de Porto Alegre10, citado por Freitag (2002). Segundo a autora: (...) a Carta pode ser considerada a forma elaborada e sofisticada de Direitos Universais do homem e dos cidadãos no contexto urbano. Ela apresenta seis grandes eixos temáticos, e entre os principais direitos estão: os direitos à cidade, à não discriminação, à proteção dos cidadãos mais vulneráveis, à cooperação solidária, à liberdade e integridade, à cultura e ao lazer, e à livre circulação na cidade.... (FREITAG, 2002, p.8) 3.1 Cidade de João Pessoa: um pouco de história Nas terras dos índios tabajaras, potiguaras e colonizadores, no dia 4 de novembro de 1585, na encosta do rio Sanhauá, braço do Paraíba, foi fundada a cidade de João Pessoa, com o nome de Nossa Senhora das Neves. Sua fundação foi oficializada na Metrópole por alvará no dia 29 de dezembro de 1583. Assim a capital paraibana já nasceu cidade, sob determinação real. (AGUIAR, 2002, p.18) 10 II Fórum Social Mundial de Porto Alegre: http://www.forumsocial.mundial.org.br/por/index. 57 A capital paraibana teve cinco nomes desde sua fundação. O primeiro foi Nossa Senhora das Neves; depois em 1588, recebeu o nome de Felipéia de Nossa Senhora das Neves em homenagem a Felipe II de Castela; após a conquista da Paraíba pelos holandeses, recebeu o nome de Frederica, em homenagem ao príncipe de Orange; após a expulsão dos holandeses foi denominada de Paraíba até 1930, quando mudou para João Pessoa em homenagem ao líder paraibano João Pessoa assassinado quando defendia interesses populares. De acordo com os relatos presentes no Sumário das Armadas11 - documento escrito por um representante da Companhia de Jesus - a cidade, no início, deparou-se com enormes dificuldades: investidas dos inimigos franceses e potiguaras, uma floresta densa e fechada, ainda desconhecida dos primeiros moradores. De conquistadores e desbravadores, estes primeiros moradores da cidade foram se transformando em lavradores dedicados à produção do açúcar. O primeiro engenho foi o de Tibiri. O desenvolvimento da cidade se deu lentamente e demoradamente em face dos diversos empecilhos. De acordo com Aguiar (2002), os habitantes da cidade eram constituídos, sobretudo de índios, que já habitavam esta região antes de sua criação. Os potiguaras eram os mais antigos. Depois vieram os tabajaras. Os franceses que aqui chegavam buscavam o pau-brasil, mas não tinham interesse em fixar-se. Os portugueses se apropriaram das terras e de uma grande quantidade de mestiços-mamelucos, cafuzos e mulatos. Os negros só vieram em maior quantidade com o aumento da lavoura de cana. A proporção entre índios e brancos na época era de aproximadamente 14.000 para 1.000 portugueses. Do final do século XVIII até o final do século XIX passou de mil para 18 mil o número de habitantes. A partir de 1920 subiu para uns 30.000 e entre 1940 e 1980 subiu para 326.000 habitantes. De acordo com o censo de 2010, a população atual de João Pessoa está em torno de 750.0000 habitantes. A cidade de João Pessoa, ao longo de sua história, apresentou pouca ou nenhuma estrutura de urbanização. O abastecimento de água, por exemplo, foi até 1912, feito por meio de cacimbas, fontes ou bicas e tanques. As cacimbas eram conhecidas pelos seus donos, que vendiam a água para os necessitados. Entre as mais conhecidas estavam a Cacimba do Dr. Moreira, em Mandacaru; Cacimba do Dr. Cícero Moura (localizada, hoje, na Rua Eliseu César). Entre as bicas, as mais famosas estavam: a de 11 Sumário das Armadas, título completo Sumário das armadas que se fizeram, e guerras que se deram na conquista do Rio Paraíba, escrito e feito por mandado do muito reverendo padre em Cristo, o padre Christovam Gouveia, visitador da Companhia de Jesus, de toda província do Brasil. (AGUIAR, 2002 p. 21). 58 Tambiá, a de Santo Antonio, a dos Milagres e a de Gravatá. A de Gravatá, de acordo com Aguiar (idem, p. 58), já não existe: “(...) as duas primeiras ainda existem. A dos milagres está emparedada (...). A de Gravatá terminou soterrada. Sobre ela, ergueu-se um prédio do Estado, nas imediações da Rua Maciel Pinheiro (...)”. A cidade, mesmo no século XIX e início do século XX, após trezentos anos de existência, ainda não apresentava infra-estutura urbana. Quase não havia ruas, ainda existia o sistema de sesmarias que favorecia com terras alguns poucos senhores da terra. A qualidade da vida era precária. As ruas eram sujas, não tinham calçamento, recebiam lixos atirados das casas. Quase tudo se atirava na rua: o lixo doméstico, restos de comida e bichos mortos. Para um escritor, citado no livro de Aguiar (idem, p.): “embora fôssemos um povo limpo que gostava de tomar banho diariamente, as nossas vias públicas, no entanto, ofereciam triste espetáculo de sujeira e abandono”. A chuva é que limpava tudo. Os costumes eram rurais. Os bichos viviam soltos pelas ruas. Não havia coleta de lixo. Havia proliferação de mosquitos que provocavam doenças como impauladismo e febre tifoide. No século XIX houve uma epidemia de cólera. As condições sanitárias eram péssimas. Muita morbidade por varíola, malária, principalmente nas praias em Tambaú. Não havia remédios. A média de vida da população era baixa. A iluminação pública iniciou-se em 1822, com lampiões que utilizavam azeite de mamona. Os lampiões ficavam preferencialmente na frente do Palácio do Governo, quartéis e repartições. A luz elétrica pública só aparece em 1912, no governo de João Machado. (...) como se vê, o Governo já economizava naquele tempo. Quando queria é claro. Na verdade, tanto quanto hoje, o Poder Público gostava de economizar em serviços que beneficiavam diretamente o povo. O exemplo, portanto, vem de longe. (AGUIAR, 2002, p.76) No livro Uma cidade de quatro séculos, os autores José Octávio e Wellington Aguiar, fazem uma descrição de como era a cidade de João Pessoa: cidade pequena, antiquada, carente de diversos equipamentos urbanos e que chama atenção apenas por aspectos exóticos de sua paisagem natural. Almeida apud Aguiar (2002, p. 77) a define como: “(...) um aglomerado urbano, pequeno, dos mais pobres e atrasados”. “Somente a partir das últimas três décadas do século é que alguns melhoramentos substanciais passam a fazer parte do equipamento da cidade”. 59 A cidade era dividida em alta e baixa. A parte mais baixa, conhecida como Varadouro, era onde se localizavam o porto do Capim e grande parte do comércio. Na parte alta situavam-se os principais edifícios ocupados com a administração, igrejas, conventos e residências. Em 1850 havia 1.084 casas, concentradas principalmente na atual Maciel Pinheiro, Duque de Caxias e General Osório. As casas eram modestas, e alguns sobrados indicavam o status de seus moradores. As residências, comumente baixas, dispunham de beiral que jogava água da chuva do telhado na rua, o que provocava buracos e lama. Foi com Ambrósio Leitão da Cunha, então presidente da província, que, ao melhorar a cidade para receber Pedro II, mandou regulamentar a construção de imóveis e calçadas, destruir os canos de esgotos que desembocavam na rua e obrigou a colocação de calhas nos telhados de casas em frente às vias públicas. Com relação à cultura em 1850, já havia teatro e, em 1897, ocorreu a primeira sessão de cinema, no Cine Teatro Pathé, perto do Ponto de Cem Réis, no período da Festa das Neves. O fato ocorreu por iniciativa de um italiano Nicola Maria Parente. Em 1915, o cinema foi reinaugurado com a presença da elite paraibana. Depois surgiram mais outros quatro: o Morse, o Popular, o Cine Teatro Edson, o Rio Branco. Em 1937 surge o Plaza e em 1960, o Municipal. Também nesta mesma data, surge a rádio Tabajara. Nos esportes, o futebol nasce em 1908 e José Eugênio Soares, fundou o “Clube de Foot Ball Parahyba”. O primeiro jogo foi realizado em 1908, no sítio do coronel Manoel Deodato (atual Praça da Independência). A primeira liga esportiva estava relacionada com o futebol. Os dois principais clubes da cidade Cabo Branco e Astréia tiveram seus times de futebol. Nos anos 50 os dois principais times da cidade eram Botafogo e Auto. O primeiro jornal surgiu em 1826 com o nome “Gazeta do Governo da Paraíba do Norte”. Na década de 1960, surge o “Norte” e o “Correio da Paraíba”. Os primeiros telefones foram instalados na Rua Duque de Caxias em 1905 sendo apenas 10 terminais. De acordo com Aguiar (2002, p. 118), a Capital detém o maior número de terminais telefônicos do Estado e com grande número de telefones públicos espalhados nos bairros. A cidade possuía maior urbanização no centro, tendo em volta os sítios, entre eles os de Trincheiras e Jaguaribe, pertencentes aos jesuítas. Isso demonstra a origem rural que perdurou até o final do século XIX. Logo depois, vinha a mata, dando um 60 contorno de moldura. A lagoa dos Irerês, o Parque Sólon de Lucena, até hoje, cartão postal da cidade, pertencia a um sítio de propriedade dos filhos de Santo Inácio de Loyola. De 1935 a 1940 recebe melhorias, e são construídos o Cassino e a Fonte Luminosa O nome Sólon de Lucena é uma homenagem a um ex-governador da Paraíba que iniciou a rede de esgoto na cidade e aumentou o abastecimento de água. No ano de 1914, instalam-se no Ponto de Cem Réis os bondes elétricos com três linhas: Varadouro, Trincheira e Tambiá. Em 1927, chegam os primeiros ônibus. Entre 1916 e 1920, durante o governo de Camilo de Holanda e do prefeito Diógenes Pena que a cidade passa a se modernizar. Dá-se a abertura de ruas, praças e edificações, além das melhorias em vias públicas. Neste período a economia do Estado estava centrada no algodão. Em relação à paisagem da cidade esta sempre foi o fascínio dos forasteiros. Em 1810, Henry Koster apud Aguiar (2002, p. 69) descreve: A paisagem vista das janelas é uma linda visão do Brasil. Vastos e verdes bosques, fila de colinas, vários canais que dividem o rio com suas casinhas brancas. A parte baixa da cidade é composta de pequenas casas, e situada ao lado de uma espaçosa baía ou lago, formada pela junção de três rios, fazendo a descarga de suas águas no mar por um longo canal. Às margens desta baía estão os mangues unidos e compactos. Com o passar do tempo, a cidade começa a caminhar em direção ao mar e as praias. Entre 1933 e 1936, houve melhoria nas condições de tráfego da Avenida Epitácio Pessoa, mas para tal foram feitos novos aterros nas cabeceiras do rio Jaguaribe. O bairro Tambaú, que significa “rio das conchas” na língua indígena, a partir da construção do Hotel Tambaú passa a atrair turistas e valorizar bairros próximos à praia. Um aspecto importante do ponto de vista ambiental foi à emenda constitucional, no final desta década, que limitou a construção de edifícios com mais de três andares na beira-mar, o que preservava a paisagem e melhorava a circulação de vento para a cidade como um todo. No início dos anos 40, Tambaú era um areal imenso, sem asfalto, sem barulho, carro de som, ou poluição. Tambaú divide as praias da cidade. De um lado o bairro de Cabo Branco e Ponta do Seixas, do outro lado, Maceió e São Gonçalo, hoje, denominados de Manaíra. Segundo Aguiar (2002), toda a praia se chama Tambaú, que oficialmente é distrito do município de João Pessoa. Em 1960, as avenidas Epitácio Pessoa, Ruy Carneiro e José Américo de Almeida (Beira-Rio) passaram a simbolizar status social, por representar o espaço da 61 cidade com maior investimento e por seus moradores terem maiores condições econômicas de arcar com o estilo de moradia ali proposto. Em meados da década de 1970, Tambaú e seus bairros começaram a ser habitados. Antes, como quase todos os bairros praieiros da cidade eram bairros de veraneio. Suas casas nos anos 40 eram de taipa e o banheiro era externo a casa, no quintal. A praia do Bessa nesta época era uma mata de coqueiros e cajueiros. Para Aguiar (idem), as praias do Poço, de Camboinha, Formosa e Ponta do Mato integram o espaço da capital paraibana e, por motivos políticos passaram a pertencer ao Município de Cabedelo. O autor cita, ainda, as praias da Penha, Ponta de Campina (Intermares), do Osso da Baleia e um loteamento mais recente o da Areia Dourada. Nesse mesmo período, com a intenção de se diminuir o problema da imigração do campo/cidade, foram construídos os conjuntos habitacionais. De acordo com Coutinho (2006, p. 95): Este processo equivocado de instalação de novos bairros distantes da malha urbana ocupada e sem infra-estrutura completa gerou enormes vazios que só atendeu a especulação imobiliária. As carências cotidianas da população da zona sul da cidade, como transporte público eficiente, sistema de esgotamento sanitário, telefonia, pavimentação e drenagem seriam executados no decorrer das três décadas seguintes. Um aspecto importante levantado pelo autor acima foi que até recentemente a cidade não possuía uma legislação urbanística e a cidade sequer tinha um plano diretor, o que gerou uma cidade com arruamentos estreitos, número mínimo de áreas verdes por bairro, e alguns sem praças nenhuma. João Pessoa também traz as marcas das desigualdades históricas em suas favelas. Em 1992, dos quase 500.000 habitantes de João Pessoa, aproximadamente 20% eram favelados. Havia, segundo Aguiar (2002) 120.000 habitantes. Este número estaria espalhado entre as 80 favelas existentes. A primeira delas surgiu em 1975 e se chamava Padre Zé. Hoje, chama-se “Cidade Padre Zé”. De acordo com o censo do IBGE de 2002, aproximadamente 120.000 habitantes moravam em situação de precariedade. Entre os mais graves, encontram-se os moradores do Grotão, Padre Zé e bairro São José. Como será visto mais adiante, estas desigualdades sociais traz inúmeras conseqüências, entre elas, a violência social e degradação ambiental. Percebe-se que há uma tendência a se repetir estes quadro de disparidade social quando não há a atuação adequada do poder público. Segundo Pizzol (2006), torna-se necessário ampliar os estudos de forma interdisciplinar sobre a cidade. 62 Com relação ao desenvolvimento industrial na cidade, este se iniciou na década de 60 quando da instalação do setor industrial na cidade. A maior parte delas vinha de São Paulo em função do incentivo fiscal da SUDENE, mas a grande maioria deixou de funcionar. No campo a produção é pequena, e os principais produtos eram o coco, a mandioca e a cana-de-açúcar. De acordo com alguns estudos sobre a cidade de João Pessoa, entre eles o de Pizzol (2006) e Fátima Ribeiro (2006), a cidade vem crescendo. Saindo do modelo da cidade jardim que tinha como referência o Parque do Sólon, a cidade se expande seguindo os traçados da modernidade de forma linear e por meio da especulação de novas áreas mais afastadas do centro que tenha como cenário vizinho o mar e seguindo o padrão citado por Caldeira (2003), dos condomínios murados. A cidade tem que ser apropriada pelos seus moradores. Nos dizeres da autora: (...) O Estado, embora não possa deixar de se responsabilizar pela gestão urbanística e ambiental, deve permitir, que cada vez mais, as organizações não governamentais e movimentos sociais se mobilizem, tornando-se aliados fundamentais na definição de políticas urbanas e ambientais, garantindo o direito da apropriação da cidade pelos usuários dela. (CALDEIRA, 2003, p.35). Mais adiante em seu livro, a autora insiste na importância da participação popular sistematizada que conduz a uma conscientização do papel de cidadão e faz críticas ao patrimonialismo da cidade, como também foi apontado anteriormente por Aguiar (2002) ao longo do seu histórico sobre João Pessoa. Estes autores confirmam a tendência patrimonialista da política brasileira como analisado por Caldeira (2003). (...) É pertinente continuar buscando instrumentos convergentes, interfaces, onde a sociedade possa pensar coletivamente na busca de soluções para o espaço urbano. Contudo é necessária a reflexão sobre as reais intenções daqueles que manipulam esses instrumentos, pois, muitas vezes ao se argumentar se os planos serão bons e levam em conta o bem-estar do povo... é preciso que estes planos sejam concretizados por vias democráticas e evitem ser idealizados autoritariamente, como é comum entre tecnocratas pretenso salvadores do “bem comum. (PIZZOL et ali. 2006, p. 48) Seguindo a orientação do pensamento de Pizzol (2006), a participação na gestão da cidade, e, sobretudo na questão urbana, representa um novo design gerencial. Em suas palavras: (...) a configuração de um fórum articulado por gestores de projetos, organizações, associações e prefeitura, traça um perfil no sentido de inovar o cenário urbano ao procurar conciliar compromissos sociais e políticos de conservação urbana com viabilidade financeira e razoável valorização da sabedoria coletiva. (idem, p.47). 63 Nesta pesquisa considero que a questão vai mais além. Engloba a assimilação dos conceitos de sustentabilidade e de preservação ambiental pela maioria da população que mora em João Pessoa e que, excluída deste direito o vê apenas como um privilégio de uma minoria, produzindo assim uma distribuição assimétrica de benefícios, usos e poder. As análises sobre estas questões possuem reflexos em todas as formas de convívio, incluindo nestes, o lazer e as atividades esportivas de natureza. Para Suassuna (2006, p. 54), a segregação sócio-espacial da cidade de João Pessoa, pode ser evidenciada por meio de sua anomalia urbana, as favelas. Seu estudo enfoca o bairro São José, uma das favelas mais populosas com aproximadamente 13.000 habitantes situadas numa zona considerada nobre da capital. Este bairro seria, segundo o autor, fruto do processo de urbanização excludente e fragmentada desde as primeiras ocupações da área nos anos 70, sendo ícone do que chamou de “cidade partida.” Apesar de se situar numa área nobre, possui um dos piores índices de qualidade de vida de João Pessoa (0,37) e, segundo o autor, um dos piores do mundo. Com o intuito de melhorar a situação do bairro, foi pensado um plano urbanístico que favorecia a inclusão social e a sustentabilidade. Dentro destes dois aspectos, o que interessa ressaltar para esta pesquisa é a valorização de praças e dos espaços públicos visando à participação maior da comunidade. Friso a importância dos espaços públicos porque, de acordo com Caldeira (2003), estes espaços foram ao longo dos últimos anos, apesar dos discursos democráticos, abandonados ou ocupados de forma ilícita por particulares. Eles, no entanto, vão ser novamente revalorizados nas práticas de esportes de natureza, para uso da comunidade. Um dos aspectos importantes abordados por Suassuna (2006, p.55) é a questão do direito à cidade: “O bairro São José tem o mesmo direito de ser atendido com infraestrutura básica e serviços urbanos qualificados como os bairros vizinhos, da cidade formal, possuem.” Pode-se perceber por estes autores acima, a relevância do direito à cidade como esboçado por Rodrigues (2007) e Caldeira (2003), como por exemplo, o direito aos espaços públicos e ao desporto como citado no capítulo segundo desta dissertação Este autor e Ribeiro (2006) criticam o não uso dos recursos legal da Outorga Onerosa previsto no Plano Diretor da cidade e pela lei Federal de julho de 2001 (Estatuto da cidade, lei nº. 10257 art.28), como forma de melhorar a redistribuição e a reorientação dos investimentos públicos para as áreas de mais baixa renda. Isso significa 64 que o modelo de exclusão social se perpetua pela forma patrimonialista de como os gestores das cidades versam sobre as prioridades para a cidade. Após estas breves colocações sobre a cidade, torna-se fundamental situar a questão da urbanidade de João Pessoa em cima de quatro pontos citados por Acselrad (1999) apud Ribeiro (2006) que são: a. A representação técnico-material da cidade e como se dão as trocas energéticas e econômicas para o funcionamento dela; b. Os aspectos qualitativos da cidade que abrangeriam a estrutura sanitária e de amenidades ambientais, a busca do direito de cidadania e compensação social aos danos e modificações ambientais; c. Ofertas de bens e serviços urbanos e conservação do patrimônio que vão servir de referência para a análise dos indicadores de qualidade de vida, não esquecendo que agregados a eles estão os valores culturais e históricos que foram sinteticamente retratados no início deste capítulo; d. A reconstituição da legitimidade das políticas públicas, que possuem como referência o conceito de equidade social, seja no aspecto da distribuição material ou da acessibilidade ao atendimento das necessidades básicas; e. Os serviços e direitos providos pela própria cidade. Este quarto item é o que direciona esta pesquisa, pois foi a partir dele que se buscou fundamentar as percepções e as realidades dos praticantes de esporte, particularmente os de natureza, vistos como direitos garantidos na Constituição de 1988, conforme abordado no primeiro capítulo. Conforme salientado por Ribeiro (2006, p. 46): “é a partir deste último aspecto discursivo que a cidade sustentável é vista como um espaço de construção durável de pactos políticos capazes de fazer, reproduzir e expandir no tempo as condições de sua legitimidade.” Este autor apresenta um quadro associando racionalidade e aspectos qualitativos (qualidade ambiental e qualidade de vida) que serve de orientação para compreender porque esta pesquisa situou o esporte, particularmente os de natureza12 como um promissor fator de melhoria da sustentabilidade da cidade de João Pessoa. Os 12 Esportes de natureza – seguindo o proposto por Melo (2009), serão aqueles que integram as modalidades abaixo: pedestrianismo, montanhismo, orientação, escalada, rappel, espeleologia, balonismo, parapente, asa delta sem motor, bicicleta todo o terreno (BTT), hipismo, canoagem, remo, vela, surf, windsurf, mergulho, rafting, hidrospeed, e outros desportos e atividades de lazer cuja prática não se mostre nociva para a conservação da natureza (Decreto-Regulamentar nº. 18/99, de 27 de Agosto). 65 mais relevantes para o estudo analítico estão citados abaixo e foram postos em negrito como pode ser observado no quadro IV. Elemento Fatores positivos intrínsecos Vantagens esperadas urbanas e ambientais Ofertas de recursos e Oferta e distribuição de áreas de amenidades lazer e áreas livres e verdes; Conservação de áreas de valor cênico paisagístico; Arborização urbana; Conservação da biodiversidade urbana Melhoria da percepção coletiva da qualidade ambiental Redução da tendência à ocupação extensiva de novas áreas naturais Melhoria do contato e empatia entre a população e o ambiente intra-urbano Melhoria da qualidade do ar e microclima saneamento ambiental Melhoria das condições de saúde e Ofertas de recursos de infra-estruturas bem estar da população facilidades Serviços urbanos Melhoria da qualidade de vida Equipamentos comunitários Melhoria do provimento urbano Equipamentos de saúde geral Educação e lazer Melhoria do convívio participativo e educação e lazer Quadro IV – quadro adaptado dos Aspectos qualitativos para Qualidade de Vida13 Fonte: Ribeiro (2006, p.53) Segundo o autor, a racionalidade qualitativa é fundamental para o equilíbrio do desenvolvimento e crescimento urbano em substituição aos atuais modelos dispersos, desagregados e quantitativos. Nas palavras de Ribeiro (2006, p. 55): (...) Acredita-se que uma verdadeira sustentabilidade urbana tem que depositar-se em todas as escalas intervenientes (global, regional), mas, sempre com predominância da escala local. A busca do equilíbrio social é, portanto, para o caso brasileiro o aspecto mais essencial, bem como repensar as estratégias de desenvolvimento, inclusive o urbano, que deve considerar bem a realidade nacional ou até local... buscando os próprios caminhos para a sustentabilidade urbana. Um ponto chave abordado por este autor, que possui uma relação com o direito ao esporte e ao lazer diz respeito a crianças e adolescentes em situação de risco, isto é, aqueles que estão fora dos processos formais de convívio social e possuem níveis muito baixos de qualidade de vida. Esta questão é complexa e bastante grave, além de 13 O aspecto Conservação do patrimônio, apesar de ser muito importante para a questão da cidade não o é para esta pesquisa, por isto, não foi transposto para este quadro, conforme aparece no original. 66 representar uma violência brutal ao próprio ser humano, ao individuo, à coletividade e, portanto à sociedade. Vários estudos, alguns já citados no capítulo I deste trabalho enfatizam a importância da prática sistematizada e organizada do esporte como forma de educação. Inúmeros projetos sociais, inclusive, em João Pessoa, possuem em suas escolinhas desportivas, crianças e adolescentes que moram em bairros como Mandacaru e Oitizeiros, com fraco índice de salubridade ambiental (ISA) incluindo nestes o índice socioeconômico, conforme pesquisa realizada por Ribeiro. Quanto à questão ambiental vale ressaltar três graves problemas que estão associados a comportamentos culturais da população: a. poluição sonora, principalmente em alguns pontos da cidade como Bairro do Seixas, Mangabeira, Penha; b. a questão dos lixões e dos resíduos sólidos, inclusive o antigo lixão do Roger e mata do Buraquinho, onde este aspecto está diretamente relacionado à contaminação de lençol freático, mas envolve também uma educação para o consumo e resignificação do conceito de lixo; c. saneamento básico, já que grande parte da população, independente de classe social, não possui rede de esgoto. “Ora, ora, imaginem se Camus estivesse morando em João Pessoa! A peste que ele testemunharia seria outra. A peste do barulho. É esta peste que está arrasando nossa cidade com a complacência cínica das autoridades… (Carlos Romero, Jornal Correio da Paraíba em2009)14 Neste capítulo foram abordadas as diversas possibilidades de se pensar e se organizar as cidades. As formas como elas se organizam sugere determinadas ideologias e muito nos dizem sobre os modos de vida de seus habitantes. O modelo de cidade abordado permite considerar João Pessoa como uma cidade intermédia. Ao ser pensado assim, ela permite inúmeras possibilidades na construção de sua sustentabilidade. No entanto, este processo precisa ser trabalhado em todos os campos de intervenção humana. No próximo capítulo será abordado como os esportes de natureza se caracterizam e se articulam aos conceitos intrínsecos de sustentabilidade. Para tal será necessário associar estes esportes às políticas públicas e seus diversos entendimentos conceituais. 14 HTTP//WWW.ambiental.wordpress.com. Data de consulta 9.11.2011 às 10 horas. Jornal Correio da Paraíba de 28.07.2010 4. Novas trilhas na paisagem da cidade de João Pessoa: sustentabilidade, políticas públicas e esporte de natureza Segundo dados publicados pela rede brasileira de cidades sustentáveis, o Brasil possui uma população urbana que chega a 85%. As cidades também são responsáveis por dois terços do consumo mundial de energia e 75% de todos os resíduos gerados pela população15. Assim, pensar a sustentabilidade das cidades brasileiras é prioridade, inclusive defendida constitucionalmente, nos artigos 182 e 183, no Título VII, da ordem econômica e financeira (2010). Os esportes de natureza, em relação às cidades, precisam levar em conta os dados acima. Isto é, ser repensado à luz das intencionalidades e das diversas políticas públicas do Estado. Afinal, qual o papel deste quando se pretende possibilitar usufrutos de direitos a sua população e sustentabilidade às cidades. É válido lembrar que dentre os diversos conceitos que regem as políticas públicas, todos dizem respeito a uma intervenção do Estado, algumas vezes por pressões dos movimentos sociais no sentido de redirecionar e reordenar ações e de diminuir o fosso da desigualdade social e da degradação ambiental. Envolve dotações orçamentárias, disputas políticas, e a elaboração de marco legal. A definição de políticas públicas16 de Lucchese apud Lima e Silva sintetiza esta abordagem: “Políticas públicas podem ser definidas como todas as ações de governo e podem ser divididas em atividades diretas de serviços pelo próprio Estado e em atividades de regulação que influenciam as realidades econômica, social, ambiental, espacial e cultural. Nesse sentido, as políticas públicas envolvem ações concretas, programas e por isso mesmo vão depender de contextos, finalidades e avaliações permanentes.” (2010, p.4) Segundo Polis (2006) apud Lima e Silva (2010, p.45): “[...] política pública é a forma de efetivar direitos, intervindo na realidade social. Ela é o instrumento utilizado para coordenar programas e ações públicas”. Pensando o esporte de natureza, sua relação com a sustentabilidade e políticas públicas, a Agenda 21 do Movimento Olímpico serve de referência, pois, possui entre suas diretrizes, diversas propostas que dependem da ação do Estado. Uma delas está 15 PLATAFORMA CIDADES SUSTENTÁVEIS, Rede Social e brasileira por cidades justas e sustentáveis. Movimento Nossa São Paulo. In: www.cidadessustentáveis.org.br consultado em outubro de 2010. 16 Vários autores conceituram políticas públicas: Hofling(2001), Farah (2004), Silva e Silva (2008), entre outros. 69 relacionada com a preservação e gestão dos recursos naturais, ou seja, valorização do meio ambiente. Isso diz respeito aos esportes de natureza já que este ocorre no ambiente natural, o consome e produz impactos ambientais. Neste sentido, torna-se mister saber que políticas públicas estão relacionadas mais diretamente com a questão ambiental em João Pessoa? E como o plano diretor da cidade está interligado a esta questão? Plano Diretor é um documento obrigatório para as cidades com população superior a 20 mil habitantes e que integram regiões metropolitanas. O Plano Diretor de João Pessoa, atualmente com 750.000 habitantes17, foi criado em 1992 e sofreu alterações por causa do Estatuto das cidades (Lei Federal nº. 10.257 de 10 de julho de 2001). No caso do Plano Diretor de João Pessoa: “[...] O Plano Diretor é um documento síntese, uma Lei matriz que reúne as diretrizes e os objetivos para nortear o desenvolvimento pretendido. Para tanto, deveremos estruturar o Sistema Municipal de Planejamento e deflagrar um processo transparente, crivel e, principalmente, participativo, através da convocação da sociedade e de seus representantes, garantindo o concurso da população para opinar sobre o projeto de cidade [...] (p.2, 1994) De acordo com Maricatto (2006), abre-se um espaço para maior participação popular em que não se preze os vícios tão comuns (pouca transparência, caráter ideológico, investimentos aplicados a uma parte da cidade, o mercado como referência; e ignoram as demandas da maior parte da sociedade) encontrados no processo de planejamento. De modo geral o plano diretor envolve a participação popular e suas associações representativas, a fiscalização de sua implementação pelo poder Legislativo e Executivo e deve garantir transparência e amplo acesso aos documentos e informações produzidos. Apesar das experiências históricas com planos diretores, geralmente, aplicados apenas a uma parte da cidade, tendo o mercado como referência e ignorarem a cidade ilegal, no Brasil, possui forte caráter ideológico e manipulador, eles aos poucos vão se tornando referências para garantir não só a melhoria da gestão ambiental, mas os fatores que a médio e longo prazo garantam uma melhor inserção social da sociedade na sua vivência citadina. (MARICATTO, 2006, p.6). No seu artigo 2º, o plano diretor diz: O plano diretor tem em um dos seus objetivos assegurar o desenvolvimento integrado das funções sociais da cidade, garantir o uso socialmente justo da propriedade e do solo urbano e preservar, em todo o seu 17 Dados do censo do IBGE de 2010 70 território, os bens culturais, o meio ambiente e promover o bem estar da população” (1994, p.2) 18 No plano diretor de 1994, o esporte como um todo já possui algumas garantias, entre elas, o parágrafo único do artigo 69: “A oferta de espaços públicos adequados em todos os bairros, será prioritária como incentivo as atividades esportivas.” (1994, p.25) Após sua revisão, o plano diretor mantém áreas destinadas para o esporte como um dos seus objetivos a desenvolver dentro do conceito de sustentabilidade e qualidade de vida da população. Se pensarmos no direito a cidade, segundo a secretária de Transparência Pública (Sestranp), Estelizabel Bezerra: “Esse dispositivo legal prevê uma cidade mais equitativa, em que todos os cidadãos terão direitos a bens básicos, como infra-estrutura, transporte, moradia e lazer”. Quanto às políticas públicas relacionadas à questão ambiental, elas podem ser exemplificadas por três projetos: 1. Os projetos de saneamento, citado no plano diretor, na seção da saúde, art.59, nos itens I e II (1994, p.23). Este impede esgoto a céu aberto e escoamento destes para o mar, rios e lagos. 2. Os projetos de tratamento de resíduo sólidos, hoje obrigatório devido à lei federal nº 12.305 que cria a Política Nacional de resíduos sólidos e envolve o Ministério das Cidades. João Pessoa tem até 2014 para se adequar ao que se propõe a lei de RS. Em relação a esta política os esportes de natureza podem contribuir incorporando no cotidiano de seus participantes os conceitos de reutilização e reciclagem. O terceiro e último é o Plano Municipal de Conservação e Preservação da Mata Atlântica, elaborado pela SEMAM (Secretaria do Meio Ambiente), em parceria com SOS Mata Atlântica e COMAM (Conselho Municipal de Meio Ambiente). Este documento de novembro de 2010 foi construído como um instrumento norteador das diretrizes ambientais visando à integração de projetos e ações em consonância com as leis e os códigos ambientais vigentes. Isto é interessante porque o Plano diretor de 1994 cita as áreas de preservação, mas não tem um capítulo ou sessão específica sobre o meio ambiente. Os exemplos citados de políticas públicas são importantes para análise dos programas de esportes de natureza e valores relacionados a ele como forma de gerar a almejada educação ambiental. 18 Este plano diretor foi elaborado aprovado em 1994, na época do então prefeito de João Pessoa, Francisco Xavier Monteiro de Franca. 71 A Agenda 21 do MO, em consonância com as três políticas públicas referidas anteriormente, reforça que os locais onde as práticas desportivas são realizadas devem ter a preocupação de preservar os logradouros, as paisagens, os bens culturais e o conjunto de riquezas naturais. Isto implica que as modalidades esportivas de natureza geradoras de impactos mais profundos devem buscar medidas compensatórias para minimizar os problemas produzidos. Um dos exemplos que pode ser citado é o da iluminação nas praias para as práticas de esportes noturnos, como voleibol e futebol entre outros. Esta iluminação, dependendo de sua intensidade, pode vir a interferir no processo de desova das tartarugas em pontos onde o mesmo ocorre como Bessa e Intermares. Este exemplo pode ser abordado tanto do ponto de vista de sua especificidade (energia e consumo), como do ambiental (a preservação dos locais de desova) ou como do social (lazer) ou de forma intersetorial buscando alternativas que atenda aos interesses da preservação do local da desova e o social (a ampliação dos espaços e horários de esporte e lazer). Hoje, fazemos uma intervenção no horário das desovas das tartaruguinhas em função da questão da iluminação noturna. Nós forçamos que elas nasçam a tarde com a luz do sol ainda. Cesária de praia. Isto não interfere em nada e ajuda elas se dirigirem para o mar ao invés de irem em direção a rua ou aos postes. (Rita, gestora ONG Guajiru e escolinha surf). Figura 4 Rita palestrando para turistas sobre tartarugas Fonte: SMNBS-2011 No caso dos recursos hídricos, infra-estrutura típica de políticas públicas há o compromisso assumido na Agenda 21 do movimento olímpico de: favorecer e apoiar ações voltadas para a proteção das reservas hídricas e da qualidade das águas de fontes naturais; evitar práticas que implique risco de poluição da águas, principalmente nas atividades realizadas em águas abertas (mar, rios, lagos); assegurar água tratada aos 72 atletas, por exemplo, (corridas de rua) e evitar o uso particular de abastecimento de água para uso exclusivo de uma determinada atividade esportiva. “durante a travessia de picãozinho, o lixo do lanche dado aos esportistas é colocado dentro dos barcos. A Capitania sempre tá de olho nisso aí também. O IBAMA fiscaliza, pois acompanha a travessia. Todo mundo adora”. (Aluilson, gestor esportivo). Figura 5 Travessia de Picãozinho 2011 Fonte: HTTP://www.efdeportes.com./revista Em relação ao consumo excessivo gerador de ônus ambiental citado por Rodrigues (2005), a agenda 21 do Movimento Olímpico propõe a adoção de hábitos de consumo mais responsáveis e solidários que permitam limitar o impacto sobre o ambiente, poupar recursos não renováveis e atender as necessidades dos grupos desfavorecidos. “temos caiaques de segunda mão, eles são baratos acessíveis... Você compra um usado e remenda... do mesmo material que é feito ele, é feito o remendo. Dá para passear, se divertir, desfrutar, sentir a natureza de perto.” (Jackson, canoagem) Outro ponto importante associada à urbanidade é a questão da saúde. No caso da Agenda 21, ela deu prioridade ao aspecto nutricional e ao sanitário. Isso é condizente com o proposto no Plano Diretor, artigo 59 sobre saúde. Se o aspecto nutricional pode, em muitos casos, ser abordado entre os esportistas de forma individual, o sanitário evidencia a relação entre a prática qualitativa dos esportes e políticas públicas, pois, são estas que possibilitam mudanças na infraestrutura e melhoria da qualidade de vida como um todo. Nos grandes aglomerados urbanos, onde a superpopulação e a insuficiência de moradias contribuem para a ocorrência de enfermidades respiratórias ou de outra natureza, as instâncias políticas que se encarregam do esporte e da saúde pública, e as associações desportivas instituirão planos de ação coordenados que permitam combater tais flagelos, por meio, principalmente de atividades desportivas realizadas ao ar livre e de medidas de higiene associada às práticas de esportes. (Agenda 21 do Movimento Olímpico, 1999). 73 Neste aspecto, o documento não faz distinção entre esportes de natureza e atividades ao ar livre. Pode-se considerar que as atividades ao ar livre englobam as de natureza que possui características mais complexas, e foi conceituada como “aquelas modalidades organizados, estruturados com segurança que possuem fortes vínculos com a natureza, e como características o risco e a aventura; além de contribuírem para a sustentabilidade local”. (MELO, 2009, p.111). Embora o conceito de esporte de natureza não seja unívoco, em todos eles, três aspectos são determinantes: o elemento natureza, o risco e a aventura, e sua forte relação com a sustentabilidade, principalmente quando o mesmo é praticado na área urbana. Estas características excluem, por exemplo, as academias ao ar livre, instaladas nas praças, apesar desses programas esportivos serem eficientes para congregar as pessoas em uma prática saudável de atividade física. Trabalhos como os de Alphandéry, Bitoun e Dupond apud Dias mostram como os esportes de natureza integram-se ao fenômeno social e pessoal; originando um novo tipo de diálogo entre esporte, ecologia e hedonismo, o que influencia a organização hierárquica do próprio desporto. Constituem assim os esportes de natureza: o pedestrianismo, montanhismo, orientação, escalada, rapel, espeleologia, balonismo, parapente, asa delta sem motor, mountain bike (bike), hipismo, canoagem, remo, vela, surf, windsurfe, mergulho, rafting, natação em águas abertas, e outros desportos que não seja nocivo à natureza. Para buscar garantir esta harmonia com o meio ambiente, indo além da saúde, os esportes de natureza estão cada vez mais, buscando respeitar a ISO 1400019 segundo Costa (2007). O ISO 14000 apesar de ser ainda polêmico está cada vez mais servindo de referência para as organizações esportivas, principalmente o ligado ao Movimento Olímpico no trato dos conflitos mercado e meio ambiente. Gomes (2009) ao apontar que grande parte dos problemas ambientais tem origem nas cidades e/ou nos seus modos de vida, pois, são nelas que a dimensão social, econômica e ambiental ocorre mais intensamente, cita algumas dimensões da sustentabilidade, tais como: capital natural que diz respeito aos recursos ambientais (hídricos, solo, biodiversidade); capital humano e intelectual (saúde, educação, investigação e pesquisa, serviços técnicos), capital de produção (receitas, emprego, 19 ISO 14000- selo de desenvolvimento feito pela Suíça que se baseia num padrão de organização internacional o qual regula a relação entre negócios ou comércios em geral e o meio-ambiente. 74 equidade e justiça social, habitação, infra-estrutura, finanças, investimento e crescimento); capital social (governança, participação, responsabilidade, qualificações, redes para a capacitação e comunicação, cultura). Todas estas dimensões estão presentes na estruturação e organização dos esportes de natureza, visto que este tipo de atividade surge e se organiza a partir dos elementos que compõe a paisagem natural e dos novos desejos e interesses dos diversos segmentos da sociedade. Implícita a estas questões está à conceituação mais ampla de políticas públicas que envolve uma complexa interação de atores sociais indo desde o Estado até a sociedade civil organizada. Esta rede complexa, hoje incluiu o acesso aos meios de comunicação e de grupo de pressões fortemente articulados tanto a nível local como global. Não se pode esquecer que as estruturas institucionais brasileiras, como já citadas anteriormente, incluindo nelas a esportiva tende a realizar políticas em função das exigências de uma pequena elite ou a partir de fatos pontuais. Isto não deixa de ser um entrave para uma concepção ampla de sustentabilidade, visto que este conceito envolve uma politização e participação democrática da população mais permanente. De certa forma a questão da politização do esporte é um problema. Como exemplo, podemos citar os últimos acontecimentos no Brasil envolvendo em escândalo de corrupção, e uso perdulário de vultosas quantias do dinheiro público, o ministério do esporte, partidos políticos e programas de fomento e incentivo ao esporte via terceiro setor, particularmente ONGs. Independente do caráter de denuncismo, e o contínuo cinismo no trato das questões públicas, os esportistas brasileiros não se manifestaram sobre os sérios acontecimentos para um país que sediará, futuramente, os dois maiores eventos esportivos do mundo: Copa do Mundo (2014) e Olimpíadas (2016). Isto teria algumas explicações. De modo geral, os atletas de alto rendimento, com exceção da seleção de volibol e alguns valores individuais do atletismo e ginástica artística, a grande maioria ou treina no exterior, o que lhe torna alheio a realidade social e política esportiva brasileira ou treina por conta própria ou com apoio de patrocínio privado, o que também o torna indiferente ao papel do estado quanto fomentador do esporte. Outro fator é que grande parte dos esportistas começam, no cenário do alto rendimento, muito jovens, sem ter tido uma educação para se pensar o esporte politicamente, o que deveria ocorrer dentro do esporte escolar. Quanto a população, de modo geral, ela ainda está longe de ver o esporte como um direito. Sem o interesse direto dos atores envolvidos na questão, a quem de fato cabe 75 reivindicar outra forma de se pensar esporte, política pública e gestão sustentável? Esta reflexão torna-se mais problemática e difícil nas cidades como João Pessoa, que carregam historicamente traços de esquecimento político no cenário desportivo a despeito de possuir um grande número de esportistas talentosos e um potencial para realização de eventos de natureza. Este aspecto mostra a fragilidade da política desportiva brasileira quando comparada a política esportiva cubana, principalmente quando se pensa o Brasil como um país capitalista e entre as dez maiores economias do mundo. “ a política pública, a qual você se referiu, não existe, uma vez que várias vezes foram procuradas as entidades que estão relacionadas com o desporto, mas não houve intenção destas em nos ajudar naquilo que a gente tinha como conhecimento. Falta uma cultura desportiva, o que temos são ações isoladas...” (gestor de remo) De acordo com Lima e Silva (2010, p.45): “o sucesso dos resultados de uma política pública é legitimado pelo debate dos diversos agentes que a constroem em conjunto. Estas políticas podem abranger a sociedade como um todo ou grupos e setores específicos, de ordem social ou econômica. Portanto, variam de acordo com as necessidades identificadas, podendo ser do campo da saúde, educação, distribuição territorial, tecnologia, economia, renda, infra-estrutura, entre outras. Pode-se pensar, então, de forma positiva para a importância dos grupos de esportes de natureza em João Pessoa que se articulam há anos por conta própria e estabelecem redes que acabam por reivindicar melhorias no espaço público em geral. Pode-se pensar nos jovens que estimulados pelos meios de comunicação começam a criar e exigir outras possibilidades de articulação política fora dos padrões convencionais e tradicionais. Mas, será que isto é suficiente para romper com estruturas políticas tão cristalizadas e sedimentadas? Por falar em jovens - segundo a Agenda 21 do MO - eles perfazem um terço da população, estão envolvidos com o meio ambiente e podem por meio de ações educativas e por participações mais democráticas contribuir para uma maior conscientização e mobilização da questão ambiental, incluindo os que já praticam os esportes de natureza. As mulheres estão envolvidas no compromisso do esporte com a sustentabilidade buscando maior igualdade na sua visibilidade de esportista, 76 principalmente na questão econômica e gestão esportiva. Nesse sentido vale reforçar todos os programas de inserção das mulheres em políticas de geração e renda, nas cotas políticas, na Lei Maria da Penha, no combate a violência doméstica, sexismo etc. Por último, pode-se pensar na terceira idade que durante as práticas esportivas de natureza agregam em seu modo de vida novos valores que lhes garante melhoria da saúde e convívio social. O capital social no esporte de natureza, devido às características próprias das modalidades vai exigir maior flexibilidade na sua forma de organização política e administrativa e maior participação dos envolvidos. Por outro lado, estas modalidades esportivas de natureza exigem parcerias entre organizações públicas, de modo geral, no que concerne a infra-estrutura e organizações privadas, como já vimos no caso ambiental. Outros exemplos poderiam ser citados como a modalidade de ciclismo que se torna impraticável sem uma infra-estrutura pública de ruas e estradas adequadas a sua prática com segurança. Os esportes em águas abertas que exige um mínimo de segurança nas praias, rios e lagos como salva-vidas e controle da poluição ambiental da água para evitar contaminação e doenças graves. Por isto em alguns momentos as necessidades estruturais e de políticas públicas para os esportes de natureza se confundem com as melhorias estruturais gerais para o lazer e para vida cotidiana. Romero (2002) cita uma série de estratégias para melhoria das cidades. Dentro delas: mudança de escala (cidades menores), preferência a pequenos projetos de menor custo e menor impacto ambiental; foco na ação local; integração das ações de gestão, planejamento estratégico, descentralização das ações administrativas, incentivo a inovação, inclusão de custos ambientais e sociais nos orçamentos de projetos de infraestrutura, indução de novos hábitos de moradia, transporte e consumo e fortalecimento da sociedade civil e dos canais de participação. Pode-se perguntar em quais aspectos acima, ocorrem às maiores interfaces entre os esportes de natureza e a cidade? Para esta pesquisa cujos dados empíricos são de João Pessoa seriam o incentivo a inovação, a indução de novos hábitos, o fortalecimento da sociedade civil e dos canais de participação. Isto porque em muitas modalidades, como por exemplo, mountain bike (MTB), a própria comunidade busca de forma criativa suprir suas carências estruturais no desporte, produzir novos espaços de uso, novos grupos organizados e novas formas de pressão sobre o poder público. “a prática da canoagem pode gerar um cultura de investimento nas pessoas e na canoagem por parte da gestão e da canoagem como um todo, e aí, entra a política pública, aí, entra o gestor ocasional, aí, entra as empresas 77 que estão ligadas justamente a essa situação e eu acredito que é por aí que se pode fazer alguma coisa.” (Roberto, gestor de remo) Em algumas cidades, como Brasília, São Paulo, Curitiba, João Pessoa apesar dos ciclistas desportivos não usarem para seus treinamentos as ciclovias, eles, por meio de vários movimentos, como a ONG Roda da Paz, buscam trabalhar para a expansão das mesmas já que beneficiam o tráfego, diminui a poluição e melhora a saúde. A questão é que o uso da bicicleta como meio de transporte envolve mudanças e diversas melhorias, a exemplo do que ocorreu no uso do metrô, dos banheiros públicos, da segurança, da sinalização e de uma educação permanente para o trânsito. De certa forma o conceito de cidades sustentáveis nos induz a refletir a partir da noção de redes. Isto significa que uma alteração na estrutura espacial implica em toda uma série de mudanças, inclusive nos hábitos individuais, como demonstra a pesquisa empírica na cidade de João Pessoa. Segundo Romero (2002) há duas noções chaves para o tema das cidades sustentáveis. A primeira é a noção de sustentabilidade ampliada, e a segunda, já citada por Martinelli é a compreensão da sustentabilidade não como um estado, mas um processo e que, portanto, será alcançado progressivamente. Ambas dizem respeito a processo político, ou seja, formulação de políticas e gestão da coisa pública. O processo político é fundamental para as organizações esportivas imbuídas do seu papel transformador no contexto da sustentabilidade, pois isto exige romper com os modelos de gestão tradicionais e hierarquizados de forma rígida, romper com o patrimonialismo e com a apropriação do espaço público para uso privado. Estas duas práticas vão estar presentes na forma de organizar o esporte de natureza em João Pessoa como veremos na análise das modalidades estudadas, na visão dos seus praticantes e gestores. A necessidade de uma nova forma de gestão está citada na Agenda 21 do Movimento Olímpico: As instâncias dirigentes do movimento desportivo zelarão pela incorporação cada vez maior da noção de desenvolvimento sustentável na elaboração das políticas, nos regulamentos e nas modalidades de gestão que regem o funcionamento do mundo do esporte, a realização de atividades desportivas e a promoção de manifestações desportivas. (AGENDA 21, 1999, p10). Um conceito importante, já citado por Gomes (2009), Romero (2002) e outros estudiosos é o de governança que sempre esteve vinculada à forma de organização 78 política da sociedade. Em um interessante e reflexivo texto sobre a relação entre governança e Estado esta Kissler e Heidemam (2006) apontam os riscos da economização deste e para a importância do fortalecimento da participação popular e rede de cooperação neste novo rearranjo entre estado, mercado e governo. A cooperação engloba tanto o trabalho conjunto de atores públicos, comunitários e privados, quanto novas formas de transferência de serviços para grupos privados e comunitários. Sinalizando para toda problemática do termo os autores com algum ceticismo dizem: Mas, em vista dos problemas descritos e do limitado alcance da capacidade de gestão e de financiamento, deve-se questionar se a força legitimadora dos procedimentos da governança pública seria suficiente para fundamentar essa nova forma de exercício do poder: o "poder do povo" pela cooperação. Essa seria a perspectiva de uma polis, na qual os cidadãos, em conjunto, se preocupariam com a res publica e velariam pelo bom nome das organizações públicas, no sentido de entidades que cuidam do que é público e do que o público significa. (2006, p.499) A partir do texto destes autores, pode-se dizer que um dos grandes problemas para a efetivação de uma governança pública inclui pensar em mecanismos de democracia participativa que garanta um amplo espaço a organização da sociedade civil. Como pertencente ao campo da cultura humana, o esporte de natureza também vai sofrer forte influência da forma como a economia e a organização social ocorrem nas cidades. Se o esporte de alto rendimento é excludente, o esporte de natureza por possuir inúmeras possibilidades de prática permite uma maior acessibilidade, pois pode ser praticado pelo simples prazer e oportunidade. “Eu vejo a canoagem como uma pelada náutica porque você consegue juntar muita gente, ora competindo, ora brincando e você sabe o que é fazer uma caiacata, 80 pessoas de caiaque dentro d‟água com suas mochilas nas costas e dizer vamos chegar a tal ilha, em tal lugar e fazer ali um acampamento é uma coisa maluca...” (Roberto, federação de canoagem) O surf, apesar de possuir um custo econômico com a prancha, permite pelo uso público da praia, que muitas pessoas o pratiquem. O mesmo pode-se dizer das corridas, ou caminhadas em trilhas. Diferente de outras modalidades que exige a inserção dentro de um clube para sua prática, por exemplo, natação em piscinas. Assim o desporto de natureza se dilata para além do aspecto competitivo e de rendimento e proporciona outros espaços de entretenimento. Outro aspecto que pode ser ressaltado são as 79 múltiplas possibilidades nas formas de suas práticas o que diminui as especificidades de funções e papéis tão comuns nas modalidades tradicionais. Melo (2009) mostra em sua dissertação que o esporte de natureza possui uma tripla ação: a primeira refere-se a uma sustentabilidade sociocultural, que permite que o controle e a gestão de recursos disponíveis sejam efetivados localmente pelas populações autóctones, de acordo com os traços culturais e os padrões de referencias; a segunda refere-se à sustentabilidade ecológica, que garante a adequação entre o desenvolvimento e a preservação ambiental e a terceira refere-se à sustentabilidade econômica que permite a eficiência econômica sem ameaçar o crescimento futuro. É importante ressaltar como os locais das práticas desportivas vão aos poucos se deslocando dos campos restritos - estádios e ginásios - para os espaços, até então, inusitados como montanhas e praias. Surge a partir das últimas décadas do século XX, o futevôlei, o mbk, entre tantos outros. Estas práticas começam nos países com amplas regiões litorâneas e começam a ganhar cada vez mais adeptos. De acordo com Dias (2007): Esta mudança do ambiente da prática expressa, no campo esportivo, mais um desdobramento da generalizada busca do contato com a natureza. Reside aí o ponto de relação com o processo de “ecologização social”. Ou seja, há uma explosão das práticas desportivas praticadas na natureza, no qual o meio ambiente funciona como uma espécie de propulsor. O autor associa isto ao conceito de “territorialidade” que torna o esporte de natureza original. As condições pouco estáveis e imprevisíveis em que se realizam têm sido encaradas como um marco fundador e característico. Além disso, os espaços destinados a essas vivências de lazer estão fora e mesmo dispensam ambientes artificialmente construídos e promovem uma expansão dos espaços esportivos na cidade. De forma criativa e sutil, a prática de esporte de natureza, muitas vezes identificado com a pós-modernidade, não rompe com o conceito esportivo moderno, mas amplia-os. Nas cidades, força a abertura para novos espaços públicos visíveis e invisíveis, na realização dos desejos individuais e coletivos, principalmente entre os jovens. Situa-se para além do campo competitivo e alto rendimento. Neste contexto, há extrapolação das classes sociais e congrega em grupos cooperativos, os amantes do esporte. No âmbito do espaço público, novas formas de uso, geram novas leis e regramento para o convívio social. Talvez seja por esta razão 80 que o esporte de natureza ajuda na desconstrução dos muros e dos simbolismos que associam a segregação com a noção de segurança. Isto porque as pessoas vêm mostrando que grande parte de sua realização como pessoa se constrói no risco, na insegurança, no contato com uma alteridade da natureza tão diferente que põe em evidência a humana. Isto não significa excluir na prática dos esportes de natureza os requisitos mínimos de segurança e organização, mas, sobretudo, aceitar o outro, o imponderável, como parte do mundo e da vida que permite o convívio maduro no coletivo. Figura 6: Jackson (vovô do caiaque) Fonte: smnbs2011 “não, não, não. Era uma coisa espiritual. Então, ela olhou para mim e disse: o senhor tem muita coisa do mar em casa? - Tenho. Tem o que? - Tenho rabo de arraia, casco de tartaruga, língua de arraia, esponja tem búzios de todos os tamanhos. É seu? Eu acho que é meu. Não, não é seu não. É do mar... Se quiser continuar feliz no mar, você vai pegar tudo e vai colocar no mar de volta. E cada objeto você vai despejando e dizendo: devolvo aquilo que retirei. E aí eu digo: Não precisa nem a senhora dizer mais que vou fazer isso e hoje... e assim fiz. Senti-me mais leve.” (Jackson, o vovô do caiaque) Citando como exemplo o movimento de apropriação dos espaços públicos cariocas para a prática de atividades esportivas, o autor nos mostra como os esportes de natureza, muda a materialidade urbana. Ele traz novas questões espaciais e inauguram, principalmente entre os mais jovens, novas formas de viver na cidade, transformando costumes que, via de regra, sempre foram acompanhadas por significativas intervenções urbanísticas e muitas vezes, conflito de interesses. Deste modo, os habitantes de Esmeraldina são poupados do tédio de percorrer todos os dias os mesmos caminhos. E não é tudo: a rede de trajetos não disposta numa única camada: sobe-desce de escadas, bailéu, pontes arqueadas, ruas suspensas. ...os habitantes se dão o divertimento diário de um novo itinerário para ir aos mesmos lugares. Em Esmeraldina, mesmo as vidas mais rotineiras e tranqüilas transcorrem sem se repetir. (CALVINO, p. 83). Esta realidade está exposta na divulgação deste ano pela internet, de um artigo no qual a ONU, por meio de sua relatora para a Moradia Adequada, Raquel Rolnik, acusa as autoridades de várias cidades-sede da Copa do Mundo e do Rio de Janeiro, que receberá as Olimpíadas, de praticar desalojamentos e deslocamentos forçados que poderiam constituir violações dos direitos humanos. Lógica de mercado 81 invade o mundo do esporte. Esporte inclui e exclui quando os interesses de mercado prevalecem. Estou particularmente preocupada com o que parece ser um padrão de atuação, de falta de transparência e de consulta, de falta de diálogo, de falta de negociação justa e de participação das comunidades afetadas em processos de desalojamentos executados ou planejados em conexão com a Copa e os Jogos Olímpicos. Destacou que os casos denunciados se produziram em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Recife, Natal e Fortaleza. (ROLNIK, 2011, p.1) Para a relatora há pouca compensação oferecida às comunidades afetadas, o que é ainda mais grave dado ao o aumento do valor dos terrenos nos lugares onde se construirá para estes eventos. Ela citou vários exemplos, como o de São Paulo, onde "milhares de famílias já foram evacuadas por conta do projeto conhecido como 'Água Espraiada', onde outras dez mil famílias estão enfrentando o mesmo destino" (ROLNIK, 2011, p1). Com a atual falta de diálogo, negociação e participação genuína na elaboração e implementação dos projetos para a Copa e as Olimpíadas, as autoridades de todos os níveis deveriam parar os desalojamentos planejados até que o diálogo e a negociação possam ser assegurados. (ROLNIK, 2011, p.1) Além disso, a relatora solicitou ao Governo Federal que adote um "Plano de Legado" para garantir que os eventos esportivos tenham um impacto social e ambiental positivo e evite as violações dos direitos humanos. "Isto é um requerimento fundamental para garantir que estes dois megaeventos promovam o respeito pelos direitos humanos e deixem um legado positivo no Brasil" (ROLNIK, 2011, p.1), finalizou. Este relato mostra o quanto o discurso esportivo da sustentabilidade pode estar afastado da realidade de grande parte da população em geral e é um exemplo do que Maricatto (2006) analisava. A partir do exposto acima, fica praticamente explícito que só é possível se pensar a sustentabilidade urbana brasileira se levar em conta os fatores que entravam à construção da democracia e a eqüidade social. Entre os aspectos relevantes nas duas vertentes citadas está a valoração dos espaços públicos. Os espaços públicos, inclusive as ruas, são os locais onde as diferenças se encontram. Nos últimos anos, em função do modelo de desenvolvimento e a concepção patrimonialista das cidades estes espaços foram bastante depreciados em seus usos coletivos ou incorporados dentro de uma lógica excludente de uso privativo de um grupo social que detém o poder. Por isto, manter o distanciamento entre as classes exige que os lugares públicos sejam desconstruídos socialmente e em seu lugar sejam 82 colocados espaços fechados passíveis de controle. Surgem os condomínios fechados, valoração extremada dos shoppings. Este fenômeno começa a ser observado na cidade de João Pessoa, particularmente na expansão urbanística em direção ao litoral sul. Caldeira (2003, p.255) na sua análise sobre o espaço público em São Paulo no final da década de 1990, mostra que havia uma segregação como forma de reação ao processo de ampliação da democratização política e controle sob os novos cidadãos com direitos na construção da cidade: “a casa 16, no final do condomínio, tem outro interfone, outro portão eletrônico e dois seguranças armados (...). O empregado não sabe que porta de casa eu mereço, pois não vim trazer entrega nem tenho aspecto de visita” (BUARQUE, 1991, p. 14-16 apud CALDEIRA, 2003). A transformação do espaço público, de acordo com Caldeira (idem), em um espaço de medo e insegurança, dentro da lógica da exclusão, torna-se antagônico a tolerância à diferença, requisito básico para a democracia. Neste sentido a qualidade de vida pública se empobrece e a sustentabilidade da cidade torna-se uma ilusão. Em locais de praia, esta segregação pode ser feita diminuindo nos finais de semana a circulação dos transportes coletivos para determinados locais. Ou ainda, pelo fechamento, por meio de muros de casas ou comércio do acesso a praia. Se contrapondo ao fechamento dos democráticos das cidades, aparece no cenário cada vez mais a concepção da cidade como direito dentro de suas reais possibilidades de transformações. Segundo Rodrigues (2007, p.1): “A cidade como direito precisam ser compreendidos com as suas incertezas, problemáticas, caminhos e descaminhos, paradigmas, ordens e desordens, desigualdades, organização e participação social”. Paradoxalmente, exatamente pela insegurança e medo da violência, os esportistas de natureza, particularmente, os mais urbanos como os corredores de rua e ciclistas vêm aos poucos resgatando alguns espaços públicos. Devido à heterogeneidade social entre muito dos seus praticantes, eles buscam o uso destes espaços gratuitos para seus treinamentos. De modo geral para evitar violência individual eles se agrupam e vão se apropriando de alguns pontos de referência para seus encontros. Com o passar do tempo, próximos a estes pontos vão surgindo, mesmo que de maneira insipiente, outros grupos tais como: os de ambulantes e outros grupos de atletas cujo local vai ganhando visibilidade. Por laços de empatia com o local, eles passam a exigir cuidados com aquele ponto, o que muitas vezes gera melhoria da infra-estrutura. 83 As praças, assim como as ciclovias tornam-se espaços valorizados pelos esportistas inclusive os de natureza, por representarem espaços de segurança, locais de encontro, pontos de concentração de eventos, e, em muitos dias, locais de lazer, como passeios de bicicleta, espaços para corridas leves, de ginástica ao ar livre, a exemplo do que ocorre nos projetos Praças de João Pessoa20. Franch e Queiroz (2010, p. 21) reforçam esta idéia quando afirmam que as praças são espaços públicos urbanos destinados à convivência, do encontro e da alteridade, onde se confrontam diferenças, se explicitam conflitos e se praticam também a urbanidade e a política. Nas cidades, onde há falta de calçamento como São Paulo e Brasília, já que as ruas foram preferencialmente pensadas nos automóveis, os projetos esportivos públicos, em determinados horários fecham trechos de ruas ou avenidas para as práticas esportivas ao ar livre impedindo a passagem de carros, são bastante valorizados. Em João Pessoa é interessante observar a quantidade de pessoas que praticam algum tipo de modalidade esportiva em algumas avenidas como: Avenida Hilton Souto Maior, no bairro Mangabeira e na Avenida Cabo Branco, no bairro Cabo Branco, durante as primeiras horas da manhã. Estes projetos exigem entrosamento e apoio entre alguns órgãos públicos como: transporte urbano, segurança, departamento de trânsito. Muitas vezes, esta prática torna-se tão enraizada entre os moradores e esportistas que quando se tenta reverter este direito, há uma forte mobilização das associações desportivas, ONGs, associação de moradores e outras, como ocorreu em 2009 em Brasília com relação ao fechamento do Eixo no domingo e feriados para uso da comunidade. Outro exemplo, da relação espaço público e esporte de natureza está na prática do surfe e suas várias derivações (kitesurf, skateboard, windsurfe, snowboard, wakeboard), que se utilizam das praias nas cidades litorâneas como João Pessoa, Fortaleza, Florianópolis, Rio de Janeiro para sua prática. Estima-se que no Brasil, haja pelo menos cinco milhões de praticantes atualmente de acordo com o ISA21, sendo o terceiro maior praticante após Austrália e EUA. Considerado um esporte democrático por sua acessibilidade e popularidade, já que a praia é entendida pelos habitantes como um “bem público de uso comum do povo, sendo assegurado, sempre livre e franco acesso a elas e ao mar, em qualquer direção e 20 Projeto de revitalização e valorização das praças de João Pessoa como espaço de convivência e sociabilidade 21 ISA – International Surf Association, In: www.sbs-shapers.com/olimpiada.html, consultado em 4.05.2010 84 sentido.” No entanto, segundo Dias (2010), devido à apropriação inadequada dos espaços públicos por grupos privados, não é tão incomum haver pontos de tensão. Podese citar a proibição do vôlei de praia (Ipanema em 1950), o do „frescobol' (Copacabana, em 1980) e a limitação do surf em alguns horários. Em 2005, a então, vereadora Teresa Berger, encaminhou um projeto de lei à Câmara de Vereadores carioca para reduzir o espaço de praias para os esportes, particularmente do Kite Surfe e envolveu o Ministério Público e a Associação Brasileira de Kite Surfe (ABKS). Esta falta de educação para o uso apropriado dos espaços públicos é facilmente observada. Como se não existissem regras e leis, as calçadas são ocupadas por carros, ambulantes. Comerciantes transformam as calçadas em estacionamentos, pontos de venda e puxadinhos onde expõe mercadorias ou mesas. Os portadores de necessidades especiais, cadeirantes e cegos, muitos destes praticantes de esporte de natureza, que se virem. Apesar de este ter sido alvo, inúmeras vezes das campanhas da fraternidade pela CNBB, na prática sofrem com os constantes abusos em seu direito a vaga de estacionamento, rampas e calçadas sem buracos. Em João Pessoa, por exemplo, nos finais de semana é comum ver carros estacionados nas ciclovias próximos a Estação Ciência e carros estacionados nas areias da praia do Seixas. Outro meio de se evitar a heterogeneidade das ruas foi à transformação do transporte público coletivo em transporte orientado de modo geral para a classe trabalhadora mais pobre, principalmente os ônibus. Em Mossoró, no sertão do Rio Grande do Norte, por exemplo, não há transporte público. O deslocamento é feito de carro, a pé ou por táxi, incluindo o mais comum, o moto táxi. Como há forte segregação social, os jovens de classe média e alta, evitam as ruas e concentram seu lazer dentro dos shoppings e clubes. Já os jovens de periferia ou mais pobres, têm os seus espaços preferencialmente concentrados nos bairros, ou shopping populares e no convívio dentro de espaços culturais específicos. Devido ao aumento dos praticantes de algumas modalidades de esportes de natureza que exigem trilhas como moutain bike (MTB), corridas rústicas ou de orientação, rafting, os parques ecológicos, como as APAS22 passam a ser valorizadas 22 APAS- área de proteção ambiental. De acordo com a Lei Federal 9.985 de 18.07.2000 a APA é classificada como de uso direto dos recursos naturais assim como Florestas Nacionais, Reservas Extrativistas e Reservas de Fauna. Nas APAS coexistem espaços urbanos e rurais e é permitido propriedade privada. Elas são consideradas espaços de planejamento e gestão 85 como local público e cuidado por estes grupos, particularmente na questão do lixo. Não são incomuns entre esportistas, os mutirões para a limpeza de trilhas e das praias. No entanto, isto está longe de resolver o problema dos lixões. Em João Pessoa, alguns corredores ressaltaram o pedestrianismo dentro dos sítios ambientais como áreas prazerosas para seus treinos, principalmente próximas a Valentina. Isto também implica o aumento de algum tipo de impacto ambiental o que exige determinados cuidados. Ao se pesquisar sobre a prática de esportes de natureza na cidade de João Pessoa se percebe o quanto os cenários da cidade podem ser apropriados de maneiras diversas e criativas por seus esportistas. De certa forma é como se a cidade geograficamente delimitada guardasse dentro de si inúmeras outras cidades com suas múltiplas possibilidades de convívio. A tentativa de se fugir da rotina do treinamento incita às novas explorações de espaços e grupos sociais. Depois do surgimento das modalidades como triathlon prática de esporte ao ar livre que ocorre em três atos: natação em águas abertas, ciclismo e corrida - há uma maior mobilidade entre as modalidades e nas formas de se pensar e fazer esporte, sua relação com o ambiente e com a sustentabilidade no que diz respeito à valoração da natureza e qualidade de vida. Dentre as transformações culturais trazidas pela globalização, questão ambiental e sustentabilidade, o esporte foi ressignificado no espaço e no tempo em relação às cidades. O objetivo é que por meio de uma prática regular de atividades no espaço público, a população adquira o máximo de benefícios, não só no campo da saúde como também na realização dos seus desejos e necessidades pessoais. A efetividade das instalações esportivas de uso público terá que se adequar ao modelo e dinâmica de cada cidade, de acordo com sua diversidade. Segundo da Silva (2008), muitas vezes, a cidade passa a ser percebida através de sua “vocação esportiva”. Esta recontextualização do esporte incluiu uma ampliação na sua relação com os movimentos sociais e com a ordem pública, tais como ministério da saúde, ministério das cidades, ministério da educação, ministério da cultura e o ministério do turismo. Mezzaroba (2008) fez um estudo a partir dos trabalhos de Norbert Elias - Sugestões para uma teoria de processos civilizadores e Ensaio sobre o desporto e a violência – para mostrar como a atividade esportiva envolve três dimensões socializadoras. A primeira é o autocontrole - controle sobre si; controle interno dos indivíduos; a segunda é o controle da violência pelo Estado e a terceira dimensão é a catarse na relação tensão-excitação que o ambiental a fim de assegurar o bem-estar e qualidade das comunidades próximas e a preservação da unidade ambiental dentro dos princípios da sustentabilidade. 86 esporte propicia. Esta última dimensão é bastante presente nas práticas de esportes de natureza, nos esportes de aventura e nos esportes radicais. O autor também cita que as organizações não-governamentais ou terceiro setor, cada vez mais utilizam as atividades desportivas como forma de introduzir as noções de regras e canalizar uma possível violência que pode não ser benéfica à sociedade. Segundo ele: “Enquanto pratica esporte, o indivíduo está de acordo com regras que, por mais que pareçam rígidas, não são tão duras quanto às regras da sociedade – no esporte, as regras são representações das regras da sociedade, não são réplicas” (MEZZAROBA, 2008, p.1). Em relação à catarse será possível associá-la a vertente sócio-educativa do esporte à medida que a população associa a prática regular de atividade física a uma satisfação na busca de novas sensações e satisfações de novas necessidades sociais, da fuga da rotina, de procura de evasão e do risco e aprende quando bem orientado a lidar com sua agressividade e a respeitar limites. Segundo Melo (2009), o desporto deve ser entendido como um fenômeno social amplo e com caráter multidimensional, pois engloba o campo econômico, o educacional, o social, o cultural, ambiental e político. Em seu trabalho o autor pontua que o desporto possui uma estrutura aberta e combinações de seus diversos elementos como: jogo, movimento, agonística, instituição e projeto e deve levar em conta os objetivos a atingir, as metodologias a empregar e os destinatários a considerar. Deste modo o desporto está a serviço das pessoas e não as pessoas a serviço dele. Quanto ao papel da natureza para os praticantes do esporte de natureza, ela é o lócus de seus desejos esportivos e o local nos quais as ações acontecem. Neste sentido: A natureza é apresentada como uma proposta que pretende envolver o desporto como uma prática de relações intersubjetivas com os praticantes, cuja finalidade é eles poderem extrair prazer dessa interação, na medida em que a própria natureza é apontada como uma das suas motivações principais, e seus simbolismos é permeada por uma mitologia do reencontro com a natureza selvagem. (MELO, 2009, p.98) Os espaços ao ar livre em contacto com a natureza são, de fato, o cenário comum a estas práticas, normalmente em zonas rurais ou em áreas protegidas, próximas dos locais habituais de residência ou em locais mais afastados, onde se tenha a necessidade de realizar deslocamentos turísticos. A cidade de João Pessoa oferece em sua área urbana, devido aos seus parques e áreas de preservação, cenários bastante apreciados nas práticas de esportes de natureza. Isto começa a ser reconhecido na esfera política e administrativa.Em março deste ano de 2011, por exemplo, o prefeito da Capital 87 entregou a Câmara de vereadores, um projeto de lei que cria o sistema Municipal de áreas protegidas de João Pessoa (SMAP). No dizer do prefeito Luciano Agra, a importância do projeto é garantir uma cidade onde a população tenha recantos naturais para usufruir. De acordo com o discurso oficial do Município, a manutenção das áreas verdes em João Pessoa contempla um dos princípios da sustentabilidade e de qualidade de vida. Segundo a secretária do Meio Ambiente de João Pessoa, Lígia Tavares, o SMAP vai: “Garantir o desenvolvimento sustentável, ou seja, a cidade vai crescer, mas vai ter uma política de manutenção das áreas verdes que é importante para continuar ofertando para gerações presentes e futuras os serviços ambientais necessários à qualidade de vida". Numa outra fala, o prefeito Agra reforça: O projeto de lei que cria o SMAP tem a finalidade de definir e estabelecer os critérios e normas para criação, implantação e gestão das Unidades de Conservação da Natureza e dos parques da cidade administrados pela PMJP. Ele visa ainda oferecer a sociedade espaços de contato com o meio ambiente que sejam mais atrativos. (AGRA, 2011, p.) Para a secretaria do meio ambiente (Seman), atualmente João Pessoa possui seis parques ecológicos: Cabo Branco, Arruda Câmara, Lauro Pires Xavier, Aratu, Jacarapé, Cuiá e o de Jaguaribe. Pode-se, assim, pensar a prática do esporte de natureza em João Pessoa dentro da perspectiva da sustentabilidade urbana dentro das três vertentes citadas por Melo (2009, p.7). A primeira vertente refere-se à sustentabilidade sociocultural, que permite que o controle e a gestão dos recursos disponíveis sejam efetivados localmente pelas populações autóctones, de acordo com os traços culturais e os padrões valorativos de referência; a segunda vertente refere-se à sustentabilidade ecológica, que garante a adequação entre o desenvolvimento e a preservação ambiental e a terceira vertente refere-se à sustentabilidade econômica, que permite a eficiência econômica sem ameaçar o crescimento futuro. Melo (2009) em seu trabalho afirma que o cuidar ecológico associado à educação ambiental é um dos aspectos mais valorados entre os praticantes dos esportes de natureza. Este aspecto será analisado nesta pesquisa a partir dos dados coletados nos questionários aplicados. No entanto, pode-se perceber de maneira informal no convívio com os esportistas, que, dentre as três vertentes citadas no parágrafo anterior na cidade de João Pessoa, a segunda vertente possui maior visibilidade entre os desportistas e em 88 curto prazo apresenta pelo menos no plano individual, mudanças de atitude na relação homem/natureza. No que concerne a primeira vertente, esta fica na dependência de políticas públicas e do interesse e mobilização das populações locais de se apropriarem de fato do ambiente em que vivem e os utilize inclusive como espaço de lazer e a terceira vertente exige novos modelos de gestão para desenvolvimento e crescimento, incluindo, as gestões desportivas, como veremos nos dados de pesquisa. Quanto a terceira vertente é válido comentar alguns aspectos levantados por Steiner e Boselli (2010) quando analisam o papel do terceiro setor e os projetos sócioesportivos. Segundo eles, os projetos sociais relacionados aos esportes no Brasil sofrem de descontinuidades, de modo geral, por três aspectos: i) Ausência de políticas públicas esportivas de médio e longo prazo e promoção da cultura da atividade física desportiva, como entretenimento lúdico e prazeroso em qualquer idade, sexo, raça e classe social; ii) Desconhecimento ou pouca utilização dos incentivos fiscais existentes na legislação brasileira. Isto se concretiza na questão da lei de incentivo ao esporte abordado no capítulo I que ainda é bastante desconhecida, além de ser considerada burocrática por aqueles que possuem conhecimento de sua existência, como refletido na fala de um dos gestores entrevistados. Por último, o ponto (iii) Diz respeito a indicadores de desempenho de projetos e ações sociais esportivas concretos, tornando não mensurável o retorno social e humano no curto, médio e longo prazo. Os autores acima trabalham em seu artigo com a vinculação entre o esporte e economia e dizem: O esporte é considerado além de uma grande indústria de produtos e serviços, que movimenta bilhões reais envolvendo diversas outras atividades direta e indiretamente (mídia, turismo, calçados, prestações de serviços, etc.), como um agente de transformação e mudança em comunidades desprovidas de todos os tipos de recursos, sejam naturais, econômicos, tecnológicos e sociais. (STEINER; BOSELLI, 2010, in HTTP://www.progressivaconsultoria.com.br ) No campo da economia, só a indústria do surfe gravita em torno de uma arrecadação de R$ 2,5 bilhões com a produção e comercialização de calçados, artigos de vestuário e acessórios de acordo com Dias (2007). O Brasil é o segundo país do mundo que mais consome artigos de surfe. No Rio, já existem os „Surf bus‟, ou seja, ônibus que permite espaço para transporte das pranchas. Em relação às caminhadas em montanhas estima-se que haja no mundo em torno de 50 milhões de praticantes. Junto aos setores relacionados à fabricação de equipamentos, está o setor turístico. Em 2002, só no Rio de Janeiro, 10% das agências cadastradas no setor realizaram atividades voltadas para o eco turismo ou turismo esportivo. Em 89 2005 havia uma estimativa de mais ou menos dois milhões de praticantes de esporte de natureza no país. Quanto ao conceito de qualidade de vida e seus indicadores para os esportes de natureza esta pesquisa se orientou pelo trabalho desenvolvido na UNICAMP envolvendo Saúde coletiva e Educação Física. Este grupo de estudo definiu a qualidade de vida (QV) a partir do cotidiano das pessoas, envolvendo saúde, transporte, educação, moradia, trabalho e participações nas decisões que lhes dizem respeito. Ao usar o termo QV, pode-se estar indicando, entre outros, bem estar pessoal, posse de bens, participações em deliberações coletivas, ou seja, o conceito é amplo e pode ser aplicado com inúmeros sentidos. Outro trabalho importante que também serviu de referência foi o realizado por Gáspari e Schawartz da Universidade Estadual Paulista em 2001. O estudo apontou que o esporte como lazer, contempla a auto-motivação, colocando o elemento prazer em evidência. Além disso, oportuniza, pelas vivências lúdicas espontâneas, mudanças atitudinais e de condutas. O artigo ainda cita a definição de Qualidade de Vida de Rittner (1994, p. 110) como: “... processo de busca de vivência plena, de desenvolvimento de potencialidades e evidencia o compromisso de otimização da condição humana em busca do que denomina ecologia interior.” Os autores usaram o método qualitativo, por se tratar do comportamento humano, das ações, das intencionalidades, dos significados e das finalidades. Segundo os autores, este método possui a característica de ter como objeto situações complexas e estritamente particulares. Permite além de descrições e análise de interações de variáveis, compreenderem e classificar os processos dinâmicos de grupos da sociedade, inclusive, contribuir para os processos de transformação de certos grupos sociais. Outros autores como Almeida e Gutierrez (2004, p.21) fizeram um trabalho relacionando a qualidade de vida, esporte e política pública. Segundo estes autores, esta última deve priorizar tanto as condições de acesso às práticas físicas e cuidados à saúde, quanto a intervenção no cotidiano que leve as pessoas a perceberem e valorizarem as atividades físicas em suas vidas. Após termos conceituado e decorrido sobre alguns aspectos importantes ao abordar as cidades, os esportes de natureza e as políticas públicas neste quarto capítulo, os próximos seguintes analisarão os dados obtidos durante a pesquisa de campo. A partir deste conjunto de dados espera-se construir o panorama do esporte de natureza em João Pessoa e o perfil daqueles que o praticam. A partir destas análises poderá se perceber o enorme campo de reflexões que o assunto permite e como ele adquire importância à medida que se pensa possibilidades de inclusão social, emprego, mercado, educação ambiental e muitas outras políticas tanto quando se pensa em intervenção do Estado como nas iniciativas privadas. 5 - NAS TRILHAS DAS PRÁTICAS DO ESPORTE DE NATUREZA: MATAS, RUAS E PRAIAS DA CIDADE DE JOÃO PESSOA Neste capítulo, serão analisados alguns aspectos dos dados empíricos coletados que revelam as inter-relações dos esportes de natureza com algumas das prioridades da Agenda 21, no que se referem à sustentabilidade, às políticas públicas e à melhoria de vida da população. Para tal, serão analisados: o gênero, a faixa etária, a escolaridade e o trabalho, a percepção da saúde, o mercado e o associativismo, ou como conceituado por Putnam (2008), a comunidade cívica. As análises seguintes vão sinalizar como esses aspectos possibilitam a construção de políticas públicas sociais que também serão analisados e comentados no sexto capítulo. 5.1 DO GÊNERO Cena 3: Rosana (Nena) chega para nadar. Ela tem aproximadamente 61 anos. Casada. Mãe de três filhos já casados. Vem de bicicleta. Faz o trajeto de sua casa no Altiplano para a natação, no mesmo bairro a pelo menos seis meses. A prática tem indicação médica e desejo pessoal. Mas para poder fazê-lo tem que acordar às 4 horas da manhã e realizar todos os afazeres da casa (limpar, lavar, cozinhar) e alongamento, depois de tudo isso vai fazer sua natação. Possui uma doença (Parkinson), que nela se manifesta pela rigidez nos membros, delimitando seus movimentos, mas quer muito nadar, quem sabe até fazer uma travessia. Com ela vai de bicicleta, sua cunhada, viúva, 70 anos, e muitas vezes, sua sobrinha. Quando nada duas vezes ao dia é acompanhada pelo sobrinho-neto (13 anos) que também nada e se considera surfista. Está fundando uma associação para portadores de Parkinson. Seu símbolo é Phênix. A questão de gênero é uma das prioridades da Agenda 21 do movimento olímpico e um dos focos de atuação quando se pensa em desenvolvimento sustentável, por isto sua análise não poderia faltar neste trabalho. Na prática como demonstra esta pesquisa, é uma questão que merece destaque. Segundo Garcia et al. (2011), as relações de gênero possuem relações com as de poder, no sentido de que o gênero é mais uma instância onde ocorre o a relação de dominação: ... Não basta saber se mudou a vida da mulher, mas se lhe conferiu autonomia, capacidade de decidir sobre o próprio destino: ou permanece naintrincada rede das relações tradicionais barganhando voz, espaço, direito à mobilidade. (GARCIA ET ALI., 2011, p.67). O que mais interessa a esta pesquisa esportiva é quando os pesquisadores sobre gênero da zona rural dizem: “(...) novas possibilidades abriram-se para os gêneros 91 contestarem os códigos rígidos e o binarismo hierárquico nas práticas de significações repetidas em que a subversão é possível (...)” (idem, p. 67). Goellner et al. (2005, p. 86), pesquisadora da área de Educação Física e desporto da URGS, diz: No Brasil, até meados do século XIX, a estrutura extremamente conservadora da sociedade não permitia às mulheres grande participação em alguns ambientes sociais, dentre eles o esportivo, uma vez que eram criadas para serem esposas e mães. Gradativamente esse quadro começa a mudar. Recémindependente de Portugal, o país se preocupava em ser reconhecido pelas grandes nações do mundo e, atento aos avançoseuropeus, incentiva o consumo de bens e costumes importados. Para a autora, durante este período a ênfase era no papel da mulher enquanto procriadora: Recomendações e prescrições, no que tange aos exercícios corporais femininos, direcionam-se para a preservação e constituição de uma boa maternidade considerada, neste momento, como a mais nobre missão da mulher, pois dela depende a regeneração da própria sociedade.Esses discursos podem ser localizados em diversos manuais e livros escritos no Brasil desde meados do século XIX e também nas revistas direcionadas especificamente para o público feminino.(idem, p. 88) A partir de 1930, após a participação da nadadora paulista Maria Lenk na Olimpíada de Los Angeles, o cenário começa a mudar. Em 1960, Maria Esther Bueno se destaca ao vencer o campeonato de tênis de Wimbledon. Atleta de renome internacional foi vencedora nos anos de 1960, 1963, 1965 e 1966 na categoria de duplas. Em 1964, a atleta Aida Santos, conquistou sem técnico e sapatilhas apropriadas o 4º lugar no salto com vara em Tóquio. Em 1994, brilha a dupla de voleibol de areia nas Olimpíadas de Los Angeles. Em 2008, as mulheres voltam a brilhar no futebol, no voleibol de quadra e de areia e no salto em distância. No entanto, até hoje, uma das observações feitas por Goellner permanece presente: Nesse sentido, é possível afirmar que a presença da mulher no mundo do esporte representa, ao mesmo tempo, ameaça e complementaridade: ameaça porque chama para si a atenção de homens e mulheres, dentro de um universo construído e dominado por valores masculinos e porque põem em perigo algumas características tidascomo constitutivas da sua feminilidade. Complementaridade porque parceirado homem em atitudes e hábitos sociais, cujo exercício simbolizaum modo moderno e civilizado de ser.[...]Criatura diferente e também desestabilizadora porque colocava em suspeição uma representação de mulher arraigada aos valores da família, do recato e da honra. A ampliação da participação feminina em diferentes espaços sociais, 92 dentre eles os esportivos, não se deu sem a presença de conflituosas reações, pois simultaneamente mesclava-se a herança de um recente passado colonial, agrário e cristão e o devir de um futuro moderno, industrial e não menos cristão de forma a equiparar duas exigências complementares e contrapostas: a permanência da mulher no lar porque mãe e guardiã dos valores morais da família e a sua fluência na rua porque integrante de uma cidade que principiava a oferecer extraordinárias novidades de consumo e diversão.(idem, p. 89) Na Paraíba23em termos populacionais brutos, existem 50.000 mulheres a mais do que os homens. Em João Pessoa, em praticamente todos os bairros, de acordo com o censo do IBGE de 2007, as mulheres aparecem como maioria. O que mostra o quanto sua participação esportiva ainda é ínfima. O gráfico 1 mostra a participação das mulheres dentro dos esportes de natureza em João Pessoa. Gráfico 1 - Distribuição do gênero nos segmentos de gestores, esportistas e master Fonte: SMNBS, Pesquisa de campo 2011 As práticas esportivas seduziam e desafiavam muitas mulheres que, indiferentes às convenções morais e sociais, aderiram a sua prática independente do discurso hegemônico da interdição. Incentivadas ou não, a participarem de determinadas modalidades, a ampliação da participação feminina no esporte possibilitou a emergência de algumas competições de grande porte destinadas exclusivamente às mulheres. (GOLLNER,2005, p.3) 23 A tabela II da página 107 mostra a distribuição dos esportistas por bairros, considerando o número da população e o gênero. Com maior número de esportistas de natureza neste trabalho, a distribuição por gênero 93 Com relação ao gráfico acima, de modo geral, enquanto esportistas a participação feminina se situa em torno de 25% a 30%, já na gestão esportiva este percentual cai para 18%, pois dos dezesseis (16) questionários avaliados apenas três eram de mulheres: Rita Mascarenhas gestora da Ong Guajiru, ligada ao surf, Leila Rabay, Presidente da Associação Paraibana Master de Natação, APBMN, e a outra é a Sra. Silvia, assistente da Federação de ciclismo. A explicação mais plausível para este fato é que a estrutura organizacional esportiva segue o modelo patrimonialista, bem como outras instâncias institucionais já apontadas por Maricato (2006) e Caldeira (2003,p.303). Em conseqüência, de modo geral, as mulheres ocupam papéis secundários ou de apoio e vinculadas a algum grau de parentesco ou amizade. Por exemplo, a do ciclismo como esposa do, ou filha de fulano de tal. Os dados acima, por sua vez, se encontram dentro do contexto apresentadas em outros trabalhos de pesquisa já citados como os de Goellner (2005). Segundo dados de suas pesquisas, apesar do crescimento da participação das mulheres nos esportes,nas federações a participação feminina não chega a 1%. [...]da inexpressiva participação da mulher nos setores de organização e de direção do esporte, como por exemplo, nas federações e confederações esportivas e no Comitê Olímpico Brasileiro, cujos cargos permanecem sob o domínio dos homens mesmo após a indicação do Comitê Olímpico Internacional, em 2000, de que os Comitês Nacionais procurassem promover estratégias de inserção da mulher nos cargos de comando, de forma a se aproximar do percentual de 10% (Goellner, 2005, p.3). Nos últimos tempos, apesar dos extraordinários resultados da equipe de futebol feminina brasileira liderada pela atleta Marta, consagrada cinco vezes mundialmente, o apoio a esta modalidade ainda é bem menor que a masculina. Sua discriminação está presente sob diversos aspectos: horários dos jogos, publicidade, desvalorização da premiação, poucos campeonatos, instabilidade de trabalhos das equipes nos clubes, salários parcos e baixos. Outro campo de atuação ainda muito restrito para as mulheres quando comparadas aos homens na pesquisa é o das técnicas esportivas. Esse ainda é um espaço de domínio masculino, em especial, nas equipes de alto nível. Este aspecto também foi confirmado porque não apareceu no questionário nenhuma técnica feminina nos EN, apesar da presença delas como professoras ou instrutoras de surfe. Nas respostas dos questionários sobre a igualdade de gênero, os esportistas, em sua maioria, consideraram igualitário o tratamento (ver gráfico 2).De acordo com o trabalho de Goellner (2005), 94 este resultado poderia esconder uma série de fatores e introjeções culturais que naturalizam e legitimam as diferenças entre homens e mulheres, impedindo a visibilidade das discriminações. Gráfico 2-Relação de Gênero e Esporte de Natureza Fonte: SMNBS, Pesquisa de campo 2011 Pelo gráfico, 19.64% consideram que o tratamento é desigual e 75% igualitário. Os 5.35% estariam de acordo com as análises de outras pesquisas. Uma possível explicação para o resultado é que durante a prática, ou seja, no treinamento, na atividade em si, as mulheres sejam tratadas da mesma forma que os homens, até porque a atividade esportiva em si, durante muitos anos, foi considerada assexuada. Nas considerações dos resultados - no apoio, na premiação, na publicidade, na oportunidade e na valorização - há a discriminação das mulheres. Para Goellner (2005, p.5): A participação das mulheres é hoje muitomais ampla e diversificada. Todavia, isso não significa afirmar que homens e mulheres tenham as mesmas oportunidades no campo esportivo ou que preconceitos quanto à participação feminina inexistam. Não é raro, ainda hoje, encontrar nas escolas de primeiro e segundo graus disparidades relevantes no que se refere ao acesso de meninas e meninos nas atividades físicas realizadas nas aulas de educação física e/ou no âmbito do esporte educativo. Não é raro também a espetacularização e exposição do corpo da atleta como uma forma de erotização, de exaltação da beleza e da sensualidade (...) Nas análises das entrevistas, também estão presentes as representações das mulheres no cenário esportivo de natureza. De modo geral, as esportistas entrevistadas apontam um aumento na participação feminina, mesmo que modesto, inclusive, com alguns destaques no cenário nacional, como é o caso no ciclismo da jovem Danila (20 95 anos), muito admirada e respeitada dentro da modalidade, inclusive pelos companheiros de treinamento. Veja o quadro V abaixo: Esportes de Natureza Modalidade Participação Feminina VicePaulo presidente A Danila é um talento no ciclismo. Garota humilde, mas Fed.Ciclismo uma atleta jovem e excepcional. Tinha mulheres fazendo canoagem. Quando a federação pifou, elas pararam de treinar, inclusive minha filha, Jackson Canoagem campeã paraibana várias vezes. Tinha muita mulher na canoagem. Muito bonito. Com filhos e tudo. Antigamente havia menos mulheres praticando. Ta Helena MBK melhorando. Tem o pedal das mulheres que a gente faz no mês de março. Participam umas trinta mulheres. Eu tenho uma criança aqui que foi vítima de pedofilia. O cara, hoje, está solto e ela está nesse projeto reciclando sua Arnaldo Badeco Gestor Surf vida. Uma criança maravilhosa. Estuda música na universidade. Dos nove aos doze ficou na mão de um pedófilo. Ela hoje tem medo de freqüentar o ambiente onde mora, porque ele também vive lá. Ta aumentando o número de mulheres, principalmente no Jackonia Ciclismo MBK. Elas gostam de natureza. A Danila é muito boa, mas é ciclismo. Quadro V- Participação Feminina no Esporte de Natureza O quadro nos permite pensar que o incentivo a participação das mulheres na prática do esporte também diz respeito à organização da modalidade, como ressaltado pelo Sr. Jackson. No esporte, também, está refletida a problemática social das meninas quando associada à desigualdade social e à violência, como bem expressou Arnaldo Badeco. Vale ressaltar que, quando se pergunta aos gestores sobre as suas prioridades 96 em relação à macropolítica do esporte nacional, a questão da valorização das mulheres parece em terceiro lugar, isto é, após a questão da geração de renda e dos programas sociais. 5.2. ESCOLARIDADE E TRABALHO Cena 4: Fui a casa de ciclismo Irmão Azevedo, localizada em Mangabeira VII, por indicação de atletas. Ali era o local de encontro dos MBK, segundo eles. Então, lá estava Gleidson, 24 anos, com escolaridade de 6º ano, arrumando bicicleta. Apesar de trabalhar como mecânico de bicicleta o dia inteiro, à noite, treina ciclismo. Foi campeão Paraibano de MBK em 2009 e 2010 e em provas curtas e longas. Segundo ele, só participa de algumas corridas fora quando ajudado por colegas. Para correr o Sprint (velocidade) tem que pegar bicicleta emprestada uns quinze dias antes da competição. Sua primeira bicicleta quando criança foi comprada por ele. Sua renda, por ser irregular, não permite regularidade de treinamento. Os aspectos escolaridade e trabalho quando se pensa em inserção social e diminuição da desigualdade social são praticamente indissociáveis. Assim eles serão analisados em conjunto. No gráfico três abaixo, há indicação na melhoria da oportunidade na escolarização dentre os entrevistados se compararmos os esportistas mais jovens aos mais velhos. Gráfico 3 - Anos de Escolaridade Fonte: SMNBS, Pesquisa de campo 2011 97 Pode-se observar que entre os esportistas (idade entre 12-24 anos), a maioria tem o Ensino Fundamental completo ou o está completando. Entre eles, 68%estão acima dos 12 anos de escolaridade. Alguns não só tem concluído o Ensino Médio, como também terminaram cursos técnicos. Isso é um indicativo da melhoria, senão da qualidade, pelo menos no aumento do tempo de escolaridade e, portanto, maior oportunidade de estudo para a população. O aumento da escolaridade traz algumas implicações positivas dentro de uma política de capacitação esportiva. Entre diversas possibilidades estão: capacitação para quadros de árbitros em várias modalidades (surf, natação em águas abertas, canoagem, corridas, ciclismo, voleibol, futebol entre outras). Com o aumento do número de eventos e participação popular nas organizações esportivas é cada vez maior há necessidade de staffs, auxiliares técnicos, técnicos em informática, técnicos e gestores. Em todos os textos pesquisados neste trabalho sobre sustentabilidade e desenvolvimento o fator escolaridade aparece como fundamental para melhoria da qualidade de vida. Isto porque o tempo e o grau de escolaridade envolvem questões de inserção no mercado, tecnologias, tipos de consumo e maior possibilidade de organização social, como também, embora não unânime, uma maior participação democrática entre outros fatores. A melhoria de oportunidade de trabalho mais qualificado para os jovens se situa entre as mais relevantes. No campo político, apesar dos trabalhos de Putnam (2008) não ter comprovado a relação entre maior escolaridade e melhor gestão democrática quando analisa as gestões dos municípios da Itália do norte e do sul, acredita-se que a melhoria da escolaridade possa gerar maior capacidade de reivindicar e influenciar construções de projetos e propostas de políticas públicas direcionadas ao desporto de natureza. No capítulo II, Dos Direitos Sociais da nossa Constituição no Art.6º, a educação aparece como um direito universal e básico. A Lei nº 8.069 de 13 de julho de 1990, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, a despeito das inúmeras críticas que sofre ao longo dos anos, vem tendo um papel fundamental no sentido de tentar salvaguardar os direitos a educação. No seu Art. 4º diz: 98 É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização,à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. Inclusive a garantia de prioridade garante a preferência na formulação e execução das políticas sociais públicas. Figura 7 - Escolinha Projeto Guajiru Fonte: SMNBS, 2011 Com relação aos esportistas masters, a maioria com mais de 15 anos de escolaridade e aos gestores, o gráfico mostra que 50% possuem nível superior completo. Em ambos os casos 20% possuem alguma pós-graduação. Isso mostra uma nova formação no perfil do esportista brasileiro, e vai de encontro a outras tendências esportivas como apontado na pesquisa de Moroni, Mendes e Bastos (2010) ao traçar o perfil dos gestores ligados a superliga do voleibol. Nesse trabalho os índices de escolaridade dos gestores esportivos se encontram em 87% para curso superior, 13% apenas Ensino Médio. Índices próximos também foram encontrados nos trabalhos de Anchieta (2010) sobre gestão desportiva no Amazonas. Nesta pesquisa de Esporte de Natureza, os dados apontam para 75% gestores com curso superior e alguma pós-graduação (18,75%). Uma das explicações possíveis para isto seria a exigência do próprio mercado, inclusive, internacional. Segundo o trabalho de Maroni et al (2010), a crescente evolução do Esporte em todas as suas manifestações requer a participação de pessoal competente para gerir as mais complexas situações sem perder tempo, dar respostas aos novos desafios, principalmente nos dias atuais, em que acontece vertiginosa transformação do setor esportivo. Outro dado interessante é que tanto os homens como as mulheres não apresentaram uma escolaridade equitativa. Com relação escolaridade e trabalho,somente duas mulheres colocaram “trabalhadora do lar” com forma de trabalho o que aponta para a inserção das mulheres esportistas no mercado de trabalho formal. Na pesquisa a maior parte dos aposentados são homens. O mercado informal foi representado por masters com idade superior a 40 anos tendo como atividades o comércio ou o treinamento, que às vezes, aparece como “bico”. As atividades de vendedor ambulante (1), serralheiros (2) e operador de caldeira (1) aparecem entre pessoas mais velhas e com formação até o ensino fundamental, como se pode ver no gráfico 4 abaixo: 99 Gráfico 4: Tipo de Trabalho de Esportistas Masters Fonte: SMNBS, Pesquisa de campo 2011 No gráfico 5 a seguir, pode-se observar a grande diversidade de empregos e que a grande maioria, seguindo a tradição da cidade de João Pessoa, trabalha no serviço público. Isso reforça os comentários sobre a falta de emprego no setor privado, principalmente entre os jovens, pouca participação da iniciativa privada nos esportes, mercado restrito e insipiente para patrocinar eventos ou participação de esportistas em campeonatos interestaduais ou internacionais. De modo geral, isto acaba sendo feito pelos próprios esportistas, parentes ou alguns poucos empresários. 100 Gráfico 5 - Profissões dos Esportistas Masters Fonte:SMNBS, Pesquisa de campo 2011 Santana (bombeiro), atleta de aquathlon comenta em sua entrevista: são Realmente precisa se investir mais, nós ainda estamos necessitando de apoio. Grande maioria dos atletas, não tem apoio, eles precisam muito dos empresários para investir neles. Eles sentem falta deste apoio porque a dificuldade é grande, principalmente em outras modalidades, porque as passagens caras. Nós da corporação ainda temos o apoio institucional. Figura 8 – Equipe do Corpo de Bombeiro Fonte: Santana 2011 Marina, atleta de triathlon, como pode ser observadana figura, afirma: Normalmente o patrocinador são os amigos que são atletas. Os patrocinadores, geralmente, é alguma pessoa envolvida, ou tem um filho que nada, ou um irmão, ou o próprio empresário que faz esporte. O auxílio é desse jeito que conseguimos. (Marina – campeã Pan-americana de triathlon 56 anos) Figura 9 – Marina Fonte: SMNBS 2011 O gráfico acima também indica o potencial que os esportes de natureza têm de agregar pessoas de todos os segmentos da sociedade independente de classe social. Isto 101 não significa uma expansão democrática do esporte para todas as outras atividades tais como as sociais e políticas. Esportes como a corrida e caminhada são mais democráticos porque dependem menos de tecnologias de ponta para sua prática. Com relação aos gestores, o que pode ser visto no gráfico 6 é que a diversidade de profissões também aparece. No entanto, realça de forma positiva o domínio dos profissionais de Educação Física em 37.5%. Gráfico 6- Profissões dos Gestores Fonte:SMNBS pesquisa de campo 2011 Este resultado se assemelha ao encontrado nos estudos de Anchieta (2010) sobre gestão esportiva no Amazonas cujo resultado ficou em torno de 28% e a de Maroni (2010) sobre a gestão esportiva nas ligas de volibol que ficou em de 54.5%. Em ambos os trabalhos e nesta pesquisa os dados não relacionaram tipo de profissão a qualidade da gestão. Um fator que deve ser levado em conta é que a maioria dos gestores entrevistados e que responderam aos questionários são ou foram esportistas, o que demonstra forte vínculo afetivo com o esporte que gerencia. 102 5.3. FAIXAS ETÁRIAS Nos esportes, do ponto de vista biológico, a idade cronológica pouco indica sobre as condições físicas dos esportistas.No entanto, ela é referência para ajudar a conhecer um pouco mais sobre quem são os praticantes de esporte de natureza e como se dá a inserção, no aspecto quantitativo dos jovens, adultos e idosos na prática dos mesmos. Muitas vezes, estes dados ajudam a estabelecer políticas mais equitativas na distribuição de vagas em programas esportivos e prioridades nas atenções aos diversos segmentos da população. A idade cronológica é universalmente aceita para as organizações de competições esportivas e principalmente no balizamento das categorias, infantis, junior, sênior, adulto e master. O fator cronológico, também, vai influenciar nas instalações de equipamentos esportivos, como se pode observar nos programas em várias cidades de revitalização de praças, diversos aparelhos de ginásticas exclusivos para idosos. Em outras mais para jovens e outras mais para crianças. Outro fator é a segurança. Por exemplo, para um idoso, o piso da orla de Cabo Branco por ser escorregadio, logo torna-se muito mais arriscado correr nele. No gráfico 7, abaixo, pode-se ver que a maior concentração de esportistas está entre 33 e 49 anos e dos gestores a oscilação é maior, entre os 33 a 59 anos. Apenas um esportista se encontrou na faixa etária entre 10 - 12 anos e dois acima dos 70 anos, por isto não aparecem tão claramente na amostra. Em relação aos gestores estes dados se assemelham aos da pesquisa de Maroni (2010) cuja maioria dos gestores tem idade entre 30 e 59 anos, enquanto Anchieta e Sarmento (2009) encontraram uma média entre 34 e 52 anos. 103 Gráfico 7 – Distribuição da FAIXA ETÁRIA Fonte: SMNBS pesquisa de campo 2011 Biologicamente o amadurecimento dos homens se dá mais tardiamente que o das mulheres, que cada vez mais vem entrando no período de menarca precocemente. Isto ocorre por inúmeros fatores, desde as tendências genéticas até os aspectos culturais tendo como influência maior o tipo de alimentação. Não é à toa que a segurança alimentar entra no “menu” da sustentabilidade. Nos esportes, atualmente, com os avanços dos novos conhecimentos, inclusive nutricionais e tecnologias aplicadas aos treinamentos, os esportistas conseguem se manter no ápice de seu rendimento por um tempo maior e em uma faixa etária mais avançada. Atividades como corridas de rua de longa distância, triathlon, aquathlon, ciclismo, natação em águas abertas de longa distância ou trilhas possuem maior exigência da capacidade aeróbica do que a anaeróbica e força muscular24e isto favorece a participação dos mais velhos nas praticas esportivas. A faixa etária quando cruzada com a escolaridade mostra que, na maioria dos casos, há a possibilidade de os esportistas e os gestores transformarem as informações em conhecimento, e em uma maior compreensão dos fenômenos. Isto permite a reflexão, discussão e debates sobre os problemas infra-estruturais encontrados. 24 Capacidade aeróbica – consumo de oxigênio produzido durante a atividade física. As atividades como corridas de longa distância, natação e ciclismo de longa duração aumentam a capacidade cardiorrespiratória como um todo. Capacidade anaeróbica voltada para atividades de curta duração e maior esforço com maior débito de oxigênio 104 Estamos no período da informação, quem melhor informa a situação real das matas urbanas que aqueles que diariamente a utilizam? Quem melhor pode falar sobre alguns aspectos indicativos da água do mar do que aquele que, ali cotidianamente nada, pesca ou freqüenta? Quem melhor pode falar da segurança da rua do que aqueles que a usam? O mesmo para o controle de trânsito, para as praias, para os parques, para as calçadas etc. São os esportistas de natureza que muitas vezes passam informações aos gestores públicos. Seja por reclamação direta, via meios de comunicação, seja por meio das associações ou mesmo pela experiência vivida pelo próprio gestor como esportista. A produção de conhecimento quando politizada gera atitudes que, ao longo do tempo, traduzem-se em novos hábitos e transformação cultural mesmo que em um tempo muito lento. No campo econômico, de modo geral, é entre a faixa etária de 24 a 49 anos, predominante no gráfico7, que a classe média, tem maior estabilidade financeira e de trabalho em termos de economia, equivale a englobar uma fatia privilegiada ao consumo esportivo e criar novos tipos de consumo alimentar, de roupas, de materiais, de estilo de vida, incluindo o turismo esportivo. Segundo Santos (2008, p.143), as cidades de porte médio como João Pessoa (700.000 hab.), tendem a acolher mais contingentes de classe média, um número crescente de letrados, indispensáveis a uma produção material, industrial e agrícola que se intelectualiza No campo das relações o convívio entre os jovens e adultos possibilita se moldar novas lideranças que passam a buscar formas de harmonizar o grupo e fazer o mesmo ser ouvido numa esfera mais representativa. . Alguns outros fatores fazem com que os esportes de natureza atinjam um público mais adulto como: o risco da aventura, queenvolve o próprio conceito de esporte de natureza. O esportista de natureza acaba por assumir a responsabilidade pela sua prática de nadar em águas abertas, pedalar em trilhas e outras principalmente quando não existe uma política de segurança. As tecnologias, embora exerça fascínio sobre os jovens, muitas vezes, ainda representam altos custos para os mesmos. 105 5.4. PERCEPÇÃO DE SI DOS ESPORTISTAS, VALORES E SAÚDE Por que considero, que o esporte de natureza contribui para a melhoria da saúde? Os gráficos 8 e 9 respondem sobre a visão que os esportistas têm de si mesmo. Como foi dito antes, este item foi analisado em gráficos separados devido aos diferentes contextos que o jovem adolescente vive em relação ao adulto. Outro ponto a considerar é em relação à amostra. Apesar de a amostra ser de 22 esportistas e 122 esportistas masters, a pergunta permitia que eles dessem mais de uma resposta, e por isto há um aumento aparente no número final da amostra. Como o que interessava era obter o máximo de respostas, em relação à percepção do esportista sobre si mesmo, ou seja, dado subjetivo e qualitativo, não pareceu, neste caso, relevante a quantificação dos dados em si. Gráfico 8 - O espelho dos esportistas Fonte: SMNBS pesquisa de campo 2011 O gráfico 8 mostra que o esporte de natureza, ao envolver risco, acaba por leválo a ter que confiar não só em si mesmo como nos companheiros. A percepção relacionada à confiança tem um papel central na análise do processo de organização social no associativismo e está vinculado a outros valores como solidariedade, cuidar de si e dos outros, cooperativismo e por isto será mais detalhado posteriormente. Se 106 somarmos os aspectos sociáveis com os solidários e cooperativos podemos reparar que eles se sobrepõem ao competitivo. A disciplina aparece como um fator importante na prática do esporte de natureza devido à necessidade permanente de se prevenir acidentes e cuidar da segurança incluem-se nesta, o cuidado com equipamentos - como os das bicicletas e seus diversos acessórios - e o cuidado com o corpo - contra a ação do sol e os riscos de lesões. Gráfico 9 - O Espelho dos esportistas masters Fonte:SMNBS pesquisa de campo 2011 No gráfico 9, pode-se observar que as percepções dos masters não são tão diferentes dos esportistas. Em ambos, o primeiro aspecto a considerar é que há uma nítida relação entre prática do esporte de natureza e satisfação pessoal. Isto sem dúvida está associado a vários benefícios para a saúde. Nesta pesquisa a saúde está sendo compreendida na perspectiva de Gentile: Saúde como a magnitude em que um indivíduo ou grupo podem, por um lado, realizar suas aspirações e satisfazer suas necessidades e, por outro, mudar seu entorno ou enfrentá-lo. Percebe-se neste conceito a preocupação em resgatar a dimensão e articular as dimensões sociais, pessoais e físicas.(MS,2010) Neste sentido, melhoria nas suas aptidões para resolução de problemas e saber lidar com os imprevistos do próprio esporte, como mudança de tempo, de ventos, de correntes, de estradas, de trilhas se tornam uma aprendizagem corriqueira e que exige ao 107 lado da aprendizagem: calma, paciência e perseverança, além das trocas de opiniões no grupo e saber lidar, sobretudo, com os limites. Isto acaba por desenvolver comportamentos característicos - solidariedade e cooperativismo - como será visto no capítulo 6. Não basta viver mais, é preciso viver mais e melhor. A visão positiva que os esportistas passam a ter sobre si mesmo, como confiança, calma e melhor auto-estima favorecem suas condições biológicas. Para Mc Ardle et al. apud Doimo (2004, p.257) : A vida sedentária produz perdas na capacidade funcional pelo menos tão significativa quanto os efeitos do envelhecimento. Uma pessoa ativa, dependendo de sua aptidão física e de seu estado de saúde, poderá alcançar 20 anos de diferença entre a idade cronológica e a idade biológica. Outros autores também apontam a relação entre atividade física regular e qualidade de vida. A prática esportiva regular foi neste trabalho caracterizada por prática de atividade pelo menos duas vezes por semana. Os dados obtidos apontam para o predomínio dos masters em três vezes por semana (36,06%) e mais de 8 anos (44,26%) de treinamento e para os esportistas em quatro vezes por semana (40.9%) com mais de 6 anos de treinamento (36.6%). A maioria dos master considera esta quantidade satisfatória em função de seu tempo disponível. Gonçalves e Vilarta (2004, p.257), dizem: A aptidão física é um atributo individual, associado ao estado de vigor e disposição para a realização das tarefas diárias, ocupação de horas de lazer bem como promove benefícios adicionais na prevenção de doenças, destacando-se o diabetes, a hipertensão e as doenças cardiovasculares. Os esportes de natureza não se caracterizam pelo alto rendimento e muito menos por suas vantagens biológicas, mais de acordo com a definição dada por Melo (cap.3), por estar associado à natureza, aventura, risco, a sociabilidade e ao cuidado ambiental. Um exemplo seriam as caminhadas em trilhas. Transcrevo a fala do técnico e gestor de voleibol de areia, na praia de Cabo Branco, idade entre 33 a 40 anos, quando da aplicação do questionário: “Se você está interessada em saúde, o esporte de alto rendimento não representa isto.” Afirmei que isto já era sabido e que não era este o aspecto investigado na pesquisa. Apesar dos belos corpos, ditos “sarados” apresentados na mídia, o esporte de alto rendimento, esconde severas seqüelas, ocasionadas por excesso e inúmeras repetições dos mesmos movimentos, particularmente em modalidades como ginástica 108 artística. Já existe um número bastante considerável de estudos, há pelo menos 20 anos, alguns do laboratório CELAFISC de São Caetano do Sul, mostrando que em qualquer idade a sobrecarga pode acarretar a perda de saúde e muitas vezes óbito. Araújo (2002) alerta, principalmente, a população mais velha, que por terem iniciado as atividades tardiamente e não possuírem regularidade termina se esforçando demais. Contudo o risco relativo era substancialmente aumentado para exercícios vigorosos, especialmente naqueles que não estavam habituados a fazê-lo ou o faziam de forma esporádica, como por exemplo, apenas no final de semana.Relatos esporádicos de vários eventos fatais associados a competições de atletas master parecem indicar que a incidência de morte súbita é muito maior do que aquela que ser ia esperada. Apenas do nosso conhecimento e somente nas competições de natação master no Brasil, tivemos pelo menos cinco óbitos nos últimos três anos.(ARAÚJO, 2002,p.3) Por que estes dados são importantes para a pesquisa? Porque para se pensar em políticas públicas voltadas para saúde e para o esporte de alto rendimento é preciso saber o que significa investir no esporte de alto rendimento e o que significa investir nas escolinhas, nas atividades físicas regulares monitoradas. No conceito de qualidade de vida, já abordado no capítulo 3, Almeida e Gutierrez (2009, p. 3-4) mostram em sua pesquisa que ele é polissêmico e possui duas esferas. Uma subjetiva, relacionada ao estilo de vida, compreendido enquanto a forma pela qual uma pessoa, ou grupo de pessoas usufrui dos aspectos materiais, sociais e culturais. E outra, objetiva com base nas condições e modo de vida, no sentido de políticas governamentais relacionadas à saúde. Estes autores fazem críticas aos programas esportivos federais de 2003-2006 como “Mexa-se”, “Segundo Tempo”, “Esporte e Lazer na cidade” e à Política Nacional contra a diabetes por proporem ações particularizadas sem proporcionar uma articulação entre os diversos setores sociais e administrativos. Outros componentes que aparecem na percepção dos esportistas relacionados à saúde são a alegria e a auto-estima. Eles estão cotidianamente associados à qualidade de vida. Corroborando com os dados da pesquisa, estão os estudos de Pasetti et Al. (2006, p.6) que mostram uma evolução favorável de dados emocionais como humor, auto-estima e imagem corporal, principalmente por alteração da composição corporal, em atividades aquáticas, hidroginástica e exposição à água. Nos esportes de natureza, o contato com o meio ambiente e sua beleza provoca uma sensação de rompimento com o cotidiano e local de trabalho, geralmente rígido, 109 isto produz uma espécie de catarse, que se expressa por uma alegria espontânea como analisado por Bruhns (2003). A senhora Rita, gerente da ONG Guajiru, em entrevista pontuou: “Mens sana in corpore sano” Se a gente não se mexer, a gente não consegue nem pensar. Então, acho que a prática de esporte é fundamental pra gente ficar bem. Até pro humor da gente, da gente ficar produzindo, pra trabalhar, pra o que a gente fizer. Ajuda no desempenho de outras práticas. (RITA, 2011) Figura 10 – Guilherme Reis (Guiga) Gestor de kitesurf com seu material de trabalho Fonte: Kitesurfeschool 2010 Do ponto de vista biológico, estudos fisiológicos mostram que durante a atividade física, há liberação de substâncias hormonais como a serotonina, dopamina e a betaendomorfina que produzem sensação de prazer, alegria e bem-estar, o que auxilia no combate a depressão e ajuda a fortalecer o sistema imunológico, além de reduzir a tensão muscular por diminuir a ação do cortisol. Outros aspectos a considerar: alivia a ansiedade e a agitação; aumenta a temperatura corporal e promove sensação de relaxamento, proporciona sensação de calma, um dos itens mais valorizados entre os esportistas em geral. Por outro lado, a prática cotidiana de atividades ou treinamentos condiciona o organismo e pode produzir comportamentos viciantes, que na falta da atividade gera sensações de crise de abstinência, irritabilidade, mau-humor, sensação de aumento de peso, dor de barriga, inquietude. Isto pode explicar a sensação de mauhumor assinalada por alguns esportistas. No questionário, havia um item de saúde em relação à vida sexual. Este item se justifica já que tanto para os homens quanto para as mulheres é um dos aspectos que 110 permeia não só a relação de gênero como também a saúde e estrutura familiar e, portanto, valorização de si mesmo e confiança. Veja os dados obtidos no gráfico 10 e o comentário de dois esportistas. Gráfico 10 - Vida Sexual e Esporte Fonte: SMNBS pesquisa de campo 2011 Comentários de dois esportistas Mulher, idade entre 33 e 40 anos: “é indiferente a questão já que pratica esporte desde criança, muito antes de ter vida sexual. (triathlon) Homem, idade entre 24 e 32 anos: “...que aumentou na medida do possível (sem ixageiro)⃰ e deu mais confiança Tamayo et Al. (2001, p. 3) mostra a correlação entre vida sexual e autoconfiança. Autoconfiança é uma exigência básica para a ação, para o exercício da atividade profissional, para o sucesso, para construir uma ponte entre a família e a sociedade. No contexto cultural da amostra estudada nesta pesquisa, possivelmente estas eram funções mais características do homem do que da mulher... Para Brennon apud Cardoso et Al.(2009) a questão da sexualidade e também da vida sexual apresentam distintas experiências no processo de assimilação dos papéis de gênero indicados culturalmente para cada sexo, o que inclui a forma de se vivenciar a vida sexual. Para o pesquisador, o gênero constitui-se na identidade do corpo, referindo⃰ foi mantida a grafia do entrevistado 111 se às origens eminentemente sociais, assim como o conceito de atleta, o resultado esportivo e a ciência. Já a fisiologia e a biomecânica humana são aspectos biológicos. Contudo, como lembra Gentile apud Castro et Al.(2010,p.3), na proposta do canadense Marc Lalonde, a saúde é um campo no qual se insere e interação entre biologia humana, meio ambiente, estilo de vida e organização da atenção à saúde. Isto remete a uma construção social e histórica do conceito que engloba uma ideologia de mercado e de valores, logo está associada à questão do consumo. Fisiologicamente a prática da corrida melhora o desempenho sexual: A prática da corrida, aumentando a capacidade funcional, pode fazer com que um ato sexual, com intensidade entre 4,5 e 5,0 METs, represente um menor percentual do "máximo" do indivíduo. Em outras palavras, o sujeito vai se cansar menos durante o ato sexual (idem, p. 3) Segundo o texto é comum a descrição de casais com mais de 50 anos e sedentários que interrompem a caminhada rumo ao orgasmo por cansaço. Além disso, o cansaço pode, no homem, desinflar a ereção. No entanto, há variadas formas de se conseguir melhorar o condicionamento físico que não seja a prática de esporte natureza, por exemplo, a ioga, taichi-chuan, academias de ginástica e musculação, entre outras. O que vai interferir é a freqüência e a regularidade da prática de exercícios. É bom lembrar os aspectos culturais que sustentam a discussão, principalmente a influência educacional no processo de se vivenciar a corporeidade e sexualidade. Um dado de pesquisa interessante é que muitos dos participantes do esporte de natureza começaram a praticar a atividade não só por vontade própria, mas seguindo recomendação médica (Padeiro, Selma, Nena, Meirelles e outros). No entanto, com o passar da prática muitos diminuíram o uso de medicamentos. Isto vem confirmar o que já foi dito acima sobre as mudanças fisiológicas que o organismo sofre, beneficiando, por exemplo, o controle de colesterol e a taxa de glicemia. No caso de saúde mental, cada vez mais, o ministério da saúde em parcerias com entidades públicas (universidades, prefeituras, hospitais) e privadas (planos de saúde, empresas) investe em programas de prevenção a doenças por meio das atividades físicas desportivas pelo seu caráter agregador e desestressante. No entanto, vale ressaltar que o esporte, como também o de natureza, não é apanágio, muito menos milagroso. Há riscos e isto envolve a consciência da fragilidade corporal. O item da autodisciplina passa a ser relevante não tanto pelo seu aspecto disciplinador do corpo para fins de eficiência e produtividade, 112 mas como forma de autoconhecimento, de vontade de manter-se saudável e de preservar a saúde. Outro aspecto relevante relacionado à saúde e à atividade esportiva diz respeito à motivação para sua prática. No gráfico 11 abaixo, pode-se observar as principais razões para se praticar a atividade de natureza. Gráfico 11-Motivação para a prática dos Esportes de Natureza Fonte: SMNBS pesquisa de campo 2011 A vontade própria entre os esportistas se confunde com o desejo de praticar atividade física. Este desejo quando alimentado por outros estímulos como companhia de amigos, melhorar a auto-estima, perder peso, passa a ser o primeiro passo para a efetivação da ação. Interessante que os fortes vínculos afetivos de amizade favorecem a prática do esporte de natureza, pois por motivo de segurança, na maioria das vezes, é praticado em grupo. Aristóteles na Ética a Nicômaco mostra o quanto à amizade é um elemento constante na prática de atividades que nos são agradáveis. Cada um passa o tempo na companhia dos outros atrás daquilo mesmo que para si é o que mais gostam de fazer na vida. Desejando, pois, viver, na companhia de amigos faz e partilha com eles aquilo que pensam constituir a base de seu viver em conjunto (...). A amizade existente entre os excelentes cresce concomitantemente aos laços que os une. (ARISTÓTELES, 2004, p.227) 113 Nenhum depoimento expressou tão bem a relação entre as práticas de atividade de esporte de natureza e a amizade quanto o esportista de MBK Macarrão, em entrevista como pode ser observado na figura 11: Figura 11 - Macarrão e o grupo de MBK Fonte: SMNBS 2011 Eu corro para fazer amizade, conhecer lugares diferentes e fazer novas amizades. Eu conheço muita gente, por exemplo, de Santa Cruz do Capibaribe, que é em Pernambuco. Na Paraíba, tem Campina Grande, tem Bananeiras, que eu conheço muita gente de La. Muitos colegas meus que correm em MBK. De vez em quando a gente vai pra lá e faz umas trilhas. (MACARRÃO, 2011) A influência dos amigos reforça a idéia do associacionismo por interesse, principalmente entre os esportistas, o que corrobora com trabalhos em psicologia mostrando que nesta idade a necessidade de pertencimento a um grupo influencia mais que a opinião dos pais. A heterogeneidade dos grupos esportivos de natureza educa para o convívio social. Daí porque a sociabilidade aparece como uma percepção. Quando indivíduos pertencem a grupos heterogêneos com diferentes tipos de objetivos e membros suas atitudes se tornam mais moderadas em virtude da interação grupal e das múltiplas pressões. Fazer partes destes grupos pode desenvolver a autodisciplina e o espírito de colaboração. (PUTNAM, 2006,p.104) Jackonia, 35 anos, atleta de ciclismo – vê figura 11- reconhece o fator competitivo entre os esportistas, mas diz: 114 Figura 12- Jackonia Fonte – SMNBS.2011. Eu sou muito conhecido. Na verdade, eu sou um ciclista conhecido demais, principalmente ali pelo lado de Mangabeira, Funcionário 2, onde tem atleta também. Temos atleta no Valentina de Figueiredo...Eu trabalho para mim, numa loja, e aonde a pessoa me vê e conversa comigo. Eu gosto de ajudar as pessoas ali com um corrente, um pneu, uma catraca, uma câmara de ar. Entendeu? Quem não tem, quem não tem condição de conduzir, comprar um produto,um objeto desse. Aí eu dou a ele... (JACKONIA, 2011) Outro fator que predispõe a prática de EN é a indicação médica Sua paixão inicial pelos esportes veio da sinuca, o qual se tornou profissional e do futebol. Hoje, por indicação médica, vai diariamente com sua esposa saindo demangabeira. Perdeu o pai cedo e teve o laudo de expondilite anquilsanter, um tipo de reumatismo crônico. Conseguiu com muito esforço se formar em contabilidade e segundo ele, já trabalhou no comércio (calças e sapatos), empresário e dentro da igreja evangélica. (SR..MEIRELLES, 2011) Interessante notar que a influência da mídia é muito pequena na escolha dos esportes o que pode indicar que há um caráter mais ideológico do que real a submissão do jovem a valores midiáticos quando existem outros canais de convívio. Todas estas questões explicam porque a Agenda do Movimento Olímpico citada nos capítulos I e III enfatiza como prioridade a formação dos grupos organizados, a ampliação do esporte para toda a comunidade principalmente as mais carentes. No gráfico 12 abaixo, pode-se ver como o cuidar de si passa a ser um valor que está relacionado com a mudança de hábitos alimentares, com a saúde e com a autoestima. Nesta pesquisa, no entanto, não foi aprofundado nenhum item sobre o que os pesquisados compreendiam como mudança de hábito alimentar. Alguns, por exemplo, conversando informalmente afirmaram deixar de fumar, comer irregularmente, diminuir o uso de açúcar e diminuição de bebidas alcoólicas. 115 Gráfico 12-Relação Corporeidade e Saúde Fonte: SMNBS pesquisa de campo 2011 Este quadro mostra o quanto o esportista por precisar estar bem para sua prática diária, passa a dar mais atenção para seu corpo. Há uma grande diferença entre cuidar do corpo e cultuar o corpo voltado para uma prática exclusivamente hedonista de culto a beleza e ao prazer. Sandra, 50 anos, que faz caminhada todos os dias, e sua amiga Selmi refletem bem esta mentalidade de cuidar de si relacionada à auto-estima, como pode ser observado na figura 13: 116 Figura 13 – Sandra e Selmi caminhantes Fonte: SMNBS 2011 Meu nome é Selmi, caminho há dez anos, porque tenho um problema seríssimo de insônia e foi só a caminhada que resolveu meu problema de insônia...por causa da circulação. Eu gosto mesmo de esporte. ...Eu tomava remédio para dormir, e depois eu passei uma épocasem tomar e comecei a caminhar, vi que tava dormindo e continuei. (SELMI, 2011) Para mim caminhada é tudo de bom. Além das taxas de sangue é uma terapia aqui. Tudo de bom, tudo de bom. Se você tem um problema de depressão, você vem, aqui é uma família. Selmi, eu conheci aqui. Estava andando a ladeira de Cabo Branco e como eu não subia, ela me convidou para subir junto. Fiquei amiga dela. Também conheci meu namorado aqui na caminhada. Sou apaixonada por ele e estamos juntos há treze anos. (SANDRA. 2011) No quadro VI abaixo, estão várias entrevistas com esportistas e gestores sobre a percepção deles em relação à saúde e ao esporte de natureza. Em todas as entrevistas estão presentes componentes que foram citados nos questionários, tais como sentir-se bem, mais calmo, confiante etc. Este bem-estar também está vinculado à prática ao ar livre, do ar puro que ainda se respira em João Pessoa, principalmente a beira-mar, onde se pode contemplar a beleza das praias e da cidade, como bem falou, um gestor sobre a beleza da cidade quando se pedala à noite e com os laços de afeto com relação à amizade e à solidariedade. A sensação de pertencimento ao grupo, a cidade. 117 Praticantes e Gestores de Esporte de natureza Paulo Percepção da relação Esporte de Natureza e Saúde Libera mais energia, fica mais “ manero”, abre a mente, trabalha melhor. Tudo é gratificante. Ando 6 km e a gente desopila na praia. Some tudo. Vejo a paisagem, a natureza, o coral maravilhoso. É muito gratificante. É bom para evitar o stress. Dr. Fernando O esporte ao ar livre é muito mais saudável. Tem contato com a natureza, com esse ar puro, com esse visual. O bem-estar é tremendo sem tomar remédio. A endomorfina é um anti-depressivo natural e isto se transmite para as outras atividades. Melhora a circulação, atividade cardíaca. Você leva mais alegria, mais disposição, mais sociabilidade, no meu caso a corrida. Alvimar O esporte dá autoconfiança, ele trabalha alguns atributos da área afetiva. Como eu posso falar? Coragem, determinação, melhora a condição física e a saúde no geral. Marina Mais tranqüila, mais paciente, calma. Dá disposição, corre atrás e tem mais garra pra tudo na vida. Na questão da saúde evita problemas de varizes, coluna principalmente na minha profissão. Aumenta a qualidade de vida e não tem preço, principalmente na velhice. Além disso, altera os hábitos alimentares, principalmente quando começa a perder peso. Em crianças a prática regular dos esportes, principalmente natação evita bronquite. Os sais minerais do mar ajudam na oleosidade da pele diferente do cloro de piscina. Sandra É uma terapia imensa. Eu não tenho nem palavras para dizer a importância do esporte em minha vida. O esporte me proporcionou tudo de bom. Ajuda a mudança nos hábitos alimentares. Eu adore comer e como por caminhar já emagreci, aprendo a me controlar e me alimentar de forma mais saudável. Luiz Antonio Melhora concentração. Ajuda a circulação já que como piloto fico muito tempo sentado. Refresca a mente. Deixa mais esperto. Após a atividade física há sempre um relaxamento e você fica mais calmo. Isso é muito bom para gente, para a vida, para o dia a dia. Marcos Alexandre Jackson Macarrão O esporte melhora minha atividade profissional. Eleva o astral. A canoagem pra saúde não tem outro remédio. É muito bom para saúde. É muito bom para circulação. O meu médico atual foi meu aluno de judô quando tinha oito anos e me aconselhou a não parar de praticar canoagem. Esporte e saúde combinam muito e eu como de tudo Não engorda muito. Minha alimentação é normal. Durmo bem. Me sinto calmo. Quando cotizamos preços quem pode dar mais dá mais, quem pode dar menos dá menos. Eu participo de evento para fazer amizade, conhecer lugares diferentes. No fundo somos todos amigos. Jackonia O esporte, o ciclismo faz bem. Quem tem problema de coração. Quem tem problema de rins. Porque você fica tomando bastante líquido. Você quando ta pedalando, o coração não fica do jeito que está quando ele está parado. Quando você está pedalando, ele fica acelerado. Fica bacana, eu acho bacana quem gosta de pedalar. Helena Primeiro, a saúde, o condicionamento físico. Se eu ficar sem pedalar, eu não consigo mais fazer nada. Eu gosto muito de pedalar. Saúde, NE? Quadro VI – Relação Esporte de Natureza e Saúde Fonte: SMNBS-Pesquisa de campo 2011 118 Neste sentido como bem falou Dr. Fernando o esporte de natureza se distancia em muito das práticas de esportes em ambientes fechados, pois, aproxima o homem da natureza e da sua cidade sob outro olhar e uma nova exigência. Tanto a corrida como a caminhada são excelentes para a saúde. A gente faz caminhada de dois dias. Em João Pessoa tem uma caminhada muito interessante que é por uma trilha que tem subindo de Lagoa Grande para a cidade de Areia, é muita mata, aumenta a sociabilidade, esse grupo vai, leva comida, leva lanche, bate papo, caminha duas a três horas. Tem um momento interessante, não só pra cabeça, mas pro corpo, pro físico. (DR. FERNANDO, 2011) O quadro VII abaixo agrupa de forma representativa em três blocos os resultados da percepção dos esportistas. O bloco da sociabilidade inclui os valores: cooperação, solidariedade, competição, respeito aos outros e extroversão. O bloco da organização incluiu os valores: disciplina, organização, autonomia, apto a situações complexas e exigente. O bloco da auto estima incluiu as percepções de confiança, elegância, satisfação, alegria e auto controle. SOCIABILIDADE Solidário Cooperativo Competitivo Respeito aos outros ORGANIZAÇÃO AUTO ESTIMA Disciplinado Confiante Sistemático Elegante Exigente Satisfeito Apto a resolver problemas Alegre Quadro VII-Valores presentes na sociabilidade, organização e auto-estima Fonte: SMNBS 2011 Pode-se tentar associar os valores disciplina, sistemático e exigente encontrados em maior número no bloco da organização com os valores presentes no modelo fordista de produtividade econômica. Este modelo valorizava a produção e eficiência. Este é um dos aspectos mais criticados da atividade esportiva, mesmo as de natureza. Obedecer à lógica do capital e à reprodução dos valores da modernidade como eficiência, eficácia, especificidade. Neste sentido, esportes mais plásticos como o triatlhon que permite variações múltiplas de movimento, vão representar um marco na 119 possibilidade de sair das especialidades para as generalidades, ou usando um termo atual, flexibilizar ao máximo suas potencialidades e rotinas. Outro aspecto é que por ser ao ar livre há variáveis incontroláveis que exige rápidas improvisações e mudanças de estratégias ou organização. Isto existe maior flexibilização. Por exemplo, no voleibol de praia as funções dos jogadores são bem diferentes das funções dos jogadores do voleibol de quadra. No entanto, cabe uma reflexão: Flexibilizar também não está inserido na lógica do capital atual? O que permite redimensionar a rigidez dos modelos é a capacidade de se perceber dentro dele, fazer a analise crítica adequada e fazer livremente escolhas ao se apropriar daquilo que lhe é dado a conhecer. 5.5. MERCADO E MEIO AMBIENTE “ainda não encontreia moeda de um lado só” (Paulo Moska) De olho no mercado e também na responsabilidade de dar minimamente uma resposta à sociedade com relação ao meio ambiente, os esportistas de natureza de Angra dos Reis, Rio de Janeiro foram chamados a participar de “uma reunião para discutir detalhes da organização de um grande evento esportivo”. 120 “Representantes da prefeitura e das empresas Verde Claro e H. Melillo se reuniram hoje, na sede daTurisAngra, para discutir detalhes sobre a organização de um grande evento esportivo que deverá acontecer em setembro deste ano em Angra dos Reis. O "Esporte pela Natureza" é um evento com um perfil inovador no país, que envolve modalidades esportivas e ecologia, com o propósito de, através do esporte, estimular práticas de preservação ambiental e conscientizar sobre a importância da sustentabilidade. Serão oito modalidades esportivas, disputadas na terra, no ar e no mar. O objetivo da organização é associar a cada uma delas temas relacionados à preservação ambiental. O rally de velocidade para veleiros terá como tema a economia de energia; o rally de lancha chamará a atenção para a poluição da água; a prova de caça ao lixo com escunas, para a poluição dos mares; a canoagem, para a preservação das nascentes; a corrida, para a preservação das matas; o futebol, para a preservação e limpeza das praias; o voo livre, para o aquecimento global; e o paraquedismo, para a poluição do ar. Além das provas esportivas, também serão realizadas palestras com temas pautados na sustentabilidade e cidadania.”25 (diário do Valle) Alguns aspectos são interessantes quando se compara a proposta acima e a concepção desta pesquisa: o primeiro é o perfil das modalidades e dos praticantes. Aqui, em João Pessoa como lá em Angra, há o predomínio de uma determinada classe média alta na prática das modalidades, particularmente as que envolvem balonismo, escunas e a vela. No entanto, neste trabalho propõe-se que se invista nos esportes de natureza com um menor custo e com maior chance de participante social: corrida, natação em águas abertas, ciclismo, voleibol de areia, futebol de areia, entre outros. Segundo Sen (2000, p.152), a combinação dos mercados com o desenvolvimento das oportunidades sociais deve ser visto como parte de uma abordagem ampla e relacionada a liberdades de outros tipos (direitos democráticos, garantias de segurança, oportunidades de cooperação etc.) Outro fator a considerar é que o evento do Rio de Janeiro visa um público mais seleto, internacionalizado, um determinado tipo de mídia e a promoção do Rio como sede Olímpica. Aqui, o que se visa é associar a prática dos esportes de natureza a uma educação ambiental, a promoção da saúde e que estas passem a ser parte do cotidiano das pessoas em suas práticas esportivas. Percebe-se que ambos os lugares o esporte de aventura envolve mercado, está associado a determinado grupo de pessoas e a estrutura geográfica e social da cidade. As práticas podem se diferenciar pela forma como ocorre a apropriação pela população do direito ao esporte, em função da diferente realidade econômica, sem falar na diferente tradição cultural da população de Angra dos Reis, Rio de Janeiro comparada à tradição cultural da população de João Pessoa, Paraíba. Por isto, cabe a 25 Disponível em http://diariodovale.uol.com.br/noticias/0,37374.html#ixzz1QJubNO5w. Consultado em 24 de junho de 2011. 121 cada cidade e a cada secretaria de esporte a possibilidade de construir e respaldar seus programas dentro de sua realidade e não em modelos hegemônicos orientados pelo eixo de maior expressão esportiva, Rio de Janeiro –São Paulo - Minas Gerais. Para Caldeira (2008, p. 303):“as cidades modernas foram sempre marcadas por desigualdades sociais e segregação espacial, e seus espaços são apropriados de maneira bastante diferentes por diversos grupos, dependendo de sua posição social e poder”. O mercado e o capital funcionam sem ver rostos e a globalização se torna indiferente ao lugar. Sua sobrevivência está em se expandir continuamente. Neste sentido, o discurso da sustentabilidade sugere e permite que a construção histórica dos esportes nas cidades seja respeitada. O seu direcionamento mais adequado vai depender da pressão e da organização dos grupos desportivos, da consciência coletiva e da educação para o consumo, enfim, de valores, de escolhas e de oportunidades. De maneira inusitada, Santos (2008, p. 134) diz que: No desenvolvimento das formas de produção não-material; há não apenas um desenvolvimento das formas de produção material, mas também uma grande expansão das formas de produção não-material: da saúde, da educação, do lazer, da informação e até mesmo da esperança. São formas de consumo não material [...] Para ilustrar a complexa relação entre meio ambiente e interesses econômicos e de mercado, vale a pena transcrever um pouco da história contada por um gestor do surf sobre Intermares: A história é a seguinte: quando a gente vinha pro Mar do Macaco, que é o primeiro nome de Intermares....O primeiro nome de Intermares era Mar do macaco. Então, a gente vinha, quando arranjava uma carona, de carro, a gente vinha por dentro. Então, tudo isto aqui, do Manaíra. Que eu vinha do Manaíra. Comecei a vir de Tambaú, comecei a vir de Cabo Branco. Mas, depois quando comecei a vir de Manaíra, ainda tinha rios que desaguavam, aliás que deságuam na praia de Intermares. Quer dizer, na divisa entre Intermares e João Pessoa. Esse rio, ele vem por debaixo do shopping Manaíra, Bompreço, Carrefour...Passa por baixo, hoje, porque, na verdade, antes não tinha, era só vegetação. Isso aqui era uma mata de frutas nativas, manga, cajá, mangaba, araçá, entendeu? Essas frutas você não vê mais. Por que? Porque o poder começou a vender as terras que era de Deus. Homem vendeu pro homem e fica transformado nisso aí, nesses gaviões de concreto. O rio continua desaguando aqui no Intermares. Se você quiser, você faz uma imagem ali. De vez em quando, as pessoas que moram em cima desse rio, que ele enche, ele causa uma certa inundações nas casas, eles vem aqui na praia e abrem pro rio poder desaguar no mar. Issoé natural, um processo natural. Hoje, a gente tem que vir, tirar areia da frente do rio para ele poder desaguar no mar. Mas, antes, isso aqui não precisava. Eu vinha sempre pegar onda e a gente passava por dentro do rio, entendeu? Era isso mesmo, rio de verdade. Era água limpa, não tinha cheiro de esgoto. Então, o progresso veio chegando e poluindo os rios. 122 O que está posto por este gestor e esportista é a expansão imobiliária que começou em João Pessoa como citado no capítulo II, a partir de meados de oitenta e que continua, particularmente nos grandes empreendimentos de resorts em direção as praias do sul e na verticalização das moradias, além da expansão dos condomínios fechados, principalmente no Altiplano. Estes condomínios geram processos segregacionistas de convívio aumentando ainda mais desigualdades. A expansão do mercado também está registrada na fala do Dr. Fernando – corredor Figura 14 - Dr.Fernando esportista master do grupo Copas Fonte – SMNBS . Sem dúvida existe uma relação entre esporte e mercado. Quando comecei a correr em João Pessoa, eu tenho o pé um pouco avantajado, eu não encontrava tênis por aqui. Então, quando queria comprar um tênis, tinha uma pessoa que ia pro Rio, mandava comprar lá, senão para Recife. Em João Pessoa tinham pouquíssimas sapatarias que vendiam tênis. Hoje, você chega no shopping há quantidades imensas de lojas. A loja Centauro vem com roupa de fora. Tem a Thiago. Isso tudo, a atividade esportiva, gerou vinda de lojas para cá. As academias criaram suas próprias lojas para vender. Isso não existia em João Pessoa há 10 anos. Também a questão da qualidade. Os sapatos daqui não eram bons para corrida. Hoje, você encontra todos os tipos de modelos que foi lançado no exterior. Isso gera emprego e renda. (DR. FERNANDO, 2011) 5.6. TERRITÓRIO Um dos conceitos de Milton Santos (2008) é o de lugar como o local que permite a união dos homens pela cooperação na diferença. É o local que permite a união. 123 Define-se o lugar como a extensão do acontecer homogêneo ou do acontecer solidário e que se caracteriza por dois gêneros de constituição: uma é a própria configuração territorial, outra é a norma, a organização, os regimes de regulação[...].É pelo lugar que revemos o Mundo e ajustamos nossa interpretação, pois, nele, o recôndito, o permanente, o real triunfam, sobre o movimento, o passageiro, o imposto de fora. (SANTOS, 2008, p.33) Quando se analisa a fala de alguns ciclistas como Macarrão e Gleidson, percebese que ambos rompem com a perspectiva do esporte enquanto só competição, só mercado e participam da construção de um novo espaço que possibilita novas formas de participação. Eu faço MBK por diversão não por competição. Eu participo dos campeonatos mais dentro da Paraíba. Fora eu nunca corri, porque eu corro por lazer. Eu não corro pensando em ganhar dinheiro. Se vier um troféu, eu recebo com orgulho. Se não deixo para lá. Moro no Miramar, tem muito ciclista. Agora assim, que gosta de MBK e que pratica MBK sou eu mesmo lá no bairro. (MACARRÃO, 2011) É isso, ta faltando é mais condições. Trabalho o dia inteiro e pedalo a noite. As vezes compito com bicilcleta emprestada. Treino 15 dias com ela. É isso, falta é apoio mesmo. (GLEIDSON, 2011) O primeiro preza pela simples necessidade de viver bem e o segundo pelo desejo de ser atleta, mais que esportista. Duas valorações representam este tipo de relação: uma relacionada a filia, a amizade26 e a outra relacionada à solidariedade, recorrente em Sen (2002), Santos (2008) e no conceito de sustentabilidade. O que estabelece o que Santos (2008) chamou de brechas na racionalidade hegemônica do capital nas cidades. O que estes dois conceitos produzem dentro do espaço do esporte de natureza urbano? Analisando tanto os dados sobre os perfis profissionais como as localidades onde moram os esportistas, se aposta que a ampliação do uso dos espaços públicos democratiza seu uso. Por exemplo: uma determinada área do setor industrial abandonada passa a ser utilizada de forma ecológica e cuidadosa pelos MBK que ali estabelecem uma trilha. Isto traz impacto ambiental? Sim, porque todo envolvimento com o natural produz algum tipo de impacto. Por outro lado produz um cuidar solidário por todos aqueles que a usam. O lugar ganha novos significados, novo uso e nova paisagem. Além do mais este tipo de ação comunitária está dentro do previsto no projeto de lei que tramitava em 1999 na Câmara dos Deputados sobre política nacional de habitação social que tinha 26 Amizade no conceito aristotélico, diz respeito a participação social e política. Ver Ética a Nicômaco, livro X, autor: Antonio Caiero, editora Quetza, p.273. 124 como uma das suas diretrizes: “incentivo ao aproveitamento das áreas urbanas não utilizadas ou subutilizadas existentes na cidade, conforme disposição dos planos diretores municipais” (Júnior, 1999, p.105). Segundo, em cima dos traçados imaginários, mas pragmaticamente utilizado como zonas de status, os bairros deixam de existir e se estabelece um novo tecido territorial para o convívio esportivo. Mas que um bairro é o ponto do Badeco do surf, a loja de ciclismo do seu Pires, a ONG Guajiru. Saída dos passeios do grupo de ciclismo Raios de Sol, em frente ao Tererê. Pessoas e lugares se identificam. Por outro lado, é possível economicamente mostrar o quanto os bairros mais bem aparelhados são aqueles que representam o maior número de esportistas de natureza. E onde se encontram estes bairros? Mais próximos da orla urbana, e mais próximos dos eixos comerciais. Ao se analisar a participação dos esportistas por vizinhança de bairros (ver tabelas 1 e 2) e em seguida o número de habitantes nos bairros com maior número de esportistas em geral (tabela 3), os dados vão apontar para dois aspectos: o primeiro relacionado a pouca participação da população como um todo nos esportes, apenas 0,2%, principalmente nos zoneamentos III e IV (tabela 1). O segundo aspecto é a presença de esportistas de outros municípios como Santa Rita, Bayeux e Tibiri, principalmente, nas modalidades de ciclismo e corridas de rua. Isto pode sugerir à precariedade da estrutura esportiva nestas localidades, e reforça a concepção de rede e de território quando se pensa em esporte de natureza. Tabela 1 Zoneamento de esportistas de natureza por vizinhança de bairros- Zona I M E Zona II M Zona III M E Bessa 8 2 3 Expedicioná rio 1 0 Aeroclub e 2 0 Bairro dos Estados Mandaca ru 1 Tambauzinh o 0 1 Manaíra 13 2 Padre Zé 1 Miramar 1 0 Tambaú 5 1 J.13 de maio José Agripino 1 Torre 2 1 Total M – máster 28 5 33 Zona IV Cruz das Armas Oitizeir o M Zona V M E 0 Cast.Branc o 0 1 1 Bancário 8 0 Jaguari be Varjão 3 J.Universit ário Agua Fria 2 0 2 0 1 Zona VI Mang abeira M E 15 4 José Ameri co Geisel 2 0 2 0 Valent ina 6 0 Zona VII C.Bran co M E Zona VIII Baiea ux M E 10 1 2 0 Altipla no 4 1 Santa Rita 6 1 Portal do sol Seixas 4 0 Tibiri 0 0 3 0 Zona IX Interma res M E Cabedel o 3 1 3 4 3 9 9 E- esportista 4 2 6 5 5 12 1 13 20 4 24 17 2 19 8 1 9 Consulta: Prefeitura Municipal de João Pessoa, mapas: sistema de logradouros (2007) e mapa de ocupação do solo,(2006) – Sistema Geodésico Brasileiro. Adaptação SMNBS 2011 - Legenda zonas –bairros ; M – master e E- esportistas 6 5 11 125 A tabela 2, abaixo, diz respeito apenas aos zoneamentos com maior número de participante. Tabela 2 Bairros com maior número de esportistas de natureza Zoneamentos Zoneamento I Zoneamento VI Zoneamento VII Zoneamento V Bairros Aeroclube, Bessa, Manaíra, Tambaú Mangabeira, José Américo, Ernesto Geisel e Valentina Cabo Branco, Altiplano, Portal do Sol e Seixas Castelo Branco, Bancários, J Universitário e Água Fria Esportista Master Esportista Total 28 5 33 20 4 24 17 2 19 12 1 13 Fonte: SMNBS pesquisa de campo 2011 Mangabeira, quando se analisa os dados da tabela 1e 3, por ser o bairro mais populoso, apresenta proporcionalmente uma inserção quantitativa ainda pequena, mesmo que qualitativamente seus esportistas sejam destaques e tenham com seu bairro uma forte interação. A tabela 3 apresenta em ordem decrescente as perspectivas participações dos esportistas por zonas de proximidade. Os dados demográficos de 2007 do IBGE apontam o crescimento demográfico de João Pessoa, bem como o predomínio das mulheres atingindo 50.000 a mais que os homens. Isto é importante quando se pensa em políticas públicas esportivas e em geral, pois a inserção das mulheres no esporte é um dos eixos centrais da Agenda 21do Movimento Olímpico e da Política Nacional de Desporto, como já foi comentado anteriormente. 126 Tabela 3 – Percentual de participação dos esportistas por bairros Zoneamento Bairros (zona sul) I Zoneamento VII Zoneamento Cabo Branco 27 ISE 100,00 Altiplano (zona leste) (zona leste) 4877 5741 10618 1955 2283 4238 957 900 1857 Seixas 98,00 153 147 300 Aeroclube 2929 3822 6821 Bessa 4803 5525 10328 Manaíra 9181 11589 20770 3632 4872 8504 Bancário J. niversitário 100 4877 5741 10618 72,00 4924 5689 10613 87,00 7733 9476 17209 2641 2283 4924 35.026 39004 74030 José Américo 6335 6860 13195 ErnestoGeisel 6099 7293 113392 Valentina 10.568 Água Fria Mangabeira VI Total 33,67 Tambaú V Zoneamento Mulheres Portal do Sol Castelo Branco28 Zoneamento Homens 21,33 11998 22566 Total em percentagem esportistas praticantes de EN Percentual de participação de esportistas Nº esportistas 19 Total 17.209 0.11% Nº esportistas 33 Total: 45423 0.07% Nº esportistas 13 Total: 43364 0.03% Nºesportistas 24 Total:179.906 0.019% 0.22% Fonte: SMNBS pesquisa de campo e os dados obtidos do IBGE-João Pessoa 2007. No mapa 3 abaixo se percebe que as zonas citadas acima como a de maior número de participantes por habitantes são as zonas mais próximas da orla (faixa cor de rosa). Esta orla é habitada por moradores de classe média e média alta de João Pessoa. 27 ISE- Índice Sócio econômico citado no livro de Pizzol et AL, Dinâmica urbana-ambiental da cidade de JP, UFPB, 2006. 28 Castelo Branco e Seixas vêm diminuindo o número de habitantes ao longo dos últimos anos ⃰ os dados percetuais estão aproximados em duas casas decimais 127 Isto confirma que o esporte tende a acompanhar o desequilíbrio de renda e de inserção social. Mapa 3- Localização de maior concentração de Esportistas por habitantes Fonte:SEMAN/PMJP- Imagem de satélite Quickbird, 2008. Adaptado por SMNBS 2011 Dificilmente esta realidade se modifica se não houver direta ou indiretamente intervenção do Estado. Daí a importância das políticas públicas, incluso as desportivas e dentro destas, as políticas voltadas à natureza. Serve para o esporte, o mesmo questionamento feito por Santos (2008, p. 91): Quais são as possibilidades do Estado- como federação, como estado federado, como município-na condução dessas irracionalidades (aquilo que escapa ao controle do capital, do hegemônico e do perverso) buscando ver nelas uma razão a decodificar, estabelecendo instrumentos de intervenção e as regras de um planejamento eficaz e aceitável? Quais os perfis dos moradores destes bairros que representam as zonas de maior inserção nos esportes de natureza? O bairro de Manaíra ( zoneamento I) possui 95% da população alfabetizada, um rendimento mensal em torno de R$ 2700,00. O índice de longevidade é de 66 anos. O IDH é de 0,907. De acordo com Franch (2010), além de um bom prestígio social, possui estrutura econômica, social e de lazer, pois sua proximidade com o mar e sua “calçadinha” permite caminhada, além de possuir equipamentos de lazer público. O bairro do Bessa (zoneamento I) segue o mesmo padrão de Manaíra em seus índices, seu IDH é de 0,808. Possui nichos de população mais pobres como o Jardim 128 Gama, do mesmo modo como o Bairro São José está diretamente relacionado à Manaíra. Possui uma praça para a área de lazer localizada na Praça do Caju. O bairro dos Bancários (zoneamento V) apresenta maior heterogeneidade sócioeconômica, chegando também a atingir classes bem mais pobres como o Timbó com renda individual de R$250,00 e nível de escolaridade de no máximo dois anos e um alto índice de desemprego. A Praça da Paz dos Bancários é o local privilegiado para prática dos esportes. Esta praça possui um comitê gestor. O bairro de Mangabeira (zoneamento VI) surgiu como um conjunto habitacional a partir de 1983, antes era considerado zona rural, e teve um rápido crescimento populacional. Atualmente abriga um conjunto de sete setores habitacionais, (Mangabeira, I,II,III,IV,V,VI e VII). Hoje é o maior bairro de João Pessoa, com variado comércio. Franch (2010, p.68) reforça um aspecto notado nas conversas com os esportistas de Mangabeira durante a aplicação dos questionários, isto é, o orgulho de ali morar. Há uma identidade entre eles e o lugar; o que fica claro na forma de se organizar solidariamente como falou Gleidsone Sr. Pires (gestor). A Praça do Coqueiral é citada em pelo menos três conversas com os esportistas master do grupo do Sr.Meireles que frequentam a praia do Seixas. Fazem isso há muitos anos, o que demonstra fortes laços de amizade. Como a maioria é de Mangabeira, eles confirmam que nadar na praia do Seixas e fazer esporte neste local é bom, porque é perto e muito bonito. De acordo com Paulo, pode-se praticar longas caminhadas pela praia. Dois deles citaram as praças como exemplo de lugar propício para a atividade esportiva e falaram dos programas de ginástica que ali se desenvolvem. Leide, uma triatleta, posteriormente, confirmou as informações, pois ela é uma das professoras que ministra as aulas de ginástica. Em relação à qualidade de vida destes bairros, se levarmos em conta o parágrafo 53 da Agenda Habitat de 1996: “a adequada habitação significa: moradia sadia, segura, acessível no aspecto físico, dotada de infra-estrutura básica como suprimento de água, energia e saneamento, e com disponibilidade de uso de serviços públicos como de saúde, educação, transporte coletivo e coleta de lixo”. Pode-se dizer que a maioria destes bairros não possui partes destes serviços. Ou seja, a parte de infra-estrutura está aquém das necessidades da população e dos esportistas. Os bairros do Seixas e Portal do Sol (zoneamento VII), apesar de a população possuir um bom poder aquisitivo, apresentam “baixos índices de salubridade ambiental (ISA
Cidade sustentável, políticas públicas e esporte de natureza: um caminho a se trilhar.
RECENT ACTIVITIES
Autor
Documento similar
Tags
Sustentabilidade Políticas Públicas

Esporte De Natureza

Direito A Cidades

Sustainability

Public Politics

Sports Of Nature

Right To The Cities

Cidade sustentável, políticas públicas e esporte de natureza: um caminho a se trilhar.

Livre